Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00054

Full Text

ornal Pessoal
Liicio Flivio Pinto


S eadoJdr sexta eleigio que voce disputou foi a mais
important e tamb6m a mais magra de toda a
sua carreira political. VocC conseguiu derrotar
a maior mobilizagio de recursos ji feita por um go-
verno do Pardi em favor do candidate official. Foi a
primeira vez, desde 1964, que um governador nlo
conseguiu fazer o seu successor. Isto se deve, em
parte, aos erros do governor H61io Gueiros cha fra-
gilidade de seu candidate, mas tamb~m uma parcela
do resultado pode ser creditada a sua compet~ncia
como politico, Ela lhe permitiu compensar o des-
gaste de uma imagem posta nacionalmente em
questio, mas nem tudo result de seu carisma. Se
foi poderosa a m~quina montada em torno do ex-
prefeito Sahid Xerfan, nio hB ddrvida de que ne-
nhum candidate de oposigio teve ao seu alcance
uma estrutura tio forte como a sua. VocC venceu,
mas, ao contrlrio das eleig6es anteriores, nlo con-
tou com o voto da esmagadora maioria do que se
convencionou chamar de camadas da populagio (e
do eleitorado) mais esclarecidas. VocQ venceu por-
que teve meio por cento de votos a mais que o seu
concorrente. Mas nio convenceu.
No entanto, por seus m~ritos e por circunstin-
cias da histdria, voc8 tem a rara e preciosa oportu-
aidade de governor o Pard pela segunda vez. Na
primeira ocasilo, voce era uma fonte legftima da
esperangas para os que queriam romper um sistema
de dominagIo polftica montado no Estado com base
na unanimidade, na opgio plebiscitaria pelo chefe -
e, por isso, num coronelismo que nem precisaria ser
fardado. Quatro anos antes de vocQ tomar posse, ti-
nha entrado em funcionamento o primeiro dos gran-
des projetos atrav6s dos quais o governor federal
vinculou a Amazania aos mercados inrternacionais
e vocacionou-a como usina de d61ares, d61ares que
nio slo para n6s. S6 uma lideranga identificada
com a regilo e o Estado. sensfvel a gente da terra e
aberta ao didlogo, poderia tenter encontrar um outro
caminho, no qual nio nos limitissemos a ser uma
renovag~o do destiny colonial imposto h Africa h a
tAsia.
Voce comegou com muita retbrica, mas ficou
apenas na ret6rica. Acompanhei todas as etapas do
seu governor, conferindo pessoalmente cada mo-
mento. Na sua primeira visit a uma area de invasion
na Grande Bel~m, a Jaderlindia, vocC quis que eu
subisse ao palanque. Mostrei que men lugar era ali
no meio do povo, na perspective oposta & do poder,
a d~nica maneira de avaliar com isenglo o que voc6
iria fazer. Nio foi simples tomar essa decision.
Quando cheguei & sede do Idesp, dias antes da sua
posse, ji sabia que vocg me convidaria para partici-


par do seu governor. Antes de comunicar-lhe uma
decisio, pensei muito na possibilidade de fazer al-
guma coisa concrete e imediata em favor do meu
Estado. Ao long de muitos anos vinha, como ve-
nho ainda, apesar de todos os desestimulos, usando
minha capacidade de raciocinio na tentative de sa-
ber o que est8 acontecendo com o ParB e a Amaz6-
nia, e o que se pode fazer para melhorar o perfil do
seu future. Nlio existe nenhum lugar neste pafs
melhor do que Bel~m para ser contemporineo desta
nova (e velha) histdria.
Quando voc8 me convidou para presidir o Iter-
pa (Instituto de Terras do Pard), eu tinha a oportu-
nidade de pular do campo da andlise e da reflexlo
para a pritica. Era uma situaqio tentadora para
quem, pelo menos durante os sete anos anteriores,
havia dado tempo integral g "questio da terra",
vital g 6poca. Mas eu recuei porque nio vi ningu~m
na retaguarda, nenhuma pessoa que desempenhasse
a fungio essencial de representar a opiniio pldblica
e fiscalizar seus atos. A imprensa que o combatera
ji estava entio aos seus p~s, como quase sempre
ocorre, antes e agora ainda, um fisiologismo que
transform as redag6es em balc6es de negbcios. No
journal que apoiava seu advers~rio e previa a vitdria
dele, eu escrevi que vocC ganharia. Niio porque
quisesse influir sobre o resultado ou expressar um
desejo pessoal, mas porque era o que mostravam as
centenas de c~lculos que fiz com base num vasto
elenco de informag6es acumuladas atrav~s de in-
vestigagIo jornalistica. Nio escrevi aquilo por ami-
zade, como talvez voc& tivesse deduzido. Tratava-
se de pura convicqio professional. Felizmente "O
Liberal", mesmo apoiando Oziel Carneiro, nIo ha-
via se reduzido no journal de partido que foi at6 25
de novembro do ano passado e publicou minha and-
lise, que o boletim final do TRE confirmou plena-
niente. Quando voc8 foi empossado, pensei que co-
meg;aria uma nova fase na nossa hist6ria.
Pensaram nisso tamb~m os que estavam ao seu
lado na visit a Albris, em Barcarena. VocC incor-
porou ao seu discurso todas as critics que vinha-
mos fazendo a esse enclave japonds sugador de
energia e metal, prometendo empenhar-se para mo-
dificar a situagIo. Ali haveria outras f~ibricas para
que nio f6ssemos submetidos B humilhagio de em-
barcar apenas lingotes de alumfnio ou vermos nosso
minbrio ii para outros pauses (ou para SIo Lufs) e
voltar i fibrica convertido em alumina, que nIo
produzimos. Os respons~veis pela Albris sentiram o
impact: uma coisa 6 um artigo em journal, outra 6 a
palavra do governador. Ela voltou a fustigar no ci-
nema de Carajds, diante da diretoria da Companhia
Vale do Rio Doce e associados, que ouviam de cor-


le Quinzena de janeiro de 1991


Ano Ill NO 66


Circula apenas entire assinantes


A vez do milagre






po present um discurso s61ido e a expression de
uma vontade conseqiiente. Se tivesse havido mesmo
conseqii~ncia, Jader, voc6 at6 poderia ter ocupado
o lugar que o alagoano-catioca Collor de Mello to-
mou para si por simples in~rcia (o que 6 Alagoas
diante do Pard e onfricos marajiis face aos grandes
projetos?). Mas logo os inimigos perceberam que
havia apenas "d6cor" e retdrica. Uma dura postura
pdblica iria contrastar com uma pr~tica negociadora
de bastidores. VocC se tornava um home cada vez
mais rico, mas preferiu bugingang;as e quinquilha-
rias ao verdadeiro poder. Transformou um projeto
politico, de estadista, num neg6cio pessoal.

