Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00030

Full Text





ornal Pessoal
Luicio Flavio Pinto


Ann II N .3fi


Cirr~iinrflafl25na entree! 3sinafltas


9a Aijrinerni ti Fevereirn tna 1 QR


HIDRELETRICA


Uma guerra no escuro
O cacique Raoni deu um grito de guerra em Altamira contra
a hidreletrica que o governor quer construir no
Xingu. Mas este 6 apenas o ponto de partida para chegar
ao verdadeiro entendimento dessa nova obra.


O entAo senador Gabriel Hermes Filho prome-
teu ficar debaixo das comportas da barra-
gem de Tucuruf e imolar-se sob o turbilhAo
das Aguas se a Eletronorte nAo construfsse
as eclusas para garantir a transposigio do rio To-
cantins. A hidreletrica foi inaugurada, o grande rio
ficou mesmo interrompido naquele ponto, mas o
senador do PDS (hoje, como ontem e, talvez, ama-
nhA, president da Federaqgo das Inddstrias do Pa-
ra) nMo apareceu para consumer o seu protest. HA
mais de quatro anos a usina estA em pleno funcio-
namento, sem navegagAo entire os dois lados da
Imensa muralha de concrete.
Ao seccionar o livre curso do rio e nAo permitir


sua transposigAo por eclusas, a Eletronorte contra-
riou frontalmente o C6digo de Aguas. Praticou, as-
sim, um ato illegal, mas ele prosperou naturalmente,
atropelando promessas semelhantes A do velho se-
nador e ate mesmo uma aiAo judicial, patrocinada
pela Procuradoria Geral do Para. O governor brasi-
leiro, um dos maiores empreiteiros de barragens do
planet, nAo se disp6e a modificar sua tradigAo pa-
ra tender conveni6ncias legals, socials ou cultu-
rais.
Na semana passada, em Altamira, base de
apoio para mais uma gigantesca usina hidreletrica
que o governor espera comegar a construir em 1994,
no rio Xingu, o cacique Raoni, a principal lideranga


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Indigena em todo o vale, anunciou sua disposigAo
de nao permitir a concretizag~o da obra e abrir
guerra contra o governor se ele insistir no projeto.
Ao fim de uma in6dita reuniAo de quase 600 fndios,
que acamparam na cidade durante nove dias, a de-
claragAo final fol literalmente curta e grossa: "Se o
chefe de voc6s continuar com o piano da barrage,
vou fazer guerra corn ele", declarou o cacique Txu-
karramAe no encerramento do I Encontro das Na-
96es Indlgenas do Xingu.
A aldeia de Raoni fica a mais de mil quil6me-
tros de distAncia do local da future usina de Kara-
ra6 (rebatizada pars Belo Monte depois dos protes-
tos semAnticos dos fndios). NAo sofrera nenhum
efeito do represemento do rio, como dele estarao
resguardados 95% dos fndios do vale. Se o piano
de aproveitamento energAtico do Xingu se limitasse
a Belo Monte, ex-Karara6, a Anfase dos acesos de-
bates mudaria radicalmente: essa usina proporcio-
nara o kw instalado mais barato do pats, ocupando
metade da Area inundada por Balbina e Tucuruf
(gerando 20 vezes mais energia do que a primeira e
30% a mais do que Tucuruf em sua primeira fase).
Deslocara apenas 350 pessoas das Areas nas quais
vivem atualmente, 200 das quais sAo Indios disper-
sos.
O problema 6 que Karara6 sempre apareceu
Indissociavelmente ligada a outras duas barragens,
de Babaquara e JuruA (esta, apenas para fazer re-
gularizagAo hfdrica), nos pianos da Eletronorte de
gerar, na grande curva que o Xingu faz depois de
Altamira, 11 milh6es de kw de energia, apenas um
pouco menos do que em Itaipu, o malor aproveita-
mento hidrel6trico do mundo. O complex inundaria
6.500 quil6metros quadrados, quase tr6s vezes
mais do que Tucuruf, o dobro do maior lago artifi-
cial do planet, o de Sobradinho.
Esses ndmeros tornam-se mais assustadores
se estendidos so conjunto de aproveitamentos hi-
dreletricos projetados teoricamente pela Eletronorte
pars todo o vale do Xingu: seriam cinco usinas,
submergindo 14 mil quil6metros quadrados de uma
das regi6es mais ricas e complexes que o home
pode ainda estudar em todo o seu "habitat". Para o
piano ser executado, a Eletronorte precisaria de al-
gumas d6cadas, de algo entire 25 a 30 bilh6es de
d61ares (mais do que o atual endividamento externo
do setor eletrico brasileiro) e coragem pars inutili-
zar area equivalent a do Projeto Jari, a major pro-
priedade rural do pals.
Na Iltima revisAo dos inventarios e estudos
basicos, a Eletronorte diz que Karara6 (ou Belo
Monte) 6 um aproveitamento tAo excepcional que
dispense os demais. Por isso, vai limitar-se a ele.
Mas quem acredita na Eletronorte, se a empresa
manteve as obras de Balbina (que hoje, j6 sem a
mesma discrilAo do passado, questiona, minimizou
o impact ambiental de Tucuruf (ja comeca a reco-
nhecer, sob pressAo, seu quase total desprezo pe-
los efeitos a jusante) e resisted a seguir o caminho
das demais empresas regionals de energia, que se
integraram nas suas areas de atuag o? E a partir
da infelicidade nesse relacionamento, de sua empA-
fia e autoritarismo, malmente atenados por alguns
generosos esforgos individuals, que a Eletronorte


sujeitou-se a sustentar sua pesada estrutura insti-
tucional sobre p6s de barro: nao tern a simpatia e
muito menos a adesAo de sua suposta clientele.

