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J rnal Pessoal S Lucio Flavio Pinto Ano I N9 24 Circula apenas entire assinantes 24 Quinzena de Ai gosto de 1988 POLITICAL Fim do despotismo? O reino que o ministry Jader Barbalho montou para durar d6cadas pode comegar a ruir com a eleicao de novembro. Inimigos dentro do PMDB podem ajudar a isso. Mas ha esperanCa de que nAo surja um outro reino? No estilo bern agressivo que o consagrou nos palanques, o ministry Jader Barbalho aprovei- tou a convencgo do PMDB em Belem para ad- vertir os navegantes de aguas turvas de seu partido: "Eu estou sabendo de tudo. Ha alguns que estio navegando em nossas aguas. Nio vamos acei- tar quem est6 conosco, mas trabalhando contra nos. Ainda ha tempo para essas pessoas criarem juizo". O destinatdrio imediato do recado era o superin- tendente da Sudam, Henry Kayath, mas J6der nio se importaria nada se estilhagos resvalassem na dire- gio do governador H61io Gueiros, que ouvia a amea- 9a de corpo present, no audit6rio da Assembleia Legislative, mas nio deu troco, nem exp6s a cabega a alguma carapuga vadia. Apesar dos sorrisos para o p6blico externo, o jogo de poder praticado dentro do PMDB entire esse triangulo passou a ser pesado. Jider ficou irritado ao saber que o candidate da coligagio PTB-PDS-PFL, Sahid Xerfan, s6 decidira dis- putar a prefeitura de Belem depois de duas conver- sas estrat6gicas. A primeira, p6blica, registrada pela imprensa, com Gueiros, no Palacio Lauro Sodrd. O governador admitiu depois, para os rep6rteres, que conversou sobre political com Xerfan, mas nio se re- feriu a uma de suas frases, pela qual o empres6rio mais ansiava: de que, se eleito,, Xerfan teria o mes- mo tratamento que seria dispensado ao candidate do PMDB. Hdlio disse que trabalharia pelo seu pr6prio partido, mas estaria satisfeito se o vencedor fosse Xerfan. Alguns dias depois Xerfan teve um encontro ain- da mais long com Kayath, na Sudam, quando at6 acertaram alguns acordos politicos no interior do Estado. Carlos, o filho que Henry elegeu deputado estadual com a maior votagio, em 1986, embora ele fosse ne6fito em political, comanda articulaGoes em 45 municipios, na maioria deles com o PDC e o PTB, ao inv6s de estar entrosado cor seu partido, o PMDB. Guerra violent entire ex-amigos Os "jaderistas" acham que esse procedimento 6 traig o, certos de que o objetivo nio 6 apenas fazer Carlos Kayath subir & Camara Federal, mas abrir as portas do "Lauro Sodr6" para o pai, que, convencido da barreira intransponivel no PMDB, est6 pulando para outras siglas de aluguel. Da mesma maneira como usa a simpatia para atrair novos aliados, Jader recorreu ao frio raciocinio para comegar a liquidar o ex-aliado. E parece ter encontrado a formula. Ela veio atrav6s de uma portaria do ministry do Interior, Jodo Alves, designando uma comissio de quatro membros para auditar a Sudam. O pretexto 6 verificar como 6 que a Sudam con- seguiu, durante a gestAo de Kayath, elevar acelera- damente as opq6es do Finam (Fundo de Investimen- tos da Amaz6nia), da propordio de um para oito at6 a atual, de um para trds, com perspective de se igua- larem. Mas o que a comissio esta fazendo mesmo 6 uma devassa, juntando casos de irregularidades e coisas piores na administraAio da Sudam. Segundo uma fonte "jaderista", Kayath estarA fora da Sudam at6 o final do mrs, gragas as provas que a comissio estaria coletando. Um relat6rio bem documentado 6 do que J6der precisa para anular o protest ou outra reag o mais radical do governador Hl6io Gueiros junto ao presi- dente Jos6 Sarney, do qual tem sido um dos mais constantes defensores. Embora ciente da articula- 9Go, Gueiros preferiu manter-se a distancia, resistin- do aos convites do ministry Joio Alves para uma conversa reservada em Brasilia. Quer garantir es- pago para sua reagio e, talvez, se nio puder evitar a queda de Kayath, ao menos impedir que Jdder o substitua livremente. O grupo mais pr6ximo do ministry consider in- dispensdvel tirar Kayath, hoje inconfiivel, de um 6r- gio tio poderoso como a Sudam, capaz de influir no resultado da eleigio de novembro. Mas a investida pode custar o fim das sutilezas no crescent antago- nismo entire o governador e o ministry. H6lio, que passa atestado de fidelidade a Kayath, nunca deixan- do de lembrar a importancia que ele teve nos basti- dores para que o extinto MDB crescesse at6 chegar ao poderoso PMDB de hoje, deve considerar-se em condic6es de devolver a Jdder a acusagio de infiel, traidor ou algo prior. A velha lei da reagio da criatu- ra ao criador, que marca a polftica nos centros pro- vincianos, onde o clientelismo 6 o element de defi- nigio, voltard a ser aplicada. Depois de ter jogado um pouco mais de com- bustivel na fogueira, ao admitir, pela primeira vez, que seu pai pode ser mesmo um dos candidates ao governor em 1990, o deputado Carlos Kayath re- cuou logo em seguida, provavelmente reavaliando a repercussao de uma noticia (publicada em "A Pro- vincia do Para") que nao teve condic6es de desmen- tir. Causando outra surpresa aos que acompanha- ram a primeira declaragco, Kayath lancou a candida- tura de Jader a presid6ncia da Rep6blica, com a res- salva nada edificante, ali6s de que o ministry aceitaria a vice-presid6ncia, caso nao pudesse ser o cabeca de chapa. EleiAio questionarg monop6lio de poder Se a intencao era tentar recompor as coisas, nao deve ter alcancado o objetivo. A hip6tese de J6der ser candidate 6 presidencia 6 suficientemente re- mota para nao merecer maior atengco, principalmen- te agora. O int6rprete mais malicioso, no entanto, pode achar que os Kayath estdo interessados em ver o ministry pelas costas e, quanto mais long, me- Ihor, distanciamento da par6quia eleitoral que custou caro ao outro coronel em condic6es de rivalizar corn Jader na political recent do Par6, o senador Jarbas Passarinho. Toda essa tensdo existe porque Jader Barbalho e Hdlio Gueiros tem projetos distintos e, ja agora, antag6nicos para o future. Ambos devem estar conscientes de que sera impossivel harmoniza-los. Partilham tamb6m a certeza de que em boa media o future depender6 dos resultados das eleic6es mu- nicipais de novembro. A