Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00050

Full Text







o\I pI ~ U IUI )VI~ IVYYIYV
POLITICA


A raz~io do acusador
EstB aberta a temporada de degradagao dos valores
dia political com a dispute pelos principals cargos eletivos.
O eleitor pode chegar ao final dessa historia
achando que nao vale votar mesmo em nenhum candidate.


1" Quinzena de Abril de 1990


nA III NE 60


a lucriC a enas entre s


quando se defendem, mas estio quase sempre
certos quando se acusam mutuamente. A frase,
de um famoso politico paraense, poderia ajudar
a explicar o que vem acontecendo nos bltimos dias
no Estado, quando ficou comum acusar e cada vez
mais raro defender-se. Esse comportamento esqui-
zofr~nico ameaga exarcebar-se ainda mais com a
evolug~o da campanha eleitoral, que vai deixando
muitos valores pelo caminho e preservando apenas
um instrument de combat: o ataque.
Para atacar, servem todas as armas, tenham
elas munigio verdadeira on de fantasia. O atacado


nio se importa em esclarecer se o ataque 6 on n~io
procedente. Reage apenas procurando um motive
para atacar o adverstrio. E assim todos vio em
frente, sem se importar com o que pensa a opinion
pdiblica. Ela pode pensar que todos t~m razio quan-
do atacam e nenhuma quando se defendem e que
sd se atacam entire si quando tgm interesses contra-
riados. Ademais, nio atacam pensando na causa pdl-
blica, mas em suas prdprias convenigncias. Agora
que se dispute o principal cargo da administration
pdblica_ estadual, a temporada de acertos, neg6cios,
arranjos e maracutaias est8 aberta, muito francs e
nada risonha.


arnal Pessoal
Lticio Flivio Pinto






O posto culminante dessa lavagem de roupa
suja em torno da eleigio para o governor do Estado
deu-se no plenborio da Assembl~ia Legislativa. De
um lado, os deputados fi6is ao ex-ministro Jader
Barbalho. Do outto lado, os correligion~rios e sim-
patizantes do govertlador H61io Gueiros. Os princi-
pais protagonistas dos dois grupos foram Hamilton
Guedes e Carlos Kayath. Levados pelo paroxismo
das rivalidades, eles talvez nio se tenham apercebi-
do do que disseram. Fosse este um pafs sdrio, no
memento mesmo de descerem da tribune estariam
sendo convocados pela polfcia ou pelo Minist~rio
Pdiblico para explicarem melhor suas acusagBes.
O deputado Carlos Kayath deu como certo o
que uma investigation judicial esti procurando pro-
var hB tempos: que dinheiro do Banco do Estado do
Pard era desviado de. seu fluxo normal e aplicado no
mercado financeiro, mas sem que o rendimento fos-
se declarado e creditado na conta do banco. Pessoas
inescrupulosas, mas influentes na administration
anterior, apropriavam-se desse dinheiro. Kayath 6
uma pessoa credenciada a falar do assunto: no pe-
rfodo em que se praticava esse estelionato ou pe-
culato, o atual deputado pelo PTB era consultor
t6cnico do BanparB, atuando no Rio de Janeiro.
Justamente no Rio de Janeiro eram efetuadas as
aplicagbes ilfcitas.


Dinheiro clandestine

Na 6poca em que a rota clandestine do dinhei-
ro do Banpard comegou a ser rastreada, uma fonte
assegurou que os cheques administrativos emitidos
pelo Banpard contra ele mesmo (segundo se alegou,
para cobrir "pequenas despesas", embora os valo-
res sacados fossem altos) eram levados g ag~ncia do
banco Itail no Jardim Botinico por duas personali-
dades da vida piiblica paraense, em pessoa. Talvez
uma delas fosse o m6dico Henry Kayath, na 6poca
conselheiro geral do governador Jader Barbalho,
que o indicaria, em 1985, para a superintend~ncia
da Sudam (de onde o tiraria quatro anos depois,
com uma rasteira no melhor estilo das raposas ma-
quiav61icas que fazem a polftica no pafs).
O deputado Hamilton Guedes, na 6poca director
administrative e financeiro do BanparB, fala ainda
com maior autoridade do que Carlos quando diz que
Henry -Kayath, mesmo sem ter qualquer vinculo com
o BanparB "e nem com qualquer 6rgio da adminis-
tragio p~iblica paraense", era "o responsavel pelas
aplicagBes financeiras dos recursos, pdblicos do
Estado junto as corretoras Mafra e Etica (esta sob
interven95o do Banco Central do Brasil), no Rio de
Janeiro, g revelia do gerente do banco naquela pra-
ga e praticando taxas abaixo do mercado". Para nio
ir al6m da rampa do precipfcio, Hamilton p6s uma
vfrgula no texto que redigin para responder ao de-
putado do PTB e acrescentou, preventivamente:
"sem o conhecimento da adnunistragio da prdpria
institui~go banc~ria .
O deputado esta brincando com coisa s6ria ou,
naturalmente, evita tocar na question grave: como
director do banco, sabia on participava desses atos,
como deles tinha conhecimento e autorizava o prd-
prio governador do Estado, Jader Barbalby. S6 ago-
ra Hamilton diz que Carlos Kayath ganhsva como


