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Jornal pessoal
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 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00044

Full Text





oomal Pessoal
SLucio Flavio Pinto


Ano III N2 51


Circula apenas entire assinantes


1 Quinzena de Novembro de 1989


ELEIQAO


0 enigma devorador

A primeira eleigao para president em quase 30 anos
ndo empolgou o Brasil. Nem a festividade do centenario da
Repiblica. Delas pode ficar a sensagao de que
nao estao de acordo com as ansiedades da populagao

K ,--


daddos escolherem o home pdblico mais
poderoso do pais, a eleigdo de 15 de novem-
bro deveria funcionar tamb6m como um mar-
co comemorativo A altura do acontecimento hist6ri-
co que com ela coincide: o centenfrio da Repiiblica
brasileira. Mas a apuraqdo dos votos deixados nas
urnas por 82 milh6es de pessoas, obrigadas a com-
parecer aos locais de inscriCio compulsoriamente,
pode resultar em uma crise ainda mais profunda do
que aquela para a qual deveria ser solug~o. Essa
crise, a ser confirinada pelo segundo turno de vota-
qio, a 17 de dezembro, resultarA de uma manifesta-
gio de negatividade do eleitorado. A esmagadora
maioria nao votarf a favor de algu6m, mas contra


uma situagao que, apenas palidamente, encontrou
entire os candidates algu6m capaz de canalizar essa
difusa corrente de protest.
Em 1960 o brasileiro que votou tinha a altrna-
tiva de propostas, de figures emblemAticas, de ca-
rismas e a sociedade, muito menos complex do
que hoje, estava tamb6m menos dilacerada por con-
trastes e paradoxos. A revista Veja visualiza dois
Brasis por tris dessas desigualdades: 30% de seus
habitantes cor acesso ao mercado, participando -
em graus variados, mas efetivamente da circula-
qao de riqueza; e os 70% restantes a margem do
circuit econ6mico, vivendo das sobras, com um
inico patrim6nio de eqiiidade nominal: seu voto.








Em 1960 certamente era menor a distincia en-
tre o mais rico e o mais pobre. A base da pirimide
nio era tio extensa e tio enterrada no subsolo da
decencia e da dignidade humans quanto agora, um
nivelamento por baixo tio deprimente que pode tor-
nar otimista a relagao de 70 por 30% da revista
paulistana. Tempos atras era moda falar de uma
imaginaria Belindia (metade B61gica, metade india),
mas nio era precise recorrer a ficqio para encontrar
um padrio de refer6ncia sobre esse pafs dos con-
trastes. Bastariapensar no Ira de Reza Pahlevi, on-
de um dos Ex6rcitos mais modernos do mundo re-
primia uma das massas mais fam6licas e o sobera-
no vivia num mundo reconstrufdo alucinadamente
das mil e uma noites.
Parece que falta f6 ao Brasil capaz de pavi-
mentar o caminho de lideres de seitas como os aio-
talas, mas ha no pais sucedineos estilizados para
encarnar o vudd da mis6ria que esmaga na subcida-
dania e no segundo circulo do inferno social as
quase 100 milh6es de pessoas que Veja, com base
em pesquisa official, inclui no outro Brasil.

A hipnose coletiva

A formula de fascinio empregada por Fernando
Collor de Melo deita as as raizes da sua inspiracio
no lado negro da Belindia. Joga a culpa nos marajis
do servigo pdblico, um sfmbolo primitive e anacr6-
nico da infelicidade coletiva, mas eficaz em mentes
que, pela fome e pelas condiq6es de vida, regredi-
ram a esse estado primal da consci8ncia. Para elas,
um bode expiat6rio ao alcance das mdos vale mais
do que as causes reais de sua angdstia, mas fixadas
em pontos fora do alcance de sua estrutura mental.
Algu6m precisa ser responsabilizado, nem que seja
para pagar o pato.
Esse estado de hipnose que marca a fronteira
do fanatismo coletivo serviu tamb6m maravilhosa-
mente para Senor Abravanel, o Silvio Santos dos
audit6rios nas tardes de domingo, dentro da telinha
azulada, a anestesiar a base da pirimide social em
seu inico instant de lazer. De aventura em aventu-
ra, desde a venda de produtos por pregio nas ruas
at6 a agiotagem sedutora dos carnes empurrados aos
incautos telespectadores, Silvio Santos mostrou que
o cargo mais alto da administrag~o pdblica 6 um
botim ao alcance de qualquer pirata mais audacioso.
Nao sendo ele, pode ser o Faustio.
Em nenhuma democracia estavel, cow institui-
c6es consolidadas e o poder submetido a fiscaliza-
gio de seus cidadaos, uma pessoa poderia descer de
paraquedas na campanha eleitoral a duas semanas
do dia da votagao sem ter dito, nem a partir daquele
moment, nem em qualquer ocasiio anterior, uma s6
frase que sugerisse sua vocag~o de home pdblico.
A inica caracteristica marcante na biografia de Sil-
vio Santos 6 sua capacidade de ganhar dinheiro por
qualquer meio, mas especialmente atrav6s de expe-
dientes sancionados pelo poder.
Essas falcatruas cor endosso official levam ao
sucesso porque tornam-se invisiveis a compreensio
da sociedade. O pobre mortal que gasta dois tergos
de seu dia para arranjar um rendimento de 760 cru-
zados novos no final do m6s, quase 85% dele gasto


