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Jornal pessoal
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Permanent Link: http://ufdc.ufl.edu/AA00005008/00045
 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00045

Full Text





ornal Pessoal
Lticio Flavio Pinto


Ano III N2 52


Circula apenas entire assinantes


2V Quinzena de Novembro de 1989


ELEI AO

A gangorra funciona
Depois da eleigao do dia 15, muita coisa ja mudou na political
do Para. Mas havera ainda novas e profundas transformagoes.
Quem poderia imaginar, dois anos atras, que a principal
dispute viria a ser entire Jader Barbalho e seu aliado Gueiros?


ria no segundo turno da eleigio presidential,
S e Fernando Collor de Melo confirmar sua vit6-
ria no segundo turno da eleiqao presidential,
a principal conseqii8ncia poliftica no Pard sera
a candidatura do prefeito Sahid Xerfan ao go-
verno do Estado, provavelmente com o apoio do
governador H6lio Gueiros. Mas j6 os resultados do
primeiro turno influfram sobre alteraq6es significa-
tivas no quadro local. O pr6prio Gueiros anunciou
sua adesio a Collor, iniciativa esperada pelos que
acompanham a movimentaqio dos bastidores politi-
cos, mas de grande impact. Ela deslocou do eixo
imediato do poder o ministry Jader Barbalho, obri-
gando-o a ficar A margem da dispute final pelo
principal cargo da administration piblica, sem poder
usufruir sequer do apoio indireto ao candidate do
PRN.
0


Os resultados da votagCo no Pard mostraram
tamb6m que o senador Almir Gabriel nio ter den-
sidade eleitoral suficiente para assugurar-lhe uma
candidatura aut6noma ao governor do Estado. Almir
6 o que os politicos costumam classificar de nome
palatAvel, que tem atris de si uma aur6ola de efi-
ciencia administrative, compet6ncia t6cnica e hon-
radez pessoal, mas nao tem votos para garantir cor
esses atributos a sua candidatura. Precisard procu-
rar uma alianga de maior f6lego clientelista, passa-
porte indispensAvel para o sucesso eleitoral num
Estado no qual dois tergos dos votos ainda estio no
interior ou dependem da troca de algum tipo de fa-
vor.
A possibilidade de uma alianga entire H6lio
Gueiros e Almir Gabriel ficou praticamente impos-







sivel com a adesao do governador ao candidate do
PRN. Para Gueiros, isso significa o fim de seu so-
nho de disputar o Senado (Almir poderia abrir essa
vaga renunciando antecipadamente para concorrer
ao governor a nio ser que conseguisse estabelecer
um acordo, mais do que improvAvel, com o seu vi-
ce, o jaderista Herminio Calvinho. Mas se Collor
vencer, Gueiros se credenciarA para participar da
administraqao estadual depois que deixA-la e ter
sustentacgo para entrar na dispute pelas duas outras
vagas do Senado no future. Ao collorir, o governa-
dor tamb6m descartou a candidatura de seu amigo,
Henry Kayath, que poderA ser ainda muitas coisas
no Estado, menos o inruilino do PalAcio Lauro So-
dr6.
A nova divisio do poder em consolidacao pode
arquivar tamb6m os pianos do ministry Jader Bar-
balho de voltar ao governor do Para. Sendo Collor
ou Lula o novo president da Repdblica, a situagio
ficarA inteiramente desfavorAvel para Barbalho.
Cor a Previdencia Social Ihe possibilitando distri-
buir dinheiro para as prefeituras (nio deixando de
incluir a de Bel6m por sagacidade), Jader ainda po-
de firmar parcerias e deixar uma estrutura para ren-
der-lhe dividends mesmo depois que deixar o Mi-
nist6rio. Mas essa ressonincia pode ser menor se o
future president conseguir encurtar o mandate de
Sarney. Ainda que Sarney continue at6 marco, hi-
p6tese a ser testada pelo segundo turno, o que Jader
tiver conseguido fazer atW l se sustentard no vdcuo
que iri surgir a partir de entio?

Um golpe fund
Jader pode ter sofrido um verdadeiro xeque-
mate do governador H61io Gueiros no ato de adesio
a Collor. Era de conhecimento geral que politicos
do grupo do ministry estavam apoiando o candidate
do PRN, mas esse intercambio difuso perdeu o sen-
tido com a uniao Xerfan-Gueiros em torno do ex-
governador de Alagoas. Para fechar essa porta e
deixar o ex-aliado em posicqo desconfortAvel, o go-
vernador deixou de lado qualquer preocupaqio corn
a 6tica ou coerencia. Se o PMDB foi desleal com a
candidatura de seu lider maior, Gueiros tentou usar
o apoio a Ulysses (que na verdade dificilmente che-
garia A prAtica) como instrument para assumir o
control da executive do partido no Para, em maos
de Jader.

Na decisdo da direcgo national peemedebista
deve ter pesado a desconfianca em relagIo a since-
ridade do apoio do governador paraense. Se hou-
vesse sinceridade de prop6sitos, seria mais vantajo-
so a Ulysses dispensar a problemAtica adesao do
ministry da Previdencia Social do governor Sarney
em troca da miquina official do Estado (que o go-
vernador assegurava que nao usaria, mas quem
acredita nessa hip6tese no pais?). A diregio nacio-
nal do partido, por iniciativa pr6pria ou alertada
por Jader, tinha informag6es sobre o proselitismo
discreto que o governador ji estaria fazendo junto a
prefeitos do interior em torno das vantagens de
Collor de Melo. Por esse e outros motives, o PMDB
preferiu nao intervir na executive do Para, a dnica
maneira que Gueiros teria para deslocar o control