consultor tgcnico do banco sem trabalhar. Por que,
na 6poca, nio eliminou a irregularidade, denunciou-
a ou afastou-se do cargo que ocupava por nio con-
cordar com esse fato e nio poder corrigi-lo? NIo o
fez porque cumpria ordem do governador, a quem
interessava, naquele memento, os servigos de Henry
Kayath, dispensados quando o entio superinten-
dente da Sudam criou um campo gravitacional pr6-
prio para atrair poder politico e outras cositas ads.
No calor da dispute por um botim que ji nio
t~m condig6es de partilhar (ele parece ser pequeno
demais para a divisio entire dois grupos, ou a sede
destes ultrapassa a possibilidade de divisio equita-
tiva), os antigos aliados comegaram a mostrar a
atbnica opiniio pilblica que os acompanha como se
pratica a guerra do poder e a que (e quem) ela ser-
ve. Mais impressionante do que a quantidade de la-
ma que despejam uns nos outros, sem a menor preo-
cupagio com a gravidade das dendincias suscitadas,
6 o fato de os antagonistas nio se preocuparem em
limpar-se das n6doas expostas diante da sociedade.
Se eles tam razio quando acusam, mas nio se de-
fendem, o pobre eleitor, pelo crit6rio da exclusio,
chegard a 3 de outubro achando que nio vale a pena
votar em ningu6m.
O leitoriatento que fizer uma revisio dos jor-
nais publicados no Pard nos liltimos tr~s meses tera
o arrolamento de dendincias que, se comproviiveis,
bastariam para colocar na cadeia muito home pai-
blico que desfila impunemente pelas ruas. E claro
que varias dessas dendncias sio cristalinamente le-
vianas, desinformadas on marcadas pela ma; inten-
950. O deputado Itamar Francez, por exemplo, pa-
rece ter ouvido o galo cantar quando, na semana
passada, acusou o governador H61io Gueiros de ter
doado B Construtora Camargo Correa 180 mil hecta-
res de terra em Tucurui, mas nIo foi capaz de iden-
tificar o canto e a localizagio do galo. A Brea 6 in-
comparavelmente inferior e tem menos a ver com o
Estado do que com a Aeron~utica, responsive ori-
ginal pelo ato.
O governador tem seus motives para reagir
com indignagIo no deputado, mas ele, cioso de sua
imagem, nio deveria dar uma resposta ao "Dibrio
do Pari", que publicou uma nota em sua principal
coluna dizendo que o governador deve 'a Henry Ka-
yath favorss inconfessiiveis, desde quando aquele
correligion~rio foi secret~irio da Fazenda, no Go-
verno Aur61io do Carmo"? Foi essa a primeira vez
que o journal do ex-ministro da Previd~ncia Social
questionou diretamente a probidade pessoal do go-
vernador, de hibito reconhecida. O ataque teve o
efeito de irritar Gueiros, mas nio de fazg-lo res-
ponder.
O paroxismo da dispute gera retaliagdes bru-
tais, mas, querendo ferir-se de morte, os advers8-
rios se esquecem de que, na vida pdblica, o Arbitro
final 6 o povo. Como agora ele est8 sendo ignorado,
espera-se que, ao long de toda a feroz campanha
eleitoral que se aproxima, ele saiba tirar as ligdes
dessa pedagogia negative e fazer um julgamento
certo e eficiente, devolvendo i vida privada on
mandando para o local de apuragio das responsabi-
lidades os autores dos crimes que, no memento, sio
apresentados sem qualquer pudor e com toda a con-
vicgIo du impunidade.










Is duas principals candidatures no governor do
ParB jl estio nas ruas. A official, do ex-pre-
feito de Beltm, Sahid Xerfan, escorada inte-
gralmente no apoio do governador H61io
Gueiros, e a do ex-ministro Jader Barbalho, que
surpreendeu no final de semana ao langar-se na dis-
puta, sem esperar por outros pregoetros, como vi-
nha sendo sua caracterfstica atd entio. Mais uma
vez, o poder sera disputado por fragbes polfticas
que tem a mesma origem e romperam sem manifes-
tar, na verdade, divergencias ideoldgicas. O que os
afastou foi a impossibilidade de acomodar interes-
ses assemelhados.
Desde 1954 nlo ha surpresa na escolha do go-
vernador do Estado: ganha aquele que tem o apoio
da maquina official. Ecerto que durante 20 desses
36 anos o process de selegio foi atrav6s de eleigio
indireta, falicitando o poder do governor. Mas num
Estado pobre, enorme e sem unidade, o clientelismo
continue a ser o terreno fbrtil para a semeadura de
favores-
Ainda assim, Jader Barbalho tem a possibilida-
de de quebrar essa escrita. Ele tem mais densidade
eleitoral do que todos os demais candidates ja apre-
sentados. Se a eleigio fosse hoje, ganharia com
certa facilidade. Mas o primeiro turno 6 a 3 de ou-
tubro e o 20 turno, 42 dlas depois. Ate 14 vai agir a
maquina do governor estadual a favor de Sahid Xer-
fan-
Jader tera que contar apenas com seus recursos
prbprios e a ressonlncia do trabalho politico que
realizou em dois ministbrios da administrator Sar-
ney. As reserves acumuladas por ele slo considera-
das portentosas, mas as exig~ncias da campanha e
das empresas deficitlrias que compdem seu imp6rio
de comunicagbes nao podem tambem ser subestima-
das. Essas dificuldades crescerio ainda mais a par-
tir do memento em que nlo puder contar com a pu-
blicidade do governor. Apesar do calor da dispute,
at6 agora o governador Hdlio Gueiros niio discrimi-
nou os vefculos jornalfsticos do ex-ministro na pro-
gramagio da verba de publicidade estadual. Mas
esta atento a essa possibilidade, como mostra sua
intervenglo drlstica para acabar com o mais novo


