Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00022

Full Text







Jomal Pessoal
Lutcio Flivio Pinto
Ano II N9 28 Circula apenas entire assinantes 24 Quinzena de Ou


tubro de 1988


ELEIQAO


Um


jogo


sem


regras


As regras normais de vida dos cidad&os nao
valem para a political, um jogo que costuma travar-se
anulando justamente todas as regras do cotidiano.
Por isso, pode ser considerada inutil. E um perigo.


S e votar nao fosse obrigat6rio, quantos cidadaos
optariam pela abstengCo no dia 15 de novem-
bro ? provavel que em boa parte do pais,
ao menos na maioria das capitals, a porcenta-
gem de ausentes superasse a dos votantes, anulan-
do a eleiGao. Hoje, 6 impossivel medir corretamente
o perigoso desencanto do brasileiro com a said
eleitoral para os ag6nicos dramas do pais, mas ele
6 tao dominant no cotidiano que dispensa mdtodos
mais sofisticados de sondagem. O eleitor m6dio
nao acredita nos politicos, nem cre na seriedade das
elei-6es. Nao poderia haver estado de espirito pior
para enfrentar os dificeis moments que se avizi-
nham, impulsionados pela ameagadora hiperinflacgo.
O leitor Miguel Ernesto Soares (ver sua carta
adiante) 6 um exemplo dessa desilusao. Ele prefer
anular seu voto a optar por qualquer um dos nove
candidates que disputam a Prefeitura Municipal de
Belem. Quantos, depois de submetidos a tragic6mi-
ca programag5o eleitoral sancionada pelo TRE, nao
terec desejo semelhante? Trocando farpas ou gol-
pes baixos entire si, os candidates estao dispostos a
tudo, at6 mesmo a esquecer que o eleitor nao 6 um
sujeito estGpido, sem mem6ria, incapaz de comparar,
avallar e escolher. Os candidates se despem de
qualquer escrupulo para tentar destruir os competi-
dores. Mas estao destruindo, na verdade, a crenga
do povo na eleig5o e, por extensao, a democracia,
exatamente quando os quart6is se alvorocam nova-
mente com a sucessao de greves e as panels das
donas de casa j6 podem ser ouvidas. t um som ca-
paz de mobilizar mais do que cornetas.
Como faltam programs e iddias aos partidos
litigantes, sobram agress6es pessoais, mentiras e
desfagatez. Ha muito tempo a campanha eleitoral
nao 6 t5o pobre intelectualmente, tao destituida de
opq6es individuals e tao rasteira na linguagem. Im-
possivel deixar de associar toda essa pantomima a
um circo mambembe. 0 empresdrio Sahid Xerfan,
no normal discrete, subitamente enche-se de uma
energia insuspeitada nas excurs6es eleitorais b pe-
riferia da cidade e sai gritando, gesticulando desor-
denadamente, abraGando eleitores como se fossem
parents amados que reencontra depois de muitos
anos. Com que autoridade pode Xerfan condenar os
politicos profissionais, em relaqgo aos quais preten-
de ser uma alternative sadia e positive, se exarceba


os trejeitos da demagogia?
Seu comportamento na campanha de 1988 extra-
vasa de muito os limits do carisma que ele utilizou
em 1983, quando surgiu como uma esperanca para
o povo, ansioso por um administrator desligado dos
esquemas politicos parasitdrios. Depois de adminis-
traq6es ineptas ou inaptas, que haviam destrogado
a cidade, Xerfan foi visto como um novo Barata, dife-
rente dos politicos decaldos, que ja nao conseguiam
estabelecer empatia com o povo.
O passado tern
raz6es fatais
Mas se na 6poca Xerfan podia apresentar-se
como ne6fito, que apenas tangenciara pela adminis-
tra(co public como executor do Conjunto Arquite-
t6nico de Nazar6 e do Belocentro (obras de gosto e
valor discutiveis), agora jd 6 um home experimen-
tado nas manhas e malhas da political. Como ele se
recusa a expor seu possivel program de trabalho,
a aparicgo de Xerfan na television passou a ser uma
ampliagdo da coreografia populista que foi a t6nica
de sua primeira passage de 103 dias pela
prefeitura. Ja nao basta perder a caneta nas baixa-
das, varar noites em fren6tica mas pouco produ-
tiva atividade, ir pessoalmente a todas as frentes
municipals. Agora o corpo a corpo do candidate cor
seus eleitores, de tao postigamente vibrant, 6 qua-
se uma luta livre.
Mas seria a maneira de estabelecer o contrast
cor a campanha do PMDB, cujo lider, o ministry Jd-
der Barbalho, precisa do palanque e da seguranga
como divisores entire ele e o povo. Nao fosse quem
6 e nao tendo feito o que fez, o PMDB venceria o
duelo televisionado que vem mantendo com o candi-
dato da coligagao PTB-PDS-PFL. Mas falta autoridade
moral ao PMDB para merecer a credibilidade da po-
pulaqao. Os peemedebistas e seu lider monopolista
sabiam quem era Xerfan quando o colocaram em 1983
na prefeitura. E o empresdrio mesmo tratou de es-
clarecer que era um traco de continuidade em rela-
c9o ao seu antecessor, Loriwal Rei de MagalhSes, e
tamb6m um nome acima das engrenagens partidd-
rias.
A credencial de Xerfan nao consistia apenas na
indicag5o de Alacid Nunes, cujo apoio fora decisive
para a eleiGio de Jdder Barbalho e, nos primeiros








meses da nova administrago, fora induzido a crer
que seria uma espdcie de "alter ego" do novo go-
vernador (funcao para cujo desempenho faltam, em
Alacid, atributos naturais). Xerfan tinha tamb6m cre-
denciais pr6prias: ele foi um dos primeiros empresa-
rios a contribuir para as financas do candidate e
um dos mais generosos. Na 6poca, o PMDB nao es-
tava nem um pouco interessado em saber se esse
dinheiro vinha da sonegagdo de impostos (nem Ala-
cid, evidentemente).
Como Xerfan escapou aos cord6es que Jader
sempre manejou no PMDB (o que o entdo prefeito
deixou claro que faria ja no discurso de posse, em
1983), era precise arranjar um jeito de livrar-se dele,
sentiment partilhado pelos alacidistas, receosos
tamb6m de que a lideranga emergente bloqueasse o
caminho de volta do chefe ao Palacio Lauro Sodre
(por vontade pr6pria, Alacid jamais abandonaria essa
trilha).
A visit de Xerfan a Jarbas Passarinho, rec6m-
derrotado e destituido de qualquer cargo politico,
foi o pretexto que Jdder usou corn evident cinis-
mo (enquanto garantia aos jornalistas que Xerfan es-
tava prestigiado, falava com ironia sobre a visit do
"afilhado" ao "padrinho") e os alacidistas com indis-
fargado alivio (jd preferiam Dionisio Hage, que daria
passage mais f6cil a Alacid, apesar de sua volumo-
sa presence).
A motivag5o de Xerfan para a visit a Passari-
nho permanecera, provavelmente, como um desses
muitos mist6rios da political, mas pode ter sido ape-
nas uma demonstragao de ingenuidade, um gesto de
efeito que Ihe custaria caro. Muito diferente foi a
base da alianca que, tr6s anos depois, J6der estabe-
leceria com o mesmo Passarinho. Seu objetivo era