de Jader. Por isso tamb6m, o governador limitou-se
a dar seu voto a Ulysses, comprometendo sua ade-
sao logo em seguida com o candidate do PRN.
Gueiros escolheu criteriosamente o moment
de anunciar esse apoio, dando a senha para que o
ex-governador Alacid Nunes, hA algum tempo em
inc6modo farniente politico, mobilizasse seu PFL
na mesma diregio. A pronta resposta de Alacid (que
Gueiros pretend ressuscitar) fechou outra porta: a
do senador Jarbas Passarinho, arqui-inimigo de
Alacid e desafeto de Gueiros, dono de uma hist6ri-
ca aversao a Passarinho que se atualiza cor a
alianca do ex-ministro cor Jader Barbalho. Agora,
se quiser liderar alguma coisa al6m de si mesmo,
Passarinho terA que ficar muito mais tempo no Para
e nao apenas permanecer no Estado curtissimas
temporadas em viagens cada vez mais espacadas.
A consolidag~o da aproximasgo Gueiros-Xer-
fan ocorrerA com a eleiaio de Collor, criando o
principal eixo na political paraense. Mas a votagio
do primeiro turno esconde algumas sutilezas que
podem superestimar a forca desse novo grupo, cuja
formagio era imprevisfvel na eleigao geral de 1986.
Collor teve, em Bel6m, menos da metade da votacio
que Xerfan obteve em 1988 e possivelmente parte
dela deve-se apenas ao glamour eletr6nico do pr6prio
candidate do PRN, sem ter nada a ver com transfe-
r6ncia de votos. No interior, essa geragio esponti-
nea de votos deve ter sido ainda mais preponderan-
te, indicando um vAcuo de liderangas ainda nio
preenchido. Se usar a mAquina estadual e os recur-
sos que mant6m estocados, o governador podera su-
prir parte desse vazio e sua pr6pria inapetencia para
a militincia political, mas nao preencheri toda a la-
cuna.

Disputa polarizada
A definiqgo de Gueiros por Collor podera
contribuir para facilitar o trabalho do PT; No
PMDB, o governador podia trabalhar uma image
de centro-esquerda, que agora fica sem efeito,
mesmo cor toda a retocagem que o PRN esta fa-
zendo no seu candidate para o segundo turno. As-
sim, os petistas poderio explorer alguns epis6dios
ambfguos da atual administraqio estadual, com me-
lhores dividends junto a opiniio pdblica, no estilo
do que pode vir a ser a candidatura oposicionista do
deputado federal Ademir Andrade, um nome que
provoca arrepios em H61io Gueiros. Essa evolucgo
levarf a uma polarizasgo da dispute que excluirA
outras alternatives intermediarias, principalmente se
Luis InAcio Lula da Silva conseguir eleger-se presi-
dente do Brasil.
Esses condimentos tornarao a eleigio de 1990
uma dispute muito mais acirrada e cor uma distri-
buiqao de forgas que nio se podia vislumbrar em
1986. Por estar numa posicgo desfavorivel, o mi-
nistro Jader Barbalho continuari engolindo sapos,
sem reagir A altura dos ataques que tem sofrido do
governador. Essa attitude se mantera at6 que Jader
se convenqa da inviabilidade de sua candidatura a
qualquer post majoritArio (pode acabar no se
convencendo disso, se algumas variAveis para as
quais esta atento se modificarem). Mas a perspec-







tivas mais provAvel 6 de que os dois cheguem as
v6speras da eleigao do pr6ximo ano como adversa-
rios tdo virulentos quanto Jarbas Passarinho e Ala-
cid Nunes. Como o ministry ainda det6m o control
do PMDB e cargos vitais como a vice-governadoria
do Estado, ele pode usar esse poder para aglutinar
uma oposigqo sem a radicalidade do PT, juntando
nela os senadores Almir Gabriel e Jarbas Passarinho
(que, 6 bom ndo esquecer, votou no tucano Mario
Covas), sem, no entanto, estar no nivel de forqas


dos outros dois grupos. Afinal, o que poderA o PT
se, al6m do verbo, puder usar e oferecer cargos da
administragqo pdblica?

Muitas outras perguntas sho suscitadas pelas
situaq6es produzidas a partir de 15 de novembro,
mas s6 o fato de elas poderem ser levantadas mostra
que a eleigao tem mesmo a saudivel fungdo das
gangorras: depois de fazer subir alguns, elevar a
outros.


O faroeste sem mocinho


um cultivador de frases de efeito, que os
franc6filos sofisticados preferem chamar de
boutade. O efeito de uma dessas frases, dita
quando Delfim era o todo poderoso ministry da Fa-
zenda do governor M6dici, vai continuar a ser per-
verso contra a Amaz6nia durante muitos anos ainda.
Ela express o grau de responsabilidade que tinham
e ainda tnm pela regido personagens principals da
administraqdo pdblica que a atingem com seus atos,
impulsionados por control remote a partir de seus
gabinetes super-protegidos, e distantes.
Cobrado sobre o caos que comeqava a resultar
da policia federal de ocupaqgo da Amaz6nia, Del-
fim disse que tal desorganizaqCo era natural: na
fronteira, primeiro vem o bandido; s6 depois 6 que
hd clima para mandar o xerife. Seria assim no fa-
roeste redivivo por gente como Delfim Neto, repre-
sentantes de uma elite modern que nao se vexa de
conviver com o anacronismo que criaram, como
bwanas, para os nativos viverem l long, claro.
Esse tipo de mentalidade permitia A Volkswa-
gen dialogar com o lider metaldrgico Luis InAcio da
Silva (na 6poca o Lula vinha depois do nome; agora
esti eleitoralmente no meio) em Sdo Bernardo do
Campo e recorrer a "gatos", em Santana do Ara-
guaia, para recrutar pe6es e mant6-los sob um regi-
me de trabalho que, guardadas as proporg6es, tinha
alguma afinidade com os campos de concentragAo
nazistas da terra de origem da Volks.
O novo faroeste (j0 que faroeste novo 6 impos-
sivel) esti historicamente situado antes das revolu-
q6es inglesa e francesa. Nele, o cidadio 6 indivi-
duo. Os direitos sdo parciais. A vida nao tern o
mesmo valor que ganhou nos centros contempora-
neos da sociedade. Por conseqii6ncia, a morte 6 um
dado natural de um cotidiano violent. As mortes
anunciadas nao causam maior impact se o andncio,
desdenhado a principio, se materialize num corpo
destrufdo, conforme a previsdo ou em muitos cor-
pos. A boutade que renova a espirituosidade do dr.
Delfim 6 a parede que impede os individuos da
Amaz6nia de entrar na roda dessa gente refinada.