derrota em Belem serd um grave complicador nos pianos de monop6lio politico de Jader. Ele 6 responsdvel pelo candidate do PMDB, ainda que formalmente tenha transferido a autoria para a convencao. Um resultado adverse o far& re- tornar a Brasilia como um derrotado. A regra no Pla- nalto 6 de que ministry s6 6 forte com Sarney se tiver mandate ou comprovar sua forga political. Ja- der poderd perder uma dessas duas condic6es, ou ambas, depois de novembro, ele que precisa reativar as engrenagens do poder para coloca-las em execu- cao a partir de marco de 1990, quando Sarney estar6 fora do Pal6cio do Planalto e o novo inquilino ainda e uma incognita. A derrota de J6der tem uma outra face para seus inimigos: colocard quase imediatamente nas ruas a candidatura de Sahid Xerfan ao governor do Es- .:ado, em alianga com o governador Hdlio Gueiros, se as retaliac6es dentro do PMDB evoluirem para a guerra aberta. Quando assumir a prefeitura, em ja- neiro, caso seja eleito, Xerfan provavelmente come- car6 a desmontar as peas que Jdder fixou numa m.nquina de dominagco concebida para durar d6ca- das, mas cuja exist6ncia estd ameacada de ser tdo fugaz quanto a esperanca de que outra mdquina, no- va apenas na apar6ncia, nao seja engendrada em :ubstituicao a que serd aposentada. No pobre e mo- n6tono panorama da political paraense, tern mudado apenas o d6spota de plantAo, mas nao a tirania. Ela 6 o lament6vel trago de continuidade entire lideres que aspiram a ser unicos e absolutos, pretensAo que mostra onde estd a raiz hist6rica e o nivel mental (.os nossos politicos: no mundo de antes da revolu- < o francesa, velha de 200 anos. Entre os numeros e os cifr6es Se a eleigio para a prefeitura de Belnm tivesse ocorrido entire os dias 10 e 12, o empresdrio Sahid Xerfan da coligacao PTB, PDS e PFL nao ape- nas estaria eleito, como teria uma votacao suficiente para nao precisar passar pelo segundo turno (caso a constituinte ainda possa impor a tempo esse novo dispositivo). Uma pesquisa do Ibope encomendada pelo journal "O Liberal" revelou que Xerfan teria 55,8% dos votos contra apenas 20,5% do at6 entao favorite Carlos Levy, candidate do PL. A pesquisa colocou Xerfan na condi(co de favorite e deu-lhe um indice de prefer6ncia sem paralelo no pais. Belem adquiriu ainda uma posicgo singular no panorama das capitals brasileiras tragado pela pesquisa do Ibope: um percentual de indefinicio inexpressivo, abaixo de 6%. Como a pesquisa foi solicitada por "O Liberal", que apoia ostensivamente a candidatura Xerfan, os resultados foram postos em dtivida por alguns can- didatos e vdrios politicos. 0 journal "Didrio do Pard", do ministry Jader Barbalho, chegou a noticiar que os funciondrios do escrit6rio local do Ibope teriam sido demitidos, sob suspeita de manipularem a pes- quisa. 0 que houve, na verdade, foram ameagas an6- nimas ao pessoal do Ibope. 0 institute, cor larga experiencia e reconhecida credibilidade, responded pelos ndmeros, que Levy vai checar: ele pediu ao TRE c6pia do document. Politicos mais tarimbados reagem a essas pes- quisas cor menos emocionalismo e, jd agora, maior tirocinio. Elas sdo fotografias estdticas de momen- tos de um process, obviamente dinAmico. Mais do que simplesmente rejeitar numeros desagradaveis, o bom senso recomenda analisd-los com intelig6n- cia. 0 baixo indice de indecisao dos eleitores entre- vistados pelo Ibope, por exemplo, deve ser relativi- zado pelo m6todo adotado. A pesquisa nao deixa dd- vida de que o eleitor, quando confrontado com uma relaqco de candidates, facilmente escolherd um dos nomes arrolados. Mas quando simplesmente convocado a citar no- mes, sem um referencial fornecido pelo entrevista- dor, o eleitor nao consegue fazer sua escolha. As- sim, mais de 45% nao sabem dizer quem gostariam que fosse o pr6ximo prefeito de Belem ou preferi- ram nao opinar a respeito. Isto significa que ape- nas uma pequena parcela do eleitorado j6 sabia, en- tre os dias 10 e 12, quais eram os candidates. Eles precisarao ampliar suas campanhas de divulgagco, o que 6 natural porque a pesquisa foi aplicada logo de- pois das convenc6es partid6rias. A dedugco imediata 6 de que o vencedor vai ter que dispor de boa base financeira para atingir os votantes. S6 um nome eleitoralmente muito forte ou cor elevado potential carismitico poderia ate- nuar as exigencias de dinheiro. Mas em Belem os mais fortes candidates tnm atrds de si suportes po- derosos. O Onico que jd forneceu seu orgamento de campanha foi Levy: ele declarou um bilhao de cru- zados, quantia impressionante, ainda mais porque voluntariamente anunciada, mas que nao deve cor- responder fielmente a soma dos gastos do PL. Se todos os b6nus de campanha forem vendidos, a ar- recadagdo ird alem de dois bilh6es. Prevd-se que Xerfan espalhe nos pr6ximos dias 140 mil camisas de propaganda, investimento nao inferior a 800 milh6es de cruzados. Na primeira vi- sita a Brasilia depois da escolha de Fernando Velas- co como candidate do PMDB, o prefeito Fernando Coutinho Jorge trouxe 1,4 bilhao de cruzados para continuar suas obras. Sdo apenas alguns exemplos do dinheiro que serd irrigado por diferentes vias du- rante os pr6ximos tr6s meses. A pesquisa do Ibope indica tamb6m que o elei- torado das classes A e B (renda acima de 60 mil cru- zados) estd reciclando sua posic(o: do simples voto de protest, sem maior ou mesmo sem qualquer - reflexao sobre suas consequ8ncias, que beneficia- va Carlos Levy, os mais afortunados estdo passando para uma combinacgo do voto de protest com o vo- to 6til, favorecendo Xerfan. Alguma assessoria de marketing politico fez Levy abandonar a imagem es- tabanada por uma postura aparentando seriedade. Ao inv6s de girar a metralhadora de ataques, ele passou a preocupar-se em apresentar propostas, in- sistindo num trabalho de construcgo. Mas a image anterior deixou suas marcas profundas. E bastou sur- gir um candidate de oposigco com outro passado pa- ra quebrar boa parte do encanto que o candidate do PL despertou nas camadas de mais alta renda da populagco, ou nas de maior idade, que votariam em qualquer coisa radicalmente "do contra" por pure desencanto. Devido a sua capacidade de criar