Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00048

Full Text



Lor nal Pessoal
LJ icio Flaivio Pinto


Ano III N 58


Circula aDenas entire assinantes


1 Quinzena de Marco de 1990


ELEICAO

Uma dispute an6nima

Aproxima-se do fim a contagem regressiva do relacionamento
entire o governador Helio Gueiros e o ministry Jader
Barbalho. Ele e o eixo da dispute eleitoral no Para porque
o Estado tornou-se uma esp6cie de desert de lideres.


0 Par4i 6 um desert de lfderes. Nessa aridez po-
Iftica esti a raiz da complete indefinigio no
quadro sucess6rio estadual a menos de sete
meses da eleigio que vai apontar o successor do
advogado e jornalista Hl6io Gueiros. Nio aparecem
nomes capazes de catalizar o eleitorado, nem ama-
dureceram esquemas, acordos e composiq6es justa-
mente por falta de alternatives. Ha muito tempo o
ambiente que antecede uma eleigio no Para nio 6
tao melanc61ico quanto o de 1990.
A dispute real ainda gravita em torno de uma
novel pouco criativa: o rompimento definitive ou o


reatamento estrat6gico nas relaq6es entire o gover-
nador e o ministry da Previd6ncia Social. A pesqui-
sa do Gallup mostrou que os dois sAo os polfticos
de maior lideranga no Para de hoje. Muitos peeme-
debistas, dos deputados estaduais Oti Santos e Ha-
milton Guedes aos federal Arnaldo Moraes Filho e
Mario Martins, gostariam de colocar Jader e H6lio
no mesmo palanque at6 outubro. A vit6ria seria
certa, mas essa uniio esti cada vez mais improva-
vel.
Polfticos muito ligados a Jader dizem que o
ministry ja nio acredita nesse reatamento e esta tra-





balhando para criar bases seguras para sua candi-
datura ao governor sem defender de Hl6io Gueiros.
Por isso, enquanto o governador suspended as hos-
tilidades, retomadas apenas durante uma viagem a
Conceigao do Araguaia, na semana passada, o jor-
nal e a televisio do ministry continuam investindo
contra a administragao estadual. A TV RBA divul-
gou uma long reportagem sobre o estado precArio
do Institute de Educagao do Pard plenamente cons-
ciente de atingir um ponto sensfvel para H6io
Gueiros: a gestio de sua esposa a frente da Secreta-
ria de Educaqao. O format da reportagem foi apro-
vado previamente por Jader. Todos os ataques ao
governor t6m tratamento destacado no "Diario do
Para", que solta notas venenosas atrav6s da princi-
pal coluna do journal. Uma delas informava que pes-
soa da famflia Gueiros compare quatro apartamentos
em um ediffcio de luxo de Bel6m.
As investidas "jaderistas" contra o governador
vao insistir sempre nesse ponto, em tom crescente:
H6lio Gueiros nio pode falar em "maos limpas"
porque membros de seu governor e de sua famflia
estariam envolvidos em atos ilfcitos, favorecendo-se
da administraago ptiblica ou praticando nepotismo.
Os 6rgaos de comunicaqao do ministry farao esse
tipo de ataque, independentemente de terem docu-
mentagao para comprovar suas afirmativas, porque
adotam uma postura jornalistica sem maior relagao
cor compromissos 6ticos. O governador, alias, sabe
muito bem disso porque jA responded nominalmente
pelo "Diirio".
Familiares do governador gostariam de poupar-
se dessa guerra sem regras, que favorece o ministry,
um reincidente contumaz no assunto, enquanto o
governador 6, pessoalmente, em relaago ao pdblico,
um ne6fito na mat6ria. Mas assessores de H6lio
Gueiros asseguram que ele nio se intimida. Negam
qualquer ligagio desses ataques cor uma declara-
cao de Gueiros durante recent entrevista coletiva.
Quase se desculpando, ele disse que s6 fazia certos
comentirios porque era provocado pelos jornalistas
e nio gosta de deixi-los sem respostas, sugerindo
que, por iniciativa pr6pria, nio adotaria certas ati-
tudes.
Na verdade, o moment para a decisao final de
Jader e H61io ainda nio amadureceu. Ele vird at6 o
dia 2 de abril, prazo final para a desincompatibili-
zagao do governador, se ele quiser ser senador.
O dnico caminho nessa direqao passa pelo PMDB:
Gueiros s6 deixaria o governor se, ao mesmo tempo,
seu vice, Herminio Calvinho, tamb6m se desincom-
patibilizasse, o que pressup6e um acordo dentro do
partido. A hip6tese de o governador quebrar a do-
minagio exercida pelo ministry e controlar a con-
vengao peemedebista esta praticamente descartada.
O PMDB ainda farA o que Jader quiser.
Nenhum dos dois quer antecipar uma decisao
extremada porque disp6em de tempo e cedem espa-
go para os grupos de bombeiros, que tentam, as ve-
zes de uma forma melanc6lica, apagar o fogo da
disc6rdia por motives estritamente pessoais. Du-
rante os iltimos dias, personagens dos dois lados
do campo tentaram, sem sucesso, promover um en-
contro dos dois. O ministry da Previd6ncia Social
parece mais pr6ximo do rompimento. No espaco de
alguns dias, enquanto o lider do governor, Oti San-


