Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00038

Full Text






ornal Pessoal
SLucio Flavio Pinto


Ano II N2 45


Circula apenas entire assinantes


18 Quinzena de Agosto de 1989


SUDAM


Guerrinha de grupos

0 vale-tudo que o ministerio do Interior trava contra
o governor do Para e inedito, mas o objetivo 6 muito velho.
Nessa luta, o que valem mesmo sao os meios, um
maquiavelismo desnaturado que caracteriza a Reptblica.


N enhuma Repdblica foi mais maquiav6lica (no
sentido vulgar da expressio) como a atual.
Para ela, todos os meios se justificam pelos
fins, mas, ao contrArio do que pregava Ma-
quiavel, os objetivos que se busca alcangar slo pes-
soais: pouco tem a ver cor o interesse pdblico.
A observacio se aplica A guerra de guerrillas
que o governor do Pard e o minist6rio do Interior
travam em torno da Sudam. 0 superintendent foi
colocado no cargo, no crepdsculo do governor mili-
tar, por indicagio do entio governador Jader Bar-
balho. Quando a atuacgo do m6dico Henry Kayath
desagradou seu padrinho, Jader lavou as mios e
entregou a cabega do antigo aliado ao ministry Joio


Alves, interessado em corta-la por causa de seus
interesses regionalistas fincados no Nordeste, que
estavam sendo contrariados.
Desprestigiado pelo superior hierkrquico e
hostilizado pelo ex-padrinho, Kayath resistiu meses
no cargo por causa do empenho pessoal do gover-
nador Hdlio Gueiros junto ao president Jos6 Sar-
ney. Mas Sarney tambem passou a incomodar-se
cor a presenga do superintendent e aceitou sacri-
fici-lo, s6 que A sua maneira: para nio atritar-se
cor o governador, a quem prometera fazer comuni-
caqio pr6via se o superintendent tivesse que ser
afastado, mandou o ministry do Interior afastar Ka-
yath, former uma comissio de inqudrito para apurar









irregularidades por ele cometidas na Sudam e de-
signar um interventor para o cargo, criando uma
situagio inddita na hist6ria da instituigio (que sur-
giu justamente de uma intervengio seguida de ex-
tingio de sua antecessora, a SPVEA). E tudo de
surpresa, para prevenir reag6es.
A titica escapista do president da Repdblica
daria a arma de que agora se utiliza o governador
H6lio Gueiros, visivelmente orientado por Kayath,
para dar o troco. Atravds de seu secretirio de Pla-
nejamento, o governador conseguiu obstruir a festi-
va reniio que a Sudam organizara para realizar em
Manaus, cor a presenga pela primeira vez do
ministry Joio Alves. O secretArio Amilcar Tupiassu
pediu vistas de todos os processes, obrigando o go-
vernador do Amazonas, Amazonino Mendes, a sus-
pen a sessio, irritado.
Ao apresentar seu voto, Tupiassu argumentou
que todos os atos praticados pelo superintendent
interino, general Roberto Klein, poderiam ser con-
siderados nulos. Fora designado por uma portaria
do ministry do Interior para substituir o titular do
cargo, que havia sido nomeado atrav6s de decreto
do president da Repdblica. Para livrar-se da res-
ponsabilidade, Sarney colocara A frente desse ato
seu ministry, mas cometera um erro processual ad-
ministrativo, que tentara corrigir duas vezes.. A dl-
tima retificagao fora efetuada no dia 25 de julho,
quando um decreto do president manteve o afasta-
mento de Kayath e a interinidade de Klein ate a
conclusao dos trabalhos da comissio de inquerito,
que recebeu novo prazo de 60 dias, ap6s ter consu-
mido os 90 iniciais (e mudando um de seus mem-
bros, justamente o presidente.
No seu voto, Tupiassu sustenta que a irregula-
ridade persiste porque a portaria original do minis-
tro Jolo Alves, por ser nula, nio pode ser corrigida
("convalidada", conforme o jargio jurfdico). Nem
a delegagio do president ao ministry poderia co-
brir essa falha porque Joao Alves, ainda que exer-
cendo sua compet6ncia, anulou ato anterior de seu
superior hierdrquico.
A tese tem seu fascfnio e talvez por isso, tanto
para atrair-lhe ades6es t6cnicas, como para criar um
fato politico, o governor do Estado mandou publi-
ca-la na imprensa, na semana passada. O superin-
tendente interino, que se valhe exclusivamente de
um assessor de confianga originario do minist6rio
do Interior, nio consultando o departamento jurfdi-
co da Sudam, nao quis se manifestar sobre o as-
sunto. Recusou mesmo convite para um program de
entrevista na television. Mas manteve a decision de
realizar uma nova reuniio do Conselho Deliberativo
da Sudam no dia 10, em SLo Lufs, praticamente cor
a mesma pauta de sessio anterior, exceto pela eli-
minag~o de quatro projetos que seriam do interesse
do superintendent afastado e de filhos do governa-
dor, que o pr6prio general Klein pediu para ser reti-
rado de pauta na reuniio de Manaus.