ecos, a classes media pesa na definig o eleitoral mais do que po- deria indicar sua participagco absolute. Mas justa- mente porque tem essa participagco qualitative maior, engendra um reflexo ilus6rio da realidade. A grande massa do eleitorado, agrupada na vasta base da pirAmide social, ainda 6 suscitivel b manipulagao pelo poder, tanto mais forte quanto associe o politi- co ao econ6mico. Tudo indica que a eleigio deste ano na maior cidade da Amaz6nia vai ser decidida na periferia, onde a margem de indecisdo, receptive ao trabalho de aliciamento, ainda 6 grande. Corn um poder local que s6 tern paralelo cor os idos da Arena, sob o p6lio dos quart6is, o PMDB vai recorrer a sua mdquina para transformar em vo- tos esse estado de indig6ncia social. Nao se pode minimizar a capacidade que tem essa mdquina de triturar vontades, mas a tarefa nao seria tao dificil se o candid, to do partido nao fosse eleitoralmente tao indigesto. O ministry Jader Barbalho montou es- sa poderosa maquina, mas afastou todos os possi- veis concorentes da serventia dos resultados. I capaz de experimentar, agora, o feitigo que preparou para ser usa.'o apenas contra seus inimigos. A guerra no "fro A eleigco de novembro sera uma guerra sem re- gras. Para vencer, os envolvidos estao dispostos a tudo, mas um dos principals fronts sera a imprensa, onde os campos j6 estao bem definidos. De um la- do, o grupo Liberal apoiando Sahid Xerfan, cor a simpatia de A Provincia do Pard. Do outro lado, o Diario do Para corn os demais veiculos de proprieda- de do ministry Jider Barbalho e seus aliados. O Liberal tem se especializado em minmmizar a atuagco do ministry da Previd6ncia Social e publicar noticias que Ihe causam inc6modo, embora ele nem tente desmenti-las, como a inauguragao da impres- sionante pista de pouso (asfaltada, corn 2.500 metros de extensoo) da nao menos exuberante fazenda Po- lyana, as proximidades da Bel6m-Brasilia. A ilumi- nagdo a luz fria do portao at6 a casa, cor tr6s anda- res, a piscina e mesmo as cercas transformaram a fazenda numa atracgo turistica na area, que nao deve agradar ao ministry. Sem nunca entrar no assunto, o Diario tern re- trucado cor suas jd caracteristicas notas malicio- sas, insinuando o que 6 refrat6rio a prova, mas espa- Ihando venenos incdscriminadamente. Essa fobia ex- p6e o journal aos seus pr6prios venenos. Numa das edi;6es, a coluna "Rep6rter DiBrio" chamou o candi- dato a vice-prefeito da coligagdo PTB-PDS-PFL, Augus- to Rezende, de "ladrao da Celpa". Rezende 6 dono de uma empresa que assinou muitos contratos com a Celpa durante a gestao de Ambire Gluck Paul e, evidentemente, do entao governador J6der Barbalho, que, agora, mandou Ambire presidir a Telepar6. O journal estava acusando seu dono de, no minimo, ser conivente cor o roubo e de expor-se a nova qua- drilha na Telepara. A mesma coluna colocou na boca do deputado Ronaldo Passarinho um comentdrio que ele nao fez. De que o ex-deputado Osvaldo Melo teria ficado con 50 milh6es de cruzados, de um total de 200 milh6es liberados pela Sudam em favor da Brasilton, a fim de aplicar o dinheiro na campanha de Xerfan. Passa- rinho fez o desmentido, que o journal se recusou E. publicar. Oziel Carneiro, falando pela Brasilton, dis- se que o dinheiro saiu dos cofres da Sudam direta- mente para os do Basa, amortizando uma divida fei- nt" da imprensa ta junto ao Banco da Amaz6nia para a construg o do Hilton Hotel. As escaramugas nao se limitam a essas estoca- das. Elas se estendem a uma aut&ntica guerra em- presarial. Um dos lances mals emocionantes esta ocorrendo em torno da TV Tapaj6s, Canal 4, de San- tarem. Jair Bernardino, dono do grupo Belauto e o principal empresario do esquema politico de Jader, teria adquirido metade das cotas da emissora, afilia- da a Rede Globo, que pertenciam a Paulo Correa, irmao do ex-deputado Ubaldo Correa. As cotas nao dao nenhum poder gerencial a Bernardino, mas seria a maneira de ele "colocar os p6s na Globo", sua ob- sessao do moment. Jair diz ter investido cinco milh6es de d6lares para instalar o canal 13 em Bel6m. I muito para quem vai retransmitir as imagens da TV Manchete apenas a quarta em audiencia. Mas os pianos de Bernardino vao muito mais long. Ele trocou o nome da emissora e criou a Rede Brasil Amaz6nica, sinal mais do que claro de que pretend expandir-se. Mais do que ter novas emissoras, ele persegue o contra- to corn a TV Globo, que est6 nas mdos do Sistema Romulo Maiorana de Comunicac6es por pelo menos mais tres anos. Para impressionar a Globo, Bernardino montou instalaG6es tio arrojadas para o canal 13 que s6 po- de pensar realisticamente no retorno do capital se tiver uma renda bem maior do que pode alcangar corn a Manchete. A compra de parte da TV Tapaj6s abriu-lhe a primeira porta, mas nao significa que te- nha alguma garantia de poder tirar a Globo dos Maio- rana, que comecaram a reagir, investindo em suas pr6prias instalac6es e na melhoria do pessoal da te- levisao, adaptando-se ao padrao de qualidade que a Globo est6 cobrando de seus afiliados. Nessa guerra, Bernardino espera contar cor o apoio dos mesmos aliados que o fizeram quebrar o monop6lio no fornecimento de g6s de cozinha, exer- cido durante muitos anos pelo grupo Edson Queiroz: o entao governador J6der Barbalho e o senador Jar- bas Passarinho. Mas essa nova dispute vai defender do quadro politico de fundo e ele pode sofrer mu- taG6es rdpidas e desconcertantes. SOCIAL 0 tamanho da miseria Pe6es continuam sendo submetidos na Amaz6nia a regime de trabalho pr6ximos dos primeiros tempos da conquista. A miseria da regiao tambem cria um novo tipo de mercadoria de exportagdo: os beb6s. Pedro Teixeira inscreveu seu nome na hist6ria com uma viagem de ida e volta Bel6m-Quito no s6culo dezessete, que, ainda hoje, com todas as facilidades de transport, pode ser considerada uma faganha. Mas s6 o nome do comandante da ex- pedicao ficou nos anais hist6ricos: ao anonimato fo- ram atirados centenas de indios, sacrificados na des- gastante tarefa de remar durante dias e dias na subi- da e descida dos rios. Na nova conquista da Amaz6nia, n5o tem sido outro o destiny para milhares de trabalhadores bra- cais, submetidos