Question ecol6gica:
nio a mais grave
Do ponto de vista ecol6gico, Karara6 (ainda
vai levar tempo para se aceitar a nova denomina-
glo, impr6pria ao menos porque maquila o anterior
desprezo pela cultural local, tAo evidence quanto na
ignorAncia de Furnas so construir a usina Angra I
em Itaorna, a "pedra podre" Tupi) significa um evi-
dente avango em relagAo a Tucuruf, que nao teve
estudo ambiental pr6vio, exig6ncia fixada legalmen-
te nos Estados Unidos hA quatro d6cadas. Se mu-
darem a posture categoricamente auto-suficiente da
Eletronorte (teimosa em manter sua sede em Bra-
salia nAo por mero capricho) e estabelecerem algu-
mas regras pars balizar a voracidade lobbfstica das
empreiteiras, os brasileiros ainda tAm tempo e con-
dig6es pars viabilizar a utilizagAo daquele polencial
energ6tico no Xingu cor o mrnimo de efeitos nega-
tivos. Naturalmente, desde que as a96es sejam
conduzidas por uma entidade representative, per-
meavel as justas reivindicag6es e capaz de um
descortino amplo do horizonte, so inv6s de bitolar-
se pelo exclusivismo da relaglo custo/kw.
Cor esse context, o problema imediatamente
mais grave deixa de ser a ameaga que qualquer
barragem represent numa regiAo com volumosos
cursos d'agua e complicados sistemas de vida ao
long de suas margens. A questao pass a ser a
vocacAo colonial imposta a Amaz6nia, de provfncia
energ6tica de economics externas, dentro ou fora
do pafs, que se aproveitam dos melhores efeitos
dessas obras pars multiplicar seus pr6prios ganhos.
Por mais glorioso que tenha sido, o grito de
guerra do sabio cacique Raoni sera tAo simb6lico
quanto a promessa feita em condig6es tao distin-
tas d9 senador de afogar-se em defesa das eclu-
sas. Altamira e todo o sudoeste do Para dispensam
Karara6 pars tender suas necessidades, existentes
ou previstveis. E-lhes suficiente o prolongamento
do "linhAo" de Tucuruf, obra que esta sendo reali-
zada nAo por causa dessa legftima aspiragao das
populag6es locals, mas pars tender a demand da
fabric de cimento que a grupo JoAo Santos Im-
planta em Itaituba. A fabrica simplesmente sera in-
viavel se nao tiver energia mals farta e mais barata
do que a atualmente disponfvel na regiao, cara e
restrita. Os milhares de consumidores terao acesso
a essa nova fonte porque ha um client especial a
ser atendido.

Cliente privilegiado para
uma energia barata
Quanto a Karara6, o client privilegiado 6 o
consumidor do Centro-Sul. Para manter sua posigAo
privilegiada de monopolists na economic national,
ele precise de toda a energia que Karara6 e outras
usinas puderem produzir. NAo dispense nada, nem
admit concorrentes: a energia saira da usina na
maior de todas as tenses e seguirA por uma linha









que nao admitira rebaixamento senAo a dois mil
quil6metros de distAncia, quando entrard no circuit
ao alcance desses consumidores especlais. Eles te-
r8o a mais barata energia do pals.
Desta vez, nao hevera sutilezas: a consolida-
cio da Amaz6nia no mals alto estagio de colonia-
lismo sera escancarada. Os paulistas nao escon-
dem que estao trabalhando ativamente nos bastido-
res politicos para afastar a Eletronorte e eles pr6-
prios construfrem Karara6, nem que para isso preci-


sem modificar a legislagAo em vigor. Tamb6m nio
aceitam que essa energia se desvie para outros
destines que nio o parque fabril e consumidor de
Slo Paulo.
NAo deve ser por mero acaso que urn long
sil6ncio nos meios de comunicagio paulistas sobre
a questAo esteja sendo interrompido para desenca-
dear uma ofensiva contra os leoninos contratos de
que desfrutam as f6bricas de alumlnio da Albris e
Alumar, controladas por japoneses e norte-america-


0-
-A simbologia da revolta
O deputado federal Fabio Feldman (PSDB-SP) dentes como o da semana passada, em que pessoas
teve um susto maior quando a (ndia Tufra avangou sao submetidas a vexames ou colocadas em cir-
sobre o director da Eletronorte com um facao em riste cunstfncias dramAticas porque representam institui-
e rogou algumas vezes a arma no rosto Ifvido do en- goes com imagem tao gasta como a Eletronorte. 0
genheiro Jos6 Antonio Muniz Lopes. Feldman levan- engenheiro tem seus justos motives para tamb6m in-
tou-se da cadeira onde estava sentado, bem no lado dignar-se, depois que o susto passou, mas a empre-
de Muniz Lopes, e acompanhou boa part da arenga sa deveria tirar as ligOes positives da amarga cir-
de Tufra de pe, a uma distAncia mais segura. Pes- cunstancia. Isto 6, reconhecer que seus erros ex-
soas que defendem id6ias semelhantes As do parla- p6em seus funciondrios ao perigo mais do que a
mentar, opondo-se A construgao das barragens que a eventual "selvageria" de fndios.
Eletronorte vem projetando, riram da situagio ou Quem acostumou-se a ver os direitos das mino-
aplaudiram o gesto da prima do cacique Payakan rias serem esmagados diante da prepotencia ou da
mas estavam numa posigAo ainda mais segura do indiferenga dos poderosos de plantlo, haverd de ver
que a de Feldman. Mais uma vez ficou provado que a cena por outro Angulo. Foi dessa perspective que o
pimenta nos olhos dos outros 6 refresco. jornalista e escritor Antonio Callado tentou mostrar a
Insens(vel A vontade dos natives da regiaa, posigao dos Indios no romance "Quarup", centrado
insensfvel a vontade dos natives da region,
tanto caboclos quanto Indios, talvez a Eletronorte justamente nas tribes do Parque Nacional do Xingu.
merecesse um castigo como que seu representante 0 livro 6 uma obra cf que d outros names a
sofreu na semana passada, mas por pouco o inci- personagens reais e romantiza fates verdadeiros. Um
dente nao se tornou tragico. Quem conhece mais in- dos mementos que poderia ajudar a entender o que
timamente os habitos dos Indios, sobretudo os dos aconteceu na semana passada em Altamira registra o
bravos Kayapds, sabe que os gestos de Tufra co- didlogo entire o padre Nando, rec6m-chegado ao Xin-
mo, antes, o de Porekro, tio de Payakan tem uma gu, e o piloto do Correio A6reo Nacional, Olavo, so-
simbologia: os dois fndios nao pretendiam ferir o di- bre o grande personagem branch do parque, o serta-
retor de energia e planejamento da Eletronorte, mas nista Fontoura (na verdade, Francisco Meirelles, o
manifestar sua profunda indignacao diante da amea- maior de todos).
a da submerso das terras indgenas pela usina de qu qu a Revo o adantar aos -
Karara6. Muniz Lopes, entretanto, poderia ter tido dios? disse Nando.
uma reagAo mais brusca e seu gesto interpretado
como alguma agressAo. Nesse caso algu6m poderia Ah, aos Indios nada neste mundo adiantaria -
ter safdo ferido, dando ao encontro dos Indios do disse Olavo. 0 Fontoura nesse ponto estd corn a
Xingu uma mancha que seus organizadores procura- razio.
ram sempre evitar. No entanto ele dedicou sua vida aos Indios.
As duas parties que se digladiam tendo comuni- Aderiu ao suickdio deles. Quando more uma
dades menores entire si, como os (ndios, precisam manada de Indios de um sarampo qualquer o Fontou-
compreender a natureza desses personagens. Mais ra toma porres intermindveis e tem uma loucura re-
de 10 anos antes, um president da Eletronorte tra- corrente. PropOe a mim, propOe a todo o mundo sem-
tou rispidamente o cacique dos Gavioes na pr6pria pre a mesma coisa, sabe o quo? A invasSo do Rio
aldeia, em Marabd, esquecendo que, naquele local, pelos fndios.
o capitSo Kokrenum era a autoridade maxima. 0 ir- Come assim?
mao do cacique deixou irado a reunito, que tratava
da indenizagao a ser paga aos (ndios pela passage De raiva, de ddio. Aterrissar no Rio corn vinte
da linha de energia de Tucuruf, e foi buscar sua bor- aviOes de transport carregados de fndios nus a
duna. Teria golpeado o coronel Garcia Llano se nao passed-los pela avenida Rio Branco, pelas praias.
fosse alcancado a tempo e convencido de que o pre- Armd-los de arcos, de sarabatanas, bordunas, truci-
sidente da Eletronorte nao tivera a intengao de ofen- dar o meor namero posslvel de funclondrios pdbl-
der a autoridade de Kokrenum. Llano "esquecera" cos, que Fontoura odeia, apesar de ser funciondro
que so poderia conversar de igual com o cacique se 01 prdprio. Ciar un case, uma guerilha. Obrigar o
fosse president da RepOblica e nAo de uma simples Brasil a matar fndio na Capital e com bala, em lugar
empresa de energia. de dizimd-lo As escondidas, pela fome.
A hist6ria de humithae6es que caracteriza as Passados 26 anos, a Onica atualizacgo neces-
relag6es dos fndios com os brancos 6 tao extensa e sdria consistiria em trocar Rio por Braslia, para onde
sangrenta que s6 6 possfvel perceber a profundidade a insensfvel e obtusa burocracia foi obrigada a
da indignagao por ela causada quando ocorrem inci- transferir-se.









