Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00023

Full Text







Jornl Pessoal
S Ltcio Flavio Pinto
Ano II N 29 Circula apenas entire assinantes 14 Quinzena de Nove


mbro de 1988


ELEIQAO



0 Messias emudecido

O candidate cor mais alto indice de preferencia em todas
as pesquisas de opiniao foi o grande mudo da campanha.
Se vencer, o eleitorado Ihe tera dado procuragAo
em branco. Em democracies, e um ato de alto risco.


O home olhou com um olhar meio vago, cogou
durante alguns segundos a cabeca, mas pro-
curou firmeza na resposta:
Vou votar nesse tal de Xerfan.
Traduzido da linguagem popular, o "tal" signifi-
ca que o eleitor nao sabe exatamente em quem pre-
tende votar, mas estd certo dos motives pelos quais
estd votando. O "tal" de Xerfan, que obteve o mais
elevado indice de preferdncia nas pesquisas realiza-
das pelo Ibope e a Data Folha em todas as capitals
do pals, 6 um desconhecido para a maioria de seus
eleitores, que votam nele atras de uma esperanca
gen6rica de melhoria, de trabalho, de ordem.
Nao por acaso, bastou o candidate da coligagio
PTB-PDS-PFL confirmar sua disposigao de concorrer
a prefeitura de Bel6m ppra inviabilizar a candidatura
de Carlos Levy, at6 entao o favorite nas pr6vias,
que pretendia "revirar" Belem, tarefa tAo grandilo-
quente quanto initil porque administradores munici-
pais anteriores j6 fizeram com a cidade muito mais
do que ele poderia vir a fazer. Continuar a "revirar"
Bel6m seria o caos, no qual s6 os desiludidos pe-
tendiam embarcar. 0 "voto de protest" virou "voto
6til" e Levy fol despejado do "podium".
Xerfan tornou-se. hoje, um mito. Mas suas ori-
gens estao em 1983, quando ele surgiu como uma
das mais novas e mais fortes liderangas political
em uma cidade que agonizava entire a passage dos
grandes projetos rumo ao interior, com suas lista-
gens de d6lares, e um amplo circulo de marginaliza-
gio social e econ6mica singularmente expresso em
sua pr6pria topografia.
Os belemenses recebiam com vergonha os vi-
sitantes porque a cidade fora castigada pelo aban-
donoe a incuria de quase todos os prefeitos bioni-
cos, nomeados por governadores eleitos segundo
metodos s6 ligeiramente menos ilegitimos. E fica-
vam mais envergonhados ainda quando viajavam e
Constatavam a crescent distancia em que ficava a
capital do Para das demais metr6poles brasileiras.
Xerfan prometia trabalho constant e intimidade com
os municipes, A maneira do tratamento dispensado
aos empregados de sua rede de lojas. Os belemen-
ses queriam mais administraglo e menos political.
Ontem e hoje O mito tornou-se uma moldura
oca, mas dourada. Ficou a esperanga dos eleitores
de que Xerfan poderf realizar o que, cinco anos atrAs,
ele foi Impedido de fazer. A lembranga daquele so-


nho 6 boa, mesmo que seja t6nue e imprecisa. O elei-
tor esta votando no tal do home que aparecia para
ser alternative aos politicos decaidos, que viviam
apenas em fungio de seus interesses pessoais e ab-
solutamente insensiveis em relagio ao povo, como
mostrava pela lente intencionalmente deformada
do humorismo um personagem de Chico Anisio na
televisao. I uma reminisc6ncia tao fr6gil que o elei-
tor nao percebe, ao lado de Xerfan, agora, alguns dos
personagens responsdveis pelos problems do pas-
sado, decaidos que voltam a erguer-se.
O home que apareceu disparado nas enquetes
de opiniio efetuadas durante a campanha eleitoral
pelo pals afora nAo se manifestou uma s6 vez aos
seus futures governados. Ainda que nao fosse para
defender-se de acusag6es, ao menos para dizer por
que pleiteia pela segunda vez ser prefeito de Bel6m,
o que pensa dos problems da cidade e como ima-
gina poder resolve-los. O hor6rio extraido da televi-
sao pelo TRE deveria ser a oportunidade para uma
converse, a mais ampla que hoje se pode ter, cor
a populagio da cidade. Mas Xerfan preferiu apenas
ser personagem de imagens de televisfo, como se
o video tivesse sido devolvido A 6poca do cinema
mudo, no qual os gestos espalhafatosos procuravam
compensar a falta de palavras.
O empres6rio Sahid Xerfan arrancou do eleito-
rado, gragas ao mito que seu carisma ajudou a criar,
uma procuracAo em branco. Nao 6 exatamente isso
o que a democracia busca quando recorre As elei-
96es para testar-se e renovar os quadros dirigentes
do regime. Esse tipo de convencimento 6 mais coe-
rente com regimes de forca: a delegagio incondicio-
nal, sem compromissos mdtuos e explicitos (que,
apesar de todos os vicios, tem no palanque em
seu sentido literal ou figurado o local ideal para
ser firmado), 6 meio pass para o abuso e a tirania.
Esse mal s6 pode ser prevenido se o portador
de tal delegagao tem condig6es reals de bem desem-
penhd-la, com o senso de respeito pelas necessida-
des coletivas e pela natureza pluralista do process
democr6tico. Ou seja, s6 personalidades superiors,
As quais, em political, dd-se o nome de estadistas,
cumprem essas delegag6es ao inv6s de transform6-
las em letra morta ou pisoted-las. Seria esse o caso
de Sahid Xerfan?
O mito, e s6 Para cada eleitor chegard a oca-
siao propicia para responder e evaliar sua decision
de voto, ainda que em carter remissivo. Mas para







qualquer pessoa que aprendeu a respeitar a demo-
cracia como o produto do didlogo entire as parties, ou
at6 do duelo de iddias, o process eleitoral em Be-
lem nao pode ter sido mais frustrante. Destaca-se
a contradipco entire o produto final que se desenha,
a grande vit6ria de um dos candidates, e os m6todos
adotados para consegui-la. Ou Xerfan estd a altura
do moment em que, mais por circunstAncia do que
por ago, ele colocou-se, ou nem a melhor maquila-
gem eletronica sera capaz de evitar a desilusao que
vird em seguida.
E por isso mesmo, alids, que acreditar em sal-


vadores individuals ou em mitos de ocasido sempre
se mostrou attitude tdo perigosa para as sociedades,
ontem, hoje e, certamente, no future. Os c6ticos
atuais, que vierem a ter suas profecias negatives
confirmadas mais adiante, olhardo para trds corn ar
de superioridade em relacgo a maioria que acorreu
a um Messias que nao Ihe deu sequer as pistas de
sua cidncia, como os milhares de eleitores que res-
ponderam a pergunta do entrevistador manifestando
a inten(ao de votar no "tal" do candidate. Mas de-
ram a eles alternative melhor ?