a regimes nao muito diferentes dos primeiros dias da conquista. O paup6rrimo interior do Maranhao 6 o principal fornecedor de mao-de-obra pa- ra os empreendimentos econ6micos que estao se ins- talando nas novas dreas incorporadas h economic na- cional (ou international). O trabalho desses empreitei- ros de homes 6 facilitado pela mis6ria que caracte- riza os pontos de origem dos pe6es: eles sao aliciados por propostas as quais nZo podem resistir, mesmo que, na prdtica, elas nao sejam cumpridas. Na terra natal, s6 Ihes resta uma economic de trocas, onde raramente aparece dinheiro. Para certas families da baixada maranhense, conseguir 6leo comestivel para encher um dedal de costura chega a ser investimento. Nenhum dos projetos economics pioneiros da Amaz6nia dispensou o velhissimo mecanismo de re- crutamento de mao-de-obra herdado da col6nia, nem mesmo empresas de ponta do sistema capitalist, co- mo fonte de suprimento; a intermediagco de agencia- dores, os "gatos"; locals de concentracgo dos pebes, as hospedarias; e zonas de trabalho distantes e iso- ladas, mesmo quando fisicamente pr6ximas das ag6n- cias oficiais encarregadas de tornar as relaq6es de trabalho contemporaneas do home deste fim de s6culo. Todos esses components estao presents numa hist6ria que chegou & imprensa justamente no ano em que se comemora o centendrio da aboligco da escra- vatura classica. O adjetivo nao 6 sup6rfluo: a escra- vizagdo do trabalhador permanece, s6 que disfargada sob roupagens distintas. Neste ano o Minist6rio do Trabalho recebeu 40 denLncias sobre a imposicao de condiq6es ilegais de trabalho no sul do Pard e norte de Mato Grosso. A Policia Federal conseguiu caracte- rizar um desses casos, certamente n5o o mais grave. Mesmo que punido, ele poderd permanecer como event isolado porque o verdadeiro autor desse crime fica long das malhas da lei, protegido por couraGas como a figure do empreiteiro aut6nomo, o "gato", e de senzalas mal disfargadas como as hospedarias de Pa- ragominas, onde tramita um inqu6rito por homicidio e maus tratos a trabalhadores. Ja houve outros moments de espanto nessa lon- ga hist6ria de trabalho escravo ou de degeneresc6n- cia da dignidade intrinseca do trabalhador. Na d6cada de 70, pe6es da Jari conseguiram driblar a vigilancia do regime military e denunciar as condicges de traba- Iho no reino de mr. Ludwig. Na mesma 6poca os pa- raenses ficaram sabendo que seus conterrAneos se- guiam aos milhares, por rotas perigosas ou clandesti- nas, para trabalhar na construqio da base espacial francesa de Kourou, na Guiana. O pagamento em fran- cos tinha tal forca atrativa que obscurecia os peri- gos, estimulando a clandestinidade. Nao ha outra al- ternativa para populag6es condenadas a uma vida mar- ginal em seu pr6prio pais. O circulo de misdria que se expand deu ao Bra- sil um outro produto de exportaGio: as suas criancas. Milhares delas foram adotadas por mulheres de various pauses, impossibilitadas de gerar biologicamente seus pr6prios filhos. Para intensificar esse fluxo human, ha a grande oferta de beb6s nascidos de families sem condicres de dar-lhes as minimas condic6es de vida decent. Entre os dois polos de atracgo, cadeias de homes inescrupulosos, que transformaram a ado- co num comarcio capaz de resuscitar as velhas hist6rias sobre escraviddo branca, mas com um acento novo de horror. Nao apenas as mdes estariam querendo esses beb6s. Eles poderiam estar sendo comprados (que 6 isso o que ocorre na pratica) para que seus 6rgaos vitais sejam usados em transplants. A hip6tese po- de parecer delirio de mentes nazistas, mas esta sen- do considerado cor atencio pelas autoridades, que comecam a tratar o problema cor a seriedade que ele exige. A Amaz6nia, como costuma acontecer quando se trata de sequelas sociais, ja estd na rota desse co- mercio human. Evidentemente, o Estado deve fa- cilitar adocges, mesmo por families estrangeiras, de criancas cujas families nao podem cria-las, dentro do pais, segundo padres minimos de decencia. Mas 6 uma question tio delicada que as normas, pos- turas e praticas atuais sio quase um estimulo A transformagio de um problema social em instrumen- to de neg6cio, com ramificag6es muito mais profun- das do que o sugerido por um exame superficial. Em 1921 uma conveng~o international estabele- ceu meios para a repressio do trafico de mulheres e criangas. Outra convengio que a substituiu, em 1950, ja nio previu qualquer dispositivo referente ao trafico de crianqas para o exterior. Nao deve ter sido circunstancial o fato de que essa convengio tenha sido assinada no pbs-guerra, com uma Europa asso- lada pela morte de milh6es de cidadios em plena idade itil. Varios pauses sio impelidos a buscar compensac6es demograficas fora de seus territ6rios, mas o Brasil e particularmente a Amaz6nia nio pode aceitar que novamente usem-no como valvula de escape para essas tenses. Acompanhar impassi- vamente as hist6rias que se multiplicam a respeito dessa nova mercadoria nas relacaes de troca entire desenvolvidos e subdesenvolvidos significa aceitar que nos reduzam ao mais baixo nivel de humanidade - ou, para ser exato, sub-humanidade. Constata-la equivale a medir a profundidade do abismo social em que este pais rico e generoso esta caindo. A terra dos gatos e dos peoes P aragominas, municipio que se formou no Pard com a colonizagdo da rodovia Beldm-Brasilia, na d6cada de 60, costuma reivindicar o titulo de "o maior p6lo madeireiro do mundo", olhan- do para suas mais de 400 serrarias. Mas nao se or- gulha do outro titulo ao qual 6 automaticamente as- sociado por causa de sua violencia: Paragobala, onde os litigios costumam ser resolvidos com um revolver 38 ou espingarda 20. Por causa da viol6ncia, Parago- minas voltou a ser noticia e internacionalmente - h 10 dias. Raros dos 60 mil habitantes na sede (e prova- velmente os 150 mil no municipio) chegaram a per- ceber o que estava ocorrendo na cidade. Sabiam apenas que a 12 quil6metros, a margem do asfalto da Bel6m-Brasilia, 15 agents da Policia Federal ha- viam montado uma barreira e vistoriavam os carros. Eram os remotos bragos da "Operaq~o Internacio- nal", que mobilizou outros