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arn Pessoal Luicio FlAvio Pinto N0 30 Circula apenas entire assinantes 2a Quinzena de Novel mbro de 19,88 ELEIQAO Caem as oligarquias O PMDB foi desapeado do poder no qual o povo o colocou seis anos atras. Foi a maior das derrotas que o partido sofreu em todo o pais. Terminam as oligarquias ou novas poderao estar surgindo agora?i Em 1982 o povo deu ao PMDB pleno poder po- litico na Amazonia. Seis anos depois o mesmo povo cancelou essa delegag(o: o PMDB foi der- rotado nos seis Estados da regiao Norte, dois deles Roraima e Amapa rec6m-criados pela As- sembl6ia Nacional Constituinte. Uma dessas derro- tas foi surpreendente em si mesma: a do todo-pode- roso Gilberto Mestrinho, duas vezes governador do Amazonas, que tentou ser prefeito de Manaus para usar o cargo como trampolim para tornar-se inquilino do Pal6cio Rio Negro pela terceira vez, faganha que nenhum politico conseguiu realizar at6 agora. Outra derrota causou impact por sua dimensao, arrasando o candidate que o ministry Jader Barbalho tentara transformar em prefeito de Belem, atrav6s de seus j6 conhecidos m6todos imperials de impor decisbes de cima para baixo. Mesmo sem participar da eleic5o, J6der foi o centro de um plebiscite no qual o eleitor paraense manifestou claramente a dis- posigco de livrar-se da lideranga Onica e abriu no- vas perspectives para a dispute do poder local. Mesmo no Acre, a oligarquia modernizadora de Flaviano Melo foi derrotada, nlo pelo discurso de um dos mais jovens governadores do pais, de 39 anos, feito em torno de temas ecol6gicos, mas por sua intengio de recrutar parents para ocuparem os cargos politicos. Em dois dos Estados, o Amazonas e o Amapd, o eleitor foi para a esquerda, com Arthur Virgilio Neto e JoAo Alberto Capiberibe. O caso mais acaba- bado de reversip ao quadro politico anterior ao das vit6rias peemedebistas de seis anos atrds foi o do Acre: depois de amargar duas derrotas em 1982 para o governor do Estado e em 1986 para o senado - o ex-senador Jorge Kalume, do PDS, conseguiu vencer o deputado Ariost Migueis, candidate da fa- milia Melo, na dispute pela prefeitura de Rio Branco. O PDS tamb6m recuperou a prefeitura de Porto Ve- lho e a maloria na Cdmara de Vereadores da capital de Rond6nia. O discurso anti-PMDB, feito tanto a direita comno a esquerda do partido entio majoritirio, centrou-se em dois pontos principals: a corrupFico e a falta de respostas administrations para os problems que o PMDB questionava quando era apenas oposiqgo. Ou seja, o PMDB manteve os mesmos procedimen- tos do passado, incorporando as prdticas que conde- nava. Desiludido, o eleitor procurou cor seu voto outro padrlo de agio. A falta de opg6es pode lev6- lo as fontcs de novas decepc6es, mas a eleirco 6 apenas um ponto de partida que sinaliza o rumo que os eleitos devem seguir. Se nao seguirem, caber6 ao povo corrigir o tracado, outra vez. O Boto Tucuxi perde Confiante na forca de seu carisma e na imutabilidade do tempo, Gilberto Mestrinho ignorou esses sinais, que comegaram a aparecer nas iltimas pesquisas de opiniio realizadas em Manaus. Viu na depredagio dos 8nibus que inte- gram o precario e viciado sistema de transportes urbanos da capital amazonense (como, de resto, em todas as outras cidades amazonicas), um dos fatos mais marcantes do final da campanha eleitoral, ape- nas arruaca patrocinada por seus adversarios e nao mais um sintoma da explosividade social. Mestri- nho, cujos ardis inspiraram seu conterrAneo MArcio Souza no folhetim "A irresistivel ascensio do Boto Tucuxi", achou que distribuir favors na periferia da cidade As v6speras de eleig o continuava sendo m6- todo infalivel. Fonte de todas as liderancas polfticas amazo- nenses pr6-1964 e p6s-1982, Mestrinho ignorou que Manaus concentra hoje mais de 60% da populagio do Estado e acima de dois tercos da sua riqueza. A Zona Franca urbanizou as mentalidades, ou ao me- nos criou um produto hibrido, que nio pode ser redu- zido ao esquema paternalista do extrativismo e a um passar de mio sobre a cabega dos curibocas e afi- Ihados. Algumas das conquistas sociais introduzidas pela nova Constituiglo jA eram praticadas por certas empresas da Zona Franca quando entraram em vigor Ano II no pals. Isto nio significa que as tens6es sociais foram eliminadas, mas indica que se modernizaram. Mestrinho ficou no meio do caminho. Fazendo blague, ele garante que em 1990 recon- quistard o governor do Estado, talvez pelo PTB, se isso for convenient aos seus interesses. Mestrinho poderia aliar-se no pr6ximo ano a outro icone da en- velhecida political brasileira, o prefeito de Sao Pau- lo, Jinio Quadros. Mestrinho se declara disposto a embarcar no trem de Janio rumo a presidencia da Republican, "se ele me convencer de que pode traba- Ihar pelo menos tr6s vezes por semana". Mais uma frase de efeito, mas pode ser o que rest a Mestri- nho: abandonar a sigla desgastada do PMDB, da qual jd desembarcou seu ex-pupilo, o governador Amazo- nino Mendes (eleito, comegou a desprender-se do mestre, conform o mon6tono ciclo de rejeigio cria- tura-criador que marca a sucessio das oligarquias). Conseguird Mestrinho voltar ao poder? Por en- quanto, cabe apenas a pergunta, impensdvel antes de comegarem a ser apurados os votos do dia 15. Depois de deixar o governor, em margo do ano passa- do, Mestrinho transferiu-se completamente para o seu bunker de neg6cios em Sio Paulo, associando- se a mineradores de diferentes matizes e A direcio da TV Bandeirantes. Fez campanha eleitoral de 50 dias, insuficiente para preencher o vdcuo que deixa- ra e satisfazer a curiosidade popular em torno da faiscante riqueza do ex-governador, hoje um home de neg6cios mais do que bem sucedido (e sem fron- teiras). A marca do dinheiro O povo nio se op6e a que dirigentes desviem