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Jornal pessoal
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Permanent Link: http://ufdc.ufl.edu/AA00005008/00053
 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00053

Full Text











ELEIQ7O


A estagaio Pard


Nn 65


Quando faltam id~ias, sobram agressoes pes-
soais. Por isso, o tom dominant na atual campanha
eleitoral B monocdrdio: os principals contendores se
acusam mutuamente, e s6 t~m razio quando se acu-
sam. Nio 6 um fendmeno in6dito na histdria political
do Pard. Ao contrdrio, 6 sua caracteristica maior.
As disputes s6o decididas depois de algum sangue e
muita roupa suja lavada diante do at6nito e is vezes
empolgado eleitor. Ele pode atC ser instruido sobre
os personagens. Mas o Estado nio avanga. Daf o
crescente distanciamento do Pard enquanto vontade
em relagio ao seu prdprio produto enquanto histd-
ria. E o descompasso entire sua anacr6nica estrutura
political e o cadtico complex econdmico-social.
O ex-governador Jader Barbalho, cujo curi-
culo politico sd tem paralelo entire os contempo-
rineos com o do senador Jarbas Passarinho (antes
inimigos figadais, hoje amigos fidalgais, como
costumam ser as inversbes de pap~is num enredo
sem forga dramitica), despreocupou-se inteiramente
de defender-se das acusag~es de enriquecimento ili-
cito, o mote preferido de seus adversirios. Se o
leio do imposto de renda, sanguindri'o diante do
contribuinte m~dio, nio glosou at6 hoje suas decla-
rag6es anuais de variagio patrimonial, Jader pode
se valer da maxima latina de uso corrente entire seus
colegas de profissio, advogados ou politicos: in
dubio, pro reu. Menos pomposamente, ele poderia
recorrer a uma frase que Stanislaw Ponte Preta co-
locou na s~bia boca da Tia Zulmira: ou restaure-se
a moral, ou todos nos locupletemos. Nlo hB pers-
pectiva de restauragio (ou invengio, que seria mais
o caso) da moral pdiblica paraense. Os americanos,
pragmiticos, sugerem, pela vox populi: se o estupro
6 inevitivel, relaxe e aproveite. Hg um inc6modo
relaxamento geral no Estado.
Nio se defendendo, o ex-ministro imprimiu seu
jargio de campanha: Jader Trabalho. Os inimigos e
os mais cbticos deduziram a sibilina moral da histd-
ria, uma revisic, modernizada pelo canibalesco
marketing politico, do rouba mas faz, lema legendi-
rio do paulista Adhemar de Barros. Foi a f~cula
fertilizadora do PSP no passado. Semeada nova-
mente agora, cai em terreno f~rtil. Ngo 6 sem causa
o sucesso da preguiga, animal que aparece na TV
junto com a logomarca do ex-ministro.
A insinuagio ao governador H61io Gueiros 6
mais do que evidence. Ao inv~s de esclarecer o
eleitor e contribuinte sobre as acusag;~es de ter usa-