d~cadas antes, revivendo ao inv6s de sepultar

VocQ governor como se vivesse tr~s ou quatro
blica passou a ser um apandice da sua vonta-
de pessoal. Podia-se notar que vocb fal'ava do go-
vernador Jader Barbalho na terceira pessoa, tal a
auto-admiragilo ou o auto-encantamento. Assim,
perdeu a humildade ou o que os homes de teatro
chamam de distanciamento critic. O Estado redu-
ziu-se g pessoa de Jader Fontenelle Barbalho e suas
extensdes familiares ou clientelistas. O Parir tornou-
se a terra do neg6cio, uma mentalidade tiio dissemi-
nada que nem mesmo voc8 conseguiu dominar todas
as transagdes, inclusive algumas feitas em seu nome
e sem que vocC tivesse "levado vantagem", como
receitava o ex-jogador de futebol Gerson, precursor
do neo-franciscanismo depravado dos Roberto Car-
doso Alves da vida.
A semente do negocismo caiu em terreno f~rtil.
Ha~ muito dinheiro circulando no Pard sem carimbo,
sem origem identificivel. Esta 6 a terra da clandes-
tinidade, da tolerincia, da permissividade. No ano
passado, a garimpagem do ouro gerou entire 350
milhges e 500 milh6es de ddlares nito contabiliza-
dos. Comerciantes pagam, quando muito, entire 10 a
20% do que deveriam pagar de impostos. Empresi-
rios talvez recolham um pouco mais. As mediq6es
dos empreiteiros de obras pdblicas atestam um
quinto ou um sexto do que efetivamente executa-
ram. Sem nenhum receio de exagerar podemos dizer
que dessas tras fontes resultam mais de um bilhIo
de d61ares sonegados aos cofres pdblicos. Vinte por
cento disso 6 dinheiro suficiente para comprar
muita coisa. Niio espanta que fortunes pessoais se
formem na bifurcaqiko dos interesses particulares
com os do Estado. E que este, o de maior potential
da Federagiko, condene-se g anemia, incapaz de de-
ter hemorragia que est8 aos seus olhos, em seu prd-
prio corpo.
Durante o seu governor entraram irregularmente
na folha de pessoal do Estado 20 mil novos funcio-
nirios, nenhum deles por concurso, a ~inica forma
de admissilo legitima. A maioria tinha que partilhar
sal~rios indignos, sem dispor de uma per~spectiva de.
carreira, cujos pianos nito safram do papel. A as-
censilo dependia do chefe de plantlio. Politicas de
intermediaglio e de favors tornaram-se a tbnica na
administragiko pdblica. Sultanatos foram estabeleci-
dos antes que se tivesse celebrizado a figure dos
marajds. Niio admira que se tivesse criado um esta-
do de espirito de m~fia. Os mais intimos do poder
expressavam esse clima ao tratarem-no de "ndimero
um". AlBm de primeiro, inico, se possivel.


VocC achou que poderia manter sob seu con-
trole as cobras criadas que espalhou pelos d~rglios
governamentais, superdimensionando sua prdpria
capacidade de domador. Quando o objetivo dos
grupos estabelecidos no poder 6 o butim, eles aca-
bam em conflito, velha regra sem exce~glo de
todas as piratarias. Afinal, quem pode partilhar?
Quem estabelece os limits de cada um dos saques?
O olho gordo 6 maior do que qualquer comedimento
se nIo hB um program por tris do exercicio do po-
der. E se program havia, aos poucos ele foi se
transformando em mero pretexto, um arranjo a ser-
vir de explicaqio ao pdblico. A administraqIo pd-
blica entrou em estado de relaxamento e promiscui-
dade, visivel jii na sede do governor: na aus~ncia do
chefe, que despachava seletivamente na residbncia
official, ela foi tomada por um autgntico mercado
persa, ocupado por cambistas do jogo do bicho e
agiotas e retalhistas.
O estado de permissividade foi amolecendo os
corpos, as consci~ncias. Se tudo 6 possivel, nio hB
mais direitos. Aos amigos, os favors da lei. Aos
inimigos, os rigores. A velhissima "filosofia" do
baratismo, cujo epigono considerava as leis nada
mais do que potocas, foi retirada do sarcbfago para
o uso corrente (e hoje ainda mais corrente). Forma-
ram-se as quadrilhas, as ameagas viraram atentados,
os atentados foram sendo consumados e a apuraglio
deixada para depois, para o "deixa ver" que prece-
de a impunidade. O Pard virou exemplo maior de
viol~ncia sem algum event como o julgamento dos
assassinos de Chico Mendes ao menos para servir
de atenuante. Os mandantes de crimes acabaram
mandando seus representantes diretos para o poder
legislative e, indiretamente, sentaram-se no judicid-
rio e no executive.

o grupo precisa monopolizar o poder. Esta foi
a 16gica da dominagIko dos antigos coron6is,
seguida pelo novo coronel (sem farda, mas
com muito maior efici~ncia do que os anteriores).
Por isso, logo voc$ tratou de livrar-se da companhia
dos alacidistas. Voc6 admitia que provavelmente
sem eles nito conseguisse veneer a eleiglio. Mas com
eles niio governaria, governor enquanto exerecio
o jus imperio. Eis uma question que a oposiglio ja-
mais aprofundou na devida conta: como conquistar
o governor, pela via legitimada da eleigio, num Es-
tado pobre como o Para, sem precisar recorrer a
uma forma de alianga com uma parcela do poder
estabelecido? Niio ter uma resposta a este desafio 6
uma das fontes de alimentaglio do golpismo leni-
nista ou do oportunismo travestido de ideologia po-
litica que grassa nas esquerdas estaduais.
Voc6 venceu com o apoio do governador Ala-
cid Nunes, dado porque ele nito tinha outra alterna-
tiva melhor (era a dnica maneira de evitar o retorno
dos jarbistas, mal maior para quem havia descum-
prido acordo verbal no passado seria do bigode -
estabelecido diante de dois presidents da Repdbli-
ca, um que safa e outro que entrava, mondtona su-
cesslIo de generals no posto superior ad hoc a que
suas carreiras normalmente nile permitiria aspirar).
Contrapondo-se B miquina federal, recrutada em fa-
vor do empresdrio Oziel Carneiro, a m~quina esta-
dual permitiu ao candidate do PMDB diminuir no
interior a margem de votos tradicionalmente acu-