---"Voto 6 direito,
Para a esmagadora maioria dos brasileiros, o
voto 6 o unico patrim6nio de que disp6em. Nio
espanta que o troquem por favors dos politicos
em epoca eleitoral. Sio at6 mais honestos esses
vendedores de votos: desde que recebam os fa-
vores, votam mesmo no "benfeitor". NAo seguem
o conselho do leitor Miguel Ernesto Soares, que
gostaria de ver eliminada essa forma de aliena-
Gio. Mas ela s6 acabari se o cidadio desfrutar
de outros bens e nio precisar mais comercializar
o voto, (inico meio de receber telhas, madeira,
aterro ou camisas, envergadas a falta de outra co-
bertura para o corpo e nio por afinidade political.
A carta de Miguel, por6m, 6 um manifesto que
muitos eleitores assinariam e deveria ser con-
siderado pelos candidates, se eles quiserem ter
vida longa e estevel, escapando ao ciclo de sus-
tos e intervenc6es cirurgicas que tom limitado a
pratica political brasileira.
O manifesto de Miguel:
Prezado cidadao,
01. Nio venda seu voto, nem por uma cami-
seta, nem por algumas carradas de aterro na sua
rua, nem por um bond ou chapeuzinho (mesmo
que seja vermelho), nem por uma sacola pldstica,
nem por uma testa dangante, nem por um chavei-
ro, nem por uma ou outra promessa, seja de em-
prego ou do que for, nem em troca dos diversos
tipos de favors e de propostas indecorosas que
voc6 j6 deve star acostumado a ouvir.
02. Pressionado como de costume, voce po-
de at6 dizer que vai votar neste ou naquele candi-
k.______________


bastante claro: impedir a vit6ria do ex-aliado Alacid
Nunes e criar um novo aliado, agora para servir de
anteparo aos 6rgdos de informag6es. Companheiro
e amigo do general Ivan Mendes, Passarinho faria a
contra-senha em favor de Jader junto ao SNI, que
acumulava dossid sobre a passage do atual mi-
nistro pelo governor estadual. Nenhuma dessas in-
formac6es, algumas delas obtidas por empenho pes-
soal do general, serviu para impedir a ascensio de
Jdder ao governor Sarney e o aval (ou o sildncio)
de Passarinho foi decisive para que houvesse esse
transit.

Um maquiavelismo
bem rudimentar

O embaralhamento de pessoas e posig6es em
fung5o da gangorra dos interesses, que da ao cida-
dao comum a sensagqo de ser a political um jogo
destituido de regras, 6 a mais poderosa das fontes
de desencanto. O PMDB agora pede ao povo para
nio votar num sonegador de impostos que o pr6prio
partido algou b political. O PMDB sabia desse fato
quando o candidate Jader Barbalho recebeu diaheiro
de Xerfan para sua campanha ao governor. Sabia ain-
da mais quando o governador Jader Barbalho amea-
gou com uma super-fiscaliza(go da receita estadual
o prefeito que estava forgando a demitir-se e que
queria mandar silenciosamente de volta as suas em-
presas, sem protest. Hi cinco anos no control da
administraGao estadual, o que fez o PMDB para aca-
bar com essa sonegagco, que s6 escancara ao pibli-
co durante a campanha eleitoral ?
Esse bom mocismo 6 tao falso, tao viciado, que
o PMDB sonega outro fato tao gritante emergindo da

n&o obrigagao"-
dato, em troca de algo, mas nao precisa cumprir
o que disse. Afinal de contas, o voto 6 secret,
e ningu6m precise saber se voc6 votou ou nio.
AIlm disso, todos sabemos que os eleitos nunca
cumprem corn o que prometem.
03. Portanto, se voc6 nao confiar em nenhum
dos candidates que se Ihe apresentarem, anule o
seu voto. Evite votar "em branco", para impedir
que seu voto possa ser adulterado, e aproveitado
para este ou aquele candidate. Nfo votar 6 a uni-
ca resposta coerente, honest e eficaz que se po-
de dar nas urnas, nestes tempos de incertezas e
desconfiancas. O voto 6 um direito, e nio uma
obrigagio. AlIm do mais, como sabemos, o voto
6 secret. Assim, voc6 n5o precise se preocupar:
Ningu6m vai poder demiti-lo ou bloquear o seu sa-
lario, caso voce anule o seu voto.
04. Por outro lado, se voce acredita em um
ou outro candidate, vote nele, mas fique sabendo
que, depois, de pouco ou de nada adiantari ficar
por ai reclamando...! t quase impossivel, para
um mortal comum, retirar de 16 um candidate que,
eleito e empossado, nao atue em beneficio ou em
defesa da comunidade que o elegeu e que paga
seus enormes saldrios.
05. Ah! Sim. Outra coisa: voc. nao preci-
sa se escravizar a Partidos, nem a Sindicatos ou
quaisquer outros tipos de agremiag6es, political
ou apoliticas. Faga parte delas, se quiser, mas
lembre-se que nao Ihes deve nenhuma fidelidade
que seja incompativel corn a sua pr6pria conscien-
cia de cidadao. O moment do voto 6 s6 seu.








lista de contribuintes do ICM que tem mostrado na
television e pelo journal "Didrio do Para". Se Sahid
Xerfan, "uma das maiores fortunes do Pard", 6 o 949
contribuinte, a Belauto, a principal dentre as empre-
sas do maior financiador da atual campanha do PMDB
(e a maior fortune do Estado, segundo ele admitiu a
revista "Veja"), 6 a 749.
Durante todo o ano passado a Belauto recolheu
1,6 milhAo de cruzados aos cofres pdblicos, enquan-
to a Mesbia Distribuidora de Veiculos recolheu 33
milhbes e a Tagide pagou 17 milh6es. Ambas tem
faturamento inferior b da empresa de Jair Bernardino.
Talvez porque o governador Hdlio Gueiros nao mani-
feste qualquer predile9go por Bernardino, ao contra-
rio de Jdder, a Belauto, nos primeiros seis meses
deste ano, recolheu quase 15 milh6es de cruzados
de ICM (nove vezes mais do que nos 12 meses an-
teriores), mesmo assim ainda bem abaixo da Mesbla