0 morto "ao vivo"

Dois jornalistas suecos da Sveriges Television
poderiam confirmar esse humor negro do home
que mais influiu no pafs nas tres illtimas d6cadas.
Eles entrevistaram na semana retrasada o secretario
do Partido Socialista em Itaituba, no Para, o muni-


cipio que mais produz ouro em todo o pafs (oficial-
mente, entire seis e sete toneladas; na pritica, mais
de 15).
Jos6 Marciao Ferreira, um sargento reformado
da Aeronautica, de 42 anos, deu um pat6tico de-
poimento sobre a ameaqa de morte que estaria so-
frendo por ter denunciado o home mais rico do
municipio como mandante do assassinate do depu-
tado estadual (tamb6m do PSB) JoHo Carlos Batista
e de estar tramando a morte do deputado federal (e
president regional do PSB) Ademir Andrade.
Desde quinta-feira da semana passada o "ta-
pe" da entrevista de Marciao passou a fazer parte
do macabro arquivo das mortes encomendadas na
Amaz6nia. No meio da tarde daquele dia o secreti-
rio do PSB foi acertado com um dnico e fatal tiro
na cabega, disparado por um dos tres homes que o
cercaram quando ele chegava em casa, no centro da
cidade. Todos fugiram sem problems. Ha a sus-
peita de que um dos pistoleiros seja o terrivel ex-
soldado (da PM) Aragio, o mais sanguinirio dos
matadores de aluguel em atividade no Estado (ver
Journal Pessoal n0 51).
Marciao havia realizado a faqanha de dar a
vit6ria ao PSB dentro de garimpos, onde Wirlande
Freire, que fornece combustivel para a maioria de-
les, ter domfnio absolute. Tamb6m ajudou a eleger
o prefeito municipal (que, assustado, depois, deixou
o partido) e era o responsivel pela campanha da
Frente Brasil Popular num municipio onde os mais
influentes ainda consideram a questio social pro-
blema de policia (mentalmente estdo antes da Re-
voluqdo de 30, portanto). Ha algumas semanas Mar-
ciao avisou Ademir de que ele jd estava na lista de
morte.
Os jornalistas suecos ficaram assustados cor
os depoimentos colhidos em Itaituba apenas porque
os personagens se declaravam sob ameaca de morte,
sem a minima de esperanqa de poder mudar essa
situa~io. Ao saberem da morte de MarciIo, ficaram
assustados e revoltados. Os telespectadores suecos
partilhario a sensacgo de ver na tela, "ao vivo", o
depoimento de um assassinado. O impact ndo deve
ser igual ao da morte de Chico Mendes, mas deve
renovar no mundo civilizado a suspeita de que a
Amaz6nia vive a paixio de um novo process de
africanizaCgo.
Os militants do PSB dizem que o assassinate
de Marciao foi politico e indica que o pr6ximo 6
Ademir Andrade, virtual candidate ao governor do







Estado em 1990. Mas nio 6 impossivel que a moti-
vacqo para o crime esteje associada A fungqo que
Marcido desempenhava em Itaituba: ele era o admi-
nistrador do aeroporto local, que registra o maior
movimento de pequenos avi6es do pais. Recente-
mente, foi instalada ali uma torre de control, que
pode permitir h administragqo piblica reduzir as
duas principals atividades de Itaituba: o contraban-
do de ouro e, paralelamente a ele, o trifico de dro-
gas.

Apontar motives 6 quase tio problemAtico
quanto avaliar a consistencia das listas de mortes
que periodicamente circulam pela Amaz6nia ou
identificar mandantes. O PSB consider o empresA-
rio Wirlande Freire um verdadeiro senhor medieval,
com um ex6rcito de pistoleiros a seu serviqo e po-
der de vida e morte sobre o maior municipio do
mundo e quase todo o oeste do Pard. Mas nio hi
qualquer registro contra Wirlande na policia, onde
sua ficha 6 limpa, o que pode ser menos uma certi-
ddo de inoc8ncia para ele do que um atestado de


fal6ncia do poder policial.
A repetiaio de tantos crimes e a apresentaIao
de tantas dendncias graves num municfpio que pro-
duz tanta riqueza, mas nio consegue ter a sua dis-
posiqAo sequer um helic6ptero para impedir que
centenas de garimpeiros morram de malaria no meio
da mata durante o inverno, deveria fazer o governor
decidir-se por uma blitz em Itaituba. Poderia inspi-
rar-se no filme "Mississipi em Chamas", baseado
em epis6dio real. Para garantir que aquele pedago
ermo do pais se submetesse as leis da cidadania (e
assim se tornasse contemporaneo dos direitos uni-
versais), o governor americano mobilizou suas for-
gas armadas e policiais. Foi uma moderizaqio
compuls6ria, ainda que restrita. Mas nio se espere
algo parecido em relasqo a Itaituba. NIo disse Del-
fim que aqui 6 a terra do bandido? Hoje, nenhum
dos delfins da Repiblica repetiria a frase. Soaria
cinicamente verdadeira e verdade e cinismo nao
soam juntag na boca do Palicio do Planalto. Mas 6
assim que pensam seus inquilinos a respeito do fa-
roeste amaz6nico que criaram.


Tucurui: quem comemora?