mulada pelo partido do regime military, primeiro a
Arena e, depois, o PDS. Mas a vantagem eleitoral
da oposigIo na capital estreitou-se, tend~ncia in-
crementada na eleigIo deste ano. Ganhar a eleigio
nio significa veneer a guerra de opiniio pdblica.
Voce agiu maquiavelicamente certo ao trocar o
voto de qualidadee de Bel~m pela quantidade de vo-
tos do interior, mas todos nbs ganharfamos se tives-
se tentado quebrar essa gangorra fisioldgica que s6
leva para o alto quem conta com um empurrio de
outra faceta da mesma moeda viciada. O senador
Almir Gabriel teve essa oportunidade no alcance
das mios agora, mas tamb6m nlo acreditou nela. O
seu sucesso vai estimular o aventureirismo da es-
querda e o conformismo do eleitor, sabe-se 14i por
quantos anos mais.
Mantendo-se preso a uma solugio de compro-
misso clientelista para chegar ao governor, vocC re-
negou-a ao assumir o posto, nio deixando aos ala-
cidistas nem o console da ingenuidade. Eles, que jr
haviam praticado esse jogo antes, sabiam que a par-
ceria seria insustentivel quando o parceiro nio ti-
vesse mais acesso no principal instrument de agio
political num Estado como o Pard: a chave dos co-
fres pdblicos. Mas se o feitigo foi usado por Jader
contra Alacid, serviria para H61io Gueiros contra
Jader Barbalho.
O atual governador vende ao pdblico uma ver-
sito do rompimento que nio coincide com a verdade.
Sugere que voces brigaram por um ato de explosio,
pelas circunstfincias, algo que escapou a vontade de
ambos. A dissociaglo comegou, entretanto, no mo-
mento mesmo da formagio do secretariado e jB po-
dia ser pressentida na transmiss~o de cargo, no tal
discurso do irmio mais velho em louvor ao estadista
de mios limpas que transferia a chave do cofre no
correligiontrio da v~spera. H61io Gueiros jB traba-
lhava o nome de Henry Kaysth para sucedg-lo. Ka-
yath jB sabia que s6 so estabeleceria afastando a
sombra do pupilo do ontem. Voc6, que ressuscitou
Kayath, contrariando pedidos e conselhos do que
the restava de amigos desinteressados, tratou de
matar a cobra criada, mas o veneno do desejo jB se
havia espalhado.

10 de dezembro de 1989. Voc8 c o governa.
Ienho diante de mim Uma foto publicada no dia
e leais amigos, na abortura do Semindrio Pr6-
Lei Org~nica promovido pelos vereadores de Be-
16m. Ao fundo, uma frase prof~tica do deputado
Paulo Fonteles: "Fagamos tudo que impega de uma
vez para sempro atos do trai~go national". Pelo
menos dois anos a melo antes a opini~o que Guciros
expressava intramuros era a pior possfvel sobre vo-
cQ, que, tres dias antes de doixar o goterno, em-
prestara 20 milh~ees de ddlares, sem prazo de caren-
cia, com vencimento trimaestral, um papagaio do ta-
manho de um foguste que desabou sobre a mesa do
successor sem aviso pr~vio. Mas Gueiros guardava
para a oportunidade certa o extravasamento dessas
converses reservadas. O memento chegon quando
Kayath foi derrubado da Sudam e so inviabilizou
como candidate so governor. A partir daf os amigos
de infilncia abandonaram as autilezas e travaram
uma briga de gaficira. Nada havia para justificar a
slibita transformaqgo, excoto a trama precipitada
por interesses (pessonis e grupais) contrariados.


Nio estava em causa o interesse pdiblico, evidente-
mente.
VocC nio podia enfrentar a eleigio deste ano
olimpicamente: era rigorosamente uma luta de vida
ou morte. Todo o seu patrimbnio estava em jogo. O
politico, 6 claro, mas tamb~m o material. Quanto a
este, trata-se de um grande patrimbnio, mas amea-
gado pela iliquidez. Seus neg6cios precisam da es-
cora do governor para se sustentarem. Quase todos
dio prejuizo e os maiores rombos sho os das empre-
sas de comunicaqio, as mais dependents das ver-
bas pdblicas, rubricadas ou nio. Perdendo a elei-
glo, vocC provavelmente teria que colocA-las a ven-
da ou entio buscar, fora do Pard, um esquema de
sustentagio ligado a algum projeto que jB nio seria
mais o seu. VocC conhece a histdria do Pard e sabe
que o poderoso Antonio Lemos foi colocado para
correr de pijama. O risco circundava o seu pescogo.
Para nio perder, vocC fez todos os pactos. Foi
a maneira de montar uma miquina que quase equi-
valia a do governor, esta usada sem o menor trago de
discernimento e pudor porque para H61io Gueiros
tamb~m s6 existia uma hip6tese: veneer. Perdendo,
ele vai encerrar melancolicamente um governor tam-
b6m inaugurado sob esperangas, desperdigando um
cr~dito generoso que a opiniko pdblica lhe abriu.
Os empreiteiros, que conhecem as engrenagens do
poder como nenhuma outra categoria social, sabem
que governor s6 perde eleigio em Estado pobre por
incompet~ncia, mesmo quando 6 obrigado a carregar
um corpo pesado como o de Sahid Xerfan. Os em-
preiteiros n~o sabiam exatamente at6 onde is a in-
competencia do governor Gueiros. Os que sabiam ar-
riscaram suas fichas no knrow-how politico de Ja-
der, como a Construtora Andrade Gutierrez, a prin-
cipal financiadora de sua campanha. A Andrade,
que desceu com vocQ as escadarias do Lauro Sodr6
em 1987, nlo p6de subi-las de novo para receber o
que imnaginava ser seu direito. Precisava acertar as
contas, se 6 que conta de empreiteiro pode ser
acertada em estrito sensor. Por isso deu tanto dinhei-
ro para o comity de Jader.
Doagdes desse tipo jamais slo desinteressadas
ou "pela causal Jos6 Maria Mendonga diz que
colocou dois milhiies de ddlares na sua campanha
de 1982. Quis de volta dois anos depois na formal
do 35 mil casas populares para construir no Aurt,
prindipio de uma histdria mal contada que marcon o
Rubiciio do sou governor. Houve um memento em
que voc8 poderia ter desmanchado o novelo, mas
preferia ir em fronte, talvez por desinformlagQo, co-
mo alguns tentam argumentar em seu favor, mas
talvez porque jB nio pudesse voltar. Jader Barbalho
nunca mais volton a ser o mesmo: son nome, decade
ent~o, doixon do ser associado a qualquer coisa que
pudesse parecor-se a projeto politico; sempre tem
aparecido como sinbnimo de situag~o confuse, mais
ligada B moral pdblica do que propriamente i polf-
tica. Nlo 6 uma medalha.
mote da dltima campanha tamb6m foi esse por
sua causal. Voc6 tem razlo quando diz que
tecnicamnente ningu~m prova os roubos que
t~he stribuem. Tecnicamente voc6 6! um cida-
dio honor~vel, que todos os anos apresents sua de-
claragiio de rendimentos e nlo 6 molestado pelo
vesgo leio da Receita Federal, treinado pars estra-






