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Jornal pessoal
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Permanent Link: http://ufdc.ufl.edu/AA00005008/00051
 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00051

Full Text








POLITICAL



Roto e esfarrapado
O Para nunca viu uma troca de acusaq6es tao violent
entire suas principals autoridades. Ela tornou-se
uma atragao pela television, que revive cenas do passado
com "glamour" eletr~nico Ade "strip-tease" moral.


Ano Ill NO 61


Circula apenas entire assinantes


soras de television de Bel~m ganhou nova atra-
glo. Repleta de lances de viol~ncia verbal e
despojamento moral, essa atragio tem con-
quistado elevados indices de audibncia e catalizado
o interesse da opiniko paiblica, mas certamente esti
provocando a maior onda de perplexidade e espanto
na hist6ria recent do Estado do Pard. Os mais no-
vos estio sendo introduzidos a um passado da polf-
tica paraense que, para os mais velhos, traz como
novidade a incorporagio dos meios de comunicaSgo
eletr~nicos e o fato de que agora o pugilato trava-se
entire balratistas e baratistas, personagens antedilu-


vianos de uma era ad nio superada inteiramente
porque, do ponto de vista politico, o ParB anda para
tr~s.
O ex-ministro Jader Barbalho duas vezes e o
governador H61io Gueiros uma vez, at6 a semana
passada, haviam ocupado emissoras de r~dio e tele-
visio para desfechar, um contra o outro, as mais
duras e graves acusag6es que pessoalmente jB se fi-
zeram tio altas autoridades do Estado. Diz o ex-mi-
nistro que o governador faz acusagdes levianas e
absurdas porque 6 um alcodlatra. Acusa-o de falso
moralists, que aponta a corrupgio dos outros e tent
nio ver a corruppio dentro de sua prbpria familia.


Jor nal Pessoal
Liicio Flitvio Pinto


29 Quinzena de Abril de 1990





governador Alacid Nunes funcionaram como guin-
daste para carregar a candidatura do jornalista e
cartor~rio, fazendo-o veneer o senador Jarbas Pas-
sarinho, individualmente o mais votado. Em 1986,
nio foi o trabalho de quatro anos no Senado que fez
de Guciros governador, mas a mbquina de votos
montada por Jader Barbalho, em agio tio pessoal
que excluiu a'alianga com Alacid.
No Senado, Gueiros se destacara por uma in-
cansivel fustiga~go so senador Passarinho e uma
defesa intransigente dos interesses da administrator
Jader Barbalho, chegando mesmo a obstruir as ses-
s6es plend;rias para atingir ease ob~jetivo. No gover-
no, as- queixas e ataques foram desfechados apenas
nos bastidores ou cercados de cuidados e sutilezas
at6 julho de 1988, quando o medico Henry Kayath
sofreu a primeira das ofensivas que acabariam pro-
vocando sua demissio, com desonra, 15 meses de-
pois. A instauragio de sindic~ncia e, depois, inqu6-
rito contra atos de Kayath na Superintend~ncia da
Sudam sinalizaram o estado de- alerta. Mesmo que
endossados pelo entfio ministry do Interior, Jolo
Alves, e pelo president Jos6 Sarney, as hostilida-
des tinham um autor oculto: Jader Barbalho. Jg sua
motivagio era clara: cortar as asas do ex-amigo,
colocado no cargo pelo pr6prio Barbalho, masqune
queria ter v6o prbprio, e tird-lo do comando de am
cargo estrat~gico para o esquema politico do gover-
nador, que ji n~io contemplava o ministry. A partir
desse memento, os dois antigos amigos e correli-
giond~rios comegavam a se tornar inimigos, nio pelo
ch~que de vis6es polfticas e ideoldgicas distintas,


O governador seria ainda um home sem carit~er,
capaz de todos os tipos de inconfidgncias e desleal-
dades. JB H61io Gueiros disse, com todas as letras,
que Jader Barbalho 6 um ladrio, que ele enriqueceu
apropriando-se do dinheiro pdblico. Para isso,
montou uma mifia que se locupleta e corrompe to-
dos os stores da vida pdblica.
Nio se sabe o que 6 mais espantoso: se a in~r-
cia geral depois desse autgntico "streap-tease" mo-
ral, que nIo conseguiu sequer despertar o interesse
do Ministerio PdSblico, teoricamente o brago judicial
do cidadio, ou se a motivagio dos dois contendores
para escavocar em lama negra e fMtida sem perceber
o odor dessa atividade. Talvez as duas situag6es se
expliquem pelo grau de degradagio e decad~ncia dia
vida pdiblica paraense, contaminando, por extensio
e derivative, os padres socials de avaliagio.
H61io Gueiros e Jader Barbalho se abragaram e
trocaram mdtuos e fartos elogios a 15 de margo de
1987, quando o primeiro recebeu do segundo o
principal cargo pdiblico do Estado. A troca de faixa
era feita entire amigos e correligiont~rios de muitos
anos, originsrios da mesma matriz political. Como
um dos redatores da prestigiosa coluna Rep~rter 70,
de O Liberal, Gueiros tinha sido, so lado do ex-vi-
ce-governador Newton Miranda, outro cardeal da
coluna, respons~vel pelo incessante destaque dado I
carreira parlamentar do joyem politico. Mas Gueiros
ji nio tinha densidade eleitoral prdpria (depois de
ter sido deputado federal no final da decada de 60)
quando Jader o indicou candidate so Senado, em
1982. As sublegendas do PMDB c o apoio do entio