A verdade oculta
Situagio semelhante tamb6m jamais houve na
hist6ria da Sudam. A pauta do Condel em Manaus
deveria ter sido capaz de encantar os conselheiros,
que constantemente se digladiam por mais projetos


para suas regi6es ou stores de interesse: ela reunia
23 empreeendimentos, cor investimento global de
pouco mais de um bilhio de cruzados novos (mais
de 500 milh6es de ddlares), dos quais NCz$ 200
milh6es de colaboragio financeira dos incentives
fiscais. Como na maioria das vezes, o Para seria o
Estado mais beneficiado.
A in6dita obstrugio do secretario paraense e a
attitude de combat que ele pretend sustentar na
pr6xima reuniio sugeririam, ao observador desavi-
sado, tratar-se de uma guerra nobre, em defesa de
uma causa just. Na verdade, ela busca sustentar os
meios: a permanencia do superintendent afastado,
sem questioner os fins, e usando os mesmos recur-
sos ins6litos que estio na origem dessa guerra.
Aparentemente, Kayath foi derrubado porque
havia conseguido expandir o orgamento da Sudam A
custa da redugao do dinheiro A disposigio da Sude-
ne, cor o que nio poderia concordar o sergipano
Jolo Alves, cuja carreira formou-se A base do
clientilismo fisiol6gico. O moralismo seria tao falso
que agora a Sudene estaria utilizando-se do mesmo
artiffcio, o 17 e meio, que tornara mais atraente aos
investidores aplicar na Sudam e nao no Nordeste.
Os defensores de Kayath, por sua vez, esque-
ceram de dizer que se a Amaz6nia passou a dispor
do maior volume de incentives fiscais em todos os
tempos, essa faganha foi conseguida A custa de uma
desenfreada agao de corretores na intermediacio do
dinheiro e transferiu um perigoso poder para as
mios do superintendent. Ele padsou a decidir dis-
cricionariamente sobre a destinagio de 30% dos re-
cursos do Finam. Kayath alega que assim p6de fa-
vorecer os empresdrios regionais, o que 6 meia ver-
dade. A outra metade 6 de que a partir daf passaram
a surgir especulag6es em torno do envolvimento
dele, de seus parents e de parents do governador
em projetos beneficiados pela Sudam.
Os quatro projetos que o general Klein retirou
da pauta do Condel em Manaus estariam inclufdos
nessa relagio suspeita. Sio os da Copem (Constru-
tora Paraense de Estruturas MetBlicas), Companhia
Agropecuaria Santa Maria da Canarana, Estaleiros
da Bacia Amaz6nica e CerAmica Maritubense. Na
dltima reuniao presidida pelo superintendent Hen-
ry Kayath, em margo, o representante do minist6rio
do Interior, Roque Santos, pediu vistas desses pro-
cessos imaginando justamente estar dando um golpe
nos oponentes.
Santos redigiu votos especialmente virulentos
contra esses projetos. Ele registra as abundantes li-
berag6es de recursos p ra o estaleiro e as seguidas
atualizag6es e ampliac6es que a Ebal conseguiu
aprovar, tio generosas que a empresa como a Co-
pem acabou inovando ao protocolar uma "carta-
consulta/projeto", hibridismo original que confina
a carta-consulta cor o projeto. O representante do
miniterio assegura que a Ebal abdicou do direito de
reivindicar os beneffcios da Sudam "e preferiu os
meandros da conivencia, subvertendo a ordem, o di-
reito lfdimo em prejufzo de outros segments
igualmente importantes para a economic regional".
Em seu voto, ele pedia a rejeiqio do projeto "em
nome da decencia e da moralidade no trato da coisa
pdblica".








A Ebal era um pequeno estaleiro de Bel6m
quando um dos filhos do governador, Andr6, enge-
nheiro naval rec6m-formado, assumiu a diret6ria
t6cnica da empresa. Hoje ela domina o setor, depois
de receber maciqamente dinheiro da Sudam durante
dois anos.
Cor ironia, Roque Santos refere-se A eficien-
cia na tramitagio dos pedidos da Copem e a "rapi-
dez cor que foram aprovados" pela Sudam. Criti-
cou a superintend6ncia por consumerr recursos sa-
dios no saneamento financeiro" da Canarana, que
esta em dificuldades. E apontou o descumprimento
das normas legais na aprovagio do projeto da Ma-
ritubense. Tanto apego A letra da lei se destaca se
comparado a desatengio que costuma caracterizar a
participagio dos conselheiros do Condel, mas se
explica porque haveria Kayaths e Gueiros por tris
de vdrios prcjetos beneficiados pelo superinten-
dente.

Apenas pela superficie
Provar acusae6es gendricas, por6m, nao apenas
nio 6 tao fgcil, como pode ser uma attitude nio re-
comendavel para quem possui telhados de vidro. A
comissio de inqu6rito formada para provar o que
Roque Santos e outros t6m insinuado afogou-se num
mar de pap6is e consumiu o prazo de 90 dias sem
ter sequer conseguido ouvir depoimentos. A nova
comissio terA mais 90 dias (os 60 regulamentares,
prorrogaveis por mais 30 dias), mas 6 duvidoso que
consiga um resultado satisfat6rio, capaz de justifi-
car a demissio de Kayath por justa causa" (a sim-
ples exoneragio, ao inv6s do problematico afasta-
mento, poderia ser adotada se o governor Sarney nio
fosse tAo dubidativo).


A parte essa promiscuidade nos dois lados do
balcio, que surge quando algu6m pode ocupar ao
mesmo tempo as duas posig6es (aprovando projetos
que depois sio "assessorados" por seus prepostos),
a criagio do 17 e meio permitiu uma s6rie de mala-
barismos marginais As normas regulamentares, que
reforgavam ainda mais o poder pessoal do superin-
tendente. O general Klein observou que alguns
projetos, embora aprovados pelo artigo 18, como se
fossem projetos pr6prios (cor direito a aplicar di-
retamente suas dedug6es do imposto de renda), "vi-
nham obtendo liberag6es atendidas cor base no ar-
tigo 17 do mesmo diploma legal, contrariando as
normas que regular os financiamentos". Esses em-
preendimentos, que deveriam dispor de fontes pr6-
prias de recursos suficientes para mante-los, passa-
vam a defender das decis6es soberanas do superin-
tendente, o que criava uma relagio de dependencia
desaconselhAvel. O general mandou "sustar as libe-
rag6es que ji se encontravam em fase de processa-
mento".
A attitude 6 correta, mas o campo de agio do
general mostrou-se estreito demais para que ele pu-
desse ter um desempenho contrastante cor o de seu
repudiado antecessor. Pessoalmente, Klein ficou
numa posigio diffcil: domiciliado na capital de um
Estado cujo governador o consider "persona non
grata". Em Manaus, ele foi apanhado totalmente
desprevenido pela investida do representante do Pa-
rd; a dnica reaago que esbogou foi derrubar o copo
de agua que estava A sua frente. Nessa guerra,
alids, a dnica coisa que se pretend realizar 6 mes-
mo derrubar outros simb6licos copos de agua, rear-
rumando a mesma mesa, depois, para outro past. O
maquiavelismo da Nova Repdblica 6 todo ele volta-
do para o botim.