PESQUISAS



Belem e a exce(ao

Em todas as capitals brasileiras as pesquisas foram
recebidas favoravelmente. Em Bel6m, elas foram rejeitadas.
Acreditar que os resultados sao inveridicos
6 a ultima esperanga para o PMDB. Mas quem se ilude?


E m todas as pesquisas de opiniiao realizadas em
Beldm, o candidate da coligagio PTB-PDS-PFL,
Sahid Xerfan, apareceu com mais de 50% da
preferdncia dos entrevistados. NAo apenas man-
teve-se alem do limited da vit6ria, como as opg~es
por ele cresceram sistematicamente, mesmo quando
as opg(es em favor de seu adversario, Fernando Ve-
lasco, aumentaram. Qualquer analista concluiria, em
cima dos numeros das pesquisas, que a eleigAo es-
tava decidida porque a votagao de Velasco nao se
expandia tirando votos de Xerfan.
No Brasil inteiro os resultados das pesquisas
foram aceitos pelos competidores, com uns ou ou-
tros reparos e reserves. Em BelBm, no entanto, elas
foram radicalmente rechagadas pelos candidates que
nao figuraram em primeiro lugar, especialmente pelo
PMDB e PL, os mais pr6ximos embora muito dis-
tanciados concorrentes de Xerfan. Essa readio
un&nime influenciou no Animo da opinion p6blica, que
nao se sensibilizou por um instrument de informa-
cao que costuma ser important ou mesmo decisive
para a definigio dos rumos das eleig6es em paises
democrdticos.
Os responsaveis pelas pesquisas nio se deram
ao trabalho de tentar esclarecer a sociedade sobre
a lisura de seus procedimentos, o que deveriam ter
feito. E muito dificil crer que uma organizagio como
o Ibope, cor seu concerto estabelecido nacionalmen-
te, tivesse aceito servir a uma manobra eleitoreira,
preparando pesquisas viciadas para favorecer clien-
tes. O prego seria muito mais alto do que poderia
pagar qualquer candidate de Beldm.
No entanto, uma das motivac6es para a descon-
fianca que os candidates desfavorecidos pela pesqui-
sa suscitaram baseou-se justamente na parcialidade
de quer encomendou as prdvias. Notoriamente en-
volvido na campanha em favor de Xerfan, deixando
de lado a cobertura professional da eleig~o, o journal
"O Liberal" deu arguments para seus adversaries
usarem. E uma li~io que fica para futuras eleic6es,
a serem usadas pela imprensa que nio se envolver
tao incondicionalmente com um dos lados da dispu-
ta. Pode apoib-lo, mas ni~ deve transformar-se pura
e simplesmente em seu porta-voz. O compromisso


maior de um journal 6 com o seu leitor e nao pre-
cisa criar rabo para deixar-se prender por ele.
A extensio do governor O governor poderia ter
contribuido para impedir que as pesquisas recuperas-
sem um pouco de sua credibilidade e serventia no
process eleitoral. O governador Hl6io Gueiros enco-
mendou inqu6ritos junto & opiniao pdblica ao Institu-
to Gallup, provavelmente o mais adestrado em son-
dagens de natureza political. Mas o governador recu-
sou-se a divulgar os resultados desse trabalho. Que
o tivesse feito por raz6es de Estado, at6 se justifi-
cava. Mas a Onica c6pia das pesquisas foi imediata-
mente repassada ao ministry SAder Barbalho, nio em
sua condiqao de membro da administration pdblica
federal, mas como cabo eleitoral de Fernando Velas-
co. O povo pagou as pesquisas, mas Jdder monopo-
lizou seu uso, o que nao constitui padrdo de procedi-
mento corn a coisa piblica.
Se a pesquisa do Gallup tivesse dado resultado
tao discrepante com o do Ibope e o da Data Folha
(do journal "Folha de S. Paulo"), o ministry da Previ-
d6ncia Social e os dirigentes da campanha de Velas-
co tratariam logo de alardear o resultado. O pr6prio
governador nio teria se limitado a desmentir sem
convicgAo noticia publicada por "0 Liberal", que pre-
tendia ter "vazado" os resultados da pesquisa do
Gallup. Ao invds disso, o PMDB apenas divulgou,
com inusual comedimento, uma pesquisa destituida
de qualquer credibilidade que aproximava progressi-
vamente Velasco de Xerfan e projetava um cabalis-
tico empate em 40% na vvspera da eleig9o. A pes-
quisa foi realizada por um rec6m-instalado escrit6rio
local, comandado por um soci6logo estrangeiro que
at6 entao s6 se destacara por pol6mica tentative de
reescrever a hist6ria da regiao.
O governador Hblio Gueiros, um dos mais dis-
cretos lideres peemedebistas na campanha eleitoral
de Beldm, tentou minimizar o impact das pesquisas
do Ibope e da Data Folha questionando a amostra-
gem dos entrevistados. Gueiros disse nao acreditar
que 600 pessoas consultadas possam representar
fielmente um universe quase mil vezes maior. O pro-
blema, no entanto, nio estd na amostragem em si (a
proporg~o, mesmo parecendo descabida ao leigo,
pode ter s6lido fundamento cientifico), mas no me-