Na sua primeira entravista na TV, Jader Barba-
lho disse que indicou o medico Henry Kayath para a
Sudam, em abril de 1985, por achar que a velho pes-
sedista tinha sido um injustigado em 1964, acusadq
em inqudritos conduzidos pelos militares que derru-
baram Jodo Goulart de responsdvel por vdlrias irre-
gularldades na Secretaria da Fazenda do Estado, in-
clusive enriquecimento il/cito. Na 4poca, Jader era
"um rapazola, adolescente, tendo formado opinido
depois, pelo pai, que the havia garantido ter sido Ka-
yath vftima do entdio governador Jarbas Passarinho,
mas que era um home competent, s~rio a prepara-
do. Jader acreditou tanto que tirou Kayath das ativi-
dades mddicas no Rio de Janeiro, onde so fixara du-
rante 20 anos, completamente afastado das fungbes
pdblicas no Pard, dando-lhe a principal cargo da ad-
ministragdo federal na Amazdnia.
Por mero acaso, Jader sd descobriu a "outra
face" da personalidade de Checralla Kayath, como
preferiu tratar o ex-superindente, quando ele come-
gou a trabalhar para ser a successor de Hdlio Gueiros
e formou um esquema de poder com a governador
que exclufa o entiio ministry. Jader ndo lembrou na
entrevista que de 1983 a 1986 (portanto, durante sua
administragbo no Estado), Kayath era o responsdvel
pelas aplicagdes financeiras dos recursos do gover-
no no Rio de Janeiro, sem ter nonhuma compet~ncia
formal ou legal para isso e sem uma contabilidade
regular dessa movimentagdio de dinheiro. Os mais fn-
timos do ex-governador diziam que Kayath ndo ape-
nas era o secretdrio de finangas sem pasta, como
administrava os negdcios particulares de Jader -


sem fazer muita diferenga entre as duas fontes de
dinheiro, alid~s.
Nao foi qualquer md condugdo dos recursos da
Sudam que, provocando a sensibilidade de home
pdblico de Jader, a fez alastar Kayath da superinten-
ddncia, mas as articulagdes que o ex-amigo passou
a fazer junto a adversdlrios, montando um esquema
que ameagaria o retorno de Barbalho ao poder pleno
no Estado em 1990. O interesse pdblico ndio fai o
critbrio de escolha de Kayath jd na sua origem. Neste
ponto, acho que posso dar um depoimento de inte-
resse sobre essa questso.
No infcio de 1985, quando conversei pela cbitima
vez com Jader Barbalho abertamente, do amigo para
amigo, ponderei-lhe a inconveni~ncia da indicagdo de
Kayath para o cargo. Ele safra de Beldm sob um es-
tigma jamais eliminado porque ndo provada a falsida-
de da acusagdo documentada a ele imputada, que
nada tinha a ver com subversao ou iddias political,
mas com a gestdo do dinheiro pdblico. Aldm disso,
Kayath estava afastado do Pard hd multo tempo, de-
dicado &3 sua profissao. Jader iria reeditar as erros
cometidos pelo senador Jarbas Passarinho durante o
largo tempo em que pbde indicar quem queria para
cargos pdSblicos no Pardg, demonstrando quase sem-
pre infelicidade nas escolhas. Jader ouviu e nada
disse. Pouco tempo depois conseguiria junto a Sar-
ney a nameagdio de Kayath. Nao fazia isso pelos su-
periores interesses do Estado ou pela convicgdo in-
gbnua de adolescent, mas por interesse pessoal, a
mesmo tipo de interesse que a levou a tirar Kayath
do cargo e a atacd-lo agora, na posigdo de fariseu.


A falsa ingenuidade






mas por interesses pessonis e corporativos confli
tantes.
So nobres fossem as razdes da dissenglo,
Guciros poderia ter revelado para a opiniio pdiblica
o que comeg~ou a descobrir apenas tr~s meses depois
do ter assumido o cargo de governador. Em junho
de 1987, o Banco do Brasil bloqueou a cota do ICM
do Estado para cobrir com ela o vencimento da pri-
meira prestagio do empr~stimo de 20 milhdes de
ddlares contrafdo por Jader a apenas tr~s dias de
passer o governor. A transa~go d~o previa prazo de
car~ncia, vencia trimestralmente, em 10 prestag6es,
com todos os encargos, como se fosse um super-pa-
pagaio, um present de grego deixado ao amago. Jg
antes Gueiros soubera que, num de seus 6ltimos
atos, Jader efetivara seis mil funcionsrios pdblicos
admitidos no Estado a tftulo preedirio, sem concur-
so. E, no quatrienio, colocara na folha estadual cer-
ca de 15 mil pessoas.
O governador tambem teve uma no~go exata
dos metodos de ger~ncia e administragIo dos recur-
sos pdblicos de seu antecessor quando, dias depois
da posse, a Construtora Andrade Gutierrez apre-
sentou-se como credora de 116 milhoes de ddlares'
que ela havia obtido atrav~s de empr6stimo para
construg~o da PA-150 (a estrada de ligagio de Be-
16m ao sul do Estado, considerada a principal reali-
za~go do governor Barbalho), por ela mesma cons-
trufda nos principals trechos. O acerto anterior pre-
via que o governor ficaria com 20%. O governador
exigiu metade dos recursos e s6 acciton receber os
emissgrios da empresa mineira depois que eles con-
cordaram com a nova dedugio a contragosto, evi-
dentemente.
Esse tipo de acerto, que nio consta dos ma-
nuais da administragio pdblica, tornou-se padriio na
ca6tica formal de agir de um governador que, como
Jader, centralizava tudo e confundia seus negbcios
com os do Estado. Mas isso jamais foi novidade pa-
ra H61io Gueiros, como ele prbprio admitiu. Na en-
trevista dad a TV Cultura no dia 16, o governador
revelou que, no final de 1986, Jader lhe comunicara
que trbs cheques administrativos emitidos pelo Ban-
co do Estado do ParB seriam na verdade repassados
para a campanha eleitoral de Tancredo Neves. Uma
outra operagio desse tipo, de 300 mil d61ares, ser-
viria para o pagamento de propina ao entio ministry
do Planejamento, Delfim Neto, que assim liberaria
empr6stimo de US$ 20 milh6es para o Estado. Guei-
ros s6 manifestou esclndalo e indignagio diante de
tais opera~ges quatro anos depois, sem parecer
atentar que sen sil~ncio diante do relate de transa-
gdes evidentemente irregulares significava conivbn-
cia e aprovagio.
Mesmo quando experimentou no exerefcio do
governor o amargor dos desmandos praticados por
Jader, Gueiros mostrou uma tolerlncia fant~stica
para com o ex-ministro. Na mensagem que mandon
para a Assembl~ia Legislativa, no inkcio de 1988,
classificou de "vit6ria maidiscula" a revogagio do
decreto-lei 1164, que havia federalizado as terras
devolutas estaduais da Amazbnia, quando fora con-
venientemente informado (inclusive por este JOR-
NAL PESSOAL) de que o ato do entio ministry da
Reform Agrd~ria nio passava de manipulagio e en-
godo. Engolindo sapos, H61io continuou a aparecer
sorridente ao lado de Jader. A toler~ncia a essa