(65 milh6es) e at6 da Tdgide (17 milh6es).
Alias, a Belauto so aparece em 749 lugar por-
que a listagem totaliza os recolhimentos de 1987 e
do primeiro semestre deste ano. Se fosse conside-
rado apenas o ano passado, a Belauto cairia para 989
lugar, atrds de Xerfan, B frente apenas da Santa F6
AgropecuBria e da Revmar Revendedora de Veiculos
entire os 100 maiores contribuintes. I uma posig~o
incomoda para a empresa lider do mais rico empre-
sario do Estado, posigio que leva o cidaddo a pensar
em qual 6 o dinheiro que estd levantando a bela tor-
re da televisAo de Jair, talvez o mesmo que financial
a maioria das riquezas particulares, especialmente
aquelas de subito crescimento e misteriosa origem.
Esta promiscuidade entire o neg6cio p6blico e o pri-
vado da a political o tom de falsete que a desgasta
no moment mesmo em que ela comega a ficar amea-
cada de novo arquivamento.


INDIOS


Um


protest


record


Quase 400 indios fizeram seu protest diante
do predio da Justica, em Belem. Houve moments de tensdo
no local. Mas todos esses incidents poderiam ser
evitados se tivesse prevalecido um minimo de bom senso.


nambds do sftio onde fundariam Bel6m, nunca
houve tantos indlos na cidade como entire os
dias 13 e 14. O percurso, desta vez, foi em
sentido inverso: quase 400 indios deixaram suas al-
deias, algumas delas situadas ate a quatro mil qui-
16metros de distAncia, se juntaram em Redengqo e,
em onibus fretados, seguiram juntos para a capital
paraense. Nela, fariam a maior manifestagIo de pro-
testo ja realizada por indigenas em toda a hist6ria
do pais. Pintados, armados e vestindo trajes tipicos,
eles cantaram, dangaram e cumpriram rituals de
guerra sobre o asfalto de uma das principals aveni-
das da cidade, bloqueada para o transito de veiculos,
em frente ao f6rum da Justiga federal. Depois, em-
barcaram novamente nos 6nibus para refazer o ca-
minho de volta as aldeias, satisfeitos por terem dado
um recado".
Muito mais dificil do que foi aos indios expres-
sar uma posigao, tornou-se para os "brancos" inter-
pretd-la. A mobilizagco foi em solidariedade ao jo-
vem cacique Kube-i Kayap6, de 31 anos, convocado
para depor como co-autor de crime que teria sido
praticado pelo antrop6logo norte-americano Darrell
Posey. Mas os indios tamb6m procuravam demons-
trar que Kube-i expressara fielmente os sentiments
de sua tribo quando em Washington, juntamente com
Paulino Paiakan, de 35 anos, pedira ao Banco Mundial
para nao liberar um emprdstimo de 250 milh6es de
d6lares para o program energ6tico brasileiro, en-
quanto os responsaveis pela construgdo das hidre-
letricas previstas para o rio Xingu nao se entendes-
sem cor as tribes espalhadas pelo vale.
O governor parece convencido de que por trds
da viagem de Kube-i e Paiakan aos Estados Unidos,
entire o final de janeiro e o inicio de fevereiro deste
ano, ha uma conspiragAo international. Ela teria sido
articulada por Darrell Posey, um etnobl6logo de 41


anos, que hd 11 anos faz pesquisa entire os Kayap6s
e se tornou muito amigo deles. A pretexto de levar
os dois jovens caciques para um encontro cientifico
em Miami, Posey os teria conduzido em seguida a
Washington e, usando-os como arfetes cheios de
emotividade, bolcotou o financiamento do program
energ6tico.
Em favor da tese hd a circunstancia de que o
pesquisador saiu irregularmente do Brasil, sem li-
cenga do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimen-
to Cientifico e Tecnol6gico), ao qual est6 vinculado,
acompanhou os dois indios ao long da excursdo de 14
dias pelos Estados Unidos, serviu-lhes de int6rprete
e teria intervido nos didlogos, manifestando opini6es
pessoais. AI6m do relato feito por um observador
infiltrado nos events, o SNI teria gravaG6es das
conversas. Foi cor base nesse material que o Con-
selho de Seguranga Nacional solicitou a instauragco
de um inqu6rito a Policia Federal, transformado em
denOncia pelo procurador regional da Repdblica, Pau-
lo Meira, e recebida pelo juiz Iran Velasco Nasci-
mento.
Uma acusaggo
sem as provas
Os autos do process oferecem evidencias em
favor de tal interpretacgo, mas o observador atento,
honest e rigoroso dificilmente encontrard provas
que a confirmed. A embaixada brasileira em Was-
hington foi informada previamente das atividades
dos trds na capital americana e poderia acompanhd-
los nos encontros, que foram piblicos (os correspon-
dentes dos principals jornais brasileiros estiveram
presentss, ou pronunciar-se em seguida. Duas enti-
dades ambientalistas nao governamentais dos Esta-
dos Unidos (o Fundo de Defesa do Meio Selvagem
e a Federagco Nacional da Vida Selvagem) assumi-
ram inteira responsabilidade pela iniciativa de levar









