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Jornal pessoal
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 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00039

Full Text





ornal Pessoal
Licio Flavio Pinto


Circula apenas entire assinantes


2a Quinzena de Agosto de 1989


ELEIQAO

Campanha para 90, ja

Como candidate a vice-presidente da Republica, o senador
Almir Gabriel pode completar o mais brilhante curriculo entire
os politicos paraense. 0 objetivo e chegar ao
governor no proximo ano. Mas que aliados ele entao tera?


Seleicio para o governor do Estado ser4 so-
mente no pr6ximo ano, mas a campanha ji
comeqou no Pari e em alguns dos outros Es-
tados que apresentaram candidates & eleigio
presidential deste ano. O primeiro candidate pa-
raense que chega as ruas 6 o senador Almir Gabriel.
Teoricamente, ele 6 apenas o companheiro de chapa
do senador Mdrio Covas, do PSDB. Mas, como em
outros casos (de Paulo Maluf, do PDS, ou Aurelia-
no Chaves, do PFL), a dispute presidential 6, na
verdade, um trampolim para alcangar a meta esta-
dual em 1990.
Como o primeiro paraense, nos dltimos 70
anos, a participar de uma eleigio presidential, ain-


da que como candidate a vice (a mesma condigio do
anterior, Lauro Sodr6), o m6dico Almir Gabriel po-
de reivindicar uma base de apoio muito mais ampla
do que aquela cor que poderia contar se participas-
se de qualquer outro tipo de eleigio. A possibilida-
de de ter um representante direto no PalAcio do
Planalto deverd exercer fascfnio sobre o eleitorado,
o nono maior col6gio do pafs, e, talvez, sobre toda
a Amaz6nia.
Mesmo que Mdrio Covas n&o seja eleito presi-
dente (ja 6 o terceiro nas pesquisas, mas est6 muito
long de Fernando Collor e a distancia consider4vel
de Leonel Brizola), Almir Gabriel saird vitorioso -
e alcangarf seus objetivos nio declarados se con-


Ano II


N2 46








seguir uma maciga votagio no Para (uma presenga
marcante em toda a regiAo amaz6nica ajudard mais
ainda). Nesse caso, quem poderd impedir que ele se
torne automaticamente postulante ao governor do
Estado?
O desdobramento 6 inevit4vel e qualquer polf-
tico esta fazendo esse tipo de raciocfnio diante da
candidatura do ex-senador do PMDB (o dltimo a
aderir ao PSDB). A reagio sinaliza os caminhos que
serio trilhados pelos diversos grupos interessados
em assumir o poder no Para. A primeira grande ade-
sio pdblica obtida por Almir foi a do senador Jar-
bas Passarinho, que, mesmo tendo um candidate
official de seu partido, o PDS, manifesto simpatia
pelo PSDB. Mas provavelmente o apoio mais im-
portante veio dos bastidores: 6 praticamente certo
que Almir Gabriel conversou corn o ministry Jader
Barbalho antes de aceitar subir na chapa de Covas.
Nenhum dos dois confirmara esse acerto pr6vio, as-
segurado por vhrias fontes, mas ha uma comprova-
gio indireta: o destaque que o journal Didrio do Pa-
r&, de propriedade do ministry, tern dado a candi-
datura de Almir, mesmo ele sendo, agora, de um
partido adversdrio.
Hi outros sinais, por6m. Almir teve uma long
conversa cor Jader antes de finalmente deixar o
PMDB, no mais long e tamb6m mais morno dos
processes de desligamento de um grande nome re-
gistrado nos dltimos tempos. Talvez nenhum "tuca-
no" tenha mantido lagos mais densos corn o antigo
ninho do que o senador paraense, que voltou ao Pa-
ra como se fosse o candidate de uma frente e nao de
um partido. Como se trata de uma frente informal,
ele apresenta sutilezas e matizes que precisam ser
registradas.

De quem a voz?
Se antes de tornar-se vice de Covas Almir
conversou cor Jader, logo depois de aceitar o con-
vite do PSDB telefonou para o governador H61io
Gueiros e os dois tiveram uma conversa agradavel,
apesar de o governador declarar que vai empenhar-
se pela candidatura do deputado Ulysses Guima-
ries, uma declaragao ate agora sem maior conse-
qtfincia pratica. As relag6es entire o ex-secrethrio e
o governador nunca foram boas, em parte talvez
pela indiossincrasia natural de dois bicudos, mas
tamb6m porque Gueiros nio aceitou a recusa de
Almir h candidatura a prefeitura de Bel6m no ano
passado. Para os mais fntimos, os dois expressavam
queixas mdtuas, mas conseguiram transmitir ao pd-
blico simpatia recfproca.
A dificuldade para um relacionamento menos
tenso entire os dois esta no antagonismo de seus
plans polfticos. Desde a Epoca em que assumiu a
secretaria de Sadde na administragio Alacid Nunes,
no ja distant ano de 1979, Almir aspira a uma car-
reira ascendente na polftica. Em dez anos acumulou
um currfculo invejAvel nio s6 pelos seus tftulos
(duas vezes secretirio de Estado, prefeito da capital
e senador), como por ter evolufdo num tiroteio sem
ferir e ser ferido. Sobreviveu na secretaria de Sadde
quando Jader rompeu cor Alacid. Mais do que isso:
foi nomeado prefeito de Bel6m em substituigio a
2