diet talvez fosse alimentada por seus pianos de
afastar o aliado inconvenient no memento certo, na
hora de escolher seu successor. S6 quando a princi-
pal pega dessa engrenagem foi imobilizada, com a
ameaga langada contra Kayath, 6 que o governador
comegou a abrir seu jogo e a radicalizar progressi-
vamente sua linguagem, at6 que Jader e ele se tor-
nassem inimigos de inf~incia.
As dendncias. que agora Gueiros vem fazendo
publicamente slo, em grande parte, verdadeiras.
Mas se o principal alvo 6 Jader Barbalho, resvala
munigio suficiente para atingir e de formal letal -
o atirador. Em~ primeiro lugar, porque 6 cdmplice de
alguns desses atos que procura atribuir solitaria-
mente a Jader. Em segundo lugar porque, ao receber
ataque de arma de idbntico calibre, em relagio B
qual o ex-ministro mostrou que ele niio est8 imune,
o governador deixa patente para a opiniio pdiblica
sd ter entrado nessa guerra por interesse contraria-
do e nio pela defesa da causa on da moralidade pdl-
blicas. Em terceiro lugar, porque ambos, mesmo
com currfculos distintos, usam os mesmos meios e
visam fins semelhantes. Que confianga pode inspi-
rar uma autoridade que guard confidencias sujas
(d'omo as de Jader sobre funds espirios de campa-
nha eleitoral e compra de autoridade) durante qua-
tro anos para s6 reveld-las no auge de um litigio
passional?
Uma avaliagio isenta da troca de acusagdes
poderia acabar saindo favorlvel, em terms estrita-
mente individuals, no governador, capaz de explicar
mais facilmente do que o ex-ministro a origem do
seu patrim~nio pessoal. Mas essa mesma avaliag~io
certamente chegaria g conclusio de que H61io Guei-
ros niio 6 alternative a Jader Barbalho e que a dife-
renga entire os dois 6 mais de matiz do que ~de
substfincia.
Na guerra que os dois travam, bem ao estilo
baratista, mais important do que estar com a razio
6 veneer. A verdade, alias, 6 apenas um instrument
usado conforme as conveni~ncias. Por isso, nenhum
dos contendores procura a verdade at6 o fim. Estan-
cam onde lhes convgm, da mesma maneira como
descartam as pessoas conforme sua utilidade. O ex-
ministro jogou no fogo seu correligiondrio, o de-
putado federal Manoel Ribeiro, que na Secretaria
dos Transportes foi o responsivel pelos atos de fa-
vorecimento aos filhos do governador.
JA Gueiros afirmou que seu ex-secretsirio da
Inddstria e Com~rcio, Nelson Ribeiro, nio pode ser
candidate a deputado federal por ter sido punido
pelo Banco Central. Nelson realmente foi punido,
na condigio de president do Banco do Estado do
ParB, em cuja gestio vd~rias irregularidadades foram
cometidas, mas a pena foi s6 a suspensio tempor8-
ria do exercicio de atividades bancsirias, uma das
formas mais brands de sanglo administrative que o
Banco Central tinha a sua disposigio. O ex-secretd-
rio continue elegivel, mas, por ter ido a estag;io de
televisio ver o program de Jader Barbalho, ja pode
se considerar inimigo do home que na vespera o
elogiava como competent, digno e honest, embora
muito submisso ao poder.
O pugilato Gueiros x Barbalho reforga a con-
vicq~o da opiniio pdiblica de que os papeis politicos
no ParB estio muito acima da capacidade dos perso-
nagens.





entire o governador H61io Gueiros e o ex-mi-
nistro Jader Barbalho, a verdade da mentira
nio 6 tarefa fs~cil. Os dois exibiram documen-
tos diante das cameras de televisio, mas nio entre-
garam esses pap6is a um analista imparcial para um
exame t~cnico, desapaixonado. A dimensio da in-
vestigagio a ser feita tambem impossibilita um jufzo
final sobre cada um dos itens apresentados, princi-
palmente porque cada uma das parties enquadra es-
sas ag6es em vsirios dos titulos do Cddigo Penal:
peculate, estelionato, enriquecimento ilfcito, nepo-
tismo, etc. Diante da gravidade de algumas dessas
denducias, numa sociedade mais evolufda um repre-
sentante do Minist~rio Pdiblico jB deveria ter cha-
mado as autoridades & Justiga para dar infcio I apu-
ragio penal e criminal das responsabilidades, todas
elas de alguma maneira origind~rias on resvalando
em recursos pdblicos. A falta dessa elementary de-
monstragio de zelo pela coisa pdiblica, caberia &
imprensa fazer uma checagem rigorosa de todas as
hist6rias suscitadas e repassar os resultados g so-
ciedade. Seria a maneira de transformar uma lava-
gem de roupa suja incontinenti numa prestagIo de
contas hqueles qixe, no final de tudo, paga essa
conta: o povo.
Ainda na precariedade de dados documentais
comprobatdrios, pode-se fazer algumas observagdes
mais pertinentes do que as agress6es gratuitas a


respeito de algumas das questdes mais importantes
reveladas pelas duas parties.
Filhos do governador O ex-ministro Jader
Barbalho tem razio quando diz que os filhos do go-
vernador entraram para a administration pdblica ou
se tornaram bem sucedidos na iniciativa privada
com a ascensio do pai, mas exagera em alguns ca-
sos por falta de proves. Paulo Erico, que era apenas
um advogado contratado do escritbrio Klantau, pas-
son a ter um movimentado escrit6rio, assumindo
causes dependents on relacionadas com o Estado,
como a da Rodomar contra a Transbrasiliana (a mu-
danga de patrono foi nlo cursor da agio, envolvendo
concessio estadual de linha de 6nibus). Foi asses-
sor de Henry Kayath na Sudam justamente no mo-
mento em que o drgio beneficiava a Ebal, empresa
de construgio naval na qual o irmio, Andr6, 6 di-
retor industrial. Paulo tornou-se assessor jurfdico
da Ebal, assim como da Copem, responssvel pola
construgIo da passarela em frente no Instituto Lau-
ro Sodr6 (que teria custado 28 milhdies de cruzeiros,
"a mais cara do mundo", segundo Barbalho) e em-
preiteira da Centrais Eletricas' do Pars, onde Ramiro
Bentes, donor da Copem at6 passer o comando da
empresa aos filhos, 6 director financeiro.
H61io Jr. 6 director de assist~ncia so estudante
da Secretaria de EducagBo. Nesse caso, control o
convenio com a FAE, que fornece merenda escolar
a toda a rede de ensino estadual. Presidio as licita-


