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cio Flvio Pinessoal Lucio Flavio Pinto Ano II N2 33 Circula apenas entire assinantes 1a Quinzena de Janeiro de 1989 ASSASSINATE L6gica de faroeste Matar tornou-se fato trivial na ultima fronteira disponivel ao home. Mesmo quando a morte repercute no mundo inteiro, as coisas acabam voltando ao seu curso "normal" e, com ele, tambem a morte. Mendes Filho confessou & jornalista norte-amerl. E m outubro do ano passado, Francisco Alves Mendes Filho confessou A jornalista norte-ameri- cana Fay Haussman: "Para n6s, at6 recente- mente, a expressio meio ambiente nem existia". Algumas semanas ap6s esse encontro, ao completar 44 anos, Chico Mendes fol morto com um tiro de escopeta que introduziu em seu corpo 60 fragments de chumbo; e tornou-se o primeiro her6i da martirizada luta ecol6gica na Amaz6nia. Seringueiro desde os 9 anos de idade, analfabeto at6 os 24 anos, extrator de l8tex durante 26 anos segul- dos, Chico Mendes atraiu para a perdida cidade de Xapu- ri, no distant Estado do Acre, as ateng6es mundiais. O primeiro brasileiro premlado pela ONU (OrganizagAo das Nag6es Unidas) pela contribuic o dada a consciencia ecol6gica, interlocutor de instituig6es do porte do Banco Mundial e do Banco Interamericano de Desenvolvimento, foi assassinado por uma famnlia de delinqOentes, traves- tidos de proprietArios rurals, quando ia tomar banho em um r6stico banheiro de sua humilde residencia. Haussman, uma "brazilianist" de tradigAo, que diri- ge os seminarios sobre Brasil na Universidade de Co- lumbia, nos Estados Unicios, anotou que Chico Mendes foi assassinado "pelos inimigos que temeu e tinha toda a razAo de temer". Duas semanas antes de ser morto, na noite de 22 de dezembro, Chico Mendes foi A cidade de Piracicaba, no interior de Sao Paulo, falar em um seminA- rio sobre ecologia. Diante de membros da comunidade cientffica national e international, citou os nomes das pessoas que Iriam mata-lo e praticamente despediu-se dos presents. Em tom pat6tico, disse que preferia conti- nuar a viver, mesmo sabendo que, como martir, ajudaria ainda mais a causa dos seringueiros. Nunca houve morte mais anunciada do que essa. Nem mais chocante. Uma conspiragio ? Pessoas profundamente emocionadas com a con- firmag o da morte por todos esperada, e temida, tiveram a mesma reag o, em SAo Paulo, Bel6m, Londres ou Nova lorque: era mesmo impossrvel evitar a consumagAo da ameaga, que desde outubro obrigara Chico Mendes a aceitar permanent escolta policial? A fatalidade da more do Ifder dos seringueiros acreanos levou a uma deduggo mais ou menos inevitavel: o atentado deve ter sido organizado por uma ampla e poderosa organizagAo, que planejou cads detalhe e contou ainda cor a coniven- cia da polfcl ae de outras autoridades. O enredo se ajusta genericamente a todos esses ti- pos de atentados que se pratica cor freqOincia cada vez mais assustadora na Amaz6nia. Contudo, nao hA proves de que de fato ele tenha existido no caso de Chi- co Mendes. Parece pouco provAvel que se consiga enre- dar a UDR (Uniio DemocrAtica Ruralista) no assassina- to, mas estA fora de dtvida que a entidade sabia muito bem o que iris acontecer. Ciente da expressAo que o hu- milde seringueiro adquirira internacionalmente, a UDR nao se exporia a tamanho risco. Num "ponto de vista" escrito pars a revista Veja desta semana, o president da UDR de Curitiba, Abelardo Luiz Lupion Mello, diz pragmaticamente que matar "6 um mau neg6cio". Mas pode ser bom neg6cio saber que algue6, sem conscien- cia da gravidade do ato praticado, decidiu mater uma pessoa inc6moda. Associados da UDR t6m aparecido tangencialmente nesses crimes de encomenda, no qual s6 se envolvem pars saber que serio praticados. Nao 6 o suficiente para serem legalmente indiciados, mas, se adequadamente pressionados, poderiam dizer muito mais do que o que declaram oficialmente. Contribuem para o crime por sua omissio convenient e saem rapidamente de cena ou tentam para evitar que esse tipo de participagio seja desvendado. NAo deve ter sido por mero acaso que o fa- zendeiro Jofo Branco, president da UDR do Acre, dei- xou as presses Rio Branco, em taxi a6reo fretado, cinco dias depois do assassinate, indo pars Corumb6. Branco, que ter um journal a sua disposigao na ca- pital acreana e esta montando uma emissora de television em vias de funcionar, se antecipou a todos, anunciando a rendigio do filho de Darli Alves da Silva, um dos piv6s do atentado, horas antes de ela consumar-se. O president regional da UDR definiu a situagio de Darli como a de "ur boi encurralado". Esquecsu um acr6scimo esclare- cedor: boi de piranha. A maior mobilizag~o policial de todos os tempos pa- ra a capture dos assassinos de um Irder rural s6 foi para o campo depois de estar bem caracterizada a origem do crime: o atentado comegou e terminou na famflia Alves da Silva. OriginAria de Minas Gerais, ela deixou em seu rastro, que passou pelo ParanA antes de chegar ao Acre, uma sucessao de crimes, acumulando mandados de pri- sao da justiga de tr6s Estados. SAo crimes tfpicos de ja- gungos, dos que nlo vAo alem de uma posiggo interme- diaria na hierarquia de powder. Mas, gragas aos rnvios caminhos fundiirios da Amazonia, Alvarino e Darli torna- ram-se prestigiados e temidos proprietirios de duas fa- zendas em Xapuri, a maior delas cor 17 mil hectares. 