Jari: o fim de uma nova era


Nos pr6ximos cinco anos o cons6rcio de em-
presas nacionais que, em 1982, assumiu o projeto
Jari, investira mais da metade do que o miliontrio
norte-americano gastou em 15 anos para montar o
seu imp6rio amaz6nico numa vasta area de terras
entire o Pard e o Amapd. At6 1992 serio aplicados
mais de 700 milh6es de cruzados novos em plantios
para a produqAo de celulose, que sera ampliada (de
230 mil para 280 mil toneladas anuais), e na cons-
trucio de uma usina hidrel6trica na cachoeira de
Santo Antonio, cor capacidade para 100 mil kw,
que garantira energia para novos empreendimentos
no local.
Ao contrario do que ocorria na era Ludwig, es-
se pesado program de investimentos 6 anunciado e
comega a ser realizado sem provocar maior interes-
se, embora mais de 72 milh6es de cruzados novos
saiam da carteira do Finam, o fundo de incentives
fiscais administrado pela Sudam. Se nao fosse a
obstrugio do secretario de Planejamento do Pard,
certamente os dois projetos da Jari teriam sido
aprovados pelo Conselho Deliberativo. No voto que
redigiu sobre eles, o secretario Amilcar Tupiassu
nio fez qualquer consideragio sobre o conteddo dos
projetos.


Eles deveriam provocar a reflexio dos que se
interessam pela vida da Amaz6nia. O principal de-
les 6 para remanejar a plantagio de 93 mil hectares,
o maior plantio de esp6cies ex6ticas existente na
regilo, da qual a fibrica de celulose (importada do
Japio) se abastece de madeira. Ludwig idealizara
um macigo integralmente formado por uma esp6cie
asidtica de notavel crescimento, a gmelina arbora,
mas atualmente essa arvore ocupa apenas 25%, ou
25 mil hectares. A gmelina exige solos mais f6rteis,
que sio limitados na Brea da Jari. Por isso, foi ne-
cessArio recorrer as fontes clissicas da celulose, o
pinho e o eucalipto, e converter as areas onde ina-
dequadamente a gmelina havia sido plantada.
Mas essa conversio 6 cara e problemitica por-
que, uma vez plantada, a arvore asidtica torna-se
uma praga. E necessario recorrer a herbicidas para
eliminar a brotagio dos tocos de gemlina ou mesmo
quando a intengio 6 efetuar novo plantio cor se-
mentes melhoradas. A aplicagio do produto s6 pode
ser feita quando a arvore atinge 50 centfmetros de
altura.
O manejo vai abranger 52 mil dos 93 mil hec-
tares da floresta plantada. Outros tr6s mil hectares
de floresta native serio desmatados. O investimento









previsto 6 de 493 milh6es de cruzados novos, sendo
35,3 milh6es (8%) de incentives fiscais. A Compa-
nhia Florestal Monte Dourado promete aplicar
NCz$ 219 milh6es de recursos pr6prios e outros
188 milh6es serio financiados, uma parcel consi-
derivel proveniente do Fiset, o fundo estatal de re-
florestamento (ao qual a Jari passou a ter acesso
gragas a criagio de seu distrito industrial, em
1983).
O que est4 em causa nesse projeto 6 a viabili-
dade ou a conveniencia de grande plantios ho-
mog6neos cor esp6cies ex6ticas numa floresta tio
rica e diversificada quanto a amaz6nica.Uma per-
gunta ajuda a encontrar a resposta: se nio tivesse
recebido fortfssimo subsidio estatal, a Jari suporta-
ria o 6nus de seus erros na formacio desse plantio?
S6 cor a colaboragio do tesouro pdblico a empresa
nio quebrou sob o elevado custo de cada hectare
plantado ou remanejado.
O segundo projeto submetido a Sudam suscita
outra question important na Amaz6nia, a das flo-
restas energ6ticas. Daniel Ludwig trouxe do Japio
uma termel6trica para funcionar A base de cavacos
de madeira. A partir do moment em que sua usina
flutuante chegou ao Jari, todos se excitaram corn
f6rmulas para gerar energia a partir da madeira, mas
a pr6pria Jari p6e fim a essas ilus6es, que dariam a
floresta amaz6nica uma destinagio menos nobre
(menos ainda mais por causa da queda dos pregos
do petr6leo).
Cada tonelada de cavaco que chega A porta da


usina custa mais de 26 d61ares. Nao 6 A toa que o
grupo Antunes passou a ter 6timo faturamento for-
necendo cavaco atrav6s de uma empresa a Amcel
- criada no Amapa supostamente para produzir ce-
lulose. Percebendo a irracionalidade desse esquema,
a Jari pensou em varias alternatives, desde a exten-
sio da linha de Tucuruf, atravessando o rio Amazo-
nas, at6 uma tdrmica a carvio. Acabou decidindo
construir uma hidrel6trica no rio Jari, na qual in-
vestird 208 milh6es de cruzados novos para gerar
100 mil kw (40% a mais do que capacidade instala-
da atualmente no projeto, cor consume de cavacos
e 6leo), sendo NCz$ 37 milh6es oriundos do Finam.
Serb uma usina "a fio d'Agua", que nio destruiri a
cachoeira, nem provocard inundag~es.
A principal parcel dessa geragio, entretanto,
nio ird para as atividades econ6micas (celulose,
caulim e bauxita) instaladas dentro do projeto, mas
para a ffbrica de ferro-liga que o grupo Antunes
espera colocar em funcionamento em sua proprieda-
de no Amapt a partir do pr6ximo ano. Essa fibrica
precisard de 44 mil kw e nio poderia ser atendida
pela usina do Paredio, ji em operagio, restrita a
uma potencia firme de 14 mil kw m6dios. Uma linha
de transmissio de 190 quil6metros levarA a energia
da usina de Santo Antonio ate a fibrica, em Santa-
na, onde funciona o distrito industrial privativo do
grupo Antunes. Essa obra arrematari de vez o pro-
cesso de transigio que transformou o Jari de Lud-
wig no Jari de Antunes, muito maior e mais podero-
so, mas nio tio exposto A luz dos refletores e por
isso muito mais resguardado do desgaste.