trds paises aldm do Brasil na caGa ao narcotrdfico e ao contrabando. Os policiais de Paragominas nao fizeram qual- quer apreensao, mas descobriram que milhares de drvores estavam sendo transportadas com desenvol- tura pelas estradas, apesar de todas ilegalmente por- que os caminh6es nao dispunham de notas fiscais e autorizacges de desmatamento. Os agents conta- bilizaram outro feito ainda mais grave: prenderam um fazendeiro acusado de mandar matar trabalhado- res ou submet--los a regime de escravizacao, nao muito diferente do que se consider oficialmente abolido ha exatamente 100 anos. Trabalho: regressao de um s6culo Ao chegarem a barreira, depois de caminharem um dia e meio pelo que resta da floresta native, sete homes acusaram o fazendeiro Joaquim Lourenco de Matos, dono de 6.500 hectares de terras e 1.400 ca- begas de gado, de maltratar seus empregados, im- pedi-los de sair da fazenda e matar os que tentavam fugir. Depois de ouvir os depoimentos, o delegado Domingos Ferreira Viana prendeu o fazendeiro e foi a propriedade reunir novas provas contra ele. Denincias de trabalho escravo soam como algo chocante justamente no moment em que a naGdo comemora o centendrio da abolicio da escravatura, mas nao causa maior impressao em Paragominas, onde as conversas de fim de tarde costumam ser inventarios dos crimes do dia, nao raros deles san- grentos. Dois anos atrds um motorist de taxi, acu- sado de ser pistoleiro, foi chacinado na principal praGa da cidade, durante um comicio politico e ningu6m foi para a cadeia. Como a impunidade 6 uma das regras mais praticadas na regido, um homi- cidio nunca ocorre isoladamente: ele sempre desen- cadeia outras mortes na trilha das vingancas que se sucedem. O portugu6s Joaquim, mais conhecido na area como "velho Matos", 61 anos de idade, 49 deles no Brasil, em nada se diferencia de muitos outros pro- prietarios de terras. Ele comprou a fazenda Sao Judas Tadeu 14 anos atrds e nela passou a viver no inicio de 1987, depois que o filho se acidentou e nao pOde mais cuidar da propriedade. A "Sao Judas Ta- deu", situada nos funds da fazenda do Bradesco, a Vale do Rio Capim, nunca se destacou das outras, dedicadas a criagAo de animals razoavelmente sele- cionados. Em abril deste ano o "velho Matos", um home alto e muito forte, chegou a Paragominas transportan- do o cadaver de um peao e a ossada de outro home. O corpo seria de um trabalhador morto durante rixa que se seguiu a uma partida de futebol. Quanto a ossada, o fazendeiro disse que a encontrou fora dos limits de suas terras e nao acrescentou mais ne- nhuma explicapdo. Os policiais aceitaram a hist6ria, sequer instaurando inqu6rito para apurd-la melhor. A rea(;o talvez tenha uma explicagao: a macabra entrega foi efetuada na sexta-feira da semana santa; em ocasi6es como essa as autoridades locals costu- mam emigrar em massa para BelBm. O epis6dio do dia 12 poderia ter o mesmo des- tino se a Policia Federal nao estivesse executando sua operacgo especial na regiao. As danincias apre- sentadas pelos sete fugitives eram extremamente graves. Segundo as narrativas, os capatazes ou pistoleiros contratados pelo "velho Matos" obri gavam pe6es a subirem em arvores esguias que eram derrubadas quando eles chagavam ao alto; sob a mira de armas, alguns tinham que abragar casas de marimbondos; outros dormiam cor os p6s press a fortes correntes, todos fechados numa casa sem condic6es de acomodd-los; as sess6es de trabalho eram prolongadas e mais do que pesadas; quem ten- tasse fugir quando o fazendiero estava no local era cacado e, se encontrado, morto. Haveria atd um forno para cremar os fugitives recapturados. Alguns dos depoimentos podiam ser considera- dos chocantes, mas tanto faltavam provas da parti- cipagdo direta do fazendeiro, como neles haviam contradic6es. Aldm disso, mesmo as simples evi- dencias reunidas nada acrescentavam aos registros anteriores em casos, como os que envolveram a Volkswagen e o Bradesco, que nao mereceram a mi- nima atencgo ou aos quais nao foi dispensado o em- penho da equipe da Federal deslocada para Parago- minas. Era tao merecedor de registro o interesse dos agents nesse epis6dio, quanto a omissdo quase generalizada do governor na longa hist6ria de super- exploracGo da mao-de-obra nas frentes pioneiras da Amaz6nia, da qual o caso da "Sao Judas Tadeu" estd long de poder ser considerado o mais important. A dedicago dos agents ao caso nao chegou a sensibilizar os representantes locals do governor. O major da PM que chefia a delegacia de policia civil viajou para Belem no mesmo dia em que o fazendei- ro foi preso e permaneceu fora de Paragominas qua- tro dias. A representante do Minist6rio do Trabalho, que deveria fazer as contas dos creditos dos pe6es, tamb6m estava fora. Mas como a noticia da agao da PF se espalhou, outros trabalhadores comegaram a aparecer na delegacia para fazer acusac6es contra o fazendeiro e reivindicar quantias que o "velho Ma- tos" Ihes estaria devendo. Hospedarias: o mercado de venda do trabalho As hist6rias correram c6leres por dezenas de casas de madeira fincadas em ruas enlameadas, nas quais animals e criangas convivem em promiscuida- de. Sao as hospedarias da Cidade Nova, corn seus bares e prostibulos frequentados por centenas de pe6es, principalmente no inicio do verbo, quando 6 aberta a temporada de caca As drvores, a partir de maio ou junho. Nesse period, o paupdrrimo interior do Mara- nhao 6 percorrido pelos "gatos", agenciadores e ali- ciadores de trabalhadores que As vezes se intitulam, pomposamente, de empreiteiros. Sao pessoas liga- das As hospedarias, que sabem onde encontrar a mro-de-obra bragal para tender as necessidades dos fazendeiros. Milhares de maranhenses atravessam o Estado para trabalhar em fazendas, madeireiras, em- presas de mineracio e outros projetos econ6micos no Par6. Muitos deles sao levados pelos "gatos" para as hospedarias de Paragominas. S6 vio poder sair quando um fazendeiro interessado quitar os d6bitos da hospedagem. Com sorte, um peso ficard pouco tempo e sua divida serd pequena. Mas sao numero- sos os casos de trabalhadores que deixam seus per- tences como garantia de que voltardo para pagar