do os cargos ptiblicos como rampa de acesso a uma
das maiores fortunes do Estado, Jader recorre ii
imagem chg fala de Gueiros para mostrar que ao
menos o saldo de seu balango 6 mais favorivel.
Talvez qualquer dos dois superivits nio seja mais
do que aquela conta de chegar em barracio de se-
ringal que fez Euclides da Cunha perceber a eterna
escravizagio do seringueiro ao prdprio trabalho.
Mas o marketing publicitdrio nio permit que o te-
lespectador penetre nessas sutilezas eletr6nicas (e
tem sucesso se a impre~nsa nio cumpre seu papel, de
separar o meio da mensagem).
Cronista politico por imposigio compulsdria na
6poca da censura political (substituida e suplanta-
da pela censura econbmica, permitindo aos filis-
teus de sempre recorrer a bordoes como "eu era fe-
liz e nio sabia"), o governador H61io Gueiros acre-
dita que a melhor defesa 6 o ataque. A titica sem-
pre funcionou no Santos Futebol Clube: Coutinho e
Peld mais do que compensavam os furos dos zaguei-
ros. Mas nossas duplas no tapetio politico nIo per-
mitem a mais pilida comparagao com os g~nios do
gramado. Deveriam dispor de defesas sdlidas para
sustentar ataques nem sempre coerentes ou conse-
qiientes.
O governador tamb~m nao procurou defesa
sustentivel para as acusag~es de que seu governor
seria uma reedigio da sempre lembrada e pouco
estudada administraCio do condestivel Magalhies
Barata. O caudilho passou ii histdria (nesta nossa
histdria composta de estdrias aned6ticas) como um
home de retidlo moral, limpo e pessoalmente ho-
nesto. Mas as ilhas do arquipdlago pessedista nho
resistem a uma andlise mais acurada, tanto pelo An-
gulo da gestio do dinheiro pdiblico quanto da moral
political. Tudo fizeram os pessedistas, ou pensamos
terem eles esgotado o arsenal de recursos baixos att
que surgisse a nova gera~go de politicos e tecnobu-
rocratas, protegidos pelo severe manto dos milita-
res, a partir de abril de 1964, e at6 hoje resguarda-
dos pelo virus de repressio ao saber, tio profundo
que continue em atividade no cursor de gerag6es,
mesmo apds as transigBes political (no Brasil, nun-
ca seguidas pela consolida~go democritica, ao con-
trdrio de Espanha e, no que parece, Chile).
Formado no venture fecundo do baratismo, ten-
do sobrevivido ao ifder e ao seu partido, o PSD, o
governador Htlio Gueiros n~io pode ser tomado por
ingenuo, inocente ou inexperiente. No pronuncia-


Jarnal Pessoal
Liicio Flavio Pinto

ESPECIAL 2a Quinzena de Setembro de 1990





mento pela televisao, feito na quinta-feira, o gover-
riador anunciou em frase bonapartista que o
PMDB (na verdade, MDB) "foi fundado pelo H61io
Gueiros" e que H61io Gueiros 6 "anterior a qual-
quer outro politico do PMDB". O governador se
consider n6o apenas o politico primal e fundador
linico do partido de oposigao (consentida) ao go-
verno military, o que nunca foi, mas uma esp~cie de
Deus, que "inventou o Diabo"', no caso, Jader Bar-
balho, embora nesta tarefa coadjuvado pelo ex-vice-
governador (de Aurilio do Carmo) Newton Miranda
e pelo empres~rio e jornalista Romulo Maiorana.
Esse acendrado individualism poe em ddvida
outra afirmativa do governador: "eu tenho partido,
eu nao fico em cima do muro", disse. Mas ele imi-
tou Pilatos na campanha presidential do deputado
Ulysses Guimaries e nao procurou alternatives -
que poderiam ser desenvolvidas dentro de seu
prdprio partido, transferindo-se logo para uma coli-
gagao que exclufa o PMDB. V~rias vezes o gover-
nador me disse que a intengao de Jader Barbalho
nao era a de disputar o Governo e sim o Senado.
Minhas contra-argumentagoies a esse raciocinio fo-
ram em viio. Mas se Jader queria o Senado e Guei-
ros pretendia completar seu mandate, por que o g-o-
vernador nao montou um esquema em seu partido,
recorrendo a liderangas que, em tal situagao, nao
seriam apenas derivatives da ditadura exercida por
Jader no PMDB?. Na verdade, o governador tentou
impor uma candidatura que jg havia deixado de ser-
vir de ponte entire ele e Jader, a do ex-superinten-
dente da Sudam, Henry Kayath. A ligaglio nao ruiu
por motivagao political, diga-se logo.
Calejado por anos de political e jornalismo ba-
ratistas, a, governador nao pode, agora, dizer-se en-
ganado em relagao a Jader Barbalho quando o
substituiu na conduglio do Estado. O prdprio Guei-
ros relatou de pdblico, o rompimento entire os dois
jB definitive, a conversa mnantida comn o entao go-
vernador (sendo Gueiros senador da Repdiblica) so-
bre malversagao de recursos pdblicos. Ouvia e si-
lenciou. Quem cala consent, diz a sabedoria po-
pular.
Gueiros poderia argumentar que Jader era a
~inica opgao que se tinha para tentar acabar com a
political da unanimidade que voltou ao Pard (trazida
do antagonismo entire lemistas e lauristas do inicio
do s~culo) com o jarbismo e o alacidismo, vestes
vocabulares para cobrir santos invisiveis. Era essa a
imagem que Jader Barbalho levou consigo ao pali-
cio do governor, em margo de 1983, depois de uma
brilhante carreira political, de vereador a deputado
federal, com votag~es de lfder. No Brasil, infeliz-
mente, carreira political costuma ter sindnimo de
carreirismo, por causa do poder absolute colocado
nas mfios do chefe do poder Executivo gragas a esse
presidencialismo hipertrofiado a que estamos sub-
metidos.
Podia-se dizer do Jader empossado governador
que havia conciliado ao long da carreira, mas nio
negociado o essential (conciliagio difere muito de
negociagio, como ensinou Jos6 Hondrio Rodrigues,