tos, subia a tribune para defender Gueiros, mesmo
depois de ser impedido de participar da caravan
official que percorreu o municipio de Alenquer, uma
imensa "colher de cha" do governador ao deputado
Arnaldo Moraes Filho, o deputado Paulo Dutra, na
mesma tribune, investiu contra a administragao es-
tadual. Outros polfticos repetiram a dose, todos eles
liderados por Jader, anunciando um tempo hostile
para o governor junto a sua pr6pria bancada.
As outras pedras do tabuleiro s6 serio mexidas
depois dessa definigio, mas a exigiidade do tempo
comega a causar angdstias. O prefeito Sahid Xer-
fan, por exemplo, 6 apontado como o candidate
potencialmente mais pr6ximo do governador, mas
at6 agora ele nao ouviu nenhuma confirmagio nesse
sentido da boca de H6lio Gueiros. Ao contrario, o
governador continue batendo na tecla dubidativa de
que ainda nao ter candidate e nio veta ningu6m, o
que significa aumentar ao maximo sua pr6pria mar-
gem de manobra para negociagio e para uma defi-
nigao de dltima hora, talvez at6 surpreendente.
Polfticos situados dos dois lados do muro ar-
gumentam que o ministry da Previdencia Social esta
blefando quando se apresenta como candidate ao
governor. O que ele buscaria mesmo seria um man-
date parlamentar, que Ihe daria imunidade contra
qualquer dos virios processes que tramitqm no Ju-
diciArio responsabilizando-o por atos de incdria ou
ilicitude administrative. Assim, Jader poderia ser
senador ou deputado, mas nao governador. Confi-
dentes do ministry responded que se houve essa
intengao, ela mudou: "os inimigos nao deram outra
alternative ao ministry, senAo disputar o governor .
Assim, ao contrario do que pensam polfticos ligados
ao esquema situacionista, a uniao Gueiros-Xerfan
teria como resposta imediata a candidatura Jader.
Mas nao havendo acordo, nem o governador
assumindo a candidatura do prefeito de Bel6m, que
opg6es restarao? A resposta exige muita imagina-
rao, a falta de informag~o. Alguns polfticos apos-
tam que Gueiros, convict de sua popularidade, po-
deria tentar eleger um novigo em polftica, como o
chefe da sua Casa Civil, Frederico Coelho de Sou-
za, ou o secretirio de Inddstria, Com6rcio e Mine-
ragao (o nome de Nelson Ribeiro foi apresentado
numa chapa que teria H6lio para o Senado e Jader
para a Cfmuara Federal, mas o ministry descartou a
proposta). Ainda haveria a opcao por Alacid Nunes
ou, na hip6tese de uma composigao peemedebista,
cor Coutinho Jorge. Mas todas essas sio apenas
possibilidades.
Fora do circulo do poder, jb existe a candida-
tura de Almir Gabriel, tendo como provavel compa-
nheiro de chapa o ex-Reitor Seixas Lourengo, que
preside a Paramin6rios, a companhia estadual de
mineragao. Prudente como sempre, o senador Almir
Gabriel evitou dar qualquer caracterfstica a essa
candidatura, vis-a-vis o ministry ou o governador,
afastando arestas para o future. Isto custou-lhe a
reagio da ala mais radical do PT, que o aponta co-
mo suspeito de coniv6ncia com os grupos dominan-
tes. Esta 6 apenas uma hip6tese, que o silencio do
senador sobre temas pol6micos da polftica local
alimenta, mas a pesquisa do Gallup tamb6m de-
monstra um fato: quanto mais candidaturas houver,
melhor ficard a posigio relative de Jader Barbalho.







Jader e o primeiro. E daf ?


I oito mess da eleigao, mais da metade dos
eleitores do Pard, ouvidos em pesquisa pelo
Institute Gallup, ainda nio sabiam em quem
votar para o governor do Estado. Os indecisos
somavam 52,6% do total dos entrevistados pelo
Gallup entire janeiro e fevereiro. Essa apatia mostra
que ainda nao ha uma definicio na corrida pelo
principal cargo da administracgo pdblica estadual.
Mas a pesquisa traga o perfil de um favorite: 6 o
ministry Jader Barbalho.
No entanto, nem os indices francamente favo-
raveis a ele, divulgados cor estardalhago pelo seu
journal, o "DiArio do Para", que indiretamente en-
comendou a pesquisa, slo suficientes para fazer o
ministry da Previd6ncia Social decidir colocar
abertamente sua candidatura nas ruas. Tr6s motives
parecem ainda estar fazendo Jader Barbalho manter
uma attitude de cautela, sem uma definigio express
sobre o cargo que ira disputar.
Um dresses motives 6 a expectativa em torno do
governor Collor de Melo. Apesar de os inimigos do
ministry alardearem que a primeira providencia da
nova administragio federal sera um combat cerrado
aos corruptos do governor anterior, ha cada vez in-
dfcios mais fortes no sentido de uma transigio sua-
ve de Sarney a Collor, sem os traumatismos anun-
ciados na campanha eleitoral. Foi de Collor que
partiu o pedido de encontro e o pr6prio president
eleito, depois de conversar amistosamente cor Sar-
ney e obter dele a gentileza de encaminhar a indi-
cagao do novo president do Banco Central, decidiu
nao transformer a visit que fez ao Maranhio, cum-
prindo prbmessa de campanham, em ajuda polftica
para o senador Joio Castelo, inimigo mortal de Sar-
ney.
Logo em seguida a eleiago, alguns assessores
garantiam que o primeiro nome na list de corruptos
a punir (ou a investigar) era o do ex-genro do pre-
sidente Sarney, Jorge Murad. No Para, a versao re-
cebia o acr6scimo do nome de Jader Barbalho, re-
forgada pela notoriedade adquirida pelo ministry
neste ocaso de governor, cor constantes aparig6es
no noticiArio da imprensa sobre escandalos na Pre-
videncia Social. Mas se Jader nao tem seguranga
sobre o efeito apaziguador da interfer6ncia de ami-
gos junto ao novo governor, a certeza de seus inimi-
gos quanto a uma ofensiva moralista e punitive de
Collor nao se baseia em fatos ou evidencias con-
cretas. Se a incerteza parece ser a tendencia real, a
expectativa do ministry pode estar mais pr6xima de
se concretizar.
O segundo motivo para o ministry nao trans-
formar sua campanha eleitoral nio declarada em
candidatura decidida ao governor vem dos pr6prios
ndmeros da pesquisa. Na classes A, onde se registra
o menor fndice de indecisos (27,5%), Jader teve a
menor votacao: apenas 1% dos entrevistados vota-
riam nele, contra 25,3% das opq6es por Xerfan,
11% por Almir Gabriel e 10,1% por Jarbas Passari-
nho. Junto a essa camada social Jader sofreria sua
dnica derrota, segundo a pr6via do Gallup.