IMPRENSA



Acordo de cala-boca


Os violentos ataques pessoais desferidos pelo
Diario do Paru contra membros da famflia Maiorana
deram resultado: O Liberal acabou propondo, no
mes passado, uma tr6gua ao journal do ministry Jader
Barbalho. O intermediario da iniciativa foi o director
da sucursal de Brasflia de O Liberal, Ossiam Brito.
Ele conversou em Belem cor o deputado federal
Arnaldo Moraes Filho, que aparece no expediente
como diretor-responsivel do Diario. Arnaldo e Os-
siam lideraram uma tele-conferencia entire Braslia e
Belem que selou o acordo: O Liberal nio faria mais
crfticas ao ministry da Previdencia Social, ainda
que fosse de tabela, transcrevendo mat6rias de ou-
tros jornais, como vinha fazendo recentemente, e
o Diirio deixaria em paz os Maiorana.
O acerto foi tio bem firmado que O Liberal
sequer publicou as notfcias distribufdas pelas agen-
cias nacionais, das quais 6 assinante, sobre irregu-
laridades na licitagio para o cadastramento dos
contribuintes da Previdencia Social. A dendncia
atingia diretamente a Beldata, empresa de Jair Ber-
nardino de Souza, inimigo fidalgal do Sistema Ro-
mulo Maiorana de Comunicagio. Nem esse gancho
estimulou o registro das dendncias. De sua parte,
o Diario passou ao largo de questionamentos sobre
a indicaCio de Romulo Maiorana Junior como em-
presirio do ano no Para.


Um teste mais decisive para essa paz armada
vird com as eleig6es, nio s6 as presidenciais deste
ano, mas e principalmente as gerais de 1990,
nas quais Jader Barbalho voltari a participar. De
qualquer maneira, por6m, a tr6gua foi uma con-
quista important para o ministry, que conseguiu
imobilizar um journal com tiragem pelo menos nove
vezes superior ao dele pr6prio. O resultado pode
servir de estfmulo para uma certa imprensa marrom
que ressurge no Pard, disposta a tirar proveito do
clima de antagonismo que sempre se cria em v6spe-
ra de eleig6es e, quase sempre, desviando um pouco
de verba official. Nio por acaso, os Maioranas pas-
sam a ser alvo desse tio- de imprensa.
O acordo Dikric-Liberal priva ainda mais a
opiniio pdblica de um acompanhamento menos de-
sinteressado dos acontecimentos no Pard justamente
porque um de seus vertices polfticos 6 o ministry
Jader Barbalho, agora um nome al6m do alcance da
imprensa paraense. Inegavelmente, O Liberal estA a
uma grande distfncia de seus concorrentes e domi-
na, quase na condigio de monopolista, o mercado
de jornais no Estado, cor um poder superior ate
mesmo ao de que desfrutou no passado a Folha do
Norte. Mas a vanguard tecnol6gica e mesmo admi-
nistrativa do journal nio corresponde a seu conteddo
editorial, a uma posicao minimamente estabelecida









junto & sociedade. A grandeza de uma dimensio
corresponde A pequenez da outra.
Talvez esse descompasso leve o journal a supe-
restimar sua pr6pria importancia, tentando firmi-la
sobre um terreno incerto. No infcio de julho, o jor-
nal usou pesquisa de uma empresa local, a Contro-
bel, sem conceito reconhecido no setor, para infor-
mar que possui 906.315 leitores em Bel6m. Se essa
pesquisa fosse confiavel, O Liberal teria realizado
facanha sem paralelo na hist6ria da imprensa: ser
lido por 60% da populagio da capital na qual cir-
cula, inclufdas pessoas nio alfabetizadas, criangas e
ate beb6s. Exclufdos da relagio os que nio podem
ler jornais, por virios motives, O Liberal teria mais
leitores do que a populaaio apta para a leitura de
jornais em Bel6m.
Considerando-se a m6dia de cinco leitores para
cada journal, a tiragem de O Liberal atingiria mais
de 190 mil exemplares em m6dia, credenciando-o
como o quinto maior journal do pafs, i frente at6
mesmo do Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro. l
claro que O Liberal 6 o principal journal do pafs, de
Recife para o Norte. NAo precisaria recorrer a m6-
todos pouco edificantes para projetar uma sombra
maior do que o seu tamanho real, nio estivesse sua
auto-estima tio inflacionada pela falta de concor-
r6ncia A altura, e de senso crftico.
O Sistema Romulo Maiorana de Comunicaqio
parece estar se preparando para ter uma posicio
ainda mais fortalecida em funcio das eleic6es que
se aproximam. A TV Liberal estabeleceu um ponto
avan.ado em Marabh, visando um mercado em fran-
ca expansio. Tamb6m esta se implantando em San-
tar6m, rompendo alianga cor o principal grupo lo-
cal de comunicag6es, que havia impedido a penetra-
gao do maior grupo concorrente, a RBA de Jair
Bernardino. Al6m de eleig6es, esses dois eixos ca-
nalizam reivindicag6es separatists que poderio
evoluir bastante nos pr6ximos meses. Se essa redi-
visfo ocorrer, a Liberal como sua matriz estari
na onda. Assim, vem muito ao gosto o titulo que
Romulo Maiorana Junior conquistou, provavelmente
o empresdrio mais jovem do Pard distinguido corn
esse destaque em todo os tempos, o que da uma me-
dida do tempo que estamos vivendo.