nos. As duas consomem cinco vezes mais energia
do que as capitals pr6ximas, Belrm e S&o Luts,
mas pagam tarifa inferior ao custo de geracgo da
energia, uma vantage mals do que fascinante pa-
ra atuar num mercado international incapaz de re-
petir prego de energia Igual. Os "ricos" brasilelros
subsidiam essa vantagem nas relag6es de troca pa-
ra os "pobres" norte-americanos e japoneses.
Mas agora que surge Karara6, SBo Paulo nao
esti disposto a permitir que a situaggo se repita.
Final, o home mals rico do Brasil esti em Slo
Paulo e, alem de cimento, produz aluminio. Ele nAo
gostaria de ser deslocado do mercado por trustees
que nem sempre respeltam regras estabelecidas
por cartels apenas para uso Interno, ja que para
eles o mercado 6 o mundo. Esse choque de inte-
resse pode at6 nao ser determinant no Impeto
cor que Slo Paulo se langa sobre a Amaz6nia (6 a
malor presenga ffsica na regiao), mas serve para
exemplificar concretamente o que sempre fica na
rama dessas discusses.
O encontro do Xingu serviu para mostrar que
os Indios estAo vivos e querem que sua vontade
seja considerada nos pianos hidrel6tricos feltos pa-
ra a regilo. Eles centralizaram o debate no tema
que Ihes diz respeito, mas tal temario esta longer de
esgotar a amplitude de quest6es e certamente
nao incluiu a que 6 imediatamente mais important.
Um balango objetivo dos seis dias mostrara que
avangou-se pouco em relagAo As informac6es at6
agora obtidas, mas, sobretudo, a situagao institu-
cional que permit a uma empresa federal de
energia ter um poder de decisAo superior at6 mes-
mo A sua competencia t6cnica permaneceu a
mesma.
Quem pode garantir que o piano global para o


Xingu fol realmente revisto so ha estudos de viabi-
lidade para cada um dos aproveitamentos, que po-
de ser utilizado A media em quo fraquejar a me-
m6ria coletiva ou melhorar o perfil da conjuntura?
Essa definiglo independe inclusive da vontade da
empresa pdblica, tal 6 o peso da estrutura criada
ao long da hist6ria de grandes represas, montadas
cor umas poucas variag6es de engenharia civil e
nada mais.
Os verdadeiros donos do pais
Como mostram todos os depoimentos filtrados
dos gabinetes que tudo decide neste pafs, o Ilti-
mo dos quais de autoria do jornalista Samuel Wal-
ner, nenhum powder se alevanta mais alto no Brasil
do que o das empreteoras. A Construtora Camargo
Corr6a lucrou 500 mlih6es de d61ares em Tucuruf,
onde conseguiu facilmente o contrato principal de-
pois de ser a empreiteira do acampamento pioneiro,
regra inquebrantivel nessas obras, onde contratos
slo aditados como se nbo fossem novos de fato. O
que se pode esperar de uma nova obra cujos estu-
dos de viabilidade tenham sido conduzidos cor a
assessoria de um consultor que pertence so future
empreiteiro?
Os Indios, como de rest quase todos os bra-
sileiros, sabem muito pouco dessas empreitadas
colossais, que so renovam dentro de uma bitola,
sem a participagAo efetiva da nagao, sob regras
previamente definidas apenas pelos parceiros. O
grito de Raoni nAo 6 definitive, nem pods ser aceito
dessa maneira pela nag&o; mas ele pode servir de
alerta, um ponto de partida e nlo um ponto de che-
gada, seja pars os que querem realizar, como os
que pretendem impedir a barrage. Nenhum deles
conseguiu deter a verdade ate agora.