A classes A 6 o menos expressive de todos os
cinco segments da pesquisa, mas 6 justamente
quem exerce maior influ6ncia (6 a formadora de
opiniio, como dizem os comunic6logos). A causa
principal da rejeiiao ao ministry 6 moral, a partir
do rapido enriquecimento de Jader nas iltimas eta-
pas de sua carreira political. O ministry sabe que
o tema da corrupqio sera exaustivamente explorado
por seus adversarios, colocando-o na desconfortavel
posiqio de ser o apelo prebiscitArio (tudo contra ou
a favor de Jader).
A terceira motivaaio tamb6m 6 confirmada
pelo inqu6rito. Os maiores fndices de adesio a Ja-
der sao obtidos nas camadas mais baixas da estrati-
ficagio social, sobretudo na classes E, onde ele teve
25% das opq6es (Xerfan foi o segundo, corn apenas
2,3%). Mas 6 af tamb6m que se registra o maior
volume de indecisos: 61,7% dos entrevistados ainda
nio tinham candidates ao governor. Chegar at6 esses
eleitores e estimula-los a votar exige muito dinhei-
ro, ou poder. Ainda que o ministry pudesse contar
cor recursos financeiros a altura da empreitada, ele
teria igual soma de poder? Na polftica clientelista
que se pratica no Para, s6 pode dar uma resposta
afirmativa categ6rica quem ter acesso a maquina
official. A partir do dia 14, Jader Barbalho estara a
margem dos governor federal e estadual, pela pri-
meira vez desde 1983. Ele ter que ponderar bem
essas circunstAncias antes de tomar uma decision,
inclusive porque a falta de verbas oficiais de publi-
cidade vai afetar o faturamento de suas empresas de
comunicaqio.
Por causa da massa de indecisos, os 19,4% de
votos espontineos que as pessoas entrevistadas pelo
Gallup Ihe deram representam menos de 10% de
votos reais, garantidos. Se a eleigio para o governor
se tornar prebiscitiria e o adverstrio de Jader con-
tar cor o apoio das duas maquinas oficiais, a evo-
luqgo da campanha podera adquirir contornos de in-
definigio e sementes de surpresa, impossfveis de
aparecer na pesquisa do Gallup. Uma coisa 6 pes-
quisadores chegarem a 2.059 entrevistados. Outra
coisa 6 o candidate disputar os votos de mais de
tres milh6es de eleitores.
A pesquisa constata que Jader Barbalho sai na
frente, mas mostra tamb6m que o ponto de chegada
ainda esta muito long de qualquer dos competido-
res.


Lucro s6 em 90

S6 no final do mes a Companhia Florestal
Monte Dourado, sucessora do Projeto Jari de Daniel
Ludwig, divulgard seu balango. Mas ja se sabe que
a empresa fechou o ano passado cor prejuizo de
aproximadamente 270 milh6es de cruzados novos.
Como em janeiro foi paga a dltima parcel do em-
pr6stimo de 200 milh6es de d6lares contraido por
Ludwig junto a Ishkawajima, do Japio, que ficou
por conta do Banco do Brasil e do BNDES, 1990
podera ser o primeiro ano de lucro lfquido no Jari.
3






Duas pobrezas amaz6nicas


H 25 anos a Amaz6nia vem sendo submetida ao
mais intense e certamente o derradeiro -
processo de ocupagio econ6mica de sua hist6-
ria, iniciado cor a colaboragio financeira dada
pelo governor (em condig6es tio vantajosas como
jamais houve no mundo capitalist) as fazendas de
gado. Imaginou-se que a "dltima fronteira de recur-
sos do planet" haveria de ser conquistada pela
pata do boi, como todas as outras. A floresta foi
trocada por pastagens, uma permuta desastrosa nio
apenas em si, mas tamb6m porq':e o boi nao se ma-
terializou. No lugar dele, as derrubadas de mata
virgem serviram mais a especulacio do que A pro-
duio.
O capftulo da pata do boi est6 em franca supe-
ragio, apesar de algumas resistencias recalcitrantes
dos "pioneiros" de sempre, cujo dnico referencial
6 o bandeirantismo a qualquer prego. As correntes
mais modernas apontam para outras "especializa-
96es", como a exploragio de min6rios, a produgio
de grios, o extrativismo racionalizado, a produgAo
de bens intermedidrios (como os siderdrgicos), etc.
Mas toda essa discussion se alimenta de necessida-
des externas a Amaz6nia: a demand do mercado 6
que imp6e as "vocag6es". Nio hi nem mesmo um
certo equilfbrio dial6tico porque a regilo nio tem
voz, ou, se a ter, ela esta amordagada. Prevalecen-
do a vontade do colonizador, este nio quer ouvir o
que tem a dizer o colonizado.
O saber local 6 incapaz de ombrear-se ao saber
e A tecnologia trazidos de fora para modelar os em-
preendimentos econ6micos que, compulsoriamente,
integrario a Amaz6nia Bs economics externas, na-
cional e international? De fato, a Amaz6nia deu um
salto quantitative e at6 mesmo qualitative tio
grande que a resposta parece ser negative. A socie-
dade local ficou a deriva, sem rumo. Tornou-se in-
capaz de ser contemporanea dos grandes projetos
implantados em seu territ6rio, alienagio que torna-
ria a populagio amaz6nica uma repetigio atualizada
das sociedades africanas e asigticas submetidas ao
colonizador europeu at6 a metade deste s6culo. Sua
participaqio nessa hist6ria seria apenas residual,
espectadora de uma trama, cuja sofisticagio escapa
A sua compreensao.
O falso federalismo que se pratica no pafs, a
brutal centralizagio polftica e econ6mica que o ca-
racteriza e a inconseqiincia das elites, agora criti-
cadas pelo president eleito, sustentam essa sensa-
gio de impotencia da gente native diante das trans-
formagdes provocadas pelos assim chamados gran-
des projetos, a pedra de toque do modelo nesses 25
anos de literal coloniza~io. Ainda assim, talvez por
forga da brutalidade do process de penetragio na
regiao e de uma certa solidariedade international,
alguns questionamentos comegam a abrir um campo
novo na interpretaaio e acio sobre a vocagio da
Amaz6nia. Essa ebuliqio ter tido pelo menos o m6-
rito de mostrar que algumas situag6es estabelecidas
podem ser revertidas. Muito pouco de tudo o que ji
foi firmado na regiao 6 definitive.
Principalmente as empresas mais permeaveis a
pressio popular estio sendo obrigadas a explicar-