se p6r em pritica a prdpria ligio). Era essa, pelo
menos, a mensagem repetida em centenas de notas
publicadas na coluna Repcirter 70, de O L~iberal, por
Newton, H61io e Romulo, onde o joyem parlamentar
conseguia escapar do sil~ncio geral dado A oposi-
gio. Se algudm sabia, jB naquela altura, que o santo
era de pau 6co e que o ser angelical tinha dentro de
si as sementes de satands, o atual governador estava
entire esses privilegiados. Os qlue elegeram Jader
esperavam que ele ao menos restaurasse a plurali-
dade political no ParB, pondo fim a interditos proi-
bit6rios como o que atingiu o jornalista e politico
Hdlio Gueiros. A histdria mostrou que a esmagado-
ra maioria das cassaS~es feitas pelos militares nao
apenas foram montadas sobre falsas premissas, co-
mo nao tinham o sentido que o regime pretendia al-
cangalr como program. Mas serviram para incensar
falsos deuses. Seria muito bom para o future da Na-
gao que os militares aprendessem, final, essa ligiCo.
Pouco mais de um ano depois que Jader tor-
nou-se governador, jB era possivel ver a realidade
por tris da ficgao. Para mim, o caso Aura foi o Ru-
biclio. O entao governador perdeu a grande oportu-
nidade de rever um erro, consertar a tempo um ato
ilicito e recompor-se com o verdadeiro servigo pdi-
blico. Mesmo alertado, manteve-se ao lado da tran-
sagao escusa que se montava em torno de uma boa
oportunidade de servir 21 popula~gio de Beldm. Atra-
vessei o Rubicato. Qualquer pessoa de boa f6 imita-
ria a iniciativa. H61io Gueiros permaneceu ao lado
de Jader, defendendo-o e exaltando-o, at6 a undC-
cima hora, quando sua vontade imperial ficou sem
viabilidade. Por esperar atC esse memento, seus
ataques ao ex-correligion~rio perderam a legitimi-
dade (a mesma que esta faltando a Almir Gabriel,
infelizmente). Se atacar Jader passou a ser o sol ca-
paz de iluminar as trevas da coligagio situacionista,
mostrar as incoer~ncias de Gueiros tornou-se o ha-
beas corpus de Jader.
Hilio G;ueiros saudou Jader Barbalho, em mar-
go de 1987, como estadista. Um jornalista nho
apensa esse qualificative a uma pessoa sem muita
verificagao, sem checagem criteriosa. Um governa-
dor, muito menos, ainda mais quando a mesma pes-
soa encarna as duas qualificag~es. No segundo mi-
mero do Jornal Pessoal, da segunda quinzena de
setembro de 1987, disse, em matdria de capa, que o
governador Hblio Gueiros ja havia percebido "que
precisaria passar a limpo a heranga de seu anteces-
sor e correligiondrio", registrando o caos qlue ele
herdara. No quarto ndimero, da segunda quinzena de
outubro do mesmo ano, anotei que cresciam "os
pontos de atrito e as fontes de irritagio" entire os
dois ifderes. E assim o journal foi revelando a nudez
do rei e a farsa da corte, sem uma palavra official do
governador a respeito. Ele s6 falava em off H61io
Gueiros 6 um excelente papo, uma pessoa afivel ao
convivio, algu~m capaz de ouvir critics e nio
mandar prender o autor. Sou-lhe grato (no sentido
da gratidlo que temos que dar a um direito inerente
a regimes democriticos, que raramente temos o pra-
zer de usufruir por aqui) pela toler~ncia as minhas





critics, que a ele eu fazia, mas tambtm as ~inicas
que entio se fazia ao poderoso Jader Barbalho. Mas
H61io Gueiros administrator pdiblico 6 outra coisa.
Ele se orgulha de sua credibilidade, de fazer "uma
administration austera, sdria, zelosa". Mas foi um
governor de contador, no velhissimo esquema da ve-
rificaglio didria de caixa sobre deve e haver. O go-
vernador niio teve condigdes de levantar os olhos
para o horizonte e ver a solidio com que exerceu
uma tarefa destinada a ser coletiva, vazia como a
sede do governor, abandonada em troca do que deve-
ria ser a "resid~ncia de verito"


