Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00055

Full Text









POLITICAL


Circo ou paio


Cr$ 300,00


1. Quinzena de Junho de 1991


Ano IV


Dentro de 60 dias o governador Jader
Barbalho poder8 fazer as primeiras mo-
dificagdes na sua equipe, talvez comn al-
guma mudang~a no secretariado, mas visando prin-
cipalmente o segundo escalso. Este pode ser con-
siderado o principal resultado pritico da avaliagio
internal dos primeiros dois meses de governor, rea-
lizada no final do m~s passado. Ficou visivelmente
demonstrada a desigualdade da equipe e a incapa-
cidade de alguns gestores para apresentar um pla-
no de trabalho digno do nome.
Certos cargos foram preenchidos segundo
crit~rios politicos, sem a exigencia de qualifica~go
tdcnica. Raros dos que ascenderam g primeira li-
nha da administragiko p~blica estadual dessa ma-
neira mostraram condigbes de se manter em seus


cargos. Mas a capacidade tdcnica podera niio ser o
Gnico crit~rio para a mudanga: o governador de-
ver8 aproveitar para reformular certos compro-
missos eleitorais do passado emn fungho da estrat6-
gia eleitoral de future, que desembocar8 nas
eleig6es municipals do pr6ximo ano.
A principal batalha, evidentemente, sera tra-
vada em Bel~m. O terreno na capital para Jader
Barbalho 6 minado, mas ele conseguiu segundo a
pesquisa da Data Folha do final de abril melho-
rar sua situagio pessoal. E pouco provivel, entre-
tanto, que transfira essa conquista para o seu par-
tido, que nho disp~e de nomes para disputar em
igualdade de condig6es com os possiveis candida-
tos oposicionistas. Fontes muito pr6ximas ao go-
vernador examinam a conveni~ncia de atrair can-


or nal Pessoal
Licio Flivio Pirito


No 67






didatos de outros partidos para coligagbes explici-
tas ou apoios negociados nos bastidores, mesmo
n51o descartando certas hip6teses peemedebistas
consideradas remotas (uma delas, sempre na algi-
beira, o senador Coutinho Jorge, que se, aceitar
eventual sondagem, estar8 descartando a almejada
viagem at6 o governor .
Apesar da import~lncia political e eleitoral de
Bel~m, Jader Barbalho dificilmente se export a
um envolvimento direto ou amplo na eleigio de
1992 na capital, optando por uma participagio
maior no interior.'Mas hri uma possibilidade de ele
influir indiretamente na decision da dispute a ser
travada no principal col~gio eleitoral do Estado:
apagando a imagem do passado, associada a enri-
quecimento ilicito e dilapidagio do patrim~nio
p~blico. EvitarB, assim, que mais uma vez o palan-
qlue seja um local para lavar roupa suja, estando
ela suja de fato ou enodoada pelos inimigos. O go-
vernador e sua familia querem se poupar de mais
uma gincana de agress~es pessoais-
Para atingir esse objetivo, a equipe de Jader
Barbalho tem que trabalhar bem. Trabalhar bem,
em tal context, significa agir com lisura e eficien-
cia. Bons resultados dependerilo decisivamente da
qualidade da equipe; na m~dia, ela 6 regular on
sofrivel. Ainda nhio hA um plano de governor aca-
bado, mas se ele jB existisse virios stores nio
conseguiriam cumpri-lo por absolute incompetan-
cia. Esta 6 uma questio. Mas hB outra. Verifica-se
agora, com mais nitidez, a extensio dos compro-
missos que Jader Barbalho precisou assumir para
veneer uma eleig~io amplamente desfavor~vel.
A d~vida esta em saber se o pagamento desse d6-
bito politico e econbmico nio o impedir8 de fazer
um grande governor, o Anico mata-borr~io capaz de
apagar as manchas do passado.
O governador tem procurado demonstrar aos
interlocutores que esse comprometimento de
campanha 6 restrito. Em parte pode ser saldado
com obras de efetivo interesse p~blico, sem os
apensos qlue esticam valores e os fazem volatizar-
se em contabilidades paralelas, que s6 por aciden-
te chegam ao conhecimento p~blico. Em parte tais
compromissos sho atendidos sem macular o que 6
essencial na ag~o do governor. Dai o inchamento
da assessoria especial palaciana, na qual jA se
penduram 59 pessoas, poucas das quais prestando
servigos ao Estado ou fazendo jus ao sal~rio de
580 mil cruzeiros mensais.
Mesmo expondo-se is critics dos que nho
admitem quitagi~o de divida pessoal ou political
com dinheiro p~blico, o governador tem argumen-
tado que ao menos confina o raio de agSo dos be-
neficibrios dessa hipoteca ao circulo mais pr6ximo,
ao alcance de sua supervisio e, eventualmente, in-
terven~go, livrando as secretaries desses quistos.