se. A Companhia Vale do Rio Doce, por exemplo,
detentora do mais valioso patrim6nio de recursos
naturais da regiao, 6 cobrada sobre um fato pertur-
bador: uma fibrica de alumfnio, das maiores do
mundo, que construiu as proximidades de Bel6m,
supre 20% do consume japones do metal primirio,
na forma (sub-valorizada) de lingotes, mas 6 inca-
paz de gerar um distrito industrial A sua volta,
usando o produto bruto para transformag6es que Ihe
agreguem mais valor. Produzir apenas lingotes sig-
nifica condenar-se ao atraso, principalmente porque
o prego do produto nao incorpora o valor real da
energia, fornecida com tarifas subsidiadas pelo po-
der pdblico. O modelo, all, 6 de puro enclave, igual
ao que foi montado no Amapa, 45 anos atrAs, cor o
primeiro dos empreendimentos da "nova era", para
a extragio de mangan6s e, com esse produto, do
sangue da regiao.
Apesar de sua debilidade, a sociedade amaz6-
nica ji pode refletir mais criativamente sobre os
empreendimentos que Ihe foram impostos, a tempo
de impedir que a fase de grande colaboragao inter-
nacional, anunciada pelo president Collor de Melo,
a apanhe desprevenida e a remeta, definitivamente,
para o passado colonial que moldou a feiglo dos
continents que, at6 este s6culo, desempenharam a
fungao reservada a Amaz6nia na passage para o
pr6ximo s6culo.
Com a massa de sua populaaio submetida a um
process de embrutecimento e empobrecimento e
uma elite incapaz de ver o future, perdida em tricas
e futricas provincianas, torna-se cada vez mais diff-
cil visualizar perspectives melhores para a Amaz6-
nia. Basta, em seu Estado mais "desenvolvido",
como o Pard, analisar a list de opg6es que as elites
polfticas oferecem para a escolha dos eleitores. Um
quadro polftico e intelectualmente mais pobre do
que a mis6ria material dos detentores dos votos,
que, apesar de tudo, andam em busca do menos
ruim.

De volta
A dispute pelo governor do Part poder. ganhar
um novo personagem: o senador Jarbas Passarinho.
Na semana passada ele admitiu que podera "repen-
sar" sua decision anterior, de nao participar da pr6-
xima eleiago. A mudanqa foi motivada pelos resul-
tados da pesquisa do Gallup. Na votaaio esponta-
nea ele ficou em terceiro lugar e na manifestagio
provocada dos entrevistados foi o segundo, supe-
rando Sahid Xerfan e ficando apenas abaixo de Ja-
der Barbalho.
Esse resultado 6 surpreendente porque Passari-
nho ter sido um ausente do Para nos dltimos anos,
limitando-se a fazer r4pidas visits ao Estado. A
lembranga do nome dele pode estar associada &
image de um polftico extremamente polemico, mas
pessoalmente honest cor dinheiro, de "mios lim-
pas", como o governador H6lio Gueiros se apre-
senta e cuja qualidade, cada vez mais rara no setor,
cobra de quem vier a suced6-lo. 0 povo parece
concordar, relevando outros aspects que podem ter
peso igual ou at6 maior, mas nao sio tio raros.








0 ec61ogo v
I ressucitada Secretaria Especial do Meio Am-
biente 6 6rgio de segundo escalio da adminis-
tra Ao federal, mas ganhou as primeiras pAgi-
nas de quase todos os grandes jornais do pafs
cor a decision de Jos6 Lutzemberger de aceitar o
convite do president eleito Fernando Collor de
Melo para ocupar a chefia da Sema. Ao atravessar o
biombo, incorporando-se ao novo governor, Lutzem-
berger tratou de advertir: se o president eleito
pretendeu coopta-lo, perdera seu tempo. O ec6logo
ga6cho assegurou que procuracr aplicar, na Sema,
as mesmas id6ias que sempre o mantiveram do outro
lado do balcio at6 aceitar o oferecimento de
Collor. No primeiro moment, todos os dividends
foram faturados pelo president eleito, que conse-
guiu trazer para o seu governor um home que nio
aceitava nem conversar, quanto menos ser parte da
administragAo do president Jos6 Sarney.
Logo se podera verificar se a posigio indepen-
dente e critical de Lutzemberger 6 compativel corn
as diretrizes do governor Collor. Duas quest6es ime-
diatas servirio de prova dos nove. Uma 6 a conclu-
sio do asfaltamento da BR-364, abrindo um novo
caminho de ligaqao da Amaz6nia ao Pacffico. A
outra 6 a manutengio da polftica de incentives fis-
cais para a Amaz6nia e, por extensao 16gica, para
o Nordeste.
Os assessores do president eleito procuraram
convencer a imprensa que Collor de Melo nio mani-
festou seu entusiasmo pela ligacio rodoviAria do
Pacffico, durante encontro com o candidate a presi-
dencia do Peru, Mario Vargas Llosa. Mas o "escla-
recimento" veio tao tardio que sugere tratar-se de
mera manobra de despistamento. Apoiar essa nova
via de escoamento de riquezas da Amaz6nia esta
coerente corn as id6ias que Collor de Melo ter pre-
gado, sobretudo na sua passage pelo Japio, o mais
interessado na obra.
O interesse do Japio pela estrada Rio-Branco-
Pucallpa e, a partir daf, at6 o litoral peruano no Pa-
cffico 6 mais do que not6rio. Esta podera vir a ser a
rota prioritiria para o suprimento japones de madei-
ra, que crescera de importancia cor o esgotamento
das reserves cativas na Asia. Sera dificil impedir a
execugao desse projeto apenas cor discurso preser-
vacionista ou sentimental. A fnsia dos natives de
escapar ao multisecular isolamento nos confins
amaz6nicos se encarregard de fornecer combustfvel
para a tese, que, materializada, atendera na verdade
outros prop6sitos.
O pr6prio Japio ja esta se antecipando as rea-
96es, dispondo-se a financial projetos de manejo
florestal e at6 mesmo as idflicas (e ainda mal resol-
vidas) reserves extrativistas. Mas toda essa ofensiva
seria apenas para atenuar a repercussio de uma pura
e simples corrida a madeira, quase tio predat6ria
quanto a que avanga na parte oriental da Amaz6nia.
Algo como o boi de piranha, distraindo os cardumes
da manada que passa do outro lado.
Como no Acre localizam-se algumas das prin-
cipais manchas de terra f6rtil da regilo, nio basta
simplesmente querer impedir a construgio da nova
estrada. E precise oferecer uma solugio t6cnica