todo adotado para estabelec6-la, ao qual o pOblico
nao teve acesso.
Os peemedebistas se diziam convencidos, ou
tentavam fazer crer isso, que as entrevistas nao che-
garam aos sub6rbios para medir a posicao da popula-
9go de baixa renda, que poderia reverter a situa(~o
gracas a uma ofensiva desencadeada nos iltimos
dias da campanha e no boca-de-urna. ,Mais do que a
palida adesao conjunta de candidates eleitoralmente
raquiticos, promovida com estardalhago na semana
passada, 6 a suscetibilidade do eleitorado ao clien-
telismo de (ltima hora que constitui a derradeira es-
peranca de vit6ria do PMDB. Mas se as pesquisas
foram executadas corn rigor, seriedade e competen
cia, essa esperanca nao passard de ilusdo para os
que acreditaram realmente nela. Ou entao Belem
provocard a desmoralizacgo do Ibope, da Data Folha
e, talvez, do Gallup. Nao deixaria de ser uma faga-
nha.
Partido sem nomes Parte da desconfianga sin-
cera nas pesquisas se fundamentou em um outro
fator: a grande diferenga apurada entire Sahid Xerfan
e Fernando Velasco. Afinal, o PMDB ter nas mros
a mdquina administrative e o control politico do Es-
tado. Como 6 que pode vir a ser derrotado tdo fi
gorosamente? A pergunta ainda deve andar por mui-
tas cabecas, mas uma resposta convincente tem que
nascer dentro do pr6prio PMDB.
O partido nio tove um nome capaz de canalizr
o potential de voto da mdquina p6blica e das obras
que realizou. O deputado federal Fernando Velasco
s6 conseguiu eleger a si pr6prio no inicio de sua
carreira political, ha mais de 20 anos, quando ganhou
o mandate de vereador em Bel6m. Depois, caminhou
a sombra de outras liderangas, da presidincia do
Iterpa A vice-prefeitura de Bel6m e i Camara Fede-
ral. Sua apari9io individual nos programs de tele-
visio, no hordrio destinado ao TRE, deve ter dado z
telespectador a sensaGlo de que alguma coisa es-
tava faltando no video.
A falta era da presence de um lider maior, abrin-
do alas ou fazendo Velasco caminhar. Por impulsao
pr6pria, ele parece mais tendente A in6rcia do que
a dinimica que campanhas eleitorais exigem. Quan-
do muito, poderia ser um locutor do candidate majo-
ritdrio. Seu peso excedeu a capacidade do guindaste
eleitoral peemedebista, embora o prefeito Fernando
Coutinho Jorge estivesse em condig6es de fazer seu
successor, fossem outras as circunstAncias.
Os nomes mais fortes preferiram ou foram obri-
gados a ficar de fora. Numa avaliag o remissiva,
fica evidence que o senador Almir Gabriel praticou
um ato decisive quando recusou ser o candidate a
prefeitura de Bel6m, fazendo a comunicagio bs v6s-
peras de se encerrar o prazo para a desincompatibili-
zagao de candidates potenciais que estivessem enga-
jados na administrag9o piblica. Em entrevista que
me concede, na TV Liberal, Almir explicou por que
fez a comunicag~o por carta, entregue pelo filho ao
ministry JAder Barbalho, em Brasilia, enquanto o se-
nador viajava para Sio Paulo, e nio em contato pes-
soal e direto, como haviam decorrido as negociag6es
em torno de seu nome at6 entio. Alegou Almir que
essa foi a Onica maneira de dizer nio a Jader, que
parecia convict e transmitira essa convicqio aos
correligiondrios de poder dobrar Almir.
Foi assim que Jdder procedeu em 1985 cor Fer-
nando Coutinho Jorge, que ele acabara de deslocar
da Cimara Federal para a Secretaria de Educagio,
forgando-o a pular logo em seguida para a PMB, por
falta de outra alternative eleitoralmente vAlida. Mas


Jader enganou-se com Almir e esse erro havera
de custar-lhe bem caro. Uma das consequdncias foi
a de mostrar que Jdder nio deve mais ser aceito
como dono Unico do PMDB. Se o partido perder em
Belem, ele serd o maior responsdvel, ainda que, por
outro lado, grande parte da votagqo alcangada seja
produto dele. S6 que Jdder destr6i outras liderangas,
monopolizando os raios de sol do poder.
Prebiscito para o future Por isso mesmo ele
foi a presence constant nos programs eleitorais do
PMDB, aparecendo mais do que qualquer um dos mui-
tos candidates que efetivamente estavam disputando
votos. Em certa media, a eleicio na capital trans-
formou-se num plebiscite sobre Jader Barbalho. Ele
garantiu que Almir seria o candidate, mas Almir es-
capou. O deputado Carlos Vinagre era um nome mais
leve do que o de Velasco, mas Jader outra vez bar-
rou as pretens6es do ex-s6cio e compare, nio s6
por nio acreditar que ele pudesse ganhar, como por-
que temia pela fidelidade de Vinagre, um contumaz
frequentador do gabinete de trabalho de Xerfan (al6m
de outros fatores que tornariam Vinagre menos re-
ceptivo as determinag6es do Jdder do que Velasco,
cuja lealdade ao lider desafia os mais rigorosos tes-
tes).
A curto prazo, uma derrota em Belem vai deixar
Jader Barbalho em situagio dificil, tanto no piano in-
terno, pela ressurreicgo de alguns de seus principals
adversaries, como em Brasilia, onde a base de sua
sustentagio no ministdrio Sarney poderd ser abala-
da e at6 desmoronar. Nao serb muito c6moda a po-
sicio de um ministry derrotado em eleiaio plebisci-
taria e que, alem disso, estd sem mandate politico.
Saindo do governor, onde Jdder montard seu quar-
tel-general? Talvez jA prevendo rumos nio muito
agraddveis, ele construiu sua cidadela de comunica-
9Ges e sua rede independent de transportes, alem
de acumular energia financeira para manter em fun-
cionamento essa mdquina particular.
Mas quem imaginar que Jader est6 definitiva-
mente derrotado cometeri erro palmar. A forga do
ministry da Previd6ncia Social ainda subsistird no
interior do Estado e na periferia da capital, onde ele
poder6 ir buscar algumas de suas principals armas
para travar a guerra pela volta ao governor em 1990,
que 6 o pano de fundo desta batalha municipal pre-
liminar. Quem sobreviver ate lI, passando pela elei-
gio presidential de 1990, verd.

Vice invisivel
Se o candidate a prefeito quase nio falou, a nio
ser nos intervalos de suas caminhadas, o candidate
a vice-prefeito da coligagio PTB-PDS-PFL, o tamb6m
empresdrio Augusto Rezende, foi um ilustre ausente
de toda a campanha eleitoral deste ano. Nem mes-
mo nos cartazes de Sahid Xerfan ele apareceu, ou
nas peregrinag6es, ainda que fosse em furtivo take
de televisio. Ao que parece, Rezende, um ne6fito
em political, entrou na chapa apenas para encher
espago.
Mas se Xerfan sair mesmo candidate ao gover-
no do Estado em 1990, o invisivel Rezende passarA
a ter importancia. Ele podera cumprir dois anos e
meio de mandate e estard com todos os instrumen-
tos municipals B disposigio para a eleigio estadual.
O que ele fard entio: ficard inteiramente a servigo
da nova campanha de Xerfan, como mero pano de
fundo, ou podera reaproximar-se do PMDB, ao qual
serviu e lucrou bastante cor esse servigo na
condidio de fornecedor preferencial da Celpa,