Sahid Xerfan, confirmando assim a confianga do
entio governador Jader Barbalho. Polftico pouco
conhecido fora da capital (que det6m apenas ur
tergo dos votos do Estado), elegeu-se senador gra-
gas ao empenho de Jader e a composiglo de forgas
por ele montada.
Essa carreira permitiria aos c6ticos alimentar
ddvidas sobre a densidade polftica e eleitoral de
Almir, sua autonomia e sua forga pessoal. E certo
que parte do exito nesses 10 anos deve-se ao con-
ceito que Almir formou como m6dico, administrator
e pessoa. Nunca sua honra pessoal foi post em
questio, um dado a considerar na polftica de um
Estado pobre, exercida corn volumosas doses de fi-
siologismo e de corrupg&o. Mesmo cor as polemi-
cas que sua agio em relagio aos doentes mentais e
hansenianos provocou (por considerar esquemas
te6ricos e nio a realidade concrete), todos admitem
que 6 um administrator competent e sincere, mes-
mo quando compete erros.
Mas normalmente esses atributos pessoais coli-
dem cor as exigencias de uma carreira polftica
marcada pelos percalgos de uma Area atrasada como
o Para. As virtudes intrfnsecas de Almir s6 nio Ihe
criaram problems porque ele deixou-as de lado
sempre que as conveniencias polfticas assim o exi-
giram. Jamais se ouviu dele uma opinilo sobre os
padres morais e 6ticos da lideranga maior sobre a
qual ele evoluiu como polftico, a do ministry Jader
Barbalho, principalmente quando alguns "casos" de
sua administragio no Estado se transformaram em
escAndalos. Nessas circunstAncias, Almir preferiu
agir como um chines, tangenciando o inconvenient
e agindo como se ele nao existisse.
Para intelectuais como ele, o important 6 che-
gar ao objetivo, nao import quantos sapos seja ne-
cesshrio engolir. O poder alcangado, depois, per-
mite a penit8ncia, um princfpio pedag6gico que ter
possibilitado o despotismo esclarecido, a principal
fonte de reforms feitas a partir de cima em regi6es
atrasadas, mas tamb6m a tirania. Chegar a um ou
outro fim 6 questio de escala e media; sera que o
guia tern o control dessa questao?
Os fi6is e algumas vezes fanaticos seguido-
res do senador Almir Gabriel estarao dispostos a
imediatamente responder corn uma afirmativa, mas a
ddvida tern procedencia hist6rica. Em apenas 10
anos de carreira polftica academic, Almir chega a
um nfvel que seu amigo Jarbas Passarinho tentou,
esteve muito mais pr6ximo e nio conseguiu: entrar
para a dispute presidential, ainda que na condigio
de coadjuvante, cor alguma possibilidade real de
vit6ria e o respeito mfnimo capaz de diferencid-lo
de situag6es pat6ticas como a do outro paraense na
competigio, o deputado estadual Agostinho Linha-
res, vice do risfvel candidate do PMB, Armando
Correa.

A arte do equillbrio
Dependendo dos votos que alcangar, Almir
Gabriel estard em condig6es de fechar no pr6ximo.
ano um currfculo sem paralelo cor qualquer dos
outros polfticos do Par&. Obviamente, ele nao pode-
ra ser comparado ao professor Cl6vis Moraes Rego,







que foi quase tudo no Estado sem nunca precisar
imprimir uma marca polftica pessoal, mas ha algo
nessa carreira que sugere um especial cuidado em
nao criar embaragos, nem ferir suscetibilidades que,
aplicado a outra personalidade, poderia ser classifi-
cado de oportunismo. Em linguagem de surfista,
pode-se dizer que o senador sabe aproveitar as on-
das e manobr--las conform seus prop6sitos at6
chegar I praia.
Mas entire a crista das ondas e a coroa de area
h6 riscos a enfrentar. O governador Helio Gueiros
nAo esta disposto a ter Almir Gabriel como seu su-
cessor, principalmente agora que ele esta em outro
partido. Parece fora de ddvida que o candidate ofi-
cial sera o superintendent afastado da Sudam, ou
ao menos Henry Kayath pretend que seja assim. Os
polfticos mais pr6ximos ao ministry Jader Barbalho
asseguram que ele pretend mesmo voltar ao PalA-


cio Lauro Sodr6, mas outros acham que ha um
acerto entire Jader, Jarbas e Almir para uma compo-
sigio que garantiria a cada um deles fatia do poder
(Jader como senador, Jarbas indicando o vice e Al-
mir como governador), impondo esse arranjo a
Gueiros ou marginalizando-o (daf a preocupagio do
ministry da Previd6ncia Social de criar alternatives
em outros partidos).

De qualquer maneira, o efeito da candidature
do senador paraense A vice-presidencia da Repdbli-
ca foi precipitar os esquemas para 1990. A adesio
de Almir deveri contribuir para a definigio do per-
fil de Mario Covas, que continue insistindo no ca-
minho que levou A fracassada incorporagio do ex-
governador de Pernambuco, Roberto Magalhies,
mas forgara os contendores a mostrar suas armas e
o pr6prio Almir a provar se tem armadura pr6pria.