alguns recursos do tesouro para seus cofres pessoais, do que dio prova lideres do tipo Ademar de Barros e os herdeiros dessa tra- digio de que 6 possivel roubar, mas fazendo. Quan- do a carreira political torna-se incapaz de explicar com algum grau de convencimento enriquecimentos fulgurantes, no entanto, abre-se um amplo campo de desgaste, propicio tanto a revelagdo da verdadev como a campanhas difamat6rias. Posto sobre essa tenue linha divis6ria, o minis- tro Jdder Barbalho foi o grande alvo da campanha eleitoral deste ano no Pard. O candidate que ele con- seguiu referendar na convengio do PMDB, contra a vontade da maioria ou sob seu ceticismo, tornou-se tema secundario. Pessoa afAvel e leal, o deputado federal Fernando Velasco, no entanto, jamals conse- guiu transmitir identidade pr6pria. Nio passou do candidateo de Jader Barbalho", contra quem o povo se manifestou, sensibilizado por uma ofensiva de ataque direcionada contra a corrupGlo. A rota da fisiologia A derrota do PMDB na Amazonia foi mais contundente do que em qualquer outra regiio. Nas Breas mais modernas o acento ideol6gico do eleitor ponderou a forca do fisiologis- mo, mas na fronteira ou na periferia national a md- quina official tem peso quase decisive, se nio encon- tra circunstancias especiais. E assim que se explica o relative sucesso do PMDB no Nordeste, onde, A forca da desfiguracAo programttica, consegulu man- ter o traditional reduto de todos os governor, inde- pendentemente de seus suportes partid6rios. Mas como explicar o fracasso na regio Norte, onde exis- tem algumas condiSees semelhantes As nordestinas? Em Bel6m, por exemplo, o PMDB teria & sua disposi- cgo as mdquinas dos governor federal, estadual e municipal, impotentes para minimizar a fragorosa derrota (sagazmente, H6lio Gueiros entrou na cam- panha apenas enquanto correligiondrio, poupando-se como governador). A resposta exige uma andlise bastante matizada por fatos desconexos, uns relacionados ao future da regiao, outros a elements arraigados do passado. O trago comum, entretanto, 6 a tentative de substi- tuir uma oligarquia por outra, mas sem oferecer qual- quel novidade, repetindo m6todos que, de tdo exaus- tivamente condenados na guerra que o PMDB susten- tou enquanto foi oposiGlo, tornaram-se inaceitAveis ao conjunto da sociedade. Quando nio havia mesmo escolha, o povo voltou atras, como no Acre. Onde o pregio dos candidates ofereceu novidade, o eleitor foi atrds dessa promessa, como em Bel6m. O obje- tivo era o de acabar com oligarquias, mesmo as re- centes, ainda que b custa do aparecimento de d6spo- tas aparentemente esclarecidos. Na AmazBnia, esses messias tem tido muito de d6spotas e pouco de esclarecidos, mas a oplio elei- toral gravita em torno de nomes, como foi no passa- do e continuard a ser no future ? Aos assinantes Um crescente n6mero de assinantes tern recla- mado da entrega dos exemplares de assinatura. Se part do problema pode ser atribuida A precdria or- ganiza~io de um journal mais do que pobre, que nio mobilize mais do que quatro pessoas de uma mesma familiar e agregados, uma boa parcela, no entanto, deve-se ao serving postal brasileiro. Os Correios, que jA mereceram um excepcional grau de credibili- dade do pdblico, estio em visivel retrocesso, que todos esperamos nio persista. Para podermos evitar prejuizos, pedimos aos as- sinantes que mantenham-se vigilantes, tanto sobre a entrega de seus jornais, como em relag~o a vig6n- cia de suas assinaturas; em m6dia, de 30 a 40% delas estio sempre vencidas, por motives variados, mas muitos deles ligados a falta de tradicio quanto a assinatura de peri6dicos em Bel6m. Um journal se fortalece quando seus leitores sio atentos. Faca a sua assinatura Para obter informac6es, basta telefonar para 224-3728. Se voc6 jd 6 assinante, verifique se j nao 6 hora de fazer a renovagdo. Se aprova o JORNAL PESSOAL, divulgue-o. JADER 0 agonico dia depois No final da semana passada muita gente pergun- tava, nas ruas de BelBm, se era verdade que o minis- tro Jader Barbalho cumpriria a promessa de apare- cer..em p6blico de tanga por causa da derrota de seu candidate a prefeitura da capital paraense. O boato fora disseminado pelos donos da TV Guajar6, que estao entire os mais recentes inimigos figadais do ex-governador, mas nao era verdade. Apesar do absurdo da hist6ria, por6m, nao foram poucos os que acreditaram nela. Beldm estava dominada pelo sentiment de que impusera uma dura li(go ao li- der politico incontestdvel da v6spera, ofuscando a estrela de Jader Barbalho e introduzindo no firma- mento politico uma nova estrela: Sahid Xerfan. O fracasso do PMDB na maior cidade da Ama- z6nia ultrapassou todas as expectativas. Fernando Velasco s6 estava conseguindo um sexto dos votos recebidos por Sahid Xerfan, apenas superando por pequena margem a soma de votos broncos e nulos. O RMDB nao conseguiu vencer em um (nico bair- ro. Xerfan acumulava o triple dos votos de todos os oito candidates reunidos nas outras siglas. Nun- ca houve resultado tao esmagador como esse em toda a hist6ria eleitoral de Bel6m. A rejeicgo ao PMDB poderia ser detectada tan- to nos subirbibs, inclusive naqueles como o Mar- co e a Pedreira muito beneficiados pela adminis- tragco municipal do partido, como no centro, onde os prefeitos Almlr Gabriel e Coutinho jorge realiza- ram suas obras de maior impact promocional. Can- didatos a vereador decidiram & iltima hora, quando o naufrdgio jd era mais do que evidence, desvincular- se do peso morto que Ihes fora atado pelo ministry com a candidatura majoritdria de Velasco e passa- ram a trabalhar isoladamente ou associados a Xer- fan. Nao foram poucos os votos dados a vereadores do PMDB e, ao mesmo tempo, ao candidate da coli- gaado PTB-PDS-PFL. 0 principal alvo Isto significaria que o prin- cipal alvo do voto de