os indios de Miami para Washington. E em todo o
process nao ha qualquer indicagao de que Posey
tenha feito alguma coisa alem de acompanhar os
indios.
O governor, o Minist6rio POblico e a Justica nao
podem caracterizar a interfer6ncia do pesquisador
nos assuntos interns brasileiros se nao ha provas
disso nos autos, ou se as eventuais provas sao man-
tidas sigilosamente em algum escaninho dos 6rgaos
de informa6oes. O director do Departamento de Po-
licia Maritima, A6rea e de Fronteiras, Jos6 Sampaio
Braga, deu um despacho correto (em abril) quando
pediu que fosse apurada, "em toda a sua extensao,
a responsabilidade criminal e administrative" de
Posey, que deixara o pais irregularmente e poderia
ter-se manifestado durante os encontros dos indios
cor autoridades norte-americanas e o Banco Mun-
dial.
A comprovada irregularidade na said do etno-
biologo pode Ihe acarretar uma sangio administrati-
va. Mas em nenhum moment estd caracterizada
sua intromissio nos assuntos brasileiros. O proces-
so, por6m, tomou rumo muito distinto do que pode-
ria ser considerado regular. Busca-se demonstrar
que os indios contribuiram para o norte-americano
praticar um crime que nem de leve esta evidenciado.
Por isso, o process enredou-se nas teias do
absurdo, gerando tal confused que, dela, o unico re-
sultado cristalino 6 a perplexidade ou a hilariedade
que comega a provocar dentro e fora do pais. Se os
indios sao brasileiros (do que nao abre mdo o gover-
no e a grande imprensa brasileira, incapaz at6 de
reconhecer a especificidade, dos indios na tradugao
grafica de sua lingua), come podem cometer crime
ao opinarem sobre questbes nacionais? Born, o cri-
me nao 6 deles, mas do antrop6logo, que os induziu
a servirem de escudo ou cobaia. Mas nada disso
est6 provado. A maneira de criar a prova seria atra-
v6s da pericia, que o procurador solicitou e o juiz
deferiu, para avaliar se os indios tinham consciencia
de que cometiam crime quando pediam aos dirigen-
tes do Banco Mundial para nao darem dinheiro para
a construgco de hidrel6tricas. Se nao entrar para o
anedotario, essa pericia esta sujeita a voltar-se con-
tra quem a pediu.
Ao inv6s de seguir um padrdo de comportamen-
to policialesco, autoritArio e paran6ico, que 6 capaz
de descobrir conspiracao onde o que ha 6 desinfor-
macao, o governor brasileiro poderia comegar a ten-
tar demonstrar a comunidade international civilizada
que j6 tem maturidade e democratizou-se. Em todo
o "imbroglio" hd uma inequivoca transgressao fun-
cional do cientista, que pode ser punido administra-
tivamente. Toda a controversial restante alimenta-se
de opini6es e palpites. Conforme o testemunho do
correspondent do "Jornal do Brasil" em Washing-
ton, Paiakan e Kube-i "impressionaram especialmen-
te t6cnicos do Departamento do Tesouro e os repre-
sentantes dos Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra
e Holanda na diretoria do Banco Mundial, com sua
descrigno comovente dos desastres que projetos de
desenvolvimento do governor brasileiro v6m causan-
do para a vida e a cultural dos indios da Amaz6nia".
Os cidadaos norte-americanos informados, que
t6m uma consciencee mauvaise" em relacgo aos in-
dios, n-o poderiam ouvir impassivelmente tais rela-
tes. No entanto, parlamentares e banqueiros nao
sao propriamente pessoas ing6nuas e irresponsaveis;
sabem avaliar as situag6es. O jornalista Roberto Gar-
cia registra em sua mat6ria, de 8 de fevereiro, um
detalhe important: "Os dois indios foram recebidos


no Tesouro na mesma sala de conferencias usada
para encontros das autoridades desse Minist6rio
americano com o ministry da Fazenda do Brasil ou o
president do Banco Central.
Eles sao mais convincentes do que os mi-
nistros que t6m passado por aqui comentou um
funcion6rio americano", e testemunhou o correspon-
dente do JB.
Oito meses se passaram, mas nenhum represen-
tante do governor brasileiro procurou os interlocuto-
res dos dois caciques para contrapor arguments as
exposiq6es por eles feitas, embora houvesse bas-
tante tempo para isso porque o empr6stimo s6 seria
votado em setembro (e que acabar6 saindo, segundo
um rapido registro da imprensa). Tamb6m a Eletro-
norte nao dignou-se a procurar os representantes dos
quatro mil ou cinco mil indios que habitam o vale
do Xingu para prestar-lhes as informaq6es necessa-
rias sobre o program de aproveitamento hidrel6tri-
co da regiio. Ao inv6s de convencer ou demonstrar,
o governor preferiu optar pela tentative de puniqco,
atavismo que parece desafiar a capacidade dos neo-
logismos republicans.
O que Kube-i disse aos parlamentares america-
nos foi que "os indios nunca sao informados dos
pianos do governor que afetam suas terras, nem t6m
oportunidade de se manifestar a respeito deles",
conforme a reportagem de Roberto Garcia. O que o
senador Daniel Inove prometeu aos indios 6 que as
verbas do Banco Mundial "s6 poderiam ser usadas
para projetos na Amaz6nia se o governor criar alter-
nativas aceitdveis para as populag6es indigenas al-
deadas". Constituiriam crime estas condic6es?
Os indios t6m motives mais do que justos para
se assustarem com as consequ6ncias futures dos
various represamentos de aguas ao long do Xingu.
Quaisquer que sejam as cautelas adotadas pelos exe-
cutores dessas obras, elas alterardo o padrao de vida
de uma das mais importantes concentraG6es de in-
dios que ainda existe na Amaz6nia. Nao se pode
querer que os Kayap6s aguardem passivamente o
dia em que o rio sera fechado e comegard a inchar
artificialmente para entro manifestar suas apreen-
soes.
Mas pode ser que alguns de seus temores se-
jam improcedentes. O grande choque recebido pe-
los indios do Xingu veio atrav6s de um mapa onde
estao plotadas as seis grandes barragens e suas
respectivas dreas de inundagco. Mas o mapa, de de-
zembro de 1979, nao s6 est desatualizado, como foi
corrigido. E nem isto a Eletronorte dispos-se a infor-
mar aos indios. Permanece num olimpico desinteres-
se pela questao, attitude que tamb6m pode ser inter-
pretada como desprezo.
Tanto quanto graduados personagens de Washing-
ton, os espectadores da manifestaclo de protest dos
Kayap6s em Bel6m nao puderam deixar de se im-
pressionar com a pung6ncia dos testemunhos que
eles deram na ocasiao e de se sensibilizar pela cau-
sa dos indios. Em uma sociedade democr6tica, ven-
ce quem convince a maioria. Mas o governor acha
que ganha aquele que age com forga, atrav6s de
meios impositivos e categ6ricos.
O process contra Posey, Kube-i e Payakan, ar-
bitrariamente reunidos por cord6es juridicos de p6s-
sima tessitura, pode ser um meio indireto de admo-
estacgo e pressao do governor sobre a comunidade
cientifica international, cada vez mais agressiva e
menos tolerante em relag9o a devastagao na Amaz6-
nia. Mas, antes de chegar a esse fim, 6 um atestado
do atraso e do primarismo do nosso pr6prio governor.