program jornalfstico da TV Cultura, por entender
que nele havia infiltragio dos interesses de Jader.
O epis6dio dl uma medida do que vai ser a
guerra eleitoral. Jader vinha protelando uma deci-
slio, pendendo entire o Senado e o Governo, ao
mesmo tempo em que estimulava outras opgbes
(como Fernando Coutinho Jorge e Nelson Ribeiro,
no plano interno, e o senador Jarbas Passarinho,
como alternative externa), porque precisava de uma
outra definigio fundamental: o comportamento do
president Fernando Collor de Melo. Os inimagos
de Jader garantem que o president bloqueard o ca-
minho de volta do ex-ministro ao Pal~cio Lauro So-
dr. Se niio o fez at6 agora, 6 por precisar do mB-
ximo de apoio parlamentar para a aprova~go do pa-
cote de medidas econdmicas (e Jader lhe daria oito
votos paraenses). Essa 6 uma hipbtese, sobre a qual
o prdprio Jader passou a trabalhar. As duas viagens
seguidas que fez a S~o Paulo em duas semanas te-
riam esse sentido: negociar, atrav~s do governador
Orestes Quercia, uma aproximag~io com Collor.
Dessa investida poderia resultar at6 uma audiencia
- e, naturalmente, uma fotografia para distribuir
A imprensa
Atd o final da semana esses entendimentos nlo
pareciam ter dado ainda um resultado concrete.
Nesse caso, Jader langou-se ao governor, precipitan-
do sua estrat6gia, porque decidiu reagir a evoluglo
dos ataques do governador Helio Gueiros. O gover-
nador vem trabalhando a candidatura oficial em ci-
ma de uma clara distin~go entire politicos de mios
limpas, que fazem parte de seu grupo, e os de mios
sujas (ou necrosadas, conforme o dZltimo jargio).
Culminou essa ofensiva referindo-se (sem citar o
nome) a Jader como um Dom Corleone ao tucupi,
um chefe de m~fia. O ex-ministro, no dia seguinte,
devolveu a acusagio, referindo-se (tamb~m sem ci-
tagio explfeita) a "essa gente" que enriquece a
custa do governor e que "nao 6 honest coisa algu-
ma. A famflia est8 rica. Os filhos estio ricos".
O Pard retornou, assim, no clima passional das
eleigbes havidas entire as d6cadas de 30 e 50. Sd
que agora os ex-baratistas se combatem entire si.
N~o C propriamente uma evolugho.


Estado rico em recursos naturais, com base ter-
glo geogrsifica, capaz de atrair levas de imi-
grantes para incrementar seu crescimento ve-
getativo, o ParB 6 de uma pobreza assustadora em
mat6ria de liderangas polfticas. Elas t~m sido inca-
pazes de articular um projeto para conciliar o Esta-
do com sua vocagIo de grandeza. Olham sempre pa-
ra tris, estio press a compromissos clientelistas e,
quando muito, estio dispostas a conceber o Para
como a horta da Luzia, um lugar de tricas, futricas
e cochichos. Nio conseguem acertar o pass da po-
Iftica com a correria econdmica sob a qual o Pard
ameaga ficar sepultado, com uma administration
inepta
O rol da elite que ocupou os principals cargos
do poder no Estado desde a d6cada de 60, quando a
Beltm-Brasflia rompeu o cordio de isolamento da
Amaz6nia, 6 melanc61ico. Enquanto o ocupante do
Pal~cio Lauro Sodr6 tratava, com suas extens6es
subordinadas, de questidaculas que mal iam alem de
scus narizes e da esquina ao lado, o Pard perdia
mais de 10% de suas florestas sem sequer uma com-
pensag~io econdmica B altura da destruigio, assistia
- de bragos cruzados a construg~io de uma hidre-


16trica monumental, via erguer-se o maior empreen-
dimento minerador do planet, olhava B distincia a
said de milh~es de toneladas de bauxita, achava
natural o embarque de energia embutida em lingotes
de aluminio ou o agambarcamento de seu patrim6nio
fundidrio como moeda da especulagio. Traficava-
se, transitava-se e mercadejava-se mais do que se
administrava, no exato rigor politico do termo. Ad-
ministrar: o resultado de um ato de vontade, a es-
colha de opg6es. Aqui, nada se escolhia: o prato jB
vinha feito.

Ao imp~rio inquisitorial dos coron~is seguiu-se
a frustraSao com a principal lideranga oposicionis-
ta, que prometia ser o fim de uma tradigio de man-
do e tornou-se, na verdade, sua reencarnaCio piora-
da. O governor H61io Gueiros nio se props nada de
mais amplo ou de maior fdlego; quando muito, seria
a reconciliagIo da gestio da coisa pdiblica com al-
guns principios cl~ssicos de probidade on o cum-
primento de uma simpl6ria contabilidade de de-
ve/haver, cumprindo como ilha solitbria e minds-
cula o que se propunha a ser arquipelago.
Agora, o desert. Se fosse votar hoje, o eleitor
teria opg6es nada alentadoras: o retorno de Jader


A arena esti formada


O tempo e a hora






Barbalho, com todas as seqitelas inerentes ao scu
modo de operar os negbcios pdiblicos; o emprestrio
Said Xerfan, que parece nio ser capaz de atraves-
sar o balcio de seus neg6cios para assumir o timio
da administragio pdiblica; o emprestrio e cantor
Carlos Santos, cuja sabedoria parece nio it al~m
dos sons que aprisiona no acetato; o tamb~m empre-
strio Luis Rebelo, que financing localmente a cam-
panha de Collor apesar de ter fatia de um setor
francamente cartorial; o senador Almir Gabriel, que
gosta de jogar sem arriscar e que nio vQ inconve-
nigncia nos meios para chegar ao fim just, na 6tica
dele; e por at afora.
HA, portanto, condig6es objetivas em favor de
uma lideranga que rompa essa mesmice e projete os
sonhos do Estado num program vi~vel, ao alcance
dos cidadIos, mas sem reduzi-lo a uma franquia
entire correligiontrios. HA ventos favoriveis a sur.
press, mesmo que. contra elas se ergam as miqui-
nas azeitadas do clientelismo eleitoral.
Foi por estar convencido dessa situagio que'
nos ~iltimos dias, estive refletindo sobre o convite
feito por dirigentes de um pequeno partido em or-
ganizagio para ser candidate ao governor do Estado
na eleigio de outubro. Cresci no meio de politicos,
ouvindo os "causos" de uma fauna rica e interes-
sante que gravitava em torno do men pai, ele na
political desde os 18 anos de idade. Era um dos
acontecimentos mais atraentes da minha inf~incia e
adolescbncia; continue a ser uma das lembrangas
mais vivas na minha mem6ria de adulto. No entan-
to, resisti a convites e press6es do men pai e de
outros para assumir o lugar que ele nio p6de mais
ocupar quando um ato de forga o obrigou a afastar-
se da political. Naquela 6poca, seria fa~cil eleger-me
deputado estadual. Continue a ser, hoje. Mas a car-
reira polftica nio exerce fascinio em quem fez car-
reira no jornalismo por um quarto de seculo, a n~io
ser que o privem definitivamente de sua tribune es-
pecifica.
No entanto, o exerefcio dessa funglo pdiblica
de jornalista de investigation e dendncia tem suas
limitagdes. Hoje, s6 consigo escrever num journal
pequeno que eu mesmo criei para nio me submeter
a restrigaes inaceitiveis, o Jornal Pessoal, e em pu-
blicagdes de um circuit especial. Fazer conferan-
cias tornou-se a complementagIo desse esforgo.
Mas essas duas atividades me custam muito carol,
inclusive na parte material, porque a compulsio de
informer a opinito pliblica sempre me fez descurar
a remuneraCio do professional, que hoje sobrevive -
a duras penas como free-lane.
A polftica est8 agora separada por uma linha
imagin8ria muito delgada. Depois de tantos anos de
dedicagio "B causal estou plenamente certo_ de
que meu estado de consci~ncia resulton em indigna-
glo, a indignagio que me leva a enfrentar os inimi-
gos da Amaz~nia e a tenter identificar seus proble-
mas e tamb~m apontando as solug6es desses pro-
blemas. Esta tarefa ultrapassa a competencia do
jornalismo e da ci~ncia: 6 uma mission da polftica,
que se cumpre assumindo os poderes de agIo e
transformac;io. Estes 6 que interessam; simples-
mente parlamentar n~io me atrai. Sei disso e foi
tentado por isso que pensei muito nas propostas re-
cebidas antes de responder que nio as aceitaria.


