Jornal pessoal

MISSING IMAGE

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00052

Full Text











Par6




Estado derrotado

O paraense Alcyr Meira assume a Sudam prometendo novos
tempos, mas sua indicapao result de um esquema
regional baseado em pr~ticas do passado. Pode ser mais
um pass no rumo do esvaziamento da regiao.


Circula arenas entire assinantes


entanto, um Estado derrotado. Em que con-
siste essa derrota? Provavelmente na perda de
sua identidade, na falta de um projeto capaz
de reunir e organizer sua populagIo para atingir um
objetivo comum, meta estabelecida a partir de uma
nftida conscibncia do que pode o Estado e qul a
sua posigio no mundo. Sem isso, o Pard d~o coffe-
guird, como at6 agora nio tem conseguido, ser
contemporineo das aC~es que se realizam em seu
prdprio territdrio. Elas partem de fora e para esse
mundo exterior retornam os seus efeitos. O Pard 6
um Estado derrotado porque deixou estabelecer-se
em seu territbrio um sistema colonial, que o utiliza
sem considerA-lo, a nio ser como mat6ria prima e
massa de manobra. O Pard est8 perdendo, definiti-
vamente, o bonde da sua histbria.
Casos para confirmar essa observagio ndo fal-
tam. Alguns t~m importlncia real em si, como a
montagem de enclaves mfnero-metaldrgicos (alumi-
nio, mingrio de ferro, bauxita, caulim) diretamente
vinculados a mercados cativos ou monopdlios. Ou-
tros sho simbblicos. Entre os sfmbolos, o preenchi-
mento dos principals cargos da administraqi~o fede-
ral na regilo sem a participagio do Estado. Pela
primeira vez em muitos anos, o Amazonas ocupon
esses espagos, a partir de um decidido golpe de mio
do ministry da Justiga, Bernardo Cabral.
Essa possibilidade, antes inimaginavel, pode
ter sido aberta pelo autofagismo praticado pelas
principals liderangas do Estado. No Para, a forga do
fisiologismo e a busca da unanimidade solitdria im-
pedem as liderangas de obter o mfnimo dos rendi.
mentos alcangados' em outros Estados. Os ifderes
nio conseguem unir-se em torno de algum projeto
comum porque sempre ha entire eles o desejo de
trianfar sozinho, atravgs de algum expediente (co-
mo colocar listas de nomes no colete do president
da Repdiblica). Uma lideranga que sobe procura
destruir a que ficou em baixo, pratica que empobre-
ceu o elenco de alternatives de uma maneira dram8-
tica.


Pode-se imputar responsabilidade pelo avango
amazonense ao abulismo do governador H61io Guei-
ros e obtusidade de liderangas que nio conseguem
visualizar o campo de batalha al6m de seus prdprios
quintals. Estes sho os fatores conjunturais, aos
quais se soma a combinagio de interesses conver-
gentes do ministry Cabral e do president Fernando
Collor de Mello. As indicag~es que eles fizeram pa-
ra os cargos da administra~go pdblica ja preenchi-
dos mostram que mudaram apenas os personagens e
a retdrica, mas o enredo, fisioldgico, 6 o mesmo.


0 significado de
um ato falho

O arquiteto Alcyr Meira nio precisava ser tio
ostensive quando, ao agradecer o patrocinio da sua
nomeaSIo para a Sudam, relacionou apenas os no-
mes do president, do ministry da Justig~a e do em-
presario amazonense Umberto Calderaro. Na verda-
de, ele nio pensava em desmerecer o governador
H61io Gueiros (cujo representante na solenidade de
posse sequer foi citado), mas, provavelmente,
acertar algumas contas pessoais do passado. No
entanto, se faltou a intengfio, sobrou resultado. O
governador e~mpunhou a carapuga e nem a visit de
explicag6es de Meira reparou o episddio. Nem ha-
veria como: ainda que nio fosse citada, a margina-
lizagio se tornara evidence. Mais do que evidence:
ostensiva.
Para a Amaz~nia, vir do Amazonas on do Pard
a indicaCio importa pouco porque nio ha diferengas
de mttodos e de conteddos nesses esquemas. Ape-
nas os nomes nio sho os mesmos. Mas para o Para,
a situagio tem um efeito diddtico. Ela suscita uma
pergunta embaragosa: como pode conquistar o mB-
ximo um Estado incapaz de lutar pelo minimo? A
resposta deixou de estar ao alcance das liderangas
estaduais. E problem~tico que o prdprio Estado ain-
da possa alcan~g -la.


or nPessoal
Lxicio Fl~ivio Pinto


1" Quinzena de Junho de 1990


Ano III N" 63










z6nia. O fendmeno nio 6 recent: o historia-
dor Arthur Cezar Ferreira Reis escreven todo
Oum livro tentando demonstrar que a cobiga
estrangeira s6 nio se consumou por acaso, on pela
valentia dos colonizadores portugueses. Na Amaz6-
nia, o Estado precisaria estar sempre alerta para
impedir que esses fmpetos se materializem, gerando
uma geopolftica que tem funcionado como a matriz
do "modelo" de ocupagio da regiiio. Nio espanta a
preponder~ncia dos militares na elaboragIo dessa
estrattgia.
Mas toda essa demonologia, capaz de ver ape-
tites imperialistas nos delfrios de um tenente da Ma-
rinha dos Estados Unidos, que queria transferir dois
milhdes de negros norte-americanos para a Amaz6-
nia, na segunda metade do s6culo dezenove, nio re-
siste a um exame mais atento. Para as grandes na-
goes e suas principals corporagoies economicas, ex-
plorar a Africa e a Asia era muito mais rentivel e
ao alcance de seus conhecimentos e tecnologias do
que a Amaz~nia, perdida entire dois conceitos anta-
g6nicos: ora vista como o celeiro do mundo, era
apresentada como o inferno verde.
De reserve potential, a Amaz~nia passou a ser
encarada como fonte de mercadorias depois da Se.
gunda Guerra Mundial, quando os primeiros levan-
tamentos (patrocinados pela Comissio Mista Militar
Brasil-Estados Unidos, sintomaticamente mais ativa
em tempos de paz) confirmaram que a regilo dispu-
nha de alguns produtos necessdrios ao mercado,
como os min~rios. A partir de entio, realmente a
regilo passou a fazer parte dos circuitos de interes-
ses multinacionais. Como, entretanto, a preocupa-
glo com a cobiga estrangeira era mera retdrica, o
governor que escancarou as fronteiras amaz6nicas a
penetragiio do capital, para "integrar e nio entre-
gar", foi justamente quem colocou a regi~o em seu
maior grau de internacionalizagio.
S6 a obtusidade da geopolftica pode explicar