0 candidate em campanha


Henry Kayath nio confirm, mas seus atos
mostram que ele esta em campanha para ser o can-
didato official A sucessio do governador Helio Guei-
ros. Em uma semana ele foi duas vezes a television
(RBA e TV Cultura) e insistiu na image de injus-
tiga, em dose dupla. A primeira injustiga teria ocor-
rido ao ser quando pelo Ato Institucional n 1. A
segunda, ao ser afastado da superintendencia da
Sudam sem poder defender-se e por um ato rastei-
ro do ministry Joio Alves, que nio aceitou a Sudam
ultrapassar a Sudene, onde ter seu curral.
Al6m disso, Kayath anunciou o que pretend
que seja uma revisAo hist6rica, revelando que sua
indicagio para a Sudam resultou de um acordo de
todos os governadores e polfticos do PMDB e nio
de uma iniciativa pessoal do entio governador Jader
Barbalho. Completou ainda cor a proclamagio de
que a lideranca polftica de direito no Para 6, hoje,
do governador Hl6io Gueiros e nio do atual minis-
tro da Previdencia Social. Assim, quem Helio
apontar como candiadato ao governor teria que ser
aceito pelos demais.
A Ansia de chegar a essas conclus6es faz Ka-
yath atropelar os fatos, pratica comum na polftica
do extinto PSD. O entio secretfrio da Fazenda nio
foi cassado pelo AI-1, como ele diz e nio confirm
o pr6prio texto do ato de arbftrio baixado pelo ma-
rechal Castelo Branco, que deveria ser dnico e aca-
bou engedrando uma s6rie de atos semelhantes em
sucessivos governor militares.
Tambdm nao 6 verdade que o m6dico tenha
atravessado os anos seguintes como um dos centros
de resist6ncia ao autoritarismo desencadeado pelo
movimento military de 1964: ao contrfrio, passou a
dedicar-se B sua atividade professional de medico,
limitando sua suposta militancia polftica a uma as-
sessoria informal ao ndcleo do PSD que criou o
MDB e mant6m-se no PMDB, mas sem participagio
ativa, ostensiva ou que pudesse ser considerada fo-
co de resist6ncia (como a que outros lfderes pesse-
distas assumiram). Ademais, a punigio de Kayath
foi instrufda, pela CIS (Comissio de Investigagio


SumBria, subproduto da Comissio Geral de Investi-
gag6es), cor base em irregularidades administrati-
vos e enriquecimento ilfcito, mas nio em atuagio
polftica subversive, a etiqueta afixada nos inimigos
do novo regime que se implantava.
Para os jornalistas que o ouviam fazer a "revi-
sio hist6rica" sobre sua indicagio, Kayath obser-
you que nio havia feito antes a retificacio porque
nenhum reporter ate entio lhe fizera a pergunta
certa. No entanto, muitas reportagens foram publi-
cadas apontando a origem solitdria da indicacao de
Kayath e ele, na epoca aliado a Jader, nao se preo-
cupou em report a "verdade dos fatos". E claro que
os governadores Nabor Junior e Gilberto Mestrinho
ratificaram o apadrinhamento de Jader a Kayath,
mas tamb6m b inegivel que o aval seria dado se o
entio governador do Para sugerisse qualquer outro
nome para o cargo. Assim, nio ha como Kayath ne-
gar a origem de seu retorno a fungio pdblica: foi
superintendent porque Jader assim o quis.
Tentar refazer a hist6ria, ao menos na recons-
tituigio da narrative, encaixa-se nas inteng6es que
Kayath agora ter. Se suas possibilidades de candi-
dato a candidate ao governor haviam sido abaladas
pelo afastamento da Sudam, em cuja administration
recomegou a montar um s6lido esquema empresarial
- eleitoral (que fez do filho, ne6fito em polftica, o
deputado estadual mais votado do Pard), o ex-se-
cretario, com toda a sua argdcia, quer aproveitar-se
do fato adverse, vestindo a roupa de injustigado, da
vftima que tanto sensibiliza a opiniio pdblica. Ao
remexer no passado, pordm, ele tambem di oportu-
nidade a que outros e nio apenas ele fagam uma
revisao diferente e o pr6prio povo tenha a opor-
tunidade de verificar onde esta a verdade.

Um journal do leitor
Circulando apenas entire assinantes, o JORNAL
PESSOAL depend dnica e exclusivamente deles, ji
que nio ter publicidade. Por isso, 6 important que
os assinantes mantenham-se atentos em relaqio ao
journal.









A geopolitica vesga


A Saden (Secretaria de Assessoramento da De-
fesa Nacional), um 6rgio do Executivo cuja sobre-
vivencia ainda depend de deliberaaio da Camara
dos Deputados, passou a gerenciar supervisionan-
do 13 minist6rios 13% do territdrio brasileiro. A
Saden, que foi criada pelo governor Sarney em
substituigio ao Conselho de Seguranga Nacional,
extinto pelos constituintes, coordena dois projetos
que abrangem toda a faixa de fronteiras da Amaz6-
nia, cor 10.222 quil6metros de extensio e um mi-
lhio de km2 de Area, do Amapa ao Mato Grosso,
num vasto arco que toca em sete pafses fronteirigos,
tamb6m eles integrantes da Amaz6nia latino-ameri-
cana.
O projeto Calha Norte, de 1985, e o Programa
de Desenvolvimento da Faixa de Fronteira da Ama-
z6nia Ocidental, de abril deste ano, foram incorpo-
rados a Saden justamente no moment em que o
chefe da secretariat, general Bayma Denys, movi-
mentava-se nos bastidores do parlamento para ga-
rantir a aprovagio do projeto regulamentando o
funcionamento do 6rgio. Sua existencia 6 bastante
polemica: apenas uma semana antes da promulgagio
da nova Constituigio, que acabou cor o antigo
Conselho de Seguranga Nacional, o governor criou a
Saden, praticamente a mesma estrutura anterior corn
outro nome.
Teoricamente, o CSN era formado pelo con-
junto dos minitros com o president da Repdblica,
mas, nessa condicgo, ele se reunia raramente (ape-
nas duas vezes na atual administragio; e para tomar
conhecimento das cassag6es, no infcio dos governor
militares). O que funcionava na prAtica era a se-
cretaria-geral, comandada pelo chefe do Gabinete
Military, subordinado diretamente A presidencia. O
mesmo esquema foi mantido na Saden.
Aos poucos o CSN foi se agigantando. A Sa-
den conta cor 627 funcionarios, um quadro de pes-
soal tries vezes maior do que o da Procuradoria-Ge-
ral da Fazenda Nacional em todo o pais, responsi-
vel pela defesa da Uniao em 200 mil ages, como
lembrou o Relat6rio Reservado. A perman&ncia da
Saden garantiria esse ponto de influencia military
dentro do governor e o poder do chefe do Gabinete
Military, que ter status de ministry.
Mesmo ameagada, ou justamente por isso, a
Saden como o conselho que a antecedeu conti-
nuou a incorporar funq6es e ampliou sua poderosa
influencia sobre os destinos da regiao amaz6nica.
Conseguiu at6 mesmo tornar-se o "6rgio central"
do sistema de monitoramento dos recursos naturais
e do meio ambiente por sat6lite, criado em junho,
quando o 16gico seria escolher uma instituigio afim,
como o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espa-
ciais), a Embrapa ou mesmo a Sudam. Prevaleceu,
no entanto, a concepcto geopolftica por tras das
ages do governor em relagio i utilizagio da Ama-
z6nia.
Todos os circuitos de ligagto entire a fronteira
e o centro decis6rio passavam pelas subchefias do