galhar assalariados. Mas at6 mesmo os tedricos de
sua campanha tiveram que aceitar o que 6 pdiblico e
not6rio e procurar ust-lo a seu favor, uma esptcie
de adaptagIo Bquele principio que faz o judoca usar
o golpe do adverstrio contra ele mesmo. A logo-
marca da campanha ficou sendo Jader Trabalho e a
mensagem mais forte foi associada h preguiga. O
marketing procurava convencer o eleitor de que os
scus adverstrios praticam o mesmo pecado que lhe
atribuem, com o inconvenient de nio trabalharem
como vocb. O "rouba mas faz" de Adhemar de Bar-
ros veio automaticamente is conscitncias e, sem
opg~o, a maioria dos paraenses preferiu deixar de
lado a consciencia e eleger aquele que pode deixar
um residue de beneffcios. Entre o bom e o mau la-
drio, preferiu o que jB conhece.
Seria injusto negar qualquer tipo de m6rito
pessoal na sua vitdria. Sem um suporte tio podero-
so como o seu, jamais desfrutado por nenhum outro
candidate de oposigio, nIo teria havido vit6ria
contra uma mgquina que deve ter aplicado algo co-
mo 70 milhbes de d61ares, dinheiro que, em sua
maior parcela, esta faltando agora aos cofres pdbli-
cos. Mas ainda assim vocC s6 venceu porque conhe-
ce, como raros, as misdrias da polftica paraense,
nio na forma de estruturas abstratas como as que
fascinaim os tedricos, mas em sua materializag~o
humana, com nomes e apelidos. S6 vocC sabe a que
efrculo do inferno precisou descer para viabilizar
esse triunfo. Sd vocQ sabe quantos n6s foram atados
e quantas hipotecas lavradas para que o resultaido
lhe fosse favor~vel. Mas podemos ter uma dimensio
desse acerto pelo tipo de personagem que comega
(ou recomega) a emergir a partir da confirmagIo de
que vocQ voltart a ser o governador do Para. Os
rats conseguem voltar a uma nau que nio naufra-
ga.
Nesta reprise nio nos resta nem a prerrogativa
de pensar em tese, de cerder B sedugio proposta por
amigos comuns de que agora, jB rico e realizado,
vocQ fara um grande governor sd por isso. NIo fard
se persistir no eu absolute. E far8 menos ainda se
organizer o governor em torno dos nomes que no
passado e neste present em cursor representam
o lado ruim de sua hist6ria, uma pritica testada e
reprovada de descaminho.
Sio poucas as possibilidades de vocC nIo ser
outra vez um d~spota. NIo precisa ser um d~spota


simpitico e populista. Pode ser esclarecido, tio es-
clarecido que percebe os limits do despotismo, sua
fungio transitdria, necesslria no memento inaugural
do governor, quando precisaria descartar-se dos
compromissos de campanha, do lixo que nela se
acumula quase inevitavelmente, e olhar para o futu-
ro, com intelig~ncia e determinaCIo. Sd com tal
perspective mostra-se generoso e recompensador
viver neste memento no ParB, abrindo as portas de
sua histdria, inaugurando uma nova era. Por recear
a estagna~go e o retrocesso que resultario do seu
governor se ele seguir a tendancia mais provivel 6
que decidi escrever-lhe esta carta, enderegando-a,
no entanto, no povo da nossa terra. Os lulicos,
aquelas cobras criadas de ontem e de hoje que o
acompanham, serio capazes de rir e desprezar qual-
quer coisa do que aqui se escrever, mas nio escrevo
para eles. Escrevo, a rigor, para que desaparegam,
para que fiquem o mais distant possivel das fontes
do poder pdblico e nlo aumentem a enorme distin-
cia que separa a representagio polftica da estrutura
econdmica e social do Pard. E escrevo tamb6m por-
que nio quero que voc& reassuma o governor sem ter
passado por este teste: ouvir o que tem a dizer um
cidadio que, sem outros m6ritos que o distingam
dos demais, quer apenas viver conforme pensa e
pensando no que deveria constitute o dever de todos
nds, nosso compromisso com o tempo e o espago,
sobre os quais edificamos a nossa razio de ser e de
estar no mundo.
Ao contrdrio da outra vez, Jader, nio hi espe-
rangas, nem indicadores 16gicos de que a hist6ria
poderb ser escrita conforme queremos. Mas en-
quanto a histdria for o produto de homes concretes
haver8, pelo menos, a possibilidade de surpresa,
uma surpresa viva, contraditbria e pungente, como
o nascimento de Severina no famoso e simb61ico
- poema pernambucano de Jolo Cabral de Melo
Neto. Eu talvez esteja querendo um milagre, mas
milagre 6 o que nos resta esperar no Pard dos nos-
sos dias. Esperar, ali~s, nio 6 a expressio certa: ou
se faz o milagre, fazendo-o como um artesio faz
sua cerimica, ou nada acontecer8 que justifique
estar aqui escrevendo esta cart que tem vocQ como
destinattrio, mas o povo como mensageiro.
Se haverb uma segunda, caber8 a vocQ e no
povo escrevb-la.


vivos do senador.
Nio que Passarinho desconhega os riscos do
memorialismo. O livro promete muito jB na citagio
que abre a introdugho: "A primeira lei da Histdria 6
de nlo ousar mentir; a segunda, de nio temer ex-
primir' toda a verdade", foi buscar o autor em Leiho
XIII. De Anatole France, ele cita uma frase cinica
("Sem a mentira a humanidade pereceria de deses-
pero e de enfado") para garantir: "Nio sou daque-
les que Anatole achava terem necessidade da menti-
ra, quer de pratic8-la, quer de ouvi-la como lison-
ja". Assegura ainda nio ter qualquer ilusio "com a
transitoriedade do poder e a fugacidade das honra-
rias".


Jarbas Gongalves Passarinho tem o melhor cur-
rfculo da political paraense: ministry de quatro dife-
rentes presidents da Repdblica, tr~s mandates de
senador, Ifder da maioria, president do Congresso
Nacional, governador do ParB, detentor da maior
condecoraCio de um military em tempo de paz, ele 6
refer~ncia inevitivel na hist6ria atual do Estado e
mesmo do Pais. Era de se esperar que ao fazer seu
depoimento para a posteridade o atual ministry da
Justiga estivesse g altura desse curriculo. "Na Pla-
nicie" (Cultura Cejup, Bel~m, 175 plginas), entre-
tanto, C uma frustraqilo. Antes de ser um livro de
memdrias, parece um ajuste de contas, um instru-
mento a servigo dos interesses politicos ainda muito