A radicalidade verbal nito est8 permitindo ao
paraense ver o rumo da sua histdria e encontrar, nas
alternatives oferecidas pela c~dula eleitoral, um if-
der capaz de exercer a pedagogia da descoberta de
seu destiny, o lugar onde tem que estar a sua von-
tade. O que hi s~lo fantasmas de um passado inse-
pulto ou nomes potencialmente capazes, mas que
tamb~m niio foram capazes de ver a hora e estar
presents no exato memento de passar o trem da
hist6ria. O ParB vive a farsa e a comidia. Hg de pa-
gar carol por isso. O trem esta passando, vazio.


O Jornal Pessoal volta a circular, agora em
edigao especial. Foi a Unica maneira que encontrei
para fazer chegar ao pdblico algumas observagC~es
sobre a campanha eleitoral no ParB. Infelizluente,
nio hsi outra alternative. Exatamente tr~s anos
atris, tive que fundar o JP para divulgar o resultado
da investigation de trbs meses que empreendi sobre
o assassinate do ex-deputado Paulo Fonteles. O
mi'ximo do que se conseguiu apurar sobre executo-
res, intermediirios e mandantes do crime saiu nas
piginas deste journal. Naio 6 uma faganha de que me
orgulhe: o JP 6 (ou era) suficientemente pequeno
para a gigantesca tarefa de fazer as engenagens ofi-
ciais se mexerem na busca da verdade, ainda que
ela fosse inc6moda aos poderosos. No Brasil, essa
tarefa deve ser desempenhada pela grande imprensa.
No ParB, a imprensa se encolheu ou se acumpliciou
mais do que serfamos capazes de imaginar, nos mo-
mentos de maior pessimismo.
Como cidadlio e como jornalista, niio poderia
aceitar passivamente o desfile de inverdades e ma-
nipulag~es. Volto a este jornalzinho nao por causa
de interesses contrariados ou para ferir eventuais
inimigos, mas para tentar ajudar cidadaos com me-
nos aceso is informagdes a former seu jufzo com
base em fats, ou ao menos numa interpreta~gio dos
fats sem vicios de origem. E um desafio, para a
geragilo que chegou g idade da razao combatendo a
censura political e um regime autorit~rio, ver fluf-
rem mais de tr~s anos sem o esclarecimento de cri
mes, como o assassinate de Fonteles embora viva-
mos sob o estatuto formal de uma democracia. Mais
do que um desafio, 6 o atestado da omissio, da co-
niv~ncia ou da impot~ncia de toda uma sociedade,
incapaz de desvendar e punir atos de violdncia tlo
ba'rbara como o assasinio de um cidadlio executado
sem a menor possibilidade de reagilo. O trinsito
sem julgado desses crimes estimula os prdximos,
desencadeando efeitos em cadeia que resultam no
quadro ca6tico que nos ameag~a.
Jornalista testado por 25 anos de exercicio
professional, sei quando 6 precise travar pelo bom
sensor o tom de indignsgio que nos leva a escrever,
se queremos que c escrite chegue a Ipdblico maior
atrav~s de grande imprensa. O artigo de capa desta
ediglio foi escrito sob essa premissa, mas ainda as-