0 senhor da terra Todos em Xapuri tinham medo de pronunciar os nomes de Darli e Alvarino. Eram como senhores medie- vais, de barago e cutelo, distantes encaixes de uma es- trutura de powder que os deixa reforgar-se nos liames pa- roquiais. Brasflia pode sacrificar esses aneis remotos da alianga, mas os Alves da Silva em Xapuri, como os Mu- rad no Baixo Araguaia ou os Virlandes no M6dio Tapaj6s, mandam nos delegados e slo parceiros das autoridades, disp6em sobre as vidas de amigos e inimigos. Quando estao em dificuldades, a forga p6blica se transform em millcia particular a servigo deles. Os Chi- co Mendes nao sAo mais do que pedregulhos no cami- nho, fdceis de afastar, ainda que o arraste ecoe long. I s6 marcar o dia e a hora pars eliminA-los. Rudes, os Al- ves da Silva nao poderiam imaginary que estavam mexen- do em invisfveis cord6es que passaram a se ligar A vida de Chico Mendes pela singularidade de sua expressio, a Matar: fato trivial na u(ltima fronteira Al6m de dois premios internacionais ganhos em vida, o humilde Chico Mendes teve direito, na morte, a uma chamada de primeira pagina e ao principal editorial do "New York Times", o mais influence journal do planet. JA o mais influence journal brasileiro, "0 Estado de S. Paulo", deu um discrete registro no primeiro sAbado ap6s a morte (ocorrida na quinta-fei- ra a noite, 22 de dezembro), ignorou o assunto no domingo e na terga-feira seguintes e s6 deu-lhe um tratamento mais destacado quando Darli Alves dos Santos, um dos principals articuladores do atentado, foi preso. 0 journal, depois de minimizar o crime, alar- deou a punigco. Mas nenhum comentArio fez sobre um dos mais chocantes homicidios da histdria brasi- leira recent, embora a defesa da vida constitua um dos components bdsicos do liberalism, que "0 Estado de S. Paulo" se orgulha de defender. 0 "Jornal do Brasil", o de menor tiragem entire os. quatro grandes jornais do pals, mas de prestfgio s6 inferior a "0 Estado", comegou a cobertura da morte de Chico Mendes com um alentado editorial de primeira pagina, raro para os seus padres, e tres pdginas internal. Foi, desde entao, o journal que me- Ihor "cobriu" o caso. Ate mesmo o rfgido "0 Globo" abriu generosos espagos, superiores aos da "Folha de S. Paulo". Os jornais paulistas atenuaram o que os cario- cas avaliaram com mais sensibilidade. Por que esse contrast, que se tornou tamb6m umacontradigao com os princfpios que "0 Estado" e a "Folha" decla- ram seguir? E possivel que essa reticencia diante do assassinate de Chico Mendes tenha a ver com a presenga do PT na prefeitura de Sao Paulo, o mesmo partido que o seringueiro fundara em Xapuri. A pre- feita Luiza Erundina plantou uma Irvore em S&o Paulo em homenagem a Chico Mendes e elogiou em seu discurso os lavradores paraibanos. 0 "Estadao" nao achou de bom tom essas referbncias, rudes de- mais para ouvidos quatrocentdes. A television, nesse perfodo, estava envolvida o bastante com o assassinate de Odete Roitman numa novela que diz tudo, em seu tftulo (o enredo costume ser apenas uma extensao hiperbdlica da intengdo do autor), sobre o "estado das coisas" no pals: "Vale Tudo". Vale e compensa. A imprensa, sobretudo por sua experi6ncia nas Oltimas tr6s decadas, deveria ter-se convencido de que quando nao valem as leis, quando nao vale o respeito pela vida, quando nao vale a dignidade da pessoa humana, a imprensa tam- bem vale nada. Um tiranete qualquer, nesses casos, a amordaga e a esmaga. Quando cala ou se torna tf- mida diante de atos que violam os princfpios da liber- dade e do respeito, a imprensa consent. Quem con- sente com os atos tirinicos, merece a tirania. Hitler renovou essa ligao para o povo alemdo e para todos os povos com acesso a histdria. Alguns jornais pre- ferem inventar estdrias. expressAo Onica de um caboclo quo encontrou uma forma eflclente de lutar por suas convic96es na verdade, me- nos um "corpo" de id6las e mais uma percepgAo Instinti- va do caminho da salvagAo: a defesa das Arvores da flo- resta, reduto da competencia e do saber que acumularam com os anos. Em muitas parties do mundo, nomes res- peitAveis chegaram a essa conclusAo trilhando caminhos intelectuais muito mais complicados e muito menos in- tensos de vida. A combinagAo teria que criar uma solida- riedade nAo perceptfvel a gente como os Alves da Silva, o padrlo de uma corrente migrat6ria que a Amaz6nia nfo pediu, nem a favorece, mas da qual nAo consegue mais se livrar. Para o sistema de poder local, alimentado pela vio- 16ncia, as coisas all estavam perfeitamente claras. De um lado, o emblem da alianga: o fazendeiro que velo de fore para domar a "fronteira"; do outro lado, o native tei- moso que se interp6e ao determinismo do "modelo". A escolha entire as duas parties 6 imposta de fore, categori- camente, prescindindo qualquer reflexAo. Xapuri, mal co- nhecida possessAo brasileira na divisa com a Bolfvia, foi Area de seguranga national at6 1985 num Estado "nacio- nalizado" apenas no s6culo XX e mantido sob o tacAo da federalizagio fundiAria absolute entire 1971 e 1987. Falar de autoritarismo, all, 6 mais do que fazer filosofia. Na converse descontralda com Fay Haussman, Chico Mendes disse-lhe que poderia ter conseguido um meio de comunicagao pare divulger a causa dos serin- gueiros quatro meses antes, "mas isso nos pareceu pe- rigoso. Quando tentamos criar a primeira escola para nossas criangas, em 1979, os militares foram visitor o seringal, porque pensaram que n6s, os seringueiros, iriamos nos servir da escola para treinar commandos co- ,munistas". Antes disso, em junho de 1978, um agent da CIA (o servigo secret americano) foi a Xapuri "averiguar pessoalmente as denincias dos fazendeiros de que os seringueiros eram 'uns subversivos' ". Tratamento duplo Essa ladainha, repetida monocordiamente, modelou as conscienclas locals. NAo poderia ser recomposta de um dia pare o outro, mesmo com o consagrador reconhe- cimento international dado ao trabalho de Chico Mendes. Pode-se suspeitar do cabo da Pollcia Militar RoldAo Ro- seno de Souza, de 26 anos, e do soldado Roldio Lucas da Cruz, de 27, que esqueceram todas as medidas de seguranca na protegio a Chico Mendes e fugiram na di- regio oposta A do tiro disparado pelos dols homes em- boscados, que all mantiveram acampamento por dois ou cinco dies, sem serem reconhecidos. Mas todo esse comportamento sus'peito, mais do que indicar a coniven- cia dos militares cor os assassinos, mostra a mentall- dade do policial, que costul%'ser a maior autoridade nesses perdidos ermos amaz6nicts. O caboe 9 soldado nio teriam a natural displic6n- cia demonstrada se, ao inv6s de um seringueiro, a pes- soa protegida fosse um fazendeiro. Este 6 o elelto do modelo, o favorecido, o subsidiado, o incensado na teoria bem urdida em Brasilia, na praxis sanguinolenta de uma Xapuri, uma entire muitas paragons da "fronteira" que estratificou ci adanias a condig6es humans. 