Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00026

Full Text








bPessoal
Liicio Flivio Pinto
Ano II N 32 Circula apenas entire assinantes 29 Quinzena de Dezembro de 1988

SNI


Todos sao culpados

O 6rg&o de informag es do president acusa o home
que o president nomeia duas vezes ministry. O president
age erradamente ou o 6rgao e que nAo presta?
A resposta ninguem da, como sempre no Brasil.


P ara acompanhar o funcionamento da mrqui-
na de guerra que os nazistas estavam mon-
tando, especialistas dos Estados Unidos,
enfrentando dificuldades diante do rfgido
control das informag es, passaram a ler com a
maxima atencgo os jornais alemdes. Notfcias sobre
inaugurag~o de f6bricas, metas de produ;go ou
atraso de trens eram submetidas ao que, depois, fi-
caria consagrado como o m6todo de analise de
conteddo. A um leitor atento, notlcias aparentemen-
te sem importAncia poderiam levar a vastas inter-
pretag6es. Um dos mais importantes cultores desse
m6todo, John Naisbitt, p6de registrar que em 1973
o tema do meio ambiente suplantou o dos direitos
humans nos Estados Unidos, gracas a andlise de
conte6do dos jornais.
O m6todo jA tern mais de 40 anos, faz a fortu-
na de analistas como Naisbitt, mas parece impene-
trAvel a um dos mais famosos e onerosos ap6ndi-
ces da administracgo piblica brasileira, o Servigo
Nacional de Informag6es. Detentor de uma das ra-
ras verbas secrets do pals, que alimenta uma es-
trutura pesada, cor 2.700 funcion6rios, o SNI nao
apenas tern se mostrado incapaz de captar tend6n-
cias, como at6 mesmo nao sabe ler jornais ao
que parece, a principal atividade de seus agents e
analistas de informac6es.
E esta a maior conclusdo da reportagem de
capa da semana passada da revista Veja. Para con-
ferir um "atestado de inutilidade" ao pol6mico SNI,
a revista valeu-se de um dos milhares de prontud-
rios acumulados nos arquivos do servigo, como 6
mais conhecido no jargdo interno. Cinco ou seis
dias antes da revista chegar As bancas, o documen-
to foi deixado na portaria da sede da Editora Abril,
em S&o Paulo, sem identificagdo do portador ou da
origem. Era mais uma oportunidade para Veja acer-
tar suas contas com o SNI, o 6rgao que o general
Golbery do Couto e Silva criou em 1965 e depois
renegou, chamando-o de "monstruoso" opinion


partilhada pelo jornalista ilio Gaspari, director ad-
junto da revista, um dos mais Intimos amigos de
Golbery e herdeiro de seu cobigado arquivo pes-
soal, a ser transformado em livro durante o pr6ximo
perfodo que Gaspari passard nos Estados Unidos,
escrevendo-o.
A procura do autor
Quem vazou o prontuario ter, evidentemente,
acesso ao SNI, que pode ser indireto ou direto. Ao
mesmo tempo, 6 inimigo do ministry da Previd6ncia
Social, JBder Barbalho, .vtima do prontuario entre-
gue a Veja. A combinagdo dessas duas varidveis








poderia levar a uma hip6tese um tanto paran6ica,
mas nao de todo inverossfmil: o pr6prio SNI poderia.
ser o autor do vazamento.
O chefe do "servigo", general Ivan de Souza
Mendes, tentou impedir a ascensAo de Jader Bar-
balho ao minist4rio, formando pessoalmente um
alentado dossi6 sobre o ex-governador do ParA.
Recebeu contribuig6es de politicos, como o ex-go-
vernador Alacid Nunes (atrav6s de intermediario do
grupo), e de inimigos de Jader, como o advogado
Paulo LamarAo. Mas o general nAo se limitou a ser
um passive recolhedor de informagdes alheias:
Mendes fez uma viagem sigilosa para conversar
cor o juiz do process do Aura (uma acao popular
contra a desapropriag~o, pelo governor do Estado,
de uma Area As proximidades de Bel6m, transfor-
mada em escAndalo national), ele pr6prio um in-
formante do SNI (ver box). O general voltou a Bra-
sflia no mesmo jatinho da FAB que o trouxera a
Belem, levando consigo a gravag o de trds horas
de conversa cor o juiz Pedro Paulo Martins.
Mas n&o conseguiu impedir que o president
Jos6 Sarney, com quem despacha diariamente, no-
measse Jader Barbalho ministry da Reforma AgrA-
ria em setembro do ano passado (algando-o, 11
meses depois, A Previd6ncia Social). O dossid corn
documents sobre a improbidade administrative de
Jader Barbalho no governor estadual pesou muito
menos do que as conveniencias de Sarney para in-
corporar o ex-governador peemedebista ao minist6-
rio (iniciativa que se mostrou proveitosa durante a
batalha travada pelo Planalto para garantir o man-
dato presidential de cinco anos).
As v6speras da anunciada reform administra-
tiva e das alterag6es que o president vai fazer em
sua equipe, a divulgagAo do prontudrio poderia ser-
vir para queimar JAder, arrematando o desgaste por
ele sofrido na eleicao de 15 de novembro. Mesmo
que o preco a ser pago por essa iniciativa fosse a
estocada da revista sobre o "servico", talvez vales-
se a pena.
Poucos leitores concluirao a leitura das sete
piginas dedicadas por Veja ao assunto sem a forte
impressao de que o contribuinte paga caro por um
service que, alem de initil, serve basicamente para
complicar a vida do cidadao. O prontuario de JAder
mostra que nao menos de 70% das informag6es in-
clufdas na ficha foram obtidas atrav6s dos jornais.
Mas mostra tamb6m que os recortadores de jornais
do SNI nao sabem interpreter o que e1em, nem sao
confidveis como t6cnicos. Ou seja: o produto de
bilh6es de cruzados, aplicados ser prestagao de
contas ao pdblico, pode ser literalmente jogado no
lixo. Deserve ao contribuinte e 6 initil ao dirigente
maximo da nagao. De outra maneira, Sarney nao
teria nomeado Jader Barbalho.
Que todos os presidents precisam de um 6r-
glo de informag6es, s6 radicals doutrinArios podem
negar. O vertiginoso desenvolvimento da ciberneti-
ca atende A maior necessidade da sociedade hu-


mana deste final de s6culo: ter informagAo certa,
ampla, confiAvel e operative. Mas o SNI nAo atende
aos requisitos desse modelo: ao contrdrio, 6 um 6r-
gAo da 6poca das cavernas, que serve apenas
quando o Estado mergulha nas trevas da ilegalida-
de e precisa intimidar ou perseguir seus advers6-
rios. Num dresses mergulhos, que durou 20 anos, o
cidadao brasileiro contempornneo ouvia falar de
SNI com o mesmo temor que o home medieval
encarava a Santa Inquisigao, tao santa quanto o
seu distant contraparante.