"Quem quiser falar comigo que vd a Paldcio. EU
ndo me escondo no idesp, na Cohab ou no Banco do
Estado". Dita em outubro de 1988, a frase do gover-
nador Hblio Guairos podia ser considerada verdadei-
ra. Ele ainda so esforgava por estabelecor um padrdo
do administragdo pdblica, com retina de despacitos,
ordem na agenda, transpargncia nas agdes a uma
imagem de lisura, apesar de iddias francamente
questiondvels. Gueiros, com a frase e sua agbo, pro-
curava- estabelecor um contrast com administragdo
cadtica do sou antecessor, que so escondia em ou-
tros enderegos do serving pdblico a de id mandava
chamar apenas as possoas com as quais estava in-
teressado em conversar, geralmente sobre articula-
Sgbes polfticas a negdcios ndo muito bem discernfvels
B luz do dia.
Mas hoje a governador Hdlio Gueiros pode ser
encontrado com multo maior frequbncia na granja do
Icut, onde passou a morar, ou na residbncia official,
entrogue Lf filha e so marido, que Id so casaram -
num ambiente reformado a decorado a Id constitut-
ram sou domicnio. O governador tambdm jd s6 dd
despachos setorizados, colocando na "geladeira"
auxiliares que ndo lhe agradam, mas que ndo toma a
Iiniciativa de dispenser. Apenas um secretdrio tem a
privilegio de despachos rotineiros, a da Fazenda, pa-
ra manter a governador em dia sobre as aplicagdes
financeiras do dinheiro do Estado, objeto da maior
atengdo de Gueiros. Ele estarelou o planejamento


estadual e acabou com a trabalho de equipe, a que
transformou sua administragdio numa contabilidade
de combrcio a numa mdquina sob o estrito control
de meia ddzia de pessoas. A contagem regressive
ate margo de 1990 parece marcar a tempo de desin-
togragdo de um governor inaugurado sob a melhor das
expectativas.
A sua maneira, a governador tentou demarcar
tempos novos. Com a impress ao lado, fai possoal-
mente entregar doag6es de dinheiro do jogo do bicho,
iniciando a temerdria polftica de oficializar a morali-
zar uma atividade clandestine a marginal. Sob ques-
tionamentos quanto so valor [nfimo dos donativos dos
be~nqueirtos do bicho e a agdo do intermedidrios,
Gueiros comandou dois atos de entrega. E depois
ndo deu mais informagbes sobre a renda da conta
aborta num banco para receber as contribuigdes,
voltando & prdtica de seu antecessor.
A sensagdo de que a severidade, a control, o
empenho e a dedicagdo da primeira fase do governor
Gueiros se tornaram com o a gs de um baldo mal
amarrado, que perde pressio atd ficar murcho, foi
avivada pelas acusagdes do ex-ministro Jader Bar-
balho, tdo mal acomodado na posigdio de juiz, mas
com palhai suficiente em si prdprio e ao alcance da
mdo para atigar o incbndio. Talvez ndo haja bom-
beiro capaz do apagd-lo, mas quando a vegetagdo jd
n~o presta, as cinzas tbm pelo menos a mdrito do
fertilizer a solo para um novo plantio.


O saido das acusaS6es


A fungao do fogo





96es na Seduc e no Prodepa, a empress de proces-
samento de dados do Estado. O marido de ClBudia
Guciros, Daniel Dias, 6 um dos s6cios da Construo,
que ganhou conconrrncia e repassou-as a terceiros
porque nio tem estrutura para executor os servings.
Bbal A empresa Estaleiros da Bacia Amaz6-
nica teve seu projeto aprovado pela Sudam em de-
zembro de 1985, mas passon 11 meses sem receber
neahuma liberag~o de incentives fiscais. Estava
virtualmente em estado pr6-falimentar, com dezenas
de protests em cart6rio, quando a Sudam comegou
dar-lhe dinheiro, em novembro de 1986, amiudando
as liberagdes a partir de maio 1987, quando Andr6
Guciros ji era director industrial. Em poucos meses,
todos os recursos comprometidos pelo diffcil arti-
go 17, muito escassos jB haviam sido liberados e
a empress fechou o ano de 1987 com 165 milhdes
de cruzados de incentives fiscais para um capital de
290 milhbes. Em agosto de 1987 teve seu projeto de
ampliagio aprovado, fochou o balango de 1988 com
490 milhbes de incentives para um capital de 752
milhdes. A generosa torneira de incentives aberta
pelo superintendent Kayath (ver box) fez do esta-
leiro o maior da Norte-Nordeste e o s6timo do pafs,
ajudado pelas encomendas compuls6rias que todo
projeto pesqueiro aprovado pela Sudam tinha que
fazer. A demand foi incrementada em seguida pela
Secretaria dos Transportes do Estado, tamb6m prd-
diga em pedidos.
Claro que algumas dessa encomendas resulta-
ram de concorr~ncia pdblica. Uma delas, no valor
de 1.181.482 BTNs, foi para a constru~go de em.
barcagdes para a Secretaria da Fazenda. O melhor
lance foi apresentado pelo Estaleiro do Rio Negro,
de Manaus, mas a empresa foi desclassificada com o
argument de que apresentara prazo de 120 dias pa-
ra a entrega da encomenda, quando o prazo de edi-
tal era de 60 dias (mas que a empresa aceitou ver-
balmente). No dia 22 de novembro de 1987 o go-
vernador assinou ato reconhecendo a vit6ria da
Erin. Dois dias depois, alegando interesses do ser-
vigo pdblico e menor prazo de construgio, o gover,
nador den a vit6ria ao segundo colocado, a ETN
(Empresa T~cnica Nacional). A Erin recorrou a
Justiga, ganhou liminar para a sustagio do contrato
(que.seria composto com a Ebal), mas acabou de-
sistindo da agio (segundo a dendncia dos jaderistas,
por pressio de Paulo Gueiros, hoje um influence
personagem no Forum).