0 se- ringueiro ser~~il -pre "o indivfduo", ainda que bipremia- do internacionalmente. O fazendeiro jamais perdera o tratamento de "doutor". Em carta de 28 de outubro ao secretdrlo de Segu- ranga POblica do Acre e ao juiz de Xapuri, Chico Mendes denunciava que em Brasileia "ha mais de dez dies estio sendo realizadas reunites secretes" onde se plajejava o assassinate dele pr6prio e do president do sindicato ru- ral'ide Brasileia. Foi ignorado. Jd o superintendent da Policia Federal no Acre, Mauro Sp6sito, reteve um man- dado de prison contra Darli e Alvarino por 15 dias, ale- gando incorreg6es formals na carts precat6ria, dando tempo aos irmAos de fugir. Pressionado, Sp6sito reaglu Prova contra a investigacao Spossfvel que a Polfcia Federal tenha encon- trado, por mero acaso, a primeira pista mais consis- tente sobre o assassinate do deputado Joao Carlos Batista. Um agent de f6rias, que estava no pr6dio onde a famflia do parlamentar morou, ouviu a conver- sa de dois rapazes com o porteiro. Eles queriam re- ceber a recompensa de cinco milhOes de cruzados - que Sandra, esposa de Batista, teria oferecido atrav6s de uma emissora de radio. Jos6 Carlos Botelho e Manoel Trindade de Freitas diziam ter informagoes sobre dois homes que poderiam ser os assassinos do deputado do PSB. 0 agent levou-os para a sede da PF e la, depois de te- rem contado algumas histdrias desencontradas, um deles, Manoel, descreveu dois pedes de uma fazenda em Santo Antonio do Taua que poderiam ter partici- pado do atentado. Um deles, Urubuzinho, correspon- dia a descricao do retrato falado finalmente revelado pela polfcia. A histdria indicava um rumo interessante porque os dois trabalhavam regularmente como em- pregados da fazenda, mas faziam rapidas viagens para Paragominas, uma das principals bases de atuagao polftica do deputado. Manoel ate foi convida- do pela primo, apelidado de Turu, para participar da morte de "um figurao", em novembro. A 19 de de- zembro Manoel encontrou o primo cheio de dinheiro, cor roupas novas e jdia. A imprensa referiu-se apenas a uma das hip6- teses do caso: a possibilidade de os dois terem in- ventado a histdria para ganhar o dinheiro. S6 que n&o houve extorsdo: nenhum deles conversou com a mulher de Batista. Ela, como a famflia, mudou de en- derego e os dois nao sabiam disso. Logo, a hip6te- se contraria parece indicar melhor, ao menos para que a polfcia tente evitar que a investigaAdo se transform numa combinagCo de fatos bizarros, como a attitude de dois soldados da Polfcia Militar, que es- conderam a arma do crime depois de terem-na rece- bido de duas estudantes. 0 revolver, provavelmente o 38 usado pelo assassino, foi encontrado pelas es- tudantes junto ao Mercado de Sao Braz, alguns me- tros distant do local do crime. Os soldados retive- ram a arma e s6 admitiram que estavam com ela ao serem identificados pelas jovens. A menos alarmante das explicag6es para esse comportamento 6 de que os dois iriam vender o que continue sendo a maior prova material do assassinate. Quando descobriram a complicaago na qual se envolveram, tentaram sair dela pelo sildncio. Se ainda nao ha nenhuma luz sobre um atenta- do cometido num bairro central da maior cidade da Amaz6nia, tem-se mais uma prova do estado em que se encontra a polfcia. denunclando Chico Mendes como "colaborador" da PF desde 1980, "prestando informag es acerca da Area ru- ral, tendo Inclusive fornecido dados que possibilitaram Identificar organiza 6es clandestinas acobertadas por si- glas polrtico-partidarlas". Um colaborador assim valioso nao mereceria ser "queimado" dessa maneira por uma autoridade superior. Em qualquer circunstAncia, um superintendent da PF jamais usaria informag6es desse tipo sob impulses emo- clonais. Poderia comprometer-se, como acabou ocorren- do, dando a impressAo de estar estimulando os inimigos do seringueiro a recorrerem A "solugao extrema". Sp6- sito foi remanejado bruscamente paraoMa4Grosso, corn a Incumbbncia de cuidar do-.trdfic de drogas, uma me- neira tradicionalmente cooprativa de resolver os proble- mas, contornando-os. P" Mesmo quando a fmquina pOblica agia sob o im- pacto international da morte de Chico .4endes, essa promiscuidade entire a administragAo publica e os empre- sarios privados continuou. O fazendeiro Gastbo Mota, suspelto de intermediar o assassinate do seringueiro, e tamb6m de ter ligag6es corn o trhfico de armas e de drogas da Bolivia, chegou a ser preso quando se prepa- rava para atravessar a fronteira, no dia 29 de dezembro, mas foi solto na v6spera do reveillon. "E-u nio tive ins- trumentos legais, como um mandado de prisao, para mante-lo na cadeia", explicou-se o delegado Nilson Alves de Oliveira. A gentileza seria comovente se nao fosse unilateral. Posseiros e seringueiros agradecerlam se fos- sem tratados corn tao elevado legalismo. Efeito anestesiante I possfvel que a prisAo de todos os implicados di- retamente no crime, de executores a mandantes, tenha um efeito igual ao do trago caracterfstico desses atenta- dos, que 6 a impunidade: fazer esquecer que a violencia 6 a marca registrada da fronteira amaz6nica e que a consome cor sua 16gica de irracionalidade. "HA mais gentle e gente important que estava querendo matar