no mais frugal cesta de alimentos, acredita que
basta o glamour do astro da television para creden-
cid-lo a ser o guia do pafs. Id6ias nao contam. As-
sim como a televisao precisa criar massa para domi-
nar, na relaqio democratic do eleitor com seu voto
o comportamento 6 de manada, ji que a eleigio nio
integra um process pedag6gico de formagio do ci-
dadio; 6 um jogo de regras viciadas que a elite
sempre consegue estabelecer.
6 assim se explica um fato desconcertante. O
senador Mario Covas, candidate do PSDB, 6 reco-
nhecido quase unanimemente como um home
probo, competent, preparado, sincere e honest,
mas sem estilo para convencer uma maior proporcio
de eleitores a votar nele. O estilo que Silvio Santos
e Collor t6m (e em certa media tamb6m Luis Inacio
Lula da Silva e Leonel Brizola) atrai o eleitor, que
sera capaz de votar em Covas no segundo turno se
ele, por uma circunstincia inesperada, conseguir ser
um dos dois candidates a ultrapassar a primeira eta-
pa. Isto quer dizer que o eleitor m6dio, nao tendo
encontrado o seu candidate, vai escolher aquele
que, por motivaaio emotional, por reacao a outran-
ce, esta mais pr6ximo do seu estado de espirito, do
quadro instintivo que reflete de sua condigio.
Os dois candidates que passarem para o segun-
do turno serao um sintoma do estado de enfermida-
de do pafs, mas nao um rem6dio. Nio expressario
uma posiqio ativa em relacao a essa identificaaio
que conseguiram estabelecer com a maioria do
eleitorado porque ele nao votou reflexivamente,
colocando-se ao lado de um program, mas por rea-
q o contra o que julga ser a fonte de seus dramas.

Depois, o vicuo
Havera um vicuo de legitimidade porque a re-
presentaqao political estara em descompasso com a
condiqio social da NaqIo. Alguns podem achar que
o pr6ximo president sera o Menem brasileiro, mas
n6s ainda nem tivemos o nosso Alfonsin, papel ao
mesmo tempo dramitico e tragico que esta bem aci-
ma da vocagdo do Sr. Jos6 de Ribamar Costa, o
Sarney, nosso primeiro president com apelido au-
to-incorporado. At6 os erros que Alfonsin cometeu
exigiam uma grandeza que faltou ao nosso Ribamar,
grandeza que levou Alfonsin a antecipar o fim de
seu mandate (final melanc6lico, mas de sua auto-
ria), em contrast com a pequenez de vistas que fez
Sarney espichar o dele obsessiono que o levou a
tentar com Silvio Santos, desastradamente, um gol-
pe que Getdlio aplicou antes, superdimensionando
os motins de comunistas e integralistas).
O vicuo que se seguird a 15 de novembro on a
17 de dezembro podera sei preenchido atrav6s de
formulas como o parlamentarismo, mas 6 dificil
acreditar nesses arranjos engenhosos. A trajet6ria
at6 o dia da eleiqao registra mais pma vez a falencia
das elites brasileiras. Leitora desinteressada do
Iluminismo, ela achou que instaurava a democracia
liberando a matricula dos partidos politicos e redu-
zindo ao minimo as exigencias para a apresentagio
de candidates, dando ao registro provis6rio dessas
agremiaq6es toscas uma elasticidade patol6gica, de
que 6 exemplo acabado o PMB de Armando Correa
et caterva. Enquanto essa liberalidade alimentava








apenas o circo dos Marronzinhos e En6as, a elite se
divertiu. Quando o fogo descontrolou-se, ela entrou
em panico.
Silvio Santos foi apenas o oportunista que viu
chegar o moment de tirar vantagem, o mote de uma
6poca que teve em Gerson o seu profeta. Abravanel
estava pondo em pritica, embora depravadamente, a
maxima do fil6sofo da comunicagio, McLuhan,
costurado de maquiavelismo de algibeira: o meio 6
a mensagen e 6 tamb6m o fim. E assim o SBT
cresceu, para desespero global do sr. Roberto Mari-
nho, a outra harpia insaciavell no c6u dos neg6cios
brasileiros. Se nao pode ser mais president, Silvio
Santos mostrou, a si pr6prio e aos Faust6es da vida,
que eles podem chegar la e chegardo se antes nio
chegarem a compostura, a decencia e a dignidade ao
padrao politico national.


A political crua
Durante os 10 dias em que o sr. Abravanel
alimentou a ilusao de ser candidate (sustentar ilu-
soes 6 sua especialidade), o pafs viu as mascaras
cafrem. Ningu6m disse, mas os envolvidos na no-
vela (e foram quase todos os personagens da cam-
panha eleitoral) levaram as iltimas conseqiincias o
que deveria ser uma tirada de humor negro da Vov6
Zulmira, a personagem do infelizmente falecido
Stanislaw Ponte Preta. Advertia ela que ou restau-
ramos a moral, ou todos nos locupletemos. Os ame-
ricanos t6m um ditado mais cru e direto para definir
a situaqao: se o estupro 6 inevitavel, relaxe e apro-
veite.
degradadio da cena polftica deve ter sido
acompanhada cor atengao e deleite, ao menos em
certos stores, pelos militares, eternos candidates a
tutores na sociedade brasileira. Todos dirao que nao
ha clima, apesar de tudo, para novos pronuncia-
mientos. t verdade. Mas tais verdades costumam ter
curta duraqao numa sociedade tio instivel como a
nossa. O Brasil anseia por uma transigao para valer,
na qual pudessem ser aparadas com determinaqao e
coragem as arestas que dao ao pafs uma tensao pr6-
explosiva, mas houvesse uma ponte segura para a
travessia do dificil moment da passage. Uma
aceleraqao pode resultar em grandes desgastes e di-
ficilmente haverd quem garanta que na superagao
desse etapa alguns dos valores cada vez mais esti-
mados neste final de s6culo, como a' liberdade, a
pluralidade ou a alternincia de poder, subsistam.
A hip6tese de ter Fernando Collor de Mello na
presid6ncia neste moment angustia porque ressalta
ainda mais a vacuidade de poder. Collor represent,
organicamente, a mais antiga, mais predadora e a
mais voraz das elites brasileiras: a dos plantadores
de cana e usineiros do Nordeste, ha quatro s6culos
sugando a Nagao a sombra do Estado cartorial.
Collor nao tem densidade pessoal e nem equipe para
tomar conta do pals. Essa impotencia real, que os
recursos de assessoria mascaram, poderA dar-lhe um
papel de Luis XIV: depois dele, o dillivio. No Bra-
sil, os dildvios costumam materializar-se em novos
periods de tutela sobre a sociedade.
JA a vit6ria de Lula, que representaria uma
efetiva mudanga no control do aparelho de Estado,