Elei6ges: sem a Constituicao


As primeiras eleig6es realizadas ji na vig6ncia
da Constituicgo de 1988 estAo mostrando que algu-
mas das mais importantes conquistas da cidadania
continuam fazendo parte apenas do papel. Abolida
completamente a censura, os juizes eleitorais ainda
interferem na propaganda dos partidos usando cri-
t6rios nao apenas subjetivos, como claramente poli-
ticos. A juiza de Marabd, Ezilda Pastana, chegou a
transferir p Policia Federal a tarefa de censurar os
programs na TV, compet6ncia que 6 privativa do
Juizo se se aceita a tese de que ela sobreviveu a
Constituig o. 0 Tribunal Regional Eleitoral corrigiu
o absurdo, determinando a juiza que fosse ao estO-
dio da emissora desempenhar sua funcao.
Os juizes interferiram na propaganda eleitoral
alegando agir inspirados pela rearCo da opiniao p6-
blica. De fato, o baixo nivel de alguns candidates
ou de determinados moments da programaqgo na
television provocaram impact e desagrado. Mas em
Recife, onde esses mesmos problems ocorreram,
houve uma forma eficiente de resolve-los: cada can-
didato que se julgou ofendido, injuriado ou caluniado
requereu o tempo do acusador para defender-se, con-
forme facultam as normas legais. Rapidamente os
atacantes ficaram sem espago e resolveram agir
mais responsavelmente para poder preservar sua pr6-
pria divulgacgo.
Aqui, os juizes assumiram as dores dos atingidos
e deliberaram arbitrar crit6rios inevitavelmente
subjetivos para manter a propaganda eleitoral na
TV em nivel mais elevado, outro juizo de valor. O
resultado s6 foi melhor do que aquele que havia sob
a Lei Falcao, quando a propaganda televisada se re-
sumia a exibicao da fotografia e do curriculo dos can-
didatos.
O dialogo, o debate e mesmo a troca de ataques,
quando nao descambam para o terreno pessoal, pri-
vado ou familiar, sio parties indissociaveis de uma
campanha eleitoral, na fleugmatica Inglaterra ou no
fren6tico Burundi. A censura dos juizes fez parecer
que cada partido dispute autonomamente a elei~go,
sem qualquer ligaq o com os partidos concorrentes,
o que significa burocratizar o process eleitoral, tor-
nd-lo desinteressante e tirar a motivagdo da demo-
cracia justamente o inverso dos prop6sitos que a
justiga electoral deveria incorporar.
Os atingidos poderiam defender-se de duas for-
mas, isoladas ou em conjunto: requerendo o tempo
dos adversrrios ou acionando-os judicialmente. O
eleitor teria a vantagem da comparagqo ou mesmo
confrontagio, a melhor maneira de avaliar os candi-
datos. E certamente a leviandade ou a irresponsabi-
lidade diminuiriam. Mas todos preferiram a acomo-
da(co natural na esteira de um ato de violentacgo do
process eleitoral, atrav6s da censura do juiz. A
pr6pria efic6cia dessa intervencgo, sujeita a uma s6-
rie de condicionantes, 6 question6vel. Ao inv6s de
examiner previamente as gravaq6es, o censor supri-
me a fita no moment mesmo em que ela 6 apresen-
tada. O pr6prio juiz Paulo Frota admitiu que um can-
didato (a refer6ncia era a Carlos Levy, do PL) deixa-
va as acusaqbes mais agressivas para o final de seu
tempo justamente para beneficiar-se da repercussao
que o ato censorial provoca na opiniao plblica.
A justice acebou ajudando e induzir a explora-
cao da mimica, da:coreografia, do sensacionalismo,
que desviaram a ateng5o do p6blico do conte6do das
declarag6es para a forma do espetaculo. Muitas de-


nincias s6rias foram apresentadas, mas todos pare-
ciam mais escandalizados cor a dnfase nas palavras
do que cor seu significado. Nenhum representante
do fortalecido Ministdrio Publico ou da Procuradoria
Fiscal se interessou em apurar as acusa(6es de so-
negag o fiscal que o PMDB fez corn base em levan-
tamento official da Secretaria da Fazenda do Estado,
ou das que deixou de fazer, mesmo tendo os nmme-
ros a mro, porque nao Ihe eram interessantes.
Deve ser duro para o assalariado ou o profissio
nal liberal, muito mais expostos a ferocidade do leao
fiscal, tomar conhecimento de recolhimentos de im-
postos de grandes empresas que, em alguns casos,
t6m valores que se aproximam de pagamentos efe-
tuados por pessoas fisicas. Um dos l6timos contri-
buintes da listagem, alias, deve ter neg6cios tao pou-
co expressivos que organizou-se sob a forma juridica
de empresa individual, registrando seu pr6prio nome
na Junta Comercial. O que fazem os fiscais da lei,
tratados com aten~io pelos constituintes, que nao
tomam essas informag6es reveladas publicamente
como meios de dendincia e iniciam a a9co penal, da
qual sao agora monopolistas?
Parece generallzada a presuncgo de que eleioio
6 teatro. Nao espanta, assim, que o drama frequen-
temente descambe para a tragicom6dia, cor a ajuda
dos atores principals, despachados ap6s cada
metamorfose para a ociosidade dos bastidores,
de onde muitos nao deveriam nem ter said.

Rescaldo da eleic&o

Como se rearrumard o PMDB ap6s a derrota em
Belem? Essa pergunta comegard a ser respondida
tao logo a apuragbo dos votos confirm as pesquisas
de opiniao. Dificilmente o PMDB continuara a ser o
mesmo de antes. Muitos peernedebistas se queixam
do que consideram ser omissdo do governador HBlio
Gueiros, que manteve-se a estrat6gica distancia da
campanha, fazendo algumas aparig6es na television
mas recusando-se a colocar a m6quina estadual a
servigo do partido. Gueiros preferiu ser um drbitro,
talvez preparando terreno para uma relagdo amistosa
com o prefeito de outro partido, situag~o in6dita nos
tiltimos anos (as eventuais diverg6ncias ou mesmo
hostilidades eram acomodadas sob uma mesa si-
gla gragas a sublegenda).
8 possivel que a partir de agora cresca mais
rapidamente a visivel distancia que J6 separa Guel-
ros de Jader Barbalho e, por extenslo, do superin-
tendente da Sudam, Henry Kayath, que conseguiu um
armisticio de ultima hora com o ministry da Previ-
d6ncia Social, mas nao um prolongamento mais de-
morado desse cessar-fogo. Afinal, nao foi possivel
ocultar a presenga dos Kayath no PTB de Xerfan.
Outra inc6gnita 6 a do prefeito Fernando Couti-
nho Jorge. A partir de 19 de janeiro ele estard ao
desabrigo de um mandate politico e sem vinculacgo
direta com as engrenagens do poder. Mas sua osten-
siva participacao na campanha, mesmo para defen-
der um candidate que nao era dele e no qual nao
acreditava, deverd render dividends junto a J6der.
I possivel que se o ministry decidir nao manter mais
as apar6ncias e partir para a retaliageo, Coutinho va
para a Sudam no lugar de Kayath. Mas alterag6es
como essa terao que esperar pela definirGo da apu-
ragdo dos votos.