Passarinho: desmemb~rias






Mas quem dessa inspiragio deduzisse estar
diante de um document tIo pungenteinente sincere
e auto-critico como as membrias de Bertrand Rus-
sell, por exemplo, chegaria a um resultado desa-
pontador. O maior herdi do livro de mem6rias de
Passarinho, um herdi sem qualquer micula, magnA.
nimo e olimpico como nenhum outro, B o pr6prio
Passarinho. T~o convencido de sua importincia e
das virtudes que possui, ele nIo deixa para tercei-
ros a tarefa de avaliar aqueles aspects de sua vida
que pertencem 9 hist6ria. Emite juizos que s6 te-
riam valor incontestivel se nlo partissem dele mes-
mo.
O leitor imparcial, mas exigente, haverb de
perguntar se o livro nito ganharia densidade caso
seu autor tivesse um pouco de moddstia ou respei-
tasse os limits do depoimento pessoal, garantin-
do-lhe dessa maneira valor documental. Mesmo
sendo mera descrigiio do que ocorreu, soa inconvin-
cente quando Passarinho diz do discurso que fez no
Clube da Aerondutica, em 1955: "o efeito foi re-
tumbante". E, no minimo, adjetivo dispensivel em
auto-avaliaqio.
Sobre seu relacionamento com o governador
Magalhies Barata, personagem do passado que
continue rendendo bons dividends no present,
Passarinho diz que recebia dele "prova de aprego
que nito era comum .
Tho diffcil de confirmar 6 a reconstitui~go que
o ministry faz de um epis6dio envolvendo o entlio
ministry da Guerra, general Zen6bio Costa, durante
a crise political de 1954. Zendbio mandou chamar
Passarinho a sede do minist~rio da Guerra para pr-
ni-lo, mas o entio major conseguin mudar complex.
tamente a situaCio no cursor de um didlogo duro, no
qual "consegui pd-lo em brios", inegavelmente uma
faganha, mesmo para um major do porte de Passari-
nho, diante de um general como Zendbio. "O Mi-
nistro, que me recebeu em estado de exaltagio
mental, passou B defensive, justificou sua lealdade
no governor de que fazia parte e, ao cabo de meia-
hora, me apertou a mio e me dispenson. Nio ful
preso depde Passarinho, recorrendo a uma carta
que lhre foi enderegada pelo coronel Severino da
Fonseca Hermes, infelizmente como todos os de-
mais documents nio transcrita na integra no li-
vro, como seria de se esperar.
Jg relatando a ceriminia de formatura na Es-
cola de Estado-Maior do Ex~rcito, no Rio de Janei-
ro, em 1955, Passarinho diz que, quando chamaram
sen nome para a entrega do diploma, as palmas "e-
coaram estrepitosas". E quando o ministry da Guer-
ra, general Lott, se recuson a entregar o diploma ao
rec6m-formado, transferindo a tarefa ao official vi-
zinho na mesa (o general Castello Branco, que fora
comandante de Passarinho na Eceme), os aplausos,
"entio, transformaram-se em apoteose".
Passarinho pode afirmar, sem o risco de cabo-
tinismo: "Fora de divida 6 que, quando indiquei o
Major Alacid Nunes, para o Governo, sucedendo-
me, meu papel foi decisive". Isto 6 hist6ria. Mas o
;isco estii present quando declara que o sindicato
Io petrdleo resolve destrui-lo por causa "do in-
vulgar prestigio que granjeara". Ou quando classi-
fica o preficio que escreveu para a "Pequena Enci-
clopedia de Moral e Civismo", publicada quando


era ministry da Educadio, de "ousado para a 6po-
ca". On aindat quando reconstitui a re~adlo a uma
palestra que fez para integrantes da Escola Superior
de Guerra durante uma viagem de navio pela Ama-
z6nia, em 1957: "Absolutamente fora do comporta-
mento habitual, os oficiais se puseram de p6, so
t~rmino da minha fala, e me palmearam demorada-
mente"'.
Diante de tais e tantos adjetivos, cabe questio-
nar a ~declaradio de f6 de Passarinho de que, ao
decidir escrever o livro, nio o moveram "nem ani-
mosidade em relaglio ao passado, nem o cabotinismo
que desfigura a verdade". Se o ex-governador esti-
vesse realmente escrevendo para a hist6ria, deveria
reforgar suas afirmativas com a reprodu~go dos do-
cumentos que cita (mais os que nbo cita, mas pode-
ria usar), como a violenta correspondencia tele-
grdfica" travada com o entlio coronel (hoje general,
na reserve) Gustavo Moraes Rego, que levou ao
rompimento de relag6es entire os dois.
Mas sua mem6ria 6 utilitarista e, sob a pressio
de um vasto ego, acaba traindo-o, transformando
seu livro numa simples verso e nlo, como preten-
dia, num document hist6rico. Por que, prometendo
dar nomes aos bois (e realmente nominalizando
parte da manada), n6o identifica personagens como
Henry Kayath (a que se refere como "o ex-secret8-
rio de Finangas"), Joiio Malato ("um conhecido
jornalista"), Lupi Martins ("m6dico, muito conhe-
cido por suas inconvenibncias pdblicas"), Jos6 do
Egypto Soares ("industrial J.E.S."), Ossiam Brito
("jornalista conhecido", envolvido no "caso Ira-
waldyr") on o Capitito S., da Policia Militar (coni-
vente com o contrabando)?

Mais grave do que essa identificagao seletiva 6
a omissio de informag8es fundamentals para o en-
tendimento de certos epis6dios. Passarinho lembra,
por exemplo, que foi eleito governador do Estado.
no dia 12 de junho de 1964 e ~s6 tomou posse no dia
15, enquanto Alacid Nunes, "nio perdendo um s6
dia, apressara-se a assumir a Prefeitura de Bel~m no
prdprio dia 12". Sem negar a sofreguidito pelo po-
der do entio amigo e apadrinhado de Passarinho, hi
um detalhe important: a C~mara Municipal de Be-
16m elegeu Alacid dias antes de a Assembl~ia fazer
o mesmo com Passarinho (em ambos os casos, se
tratava de eleigio indireta). O retardamento da pos-
se do novo governa-ar fora a pedido dele mesmo,
que "precisava terminar a missito que me fora con-
fiada de reavaliar as fichas da 2" Seglio do Estado-
Maior do CMA .
O ministry explica que o pediu o prazo porque
niio poderia deixar sua funglio sem realizar a tarefa,
mas seus adverstrios poderiam muito bem questio-
nar seu interesse: a revision seria realmente t6cnica
e saneadora ou jB estaria comprometida por interes-
ses politicos, transformando-se numa arma? Ficha-
dos como comunistas estavam Abel Figueiredo,
Otivio Mendonga e C~cil Meira, simplesmnente por
terem assinado manifesto de solidariedade a Fidel
Castro, que, naquele memento (dezembro de 1961),
ainda nlo se declarara comunista. Tamb~m estavam
nas fichas do Comando Militar da Amaz6nia mili-
tantes da catdlica Agiko Popular como Roberto
Santos, Nelson Figueiredo, Armando Mendes, Ino-