Um 6rgio monstruoso

Esse servigo de informag6es, vinculado dire-
tamente A Presiddncia da Republica, tanto podia
reunir informag6es dfspares e il6gicas em um pron-
tubrio monstruoso, como gerenciar o maior garimpo
de ouro da hist6ria brasileira, o de Serra Pelada
(bamburnando ao mesmo tempo dinheiro, votos e
mis6ria), como administrar, A sombra das opera-
go6ssubterraneas, o mais desastrado empreendi-
mento econ6mico da fronteira amaz6nica, o projeto
Capemi, em Tucuruf, ou ainda aparecer rocambo-
lescamente no assassinate de um colaborador tao
Intimo como o jornalista Alexandre von Baumgar-
ten.
Tal currfculo tern mais afinidade cor uma ono-
rabile society do que com um modern serving pO-
blico de informag6es. Isto, o SNI npo 6, permane-
cendo anacronicamente B margem do edificio are-
jado e eficiente que algum dia se pretendeu levan-
tar no pars. O SNI nao busca manter informada a
autoridade mAxima, mas usar as informag6es de
acordo cor objetivos raramente confessaveis. Rico,



0 autor

do serviceo"
Dos 139 registros que constituem o prontuario do
ministry JAder Barbalho no SNI, 137 foram produzidos
pela Agencia de Bel6m, que funciona no pr6dio da Re-
ceita Federal, no centro da cidade. Durante esse perfodo,
o principal burocrata da ag6ncia foi o coronel reformado
da Aeronautica Ely Ramos. Aluno do brigadeiro Burnier,
que planejou matar os adversaries do regime military, jo-
gando-os do aviao no mar, e explodir o gas6metro do Rio
de Janeiro, atribuindo o atentado A esquerda, o coronel
Ely foi vice chefe e chefe interino em varias ocasi6es,
mantendo-se na segunda func o independentemente da
rotatividade nas chefias, nem todas exercidas de fato.
Tanto tempo no 6rgAo e os m6todos truculentos que
adota transformaram o military numa figure pol&mica den-
tro da pr6pria agencia, para a qual levou o irmso de seu
genro, ambos envolvidos em um epis6dio recent de
agress&o verbal a uma funcionaria, noticiada pela im-
prensa. O coronel tamb6m aparece num inqu6rito instau-
rado pela Caixa EconBmica Federal sobre irregularidades
na carteira de habitag&o, que era chefiada pelo genro de
Ely, Jac6 Quintairos. O military comprou casas financia-
das pela Caixa e depois revendidas.









razoavelmente bem estruturado, com alguns bol-
s6es realmente profissionais, o SNI represent um
vacuo. A julgar pelo prontudrio do ministry que ad-
ministra o maior orgamento e o mais extenso ex6r-
cito de funcionarios da administracgo federal, o SNI
6 inconfiavel sob qualquer Angulo e para qualquer
de seus usuarios reals ou potenciais. Exceto para
os que se aproveitam das penumbras do poder.
Mesmo 6rgAos dotados de grau de amadure-
cimento incomparavelmente superior ao do SNI
cometem erros desastrosos quando se burocrati-
zam, perdem agilidade ou atualidade. I o caso da
norte-americana CIA, que nao conseguiu prever a
revolugAo xifta no IrA, que era o principal aliado dos
Estados Unidos no super-estiat6gico Oriente. Os
agents da CIA limitavam-se a repassar informa-
(6es coletadas por outra fonte, sem ir a campo. E o
servigo secret mais caro do mundo, que o Xa Reza
Pahlevi montou, simplesmente ignorou os ayotal-
lah.
Nao se ha de exigir do SNI perspective plane-
taria se ele nao consegue dar conta da mais limita-
da jurisdig&o paroquial. Como se participasse de
uma conversa de comadres, o SNI registra e incor-
pora hist6rias que nao se dA ao trabalho de checar,
como 6 obrigado a fazer qualquer reporter de journal.
O prontuario diz que "ha suspeita" de que part da
verba da campanha para aumentar a arrecadagao
de ICM, de 1982, iria para a campanha de JAder ao
governor do Estado. O document registra tamb6m
que firmas fictfcias, abertas em nome de "apani-
guados" do entao president do Banco do Estado
do Para, Joaquim Figueiredo, "estariam recebendo"
recursos do Fundo de Assistdncia Social, com a
coniv.ncia de Jader.
Se o SNI nao tern a obrigagao de checar essas


dendncias, para que ele existe? A esmagadora
maioria das informag6es redigidas no condicional
apareceram na imprensa e a ela o cidad.o tem
acesso por uma quantia m6dica, sem precisar que
seu imposto seja desperdigado com as "bobagens"
listadas por Veja sem a preocupagao de esgotar o
assunto.

A grande incompet6ncia
O SNI assegura que Jader acertou corn o MR-8
a compra de 30 mil exemplares de uma ediaio do
journal "Hora do Povo" que tentava atacar a hones-
tidade pessoal do senador Jarbas Passarinho, reco-
nhecida por adversaries politicos que nao poupam
criticas a outras facetas da personalidade do ex-
ministro. Mas o SNI nao diz que quem bancou a
transacgo foi o entgo governador Alacid Nunes. O
SNI faz uma confusao dos diabos a prop6sito da
operaqAo triangular envolvendo a partir de 1984 e
nao 1982 a venda da Radio Clube do Par&, ligada
a seguir A radio e a TV Carajas, simplificando tudo
e restringindo uma transagAo que foi mais ampla. O
prontuario atira apenas em Rog6lio Fernandez,
mantendo no anonimato os outros tr6s s6cios, um
dos quais seria beneficiado por uma generosa de-
sapropriag8o feita logo depois pelo governador Ja-
der Barbalho, a da Nortubo. Acrescente-se que o
SNI s6 incluiu a informacgo no prontudrio com um
ano de atraso, o mesmo de varios outros registros.
O SNI da-se ao trabalho de relacionar 20 im6-
veis rurais que formariam o patrimrnio do governa-
dor em 1985, cor 226 mil hectares, sem identificar
a origem dessa falsa informag o (a ex-deputada fe-
deral Lucia Viveiros), que 6 posta de lado quando,
ainda erradamente, o "servigo" diz que Jader tern
seis propriedades e jd at cita nominalmente ape-


