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Jornal pessoal
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 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00020

Full Text







J rnal Pessoal
S Lucio Flavio Pinto
Ano I N9 24 Circula apenas entire assinantes 24 Quinzena de Ai


gosto de 1988


POLITICAL



Fim do despotismo?

O reino que o ministry Jader Barbalho montou para
durar d6cadas pode comegar a ruir com a eleicao de
novembro. Inimigos dentro do PMDB podem ajudar a isso.
Mas ha esperanCa de que nAo surja um outro reino?


No estilo bern agressivo que o consagrou nos
palanques, o ministry Jader Barbalho aprovei-
tou a convencgo do PMDB em Belem para ad-
vertir os navegantes de aguas turvas de seu
partido: "Eu estou sabendo de tudo. Ha alguns que
estio navegando em nossas aguas. Nio vamos acei-
tar quem est6 conosco, mas trabalhando contra nos.
Ainda ha tempo para essas pessoas criarem juizo".
O destinatdrio imediato do recado era o superin-
tendente da Sudam, Henry Kayath, mas J6der nio se
importaria nada se estilhagos resvalassem na dire-
gio do governador H61io Gueiros, que ouvia a amea-
9a de corpo present, no audit6rio da Assembleia
Legislative, mas nio deu troco, nem exp6s a cabega
a alguma carapuga vadia. Apesar dos sorrisos para
o p6blico externo, o jogo de poder praticado dentro
do PMDB entire esse triangulo passou a ser pesado.
Jider ficou irritado ao saber que o candidate da
coligagio PTB-PDS-PFL, Sahid Xerfan, s6 decidira dis-
putar a prefeitura de Belem depois de duas conver-
sas estrat6gicas. A primeira, p6blica, registrada pela
imprensa, com Gueiros, no Palacio Lauro Sodrd. O
governador admitiu depois, para os rep6rteres, que
conversou sobre political com Xerfan, mas nio se re-
feriu a uma de suas frases, pela qual o empres6rio
mais ansiava: de que, se eleito,, Xerfan teria o mes-
mo tratamento que seria dispensado ao candidate do
PMDB. Hdlio disse que trabalharia pelo seu pr6prio
partido, mas estaria satisfeito se o vencedor fosse
Xerfan.
Alguns dias depois Xerfan teve um encontro ain-
da mais long com Kayath, na Sudam, quando at6
acertaram alguns acordos politicos no interior do
Estado. Carlos, o filho que Henry elegeu deputado
estadual com a maior votagio, em 1986, embora ele
fosse ne6fito em political, comanda articulaGoes em
45 municipios, na maioria deles com o PDC e o PTB,
ao inv6s de estar entrosado cor seu partido, o
PMDB.
Guerra violent
entire ex-amigos
Os "jaderistas" acham que esse procedimento 6
traig o, certos de que o objetivo nio 6 apenas fazer
Carlos Kayath subir & Camara Federal, mas abrir as
portas do "Lauro Sodr6" para o pai, que, convencido
da barreira intransponivel no PMDB, est6 pulando


para outras siglas de aluguel. Da mesma maneira
como usa a simpatia para atrair novos aliados, Jader
recorreu ao frio raciocinio para comegar a liquidar o
ex-aliado. E parece ter encontrado a formula. Ela
veio atrav6s de uma portaria do ministry do Interior,
Jodo Alves, designando uma comissio de quatro
membros para auditar a Sudam.
O pretexto 6 verificar como 6 que a Sudam con-
seguiu, durante a gestAo de Kayath, elevar acelera-
damente as opq6es do Finam (Fundo de Investimen-
tos da Amaz6nia), da propordio de um para oito at6
a atual, de um para trds, com perspective de se igua-
larem. Mas o que a comissio esta fazendo mesmo
6 uma devassa, juntando casos de irregularidades e
coisas piores na administraAio da Sudam. Segundo
uma fonte "jaderista", Kayath estarA fora da Sudam
at6 o final do mrs, gragas as provas que a comissio
estaria coletando.
Um relat6rio bem documentado 6 do que J6der
precisa para anular o protest ou outra reag o mais
radical do governador Hl6io Gueiros junto ao presi-
dente Jos6 Sarney, do qual tem sido um dos mais
constantes defensores. Embora ciente da articula-
9Go, Gueiros preferiu manter-se a distancia, resistin-
do aos convites do ministry Joio Alves para uma
conversa reservada em Brasilia. Quer garantir es-
pago para sua reagio e, talvez, se nio puder evitar a
queda de Kayath, ao menos impedir que Jdder o
substitua livremente.
O grupo mais pr6ximo do ministry consider in-
dispensdvel tirar Kayath, hoje inconfiivel, de um 6r-
gio tio poderoso como a Sudam, capaz de influir no
resultado da eleigio de novembro. Mas a investida
pode custar o fim das sutilezas no crescent antago-
nismo entire o governador e o ministry. H6lio, que
passa atestado de fidelidade a Kayath, nunca deixan-
do de lembrar a importancia que ele teve nos basti-
dores para que o extinto MDB crescesse at6 chegar
ao poderoso PMDB de hoje, deve considerar-se em
condic6es de devolver a Jdder a acusagio de infiel,
traidor ou algo prior. A velha lei da reagio da criatu-
ra ao criador, que marca a polftica nos centros pro-
vincianos, onde o clientelismo 6 o element de defi-
nigio, voltard a ser aplicada.
Depois de ter jogado um pouco mais de com-
bustivel na fogueira, ao admitir, pela primeira vez,
que seu pai pode ser mesmo um dos candidates
ao governor em 1990, o deputado Carlos Kayath re-
cuou logo em seguida, provavelmente reavaliando a









repercussao de uma noticia (publicada em "A Pro-
vincia do Para") que nao teve condic6es de desmen-
tir. Causando outra surpresa aos que acompanha-
ram a primeira declaragco, Kayath lancou a candida-
tura de Jader a presid6ncia da Rep6blica, com a res-
salva nada edificante, ali6s de que o ministry
aceitaria a vice-presid6ncia, caso nao pudesse ser
o cabeca de chapa.

EleiAio questionarg
monop6lio de poder

Se a intencao era tentar recompor as coisas,
nao deve ter alcancado o objetivo. A hip6tese de J6der
ser candidate 6 presidencia 6 suficientemente re-
mota para nao merecer maior atengco, principalmen-
te agora. O int6rprete mais malicioso, no entanto,
pode achar que os Kayath estdo interessados em ver
o ministry pelas costas e, quanto mais long, me-
Ihor, distanciamento da par6quia eleitoral que custou
caro ao outro coronel em condic6es de rivalizar corn
Jader na political recent do Par6, o senador Jarbas
Passarinho.
Toda essa tensdo existe porque Jader Barbalho
e Hdlio Gueiros tem projetos distintos e, ja agora,
antag6nicos para o future. Ambos devem estar
conscientes de que sera impossivel harmoniza-los.
Partilham tamb6m a certeza de que em boa media
o future depender6 dos resultados das eleic6es mu-
nicipais de novembro. A derrota em Belem serd um
grave complicador nos pianos de monop6lio politico
de Jader. Ele 6 responsdvel pelo candidate do PMDB,


ainda que formalmente tenha transferido a autoria
para a convencao. Um resultado adverse o far& re-
tornar a Brasilia como um derrotado. A regra no Pla-
nalto 6 de que ministry s6 6 forte com Sarney se
tiver mandate ou comprovar sua forga political. Ja-
der poderd perder uma dessas duas condic6es, ou
ambas, depois de novembro, ele que precisa reativar
as engrenagens do poder para coloca-las em execu-
cao a partir de marco de 1990, quando Sarney estar6
fora do Pal6cio do Planalto e o novo inquilino ainda
e uma incognita.