Liberaqoes generosas


Liberagdes de incentives fiscais da Sudam para
a Ebal:
1 1/1 1/86 Cz$ 3. 383. 448
22/05/87 Cz$ 5 119.948
18/06/87 -Cz$ 15.999.998
14/09/87 -Cz$ 20.000.000
20/10/87 -Cz$ 33.071.001
05/11/87- Cz$ 12.084.456
18/11/87 -Cz$ 41.572.041
16/12/87 -Cz$ 36.154.324
18/05/88- Cz$ 59.999.997
17/06/88 Cz$ 146.917.887
14/12/88 Cz$ 217.827 107


Oficialmente, Andr6 Gueiros 6 director e Paulo
assessor juridico da Ebal. Mas o ex-ministro mos-
trou um contrato (desses "de gaveta") no qual am-
bos slo intervenientes numa mudanga de composi-
glo societiria que colocou um novo donor na empre-
sa. Ele seria "testa de ferro" dos dois irmios,
questio ainda a ser checada nos documents do ex-
ministro, exibidos mas nlo entregues para apuragio.
Unipesca Nio hB dlivida de que se trata de
uma empresa de papel associada g Ebal (fica em ter-
reno continue, no qual ainda nio hB edificagdes).
Mesmo assim recebeu incentives da Sudam e at6 te-
ve aprovado sen projeto de atualizagio, embora nio
contasse com a documentagio preliminary da extinta
Sudepe para atuar como empresa pesqueira e enco-
mendar barcos.
Patrimbnio de Jader O ex-ministro sofisma
quando diz que seu atual patrim6nio 6 produto de
negdcios que realizou com base em bens que ji pos-
sufa quando assumiu o governor. A incrfvel variagio
patrimonial que se deu a partir de 1983 s6 6 camu-
flivel porque a declaraglio de imposto de renda nio
6 correta tecnicamente no registro dos valores pa-
trimoniais (ou nio era, lacuna ao menos parcial-
inente sanada a partir de agora). O ex-ministro de-
clarou o pr~dio do journal "Didirio do ParB" por um
valor quatro vezes inferior ao real, distorgio ainda
mais flagrante em relagio ao apartamento de luxo
no qual mora em Bel~m. Documentos "de gaveta"
permitem manipulagdes como a realizada na aquisi-
gao da TV RBA. Formalmente, foi um contrato de
arrendamento, com assunglio da dfyida. Na realida-
de, Jader pagou mesmo o equivalent a 13 milh6es
de d61ares, valor impressionante por qualquer crit6-
rio que venha a ser analisado. Ademais, al~m de
encontrar funds multiplicados para expandir seu
patrim~nio, o ex-governador ainda consegue uma
impressionante reposigio de capital para manter o
giro de neg6cios pesadamente deficitbirios, como a
pr6pria television. Todos esses recursos estimulam
Jader a colocar os bens em seu nome, confiando no
achatamento de valor como formal de explicar ai
multiplicagio dos itens patrimoniais.



N8 Verbalidade


A ditima auditagem realizada pelo Banco Cen-
tral nas contas do Banco do Estado do Pard, ainda
em cu"' o i sol c tad~aowrbalh nte pello presidet
tado federal Aloysio Chaves e candidate a eleigio
de outubro). A diretoria do BanparB queria fazer a
solicitagiio por escrito, mas Lula preferiu o contato
pessoal com o director de fiscalizagio do Banco
Central, Tupy Caldas, que repasson o pedido para a
delegacia do BC em Belem, mas teve que fazer a
confirmagio por escrito, atendendo a cautelas do
pessoal lotado na capital paraense, que ainda reque-
reu auditors de outra praga.
Ao tender um pedido de informagdes dessa
sindica~ncia, a diretoria do Banparb admitiu, pela
primetra vez, que recursos mal aplicados pelo banco
em favorecimento de alguns clients haviam sido
sacados na reserve bancigria. Essa information seria
usada contra a administragio anterior.





Uma


E ntre 1983 e 1985, o Banco do Est;
retirou da reserve bancdria aprox
15 bilhdes de cruzeiros, em valor
Lequivalente a sete milh6es de ddlare
500 milh6es de cruzeiros, a pregos atua
nheiro foi desviado das operagdes normr
e acabou em diversas contas particular
ano auditors do Banco Central, desloc;
de Janeiro para Bel~m, fazem o rastre
cheques para identificar os beneficibril
vios.
O relatbrio da investigation ainda I
cluido, mas o governador Hdlio Gueiro
alguns resultados durante a entrevista ql
na TV Cultura, no dia 16. A principio
apura~go era um estranho pagamento qut
fizera ao DER de 10,2 bilh6es de cr:
conta da remuneraCgo a aplicagdes do Dc
de Estradas de Rodagem. Aprofundando
os auditors verificaram a existbncia de
rag~es irregulares, como a emissio de t
administrativos, no valor de 1,1 bilhio
ros.
Os cheques seguiram um roteiro sj
comegou na compensagio e apagou a
retirada em dinheiro, atrav6s do saque d
portador. Mesmo sem a ligagio direta,
do Banco Central encontraram pistas c
nas fitas das ms~quinas dos caixas refere
res que coincidem com a totalizagio da
originalmente saint do Banpar6. Algu
pistas levam a nomes da administration c
terior, inclusive do ent~io governador J;
lho.
Mesmo que o relat6rio do inqueril
ex-ministro como um dos implicados nas
irregulares, o Banco Central nada pc
contra ele porque Jader Barbalho nio ex
bancdria. A competc~ncia do BC se eagc
messa dos autos do inqu~rito para o Mi~
blico Federal. Foi esse o mesmo procedj
tado em relagio so inquerito que results
vengio federal no Banpard e a adoglo d
administrator compartilhada. Hg um a~
estiio em poder do governor do Estado
pela Procuradoria Regional da Reptiblic;
provid~ncia foi adotada para a cobranga
sabilidades penais e criminals. A nfvel
tivo, o Banco Central limitou-se a a
brand punigio aos ent~io dirigentes d
proibidos de exercer temporariamente
bancirias.
Todas as irregularidades verificada!
sas sindicincias e inqu~ritos que o BC
nas contas do Banpari ficaram impunes
ram sangio simb61ica. O BanparB sempr
pelos governadores estaduais como instr
ferencial para tender compromissos
eleitorais e econdmicos. O entio govern
Nunes deixou o banco B mingua, prefers
o dinheiro do Estado em outras institl
nio deixando de conceder criditos privi
anngos.
Ao assumir o governo, Jader Barbal