Ngo 6 um raciocinio puro, nem pode ser aprendi-
do em manuals de gestho p~blica, mas teria sua
proced~ncia no par~metro da realidade paraense.
No entanto, esse tipo de argumentag~o indica
que, mais uma vez, Jader Barbalho poder8 repetir
um erro de sua primeira gest~io: acreditar que 6
capaz de controlar uma equipe tio vasta e desi-
gual recorrendo B sua inquestionivel mas limita-
da habilidade political. Um jornalista que fizer a
mais simples investigation sobre nepotismo, irregu-
laridades funcionais, desvios administrativos e ne-
gociaC6es em gestagio ficar8 preocupado com o
sucesso de um governor que precisa ser cristalina-
mente distinto de seu primeiro capitulo para ido
ser aquela enfadonha e degenerescente repetigilo
hist6rica denunciada por Hegel.
Ou o governador desconhece esses aspects
discrepantes da imagem que est8 se preocupando
em projetar da sua equipe (o que deve lev8-lo a
estimular a imprensa critical ou mant~m a mesma
tolergncia de sua primeira passage pelo Pal~cio
Lauro Sodr6. Vendo-se o drama do Angulo do go-
vernador, nio se pode minimizar o desafio que ele
precisar8 enfrentar: ao mesmo tempo conquistar
espago politico, a fim de evitar o sufocamento pe-
rigoso em que se viu at6 a eleigio do ano passado,
e ganhar a batalha da opinihio pdblica por meios
legitimos, sem ter que repetir a iniqua e onerosa
manipulagio feita pelo seu antecessor. Jader pre-
cisa ser bom politico (nho nos terms acadbmicos,
mas considerando a miser~vel realidade estadual)
e bom administrator, combina~go inusual na
provincia.
Ele pode simplesmente ser seduzido a acredi-
tar que o sucesso vird se repetir o que jB sabe fa-
zer. N~io lhe faltam certas virtudes, capazes de im-
pressionar pessoas e fazer correligion~rios. Mas a
situagio jB nho 6 exatamente a mesma de quatro
anos atr~s e a ret6rica jaderista produz menos re-
sultados do que antes. A reuniho do final de maio
na Sudam deixou claro que o governador do ParB
ainda 6 o Ifder regional, tanto pela grandeza in-
trinseca do Estado no conjunto amazbnico, quanto
pelas qualidades pessoais especificas de quem
exerce a chefia do governor. Apesar de evidence
distorgio no noticidrio da reunihio no mais influen-
te journal local, que suprimiu Jader atC do registro
fotogrifico, o governador venceu essa primeira ba-
talha de opiniko peblica.
No entanto, convenceu menos e estar8 em
condigiies ainda menos favor~veis na segunda ba-
talha, que vir8. Por algum motive, Jader mostrou
desinforma~go e desatualizagio sobre os temas
que tratou com a efici~ncia ret6rica. de sempre.
Alvejou o passado, provavelmente tentando acer-
tar o desafeto Henry Kayath, que colocara na Su-
dam (sem ter feito, at6 agora, o mea culpa peni-




















POLEMICA


mrremonra


tente requerido pela gravidade do mal praticado).
Mas nho tem um pensamento sobre a nova reali-
dade da political de incentives fiscais do governor
federal, nem sobre a conjuntura das relac;~es entire
os dois governor.

Se o que o governador est8 pretendendo 6
apenas colocar um nome de sua confianga na Su-
dam (mesmo que venha a ter outra desagradivel
surpresa, como em relaghio a Kayath), sua incon-
sist~ncia em matdria de incentives fiscais se expli-
ca. Mas se agora quer executar um plano mais
ambicioso e positive para s regiko, necessita ur-


gentemente se reciclar ou entho nho ir8, nova-
mente, al~m da retbrica. A lideranga que inega-
velmente possui, por ser o governador do ParB e
por ser Jader Barbalho, comegard a se desgastar,
como em desagregagio entrar8 o apoio ou o cr6di-
to de confianga de que ainda dispge. Jader poder8
escolher se quer bisar a primeira trajet6tia, encer-
rada comn a transmissio do cargo a um successor
que se voltou contra ele e que, por sua vez, repe-
tindo o modelo, acabou fragorosamente derrota-
do, ou se, desta vez, oferece horizontes novos, com
algo mais do que circo para uma plat~ia Avida de
pho.


A


O ministry Jarbas Passarinho reagiu a uma
resenha que fiz do seu livro de membrias, "Na
Planicie", com uma carta furiosa, em fevereiro.
Embora argumentando que sua resposta visava o
esclarecimento p-dblico, o ministry da Justiga pe-
diu que a carta nhio fosse publicada, o que lamen-
tei na pronta resposta que lhe enviei, exatamente
no dia em que. a carta me chegou, atrav~s do depu-
tado Ronaldo Passarinho. Agora public a corres-
pond~ncia, autorizado pelo ministry, com ligeiro
reparo feito por ele, certo de que poder8 contri-
buir para esclarecer a opiniho p~blica sobre


epis6dios recentes da vida political do Estado e
ainda mais convencido da justeza do que escrevi.
Desde minha andlise, a primeira sobre o inaugural
volume de mem6rias do senador, resenhas publi-
cadas na imprensa national reafirmaram v~rios
dos pontos destacados no meu artigo, insistindo
nas mesmas critics b~sicas que fiz bastaa ver os
artigos que sairam em "Veja" e "Isto 6')'.

Espero que a divulga~go da correspondencia
realize o que tem faltado no ParB: a polemica a
servigo da sociedade e com respeito m~tuo.


Brasilia, 18 de fevereiro de 1991.

Carol Ldcio Fla~vio

Esta 6 uma carta pessoal. Ngo visa a ser publicada em
seu journal, de modo algum. Trata-se, apenas, de comentbrios
de quem, comb eu, pensava ter em voc6 um critico aceita-
velmente isento. Digo aceitavelmente porque 6 evidence a
discordAncia de nossas crengas ideolbgicas, ou mesmo ape-
nas doutrindrias e political. E o que leio, de sua lavra, a res-
peito de meu livro de membrias political revela-me um L6-
cio Flaivio que eu n~o imaginava, publicando falsidades que
voce preferiu admitir como verdade, porque lhe vieram de
pessoas a quem voc4 consider honestas e eu tenho carradas
de razbes para nso crer nessa honestidade. Basta ver que
voce, nos tempos relatados no livro, devia ser uma crianga.
Logo, para fazer imprudentemente afirmativas que me atin-
gem, s6 pode hav4-las ouvido de outrem.
O seu julgamento, contido em conceito, esse, sim, the
pertence, e nada me cabe comentar a respeito: se sou vaido-