ECOLOGIA



A pagina da criagao

Havera, por tras da preocupar&o ecol6gica, uma
conspiragao international contra a Amaz6nia? A questAo
esta sendo suscitada pelo governor, que
desconfia da cidncia, mas 6 receptive ao capital.


Em 1972 o entio ministry do Interior, general
Costa Cavalcanti, foi b conferdncia sobre meio am-
biente, em Estocolmo, dizer que se os paises desen-
volvidos achavam que a Amaz6nia realmente funciO
nava como uma esp6cie de pulmao do planet, absor-
vendo gds carbonico e liberando oxigenio para a
atmosfera, deveriam pagar por esse beneficio. A
teoria do "pulmao do mundo" era incorreta (mesmo
assim, a importancia da floresta amaz6nica para o
equilibrio do clima da Terra 6 questio pacificamente
decidida, hoje), mas a attitude belicosa do governor
brasileiro desestimulou o nascente interesse da ci6n-
cia mundial pelo estudo sistemdtico dos ecossiste-
mas amaz6nicos.
Por causa desse arrefecimento, dois anos de-
pois a Sudam atropelava a preocupagdo ambientalis-
ta e econ6mica de alguns de seus conselheiros e
aprovava o projeto pecuario da Volkswagen no sul do
Pard. A Unica atividade econ6mica que a empresa
alema realizara atd entao fora a produgco de veicu-
los automotores, mas na "jungle" amazonica ela re-
solveu criar boi, ao inv6s de montar Volkswagens.
A fazenda, de 140 mil hectares, surgiria no meio de
uma floresta exuberante. Para former os pastos para
seu rebanho, a Volkswagen derrubaria e queimaria
1,5 milhho de metros cibicos de mata, o equivalent
a 300 mil caminh6es cheios de madeira e a um fatu-
ramento nunca inferior a 100 milh6es de d61ares.
Mas essa fantastica destruigdo de recurso mais
nobre para a produgio de bem muito menos valioso
interessou pouco. A polmmica mais acesa foi trava-
da ao redor da natureza juridica da empresa contro-
ladora do projeto da Companhia Vale do Rio Crista-
lino. Um dos conselheiros descobriu que esse con-
trole era exercido pela Volkswagen AG, da Alemanha.
Assim, o governor nao poderia dar o incentive mdxi-
mo, solicitado pela empresa. Rapidamente a Sudam
providenciou a corredio do parecer de andlise para
que o projeto ficasse sob o amparo da Volkswagen
S/A, de SAo Bernardo do Campo, a subsidiAria bra-
sileira da matriz alemi. E o formalismo juridico da
burocracia foi atendido.
O gigante derrotado No ano passado, depois
de ter fracassado na tentative de criar fazenda pe-
cu6ria nos tr6picos, a Volkswagen vendeu seu proje-
to ao grupo Matsubara, do Parand. Ningu6m se lem-
brou de cobrar da poderosa empresa alema os bene-
ficios e favors que obteve durante 13 anos do go-
verno brasileiro, sempre disposto a fazer vista gros-
sa at6 mesmo quando surgiam dentncias de trabalho
escravo na fazenda, resquicio de medievalismo eno-
doando a alvura modernista da Volks, que em Sao
Paulo fala uma linguagem e, na fronteira da "jungle",
pratica outra.
As previs6es pessimistas dos que na dpoca se
manifestaram contra o projeto, e por isso incorreram
quase em crime de lesa-pdtria, acabaram confirma-


das pelo tempo. Mas o governor tem tido um compor-
tamento viciadamente pendular no trato dos estran-
geiros que invested sobre e, frequentemente,
contra a AmazBnia. As Volkswagens estardo vaci-
nadas contra as suspeig6es oficiais se se adaptarem
ao fragil estatuto juridico: transformadas de AG em
S/A, tornam-se brasileiras, com os mesmos direitos
a predagao dos "bandeirantes" de Sao Paulo, que es-
tao no outro lado da catapulta, arremessando paco-
tes, projetos, decisoes, andtemas e sacralizac6es so-
bre a Amaz6nia, impotente e menosprezado alvo dos
"bwanas".
Ja os que nao fazem parte da coporagdo que
solidariza burocracia, tecnocracia e capital sao pos-
tos na linha de tiro. Os mecanismos de apuracAo,
control e fiscalizagio do governor assemelham-se ao
quadro de um cartum da s6rie "Os Bichos", no qual
o guard florestal fixa suas vistas em uma direggo
enquanto a bicharada passa toda por tras da sede
da guard. O Brasil nao tem qualquer preconceito
contra o capital estrangeiro e ate Ihe da privil6gios
aos quais nao tem acesso a empresa national, como
ocorreu com a Jari de Daniel Ludwig durante a ad-
ministragdo do castelista e nacionalista general Er-
nesto Geisel.
O filtro furado Estranho esse nacionalismo.
Para entend6-lo 6 precise considerar a base geopo-
litica do pensamento governmental sobre a Ama-
z6nia, fundado no temor a uma incessante e rediviva
cobica international, sempre exercida atrav6s de
institui;6es culturais, cientificas ou governamentais,
mas nao do capital. Uma das matrizes desse pensa-
mento ppsitivista 6 o livro "A Amaz6nia e a cobiga
international", do amazonense Arthur Cezar Ferreira
Reis, misto de intellectual e d6spota esclarecido. Re-
colhendo com sofreguiddo e sem maior rigor analiti-
co casos de interesse estrangeiro pela AmazBnia,
das feitorias holandesas ou inglesas do s6culo XVII
a delirios individuals como o do tenente Maury, que
queria na metade do s6culo XIX trazer para cS
os negros americanos, Reis convenceu muitas pes-
soas de que a Amaz6nia s6 6 nossa pela combinag5o
de sorte e competbncia military de nossos feitores.
Para nao entregar a Amaz6nia aos cobigosos ou
angustiados estrangeiros, que j6 nao tmr territ6rio
pr6prio para abrigar seus excedentes demograficos,
na Oltima e fatal investida sobre a Amaz6nia o gover-
no resolve patrocinar a integragao da regiio, a qual-
quer prego, para nao entregd-la, lema das excurs6es
turisticas do Projeto Rondon. O grau de nacionaliza-
c9o da regiao, mensuravel por crit6rios juridicos ou
economicos, 6 nominalmente invejdvel. Mas o que 6
que o Brasil estd integrando ao seu territ6rio: a
Amaz6nia ou um projeto ja tao lamentavelmente
avancado de africanizacgo ? Uma regito respei-
tada em suas especificidades, das humans e so-
ciais bs ambientais, ou uma terra arrasada que o co-