eterna vitima
ado do Pard depositar os recursos estaduais no Banpara, mas
;imadamente iniciou-se a partir daf uma enorme sangria de di-
da 6poca (o nheiro. Emprestirios que haviam colaborado finan-
es, ou quase ceiramente na campanha eleitoral passaram a contar
is). Esse di- com adiantamentos e reescalonamento de dfyidas ja
ais do banco existentes. A bola de neve cresceu tanto que provo-
res. Ha um cou apressadas operagbes destinadas a cobrir o
ados do Rio "rombo", todas elas desastradamente arrematadas,
:amento dos como na dessipropriagio do Aura e na transagio
os dos des- com a Maiame. Os 10,2 bilhdes repassados so DER,
por exemplo, foram contabilizados como recursos
nio foi con- do Fundepara, o fundo do fomento do Estado, mas
,s antecipou nio passavam de saques na reserve bancbria.
ue concede No seu program de TV, o governador H61io
I, o alvo da Gueiros disse que 1,1 bilhio de cruzeiros, emitidos
e o Banpara atrav6s de trs cheques administrativos, foram usa-
uzeiros, por dos na campanha eleitoral de Tancredo Neves, ien-
epartamento tregues diretamente a Jos6 Hugo Castelg Branco,
o trabalho, depois ministry da Indlistria e Com~rcio (como
outras ope- Tancredo, jil falecido). O Banco Central tem evi-
r~s cheques d~ncias fortes de que se essa foi a justificativa para
Sde cruzei. o desvio de dinheiro que saint do Banpard, na ver-
dade pode ti~o ter passado de Blibi para a apropria-
inuoso, que glo particular dessa quantia.
pista com a O Banpart tem funcionado quase sempre como
re titulos ao um largo biombo para esse tipo de transagio, dei-
os t~cnicos xando de ser um banco do priblico para se tornar um
do dinheiro mnecanismo privative de seus dirigentes e do gover-
ntes a valo- no. Ainda hoje, basta verificar que 90% de suas
quantia que operag~es si-o repasses de recursos ou aplicagbes
.mas dessas financeiras para chegar a conclusio de que o banco
estadual an- 6 uma vitima jB com prec~rias condig6es de so-
ader Barba- breviv&ncia das conveni~ncias dos que ocasio-
nalmente podem dar-Ihes as ordens.
to aponte o
Stransagbes Val ou nao val?
oderb fazer
erce funglo
otardi na re- Durante a entrevista na TV Cultura, o gover-
nist~rio, Pri- nador H61io Gueiros repetiu duas vezes ter a con-
imento ado- vicq~o de que o ex-ministro Jader Barbalho nio se-
ou da inter- rB candidato nas eleigBes de outubro, nao apenas a
o rgime de governador, mas a qualquer cargo. Pressionado de-
no os autos pois pelos jornalistas, disse que sua certeza se ba-
, remetidos seia apenas -em intuigio e niio em dados concretes.
a. Nenhuma Isto poderia ser verdade porque hb mnuito tempo o
das respon- governador vem sustentando essa opiniio em con-
administra- verses reservadas. Mas o raciocinio poderia estar
Iplicar uma sustentado na expectativa de um process instaura-
lo BanparB, do contra Jader pelo governor federal por enrique-
atividades cimento 11xcito on uma ag~o judicial nesse sentido.
Afinal, nas mios do president Fernando Collor de
s nas diver- Mello ji foram entregues dois dossigs conatra o ex-
ji realizou governador.
ou recebe- Dossi8 por dossi&, o deputado federal Asdrubal
re foi usado Mendes Bentes encaminhou um, no dia 13 de mar-
umento pre- go, so president da Reptiblica. B uma reuni~o de
politicos, documents e comentsrios reunido~s por uma "equi-
ador Alacid pe de colab~oradores andnimos", investindo contra a
indo aplicar Sudam e os filhos de H61io Gueiros. Essas dentin-
cias jB haviam sido enviadas diretamente a Brasiia
uigoies, mas no dia 9.
rilegiados a
Agora, s6 mesmo um petardo de grosso calibre
desferido pelo Planalto, com ou sem a participagio
lho volton a da Justiga, poderia tirar Jader Barbalho da eleigio.






relagio g coisa ptiblica, tem feito mais do que o go-
vernador feito no sentido daquelas coisas que eles
tdm citado em seu pugilato verbal. Mas se sd agora
o ex-ministro estsl falando na questio da Ebal, esse
assunto ji mereceu atengdo no mimero dois do
JORNAL PESSOAL, da 2" quinzena de setembro de
1987, e voltou a ser tratado na edi~go seguinte. Foi
a primeira vez que um jornal paraense apresentou
dados sobre a possibilidade de trifico de influencia
favorecendo a empresa junto B Sudam. Nenhum ou-
tro repercutiu, nem mesmo o do ministry, que, na
6poca, ainda adotava a political de panos quentes.
Este journal seguia e segue a mesma linha edito-
rial: tudo o que 6 fato de intresse coletivo deve ser
publicado para que a opiniio pliblica o conhega e
avaie. O JORNAL PESSOAL se interessou pela
Ebal porque havia dinheiro priblico envolvido. JB o
ex-ministro trata do assunto, dois anos e meio de-
pois, por interesse estritamente pessoal. E 6 uma
pena que a imprensa tenha esquecido o lema do
primeiro journal da terra, o Panrense, criado por Ba-
tista Campos, que dava o nome certo aos bois e aos
ladriies, no invts de costurar sofismas para suas
conveniencias.