R decisio de construir a hidrel6trica de Tucu-
ruf, no Para, foi adotada em T6quio. Desde
d6cadas antes, alguns paraenses vinham so-
nhando com o aproveitamento hidrel6trico
das cachoeiras de Itaboca, no baixo curso do rio
Tocantins. Mas nao foi para tender a insia de
energia de um Estado que vivia na indig6ncia que a
construcqo de Tucuruf se viabilizou: foi para possi-
bilitar a implantaqCo, As proximidades de Bel6m, de
uma das maiores f6bricas de alumfnio do mundo,
destinada a funcionar como fornecedora cativa do
Japio. Por coincidEncia, o negociador pelo lado
brasileiro era um descendente de japoneses, o nissei
Shigeaki Ueki, ministry das Minas e Energia. Tucu-
ruf (n me novo, contrastando com Itaboca, toponi-
mia antiga, opqao de batismo da usina que tamb6m
ter seu valor simb6lico) s6 saiu das pranchetas
porque o cons6rcio nipo-brasileiro se decidira pela
Albris.

Ganho de US$ 3 bi
Em T6quio 6 que deveriam ocorrer as comemo-
raq6es pelos cinco anos de funcionamento da hi-
drel6trica de Tucuruf, completados no dia 24. A
Albras fornece atualmente 20% das necessidades de
aluminio do Japao, o maior consumidor internacio-
nal do produto. Graqas a isso, a economic japonesa
reciclou inteiramente o seu setor de aluminio, em-
bora o pais tenha franca deficiencia na geracgo de
energia. A grande maioria das plants de alumfnio
foi desativada em territ6rio japones, mas essa desa-
tivaqao foi mais do que compensada pelo supri-
mento interoceanico. A Albris, distant 20 mil
quil6metros do territ6rio japon6s, tornou-se fonte
estrat6gica de aluminio porque, al6m da fAbrica ca-
tiva, a usina de Tucuruf funciona como provincia
energ6tica. Garante a energia indisponivel no Japao
a um custo anterior dos anos 70, justamente a causa
de toda a reformulaqao na divisio international do


trabalho que colocou o Japao na lideranga da eco-
nomia mundial, cor a decisive colaboracao do Bra-
sil.
Quando ficou acertado o acasalamento Albrfs-
Tucuruf, por um minimo de dec&ncia o governor exi-
giu que os donos da fibrica de alumfnio entrassem
com um terqo do custo da hidrel6trica, valor corres-
pondente aos saques de energia fire que fariam.
Mas a contrapartida foi dispensada. Eles tamb6m
nio precisaram gastar no porto da Ponta Grossa,
usado exclusivamente pela Albris, nem na vila re-
sidencial ou na infraestrutura de apoio. A pregos de
hoje, esse investimento perdoado (que outros gran-
des projetos foram obrigados a realizar) significou
economic de mais de dois bilh6es de d61ares.
Nada mau. Em 20 anos, o subsfdio tarifirio
concedido pelo governor resultard num ganho para a
Albras de 850 milh6es de d61ares, a uma taxa m6dia
pouco acima de US$ 40 milh6es por ano. S6 esse
valor represent mais de quatro vezes todo o capital
de risco investido pelos japoneses no projeto (para
a Alumar, a fibrica de alumfnio da Alcoa e da She-
el no MaranhAo, o subsfdio menos fascinante e-de
menor duracao dari um ganho de US$ 213 mi-
lh6es).
Tucurui representou um dos mais pesados in-
vestimentos realizados pelo poder pdblico em toda a
hist6ria do pafs. Mas um tergo da pot6ncia firme da
usina vai parar nas duas fibricas de alumfnio. Es-
tas, por sua vez, jogam o produto nas mios de
clients cativos, que conseguiram transferir essas
atividades violentamente demandadoras de energia
(por sua vez inadequadamente apropriada no prego
final do produto) e, assim, dedicar-se a beneficia-
mentos muito mais remuneradores e menos desgas-
tantes, garantindo dessa maneira, para si, relaq6es
de trocas vantajosas, que 6 o que conta nos fluxos
internacionais de mercadorias.








Para realizar Tucuruf, o governor recorreu a fi-
nanciamentos franceses. Os franceses exigiram que
metade das maquinas instaladas na usina fossem
francesas. A outra metade foi fornecida por empre-
sas brasileiras dependents dos fabricantes france-
ses. Ganhou a Franga, industrial e financeiramente.
Para cada d6lar recebido, o Brasil devolvera tres. O
dinheiro nao vird dos clients privilegiados, qu da-
rdo rombo de 1,1 bilhAo de d6lares a Eletronorte no
perfodo de 1985 a 2004, abrangido pelo contrato da
Albras (o da Alumar 6 de 1984/94).

Hist6ria superada
Cecil Rhodes ficaria embevecido diante dos
contratos de Tucurui com os grandes consumidores
de energia. A moldura que os tornou possfveis 6
colonialista, ligeiramente envernizada. Os constru-
tores de Tucuruf achario amarga a observagio. Eles
realizaram uma faganha de engenharia: erigir, em
um rio de planicie, a hidrel6trica que ja 6 a s6tima
maior do mundo, ascendendo a quarta posigao se
sair a segunda etapa, que dobrara para oito milh6es
de kw a capacidade nominal instalada.
Mas a engenharia de barragens, tao desenvol-
vida no Brasil, precisa se adaptar A nova realidade.
Maximizar a geracio hidraulica na maior parte da
bacia amaz6nica significa elevar o custo ecol6gico
(que tamb6m possui traduqio econ6mica, apesar do
vezo dos economistss, social e 6tnico (dos indios).
Esse custo precisa ser introduzido, nem que seja a
forga, nos estudos de viabilidade. Eles igualmente