o que devem. Quem nao tiver sorte ird para a fazenda certo de que ao retornar, v6rios meses depois, nao terd dinheiro no bolso: o que ganhou nio sera su- ficiente para cobrir as despesas na cantina da fa- zenda, onde os produtos nao tAm prego especificado, e da hospedaria. Dezenas delas se enfileiram, com cores berran- tes, geralmente em dois pavimentos. No de baixo funciona um bar, com suas prateleiras repletas de garrafas de cachaga e cerveja (agora a 51 e nao mais a Tatuzinho). O amplo salao do andar superior 6 ocupado por ate 80 ou 100 redes, cujos inquilinos chegam a pagar 700 cruzados de didria, no prego in- cluidas as refei(6es. Apesar de serem edifica;6es precArias e insalu- bres, as hospedarias nao causam nenhum incomodo a Paragominas, muito pelo contr6rio. Afinal, ali fun- ciona um ativo mercado de trabalho para tender, com todas as vantagens, as necessidades sazonais de mao-de-obra das propriedades rurais. "Sempre h6 trabalho por aqui", sentencia o juiz ClIudio Montal vao das Neves, que cuida sozinho da Comarca, jb realizou 21 sess6es do Tribunal do Juri em dois anos, mas nao se lembra de nenhum process por traba- Iho escravo. Ha tanto servigo a espera dos frequent. tadores das hospedarias que 30% da floresta origi- nal do municipio ja foi posta abaixo. As 400 serra- rias locals devem ter recebido 700 mil Arvores no ano passado. Paragominas nem imagine que as con- dir6es de trabalho a que sao submetidos milhares de homes durante os meses de derrubada, broca, rocagem e plantio possam ser consideradas como problema. E provavel que o "velho Matos" consiga atra- vessar o epis6dio sem mais profundas sequelas. Para os pe6es, talvez a maior novidade tenha sido o pagamento, de 250 mil cruzados, que o fazendeiro foi obrigado a fazer, por pressao dos agents fede- rais, na sede do sindicato rural. Sete dos onze vol- tarao ao Maranhao ou vao procurar o que fazer em outro lugar. Quatro estavam tentados a retornar a "Sao Judas Tadeu", mesmo porque nao chegaram a fazer denuncias frontais contra o fazendeiro. Para eles, nao ha muita alternative. Enquanto o "velho Matos" era mantido numa pequena cela da delega- cia, um empreiteiro da fazenda do Bradesco regis- trava queixa. Quarenta pe6es que trouxera do Ma- ranhao e colocara numa das hospedarias fugiram enquanto ele comprava redes. O policial que o aten- deu explicou que nada tinha a ver com a situaGao: era um "risco de neg6cio", particular. Teria sido esta a reagao se Paragominas nao estivesse envol- vida na opera(ao federal de ca9a a droga e ao con- trabando ? Belem no trafico de criancas A Policia Federal instaurou dois inqudritos nos iltimos dois anos para apurar denOncias de trafico de beb6s no Pard, mas nao conseguiu caracterizar o crime, nem prender os suspeitos. Em 1987 sairam do Estado 13 criangas, adotadas por maes estranged. ras. Nos primeiros sete meses deste ano houve 18 adog6es, mas nada p6de ser feito para impedir a expedig o dos passaportes porque alvaras judiciais autorizavam a said dos menores. Sete das maes adotivas eram da Italia, cinco da Franga, trAs dos Estados Unidos e tres de Israel. A policia reuniu indicios de que o francCs Pier. re Camille Condom, de 58 anos, que se diz m6dico, e o advogado Orlando Maciel Rodrigues, um ex-agen- te federal demitido, a bem do serving ptblico, em 1981, negociam a venda de bebes para o exterior. Ambos devem ter ganho 12 mil d6lares para arranjar criancas para duas mulheres francesas que estive. ram em BelBm neste ano. Catherine Arnaud, 34 anos, uma secretaria que reside em Caiena, soube da existdncia de Pierre atrav6s de Benedicte Galley, uma amiga que conse- guira adotar uma crianca em Belem gracas aos pres- timos do francs. Pierre a recebeu no aeroporto de Val-de-Caes no dia 15 de margo e a levou para uma casa situada em uma rua de grande movimento. Num dos quartos estava o rec6m-nascido que Ihe caberia. Em outro quarto havia outra crianga, desti- nada a Marylin Monique Bellini. Se a adogao fosse obtida em 15 dias, Catherine pagaria sete mil d61a- res. Se o process demorasse um m6s, ela pagaria menos. Mas Catherine comegou a desconfiar do comportamento do frances e do advogado. Depois de passar pelo consulado, acabou na Policia Federal, que instaurou inqudrito. Maryline, comerciante francesa de 31 anos, resi- dente em Pau, tamb6m foi ouvida. Como Catherine, ela fizera contato cor Pierre e Orlando para conse- guir um filho, que esta biologicamente impossibilita- da de gerar. Ja havia pago cinco mil d6lares para os dois e estava confiante em conseguir a adoGao por- que um outro casal francs, Regnier Patrick e Ivette, retornara a Paris com um bebd, depois de seguir rigorosamente as orientaq6es do advogado para nao dizer nada aos policiais, fingir-se de desentendido e negar tudo o que Ihe perguntassem sobre trafico. Marlyline chegou a Pierre atrav6s de um folheto de tr6s paginas, "conselhos As families francesas desejosas de adotar legalmente uma crianga no nor- te do Brasil (Amazonas)", que Ihe foi entregue na Direction Departamentale de L'Action Sanitaire et Sociale, em Paris. A DDAS 6 um 6rgao governamen- tal que cuida de adoc6es, entire outros assuntos. O folheto foi enviado de Belnm por Pierre e simples- mente entregue aos interessados pelo Departamen- to, que nem se preocupou em verificar a proced6ncia. Se tivesse pedido logo informaG6es ao governor brasileiro ou consultado sua pr6pria embaixada, a DDAS ficaria sabendo que Pierre tem registro de es- telionatario. Declarando-se consul honorario em Ma- capd, durante dois anos ele vendeu documents frios para brasileiros que queriam ingressar ou permane- cer em territ6rio francs. Mas, ao chegarem a Caie- na, os clients de Pierre eram imediatamente depor- tados porque os documents nao eram autenticos. No Brasil desde 1971, com visto permanent, Pierre nao se recadastrou, nem chegou a ir depor na PF. A policia reuniu indicios de que ele realmen- te est6 traficando beb6s e por isso a delegada So- mira Bueres pediu a prison preventive dele, que o juiz Aristides Medeiros nao concede, alegando a incompet&ncia da justice federal para atuar no caso. O process foi remetido para a justica comum e ain- da