esse paradoxo. Ela ainda acredita que as ameagas
que pairam sobre a seguranga national originam-se
de nag~es assediadas por problems de espago e ex-
plosio demogrifica. Acredita tamb6m que esses in-
teresses se exergam soturnamente, atrav6s de mis-
sionarios armados de contadores geyger on de an-
tropdlogos que escondem suas maquinaS6es atras da
defesa dos indios. Contra o capital em si nio se
voltam os sensors (e censores) geopolfticos porque
a Amaz6nia jamais sera segura se for um espago de
selva, silvfcolas e caboclos. Esse espago precisa ser
substitufdo pela paisagem de pastes, cultivos agrf-
colas, hidrel6tricas, fibricas, os elements da
"fronteira viva", que s6 pode se expandir acabando
com os "espagos vazios" da natureza e de suas ex-
tens6es humans. O demiurgo desse "mundo do
passado" 6 o capital externo, o dlnico capaz de fa-
zer a Amaz~nia saltar no tempo e crescer 50 anos
em 5 (o inevitivel lema do nosso desenvolvimen-
tismo a qualquer prego).
Se o capital esta livre de vetos e, so contrario,
6 mais do que benvindo, as suspeiq6es se dirigem
contra a ci~nciaP, contra o lado crftico e reflexive
(embora nem sempre, o que 6 compreensfvel) do
fluxo metropolitan de dinheiro. Esse foi o alvo do
discurso de posse do novo superintendent da Su-
dam, o arquiteto Alcyr Meira, ao assumir o cargo.
Sem fazer qualquer reference ao alto grau de inte-
gragio (em condigiio desfavortivel) da Amaz~nia na
economic international, como important fornece-
dora de bauxita, aluminio, estanho e min6rio de fer-
ro, Meira disse que os estrangeiros nio podem mais
inteirferir nos problems amaz6nicos, que devem ser
resolvidos pelos nacionais. Sd que a solug~o nacio-
nal tem sido crescentemente amarela, pela cor dos
incendios que se propagam em escala feroz, e cada
vez menos verde, pela redu~go do que 6 o cora~go e
o ethos da Amazdnia: a sua floresta. De uma manei-
ra unilateral e, por isso, burra voltamos ao pe-
rfodo anterior a D. Jolo VI, s6 que, desta vez,
abrindo os ports apenas para os pirates.


Nos bltimos 10 meses, a Sudam aplicou 6,6
bilh~es de cruzeiros em projetos incentivados, con-
seguindo implantar 36 deles, o triple da media re-
gistrada nos perfodos anteriores, como fez question
de ressaltar o superintendent que no mgs passado
deixou o cargo, general Roberto Klein, passando-o
no arquiteto Alcyr Meira. O novo superintendent
anunciou, como sua principal meta, mudar a imagem
da Sudam, tornando-a mais eficiente. Ele reconhe-
ceu que a Sudam nIo pode mais ser encarada apenas
como um balcio de negbcios, uma repassadora de
dinheiro que sai do Tesouro Nacional e pass, sem
muito criterio, para a contabilidade das empresas
privadas.
A tarefa 6 Brdua. Aos poucos, a Sudam foi se
reduzindo a uma extensIo dos escrit6rios de capta-
glo e corretagem de incentives fiscais e uma nego-
ciadora de dinheiro pdblico com beneficitrios po-


o long de quase um quarto de sdculo,
1.200 projetos passaram pelo caixa da Sudam
(Superintend~ncia do Desenvolvimento da
Amaz~nia) e receberam a mais generosa for.
ma de colaboragio financeira ji inventada por um
Estado capitalist para incentivar a expansio de sua
fronteira econdmica. Menos de um quinto desses
empreendimentos conseguiram andar com as prd.
prias pernas e fazer o que se espera de uma empress
privada: produzir, competindo no mercado. Quase
mil projetos sogobraram, desperdigando bilh6es de
cruzeiros, desviados dos cofres pdblicos para sub-
sidiar a instalagIo de empresas pioneiras numa re-
gilo considerada hostile, na qual se diz que o des-
bravador individual nio conseguiria se eastbelecer
sem os favors do Estado (que chegaram a repre-
sentar at6 75% do valor de cada empreendimento
aprovado).


Umn temna de exorcistas


Brasilia locuta





A falbncia da polftica de incentives como in-
dutora do desenvolvimento regional autorizou o fe-
chamento da torneira de dinheiro. O governor Collor
de Mello vai suspender a autorizagio is dedug6es
do imposto de renda para aplicaglo na regilo, can-
celando a dnica fonte de recursos com que a Sudam
contava, mas, pelo menos att agora, nada oferecen-
do em troca, igual ou melhor. Os erros que a Sudam
vinha cometendo foram aceitos, mas nio corrigidos.
O drgio foi deixado no vacuo, como, de resto, a
Amaz6nia. Faz parte da estrat~gia colonial de ocu-
pagio da regiio tirar-lhe raciocinio e vontade pr6-
prios. O esvaziamento da Sudam nIo 6 fortuito: o
governor Collor tem pianos para a regilo, mas nio
quer enfrentar reag6es internal's, nam mesmo um en-
saio de percepgio critical.
A nomea~go do novo superintendent se encai-
xa nessa estrat~gia. HE muitos anos fora da vida
pdblica, exercida sem maior curriculo, o arquiteto
Alcyr Meira deve sua indicagio a um esquema polf-
tico fisioldgico montado no Estado do Amazonas,
embora ele prdprio seja paraense, um asquema tio
fechado que, ao agradecer o patrocinio, citou ape-
nas tras pessoas, nenhuma delas ligadas nos grandes
anseios on gs maiores questbes da regilo, por qual-
quer crit~rio que se avaliasse essa participagio..A
Amaz~nia continue no vicuo, o que sd 6 bom para
quem the dita o caminho, compulsoriamente.


tenciais. O departamento que cuidava desse assunto
cresceu, enquanto todos os demais stores encolhe-
ram. Originalmente, a Sudam deveria ser a coorde-
nadora de toda a aCgo do governor federal na region,
atomizada em muitos drgios que atuam niio apenas
em paralelo, mas tambgm conflitando entire si ou
concorrendo. Para poder desempenhar essa funglo,
a Sudam teria que conhecer bem a Amaz~nia, ad-
quirindo autoridade t~cnica. Mas foi atingida por
sucessivas bombs neutras contra ela langadas pelas
mais recentes administrag6es: as instalagdes ffsicas,
razoavelmente dotadas, foram preservadas, mas a
estrutura humana, a dnica capaz de alimentar o sa-
ber, evaporou-se.