t6m que incluir o custo/beneficio da energia (por
um crit6rio de contabilidade pdblica e nio de contas
empresariais). E, finalmente, devem ser o produto
de um planejamento mais amplo, que torne a usina -
grandiosa ou menor, de prefer6ncia parte do am-
biente (inclusive o s6cio-econ6mico) e nio um en-
clave, ou um cavalo de Tr6ia fumegando energia
contra n6s.
Tucurui, sob este prisma, 6 um retrato do Bra-
sil velho e da Amaz6nia aservil que, esperamos, fi-
cara confinado ao album de lembrancas da nossa in-
sensatez e irreflexao. O avango que desde entio
pode-se observer na consciencia das pessoas s6 6
notavel em fungao do atraso que havia, mas nio 6.
um grande pass em relaqio ao que ja se poderia ter
alcangado. A sociedade precisa ter um domfnio
maior dessas obras para que elas nio sejam o pro-
duto da obtusa competencia especializada dos que
convivem com o gigante sem ver-lhe o dedo.
A hist6ria de Tucurui ainda nio esta conclui-
da. No ano que vem serio instaladas as duas ilti-
mas maquinas da primeira etapa. A segunda etapa
exigira mais US$ 1,5 bilhIo. O cronograma esta
atrasado e sofrera novas protelaq6es em fungio da
falta de dinheiro. Mas esse tempo pode sair a favor
de um reexame do projeto de tal maneira profundo e
inteligente que no future, se algu6m tiver que co-
memorar as datas dessa obra grande (quando pode-
remos colocar o adjetivo antes do substantive, cor
todos os motives para isso?), esse algu6m seremos
n6s.


Sinai de fogo


O soldo de um soldado de 3a classes da Policia
Military do Para corresponde a pouco mais de 16%
do soldo de um coronel, o post maximo na tropa.
Ja a remuneragao global desse mesmo soldado, que
inclui gratificag6es, adicionais e acr6scimos, repre-
senta menos de 10% do que ganha um coronel. A
diferenca de 10 vezes entire o valor minimo e o ma-
ximo possfvel de remuneraaIo na PM poderia ser
atenuada se a base de calculo do soldo ou da remu-
nera~ao global de um soldado tivesse por base o
que ganha um coronel. Mas o termo de referencia 6
o post inferior, de tenente coronel.

Quem pode explicar essa questao 6 um coronel
(reformado) da PM, o ex-deputado Eladyr Nogueira.
Um projeto apresentado por ele na Assembl6ia Le-
gislativa fez os salaries dos soldados se basearem
nos ganhos do tenente coronel e nao nos do coro-
nel. O governador H61io Gueiros nao explicou, mas
provavelmente estava pensando nessa iniciativa
quando acusou o official de ter legislado em causa
pr6pria durante o exercicio de seu mandate, primei-
ro e tnico, como deputado estadual pelo PMDB.
Mas o governador preferiu nao aprofundar a acusa-
g.o.
t a attitude geral quando se trata da PM. As
distorg6es e irregularidades vAo se acumulando,
como restos de um lixo colocado debaixo do tapete,


que os responsaveis por esses detritos imaginam
nio estar ao alcance dos integrantes da corporagio.
Mas a tentative de greve e as manifestag6es de
protest de soldados e cabos, cor a participagao de
suas esposas, embora ca6ticas e desorientadas,
mostraram que simplesmente punir cor a expulsio
67 desses manifestantes nio ira report a calma, a or-
dem e a obedi8ncia nos quart6is.
A virulenta reagio do governador as crfticas de
Eladyr revela os dois nfveis dessa interfer6ncia. Um
deles 6 de cdpula: Gueiros acusou Eladyr de tentar
capitalizar o aumento, o maior dos dltimos tempos
concedido A corporacio (gragas, sobretudo, ao re-
torno da gratificacgo por risco de vida), que o go-
vernador estava para anunciar. Ha uma aberta luta
entire coron6is, da ativa (que sao 13) e da reserve,
que constitufram uma casta, na qual pontificam
certos marajas cor patente at6 inferior, mas agre-
gando vantagens obtidas fora da caserna. Ja os sol-
dados e cabos, quando recorrem a "bicos" para
complementary uma renda insuficiente, estAo ao al-
cance da fiscalizacao e das medidas punitivas, ina-
plicaveis aos oficiais. O serving da inteligencia diz
que por af se infiltraram a CUT e o PT, mas o dita-
do popular que v8 fogo onde ha fumaga esta mais
uma vez certo. Quando a fumaqa prevalece sobre o
fogo, 6 sinal de que o incendio pode estar sendo
apenas contido, mas nao eliminado.