Muito long do Brasil real


U ma Area grande e tao potencialmente rica
como a Amaz6nia esta destinada a viver sob
o permanent interesse Internacional. Pare-
ce afastada, no entanto, a possibilidade de
algum outro pafs se apossar da regio contra a von-
tade de uma naglo cor mals de 140 milh6es de
habitantes, quo exerce sua soberania sobre a Area.
O problems jr nAo 6 mais esse, a nbo ser que um
aventureiro multo poderoso estivesse disposto a
provocar uma nova guerra ilimitada com sua a lo
de conquista territorial. O problems 6: os brasileiros
estAo sabendo realmente como utilizar a Amaz6nia
em sou beneficio, de uma maneira coerente cor os
conhecimentos adequados da ci6ncia e da tecnolo-
gla? Ou, dito de uma maneira mais geopolitica: os
brasileiros estao realmente conquistando a Amaz6-
nia pars si, ou o preco dessa ocupaGio 6 a desca-
racterizagAo da regilo e a dilapidagAo de seu pa-
trim6nio?
O governor tem sido incapaz de responder a
essay questAo. Ignora os nacionais que, ha various
anos, mostram a outra face da "integraago" econ6-
mica da AmazOnia, cujo 6nus pesa mais do que os
beneffcios propagandeados por uma ret6rica obtu-
sa. Quando sao os estrangeiros os opositores, o


governor reage alegando que falta legitimidade a
esses questionadores, comparando a Amaz6nia de
hoje so oeste norte-americano de 150 anos atrds
ou A Inglaterra do inicio da industrializagAo.
Diz o governor que os ricos querem nos impedir
de enriquecer, criticando-nos por repetirmos erros
que antes eles praticaram erros que serlam Inevi-
trveis para qualquer pals tamb6m disposto a ficar
rico. I um racioctnio imobilista: ele ignore que a
compreensao humans evolulu bastante nas dltimas
d6cadas. Evoluiu nao apenas pars prevenir males
que, de outra maneira, s6 poderia remediar (a um
alto custo), como tamb6m porque pods seguir ou-
tros caminhos at6 o progress (e ter um resultado
bem mais coerente cor a etimologia social).
Esta constatagAo nAo significa que a preocu-
pagAo com o que ocorre na Amaz6nia nao esconda
interesse inconfessaveis. Como em varlos momen-
tos no passado, ha pessoas empenhadas em inter-
nacionalizar a Amaz6nia, qualquer que seja o pro-
p6sito. O ilustre brasileiro Tavares Bastos nomee de
ruas, pr6dios ou monuments em varias cidades
espalhadas pelo pafs) nao estava comprado pelo
imperialismo ingl6s quando defended a internacio-
nalizacgo da navegag&o no rio Amazonas: ele que-









ria apenas defender a redugAo nos custos dos fre-
tes, tAo proibitivos hoje quanto naquela 6poca. Po-
de ser que o com6rcio britAnico salsse favorecido
se o Amazonas fosse considerado brago de mar,
mas a media serviria mais aos brasileiros porque,
como a hist6ria provou, os appetites imperialistas
desviaram-se naquela 6poca para a Asia e a Africa.
Tom Falvey, um norte-americano que vem fa-
zendo larga difusAo das suas ideas, defended num
artigo uma proposta: que os pauses do Terceiro
Mundo "coloquem suas florestas virgens sob a
guard das Nag6es Unidas ou cedam-nas para a
criagAo de um Parque Mundial que sera heranga
comum de today a humanidade. Em contrapartida,
haveria o cancelamento de todas as dfvidas inter-
nacionais". Ele consider irrelevant contra-argu-
mentar cor a questAo da soberania brasileira, ima-
ginando que a supervisor international seria ape-
nas "para colbir a exploragAo predat6ria em Areas
designadas".
At6 que se prove alguma coisa al6m de inge-
nuidade e boa intengAo atrAs de Falvey, sua pro-
posta 6 tAo inaceitAvel ao brasileiro medianamente
Instrufdo quanto aos banqueiros internacionais.
Eles hAo de querer seu precioso dinheirAo, embora
grande part dele nao passe de papel, manipulag&o
em cima de manipulagAo (sem falar nos aspects
6ticos que superdimensionaram os custos e mini-
mizaram os efeitos desse endividamento).
Outras propostas, por diferentes motives, pi-
pocam pelo mundo inteiro, quando nada porque a
AmazOnia por si sb 6 capaz de provocar a imagina-
9Ao das pessoas. O ministry italiano para assuntos
exteriores, Giulio Andreotti, props uma morat6ria
da dIvida external em troca da preservagAo amaz6-
nica. Setenta deputados comunistas e da esquerda
independent na CAmara dos Deputados italiano
t6m id6la meals complete: querem suspender os fi-
nanciamentos da Comunidade Econ6mica Europ6ia
As hidrel6trlcas na Amaz6nia; que o Banco Mundial
exija dos projetos sob seu financiamento a prote-
9ao ao melo amblente; e organizer uma entidade
international para acompanhar a exploragAo eco-
n6mica das florestas tropicals, especialmente a
amazOnica.
O president do Instituto Brasileiro dos Recur-
sos Naturals contrap6s a esse ass6dio a informa-
9Ao, passada aos jornalistas em Altamira, de que o
Itamaraty tern um relatbrio provando que os Esta-
dos Unidos "estAo interessados em barrar o pro-
cesso de desenvolvimento econ6mico do pals". Por
isso, a campanha international contra a political
amblental brasileira nao passaria de "uma manobra
do Departamento de Estado norte-americano". Ca-
beria a Imprensa exigir esse e outro document, um
relat6rio clentffico tamb6m encomendado pelo Ita-
maraty, que "demonstraria" a falAcia da tese sobre
o "efeito-estufa", um aquecimento da terra pela
polulglo atmosf6rica (decorrente, centre outras cau-
sas, do desmatamento) que tanto provocaria secas
no "cinturlo de grAos" dos EUA quanto aumentaria
em mals um metro o nfvel do mar (Bel6m, por
exemplo, sofrerA lnundag6es se isso ocorrer).
Ao inv6s de se discutir racionalmente quest6es
que s6 se tornam misteriosas porque os que as


provocam escondem suas carts, a sociedade fica
estonteada por duelos verbals, tAo grandiloq0entes
quanto in6cuos. A velha arrogAncia norte-americana
em relagAo ao hemisf6rio sul emana das palavras
do president George Bush em T6quio ou da ex-
pressao do t6cnico da selegAo de juniorse" em
Jeddah, mas deve-se responder a esse rango cor
uma posture modern, produtiva, e nAo cor a nao
m enos velha ret6rica latina. NAo se duvida de que
baste o general Le6nidas Pires apertar um botAo
"para que today a Amaz6nia esteja protegida contra
invasbes". Seria reconfortador saber que essa
mesma ago instantAnea poderia existir contra os
plihadores da Amaz6nia, que nao precisam atraves-
sar fronteiras (em alguns casos, de valor apenas
emblematico) para saqueA-la. O ministry do Ex6rcl-
to usar como porta-voz dessa e de outras ideas o
senador JoAo Menezes da uma id6ia do nivel em
que se trava essa batalha brancaleonica.