Entre o ato e a fala
0 ex-prefeito de Bel6m, Fernando Coutinho
Jorge, demorou muito para recusar o convite que o
ministry Jader Barbalho lhe fez, para ser o novo
president do Banco da Amaz6nia. Por isso, ao
anunciar sua decision de nao assumir o cargo, no dia
7 do mes passado, Coutinho deu oportunidade a que
surgisse uma explicacio diferente da que ele apre-
sentou para justificar seu ato. Essa versio garante
que o politico do PMDB s6 nio ficou cor o lugar
atualmente ocupad; por Valdemir Messias de
Araujo porque o ministry da Fazenda, Mailson da
Nobrega, a quem o Basa estf subordinado, recusou-
se a nomed-lo.
Como o ministry mantivesse sua posigio in-
transigentemente, o president Jose Sarney nao quis
contraria-lo em moment tio delicado para a sua
administration. Segundo uma version official, foi Sar-


ney quem sugeriu o nome de Coutinho Jorge ao mi-
nistro Jader Barbalho num despacho em que os dois
tiveram para examiner as quest6es do Basa e da Su-
dam. O ex-governador tomou um susto cor a su-
gestAo de Sarney, mas aderiu logo a ela, tornando-
se o padrinho da indicagio. A mesma fonte diz que
Jader "esqueceu" de informer Coutinho sobre a
origem da sugestio de seu nome. JA o ex-prefeito
nio lembrou, ao receber o convite, as raz6es que
depois apresentaria ao governador H6lio Gueiros,
quando comunicou publicamente que nio tinha con-
dig6es de assumir a presidencia do Basa.
O ex-prefeito, que 6 candidate a candidate ao
governor do Pard em 1990, saiu desgastado do epi-
s6dio. Em primeiro lugar por aceitar o convite que
o ministry Jader Barbalho lhe fez para assumir um
cargo no qual poderia nio passar mais do que 10
meses, provocando inevitiveis interpretag6es sobre
oportunismo polftico (deixaria o Basa em cima do
prazo para iniciar a campanha eleitoral, pavimen-
tando o caminho para essa travessia numa institui-
gio recentemente abalada por outro tipo de oportu-
nismo, mas igualmente made in Par&). Em segundo
lugar, como ji acontecera em relaqio A prefeitura
de Belem, Coutinho apareceria como um apendice
da lideranga de Jader, que, desta vez, nio conse-
guiu afastar a pedra de Mailson post no meio do
caminho (o Basa acabara de sair da 6rbita do Mi-
nisterio do Interior para o da Fazenda). Finalmente,
Coutingo ficou exposto A contestagio de seus argu-
mentos sobre a recusa em ir para o Basa. Enquanto
ele pode enumerar motives nobres (o endividamento
do Maranhio imposto ao banco, a falta de sensibili-
dade regional do governor federal, a vislo recessiva
do Ministerio da Fazenda, etc.), o c6tico pode achar
que tudo isso nao passa de tinta para dourar a
amarga pflula que o ex-prefeito teve que engolir.
Cor raciocfnio mais largo, Coutinho Jorge poderia
poupar-se de uma situagao desagradavel. Afinal, o
poder nem tudo justifica (ou nio deveria justificar).

A hora dos "lobbies"
Com a proximidade do fim do mandate de Jose
Sarney, os "lobbies" criados em torno da desapro-
priagio do porto da Sotave, as proximidades de
Bel6m, voltaram a funcionar. Em favor da desapro-
priagao aparecem os produtores de soja do Mato
Grosso, aparentemente angustiados em busca de um
local para o escoamento da produgio de tries mi-
lh6es de toneladas de grios. Mas os inv6s de tenta-
rem viabilizar a safda atrav6s do porto de Santar6m,
vieram a Bel6m atras do terminal da Sotave. Seria o
fato consumado que faltaria para justificar, por mo-
tivo de urgencia, o pagamento da desapropriagio,
sustado na Justiga Federal. A questao teria que ser
acertada ainda no governor Sarney para evitar uma
eventual revisio do ato.
JA o "lobby" que quer a construgao da algaa
rodoviAria" ligando Bel6m ao porto de Barcarena,
por considerd-la a melhor alternative para a substi-
tuigao do comprometido porto de Belem, fez uma
festa paralela A visit do governador Hlio Gueiros
is instalag6es da Albris. A fabrica de alumfnio 6 a
inica usuaria do terminal construfdo pelo governor
em Barcarena.