E com este back-ground que Passarinho, ofi-
cial da ativa no Estado-Maior do CMA, comega a
organizer "grupos civis". em 1962. A prindfpio,
seriam apenas voluntbrios para travar luta polftica
e ideol6gica contra os esquerdistas, mas ja. as reu-
ni6es de doutrinaqio eram realizadas clandestina-
mente no sagulo da faibrica de refrigerantes Gua-
ra-Suco (com o nome omitido). As sessbes come-
gavam depois das 10 da noite, quando o iiltimo
carro da distribu~igo ji estava recolhido. Todos
esses cuidados com o sigilo tinham uma justifica-
tiva: "fugir da delagio e da vigilincia dos esquer-
distas".
Mas quando a casa de um dos financiadores
dos "grupos civis" foi apedrejada, num epis6dio
nebuloso, mas, de qualquer maneiira, pouco ex-
pressivo, Passarinho viu-se compelido "a criar um
setor de seguranga", sob a responsabilidade do
major Antonio Ramos, homem determinado e co-
rajoso Apesar de ressaltar a sua intengio de nilo
dar carterr paramilitary ao movimento, essencial-
mente civico" (do qual s6 participavam dois mili-
tares, ele e Ramos, sem nenhum politico envolvi-
do), diz ter adotado a partir de entio a filosofia do
olho por olho, dente por dente: "algumas agdes de
disuassio foram tomadas contra os agressores
identificados, no mesmo estilo por eles adotado .
Assim, uma reuniko de estudantes no pr~dip da
Faculdade de Odontologia "foi tumultuada e en-
cerrada com luta corporal" pelos "grupos civis .
Melodramaticamente, Passarinho ensinou um filho
adolescent a atirar, preparando-se "para o pior .
Se a inspiraCio havia sido cultural, a realiza-
gaio estava muito distant do ponto de partida.
Passarinho havia se ligado B Marinha porque os
fuzileiros navais tinham fuzis automiticos. Os ci-
vis dos grupos efyicos puseram a disposigio
"viaturas abastecidas e guarnecidas para trans-
portar todo o batalhio (o 260 BC, a principal tropa
do Ex6rcito em Bel6m) para onde necess~rio". O
esquema montado por Passarinho era tamb6m ca-
paz de garantir transport via a6rea para a Compa-
nhia do Oiapoque. Seria igualmente capaz de ar-
mazenar combustivel fora d a rea de Miramar para
prevenir a hip6tese de sabotagem pelos comunis-
tas. Dispunha de um ridio-amador clandestine e de
um plano e operagio para prender preventivamentel
os "lideres cuja atividade n6s segufamos diaria-
mente".
Toda essa mobilizaglo passou a preocupar
militares que cumpriam sua misslo nos quart6is. O
coronel Jos6 Lopes de Oliveira, que entlio chefia-
va o Estado-Maior do CMA, manifestou sua preo-
cupagio, "particularmente com a possibilidade de
envolvimento do Major Ramos na atividade logis-
tica". A expresso 6 vaga: na verdade, Oliveira
achava perigosa a utilizagio de dinheiro doado por
emprestrios, sem nenhum control formal, para fi-
naqciar as atividades dos "grupos civis". A preo-
cupagilo tinha sua justificative: a partir de um
certo memento a obsessio pelos fins tornaria irre-
levantes os- meios para atingi-los. Assim, o major
Ramos encontrou um portador no minimo inusitado
para transportar a famosa instrugho do general
Castello Branco que levaria ao golpe military: foi
Pedro Silva, o Pedro TratB, "pessoa da intimidade
do governador Aur61io do Carmo", diz Passarinho,


c~ncio Martyres Coelho e Camilo Mvontenegro
Duarte.
Essa evidence falta de critbrio depunha contra
a inteligencia do Exercito, ao que Passarinho estd
aternto. Ressalva logo que, em 10 anos como official
de Estado-Maior, s6 passon 30 dias na segio de in-
formnagdes: "meu pendor era muito mais para a tlti-
ca, a formulagio de operag6es, do que para o servi-
go secreto. Mas se p~de contribuitr para report um
pouco de credibilidade aos, arquivos do CMA. tam-
b6m fez uso das fichas. E pdblico e not~rio, por
exemplo, que entregou a Irawaldyr Rocha a ficha
que dele havia na 2" Segio.
As membrirls de Passarinho tentam evitar que
se revele o-dado mais important de sua biografia:
sua ligagio a um grupo de militates que tornou
possfvel a aproximaqio dos politicos dos quartdis
(chamariz para as famosas "vivandeiras" da UDN)
e, dessa unilo, levando a sucessivos pronancia-
mentos que desembocariam no golpe de Estado
(chamado pelo ministry de contra-revolugho) de
1964. Uma geragio de militates anfibios, na dupla
dimensio de t6cnicos das armas e polfticos, ten-
tou, durante mais de uma decada, uma solughCo de
forga para os problems do pafs fora dos quadros
legais e institucionais, aproveitando ou inventando
motivagbes.
Passarinho tenta demonstrar que s6 Ieixou
sua brilhante carreira forgado pelas circunstincias,
mantendo-se sempre fiel ao juramento professionall
de obediencia g Constituigio, aos chefes e aos re-
gulamentos militares. Infelizmente, ha um vazio
inaceitivel na autobiografia: comega a narrative
aos 15 anos de adade, quando ji fazia polftica es-
tudantil e, certamente por sua precocidade, era
disputado por comunistas e integralistas, que ten-
tavani coopti-lo, e s6 a retoma 20 anos depois, "i-
nexplicavelmente" colocado no centro do torveli-
nho military contra o governor constitutional de
Getdlio Vargas, na famosa Repdblica do Ga-
leto", e no seu desdobramento. a tentative de im-
pedir a posse do president legalmente eleito. Jus-
celino Kubitscheck.
"Eu nio estava envolvido em nenhuma cons-
piraglo para negar posse ao Dr. Juscelino", jura
Passarinho. Seu aparecimento so lado dos conspi-
radores "passou a ser conseqiiencia natural da so-
lidariedade de classes e da contida indigna~go io
ver que oficiais comprometidos com a conspiraqlo
haiviam abandonado seu Ifder. Em seguida, a mes-
quinharia da minha classificagio compuls6ria e
o acampanamento pela Policia Civil e polftica me
empurraram para o lado dos conspiradores". diz,
tratando de mostrar que "eu jB estava sendo se-
guido dia e noite pela Policia Civil e por oficiais
da Brea", informa~go que hist6rias do perfodo tei-
mam em desconhecer.
Os mesmos sentiments altruisticos prova-
velmente o levam, pouco depois, a organizer "um
Estado-Maior clandestine" para dar apoio a re-
volta que o entio major (depois brigadeiro) Harol-
do Veloso desencadeou contra o governor JK em
Jacar6-Acanga, apenas por sua amizade com Velo-
so. Sendo clandestineo", o Estado-Maior de Pas-
sarinho poderia ser classificado de deslealdade ao
seu chefe, o comandante military da AmazBnia.