da Amaz6nia estivessem sendo usados ra-
cionalmente. S6 o min6rio de ferro de Ca-
rajas vale, na pior das hip6teses, mals do dobro do
que os banqueiros internacionais dizem que Ihes
devemos. A questAo 6 que os bens naturals da
Amaz6nia, por serem tAo mal explorados, agravam
ao inv6s de resolver os problems do pals e da
pr6pria regiAo. E quem se beneficial desse tipo de
acAo anacr6nica nao precise nem de discurso eco-
16gico para manter essa situagAo.
O Brasil nAo necessity de bot6es mirabolantes
para garantir sua soberania sobre a Amaz6nia: bas-
ta fortalecer sua vontade e sua conscl6ncia, empe-
nhando-se firmnemente em realizar, na Amaz6nla,
urn projeto clentificamente respaldado, tecnologl-
camente correto e socialmente just para que sobre
essa fantAstica regilo deixe de pairar qualquer
ameaga real. Expurgando os interesses escusos,
pode-se aproveltar a converg6ncia mundial para a
Amaz6nia traduzindo-a em recursos baratos ou
mesmo a fundo perdido para estudar a regilo,
abrindo-a aos clentistas a submetendo-os As dire-
trizes de ur projeto solidamente national. Esse fil-
tro, no entanto, nAo pode existir quando o governor
boicota a pesquisa e provoca a erosAo da ciencia
na regiao, apunhalando instituig6es como o Museu
EmIlio Goeldi, sob o pretexto de reduzir o deficit
pdblico.
No moment em que o espectro do divida ex-
terna ameaga a Amaz6nia de internacionalizagAo,
na 6tica dos que preferem ver fantasmas so melo
dia do que a realidade difusa,. um banqueiro nacio-
nal, o ex-ministro MArio Henrique Simonsen, cita
alguns ndmeros que s6 nao nos trazem so mundo
fatico se nAo quisermos. Ele diz que a cada m6s de
juros altos custa so governor, que pratica esse re-
gime econ0mico, quase sete bilh6es de cruzados
novos, pagos aos detentores de papeis officials (tal-
vez 90% deles nas mAos de banquelros). Em m6s e
melo de novo Piano Verio, foram mais de NCz$ 10
bilh6es (ou 10 bilh6es de d6lares, a dar cr6dito so
cAmbio official Assim, estaremos colocando nos
bolsos dos nossos banqueiros quase tanto dinheiro










quanto o que mandamos para os colegas deles es-
palhados pelas principals capitals do mundo, au-
mentando o deficit pdblico em mais 2% do Produto
Interno bruto por m6s. Todas as despesas que o
governor puder cortar demitindo pessoal abateriam


0,5% desses 6nus.
Este 6 o Brasil real. Quem nAo quiser ve-lo,
que escolha a ilusao ao alcance das mros, em grito
de guerra Kayap6 ou em discurso de corte de fita
em cerim6nia official.


0 prelufdio de uma nova era?


NAo podendo estar pessoalmente present ao en-
contro dos povos indfgenas em Altamira, enviei a Pauli-
nho Payakan, responsgvel pela organizagAo da maior
reuniSo de (ndios da hist6ria brasileira, o seguinte texto.


D esde que rasgou na floresta uma teia de estradas
pare "integrar" a Anraz6nia a economla naclonal
e abri-la A participagio do capital estrangeiro, o
governor brasilelro assumlu a responsabilidade
por uma aventura sem paralelo na hist6ria da ocupa io
humane de novas fronteiras no planet. Alem de bilhies
de d6lares gastos em obras pOblicas a subsfdlos oficiais
a "pioneiros" privileglados, o governor mobilizou sue ca-
pacldade publicitAria pare convencer a todos, dentro e fo-
re do pars, de que estava sob seu control uma maneira
diferente de colonizagAo, um "modelo" mals coerente
com os novos tempos, uma realizagio capaz de Inaugu-
rar um novo milenlo.
Com o ufanismo oco de que costume se armar nos-
sa burocracia, um ministry dos tempos do rodoviarismo
doldivanas se encarregou de destacar pars o mundo que,
do espago, os astronauts divisariam no azulado planets
de origem apenas duas obras humans destacAveis: a
muralha da China e a Transamaz6nica. NAo percebeu
a autorddade a sutil ironia Imprlcita na comparagAo: a mu-
ralha deveria servir de escudo contra a ofensiva dos
bArbaros, no que falhou tAo primariamente quanto, s6cu-
los depois, a famosa Linha Maginot; jA a Transamaz6nica
se transformaria numa das art6rias de penetragio da
barbarle na "Oltima pAgina do Genesis ainda nAo escri-
ta", qua Euclides da Cunha observou quando o desma-
tamento representava 0,02% da paisagem original, embo-
ra acumulado em tres s6culos de hist6ria. Agora jA estf
passando de 8%.
Essa pigina delegada pelo Criador so coadjuvante
human esti, hoje, marcada por garranchos; comprome-
tida Irremediavelmente em alguns pontos. NAo menos de
15% da atual drvida external brasileira desvlou-se para
essa aventura amaz6nica, qua ponteou em todos os mo-
mentos da ret6rica official triunfalista. Mas na reglio o di-
nheiro tern o efelto de um bumerangue: entra, circula e
volta A mAo do langador, multiplicado.
A Amaz6nia enriquecou bolsos, currfculos, prestf-
glos, mas dentro delay os principals registros sio negati-
vos: nos inflacionados obituarios, nas espantosas esta-
trsticas socials sobre malarias e doengas medlevais re-
divivas, como a febre tif61de ou a lepra, ou nos quadros
dantescos que surgem como garranchos antediluvianos a
margem das publicag6es oficiais em papal acetinado.
O trem modern de CarajAs percorre um amblente
social do s6culo dezenove, perseguido por fndios, pos-
selros a gardmpelros; centre a mine e o porto, supermo-
demos, 900 quil6metros de uma mis6ria qua se irradia,
tendo como marca e sinete o babacu e a barriga grande
dos curumins. O bumerangue do capital circular em espi-
ral, mas 6 14 fora qua esti seu destino. O progress 6
uma fantasia tAo pouco exata quanto o acesso desse po-
vo generoso a energia que passe por sobre suas cabe-
gas, espetada em extra-alta-tensio a torres metflicas
que nfo foram feitas para serem rebaixadas e tornadas