A derrota de J6der tem uma outra face para
seus inimigos: colocard quase imediatamente nas
ruas a candidatura de Sahid Xerfan ao governor do Es-
.:ado, em alianga com o governador Hdlio Gueiros,
se as retaliac6es dentro do PMDB evoluirem para a
guerra aberta. Quando assumir a prefeitura, em ja-
neiro, caso seja eleito, Xerfan provavelmente come-
car6 a desmontar as peas que Jdder fixou numa
m.nquina de dominagco concebida para durar d6ca-
das, mas cuja exist6ncia estd ameacada de ser tdo
fugaz quanto a esperanca de que outra mdquina, no-
va apenas na apar6ncia, nao seja engendrada em
:ubstituicao a que serd aposentada. No pobre e mo-
n6tono panorama da political paraense, tern mudado
apenas o d6spota de plantAo, mas nao a tirania. Ela
6 o lament6vel trago de continuidade entire lideres
que aspiram a ser unicos e absolutos, pretensAo que
mostra onde estd a raiz hist6rica e o nivel mental
(.os nossos politicos: no mundo de antes da revolu-
< o francesa, velha de 200 anos.


Entre os numeros e os cifr6es


Se a eleigio para a prefeitura de Belnm tivesse
ocorrido entire os dias 10 e 12, o empresdrio Sahid
Xerfan da coligacao PTB, PDS e PFL nao ape-
nas estaria eleito, como teria uma votacao suficiente
para nao precisar passar pelo segundo turno (caso
a constituinte ainda possa impor a tempo esse novo
dispositivo). Uma pesquisa do Ibope encomendada
pelo journal "O Liberal" revelou que Xerfan teria
55,8% dos votos contra apenas 20,5% do at6 entao
favorite Carlos Levy, candidate do PL. A pesquisa
colocou Xerfan na condi(co de favorite e deu-lhe um
indice de prefer6ncia sem paralelo no pais. Belem
adquiriu ainda uma posicgo singular no panorama
das capitals brasileiras tragado pela pesquisa do
Ibope: um percentual de indefinicio inexpressivo,
abaixo de 6%.
Como a pesquisa foi solicitada por "O Liberal",
que apoia ostensivamente a candidatura Xerfan, os
resultados foram postos em dtivida por alguns can-
didatos e vdrios politicos. 0 journal "Didrio do Pard",
do ministry Jader Barbalho, chegou a noticiar que
os funciondrios do escrit6rio local do Ibope teriam
sido demitidos, sob suspeita de manipularem a pes-
quisa. 0 que houve, na verdade, foram ameagas an6-
nimas ao pessoal do Ibope. 0 institute, cor larga
experiencia e reconhecida credibilidade, responded
pelos ndmeros, que Levy vai checar: ele pediu ao
TRE c6pia do document.
Politicos mais tarimbados reagem a essas pes-
quisas cor menos emocionalismo e, jd agora, maior
tirocinio. Elas sdo fotografias estdticas de momen-
tos de um process, obviamente dinAmico. Mais do
que simplesmente rejeitar numeros desagradaveis,
o bom senso recomenda analisd-los com intelig6n-
cia. 0 baixo indice de indecisao dos eleitores entre-


vistados pelo Ibope, por exemplo, deve ser relativi-
zado pelo m6todo adotado. A pesquisa nao deixa dd-
vida de que o eleitor, quando confrontado com uma
relaqco de candidates, facilmente escolherd um dos
nomes arrolados.
Mas quando simplesmente convocado a citar no-
mes, sem um referencial fornecido pelo entrevista-
dor, o eleitor nao consegue fazer sua escolha. As-
sim, mais de 45% nao sabem dizer quem gostariam
que fosse o pr6ximo prefeito de Belem ou preferi-
ram nao opinar a respeito. Isto significa que ape-
nas uma pequena parcela do eleitorado j6 sabia, en-
tre os dias 10 e 12, quais eram os candidates. Eles
precisarao ampliar suas campanhas de divulgagco, o
que 6 natural porque a pesquisa foi aplicada logo de-
pois das convenc6es partid6rias.
A dedugco imediata 6 de que o vencedor vai
ter que dispor de boa base financeira para atingir
os votantes. S6 um nome eleitoralmente muito forte
ou cor elevado potential carismitico poderia ate-
nuar as exigencias de dinheiro. Mas em Belem os
mais fortes candidates tnm atrds de si suportes po-
derosos. O Onico que jd forneceu seu orgamento de
campanha foi Levy: ele declarou um bilhao de cru-
zados, quantia impressionante, ainda mais porque
voluntariamente anunciada, mas que nao deve cor-
responder fielmente a soma dos gastos do PL. Se
todos os b6nus de campanha forem vendidos, a ar-
recadagdo ird alem de dois bilh6es.
Prevd-se que Xerfan espalhe nos pr6ximos dias
140 mil camisas de propaganda, investimento nao
inferior a 800 milh6es de cruzados. Na primeira vi-
sita a Brasilia depois da escolha de Fernando Velas-
co como candidate do PMDB, o prefeito Fernando
Coutinho Jorge trouxe 1,4 bilhao de cruzados para








continuar suas obras. Sdo apenas alguns exemplos
do dinheiro que serd irrigado por diferentes vias du-
rante os pr6ximos tr6s meses.
A pesquisa do Ibope indica tamb6m que o elei-
torado das classes A e B (renda acima de 60 mil cru-
zados) estd reciclando sua posic(o: do simples voto
de protest, sem maior ou mesmo sem qualquer
- reflexao sobre suas consequ8ncias, que beneficia-
va Carlos Levy, os mais afortunados estdo passando
para uma combinacgo do voto de protest com o vo-
to 6til, favorecendo Xerfan. Alguma assessoria de
marketing politico fez Levy abandonar a imagem es-
tabanada por uma postura aparentando seriedade.
Ao inv6s de girar a metralhadora de ataques, ele
passou a preocupar-se em apresentar propostas, in-
sistindo num trabalho de construcgo. Mas a image
anterior deixou suas marcas profundas. E bastou sur-
gir um candidate de oposigco com outro passado pa-
ra quebrar boa parte do encanto que o candidate do
PL despertou nas camadas de mais alta renda da
populagco, ou nas de maior idade, que votariam em
qualquer coisa radicalmente "do contra" por pure
desencanto.
Devido a sua capacidade de criar ecos, a classes


media pesa na definig o eleitoral mais do que po-
deria indicar sua participagco absolute. Mas justa-
mente porque tem essa participagco qualitative
maior, engendra um reflexo ilus6rio da realidade. A
grande massa do eleitorado, agrupada na vasta base
da pirAmide social, ainda 6 suscitivel b manipulagao
pelo poder, tanto mais forte quanto associe o politi-
co ao econ6mico. Tudo indica que a eleigio deste
ano na maior cidade da Amaz6nia vai ser decidida na
periferia, onde a margem de indecisdo, receptive ao
trabalho de aliciamento, ainda 6 grande.