A Sudam se omitin em relagio a todas as gran-
des quest~es que tbm marcado, nos dltimos anos, os
rumos da Amaz~nia. Deixou que outros ap~ndices
on derivados da administragIo federal assumissem
posigio superior ou complete autonomia, como a
Eletronorte, que sacrificou o uso mdritiplo do rio
Tocantins com uma barragem construfda unicamente
para gerar energia, e a Companhia Vale do Rio Do-
ce, que estabeleceu um enclave japonbs em Carajas.
N~o admira que as duas administragdes anteriores I
passagem metebrica do general Klein se tenham en-
redado em escindalos na administration dos incenti-
vos fiscais.


crise de transigio. Eles descobrem que 6 im-
0ss niol bsievitr os tabcm ceseti o mivndo sua
pndossfe bievitr o ercom cesete o muvndo do
branco as suas Breas. O sonho nio integracio-
ni~ta, que levou g criagio do Parque Nacional do
Xibgu, no infcio da d~cada de 60, acabou. O capi-
taltismo se irradia por todos os poros e nio respeita
salptu~rios 6tnicos, como o que os irmios Villas
Boas tentaram construir no Xingu. Mas as lideran-
gas indfgenas tamb6m perceberam a dificuldade pa-
ra ~estabelecer um relacionamento maduro e favora-
vel a suas comunidades junto as frentes econdmicas
que avangam sobre a fronteira amaz6nica, o maior
reduto das populag6es primitivas do pafs.
Se correr o bicho pega e se ficar o bicho come,
qual a said? Alguns grupos tam conseguido pre.
servar sua identidade e evoluir, a despeito de uma
jB~intensa histdria de contatos com os brancos, mar.
cada pela fricgio e o conflito. Os Xavantes consti.
tudm um desses grupos. Outros nio alcangaram os
mesmos resultados, talvez porque estejam em area
dei muito maior interesse econdmico, como 6 o caso
dois Waimiri-Atroari. Depois de terem parte de suas
tellras alagadas pela barragem da hidrel~trica de
Brl1bina, no Amazonas, eles agora colaboram com a
Paranapanema na exploraCIo da maior mina de es-
tasho do mundo.
Os fndios precisam de dinheiro, queiram ou
nib integrar-se g economic de mercedo. O isola.
mento absolute nio 6 mais possfvel. Mesmo que as
frotntes de penetra~go nio fossem tio agressivas
comno slo, quando isso lhes interessa, a curiosidade
impediria os fndios de manter uma attitude de olfm-
pica indiferenga em relagio a essa perturbadora vi-


zinhanga. Se nio tiverem recursos mate iais, os in-
dios sucumbirio g mais primbria sedugao. Tendo
dinheiro, o desafio esta. em saber us8-lo, uma com-
pet~ncia que a sociedade envolvente estabeleceu
com decadas da pritica dos negdcios. Depois de te-
rem enfrentado doengas ex6ticas ou a ameaga de re-
v61veres e espingardas, os indios estio diante do
fetiche da moeda.
Pode parecer que nio, mas este 6 um fendmeno
bem recent. Antes, os Indios nio tinham esse pro-
blema porque a Funai, no exerefcio de sua funglo
tutelar, retinha os recursos gerados em territ6rio in-
dfgena e os administrava atrav~s do cabuloso DGPI
(Departamento Geral do Patrim~nio Indfgena). B
claro que, nio sendo obrigados a enfrentar a expe-
riencia do trato com o dinheiro, os Indios tamb6m
nio o recebiam, ou sd tinham direito a um residue
da renda, que o DGPI tratava de desviar para outros
fins, nem todos visualizdveis.
Por causal desses antecedentes, alguns grupos
comeg;aram a cuidar de seus negbcios, afastando
a intermediagio da Funai. O caso pioneiro foi o dos
Gavides, do Para, os primeiros indios a fazerem
aplica~go financeira no Brasil. Os Gavides foram
marcados pela circunst~ncia de receberem expressi-
vas indenizagBes em dinheiro pela passage de li-
nhas de transmissio de energia e de uma ferrovia
por seu territdrio. Depois que isso ocorreu, os Ga-
vi6es nio foram mais os mesmos. Mudou tamb~m a
situagIo para toda a populagio india do pafs. Ela
entrou na era do capitalism.
Neste memento, sio os Kayap6s, o mais nume-
roso grupo indfgena do ParB, detentor da segunda
maior reserve territorial, que vivem as dores dessa


Scapitalismo vai a aldeia






passage. Eles tomaram a iniciativa de desautorizar
a lideranga do primo Raoni, o mais famoso dos ca-
ciques brasileiros, para nio enveredarem p~elos ca-
minhos de uma vanguard polftica de future incerto
e d~o sabido. Colocaram no lugar do cosmopolita
Raoni o sagaz e esperto Tuto Pombo, o primeiro
dos caciques a estabelecer uma bem sucedida nego-
ciagio com os brancos, embora atribulada do ponto
de vista 6tico, moral ou 6tnico. Ao mesmo tempo,
os Kayapds mandam dizer que querem a manutenglo
da Funai, antes tio criticada, vendo-a ameagada por


conspitagio de interesses espdrrios plantados em
Brastlia.

Ha uma tradugho para esse conjunto contradi-
t6rio de sinais. Os indios verificam que estio mais
sds do que antes, apesar de todo o estardalhago da
mfdia, talvez porque se sintam manipulados. E
constatam que precisam contar com eles mesmos;
que precisam de uma experi~ncia que nIo possuem
e de uma trtgua que nio thes foi dada. A classes in-
dfgena chegou ao Brasil Novo.