ai ao governor
mais avangada, dando opq6es para o uso econ6mico
dos recursos naturals, atendendo as justas aspira-
96es locais e convencendo a todos de que a floresta
6 a riqueza principal e deve ser usada corn inteli-
g6ncia. Por enquanto, nio ha muito a oferecer
quanto a esse aspect, inclusive da parte de pessoas
como Lutzemberger.
Da mesma forma, ele nio pode apenas conti-
nuar a manifestar sua oposigio ao uso de incentives
fiscais para expandir a fronteira econ6mica na
Amaz6nia, agora que serb um executive do gover-
no. Manter tal posiCio significara entrar em rota de
colisao cor o president ou Collor abrird mao dos
incentives fiscais para o Nordeste, quando uma de
suas id6ias mais caras (e pessoais) era a de elevar o
"status" da Sudene, que administra esses recursos,
para tornm-la um minist6rio?
O caminho de ingresso de Lutzemberger no
governor, portanto, sera repleto de espinhos e arma-
dilhas. Elas comecam na pr6pria estrutura adminis-
trativa e institutional que esta sendo montada pela
assessoria de Collor de Melo. Ela fortaleceu um 6r-
gao normativo, encarregado de estabelecer diretri-
zes, como a Sema, mas esta enfraquecendo o seu
brago executive, que deverf ser o Ibama. Entre as
maos e o c6rebro, ademais, havera um pulmao de
eficiencia discutfvel na atual configurag~o, o Co-
nama (Conselho Nacional do Meio Ambiente), mais
parecido a um conselho de sabios, douto e decorati-
vo. Assim, o famoso ec6logo gadcho corre o risco
de dar as ordens e nao ve-las executadas, condigao
que pode transformn-lo numa esp6cie de rainha da
Inglaterra. Se isso ocorrer, ou aceita a funio- ou
pede o bon6 e vai embora, como muitos em igual
situagio fizeram antes dele. O exemplo mais recent
foi o de Messias Franco, que saiu disparando, sem
perceber que sua p6lvora havia sido molhada.


De ponta-cabe;a
Mapa de recursos naturais que o IBGE elabo-
rou, em trabalho conjunto cor a Sudam, para ser
divulgado antes do t6rmino do governor Sarney,
mostra que a Amaz6nia ter apenas 9% de terras
naturalmente aptas para a agriculture. Reduzida em
terms percentuais diante da grandiosidade da re-
gilo, essa area corresponde a todo o territ6rio de
Sao Paulo, ainda o maior produtor agrfcola do pafs.
Por "naturalmente aptos", entende-se os solos que
dao bom rendimento sem a necessidade de fertiliza-
g~o artificial.
O grande problema 6 que a esmagadora maioria
dos empreendimentos agropecudrios instalou-se em
solos inaptos ou pouco aptos para essa pratica. O
Acre 6 o Estado cor a maior proporCao de solos
f6rteis da Amaz6nia, mas a densa cobertura flores-
tal exige cuidados maiores na definiaio da forma de
exploragio econ6mica. Em qualquer caso, os t6cni-
cos que participaram da elaboragao do mapa de so-
los (hi ainda outros tres) consideram indispensavel
e urgente a execuCao do zoneamento ecol6gico-eco-
n6mico para evitar o uso predat6rio dos recursos
naturais da regiio.