Corn um poder local que s6 tern paralelo cor
os idos da Arena, sob o p6lio dos quart6is, o PMDB
vai recorrer a sua mdquina para transformar em vo-
tos esse estado de indig6ncia social. Nao se pode
minimizar a capacidade que tem essa mdquina de
triturar vontades, mas a tarefa nao seria tao dificil
se o candid, to do partido nao fosse eleitoralmente
tao indigesto. O ministry Jader Barbalho montou es-
sa poderosa maquina, mas afastou todos os possi-
veis concorentes da serventia dos resultados. I
capaz de experimentar, agora, o feitigo que preparou
para ser usa.'o apenas contra seus inimigos.


A guerra no "fro

A eleigco de novembro sera uma guerra sem re-
gras. Para vencer, os envolvidos estao dispostos a
tudo, mas um dos principals fronts sera a imprensa,
onde os campos j6 estao bem definidos. De um la-
do, o grupo Liberal apoiando Sahid Xerfan, cor a
simpatia de A Provincia do Pard. Do outro lado, o
Diario do Para corn os demais veiculos de proprieda-
de do ministry Jider Barbalho e seus aliados.
O Liberal tem se especializado em minmmizar a
atuagco do ministry da Previd6ncia Social e publicar
noticias que Ihe causam inc6modo, embora ele nem
tente desmenti-las, como a inauguragao da impres-
sionante pista de pouso (asfaltada, corn 2.500 metros
de extensoo) da nao menos exuberante fazenda Po-
lyana, as proximidades da Bel6m-Brasilia. A ilumi-
nagdo a luz fria do portao at6 a casa, cor tr6s anda-
res, a piscina e mesmo as cercas transformaram a
fazenda numa atracgo turistica na area, que nao deve
agradar ao ministry.
Sem nunca entrar no assunto, o Diario tern re-
trucado cor suas jd caracteristicas notas malicio-
sas, insinuando o que 6 refrat6rio a prova, mas espa-
Ihando venenos incdscriminadamente. Essa fobia ex-
p6e o journal aos seus pr6prios venenos. Numa das
edi;6es, a coluna "Rep6rter DiBrio" chamou o candi-
dato a vice-prefeito da coligagdo PTB-PDS-PFL, Augus-
to Rezende, de "ladrao da Celpa". Rezende 6 dono
de uma empresa que assinou muitos contratos com
a Celpa durante a gestao de Ambire Gluck Paul e,
evidentemente, do entao governador J6der Barbalho,
que, agora, mandou Ambire presidir a Telepar6. O
journal estava acusando seu dono de, no minimo, ser
conivente cor o roubo e de expor-se a nova qua-
drilha na Telepara.
A mesma coluna colocou na boca do deputado
Ronaldo Passarinho um comentdrio que ele nao fez.
De que o ex-deputado Osvaldo Melo teria ficado con
50 milh6es de cruzados, de um total de 200 milh6es
liberados pela Sudam em favor da Brasilton, a fim
de aplicar o dinheiro na campanha de Xerfan. Passa-
rinho fez o desmentido, que o journal se recusou E.
publicar. Oziel Carneiro, falando pela Brasilton, dis-
se que o dinheiro saiu dos cofres da Sudam direta-
mente para os do Basa, amortizando uma divida fei-


nt" da imprensa

ta junto ao Banco da Amaz6nia para a construg o do
Hilton Hotel.
As escaramugas nao se limitam a essas estoca-
das. Elas se estendem a uma aut&ntica guerra em-
presarial. Um dos lances mals emocionantes esta
ocorrendo em torno da TV Tapaj6s, Canal 4, de San-
tarem. Jair Bernardino, dono do grupo Belauto e o
principal empresario do esquema politico de Jader,
teria adquirido metade das cotas da emissora, afilia-
da a Rede Globo, que pertenciam a Paulo Correa,
irmao do ex-deputado Ubaldo Correa. As cotas nao
dao nenhum poder gerencial a Bernardino, mas seria
a maneira de ele "colocar os p6s na Globo", sua ob-
sessao do moment.
Jair diz ter investido cinco milh6es de d6lares
para instalar o canal 13 em Bel6m. I muito para
quem vai retransmitir as imagens da TV Manchete
apenas a quarta em audiencia. Mas os pianos de
Bernardino vao muito mais long. Ele trocou o nome
da emissora e criou a Rede Brasil Amaz6nica, sinal
mais do que claro de que pretend expandir-se. Mais
do que ter novas emissoras, ele persegue o contra-
to corn a TV Globo, que est6 nas mdos do Sistema
Romulo Maiorana de Comunicac6es por pelo menos
mais tres anos.
Para impressionar a Globo, Bernardino montou
instalaG6es tio arrojadas para o canal 13 que s6 po-
de pensar realisticamente no retorno do capital se
tiver uma renda bem maior do que pode alcangar
corn a Manchete. A compra de parte da TV Tapaj6s
abriu-lhe a primeira porta, mas nao significa que te-
nha alguma garantia de poder tirar a Globo dos Maio-
rana, que comecaram a reagir, investindo em suas
pr6prias instalac6es e na melhoria do pessoal da te-
levisao, adaptando-se ao padrao de qualidade que a
Globo est6 cobrando de seus afiliados.
Nessa guerra, Bernardino espera contar cor o
apoio dos mesmos aliados que o fizeram quebrar o
monop6lio no fornecimento de g6s de cozinha, exer-
cido durante muitos anos pelo grupo Edson Queiroz:
o entao governador J6der Barbalho e o senador Jar-
bas Passarinho. Mas essa nova dispute vai defender
do quadro politico de fundo e ele pode sofrer mu-
taG6es rdpidas e desconcertantes.









SOCIAL


0 tamanho da miseria

Pe6es continuam sendo submetidos na Amaz6nia
a regime de trabalho pr6ximos dos primeiros tempos da
conquista. A miseria da regiao tambem cria
um novo tipo de mercadoria de exportagdo: os beb6s.