colocard o Brasil numa situaaio de alguma forma
similar A do Chile de Salvador Allende. Ha enormes
diferengas entire o lfder do PT e o Ifder do PS. Al-
lende era, quando subiu ao poder, o melhor politico
chileno, sob qualquer crit6rio que se fizesse a ava-
liagao Desde as peregrinaq6es pelo pafs como m6-
dico, Allende formara sua consciencia, seu progra-
ma e sua equipe. Chegou a presid6ncia na plenitude
desse process de amadurecimento, temido pelos
inimigos, mas respeitado at6 pelos mais ferozes de-
les. No entanto, armou-se contra o governor da Uni-
dade Popular uma conspiraqio sem paralelo na his-
t6ria do continent e sem guardar correspond6ncia
cor a radicalidade da experiencia de transiqio so-
cialista no Chile (e nao de governor socialista. O
sucesso do golpe deve-se tanto a obtusidade dos
militares chilenos que o promoveram, de formagao
prussiana, como ao fato de na Casa Branca estar
Richard Nixon, o mais doentio dos inquilinos do
maior centro de poder do planet.
MArio Amato, president da Federagao das In-
distrias do Estado de Sao Paulo, A qual se filia 'um
terco do Produto Interno Bruto brasileiro, declarou
que 800 mil empresirios sairiam do pafs se Lula se
elegesse president. t frase de fancaria: esses em-
presarios nao conseguiriam ganhar tanto em outro
pafs. Mas certamente eles armariam uma conspira-
cao de fazer inveja ao que os Ibad e Ipes de 1964
organizaram. Justamente poque tnm um ganho que
raros mercados poderiam Ihes dar em outro local do
planet, investiriam muito na desestabilizagao do
governor. 0 PT conseguiria administrar melhor essa
contra-ofensiva do que o PS de Allende?
E claro que a sociedade brasileira precisa estar
preparada para uma mudanca de poder para valer e
nao apenas decorative, mas ela 6 incomparavel-
mente mais complex, cor extremes muito mais
destacados, do que a chilena. A hist6ria pode colo-
car o PT diante de um desafio que esta acima de sua
capacidade de domfnio e agir cor ele como a esfin-
ge mitol6gica, s6 que devorando mais do que o
viajante desafiado pelo enigma.
O Brasil 6 paquid6rmico, se mexe cor ener-
vante lentidio. Enquanto comemoramos (abulica-
mente, alias) nosso centendrio republican, a Repi-
blica Democratica da Alemanha, no dia seguinte ao
da mudanca de governor, determinava o fim do muro
de Berlim. Provavelmente jamais houve, neste Bra-
sil dominado nominalmente por jovens, transforma-
gao tao brusca. Num dia se condenava o odiento
muro separando ideologicamente o territ6rio uno de
uma cidade. No outro dia o mundo se dividia entire
a alegria de tomar conhecimento da decisao de eli-
minar essa barreira e a preocupaaio com as conse-
qiincias da reunificaqao da Alemanha, prevista e
temida. E isto na velha Europa, que consideramos
cristalizada.
Nao se pode ter a mesma sensagao no dia se-
guinte ao da eleigao presidential que restabelece
uma caminhada interrompida em 1960 e lanqa o
Brasil na dltima d6cada do s6culo, tio incertamente
que justifica a timidez da sociedade diante das duas
datas cfvicas. No Brasil, as datas tem sido apenas
datas.









Este nosso pais de anoes


0 bonde da hist6ria raramente passa duas vezes a
frente dos que atuam na vida pdblica. Esta li-
qio estara sendo dolorosamente reaprendida
pelo deputado Ulysses Guimaries ao final da
apuraaio dos votos para a presid6ncia da Repdbli-
ca, desfecho melanc6lico para uma das mais bri-
lhantes carreiras polfticas do pafs. E Ulysses foi at6
privilegiado: teve duas oportunidades. O bonde da
hist6ria cruzou pela primeira vez o caminho dele
quando Trancredo Neves adoeceu e nio p6de ser
empossado president. A Constituigio era clara: as-
sumiria Ulysses interinamente, na condigio de pre-
sidente da CAmara dos Deputados. E convocaria
eleiq6es, que poderiam ser diretas se tomasse a ini-
ciativa de enviar mensagem ao Congresso nesse
sentido, ou indiretas, prevalecendo os dispositivos
entio em vigor.
Mas Ulysses concordou com o arranjo de per-
mitir a Sarney substituir um president que nio
existia legalmente, arranjo montado com um sofisma
desmoralizado agora, durante o julgamento da can-
didatura Silvio Santos por um Tribunal Superior
Eleitoral mais altivo (o vice 6 vice do president
altes de ser vice da Repiblica). Alguns alegaram
em defesa do deputado do PMDB sua preocupagio
cor tropas e Urutus nas ruas.
Mais do que a tonitroante mas constitucio-
nalmente desajeitada interpretagio do general
Leonidas Gongalves, entretanto, pode ter pesado
sobre a decision de Ulysses o fato de que ele nio
poderia concorrer A eleigio que iria convocar, cir-
cunscrevendo-se a interinidade de uma transicio
sem a gl6ria plena. Ali houve a marca da esperteza
e da sagacidade, que os politicos brasileiros consi-
deram a consumaqio de sua vocagio (as eternas ra-
posas do "jeitinho"), quando deveria ter havido a
dimensio de grandeza do estadista, que raros politi-
cos conseguiram alcangar neste pafs.
Ainda assim, menos luminoso, o bonde da
hist6ria se ofereceu novamente a Ulysses na pro-
mulgagio da Constituigao de 1988. Naquele mo-
mento ele poderia aposentar seus pianos de atingir
o dltimo estagio da vida pdblica, que 6 a presiden-
cia da Repiblica, mas se credenciando, como o
principal condutor da Assembl6ia Nacional Consti-
tuinte, ao papel de reserve moral da Nagio, um De
Gaulle sem guerras e heroismos culminantes, mas
ainda assim uma indispensavel fonte de consult
dos cidadios. Tendo renunciado outra vez a esse
convite da hist6ria, o "doutor" Ulysses se aposenta
da forma mais ingrata que pode haver para um polf-
tico: rejeitado pelas urnal E um destino ingrato em
relagio ao curriculo do home, mas implacavel-
mente just diante dos dois moments maximos em
que a hist6ria convocou sua participagio.