Indios nao querem hidreletricas


Apesar dos 65 anos, Ukakoro, um dos mais anti-
gos guerreiros da aldeia Metuktire, do Alto Xingu,
manejava com graga e rapidez sua borduna diante de
um assustado soldado da Policia Militar, que procura-
va controlar o espanto. Ukakoro dangava, gritava e
cantava, enquanto apontava, com a borduna de madei-
ra, o revolver e as bombas de gds lacrimog6neo ata-
dos a cintura do soldado.
Minha arma 6 de paz, a tua tira sangue, mata
- gritava o velho guerreiro. "Nas nossas terras,
ningu6m vai construir hidrel6tricas", prometeu. De-
pois de ferozes arengas na lingua Kayap6, Ukakoro
voltou, calmo, para o meio dos 360 indios postados
em frente ao pr6dio da Justiga federal.
Varios outros guerreiros se alternaram nas dan-
cas, cantos e discursos diante dos 60 soldados da PM
enfileirados junto ao muro da sede do Forum federal.
AtrBs deles, duas dezenas de agents da Policia Fede-
ral, usando trajes de campanha e armados, alguns
corn metralhadoras, tamb6m acompanhavam a evo-
lug5o dos indios, pintados com tinta escura, cocares
de penas coloridas de animals na cabeca, braQadei-
ras de miGangas, agitando as pesadas bordunas de
madeira. Mas nao estavam all para guerrear.
Logo ao chegar, os guerreiros cumprimentaram
os soldados, apertando-lhes as mdos como se pas-
sassem em revista a tropa. Depois comegaram um
ritual que deve atrair bons espiritos para a vit6ria.
Num dos intervals, dois indios abriram um mapa da
Eletronorte localizando as barragens e faziam comen-
tdrios sobre o significado dessas obras para seus ir-
maos e primos do Xingu.


O cacique Raoni, chefe da tribo de Ukakoro, as-
sistia a toda a movimentacgo impassivelmente, ti-
rando grandes baforadas de seu cachimbo rustico.
Mas foi incisive quando pediram sua opiniao sobre
o program energ6tico do governor para o Xingu: No
aceito barragem, nao aceito rio sujo, nao aceito der-
rubada de floresta, nao quero que matem os bichos".
Raoni, o mais famoso dos lideres indigenas, havia
visto de manha cedo as 6guas que banham BelBm:
"E um rio muito sujo. Nao vamos querer isso na al-
deia. Rio 6 nossa vida, nos da comida, nos banha".
Em fala mansa, fulminou: "Nenhuma hidrel6trica ser6
construida dentro do Parque Nacional do Xingu. Nao
vamos deixar".
Mas Raoni sabe que as frentes do branco estao
avancando e que alguns de seus primos, no curso
inferior do Xingu, aceitam que os brancos extraiam
ouro e madeira de suas terras. Os Kayap6s, por
exemplo, faturam atualmente 30 milh6es de cruzados
por m6s corn os direitos sobre os garimpos de
Cumaru, Maria Bonita e Tarzan, que ficam a algu-
mas dezenas de quil6metros da aldeia Gorotire e
que poluiram de vez o rio Fresco, que passa ao lado
de suas casas, tornando-as inserviveis.
Apesar da insist6ncia na pergunta, Raoni se re-
cusou a comentar a questao: "Eu n5o conheco essa
parte, nao posso dar opiniao". Mas foi enf6tico ao
garantir que nao autorizard essas atividades no Par-
que do Xingu, onde vivem dois mil indios. "Isso 6
errado". Foi com a renda da explorag~o do ouro e
da madeira que os Kayap6s financiaram a excursdo
dos guerreiros a Bel6m.


IMPRENSA


Distant


do


A imprensa paraense voltou a ser fonte incon-
fiAvel de consult sobre as eleig6es no Estado. Co-
mo nas fases de paix6es que marcaram os ciclos de
Antonio Lemos/Lauro Sodr6, no inicio do s6culo, e
Barata/Coligagco, ap6s a Rep6blica Nova, a impren-
sa se atrelou a candidates e partidos, condicionando
seu noticidrio a esses compromissos. Novamente, o
antagonismo 6 dualista, pondo de um lado o grupo
Liberal e, de outro, o "Didrio do Pard", com seus sa-
tdlites e a discreta simpatia de "A Provincia do
Pard".
Nao se trata apenas de identidade ideol6gica,
empatia pessoal ou compromissos futures cor os
candidates apoiados por esses 6rgios da imprensa.
Eles tamb6m travam uma dificil batalha pela sobre-
vivencia, a mesma que gigantes de SAo Paulo, Rio
ou Minas Gerais enfrentam num mercado que come-
Ca a demarcar linhas mais restritivas. E como na-
quela brincadeira em que os brincantes circulam ner-
vosamente entire cadeiras, certos de que faltara lu-
gar para um deles.
No Pard, como em outros Estados onde a in-
flu6ncia da mdquina governmental 6 mais forte, a
competicgo entire os grupos de comunicag6es (ou
empresas isoladas) nao se trava unicamente no ter-
reno econ6mico-financeiro, na dispute mercadol6gi-
ca do leitor. Extravasa tamb6m para os bastidores
politicos. Essa circunstAncia explica, embora parcial-


cidadao


mente, por que um grupo tao solidamente estabeleci-
do, como o Liberal, regrediu nos padres de profis-
sionalismo aos quais j6 estava se acomodando para
apoiar ostensivamente a candidatura de Sahid Xer-
fan. A familiar Maiorana dispoe de dados suficientes
para precaver-se contra o nascente imperio de comu-
nicag6es do ministry Jdder Barbalho, que nasce nao
apenas para estabelecer-se no mercado, mas e
talvez sobretudo para destruir o rival.
O potential de fogo dos veiculos de propriedade
do ministry da Previd&ncia Social desafia a com-
preensao dos especialistas. Para circular diariamen-
te com 38 p6ginas, o journal "Dibrio do Pard" deve
gastar, s6 de papel, aproximadamente 90 cruzados,
mas 6 vendido a 50 cruzados (com o desconto para
os jornaleiros, o retorno liquid por exemplar 6 de
30 cruzados, um tergo do custo de um dos insumos
do journal Nos domingos, quando a tiragem 6 maior
(e o prejuizo com o papel) o "Didrio mant6m o prego
de 50 cruzados, enquanto o de seus concorrentes 6
quatro vezes superior, 200 cruzados. Se o fatura-
mento publicitdrio do "Dibrio" 6 muitissimo inferior
ao de "O Liberal" e abaixo do de "A Provincia", co-
mo se explica a notdvel resist6ncia da empresa para
enfrentar prejuizos ?
Essa pergunta deve levar os concorrentes a sus-
peitar de que o "Dibrio", como os outros veiculos de
comunicagio do ministry ("lanternas" nos indices de