so, se sou incoerente ideologicamente, se sou melodram~ti-
co, se sou insincere, tudo isso 6 juizo de valor, e the 6 direito
t8-lo. O que nao 6 seu direito 6 abrigar falsidade e per em
d~vida o que afirmei baseado em documentaglo por mim ci-
tada responsavelmente.
Comecemos pela sua tentative de invalidar referencia
documental, a que se refere g carta do Coronel Severiano da
Fonseca Hermes. Voc6 pae-na em di~vida, porque nio a
transcrevi na integra. Ora, exatamente o meu propc~sito foi
de fugir do que aconteceu com o livro do general Portella
que, tso pejado ficou de transcrigies; que se tornou pesado e
magante. Para pessoas como voce, que me acreditam capaz
de manipular documents, resta-me ter em meu arquivo to-
dos os documents citados. Eles ficam A sua disposigio, em-
bora ja eu esteja certo de que dlo the inspira a busca da ver-
dade hist6rica. Lastimo.
Quanto no invulgar prestigio que granjeei na Petro-
bras, procure o testemunho dos coevos e dso dos p6steros
encharcados das sete ligdes babsicas do P.C., de capacitagno
political. Negar que foi corajoso o prefa~cio que fiz para a en-
ciclop~dia do Pe. A~vita pf is nao ha necessidade de testemu-


de


Passarinho


A carta de Passarinho






nhos do memento, dado que vocal os viveu, ja como joyem
jornalista. Ou deixard de ser coragem editar o livro que fora
colocado no Index e, al~m disso, prefacid-lo? Desconhecer
isso, deixar de ver isso, 6 sintoma de catarata de convenien-
cla.
A troca de insultos com o Moraes Rego foi publicada
na Integra, por minha iniciativa, na Provincia do Pard. Voc6
que 6 jornalista detentor de Premio Esso, a encontrard at6
porque a pista esta. no livro. Ocorre que ele era influence se-
cretirio-assistente do Presidente da Repdblica, e eu um
simples tenente-coronel em licenga. Fiz questao de publicar,
nso apenas os telegramas, mas as cartas que escrevi para o
President e para o Gen. Costa e Silva, justamente para
desmoralizar a matedicencia que tentaram espalhar, como
sendo cartas contraditc~tias, que me desmoralizariam. Pelo
visto, voc6 est8 imbuldo dessa versAo canalha.
O pior, por~m, 6 quando voc4 se permit respaldar a
mentira 'a respeito da escolha do Irawaldir para vice-prefei-
to, imputando-me, a mim, a indicagao dele. A servigo de
Alacid voc4, pretendendo ser historiador indesmentivel,
afirma com a maior sem-ceriminia que "at6 receber o nome
escrito em um pedago de papel, Alacid ignorava seu vice".
Lcio Flavio, at6 onde voc4 se permitin ser porta-voz de cl-
nicos mentirosos! A escolha de Irawaldir me surpreendeu
totalmente, como relate no livro. NAo son mentirosol E
voce se permit divulgar como verdade o que mentirosos the
dizem. Igualmente voc4! divulga inverdade, quanto A candida-
tura do Alacid, atribuindo-me, com extrema leviandade que


por "via obliqua" eu tivesse feito chegar ao Presidente Cas-
telo o receio de derrota. Eis a primeira falsidade. Transcrevi
no livro, o radiograma do Presidente para mim, rubricado
pelo General Geisel, no qual ele se diz. informado desse re-
ceio. Coincidentemente, o Presidente me envion esse radio-
grama, por interm~dio do General Mamede, ent~o Coman-
dante do CMA, depois que o Moraes Rego estivera de pas-
sagem por Bel~m. Como relate no livro, fui incontinente ao
President, desfiz a dbvida e telegrafei para o Alacid pela
Western, estando comigo a cbpia desse telegrama, mandan-
do que ele se desincompatibilizasse. A segunda falsidade
esta em ter eu sugerido o nome de Otavio Mendonga em
substituiglo ao do Alacid. Inteiramente falsa a afirmatival JA
o nome do Senador Cattete, foi um dos quatro que sugeri,
para decisAo do Presidente. Somente um reles mentiroso es-
creveria o que escrevi, a respeito de minlias audi~ncias com
o President Castelo, e esse sbrdido mentiroso n~o son eu,
mas o que faz voce aceitar a versao dele. Ou delesl
Vejo, agora, como foi sabio de minha pate publicar
essas memdrias political. Pessoas como voce, que dispdem
de credibilidade, estivesse eu morto, fariam valer as menti-
ras, as falsidades e os julgamentos derivados dos recalques,
dos despeitos e da inveja.
Lastimo profundamente ter lido o que li, no seu jotrial
e de sua lavra. Pensei que voc4 jamais se permitiria, por fas
on por nefas, ser usado por individuos recalcados on por
aquele de quem um Presidente da Rep6blica disse publica-
mente, n~o ter honrado a farda que vesting.


recentes estavam suaves e amigas como nunca. B um prazer
conversar com o sr., apesar de todas as nossas diferengas.
Ngo pense que participei desses encontros com espirito ar-
mado ou falso sorriso. Justamente por suas qualidades, gosto
de enfrent8-lo na dial~tica da converse, principalmente
quando ela nAo corre o risco de resvalar para Indexes on ser
enquadrdvel em capitulagloes penais. Permita-me a ousadia
de dar a esses nossos encontros a classifiica~go de converses
entire intelectuais. Se o sr. n~o fosse um intellectual e dos
organicos, para usar uma expresso gramsciana jB n~o herd-
tica nestes nossos dias eu n~o estaria disposto a ir a esses
encontros e a enfrentar sua brilhante ret6rica.
Nos dois livros citados, e especificamente "Na Plani-
cie", por~m, some o intellectual e vem para a ribalta o politi-
co. Releve novamente minha petul~ncia, mas o primeiro vo-
lume de suas mem6rias 6 produto mediocre diante do que
autorizaria sua biografi~a e de seas pr6prias faculdades inte-
lectuals. A cart que o sr. escreveu 4 o bastante para mostrar
que o sr. passou a vbo de pdasaaro (sem associagbes ornitold-
gicas) sobre questbes que exigiriam maior atengeo, exata-
mente porque se trata de um livro utilitarista e alo a pres-
tag~o de contas de am militar, intellectual, politico e exiecuti-
vo do setor p6blico. Num pequeno artigo, que ngo saint no
journal por falta de espago, lhe recomendava que seguisse o
exemplo do nosso tao admirado Raymond Aron: o tijolago
com as memdrias 6 indigesto, mas a entrevista com jornalis-
tas do "Espectador Engajado" 6 um encanto e de manaor
utilidade pbblica, porque uma confisslo maito mais verds-
deira e pertinente.
Digamos que tudo at4 agora 6 juizo de valor. Mars
sempre os fats estarlo impregnados de subjetivi~dad, est-
gindo ponderafaO e discernimento em son trato. CoImo es
tamos escrevendo um para o outro, podemos de~izar de lad
o receitu~rio de cerimonial e os salamaleques do estilo a ir-