0 pigmeu paroquial
Em sua pr6pria ordem de grandeza, o deputado
estadual Agostinho Linhares viveu situagio seme-
lhante a de Ulysses Guimaries, embora sem direito
4


- negacao mais do que justificada a duas passa-
gens do bonde da hist6ria. Ao sair de Bel6m no dia
31 de outubro para encontrar-se cor os articulado-
res da candidatura de Silvio Santos e comecar uma
saga que o colocaria no noticiario destacado da im-
prensa national (na pagina polftica em fungio das
eleig6es; em outras circunstancias, poderia acabar
na pagina policial), Linhares declarara aos jorna-
listas: nio renunciaria & condigio de vice-presi-
dente na chapa do PMB (Partido Municipalista Bra-
sileiro).
Depois da tempestade, ele admitiria que per-
manecer na chapa, fosse ela encaberada por Ar-
mando Correa' ou Silvio Santos, seria "o mais de-
cente". Afinal, tinha sido escolhido pela convenglo
do partido e agora teria que se submeter a um grupo
sem representatividade. Mesmo que nao pensasse na
temeridade que a candidatura Silvio Santos expres-
sava ou nio estivesse em condig6es de examina-la
de uma perspective 6tica (se a considerasse dessa
maneira nio faria parte daquele cfrculo de polfti-
cos), Agostinho Linhares poderia ter desconfiado
que a inica maneira de entrar definitivamente para
a hist6ria era agir com a decencia que vislumbrara,
mas descartara.
As circunstancias deram a Linhares uma condi-
gio a que ele nio poderia aspirar por m6ritos pr6-
prios. Nio sabendo nem momentaneamente colocar-
se a altura, ele 6 hoje o sfmbolo national do que ha
de mais oportunista, velhaco e degradado na polfti-
ca professional brasileira. Linhares podera repetir A
exaustio que renunciou por motives superiores,
pensando nos beneficios que poderia alcangar legi-
timamente para si e para o Estado do qual 6 repre-
sentante. Mas nio convencerA a opiniao pdblica de
que fala a verdade.
Nio 6 apenas porque os outros personagens
dessa 6pera bufa dizem o contrario, mas porque Li-
nhares, ao negociar cor os promotores da candida-
tura Silvio Santos segundo as regras por eles esta-
belecidas, tornou-se um primus inter pares ou, em
linguagem menos casta, farinha do mesmo saco. O
cabega de chapa do PMB e president do partido,
Armando Correa, disse ao Jornal do Brasil que Li-
nhares pediu realmente 600 mil cruzados, sob a ar-
dilosa alegagio de que seria a indenizagio pelos
gastos de campanha (que nio fez). O deputado pa-
ranaense Joio Felinto, o principal piv6-na transa-
gio, disse que Linhares levou muito mais dinheiro
de Fernando Collor de Mello (atrav6s do senador
Ney Maranhio, de Pernambuco) para impedir Silvio
Santos de assumir o PMB. O journal fez refernncia a
um milhio de d6lares.


0 espelho do home
1 pouco provavel que algum dia essa hist6ria
venha a ser passada a limpo. Gangsters nio dio re-
cibo; o neg6cio escuso das mafias 6 verbal. Diante
delas, s6 ha uma attitude: evita-las. O deputado








Agostinho Linhares quer fazer crer A sociedade que
entrou e saiu inc6lume de uma articulaqio mais do
que suja, reivindicando para si uma ingenuidade ou
uma pureza que sua carreira nao autorizam.

Se nao 6 o mais preparado dos politicos pa-
raenses, ele 6 certamente um dos mais sagazes. Na
iltima eleiqio, seduziu algumas dezenas de perso-
nagens obscuros da margindlia political para que
saissem candidates, mas seu inico objetivo era en-
grossar a votaqio da legend do PMB e reduzir os
custos da campanha. Te'.e pleno 6xito: mesmo corn
a menor das votaq6es individuals, elegeu-se graqas
aos votos pingados de todos os outros candidates,
que serviram de muleta muito ttil e ficaram todos
de fora.

Mas a esperteza de Linhares nao 6 recent. Ele
comecou na vida piblica como president da Co-
dem, uma empresa metropolitan com jurisdiqAo
municipal, idiossincracia bem de acordo com um
governor que adotava como seu o piano urbanistico
de outra cidade, tendo o cuidado apenas de mudar o
nome. Piano bem feito independe de seu alvo, foi o
raciocfnio, o mesmo que deve ter levado a Codem a
encomendar freneticamente pianos a empresas parti-
culares de consultoria, pianos retirados dos arqui-
vos quando Linhares, como vereador, tornou-se o
"pai" dos Planabel, Planaverde e quejandos.


Com convicqio inabalivel e aparente humilda-
de, o professor de matemAtica financeira e funcio-
nArio do Banco do Brasil foi construindo sua carrei-
ra. Descobriu que um bom caminho para a ascensio
pode ser alcangado pela participagio em eleig6es,
quaisquer que elas sejam, tenha ou nio possibi-lida-
des reais de veneer. Linhares 6 exemplo de uma
disposig o por competir que s6 nio 6 elevadamente
olimpica porque a legislacgo brasileira sobre o as-
sunto 6 satanicamente permissive. As eleig6es slo
organizadas nio exatamente para amadurecer cada
vez mais a democracia e expandi-la, mas para man-
t--la sob o regime tutelar das elites. Nio espanta
que a ela tenham acesso os mais deslavados oportu-
nistas e que se transform tio facilmente em ins-
trumento de neg6cio.
Assim, Linhares pode aspirar A grandeza,
mesmo depois de tanta baixaria. O Jornal do Brasil
diz que ele pediu a Silvio Santos apoio para con-
correr ao governor do Pari em 1990. Pessoalmente,
Linhares foi mais modesto: pretend ser um novo
Antonio Lemos, prosseguindo a obra do prefeito (na
6poca intendente) que modernizou e embelezou
Bel6m no inicio do s6culo. Mas se houve dose de
injustiqa pessoal no destiny que o povo brasileiro
reservou ao "doutor" Ulysses, sera absolutamente
correto se o povo paraense, ao inv6s do bonde,
apontar para o "doutor" Linhares a lata de lixo da
hist6ria.