sim vejo-me obrigado a superar dificuldades pes-
soais e objetivas se quiser que o que escrevi vi
al~m dos meus limits dom~sticos. Nao e' uma situa-
g~o confortadora para um jornalista; tamb~m nao o
6 para a imprensa enquanto instituigilo com suas
rafzes fincadas na opinitio pdblica. HE de haver um
espago entire os interesses politicos e as convenian-
cias comerciais para o exerefcio da pluralidade, se
queremos ver a tenra plantinha da democracia ger-
minar e florescer, ao inv~s de sempre fenecer no
abafa dos poderosos de plantao, como lamentava
Octivio Mangabeira. Esta 6 uma condigaio qlue deve
ser respeitada tanto pela imprensa como pela socie-
dade em geral e os politicos em particular. Uma vez
inventado o veneno, 6 impossivel evitar que ele seja
usado contra o inventor. Na political brasileira ab-
solutista, a criatura invariamente se volta contra o
criador quando chega ao comando dos mecanismos
do poder. Os velhos udenitas, eternas carpideiras de
quartel at6 1964, deram (como Adaucto L~cio Car-
doso, Mem de SE ou Carlos Lacerda) ou podem ain-
da dar testemunho a respeito. Hg tambem exemplos
domisticos nas linhagens de Jarbas Passarinho -
Alacid Nunes Jader Barbalho Hdlio Gueiros:
por ocasiao do invento, reclamaram a paternidade
da obra; quando renegades, a repudiaram como coi-
sa satilnica. HE um fio da meada nesse novelo poli-
mdrfico e furta-cor: na hora da decision. o interesse
pessoal prevaleceu sobre o interesse pdblico. As
entranhas, portanto, sito as mesmas.
Niio 6 g toa que os "circulos bem informados"
desfiam histdrias de corrupqilo, nepotismo, trifico
de influ~ncia e fraudes que abalariam os alicerces
do Estado ou da Repdblica se esses "causos" pu-
dessem tornar-se de dominio pdiblico. Nesse privi-
legiado circuit das pessoas que estlio "por den-
tro", entretanto, niio ha o empenho de documentary
as histdrias ou, tendo-as sob provas, permitir que
elas sejam apresentadas ao distinto pdblico. Infor-
ma~gio tornou-se instrument de poder. Quem sabe,
quer saber apenas para poder mais do que o compe-
tidor, usando a informagiio como arma numa guerra
muito particular. Daf porque um novo governador
acusa o antecessor de ladrilo, mas niio se preocupa
em provar o roubo e muito menos em puni-lo. O
cruzado de plantlio C aquele que ainda niio ocupou o


Ao mnenos umna hist6ria






trono, umn element de sedugIo que sd deixard de
destrogar carreiras no dia em que a fiscalizagIo do
Executive pela sociedade for mais do que imagem
de retdrica em palanque.
Para que chegue esse dia, a impre~nsa precisa
ser mais do que um negdcio, que qualquer soba de
ocasiio possa corromper, intimidar on tomar como
edmnplice. ]Essa tarefa cumpre, em primeiro lugar, A
prdpria imprensa desempenhar. A frase herdica de
qu~ie opinaiao nao se vende nem sempre se sustenta
fora da cercadura de um am~incio publicitbrio. Mas a
culp~a nIo 6 sdj de uma imprensa que d~o consegue
preservar~ ksua minima identidade com os fats. E
responasabilidade tamb6m de uma sociedade que lava
as mios e a~ceita, como definitivas, limitag~es mu-
tiveis, embora custosas, sofridas.
Este ndmrero do Jornal Pessoal result, mais
uma vez, de umn esforgo para impedir que as estdrias
caricatas montadas pelos inquilinos do poder pas-
sem por histbrias reais g Histdria que hB de vir, ou
que nao vird, se continuarmos achando que ela seri
escritai sem a nossa participagio, num falso c~u que
os incr us se incumbem de criar.