Chico Mendes e por isso se deve ir a fundo nas investi- gag6es", pedia o juiz de Xapuri, Aldair Longhini. Mas as investigag6es parecem seguir apenas a linha reta, nAo o trago pontilhado, o inico capaz de levar ao alvo apontado pelo juiz. O que fez os dois assassins dispararem contra o peito de Chico Mendes e acertA-lo corn grande perfcia nAo foram as bandeiras ecol6gicas que tanto emocionam os admiradores estrangeiros do seringueiro. Se meio am- biente s6 entrou no linguajar de Chico meses antes dele morrer, quando viu sua vida refletida nos conceitos usa- dos pelos amigos cientistas, isso tamb6m nada diz aos Alves da Silva. O que eles entendem e o que nlo aceitam 6 a attitude de Chico, de bloquear as derruba- das de mata, que jA haviam consumido 30% dos 17 mil hectares da fazenda ParanA, outrora um seringal e umr castanhal, hoje um past condenado A degradagao. Em 1977 os Alves da Silva dizimaram uma famfia inteira de seringueiros em Xapuri. Impunes, ficaram cer- tos de que poderiam continuar a resolver assim seus problems. Para eles, a mata ser quelmada e em seu lu- gar surgirem pastos 6 um fato tAo natural quanto eliminar os que se op6em a esse "destino manifesto". NAo im- porta que estejam destruindo o bem mais nobre da paisa- gem por uma permuta incerta e nAo sablda, mas certa- mente de retorno menos duradouro do que o proporcio- nado pela floresta (como demonstrou convincentemente Chico Mendes corn sua prAtica, para encanto dos que julgam ter chegado ao mesmo convencimento pelo esfor- go de seus intelectos). Esta "lei" da colonizagAo colonia- lista nAo resisted a 16gica dos arguments. Por isso, se aferra ao argument do 38. "Esses pecuaristas sAo entao inerentemente anti- econ6micos sem generosos subsrdios", diagnosticou em editorial o super-influente journal "New York Times". Em Nova lorque, os que ativam as matrizes de toda uma su- cessAo de ondas que vai desabar nas ffmbrias amaz6ni- cas julgam poder plantar joio e trigo, ventos e tempesta- des, e separa-los no tempo certo, escoimando a civiliza- 9go das chagas da barbArie. O mesmo BID que ouvia Chico Mendes concedeu dois empr6stimos ao Brasil em 1985, no valor de 58,5 milh6es de d6lares (mals de 600 bilh6es de cruzados no cAmbio real) para o financlamento parcial da BR-364, no trecho Porto Velho-Rio Branco. O banco abre mais um pedaco da fronteira ao sa- que, mas quer que seja executado o Projeto de Protegio ao Meio Ambiente e das Comunidades Indfgenas, ideali- zado por Chico Mendes. Em 10 anos, corn a estrada sendo asfaltada, Rond6nia perdeu 25% de suas florestas. O Acre, ponto terminal de uma rodovia de ciclo curto, te- ve destruldas 10% de suas matas. O BID quer irrisao e utopia, combinag o que s6 ocorre em Nova lorque e mentalmente. Depois de desencadeado, o fogo nao cos- tuma ser seletivo. Vira incencio. Chico Mendes 6 agora uma generosa bandeira de luta, que fez o PT eleger tres dos nove vereadores de Xapuri e deu aos ecologistas do mundo inteiro mais um slmbolo. Com dois filhos pequenos, um de quatro e outro de oito anos, mulher nova e desafogo da brabeza de cortar seringa nos cafund6s do mundo, Chico Mendes queria mesmo era viver. Mas juntar as duas coisa a defesa das ideias e o direito A vida esta definitivamente abolido no inferno amaz6nico sancionado pelos novos donos da terra. Uma inquisiao em novo estilo Em artigo para o tltimo ntmero da revista "Veja", o president da UDR de Curitiba, Abelardo Luiz Lupion Mello (provavelmente parent do terrrvel Mois6s Lupion), escreveu: "Como liberal, estou num campo ideol6gico oposto ao do sindicalista Chico Mendes, mas reconhego a validade da luta do ecologist Chico Mendes. Ser ideologicamente contra ele nAo invalid sua luta em favor da natureza". Lupion teria feito melhor aos seus leitores se ten- tasse esclarecer qual 6 a ideologia de Chico Mendes. Mas, ao contrap6-la ao liberalism, esta insinuando que o seringueiro (alfabetizado durante 20 dos 44 anos de sua vida) 6 comunista. A Insinuagao dos poderosos 6 muito plor do que uma acusaQgo aberta: ela sugere perigo letal e destila a recomendaggo de puniglo. E o m6todo que a UDR utiliza quando escreve, mas nem sempre consegue adotar quando fala. Em entrevista em Sgo Paulo, o president da enti- dade, o glarourizado Ronaldo Caiado, acusou Jan Ro- cha, uma respeitAvel jornalista, correspondent hA 15 anos no Brasil da honorAvel BBC de Londres (cujo libe- ralismo estA muito mais provado do que a etiqueta que Caiado e Lupion se entronizaram), de fazer parte de uma esp6cie de international ecol6gica mantida por multina- cionais. Seria samba do crioulo doldo nao fosse, antes, atestado da irresponsabilidade das nossas elites rurals. Elas sao capazes de ostentar comospolitismo e libera- lismo numa reunigo social, mas sacam logo o 38 quando seus interesses sbo ameagados. A '"ideologia" de Chico Mendes nao agride o libera- lismo, nem a propriedade. I pouco provavel que ele ti- vesse uma ideologia, na rigorosa acepgAo do termo (a "vi- sao do mundo", que os alemAes conceituaram cor a tra- dicional precisgo germAnica). Ele era petista, mas porque nenhum outro partido abriu-lhe as ports. S6 era ecolo- gista porque Ihe explicaram que defender a preservagao da floresta, usar os produtos que ela oferece ao inv6s de abatb-la, extrair o lAtex da seringueira ou coletar as amendoas da castanheira ao inv6s de p6r abaixo as duas Arvores, tudo isso o colocava na vanguard da luta eco- 16gica. Chico Mendes s6 nao fol exatamente um Ghandi, como sugeriram vArios jornais, porque descobriu o meio exato de luta (os "empates" de desmatamento, algo pa- recido ao retorno ao "indigo" do Irder hindu) e sua posi- 5go no mundo meses antes de ser eliminado da face da terra. A maior libo que Chico Mendes pode dar aos que querem impedir que a Amazonia seja definitamente pilha- da 6 sobre a Indissolvel