Violencia: em estado de alerta


J osimar Alves de Oliveira seria apenas mais
um entire algumas centenas de pistoleiros,
que transitam livremente pelo Para, se nao
tivesse protagonizado uma incrivel hist6ria
de viol6ncia entire os dias 31 de outubro e 1 de no-
vembro, capaz de retratar fielmente a situaqio da
seguranqa piiblica no Estado. Preso quando tentava
arrombar a agencia da Telepard em Pacajas, um dos
novos municipios surgidos na Transamaz6nica, Jo-
simar estava sendo conduzido preso e algemado -
por um sargento e um soldado da Policia Militar pa-
ra Tucuruf, numa Kombi alugada (porque a policia
local nio disp6e de viatura pr6pria).
O pistoleiro conseguiu burlar a vigilfncia dos
dois PMs, pegou o rev6lver que estava em sua ca-
panga, apontou-o para os militares e, com dois tiros
certeiros, executou-os. Depois foi A delegacia de
Pacajas matar o delegado Diomedes da Silva, que
estava dormindo em seu plantlo, roubou todas as
armas que ali estavam (uma metralhadora, tres re-
v6lveres e um rifle) e libertou o preso Joilton Jesus
Brito, o "Fogoi6", que passou a acompanhi-lo.
Na fuga, Josimar foi interceptado por uma pa-
trulha da PM, trocou tiros com os militares, matou
um soldado e baleou gravemente o comandante do
grupo, tenente Edvaldo Sarmanho, conseguindo no-
vamente fugir. O pistoleiro pegou uma familiar de
lavradores como ref6ns quando encontrou outra pa-
trulha, que passou a persegui-lo. Josimar perdeu a
direqlo do carro, atirando-o num igarap6. Tres
criangas e a mie morreram nessa ocasiao, mas o
pistoleiro mais uma 'vez escapou Dez dias depois,


ainda nao bavia sido localizado por dezenas de ho-
mens da PM que montaram um cerco na area.
Como essa combinagio de fria competencia do
bandido cor desastrada incompet6ncia da polftica
p6de ocorrer? Os dois PMs que conduziam o preso
foram tragicamente punidos cor a morte pelo com-
portamento adotado, displicente ou sabe-se la que
qualificativo empregar. Em defesa deles e da mem6-
ria que restou para suas famflias seria possivel ar-
gumentar que desconheciam a periculosidade do
home apanhado na tentative de arrombamento.
Mas tamb6m se poderia levantar outras hip6teses
dolosas em relagio ao prop6sito que os fizera levar
o preso de Pacajas para Tucuruf.
Entre as varias hip6teses de explicaqio e re-
constituigio do epis6dio, fica o resultado concrete:
a fuga rocambolesca do preso. Tio logo a noticia se
espalhou, o que os dois PMs poderiam ignorar pas-
sou a ser conhecimento geral: Josimar era tido como
um pistoleiro muito perigoso, mortal no tiro, deci-
dido na execuiao. No entanjo, a PM saiu alvoraCa-
da na perseguigio do fugitive, sem um piano defi-
nido de acio e, aparentemente, sem comando. Em
todos os confrontos, um home s6 saiu-se sempre
melhor, inclusive no moment delicado em que leva
ref6ns. O saldo foi trigico para o lado da policia.
Ela esta desaparelhada e seus homes t8m uma
formaglo mais do que deficiente. Josimar conseguiu
invadir sem qualquer problema a delegacia, matar o
comissArio que dormia no plantao e levar armas pri-
vativas, que Ihe deram um grande poder de fogo,