Hist6ria para

arquivo morto
Acabou sendo mesmo arquivado o inqu6rito
que a Polfcia Federal instaurou, a pedido da Eletro-
norte, para apurar um suposto atentado contra a hi-
drel6trica de Tucuruf, no Par&. O juiz federal Fran-
cisco Neves da Cunha, da 1V Vara, acompanhou o
parecer do procurador Jose Augusto Torres Poti-
guar, de que nio ficou provada a ocorrencia da sa-
botagem, nem foram apontados suspeitos pela priti-
ca do ato denunciado pela Eletronorte.
O procurador e o juiz, como, antes deles, o
delegado da PF, Geraldo Jose de Araujo, agiram
estritamente dentro das normas legais. Um inqu6rito
que nao conseguiu caracterizar a existencia de cri-
me contra a seguranga national, nem indiciar possf-
veis criminosos, teria mesmo que ser remetido para
os arquivos por total insubsistencia. Mas fora desse
process, e talvez em outro tipo de agio, caberia
indagar sobre os prop6sitos da Eletronorte e sua
responsabilidade ao transferir a question A polfcia
mais de um m6s ap6s ter ocorrido o suposto fato e
nio como um caso em aberto, mas como um crime
que a empresa teria conseguido caracterizar, agindo
como se fosse o pr6prio Minist6rio Pdblico ou a
autoridade policial.
A long reportagem do ndmero anterior deste
journal faz uma acusagio direta e grave a empresa e
a seu parceiro neste "embroglio", a Agencia Cen-
tral do SNI em Brasilia. Apesar da gravidade, ne-
nhum dos dois acusados se manifesto. Como a
"armagio" nao deu certo, a titica parece ser a de
silenciar e deixar o caso esvaziar-se por si mesmo,
como de praxe na Repdblica, independentemente do
neologismo de plantio que tenta qualifici-la.
Uma entrevista concedida ao journal "O Globo"
pelo director tecnico da Eletronorte, Kerman Jos6
Machado, personagem central da novela, ajuda a
entender melhor o que houve nos bastidores desse
cabuloso epis6dio. A entrevista foi publicada na
edigAo de 7 de maio, dois dias antes da Eletronorte
oficiar & Polfcia Federal pedindo a apuraqio da pre-
sumida sabotagem. Revela o director que "foi feito
um acordo entire as autoridades que tinham conhe-
cimento do assunto de s6 ser divulgada qualquer in-
formagAo depois que o caso estivesse esclarecido".
Mas o acordo foi rompido e a informaqio "vazou"
para a imprensa. Kerman entio "decidiu contar que
foi o autor da iniciativa de levar o problema para o
Chefe do Servigo Nacional de Informag6es (SNI),
Ministro Ivan de Souza Mendes".
Como a Polfcia Federal s6 soube da hipotetica
sabotage no dia 9, atravEs da comunicaaio do pre-
sidente da Eletronorte, Miguel Rodrigues Nunes,
a informacio de Kerman mostra que, ate entao, todo
o tratamento do assunto tinha ficado restrito B em-
presa e ao SNI, que mandou tres agents a Tucuruf,
disfargados de agents da Polfcia Federal, antes que
a PF pudesse tomar qualquer providencia em rela-
9ao ao caso, simplesmente por ignori-lo.
A hist6ria levanta duas ddvidas. Uma delas 6
quanto a adaptaio da Eletronorte ao novo moment


polftico que vive o pafs, de liberdades e de abertura
(a empresa ainda opta pela parceria difusa cor 6r-
gAos de seguranga). A outra ddvida question o
anunciado profissionalismo que o general Ivan esta-
ria impondo ao SNI, reenquadrando-o na fungio
original de 6rgio de inteligencia, a dnica maneira
de dissoci4-lo de um passado tAo pouco recomenda-
vel (na verdade, nio tio passado assim) e livra-lo
da inanigio ou da extingao que o ameaga. O epis6-
dio de Tucuruf mostra que tanto a Eletronorte
quanto o SNI ainda nio praticam o honest e demo-
critico jogo da verdade. Preferem as sombras A sa-
lutar luz do sol.


Um emprego


de acomodagio

O governador Helio Gueiros ja superou seu
antecessor, Jader Barbalho: em seu gabinete estao
lotados 38 assessores especiais, dos quais 23 de al-
guma maneira costumam aparecer no Palkcio Lauro
Sodr6, mas apenas 17 efetivamente trabalham ali. A
relagio ultrapassou em 15% o quadro montado pelo
atual ministry da Previdencia Social, que transfor-
mou a assessoria num cabide de emprego e local de
acomodaago de pessoas, conforme seus interesses
polfticos e pessoais, sem qualquer relaaio cor os
servigos t6cnicos de que a governadoria poderia ne-
cessitar.
Gueiros nio escondeu seu espanto e contrarie-
dade cor a inflacionada e in6cua assessoria que
herdou. Logo que assumiu providenciou alguns ex-
purgos, mas rapidamente seguiu o exemplo de Jader
- e ji o excedeu. Entre os que recebem como asses-
sores especiais hi ate pessoas morando fora do Pa-
rd, como o ex-deputado Epflogo de Campos. Outros
aparecem na governadoria apenas ocasionalmente e
para receber o pagamento, mas nio sio poucos os
que continuam em seus escrit6rios particulares ou
em outras repartig6es pdblicas, para as quais foram
cedidos.
Pode-se ate admitir que o governador nio pre-
cise ter ao seu lado alguns assessores especiais que
utiliza como consultores ou que contrata nessa con-
digio para favorecer algum outro 6rgio do governor,
como a Secretaria de Educagio. Mas aos poucos a
assessoria foi retomando sua antiga (dis)fungio de
vala comum das conveniencias, disseminando uma
imagem negative sobr, a equipe que trabalha de
fato no Palacio Lauro Sodr6. A aura de empreguis-
mo e de relaxamentc de padrio que havia na admi-
nistragio anterior foi recomposta.
Entre os assessores especiais estio o director do
Museu Goeldi (e ex-secretario de Cultura), Gui-
lherme La Penha (atualmente nos Estados Unidos),
o advogado Camillo Montenegro Duarte, e os ex-
prefeitos Ronaldo Campos (que 6 director da Enasa)
e Gervisio Bandeira. Na dltima fornada, um repre-
sentante de cada um dos jornais dihrios foi acomo-
dado no quadro, para inc6modo dos que acompa-
nham essa carruagem da alegria, jA nesse moment
compreendida cor "lobby".