Pedro Teixeira inscreveu seu nome na hist6ria
com uma viagem de ida e volta Bel6m-Quito no
s6culo dezessete, que, ainda hoje, com todas as
facilidades de transport, pode ser considerada
uma faganha. Mas s6 o nome do comandante da ex-
pedicao ficou nos anais hist6ricos: ao anonimato fo-
ram atirados centenas de indios, sacrificados na des-
gastante tarefa de remar durante dias e dias na subi-
da e descida dos rios.
Na nova conquista da Amaz6nia, n5o tem sido
outro o destiny para milhares de trabalhadores bra-
cais, submetidos a regimes nao muito diferentes dos
primeiros dias da conquista. O paup6rrimo interior do
Maranhao 6 o principal fornecedor de mao-de-obra pa-
ra os empreendimentos econ6micos que estao se ins-
talando nas novas dreas incorporadas h economic na-
cional (ou international). O trabalho desses empreitei-
ros de homes 6 facilitado pela mis6ria que caracte-
riza os pontos de origem dos pe6es: eles sao aliciados
por propostas as quais nZo podem resistir, mesmo
que, na prdtica, elas nao sejam cumpridas. Na terra
natal, s6 Ihes resta uma economic de trocas, onde
raramente aparece dinheiro. Para certas families da
baixada maranhense, conseguir 6leo comestivel para
encher um dedal de costura chega a ser investimento.
Nenhum dos projetos economics pioneiros da
Amaz6nia dispensou o velhissimo mecanismo de re-
crutamento de mao-de-obra herdado da col6nia, nem
mesmo empresas de ponta do sistema capitalist, co-
mo fonte de suprimento; a intermediagco de agencia-
dores, os "gatos"; locals de concentracgo dos pebes,
as hospedarias; e zonas de trabalho distantes e iso-
ladas, mesmo quando fisicamente pr6ximas das ag6n-
cias oficiais encarregadas de tornar as relaq6es de
trabalho contemporaneas do home deste fim de
s6culo.
Todos esses components estao presents numa
hist6ria que chegou & imprensa justamente no ano em
que se comemora o centendrio da aboligco da escra-
vatura classica. O adjetivo nao 6 sup6rfluo: a escra-
vizagdo do trabalhador permanece, s6 que disfargada
sob roupagens distintas. Neste ano o Minist6rio do
Trabalho recebeu 40 denLncias sobre a imposicao de
condiq6es ilegais de trabalho no sul do Pard e norte
de Mato Grosso. A Policia Federal conseguiu caracte-
rizar um desses casos, certamente n5o o mais grave.
Mesmo que punido, ele poderd permanecer como
event isolado porque o verdadeiro autor desse crime
fica long das malhas da lei, protegido por couraGas
como a figure do empreiteiro aut6nomo, o "gato", e de
senzalas mal disfargadas como as hospedarias de Pa-
ragominas, onde tramita um inqu6rito por homicidio e
maus tratos a trabalhadores.
Ja houve outros moments de espanto nessa lon-
ga hist6ria de trabalho escravo ou de degeneresc6n-
cia da dignidade intrinseca do trabalhador. Na d6cada
de 70, pe6es da Jari conseguiram driblar a vigilancia
do regime military e denunciar as condicges de traba-
Iho no reino de mr. Ludwig. Na mesma 6poca os pa-


raenses ficaram sabendo que seus conterrAneos se-
guiam aos milhares, por rotas perigosas ou clandesti-
nas, para trabalhar na construqio da base espacial
francesa de Kourou, na Guiana. O pagamento em fran-
cos tinha tal forca atrativa que obscurecia os peri-
gos, estimulando a clandestinidade. Nao ha outra al-
ternativa para populag6es condenadas a uma vida mar-
ginal em seu pr6prio pais.
O circulo de misdria que se expand deu ao Bra-
sil um outro produto de exportaGio: as suas criancas.
Milhares delas foram adotadas por mulheres de various
pauses, impossibilitadas de gerar biologicamente seus
pr6prios filhos. Para intensificar esse fluxo human,
ha a grande oferta de beb6s nascidos de families sem
condicres de dar-lhes as minimas condic6es de vida
decent. Entre os dois polos de atracgo, cadeias de
homes inescrupulosos, que transformaram a ado-
co num comarcio capaz de resuscitar as velhas
hist6rias sobre escraviddo branca, mas com um
acento novo de horror.
Nao apenas as mdes estariam querendo esses
beb6s. Eles poderiam estar sendo comprados (que
6 isso o que ocorre na pratica) para que seus 6rgaos
vitais sejam usados em transplants. A hip6tese po-
de parecer delirio de mentes nazistas, mas esta sen-
do considerado cor atencio pelas autoridades, que
comecam a tratar o problema cor a seriedade que
ele exige.
A Amaz6nia, como costuma acontecer quando se
trata de sequelas sociais, ja estd na rota desse co-
mercio human. Evidentemente, o Estado deve fa-
cilitar adocges, mesmo por families estrangeiras, de
criancas cujas families nao podem cria-las, dentro
do pais, segundo padres minimos de decencia.
Mas 6 uma question tio delicada que as normas, pos-
turas e praticas atuais sio quase um estimulo A
transformagio de um problema social em instrumen-
to de neg6cio, com ramificag6es muito mais profun-
das do que o sugerido por um exame superficial.
Em 1921 uma conveng~o international estabele-
ceu meios para a repressio do trafico de mulheres
e criangas. Outra convengio que a substituiu, em
1950, ja nio previu qualquer dispositivo referente ao
trafico de crianqas para o exterior. Nao deve ter sido
circunstancial o fato de que essa convengio tenha
sido assinada no pbs-guerra, com uma Europa asso-
lada pela morte de milh6es de cidadios em plena
idade itil. Varios pauses sio impelidos a buscar
compensac6es demograficas fora de seus territ6rios,
mas o Brasil e particularmente a Amaz6nia nio
pode aceitar que novamente usem-no como valvula
de escape para essas tenses. Acompanhar impassi-
vamente as hist6rias que se multiplicam a respeito
dessa nova mercadoria nas relacaes de troca entire
desenvolvidos e subdesenvolvidos significa aceitar
que nos reduzam ao mais baixo nivel de humanidade
- ou, para ser exato, sub-humanidade. Constata-la
equivale a medir a profundidade do abismo social
em que este pais rico e generoso esta caindo.