Carol Senador Passarinho, 20.2.91

Permita-lhe deixar de lado o titulo de ministry e trat8-
lo com aquele que o povo lhe conferia, pela mais democriti-
ca e insubstituivel das delegaFoes que 6 o voto.
Recebi hoje sua carta das mAos do Ronaldo, a li aten-
tamente e estou respondendo-a sem qualquer animosidade.
Um quarto de s~culo de jornalismo me deram, acho, to-
lerAncia e um pouco de capacidade para separar o joio do
trigo. Por isso, procure aproveitar as contribuigoes even-
tualmente positivas da sua carta. Lamento logo, entretanto,
que o sr. tenha preferido mant&-lo como assunto confiden-
cial, com o que nAo concordo, mas, por motives 6ticos e pelo
aprego que, de qualquer modo, lhe dedico, vejo-me obrigado
a aceitar e respeitar. A opiniso pbblica ganharia e muito -
se nossa polemica fosse alem dessa troca de correspondencia
intraumuros.
Conclul a leitura de "Na Planicie" com a mesma sen-
sa~go de insatisfa~go e desencanto que o "Pard" me deu. Fi-
quel com a fortissima impress~o de que o st. escreven mais
esse livro As pressas, desatento, dando-lhe o molde do ins-
trumento politico. Admire sua inteligencia, reconhego suas
virtudes, mas impressiona-me tamb~m sua vaidade gigantes-
ca, tao grande que As vezes apequena todas as indmeras vir-
tudes que o sr. tem e o fazem cometer erros, inclusive e
sobretudo na escolha de pessoas, na ma selegao de nomes e
na incapacidade de distinguir os bons amigos, os competen-
tes auxiliares, dos mais primbrios bajuladores e das mais des-
lavadas vocagoes para o desastre, como permita-me dois
exemplos apeqas, entire muitos possiveis Lamartine No-
gueira no Basa e Elias Sefer na Sudam.
Ao terminar de ler o primeiro volume das suas mem6-
rias, hesitel se deveria escrever o artigo que saiu no Jornal
Pesrsoal. Depois de tantas escaramugas, nossas relagaes mais


Minha resposta






mos a fundo e diretamente, sem suscetibilidade ou preocu-
pagoes com melindres, preocupados unicamente com a ver-
dade ou sua aproximacgao mais correta.
O rango que impregna o seu livro (e tamb~m a sua car-
ta) 6 essa mania de perseguigio, desenvolvida com hipertro-
fia simultaneamente a essa auto-estima exacerbada que faz
de Jarbas Passarinho o herdi imaculado de Jarbas Passari-
nho. Volto A mesma tecla de nossos confrontos anteriores:
nio busco destruf-lo, nunca procurei esse objetivo. O sr.
continue saud~vel (com o que me alegro) e forte (o que nem
sempre acho positive, pensando em como o intellectual ga-
nha quando o politico fica A dist~ncia do poder) e en perma-
nego onde sempre estive: exercendo o jornalismo com a fi-
ria de um servidor pbblico, de um auditor com delegapao -
informal, mas supinamente legitima da opiniso pilblica pa-
ra dissecar o poder e os poderosos. Men prop6sito nio o
de servir a seus inimigos, mas ao leitor do que escrevo. Ven-
do maquinagbes e conspiragoes por tris de cada iniciativa
que nso 6 do seu agrado, o sr. continuard, inventando fan-
tasmas sob sol a pinon. Talvez seja inidtil, mas insist em ga-
rantir-lhe que nlo agi como moleque de recados do Alacid
Nunes e de quem mais o sr. imagine que esteja por tras da
minha mdquina de escrever (sobre cujo vicio de perfurar a
letra "o" pego sua paciencia).
Antes de escrever, ouvi alguns dos personagens que o
sr. cita no livro. Entre eles, nAo estava o seu ex-amigo Ala-
cid. Ngo 6 por nada: 6 que ele nio fala, nio sei se por ini-
bigio ou atavismo (ou porque ainda n~o est8 na escala devi-
da de evolu~go, sei Id). O Alacid conseguiu vender como se
fosse a virtude da coragem o que nso passa de convenient
covardia e vai ficar assim, provavelmente, at6 o silencio
eterno e intranferivel. Eu teria todos os motives, se n~o fos-
se o que sou, para um acerto de contas com o Alacid em
funglo do episc~dio de Santar~m. Em seu entendimento
(sic), ele ainda est8 convencido de que os dias passarlio, mas
eu encontrarei minha vinganga. Por isso, me encara com
nervosa desconfianga e escapa Al minha aproximagso. Mas se
ngo entrei nessa histbria no memento certo, quando era se-
cretbrio de "A Provincia do Pardl" exatamente por ocasino
do tiroteio, agora 6 que vejo os fats da perspective da hist6-
ria. N~o tendo acesso a esse promontbrio, o Alacid vai sem-
pre guardar distllncia e manter cautela a men respeito.
De qualquer modo, nso pretend fantasiar o ex-gover-
nador de mocinho e o sr. de bandido no meu artigo. Mas o
desatio a apresentar outras provas documentais on evid~n-
cias 16gicas que confirmed suas afirmativas, negando as mni-
nhas, a respeito das candidaturas de Irawaldyr Rocha e Ala-
cid Nunes. O prdprio Irawaldyr diz que desconhecia Alacid
naquela 6poca e que o nome dele Irawaldyr fora indicado pe-
lo sr. Ha melhor fonte para o episbdio, excluido o sr. (nso
por nso aceit8-lo, mas porque precise de outra fonte para
checagem, procedimento mais do que trivial em jornalismo,
histdria, etc)?. Ha, ent~io, um conflito: o sr. diz que n~io indi-
cou o Irawaldyr, enquanto pr6prio diz que foi indicado pelo
sr. Espero que tergam armas intelectuais, 6 claro para po-
dermos continuar a narra~go dos fats histbricos.
Quanto A candidatura Alacid, o episbdio 6, no minimo,
controversy, com verses demais, para podermos aceitar que
seu depoimento esgota a verdade. A polemica entire o sr. e o
coronel Moraes Rego permanece irresolvida e tambem gos-
taria, neste caso, que ambos se submetessem a uma aca-
reagpo (jornalistica e nao policial) para que as verses se en-
riquecessem, auxiliando o restabelecimento da verdade (ou o
estabelecimento, para usar a expresso correta).
Na sofreguidao de me desautorizar, reduzindo-me a in-
termedibrio de caluniosos ocultos, o sr. diz que eu disse que