audiencia), contam com outro tipo de ajuda al6m da
que aparece na contabilidade de receita ou entdo
disp6em de uma apreci6vel retaguarda de capital
para cobrir os deficitss". Deve estar ai a matriz da
disposigo do grupo Liberal de enfrentar frontalmen-
te agora o PMDB, carregando o candidate da coliga-
9 o, para prevenir surpresas desagraddveis no futu-
ro. Quem nao almoga inimigo figadal, 6 jantado por
ele.
Mesmo esse risco, entretanto, 6 incapaz de jus-
tificar o retrocesso na posiiao que o grupo Liberal
alcangou no mercado paraense. Grupos de comuni-
caqco costumam apoiar candidates a eles simpdticos
ou afins e combater seus adversdrios. E mais do
que not6rio o endosso de "O Estado de S. Paulo" ao
empresario Antonio Ermirlo de Moraes e sua repulsa
a Paulo ,Maluf. Da mesma maneira, "0 Globo", que
costuma estar ao lade de todos os governantes, s6
recentemente absorveu Saturnino Braga, colocado no
index de Roberto Marinho por ter-se oposto A Globo
no parlamento.
Mas o apoio de um 6rgAo de imprensa a um
candidate nao pode ser tao incondicional a ponto dc
ele desprezar a verdade e ignorar o adversario. Ape-
sar da aversio profunda da familiar Mesquita a Maluf
e, agora, a Orestes Qu6rcia, os dois e seus ap6n-
dices malufistas e quercistas tnm espago garan-
tido em "O Estado de S. Paulo", numa segao em que
os candidates escrevem sobre seu program ou seus
simpatizantes explicam por que os ap6iam. Isto 6
considerado impensavel, hoje, em "O Liberal" e no
"Diario do Pard".
O journal do ministry desceu da molecagem para
o mais s6rdido ataque pessoal, investindo sobre a
vida privada de seus adversarios sem o mais leave


resquicio de cautela moral ou 6tica, sem se impo;
tar com a verdade. Ja "0 Liberal" transformou sua
mais prestigiosa coluna, o "Rep6rter 70", num esti-
lingue de ataques infants, onde a vontade de ironi-
zar e ridicularizar deixa de lado o que, em jornalismo,
6 bdsico: a factuidade da informacgo.
Um journal, mais do que uma emissora de rddio
ou de television, nio collide impunemente com os fa-
tos: desgasta-se junto a seus leltores, ainda mais
entire os que sdo personagens de mat6rias mal cui-
dadas, montadas de ma f6. Com 90% dos leitores de
jornais, lider absolute em audi6ncia de television e
disputando os primeiros lugares em radio, o grupo
Liberal aceitou deixar tudo isso de lado e passar a
ser conhecido como o patrocinador da candidatura
Xerfan, assumindo essa camisa-de-forga.
Em passado recent, envolvendo inclusive "O
Globo" e a TV Globo, a opinion piblica demonstrou
seu repddio ao facciosismo da imprensa, que pode
ter seus candidates, mas nio deve subordinar essa
opgio ao seu dever de informar o mais corretamen-
te possivel todos os cidadios. A imprensa paraense
esta desprezando essa preciosa li9~o e nos devol-
vendo a um passado de primitivismo que parecia su-
perado. Ao inv6s de ajudar o Estado a ir em frente,
esclarecendo-o realmente a tomar suas decis6es,
acaba fazendo-o retroceder. Isto explica por que o
eleitor paraense, leitor de jornais, telespectador de
televises ou ouvinte de radios, nio p6de avaliar os
candidates aos cargos eletlvos, em debates entire -
ou submetendo-se ao inqu6rito popular. Ao inv6s de
ser a caixa de ressenancla da sociedade, a imprensa
voltou a funcionar como palanque de seus pr6prios
eleitos.


Uma denuincia contra

o "beautiful people"


O juiz federal Iran Velasco Nascimento acolheu a
dentncia da Procuradoria da Rep6blica contra 29 pes-
soas envolvidas no "rombo" praticado na agAncia cen-
tro do Banco da Amaz6nia em Bel6m, entire as quais
o ex-diretor e ex-presidente interino, Augusto Barrei-
ra Pereira. Eles foram enquadrados no crime de "co-
larinho branch" e deverio depor na Justiga entire abril
e maio do pr6ximo ano.Al6m desse process, que
apurou as irregularidades na principal ag6ncia do Basa,
a Justiga ainda vai receber da Policia Federal a apura-
gio das fraudes praticadas na agencia da Pedreira,
em Beldm, e em Itaituba. Alguns dos acusados nes-
ses casos tamb6m estio indiciados no process so-
bre desvios na agencia de Madureira, no Rio de Ja-
neiro, pelo qual foram press e depois liberados.
Na denOncia, o promoter Moacir Guimarges Mo-
rais Filho diz que Augusto Pereira, president interino
do Basa entire junho de 1986 e julho do ano seguinte,
autorizou a realizagqo de 507 operagQes irregulares,
que, na dpoca, causaram ao banco prejuizo de 2,2 bi-
Ihges de cruzados (hoje, quase 15 bilh6es de cruza-
dos).
Dezenas de empresas locais foram beneficiadas
de varias maneiras, recebendo empr6stimos em valo-
res acima dos limits cadastrais, nao oferecendo ga-
rantias a esses empr6stimos, desfrutando de jurors
menores ou nio estando nem ao menos funcionando
regularmente para term direito a transag6es financei-
ras. Em troca dos favors, Augusto, seu filho, urn
amigo intimo, Guilherme Feldhaus, e varias pessoas


a eles associadas. receberam comiss6es. Funciond-
rios graduados do banco, por omissio ou conivdncia,
colaboraram para a irregular liberacso de dinheiro.
Atrav6s do rastreamento dos cheques emitidos,
a policia comprovou que 15,7 milh6es de cruzados fo-
ram parar, entire 1986 e 1987, nas mios de Barreira
Pereira e seu grupo. A policia sequestrou alguns bens
adquiridos com esse dinheiro (vArios autom6veis de
luxo, por exemplo), mas foi obrigada a libera-los por-
que a liminar de sequestro caducou. Como o juiz exi-
gia novas dilig6ncias, os prazos foram sucessivamen-
te prorrogados para o cumprimento das provid6ncias
e o prazo acabou estourando, o que o promoter fede-
ral lamenta em sua denuncia. Ele diz que o Ministd-
rio POblico "requereu a conversao em sequestro de
suas apreens6es", mas o juiz nio acatou o pedido.
Aldm da devolugao dos bens adquiridos com as co-
miss6es ilicitas, os acusados tiveram suas contas
bancdrias desbloqueadas.
Na denOncia, o promoter Moacir Filho renovou o
pedido de sequestro e sugeriu novas provid6ncias
"extensivas a outros bens adquiridos cor o produto
das infrag6es pelos denunciados", para garantir, ao
menos em parte, os prejuizos causados ao banco.
Lembrou outras medidas "jd recomendadas anterior-
mente por decision de reuniio da pr6pria Diretoria (do
Basa), o que ainda nio se fez sentir, lamentavel-
mente".
Aldm de relacionar os casos comprovados de re-
cebimento de comissbes pelo intermediamento de