A terra dos gatos e dos peoes


P aragominas, municipio que se formou no Pard
com a colonizagdo da rodovia Beldm-Brasilia,
na d6cada de 60, costuma reivindicar o titulo
de "o maior p6lo madeireiro do mundo", olhan-
do para suas mais de 400 serrarias. Mas nao se or-
gulha do outro titulo ao qual 6 automaticamente as-
sociado por causa de sua violencia: Paragobala, onde
os litigios costumam ser resolvidos com um revolver
38 ou espingarda 20. Por causa da viol6ncia, Parago-
minas voltou a ser noticia e internacionalmente
- h 10 dias.
Raros dos 60 mil habitantes na sede (e prova-
velmente os 150 mil no municipio) chegaram a per-
ceber o que estava ocorrendo na cidade. Sabiam
apenas que a 12 quil6metros, a margem do asfalto
da Bel6m-Brasilia, 15 agents da Policia Federal ha-
viam montado uma barreira e vistoriavam os carros.
Eram os remotos bragos da "Operaq~o Internacio-
nal", que mobilizou outros trds paises aldm do Brasil
na caGa ao narcotrdfico e ao contrabando.
Os policiais de Paragominas nao fizeram qual-
quer apreensao, mas descobriram que milhares de
drvores estavam sendo transportadas com desenvol-
tura pelas estradas, apesar de todas ilegalmente por-
que os caminh6es nao dispunham de notas fiscais
e autorizacges de desmatamento. Os agents conta-
bilizaram outro feito ainda mais grave: prenderam
um fazendeiro acusado de mandar matar trabalhado-
res ou submet--los a regime de escravizacao, nao
muito diferente do que se consider oficialmente
abolido ha exatamente 100 anos.

Trabalho: regressao
de um s6culo
Ao chegarem a barreira, depois de caminharem
um dia e meio pelo que resta da floresta native, sete
homes acusaram o fazendeiro Joaquim Lourenco de
Matos, dono de 6.500 hectares de terras e 1.400 ca-
begas de gado, de maltratar seus empregados, im-
pedi-los de sair da fazenda e matar os que tentavam
fugir. Depois de ouvir os depoimentos, o delegado
Domingos Ferreira Viana prendeu o fazendeiro e foi
a propriedade reunir novas provas contra ele.
Denincias de trabalho escravo soam como algo
chocante justamente no moment em que a naGdo
comemora o centendrio da abolicio da escravatura,
mas nao causa maior impressao em Paragominas,
onde as conversas de fim de tarde costumam ser
inventarios dos crimes do dia, nao raros deles san-
grentos. Dois anos atrds um motorist de taxi, acu-
sado de ser pistoleiro, foi chacinado na principal
praGa da cidade, durante um comicio politico e
ningu6m foi para a cadeia. Como a impunidade 6
uma das regras mais praticadas na regido, um homi-
cidio nunca ocorre isoladamente: ele sempre desen-
cadeia outras mortes na trilha das vingancas que se
sucedem.
O portugu6s Joaquim, mais conhecido na area
como "velho Matos", 61 anos de idade, 49 deles no
Brasil, em nada se diferencia de muitos outros pro-
prietarios de terras. Ele comprou a fazenda Sao
Judas Tadeu 14 anos atrds e nela passou a viver no
inicio de 1987, depois que o filho se acidentou e nao
pOde mais cuidar da propriedade. A "Sao Judas Ta-
deu", situada nos funds da fazenda do Bradesco,
a Vale do Rio Capim, nunca se destacou das outras,


dedicadas a criagAo de animals razoavelmente sele-
cionados.
Em abril deste ano o "velho Matos", um home
alto e muito forte, chegou a Paragominas transportan-
do o cadaver de um peao e a ossada de outro home.
O corpo seria de um trabalhador morto durante rixa
que se seguiu a uma partida de futebol. Quanto a
ossada, o fazendeiro disse que a encontrou fora dos
limits de suas terras e nao acrescentou mais ne-
nhuma explicapdo. Os policiais aceitaram a hist6ria,
sequer instaurando inqu6rito para apurd-la melhor.
A rea(;o talvez tenha uma explicagao: a macabra
entrega foi efetuada na sexta-feira da semana santa;
em ocasi6es como essa as autoridades locals costu-
mam emigrar em massa para BelBm.
O epis6dio do dia 12 poderia ter o mesmo des-
tino se a Policia Federal nao estivesse executando
sua operacgo especial na regiao. As danincias apre-
sentadas pelos sete fugitives eram extremamente
graves. Segundo as narrativas, os capatazes ou
pistoleiros contratados pelo "velho Matos" obri
gavam pe6es a subirem em arvores esguias que eram
derrubadas quando eles chagavam ao alto; sob a
mira de armas, alguns tinham que abragar casas de
marimbondos; outros dormiam cor os p6s press a
fortes correntes, todos fechados numa casa sem
condic6es de acomodd-los; as sess6es de trabalho
eram prolongadas e mais do que pesadas; quem ten-
tasse fugir quando o fazendiero estava no local era
cacado e, se encontrado, morto. Haveria atd um
forno para cremar os fugitives recapturados.
Alguns dos depoimentos podiam ser considera-
dos chocantes, mas tanto faltavam provas da parti-
cipagdo direta do fazendeiro, como neles haviam
contradic6es. Aldm disso, mesmo as simples evi-
dencias reunidas nada acrescentavam aos registros
anteriores em casos, como os que envolveram a
Volkswagen e o Bradesco, que nao mereceram a mi-
nima atencgo ou aos quais nao foi dispensado o em-
penho da equipe da Federal deslocada para Parago-
minas. Era tao merecedor de registro o interesse
dos agents nesse epis6dio, quanto a omissdo quase
generalizada do governor na longa hist6ria de super-
exploracGo da mao-de-obra nas frentes pioneiras da
Amaz6nia, da qual o caso da "Sao Judas Tadeu" estd
long de poder ser considerado o mais important.
A dedicago dos agents ao caso nao chegou a
sensibilizar os representantes locals do governor. O
major da PM que chefia a delegacia de policia civil
viajou para Belem no mesmo dia em que o fazendei-
ro foi preso e permaneceu fora de Paragominas qua-
tro dias. A representante do Minist6rio do Trabalho,
que deveria fazer as contas dos creditos dos pe6es,
tamb6m estava fora. Mas como a noticia da agao
da PF se espalhou, outros trabalhadores comegaram
a aparecer na delegacia para fazer acusac6es contra
o fazendeiro e reivindicar quantias que o "velho Ma-
tos" Ihes estaria devendo.

Hospedarias: o mercado
de venda do trabalho
As hist6rias correram c6leres por dezenas de
casas de madeira fincadas em ruas enlameadas, nas
quais animals e criangas convivem em promiscuida-
de. Sao as hospedarias da Cidade Nova, corn seus
bares e prostibulos frequentados por centenas de
pe6es, principalmente no inicio do verbo, quando 6