BIRD concede aval ecol6gico


C oncedido ainda ao governor Sarney, o empr6s-
timo de 117 milh6es de d6lares do Banco
Mundial, o maior de toda a hist6ria do BIRD
para programs de defesa do meio ambiente,
vai ser liberado integralmente durante a administra-
9io Collor de Melo, devendo servir-lhe de escudo
protetor inicial contra os ec6logos, cuja pressao 6
crescente na sociedade modern.
O quinqiinio Sarney foi marcado pela maior
destruigio de florestas ja praticada num s6 ano em
toda a hist6ria humana. Em 1987, 200 mil quil6me-
tros quadrados de cobertura vegetal foram queima-
dos na Amaz6nia, sendo 80 mil quil6metros quadra-
dos de mata original. O prejufzo econ6mico desse
inc6ndio monumental pode ser calculado, conserva-
doramente, em 100 bilh6es de d6lares, se for consi-
derada apenas a atual forma de exploragio econ6-
mica das riquezas da floresta. Mas o potential real
ultrapassaria 500 bilh6es de d6lares se o home j6
tivesse condig6es de incorporar ao process produ-
tivo todo o conhecimento cientffico (naturalmente,
ainda na fase de demonstracgo e consolidagio).
Como essa devastagio foi registrada por sat6-
lite, a mais sofisticada e acatada fonte de informa-
q6es na sociedade atual, o impact na opiniio pd-
blica international foi grande. Paradoxalmente, po-
r6m, essa imensa fornalha vegetal acabou servindo
de instrument para que uma administracgo pdblica
omissa ou conivente com essa destruiaio arrancasse
do Banco Mundial o maior financiamento ecol6gico
de todos os tempos.
Talvez nio seja casual o fato de que o dinheiro
s6 podera ser utilizado pela nova administration pd-
blica brasileira. A rigor, o program Collor de Melo
para o setor 6 vago e inconsistent, em nenhum
ponto melhor do que a heranga deixada por Sarney
atrav6s do Programa Nossa Natureza. Mas Collor de
Melo p6de sentir a intensidade das preocupa96es
ecol6gicas dos pauses industrializados e a forca que
elas representam quando caem nas mios de entida-
des nio-governamentais. No papel, nio ha muita
coisa al6m do que Sarney ja deixou. Mas a vontade
se reforgou. O empr6stimo do BIRD ira incremen-
ta-la.
A hist6ria concrete desse tipo de cooperacio,
entretanto, recomenda cautela antes da comemora-
qio do feito. Foi o BIRD quem forgou o governor
Figueiredo a incluir no Polonoroeste, um program
de ocupagio de Rond6nia, um capftulo em favor do
meio ambiente e dos fndios. A inclusio foi feita,
mas ignorada pela pritica governmental. Ja na ad-
ministraqio Sarney, o BIRD voltou a pressionar pa-
ra que as inteng6es se consumassem, sob pena de
nfo liberar dinheiro para a continuaqio do asfalta-
mento da BR-364, no trecho Porto Velho-Rio Bran-
co. O Banco Mundial tamb6m conseguiu abrir o
Program Grande Carajas para a assistencia as co-
munidades indfgenas espalhadas ao long da ferro-
via de Carajas, mas grande parte dos 14 milhdes de
d6lares transferidos pela Companhia Vale do Rio
Doce desviaram-se pelos escaninhos da burocracia
da Funai, sem chegar aos locals de destino.


Dos 117 milh6es de d6lares que o BIRD repas-
sara ao governor brasileiro, US$ 47 milh6es serio
aplicados no "aprimoramento da burocracia". O
principal objetivo 6 treinar 1.200 t6cnicos que atua-
rio no setor e criar uma estrutura para obter e ar-
mazenar informag6es. Que a burocracia da area am-
biental precisa ser reciclada ou preparada, ningu6m
duvida. Mas ela estara em condig6es de cortar na
pr6pria came? 0 program prev6 a interligagio do
banco de dados federal, ainda precArio, a bancos de
dados dos governor estaduais, inexistentes. Ou se-
ja, parte de um pressuposto falso, quando deveria
comeqar do nada para preencher os espagos a partir
daf.
O program vai ainda montar tr6s centros re-
gionais de captagio de imagens de sat6lite para mo-
nitoramento das queimadas e desmatamentos. Um
sera em Manaus, o outro ficara em Cuiabi e o ter-
ceiro em Sio Paulo. Cabe perguntar: e o que sera
feito do centro de sensoriamento da Sudam, instala-
do em Bel6m, o inico em funcionamento na Ama-
z6nia? Sera desativado e atirado as calendas gre-
gas?
O program abre algumas perspectives alenta-
doras. Uma delas 6 com a formagio de novas men-
talidades. Seu efeito mais positive poderia ser o de
acabar com essa mania brasileira de estar sempre
comegando uma nova hist6ria, como se nada hou-
vesse antes de cada um dos governor que se entro-
niza no Palacio do Planalto. Isto fulmina a mem6ria
e estimula a mera repetigio de hist6rias e est6rias.


Responsabilidade

O Jornal Pessoal 6, hoje, um dos raros rema-
nescentes da imprensa alternative no Brasil. Os jor-
nais nanicos praticamente desapareceram. A expli-
cagio corrente 6 de que a liberdade de expression,
assegurada pelo governor e consolidada na Consti-
tuigio, deixou sem sentido publica96es que deve-
riam divulgar fatos escamoteados pela grande im-
prensa ou proibidos pelo regime. Trata-se de uma
explicagio capenga. Se a censura official foi abolida
e nio ha mais restrig6es polfticas a veiculagio de
informag6es, nunca, como agora, houve auto-censu-
ra e interferencia a partir de dentro das empresas
jornalfsticas.
Se a imprensa alternative nio ressurge, para
tender a uma necessidade nio satisfeita (e nem
sempre percebida) da opiniao pdblica, 6 porque o
custo econ6mico esta inviabilizando as pequenas
empresas jornalfsticas, a coergio informal e econ6-
mica mostra-se mais feroz do que a afio repressora
do Estado e ficou rota ou flicida a coluna vertebral
do jornalismo enquanto instituigio e dos jornalistas
enquanto sua expressio ffsica. Mas como o vacuo
existe, tem proliferado os jornalistas picaretas e as
publicaq6es aventureiras, ou de achaque, que cir-
culam simbolicamente apenas para justificar a ne-
gociagAo de um bem cada vez mais valioso e raro na
sociedade brasileira contemporfnea: a boa informa-
CIo.