Paulinho Payakan, a autoritaria primeira-mi-
nistra inglesa Margareth Thatcher e o tir~nico
Qpresidente de Bangladesh, Mohammad
Ershad? Todos receberam o pr~mio "Global 500",
da ONU, por sua dedicagio B causa ecoldgica. A
ecologia, cujo dia universal se comemorou no dia 5,
parece um tema suficientemente forte para anular as
profundas diferengas que separam os tres persona-
gens (e outros 68 tamb6m premiados) e abstrair o
significado on o conteddo concrete dos trabalhos
que desenvolvem, razio da honraria.
Se a economic inaugurou o s6culo como a cau-
sa determinante, "em dltima instlncia" (conforme o
jargio marxista), dos fats da vida social, a ecolo-
gia marca a transigio para o prdximo sdculo adver-
tindo o home para a fragilidade do planet diante
dos atos de agressio da prdpria humanidade, bume.
rangue que se voltar8 contra seu langador se do
softer uma interrupCpo ou alteragio de cursor. Mas a
ecologia ainda 6! uma cibncia tiio imatura quanto a
economic que Adam Smith, David Ricardo e Karl
Marx encontraram e moldaram. Nlo surpreende que
os critbrios de avaliagio da ONU sobre o desempe-
nho dos escolhidos para o pr~mio "Global 500"
sejam tio prec~trios ou, em alguns casos, tio pouco
rigorosos.
Segundo as estatfsticas disponfveis, o negdcio
ecolbgico movimentou no ano passado 165 bilhoes
de dblares. B uma quantia respeitivel. Mas sob a
rubrica "negbcio ecol6gico" se abrigam itens tio
dfspares quanto recuperagIo de areas florestais de-
gradadas on reciclagem de produtos fabricados pelo
home. Ou seja: nio propriamente a recomposiSio
da paisagem natural, mas a criagio de circuitos fe-
chados para a circulagio de bens artificials. Empre-
sas que antes precisavam conviver com a imagem
negative de agressoras do meio ambiente, agora
ocupam espago na mfdia para divulgar iniciativas
nobres e apresentar somas razo~veis que teriam
aplicado na defesa da ecologia. A sociedade como
um todo ainda nio est8 em condi~ges de auditar es-
sas contas, separando o joio do trigo, o que 6 muito
mais engenharia do que efetivamente ecologia. Essa
incapacidade atual talvez explique a inclusIo da
Alcoa, a maior produtora de alumfnio do planet (o
aluminio 6 obtido atrav~s do mais poluente process
industrial), entire os homenageados pela ONU.
Essa falta de densidade analftica e de massa
crftica informative permit tamb~m que, por todo o


planet, seja possfvel aos poderosos de plantio ma-
nipular ou mesmo fraudar a opiniio pdblica, ven-
dendo gator por lebre. O president norte-americanor
George Bush e o primeiro-ministro sovigtico Mi-
khail Gorbatchey encerraram sua reunilo de cdipula
com o selo ecoldgico. No Brasil, o president Fer-
nando Collor conseguiu destacar-se, na enxurrada
de events do dia da ecologia, anunciando um plano
de combat As agress~es ambientais na Amazcinia e
no Pantanal que seria comovente, nio fosse mais
um capftulo de novela apresentada quase todos os
anos. Collor pode at6 cumprir o que anuncion e agir
com efici~ncia, mas a impessoalidade da adminis-
tragio pdblica, sobretudo na dimensio paquiddrmica
que assume no Brasil, recomenda ceticismo, se nBo
descrenga.
N6o foi tanto o impact das queimnadas recor-
des de 1987 que provocou a redugho dos indices de
fogo na Amaz6nia em 1988 e 1989, mas a crise
econdmica e a suscetibilidade dos financiadores es-
trangeiros, que, em seus pauses, enfrentam uma so-
ciedade muito mais atenta (embora nem sempre bem
informada) a questio ecoldgica. Assim, se 1990 for
um ano de baixa na devastagio e assim credenciar o
president Collor ao "Global 500" do prdximo ano
(colocando mais um trof~u em sua congestionada
parede), o feito dever8 ser creditado no autor do
feitigo que atormenta a consci~ncia ecoldgica deste
final de stculo: a economic. No Brasil, por forga de
uma esquizofrenia aguda, a natureza vai bem quan-
do a economic vai mal, dualismo sem ponto de
equilfbrio para harmonizar a vida do cidadio co-
mum, afastado dos prazeres da natureza e tamb6m
do usufruto das obras humans.

Quadro de assinantes
O Jornal Pessoal possui o control complete de
910 assinantes. HA outros 170 com informag6es
parciais e 60 assinaturas grdtis. Das 910 assinaturas
listadas no levantamento por computador, 333 esta-
vam vencidas na primeira quinzena de abril. Outras
136 venceriam entire as edigbes 63, em circulagio, e
64, formando um total de 469 assinantes plenamente
atendidos, com compromissos em dia pelo journal.
HA outros 451 assinantes ainda com direitos a rece-
ber, mas 338 deles terio suas assinaturas vencidas
entire os ndmeros 65 (90 assinantes), 55 (101) e 67
(69). HA apenas 10 assinantes comn direito a receber
at6 o ndmero 72 e 22 at6 o ndmero 71. O journal,
portanto, tem condiq6es de honrar seus compromis-
sos e at6 brindar um grupo representative de assi-
nantes com mais do que eles teriam direito.