As duas faces incompativeis


0 final do depoimento prestado pelo juiz Pedro
Paulo Martins ao Conselho de Magistratura do Pard,
naquele final de manh& e infcio da tarde de 28 de
agosto de 1985, foi um desastre. A ata da reuniao re-
gistrou a declaragao de Martins de que ele "saiu da
Associagco dos Diplomados da Escola Superior de
Guerra, salvo engano em 1976, e, em seguida, pas-
sou a dar informagoes ao Servigo Nacional de Infor-
mag6es, do qual era representante nesta capital o
Coronel Ulisses, da Aeronlutica; Que, quando soli-
citado, presta informagces daquela natureza; Que,
entire tais informagces, nao se compreende aquelas
referentes a processes sob sua jurisidigao, sendo o
caso Aura uma exce9go".
Quatro dos cinco desembargadores que assis-
tiam ao depoimento, mais o procurador geral do Es-
tado, ficaram perplexos corn o que, para eles, era
uma desnorteadora revelag~o: o juiz estava se decla-
rando informant do SNI, seu agent ou seu "dedo
duro", conforme a expresso que empregaram de-
pois, ao descrever o epis6dio para pessoas mais In-
timas. Isto 6, oito anos antes de receber o "caso Au-
ra" para analisa-lo e 10 anos antes de sentenci--lo, o


juiz Pedro Paulo Martins ja tinha ligag6es orgAnicas
com o SNI.
Tao ou mais grave do que isso: o juiz admitiu
ter rompido uma regra que alegou ter seguido at6
entao, passando a tratar do process da desapro-
priag5o da gleba do Aura, em Ananindeua, direta-
mente com um 6rgAo que estava agindo contra o
principal envolvido no escAndalo, o entao governador
- e da oposigco Jader Barbalho. 0 juiz nao esco-
Ihera moment mais infeliz para quebrar a regra, se 6
que a seguiu realmente: como poderia conciliar sua
fungco de magistrado do process cor sua partici-
pagao em um esquema que agia contra um dos r6us?
Os membros do Conselho da Magistratura que
participaram do depoimento do juiz, como parte da
instrucgo de um sindicancia final inconclusa, prefe-
riram nao responder a essa pergunta e ignorar a gra-
ve questao subjacente. Como em todas as questOes
controversas e explosives do tipo do "caso Aura",
funcionou a lei da acomodagao interessada, muito Otil
para fazer amigos e influenciar pessoas, mas inimiga
mortal da verdade e da justiga. No entanto, 6 a lei
que continue em vigor.









nas duas delas, a Rio Branco e a Poliana. O pron-
tudrio observa ser "do conhecimento de expressive
parcel da classes polftica paraense o ripido enri-
quecimento do Governador do Estado Jader Bar-
balho", mas admite nao dispor "de dados concretos
capazes de comprovar", mantendo a corrente do
diz-que-disse muito comum entire lavadeiras de bei-
ra de rio.
t uma declaracgo constrangedora. O SNI teve
acesso As declarag6es de rendimentos de Jader,
mas fez uma andlise palidamente simplista, regis-
trando apenas que a maior variagao patrimonial
de Jdder Barbalho ocorreu justamente no ano em
que foi eleito Governador do Estado do Pard e ap6s
cumprir o primeiro ano de mandate". Nao fez nem
maiores ensaios estatfsticos sobre a evolug~o da
renda annual do ministry (que passou de 160 mil
cruzeiros em 1978 para 18,7 milh6es em 1983,
quase 100 vezes mais) em comparag~o com seus
bens (de 998 mil. para 364 milh6es no perfodo) e as
dfvidas (3,9 milh6es e 249 milh6es, respectivamen-
te), com incremento maior. Ao inv6s de absorver
indistintamente informag6es, o SNI poderia confron-


tar dados nlo oficiais com o que consta da decla-
ragdo ao imposto de renda.

Mas nao fez esse exercrcio bAsico porque n&o
quis. A leitura dos 139 registros que resume, em
33 pAginas, a "ficha" de Jader, dA a nftida sensa-
9Bo de que o "servigo" nao tern padres t6cnicos e
normas objetivas, agindo conforme as flutuag6es
polfticas e mesmo conveni6ncias ou interesses
pessoais, inclusive os de seus pr6prios integrantes.
A partir do moment em que JAder foi nomeado
ministry, seu prontuArio recebeu apenas mais sete
registros, todos eles cautelosos e incluindo a defe-
sa do ministry a acusagdes. Isto quer dizer que
nem a grossa couraga que cerca o SNI, formada por
mecanismos que dAo a sua atuagao o carter de
sigilo, dA ao burocrata do "servigo" a seguranga de
cumprir sua tarefa de informar sem antes pensar no
seu pr6prio emprego. At6 a informagAo produzida
nessas condig6es transformou-se em mercadoria de
neg6cio. O SNI virou, na vida real, a pollcia secret
portuguesa da piada inventada na era de Ant6nio
Salazar.


Qual e o interesse da imprensa?


Os dois mil exemplares da revista Veja que vAo
para as bancas de Bel6m todas as semanas (hd mais
3.800 exemplares de assinantes) se esgotaram em
apenas trds horas na segunda-feira da semana pas-
sada. Como dezenas de compradores s6 souberam
do assunto de capa com atraso, nao conseguindo
mais nenhum exemplar, comecou a haver a suspeita
de que boa parte da remessa tivesse sido adquirida
por um s6 comprador: ou agent ligada ao ministry,
tentando evitar a difusao da reportagem de capa, ou,
pelo contrArio, seus inimigos, empenhados em alar-
dear a hist6ria.
Nenhuma das duas hip6teses p6de ser adequa-
damente comprovada. Mas circularam hist6rias e
boatos. Um rapaz, por exemplo, comprou todo um
pacote, com 60 exemplares, em uma banca localiza-
da em frente ao supermercado PFo de Agucar Jumbo,
assim que as revistas chegaram. 0 dono da banca
nem chegou a abrir o pacote para conferir ou ver do
que se tratava. 0 comprador nao era client da ban-
ca.
A maioria dos leitores ouvidos sobre o conte6do
da mat6ria demonstrava perplexidade. Eles queriam
uma definigao mais clara sobre o alvo da revista: se-
ria o SNI ou o ministry? Na d6vida, alguns apostaram
em mat6ria paga de Jdder, bem menos chamuscado
do que o "servigo". Outros achavam que a revista foi
fiel ao seu estilo: um pouco de pancada no cravo,
outro tanto na ferradura. Mas houve quem procuras-
se responder com outra pergunta: a quem interessa-
ria a divulgagao do prontuArio neste moment?
A tentative de dar esse tipo de resposta a ou-
tros mementos semelhantes ao da reportagem de
Veja revela o ceticismo do p6blico em relagao a um
puro, genufno e desinteressado empenho da impren-
sa pela informagco. Se nao hd um tal tipo de interes-
se neutro, o inverso, as "inspirag5es" nem sempre