emprdstimos, o promoter investiu contra os funciond-
rios do banco que, de alguma maneira, acabaram pos-
sibilitando essa enxurrada de transag6es irregulares
(uma "orgia financeira. destrutiva", segundo a expres-
sao da comissdo de inqu6rito do banco)., executadas
por "agenciadores estranhos ao Banco e ligados, um,
pelo parentesco pr6ximo do ex-Presidente, o denun-
ciado Augusto Barreira Pereira Junior, filho de Augus-
to Barreira Pereira, e outro, Guilherme Feldhaus, um
aventureiro sulista bem sucedido nesta cidade, en-
fronhado no 'socialites', intermediando junto ao Pre-
sidente pleitos de seus amigos, para desencalhar o
passive de vArias empresas em bancarrota em decor-
rdncia de administrag~es fracassadas e corruptas, al-
gumas delas bs portas da falancia".
Moacir Morals Filho aceitou d caso depois que
trds procuradores declararam-se impedidos de atuar
por algum tipo de relacionamento corn as pessoas -
naturalmente, os "socialites" denunciadas. Agora,
o procurador da Repiblica, depois de sua energica
denuncia de 54 pAginas, ja estaria comegando a rece-
ber telefonemas ameagadores.

0 sacrificio

da floresta
O p61o sidernrgico que esta sendo formado na
drea do Programa Grande Carajas tern criado proble-
mas que fazem a Amazonia involuir no tempo. Desde
o inicio do seculo dezoito a Inglaterra, bergo mundial
da industrializagio, foi substituindo o carvao vegetal,
ate entio o tinico combustivel usado na produgco de
ferro, para nao dizimar de vez suas florestas. Minas
Gerais, dois s6culos depois, iludiu-se corn sua fung5o
suplementar ao parque industrial automobilistico de
Sao Paulo e tamb6m sacrificou sua floresta para pro-
duzir um insumo cada vez mais oneroso e que os
maiores consumidores querem transferir a terceiros
menos exigentes, livrando-se dessa atividade, suja e
pouco rentavel. A Amaz6nla aceita-a, sem maiores
exig6ncias, como se estivesse evoluindo e nio
regredindo.
Na semana passada a Secretaria de Sadde do
Para desativou 180 fornos, montados por 10 madeirei-
ras, que queimavam restos para produzir carvio em
plena area urbana de Marabd. A fumaga e a fuligem
que caiam sobre a cidade estavam provocando irrita-
96es nos olhos, infecg6es respirat6rias e reag6es na
pele das pessoas. Nio 6 que os fornos tenham sido
proibidos: eles vio poder voltar a funcionar, mas a
oito quilometros de distancia de onde estavam insta-
lados. A media tira Marabd de uma situag5o me-
dieval, mas nao impedird que as usinas continue
fabricando ferro b base de carvao vegetal.
Os defensores das siderdrgicas alegam que as
ind6strias madeireiras permanecerio causando o
mesmo tipo de problema mesmo ndo existindo as usi-
nas. Ao contrArio, ao invds de simplesmente queima-
rem a grande parte da madeira desperdigada, como
sempre fizeram, ao menos produzem carvio vegetal,
que tem valor economico. Mas 6 um argument so-
fismwtico: as sobras das madeireiras s6 podem aten-
der uma parcel da demand de carvio das siderirgi-
cas. A grande oferta vird mesmo das derrubadas de
'4ianta.nativa, B falta de reflorestamentos adequados.
Nia foi exatamente porque nio pretended ter fontes
de auto-suprimento que as siderdrgicas estao se
transferindo de .Minas Gerais para o Pard e o Mara-
nhAo ?


No ano passado, 80% do carvao usado pelas gu-
seiras de Minas tiveram essa origem, apesar. das
grandes distancias em que a materia-prima se encon-
tra e da devastacgo das florestas do vale do rio Doce.
Para prevenir as medidas de protecgo que o IBDF ado-
tou, as siderdrgicas formaram um imenso estoque de
carvao native, segundo declara86es feitas pelo pr6-
prio president da Associacqo Brasileira de Carvao
Vegetal, Josd Luis de Magalhaes Neto.
Se em Minas os guseiros agem assim, que com-
portamento pode-se esperar deles no faraoeste ama-
z6nico? Ou a Amaz6nia deve continuar para sempre
forcada a escolher entire o pior e o menos ruim ?


0 incendio foi

mesmo accidental

Faltaram apenas 20 metros para o fogo chegar
ao predio do Centro de Sensoriamento Remoto da
Sudam, no inc6ndio que, no dia 17, destruiu comple-
tamente o Centro de Processamento de Dados, o se-
tor de estatistica e o almoxarifado da Superintenddn-
cia do Desenvolvimento da Amaz6nia, em Bel6m. Em
pouco mais de uma hora, logo depois do encerramen-
to do expediente, o incendio destruiu o bloco, que
ocupava 900 metros quadrados de area construida.
Uma fonte da Sudam admitiu que se o fogo ti-
vesse atingido as instalac6es do Centro de Sensoria-
mento, que vem acompanhando, atrav6s das imagens
de satelite, a evolugio do desmatamento na Amaz6-
nia, "inevitavelmente surgiriam especulag6es sobre
sabotagem ou incendio criminoso". A fonte disse que
seria "uma infelicidade", j6 que os elements dispo-
niveis asseguram, ao menos por enquanto, ter-se tra-
tado realmente de acidente, "apesar de certas coin-
cid6ncias que fazem supor coisa provocada".
O dado mais important em favor do mero aci-
dente 6 de que o fogo destruiu fitas magn6ticas con-
tendo informac6es sobre os projetos econ8micos be-
neficiados pelos incentives fiscais do governor, mas
as matrizes, em papel, estio preservadas em outro
bloco da sede da Sudam, que ocupa aproximadamente
10 mil metros quadrados. As informac6es, assim,
poderio ser recuperadas, ainda que nAo possam mais
ser obtidas instantaneamente.


Nao foi
Toda a imprensa noticiou que o governador Helio
Gueiros acompanhou os presidents Jose Sarney e
Jaime Lusinchi na visit que fizeram, no inicio de
outubro, ao projeto da Minerag9o Rio do Norte, em
Oriximind. .Mas o governador, apesar de convidado,
nao foi a Porto Trombetas. Gueiros explicou que "nio
ficaria bem" deixar a capital justamente quando ela
sediava o Cirio de Nazar6, e voar 800 quil6metros
para ser mero espectador das conversas reservadas
entire os dois presidents.

Essa pode ser uma das razbes para a recusa ao
honroso convite presidential. Mas ha outras, sobre
as quais o governador que jd foi um dos mais
ardorosos defensores de Sarney preferiu nio fa-
lar. G~eiros esta "amuado" com Sarney, expresso
quo talvez usasse se decidisse colocar para fora tudo
o que vem engolindo, da nio suspensio da desapro-
priacdo da Sotave a investida sobre a Sudam.