o sr. apontou o nome de Otdvio Mendonga. Permita-me ci-
tar o trecho do artigo: "S6 quando Castelo, inspirado por
Moraes Rego, sugeriu a alternative dos nomes do advogado
Ot~vio Mendonga e do senhor Catete Pinheiro..." (grifo
agora).
O coronel Moraes Rego acusou-o de ubiqilidade ao
mandar uma carta ao marechal Castelo e outra ao marechal
Costa e Silva, que estavam em campos opostos, do que de-
correu toda urpa complex interpretagio sobre o memento
de escrever uma e outra carta e sobre as tentativas posterio-
res de apagar o fogo que lavrava em um e outro campo.
Tambem sobre a sua audiencia com o entso president ha o
seu depoimento, que levo em consideragIo, e o do coronel
Moraes Rego, que evidentemente falou por Castelo Bran-
co.
Ha muito tempo venho pesquisando esse periodo, so-
bre o qual foram produzidos depoimentos e interpretage~es
incompletos, incorretos, equivocados on totalmente falsos.
A evidence que ougo depoimentos orais, mas o forte da do-
cumentago 6 material escrito. Eu n~o vivi esse period; era
crianga, como o sr. lembra na sua carta, tentando ser sard8-
nico. Mas nem meu bisav8 era nascido quando estourou a
Cabanagem e tamb~m pesquiso e escrevo sobre esse tema,
sem poder contar com testemunhos orais, naturalmente. Lo-
go, n~o afirme que en s6 poderia conhecer o que houve circa
1964 ouvindo depoimentos "de outrem". Ougo, 6 claro, mas
relativizo o que ougo pelo que posso documentary.
Desde ja, alids, agradego toda a documentagno que o
sr. quiser me enviar, inclusive a integra da correspond~ncia
com o coronel Moraes Rego, que imaginava publicada ape-
nas parcialmente. O general Portela produziu um calhamago
a Aron, sem a atenuagao estilistica do frances, por ter publi-
cado absolutamente tudo, sem criterio. Mesmo assim, aos
que sobreviverem ao cometimento do extinto general, res-
tar8 munigno suficiente para instaurar uma guerra intelec-
tual, volto a lembrar mais produtiva. Assim, reafirmo que
lamento nao ter o sr. publicado ao menos a integra dos do-
cumentos a que se referiu. Garanto que o seu livro nao vira-
ria calhamago.Ao contrario: deixaria de se parecer Aqueles
pastt~is que se vendia na porta do Col~gio do Carmo, de cas-
ca grossa, algum picadinho dentro e muito ar. Fragmenta-
vam-se ao serem mastigados e nao davam maior prazer gus-
tativo.
Senador: sou um voraz leitor de mem6rias. Tenho de-
zenas delas e, desde jB, o desatio a um duelo para ver quem
tem mais desses livros. Duas das melhores slo as de Casano-
va e Bertrand Russell, ambas escritas na velhice (lonjeva no
caso do inglQs), depois de uma vida intensissima. Nao apenas
acho que suas membtias foram divulgadas antes do tempo,
como produzidas sem a atenglo devida. Sua pr6pria carta
mostra que o sr., numa segunda edigAo, teria que reescrev4-
las, at6 mesmo para desenvolver alguns pontos que apare-
cem telegraficamente na carta mas estAo omitidos no liwro.
Mesmo com as: ressalvas, entretanto, acho que seu livro pode
ser positive on poderia, se no Parad ele nao fosse recebido
entire o elogio falso e o silencio conivente, ou merecesse
apenas outros vdos de phssaros no planalto national, como o
do Castelinho. A maior vantagem de ter publicado agora o
seu livro 6 que eu pude resenh8-lo comn o autor em vida. O
sr. deveria estar consciente de que eu n~o deixaria de anali-
sar o livro. E en sabia que o sr. reagiria. Minha surpresarfoi a
de ter imposto a classificago de confidencia a sua cart. Se
nossa polemica fosse pbblica, poderfamosl desfazer "as men-
tiras, as falsidades e os julgamentos derivados dos recalques,
dos despeitos e da inveja" que o sr. imagine destilados no
meu artigo. Estou disposto a enfrentg-lo em qualquer lugar