Car ta do leitor

A leitora Rita Helena Barros Fagundes enviou a seguinte cart,
que, na verdade, discrepal de artigo deste jornal, per aea comentedo,
apenas em intensidade:
"sendo uma das assinantes desse Jornal, a uma das admi-
radoras do jornalismo que faz seu editor, causou-me espanto ao
lar no nD 59 (PAGOTE Uim produto divine?) os elogios que o
mesmo ftz so "Piano BrasHl Novo", inclusive, atribuindo qualida-
des ao autor do referido plano, que me parecoram incompatlveis,
taat~o para o I tredo actual pacte ea drmicltquanto, e, princi-
Fazendo um jornalismo combative, o editor do Jornal Pes-
soal, a mou ver, exagerou quando escrevou naquele nd~mero, que
a chefe do atual program econdmico "... comegou o mandate co-
mo um De Gaulle tropical. "
No mou humilde ponto de vista, essa comparagdo g dema-
siada absurda, pois um chefe de governor que em sua campanha
eleitoral foi "patrocinado" por grupos econdmicos internacionais ,
e que em seu comego de mandate, mostra-se comprometido com
aqueles, ndo merece ser comparado a um estadista de renome de
ce Gaunea.
O atual chefe da nagdo brasileira, com sua insensatez, ar-
rogdncia, e imprudencia, aidm do total desconhecimento de como
governor um pals, estd mais para o famoso imperador romano CA-
LIGULA (quem serd a cavalo?), do que para De Gaulle.
demEditando umsplano queefavorecees mente as multinacionais,
chef da nagdo parece despontar na fileira dos grandes imperado-
res inoperantes do antigo impdrio Romano.
Confiscando a dinheiro da populagdo, a passando por cima
do que hd de mais sagrados em uma Nagdio, que d a Constituigdo,
e, por outro lado, ndo tragando um ponto que realmente fizesse ou
operasse uma reform de base, ndo parece a mim que combat as
disfungdes econdmicas.
trvopor out) lado on que se rfersudecriminuldadre nopa ,rao
sil; um [ndice elevadfssimo de crimes. O que fez o piano para coi-
bir tais excesses? Nada. Poderia proper uma reform do Poder
'ludicidn ,a mas pao contrdrio, a piano veio "castrar" 0 Judicidrio
ovanto aos marajds que a novo governor se propds acabar,
v4-se apenas o plano extinguindo drgdos que, a mou ver, nada
$tut "ineficazs", como pr exempt oo Br C, EMBRAFI.1M,
mico, sao simples funciondrios pdiblicos que realmente trabalha-
vam. os verdadeiros marajdls continuam impunes politicoss, apa-
drinha der- elencar um sem ndlmeros de erros do tal plano
de estabilizagdo da economic, mas isso ficaria atd mondtono para
uma missiva que so propge apenas chamar a atengdo do editor
desse Jqrnal, que sd tem dado prazer aos saus assinantes, uma
vez que ele se propde a esolarecor-nos das verdades que hd por
trd~s da nossa polftica national.


A imprensa.

onde esta?

O journal "O Liberal", o maior da Amazbnia,
abriu manchete para anunciar que o Banco Central
iria processor o ex-ministro Jader Barbalho, depois
de rastrear aplicagbes financeiras irregulares do
Banco do Estado do Pard durante o period em que
Barbalho foi governador. A fonte original da infor-
mag~io era o governador H61io Gueiros, que fizera a
revelagi~o durante entrevista na TV Cultura. Mas
n~io fora exatamente assim: o governador nio estava
bem informado e o journal agravara ainda mais a ma
informagio.
O Banco Central nio vai processor Jader, sim-
plesmente porque nio pode. O BC esta concluindo
uma auditagem sobre desvios nas aplicagdes do
Banparb~, mas nessa investigation o ex-governador
aparece apenas como possivel beneficisdrio em uma
das rotas clandestinas pelas quais o dinheiro fluiu.
Ainda que houvesse prova objetiva desse envolvi-
mento, o BC nio poderia punir administrativamente
o ex-ministro porque ele nio 6 banqueiro ou bancA-
rio. O que o Banco Central far8 serb remeter os
autos do process para o Minist6rio Piiblico, como
pt fez antes com o inqu6rito que motivou a inter-
venglo federal do BanparB. AgBes penais ou crimi-
Inais estio fora da 6rbita do BC.
O primeiro inqu6rito est8 com o governor do
Estado h6 mais de um ano, nio tendo motivado ne-
,nhuma iniciativa. At6 recentemente, o governador
H61io Gueiros tinha opiniio depreciativa sobre o
Banco Central de Bel~m. Chegou mesmo a ameagar
alguns dos funciondrios e dirigentes de priio,
iquando da intervenglo no BanparB. Chamou virlOS
deles de cachacciros, gerando um clima de tensio e
retaliagdes que custou cabegas, mas parece supera-
do pela nova postura do governador em relagiO RO

Nesse e is6dio todo, ue mal come a (e jB co-
mega mal, mas ameaga ter long vida), a imprensR
poderia ajudar a ponderar o litfgio explicando para
a opiniio priblica o que est8 acontecendo realmente,
funcionando como uma filtragem de fats, que re-
t~m, eliminando tudo o que nio passa de simpleS
sujeira. Mas a imprensa ou 6 ela prdpria persona-
gem do "imbroglio", ou optou pela omissi-o em ci-
ma do muro. Resultado: o leitor e a opniiio priblica
COmo um todo ficaram desnorteados.
Diante da confusio, cada uma das parties pode
fazer sua mistificaCgo, com terreno fMrtil para lan-
gar suspeig6es sobre a imprensa e contribuir maiS
ainda para desacredit8-la enquanto fonte de refe-
r~ncia confi~vel. Obviamente, Jader Barbali'o in-
vestiu contra "O Liberal" e H61io Gueiros foi em
cima do "Didrio do Pard", do qual foi director res-
pons~vel at6 assumir o governor. O ex-ministro,
querendo ser mordaz, at6 fez refer~ncia ao que
chama de "imprensa investigat6ria", com a inventi-
vidade neold gica que lhe 6 prdpria. Seus entrevis-
tadores e muitos outros jornalistas interpretaram a
estocada como uma "indireta" ao JORNAL PES-
SOAL. Este journal estaria sendo muito rigoroso em
re~l Cio a ele e condescendente face so governador.
A afirmativa merece primeiro uma Ingeira reti-
rifag~io. Jader aparece mais neste journal porque, em