jornalfsticas que resultam em reportagens de dendn-
cia ou bombAsticas, tornaram-se tao frequentes que
contribuiram decisivamente para afetar a credibilida-
de da opiniao pdblica no seu principal vefculo de de-
fesa, ligao que a imprensa se recusa a aprender
quando reage como avestruz, enfiando a cabega no
buraco, ou como um falsamente ofendido defensor do
"espfrito de corpo".
Final o "caso Aurd" s6 se tornou escAndalo
national por causa do ent&o ministry da Reforma
AgrAria, Nelson Ribeiro, envolvido no "imbroglio" por
sua condigco de president do Banco do Estado do
Para. Depois que a reform agraria se esvaziou, a
noticiArio da grande imprensa sobre o assunto foi
despejada na coluna dos registros. A lata de lixo tem
sido o outro destino dos temas amazonicos quando
eles nao desfrutam de "exotismo" semelhante.
A falta de continuidade e de repercussbo cons-
tituem outros pontos negatives. Depois de dedicar
capa ao assunto, Veja simplesmente ignorou-o em
sua edigdo seguinte. 0 restante da imprensa, inclu-
sive a local, fez de conta que o tema, important para
o cidadao, inexistia. Essa falta de desdobramento dA
a impressAo de que o que interessa 6 a estocada.
Com o prontuArio do ministry JAder Barbalho
podem repetir-se os destinos do "caso Aura" ou do
projeto Jari. Nem Veja interessou-se em registrar a
posigao atual de um dos processes judiciais mais
rumorosos dos Oltimos anos, a julgar pelo espago
que jornais e revistas Ihe deram durante aqueles me-
ses agitados de dispute pela definigco ou indefini-
gBo da reform agrAria. A sentenga de primeira
inst&ncia merecia que pelo menos a revista fizesse a
lembranga para seu leitor. Mas, como no caso do Ja-
ri, em que a nacionalizagAo levou a imprensa a con-
siderA-lo extinto, parece haver o interesse de deixar
essas questies fora do alcance do leitor.












No final, ficam as sombras


Das 39 acusag6es que o prontuario do SNI faz ao
ministry Jader Barbalho, Veja garante que 29 sAo "boba-
gens. Mas ao fazer uma reportagem cor a evidence mar-
ca da press, a revista acabou acrescentando outras
"bobagens" e deixando de suprir seus leitores de infor-
mag6es mais confiaveis do que as do "servigo". Veja
compete o incrrvel erro de transformer o deputado Ronaldo
Passarinho de sobrinho em irmAo do senador Jarbas
Passarinho. Outro pequeno mas inaceitavel equlvoco
6 a traducgo da sigla da FBESP: a FundaIgo do Bern
Estar Social do Para vira Fundag&o do Bern Estar do Me-
nor, tftulo que se acomoda sob outra sigla, a da Funa-
berm.
Um pouco mais de ateng o seria o antfdoto infalivel
contra esses escorreg6es. A falha realmente compro-
metedora da reportagem, no entanto, consists em man-
ter-se presa a uma bitola que ela pr6pria consider vicia-
da. A revista satifez-se em ser a errata das "bobagens"
do SNI sem cumprir sua maior missao: dizer para o leitor
quem 6, final, corrigidos os erros e supridas as omis-
s6es tamb6m injustificAveis do SNI, o "nominado".
O sumario que a revista faz do "caso Aura" nAo 6
esclarecedor. Da mesma maneira, ela conceitua confu-
samente o "outro escAndalo financeiro no Banco do Es-
tado do Parn" como "um caso de investimento sem fun-
dos", acrescentando uma media informagao, por isso
mesmo mais perigosa do que uma falsa informag:o: que
"os dirigentes do banco foram demitidos". Sim, o foram:
mas pela interveng o do Banco Central no Banpara,
quando Jader jA nao era mais governador.
O tal "caso de investimentos sem funds" ficaria
mais inteligrvel para o leitor se a revista descrevesse o


mecanismo do "golpe": cheques administrativos emitidos
pelo Banpard contra ele mesmo, que eram desviados de
seus objetivos e aplicados financeiramente no Rio de Ja-
neiro, rendendo para seus aplicadores e nao para o ban-
co estadual. A descriglo de Veja, ao contrArio, sugere ao
desavisado que o governador demitiu os responsaveis
pela manobra ao descobrf-la, o que esta em sentido dia-
metralmente oposto ao da verdade.
Como o SNI, a revista nao se empenhou em inves-
tigar o "rApido enriquecimento" do ex-deputado a partir
do moment em que assumiu o governor do Estado. O
crescimento de seu patrim6nio 6 um dado objetivo: entire
1983 e 1988 ele se tornou dono de uma rede de comuni-
cag6es em expansAo, formou tr6s bem supridas fazen-
das, adquiriu im6veis urbanos e entrou no rol daquelas
pessoas que o povo chama de fortuness". Isso ocorreu
justamente quando o salario de Jader diminulu: hoje, cor
todos os reajustes recebidos mais recentemente, o go-
vernador do Para ganha pouco menos da metade do que
recebe um deputado federal.
Mas o ministry pode justificar esse enriquecimento,
que se espraiou pela famflia, cor sua capacidade pes-
soal de poupanga e investimento. Neste caso, a revista
deveria abrir pelo menos um "box" para atestar a profi-
ci6ncia empresarial de um home cuja carreira at6 entao
ficara cingida & competencia polftica. Tal esclarecimento
poderia at6 eliminar as dividas dos amigos de Jader,
que, quanto ao empresario, destacam-no mais pelo mo-
vimento de colocar dinheiro no bolso do que de tirn-lo. No
entanto, o v6u de nebulosidade sobreviveu ao pronturario
do SNI e a reportagem de Veja, o que, em ambos os ca-
sos, nao 6 propriamente um atestado de competencia
professional especffica.