CSN (como da Saden, agora), principalmente a 5%,
dedicada is quest6es de fronteiras, fundigrias e in-
dfgenas. Foi ela que concebeu a lei sobre a discri-
minat6ria de terras da Uniio, influfa sobre o Incra,
produzia relat6rios de conflitos, orientava a atuacio
polftica do governor e inspirava a maioria de suas
iniciativas administrativas. Fiel a essa tradigio, a
Saden esteve por tras do Programa Nossa Natuteza,
adotando os velhos m6todos do CSN: colocar equi-
pes t6cnicas para, trabalhando sob pressao, produzir
documents sigilosos, transformados em programs
ou projetos no dia do andncio ao pdblico, apanhado
de surpresa por fatos consumados.

0 olho geopolitico
Passando a ser o principal conselheiro do go-
verno em quest6es amaz6nicas, o CSN transformou
a ocupagio da fronteira num ato de nftida inspira-
g&o geopolftica. Era precise preencher os espacos
vazios cor atividades capazes de assegurar a inte-
gragio da regiao ao conjunto econ6mico formado
pelo pafs e seus parceiros, fazendo a Amaz6nia
complementary a miquina de produgio que forjart o
Brasil Grande. Os elements nativos regionais, co-
mo floresta, caboclos e fndios, nio seo capazes de
assegurar a seguranga national.
O Calha Norte se adapta harmoniosamente a
essa moldura. Seu pressuposto 6 de que as frontei-
ras brasileiras na Amaz6nia se acham ameagadas
por movimentos guerrilheiros (do M-19 e do Sende-
ro Luminoso) ou pelo narcotrifico. Ao mesmo tem-
po, nio sao linhas divis6rias rfgidas, flutuando de
acordo cor a movimentagto dos grupos indfgenas
(cuja existencia precede a demilitagio das frontei-
ras dos atuais pafses da regiio). Esse vai-e-vem se-
ria um element de perturbagAo da seguranga nacio-
nal.
A visAo 6 tio pouco realist quanto o temor, da
d6cada de 70, de que os cubanos invadiriam Rorai-
ma atrav6s da Guiana. Os geopolfticos que dissemi-
naram essa ameaga ignoravam completamente a
formagAo hist6rica dessa area e o papel de equilf-
brio exercido pelo Brasil, capaz de evitar uma inva-
slo venezuelana em territ6rio guianense e, por isso
mesmo, imunizante contra a possfvel intermediagao
do antigo protetorado ingles num piano cubano de
invasAo do Brasil (e para que?).
A garantia das fronteiras contra eventuais
ameagas poderia, no caso do trifico de drogas, ser
mais eficientemente obtida atrav6s de sat6lite do
que cor base em terra. As sempre noticiadas incur-
s6es do M-19 colombiano ou do Sendero Luminoso
peruano nao passam de acidentes, events isolados.
A insensatez desses movimentos nio os levaria a
ponto de envolver-se cor dois ex6rcitos nacionais.
Ainda assim, nada haveria a opor (a nao ser preo-
cupag6es orgamentirias) a construgao de mais cam-
pos de pouso e instalagao de pelot6es de fronteira.
Podia-se aceiti-los como produtos de um program
preventive de seguranga, ainda que exagerado.







A frente selvagem

Mas o principal produto da Calha Norte nio
foi a reduglo do narcotrafico ou o estancamento da
guerrilha e sim a ampliagio do conflito nas areas
dos fndios Yanomami, invadidas por 50 mil garim-
peiros. Raramente p6de-se testemunhar um process
de ocupag o tao selvagem, tAo propfcio a manipula-
96es que se beneficiam do antagonismo primitive
que surge quando homes incentivados pela ambi-
gio da riqueza facil jogam-se contra outros homes
incapazes cultural e tecnologicamente de opor
qualquer tipo de resist6ncia que Ihes garanta a so-
brevivencia. Criou-se um caldo de cultural tio ex-
plosivo que o dnico beneficidrio 6 quem estf fora
dele, atigando-o simplesmente para colher os resul-
tados.


Os militares que conceberam e executam o
Calha Norte, como, agora, o Proffao, talvez acre-
ditem que podem isolar um program de obras res-
trito da avalanche de irracionalidade que se expan-
de pela Amaz6nia. Traduzido em ndmeros, final, o
Calha Norte 6 pouco expressive. Mais important
do que as obras realizadas, no entanto, 6 o aval que
esse tipo de empreendimento dA & repetigio, na area
de fronteiras, do process especulativo sob o qual a
Amaz6nia central vem sendo saqueada. Como os
avalizadores desses programs podem garantir re-
sultado diferente se nao disp6em das minimas con-
dig6es para ordenar a ocupacio das novas Areas, se
o ritmo da expansion ffsica nio 6 nem de long
acompanhado pela criaqao dos instruments capazes
de orienta-la? Se ha realmente boa inteniAo nessa
investida, o resultado nio poderia ser mais contra-
dit6rio do que e em relagio a tais prop6sitos.