nao teve andamento. Os depoimentos das duas francesas deixaram claro que a adogao dos bebes procedida por Pierre e Orlando nao segue os caminhos regulars, mas tambem nao pode ser caracterizada como illegal por- que eles obt6m documents judiciais. Em junho mesmo a PF expediu passaportes para os dois beb6s adotados por Catherine e Marylin, que parecem ter chegado a conclusio de que o melhor mesmo era continuar o neg6cio corn Pierre. A experiencia diz aos policiais que se trata mes mo de um com6rcio, mas eles nada podem fazer diante de alvards judiciais conseguidos nas comar- cas do interior, de onde sao oriundas tamb6m as criangas. As coisas parecem estranhas, mas dai at6 comprovar que sao ilegais existe uma distancia con- sideravel. Tho estranha quanto a said desses bebes de families pobres arranjados por pessoas suspeitas 6 a viagem de fdrias ao exterior de juiza que lida corn esses casos, como a responsavel por uma co- marca do interior, que recentemente fez um "tour" pela Europa custeada nao por seu limitado sald- rio, 6 claro Basa: saindo do buraco negro Neg6cios mal feitos nas duas ultimas decadas consumiram um patrim6nio igual ao que o Banco da Amaz6nia possui hoje. Significa que de cada cruzado que emprestou, o Basa perdeu um cruzado porque os responsaveis pelas autorizag6es de empr6stimos nao seguiram as normas das operaq6es bancarias. Foram neg6cios nos quais apenas o client saiu beneficiado, por interfer6ncias political ou para favorecimentos pessoais. O banco estd emergindo agora de mais um dos buracos negros abertos na sua hist6ria recent. Dos 30 milh6es de d6lares (o equivalent a quase 12 bi- Ih6es de cruzados no cambio paralelo) que foram apli cados em transac6es temerdrias, a atual direcao do Basa consider definitivamente perdidos US$ 18 mi- lhoes. A recuperaqco dos outros US$ 12 milh6es 6 incerta. No ano passado foram lancados na rubrica de creditos em iiquidagco e provisionados 4,6 bilh6es de cruzados (valores de dezembro). S6 no primeiro semestre deste ano os provisionamentos por conta desses cr6ditos foram de 5,8 bilh6es, o suficiente para pagar todos os 3.670 funciondrios durante quatro meses. Apenas o rendimento financeiro dessas apli- cac6es garantiria a folha de pessoal. Apesar desses nimeros assustadores, o Basa parece estar se consolidando novamente, em parte ajudado pela alta inflagao. O balanco do primeiro se- mestre anuncia um lucro de quase trds bilh6es de cruzados, que a diretoria garante ser real e nao mera escrituracgo contabil. Cada acqo espalhada entire os 36 mil acionistas particulares tera direito a 53 cruza- dos de dividends, aprecidvel rentabilidade (significa metade do valor patrimonial de cada aGio). O capital social vai passar de 2,6 bilh6es para 4,5 bilh6es, pri- meiro movimento para um grande aumento no pr6xi- mo ano. O banco jS tem caixa para realizar alguns investimentos indispensaveis, como sua atualizacao em informdtica, mas ainda depend de autorizacgo de Brasilia, que vem protelando as decis6es. Os continues adiamentos do Planalto em relacao a quest6es candentes para o Basa sugere o jogo de presses nos bastidores. O mais forte 6 travado jus- tamente para a renovacio da diretoria. O mandate da atual terminou no final de julho. Desde entao, ela atua sem mandate, gragas a prorrogacgo automatica prevista no estatuto. Ainda nao hd data definida para a eleicGo dos novos diretores pelo conselho de admi- nistraqco. O president, Valdemir Messias de Aratjo, disse nao ter qualquer informagFo sobre os nomes em cogitac5o, nem mesmo podendo garantir se continua- r6 no cargo, incerteza estranha em relacao a uma di- retoria que est6 tentando tirar o Basa das bordas do precipicio. Essa falta de informar6es inquieta os funciond- rios, preocupados corn a possibilidade de um novo retrocesso. Foi esse temor que a Aeba (Associaqco dos Empregados do Banco da Amazonia) transmitiu em oficio encaminhado ao president Jos6 Sarney no final de julho e publicado na imprensa alguns dias depois, provavelmente porque ficou sem resposta. A Aeba lembra que o Basa "tern sido, por inime- ras vezes, prejudicado pela repeticao de crises al- gumas vezes ciclicas causadas por incompetencia t6cnica e/ou acgo corrupt de dirigentes". Para que nao haja a "repetitco desse tipo de desvio", que ja fez o Basa sofrer varias intervenc6es, a associacao pede ao president da Repiblica que "os nomes a se- rem escolhidos sejam realmente comprometidos corn os destinos da Amaz6nia, tenham comprovada capaci- dade tecnica e nao apresentem antecedentes em re- lag5o ao mau uso de recurses e outras irregularida- des. As exig6ncias sao brandas, mas poucos dos can- didatos potenciais & renovacgo da diretoria, todos herdeiros do crit6rio de divisdo pela geografia politi- ca da region, poderiam passar pelo crivo. Talvez por isso mesmo, as articulag6es estio sendo feitas com- pletamente protegidas da opinion piblica, sem que os pr6prios diretores atuais sintam-se em condig6es de opinar a respeito. Nada indica, por outro lado, que as duras lic6es dos ultimos tempos tenham sido apren didas: cada s6trapa de provincia pensa em sagrar o nome tirado da algibeira. Quando nao consegue, fica irado. S6 esse tipo de comportamento 6 capaz de ex. plicar a iniciativa do economist Jos6 Mathias Perei- ra, que foi a Justica reclamar o pagamento de um milhAo de cruzados de f6rias vencidas e nio gozadas. Mathias foi director do Basa durante trds anos, mas nao conseguiu realizar sua maior aspirag~o, de ser o president do banco, apesar de todo o empenho do seu padrinho, o entio governador do Amazonas, Gil- berto Mestrinho. Assim, mesmo ocupando cargo de confianga na diretoria e nio sendo funcionario, deci- diu ir contra o entendimento do Supremo Tribunal e cobrar o dinheiro, provocando espanto dentro do Basa. -- --- O jogo da traig o Os lideres politicos no Pard nio aspiram apenas a serem os primeiros: querem ter a unanimidade E por isso que, como em outros Estados igualmente atrasados, novas liderangas sucedem as anteriores na base da traigio. O senador Jarbas Passarinho queixa-se, cor suas razbes, de que seu colega de caserna, Alacid Nunes, nio cumpriu o acordo verbal feito diante do