aberta a temporada de caca As drvores, a partir de
maio ou junho.
Nesse period, o paupdrrimo interior do Mara-
nhao 6 percorrido pelos "gatos", agenciadores e ali-
ciadores de trabalhadores que As vezes se intitulam,
pomposamente, de empreiteiros. Sao pessoas liga-
das As hospedarias, que sabem onde encontrar a
mro-de-obra bragal para tender as necessidades dos
fazendeiros. Milhares de maranhenses atravessam o
Estado para trabalhar em fazendas, madeireiras, em-
presas de mineracio e outros projetos econ6micos
no Par6.
Muitos deles sao levados pelos "gatos" para as
hospedarias de Paragominas. S6 vio poder sair
quando um fazendeiro interessado quitar os d6bitos
da hospedagem. Com sorte, um peso ficard pouco
tempo e sua divida serd pequena. Mas sao numero-
sos os casos de trabalhadores que deixam seus per-
tences como garantia de que voltardo para pagar o
que devem. Quem nao tiver sorte ird para a fazenda
certo de que ao retornar, v6rios meses depois, nao
terd dinheiro no bolso: o que ganhou nio sera su-
ficiente para cobrir as despesas na cantina da fa-
zenda, onde os produtos nao tAm prego especificado,
e da hospedaria.
Dezenas delas se enfileiram, com cores berran-
tes, geralmente em dois pavimentos. No de baixo
funciona um bar, com suas prateleiras repletas de
garrafas de cachaga e cerveja (agora a 51 e nao
mais a Tatuzinho). O amplo salao do andar superior
6 ocupado por ate 80 ou 100 redes, cujos inquilinos
chegam a pagar 700 cruzados de didria, no prego in-
cluidas as refei(6es.
Apesar de serem edifica;6es precArias e insalu-
bres, as hospedarias nao causam nenhum incomodo
a Paragominas, muito pelo contr6rio. Afinal, ali fun-
ciona um ativo mercado de trabalho para tender,


com todas as vantagens, as necessidades sazonais
de mao-de-obra das propriedades rurais. "Sempre h6
trabalho por aqui", sentencia o juiz ClIudio Montal
vao das Neves, que cuida sozinho da Comarca, jb
realizou 21 sess6es do Tribunal do Juri em dois anos,
mas nao se lembra de nenhum process por traba-
Iho escravo. Ha tanto servigo a espera dos frequent.
tadores das hospedarias que 30% da floresta origi-
nal do municipio ja foi posta abaixo. As 400 serra-
rias locals devem ter recebido 700 mil Arvores no
ano passado. Paragominas nem imagine que as con-
dir6es de trabalho a que sao submetidos milhares
de homes durante os meses de derrubada, broca,
rocagem e plantio possam ser consideradas como
problema.

E provavel que o "velho Matos" consiga atra-
vessar o epis6dio sem mais profundas sequelas.
Para os pe6es, talvez a maior novidade tenha sido
o pagamento, de 250 mil cruzados, que o fazendeiro
foi obrigado a fazer, por pressao dos agents fede-
rais, na sede do sindicato rural. Sete dos onze vol-
tarao ao Maranhao ou vao procurar o que fazer em
outro lugar. Quatro estavam tentados a retornar a
"Sao Judas Tadeu", mesmo porque nao chegaram a
fazer denuncias frontais contra o fazendeiro. Para
eles, nao ha muita alternative. Enquanto o "velho
Matos" era mantido numa pequena cela da delega-
cia, um empreiteiro da fazenda do Bradesco regis-
trava queixa. Quarenta pe6es que trouxera do Ma-
ranhao e colocara numa das hospedarias fugiram
enquanto ele comprava redes. O policial que o aten-
deu explicou que nada tinha a ver com a situaGao:
era um "risco de neg6cio", particular. Teria sido
esta a reagao se Paragominas nao estivesse envol-
vida na opera(ao federal de ca9a a droga e ao con-
trabando ?


Belem no trafico de criancas


A Policia Federal instaurou dois inqudritos nos
iltimos dois anos para apurar denOncias de trafico
de beb6s no Pard, mas nao conseguiu caracterizar o
crime, nem prender os suspeitos. Em 1987 sairam
do Estado 13 criangas, adotadas por maes estranged.
ras. Nos primeiros sete meses deste ano houve 18
adog6es, mas nada p6de ser feito para impedir a
expedig o dos passaportes porque alvaras judiciais
autorizavam a said dos menores. Sete das maes
adotivas eram da Italia, cinco da Franga, trAs dos
Estados Unidos e tres de Israel.
A policia reuniu indicios de que o francCs Pier.
re Camille Condom, de 58 anos, que se diz m6dico,
e o advogado Orlando Maciel Rodrigues, um ex-agen-
te federal demitido, a bem do serving ptblico, em
1981, negociam a venda de bebes para o exterior.
Ambos devem ter ganho 12 mil d6lares para arranjar
criancas para duas mulheres francesas que estive.
ram em BelBm neste ano.
Catherine Arnaud, 34 anos, uma secretaria que
reside em Caiena, soube da existdncia de Pierre
atrav6s de Benedicte Galley, uma amiga que conse-
guira adotar uma crianca em Belem gracas aos pres-
timos do francs. Pierre a recebeu no aeroporto de
Val-de-Caes no dia 15 de margo e a levou para uma
casa situada em uma rua de grande movimento.
Num dos quartos estava o rec6m-nascido que Ihe
caberia. Em outro quarto havia outra crianga, desti-
nada a Marylin Monique Bellini. Se a adogao fosse
obtida em 15 dias, Catherine pagaria sete mil d61a-


res. Se o process demorasse um m6s, ela pagaria
menos. Mas Catherine comegou a desconfiar do
comportamento do frances e do advogado. Depois
de passar pelo consulado, acabou na Policia Federal,
que instaurou inqudrito.
Maryline, comerciante francesa de 31 anos, resi-
dente em Pau, tamb6m foi ouvida. Como Catherine,
ela fizera contato cor Pierre e Orlando para conse-
guir um filho, que esta biologicamente impossibilita-
da de gerar. Ja havia pago cinco mil d6lares para os
dois e estava confiante em conseguir a adoGao por-
que um outro casal francs, Regnier Patrick e Ivette,
retornara a Paris com um bebd, depois de seguir
rigorosamente as orientaq6es do advogado para nao
dizer nada aos policiais, fingir-se de desentendido e
negar tudo o que Ihe perguntassem sobre trafico.
Marlyline chegou a Pierre atrav6s de um folheto
de tr6s paginas, "conselhos As families francesas
desejosas de adotar legalmente uma crianga no nor-
te do Brasil (Amazonas)", que Ihe foi entregue na
Direction Departamentale de L'Action Sanitaire et
Sociale, em Paris. A DDAS 6 um 6rgao governamen-
tal que cuida de adoc6es, entire outros assuntos. O
folheto foi enviado de Belnm por Pierre e simples-
mente entregue aos interessados pelo Departamen-
to, que nem se preocupou em verificar a proced6ncia.
Se tivesse pedido logo informaG6es ao governor
brasileiro ou consultado sua pr6pria embaixada, a
DDAS ficaria sabendo que Pierre tem registro de es-
telionatario. Declarando-se consul honorario em Ma-










capd, durante dois anos ele vendeu documents frios
para brasileiros que queriam ingressar ou permane-
cer em territ6rio francs. Mas, ao chegarem a Caie-
na, os clients de Pierre eram imediatamente depor-
tados porque os documents nao eram autenticos.
No Brasil desde 1971, com visto permanent,
Pierre nao se recadastrou, nem chegou a ir depor
na PF. A policia reuniu indicios de que ele realmen-
te est6 traficando beb6s e por isso a delegada So-
mira Bueres pediu a prison preventive dele, que o
juiz Aristides Medeiros nao concede, alegando a
incompet&ncia da justice federal para atuar no caso.
O process foi remetido para a justica comum e ain-
da nao teve andamento.
Os depoimentos das duas francesas deixaram
claro que a adogao dos bebes procedida por Pierre
e Orlando nao segue os caminhos regulars, mas
tambem nao pode ser caracterizada como illegal por-