A liSgo de nao fazer


Reportagem de pdgina inteira no Jornal do
Brasil do dia 6 procura demonstrar que ja 6 possfvel
ter lucro cor a exploragio de plantios homogeneos
no territ6rio da heterogenea floresta tropical ama-
z6nica. A faganha, relata o reporter Ricardo Arnt,
foi realizada pela Jari, que neste ano conseguira,
depois de 21 anos de prejufzos, seu primeiro lucro
operacional de 80,6 milh6es de d6lares. Para esse
sucesso, contribuigio decisive da uma nova esp6cie
de drvore que a empresa esta plantando, o encalipto
urograndis, sinalizador "de um novo future econ6-
mico para a Amaz6nia".
O entusiasmo que a mat6ria transmite talvez s6
possa sustentar-se em observag6es feitas sem maior
aprofundamento, ou sem considerar alguns elemen-
tos hist6ricos que tornam dnico o plantio de 93 mil
hectares formado pela Jari, incapacitando-o como
modelo silvicultural ou mesmo agroindustrial a ser
seguido na Amaz6nia. Daniel Ludwig comegou a
former essa floresta quando ja estava cor 70 anos
de idade e nao tinha tempo a perder na produgao de
conhecimento satisfat6rio sobre como intervir na
drea. Partiu para o ensaio e erro, m6todo que sua
experiencia desastrosa teve o m6rito de eliminar em
empreendimentos de maior porte que nao queiram
condenar-se ao fracasso, ou nao consigam transferi-
lo para os largos costados do governor.
Todo o plantio buscou remediar o erro basico
que Ludwig cometeu: acreditar que a gmelina arbo-
rea poderia dar-se tao bem na Amaz6nia quanto em
seu ambiente asiatico native. Isso nAo ocorreu e a
partir de entio foi precise reduzir progressivamente
a participaAio da gmelina (hoje de 30%) e converter
as dreas onde ela nAo deu certo, fazendo no curso
do investimento o que deveria ter sido feito antes,
para orienta-lo e, assim, minimizar os custos nio
s6 os econ6micos, os dnicos que costumam ser
computados, mas tambem os danos ambientais.

Um custo elevado
Por falta de acesso a dados que s6 a empresa
possui, nio se pode quantificar o valor dos prejuf-


zos que a Jari teve por conta desses erros do empi-
rismo de Ludwig, adotado em fungio do conflito
entire seus pianos de long maturagio e sua contin-
gencia pessoal de press. Mas a apropriacao do
custo final mostra que Ludwig teria sucumbido sob
o peso de seus pr6prios erros se nio tivesse tido a
providencial ajuda do Estado brasileiro presente
em doses generosas ao long do percurso do milio-
nario norte-americano na montagem de seu imp6rio
amaz6nico).
A pregos de abril, o investimento na floresta -
direto e indireto somava quase 145 milh6es de
cruzados novos, o que di NCz$ 1,5 mil por hectare
se se consider todos os 93 mil hectares que foram
cortados para a formagio do novo plantio. Mas se a
base de calculo forem apenas os 62 mil hectares em
produgio, a m6dia sobe para NCz$ 2,3 mil. Para
converter os outros 31 mil hectares (dos quais
3.500 ha. de novas Areas), a Jari vai gastar mais
NCz$ 82 milh6es (2,6 mil por ha.), somando entio
as imobilizag6es quase 230 milh6es de cruzados pa-
ra que o plantio esteja em condiq6es de suportar a
demand da fabrica de celulose. Isso 6 apenas imo-
bilizagfo, excluindo o custo operacional exigido
para que a madeira plantada chegue ao patio da fa-
brica.
Ndmeros assim nio aparecem na reportagem do
JB, mas eles sAo essenciais para definir se uma ou-
tra empresa privada, que nao tivesse tio pesada
colaboraqio dos cofres p6blicos, suportaria tais
custos. Visto de outra 6tica, o problema admite di-
versas formulag6es. Por exemplo: pode-se ter espe-
ranga de sucesso numa conversagio florestal na
Amaz6nia que se realize sem intensas e demoradas
pesquisas pr6vias? E melhor fazer logo a homoge-
neizagio de esp6cie, cor um tipo de drvore de de-
monstrado valor commercial, ou a opcgo certa 6 pri-
meiro inventariar e estudar as esp6cies nativas, in-
clusive revelando alguma nova de potential comer-
cial, e s6 entao definir a atividade? Pode-se partir
para o grande empreendimento que alterard as con-
dig6es naturals da floresta em escala significativa
ou 6 indispensavel ter antes um laborat6rio?







O povo brasileiro, compulsoriamente (gragas
aos poderes ditatoriais que o Executivo controla,
esta pagando pelo ensaio e erro de Ludwig, que ne-
nhum empreendimento s6rio privado ou estatal -
podera adotar novamente como crit6rio de investi-
mento commercial. Afinal, Ludwig s6 deixou liq6es
negatives, que acabario sendo dteis ao conheci-
mento da Amaz6nia e seu uso econ6mico, mas, al6m
de serem muito cars, estao sendo apropriadas ape-
nas por um pequeno grupo.

A floresta homogenea e ex6tica do Jari teria
sido um sucesso se rma esp6cie tropical nova, de
desempenho superior ao das competidoras conven-
cionais, tivesse dado certo. Mas Ludwig teve que
recorrer a esp6cies convencionais, o pinho e o eu-
calipto. Logo, perdeu vantagem comparative. A re-
portagem de Ricardo Arnt tece loas a uma variedade
desse eucalipto tropical, mas ela comegou a ser
plantada comercialmente apenas em 1982 e os eu-
caliptos ocupam somente 30% do plantio da Jari.