Nio aceitei pelas condig6es objetivas em que
se consumaria minha oppHo. Teria que me atrelar a
pessoas com as quais nio concordo, seguir esque-
mas que nio me satisfazem e encaminhar esse pro-
jeto como se fosse um messias, um messias que tal-
vez possa estar certo, mas que, acima de tudo, ar-
risca se tornar messilnico, abolindo as regras que o
fizeram surgir e impondo novas regras que s6 a ele
favorecem. Sabemos do que estamos falando quando
olhamos para o president Collor de Mello desse
prisma.
Mas continue firmemente convencido de que
boa parte da agonia do ParB, de sua figure de Esta-
do de ocupagio, derrotado, result dessa falta de
uma elite apta, competent, firme, Idicida e de um
lider que galvanize as energies do Estado e as pro-
jete num empreendimento coletivo de significagio.
Vou continuar trabalhando para isso. Se houver no-
va oportunidade no future, farei tudo para que ela
venha mais cedo, para que dela um grupo muito
maior participe e possa preparar, a tempo e a hora,
a proposta de dar hora e vez para este povo amorte-
cido e brutalizado pelo saque permanent de seu
patrim6nio e at6 mesmo de suas esperangas. Conti-
nuarei nesta tribune daqui, empenhado em criar tal
projeto.


NOSS8 CriSe

O Jornal Pessoal atravessa o period mais crf-
tico de sua histbria de dois anos e meio de vida.
Embora continue expandindo sua rede de assinan-
tes, a precaria estabilidade econdmica que se vinha
construindo para ele foi sendo corroida pela infla-
gio galopante dos meses finals da administration
Sarney. Os pregos das assinaturas ndo foram rea-
justados conforme a inflagio por um pudor que nos
fazia resistir a betenizagio fiscal. Hoje, estabeleci-
do o congelamento de pregos por um acordo ticito
entire o governor e o mercado, descobrimos que o JP
s6 nio esti falido porque jl vinha vivendo numa
pobreza franciscana (a original, sem o sistema de
permuta consagrado pelo ex-ministro Roberto Car-
doso Alves).
Para prosseguir, o journal precisa ganhar ur-
gentemente novos assinantes. Na media das nossas
forgas, estamos procurando expandir o circuit dos
nossos leitores, mas dependemos da propagagio es-
pontinea dos que j6 nos 18em e consideram o JP
uma publicag~o necesssria. Esperamos que eles in-
tensifiquem a difusio do journal entire seus amigos.
Como dgo podemos reajustar os valores das assina-
turas para que eles estejam a altura dos custos de
produgho e distribuigio, recorremos aos amigos do
Joreal Possoal: voluntariamente, eles poderio fazer
assinaturas especiais, com valores acima dos que
estamos praticando (500 cruzeiros a assinatura se-
mestral e Cr$ 250 a trimestral), como uma formal de
ajuda para a sobrevivbncia do JP. Os assinantes es-
peciais passario a fazer parte de uma relagio de
amigos do journal e terio algum tipo de retorno pelo
valor pago a mais. Fica claro que se trata de uma
iniciativa espontinea, a ser assumida por quem qui-
ser ajudar o JP, sem qualquer tipo de obrigagio on
encargo.









entire a situagio ffsica de alguns locals e a fungo
que lhes foi atribuida tambgm 6 perceptivel.
Todas estas falhas e lacunas, ainda que reve-
lem uma intengio oculta por tras das declarag6es
oficiais, nIo autorizam os vereadores a simples-
mente pedir o cancelamento das unidades de prote-
gio ambiental. Ao inv6s de acabar com as reserves,
a tarefa correta consiste em corrigir seus vicios de
origem, mantendo-as e fortalecendo-as. A necessi-
dade de proteger a regiko de Carajis das graves
agress6es que tem sofrido s6 nIo 6 sentida pelos
agents dessas depredagdes. Os principals slo os
fazendeiros, geralmente destituidos de qualquer
preocupagIo com o meio ambiente, e os madeirei-
ros.
Eles podem alegar que a "imobilizagio" das
novas breas refrear8 a expansio da produgho agrf-
cola, mas nenhum deles questionou os absurdos
projetos de assentamento realizados pelo extinto
Getat em Caraj~s. O bloqueio do acesso B terra s6
os inquieta quando eles v6em-se impedidos de alar-
gar o horizonte de seus procedimentos especulati-
vos. Se nio forem contidos, continuario saqueando
a regiso, insensfveis ao absurdo desses atos (que
estio acabando, por exemplo, com os belos casta-
nhais do Itacaidinas).
Criar areas de protegIo ambiental em Carajds 6
uma attitude positive, mesmo que dela tenha se utili-
zado a CVRD para tentar proteger seus projetos de
explora~go do cobre e do ouro da ameaga dos ga-
rimpeiros e especuladores. Com alguns dos perso-
nagens dessa frente, o argument ecoldgico, mesmo
quando procura alertar para os lucros que uma agao
mais inteligente face ao meio ambiente pode propi-
ciar, 6 linguagem ininteligfvel. Eles jamais serio
tocados por essa conversa simplesmente porque ela
nada lhes diz. Nesse caso, o Estado, exercendo suas
prerrogativas e no domfnio de suas responsabilida-
des, deve impor o acatamento a uma decisio de in-
teresse da coletividade e no sentido do beneficio
social.
O confront entire a CVRD e os vereadores,
arfetes usados por personagens s6 invisfveis a ob-
servadores mal informados, torna-se desgastante
e improdutivo porque o Estado do Pari, que deveria
ser o maior interessado no problema, assisted o de-
senrolar dos fats como espectador omisso. Revela-
se outra vez a falta de um drgio estadual forte e
competent para ser interlocutor e agent diante dos
muitos e complexes problems ecol6gicos que se
t~m formado no ParB. Seu governor prefer olhar pa-
ra tras, procurando inspiragIo inexistente, ou, se
existente, inadequada, so inv~s de preparar-se para
as tarefas do present e do future.