protest do eleitorado da capi- tal foi mesmo o ministry da Previddncia Social. Se j6 em 1982, quando Jdder disputou o governor, se estreitava sua base de apoio na classes m6dia bele- mense, em 1988 ficou claro que mesmo nos subir bios ele tem cada vez menos adeptos. Seu reduto na drea metropolitan talvez esteja al6m dos limits de Bel6m, j6 em Ananindeua, onde se concentram os conjuntos habitacionais derivados das invas6es comandadas ou apoiadas pelo PMDB, ainda assim jd desfalcados, Q quadro indica que Jader Barbalho 6 lideranca em declinio no maior col6gio eleitoral do Estado, onde estao 30% dos eleitores paraenses. A situagao nao seria tao dramatica se a previsao do ministry, de conquistar 70% das prefeituras do interior, fosse factivel. Mas hA grande exagero nessa expectativa. O PMDB s6 triunfava em quatro dos 21 municipios com maior eleitorado (Santar6m, Altamira, Casta- nhal e Abaetetuba), enquanto o PDS ganhou em seis, o PDT em quatro, o PTB em tres e o PSB e o PDC em dois municipios cada um. t certo que a sigla partidaria, na esmagadora Smaioria dos casos, 6 apenas um abrigo para politicos que s6 se distinguem entire si pela distancia em que se encontram do poder, o foco obsessive de todos eles. O PMDB venceu em Santar6m, mas, al6m de ter sido por reduzida margem de votos se comparada a outras vit6rias recentes, 6 de se prever para breve um rompimento entire o future e o atual prefeito, ini- migos mortals antes que as conveni6ncias os unis- sem. Alem disso, Ronan Liberal sofre de heliotropis- mo politico. Ja em Ananindeua e Maraba, Jader per- deu com a sigla do PMDB, mas ganhou cor outros partidos. O uso do poder Ele continuara exercendo con- trole sobre outros municipios enquanto puder mos- trar poder. Depois de deixar o governor e antes de embarcar no ministerio Sarney, esta nave nao iden- tificada A deriva no cosmo, Jader foi obrigado a se satisfazer em despachar na sede de seu journal e receber ocasionais visits. E a algo pr6ximo dis- so que voltara se for despejado do governor no curso dos pr6ximos dois ou tres meses de ajustes aos re- sultados da eleiCgo e da tentative de firmar um pac- to social contra a inflarao. Se isso ocorrer, o future de Jader vai defender de sua habilidade pessoal, da qual nao precisou fazer tanto uso nos iltimos anos porque Ihe bastava recorrer ao taco do poder. O ministry terA que cuidar com igual atengao de seus inimigos externos e da crescente legiao de opositores internos. O comportamento do governa- dor Helio Gueiros na campanha eleitoral deste ano revelou que ele nao espera devolver o cargo ao seu antecessor. Se puder fazer uso dessa vantagem, Gueiros tera sido o mais beneficiado pela derrota de JAder, que perdeu a aura de imbativel e o temor que essa fama difundia entire os correligionarios. Abriu espaco para o surgimento de candidatura al- ternativa ao governor do Estado, em 1990. O ministry val procurar fechar a porta, mas nao sera tarefa fa- cil. Um dos primeiros movimentos sera em relagao ao superintendent da Sudam, Henry Kayath, o c6re- bro e o caixa da ala mais forte a se desprender de J'der. Depois de ter feito do filho, um ne6fito em po- litica, o deputado mais votado do Pard em 1986, Kayath colocou um sobrinho na linha de frente dos vereadores do PTB gragas a outra campanha milio- ndria (o dinheiro utilizado talvez elegesse Wady deputado federal, cargo que sera a pr6xima meta do primo Carlos). O superintendent da Sudam prova- velmente pretend ser governador pelo PMDB, mas talvez aceite ficar como senador do PTB de Xerfan se tiver que romper com Jdder. JA preparou as bases para isso. O ministry ja sabe que nao pode ter seu velho amigo entire os leais e incondicionais auxiliares do tipo Velasco, que se submetem a todos os arranjos do lider. Alguns desses auxiliaries recomendaram a JAder que demitisse Kayath da Sudam bem antes da eleigoo. O conselho continuard vdlido agora? Colo- ca-lo jd em prdtica implicaria assumir abertamente o rompimento mal disfargado com o governador Hd- lio Gueiros, que tem por Kayath um aprego capaz de desafiar a sensibilidade de sensors externos. Mas Jdder pode contar com o pr6Rrio Hdlio? Qual a me- dida da preservagdo que o governador estd disposto a assumir em favor de seu correligionbrio e lider maior ? Jader pode dar respostas a essas perguntas en- quanto estiver como ministry. Como o prazo dessa garantia 6 t*o incerto e nao sabido quanto o respon- savel por essa delegagAo de poder, o sonambdlico president Jos6 Sarney, JAder ter que tomar uma iniciativa imediata, enquanto tem tempo. S6 assim ele poderia reativar as baterias de sua lideranga e faze-la irradiar calor, atraindo os vencedores do dia 15 que, a partir de 19 de janeiro, ou agora mesmo, comegarem a procurar um contato melhor com o sol do poder. Do contrdrio, a luz da estrela cadente de Jdder Barbalho s6 conseguird iluminar, numa pr6xi- ma eleigco, a ele pr6prio, marcando o eclipse de uma oligarquia que, como quase todas as demais, durard menos do que pretendia. XERFAN Ele veio para ficar V arios dos integrantes do comity de Sahid Xer- fan levaram um susto quando viram a image do ex-governador Alacid Nunes, no program da televisao anunciando que fora ele o respon- sdvel pela indicagio do empresario para a prefeitura de Bel6m, em 1983. "Vamos perder votos", lamen- tou um dos assessores mais pr6ximos do candidate. A aparigio de Alacid foi logo cortada do program da coligagdo oposicionista, mas o PMDB repetiu o video atd o final da campanha. Era a tentative de usar contra o adversario uma arma a que os alacidis- tas recorreram sem perceber que ela prejudicava ao inv6s de ajudar Xerfan. Alacid 6 um nome definitivamente desgastado em BelBm. Mas nao foi s6 por isso que os xerfanis- tas, o neologismo politico que entrard em moda na pr6xima saison, nio gostaram da