entio candidate eleito a presidencia da Rep0blica, Joio Figueiredo, de que apoiaria Pas- sarinho na eleicgo de 1982. Foi essa a condi(io para Figueiredo e Ernesto Geisel acertarem a volta de Alacid ao governor do Estado, em 1979. Alacid, por6m, preferiu unir-se ao at6 entio ini- migo dele e de Passarinho, o deputado federal Ja- der Barbalho, e enfrentar a c6lera do truculento ge- neral Figueiredo, a cumprir o acordo. A cisio defi- nitiva dos coron6is entronizados no governor paraen- se pelo movimento military de 1964 permitiu a a6der eleger-se governador, com uma margem minima de votos. Alguns meses depois de ocupar o Pal6cio Lauro Sodr6, porem, Jader ja estava tratando de deglutir os aliados da v6spera, criando um pretexto - durante a convencao para a escolha dos delega- dos ao coldgio bleitoral que referendaria o nome de Tancredo Neves a presidencia da Repiblica para despejd-los do poder. Justamente na fase de transig o, que fez dos aliados eleitorais de 1982 os grandes inimigos de hoje, ocorreu um epis6dio cor desdobramentos na eleigio deste ano. Alacid, ainda no cargo de gover- nador, indicou para a prefeitura de Belem o empre- s6rio Sahid Xerfan, cuja inica atuacgo political at6 entio restringia-se a financial as campanhas de can- didatos amigos, independentemente de suas legen- das partiddrias, o que Ihe permitiu former um am- ploleirculo de simpatizantes acima de divis6es ideo- 16gicas e fisiol6gicas. Antes que seus dois padrinhos pudessem fazer o anuncio, Xerfan admitiu, em entrevista a um journal local, que havia sido escolhido para a prefeitura. Jader foi surpreendido pelas declarag6es quando es- tava em Brasilia. De volta a Belem, procurou Alacid, que Ihe deu um conselho fulminante: nio nomear mais Xerfan e substitui-lo pelo deputado Dionisio Hage. A sugestio para a troca nio se prendia ape- nas ao fato de Dionisio ser um alacidista muito mais field do que Xerfan, mas tambem porque, em virtude dessa condicio, ele se encaixava completamente no piano que estava na cabega de Alacid: assumir a prefeitura alguns meses depois de deixar o governor. Havendo se tornado o maior inquilino do "Lauro So- dr6" desde a passage do caudilho Magalhies Ba- rata, Alacid tinha motives mais do que suficientes para nio ficar muito tempo long do poder. Formado numa escola ainda mais sagaz do que a do coronel da reserve do Ex6rcito, J6der sabia mui- to bem que Dionisio seria apenas uma ponte bern larga, alias para que Alacid voltasse a uma peri- gosa proximidade do paldcio do governor. Foi por isso que manteve a indicagdo de Xerfan e nio porque confiasse nele. Ja entio J6der se convence- ra de que, ao aceitar sair dos bastidores para o pros- c6nio, Xerfan nio se contentaria em ser apenas uma marionete atada As maos dos dois lideres. Ele pro- vavelmente tentaria criar seu pr6prio grupo. Mas Jdder planejou para alguns meses depois um golpe que deveria liquidar os dois concorrentes potenciais: demitiu Xerfan, alegando que o trafra ao visitar se- cretamente o na dpoca derrotado Jarbas Passarinho. Quem comparasse o quadro politico daquela ocasido com o de hoje teria motives para espanto. Xerfan estd aliado a Alacid, embora saiba que, se dependesse do entao governador, nao teria assumi- do a prefeitura e nem iniciado a carreira political que agora tenta consolidar. Jader trocou Alacid pela alianca com Passarinho, que, por isso, nao pode dar apoio ao compare que tanto se arriscou para visitd- lo, cinco anos atrds. o prov6vel ainda que esse acor- do se renove em 1990, quando Jader poderd estar no campo oposto ao de seus grandes amigos em lon- gos anos e correligionArios incondicionals ate pou- cos meses atras, o governador H6lio Gueiros e o superintendent da Sudam, Henry Kayath. Tanta mudanca de camisas s6 nao altera uma coisa: o Pard foi o que menos ganhou com ela. Ou, dito de modo mais claro: s6 perdeu. Passo atras O process que o governor federal estd movendo contra o antrop6logo norte-americano Darrell Posey e os indios Paulino Paiakan e Kube-i Kayap6 (ver JORNAL PESSOAL n9 23) pode resvalar para os des- vios do absurdo. Todos estdo amearados de prison e expulsao por term feito critics ao program hi- drel6trico na Amaz6nia, que agrediria o meio am- biente e as populaq6es indigenas, levando o Banco Mundial a suspender um financiamento de 250 mi- Ih6es de d6lares para a Eletrobras. Se dois indios e um antrop6logo foram capazes de impressionar uma instituigco financeira do porte do BIRD ao ponto faz6-la tomar uma decisdo que os tecnocratas da administration piblica, sempre circu- lando pelo exterior com gordissimas diArias e sun- tudrias mordomias, nao foram capazes de evitar, en- tao o governor estd reconhecendo sua pr6pria faln- cia. Com a experiencia que uma divida de 110 bi- Ih6es de d6lares deve ter dado aos negociadores brasileiros, 6 o caso de enrolar a bandeira e sumir do est6dio. Tudo indica que se houve suspensdo do finan- ciamento, as critics dos indios e do antrop6logo contribuiram para isso apenas como simbolo. HA outros fatores ainda mais complexes, como a pr6pria eleirco nos Estados Unidos, atuando como causes principals. Ainda assim, antes de iniciar o primeiro process de expulsao de um indio, expondo um ci- dadao national ao vexame de ser enquadrado como criminoso pelo crime de ter manifestado opinioes, dadas fora do pais, o governor deveria provar a so- ciedade que ele, e nao seus critics, 6 quem esta certo. Isto se prova nao atrav6s de um procedimen- to administrative ou penal, mas na discussao do tema, o que o governor, at6 agora, nao se dignou a fazer. Parece que fomos devolvidos a 6poca negra dos andtemas contra os hereges, sob a inspiraqdo de al- gum escaninho burocrAtico incapaz de entender que o Estado, como representante da Naqdo, s6 pode tagir contra os cidadAos sob a inspirag~o de um man- dado legitimamente valido. E o que 6 que tem o governor neste process senio impulses inquisito- jriais anacronicos ? Jonal Pessoal Editor responsivel: Lficio Flivio Pinto Enderevo (provis6rio): ma Aristides Lobo, 871 Bel6m, Par, 66.000. Fone: 224.3728 Diagramaao e ilustraao : Lulz Pinto Opoo Jomallstica |
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