lhio de pessoas estejam no raio direto de agio do
merciirio que os garimpeiros usam para separar o
ouro.
Nos tiltimos meses cresceu o debate sobre a
adoglo de procedimentos capazes de impedir a
contaminagio ambiental pelo meredrio dos garim-
pos. Tecnologia para isso existe, mas o problema
tem rafzes econdmicas, socials e culturais que difi-
cultam a adogio das sugestoes t6cnicas para recupe-
ragio do merctirio ou seu uso racional. E claro que
a andlise comparative dos aspects negatives e po-
sitivos do garimpo, como de outras frentes econdi-
micas que invadem a Amazdnia e, invariavelmente,;
a agridem, ainda 6 prejudicada pela pobreza em que
vive a populagio native da regi~o.
Tudo o que gera dinheiro e emprego acaba se
justificando porque a outra opgHo 6 considerada in-
suportivel, agora que os habitantes locals acostu-
maram-se Bs estradas de ligagi~o com os principals
mercados do pais. Essa 6 uma relagio de dependen-
cia de alguma maneira assemelhsivel a do viciado
com a droga. Mas a aus~ncia slibita da droga, mes-
mo que nio perdure por muito tempo, ajuda a abrir
a percepgio. Este, portanto, 6 um memento raro pa-
ra a Amaz6nia pensar em algumas das suas ques-
t~es, ainda que com a costumeira fugacidade.
A evacuagio de garimpeiros do interior da
mata aponta na diregio de um roteiro humane mais
recomendsvel para a Amaz6nia. Ao inves de ser
dominada por imigrantes, 6 a hora da emigraqio,
pondo-se fim a um mito que os colonizadores (a
maioria deles nada mais do que colonalistas) difun-
diram: de que os "espagos vazios", considerados
ociosos por desinteliggncia de quem chega B regi~io
bitolado pela caixa preta, precisam ser preenchidos,
a qualquer prego, por popula~go e atiiridades, inde-
pendentemente de habilitagio, aptidio on afinidade.
A Amaz~nia quer tr~gua, nio como o resultado
marginal de uma crise, mas como produto de uma
visio inteligente, sensivel e humana sobre uma re-
giko que tem sido apenas a vitima da vontade alheia
- e, por isso, foi transformada numa vast casa da
mie Joana. O garimpo tem sido um dos principals
agents desse caos, ainda que os pobres e mal as-
sistidos garimpeiros sejam vitimas e instruments
de interesses maiores, raramente explicitos. Vitimas
on nio, eles servem de arete e bucha de canh~o pa-
ra algumas das mais devastadoras frentes de avango
sobre a Amaz6nia. B precise cont6-la.


bem uma face criativa, a ser aproveitada. A
queda do prego do ouro, que nos casos mais
Graves chegou a 75% em relagIo ao que era
praticado antes do Plano Collor, arrastou consigo a
segunda mais important fonte de renda do setor
mineral da Amaz~nia. Atingiu, sobretudo, os ga-
rimpos, que viviam em euforia constant menor em
fungio do mercado legal do que do descaminho.
A remuneragIo da produgho nio permit mais
aos garimpeiros e as poucas empresas organizadas
sequer pagar o combustivel usado no process de
extragIo do metal. Milhares de homes estio vol-
tando da mata atriis de comida e de transport para
retornarem aos seus locals de origem. Em tal volu-
me, 6 a primeira vez, nos tiltimos 25 anos, que se
inverte o fluxo humane saindo da Amaz6nia em
direg2io so Brasil, o pais vizinho mais parecido com
a regilo, como estio aprendendo a constatar os na-
tivos, amargurados com o regime colonial a que sho
submetidos.
A situagio provoca imediato clamor e aciona
os intermedi~rios. Politicos vio a Brasflia pedir no
governor garantia de compra do ouro em valores
compativeis. As autoridades municipals, alarmadas,
telegrafam para as autoridades municipals em busca
de socorro. Esta 6 a face cruel da crise, pontilhada
de casos pessonis desesperadores. Mas raramente a
corregio de rumos na hist6ria se faz sem doses,
maiores ou menores, de sacrificios. E, quanto no
ouro, ha uma rara oportunidade de tenter impedir a
consumagIo de danos irrepardveis.
A desvalorizagio do prego do metal nio serb
um fendmeno duradouro. Dentro de algum tempo os
pregos voltario a subir, ainda que venha a ser len-
tamente. A principal impulsio vir8, novamente, do
contrabando e do narcotrifico. Esta poder8 ser jus-
tamente a primeira ligiio a ser aprendida: os circui-
tos de produg~io aurifera estio umbilicalmente liga-
dos a uma rota de crimes, com seus pontos termi-
nais plantados nas mais tristes condigdes humans.
E claro que essa atividade gera muito dinheiro, mas
ele est8 marcado pelo estigma do sangue e das 1C-
grimas. Mais do que um sinete normal, de resto ir-
relevante no mercado, trata-se de uma questio de
inteligencia.
O esvaziamento dos garimpos mostra, B popu-
lagio permanent, aquela que faz parte do local, a
desorganizagio ecol6gica e social engendrada por
essa atividade. A populagio do vale do Tapaj6s,
outrora uma refer~ncia paradisfaca muito usada pelo
turismo, est8 chocada com os danos jB causados e
que ainda serio descobertos em conseqiiencia do
uso do merciirio. Todos falam na repetigio do de-
sastre de Minamata, citagio dram~tica na histdria
das agressdes B natureza pela agio do home. E to-
dos temem que Minamata seja pouco diante do que
jB se fez no vale do Tapaj6s.
Em Minamata e Niigata, no JapHo, o proceSSO
biol6gico de transformagio do merciirio em metil-
meredrio causon a intoxicagio de 1.200 pessoas. NO
Iraque, seis mil pessoas foram intoxicadas depoiS
de comerem pio contaminado com metilmeredrio e
500 morreram. Na Amaz6nia, estima-se que um mi-


A bomba estA montada


JOInT Pes oa

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