que eles obt6m documents judiciais. Em junho
mesmo a PF expediu passaportes para os dois beb6s
adotados por Catherine e Marylin, que parecem ter
chegado a conclusio de que o melhor mesmo era
continuar o neg6cio corn Pierre.
A experiencia diz aos policiais que se trata mes
mo de um com6rcio, mas eles nada podem fazer
diante de alvards judiciais conseguidos nas comar-
cas do interior, de onde sao oriundas tamb6m as
criangas. As coisas parecem estranhas, mas dai at6
comprovar que sao ilegais existe uma distancia con-
sideravel. Tho estranha quanto a said desses bebes
de families pobres arranjados por pessoas suspeitas
6 a viagem de fdrias ao exterior de juiza que lida
corn esses casos, como a responsavel por uma co-
marca do interior, que recentemente fez um "tour"
pela Europa custeada nao por seu limitado sald-
rio, 6 claro


Basa: saindo do buraco negro


Neg6cios mal feitos nas duas ultimas decadas
consumiram um patrim6nio igual ao que o Banco da
Amaz6nia possui hoje. Significa que de cada cruzado
que emprestou, o Basa perdeu um cruzado porque os
responsaveis pelas autorizag6es de empr6stimos nao
seguiram as normas das operaq6es bancarias. Foram
neg6cios nos quais apenas o client saiu beneficiado,
por interfer6ncias political ou para favorecimentos
pessoais.
O banco estd emergindo agora de mais um dos
buracos negros abertos na sua hist6ria recent. Dos
30 milh6es de d6lares (o equivalent a quase 12 bi-
Ih6es de cruzados no cambio paralelo) que foram apli
cados em transac6es temerdrias, a atual direcao do
Basa consider definitivamente perdidos US$ 18 mi-
lhoes. A recuperaqco dos outros US$ 12 milh6es 6
incerta. No ano passado foram lancados na rubrica
de creditos em iiquidagco e provisionados 4,6 bilh6es
de cruzados (valores de dezembro). S6 no primeiro
semestre deste ano os provisionamentos por conta
desses cr6ditos foram de 5,8 bilh6es, o suficiente
para pagar todos os 3.670 funciondrios durante quatro
meses. Apenas o rendimento financeiro dessas apli-
cac6es garantiria a folha de pessoal.
Apesar desses nimeros assustadores, o Basa
parece estar se consolidando novamente, em parte
ajudado pela alta inflagao. O balanco do primeiro se-
mestre anuncia um lucro de quase trds bilh6es de
cruzados, que a diretoria garante ser real e nao mera
escrituracgo contabil. Cada acqo espalhada entire os
36 mil acionistas particulares tera direito a 53 cruza-
dos de dividends, aprecidvel rentabilidade (significa
metade do valor patrimonial de cada aGio). O capital
social vai passar de 2,6 bilh6es para 4,5 bilh6es, pri-
meiro movimento para um grande aumento no pr6xi-
mo ano. O banco jS tem caixa para realizar alguns
investimentos indispensaveis, como sua atualizacao
em informdtica, mas ainda depend de autorizacgo de
Brasilia, que vem protelando as decis6es.
Os continues adiamentos do Planalto em relacao
a quest6es candentes para o Basa sugere o jogo de
presses nos bastidores. O mais forte 6 travado jus-
tamente para a renovacio da diretoria. O mandate da
atual terminou no final de julho. Desde entao, ela
atua sem mandate, gragas a prorrogacgo automatica
prevista no estatuto. Ainda nao hd data definida para
a eleicGo dos novos diretores pelo conselho de admi-
nistraqco. O president, Valdemir Messias de Aratjo,
disse nao ter qualquer informagFo sobre os nomes em


cogitac5o, nem mesmo podendo garantir se continua-
r6 no cargo, incerteza estranha em relacao a uma di-
retoria que est6 tentando tirar o Basa das bordas do
precipicio.
Essa falta de informar6es inquieta os funciond-
rios, preocupados corn a possibilidade de um novo
retrocesso. Foi esse temor que a Aeba (Associaqco
dos Empregados do Banco da Amazonia) transmitiu
em oficio encaminhado ao president Jos6 Sarney no
final de julho e publicado na imprensa alguns dias
depois, provavelmente porque ficou sem resposta.
A Aeba lembra que o Basa "tern sido, por inime-
ras vezes, prejudicado pela repeticao de crises al-
gumas vezes ciclicas causadas por incompetencia
t6cnica e/ou acgo corrupt de dirigentes". Para que
nao haja a "repetitco desse tipo de desvio", que ja
fez o Basa sofrer varias intervenc6es, a associacao
pede ao president da Repiblica que "os nomes a se-
rem escolhidos sejam realmente comprometidos corn
os destinos da Amaz6nia, tenham comprovada capaci-
dade tecnica e nao apresentem antecedentes em re-
lag5o ao mau uso de recurses e outras irregularida-
des.

As exig6ncias sao brandas, mas poucos dos can-
didatos potenciais & renovacgo da diretoria, todos
herdeiros do crit6rio de divisdo pela geografia politi-
ca da region, poderiam passar pelo crivo. Talvez por
isso mesmo, as articulag6es estio sendo feitas com-
pletamente protegidas da opinion piblica, sem que
os pr6prios diretores atuais sintam-se em condig6es
de opinar a respeito. Nada indica, por outro lado, que
as duras lic6es dos ultimos tempos tenham sido apren
didas: cada s6trapa de provincia pensa em sagrar o
nome tirado da algibeira. Quando nao consegue, fica
irado.
S6 esse tipo de comportamento 6 capaz de ex.
plicar a iniciativa do economist Jos6 Mathias Perei-
ra, que foi a Justica reclamar o pagamento de um
milhAo de cruzados de f6rias vencidas e nio gozadas.
Mathias foi director do Basa durante trds anos, mas
nao conseguiu realizar sua maior aspirag~o, de ser o
president do banco, apesar de todo o empenho do
seu padrinho, o entio governador do Amazonas, Gil-
berto Mestrinho. Assim, mesmo ocupando cargo de
confianga na diretoria e nio sendo funcionario, deci-
diu ir contra o entendimento do Supremo Tribunal e
cobrar o dinheiro, provocando espanto dentro do
Basa.