Collor e, ou nao e


Durante alguns meses Fernando Collor de Melo
nao foi mais do que uma diversio national. Quase
todos encaravam com bonomia ou sarcasmo o pro-
jeto do jovem governador de um dos Estados brasi-
leiros de segunda categoria de tornar-se president
da Repdblica. Mas uma pessoa estava firmemente
convencida de que esse sonho poderia tornar-se
realidade: era o pr6prio Fernando Collor. No dia
15, um ano e meio depois de ter-se langado como
aspirante ao cargo, ele consumara o que parecia ser
apenas capricho de mogo rico. Sera o president do
oitavo pafs em Produto Interno Bruto do mundo,
encarregado de liderar mais de 140 milh6es de ci-
dadios e de gerir uma complexidade tal de fatores
que amea.a jogar na vala da inviabilizacao uma na-
&ao que poderia aspirar ao melhor dos destinos.
Do novo president nio se pode dizer que nao
seja pertinaz. O trago mais marcante de sua perso-
nalidade 6 uma auto-confianga aparentemente ili-
mitada. Os inimigos poderiam classifica-la de ob-
sessiva, beirando a paranoia. Os antecedentes e
consequentes da eleigao final de 15 de dezembro
indicam que o impetuoso Collor de Melo 6 um can-
didato a d6spota. O m6todo que adotou para former
sua administra&ao e os produtos das escolhas reali-
zadas atestam realmente que ele governard com mao
forte.
Esta nio 6 propriamente uma novidade no pre-
sidencialismo exarcebado que se pratica no Brasil.
Freqientemente a forga da mio se estingue nela
mesma: o murro na mesa 6 apenas um gesto, sem
pontuar a attitude seguinte. Ou seja: superabundam
d6spotas num pafs contaminado por um autoritaris-
mo que jamais consegue se enriquecer pelo esclare-
cimento. O prfncipe que Maquiavel buscava para
executar seus projetos de reform nio ter sido mais
do que uma moldura para o despotismo vazio que se
ter sucedido na Repdblica. Fiel a esta cara tradigao
das elites brasileiras, que vem at6 mesmo pela ge-
nealogia da famflia atrav6s do av6 Lindolfo Collor,
um apparatchick do prfncipe Getdlio Vargas, Col-
lor, ainda assim, poderia trazer consigo a novidade
do despotismo esclarecido?
Aqui tamb6m a question nio se define cor sim-
plicidade. Amigos garantem que o novo president
nao ter apenas forga na mao, mas tamb6m id6ias na
cabega. Citam seu currfculo escolar e convidam pa-
ra visit a fornida biblioteca de Collor, sem deixar
de fazer refer6ncia ao ndmero do QI dele. Mas in-
terlocutores safram impressionados cor a vacuidade
da converse do president eleito, cuja dltima im-
pressio de campanha, a do derradeiro debate de te-
levisio com Luis Inicio Lula da Silva, foi melan-
c6lica para observadores um tanto mais exigentes.

Independentemente desses fatores subjetivos,
haveria uma questao capaz de fazer o novo presi-
dente superar-se a si pr6prio, romper compromissos
com stores que apoiaram ou financiaram sua cam-
panha e governor com um program de reform da
sociedade brasileira: apenas JAnio Quadros antes
dele, na hist6ria recent do pafs, chegou A presi-
dencia sob uma expectativa tio favoravel da socie-


-e fim


dade. O caos que se avizinha, como uma onda vio-
lenta que vai desabar sobre pessoas indefesas, faz o
cidadio dar um cr6dito de confianqa a Collor e en-
cara-lo sob o signo da simpatia.
Mas o pr6prio candidate, explorando a imagem
de super-homem (subliminarmente injetada atrav6s
da associagqo cor sua forca de lutador de carate),
atribuiu-se uma competencia que talvez nio possua.
Autorizou os brasileiros a esperarem resultados
concretos e significativos a partir do moment
mesmo da posse. Sua modern assessoria sabe per-
feitamente dessa diffcil circunstincia, mas combine
providencias de impact cor atos de mera propa-
ganda, com a evidence intencgo de manipular a opi-
niio dos menos avisados. Qual das duas tendencias
ira prevalecer? A ddvida 6 reforqada pela constata-
cgo de que a assessoria e o president divulgam
medidas superficiais como se fossem tratamento em
profundidade de problems, cuja seriedade exige
mais do que as "simpatias" curativas.
Apenas os radicals estio torcendo para que a
nova administration federal seja um desastre. Quem
ter mais experiencia da vida brasileira sabe o que
pode vir depois que se constatar o despreparo do
president, numa terceira geragio seguida (ap6s Fi-
gueiredo e Sarney) de mandatarios inteiramente
abaixo das necessidades do moment hist6rico. Mas
Collor s6 se firmara depois de convencer os analis-
tas mais consistentes de que realmente ter um pro-
grama a cumprir e ele aponta no sentido da corregio
das principals distorg6es que atravancam a vida do
pafs, da reform. Esta 6 a parte de sua atuaqao que
diz respeito is elites. Mas, acima de tudo, precisa
colocar mais comida na mesa dos deserdados e
proteger o bolso deles, hoje um local quase total-
mente decorative. Pode ser que no primeiro mo-
mento a massa dos marginalizados da riqueza na-
cional aceite apenas olhar o arco-fris projetado pe-
los homes de marketing do president. Mas logo
ela percebera a manipulaqao de cores e colocara o
ceu abaixo. Nada mais tera a perder. Mas todos
perderio.
Ou Collor demonstra ser o que diz ser, ou ape-
nas completara o movimento de seu antecessor, em-
purrando o pafs para o caos. Se ele pensa que pode-
rA simplesmente exercer o despotismo e impor, pela
forga de seu temperament, que o aceitem como-nAo
6, est& enganado. Provara que nio sabe ler os sinais
da hist6ria. E s6 esta capacidade podera salva-lo do
fiasco e a n6s, da incerteza.