Crescem as arestas

entire Jader e Helio
No mesmo horario em que o ministry Jader
Barbalho repassava quase 10 milh6es de cruzados
novos ao Pronto Socorro Municipal de Bel6m, o
governador Hl6io Gueiros assinava conv8nio com a
Prefeitura para restabelecer a merenda escolar nas
escolas pdblicas da capital paraense. Evidentemen-
te, o paralelismo nao tera sido mera coincid6ncia;
no caso, pode-se dizer que crid-lo foi um ato pen-
sado do governador. Como tinha que assinar o con-
venio com Gueiros no palacio do governor, o pre-
feito Sahid Xerfan mandou o secretario municipal
de sadde e meio ambiente, Carlos Antonio Vinagre,
representa-lo. E o pr6prio governador arranjou nova
desculpa para, mais uma vez, evitar o encontro com
Jader.
O ato simultaneo no Palacio Lauro Sodr6 esva-
ziou o ato que, antecedendo a iniciativa do gover-
nador, o ministry da Previd6ncia Social havia pro-
gramado. Provavelmente ele esperava colocar Xer-
fan ao seu lado e mostrar sua pr6pria magnanimida-
de. Afinal, Jader estaria entregando um valor signi-
ficativo de dinheiro nas mdos de um adversario po-
litico. A aus6ncia do prefeito tirou a forca da cena,
al6m de esvazid-la de outras presenqas expressivas.
Esse epis6dio integra as sucessivas escaramu-
gas que se v6m acumulando nas relaq6es entire o
governador e o ministry, outrora amigos intimos e
correligionarios. Gueiros nao perde oportunidade
para dar uma estocada em Jader, procurando mant6-
lo na defensive at6 encurrala-lo de tal maneira que
ele abra mao do control do PMDB. Por isso, o go-
vernador aproveitou uma entrevista do coronel (da
reserve) da PM, o ex-deputado Eladyr Nogueira,
para desferir outro ataque que resvalou em Jader.
O journal do ministry publicou cor destaque
critics de Eladyr ao tratamento dispensado pelo
governador a Policia Militar, estabelecendo um pa-
ralelo cor a administragao de Jader, que teria sido
extremamente favoravel A corporacgo. A reacgo de
Gueiros, atrav6s de seu program radiof6nico dia-
rio, foi irada. Acusou Eladyr de ter legislado em
causa pr6pria quando estava na Assembl6ia Legis-
lativa, disse que o ex-deputado nio conseguira
transformar-se em "eminencia parda" de seu gover-
no e aconselhou-o a trabalhar pela candidatura do
ministry da Previd6ncia Social, se quiser ter de
volta as benesses de Jader.
Gueiros aproveitou ainda para fazer uma reve-
lacio hist6rica: como official da ativa da PM, Eladyr
tentou convencer o entdo governador Aur6lio do
Carmo (hoje desembargador) a resistir ao movi-
mento military de 1964, imobilizando as tropas das
Forgas Armadas. Apesar de saber desse anteceden-
te, s6 revelado 25 anos depois, o governador admi-
tiu e manteve Eladyr como director da Loteria do
Estado durante mais de dois anos e meio. S6 o de-
mitiu em fungqo da entrevista do coronel e das di-
vergencias political com Jader. A said de Eladyr,
alias, mostra que o campo de conviv6ncia entire Ja-
der e H61io se estreita cada vez mais, excluindo
coisas consideradas sup6rfluas.


A maneira brasileira

No dia 25 de novembro de 1987 o ministry
(entao da Reforma AgrBria) Jader Barbalho e o go-
vernador H61io Gueiros tentaram convencer a opi-
nido pdblica de que o decreto que, naquele dia, o
president Jos6 Sarney assinaria em Bel6m seria um
marco muito important na hist6ria da Amaz6nia. O
decreto 2.375 devolveria aos Estados da regiio as
terras devolutas que a Uniao federalizara a partir de
1971, no maior process de expropriacgo da hist6-
ria do pafs, expandindo em oito vezes o acervo fun-
diario at6 entao sob seu control.
Passados dois anos, confirmaram-se totalmente
as criticas dos que viram, naquele ato, nao apenas
uma mistificacgo, mas uma sagaz manobra do Pala-
cio do Planalto para evitar justamente o que dizia
estar realizando. A nova ConstituiqIo iria forgar a
Unifo a devolver imediatamente todas as terras de
que se havia apropriado dos Estados amaz6nicos,
uma definigao capaz, por sua vez, de prevenir os
inconvenientes da argiiiqIo sobre a inconstitucio-
nalidade do decreto-lei 1.164, de 1971, baixado
pelo general M6dici. O reconhecimento da incons-
titucionalidade tornaria regressivos os direitos dos
Estados a indenizacio, que o governor federal sem-
pre rejeitou.
Dos 120 milh6es de hectares que tinha sob seu
control at6 1987, a Uniio deixard de devolver 70
milh6es de hectares, segundo o texto do decreto que
Sarney assinou. Sdo os 54 milh6es ji discriminados
pelo Incra (embora s6 uma fragCo menor dessa area
tenha sido destinada) e os 20 milh6es que o pr6prio
decreto excluiu da devolucgo, reservando-os princi-
palmente ao uso military e de unidades de conserva-
gdo ou hidrel6tricas. Quanto aos restantes 60%, a
devolugho ainda nao foi definida e, passados dois
anos, as parties envolvidas parecem ter entregue q
assunto A mais brasileira das formas de atuagqo:
deixar como esta para ver como 6 que fica.

Conto do 6leo
Na v6spera de conseguir arrancar do Congres-
so o mandate de cinco anos, o president Jos6 Sar-
ney fez uma encenacgo televisava (pela Globo, na-
turalmente) para anunciar a um pafs perplexo que a
ilha do Maraj6, no Pard, seria o Mar do Norte bra-
sileiro em produgao de petr6leo. Naquele moment,
a montanha iria parir um rato para tentar preservar
os contratos de risco e espichar o ja tao long in-
quilinato do vate maranhense no Palacio do Pla-
nalto. Na verdade, a multinational Texaco tinha
apenas encontrado indicios de 6leo em amostras de
rocha. O 6leo nio voltou a aparecer e, na semana
passada, a Texaco resolve abandonar sua area de
contrato de risco no Maraj6 depois de cinco pogos
perfurados sem nada que justificasse o mar de pe-
tr6leo criado por Sarney, que costuma lidar corn
mar de outro tipo de mat6ria.
Se todo conto tem uma moral, a deste "causo"
6 mais do que pedag6gica: 6 acusativa.