inclusgo do ex-go- vernador. O future prefeito tem mbgoas do aliado desde os epis6dios da curta passage pela PMB ha mais de cinco anos. Alacid, entao governador, suge- riu a Jader Barbalho, recdm-eleito, que desconvidasse Xerfan depois que ele admitiu ser o novo prefeito de BelBm antes que os dois padrinhos fizessem o anin- cio da escolha. Xerfan havia acertado com Alacid e Jader espe- rar 24 horas, depois de recebido o convite, para dar tempo aos dois de fazer a revelaggo. Passado esse prazo, Xerfan achou que nio haveria problems em admitir a noticia para os jornalistas que o procura- vam; final, ela ja circulara nos meios politicos. JB- der, que estava em Brasflia (em final de mandate como deputado federal), e Alacid, em Beldm, troca- ram telefonemas procurando interpreter a iniciativa de Xerfan, talvez sinal de que nio pretendia subme- ter-se aos dois lideres maiores e queria ter vida pr6- pria. Alacid chegou a sugerir a Jader que substituisse Xerfan por Dionisio Hage, mas o governador eleito considerou mais arriscada essa alternative: ela po- deria abrir um canal atravds do qual Alacid reivindi- caria, logo em seguida, ficar com a prefeitura, en- quanto Hage voltaria sem problems para a Camara Federal. Jdder manteve a escolha de Xerfan e deu- Ihe posse. Visita: um pretexto A segunda crise nio tar- daria a vir, mais uma vez por iniciativa de Xerfan. Ele decidiu retribuir uma visit que Ihe fizera na vespera o rec6m-derrotado Jarbas Passarinho, entao o maior adversario de JAder e dos alacidistas. Jun- tamente com a esposa, Ruth, Jarbas estivera na re- sid6ncia de Xerfan, mas o prefeito nao chegara a tempo de receber o senador, que fora vencido na tentative de reeleger-se e afastado de qualquer cargo pUblico. No dia seguinte, Xerfan mandou avisar Pas- sarinho que iria v8-lo na casa da sogra dele, dona Cotinha. E foi, com a esposa, Margarida, para uma amena conversa de mais de uma hora no final da tarde de um domingo morno. Foi um encontro infor- mal, com poucas testemunhas: Xerfan chegou e saiu dirigindo seu pr6prio carro. O governador e seu poderoso aliado s6 soube- ram da visit pela noticia que publiquei na terca-feira na coluna "Rep6rter 70", de "0 Liberal". Jader, ar- diloso, resolve nao dar troco imediato. Alacid, po- rem, teve uma daquelas irrupg6es violentas que s6 seus auxiliares mais pr6ximos conhecem em toda a sua amplitude. Envolvido com a morte de um paren- te, Xerfan nao responded logo aos insistentes tele- fonemas de Alacid, depois de procura-lo na casa dos sogros, onde ele morava, e, nao encontrando-o, ter um principio de desentendimento pelo telefone. S6 conversaram mais demoradamente no final da noite - e nao foi um encontro amdvel, ao contrdrio da visit a Passarinho. Avaliando o terremoto que seu gesto provocara nas duas alas responsdveis pela sua nomeacdo para a prefeitura, Xerfan redigiu uma carta de demissdo e foi entrega-la a JAder na residdncia official. O go- vernador nem leu o texto do document, rasgando-o diante do prefeito, levado gentilmente atd a porta para, juntos, desfazerem diante dos rep6rteres os boatos da crise. Mas a partir desse moment come- garam as alfinetadas do governador e algumas inicia- tivas de nitida retaliaq~o que tornaram insustentavel a posigco de Xerfan. "Eu ocupava um cargo de confianga e tinha que devolv--lo a quem me delegara esse cargo", expli- ca o empresdrio, hoje, justificando a carta elogiosa dirigida ao governador que, a partir dai, passou a cri- ticar, "por puro desencanto". "Ele s6 queria se pro- mover", acusou o atual ministry, jd no final da cam- panha eleitoral deste ano. Sem nova dependdncia Logo que a apuragao das primeiras urnas confirmou as previs6es sobre sua tranquila vit6ria, Xerfan foi novamente visitar Passarinho. Tendo obtido o maior triunfo de toda a hist6ria eleitoral de Bel6m, Xerfan j6 nao precisava preocupar-se com as repercuss6es dos seus atos so- bre patrons ou partidos. Ao contrario, podia dar-se ao luxo de colocar-se acima deles. O agradecimento a Passarinho, por exemplo, ti- nha sua estudada ambiguidade. De fato, o senador liberara o PDS para decidir pelo voto se coligaria ou nao com Xerfan. Mas teria algum sentido de realida- de a outra alternative, de impor, atrav6s de decisdo de c~pula, a candidatura pr6pria que a maioria do partido rejeitava? S6 os jarbistas sustentavam essa posig5o. Os que a contestavam asseguravam que tal motivaoao devia-se apenas a dependdncia em que ficara o senador de Jader Barbalho, depois de ter re- cebido do entdo governador o apoio indispensavel para voltar a eleger-se. A ala anti-jarbismo do PDS nao acredita que a alianca entire ambos tenha se es- gotado na eleig o de 1986. Mas se poderia agradecer ao president nacio- nal do PDS ter liberado os correligiondrios, Xerfan tamb6m poderia criticd-lo por omitir-se inteiramente da campanha para a prefeitura de Bel6m. Jarbas alegou que nao poderia aparecer junto ao seu grande inimigo, Alacid Nunes. Mas nem precisaria: Xerfan nao fez comicios, que poderiam expor o senador a constrangedora companhia, limitando-se as caminha- das pelos suburbios. Nio haveria impeditivo algum para que Jarbas gravasse mensagens de appio a Xerfan, em estidios de Brasilia ou de Bel6m, ainda mais porque a aparig~o de Alacid foi mete6rica - nao pela vontade dele pr6prio, 6 claro. O senador esta consciente de que sua attitude receberd interpretaGes menos generosas do que a apresentada de publico por Xerfan. Quando indaga- do sobre o que represent para um candidate a elei- g~o presidential do pr6ximo ano nio ter participado das eleig6es municipais de 1988, concordou que pode prejudicar, embora arriscando uma atenuante (a de que muitos dos envolvidos se chamuscaram na p6lvora dos votos). Ja Xerfan, diante da pergunta sobre o apoio que daria a candidates & presid6ncia, deu uma resposta curta: a question ainda 6 prematu- ra, mas estard ao lado daquele que se comprometer em favor do Pard e de Beldm. Sem intermedifrios Do alto de uma votaCio nao alcangada at6 hoje por nenhum outro politico na maior das cidades nortistas, Xerfan se julga no di- reito de ser, a partir de agora, o int6rprete da vontade do povo. Ao ineg6vel carisma, alia uma visio mes- sianica de si mesmo e que nio serve apenas para consume externo. Voltard ao contato direto com a po- pulacro, a um ritmo de trabalho alucinante e a con- siderar secundaria qualquer intermediacio admi- nistrativa ou political entire ele e sua clientele. Xerfan administrarA Beldm como Silvio Santos co- mandava sua plat6ia de television. 