Ainda 6 cedo para considerar definitivos resultados
transit6rios. O mais important, por6m, 6 o percurso
que levou a essa floresta.
Sua hist6ria mostra que ela nao ter efeito
multiplicador: sera primeira e dnica, justamente por
ter ensinado como nao fazer, liqio que Ludwig
deixou cristalina em outros empreendimentos na
Area, como no projeto de former floresta energ6tica
ou no plantio de arroz, melancolicamente vendido a
um grupo local para ser convertido em ponto turfs-
tico e criat6rio de peixe (de viabilidade sujeita a
questionamento). Sobre como fazer, Ludwig prati-
camente nAo deixou lig6es e, por isso, soa falso o
tom que o JB da a experi6ncia, como se pretendesse
induzir a formagio de novos plantios homog6neos
ex6ticos, no exato moment em que outros Ludwigs
tupiniquins querem queimar a rica floresta native,
que o miliondrio norte-americano desprezou, para
fazer carvio para primitivas guseiras, sob a alega-
gio future de que se plantara depois Arvore mais
dtil. Quem quiser que acredite: sera iludido.


Entre o ceu e a terra


Pela primeira vez a safra de fogo na Amaz6nia,
que comegou no verio retardado de julho-agosto
cor a queima de floresta para formagio de cultivos
agropecudrios, vai ser acompanhada simultanea-
mente e cor redobrada atengio. O principal "olhei-
ro" estara a 800 quil6metros de distAncia da Terra,
registrando o surgimento de pontos de fogo e a alte-
ragio da cobertura vegetal primitive. Sio os satl6i-
tes norte-americanos NOAA-9 (especializado em
meteorologia) e Landsat (voltado para recursos na-
turais).
At6 o ano passado as informag6es que esses
sat6lites transmitiam de volta & Terra eram usadas
remissivamente, em andlises realizadas "a posterio-
ri" sobre situa6des de fato ja criadas. Serviam para
incrementar o martirioldgico sobre a devastaaio da
Amaz6nia, mas nio tinham efeito pratico. Agora, o
governor pretend utilizar os dados do satdlite como
ferramenta capaz de center a progressio dos inc6n-
dios anuais que encurtam cada vez mais a superffcie
florestada da Amaz6nia e a possibilidade de dar-lhe
um aproveitamento mais racional e rentavel.
Gragas a essa ofensiva, o director de sensoria-
mento remote do Inpe (Instituto Nacional de Pes-
quisas Espaciais, baseado em Sio Jos6 dos Campos,
Sao Paulo) prev6 uma safra de fogo reduzida de
50% em relagio ao ano passado, embora, em terms
absolutos, os 21 mil quil6metros quadrados de
queimadas que ele otimistimamente espera corres-
pondam ao territ6rio de Sergipe inteiro, posto abai-
xo sem qualquer crit6rio que nao o da press e do
lucro imediato.
Essa expectativa relativamente favoravel (aju-
dada pelo prolongamento das chuvas), se de fato
ocorrer, poderia ser creditada a uma postura mais
conseqiiente do governor ou teria que ser atribufda &
grave crise econ6mica em boa part alimentada por
Brasflia? A ddvida ter sua procedencia, mas ha
uma outra questio especifica capaz de explicar o


ceticismo em relagio a posigio assumida pelo go-
verno depois que instituig6es internacionais, como
o Banco Mundial, passaram, a interferir sobre a
question ecol6gica na Amaz6nia.
Justamente por causa dessa pressro, que reper-
cute sobre o fluxo de caixa entire os banqueiros e o
governor brasileiro, a administragao federal forcou o
Inpe a apresentar, em 15 dias, um relat6rio sobre
queimadas que retocava em tons mais r6seos o ne-
gro retrato ate entio montado pelo institute com ba-
se em imagens de satdlite. Ate 1987, os relat6rios
sobre o fogo na Amaz6nia safam cinco ou seis me-
ses ap6s o final de ano, ji no exercfcio seguinte. O
atraso devia-se tanto A complexidade tecnica do
trabalho em si, como a falta de recursos para tor-
na-lo mais expedite. Sem haver qualquer alteragio
nessas duas condig6es, o Inpe apresentou o relat6-
rio referente a 1988, cobrado pelo governor, so final
de apenas duas semanas.
Previsivelmente, o resultado desse trabalho foi
recebido com redobradas reserves e suspeig6es. Se
antes, pela falta de apoio do pr6prio governor que o
mant6m, o Inpe nio conseguia ser suficientemente
rapido para dar um sentido pritico a esses levanta-
mentos, agora punha em risco a credibilidade das
fotointerpretag6es de imagens de satdlite, transfor-
madas em instruments de justificagio ou, o que se-
ria pior, gazuas para abrir caminhos obstrufdos pela
reagio mundial ao que ocorre na Amaz6nia. Nao
espanta que a controversial desencadeada a partir de
entio, cor a renovario de restrig6es metodol6gica
que antes j4 haviam sido apresentadas e o apareci-
mento de novos arguments, tenha crescido, lavran-
do inclusive dentro do Inpe, onde ha t6cnicos preo-
cupados tanto cor a ameaga de cortes que pesvam
sobre o institute (punigio pelo passado), como cor
o comprometimento de un nome tao arduamente
construfdo.