5








que ele usou com mais eficiencia do que os milita-
res. Nio espanta que se tenha safdo melhor: prova-
velmente um pistoleiro como ele treina mais do que
qualquer home da PM, nio s6 por dispor de uma
ragio de balas mais generosa, como pela qualidade
das armas a que tem acesso. Ademais, o rendimento
de um pistoleiro professional 6 bem superior ao
vencimento de um PM e a poderosa clientele dos
pistoleiros da-lhes condig6es de estfmulo e protegio
sem paralelo corp os da corporagio military.
O epis6dio de Pacajas pode funcionar como um
grave alerta ao governor e a opiniio pdblica. Du-
rante algum tempo a PM notabilizou-se no interior
do Para (e tamb6m na capital, mas af em menor in-
tensidade) por sua atuacio parcial. Foi acusada de
agir como milfcia particular dos fazendeiros contra
posseiros, sem se orientar por qualquer dos muitos
crit6rios que constituiriam a aago pdblica de segu-
ranga. No famoso conflito de Perdidos, em Sdo Ge-
raldo do Araguaia, marco da tensio entire o governor
e a I geja, os posseiros afixaram uma placa na en-
trada de suas terras advertindo que a PM nio pode-
ria passar dali; s6 admitiam a presenga do Ex6rcito.
O mesmo ocorreu, 10 anos depois, com os garimpei-
ros de Serra Pelada, que nio admitiam a PM senio a
distancia.
Nesse perfodo, a PM imprimia sua marca na
execurao de sentengas judiciais de reintegracio ou
manutenago de posse, despejo e outras ag6es liti-
giosas, mas sempre indo al6m dos limits estabele-
cidos nos mandates. Mesmo porque quem a trans-
portava, Ihe fornecia os meios e a recompensa era
os autores dessas ag6es, os fazendeiros. Para eles,
era mais eficaz e safa mais barato usar a forga pd-
blica, que nio estava submetida a um control efe-
tivo da sociedade e por isso exorbitava cor natu-
ralidade e contumacia.
Cor a liberalizagio polftica, a situaqio foi
mudando. A polfcia jA nao podia ser usada, ao me-
nos com a desenvoltura anterior, como milfcia par-
ticular. t dessa fase a contratagio de numerosos
grupos de pistoleiros, mas agindo nio mais disper-
sivamente e sim como conjunto, sob a coordenagio
de profissionais saidos da pr6pria polfcia, das for-
gas armadas ou de empresas privadas de seguranga.
Desaparelhada e despreparada, a PM deixou de
tender as exig6ncias do novo moment. Sua fungio
mais nobre passou a ser a de servir de ligagio in-
termediria para o recrutamento de "quadros".
O desnivelamento entire o policial military e o
pistoleiro professional esta mais do que evidence
nesse epis6dio de Pacajas. Tal correlagio de forgas
nio seria fonte de problems se ambos estivessem
do mesmo lado, como frequentemente estao. Mas
quando se chocam, o resultado 6 que a seguranga
pdblica esta ameagada porque a polfcia nao tern
condig6es de dar protecao aos cidadios, seja indi-
vidualmente ou em conjunto. A polfcia nao 6 mais a
maior "expert" em seguranga pdblica, para garanti-
la; na vanguard encontram-se os agressores da lei.
Ningu6m sabe quantos pistoleiros profissionais
ha em atividade no Para, mas todos os que acompa-
nham essa atuaago concordam em que o ndmero vai
al6m de algumas centenas. Ha os pistoleiros que
agem isoladamente, como se fossem aut6nomos.
6


Mas ha as centrals, conhecidas como sindicatos do
crime. Um dos mais poderosos dentre eles 6 o de
Imperatriz, no Maranhio, de onde 6 originrio o pe-
rigosfssimo Josimar Alves de Oliveira. Sem preci-
sio, impossfvel de obter nessas quest6es, calcula-se
que s6 ali, de uma forma articulada, haveria mais de
500 pistoleiros de aluguel. O Para, pela vizinhanqa
territorial e pela conturbaago social, 6 o principal
client desse "sindicato".
Os pistoleiros transitam com poucos empeci-
lhos de um lado para o outro dos dois Estados (ou-
tro circuit important abrange o Piauf e o Ceara).
Quem pensar neles tendo na mem6ria a imagem dos
pistoleiros do velho oeste norte-americano criados
por Hollywhood cometera um erro. Josimar, por
exemplo, ,apareceu em Pacajas como um pacato
vendedor de agdes de sadde. Outros sio, nas horas
vagas, lavradores ou garimpeiros. Nio andam cor
revolver na cintura, ner fogem a cavalo trocando
tiros cor delegados. Quando sio contratados, rece-
bem a arma dos clients, que os protegem durante
os dias seguintes ao do atentado e depois lhes ga-
rantem uma safda mais segura. Voltam entio para
atividades que pouco tnm a ver com o crime. De-
volvem atW a arma, que 6 conseguida atrav6s de ex-
pedientes junto a esse meio-campo difuso entire o
setor policial e a marginalidade.
A ininterrupta carreira de pistoleiros ja famo-
sos, como Zezinho da Codespar, ou o surgimento de
personalidades que representam uma nova etapa
dessa atividade, como o feroz ex-cabo Aragio,
mostra que a pistolagem professional encontrou seus
meios pr6prios de sobreviv6ncia, em relagio aos
quais pode muito pouco a estrutura policial do Es-
tado.
O epis6dio de Pacajas ocorreu justamente no
moment em que o governador H6lio Gueiros de-
terminou a incorporaiao de mais mil homes ao
efetivo da PM, de sete mil, parte considerivel ainda
fora dos quart6is apesar da devolugio em massa
feita pelo governador a partir da sede do governor
(onde havia a maior relagio PM / "per capital" do
pafs). Mas a PM s6 ter condig6es de former um
quinto, no maximo, dessa cota e ainda assim sem
se preocupar com qualidade. Mas como pensar em
qualidade se um coronel da PM estava ganhando o
equivalent ao vencimento de um sargento do Ex6r-
cito?
l claro que ha corondis ou mesmo oficiais de
patente inferior ganhando entire 10 mil e 15 mil cru-
zados novos por mes, al6m de outros oficiais da re-
serva em faixa ainda mais elevada, mas eles sao
uma excecao, que s6 se sustenta em fungao das
distorg6es que se foram acumulando na corporaqio
por injunc6es political. O que nao ter faltado 6 es-
se tipo de interferencia, fonte de carreiras paralelas
que afetam a consist6ncia do serving que a PM po-
deria prestar a um dos Estados mais explosives do
pafs. Sua contribuicgo, alias, ter sido mais a de in-
crementar do que a de reduzir essa explosividade.
Ela s6 nio 6 vista pelos que acham epis6dios como
o de Pacajas casos isolados de violencia individual,
quando eles sao o sinal de alerta para uma situag&o
de gravidade que o organismo social nio consegue
captar em toda a sua dimensio.









Caso Batista:

um rumo novo?