para sustentar que o que o sr. diz nio 6 correto e responder
integralmente pelo que escrevi, como sempre fiz antes e co-
mo espero fazer at6 o fim de minha vida. O patriminio mais
valioso que tenho 6 meu conceito, mas ele s6 6 valioso mes-
mo porque vem sendo continuamente testado ao long do
tempo. Se o sr. quiser test4-lo mais uma vez, estou inteira-
mente a disposigno.
Espanta-me que o sr., conhecendo-me como me co-
nhece, me atribua tanto primarismo, leviandade e irrespon-
sabilidade. Estou encaminhando-lhe c6pias do artigo que es-
crevi em "O Liberal" enl agosto de 1981, com algumas das
ideias que aparecem na resenha de seu livro, quase 10 anos
depois. Uma das principals 6 de que personagens como o sr.
tem uma grande responsabilidade na instabilidade political,
institutional e military que consumiu a democracia de 1946 e
nos jogou no regime de 1964. Mego essa responsabilidade
nso por nlimeros da economic, mas pela mentalidade auto-
ritbria, pela falta de zelo pela vida democratica, pelo ma-
quiavelismo dos fins a qualquer prego, pela tensao da busca
pelo pioder que minaram as bases de um projeto duradouro e
conseqiien~temente para o Brasil. O sr. fala mal do moralis-
mo pequeno burgues esquecendo que foi o combustivel de
uma tatica politica que, mesmo adotada por pessoas brilhan-
tes, fez um mal at6 hoje irrepar~vel a este pafs. Desde entio
d~o deixamos de cagar bruxas miticas e cliltivar monstros
reais. A responsabilidade de jogar os militares na voragem
politica, esta a minha geragao cobra da sua e 6 sobre esse
tema que o sr. deve responder de olhos voltados para a
histbria, no mais franco dos memorialismos que for possivel
praticar, se isso 6 factivel. Mas o sr. passou tao afoitamente
por esse periodo, atropelando periodizagdes, confundido
etapas, compactando extensees, que me julguei no dever e
no direito de deixar amizade de lado e nao pensar em cordia-
lidade ao escrever a resenha. Posso ter cometido erros, mas
o sr. precisa aponti-los com mais objetividade e consistencia
do que recorrendo a andtemas e acusagdes reducionistas,
como na sua carta. Vamos iluminar a arena na qual travare-
mos a boa guerra ao inv~s de cultivar sombras e silencios,
senador, se pensamos mesmo em servir ao nosso povo ed
nossa hist6ria.
Se pelo menos hB entire n6s esse ponto comum, talvez
possamos novamente sentar diante de uma mesa e conver-
sar, on at6 mesmo deblaterar (para usar expresso ao seu
agrado), sem precisarmos chamar o bispo ou o Tuma.
Atenciosamente, mas tambem civilizadamente, deixo-
the.
PS respostas a questbes mellores que o sr. suscitou na
sua carta poderio ser dadas no prbximo encontro ou
round.

Parcenia dif ical
"O Liberal" deu na primeira pigina a apro-
ximagio entire o PTB c o ex-governador H~ho
Gueiros, com direito a fotografia, mas as relagbes
entire o journal e o seu ex-articulista passam pelo
memento mais dificil nos illtimos anos. Os pro-
blemas comegaram quando Gueiros, uma semana
depois de deixar o governor, mandou um long ar-
tigo (provavelmente tentando ressuscitar sua co-
luna de pigina inteira, suspense quando brigou
com Romulo Maiorana), no qual se defendia ?
atacava o successor. O artigo, cheio de erros, for
transformado em entrevista por decisio da re-
dagio, sem consult ao autor.


Era um sinal de que a pigina nao voltaria.
Mas ainda assim Gueiros sustentou um fogo cru-
zado de notas sempre ao seu estilo: baseadas em
fontes aninimas na coluna "Repbrter 70" duran-
te alguns dias, at6 atacar o ministry Jarbas Passa-
rinho. A nota nho foi publicada e o ex-governador
suspended sua colaborag~o. Ao mesmo tempo,
comegaram a circular informagies sobre sua in-
tengd~o de montar um journal prbprio. O ex-superin-
tendente da Sudam, Henry Kayath, teria sido in-
cumbido de comprar miquinas, miss~io que o teria
levado a Rond~nia.
A carta que o ex-governador me~ escreveu fez
a familiar Maiorana concluir que Gueiros esteve
por trris dos ataques que sofreu do journal "DiBrio
do ParB", transformados em campanha a partir do
rompimento do entiio candidate a senador com
Romulo Maiorana. Essa associa~go realimentou
as suspeigbes mlituas, que sempre deram carter
de precaridade ao acordo entire os dois, uma das
principals bases de sustentagio de Gueiros no go-
verno e fonte: de apreci~vel faturamento por parte
da empresa junto a administrator estadual.
Apesar daa perspective de uma nova alianga
entire ambos dentro do PTB, hB um dado a ser
considerado no future dessa rela~go: o ex-gover-
nador nho confla nos Maiorana, e estes ndo tim
qualquer motive para confiar em H61io Gueiros.
Por isso, andam sobre ovos para evitar o rompi-
mento definitive.