associagAo que ele mostrou existir entire a floresta e o solo, aquela como causa, este como conseq06ncla. Os burocratas governamentais que expurgaram o anteprojeto da lei florestal e do. zo- neamento agro-ecol6gico, elaborados em 1979, separa- ram os dois terms e 6 assim que o governor tem agldo na tutela da regibo, impondo-lhe uma polftica metropolita- na apenas atualizada pare a era p6s-colonlal (a classi- ca). Para que os serlngueiros do Acre nao fossem extin- tos, conforme o destiny dado aos de Rond6nla, Chico Mendes nao queria o desmatamento. Em Xapurl, 80% dos 25 mil moradores sAo seringueiros, direta ou indireta- mente. O mundo da pecuaria 6 amplamente minoritario. Mas 6 ele que o governor introduz, arrombando as portas da casa, violentando sua gente, destruindo a paisagem. Os habitantes de Rond6nla saudaram a ligacAo ro- doviaria ao resto do pals, no inrcio da d6cada de 60, co- mo uma mera racionalizagCo do espago: ao inv6s de te- rem llgag6es de transport de 20 a 30 dias, terlam tres ou quatro dias. A nova realidade, porem, destrulu a que havia. A hlst6rla perdeu continuidade. O mundo da flo- resta foi engolido pelo mundo da estrada, que nAo o pre- viu, nem o aceita. O Acre tera o mesmo destiny se nao houver reaco a uma mudanga. A morte de Chico Men- des 6 apenas o pr6logo, destacado pela selvageria, de uma sucessao de capftulos que sangram a terra sem me- recer a atenqao do outro Brasil, o que se julga modern. SNI Origem do prontuario em agosto do ano passado e entregue & re- vista Veja quatro meses depois, em Sio Paulo, nao 6 um document official do Servigo Na- cional de Informag6es, embora tenha safdo dos ar- quivos do SNI de Bel6m. O pr6prio ministry da Pre- vid6ncia Social foi informado dessa distin go pelo general Ivan de Souza Mendes, o ministro-chefe do SNI, na penldtima semana do mrs passado, em Brasflia. Nenhum dos dois fez qualquer comunica- ~lo p:blica sobre o encontro que tiveram e o tema tratado. Por ambas as parties, o epis6dio 6 conside- rado encerrado. O general disse ao ministry que o prontudrio divulgado pela revista (ver JORNAL PESSOAL nQ 32) nao pode ser considerado um document official do SNI. Na verdade, ele foi produzido isolada- mente ou com a ajuda de outras pessoas por um funciondrio (logo depois demitido) que teve acesso ao arquivo do "servigo" em Bel6m. Por saber que seria afastado, juntamente com outros funcionbrios, esse servidor decidiu preparar um document que tanto atingiria o ministry, hoje a principal persona- lidade political do Para, como o pr6prio SNI. O prontudrio incluiu "informes" com erros grosseiros, vdrios deles apontados por Veja, que ainda estao arquivados na ag6ncia de Bel6m, mas foram expurgados no arquivo central do SNI, em Brasflia, pelos analistas do "servigo". Um prontud- rio official n&o contaria mais esses registros, mesmo porque a atual administracgo do SNI encara com reserves o trabalho de sua ag6ncia de Belem, con- siderada de nfvel m6dio ou inferior. Preparado em Bel6m, o prontudrio foi levado para So Paulo e entregue pessoalmente na sede da Editor Abril, em Brasrlia, provavelmente por um dos integrantes do grupo dissidente do SNI de Be- 16m. Esse grupo, formado por funciondrios de diver- sos nfveis e qualificag6es dentro do "servigo", teria quatro membros, todos eles afastados em agosto. O que a diregAo do SNI em Brasflia ainda nAo sabe 6 se esse grupo integra um esquema mais amplo de dissid6ncia formado em torno de antigos chefes como os generals Otdvio Medeiros e Newton Cruz, que se op6em ao piano de profissionalizagdo do general Ivan Mendes. A divulgacgo do prontuario pela revista Veja e a materia do ultimo ndmero do JORNAL PESSOAL provocaram desagrado e irritag o dentro do corpo funcional do SNI, em Bel6m e em Brasflia. Arguns agents sentiram-se ofendidos pela imagem de in- competdncia tragada pelas reportagens a por algu- mas das crlticas mais incisivas. A iniciativa de "va- zar" o prontudrio clandestine para a imprensa teria o objetivo de desmoralizar o "servigo", justamente quando ele procura assumir uma posture mais pro- fissional. A ameaga de morte que me foi feita tele- fonicamente, no dia seguinte ao da impressio do JORNAL PESSOAL e justamente quando este jor- nal comecava a circular, tamb4m faria parte desse esquema de incriminagio do SNI, que, no entanto, apesar da reag o internal, nao teria torado nenhu- ma iniciativa contra o jornalista. Esses problems ocorrem, alias, justamente quando o general Ivan Mendes efetua uma modifi- cagdo profunda na ag6ncia de Beldm, que deverA no escritdrio nos altos da estagao rodoviAria e, de- culminar cor a substituigbo do chefe do escrit6rio pois, de um cubrculo destitufdo de qualquer privaci- local, coronel Luis Carlos Rodrigues. O vice-chefe, dade na Sudam. Um ano depois assumiu a fungio coronel Ely Ramos, jd foi remanejado. o coronel (ainda do Ex6rcito) Lauro Paraense, quo A agencia do SNI em Bel6m possui uma carac- transferiu o SNI para as instala6ges em que ainda terfstica: desde o infcio da d6cada de 70 6 dirigida se mantdm, no pr6dio da Receita Federal. Dois por oficiais da AeronAutica, embora o Ex6rcito do- anos depois, por6m, a chefia foi entregue a um ofi- mine nacionalmente o "servigo". Instalada em 1969, cial da Aeronautica, que, desde entlo, manteve-se a ag6ncia local foi dirigida inicialmente pelo gene- a frente do 6rgao. Esta situagao poder6 agora ser ral (reformado) Gama, que dispunha de um peque- alterada. Explicacoes e retifica 6es Citado num "box" da mat6ria sobre o SNI, publicado na edi- gAo anterior, o Sr. Jorge Jacob Quintairos enviou ao JORNAL PESSOAL a seguinte carta: "Caro Ldcio, Lamentei muito ver meu nome envolvido em seu journal, prin- cipalmente auferindo a fatos, que vocd ja sabia, nio verdadeiros. 