Uniao aciona

grupo Liberal

A Procuradoria da Repdblica no Pari iniciou,
na Justiga Federal, uma acao civil pdblica de res-
ponsabilidade contra o Grupo Liberal, que desfigu-
rou um pr6dio tombado do conjunto arquitet6nico e
paisagistico do "Ver-o-Peso" ao executar as obras
de um journal eletr6nico, no alto do pr6dio, sem ter
sequer a licenqa municipal para a instalaqao desse
painel (no qual sao veiculadas noticias e publicida-
de). A Secretaria do Patrim6nio Hist6rico e Artisti-
co Nacional constatou a irregularidade em uma
vistoria no local e notificou o Liberal, embargando
a construcgo.
Diz o procurador Jos6 Augusto Torres Poti-
guar, responsivel pela acio, que, "a despeito de ter
sido mais uma vez cientificado da irregularidade da
obra, o proprietArio preferiu inobservar o embargo
que lhe foi oposto, optando, irresponsavelmente,
por dar continuidade normal A execucao do referido
painel eletr6nico". O serving foi concluido e o jor-
nal eletr6nico entrou em operagao regular (diaria-
mente o journal "O Liberal" public anincio de pi-
gina inteira sobre essa nova midia), "descaracteri-
zando im6vel secular que, como hoje, serviu de se-
de para outro grande journal do passado, 'Folha do
Norte' ". O procurador classifica a attitude da em-
presa de "irregular, agressiva ao hist6rico pr6dio, e
transgressora da legislacgo aplicivel".
O representante da Uniio pediu ao juiz federal
que determine ao Grupo Liberal para retirar o journal
eletr6nico, as suas pr6prias custas, "para que o
hist6rico pr6dio retome a fachada a sua caracteristi-
ca e volumetria originals determinantes do tomba-
mento". Observa que a descaracterizagao "6 resul-
tante nao apenas da obra fisica, mas, tamb6m, da
veiculaCgo de publicidade pelo acr6scimo feito, fa-
tores esses que ferem o aspect hist6rico do con-
junto paisagfstico onde esti integrado o pr6dio do
journal 'O Liberal' ". Pede o procurador da Repdbli-
ca um mandado liminar para paralisar imediata-
mente o funcionamento do painel e, assim, "mino-
rar a agressao ao patrim6nio hist6rico tombado".
Independentemente do resultado da demand,
proposta no dia 10, a aqao significa um desgaste
que o Grupo Liberal poderia ter evitado preventi-
vamente e que nao tem qualquer compensagio fi-
nanceira. O journal eletr6nico foi montado original-
mente pelo jornalista Romulo Maiorana (ji falecido)
num terreno at6 entdo sem uso as proximidades do
Teatro da Paz, no centro de Bel6m. A receita dessa
midia nunca foi compensadora. Quando o painel foi
desativado, esperava-se que o Grupo Liberal sim-
plesmente desistisse desse empreendimento. Mas o
painel foi remontado no alto de um dos grandes so-
brados construidos no Boulevard Castilho Franga,
em frente a bafa do Guajari, entire o final do s6culo
passado e o infcio deste s6culo. Os pr6dios abriga-
vam principalmente os estabelecimentos financeiros
e as firmas de aviamento e exportacqo de borracha e
outros produtos do extrativismo vegetal.


Grande parte desse conjunto ja foi descaracte-
rizada. A principal ferida foi aberta pelo Banco
Central, com seu espigio de concrete que agride a
paisagem em volta. Se nao tem a mesma gravidade,
o painel do Grupo Liberal retoma esse tipo de
agressdo, prosseguindo obras de gosto duvidoso e
mais do que evidence inadequag~o arquitet6nica,
como a pr6pria reform do conjunto de pr6dios que
antes serviam de sede a "Folha do Norte", a "Fo-
lha Vespertina" e A Jari, de Daniel Ludwig, hoje
patrim6nio do Grupo Liberal. Como empresa que li-
da cor a informagao e a formagao da opiniao pdbli-
ca, o Liberal deveria ter mais sensibilidade para as
conseqiiuncias desse seu ato. Desrespeitando o tom-
bamento e nio se preocupando nem ao menos em ter
a licenga municipal para construir, esse grupo de
comunicag6es di um exemplo negative para seus
milhares de clients, leitores e telespectadores pa-
ra nIo falar de milh6es, na linguagem grandilo-
qiiente e auto-suficiente que a empresa passou a
adotar.

Os "olheiros"
Muitas pessoas estranharam a presence do vi-
ce-governador Herminio Calvinho na assinatura do
convenio entire o governador H6lio Gueiros e o pre-
feito Sahid Xerfan. Como jaderista hist6rico, Cal-
vinho estaria melhor colocado na moldura do outro
ato de celebracgo de convenio, comandado pelo mi-
nistro da Previdencia Social. Inversamente, foi ob-
servada a presenga da president do Ipasep, Maria
das Neves, na solenidade presidida por Jader (Maria
tamb6m participou da comemoraqao do aniversirio
do pai do ministry).
Dizem as muitas (mis) linguas, que se exerci-
tam no curto espaqo que separa os dois lideres pee-
medebistas do rompimento aberto, que Calvinho
anotava a presenga dos infi6is na solenidade de
H61io, enquanto Maria tinha a mesma funcao no re-
duto jaderista. Alias, em mat6ria de coadjuvantes
politicos, Jader ganhou o cabo-de-guerra, mas isso
pode ser apenas pr8mio de consolagqo.

Clima de guerra
O Liberal nem registrou a assinatura do conv8-
nio entire o Minist6rio da Previd6ncia Social e a
Prefeitura de Bel6m para a aplicagqo de quase 10
milh6es de cruzados novos no Pronto Socorro Mu-
nicipal. O assunto seria noticia por qualquer crit6-
rio de edigqo que se usasse, mas o journal, depois de
tentar uma campanha obliqua contra o ex-governa-
dor, decidiu simplesmente ignori-lo e aos leitores
tamb6m, privados de tomar conhecimento dos atos
do inico paraense integrante do minist6rio federal e
peca ainda decisive na political local. Como o journal
se diz lido por 91% dos leitores de journal de Bel6m,
o ndmero df uma id6ia das dimens6es dessa lesIo.
Em retribuiqCo, 0 Liberal nio foi incluido na
programaCao de um andncio do Minist6rio sobre o
ato presidido por Jader Barbalho, publicado no jor-
nal do pr6prio ministry, o Difrio do Park. Essa tro-
ca de "amabilidades", que despreza a informaqIo e
escamoteia o interesse pdblico, antecipa o clima
que se formard no Estado durante as eleiq6es do
pr6ximo ano.