A era Sarney

Jos6 Sarney atravessou os iltimos cinco anos
como um bom amigo de seus amigos, home cor-
dial, excepcionalmente ligado as coisas do espirito
(para os padres da presidencia republicana, tole-
rante, afivel, mas como um dos mais medfocres pre-
sidentes que o pafs ji teve em todos os tempos.
Desgracadamente, ele ganhou o direito de ser o ho-
mem pdblico ndmero um, desempenhando burocrati-
camente essa funcgo, exatamente no moment em






que o Brasil precisava de um estadista e teve um
polftico provinciano, daqueles retratados no verso
c6lebre de Carlos Drummond de Andrade.
Sua dimensio pode ser media pelo estado de
espfrito final. Quase em euforia, Sarney cumpriu
uma agenda, movimentada com o ar de quem julga
ter cumprido da melhor maneira sua missio, como
se tivesse entrado para a hist6ria como o Ifder da
transigio democratic, um novo Mois6s abrindo o
mar da tormenta para a ilha de felicidade. Se nio
faltou liberdade polftica, faltou rumo nessa cami-
nhada, o sentido de direqio que constitui o fer-
mento de qualquer program. Sarney negociou o dia
a dia, sem conseguir olhar al6m do nariz. Como os
politicos da Velha Repdblica (ou Repdblica Velha:
o adjetivo ter fungio decorative), achou que admi-
nistrar significa compor interesses, o jogo pelo jo-
go, ludismo inadequado num pafs como o Brasil.
Colocado por conveniencias de moment e fa-
talidades de ocasiao para presidir o Brasil, Jos6
Sarney deixa-nos a sensagio de que em sua mente
Brasflia nunca foi mais do que a reproduiao am-
pliada de Pinheiros, sua terra natal maranhense, li-
mite de sua visao de mundo e de sua competencia.
De 1 nao deveria nunca ter safdo.

Novo capitulo
0 prefeito Sahid Xerfan e o empresArio Ro-
mulo Maiorana Jdnior vio a Brasflia no dia 14 nio
apenas para assistir a posse de Fernando Collor de
Melo, que reservou tres convites para o prefeito de
Belem, mas conversar novamente com o president
eleito. O interesse de Xerfan 6 passar a limpo o
apoio que podera receber de Collor na dispute pelo
governor do Estado, mais a liberagio de 350 milh6es
de d6lares de empr6stimos externos retidos durante
o governor Sarney. Rominho voltarA a fazer carga
contra o ministry da Previdencia Social, Jader Bar-
balho, na esperanga de convencer o president
eleito a submeter o ex-governador a um process
administrative ou judicial por corrupgAo.
O projeto da "Folha do Norte" esta nos arre-
mates para chegar as ruas no mesmo dia da posse de
Collor e ser o principal instrument de combat do
grupo Liberal contra seu arqui-inimigo. Enquanto o
principal journal, "O Liberal", tentara manter um
certo nfvel professional, a "Folha tudo sera permi-
tido para responder a altura (o mais correto nio se-
ria dizer "i baixaria"?) ao "Diario do Para". A
alternative de Jader sera relanqar o "Tabl6ide",
que fez curta e triste carreira especializado em falar
mal de Romulo Maiorana, pai.

A outra m&o
O prefeito Sahid Xerfan recusou dar um au-
mento adicional de 6% acima do reajuste geral dos
servidores pdblicos de Belem para os m6dicos do
Pronto Socorro Municipal e endureceu sua posiqio,
enfrentando a greve deflagrada no PSM. Para reagir
a mobilizagio dos medicos, que ganham de 2,2 mil
ao miximo de 6,6 mil cruzados novos por mes, Xer-
fan divulgou pela imprensa uma longa nota, respon-
sabilizando as entidades representatives da catego-
ria pelos problems decorrentes da greve e amea-


gando aciona-las. S6 na TV Liberal, o principal
veiculo de mfdia da campanha, a nota de tr6s mi-
nutos de duracio foi lida quase 20 vezes. Por se
tratar de materia paga, a TV Liberal faturou mais de
um milhio de cruzados novos com as explicag6es de
Xerfan. Esse dinheiro poderia ser melhor emprega-
do se fosse aplicado no atendimento das reivindica-
q6es dos medicos.
O prefeito terA suas raz6es para nao dar um
tratamento salarial diferenciado aos medicos, mas,
diante dos salarios que eles recebem e da relevAncia
da fungio que desempenham, ao inves de pronta-
mente decidir-se pela campanha publicitaria, o pre-
feito poderia ouvir a sociedade belenense e per-
guntar-lhe se aprovaria o atendimento dos pedidos
dos medicos. Afinal, o prefeito, apontado como o
candidate de maos limpas para suceder o governa-
dor, se preveniria contra os que questionarao sua
decision de fazer uma campanha publicitAria mais do
que excessiva,_para os prop6sitos estritamente tec-
nicos de sua iniciativa, justamente na televisao do
grupo empresarial mais empenhado em sua candi-
datura.


Cortina de fumaga

O deputado federal (PDS) Gerson Peres pediu
audiencia ao ministry Jader Barbalho*para tratar de
um assunto paroquial: queria espago no journal
"Diario do Para" para responder a uma carta agres-
siva do prefeito de Igarap6 Mirim, sem que o seu
inimigo tivesse direito a replica. A questao, deferi-
da, poderia consumer talvez meia hora de um mi-
nistro atarefado. Mas Gerson ficou duas horas no
gabinete de Jader, obrigado a um imprevisto chi de
cadeira nos outros politicos que o aguardavam na
ante-sala.
Talvez o deputado pedessista tenha tratado de
algum tipo de acordo com o ministry para brecar
a investida de seu principal adversario politico, a
famflia Moreira. Enquanto Amilcar vai disputar a
reeleigio a CAmara Federal, o ne6fito Herundino
substituira Agenor na busca de um lugar na Assem-
bleia Legislativa, dispondo da poderosa miquina da
Secretaria de Saide e de mais f6lego ffsico.
Logo que a notfcia do encontro foi divulgada,
Gerson Peres passou a receber em Brasflia telefo-
nemas de cobrangas do grupo que tenta viabilizar a
candidatura de Sahid Xerfan, centrado no Sistema
Romulo Maiorana de Comunicacqo. Gerson partici-
pa desse esquema como um dos principals articula-
dores. Como encaixar essa condiago e a demorada
conversa com Jader Barbalho, deve ter-se tornado
um quebra-cabega para todos.



Journal Pessoal

Editor responsAvel: Lucio Flavio Pinto
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Ditgra n Oo-l L Luiz Pinto

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