Preso sob acusacio de participar do assassi-
nato do deputado Joio Carlos Batista, cometido ha
quase um ano, Roberto Cirino de Oliveira foi no dia
seis de outubro a presence da jufza Yvonne Santia-
go Marinho, no Forum de Bel6m, dizer que nada te-
ve com o crime, apontou o pistoleiro P6ricles como
o autor dos tiros contra Batista e fez varias outras
acusag6es, que s6 nio tiveram maior repercussio
porque apenas um journal, o "DiBrio do Pard", va-
rios dias depois do depoimento, o noticiou.
Robertinho, 21 anos, nascido em Soure, disse
que havia realmente uma conspiraqio para assassi-
nar o deputado do PSB, cuja lideranga political re-
sultou de sua atividade como advogado de possei-
ros. Pelo menos 30 fazendeiros estabelecidos ao
long rodovia Bel6m-Brasflia, principalmente em
Paragominas, se reuniam para tramar a eliminagao
de Batista. No primeiro atentado, executado por P6-
ricles e Catingueira, o tiro acertou o pai do entio
advogado, sem mata-lo. Mas o segundo, em frente
ao pr6dio onde o parlamentar morava, foi fatal. Ro-
bertinho garante que, nesse dia, estava na casa de
um compare no quil6metro 48 da Bel6m-Brasflia.
Robertinho admitiu conhecer o empresario
Joaquim Fonseca, do grupo Jonasa, dono de uma
fazenda vizinha do Parque Eldorado, na qual tra-
balhou durante dois anos e onde tamb6m conheceu
P6ricles, mas negou que Fonseca estivesse envolvi-
do na morte de Batista (o nome do empresario foi
tamb6m associado ao atentado contra o ex-deputado
Paulo Fonteles). Robertinho acusa, entretanto, os
empresarios Josiel Rodrigues e Joevi Campos de
participacao na morte de Batista. Os dois foram de-
nunciados na Justiga e estao foragidos, corn manda-
do de prisao expedido. Tamb6m foram relacionados
ao caso Fonteles.
Robertinho fez uma grave acusagao contra o
delegado Brivaldo Santos, primeiro responsivel
pelo inqu6rito da morte de Batista, dizendo que ele
telefonou para Josiel da delegacia de Castanhal,
alertando-o para fugir porque seria procurado. Dias
depois da publicagao da noticia, Brivaldo defendeu-
se argumentando que nio havia telefdne funcionan-
do na delegacia de Castanhal. Robertinho disse ain-
da ter assumido participagao no assassinate de Ba-
tista por orientagao do advogado Paulo Rola, que
assim queria proteger Josiel e Jeovi. Denunciou
A jufza as ameagas que um filho de Josiel, conheci-
do cmo Galego, estaria fazendo para forgi-lo a ino-
centar o pai.
As declaraq6es de Roberto Cirino s6 dio um
novo rumo ao caso Batista porque as investigaq6es
ainda sdo pouco consistentes e foram repassadas &
Justiga sem condiq6es de definir um rumo certo ou
pelo menos convincente. Robertinho se declarou
vaqueiro de profissao, mas o relate que fez da pr6-
pria vida nio deixa divida de que 6 mesmo pistolei-
ro. Pode ser que tenha feito as declarag6es, modifi-
cando seus depoimens anteriores, apenas para apro-
veitar a oportunidade que o director do Presidio Sao


Jos6 Ihe deu. Mas pode estar servindo a algum dos
interesses que tem interferido sobre o process com
a clara intengio de tumultua-lo, obstruir a apuraqio
e fazer cor que mais esse acaso de violencia acabe,
irresolvido, no arquivo morto da Justiga.


Kayath assume

sua candidatura

0 m6dico Henry Kayath quer ser candidate ao
governor do Para em 1990. Mas para poder viabili-
zar sua intengao ele tera que superar um dificil
obstaculo colocado em seu caminho: anular o ato do
president Jos6 Sarney que o destituiu da superin-
tendencia da Sudam "por improbidade e desfdia"
(ver Jornal Pessoal n0 50). A partir de uma acio por
ele apresenda & Justiga do Trabalho, em Bel6m, na
semana passada, comegarf a ser travada efetiva-
mente a primeira batalha pela sucessao do governa-
dor Hl6io Gueiros, cor lances dignos de uma com-
plicada movimentafio em tabuleiro de xadrez.
Ter recorrido a Justiga trabalhista demonstra
que Kayath, depois de muitas reticencias, assumiu
de vez sua candidatura, provavelmente com o estf-
mulo senio o apoio, ao menos por enquanto de
Gueiros. Ao mesmo tempo, confirm que o prop6-
sito principal do governor federal ao atingir o ex-
superintendente nao foi administrative, mas polfti-
co: tornar Kayath inelegivel. Evidentemente, esse
nio 6 um objetivo pessoal do president Sarney ou
do ministry do Interior, Joao Alves, responsaveis
pela consumagao e pela sugestio da media. Ela
interessa apenas ao ministry da Previdencia Social,
Jader Barbalho, inspirador da forma adotada para
exonerar Kayath, cor desonra. Jader quis afastar,
com um golpe de mestre, o concorrente potential.
Trata-se de fato de um golpe politico. Cor as
armas de que dispunha, contidas nos autos do in-
qu6rito realizado por uma comissio que Joio Alves
designou, o governor poderia simplesmente ter
afastado Kayath, cor base no Estatuto do Funcio-
nario Pdblico. Ou, mesmo recorrendo a CLT, res-
peitando o dispositivo da Consolidagio que veda a
declaragao das raz6es da dispensa por just causa.
Ao optar por exonerar o superintendent pela CLT,
mas anotando a motivagio do ato, o inspirador do
decreto assinado por Sarney estava menos preocu-
pado com os desdobramentos judiciais da media. O
que pretendia era enredar Kayath nas malhas do
process judicial de tal maneira que nio conseguis-
se se livrar delas a tempo de poder candidatar-se ao
governor. Ambos sabem que demissio por just cau-
sa no servigo ptblico 6 causa de inelegibilidade.
Mas Kayath ajuizou sua agio no TRT prova-
velmente confiando na celeridade que tem o proces-
so numa instincia de rito muito mais sumrrio do
que o da Justiga comum, onde ele melhor poderia
contestar o m6rito do ato presidential, mas nio a
tempo de poder inscrever-se as eleig6es de 1990.
Mesmo com essa vantagem, o ex-superintendente
comecou uma dificil corrida contra o tempo. De-
pendendo do desfecho do caso, ele teria que estar
em plena condigio de registrar-se como candidate







em janeiro (na hip6tese de pedir a revisao do de-
creto presidential para reassumir a Sudam) ou em
abril (se estiver apenas na condiiao de cidadao, que
deve ser a alternative escolhida ).