esquecendo-se de acrescentar que era tamb6m o
chefe do jogo do bicho, um dos alvos da ag8o mo-
ralizadora dos militares depois de 1964 (sem maior
efeito, como se pode constatar hoje).
Deposto Johio Goulart, Passarinho diz que sua
missio estava encerrada: "nunca tive e desafio
que se prove o contrbrio ou, ao menos, se apre-
sente evidbncia a esse respeito intenglo de .her-
dar politicamente o esp61io do Estado do Pari. At6
entio eu pretendia fazer carreira na profissio que
abracei vencendo grandes dificuldades". Acha que
acabou indo em outra dire~go devido ao "papel
que desempenhei na articulagio military, somado a
pregagio feita na grea civil, quer nos grupos de
doutrinagio, quer nos debates que travel em dire-
t6rios estudantis", tornando-o "referencial obri-
gat6rio, quando o Presidente Castello decidiu pela
deposigio do Dr. Aur61io e do general Moura Car-
valho'.
Assegura que at6 entio "pouco ou nada eu
conhecia de campanha political" e que "em ne-
nhum memento postulei on sequer insinuei a indi-
ca~go do men nome",,ainda assim imediatamente
apoiado pelo PSD, a principal partido politico da
6poca. "A despeito de convidado virias vezes pa-
ra participar da political regional, eu sempre escu-
sara. de sorte que chegava praticamente equidis-
tante das facq~es locals e livre de preconceitos",
diz Passarinho, como se tratasse de outra biogra-
fia.
"Quando meu comandante na Escola de Esta-
do-Maior, o general Castello Branco nos havia
doutrinado, mostrando serem inconcili~veis a po.
Iftica partidiria e o exerefcio da profissio das ar-
mas, ji que esta requeria equidistincia das dispu-
tas politicas", tenta argumentar o ministry. De
fato, sua geragio, que tem como epigonos milita-
res como o marechal Cordeiro de Farias e politi-
cos como Carlos Lacerda, tinha horror a partidos,
mas nio por principios democr~iticos: era por auto-
ritarismo mesmo, um autoritarismo que Passarinho
nega candidamente (de J~nio Quadros, "recolhera
a imagem de home autoritbrio, so que sou nor-
malmente avesso").
Mas como negar a participagIo em disputes
>olfticas de quem esteve envolvido na "Repdblica
do Galelo", na "novembrada", nas rebelibes de
Veloso e comegou a conspirar contra um governor
legitimamente constituido dois anos antes que a
esse movimento se incorporasse a esmagadora
maioria dos companheiros de armas, sensibilizados
apenas quando Jango passou a mio na cabega de
sargentos, cabos e soldados, depois de langar es-
trepitosamente um amplo program de reforms.
Na verdade, Passarinho e outros anffbios safram
na frente exatamente porque jl negavam de h
muito o ensinamento do chefe military, outro que o
exercicio do poder levou a contradigIo.
Nio haveria outra maneira de explicar o de-
sembarago apresentado por um official da ativa na
articulagi~o political para sustentar seu governor
(produzindo acordos que desagradariam companhei-
ros de movimento que ficaram nos quart6is) e dar-
lhe desembarago future, transformando em amigos
os inimigos de ontem e passando por cima de prin-
cfpios doutrintrios. Uma das maiores metas do go-


verno Passarinho, como dos militates estabelecidos
no poder a partir de 1964, era "contribuir para sa-
near a Magistratura, punindo os venais e presti-
giando aqueles que, nada obstante todas as priva-
qBes e provagdes, permaneceram nela, honrando-lhe
as tradiC6es de dignidade".
Entretanto, o governador poderoso concordou
em fazer acerto com tr~s desembargadores que po-
deriam ser punidos, mas propunham pedir as suas
aposentadorias e assim "resguardar as fungdes que
ocupavam". Passarinho tem uma justificativa para
essa magnanimidade, embora contraditando o que
escreveu linhas antes: "Concordando, pensei estar
prestigiando aqueles que, na mesma Corte, dela fa-
ziam uma imagem, para o Povo de integridade e ga-
rantia de distribuigio equinime da Justiga". Tam-
bim nio aplicou a pena de demissao a bem do ser-
vigo pdiblico contra nove jufzes, "porque isso equi-
valia a punigio das families, que ficariam desampa-
radas". Mas o que falar de outras tantas familias
desamparadas por um justiceiro que admite: "apli-
quei o Ato Institucional em todas as suas modalida-
des: da demissio a bem do serving pdiblico at6 a
simples disponibilidade". Isto num Estado no qual
os militares se estabeleceram praticamente sem re-
sistbncia.
Para um ne6fito nas artimanhas da political bra-
sileira, Passarinho saiu-se melhor (ou pior?) do que
a mais favorivel (ou desfavorivel?) expectativa.
Num capitulo inteiramente dedicado ao rocamboles-
co epis6dio da eleigio e renducia branca do vice-
prefeito Irawaldyr Rocha, ele omite um detalhe
fundamental: que foi ele mesmo quem indicou Ira-
waldyr para companheiro de chapa de Alacid Nu-
nes. At6 receber o nome escrito em um pedago de
papel, Alacid ignorava seu vice.
Tamb~m nio diz que fez chegar ao president
Castello Branco, por via obliqua, o receio de que o
major Alacid Nunes nIo conseguisse veneer a dis-
puta pelo governor com o marechal Zacharias de As-
sump~go. ex-governador no exerefcio do mandate
de senador. Sd quando Castello, inspirado por Mo-
raes Rego, sugeriu a alternative dos nomes do ad-
vogado Otavio Mendonga e do senador Catette Pi-
nheiro, 6 que Passarinho voltou atras e entrou firme
na campanha prd-Alacid, convencido de que a
criatura seria submissa ao criador, esperanga que a
politica brasileira se encarrega sempre de tornar vi.
Nenhuma refer~ncia hi no livro sobre a tese
apresentada no Rio de Janeiro por Lamartine No-
gueira, um dos executives langados na administra-
glo pdiblica por Passarinho, de uma geraqio desas-
trosa, favorlvel i prorrogagio dos mandates dos
governadores. Com a reagIo contraria, Lamnartine
tratou de explicar que falara em carter pessoal e
nio como porta-voz de Passarinho, que s6 governor
o Pard por 19 meses.