Fogo: um novo record em 1988?


As queimadas neste ano na Amaz6nia deverio
ultrapassar as do ano passado. Esta 6 a previsdo fei-
ta por alguns t6cnicos que tnm recebido e interpreta-
do as imagens do satdlite NOAA-9 e que, ate marco
do pr6ximo ano, deverio entregar um relat6rio sobre
a extensio dos incendios ocorridos na regiio em
1988. Apesar do impact causado na opinido piblica
mundial pela revelaigo, em maio, do relat6rio do
Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espacial), re-
gistrando o record de queimadas em 1987, nio hou-
ve retrocesso, mas recrudescimento na destruirio.
No ano passado o fogo atingiu 20 milh6es de
hectares, praticamente o dobro das derrubadas que
ocorrem anualmente em todo o planet, dos quais
oito milh6es de hectares foram de florestas nativas
densas. Em casos extremes, o sat6lite norte-ameri-
cano detectou inc6ndios que cobriam area de 400 mil
hectares e espalhavam espessas nuvens de fumaca
sobre drea de 1,5 milhio de quil6metros quadrados.
Mais de 600 milh6es de toneladas de gases e mate-
rial particulado foram langados a atmosfera em con-
sequdncia da queima da floresta, de pastos e de cul-
tivos agricolas.
Devido a contunddncia desses nimeros, o gover-
no acabou anunciando um "pacote" de medidas de
protegao ao meio ambiente, as v6speras da viagem
do president da Repiblica h Europa, onde se intensi-
ficaram as manifestac6es de protest contra o cres-
cimento da devastadao e a Indrcia da administragdo
publica no Brasil. Mas as imagens do NOAA-9 jS


recebidas e processadas pelos centros de sensoria-
mento remote, mas ainda em andlise, indicam que as
queimadas podem ter-se ampliado ainda mais em
1988.
No ano passado, o maior inc6ndio individual foi
de seis mil hectares. Neste ano jd surgiram imagens
de incendio superior a 10 mil hectares, em Mato Gros-
so do Sul. Segundo os t6cnicos, 6 possivel que as
queimadas em areas de floresta primitive diminuam,
mas devem ter crescido os focos de fogo nas areas
jd em cultivo ou de floresta secundaria. Uma das
causes desse incremento pode ser o maior rigor na
estacio seca e a estiagem prolongada em 1988. Mas
tamb6m foi mantido o ritmo de expansio da fronteira
economic.
Uma das imagens que mais impressionou os t6c-
nicos foi obtida em Sao Felix do Xingu, no sul do
Pard. Essa 6 uma das regimes mais ricas da Amazo-
nia, nio s6 pelo excepcional adensamento de espd-
cies vegetais de alto valor, como o mogno, mas tam-
bem por suas extensas manchas de terra roxa. No
eixo de uma estrada de penetrag o que parte de Re-
dengio no rumo oeste, tocando os limits da reserve
indigena Kayapo, grandes areas estio sendo queima-
das, provavelmente por licitantes de glebas vendidas
pelo Iterpa. Os t6cnicos ficaram indignados com a
queima dessa madeira para a formagro de pastagens,
em fazendas que estio surgindo no vale do Xingu, a
mais nova drea de ocupafio no Pard.


So para singles ver, novamente


A principal media do "pacote" ecol6gico anun-
ciado pelo president Jos6 Sarney foi a decision de
suspender por 90 dias a aprovag o de novos projetos
agropecudrios na Amaz6nia, que nesse period se-
rio submetidos a andlise e ficario proibidos de se
instalarem onde houver floresta. Apesar das pole-
micas que provocou, cor algumas reag6es tio indig-
nadas quanto despropositadas, a iniciativa do gover-
no deverd ser completamente in6cua.
Desde 1978, com a edicgo da resolug~o 2525, a
Sudam estd proibida de aprovar projetos de pecuaria
"nas dreas florestais de mata densa e mata media".
Como todo dispositivo legal embutido a contragosto,
nesse a proibig~o foi logo atenuada pela ressalva de
que s6 nio poderiam receber fazendas as Breas de
floresta "que se apresentem cor caracteristicas eco-
16gicas, econ6micas e de preservag~o contra-indica-
das para explorag~o da pecudria".
Mais ainda: o par6grafo inico desse artigo res-
salvava que nio se aplicava a proibigio "no caso de
ampliagio dos projetos anteriormente aprovados,
loclizados em areas florestais de mata densa e mata
media, quando estas se apresentem com vocacpo
para a atividade, conforme caracterizacio constant
do Piano de Desenvolvimento Regional e a amplia-
9co objective a consolidagio desses projetos ou quan-
do, a crit6rio da Secretaria Executiva, seja constada
a necessidade de formagio de rebanhos para abaste-
cimento da area de influincia do projeto".
Com tantas excec6es, a Sudam sempre encon-
trou meios de contornar a intengco da lei, usando
as liberalidades que os elaboradores dresses do-
cumentos costumam esconder entire virgulas. Em
1983, por6m, houve um caso mais ostensivo. O en-


tdo superintendent da Sudam, Elias Seffer, queria
de qualquer maneira aprovar fazendas para o Acre,
que nio recebera nenhum desses projetos incentiva-
dos pelo governor (mas suas florestas jd estavam
sendo dizimadas pela pecudria). Como praticamente
todo o Acre 6 uma forest s6, o Departamento de
Recursos Naturals da pr6pria Sudam recusou-se a
aprovar os projetos. O superintendent, entdo, dei-
xou de consultar o departamento e arrancou as apro-
vacoes do Conselho Deliberativo.
Na nova administrag~o, fixar fazendas em areas
de floresta (um objetivo da esquizofrenia findnceira
que paira sobre a Amaz6nia) tem sido alcancado corn
mais sutileza. Os pareceres que chegam aos conse-
Iheiros da Sudam para exame e aprovaGio dedicam,
em m6diao tres linhas a quest5o da vegetag o. Cor
tal carincia de informag6es, os conselheiros mes-
mo os bem intencionados podem aprovar gato
por lebre. O problema, alids, e menos o de inten-
goes, mas o de prdticas e posturas: a pecudria sem-
pre merece uma condescenddncia que falta A ativida-
de florestal, irracionalidade que abstrai o fato ele-
mentar de que a floresta 6 que constitui a Amaz6nia.
O "pacote" de Sarney nio alterou essa visio.
Logo, nio vai mudar esse descompasso entire apre-
tensao da lei e o seu resultado.


V
("g 1':
:
LV'U61--


Journal Pessoal
Editor responsive : Licio Flivio Pinto
Enderepo (provis6rio): rua Aristides Lobo, I
Bel6m. Parn, 66.000. Fone: 224.3728
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