POLICIA MILITARY


Grande tensao nos quarters


Meia hora depois do assassinate do deputado Jogo
Carlos Batista, na noite do dia 6, o governador Hulio
Gueiros determinou o fechamento de todas as saldas de
Belem para impedir a fuga do criminoso. O chefe da Casa
Military, major Flaviano Gomes Melo, repassou a ordem,
por telefone, para a barreira montada pela policia na BR-
316, a Onica via de entrada e safda por terra da capital
paraense.
O sargento de plantAo atendeu a ligacao no telefo-
ne, instalado recentemente, e disse que iria fazer a fis-
calizagAo. Mas, depois de desligar, voltou para seu post
a assistir a passage dos carros. Se o pistoleiro que
matou o parlamentar planejou a fuga imediata para fora
de Bel6m, p6de sair tranquilamente. Todas as safdas
estavam abertas, incluvise a do aeroporto international
de Val-de-CAes. A ordem superior nAo fora cumprida.
Como o chefe da Casa Militar Ihe garantira a ado-
gao da provid6ncia, o governador ficou irritado quando a
TV Liberal, na manha seguinte, exibiu uma reportagem
que mostrava a omissAo da polfcia no cerco ao crimino-
so. "Isso n&o 6 verdade. A imprensa estA fazendo sen-
sacionalismo e criando pAnico entire a populagAo", reagiu
Gueiros, que tamb6m 6 jornalista professional. Mas de-
pois mudou de opiniao, quando um amigo Ihe deu o tes-
temunho de que realmente as barreiras nao estavam fun-
cionando.


Mas esse nao foi o Onico descumprimento de ordem
superior na noite do atentado. Outro ofical da Polfcia Mi-
litar que estava na residencia official convocou carros da
ridio-patrulha para a frente do pr6dio, onde comecavam
a reunir-se militants polfticos revoltados com o assassi-
nato para cobrar providencias do govenador. O quartel
fica a apenas cinco minutes da residencia, mas a primei-
cgo guarnigAo s6 chegou 1 40 minutes depois da convo-
cagAo.
Epis6dio semelhante ocorrera em setembro. Apro-
ximadamente mil manifestantes comegaram a depredar o
Palacio Lauro Sodr6 e a investor contra a pequena e de-
saparelhada guard palaciana. Foi pedido o reforgo da
tropa de choque, mas ela demorou tanto que o coman-
dante da operag o no palacio do governor viu-se obrigado
a recorrer ao Corpo de Bombeiros. Um sargento mandou
um caminhAo-bomba, que dispara jatos de agua, mas te-
ria sofrido uma disfarcada punicgo de superiores por es-
sa deliberacgo. O batalhAo de choque s6 se apresentou
cor 50 minutes de atraso, mas foi t&o passive que nAo
impediu a quebra de outras janelas do palacio.
No infcio do ano, os soldados do batalhao de cho-
que simplesmente abriram o cord&o de isolamento que
haviam formado e deixaram que professors em protest
avangassem at6 o port&o de entrada do palacio, descum-
prindo outra ordem do governador, que nao queria nin-









gu6m perto do pr6dlo hist6rlco. Mas as tenses entire a
PM e o governador atingiram o apice no m6s passado:
Guelros divulgou uma nota pOblica condenando os milita-
res, que invadlram o Col6gio Lauro Sodr6 e espancaram
estudantes, prometendo punir os implicados a afastar o
comandante da operagAo, providOncia que acabou nlo
realizando.
Desde entAo circula nos quart6es uma carta-aberta
cor pesadas crfticas ao governador, acusado de ter
criado "uma Casa Militar superdimensionada, como go-
vernador nenhum teve at6 agora" e de desprezar a cor-
poragAo. O document foi elaborado por um grupo de off-
ciais, depois que o assunto foi tratado em reunio do
Estado-Maior, expressando a insatisfagio da tropa, cada
vez pior remunerada e mal qualificada, cor continues
perdas de quadros para as empressas particulars de
seguranga ("ficamos cor o saldo", lament um official .
A onda de InsubordinagAo ameagava explodir num
conflito de proporg6es aos de Slo Paulo, Rio de Janeiro
e Minas Gerais quando, na segunda-feira desta semana,
o governador assinou finalmente o decreto de equipara-
9go da PM ao Ex6rcito. Desde agosto, um coronel da PM
ganhava 38% do sold de um coronel do Ex6rcito, quan-
do o decreto de equiparagAo, baixado quase no final da
administragAo Jader Barbalho, estabelecia a paridade em
60%. Um soldado ganhava 19 mil de soldo mensal, me-
nos da metade do salrrio mfnimo. A irritagao crescera
violentamente por causa dessa acentuada deteriorag o.
O retorno da equiparagAo 6 capaz esvaziar a ten-
sAo, mas pode ser apenas um tr6gua. Um coronel da PM
pass, a partir de 10 de dezembro, a ter soldo de 196 mil
cruzados, acrescido dos adicionais e vantagens que po-
dem duplicar, tiplicar ou mais ainda esse vencimento-ba-
se. Um soldado ficar6 ganhando entire 31 mil e 43 mil
cruzados. Mas logo ser& necessbria nova equiparagAo
porque os funcionfrios federal receberam mais 60%.
Depois de ter gasto quatro mess estudando uma media
que deveria ser adotada automaticamente, a da equipa-
gBo, qual serb a attitude do govenador agora? I uma per-
gunta que os quart6is comegam a fazer imediatamente e
que desgasta, no nascedouro, a conquista alcangada.
Um dos assessores que participou dos estudos so-
bre a atualizaggo considerou descabida a reclamagAo
dos militaries: disse que a media estd atrasada apenas
um m6s e nao quatro, "porque ela deveria ter entrado em