Pflm91fa 8Vitoria
Ao senador Fernando Coutinho Jorge coube
relatar o processode renovag~io da R~dio Rau-
land, de Castanhal, pertencente ao Sistema Ro-
mulo Maiorana de Comunica~go, que expirou
depois de 10 anos de vig~ncia. A assessoria do
senador do PMDB fez um rigoroso rastreamento
atris de possiveis irregularidades na emissora,
mas, nada tendo encontrado, acabou dando pa-
recer favorivel g renova~go attitudee sistem~tica
no Senado, ali~s).
Para sorte dos dirigentes do SRM, que man-
tiveram um graduado funcion~rio acompanhando
a tramitagio do process, a renovagio foi apro-
vada antes que o senador Mansueto Lavor pedis-
se verificag~o de quorum, suspendendo a sessio
e 39 processes semelhantes que estavam na pau-
ta. Outras concessbes do grupo Liberal s6 v~io
expirar em datas mais longinquas, como a da.TV
Liberal, em 1996, quando Jader Barbalho ndo es-
tar8 mais no governor do Park.
Coutinho ter8 que esperar nova oportunida-
de para um acerto de contas. Desde quando foi
prefeito de Bel~m, ele tornou-se pessoa nada
grata ao grupo Liberal.






VIOLENCIA


A Amaz~nia, que s6 consegue participar resi-
dualmente nas contas brasileiras, alcanga seu
maior percentual de representatividade no parla-
mento: mais de 15% dos congressistas sho da re-
gikio, que contribui com 7% das exportagbes na-
cionais e 5% do PIB (Produto Interno Bruto). Ca-
da voto de um acreano vale mais de 20 de Sho
Paulo, segundo o crit~rio de proporcionalidade
adotado na C~mara Federal (nho extensive ao Se-
nado). Logo, a forga political amaz8nica, ao menos
em tradugho parlamentar, ultrapassa sua densida-
de demogrif~ica, social e econdmica.
Fazem os amazbnidas, entretanto, um uso tho
dispersive e antropof~gio dessa forga que ela 6
mais nominal do que real, nem chegando mesmo a
ser re't6rica por falta de algo como um discurso
comum nas diversas bancadas. Elas jamais conse-
guem se articular para agir como frente comum, A
semelhanga do que constantemente estio fazendo
os nordestinos, experts em corporativismo e lobby.
Politico amazbnico que vai g sede do poder 6, in-
variavelmente, flagrado com rol de nomes e bilhe-
tes a passar sub-repticiamente ao president ou
seu assessor mais pr6xrimo. No papel, o testemu-
nho de um fisiologismo que se compaz em nomear
parents, compadres e afilhados para lugaros que
podem render votos e cifrbes ao padrinho.
Sendo um trago da political national, o clien-
telismo mesmo que exagerado nho chega a des-
tacar a Amazania das demais regi~es. Um outro
trago jB parece definir-se para dar-lhe essa feigio
pr6pria: o da violencia, combinada com a asso-
ciaqio dos politicos ao mais rasteiro submundo. O
soco que o deputado Nobel Moura deu, na sema-
na retrasada, na conterrgnea Raquel Cgndido, se
ressuscitou fundados temores quanto a imagem de
degradagio do parlamento, projetada sobre a opi-
niho p~blica em mementos que antecedem derro-
cadas political, tamb~m difundiu nacionalmente o
baixo nfvel da political praticada na Amaz~nia, tal-
vez sem paralelo em outra parte do pais.
Nobre ouvia o discurso de Raquel a nho mais
de dois metros de distgncia. Parecia imperturb~vel
mesmo ao ser acusado como traficante de drogas
(juntamente com outros dois deputados rondo-
nienses, s6 um dos quais defendeu-se). Reagiu
quando Raquel chamou-o de explorador do le-
nocinio. Propriet~rio de motel em Porto Velho,
.para todos os efeitos legals o deputado de Rond8-
nia pratica o lenocinio. Neste caso, a acusagio dis-
pensa prova porque a ligagio do parlamentar ao


motel 6 p~ilblica, notdria e plenamente assumida
por ele. Quanto ao narcotr~fico, Nobre nio reco-
nhece a conexho e Raquel nho a provou, mas o
acusado ficou impassivel ao ouvir a inflamada acu-
sa~go da inimiga (correligionbria, no entanto, de
coligagio eleitoral).
Se o inqu~rito instaurado na CS~mara Federal
para esclarecer o triste incident e punir res-
ponsiveis for atris de provas sobre a participagio
do deputado no combrcio de drogas, Nobre po-
der8 ficar na estranha e c8moda situagio de ter
agredido a colega e permanecer inimputsivel. Ra-
quel, altm do hematoma e do susto que ganhou,
poder8 perder a mandate se nho apresentar pro-
vas contra Nobre, caso todos resvalem por sobre a
caracterizagio do lenocinio. Mesmo que a letra da
lei se escancare sobre a mente dos deputados, ca-
ber8 a Nobre o recurs que garante a impunidade
no Brasil: por que s6 ele a ser punido se hB tantos
dons de mot~is e, portanto, negociares do corpo
andando soltos ou empoleirados no top da socie-
dade e em algumas c~pulas oficiais?
Provas relacionando o deputado ao tr~fico de
drogas inexistem no memento, mas evidtncias in-
sofism~veis da ligagio do political ao narcotrsfico
hB em abundgncia em Rond~nia. O candidate que
seria eleito governador do Estado, no ano passa-
do, foi morto provavelmente nio por motives po~lf-
ticos, como alguns int~rpretes apressados divulga-
ram, mas porque nho houve acerto de contas nosr
bastidores, que costumam fornecer o dinheiro da
campanha, dinheiro que niio aparece na contabili-
dade, mas tem uma marca indel~vel: o sangue -
cobrado, ali~s, sempre com mais sangue. As inves
tigagoes, como costuma acontecer quando o alvo 6
o poderoso com6rcio de drogas, ficaram inconculu
sas. Nio responderam as d~vidas, mas,- juntame~nte
porque hB uma aceitaG~o t~cita das limitag~es B
investiga~go ("todos querem sobreviver", 6 a justi
ficativa mais comum), n~o eliminaram as sus
peigbes, que vgo do submundo do crime so mais
elevado nivel do poder, com ramificag~es tortuo-
sas, mas nitidas.
A violtncia, qune d6 B Amaz~nia seu maior in
dice percentual (dois tergos das mortes encomen-
dadas rio meio rural brasileiro ocorrem na regilo),
infiltra-se pelo parlamento, talvez um dos i61timos
redutos de resisttncia antes de ela se tornar t~io
generalizada que, como em certos males, quando~
irrompem epid~micos, jA n~o se sabe como come-
gou, qual o seu tamanho e se tem fim.