A eitigaria em agaio









que transformaram o jornalismo em balcio de neg6-
cios, o anduicio da suspensio do Jornal Pessoal soa
como melodia. De onde eles se encontram podem
vir interpretag6es que tentarfio desmoralizar a histd-
ria deste journal e dela extrair lig6es viciadas por
seus interesses escusos. Dirio que se trata de mais
um fracasso, outro journal que fecha por nio saber
competir no mercado. Por "mercado" entenda-se
um ponto de venda a qualquer titulo e por qualquer
prego da mercadoria que, Ifmpida, 6 a mais impor-
tante na sociedade modern e, suja pelas conve-
nitncias, a mais perigosa: a informagio.
Nio constitui desdouro dizer que este journal
chegou ao seu limited. Todos imagin~vamos que esse
memento chegaria muito mais cedo, alguns supondo
que viria ji. no segundo ndmero. Prolongar a vida
do JP custou-me muito em patrim6nio material, em
sacriffcios impostos g famflia, em atos de rendincia
e num custo pessoal que sd nio pode ser integral-
mente repassado ao leitor para conhecimento porque
nele estio computados, como principals, aspects
da vida a que se convencionou chamar de fore [nti-
mo. Insistir em manter o Jornal Pessoal a partir
deste ponto significaria cometer suicidio e isto
n6o 6 apenas uma metifora.
HaverB leitores reagindo a estas explicag6es
com a disposigfio de manter o journal a qualquer pre-
go. Ele 6 um estandarte de luta. Concordo. Passados
33 meses, por~m, hB o risco de que o belo sfmbolo
permanega desfraldado, mas sucumba sob ele quem
o vinha carregando.
Sem condig6es objetivas para manter uma pu-
blicaCio independent e com a auto-castragio da
grande imprensa, justamente no memento mais rico
da hist6ria da Amaz~nia, tenho a forte sensagio de
que o jornalismo local esgotou-se. Nio se pode fa-
zer jornalismo que valha a pena sem dedicagio in-
tegral. Como dedicar-se a algo com tal intensidade
sem vibragiio? Uma simples informagIo colocada no
meio de uma mattria pode custar horas ou dias de
esforgo, consumido em conversas, deslocamentos e
leituras. Mas qual o resultado? Posso manter meus
leitores bem informados, sabendo "das coisas", pe-
netrando nos bastidores, vendo o outro lado das
quest6es tratadas pela grande imprensa (e por ela
omitido), mas, num universe de 1.200 assinantes
(ou sete mil leitores), serd isso o que de melhor
posso fazer depois de ter ultrapassado os 40 anos
de idade e chegado a 25 de profissio?
Nio minimize em nada os retornos que tenho
tido dos leitores do Jornal Pessoal. Essa resposta
imediata foi que renovou a minha fibra nestes 33
meses de envolvimento com o projeto de uma publi-
ca~go sem amarras e mordagas. Mas vem crescendo
em mim a consciencia de estar mantendo artificial-
mente um castelo de cartas suspense no ar. Para se
suster, a artificialidade cobrou de mim um prego tio
carol que me exrauriu. E uma das exaust~es foi a do
entusiasmo, da firme convicgio no trabalho que vi-
nha realizando, uma tarefa missiona~ria que nio po-
de ser desempenhada sem f6.
Sou grato ao jornalismo dilrio que pratiquei
sempre nestes 25 anos e sem o qual nfio sei se con-


de toda a minha vida professional: dar um
destiny ao Jornal Pessoal. Durante 33 meses,
Ceu e meus mais atentos leitores sablamos _
e temfamos que este memento haveria de chegar.
Ngo por acaso o Jornal Pessoal tornou-se uma das
raras publicagdes alternatives realmente indepen-
dentes que existia neste pafs. A chamada imprensa
nanica sd sobreviveu quando associada a grupos
politicos, instituig~es ou academias, o que thes ga-
rantiu a vida, mas comprometeu sua capacidade de
informar com isenglo a opiniio pdblica.
Durante esses 33 meses de vida e 63 edig6es,
desafiamos a descrenga geral e nosso pr6prio ceti-
cismo colocando nas mios dos leitores um journal
comprometido integralmente com a verdade e limi.
tado apenas pela capacidade pessoal de quem o fa-
zia. A ffsica financeira cobrava a nossa queda, mas
recri~vamos um campo gravitacional prbprio com
fibra, convicgio pessoal e muito sacriffcio. Estiva-
mos conscientes, no entanto, de que o desafio a
realidade objetiva nio seria eterno e talvez nem
mesmo tio duradouro como acabou se mostrando. A
hora da realidade chegou com a apuragio contibil
de um apreci~vel "buraco" nas contas do journal,
que vinha sendo coberto com retiradas do cada vez
mais raquftico orgamento de um jornalista indepen-
dente e com eventuais ajudas de amigos.
A inflexfvel realidade dos ndmeros ja teria si-
do a bastante para golpear o Jornal Pessoal de
morte se ele nio atendesse necessidtades vitals da
sociedade interessada nos problems amaz6nicos e
se nio se tivesse tornado uma questio de honra para
o seu redator solitario. Quem examiner a colegio
deste journal e confronti-la com as edigBes dos jor-
nais de Bel~m verificard que o JP ocupou um lugar
deixado vago pela omissio da grande imprensa,
omissio provocada pela fuga a responsabilidades
minimas diante da opiniko pdblica (sem a qual nio
existiria imprensa) e alimentada por esse persistent
e bem desenvolvido vfrus do conformismo e da dis-
plicencia que se instalou nas redag6es dos grandes
jornais, impedindo-os de aproveitar sua pr6pria es-
trutura material para oferecer a seus leitores um
acompanhamento minimamente digno e competent
do que acontece na regigo do globo de maior gla-
mour e mais triste condigio real.
Se a manutengio deste journal dependesse uni-
camente da resposta dos seus leitores, sua vida es-
taria garantida. Os gestos espontineos de solidarie-
dade, os testemunhos de pessoas, as iniciativas
andnimas de apoio e tantos outros atos de aprego
slo mais comoventes do que algumas reafies furio-
sas dos poucos, mas poderosos, que foram denun-
ciados e criticados pelo JP. Ha campo f~rtil para a
semeadura, mas este jornalista esgotou sua capaci-
dade de semear informag6es na imprensa periddica
- e praticamente chegou ao limited de sua condigio
de jornalista.
0 jornalismo vital
Para os que temem o jornalismo de combat,
porque dele slo o alvo indescartivel, ou para os