Acre: agora,

o novo alvo
Provavelmente ja no pr6ximo ano Macapa e
Boa Vista serio as dnicas capitals brasileiras que
nio estario integradas ao restante do pafs por uma
estrada asfaltada, Macapa cor o "agravante" de
nio ter ligagio ffsica alguma. No mes passado o
governor Sarney recebeu a primeira parcel dos 70
milh6es de d61ares que o Banco Interamericano de
Desenvolvimento vai Ihe repassar para ajudar a as-
faltar os 40% que faltam para completar a ligagio
entire Porto Velho e Rio Branco, a abandonada e
isolada capital do Acre.
A retomada da pavimentagio da BR-364, que
parou a 204 quil6metros de Rio Branco, foi cele-
brada pelos burocratas e seus associados em Brasi-
lia. O BID suspended o financiamento em outubro
de 1987 porque o governor nAo vinha cumprindo os
compromissos assumidos cor relagio ao meio am-
biente e aos fndios. A partir de entAo, a administra-
gio Sarney foi execrada nos quatro cantos do pla-
neta como a principal responsavel pelos danos
ecol6gicos praticados na Amaz6nia.
Para recuperar ou retocar sua mA imagem
international e reativar o fluxo de dinheiro do BID,
o governor teve que apresentar um novo conjunto de
medidas preservacionistas e um piano de pesquisas
para a regiAo de influencia da estrada, que cobre 25
milh6es de hectares. Pela primeira vez, al6m de
responsabilizar-se pela execugfo da obra em si, o
governor teve que avalizar um desigual e irregular
conjunto de iniciativas, que vio de programs de
protegio a animals ate estudos botanicos de detalhe.
Apesar de ineditismo dessas medidas, que dariam ao
governor uma roupagem mais respeitosa, todas essas
ages orientadas para evitar os efeitos danosos de
uma estrada em regiao tropical representam uma
mobilizagao de verbas inferior a 8% do investi-
mento nos 40% que ainda 6 precise asfaltar da
BR-364.
Mas nfo 6 apenas a desproporgio dessa rela&io
de forgas que relativiza a euforia havida no relan-
gamento da obra. Mesmo acompanhada de cuidados
inexistentes em estradas semelhantes construfdas no
passado, a BR-364 6, essencialmente, um corredor
de exportagio. Ou seja: serve como plataforma de
langamento das riquezas extrafdas ao long de sua
Area de influ6ncia rumo a portos de exportagio. A
novidade desse velho e desgastado modelo, posto
em pratica em outras Areas amaz6nicas sem o mfni-
mo respeito pela integridade do mercado interno (a
expressio mercado usada em sua ampla significa-
gao), esta na diregio que esse corridor assume: nio
mais no sentido leste, em busca do AtlAntico, mas
na diregio oeste, para o Pacffico.
Os maiores interessados nesse novo mercado
sio os japoneses, que ja se serve de min6rios e in-
sumos (como o alumfnio) da Amaz6nia Oriental.
Mas para se abastecerem de madeira e outros pro-
dutos extrativos, eles t6m que penetrar na part
Ocidental da regiAo, o que prometem fazer cor a
mesma competencia e sutileza (a servigo de seus
interesses, naturalmente) que ter marcado sua atua-


qio no lado Oriental. Acreanos e peruanos sauda-
ram a continuagqo da estrada como a porta de re-
dengao, mas foi assim que a BR-364 foi recebida
tres d6cadas antes pelos rondonienses (na 6poca
ainda integrantes do Territ6rio -do Guapord). Hoje,
a imagem da estrada esta muito mais pr6xima de sua
realidade: un instrument de passage, um meio de
pilhagem, como o apito do trem nas ferrovias que
tamb6m servem a esses vorazes e eternamente insa-
tisfeitos corredores de exportagio infiltrados pelo
pafs afora.
Quem conseguir ver, veri.


A migragao

das doengas
HA nove anos o Programa Grande Carajds 6 um
dos maiores estimuladores da migragio para o Esta-
do do ParA, provocando um crescimento explosive
da populagio na Area de influ6ncia da ferrovia que
escoa o minerio da Serra de CarajAs ate o porto ma-
ranhense da Ponta da Madeira. Ate hoje o Minist6-
rio da Sadde aoo conseguiu fazer part do Conselho
Interministerial que comanda o program. Todas as
vezes que necessita de indicadores de sadde da re-
giAo, o governor contrata empresas de consultoria e
elas recorrem aos 6rgios oficiais atrgs das informa-
g6es que usario em seus trabalhos. E um comporta-
mento esquizofrenico, mas s6 ele 6 capaz de expli-
car o cfrculo vicioso que se formou.
Como grande parte dos migrants sAo pessoas
pobres ou sem qualificagao professional, o cresci-
mento populacional tern se transformado em grave
problema de sadde pdblica, cuja expansion os 6rgios
governamentais nio conseguem acompanhar, mesmo
porque a questio social nAo 6 prioritAria nos inves-
timentos pdblicos ou privados.
E sob esse pano de fundo que se comporta a
hansenfase. Tradicionalmente, a Amaz6nia sempre
foi a regiio cor os mais negatives registros do
pafs, embora Areas especfficas como a baixada
fluminente e o Norte de Minas apresentasssem
situag6es mais dramAticas. Tendo casos da mesma
magnitude, como no Acre, a Amaz6nia, entretanto,
poderia ter comegado a inverter um pouco sua posi-
gao se nio estivesse sendo o alvo de migragio tio
violent, responsAvel por taxas elevadfssimas de in-
cremento demogrAfico.
O clima quente e dmido, que facility a propa-
gagao do bacilo, o isolamento de comunidades nos
altos rios, para onde form levadas na "febre" da
produgao da borracha (reincidente durante a Segun-
da Guerra Mundial), e a pobreza garantiram sempre
fndices elevados de incidencia e prevalencia da
hansinfase na Amaz6nia. Mas esse quadro poderia
ser alterado a partir dos investimentos que os go-
vernos locals passaram a fazer. A Secretaria de
Sadde do Pard, por exemplo, dobrou o quadro de
t6cnicos que tratam da hansenfase, ter dado cursos
de qualificagio para o seu pessoal e realizado cam-
panhas de esclarecimento junto a populaqio.
Carlos Cruz, que chefia o setor na Secretaria,
diz que o produto desse esforgo foi a melhor detec-