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O jogo da traig o

Os lideres politicos no Pard nio aspiram apenas
a serem os primeiros: querem ter a unanimidade
E por isso que, como em outros Estados igualmente
atrasados, novas liderangas sucedem as anteriores
na base da traigio. O senador Jarbas Passarinho
queixa-se, cor suas razbes, de que seu colega de
caserna, Alacid Nunes, nio cumpriu o acordo verbal
feito diante do entio candidate eleito a presidencia
da Rep0blica, Joio Figueiredo, de que apoiaria Pas-
sarinho na eleicgo de 1982. Foi essa a condi(io para
Figueiredo e Ernesto Geisel acertarem a volta de
Alacid ao governor do Estado, em 1979.
Alacid, por6m, preferiu unir-se ao at6 entio ini-
migo dele e de Passarinho, o deputado federal Ja-
der Barbalho, e enfrentar a c6lera do truculento ge-
neral Figueiredo, a cumprir o acordo. A cisio defi-
nitiva dos coron6is entronizados no governor paraen-
se pelo movimento military de 1964 permitiu a a6der
eleger-se governador, com uma margem minima de
votos. Alguns meses depois de ocupar o Pal6cio
Lauro Sodr6, porem, Jader ja estava tratando de
deglutir os aliados da v6spera, criando um pretexto
- durante a convencao para a escolha dos delega-
dos ao coldgio bleitoral que referendaria o nome de
Tancredo Neves a presidencia da Repiblica para
despejd-los do poder.
Justamente na fase de transig o, que fez dos
aliados eleitorais de 1982 os grandes inimigos de
hoje, ocorreu um epis6dio cor desdobramentos na
eleigio deste ano. Alacid, ainda no cargo de gover-
nador, indicou para a prefeitura de Belem o empre-
s6rio Sahid Xerfan, cuja inica atuacgo political at6
entio restringia-se a financial as campanhas de can-
didatos amigos, independentemente de suas legen-
das partiddrias, o que Ihe permitiu former um am-
ploleirculo de simpatizantes acima de divis6es ideo-
16gicas e fisiol6gicas.
Antes que seus dois padrinhos pudessem fazer
o anuncio, Xerfan admitiu, em entrevista a um journal
local, que havia sido escolhido para a prefeitura.
Jader foi surpreendido pelas declarag6es quando es-
tava em Brasilia. De volta a Belem, procurou Alacid,
que Ihe deu um conselho fulminante: nio nomear
mais Xerfan e substitui-lo pelo deputado Dionisio
Hage. A sugestio para a troca nio se prendia ape-
nas ao fato de Dionisio ser um alacidista muito mais
field do que Xerfan, mas tambem porque, em virtude
dessa condicio, ele se encaixava completamente no
piano que estava na cabega de Alacid: assumir a
prefeitura alguns meses depois de deixar o governor.
Havendo se tornado o maior inquilino do "Lauro So-
dr6" desde a passage do caudilho Magalhies Ba-
rata, Alacid tinha motives mais do que suficientes
para nio ficar muito tempo long do poder.
Formado numa escola ainda mais sagaz do que
a do coronel da reserve do Ex6rcito, J6der sabia mui-
to bem que Dionisio seria apenas uma ponte bern
larga, alias para que Alacid voltasse a uma peri-
gosa proximidade do paldcio do governor. Foi por
isso que manteve a indicagdo de Xerfan e nio
porque confiasse nele. Ja entio J6der se convence-
ra de que, ao aceitar sair dos bastidores para o pros-
c6nio, Xerfan nio se contentaria em ser apenas uma
marionete atada As maos dos dois lideres. Ele pro-
vavelmente tentaria criar seu pr6prio grupo. Mas
Jdder planejou para alguns meses depois um golpe
que deveria liquidar os dois concorrentes potenciais:
demitiu Xerfan, alegando que o trafra ao visitar se-
cretamente o na dpoca derrotado Jarbas Passarinho.
Quem comparasse o quadro politico daquela


ocasido com o de hoje teria motives para espanto.
Xerfan estd aliado a Alacid, embora saiba que, se
dependesse do entao governador, nao teria assumi-
do a prefeitura e nem iniciado a carreira political que
agora tenta consolidar. Jader trocou Alacid pela
alianca com Passarinho, que, por isso, nao pode dar
apoio ao compare que tanto se arriscou para visitd-
lo, cinco anos atrds. o prov6vel ainda que esse acor-
do se renove em 1990, quando Jader poderd estar no
campo oposto ao de seus grandes amigos em lon-
gos anos e correligionArios incondicionals ate pou-
cos meses atras, o governador H6lio Gueiros e o
superintendent da Sudam, Henry Kayath.
Tanta mudanca de camisas s6 nao altera uma
coisa: o Pard foi o que menos ganhou com ela. Ou,
dito de modo mais claro: s6 perdeu.

Passo atras

O process que o governor federal estd movendo
contra o antrop6logo norte-americano Darrell Posey
e os indios Paulino Paiakan e Kube-i Kayap6 (ver
JORNAL PESSOAL n9 23) pode resvalar para os des-
vios do absurdo. Todos estdo amearados de prison
e expulsao por term feito critics ao program hi-
drel6trico na Amaz6nia, que agrediria o meio am-
biente e as populaq6es indigenas, levando o Banco
Mundial a suspender um financiamento de 250 mi-
Ih6es de d6lares para a Eletrobras.
Se dois indios e um antrop6logo foram capazes
de impressionar uma instituigco financeira do porte
do BIRD ao ponto faz6-la tomar uma decisdo que os
tecnocratas da administration piblica, sempre circu-
lando pelo exterior com gordissimas diArias e sun-
tudrias mordomias, nao foram capazes de evitar, en-
tao o governor estd reconhecendo sua pr6pria faln-
cia. Com a experiencia que uma divida de 110 bi-
Ih6es de d6lares deve ter dado aos negociadores
brasileiros, 6 o caso de enrolar a bandeira e sumir
do est6dio.
Tudo indica que se houve suspensdo do finan-
ciamento, as critics dos indios e do antrop6logo
contribuiram para isso apenas como simbolo. HA
outros fatores ainda mais complexes, como a pr6pria
eleirco nos Estados Unidos, atuando como causes
principals. Ainda assim, antes de iniciar o primeiro
process de expulsao de um indio, expondo um ci-
dadao national ao vexame de ser enquadrado como
criminoso pelo crime de ter manifestado opinioes,
dadas fora do pais, o governor deveria provar a so-
ciedade que ele, e nao seus critics, 6 quem esta
certo. Isto se prova nao atrav6s de um procedimen-
to administrative ou penal, mas na discussao do
tema, o que o governor, at6 agora, nao se dignou a
fazer.
Parece que fomos devolvidos a 6poca negra dos
andtemas contra os hereges, sob a inspiraqdo de al-
gum escaninho burocrAtico incapaz de entender que
o Estado, como representante da Naqdo, s6 pode
tagir contra os cidadAos sob a inspirag~o de um man-
dado legitimamente valido. E o que 6 que tem o
governor neste process senio impulses inquisito-
jriais anacronicos ?


Jonal Pessoal
Editor responsivel: Lficio Flivio Pinto
Enderevo (provis6rio): ma Aristides Lobo, 871
Bel6m, Par, 66.000. Fone: 224.3728
Diagramaao e ilustraao : Lulz Pinto
Opoo Jomallstica