0 paralelismo 6 esclarecedor. Afinal, nio se trata de mera coinci- d6ncia que Xerfan trate os auxiliaries como "compa- nheiros de trabalho", convencido de que a empatia comunicador-comunicado 6 pessoal e intransferivel. Esse estilo provocou a primeira e sutil crise, mal eram apurados os votos das primeiras urnas. Xerfan repetiu, para a reporter Telma Pinto, de "A Provincia do ParB", o que jd havia dito para outros jornalistas em converses informais: que nio se pren- de a partidos, que nio segue os esquemas existen- tes e que agird apenas conform sua consci&ncia e a vontade do povo, terms redundantes de um s6 corpo. A entrevista, publicada com destaque, foi rece- bida com azedume pelos dirigentes do PTB, PDS e PFL envolvidos na coligag~o. Uns acharam que hou- ve md f6 do journal, deturpando as palavras do pre- feito eleito, porque "A Provincia" foi incorporando simpatia por Fernando Velasco ao long da campa- nha eleitoral. Outros trataram de colocar panos quentes, esclarecendo que Xerfan estava mesmo li- vre de compromissos com os partidos, que dele nio exigiriam nada al6m de realizar um bom trabalho na administration municipal. Xerfan nio fez qualquer co- mentdrio: de uma maneira ou de outra, a entrevista poderia funcionar como sinal de advertincia. Talvez nio no mesmo tom, sem a infase que aparece na entrevista, ele disse muito mais em con- versas reservadas, nas quais fatos e id6ias sio apre- sentados mais para que o entrevistador faga o seu juizo pessoal. Xerfan vai assumir a prefeitura de Be- Ilm no dia 19 de janeiro com uma margem de poder que nenhum outro politico desfrutou na capital pa- raense. Ele s6 aceitou filiar-se ao PTB, no dia 30 de julho, no final do prazo legal, depois que o partido publicou uma nota tragando o perfil do candidate que apoiaria para a prefeitura. As caracteristicas eram as de Xerfan, indicadas por ele mesmo. Ou seja, para tender o compromisso com seu partido, basta que Xerfan seja o que 6. O padrno vale para os ou- tros partidos, que a ele se aliaram porque, de outra maneira, simplesmente estariam fora do pdreo. Antes de assumir a candidatura, Xerfan ainda aguardou a reform tributdria, que fortaleceu os mu- nicipios, e foi ao governador Hl6io Gueiros receber as garantias de que teriam uma relagdo amistosa e respeitosa, marcando os novos tempos de um perio- do no qual o governador 6 de um partido e o prefeito da capital de outro. A sede da Codem, onde funciona a prefeitura, vai ser apenas um referencial topogrdfico para Xer- fan. A rigor, ele vai continuar as caminhadas, talvez estendidas ao interior do Estado, onde foi intense a repercussio de sua vit6ria. Elas poderio fazd-lo dei- xar de lado a promessa de cumprir seu mandate de quatro anos e entrar em nova campanha, para o go- verno do Estado. Nesse caso, ficaria apenas 15 me- ses na PMB, o que pode facilitar sua vida. O primeiro teste Ainda 6 cedo para prever como Xerfan se saird no exercicio de uma delegagio political sem paralelo na hist6ria da capital, mas al- guns components comegam a surgir. Poucos perce- beram, na movimentagdo da campanha, que o gover- nador Hdlio Gueiros arrancou uma lei criando uma empresa estadual para administrar o program de saneamento das baixadas. Esse program contard com recursos financeiros aos quais o municipio nio tinha acesso desde a dpoca do "velho Lemos", no auge do extrativismo da borracha, no inicio do secu- lo. Com a nova empresa, o comando desse program de drenagem, assentamento e reordenac~o do prin- cipal espaco urban de Beldm, hoje subvalorizado, se transferird da prefeitura para o governor do Estado. O governador HBlio Gueiros diz que nio hd mist6rio na alterag~o: "Se o Estado 6 quem avaliza, ele 6 que deve controlar". Como reagird Xerfan a esse esvaziamento? Em uma das conversas, ele garantiu que nio pretend ser dono da obra, mas que vai exigir conhecimento complete do program para saber se beneficia ou nao os belemenses, exercendo control e fiscalizan- do-o. Mas alguns assessores ja comentam que a em- presa 6 inconstitucional porque implica a interferdn- cia ind6bita do Estado em compet6ncia municipal. A questao poderd marcar a primeira batalha da nova administrac~o. Muitas outras podem ser pre- vistas a partir do moment em que a satisfacio elei- toral dos partidos for sucedida pelo appetite de parti- cipagio na prefeitura e esse appetite esbarrar em appetite de aCgo ainda maior do pr6prio prefeito. t possivel. que a coligagio nao dure muito e mesmo deritro do PTB comecem a aparecer vozes dissonan- tes. Mas Xerfan diz que nfo se preocupa com isso. "Para a Camara s6 vou mandar projetos de interesse do povo e nao de grupos ou de pessoas", afirma. Mas se os vereadores nao aprovarem os projetos, "eu simplesmente coloco o povo 16 dentro para co- brar o que 6 do interesse coletivo". Os cientistas politicos costumam chamar esses m6todos de bonapartistas, quando pensam em pas- sado mais remote, ou populistas, se o referencial 6 mais pr6ximo. Qualquer que seja o conceito usado, uma coisa 6 certa: o home que assumirA a prefei- tura de Belem a 1 de janeiro, enriquecido em seus