Burocratas estabelecidos em Brasflia talvez
acreditem que o grave problema da destruicio dos
recursos da Amaz6nia antes que exist o mais ele-
mentar inventirio de suas riquezas pode ser resol-
vido simplesmente cor retoques ou atrav6s de in-
vestidas de significado muito mais publicitario e
propagandfstico, como a inspegio efetuada nas
eas de um jatinho executive recentemente reali-
zada pelo president do Ibama, o institute que cuida
da ecologia em nome do governor.
Fernando Cesar Mesquita promete dar efeito
imediato as informag6es recebidas do satilite, des-
pachando equipes na diregio dos pontos de fogo
detectados com a mesma instantaneidade das equi-
pes similares que aparecem nos seriados de televi-
sao. Mas que f6 conferir a promessas de um gover-
no literalmente no fim? E como transmitir a eficacia
dos satdlites aos fiscais de campo do Ibama, que
entraram em greve para ir al6m do miserivel salario
de 270 cruzados novos por m6s? Apreciado do dis-
tante e refrigerado gabinete de Brasilia, o fogo que
arde na Amaz6nia nio ter uma mil6sima parte da
intensidade real.
A hist6ria dos inc6ndios na Amaz6nia confirm
a velha hist6ria shakespeareana de que entire o c6u
e a terra ha mais do que pode imaginar a vi filoso-
fia e certamente sua mat6ria nio e metaffsica.


Sudam: busca

das provas

'H4 quase um ano o ministdrio do Interior in-
vestiga a administration do m6dico Henry Kayath na
Sudam, mas ainda nio parece ter conseguido reunir
provas para documentary as acusag6es que o ministry
Joao Alves tem repassado informalmente, em Brasf-
lia, a polfticos e jornalistas que frequentam seu es-
crit6rio. Ao final de 60 dias de trabalho, uma co-
misslo de sindicancia produziu um relat6rio confu-
so e imprecise, sem comprovar as considerag6es
gen6ricas e os jufzos de valor usados contra Kaya-
th. JA a comissio de inqu6rito teve seu prazo de
atuagio duas vezes prorrogado e um de seus tres
membros substitufdo, mas nio parece ter avangado
ate um ponto de ataque mais seguro.
A comissio se isolou numa sala do pr6dio da
Sudam, em Beldm, onde se limit a consultar docu-
mentos, sem ouvir testemunhas. Mas um ex-membro
da comissio anterior, que fez a sindicincia e repre-
senta o minist6rio no Conselho Deliberativo da Su-
perintendencia, decidiu fazer investigag6es atras de
provas sobre o enriquecimento ilfcito do superin-
tendente afastado e de seus parents.
Numa caminhonete D-20 da Sudam e com dois
acompanhantes, Roque Santos foi a Fazenda Bada-
wary, um projeto agropecuirio da famflia Kayath
aprovado pela Sudam no final da administration an-
terior, de Elias Sefer, e que teve seu certificado de
implantagio emitido pelo pr6prio Kayath. A Bada-
wary forma com duas outras fazendas (Agrotal e
Trindade) um conjunto de terras dos Kayath em Be-


nevides, as proAmidades de Bel6m. Segundo de-
poimento de um funciondrio da Fazenda, os tries
entraram armados e Roque fez virias fotografias da
propriedade, retirando-se em seguida. A queixa i
polfcia foi dada no dia 3, alguns dias depois da
visitta, por um dos sobrinhos do superintendent,
Ely Salim Kayath.
Os jornais noticiaram que Roque teria sido
preso e levado para uma delegacia. Uma das notf-
cias acusou-o de comandar invasores de terras. Na-
da disso ocorreu: Ely apresentou queixa estranhan-
do que Santos estivesse fazendo inspecio para a
Sudam porque a famflia nio possui, no moment,
qualquer projeto beneficiado pelos incentives fis-
cais. Ely pediu para notificar o president de co-
missio de inqudrito, Jose Vieira, para que ele in-
formasse sobre a situagio de Roque Santos. E mais
um lance de guerra de nerves que os dois lados es-
tio travando.

A nova ilusao
As empresas da Zona Franca de Manaus fatu-
ram cinco d61ares para cada d61ar de incentive que
recebem do governor. A proporgio ate seria boa se
as importag~es autorizadas resultassem em exporta-
glo, mas a parcel das vendas ao exterior 6 pequena
comparada ao que faturam as montadoras estrangei-
ras no mercado interno brasileiro. A ZF continue,
assim, enquadrada no modelo de um cavalo de Tr6ia
sofisticado, uma alta dose de narc6tico da qual a
economic amazonense ficou profundamente depen-
dente.
Segundo a pr6pria Suframa, 80% da economic
do Amazonas depend da Zona Franca, que, para
continuar funcionando, precisari neste ano de uma
cota de importag6es de 1,2 bilhao de d61ares. Quase
um bilhio de dl6ares foram consumidos somente no
primeiro semestre, o que significa que todo o saldo
commercial da Amaz6nia serve para financial a Zona
Franca. Os amazonenses, mantidos no abandon e
no esquecimento durante d6cadas, devem achar que
esse 6 o preso mfnimo que a Nag~o deve pagar para
remir o passado, mas novamente estlo ameagados
de viver uma ilusio e acordar num impasse, como
na epoca da borracha.

Encomenda direta
A Secretaria de Transportes do Estado nio
realizou concorr6ncia pdblica para a construaio de
uma balsa que fari a ligagio entire Icoaraci e Cama-
ri, na ilha de Maraj6. A encomenda foi feita dire-
tamente a Ebal (Estaleiros da Bacia Amaz6nica),
segundo fontes nio oficiais por 2,1 milh6es de cru-
zados. A balsa atenderd a uma grande necessidade
dos usudrios dessa linha, precariamente servidos
por uma velha balsa do DER, mas nem a relevAncia
do servigo justificaria a dispensa de concorrencia,
quando nada por um crit6rio de cautela: o director
t6cnico da Ebal 6 o filho do governador, Andr6
Gueiros. Um projeto da Ebal foi retirado da pauta
do Conselho Deliberative da Sudam por iniciativa
do representante do Minist6rio do Interior, que ale-
gou favorecimento a empresa em fungio justamente
da presenga de Andre.