0 compromisso cor a verdade dos fatos, pela precisa apu- ragio dos mesmos e sua correta divulgaglo, 6 inerente d profisslo de jornalista. Partir-se do princlpio de que "todos sdo culpados ate que so contrdrio", quando a premissa deveria ser, "todos s&o inocentes ate que prove ao contrdrio", pode trazer distorg6es de julgamentos, fazendo cor que atd um grande jornalista como vo- ce, cometa equfvocos. A questso, 6 que equfvocos como estes acabam ferindo o moral de quem o tern. 0 que me causa maior surpresa 6 o fato de que voc6 e unm jornalista de grande credibilidade e um de nossos exemplos de jornalismo investigative. Ouero crer que as inverdades ditas emseu artigo sejam fruto de um lamentavel esquecimento de ouvir o outro lado da notlcia. Nao posso acreditar que palavras tao levianas te- nham sido publicados por md fe, pois a(, estaria o senhor jorna- lista transgredindo o seu prdprio cddigo de 4tica no que diz res- peito a conduta professional do jornalista, art. 10, "o jornalista nao deve concordar cor a prdtica de perseguigSo ou discriminaago por motives politicos, sociais..." ou ainda mais adiante, na responsa- bilidade professional: "o jornalista deve ouvir sempre, antes da di- vulgacgo dos fatos. todas as pessoas, objeto de acusaFdes de ter- ceiros a nao suficientemente demonstradas ou verificadas". Logo, sd posso acreditar que tais acusac6es sejam fruto de esquecimento e da atribulagao diaria do companheiro. 0 seu artigo falta cor a verdade em pelo menos dois [tens sendo vejamos: Dizer que o Sr. Jacob 4 acusado de ter chefiado irregula- ridades em sua passage pela carteira de habitagao da Caixa Economica Federal. Na ocasido em que a materia foi publicada, o Sr. Jacob (ou Jacd Quintairos como voc6 me chama), jd n&o era acusado de qualquer coisa, muito pelo contrdrio, o process ad- ministrative confirmou o "grande equlvoco". Em seus tens 11. 1, :11.2, 11.4, 11.6, 13.1, 13.2 e 14 os quais vocd mesmo tem co- nhecimento, mas que fago questio de repetir: 11.1 Nao concordo corn o enquadramento de Jacob, em tantos tens do regulamento de pessoal. 11.2 0 descumprimento occasional de normas por ele praticado nao trouxe a CEF nenhum prejufzo efetivo, mas, ao contrd- rio, na maioria das vezes em que isto ocorreu, serviu, at6 para solucionar problems de clients da CEF o que, alids, constitui um ato gerencial de boa qualificapdo. 11.2 A lei foi feita para o home, ndo o home para a lei. A norma fria e rfgida, se, muitos vezes, aplicada em sua plenitude de inflexibilidade, pode ocasionar uma injustiga porque summum jus, summa Injuria. 11.4 NAo ha provas, aqui, de que o mesmo servidor tenha se utilizado do cargo para tirar proveito pessoal. Onde o do- Io, Onde a culpa? 11.6 Ndo vi e ndo consigo encontrar, nestes autos, qualquer ato desidioso de servidor, que possa servir de fundamento pa- ra unma penalidade na drbita trabalhista. 14. Ex positis, opino que, o quanto antes, seja este process arquivado, para nAo servir de exemplo a futuras sindicAn- cias. # o parecer. No que diz respeito ao Coronel Ely, sua pessoa nIo 4 citada em meu process, mas em uma carta de inspepoo a qual jd foi ve- rificada, nao condizia cor a verdade. 0 Onico imdvel adquirido atravds de financiamento da CEF, 4 uma casa no Conjunto Jdlia Seffer, jd bastante conhecida dos jornais, em funago de suas con- difges precdrias. Serd que se utilizou o Coronel de um imdvel da- queles para fazer negociatadas? A casa nao foi adquirida durante meu perfodo de Gerente de Habitagdo, mas em 1984 quando eu era Gerente da Agencia Sdo Braz. A transferencia sim, foi em meu perfodo na GERHA e at ele foi citado na Carta de Inspepdo, em fung.o da venda ter sido efetuada atravds de procuragio para sua filha. 0 que questionava a Carta de Inspegco era a validade, o Di- reito Civil de Nodmia Jacob atuar como procuradora, o que logo fi- cou evidenciado como attitude normal. E veja o senhor que julga- mento distorcido podem fazer os fatos, o senhor diz que o Coronel comprou casas financiadas e depois revendidas. De onde vem tal afirmagao? o senhor teve acesso a que documents para fazer tal julgamento? Na realidade, a carta de Inspeogo queria atingir a mim, supondo que o fato da pessoa Nodmia, ter atuado como pro- curadora, indicava que o imdvel a mim pertencia. Neste caso pelo menos, o Coronel Ely entrou apenas como bode expiatdrio, nao ha em todo o process qualquer suspeita a idoneidade do Coronel Ely. Tanto assim, que em nenhum moment ele foi citado no jul- gamento feito pela Superintendencia Judfdica da CEF (instincia maxima de julgamento dentre da empresa). Partindo do exposto nesta carta, baseado no cddigo de 4tica do jornalismo e na lei de impresa, que garante a qualquer cidadao nota de esclarecimento no mesmo local e com o mesmo destaque, pego que assim seja procedico corn relagAo a este episddio. Um abraco. JORGE JACOB" N. da Redagdo 0 trecho da reportagem que pro- vocou a carta de Quintairos 6 a seguinte: "0 coronel (Ely) tambdm aparece num inqurrito instaurado pela Cai- xa Econ6mica Federal sobre irregularidades na carteira de habitagao, que era chefiada pelo genro de Ely, Jac6 Quintairos. 0 military comprou casas financiadas pela Caixa e depois revendidas". 0 inquerito existe e, por causa dele, Jacob foi afastado da chefia da carteira. Quando o JORNAL PES- SOAL investigou o assunto, essa era a situagao. 0 rela- t6rio de conclusion do process reverteu posteriormente a situagdo. Dele o journal s6 teve conhecimento quando a reportagem jd havia sido publicada. 0 pr6prio Jacob tam- b6m s6 teve acesso ao document que o inocentou quando o journal jd estava fechado. Logo, nao houve ne- nhuma lesao ttica na reportagem: registramos a mani- festagao de Quintairos e vamos voltar posteriormente ao assunto, a partir da verificagdo de toda a documentagdo. Ele nao foi ouvido antes porque o "box" apenas fazia refernncia ao process. 