neg6cios, mas cujos limits de lucro foram insufi- cientes para comportar suas pretens6es, veio para ficar. Baixada: primeira decisao de Xerfan O primeiro problema que Sahid Xerfan precisa- rd enfrentar quando assumir a prefeitura de Bel6m sera o Programa de Recuperacgo da Bacia do Una. DeverB ser o mais important de sua administragco, mas o Estado 6 quem conduzird esse program, atra- v6s de uma nova empresa, desajeitadamente batiza- da de Epruna. Ela foi criada atrav6s da lei 5.491, que o governador Hblio Gueiros sancionou no dia 9, depois de uma silenciosa e por isso mesmo es- tranha passage pela Assembl6ia Legislativa. Depois que executar o program, a Epruna de- verd desaparecer do mundo das estatais, se a lei que a criou for realmente cumprida. O governador H6lio Gueiros garante que nao tirou a Mniciativa das maos da prefeitura apenas porque um adversario vai assumir o cargo. Lembra que as negociag~es entire o Estado e a PMB comegaram h6 mais de um ano e que exigiu ficar corn a condugao do program, o mais amplo das baixadas de Bel6m, porque 6 quem vai assumir o 6nus dos empr6stimos. O program do Una prev6 a aplicaQgo de 170 mi- Ih6es de d6lares (quatro vezes todo o orgamento de Belem para o pr6ximo ano). O Estado deverd entrar com US$ 20 milh6es, jd previstos em seu orgamento de 1989 (de 510 bilh6es de cruzados). O BID (Ban- co Interamericano de Desenvolvimento) entrard cor. 75 milh6es e a Caixa Econ6mica Federal com os ou- tros 75 milh6es de d6lares. Ambos os empr6stimos sdo contraidos pelo Estado, que est6 bancando os procedimentos no Senado para a autorizagIo do fi nanciamento externo. O dinheiro s6 nao foi ainda liberado porque o BID nio concluiu a analise t6cnica do program e devido as modificag6es feitas na no- va Constituigco em relag o ao endividamento em moeda estrangeira. O prefeito Sahid Xerfan serd consultado e parti- cipard do program, mas como coadjuvante, a nao ser que consiga demonstrar que a lei da Epruna 6 In- constitucional. Neste caso, por6m, o Estado sim- plesmente se retiraria do program, inviabilizando-o, inclusive por causa da pequena capacidade de endi- vidamento que ainda rest a PMB. O governador deixou bem clara essa posic~o, ressaltando que nao 6 partiddria, nem discriminat6ria: "quem paga o di- nheiro 6 que tem direito de comandar o programa, argument. Depois de 19 de Janeiro, a outra palavra vai ficar corn Xerfan. Sul do Estado: em rumo proprio Depois de ter concluido ainda que precaria- mente a PA-150 e haver comandado os assenta- mentos feitos na regigo pelo Minist6rio da Reforma Agrdria, J6der Barbalho esperava ter transformado o sul do Para no seu maior reduto eleitoral. A elei- cgo do dia 15 mostra que tamb6m all ele cometeu erro de avaliagco. O ministry e o seu PMDB ainda manterao o control em alguns municipios, mas se tornaram minoritarios. A situagco nao serd tao dramdtica em Marab6, o principal municipio da regiao, se o ministry tiver como manter o compromisso de Nagib Mutran Neto, que se legeu pelo PDC, vencendo o candidate do P,MDB, Haroldo Bezerra, mas ficou muito ligado ao ministry desde que ele desapropriou os castanhais da familiar Mutran, transferindo-lhe direitos de saquc sobre um bilhao de cruzados (valor de cinco meses atrds, hoje corrigido, naturalmente). Mais dificil sera estabelecer algum tipo de acor- do cor o PDT, controlado na regiso pelo m6dico, pe- cuarista e deputado estadual Giovanni Queiroz, o grande vencedor do dia 15, e o PSB do deputado fe- deral Ademir Andrade, que perdeu espago em relagco a 1986 mas ainda sustentou sua presenga (e venceu no quarto coldgio eleitoral do Estado, Itaituba, onde o eleitor votou contra os pistoleiros e a violIncia que campeiam no municipio). Derrota maior do que a do ministry 6 a do pr6- prio Estado. As eleic6es do dia 15 demonstraram, sobretudo, que a importantissima regiao sul conti- nua desvinculada da capital e do restante do Estado, funcionando como um apdndice, dotado por6m de grande margem de autonomia. Significa que cres- cem as perspectives de uma redivisdo no future, fato capaz de provocar o maior abalo sobre o que hoje conhecemos como sendo o Estado do Pard. Imprensa: uma ligio Se estiver disposta a aprender, a imprensa pa- raense poderd tirar uma boa liGco das eleig6es do dia 15: a 6poca do partidarismo ja acabou. A opinioi public aceita e estimula as definicoes political das empresas e dos jornalistas (Mill6r Fernandes, por exemplo, entrou novamente na campanha eleitoral), mas exige que, a par de sua pr6pria participaG~o, os 6rgios da imprensa cumpram sua missio: informar o mais corretamente possivel o seu pbblico. A imprensa do Pard desviou-se completamente dessa mission mais uma vez. O journal "DiBrio do Pa- rd", o mais passional, chegou a inventar pesquisa de opinlio (atribuindo-a a "empresa do sul") para con- trapor-se aos inqu6ritos que o desagradavam. Teve que engolir os resultados da pr6pria eleigco e varios graus a mais de descr6dlto. J6 "0 Liberal" envolveu-se de tal forma na cam- panha de Xerfan que sua cobertura das eleic6es foi sofrivel. Os leitores do Jornal precisaram buscar ou- tras fontes para saber o que estava acontecendo, en- quanto a pr6pria empresa teve que ir buscar o auxi- lio da computagio da Funtelpa, responsAvel pelo sis- tema Cultura. Assim, a imprensa tentou fazer o que nao Ihe competia e esqueceu de fazer o que Ihe ca- bia. Espera-se que aplique as lic6es na pr6xima elei- Cgo; de qualquer maneira, todos vao pagar pelos er- ros cometidos. Agora ou depois. ECOLOGIA porta do inferno Dentro de um s6culo as florestas primitivas do Pard, que hoje ainda se estendem por quase 100 milh6es de hectares, serAo apenas uma lembranga na mem6ria se persistir o indice atual de desmata- mento. Esta 6 a principal advertancia do Levanta- mento da Alteracao da Cobertura Vegetal no