lonizador quer fazer igual A sua terra de origem?
Nio existe, hoje, aventura humana que mobilize
mais a paixio e o intelecto do que a Amaz6nia. E
evidence que essa mobilizagio produz um caldo de
cultural infernal, ainda mais terrivel porque a ideolo-
gia mais difundida na ocupagio da regiao 6 a do lu-
cro rdpido, da passage do colonizador por uma pai-
sagem B qual ele nio se integra, mas sobre a qual
julga-se no pleno direito de decidir, A revelia dos
nativos. A grande dificuldade que existe para o esta-
belecimento de uma political amaz6nica saudavel es-
td justamente nos padres de discernimento, na
construgao dos filtros de depuracgo do que vem de
fora e de captag~o do que emerge de dentro dela.
Ao que parece, tal instrument sensitive nao faz par-
te dos laborat6rios doutrindrios e categ6ricos de Bra-
silia.
Dilbia maturiade Talvez por falta desses sen-
sores (nio confundir cor censors, mat6ria super-
abundante na capital da Rep6blica), o governor parece
disposto a repetir o mesmo gesto de 16 anos atrds,
na Su6cia. Representantes oficiais, por iniciativa
pr6pria ou repetindo sussurros emitidos dos biom-
bos particulares que antecedem os gabinetes gover-
namentais, denunciam a existincia de uma conspira-
c9o international contra a Amazonia. Os conspirado-
res sao os cientistas estrangeiros, que querem imo-
bilizar a regiao, agindo como a bruxa que encantou
e congelou Branca de Neve por muito tempo, at6
que o principle encantado a despertasse do sono pro-
fundo.
Desta vez, nio se trata de uma maci envenena-
da e de apardncia apetitosa. O "m6vel do crime"
agora 6 a ecologia. Sob o protexto de defender a
natureza, a conspiragio esconde a intengio de nio
permitir que o Brasil fixe sua soberania sobre a Ama-
z6nia. Por soberania antes era seguranga nacio-
nal o governor entende uma radical e invariavel-
mente brusca transformagio da paisagem. Onde
havia indios e floresta, conceitos nio catalogaveis
no index da ideologia de ocupaCio da Amaz6nia, 6
precise que haja pastes, povoaG6es, estradas, hidre-
letricas, o tal do anecumeno. Indio e floresta sio
complicadores porque nio se traduzem no verndculo
geopolitico, que s6 indexa os conceitos ponderados
pela aGAo do home, os bens da natureza transfor-
mados em produtos do mercado, o mercado, por sua
vez, padronizado pelo centro hegem6nico e dominan-
te e nio pelo hinterland, pela jungle, inculta e inepta.
Alguns anos atrds o governor military via uma
ponta dessa conspiragco por trds de um seminirio
international sobre o Pr6-Cambriano, uma das ida-
des geol6gicas da Terra. Tamb6m os antrop6logos
viraram suspeitos quando a Funai pretendeu manter
complete dominio sobre as aldeias indigenas. Ver
unidade de prop6sitos e monolitismo de situag6es
onde predomina a diversidade nio 6 attitude produti-
va, nem sensata.
Caleidosc6pio international I claro que pode
haver interesses econ6micos e jogo de mercado por
trds de edificantes teses political, dticas ou cienti-
ficas. A apuragio da realidade, no entanto, pode ser
feita atravds de uma pedra de toque: a da verdade.
E a verdade s6 6 estabelecida pelo didlogo ou pela
pol6mica, sem preconceitos, sem regras pr6-fixadas,
sem dogmatismo. "O Brasil, um pais adulto, nio
abre mio do direito de resolver seus pr6prios pro-
blemas", sentenciou o ministry do Exdrcito, LeOni-
das Pires Gongalves, rechagando a interferencia es-
trangeira.
Mas um pais maduro tamb6m nio se excusa de


demonstrar que estd resolvendo bem os seus pro-
blemas e que tem razao em continuar a agir como
tem agido. O drbitro dessas medidas nao 6 o Estado,
mas a Nag~o e, na questio amaz6nica, a regiiao
tamb6m, ou principalmente. Um pais maduro nio
cria as condig6es para que outros paises se ofere-
gam para realizar o que ele nao faz, como estd acon-
tecendo com a proposta de conversio de parte da
divida externa em proteg6o ecol6gica.
Se o Brasil reconhece que vive num planet
global e abre-se a ele, nao pode ser receptive apenas
ao capital e B tecnologia, mas tamb6m B ciencia, as
aspirag6es e desejos universais, jd que 6 membro
da comunidade planetaria. Um pais amadurece cada
vez mais se aprofunda esse relacionamento, enfren-
tando-o e tirando dele os melhores beneficios, ao in-
v6s de sustentar aquela tacanha auto-suficencia da
6poca em que nos imagindvamos, em pleno "milagre
econbmico", uma ilha de bonanza num oceano de
problems ilha da fantasia, sabemos hoje, pagan-
do caro por esse estrabismo.
H6 cientistas que defendem a ecologia porque
seus patr6es mandaram. Ha pesquisadores que fi-
zeram da ciencia na Amaz6nia uma gazua para pe-
netrar em cofres e tesouros. Ha outros que encon-
traram uma boa maneira de renovar suas bolsas de
estudo "ad perpetuam". Ha cidadios do Primeiro
Mundo que querem preservar a floresta com receio
de que um desmatamento total torne o clima na Ter-
ra dificil ou insuportdvel, afetando suas vidas. Ha
aqueles que querem os beneficios do Terceiro Mun-
do sem se preocupar com os maleficios que o Pri-
meiro Mundo Ihes transferiu. Muitos dos problems
e graves quest6es que hoje sao suscitados nada
mais sio resultado do que o coerente com o bezerro
de ouro aqui entronizado anos atrds.
O que o Brasil nao pode fazer, colocando a Ama-
z6nia em seu caudal, 6 regredir a essa 6poca ante-
diluviana, na qual autoridades avalizavam atos de
primitivismo como os inc6ndios na fazenda da Vol-
kswagen para a criaglo de um boi imponder6vel.
Com todos os riscos que pode oferecer, o debate
ecol6gico 6 um grande avango. Quando nada, faz
brasileiros e estrangeiros perceberem que a Amaz6-
nia nao 6 a traducgo distorcida que dela fazem seus
colonizadores, obrigando que haja um intercimbio
real e nio apenas a imposigqo de 6ditos federal, ou
paulistas, ou novaiorquinos.
Nao 6 possivel descobrir a Amaz6nia sem a aju-
da da ecologia e a verdade ecol6gica result de
contribuigio universal dos homes que quiserem,
como previu Euclides da Cunha no inicio do s6culo,
exercer a faculdade que o Criador Ihes delegou, de
escrever, aqui, a 6ltima pigina do Genesis. Mas nao
com os garranchos e as garatujas que estio inscre-
vendo, e em muitos casos de forma irremedi6vel,
na hist6ria da Amaz6nia, desfigurando-a.