acessrvels A gentle da terra, mas sos foraneos, sos bwa-
nas colonlzadores.
Quinze anos atras os habitantes de Tucurur tive-
ram, diante de mais um dos cones desse progress
prometido do trono de Brasnia, a esperanga que se reno-
va desde que os distantes trolanos se viram frente a
frente cor o enorme cavalo de madeira deixado pelos
gentis inimigos. A Amaz6nla vivera at6 entSo sob o aca-
lanto da promessa de energia, a catapult de novos tem-
pos de prosperidade. A hidreletrica de concrete comega-
va a brotar do velho leito do Tocantins pars separar as
6pocas. NAo houve, exceto por um ou outro questiona-
mento isolado, nenhum contracanto aos harpejos da Ele-
tronorte: sua palavra era, entao, a fonte inquestionavel
da verdade. A Amaz6nia sabia de hidrel6tricas apenas
pelos min0sculos exemplos de Coaracy Nunes a Curui-
Una, mais modelso" negatives, de como nio fazer, do
que indicadores positives. A Eletronorte dispunha, entao,
da r6gua e do compasso, autora Onica e exclusive da
obra.
Hoje estamos cads vez mais nos conscientizando
sobre os resultados da heranga qua nos fol passada. I
claro qua sem Tucurur e sem Balbina estarfamos expos-
tos a racionamento ou mesmo enfrentando problems
ag6nicos de suprimento. Mas qua mania tem este pafs de
racionar sempre por baixo, sempre optando centre o rulm
e o menos ruim, usufruindo pouco dos pesadrsslmos
6nus que essas obras Ihe acarretam. Os autores exclu-
sivos dessas obras tentaram justificar esse privil6gio
alegando qua eram os sumo-sacerdotes do planejamento,
que deveria ser tragado no olimpo brasillense pars nio
ficar impregnado pelas imperfeig6es da planrcle dos ho-
mens.
Vemos, no entanto, que essas grandes obras slo a
arrematada culminagao de uma anarquia estatal, s6 ex-
plicavel pela absolute alianga firmada pelos tecnocratas
cor os allados supremos do sistema. Dinheiro pdblico
nunca 6 desperdlcio quando serve A multiplicagAo do lu-
cro privado; quando remunera trabalho vira o pecamino-
so"d6ficit p6blico" de que os sacerdotes monetaristas
exigem a remissAo.
Se o "linhoo" de Tucuruf tivesse seguido para no-
roeste e nao apenas para o norte e leste, nio se teria
gasto jA 600 milhOes de d61ares em Balbina (muitos ou-
tros milh6es ainda a serem consumidos pelo custo finan-
ceiro), ediflcando all um monument A insensatez. Se
Tucurul correspondesse a um projeto nacionalmente ge-
rado, so inv6s da decisao vir comunicada de T6qulo
atrav6s de telex, o construtor teria observado melhor a
regiAo para aprender e apreender sua especificidade, o
mundo multissecular marginal so rio. Nio teria secciona-
do um curso d'Agua de dois mil quilometros de extensao,
ignorando os efeltos abaixo de barrage; nio teria afo-
gado o bem mais nobre desta regilo, que 6 sue floresta;
nAo teria desprezado a complexidade de uma natureza
que, nio conseguindo induzir uma atividade humane con-
ciliadora e dialetica, reage A agressAo, desencadeando-
se um circuito de mutuas agress6es que fizeram, do ce-
nairo original tocado pela mAo do home, uma palsagem.
mais proxima do inferno do que do parafso.











T ucurul, que assistiu calada e quiets o surgimento
da maior obra de today a hist6ria da Amaz6nia, viu
tamb6m constitufroem-se dols mundos mutua-
mente excludentes. Uma realidade deste final de
s6culo vinculada A barrage, cor salArios, assistencia
social, algum conforto, alguma reserve de rendimentos
preservada. E a seis quil6metros de distAncia, na velha
sede municipal, um panorama algumas vezes biafrense,
ainda mals contrastante por causes de certo nfvel sueco
na vila residential ds hidrel6trica.
Hoje todos sabemos que os melhores ganhos da hi-
drel6trica sio obtidos pela contabilidade das fAbricas de
alumfnio, outros cavalos de Tr6la trazidos pars dentro da
Amaz6nia sob os acordes de fanfarras. Disfargados de
metal, esses ganhos vAo se multiplicar ap6s os portos
onde os lingotes slo desembarcados. A Amaz6nla esta
entrando pela port dos funds de uma hist6ria recontada
depois quo o home percebeu o custo e a temporarieda-
de da energla.
t possfvel qua multos dos participants deste en-
contro nio saibam exatamente o que 6 melhor pars si, o
que querem exatamente. Mas decorridos 15 anos do inf-
cio da construgao de Tucuruf, 6 muito malor o nOmero
dos que ja sabem o que n8o querem, capazes de rejeitar
uma cantilena do progress que nio pass de mistifica-
gAo desse mesmo progress. I temerArio fazer afirmati-
vas definitivas sobre o projeto de aproveitamento ener-
g6tico do rio Xingu; acho que julgamentos categ6ricos
sao invilveis, so menos por enquanto, & falts de informa-
g6es mals consistentes sobre o projeto em si e o amplo
context no qual ele se insere, chelo de sutilezas e des-
dobramentos.
Justamente por isso, uma attitude sadia, em favor do
bem coletivo, deveria levar o governor a admitir que, na
passage do estudo de viabilidade para o projeto basico,