0 coronet Ely foi envolvido no inqutrito porque a venda da casa por ele adquirida corn finacimento da Cai- xa foi efetuada pela filha dele, esposa de Quintairos, que atuou como procuradora do pai, na ppoca viajando. Havia a suspeita da operagao triangular, ilfcita, que acabou nao confirmada: entire os oito bens im6veis do patrim6nio do military, o unico financiado pela CEF era o do conjunto Ju- lia Seffer, que ele passou em frente. POLITICAL Surge nova estrela todos os prefeitos das capitals brasileiras, o empres.rio Sahid Xerfan nao vai descer do palanque, ao menos enquanto nao se defihir a sucessao ao governor do Estado. Desde ja, Xerfan 6 o principal candidate ao cargo ou espera ser o v6rtice de todo o process politico. O palanque 6, para ele, um espago muito mais amplo do que o ta- blado dos politicos, compondo um estilo populista que se auxilia das tecnicas do marketing e da ge- rdncia empresarial ao alcance de um atacadista de tecidos. Xerfan trabalha para ser a maior lideranga po- litica no Pard, transformando a base municipal na catapulta para lanqd-lo muito mais long, como fez Antonio Lemos, eterno alter ego de nossos alcai- des. Para isso, o important 6 estar em permanent evid6ncia, manter-se "na cabega e no corag~o do povo", a preocupacgo da campanha publicitAria do grupo Xerfan durante o vAcuo entire 1983 e 1988. Nao sao apenas obras administrativas que garan- tem essa continue notoridade: 6 tamb6m um estilo de agir, como mostrou cor competdncia em rela- c9o a esse aspect o ex-prefeito de Sao Paulo, JAnio Quadros. Esperar por grandes obras significa um alto risco calculado. Corn raras exce6des, as adminis- trag~es municipals estao falidas. A capacidade tri- butbria criada pela nova ConstituigAo tern eficacia duvidosa para atenuar essa fal&ncia porque os con- tribuintes tamb6m estao exauridos, ou quase. Para executar um program em contrast cor a indig6n- cia municipal, o ex-prefeito Coutinho Jorge teve que antecipar recursos, principalmente atrav6s de endividamento e da colaboragio estadual. Mas es- ses nao sao recursos A mao para Xerfan. O program de maior f6lego da prefeitura, o saneamento das baixadas de Bel6m, pode ficar comprometido ou sofrer drAsticas mudangas. A As- sembl6ia nao aprovou o empr6stimo de 90 milh6es de d6lares que o Estado assumiria. Durante dois dias das sessdes extraordinArias, convocadas pelo governador Hdlio Gueiros, o projeto-de-lei esteve sozinho na pauta, mas os deputados do PMDB nao deram quorum, fugindo do plenArio. Segundo um deles, a manobra para esvaziar as sess6es foi es- timulada pelo governor. Um porta-voz do PalAcio Lauro Sodr6 nega; diz apenas que o governador deixou a questao nas mAos dos deputados: "se eles nAo quisessem aprovar, nao seriam forgados a mu- dar de posigao". A attitude do governador em relagao ao prefeito ainda 6 uma incognita. JA sao mais do que conhe- cidos os sinais de simpatia manifestados por Guei- ros, mas ele manteve um distant e cauteloso acompanhamento dos primeiros movimentos de Xerfan na prefeitura. Ainda estao numa fase preli- minar de estudos, que evoluird conforme for se de- finindo o quadro politico paraense. Se poderao tor- nar-se aliados, conv6m a cada uma das parties for- talecer-se mais do que a outra. Por isso, ainda que fluam para uma uniAo, o primeiro rmomento 6 de competidao quando nada, por um melhor posicio- namento no acordo. Esta foi a marca da primeira semana de Xer- fan na PMB, quase uma repetigao daquela que ca- racterizou seu infcio na atividade polltica, em 1983: crfticas cada vez mais abertas aos antecessores, infcio de vArias frentes de serving, movimentag8o em quase toda a administragao e provid6ncias de impact, ainda que sem profundidade. O prefeito 6 o centro de toda essa agitag~o, ao circular em seu carro particular, doar seus vencimentos a caridade, continuar caminhando pelos subirbios e adotar uma empostagao que ficou bem visivel no encontro com o senador Jarbas Passarinho. Se Lauro Sodr6 ressuscitasse, repetiria os gestos de Passarinho diante de Xerfan-Lemos, que nio tem a mesma re- percussao do visitante, mas esti convencido da so- lidez de sua base municipal. Os paraenses, enfim, jd sabem (e a imprensa tratard de faz--los sempre lembrar) que a polftica ganhou sua mais nova e, por enquanto, mais relu- zente estrela local se nao exatamente uma es- trela, um planet, mas cor todo direito a luz pr6- pria. Uma reform bem a moda A mudanga em metade dos cargos do secretarlado estadual, efetuada pelo governador no infcio do m6s, confirmou as previs6es: foram eliminadas as divergen- cias e as fontes independents de poder dentro da equl- pe, que agora deverA trabalhar em maior harmonia com a estrat6gla de HBlio Gueiros para as duas pr6ximas elei- C6es. Os novos secretArios deverAo submeter-se a dire- triz polrtica a ser tragada para a miquina estadual tentar eleger o candldato que o governador val Indicar, mesmo se ele nio for referendado pelo partldo, o PMDB. Ao fazer a mudanga, o governador praticou uma fa- ganha: mandou os ex-auxiliares para casa sem dar-lhes sequer um tapinha nas costas, essa Institui io imorre- doura do compadrio brasileiro. Provavelmente foi a pri- meira demissAo coletiva radiof6nica na hist6ria do pals: a maioria dos secretArios s6 soube da exonerag o pelo program do governador atrav6s de uma cadela de emis- soras de radio. A traduqao dos numerous Confirmando sua tradiglo de campeao national no atraso, o Tribunal Eleitoral do Pard s6 consegulu divulgar a 23 de dezembro o boletim final da eleiggo de 15 de no- vembro. O retardamento tirou o interesse da imprensa pelos nOmeros oficiais e a opiniAo ptblica ficou privada das analises polfticas, que podem ajudar a prever os ru- mos das duas pr6ximas eleigoes, muito mals Importan- tes. O resultado da eleigco confirmou o surgimento de um novo p6lo de poder politico no Estado. Ele nAo se basela em