Socilar: liquidante

acusa dirigentes

Os dirigentes da Socilar Cr6dito Imobiligrio,
que era a maior do setor na Amaz6nia, podem ser
denunciados pela pritica de crimes contra o Sistema
Financeiro Nacional se o Minist6rio Pdblico federal
endossar a posigio do liquidante da empresa, no-
meado pelo Banco Central. Durante o process de
liquidagio extra-judicial da Socilar, a comissao de
inqu6rito apurou fatos "que sdo passiveis de confi-
gurar a pratica dos ilicitos previstos na legislagio
penal especifica como crimes de agio ptblica", in-
formou a liquidante, Maria de Nazar6 Soares, em
comunicagio enviada no m6s passado ao Procurador
Geral da Repdblica no Pard.
Ela diz que uma s6rie de "crimes contra o
Sistema Financeiro Nacional" podem ter sido prati-
cados por ex-dirigentes da Socilar, A frente dos
quais estA Armando Carneiro, que exerceu mandates
politicos at6 1964 e 6 irmao de Oziel Carneiro,
candidate ao governor do Estado em 1982 e ocu-
pante de virios cargos pdiblicos. Armando 6 o cabe-
qa do grupo Carneiro, que compreende outras em-
presas e represent uma famflia cor tradigio no
Estado. A liquidante pediu tamb6m que fossem de-
nunciados os dirigentes da Casul (Construtora Am6-
rica do Sul), FlAvio do Espirito Santo e Aldebaro
Barra.
Todas as irregularidades apontadas pela liqui-
dante da Socilar foram praticadas no financiamento
e na construcio do conjunto residential Geraldo
Palmeira, corn 1.100 unidades. O contrato cor a
Casul, no valor de quase 2,2 milh6es de OTNs, foi
assinado em junho de 1986, mas recebeu virios
aditivos at6 janeiro deste ano. Justamente nesses
aditivos 6 que a comissao de inqu6rito encontrou os
desvios, diz Maria de Nazar6 Soares.
A Casul recebeu 3,2 milh6es de OTNs al6m do
valor contratual (quase 30 milh6es de cruzados no-
vos, em valores de margo deste ano). A Socilar deu
a quitagio total do financiamento, Imds a Casul dei-
xou de amortizar quase dois milh6es de OTNs. A
Socilar liberou o equivalent a 4,8 milh6es de
OTNs para a construtora, embora, para concluir os
30% da obra que ainda faltavam, ela s6 precisaria
de 1,3 milh6es de OTNs. Gragas a manobras nas
datas das assinaturas dos contratos de financia-
mentos, desonerando a construtora de alguns encar-
gos, a Casul deixou de recolher 290 mil cruzados
antigos (valor nao atualizado pela liquidante).
Os peritos do extinto BNH chegaram A conclu-
sio de que os im6veis foram comercializados por
preqos mais de quatro vezes acima dos valores de
mercado (o que justificaria a apresentagio de agio
civil piblica "para a defesa dos direitos dos mutui-
rios, por parte do Minist6rio Piblico"). Afirma a
liquidante que, "por mera deliberaqio de seus di-


,_.Xctores, sem autorizaqio legal e respaldo regula-
mentar, foi autorizado o financiamento total das
,unidades integrantes do Conjunto Geraldo Palmeira
-(100%), quando o permitido 6 de 90%".
--,- Acrescenta que os ex-dirigentes da Socilar es-
.: tibelecem os juros de 3,5% ao ano, "quando os ju-
,.'rds eram de 10%, e fixaram o prazo de financia-
*: neruo em 300 meses, "quando o permitido era de
18l, meses". Essas "liberalidades" representaram
Sum ganho equivalent a quase 3,4 milh6es de OTNs
Spaq a Casul. Mas a empresa ainda foi brindada cor
) "mps ,101 mil OTNs porque Armando Carneiro dis-
'rensou-a do pagamento de juros. "Este ato isolado
praticado pelo referido ex-diretor nio poderia ter
sido feito, pois de acordo cor o artigo 154 da Lei
das Sociedades An6nimas 6 vedado aos administra-
dores praticar atos de liberalidade A custa da com-
panhia", observa a liquidante. Ela informa que a
decision de Carneiro "afetou o Sistema Financeiro
Nacional, pois a importancia que foi dispensada de
ser paga pela Construtora deveria ter sido repassada
ao FAL, Caixa Econ6mica Federal e Companhia de
Seguros".
Desde o dia 24 do mes passado a comunicagio
da liouidante da Socilar esta na Procuradoria Geral
da Repdblica, em Bel6m. Maria de Nazar6 compro-
meteu-se a apresentar novas provas para reforqar a
convicgqo do Minist6rio Piblico a apresentar a de-
niincia contra os ex-dirigentes da Socilar, afastados
dos cargos quando foi instaurado o process de li-
quidagio extra-judicial da empresa.

Mera coincidncia ?
No dia 8 o president do Banco Central, Wadi-
co Bucchi, decidiu declarar cessada, a partir dessa
data, a liquidagio extra-judicial da Socilar. Em
conseqiiuncia, dispensou Maria de Nazar6 Vieira
Soares das fung6es de liquidante. Nao foi dada ne-
nhuma explicagio sobre as raz6es dessa decision,
que havia sido antecipada virios dias antes por nota
publicada em uma das colunas de um journal de Be-
16m.
A suspensdo da intervengio do Banco Central
na Socilar e a dispensa da liquidante nfo afetarfo a
comunicagio feita ao Minist6rio Pdblico federal,
mas impedirao, obviamente, que Maria de Nazar6
fornega mais documents ao procurador Jos6 Au-
gusto Torres Potiguar, para quem o pedido foi dis-
tribuido na Procuradoria da Repdblica no Pard. A
ex-liquidante deixara claro, em sua petiqio, que as
investigag6es ainda estavam em curso e ela poderia
apresentar novas proves.
I


Jonal Pessoal

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