A morte e a morte

de Jair Bernardino
A morte do empreshrio Jair Bernardino de
Souza provocou um grande impact na opiniao pd-
blica paraense nio s6 pelas circunstancias do aci-
dente que o vitimou, com a queda de seu jatinho
executive a apenas tres minutes da cabeceira da
pista do aeroporto de Bel6m, em circunstancias ain-
da nio esclarecidas pela perfcia, mas pelo moment
mesmo em que ocorreu. Aos 44 anos, depois de as-
sumir o tftulo de "o home mais rico do Parl",
Bernardino estava expandindo seu imp6rio e tor-
nando-se mais poderoso.
No terreno dos neg6cios, ele estava tratando
de passar em frente seu projeto siderdrgico em Ma-
raba, exatamente o contrario do que anunciava.
Aparentemente, a Simara queria comprar a Cosipar,
algo como a lagartixa engolir o jacar6. Na verdade,
Jair preparava uma transagio semelhante a que o
fez vender sua pequena Tropigas ao grupo Edson
Queiroz, o maior distribuidor de gas liquefeito de
petr61eo no Norte e Nordeste. A Simara esta para a
Cosipar como a Tropigis estava para a Paragas, e a
ocasiao 6 oportuna para um neg6cio se as duas
parties quiserem.
Bernardino estava interessado em neg6cios que
rendessem tanto dinheiro quanto prestfgio. Foi
combinando essas inteng6es que ele fez um despro-
porcional investimento (oficialmente, cinco milh6es
de d6lares) para montar a mais sofisticada emissora
de television da Amaz6nia, cor a programagio da
TV Manchete, a terceira em audiencia no mercado
local. A TV RBA era uma das duas dnicas empre-
sas, num conglomerado de 32, a operar no vermelho
- e com vermelhfssimo prejufzo (o "deficit" da ou-
tra, a Ciatur, do setor de turismo, era pequeno).
Mas a TV estava nos pianos de poder de Jair, que
finalizava o projeto de um journal diirio, que acre-
ditava poder implantar no prazo de tr6s meses.
O empres&rio ja estava montando uma poderosa
estrutura de informag6es para influir ainda mais de-
cisivamente sobre as eleig6es. Cor muita habilida-
de, ele recomp6s-se politicamente cor o prefeito de
Bel6m, Sahid Xerfan, embora tivesse sido o maior
financiador da campanha do adversirio de Xerfan, o
peemedebista Fernando Velasco. Bernardino ja era
o maior prestador de servigos da prefeitura, seis
meses ap6s a posse de Xerfan. E tambdm cuidava da
mission que o ministry Jader Barbalho lhe delegara:
organizer o esquema financeiro para a campanha de
retorno de Barbalho ao governor do Para, em 1990,
ao menos como primeira estrat6gia.
Esses e outros pianos personalfssimos podem
nio prosperar, mesmo que os neg6cios do grupo
Belauto sobrevivam ao desaparecimento do home
que Ihes deu uma marca pr6pria. Profissionalizan-
do-se, o grupo cor patrim6nio de 100 milh6es de
ddlares pode continuar a ser uma usina de neg6-
cios, mas nio uma fonte de poder, a combinagio
que dependia de Jair Bernardino e pode ter morrido
cor ele, alterando a divisio das esferas de influ6n-
cia no Estado.


Pelos canais
0 ministry Jader Barbalho ganhou do presi-
dente Jos6 Sarney seu segundo canal de television
no Para. Depois de receber a concessAo do canal
10, em Belem, Jader ficou cor o canal 2, em Mara-
bi. Esse canal pertencia, a tftulo prectrio, ao Sis-
tema Romulo Maiorana de Comunicag6es, que atra-
v6s dele operava uma emissora retransmissora. Ape-
sar de situar-se numa faixa tecnicamente pouco
atraente (d muito baixa), esse foi justamente o canal
para o qual o ex-governador pediu a realizaqAo de
concorrencia e a venceu. O grupo Liberal ji esta
tratando de providenciar licitaigo para o outro ca-
nal disponfvel, o oito. O ministry ainda nio come-
gou a montar a estagio a que tem direito na capital.
Mas ele disporia de outras concess6es para radio
e televisio, atrav6s de intermediArios, como os de-
putados federal Arnaldo Moraes Filho e Domingos
Juvenil.
O empresario Joaquim Pereira conseguiu assu-
mir o inteiro control da TV Tapaj6s, de Santarem,
que antes dividia cor Paulo Correa numa sociedade
conflituosa. Tamb6m obteve a prorrogagio do con-
trato cor a TV Globo, mantendo-se na rede. Mas o
grupo Liberal continue montando sua emissora por-
que essa renovagio seria por mais nove meses ape-
nas, a contar de agosto. Depois, a Liberal ficaria
com o contrato, embora nio disponha de uma esta-
gAo geradora, como a de Joaquim Pereira.

Voz sem autoridade
No dia 29 de agosto do ano passado o presi-
dente Jose Sarney dirigiu um memorando circular
reservado a todos os ministros pedindo-lhes que,
quando nio pudessem comparecer a reunites de
colegiados dos quais participassem, se fizessem re-
presentar pelo secretirio-geral do minist6rio ou seu
chefe de gabinete. 0 president queria que a repre-
sentagio pudesse "expressar a orientagio governa-
mental de maneira uniforme. A recomendagio re-
sultara da constataqgo de que nas reunites da Sude-
ne, Sudam e outros colegiados apareciam "diver-
gencias internal do governor, com opini6es contra-
dit6rias sobre polfticas adotadas pelo Executivo".
O memorando, "de carter pessoal e reserva-
do", esta completando um ano e nio foi seguido: os
ministros nio comparecem as reunites, nio mandam
os representantes exigidos pelo president e conti-
nuam a exibir as enormes fendas que eA stem no
governor e que nio podem ser tapadas cor papel,
principalmente se o carimbo que Ihe da valor official
nio imp6e respeito.


Journal Pessoal

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