partidos, nem mesmo numa ideologia ou num program claramente definidos, mas num nome: o do prefeito de Bel6m, Sahid Xerfan. A esmagadora vit6ria por ele obtida poderia ser traduzida como um retorno do eleitorado da maior cidade da Amaz6nla a uma posig&o de centro-direita. Mas esta nao seria uma interpretaggo capaz de abrigar a complexidade do fen6meno que deu a Xerfan 67% dos votos. Enquanto Xerfan recebeu 301 mil votos na dispute pare a prefeitura, a coligagao (PTB-PDS-PFL) que o apoiou s6 obteve 181 mil votos com seus candidates A CAmara Municipal. Isto significa que 120 mil votos dados a Xerfan vieram de eleitores que votaram em vereadores de outros partidos. Tamb6m equivale a dizer que 120 mil eleitores de Xerfan nAo mantiveram fidelidade a coligaco na votagAo para vereador, apesar de disporem de 231 opg6es de nomes. O inverso deu-se em relag&o aos demais partidos. No PMDB, 70 mil votaram nos vereadores do partido, mas apenas 50 mil no candidate a prefeito, Fernando Velasco. Apenas metade dos eleitores do PL a CAmara Municipal votou em Carlos Levy, o que 6 um nimero im- pressionante devido ao charisma do candidate a prefeitu- ra. A relagao torna-se ainda mais desproporcional em relagAo aos outros partidos, assumindo feig&o dramatic no caso da Frente Popular (PSB-PCB-PC do B): os 42 candidates a vereador receberam 20 mil votos, enquanto o candidate a prefeito teve 3.750 votos. O fen6meno po- de ser observado ate mesmo no disciplinado PT: mais de 11 mil leletores do partido que votaram nos candidates a CAmara Municipal (40% do total) nAo seguiram Humberto Cunha, muitos deles provavelmente optando por Xerfan. Os partidos safram enfraquecidos dessa eleigio plebiscitaria em torno de nomes. A esquerda apenas marcou pass: tinha dois representantes numa Camara de 19 membros e agora ficarA com quatro de um total de 33. O bloco conservador se consolidou, mas o povo de- monstrou claramente a intengAo de renovar os persona- gens: dos 19 vereadores da legislature anterior, apenas cinco se reelegeram. Antes, seis partidos tinham repre- sentagao na CAmara. Agora, eles sbo 11. O PMDB des- frutava de uma maioria confortAvel (9 em 19 vereadores). A coligagao dos tres partidos majoritbrios tern 16 dos 33 membros, o que significa maior pluralidade e menor faci- Ildade para manobras do Executivo. Dos 33 novos vereadores, 27 estao assumindo um cargo politico pela primeira vez e 22 jamais haviam dis- putado antes uma eleigao. Dez t6m entire 20 e 29 anos e 15 entire 30 e 39 anos. Apenas oito estAo cor mais de 40 anos, metade dos quais ultrapassou a faixa dos 50 anos. Nesse context delineado pela eleigo, Sahid Xer- fan tem condig6es de comandar um revolugAo conserva- dora. Ou, nao fazendo-a, de provocar uma frustragAo po- Iftica tAo grande ou at6 maior do que sua vit6ria. A morte de um sabio Morreu no dia dois, aos 77 anos, um dos homes mais cultos do norte do Brasil: o professor Eldorfe Morei- ra. Paraibano de nascimento e advogado por formagco, ele foi um fil6sofo da geografia, o intellectual que melhor entendeu a complexidade das relag6es ffsicas da paisa- gem. "Amaz6nia: conceito e palsagem", um dos vArlos li- vros curtos que ele escreveu numa bibliografia de 19 tf- tulos, cont6m o mais precise exerclcio conceptual sobre a regiao. Mas o mundo que Eidorfe Moreira se empenhava em entender estA sendo desconstrurdo pelas motoniveladoras, motosserras e outras maquinas que tentam adaptar a paisagem ao concerto que dela faz o colonizador e nlo ao concerto induzido pela natureza. NAo espanta que Ei- dorfe tenha morrido tAo amargurado, amargura que se estendia a percepcgo de que ele era duplamente um ho- mem deslocado da "atualidade", tanto pela geopolftica do colonizador, como por uma cultural que descarta os li- vros. Comprei em "sebo" muitos dos livros que foram dele. Ganhei, assim, um prazer dobrado: ter acesso a II- vros maravilhosos e fazer a releitura de Eidorfe, acom- panhando seus sinais A margem do texto, seguindo seu vasto e inesgotavel interesse por todos os temas capa- zes de ampliar os horizontes da Inteligencia. Morreu um sabio, um home raro, e poucos sabiam disso. E a triste regra nesta regiAo e, talvez, no pals. Quando Eidorfe morreu, a Onica morte que interessava era a de Odete Roitman. Uma escolha sem opgao A nomeagAo do delegado MArio Malato para a se- cretaria de Seguranga Piblica criou uma nova fonte de atrito entire o governor e stores da opiniAo p6blica. Ma- lato foi acusado de unilateral nas a96es desenvolvidas, quando delegado da DOPS, em relagAo aos conflitos de terra, sobretudo os da gleba Cidapar, em Viseu, onde atuava o amigo do delegado, James Vita Lopes. O "ca- pitAo" James foi indiciado como provAvel organizador do atentado contra o ex-deputado Paulo Fonteles e Malato foi citado no inqu6rito do delegado Otacflio Mota. Por tudo isso, a esquerda e os familiares de Fonte- les e de JoAo Batista receberam com desagrado a subs- tituigAo do coronel Antonio Carlos Gomes por Malato. Prevendo a reacgo, o novo secretArio assumiu o cargo prometendo rigor e empenho na elucidagAo dos crimes de encomenda. Um porta-voz do Palacio Lauro Sodre expli- cou que o governador HBllo Gueiros nAo tern conheci- mento dentro da polfcia, nem disp6e de informag6es pes- soais sobre policiais. "Entre as sugesties que recebeu, a mais aceitAvel foi a de Malato. Mas o governador no- meou-o como interino. Malato estA respondendo pelo ex- pediente. Conforme for o desempenho, podera continuar ou ser afastado", disse a fonte. Enquanto isso, outras opg6es jA estAo sendo anali- sadas pare eventual utilizagAo. Jomal Pessoal Editor responsive: Lucio Flivio Pinto Endere;o (provis6rio): rua Aristides Lobo, 871 Bel6m, Pard, 66.000. Fone: 224-3728 Diagrama~fo e ilustrafio: Luiz Pinto Olp91 Jomallstica |
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