Eventualmente os interesses de uma empresa
estatal podem nio se compatibilizar com os do Es-
tado onde ela atua. Esse cheque tem sido mais fre-
qitente do que se poderia esperar. Mas a pritica
tamb6m tem mostrado que uma empresa do governor
6 mais suscetfvel a presses corretivas do que em-
presas privadas. E verdade que a Vale tem uma d~rea
grande e que o domfnio do solo nem precisaria ser


raba solicitaram ao Congresso Nacional a re-

Hoinfcio do mas passado, os vereadores de Ma-
blica, de maio do ano passado, que criaram
tres areas de protegIo ambiental na provincia mine-
ral de Carajas, no ParB. Somadas, a Floresta Nacio-
nal do Tapirap6-Aquiri, a Reserva Biol6gica do Ta-
pirap6 e a Area de Protegio Ambiental do Gelado
tgm pouco mais de 315 mil hectares. Embora juris-
dicionadas no Ibama, as areas ficaram, na pratica,
sob o control da Companhia Vale do Rio Doce,
com quem o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente
assinou um conv~nio.
A CVRD, detentora de todas as jazidas da pro-
vincia de Carajas, foi autorizada pelo Senado, em
1986, a ocupar 412 mi hectares, independentemente
de seus direitos minerairios (que se referem ao sub-
solo). Os vereadores de Maraba decidiram reagir
contra as reserves ecol6gicas, 10 meses depois de
elas terem sido criadas, por acreditarem que, de
fato, a CVRD apossou-se de mais de 727 mil hecta-
res. A alegagIo de que as trbs Aireas se destinam a
protegio ambiental nio seria mais do que um alibi
para ampliar os dominios territorials da estatal.
No requerimento, apresentado pelo vereador
Renato Zucatelli e aprovado por maioria absolute, o
Ibama 6 acusado de ter transferido para a Vale "to-
dos os encargos relatives a supervisor e fiscaliza-
glio dessas areass. O decreto que criou a Floresta
Nacional do Tapirap6-Aquiri garantiu a continuida-
de da mineraCio, mas "milhares de colons, agri-
cultores e extrativistas foram prejudicados, ji que
nio receberam nenhuma notificagIo pr6via gover-
namental, nio recebendo, at6 o memento, nenhuma
indenizagio por suas propriedades", diz o tosco re-
querimento da Camara de MarabB. Os vereadores
acreditam que somente se brecarem a expansiono
territorial desta mineradora" no municipio sera pos-
sfvel "manter Areas para programs e projetos agri..
colas".
`B possfvel que os vereadores marabenses te-
nham entrado em caminho errado. Talvez conse-
guissem seus objetivos, ainda que com maior lenti-
dio, questionando na Justiga o embasamento jurfdi-
co dos decretos assinados pelo president Jos6 Sar-
ney. A Justiga poderia declarer a incompet&ncia do
Executive para destinar dreas ji transferidas no pa-
trim6nio fundiatrio do ParB, desde a revogagio do
decreto-lei 1164, em 1988. Ja o Senado nio pode
anular ato administrativo do president da Repdibli-
ca, se sua inconstitucionalidade nio foi declarada.
Sem entrar nos meandros dessa questio preli-
minar, no entanto, cabe uma andilise sobre o m~rito
da iniciativa dos vereadores de Maraba. Eles t~m
suas raz~es para suspeitar que a destinagio dad a s
Breas foi apenas um instrument para incorporar in-
diretamente novas terras ao control da CVRD. A
contradig~io entire o uso que se espera de uma flo-
resta national e a excegio aberta a minerag~o j6
havia sido apontada pelo Jornal Possoal. A delega-
glo de podores feita pelo Ibama a empresa pode ser
considerada excessive. Uma certa incompatibilidade


Caraj~s: do oculto ao explicit



























Planejamento, Delfim Neto, comandou no
Naa~o di 2de brld 192o entioo ma a m inis tro dmo
Pial ci do Panailtum das92o n~ manis roamo-
lescas operagdes de nacionalizagio de uma
empresa estrangeira no Brasil. Sob as b~nglos do
general Jolo Figueiredo, president da Repdblica, o
projeto Jari, do miliontrio norte-americano Daniel
Ludwig, passou para as mios de 23 das maiores
empresas brasileiras. Era a consumagio de uma au-
tgntica operagio de guerra, montada com movi-
mentos tio sofisticados do mundo dos neg6cios que,
at6 hoje, a transagIo nio foi absorvida pela opinion
pdblica.
O desconhecimento do significado real daquele
ato se manifesta num fato: os refletores da "inteli-
gentsia" deixaram de ser apontados na diregio do
pol~mico empreendimento que Ludwig iniciou na
Amaz~nia em 1967, quando se tornou proprietirio
de uma vasta possessio de terras entire o ParB e o
AmapB. O G5ltimo livro escrito sobre o Jari 6 de
1984, tema especifico de quatro livros anteriores e
refer~ncia em vkrios outros. Por omissIo, os "for-
madores de opiniko" parecem considerar encerrada
a hist6ria do projeto Jari ou ao menos ele teria
perdido a aura de fascinio que o tornara citagio
obrigat6ria em todos os encontros de temitica ama-
z6nica.