O perfume fica no ar






Um jornalista, entretanto, nio pode voltar-se
exclusivamente para o passado ou reduzir-se a his-
toriador. O tempo present e os homes presents,
que constitulam a matdria prima do poet Carlos
Drummond de Andrade, slo tambem o nosso ali-
mento. Sempre que possivel procurarei repassar,
aos leitores das publicag6es que eventualmente me
abrigarem, as reflex6es que estiver fazendo sobre a
conjuntura.
Dadas as explicag6es, restam questdes priticas
e graves. O Jornal Peasoal nio pode simplesmente
parar de circular sem consulter seus assinantes.
Precise, alem disso, respeitar-lhes os direitos. Mi-
nha inten~go 6 tirar esta edigio normal e sair, na
prbxima, com um ndmero especial, um livro na for-
ma de journal sobre a Amaz6nia. Esse jornalivro ter8
um ndmero de piginas correspondent a soma das
piginas das edig6es em vigor. Todos os assinantes,
independentemente do admero de edig6es a que te-
nham direito, receberto esse livro em formato de
journal, grampendo, com capa mais dura do que a das
edigdes normals, para ser guardada e consultada.
Os assinantes que nlio concordarem com essa
proposta deverio nos escrever, manifestando sua
posigio. Nesse caso, nbs lhes devolveremos o valor
da assinatura que fizeram correspondent hs edig~es
que nio receberam, atraves de cheque, por correio
on de entrega pessoal, se residirem na Area central
de Bel~m. Ao mesmo tempo, enquanto nio circula a
edigio final e especial do JP, receberemos as mani-
festagdes dos assinantes sobre as colocag6es feitas
aqui. A decisio de suspender o JP 6, por enquanto,
apenas a de seu editor, que quer ouvir seus leitores.
Espero que todos nds estejamos conscientes de
que um journal como este, feito de vontade, determi-
naCio, garra e muito compromisso com a opinion
pdblica, pode giarar de circular por algum tempo,
mas nio morreri nunca. Se temos motives para la-
mentar sua suspensio, mais arguments ainda nos
sobram para acreditar na sua histdria. Ela indica o
caminho mais honroso e digno da vida: o da crenga
na forga da inteligencia, mesmo quando a mfdia in-
sista, em nossos dias camaleonicamente coloridos,
na inteligencia da forga.
Quinze anos atris, ao encerrar outra experien-
cia semelhante a esta, a do Bandeira 3, escrevi pa-
rodiando a bela mdsica de Jolo do Valle, que a
nossa flor o vento pode levar, mas o nosso perfume
fica: morando no ar. Essa energia fica e, a nao ser
que nos tornemos nada mais do que vermes, algu6m
a retomar8 no future, ou en mesmo para que futu-
ro haja que valha a pena viver.


As companhias
A jogada do ex-ministro Jader Barbalho foi
habil: atraiu para sua chapa o cantor e empresairio
Carlos Santos, o dnico dos candidates que poderia
roubar-1he votos (nas camadas C, D e E). Carlos
Santos esqueceu que, antes, havia sido passado para
trais por Jader na dispute pelo canal 10 de televisio.
Em polfticas, a memdria costuma atrapalhar. Jd o
ex-prefeito Sahid Xerfan, com a companhia do tam-
bdm empresa~rio Luis Rebello, somou maito pouco
voto, enquanto Rebello mostrou que entende de ga-
nhar dinheiro num setor de monopblio, o da nave-
gagno, mas 6 nedfito em polftica.


seguirei recompor-me profissionalmente (e mesmo
no plano pessoal, pois foi para realiza-lo que vivi
todo esse tempo). Afastado do jornalismo do dia a
dia por imposigio externa de uma imprensa que se
encolheu liliputianamente (o neologismo tem duplo
significado), on por opgio pessoal, sinto que 6 o
memento de procurer outro rumo. N~io 6 facil deixar
um campo de batalha para quem nele combateu
permanentemente. Se aparecer uma possibilidade
compensadora, certamente eu voltarei. Mas no mo-
mento me aguardam outras tarefas, que nio t~m re-
tornos tio imediatos e vivos, mas podem ter efeitos
mais profundos. B a hora de verificar se estou em
condigbes de responder a desafios que fui adiando
porque tinha encargos mais prementes.

Novos desafies

Um desses projetos 6 a montagem de um banco
de dados sobre a Amaz~nia, capaz de estabelecer
uma mem6ria regional. Hegel e Marx disseram tudo
sobre os danos causados a um povo por sua falta de
membria. Eston armazenando as informagdes num
computador da Funtelpa, que montou uma estrutura
mfnima para permitir, dentro de mais alguns meses,
o acesso pdblico a essa base de dados. Esperamos
que, em future mais distant, se as idiossincrasias
political nio atrapalharem, qualquer pessoa no
mundo possa acessar so computador e ter so seu al-
cance a histbria recent desta regi~o, redigida de tal
maneira que podera ser usada sem precisar de qual-
quer adaptagIo. A aventura do Jornal Possoal esta-
va me impedindo de me dedicar a esse empreendi-
mento, cuja significagIo qualquer leitor podert
avaliar.
Outro projeto que exige de mim mais do que en
poderia lhe dar em fungo do JP 6 o do Guia da
Amaz~nia. A par do banco de dados, pretend reu-
nir numa publicag~o todas as informagBes necess;-
rias a compreensio do que esta acontecendo na
Amaz~nia dos nossos dias. Aldm de center alguns
aspects inerentes aos almanaques, como o da
Abril, esse guia sert analftico, situando os proble-
mas numa moldura que possa explica-los on ilumi-
n-los. Se bem sucedida a empreitada, o guia pode-
rB tornar-se uma obra de consult 4til.

Complementarmente a essas duas tarefas, ve-
nho cumprindo um program sistemtitico de pales-
tras no Ndcleo de Altos Estudos Amaz~nicos da
Universidade Federal do Para, onde tamb6m me
coloco a disposigio de todas as pessoas que estive-
rem trabalhando sobre questdes regionals, para aju-
dd-las no que for possfvel e aprender com elas.
Para sustentar todo esse trabalho, estou orde-
nando e classificando um enorme volume de docu-
mentos, anotag6es e material de apoio que juntei em
25 anos de profissio e que se fai acumulando, sem
qualquer tipo de tratamento, a espera do memento
propfcio. Desse trabalho espero que tamb6m possa.
resultar uma histdria da imprensa no Pard a partir
da Segunda Guerra Mundial, onde esta a origem do
process de integragio econ6mica imposto a region
colonialmente. Quero ver como essa nova etapa
histdrica se manifestou na imprensa e como a im-
prensa se posicionou (se chegou a assumir uma po-
'sigio) sobre a questio.









maticamente: os sensors do Slylab registra.
ram, a 900 quil6metros da Terra, um vasto in.
c~ndio que ocorria no sul do ParB. O fogo
consumiria pouco menos de 10 mil hectares de mata
em tres ou quatro meses. A Volkswagen, super-em.
presa alemi especializada na montagem de vefculos
automotores at6 descobrir uma suspeita vocagio de
fazendeira nos sertbes paraenses, era a responsivel
pelo fogar~u. Os cientistas da Nasa, a ag~ncia es-
pacial dos Estados Unicos, os dnicos que monitora-
vam o Skylab, mandaram as imagens para seus co-
legas do Inpe (Instituto de Pesquisas Espaciais), de
Sgo Paulo, que haviam iniciado um ano antes o
primeiro program de sensoriamento remote siste-
matico.