a Eletronorte fosse acompanhada por uma comissAo or-
ganizada pela sociedade, uma esp6cle de conselho con-
sultivo integrado por entidades nio governamentals e
dotado de poder real de deliberaglo, cor pleno acesso
so que a empress estiver fazendo. Todos parecem con-
vencidos de que o barramento de um grande rio na Ama-
z6nia 6 tarefa tAo complex que transcended os limits de
uma simples empress de energia, ainda que ela contasse
corn a conflanga da sociedade a estivesse intimamente
integrada A reglAo, o qua nAo 6 o caso ou ainda nAo 6 -
da Eletronorte.
0 silencio nio ajudou em nada A obra de Tucurur.
Ao contrario, depois do mutismo a socledade foi surpre-
endida por conseq06ncias funestas. Qualquer que tenha
sido a autoria dresses erros, e ainda que eles tenham si-
do gerados sob a melhor das inteng6es, quem paga o
prego final 6 o povo. Qua o povo salba exatamente o que
esta pagando, 6 o mfnimo que se pode exigir.

A hist6ria do Xingu comega jA a melo caminho da
consumasgo das inteng6es cor algum barulho. Parts
dele pode nAo passer de rurdo dissonante, puro decibel.
Mas no meio dessa algaravia hA a voz ds gentle ds re-
giAo, que nunca aparece no coro official da sagragAo das
obras. I muito bom que os donos originals de terra este-
jam exigindo qua, neste novo caprtulo, o registro deixe de
ser um solil6quio official. Que os cantos dos Kayap6s
sejam interpretados como sfmbolo de uma era mais f6rtil,
a voz de todos n6s que temos apenas lamentado o sa-
qua, a pilhagem e a devastagfo de terra qua fizemos
nossa cor nosso coraglo a nosso c6rebro, cor a forge
das nossas maos a a abstragco de nossos ideals. Tam-
b6m queremos canter a criagfo mais harmoniosa, mals
proveitosa, no canto felto por n6s e em nosso favor. Do
contrarlo, nada valhe a pens e a Amaz6nia continuar8 a
ser apenas a terra devastada.


Quem pode ajudar a Amaz6nia?


Pode falar sobre a defesa da natureza um Indio que
patrocinou a polulgAo de varios cursos de Agua dentro de
sua reserve a etrocou a solidez de sua culture por dinhei-
ro pars gastar sem medidas? A maloria esmagadora dos
broncos qua acompanharam o encontro dos fndios em
Altamlra, em ndmero at6 superior so dos protagonistas,
jamals farh uma colocag8o dessas publlcamente, mas al-
guns devem ter pensado nela so ouvir as palavras do
cacique Kayap6 Tuto-Pombo, o primelro a abrir a grande
reserve do Xlngu a garimpelros, madeirelros e empretel-
ras. Hoje, sue tribo e, acima dela, o pr6prio Pombo -
vive completamente dependent da renda obtida, sem fa-
zer uma aplicagio equllbrada desse dinheiro.
Se o conhecesse, o bl6logo norte-americano Kent
Redford poderia cita-lo como exemplo de uma these que
apresentou durante o Slmp6slo sobre ConservagAo de
Diversidade Biol6glca no Brasll, realizado em Belo Hori-
zonte paralelamente so encontro dos indios em Altamira.
Ele props que os ecologlstas nio se limltem a pregar a
criag o de reserves Indfgenas, mas lutem tambem pala
exploragAo racional dos recursos naturals nas Areas ha-
bitadas por Indlos, seringuelros, castanheiros e pescado-
res na Amaz6nla. Lembrou que multas vezes os Indlos,
presslonados pelo process de aculturagio, destroem
sues pr6prias reserves em troca de vantagens comer-
clals, como venda de peles de animals e Arvores, ou au-
torizagio pars exploragAo de garimpeiros.
Embora advertido pars os grandes riscos de sue
iniciatlva, Pombo contlnuou estlmulando a penetragAo
dos broncos na Area do Klkretum porque deu priorldade A
renda dos contratos. Ningu6m consegulu convencer os


Kuben-Kan-Kreln de que seus parceiros em Redengio e
Xinguara nio eram pessoas conflAvels porque receblam
deles presents naturalmente, de valor muito inferior A
das riquezas que extrafam. I sempre bom nio esquecer
que a pureza 6tnica nio resisted so poder de sedugAo do
dinheiro, mas Isso nAo significa tamb6m que o Indlo es-
teja "perdido": basta considera-lo no novo context, aju-
dando-o a ter um relacionamento proveltoso cor a clvill-
zaglo que o cerca.
Em alguns casos, Isso significa simplesmente
mant6-la A dlstancia, o mals distant possfvel. Foi o que
ocorreu com os Yanomami: por agio ou omissAo, o go-
verno permitiu que 42 mil garimpelros penetrassem no
territ6rlo dos Indlos e agora anuncla a disposigfo de reti-
rh-los, uma operagAo diffcil e arriscada ou Initll, jA que
os oito milhOes de hectares relvlndlcados foram trans-
formados em um arqulp6lago de lots com menos de 30%
do que constitul a ocupagAo hist6rica dos rndlos.
Eles tem os justos motives pars querer uma defini-
gfo jurfdica de suas posses, que sao Imemorials, e nio
menos pare desconflar de que mesmo esses direltos nio
serAo respeltados, preferlndo assim evitar a vizlnhanga
de proprletarlos cobigosos. Mas a proposta que o cantor
ingl6s Sting langou no Brasil, de fundir a reserve dos Ka-
yap6 ao Parque Naclonal do Xlngu, pode, na prAtlca, tra-
zer mals problems sos indlos. Em dols trechos do XIn-
gu, as duas reserves ji somam aproximadamente olto
milh6es de hectares. Para serem uma s6, teriam que ab-
sorver mais 270 mil quil6metros quadrados, mals do triple
de suas areas. Um conglomerado poderoso de Interesse
estaria disposto a tudo: al6m de nAo ceder novas Areas,