Estado, que a Sudam elaborou em conv6nio corn o IBDF. Mas ao entregar o document ao governador Hl6io Gueiros, no dia 21, o superintendent da Sudam, Henry Kayath, preferiu dar outra interpretagdo ao trabalho: destacou o indice de 10% de derrubada da floresta native como indicador de que o desmatamen- to ainda nao atingiu a "proporgco alarmista" que tem sido apresentada fora da Amazonia e do Brasil. Apesar das declaracoes otimistas do superinten- dente e do governador, os t6cnicos da Sudam e do IBDF, que fizeram o retrato das modificag6es provo- cadas na floresta pela acao do home, com base nas imagens do Satelite norte-americano Landsat, advertiram no document para as "proporc6es alar- mantes" que o desmatamento assumiu em "areas criticss. Em 20 dos 87 municipios que o Pard tinha quan- do foi efetuado o levantamento (hoje sdo 105) j6 nao havia mais um metro quadrado de floresta primitive: toda ela havia sido posta abaixo. Em outros 10 mu- nicipios a alteragao ultrapassara 90% do territ6rio em 1986, 6poca em que as imagens foram geradas. Em 37 municipios a alteragco ultrapassara os 50% que o C6digo Florestal exige que sejam preservados. A Zona Bragantina, pr6xima a Bel6m, foi devas- tada sobretudo entire o final do s6culo passado e o inicio do atual, juntamente com outras Breas de mais antiga ocupacgo, marcadas pela depredacgo do extrativismo. No entanto, a destruig5o da Amazbnia - e, no caso, do Pard 6 um fen6meno tdo recen- to, enquanto problema realmente grave, que nao po- de deixar de impressionar a rapidez corn que evoluiu. Em 1975 a alteraqio da cobertura vegetal primitive havia tocado em apenas 0,8% da floresta paraense, ou menos de um milhao de hectares. O home ti- nha todas as condig6es para realizar uma explorapao mais adequada da regiao. Trds anos depois, porem, o desmatamento crescera 150% (500 mil hectares "alterados" segundo a expressed t6cnica do le- vantamento por ano), chegando a 2,5 milh6es de hectares. O ritmo da invasdo do home no ambiente da floresta se tornaria febril e alucinante a partir dai. Cresceu 360% nos nove anos entire 1978 e 1986, am- pliando a Brea alterada para 11,5 milhbes de hecta- res, mais de um milhao de hectares derrubados a cada ano. Se esse ritmo nao sofrer novo incremento exponencial, o governador e o superintendent da Sudam que estiverem no cargo no final do s6culo XXI verdo imagens de sat6lite sem um palmo de floresta original e talvez ainda estejam otimistas. Para surpresa de um leitor atento do magro do- cumento que acompanhou a reconstituigao cartogra- fica das imagens do sat6lite, o superintendent da Sudam tentou usar o document como prova dos nove da inoc6ncia do sistema de incentives fiscais. Kayath referiu-se apenas Bs fazendas que recebem dinheiro do governor, esquecendo o efeito demonstra- tivo e multiplicador que elas tem exercido para que numeros assombrosos como os do levantamento da Sudam e do IBDF se tornassem realidade. t tao alarmante o quadro tracado no document e tao contrastante a leitura que dele fazem as autori- dades que em seu p6rtico caberia a advert6ncia feita por Dante na entrada do inferno: "Deixai aqui todas as esperangas, 6 v6s que entrais". Desmatamento e de 400 mil km2 A cada cinco segundos uma Area equivalent a um campo de futebol 6 desmatada na Amaz6nia. O total das derrubadas jd eliminou 400 mil quil6metros quadrados de florestas (mais de uma vez e meia o tamanho do Estado de Sao Paulo), segundo os cdlcu- los do ec6logo Phillip Fearnside, do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amaz6nia), de Manaus. Assim, 8% de toda a Amaz8nia, com seus cinco mi- lh6es de quil6metros quadrados, onde esta a maior floresta tropical do planet, jd perderam sua cober- tura vegetal primitive. Fearnside, o cientista que mais sistematicamen- te tem realizado estudos sobre o desmatamento na regiao, consider superestimado o levantamento fei- to no ano passado pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), de Sao Jos6 dos Campos, de acordo com o qual as queimadas atingiram 200 mil quil6metros quadrados, sendo 80 mil km2 de flores- ta densa primitive. Em sua pr6pria andlise, tomando por base o mesmo material (imagens do satdlite metereol6gico norte-americano NOAA-9), Fearnside chegou A con- clusao de que os desmatamentos se estenderam por 35 mil km2 de floresta. "Como a diferenga 6 grande, as pessoas podem nao se dar conta de que, ainda assim, essa drea desmatada equivale a uma vez e meia a extensio de um pais como a Bdlgica", argu- menta o ec6logo norte-americano, hd muitos anos vinculado ao Inpa. Fearnside diz que os pesquisadores do Inpe fo- ram induzidos a um calculo exagerado da drea de queimadas por causa das caracteristicas do sat6lite NOAA-9, que fica em 6rbita da Terra a uma distan- cia de 833 quil6metros. Basta que ocorra um fogo intense de 10 metros quadrados para haver interfe- rencia sobre todo o campo de abrangencia de cada imagem (conhecido por pixel), que 6 de 10 mil me- tros quadrados. Por isso, segundo Fearnside, fica dificil definir qual a amplitude do campo de fogo por- que ele passa a ser registrado em todo o pixel. Mato Grosso: gravidade Fearnside mostra que enquanto o levantamento do Inpe concluiu que quase 18% da drea do Estado de RondOnia foi quei- mada somente no ano passado, seu pr6prio estudo constatou que, at6 este ano, as derrubadas atingiram 17% acumuladamente, "o que j6 6 uma drea enor- me", alerta. A situagIo mais dram6tica 6 a de Mato Grosso, que jd perdeu mais de 17% de suas flores- A tas, representando uma area de mais de 150 mil qui- 16metros quadrados. Esse indice torna-se ainda mais grave porque o C6digo Florestal permit apenas a derrubada de metade da area dos im6veis rurais na Amazonia. O ec6logo admite que os resultados finals de sua andlise sao conservadores porque a base esta- tistica