A reaCIo de escindalo dos cientistas norte-
americanos se propagou, como se podia esperar em
cultures mim~ticas, sempre a espera da eclosio de
fats detonadores a partir do centro metropolitan.
Um famoso bidlogo foi a reunilo do Conselho Dell-
berativo da Sudam em Beldm relatar o escindalo: na
sua fazenda de Santana do Araguaia, no extreme sul
do ParB, a Volkswagem estava pondo fogo em um
milhio de hectares. Na verdade, a area incendiada
era 100 vezes menor, mas ainda assim, se os brasi-
leiros ji estivessem mais familiarizados comn a lin-
guagem dos sat61ites e a realidade regional, caberia
uma pergunta embaragosa: como pudera a Volkswa-
gem queimar, numa s6 Safra de verlo, 10 mil hecta-
res, se dispunha de apenas 10% dos recursos mate-
riais e humans da Jari Florestal e Agropecudria,
entio do miliontrio norte-americano Daniel Ludwig
(hoje nacionalizada), que conseguira um maximo de
12 mil hectares em um ano?

Bem formulada, essa pergunta poderia levar a
uma investigagIo s6ria sobre os m6todos de desma-
tamento utilizados nas frentes pioneiras amaz6nicas
entire o final da d6cada de 60 e o infcio da d6cada
de 70. Falou-se muito no emprego de desfolhantes
qufmicos, capazes de permitir a queima da vegeta-
Clio em tempo muito menor do que atravts do fogo.
Sd que os efeitos negatives de produtos quimicos


como o agent laranja, entio aplicado pelos EUA
na guerra do Vietnam eram incomparavelmente
maiores. O sat61ite ofereceu a pista para os ecolo-
gistas investigarem um caso concrete, mas eles amn-
da nio estavam em condigdes de perceber esse sinal
(e estario hoje?). Defender o meio ambiente 6 pro-
va de boa intenglo, mas s6 a vontade nio garante a
eficdcia da intengio.
As imagens mandadas do espago pelos sat61ites
que monitoram o planet, de uma famflia jb extensa
(Skylab, Landsat, Goes, NOAA, Spot, etc.), permi-
tiram colocar o debate sobre o que acontece com a
Amaz~nia na prancheta dos ndmeros. Os crfticos da
forma de ocupagio da regilo, avalizada pelo gover-
no federal, eram encarados com indiferenga ou des-
prezo: eles nada sabiam do que falavam, diziam os
"pioneiros" da mata on do escritdrio. Mas quando.
o olho eletr6nico do mais sofisticado engenho de
informag~es ja produzido pelo home comegou a
registrar o avango das vorazes frentes de devaista-
gio da floresta, a situagio mudou de figure.
Outro sat61ite, o NOAA-9, avisou que, em
1987, metade de todas as derrubadas de florestas do
planet Terra ocorreram durante cinco meses nos
limits amaz6nicos. Naquele ano, a m~dia de des-
matamento, que ja garantia a Amaz~nia um suspeito
primeiro lugar mundial, crescera tr~s vezes. Foi
como se metade da Boliyia, 23"- maior pafs do mun-
do, tivesse vindo abaixo num inico verio. Esse re-
gistro inscreveu de vez o sat61ite na hist6ria da
Amaz~nia. Nio espanta, assim, que neste m~s Ma-
naus abrigue o maior encontro de sensoriamento
remote de todos os tempos, reunindo quase 500
cientistas de v~rios pauses. O simpbsio pode contri-
buir para o amadurecimento da cibncia brasileira no
uso de uma ferramenta de importincia decisive para
impedir que a Amaz~nia continue, a cada ano, mar-
cada pelos cemit~rios de cinzas espalhados no ras-
tro da mais predadora de todas as frentes pioneiras
da histdria da humanidade. Que o mais sofisticado e
o mais primitive instruments de agio do home, o
fogo e o sat61ite, se encontrem na Amaz~nia nlo
impression apenas os que se tornaram incapazes de
sentir a forga desse paradoxo.


ouro do pafs, registrou oficialmente 13,7 to-
neladas do metal. Mas o DNPM (Departa-
mento Nacional da Produgho Mineral) acre-
dita que a produgIo real deve ter alcangado 150 to-
neladas. A receita que entrou no circuit econdmico
legal foi de aproximadamente 300 milh6es de d6la-
res. O dinheiro desviado atrav6s da evasio e do
contrabando somou US$ 1,7 bilhio. Devem ter fi-
cado no Estado entire 30 e 50 milhdes de ddlares. O
restante da renda cain nas muitas vias de drenagem
e sucgio que acabam devolvendo o capital ao seu
ponto de origem e renovando as fontes da concen-
tragio de riqueza e das disparidades interregionais.
Agora o DNPM anuncia que vai gastar US$
100 milh6es apenas na primeira etapa de um projeto


para tentar descontaminar a bacia do m~dio rio Ta-
pajds, com 70 mil quilbmetros quadrados, de onde
se extrai dois tergos do ouro do Estado. At6 que as
outrora cristalinas Aguas do rio possam readquirir
sua qualidade original, o departamento ainda nio
sabe quanto ird gastar. Certamente nio realizaria o
servigo, indispens~vel para que nio morra um dos
rios mais extensos e belos do pafs, se tivesse que
financi8-lo com a renda da prdpria atividade aurffe-
ra. Os problems que ela causa e os custos que
acarreta superam em muito os belieffcios que en-
gendra. E quanto mais tempo transcorrer sem que
essas quest6es sejam enfrentadas, mais graves e
dispendiosas elas se tornado.
Um levantamento efetuado pelo DNPM e a
Universidade Federal do Pard concluiu que, entire