Nem convincente 6 o depoimento do atual mi-
nistro sobre um dos mementos decisivos da political
p6s-64. Passarinho diz que comegou a se afastar de
Alacid quando o major the exibiu dois cheques que
recebera do engenheiro Ocyr Proeng~a, no gabinete
da prefeitura (entio ocupada por Osvaldo Melo).
Era dinheiro do ex-governador do Amazonas, Gil-
berto Mestrinho, para ajudar na campanha eleitoral.
Mestrinho fora cassado pelos militares pouco antes






por corruppio. Passarinho ficou indignado com
Alacid, mas manteve integralmente a amizade com o
tamb~m coronel Newton Barreira, que acompanhou
Ocyr Proenga na entrega dos cheques e era empre-
gado de empresa de Mestrinho, que tinha Proenga
como "testa-de-ferro". Por que as duas medidas? E,
independentemente da questio de carter de Alacid
ao aceitar a "doagIo", o candidate ao governo nio
estaria de certa maneira seguindo o Ifder, que havia
aceitado contribuiq6es clandestinas de ,dinheiro de
empresarios para os "grupos civis"? E claro que
nenhuma restrigio foi apresentada g honestidade
pessoal de Passarinho no trato desse dinheiro, mas
o. coronel Oliveira se mostrou preocupado com o
desempenho do major Ramos.
Ao ver os cheques nas maios de Alacid (que
nio considerava pecaminoso seu ato, tanto que
mostrou os cheques ao chefe), Passarinho ficou in-
dignado: "Voc4 acaba de conspurcar a Revolugio",
disse-lhe. Nas mem6rias, admite que "at6 seria pos-
sfvel fazer o ato de contrigio, mas estivamos a me-
nos de um m~s das eleigBes e jl nlo seria exeqiilvel
a mudanga do candidate~ especialmente consideran-


do que era a nossa primeira experiencia em politi-Oslodeiggsecnxesetrsfr
ca". ram num labirinto, que surpreende quando 6 dec:
A partir desse memento, ele estaria integral- frado. A familia Fonteles, por exemplo, manife
mente envolvido na atividade political, na qual "ex- tou pdblica adesao a Xerfan com o argument ;
perimentar-ia recompensadoras alegrias e graves de- que Jader era correligionbrio de possiveis miasd
cepgdes com a criatura humana, fragil, insincera, dantes dos assassinates do ex-deputado Paul.
oportunista e sobretudo ingrata". Mas at6 que ponto Fonteles e tamb6m do deputado Joho Batista. N<
ele pr6prio poderia ser considerado excegio a esse entanto, os dois crimes foram praticados sob o goi
diagn6stico correto? Seria o linico personages. verno Gueiros, que, naturalmente, nao pode serr
olfmpico nessa selva selvaggia inimaginada mesmo responsabilizado pelo cometimento, mas cuja res
ponsabilidade em relagio a claudicante apuragiek
por Dante? Certamente nio.
pode ser cobrada. Foi o que fez, alids, o deputado
"O horror que sempre tive dos regimes totali- federal Ademir Andrade, outro dos aliados de Xer-
tirios, de partido ~inico e forte aparato policial, fan-Gueiros, acusando o governador de lavar L
com opositores nos campos de concentragio, for a mios e, por sua omissio, estimular a impunidade. a
pedra de toque de minha formagio political diz um a rpetigio dos crimes de encomenda, sobretudo ctt
dos militares de mais intense participagio political de motivagio political.
nos regimes pds-64. Pelo menos dois dos governor Se Jader foi apontado como implicado indi-
a que serviu, o da Junta Militar e o do General M6- retamente na morte de Fonteles;, no contribuir para
dici, apenas nao criaram campos de concentragIo e impedir que ele se elegesse em 1986, a imputagio
simularam um bipartidarismo canhestro. No mals, de Ademir Andrade foi. muito mais explfcita: a
sao a encarnagio do horror que Passarinho diz ser a pr6pria familia impediu-o de participar do veldrioa
contrafagIo de seu pensamento, mas que parece ter de Paulo, sob o argument forgado, como muitos
esquecido no memento de assinar o Ato Constitu- outros que apresentou na campanha de que Ade-
cional ndmero cinco e recomendar ao seu chefe que mr"obu spicpi euo evtsd
ignoass toos s "scrpulo deconci~cia. A Paulo, no sul do Pard. Sem mandate, o ex-deputa-
pomb dapaz esehad nasmemria revlaen- do tornou-se alvo facil de seus inimigos, estimula-
tIo, sua feigiio de falclo da guerra e esta 6 a ima- dos assim a executor um atentado no qual vinham
gem que ficard para a histdria. pensando havia bastante tempo. Mas a prdpria fa-
mflia complicou a apuragio do crime ao embarcar
Esta edigio especial do Jornal Pessoal repre- integralmente numa verso inconsistent, que en-
senta um grande esforgo para colocar no papel gendrou um inqubrito paralelo e, a partir daf, apa-
questdes tangenciadas no debate eleitoral ou sim- gou as pistas, que talvez sd venham a ser retoma-
plesmente ignoradas. Para colocar o jornalzinho na das por acaso. A famflia, ademais, nao vivia em
rua, novamente fago grandes sacriffcios pessonis, sintonia total com Fonteles quando ele atuava co-
sabendo logo que me exponho aos riscos inerentes mp militant do Partido Comunista do Brasil.
ao jornalismo de combat, no Pard ampliados p~elo A promiscuidade entire o crime organizado, os
passionalismo adotado pelos grupos politicos e negbcios, a political c a justiga 6 muito mais grave
pelo complete desrespeito aos direitos da cidada- do que dela podem fornecer atestado as verses a
nia. Os assinantes do JP receber~io de graga o servigo de interesses pessonis on partid~rios. Com
exemplar, a falta de outra maneira viivel de dis- uma economic marginal tio extensa e profunda e
tribuir o journal. Como da Giltima edigio, tamb6m uma incorporaqIo de gente tio massive, o Pard 6
especial, serio benvindas as contribuigbes para campo fecundo para que proliferem organizag6es
socializar o custo da edigiio e distribuigio. ilegais e prevalega a viol~ncia.

12/15/88 3476B8


Com a eleigio de Jader Barbalho, o crime or-
ganizado vai se tornar mais forte no ~Estado do PR
ri? Os adverstrios do candidate do PMDB passai
ram a campanha eleitoral respondendo que si:
Apontavam para a ligagio do ex-ministro com n
trios chefes de grupos armados, como Wirlaol
Freire, em Itaituba, e Josiel Martins, em Capar a
ma. De fato, houve alianga entire os tr~s, que re
sultou em votos para Barbalho nos dois colegiof
eleitorais e a eleigio de dois deputados estaduais.
o filho de Wirland com a maior de todas as vot;
~ges para a Assemblbia Legislativa. A gravidac;
da penetraCIo do crime organizado no mundo I''
lItico paraense, entretanto, nio se deve exatameas
a uma associagio com um dos candidates apenai
mas h sua presenga nos dois lads principals
dominaCio estadual.