A democracia

sem liberdade
Demo~cracia & ligio de liberdade. Sem liberda-
de, a demnocracia torna-se apenas um jogo formal-
menate aberto, mas na pritica viciado, de cartas
marcadas. A democracia custom muito sangue aos
ingleses, mas quando a estabeleceram foi de vez,
para nuanca mrais ser revogada. Os colombianos es-
tio pagando sangrentamente pela falsa democracia
que imaginavam praticar, bitolados ao sobe-e-desce
de liberals e conservadores. O Brasil pode, mais
umroa vez, estalr apcompanhando a regra enervante das
democracias a titulo precsirio deste lado de cB do
hemisf~rio .
O ParB, hparticularmente, parece padecer de al-
guma maldigio especial. Tradicionalmente, 6 o 6l-
timo Estado a concluir a apuragio de votos, uma
lentiddo quae nao pode ser explicada apenas pela ar-
caica estruturra eleitoral montada no interior. Ela
existe, mas as causes do atraso, estabelecidas sob
uma vast base territorial, tamb6m podem ser bus-
cadas no fisiologismo da pritica political.
Estreitada a margem de liberdade, o cidadao
torna-se vi~tima dos que podem mandar. O ritmo e a
amplitude das campanhas political dependem mais
das fluatuag6es de humor, sempre subjetivas, do que
das normas definidas categoricamente nos cddigos.
A interpr~etagio 6 forgada para tender as conve-
nitncias do memento.
A$ liberdade de imprensa, por exemplo, costu-
ma ficar em suspense pelos que comprometem seu
jornalislmo com uma das facqbes. Atacado nas pigi-
nas de O Liberal pelo filho do governador, nio
consegui publicar minha resposta no prdprio journal.
Depois de 418 horas, nio consegui sequer que a di-
regio do journal assumisse uma posigio mais clara.


Seus representantes davam justificativas, lateral-
;/ jafgq gy~ forma de cansar o postulante do direito.
Ricrsarg. 7recurso g Justiga, demorado, sujeito a
-chuvas at voadas (a Justiga costuma ter uma sen-
~lid~es paro tempo mais afinada do que a Mete-
f ~~giane, ~inda por cima, obrigando um jornalista
instrument que tem proporcionado a
Aoinv6s de alimentar a liberdade da im-
p se esta nio se dd ao respeito, o que se

\ osopo para mim restou o console de dar
a sp ao sr. H61io Gueiros Jr. atravis de A
v ia arai. Mas quantos nio slo atirados B
ura? Quando a Justiga nio 6 capaz de
re Fe~s~ ireitos reconhecidos nas leis, a situaSio
favorece os despotismos, as "solug~des" mann mili-
tari, a lei do mais forte. E dessa maneira os inimos
ficam cada vez mais exaltados, sem que disso re-
sulte qualquer avango social ou politico.
E um aftido retrocesso a censura aos progra-
mas da propaganda eleitoral gratuita no rlidio e na
televisio. O program 6 do TRE. O program 6 da
sociedade. O TRE 6 intermedidrio e o coordenador.
Nlo pode, entretanto, agir de modo prdprio. Como
todos os advogados estio cansados de saber, quan-
do o saber nio contradiz seus interesses, a Justiga
s6 age quando provocada. um principio universal
e remonta is origens do Direito. Como, entio, pode
o TRE censurar o que dizem os candidates, baseado
nos crit~rios subjetivos do juiz de plantio? Sd os
candidates e o eleitor podem arbitrar o que deve ser
cortado. Os candidates, 6 claro, recorrendo ao Tri-
bunal e nio este exercendo um poder de iniciativa
que nho 1he cabe.
Assim como est8 sempre atrasado na apurag5io
dos votos, o Tribunal interv~m sd depois de os
contendores se acusarem mutuamente, sem que ge-
ralmente qualquer deles tenha se utilizado do ins-
trumento legal, o recurs. Age, assim, ex-oficio. E
age mal. O resultado 6 a redughio do espago para
discussio de id~ias sob o pretexto de nio se permi-
tir as agressdes pessoais. Estas sempre prevalecem.
As id6ias, eva~poram-se.
Sho preferiveis os excesses de oratdria g timi-
dez compulsdria. Basta que as responsabilidades
possam ser cobradas no foro adequado, o judicial,
com as penalizag6es correspondents, ao Invis de
se estabelecer uma doutrina pela margindlia do Di-
reito. E assim que se pratica e se aprende a demo-
cracia. Quando poderemos aprender essa li~go?



Ao leitor

Este exemplar do Jornal Pessoal est8 sendo
distribufdo gratuitamente aos antigos assinantes.
Ningu~m 6 obrigado a pagar pelo journal. Mas doa-
C6es (de qualquer valor) ser~io bem recebidas, se re-
sultarem de iniciativas espont~neas dos que quise-
rem dividir os encargos da edigio, para mim com-
pulsdria. As eventuais doag6es podem ser encami-
nhadas para o mesmo enderego (rua Aristides Lobo,
871, Bel~m, Pardi, 66.020). L~cio FIdvio de Faria Pinto.