vigor em novembro". Justificou a demora argumentando
que o governor precisou fazer estudos detalhados sobre a
repercussAo economico-financeira. A folha de pagamento
dos seis mil integrantes da corporagAo val passar, em
dezembro, de 300 milh6es para 800 milhOes de cruzados.
"u um impact muito grande", acrescenta o assessor:
represent 10% de toda a folha de pessoal do Estado,
enquanto a PM tem 8% do nOmero de servidores.
Um porta-voz do governor admit que os militares
"nlo ganham como mereciam", mas lembra que o soldo
dos PMs em outros Estados equivale a um tergo do que 6
praticado pelo Ex6rcito. "Somos os Onicos a manter a
proporgAo dos 60%, mas se antes podfamos simples-
mente aplicar a lei, hoje o Onus 6 pesado. O funcionalis-
mo publico federal, inclufdos os militares, recebeu ulti-
mamente reajustes superiores aos dos servidores dos
Estados".
A equiparagAo foi estabelecida pelo ent&o governa-
dor JAder Barbalho tres meses antes de deixar o cargo,
"numa autentica leva de provid6nclas semelhantes que a
administragAo anterior adotou, mas s6 a atual passou a
pagar", observe a fonte. Se houver nova equiparagco em
janeiro, a folha da PM passarb de 1,5 bilh&o de cruzados
e a do Estado chegard a 11 bilh6es. "Se continuar assim,
a adminlstragAo estadual vai implodir", previu o porta-
VOZ.
Ele diz que o governador estb center dos movimen-
tos nos quart6is, que tomam como base a insatisfagio
salarial, "mas 6 algo falso e injusto". Nega que Gueiros
tenha desprezado a tropa: "ao contrarlo, ele tern sofrldo
um desgaste muito grande junto a opiniAo pOblica, justa-
mente porque ter safdo em defesa da corporagAo". Mas
assegurou que o governador "nao val aceitar nenhum ti-
po de pressao da PM. Tudo o que for possfvel conceder,
ele concederA. Mas se nao for possrvel, nao dari. E en-
frentarb qualquer tipo de reag o", arrematou.
Para provar que nao se impression com a pressao,
o governador s6 assinou o decreto de equiparagAo de-
pois do aumento geral do funclonalismo, com fndice mais
elevado para os professors. Agora o governor vai come-
Car novos estudos sobre a situaido de janeiro, "pensan-
do acima de tudo nos mals altos interesses do Estado".
O assessor diz que a pressao dos salbrios 6 suportavel
at6 abril: "Depois, 6 uma inc6gnita".


SUDAM



Gargantas profundas


I Sudam aprovou, na semana passada, em Belem,
o malor projeto de toda a sua hist6ria: uma ferro-
via de 1.038 quil6metros que, em quatro anos,
vai ligar CuiabA a Santa F6 do Sul, em SAo Pau-
lo. Ela custard 689 bilh6es de cruzados, quase 40% a
mais do que o orgamento do Pard previsto para o pr6xi-
mo ano, dos quais 274 bilh6es de cruzados sairao do Fi-
nam, fundo de incentives fiscal administratado pela Su-
dam.
S6 com esse projeto, a Sudam comprometeu recur-
sos oito vezes superiores ao do orgamento em execugAo
do Finam. O dono da ferrovia, o empresArio Olacyr de
Moraes, o maior produtor individual de soja do mundo, vai
ter direito a 42 bilh6es de cruzados valor a ser corrigi-
do em OTNs, naturalmente em 1989, quando comega-
ram as liberag6es da Sudam. I mais do que os 36 bi-
IhOes que foram aprovados para o fund em fevereiro
deste ano.


Para um 6rgbo que acumula um "deficit" hist6rico
centre os recursos aprovados para seus projetos e os que
efetivamente liberou at6 agora, a aprovagAo do projeto da
Ferronorte vai significar uma nova bomb de sucgao, a
maior entire vArias que jA funcionaram ou continuam em
atividade. Dificilmente sobrarAo incentives fiscias para
os projetos cor menos poder de competitividade no mer-
cado, o formal ou informal este ultimo em larga expan-
sAo gragas ao "17 e meio", o recurso A captagAo "in-
ventado" no ano passado.
Os m6todos que o empresbrio Olacyr de Moraeso
adotarA para garantir os recursos ao seu milionario pro-
jeto ndo ficaram muito claros no quadro de usos e fontes
do parecer submetido ao Conselho Deliberativo da Su-
dam. Mais incerta, por6rm a possibilidade de ele dispor
de 274 bilh6es de cruzados como opg&o do imposto de
renda para tender as exigencias do "projeto pr6prio" (jl
que o projeto vai receber recursos do artigo 18). A








Constran e Itaramarty, os dois principals bragos operati-
vos de Olacyr, geram pouco imposto de renda porque
desenvolvem atividades incentivadas. Provavelmente o
empresario acabara fazendo uso do "17 e meio", provo-
cando a implosAo do mercado.
A perspective se tornara ainda mais dramatic para
os que nAo trn competividade semelhante porque outros
projetos mastodontes farAo part das pr6ximas pautas do
Condel. I o caso da hidrel6trica da Jari, que se aprovei-
tar& da recent disposigAo da Sudam de prestar colora-
boragAo financeira aos projetos privados na area de fer-
rovia e produgAo de energia (um arranjo inspirado pela
Ferronorte e a Jari). A carta-conculta da hidrel6trica do
rio Jari foi aprovada e a obra devera absorver o equiva-
lente a 15 milh6es de d6lares (acima de 15 bilh6es de
cruzados, no cAmbio real do dia). t provAvel que o pro-
jeto seguinte a desabar do Condel seja o da malfadada
ferrovia Norte-Sul, cor sous mais de dois bilh6es de
d6lares nos costados, metade dos quais podem vir a ser
debitados na conta do Finam.
De onde poderA vir tanto dinheiro, 6 a grande ddvi-
da. Se o mercado suportarA tamanha demand, 6 outra
Incerteza. Mas ha uma convicgAo a especulac o se tor-
nara desertfreada e talvez o Finam, como seu irm&o, o
Finor, nAo suportem tanto. Se suportar, o prego a pagar
sera a indigOncia dos demais projetos e o fechamento do
caixa apenas para os clients privilegiados.
Esse quadro em relacgo ao Finam contrast com o
orgamento pr6prio da Sudam. A Superintend6ncia val ter