em relacgo a algumas areas 6 insatisfat6ria. E o caso de Roraima e tamb6m do Amapa, para os quais nao existem imagens de satelite atualizadas. As iltimas de Roraima sao de 1981. Entre 1978 e 1981 o desmatamento cresceu 800%, passando de 143 km2 para 1.170 km2. A partir desse ltimo dado, Fearnside fez uma simples projeqBo linear, mas ele mesmo esclarece que as taxas de desmatamento de- vem ter experimentado uma. expansao exponencial. A mesma condicionante se aplica ao Amap&, corn imagem de satellite at6 1978, e ao Amazonas, que s6 agora vai ser coberto pelo sat6lite atrav6s do con- v6nio Sudam/IBDF. O outro ponto de diverg6ncia entire os estudos de Fearnside e os do inpe refere-se ao papel da Ama- z6nia para o "efeito estufa". Fearnside estima que o desmatamento da regido seja responsdvel por 5% do gas carbonico liberado para a atmosfera e nao 10%, como imaginam os t6cnicos do Inpe. Mesmo discordando dos resultados do trabalho, que levou o governor a iniciar o program "Nossa Natureza", para tentar center a devastagdo da Amaz6nia, Fearnside adverte que, mesmo tendo sido queimados 35 mil km2 de floresta e nao 80 mil km2, "esse numero e espantoso". As pernas curtas de um journal Desfazer os ataques do "Didrio do Pard", 6 mui- to facil: o journal do ministry da Previdencia Social, que tem como responsavel o deputado federal (PMDB) Arnaldo Moraes Filho, jamais dd-se ao traba- Iho de apurar os fatos; utiliza-se sempre da versAo mais interessante aos seus prop6sitos, quando nao inventa hist6rias. Ao inv6s de estabelecer-se profis- sionalmente, prefer ser um arfete a serving do dono e do universe sempre mais ampliado de seus inte- resses. No dia 15 o "Dibrio" relatou um fato verdadeiro. O jornalista Ronaldo Brasiliense, chefe da sucursal da revista "Veja" em Belem, foi vetado pela diretora administrative do Sistema Romulo Maiorana de Co- municac6es, Rosangela Maiorana Kzan, moments antes de entrar no est6dio da TV Liberal para parti- cipar da gravacgo do program "A Palavra Sua", do qual fui o apresentador durante a s6rie especial so- bre a campanha eleitoral. Ronaldo havia sido convidado tr6s dias antes para integrar uma mesa-redonda que discutiria a elei- gZo do dia 15, na antev6spera da votagdo. O convite foi formulado e aprovado pelo jornalismo da TV Libe- ral, como de praxe. Mas Rosangela apenas soube que Ronaldo tomaria parte do program por acaso, ao conversar com o director de jornalismo da TV, NBlio Palheta, quando os outros tres convidados e eu j6 estavamos no est6dio. Rosangela ficou irritada: a familiar Maiorana sentiu-se ofendida com a atuagdo do jornalista durante a campanha salarial do ano pas- sado. Ela nio aceitaria que sua empresa recebesse uma pessoa classificada como inimiga. A constrangedora situacdo nao ocorreria se a diregco da TV fizesse reuni6es pr6vias para analisar sua pr6pria programacgo. Sem tal planejamento, nio restaria outra alternative a diretora do SRM diante do fato consumado sendo aceitar a presence inde- sejada, por um principio de civilidade e de respeito a condigo professional das pessoas envolvidas. Mas Ronsangela Maiorana preferiu impor a decisao por seu proprio "status", nao dando a Nelio outra said: submeter-se ou pedir demissio. Ele preferiu conti- nuar a meu ver acertadamente, porque o jornalis- mo da TV Liberal entrou numa fase de crescimento depois que ele assumiu a direcgo do setor. NBlio procurou explicar da melhor maneira possivel a si- tuagco para Brasiliense, surpreendido corn o veto a caminho do estodio. Furioso, o chefe local da "Veja" foi para o escri- t6rio da revista, que fica a alguns metros do pr6dio da Liberal, enquanto N6lio mandava me chamar para comunicar o incident, que at6 entio eu ignorava. Minha primeira reagao foi nio fazer mais o program. Ja um pouco antes eu me recusara a entrar no esti- dio por falta de algumas condig6es t6cnicas, final supridas. Mas acabei aceitando realizar o program a pedido de N6lio, que de outra maneira ficaria em posicqo ainda mais desfavoravel, e em respeito aos demais convidados, que jd aguardavam no estidio. Em protest contra aquele ato de descortesia e desrespeito professional, por6m, suspend minha par- ticipagro no program e enviei uma carta a Rosin- gela, cujo conte6do nao revelo neste moment por se tratar de correspond6ncia pessoal. A carta foi escrita e entregue antes do "Dibrio do Pard" publi- car sua nota, que, como sempre, agride os padres jornalisticos de apuragdo dos atos porque 6 parcial. E demonstra, mais uma vez, que o journal condenou ato que provavelmente praticaria se a situagao se apresentasse a ele da mesma maneira que a diretora do grupo Liberal. Aviso aos navegantes Na primeira entrevista coletiva dada depois da definic5o das elei6oes do dia 15, o governador Hl6io Gueiros deixou claro que pretend participar cada vez mais das articulaq6es que resultarAo na escolha deum candidate do PMDB ao governor, em 1990, e no apoio ao pretendente a presidencia da Rep6blica, um ano antes. Sem citar nome, Gueiros ironizou "quem tem a coragem de se vangloriar do AI-5", numa evi- dente refer6ncia ao senador Jarbas Passarinho. Tam- b6m defended um retorno do PMDB "a sua identida- de antiga, corn o povo", criticando o volume das ade- s6es "que desfiguraram o partido". E tirou do resul- tado adverse uma liclo: de que o eleitor deu um aviso ao PMDB, que pode usd-lo antes das pr6ximas eleir6es. De forma mais clara, as declaraG6es do gover- nador significam que dificilmente aceitard nova alian- Ga com o PDS de Passarinho ou candidaturas majori- tdrias de lideres que perderam. Journal Pessoal Editor responsivel: Lucio Ffivio Pinto Enderego (provis6rio): rua Aristides Lobo, 871 Bel6m, Pari, 66.000. Fone: 224-3728 Diagramaego e Ilustraeo: Luiz Pinto Op5o Joma o stica |
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