PrejUi ZO decenal
O principal empreendimento do projeto Jari, a
produgho de celulose, deu prejufzo pelo 100 ano
consecutive de funcionamento. Em 1989, o d6ficit
foi 12 vezes maior do que o do ano anterior: de 272
milhdes de cruzados novos. A 31 de dezembro do
ano passado os prejufzos acumulados pela atual
Companhia Florestal Monte Dourado somavam qua-
se 3,5 bilhdes de cruzados novos, cobertos princi-
palmente por dinheiro said dos cofres do Banco do
Brasil e do BNDES. Mas o Jari estA livre do princi-
pal empr~stimo deixado por Ludwig. At6 o final da
d~cada o empreendimento receberi mais US$ 120
milh~es para se expandir, recursos que, novamente,
sairio de instituiqdes oficiais.


exercido por quem ji possui os direitos do subsolo.
Mas a transfer~ncia desse dominio foi realizada
atrav~s da concessio de direito real de uso, uma
forma jurfdica muito mais avangada do que a venda
pura e simples, que o Estado adota quando aliena
terras a particulares.
A CVRD recorreu a um artificio junto ao Iba-
ma por saber que "lobbies" no Congresso impedi-
ram-na de expandir seus dominios, ainda que pu-
desse apresentar raz~es relevantes para justificar
a incorporaCio de novas Areas. Argumentos sonan-
tes costumam ser mais convincentes do que raz~es
de Estado nos bastidores do parlamento. Finalmen-
te, cabe notar que se a grea da CVRD ji 6 grande,
pessoas ffsicas ou juridicas ocupam ao redor Areas
de porte semelhante sem lhes dar qualquer destina-


gho, ou, quando as usam, sub-utilizando-as (no
sentido da produgHo em si e da racionalidade pro-
dutiva).
Mais exposta ao jogo de presses, a Vale teria
que ceder em algumas de suas pretens~es para ne-
gociar a participagio do Estado no empreendimento,
a ~inica maneira de prevenir conflitos e does de ca-
bega. Mas o Estado on nio se interesse por esse ti-
po de questio, ou trata-a com uma inapetdncia as-
sustadora, quando nio chega B mesa de negociagIo
movido por objetivos que nada t~m a ver com os
interesses pdblicos. Assim, a moral de "imbro-
glios" como este que a Clmara de Marabd preparou
result em prejufzo e desalento porque o persona-
gem oculto acaba sendo o sujeito principal da ora-


Passados oito anos, entretanto, ndo faltam mo-
tivos para se proceder uma revisio da decision que
Figueiredo avalizou, Delfim assumiu e o advogado
Bulh~es Pedreira, autor da lei das sociedades and-
nimas (e, nio por mera coincid~ncia, por ele usada
com sagacidade), concebeu. Esse reaxame torna-se
ainda mais oportuno nessa 6poca em que se fala na
instauragio de um capitalism sem muletas e no fim
do tal de capitalism cartorial brasileiro, nossa mais
original contribuigio para a hist6ria.

NIo hB divida de que os 23 conglomerados
econdmico-financeiros convocados para assumir o
acervo de Ludwig s6 aceitaram a tarefa porque o
peso maior foi colocado sobre os ombros do Estado.
Dos 240 milh6es de d61ares que seriam aportados
ao empreendimento para reanim8-lo, US$ 180 mi-
lh~es sairiam dos cofres de bancos estatais e em
ddlares mesmo. A aplicagIo deu-se nio atraves de
uma linha de cr~dito conventional, como exigiria o
governor Collor, mas em aplicag~io de capital. Sd
que foi um investimento oneroso: o dinheiro empa-
tado nio se traduziu em participagIo equivalent na
administration da empresa. Converteu-se em classes
especial de agio, que confere ao acionista partici-
pagIo simb61ica no negdcio. Ja os valiosos dividen-
dos, que poderiam compensar as brancas nuvens so-
cietirias, virio se vierem a longufssimo prazo.

Encontrar novos s6cios para o Jari tornou-se
missio urgente exatamente porque Daniel Ludwig
recusava-se a pagar um emprestimo de US$ 200
milhdes que ele obtivera do fabricante das unidades
de celulose e de forga. A crbnica official atribui es-
sa recusa B mi vontade do governor, que jB n~o esta-
ria mais atendendo as solicitagdes (na verdade im-
posig8es) do velho miliontrio (agora se aproximan-
do dos 93 anos de idade). O governor 6 que j6 nio
podia tender Ludwig ou ele extrapolava a amplitu-
de de seus pedidos justamente para criar o impasse
e uma justificative para abandoner um empreendi-
mento que fazia Agua7 Nenhum governor com o mf-
nimo de dignidade aceitaria o que Ludwig estava
exigindo, como ficou claro quando o general Gol-
bery do Couto e Silva "vazou" as carts do milio-
nkrio para a imprensa tamb~m nio por acaso.


O Jar i cont inua vivo





Ludwig saiu em boa hora, poupando sua fortu-
na. O que perdeu no Jari foi mais do que compen-
sado pelo que p6de vender no Trombetas, onde pos-
sula direitos minerdrios caducos mas, ainda assim,
foi autorizado pelo governor a negociar com a Al-
coa. NIo se sabe quanto o governor despejou no Jari
para apagar o fogo financeiro dos empr~stimos, mas
deve ter sido algo entire 400 e 500 milhdes de d6la-
res no espago de 10 anos. Qual o empreendimento
que recebeu tanto, sob a forma de neg6cio especial
(que n6o 6 nem cr~dito, nem associagio convencio-
nal), retribuindo tio pouco?
Passados oito anos, se jB nio hB uma bandeira
capitalist por tr~s do Jari, como o nome do "tyco-
on" americano, hB, no entanto, razdes de sobra para
que a opiniio pdblica se interesse por um dos em-
preendimentos mais significativos da histdria re-
cente do pafs e que continue vivissimo, apesar da
vesguice da "inteligentsia". Como sempre, ela pa-
rece apenas interessada em bandeiras, mesmo que
sejam furadas.