praticamente que parar, ao menos durante o primeiro se-
mestre do pr6ximo ano: ela queria 20 bilh6es de cruza-
dos para funclonamento em 1989. Depois de vArlos cor-
tes efetuados pelos minist6rlos do Interior e Planeja-
mento, o orgamento foi reduzido para 7,6 bilhSes, com-
putados as despesas com a folha de pessoal. Desse to-
tal, cinco bilh6es s6 poderAo Ingressar no 6rgAo no se-
gundo trimestre, dos quals 3,2 bilh6es do PIN/Proterra
- sio disciplinados apenas no dltimo trimestre do ano. A
Sudam tera que contentar-se a pagar seus funclonario e
manter-se. A execugAo de projetos se tornarA impossf-
vel.
O descompasso entire o comprometimento do Finam
e o orgamento pr6prio da Sudam, reduzido a um tergo da
proposta original e sintomaticamente obstrurdo, express
a posiglo adotada pelo ministry Joao Alves em relaglo
ao superintendent a ele teoricamente subordinado. Sem
forga political para demitir Kayath, o ministry do Interior
cria condig6es paralelas tAo desfavoraveis a Kayath que
espera, como conseq0encia natural, o pedido de demis-
sAo do superintendent. O remanejamento de recursos
para o Nordeste faz parts dessa estrat6gia, que, eviden-
temente, nAo 6 subscrita apenas por JoAo Alves junto ao
president Jos6 Sarney. O ministry Jader Barbalho deve
ter sua parcel de participagAo, s6 que ainda menos visf-
vel do que a de seu colega nordestino. I provavel que
esse jogo particular esteja nos seus lances finals, mas o
outro do qual participam os empresarios privilegiados -
esti apenas comegando mais um caprtulo.


CENSURA



Para que nunca mais retorne


A note totalitdria que inundou o pals a partir de
13 de dezembro de 1968, com o Ato Institucional nd-
mero 5, completou 20 anos. Ela cobriu progressiva-
mente a Imprensa, forgando-a a submeter-se ou bus-
car novas forms de comunicagio com o pdblico. O
flm do "Correlo da ManhA" e de "Realidade", o nas-
clmento de "Veja", de "O Pasquim" (hoje sem o arti-
go que havia no titulo a a vida que exalava do sema-
narlo), de "Opiniao" e de uma vasta "imprensa alter-
natlva", o desmoronamento da Rede Assoclada e a
consolidaq o da Rede Globo todos esses moments
sao peas de um panorama de crise. O "espirito" da
6poca fol slntetizado por Mill6r Fernandes, que colo-
cou como legend de um desenho (um home lendo
journal sobre os trilhos e um trem se aproxlmando pela
retaguarda) a advert6ncia: 6 proibido ler nas entreli-
nhas. As entrelinhas eram, entao, a trincheira da in-
formagAo contra a censura.
A experiencia dos jornalistas brasllelros cor a
censura 6 extremamente rica, mas os pr6prios jorna-
listas t6m refletido pouco sobre ela. Com o prop6sito
de transmltir ao leitor o produto dessa experiencia,
sempre que possfvel publicarei aqul artigos que nbo
puderam ser divulgados na 6poca em que foram escri-
tos, vitimas de um tipo de censura mais frequent do
que a exercida pelo Estado, mais profunda do que a
censura political e menos conhecida: a censura inter-
na. Pior do que essa podagio por dentro, s6 a auto-
censura, 6 qual muitos jornalistas acabam cedendo
quando sofrem tao intensamente a acao das outras
duas formas. Cedem, mas por fraqueza.
O primeiro dos artigos, corn o titulo "Principio
sem comego", censurado em 1985, foi escrito em cima
da cruise provocada pelo impedimento de Tancredo
Neves de assumir a presid6ncia da Repdblica.


l Nova Republica foi empurrada desde o seu ba-
tismo pelo entuslasmo popular. No dia da entro-
nizacgo no poder porem, o president elelto fica
impossibilitado de tomar posse por causa de uma
doenga chamada diverticulite. E o vice, que todos espe-
ravamos nao ir alem dessa fung~o coadjuvante, inaugural
o mandate na presidencia da Nova Repdblica.
t uma boa simula de trag6dla grega. Nenhuma sur-
presa poderia ser mais desconcertante, nenhum augOrio
mais soturno. A festa programada nao houve e o espeti-
culo desfez-se devido A ausencia do super-astro. O vice-
presidente assumiu acanhadamente a presidencia que o
antecessor sequer transmitlu.
Mas todos procuram aparentar calma e tranqUilida-
de. Em uma semana o "doutor" Tancredo Neves estara
em condigSes de ser empossado, ja plenamente resta-
belecido da cirurgia. At6 Ia, o vice Jos6 Sarney cuidara
da rotina. Ninguem estara pensando em novamente pisar
na Constituigo. Os convidados estrangeiros terAo verifi-
cado que o pals ficou maduro o suficiente para absorver
um acontecimento traumatizante sem pensar nos usual
desvios anormais (e, mais do que eles, n6s pr6prios fi-
zemos a constataago).
Se foi um test, a Naggo sobreviveu a ele, apesar
de sobressalta. Mas a seguranga tem uma Onica explica-
g o: todos estSo certos de que o impediment do presi-
dente eleito 6 apenas momentAneo e que ele retornara da
convalescenga inteiramente recuperado, apesar da dura
agressAo sofrida cor a anestesia geral aos 75 anos de
idade. Por faltar fundamento real A hip6tese ou simples-
mente por falta de vontade, a Naggo nem quis imaginary o
que poderia ocorrer caso a interinidade do vice se
transformasse (ou venha a transformar-se) em perenida-
de.