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COBRE


hist6ria


de sempre


O Brasil resolve n&o produzir alumina porque era
caro e agora importa o produto, ainda mais caro. Agora,
a historic pode estar se repetindo corn o cobre.
Mas o grande prejudicado, outra vez, sera o Para.


Em 1982 o Brasil aceitou comegar a suspender
a implantacgo do projeto Alunorte, no distrito indus-
trial de Barcarena, que abasteceria de alumina a Al-
brds e parte do mercado brasileiro. Era uma mano-
bra do cartel para impedir o surgimento de uma in-
distria integrada fora de seu control no Pard, o
local mais favor6vel a um p6lo de aluminio. Mas na
6poca a oferta da Alcoa, de suprir a Albras com uma
alumina mais barata do que a produzida pela Alunor-
te, mais as dificuldades conjunturais do mercado, fi-
zeram a Companhia Vale do Rio Doce raciocinar ta
canhamente e congelar a Alunorte. Hoje a Albris
importa alumina a um prego quase quatro vezes
maior do que o de seis anos atrds e ficou capenga,
dependendo de fornecedores estranhos e de compra-
dores vorazes.
Uma hist6ria semelhante est6 se desenhando
em relag6o ao cobre de Carajds. De repente, repre-
sentantes de 6rgaos governamentais, entire os quais
o pr6prio DNPM (Departamento Nacional da Produ-
go Mineral), em Brasilia, passaram a contestar a
viabilidade de extrair e concentrar o cobre das ja-
zidas do Salobo. As alegaQ6es sao parecidas Bs que
foram usadas contra a alumina: mercado desfavord-
vel, pregos baixos, competidores que atuam em con-
dig6es muito mais vantajosas, excess de oferta.
Por tudo isso, o ge6logo Jos6 Rafael de Andrade, do
DNPM, recomendou que o Brasil continue importan-
do cobre do Chile (nas mios das multinacionais).
Visio do nariz Novamente os defensores des-
sas posiq6es raciocinam como se instalar um em-
preendimento mineral de grande porte ou relative a
um sector estrat6gico fosse apenas o produto da re-
la~io custo/tonelada. Ou que o mercado mineral
nio sofresse mutac6es tio bruscas, como as que a
alumina e o aluminio experimentaram recentemente
- e o pr6prio cobre atravessa no moment. A base
mais forte nesse tipo de pensamento 6 a de que es-
tamos no fim da era dos min6rios tradicionais, como
o ferro ou o cobre, a serem substituidos nesta pas-
sagem de s6culo por outros bens vinculados a indIs-
trias "de ponta", como a informdtica e a aerondutica.
E uma tese cada vez menos sustentdvel, principal-
mente no atual period, em que o prego do petr6leo
deu uma infletida para baixo, chegando pr6ximo dor
niveis que eram praticados antes do primeiro choque,
em 1973.
A viabilidade de um empreendimento como o do
cobre, produto em relagao ao qual o Brasil tem enor-
me depend6ncia, 6 media de largo prazo. Segundo
os estudos da CVRD, respons6vel pelo projeto, a ta-
xa de retorno tomando como base os precos re-
gistrados nos Oltimos dois anos 6 de 18% ao
ano, bem atraente, portanto. Mas se for considerado
o prego de hoje, a volta do capital praticamente du-
plica, indo para 35%. Assim, em tr6s anos o inves-


timento terd sido pago.
Para executar o projeto cobre em Caraj6s a
CVRD precisa de 400 milh6es de d6lares. As coisas
ficaram um pouco mais dificeis depois que o BNDES,
tendo perdido o control da Onica metalurgica de co-
bre em funcionamento no pais, a Caraiba Metais, na
Bahia (numa mais do que precipitada iniciativa do
program de privatizagao), desinteressou-se de con-
tinuar a ser parceiro da Vale no Salobo. Mas o banco
aceitou ser indenizado em seus gastos no projeto,
que devem girar em torno de 50 milh6es de d6lares.
Cor os pregos do cobre dobrando em dois anos, a
Vale nao deve ter dificuldades para arranjar s6cios
ou financiadores, se nao for atrapalhada.
Mas a opiniono" do ge6logo do DNPM pode sig-
nificar que o governor nao pretend permitir que a
maior estatal do sector mineral mantenha seu domi-
nio sobre o cobre. Significaria consumer a "privati-
zagao" (eufemismo que esconde frequentemente ou-
tro tipo de manobra) de toda a produgao, da lavra a
metalurgia. exatamente no moment em que o maior
produtor mundial, o Chile, passapor um critico perio-
do politico.
Para n6s, o qu6 ? Ainda que o governor per-
mita que a CVRD continue a conduzir livremente o
projeto, ele deve merecer a atengdo critical dos pa-
raenses. A mina fica no Pard e aqui vai ser deposita-
do o lixo da concentragao, uma quantidade impres-
sionantemente alta de residues contaminados por
produtos quimicos, cuja deposigao exige cuidados
especiais para nio afetar toda a vida ao redor. t o
maior problema de poluigio das lavras em Carajas.
O concentrado sera transportado pela ferrovia de
Carajas at6 o Maranhio, provavelmente Sao Luis,
onde a Paraibuna Metals transformara o concentra-
do em metal e recuperard o ouro, a prata e o molib-
denio, de graga. S6 de ouro a produgao possivel,
equivalerd a 10 vezes a de Serra Pelada. Os paraen-
ses ficardo com o lixo desse process, o Maranhio
cor um bem mais nobre e os transformadores inter-
nacionais com a possibilidade de melhorar suas re-
lag6es de troca gragas ao produto intermedidrio que
irao receber.
Se a exploraqgo do cobre 6 viavel economica-
mente, como os estudos da CVRD buscam demons-
trar e se 6 um element estrat6gico para a sadde da
economic brasileira, o Pard nio pode contentar-se
em ficar com as sobras dos beneficios e o excedente
dos prejuizos. Tem que exigir a metalurgica em seu
territ6rio e, se possivel, ind6strias de transformagao
at6 produtos finals. Os t6cnicos admitem que a me-
Ihor localizag&o para essa usina 6 em Tucurui. Com
isso nao concordou o president Jos6 Sarney, que
mandou acertar com a Paraibuna a instalagdo da me-
talirgica no seu Maranhio. Vamos aceitar de bragos
cruzados e c6rebro bloqueado?