gio de casos de hansenfase. Antes, quando nio ha-
via essa "busca ativa", as estatfsticas eram preca-
rias. Tamb6m atenuou-se o impact psicol6gico da
doenga, que fazia as pessoas se confinarem ao inv6s
de procurarem tratamento. Mas a migraqio desorde-
nada anula os resultados positives que sio obtidos.
Se a situagio continue grave em focos endemicos
tradicionais, como o bairro do Guamr, em Bel6m,
ou o distrito de Marituba, em Ananindeua, novos
focos estio se formando nas Areas pioneiras.
Em Parauapebas, que fica no p6 da Serra de
Carajis, a incid6ncia de hansenfase atinge 14% da
populagio, 14 vezes mai~ do que o limited fixado
pela Organizagio Mundial de Sadde para caracteri-
zar uma situaqio grave. Em MarabB, a incidencia 6
de 10%.
A Secretaria de Sadde ate ja percebeu que en-
tre os migrants ha pessoas aposentadas que rece-
bem pensio simultaneamente no Maranhio e no Pa-
ra. Com isso, conseguem um rendimento maior, mas
a necessidade de manter um duplo domicflio impede
que disponham de melhor tratamento m6dico. Ate-
nuam a mis6ria sem sair dela, mas como resolver o
problema de sadde se ele 6 um subproduto da ques-
tao social, que permanece intocada? Para a Amaz6-
nia, ao menos por enquanto, nio h4 resposta.


Sultil atropelamento

HA duas explicag6es para a sdbita decision do
governador H6lio Gueiros de transferir para a pre-
feitura de Belem a responsabilidade pelo transport
coletivo na capital paraense. A primeira versao 6
que de que o governador quer simplesmentes livrar-
se do desgaste que os continues aumentos nas tari-
fas de 6nibus acarretam a quem os concede. A outra
interpretaqao 6 de que, na verdade, o governador
pretend ter de volta, legalizado, o control do sis-
tema porque a prefeitura nao estA em condiq6es de
assumf-lo.
Pela Constituiago em vigor, o transport cole-
tivo urban 6 de responsabilidade de cada prefeitu-
ra municipal. Em Bel6m, a tareta continue na 6rbita
do Estado. O prefeito e o governador jA haviam
conversado sobre a transferencia, mas Gueiros
anunciou que a fara imediatamente nao em um
process lento e progressive, como se supunha -
durante uma entrevista na televisao. A prefeitura
foi surpreendida pela ato unilateral. Como nao tern
estrutura montada para gerir o sistema, o mais pro-
vavel 6 que recorra A Cfmara Municipal em busca
de autorizaqio para assinar novo convenio cor o
Estado (o atual caducou e nao foi prorrogado), de-
legando-lhe a tarefa, o que nAo faria se estivesse
em situaqao mais favoravel.
Diante da forma de decision adotada pelo go-
vernador, nio hi mesmo outra alternative. O mais
prejudicado seria o usuario, que estaria ameagado
de pagar tarifas diferenciadas e exposto a uma dete-
rioragao dos servings entire os dois municfpios que
constituem a Regiao Metropolitana de Bel6m. Essa
hip6tese negative s6 nio ocorreria se todos se sen-
tassem A mesa e estudasem uma transiIao ordenada,


S na qual o objetivo fosse realmente o interesse do
pdblico e nio conveniencias ou interesses particula-
res e politicos.


Encontro semanal

Durante os dltimos 15 anos tenho participado
de dezenas de palestras, debates, mesas redondas e
outros events semelhantes destinados a discutir o
que est6 acontecendo na Amaz6nia. A freqtiUncia
ter sido crescente, embora acuse certa flutuagio de
acordo cor a instabilidade do interesse sobre a re-
giao, que nao 6 constant. HA um certo modismo na
atragio pela Amaz6nia, como, de resto, por qual-
quer outro assunto. Para mim, entretanto, 6 um tema
definitive, pelo qual fiz uma opqgo de vida.
Ter faltado sistematicidade nessa sucessao de
encontros: invariavelmente fica-se cor a sensagio
de voltar sempre ao mesmo ponto, sem avangar, nio
aprofundando muitas reflex6es interessantes que
surgem em tais ocasi6es. Por isso, decidi iniciar, a
partir do dia 15, uma nova experiencia: semanal-
mente farei um encontro cor pessoas que estiverem
dispostas nio apenas a conhecer a Amaz6nia, como
a tratar de quest6es culturais, que se interessem por
livros, que queiram ampliar sua forma de expression,
que se preocupem cor sua atualizaglo.
Nio serio aulas, nem trata-se de um curso, mas
de encontros livres. A eles qualquer pessoa tera
acesso como a uma sessio de cinema, sem a neces-
sidade de frequenta-los obrigatoriamente em s6rie,
jA que serao m6dulos aut6nomos. Nesses encontros,
al6m da preocupagio em informer sobre a Amaz6-
nia, haverf o compromisso de manter atualizados os
frequentadores sobre as quest6es do moment. O
primeiro encontro sera no dia 15, entire 15 e 18 ho-
ras, no audit6rio da Embratel, na rua Rui Barbosa,
entire Boaventura da Silva e Governador Jos6 Mal-
cher, repetindo-se a cada semana, no mesmo hord-
rio, sempre As terga-feiras. A metodologia preve
a leitura e discussio de um texto, a revisio dos
principals events da semana, a releitura da impren-
sa e uma palestra tematica, toda ela cumprida cor
muito dialogo.


Um journal do leitor
Circulando apenas entire assinantes, o JORNAL
PESSOAL depend dnica e exclusivamente deles, ji
que nio tem publicidade. Por isso, 6 important que
os assinantes mantenham-se atentos em rela~io ao
iornal.
,4


Journal Pessoal

Editor responsdvel: LIcio FIdvio Pinto
Enderego (provis6rlo) rua Aristides Lobo, 871
Beldm, Pard, CEP: 66.000 Fone: 224-3728
Diagramaqio e Ilustraigo: Luiz Pinto
Opqio Jornalfstica