Jornalismo decorative

Na quinzena passada o Jornal Pessoal fez um
registro crftico do relangamento da "Folha do Nor-
te" pelo grupo Liberal. O redator da coluna "Vozes
da Rua", que era publicada na "Folha Vespertina"
e nio na antiga e gloriosa "Folha do Norte", nio
gostou do comentrino. Reagiu com uma observagao
do tamanho do seu f61ego e da sua criatividade: "O
L1Scio Fklvio Pinto diz em seu Jornal Pessoal (e
bote pessoal nisto) que a Folha d fria. Ora, frio d
um journal que passa 20 dias para circular e ainda
sai magudo e frouxo".
Quem nasceu para video-clip nunca vai chegar
a long metragem. O redator da coluna nio tem
verve, veneno ou id~ias. Quer fazer graga sem ter
humor a oferecer. E pretend fazer jornalismo sem
saber apurar informagdes. Que o JP 6 um journal in-
teiramente pessoal, ningu6m p6e em divida: foi a
meneira de garantir a sobreviv~ncia de uma publi-
cagio que jamais chegaria a 60 edigdes em dois
anos e meio de vida, desafiando a ira dos poderosos
e a ffsica financeira, se nio fosse inteiramente pre-
parada por uma s6 pessoa. Tudo o que sai aqui tem
autor, enquanto a "Folha" transcreve notas de co-
lunas de outros jornais (como o "Canal 3", de "O
Estado de S. Paulo") sem citar a fonte.
SO JP nio tem as filigranas da "Folha" yuppie.
E, realmente, um journal de texto. Tenho muito o
que escrever para o pouco espago de que disponho.
O leitor que quiser colfrio para os olhos deve dar
uma olhada na "Folha" (16-la 6 sup6rfluo). Quem la
o Jornal Possoal esta atris do recheio e nio da mol-
dura. Logo, para corresponder a essa expectativa,
deixo de lado os recursos grificos para nio perder
espago, nem tempo. E claro que um journal grande,
como a "Folha", nio pode dispensar esses recur-
sos. Mas um grande journal nio fica apenas nessas
firulas, como o faz a nova (nova mesmo?) "Folha".
O Jornal Pessoal surgiu porque era precise pu-
blicar informagdes sobre o assassinate do ex-depu-
tado Paulo Fonteles, que a grande imprensa se recu-
sava a dar. Prosseguiu sendo o inico a tratar do
desfalque de 30 milhdes de ddlares no Banco da


Amaz~nia. Mostrou em seguida a dilapidagio dos
recursos do Banco do Estado do Parb. Denunciou a
inddistria das desapropriagdes no Mirad. Desmasca-
rou a montagem do "atentado" contra a hidrel~trica
de Tucuruf. Reconstituiu a verdadeira histdria do
conflito dos garimpeiros de Serra Pelada. E vem
mantendo essa tradigio, que jamais pretend ser ex-
clusividade (antes lamentando-a), de tratar dos te-
mas inc6modos, mas de alto interesse pdblico. O JP
ganhou dois pr~mios da Fenaj, no primeiro ano des-
sa nova premiagio jornalistica, e foi considerado a
melhor publicagio do Norte-Nordeste. Isto tudo sem
dispor da milion~sima fraCIo dos recursos por trls
da "Folha".

O JP, para ser quinzenal, leva no m~ximo 15 e
nio 20 dias para circular. como diz a "Folha",
subvertendo o calenda~rio. Infelizmente, o journal
nio pode estar pronto num inico dia por limitag8es
pessoais e industrials. Passam-se at6 dois ou tr~s
dias entire a redagio final e a impressio do journal.
Ainda assim, basta ler o 6ltimo ndimero para cons-
tatar que o JP foi o inico a afirmar e sustentar a
afirmativa com fats que o governador H61io
Gueiros ji decidira apoiar a candidatura do ex-pre-
feito Sahid Xerfan, tendo circulado cinco dias antes
da confirmagIo official da escolha.
Diga-se neste caso, a bem da verdade, que
provavelmente o pessoal do grupo Liberal conhecia
o fato, mesmo porque participara da articulagio do
nome e da montagem do esquema politico (e eco-
n6mico, naturalmente). Tanto isso 6 verdade que di-
retores da empresa foram passear tranqitilamente
nos Estados Unidos, em pleno caos desencadeado
pelo Plano Collor (um de seus efeitos foi o atraso
no pagamento dos funcionkrios do Sistema Romulo
Maiorana de Comunicagio). Nem "O Liberal" e
nem a "Folha" divulgaram a notfcia porque nesta,
como em outras quest6es decisivas, ambos fazem
mais neg6cio do que jornalismo, usando as informa-
96es a que t~m acesso (por declararem-se "da im-
prensa") para seus inte~resses pessonis e nao para
repass8-las ao pdiblico. E por isso que o Jornal Pes-
seal pode ser acusado de outras coisas, mas nio de
frio. Ele 6 quente simplesmente porque faz jorna-
lismo e at nio tem concorrente, porque o outro lado
nio quer. Ja; a "Folha" cabe como luva um tftulo do
imortal Nelson Rodrigues: d bonitinha, mars como d
ordinr~ia.


Recado dirigido

Para quem se acostumon ao seu discurso popu-
lista, o ex-ministro Jader Barbalho surpreendeu com
um pronunciamento violent e irritado durante a
convenglo municipal do PMDB de Bel~m. Seus al-
vos principals foram o governador H61io Gueiros e
o grupo Liberal, que estariam tentando "ditar o
comportamento do PMDB". Coino em outras oca-
sides, lembrou nIo ter "dobrado a espinha do go-
verno para esse grupo Liberal, nascido do contra-
bando".
O interessante 6 que nem o journal do ex-mi-
nistro, nem sua televisio divulgaram essa parte do
pronunciamento. Parece que Jader estava falando
apenas para o pdblico interno.