A











So


para


Por que todo program de saneamento e recupe-
ragdo de Areas urbanas subvalorizadas provoca a
expulsio dos moradores originals dessas Areas? Por
que nao 6 formado um conselho consultivo, int -gra-
do inclusive pelos residents nas Areas, para acom-
panhar os pianos governamentais? Qual a maneira
de impedir que os titulos de propriedade-concedidos
aos moradores para que permanecam nds locals se-
jam imediatamente repassados a terceiros?
Estas interessantes quest6es estdo sendo for-
muladas a prop6sito do program de macrodrena-
gem de Beldm, mas em gabinetes de Washington e
nio na pr6pria capital paraense. Em Washington, or-
ganizag6es ambientalistas nio governamentais tmr
discutido com tdcnicos e dirigentes do Banco Inter-
americano de Desenvolvimento a execugao do pro-
grama da prefeitura de Bel6m. O BID vai conceder
emprdstimo de 230 milh6es de d6lares, provavelmen-
te o maior da hist6rla do municipio, para a recupera-
gio de uma Area na qual moram 12 mil famflias. Se-
gundo o BID, duas mil families precisardo ser reloca-
das, mas 450 delas permanecerao na area. Das 460
mil pessoas que moram nas baixadas de Bel6m, 250


a r ricano
mil diteamente afetadas pelo projeto.
Ss dessa iniciativa, sua complexida-
de m'/( e-imprstimo (quase 120 bilh6es de
cruz a bio official, tras vezes e meia o or-
gamb rrni, I para 1989), deveriam fazer a pre-
feitUd islt)j projeto com os cidadios belemen-
ses. IS tern sido mais atento e prestativo
corn as izag6es norte-americanas que se inte-
-ressaram pela question do que a RMB com seus mu-
nicipes.
HA seis meses tento, inutilmente, conseguir
c6pia do projeto. O prefeito Fernando Coutinho Jor-
ge, normalmente uma pessoa gentil, prometeu repe-
tidas vezes dar acesso ao projeto que os tdcnicos do
BID examinam no moment em Washington, na etapa
final para a Ilberag~o do dinheiro, mas nio cumpriu
a promessa e nio parece disposto a levar a serio
suas palavras. Moradores e jornalista provavelmente
estio menos informados do que um cidadio norte-
americano que esteja acompanhando a questio de
Washington. Resta-nos esperar que, de 16, venha a
prestacio de contas que a prefeitura de Beldm se
recusa a fazer para o contribuinte municipal.


CULTURAL


Sul:


b


Os jornais antigos de Bel6m dedicavam atencgo
especial a uma seqao que mantinham sobre "os pa-
raenses que venceram no Sul". Varios dos homena-
geados eram mais vencedores pelos relates que fa-
ziam na sua pr6pria terra, ao voltar a ela, do que
por eventuais feitos praticados no mirifico Sul. Mas
Benedito Nunes enquadra-se entire os raros paraen-
ses que hoje podem se orgulhar de terem vencido no
Sul e muito alem dos limits territorials brasileiros.
Uma prova dessa conquista foram as cinco pd-
ginas a ele dedicadas pelo Jornal do Brasil em seu
suplemento Id6ias, especializado em livros. Foi o
maior latifundio de texto entregue a um intellectual
brasileiro em toda a hist6ria do suplemento, espago
reduzido a pouco mais do que um minifindio na trans-
crigdo feita no dia seguinte (6 de novembro) por O
Liberal em Bel6m, que manteve apenas o texto de
abertura e excluiu a entrevista e as resenhas dos
dois dltimos livros de Benedito.
A amp!a matdria mostra que final, como ocorre
bissextamente, a imprensa do Sul (hoje Maravilha)
descobre que hA vida inteligente do lado de baixo do
Equador. Nio se pode deixar de reconhecer esse
esforgo de cogniglo que leva os aquilinos narizes
da intelectualidade da matriz national a ir aldm dos
eixos,da quadratura pela qual circula seu interesse,
de Minas Gerais a, quando muito, Rio Grande do Sul.
Como nio hA uma vincu~sio orginica entire ;esseq
dois polos, eles estabelecem pontos de contatt
quando forcados por um ciclo (como o do Nordeste
ap6s a revolucio modernista de 1922) ou um pcas*s
(como ocorreu com Marcio Souza).
Mas Benedito Nunes conquistou, a forga da if
teligencia, o lugar que uma estrela brilhante ocupa"
no firmamento infinite, sim, mas fracamente po-

994F46 ; ;
82/17/08 34768 -


nois


ai


voado. A reportagem Ihe faz justiga mais pelo espa-
Co aberto ao "fil6sofo da Amazonia", como 6 tratado,
do que pela correaio dos textos. A autora principal,
Marilia Martins, tentou reconstruir o universe pes-
soal de Benedito, que vai da est6tica a filosofia, pas-
sando pela literature, a mdsica e toda a produg~o do
saber capaz de interessar algu6m dotado de curiosi-
dade criadora, escrevendo do Rio de Janeiro, sem
vir a Beldm. Aqui, ela diz que Benedito instalou-se
numa torre (insinuando ser de marfim), quando na
verdade a casa da rua Estrela (insossamente mudada
para Mariz e Barros) 6 uma fortaleza. Dificil de esca-
lar, tern acesso fAcil quando desce seu portao corre-
dico, gesto mais frequente.do que podem imaginar
as pessoas que se deixam impressionar pela timidez
do fil6sofo.
Interpretando a distancia, como costumam fazer
os intelectuais do Sul sobre a col8nia amaz6nica, Ma-
rilia compete varios erros, falhas estensivas a outros
servigos do suplemento, como a incomplete biblio-
grafia ou as resenhas incolores. Mas pelo menos ao
Journal do Brasil nio pode ser imputada uma acusa-
g~o que cabe aos conterraneos de Benedito: a da
omissao.


Jomal Pessoal 2
Editor responsivel: Lucio Flavio Pinto
Enderego (provis6rio): rua Aristides Lobo, 871 D
Bel6m, Pard, 66.000. Fone: 224-3728
Diagramag o a ilustraio: Luiz Pinto
Opalo Jomalistiea