A busca da sobrevivencia


Nas iltimas duas d6cadas, o Banco da Amaz6-
nia sofreu tr6s interveng6es brancas. Elas foram
adotadas depois de administraq6es ruinosas condu-
zidas por gente da regiao e, inclusive, do pr6prio
banco. A primeira foi em 1971, quando os cr6ditos
de dificil recuperagao (que haviam sido concedidos
sem respeito As normas bancarias) representavam
56% dos empr6stimos e uma vez e meia o capital do
Basa. Na dltima intervengao, 16 anos depois, cr6-
ditos em identicas condic6es somavam tres vezes o
capital, equivalendo P 30 milh6es de d6lares (mais
da metade de todos os recursos a custo zero a que o
banco terd acesso neste exercicio).
Mas o jargao moralizante dos interventores
tamb6m nao aponta perspectives favoriveis ao Ba-
sa. Alguns usaram o banco apenas como trampolim
em suas carreiras, como Carlos Thadeu, e outros fo-
ram tirados quando apenas iniciavam a execugao de
um program de maior f6lego, como Delile Guerra.
Se pode resultar desse revezamento descontinuo de
administradores relapsos e interventores desinteres-
sados (ou desligados do contextos regional) alguma
ligqo, a melhor 6 a de que, independentemente da
vontade dos dirigentes, a estrutura imposta ao Basa
6 o principal entrave A sua salvacao. Ele ter recur-
sos e 6 dinimico enquanto cumpre um papel esta-
belecido impositivamente de cima para baixo, do
Planalto para a Planicie, o dinheiro fluindo para os
clients privilegiados pelo "modelo" de ocupagao
do governor federal. Cessado esse interesse, o banco
entra em novo vicuo e, assim, abre-se a oportuni-
dade para os administradores locais, que, sem re-
cursos ou sem outra vinculacao mais s6ria do que o
atrelamento ao lider politico responsivel pela indi-
caago, repetem os mesmos erros de um passado fi-
siol6gico.
O Banco da Amaz6nia atravessa nova crise,
mas, como ficou claro no II Encontro Nacional dos
Empregados do Basa, realizado em Bel6m entire os
dias 25 e 26, a crise pode ser positive, de cresci-
mento. Mesmo reduzido em quase a metade de seu
valor original (de 1% para 0,6%), o fundo de in-
vestimento criado pela Constituiqao de 1988 injeta-
ri 100 milh6es de d61ares anuais nos combalidos
cofres da instituiaio (a perda com a contraqao da
alfquota sobre o IPI foi de 66 milh6es de d6lares).
Nao 6 o bastante, mas 6 satist6rio se essa verba ti-
ver uma aplicagao orientada nao para conciliar os
terms inconciliiveis da vocaqao do Basa, dilacera-
do entire sua fungao primitive e substantive de ban-
co de desenvolvimento e a ilusao de competir cor a
rede privada de bancos comerciais.
Esse 6 o falso dilema, mal posto porque part
da premissa de que a attitude passiva, imobilista e
obediente do Basa a uma polftica colonial que nao
favorece a Amaz6nia 6 inquestionavel. Trata-se de
um banco do governor federal, avalista dessa politi-
ca forinea, para executar estrat6gias para a Amaz6-
nia e nio da Amaz6nia. Assim, o Basa permanece
ao largo das grandes quest6es regionais e dos
agents sociais que delas emerge, aceitando a ri-
gidez de uma parceria que o tornou ocioso e desne-


cessArio, inclusive para esses clients. Eles agora
t6m A mro instruments mais eficazes e menos one-
rosos. As provas podem ser encontradas nas pro-
postas do Banco Mundial para a extincgo de bancos
oficiais como o Basa e no desinteresse geral pela
diretoria do banco no crepdsculo do governor Sar-
ney.
O comparecimento e a participacio registradas
no encontr promovido pela AEBA, a associacio dos
empregados, podem apontar um novo caminho fora
da monotonia dos ciclos de administration local/in-
tervengdo e do dilema mal posto banco comer-
cial/banco e desenvolvimento. Os funcionarios que-
rem ever a posicio do Basa na economic regional e
ter co-participaqio em sua administration, dados no-
vos que podem impedir o fim trigico temido por to-
dos.


Sem maquilagem

Para conquistar os votos gadchos de Leonel
Brizola, o candidate do PRN a presid6ncia da Re-
pdblica, Fernando Collor de Melo, programou na
semana passada uma visit ao tumulo do av6, o
gaiicho Lindolfo Collor, que foi ministry do Tra-
balho no governor Getdlio Vargas e criador da lei do
salario minimo. Horas antes da viagem a Sio Leo-
poldo, que fica na periferia de Porto Alegre, Collor
foi informado que o av6 estava sepultado no Rio de
Janeiro.
Recursos eleitorais como esse nao sao, evi-
dentemente, 6ticos ou morais, mas quase todos os
candidates os adotam. Collor, portanto, nio esti
inovando. Mas ele surpreende ao revelar desconhe-
cimento sobre o local onde Lindolfo Collor, o
membro mais ilustre da famflia, esta enterrado. Nao
6 apenas demonstraago de indiferenga pela famflia,
mas prova de que Collor, desligado do av6 que teve
participacao embora polemica na vida public
brasileira, at6 ser colocado bionicamente na political
nada tinha a ver com a questao. Sua vida gravitava
apenas em torno de seu umbigo.
Essas coisas nao mudam de estalo, nem mesmo
com toda a ajuda eletr6nica. Por tris do aparato
montado ao lado das cameras e dos bastidores, o
home que poderd chegar ao principal cargo da
administraqao pdblica no Brasil s6 sabe conjugar na
primeira pessoa do singular.

t -'


Journal Pessoal

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Endere;o (provls6rio) rua Aristides Lobo, 871
Beltm. Par. 66 000 Fdne 224 3728
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