Caraj~s represent o mais important capftulo
da hist6ria amaz6nica. Nele jai foram investidos
mais de trgs bilh6es de d61ares. Metade desse di-
nheiro foi aplicado na ferrovia, de 870 quil6metros
de extensio. Ela 6 a art6ria de escoamento dos pro-
dutos e mat6rias-primas de exportagio e o indutor
do adensamento de novos empreendimentos. Dez
anos atr~s a CVRD encomendou um estudo para es-
timular as atividades econdmicas na Airea, at6 entio
restritas ao extrativismo mineral, mas alertou que os
capitals s6 viriam se o "monstro de Loch Ness"
fosse eliminado.
O tal monstro era a infraestrutura, inexistente
na regiio. Caberia ao poder pdblico dar esse com-
bate. Na drea do Programa Grande Caraj~s (origi-
nalmente batizado de "Metal Amazon", o que diz
tudo de sua motivagIo), de 900 mil quil6metros
quadrados (mais de 10% do territ6rio national), a
Estado investiu 13 bilh~es de dblares para construir
estradas, hidrel6tricas, micleos residenciais, etc.
No espago de um dec~nio, 6 investimento ex-
pressivo, qualquer que seja o pafs beneficiado. No
entanto, essa infra-estrutura especializou-se em
tender apenas os grandes projetos, que ji nio es-
tio mais sendo atormentados pelo monstro imagindi-
rio da CVRD.

Carajas nio 6 mais apenas mineragio. Jg existe
ali um p6lo siderdrgico e o prendncio de metalur-
gias, mas essa agregagio significa realmente maior
valor liquid? O caso do pdlo guseiro 6 um exemplo
definitive dessa irracionalidade cong~nita no pla-
nejamento official. Uma tonelada de gusa est8 cota-
da a 100 d61ares, mais ou menos. Cada tonelada de
gusa exige uma tonelada de carvio vegetal, que nio
pode custar acima de US$ 70 para nio inviabilizar a
siderdrgica. Cada tonelada de carvio vegetal result
de tr~s toneladas de madeira. Pode-se vender uma
tonelada de madeira mtdia na regilo por US$ 70.
Tr~s toneladas slo US$ 210, 110 ddlares a mais do
que a tonelada de gusa. Produzir as atuais 300 mil
tonzeladas de gusa significa deixar de ganhar US$
30 r t!haes
Nog~ -. : Ilssim, que o Brasil seja atual-
mente e ., I do mundo a produzir gusa a
partir do carvio vycetal. Espanta 6 verificar que es-
sas irracionalidades surgem e se perpetuam numa
hist6ria que s6 6 gloriosa se for escrita pela bitola
official, da matemitica frivola, aquela que s6 dB re-
sultado certo para quem a manipula. Carajas precisa
de outra matema~tica.


panha, mas ainda assim, sem comemoragdes
o Projeto de Ferro Caraj~s estard completan-
do cinco anos de funcionamento. Foi no dia 30
de abril de 1985 que pela primeira vez um navio
deixou o porto da Ponta da Madeira, em Sgo Luis,
com um carregamento de min6rio de ferro, 18 anos
depois da descoberta da mais important jazida des-
se minerio em todo o mundo, localizada no Pard.
Um navio da Docenave, o Docevirgo, comegou en-
tio a viagem de mais de 20 mil quil~metros at6 Oi-
ta, no Japho, destiny das 31 mil toneladas de min6-
rio que nele foram embarcadas.
O Docevirgo deu partida naquele dia g execu-
gho do principal contrato de venda de minerio de
Caraj~s, que prevQ o fornecimento de 140 milh~es
de toneladas aos compradores japoneses ao long
de 10 anos. Isto significa o atendimento de 10% das
necessidades do parque siderdrgico do Japio. E
tamb6m marca o deslocamento de influ~ncia que, na
Amaz6nia, de certa maneira, antecipou uma tend~n-
cia national: o Japio vai ocupando um lugar que
tradicionalmente os Estados Unidos haviam tornado
cativo.
Caraj~s era para ser mais um capftulo da domi-
nagIo norte-americana. Gragas a tecnologia sofisti-
cada que empregaram, as duas principals siderdrgi-
cas dos EUA a United States Steel e a Bethlehem
Steel comegaram a revelar, a partir de 1966, os
depdsitos de mangan~s e ferro de Caraj~s, com uma
facilidade sem paralelo na hist6ria da geologia
mundial. Todas as informag6es indiretas apontavam
na diregiio daquele conjunto de serras entire os vales
do Tocantins/Araguaia e do Xingu. Faltava apenas
a confirmagio direta, que o helicbptero possibili-
tou. O helic6ptero como instrument de pesquisa
geoldgica veio com as multinacionais.
O projeto se tornou a principal unidade de
produgho da Amaz6nia: os 32 milh6es de toneladas
de minerio de ferro extraidos no ano passado rende-
ram mais de 660 milhbes de ddlares, quase o dobro
da receita da Albrss, a fiibrica de altiminio, que fi-
cou em segundo lugar. Mas a amaortizagIo dos fi-
nanciamentos contraldos pela CVRD para implantar
o empreendimento exigiu 560 milh6es de ddlares,
valor que se repetirdi nestes prdximos dois anos, re-
presentando o calcanhar de Aquiles desses grandes
sorvedouros de dinheiro.

Enquistados como enclaves em ambientes so-
ciaiis 'conturbados, eles fazem dois tipos de drena-
gem. tlan deles 6 de mercadoria: a Amaz~nia ofere-
ce ao mundo produtos intensivos em energia, mas
com pregos rebaixados exatamente porque a energia
6 subsidiada. Isto significa relagdes de troca desfa-
voraveis com o Primeiro Mundo, que recicion sua
economic exatamente para absorver os custos cres-
centes detonados pelos cheques do petrdleo. A ou-
tra drenagem ocorre atrav~s dos poucos visfveiS
circuitos financeiros. Slo duas poderosas bombaS
de sucqio. Elas fazem a Amaz~nia expandir suR
fronteira produtiva, mas aumentam a distlncia que &
separa dos pauses mais avangados.


Caraj~s: 5 anos de ferro


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