A eventualidade de ter Jos6 Sarney como presi-
dente durante todo o mandate da Nova Repbblica des-
monta a perspective da transigao. NAo apenas por uma
questgo de avaliagAo das pessoas envolvidas segundo
crit6rios subjetivos (embora a comparagAo dos dois cur-
rfculos seja contrastante), mas por um element basico:
qualquer que tenha sido sua motivagAo, Tancredo Neves
esteve A margem do poder estabelecido nestas duas ul-
timas d6cadas. Sarney, no entanto, foi um de seus maio-
res beneficirios.
Em polftica, como em qualquer outro setor da ativi-
dade humana, admite-se e at6 louva-se a mudanga, mas
suspelta-se da metamorfose. A mudanga subita e radi-
cal de Sarney ao trocar o PDS pela Allanga DemocrAti-
ca escapa aos padres da muta8go por dentro, enqua-
drando-se mais no ritual das transformag6es externas
para proveito pessoal. Nao poderia agradar aos compa-
nheiros de nau (jA em franco process de adernagem),
nem suscitar conflanga total centre seu's novos correligio-
nrrios (muito menos entire o povo, assistente surpreendi-
do desses contorcionismos politicos).
Diz-se do politico (mas cor a fixagAo no escritor)
Jos6 Sarney que 6 um liberal. O liberalism germinou no
Brasil A sombra dos casaries senhoriais, sem negar a
relag8o entire a casa grande e a senzala. Foi e ter sido
um produto para consume externo (como mostrou es-
plendidamente Marco Aur6lio Nogueira, examinando Joa-
quim Nabuco em "Desventuras do Liberalismo"). A UDN
foi ao mesmo tempo a matriz da "bossa nova" e a alcova
dos eternos golpistas, incapazes de estabelecer uma re-
lac&o sadia e produtiva com o poder ( e acabaram con-
sumidos por essa volOpia, em fogo brando, como Milton
Campos e Adaucto Lucio Cardoso, ou em brasa viva,
como Carlos Lacerda).
A face intellectual queo sr. Jos6 Sarney exibe a in-
terlocutores no sul pode ser liberal. A face polrtica que
constr6i sua carreira reunindo currais de votos pelo inte-
rior do MaranhAo 6 de outra natureza. As emocionadas
descrigces que intelectuais podem fazer de suas quali-
dades nAo sAo partilhadas pelos maranhenses que sofre-
ram as conseqiencias de seu despotismo domestico. Ha
uma dupla e contradit6ria face, que a ficgao, mais do que
nosso pobre jornalismo, pode captar (como o fez Alejo
Carpenter no romance "O Recurso do M6todo").
A biografia do "doutor" Tancredo Neves mostra cla-
ramente que ele nao 6 pessoa capaz de iniciar a cons-
trugAo de um novo Brasil, sacudindo os pesados e vio-
lentos anacronismos que formal uma couraga s6lida a
proteger o "establishment" e o "status quo". O "doutor"
Tancredo consegulu a proeza de reunir elements antit6-
ticos: uma carreira forjada atrav6s do voto popular e uma
personalidade completamente de elite. Mas o "doutor"
Tancredo Integra o clube singular das elites esclareci-
das, sensfveis, dotadas de um conjunto de id6ias que
funciona como 6 norte ideol6gico de suas ac6es.
Ele 6 a expressao cristalina desta crlag&o doutrina-
ria genuinamente national, capaz de juntar conservado-
rismo a liberalism (degenerando freqUentemente em me-
ro tropicalismo). Sua missAo seria a de restabelecer sfm-
bolos politicos para a NagAo, oferecer carismas a servi-
go de um projeto consensual de transigAo, combinando a
liberagAo do oxigAnio para o debate das id6ias cor um
desenvolvimento A maneira de JK, mas nao tAo cego.
Tudo isto, por6m, torna-se devaneio e exercrcio
masoquista de imaginagAo diante da realidade criada pela
doenga Imprevista. Um fil6sofo alemao disse que a hist6-
ria independe da vontade dos homes. Mas ontem verlfi-
camos, acacianamente, que nao existe hist6ria sem ho-
mens. Apesar de formalmente inscrita, ontem, a hist6ria
da Nova Republica ainda nAo comegou de verdade. Foi
adiada por uma diverticulite.


Um protest

pelo buraco
0 leitor Jorge Moreira Juli&o enviou ao JORNAL PESSOAL a
seguinte carta:
Senhor:
Sinto revolta e n~o me contenho. t feio, sujo, fedorento, pe-
rigoso e indecente, aquele barracdo corn mato e capim, transfor-
mado em depdsito de lixo, all na Senador Manoel Barata, local
onde existiu aquela beleza de arquitetura antiga, a FAbrica Palme-
rinha, da qual o ilustre jornalista Ldcio Fldvio se referiu no seu ar-
tigo "A mais portuguesa cidade brasileira", vide 0 Liberal,
24.08.86. Demoliram-na, e para qud? "Um crime urbanistico",
bem disse ele.
Agora, I8 esta aquela imoralidade, um desrespeito e at6 um
acinte aos foros de civilidade de uma cidade como 6 Belem. E nAo
somente A cidade, mas A populapgo civilizada e educada; nestes
dltimos, excetua-se os proprietdrios daquilo, que estAo long de
ser e nlo tmrn 6 vergonha de mostrar "aquela coisa" ao povo e
aos turistas, em pleno centro da cidade. Alm de tudo um atentado
4 sadde e a seguranga do povo. E se um traseunte cai dentro da-
quele sumidouro? Ratos, baratas, outras pragas e doengas, de-
vem proliferar all.
Desde jd, por interm6dio deste conceituado journal, fago um
apelo ao novo prefeito de Bel6m: obrigar os "donos" a construir,
reconstruir, urbanizar, nao somente aquela indec6ncia, mas mui-
tas outras, enfeitando e descaracterizando nossa querida cidade
de Santa Maria de Bel6m do Grgo Pard.

Atenciosamente
Jorge Moreira Juliio (Jullio)


Silenclo total
Talvez a pollcia s6 tenha encontrado um rumo nas
investigag6es sobre o assassinate do ex-deputado Paulo
Fonteles, no ano passado, porque todos os dias rep6rte-
res de journal, televisao e radio cobrav'am informag6es do
delegado responsAvel e em massa. Essa pressbo po-
sitiva nao se repetiu em relacgo ao atentado contra o de-
putado Jodo Carlos Batista. Provavelmente por falta de
empenho, a imprensa sequer consegiu vazar o retrato
falado do home que pelo menos quatro pessoas viram
atirar no parlamentar ou julgam ser o assassino. O tra-
balho custou dinheiro e esforgo t6cnico, mas estA sendo
usado apenas pelos policiais.
Pode ser que eles tenham seus motives para impe-
dir a divulgagao desse retrato falado, contrariando o pro-
cedimento padrAq das pollcias do mundo inteiro. Mas es-
sa posig8o s6 poderia ser tolerada se a polfcia ja tivesse
apresentado resultados concretes das andangas que tern
feito pelos sub'rbios e, segundo consta, por municfpios
do interior. Passadas duas semanas do crime, por6m, ou
a polfcia tern um grande segredo para anunciar, ou esta
mesmo 6 perdida. Mais do que ela, ou tanto, a imprensa,
que recuou em relaago a um crime que, enquanto sinal de
uma 6poca, 6 ainda mais grave do que o de Fonteles, in-
clusive por ser posterior a ele. Sintomaticamente, a me-
Ihor sustentagAo do "caso" foi dada pelo Jornal do Brasil,
que transformou em mat6ria principal de seu Cademo B
Especial material produzido por Priscila Faulhaber, inte-
lectual da regiao exilada num doutoramento em Campi-
nag.


Jomal Pessoal

Editor responsivel: Lucio Filvio Pinto
Endereo (provis6rio): rua Aristides Lobo, 871
Bel6m, Par, 66.000. Fone: 224-3728
Dlagramario e Ilustrafio: Luiz Pinto
Opfio Jonmallsties