poderia Investir contra as duas boas reserves que os in-
dios ji tem.
Que se quelra proteger esse pedago do pararso da
predagAo, 6 uma colsa. Mas essa just defesa nAo pode
ser reallzada em nome dos Interesses dos rndios, sob
pena de jogar contra eles Interesses mais poderosos do
que eles podem enfrentar. Da mesma maneira, pode-se
combater a conclusio da BR-364 ou da Transamaz6nica
e o asfaltamento do trecho Rio Branco-Porto Velho serm
preclsar recorrer A pressAo dos Estados Unidos, mas a
raz6es bem nacionals. Realizar essas obras sem uma
drastica redugio na pressio demogrifica felta sobre a
AmazOnia pelas migrag6es (o que implica resolver os
grandes problems nacionais, que tomam a Amaz6nia -
por falta de tratamento carajoso como vAlvula de esca-
pe ou Instrumento de barganha), signlfica repetir todos os
erros do passado. E fazer o jogo dos japoneses, que
estlo querendo extrair a madeira pelo Paclflco.
As questoes nAo sio tao samples quanto pretend o
"voyeurismo" de multos dos que estiveram em Altamira
ou ainda virlo a events semelhantes, sempre atropelan-
do a toponlmla e a hist6ria da regilo, corn a qual tem fre-
qQentemente corn comprometimento de ocasilo. Sempre
atento as oportunldades, JAnio Quadros anunclou, de
Londres, que sua plataforma de candidate A presidencia
da Repdblica preve "a defesa da AmazOnla contra a de-
predacgo". A Amaz6nia nAo 6 uma competencia exclusi-
vista de ningu6m e espera agora, como contrapartida do
Interesse mundlal, contribuigAo menos predat6ria do que
o capital internaclonal. Mas passard bem melhor se dis-
pensar algumas ajudas.


Trapalhada ferroviaria
Enquanto continuava a receber crIticas por in-
sistir em levar adiante o projeto da ferrovia Norte-
Sul, o governor langava tranquilamente, na semana
passada, o edital para a construgAo de uma outra
ferrovia, a Leste-Oeste, que, quando conclufda, terf
1038 quil6metros de extensAo. Ela ligar6 Cuiaba,
capital de Mato Grosso, a Santa F6 do Sul, em SAo
Paulo, entrando em operagAo em 1992. Numa se-
gunda etapa, seria prolongada a Santar6m, no Pa-
ra, e Porto Velho, em Rond6nia.
Mesmo sabendo-se que desde logo ja ha uma
vencedora da concorrencia, a Constran, a construto-
ra do grupo Itamaraty (de Olacyr de Moraes, o "rei
da soja"), nAo houve protest algum. O ministry
dos Transportes, procurando tranquilizar eventuais
navegantes, avisou que a obra nao acarretar6 qual-
quer despesa ao governor: ser6 totalmen s executa-
da pela iniciativa privada, conform o modelo que a
Nova Repdblica resolve adotar, reeditando as pra-
ticas do "Velho Oeste" norte-americano, do Imp6rio
e do intcio da Repdblica brasileira.
A prinofpio, a intengAo era logo entregar a fer-
rovia ao grupo Itamaraty, autor do projeto da Leste-
Oeste, atrav6s da concessAo direta, mas a nova
Constituigio exige a licitagAo. A nAo ser que surja
uma surpresa fora do control do governor e do em-
presariado (o que 6 pra It de diffcil), a concorr6ncia
nAo pass de formalidade. S6 que a empreitada da
nova ferrovia tem uma novidade em relagco aos
tempos antigos da expansfo da fronteira nos Esta-
dos Unidos: al6m de explorer comercialmente a li-
nha f6rrea, a Constran teri a decisive ajuda finan-


ceira do governor, poupando o precioso capital que
os primeiros "lanques" arriscavam.
Como part do tragado da ferrovia 6 em terri-
t6rio da Amaz6nia Legal, a Sudam aprovou, em de-
zembro, conceder 274 bilh6es de cruzados (valor da
6poca) dos 689 bilh6es em que a obra estava orga-
da. A pregos de hoje, essa colaboragAo financefra
ultrapassa 350 milh6es de cruzados novos, no
maior comprometimento de toda a hist6ria da Su-
dam. Essa parceria resultard no control privado de
uma obra publica cor dinheiro pdblico a custo zero
em favor do empresario. A aprovagao do projeto do
grupo Itamaraty significar6 ainda a explosAo do or-
gamento da Sudam nos pr6ximos tr6s anos. Cor a
aprovag&o da licitagAo, a empresa ja comegar6 a
ter direito a contrapartida. E vai sugar quase tudo o
que estiver disponfvel no mercado.
A imprensa preferiu passer ao largo desse no-
vo "modelo" de colaboraAgo entire o Estado e a ini-
clativa privada, que devolve o Brasil a Africa dos
tempos de sir Cecil Rhodes, talvez porque o sr.
Olacyr de Moraes seja considerado um personagem
emblem6tico do capitalism national nos luxuosos
gabinetes da elite jornalfstica. Os ataques foram
centrados na precaria ferrovia Norte-Sul.
Curiosamente, por6m, uma long reportagem
da revista "Isto 6" nAo toca no ponto basico dessa
idiossincrasia, mantida pelo empenho paroquial do
president da Repdblica cor seu feudo polItico (e,
A distAncia, estimulado por apetites muito mais
amplos da Companhia Vale do Rio Doce com seus
inseparaveis parceiros japoneses, que se empe-
nham pelo porto asidtico"). Se a ferrovia for reali-
zada em toda a sua extenslo, de Imperatriz ao
Centro-Oeste, estara integrada ao piano de escoar
a produg&o dos cerrados at6 porto litorAneo que os
transferred para navios do JapAo. Mas, cor apenas
100 quil6metros, entire Imperatriz e Agaildndia, no
MaranhAo, a ferrovia vira um anacronismo e um ab-
surdo. Desde os bancos escolares, todo cidadAo
aprendeu que a ferrovia 6 o melhor meio de trans-
porte para grandes distAncias, n&o para pequenas,
porque o investimento inicial, mais pesado, nao po-
de ser amortizado por seu rendimento e a obra
nAo gera os beneffcios qua traz quando concebida
tecnicamente de forma correta.
Assim, ou algum parceiro privilegiado que se
instalard entire as duas cidades maranhenses vai
ser beneficiado, ou o president quer pelo menos
salvar seus interesses provincials enquanto 6 tem-
po. Se nAo continuar a ser implantada, a ferrovia
sera um atestado dessa mediocridade instalada no
trono de Brasilia. Se continuar, pode star conde-
nada a tornar-se um novo bscAndalo do tipo da Fer-
rovia do Ago. Em qualquer caso, pagarA a conta
quem sequer fol consultado sobre o cardipio.


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