As advertancias do c~u


Um milhaio sob ameaga





ria do uso da terra as exigbncias impostas pela ex-
ploragio racional da cobertura vegetal, foram con-
sideradas her6tricas e descartadas. De desbaste em
desbaste, geralmente executados nas depend~ncias e
extens~es do Conselho de Seguranga Nacional, o
document final remetido no Congresso, nos ex-
tertores da administration Figueiredo, era um simu-
lacro do que o ministry do Interior, Mgrio Andreaz-
za, havia apresentado originalmente.
No seu primeiro deslocamento de Brasflia, para
visitar os garimpos instalados em territbrio indigena
dos Yanomami, em Roraima, o president Fernando
Collor de Mello, prometeu zonear a Amaz~nia e
apontar-lhe os recursos iniciais no espago de um
ano. Para avalizar a promessa e garantir-lhe facti-
bilidade, so lado do president estava o secret~rio
especial do Meio Ambiente, Jos6 Lutzenberger.
Dois meses se passaram desde o andncio de
Collor em Boa Vista e o que se sabe do levanta-
mento 6 atraves de discretos vazamentos de infor-
ma~ges de um reduzissfssimo grupo de t~cnicos que
trabalha no projeto. As Universidades, sociedades
n~o governamentais e entidades de classes ainda nio
foram consultadas. Neste caso, como em v~rios ou-
tros, o estilo do governor Collor se parece bastante
com o autoritarismo da administragIo M~dici.
Como faltam 10 meses para o final do prazo
dado pelo president e a tarefa de definir um zo-
neamento econdmico-ecoldgico para toda a Amaz6-
nia 6 extremamente complex, n~io sera novidade se
o document se tornar mais um amontoado de papel
sem significado pratico. Mesmo porque os recursos
que poderiam ser mobilizados para realizer um ser-
vigo mais complete e profundo estio disperses, des-
sincronizado. O governor decidiu montar uma rede
de estagdes para monitorar as imagens de sat61ite
esquecendo as unidades isoladas que jB existiam e
que custaram um investimento respeitivel. A dis-
persio de esforgos e o paralelismo de estruturas ad
se explicam pelo fato de que o governor Collor tem
a pretensio de ser o marzo zero de uma nova era,
sem contribuidade com as anteriores.
O governor Figueiredo consuming cinco meses
em consultas e semind~rios para produzir o antepro-
jeto da nova lei florestal e do zoneamento da Ama-
z6nia, um document denso, talvez o mais ousado
jB produzido pela administration Federal sobre a
Amaz6nia. No trabalho, o governor se comprometia
a realizer a tarefa em cinco anos, alocando logo re-
cursos orgamentdrios para financidi-la, sem o que
ela se juntaria a uma long list de obras de santa
Engrtlcia. A metodologia do levantamento prometi-
do pelo governor Collor nio tem qualquer dessas ga-
rantias e pressupostos, como se mais important do
que fazer fosse promoter.


JOrn l PCSSOal
Editor responsdvel: Lurcio FIdvio Pinto
Enderego (provisbrio~ Rue-k itdes Lobo, 871
Bel'"- Pard, 66.000 -. Foneii q3728
--- Diagr aqo e i~s ra~d4~; :guI"nt
lr 0 a \ bcdig~iccp aitc i
t-? i" `


1980 e 1988, foram langadas nos rios da Amaz~nia
entiree os quais os casos mais graves sio os do Ta-
pajds e do Madeira) 1.800 toneladas de meredrio,
principal produto usado para a obtenglo do ouro
nos garimpos, que, nesse perfodo, contribufram com
216 das 295 toneladas oficialmente produzidas no
pafs (fragio residual da produgho efetivamente rea-
lizada). Essa quantidade supera em nove vezes a
que foi langada no Sudeste do Japho, entire 1953 e
1960, e que deu origem ao chamado "Mal de Mina-
mata Em conseqtiincia da contaminagio de mer-
cdrio na pequena bafa do literal japon~s, 133 pes-
soas morreram e outras trgs mil ficaram inutilizadas
para o resto de suas vidas. Na Amazbnia, o governor
acredita que um mihlho de pessoas estejam atual-
mente expostas a risco de contaminagio semelhante
por morarem As margens de rios onde hB garimpa-
gem com meredrios.
Se tivesse que financial a primeira fase do
projeto de recuperagio do Tapaj6s apenas com a re-
ceita tributgria proporcionada pela garimpagem de
ouro, o governor levaria cinco anos para executor
a tarefa, sacrificando as administragBes municipais
dessa grea, que ficariam privadas de sua principal
fonte de renda. Praticamente teriam que parar todas
as obras pdblicas locals para uma concentragio de
esforgos, num prazo de tempo extremamente exten-
so (ja que o DNPM sd est8 pensando na primeira
etapa de um projeto mais amplo), para despoluir o
rio. Como esse esquema 6 invirivel, o que ird ocor-
rer ji se sabe: os particulares criam problems pZ-
blicos com sua atividade predat6ria, obsessivamente
dirigida para o lucro fa~cil e imediato, e a coletivi-
dade terb que revolv6-los remanejando recursos de
outras fontes, que irio falter para tender quest~es
cr~nicas. Numa contabilidade mais atenta, essa re-
lagio custo-beneffcio apresentard um saldo ampla-
mente negative.
Se o plano de recuperagio do Tapajds fosse
aplicado ao reflorestamento dos 80 mil quilbmetros
de floresta primitive que foram queimados e des-
matados em 1987, ano record desse tipo de devas-
tagio, o investimento seria de oito bilhdes de dbla-
res. Esse valor (mil d61ares por hectares de vegeta-
glo original cientificamente recomposto) contrast
com a receita da exportagio de madeira naquele
ano, que ficou em US$ 200 milh~es, e com o que se
poderia ganhar se o home jB; pudesse manejar ra-
cionalmente a floresta amaz6nica (US$ 64 milh6es,
ou US$ 8 mil por hectare), num cslculo tedrico,
simplesmente aritmttrico, mas capaz de demonstrar
a irracionalidade vigente na region.


As intenq~aes

Com dois meses na presid~ncia da Repdblica, o
general Jolo Figueiredo anuncion o infcio imediato
do zoneamento ecol6gico-econdmico da Amaz~nia,
em maio de 1979. Durante os cinco meses seguin-
tes, em varies cidades dentro e fora da regiio, re-
presentantes da sociedade e da comunidade cientffi-
ca foram chamados para diversas reunites que re-
sultariam em contribuigdes para o plano. O resulta-
do desse esforgo foi um alentado e pertinente do-
cumento. Algumas de suas principals recomenda-
gdes, como a de compatibilizar a dimensio fundid-