O rabo da serpente






segunda alternative, que, a esta altura da vida e da
carretra, seria a mais facil. Mas seria tamb~m a de
agrado dos que gostariam de se livrar do jornalimo
incbmodo que pratico, cuja relev~ncia pode ser
media pelo apoio de leitores aninimos e a reagio
irada dos poderosos. Fjazer jornalismo na Bel~m
do ParB dos nossos dias 6 uma grave aventura, mas
sem aventura nho ha jornalismo que valha a pena.
No n~mero zero e Gnico do "Bandeira 3"
prometi encerrar meus experiments em imprensa
alternative, mas verifico, outra vez, que para pro-
fissionais (e cidadios) como eu, nho existe alterna-
tiva. N~io sabemos ser jornalistas de outra maneira
senho publicando o que apuramos, escrevendo
exatamente o que pensamos e empenhados em
fazer chegar 9& opiniko p~blica o produto da nossa
investigation. Com a volta do Jornal Pessoal tento
nho sair da linha de frente, nem me permit baixar
as armas.
Recusando-me a aceitar o fim do compromis-
so entire a imprensa e o leitor, sem intermediaries
e matizagijes, entretanto, de aprender as sofridas
ligiies do passado. Este niunero do Jornal Pessoal,
e os que eventualmente o seguirem, at6 que uma
nova ligio ilumine outros caminhos, irio para as
bancas, expostos a todos os riscos. Nio haverA as-
sinaturas para Bel~m. Assim, nenhum leitor terA
prejuizos se mais esta experiencia nio prosperar.
Apenas leitores de outras cidades que, esponta-
neamente, pedirem a remessa do journal, plena-
mente conscientes do carter de aventura deste
empreendimento, terho assinaturas. Seria bom pa-
ra o journal que seus leitores da cidade remetessem
para parents, amigos e conhecidos exemplares do
JP, se solicitados.
Mais uma vez, a continuidade da publicag~o
depended8 tanto de seu redator solithrio quanto
dos leitores e, desta vez, com peso ainda maior
deles. N~o basta procurar quinzenalmente e com-
prar o exemplar na banca: 6 precise difundi-lo, di-
vulg8-lo, faz6-lo circular, presente8-lo (se for o ca-
so), e nio esquecer que este journal s6 sobreviver8
se o apoio dos leitores for conseqiiente (nada de
xerocopia-lo, por exemplo). Estamos novamente
no mesmo barco, vendo a borrasca quebrar e sa-
bendo que ha muito tubar~io~na Agua. Se 6 precise
navegar, que naveguemos. Viver sera o resultado.


JOlmal PessoRI
Editor responsAvel: L~cio Flavio Pinto
Ilustra~go: Luiz Pinto
Rua Campos Sales, 268/803 66.220
Fone: 223-1929
Opc;o Editoral


Discreta abertura
Com o Plano de Dinamiza~go da Regiio
Geo-Econbmica da Hidrel~trica de Tucurui, ainda
em elaboraSio, a Eletronorte espera iniciar "um
novo ciclo de interagiio, ndo s6 desta empresa,
mas de todo o setor pbblico, com as sociedades
afetadas pela instalagho de empreendimentos". O
Plano, segundo an~ncio feito na semaria passado
pelo novo president da Eletronorte, Af~onso Tia-
go Simas, ird responder "aos questionamentos de
stores da sociedade civil: national e international
e mesmo de agencias financiadoras internacionais
aos impacts s6cio-ambientais desencadeados com
a constru~go da UHE Tucuruf".
Quase sete anos depois de iniciar a opera~go
da maior usina inteiramente national, que sera a
quarta do mundo quando concluida, a Eletronorte
estA se propondo a promover o uso m61tiplo do
enorme lago que formou comn o represamento do
rio Tocantins (at6 agora servindo basicamente
apenas para a geragEo de energia) e dar maior
atengho as populaS6es atingidas, al~m de reforgar
a preocupa~go com a ecologia. Seria, finalmente, a
materializagio de sua estrategia de "insergio re-
gional", uma ret6rica iniciada ha poucos anos co-
mo resposta a caracterizag~io de sua obra como
um "enclave" (que nho dissemina seus efeitos),
feita pelos critics da empresa.
Simas, a primeiro paraense na presid~ncia em
quase 18 anos de existbncia da Eletronorte, nho foi
muito rico em detalhes sobre essa iniciativa, nem
afastou a velha imagem de experiencias anteriores
que resultaram em documents forjados em gabi-
netes, mas prometeu que o plano sera discutido
com a sociedade local e que o "modelo institucio-
nal" prevC a associag~io da empresa com 6rghos
executives e de planejamento regionals e munici-
pais, e com representag8es das comunidades en-
volvidas. N~o especificou ainda a origem dos re-
cursos para financial a aplicag~o do plano, mas
deixou a entender que eles virbio dos "royalties" a
serem pagos' ao Estado e aos municipios atingidos
pela barragem. Ngo havendo considerAvel suple-
mentaygio de outras fontes, o volume de dinheiro
sera reduzido. Se os "royalties" forem os Gnicos
recursos, isto significard a interfer~ncia da Eletro-
norte sobre as jurisdig6es estadual e municipals.
A Gnica maneira de prevenir tais distorS6es 6
abrindo, desde jB, o trabalho. Por enquanto, a Ele-
tronorte vem fazendo intramuros.

No mar alto
O- Gnico espago que me resta para fazer jor-
nalismo independent 6 este minif~ndio. Ou o rei-
vento, ou desisto de ser jornalista. Tenho evitado a