Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00018

Full Text







J o PinPessoal
LiLucio Flavio Pinto


Ano I NW 21


Circula apenas entire aslnantes


1i Ouinzena de Julho de 1988


NEGOCIO


Um


bilh o


por


nada


O Banpard quer devolver a Vivenda, que comprou
tr6s anos atras, mas ainda nao absorveu. Tecnicos acham
que foi um mau neg6cio, talvez o pior de todos.
A hist6ria interessa a milhares de depositantes.


E m setembro de 1985 a Banpard Socledade de
Crddito Imobiliario consumou a aquisicgo da
Vivenda APE (Associacio de Poupanga e Em-
pr6stimo), transagqo que havia sido iniciada
tres meses antes e parecia altamente lucrative. Ago-
ra o Banco do Estado do Para quer livrar-se da Vi-
venda, devolvendo-a a Caixa Econ6mica Federal, co-
mo sucessora do Banco Nacional da Habitacao, e
pedindo a liquidag~o extrajudicial da empresa. A al-
ternativa juridicamente correta ainda nao foi encon-
trada, mas os tdcnicos do Banpard t6m uma certeza:
o banco fez um mau neg6cio.
Na pr6xima semana, discretamente, o Banpard
comegard a auditar as contas da Vivenda para adequd-
las a realidade. Ao ser comprada, tres anos atras, a
Vivenda teria um patrim6nio liquid de 3,2 bilh6es
de cruzeiros (em valor da 6poca), um ativo de qua-
se 500 bilh6es e aproximadamente 200 mil correntis-
tas de cadernetas de poupanga. Hoje, esses ninie-
ros sio encarados cor reserves, sob a suspeita,de
maquilagem contibil. Mesmo que eles sejam corre-
tos, os t6cnicos do Banpard os relativizam. A maior
parte das contas de caderneta de poupanqa nao 6
rentavel: a despesa para administrd-las supera o
rendimento que proporcionam. Os problems capa-
zes de inflacionar o passive foram subestimados. E
o patrim6nio liquid, inchado.
Mais do que esses itens, o principal complica-
dor era a pr6pria situagio da Vivenda. Como entida-
de independent, ela foi concebida para atuar em
um.sistema compartimentalizado, "onde a concorrdn-
cia de outros segments do mercado financeiro nio
Ihe afetava a operacionalidade", conforme reconhece
o protocolo de inteng6es que antecedeu a operagio
de compra e venda. No moment em que o sistema
financeiro habitacional passou a ser dominado pelos
conglomerados nacionais (como Bradesco e Econ6mi-
co), a pequena e isolada Vivenda parecia condenada,
circunstincia agravada por decis6es de sua pr6pria
direg~o e pelas regras impostas pelo governor, ele-
vando o indice de inadimpl6ncia (que era de 30% na
Vivenda) dos mutudrios do sistema financeiro.
Foi nessa conjuntura adversa que a Banpard
Imobiliaria, sob a orientacio do atual deputado esta-
dual Hamilton Guedes (na dpoca tamb6m director do
Banco do Estado do Pard), passou a negociar a com-
pra da Vivenda. O process foi iniciado em junho de
1985, quando a Banpard pediu ao Ministdrio da Fa-


zenda para fazer a absorg;o, e consumou-se em so-
tembro, cor a assembleia geral que aprovou a ope-
raado e a sanggo do extinto BNH. Tudo foi muito
r6pido e pouco atento, como notam os t6cnicos que,
hoje, fazem o inventdrio da hist6ria.

Uma inspiragio
adulterada
A Vivenda comegou a funcionar em Bel6m em
1968 como uma Associaaio de Poupanca e Empr6s-
timo, Era a figure mais nobre do nascente Sistema
Financeiro da Habita4ao, uma das principals cria-
69es do regime military de 1964. Mutualistas se as-
sociariam para reunir suas poupancas, fazer empres-
timos e ativar a construqgo de habitag6es, na me-
Ihor inspiragao cooperativista. Os donos do neg6-
cio seriam os pr6prios associados: Dez anos depois
da instituigao dessa figure, por6m, o BNH resolve
criar "sociedades mandatdrias" para administrar as
APE's. A mandatdria da Vivenda foi a Habitanorte,
constituida pelo ex-senador e ex-ministro da Saide
Cattete Pinheiro e por seu s6cio, Walbert Monteiro.
Para vender a Vivenda b Banparb, a Habitanorte
recebeu o equivalent a 600 mil ORTN's (hoje OTN's),
na dpoca quase 30 bilh6es de cruzeiros (10 vezes o
patrim6nio liquido, hoje 960 milh6es de cruzados,
divididas entire Cattete Pinheiro (55%, juntamente
com a esposa e um filho) e Walbert, que ficou corn
os restantes 45% (sendo 20% da esposa). No ato
de assinatura do contrato foram pagas 225 mil
ORTN's e as 375 mil restantes em quatro parcelas
trimestrais, a iltima tendo vencido em 16 de julho
de 1986. A Banpard ainda assumia uma divida junto
ao BNH no valor equivalent a 100 mil ORTN's (160
milh6es de cruzados de hoje) e o passive a desco-
berto da empresa, que, em seguidas crises de liqui-
dez, vinha sacando no fundo especifico que o BNH
mantinha.
Ao relatar pela primeira vez ao Banco Central
suas preocupagces sobre essa heranga, em setem-
bro do ano passado, o entgo president do Banco do
Estado do Pard, Frederico Coelho de Souza (atual-
mente chefiando a Casa Civil do governador H61io
Gueiros), observou que o protocolo de intenc6es en-
tre a Banpard Imobilidria e a Vivenda nao especifica-
va o custo de aquisigio da APE, ajustado apenas no
contrato de compra e venda entire as duas parties.









O voto do Conselho Monetirio Nacional, aprovado
"ad referendum" pelo entio ministry da Fazenda,
Dilson Funaro, tomou como base apenas o protocolo,
omisso em reladio a valores da transacgo.
Frederico consider que o prego pago pela Ban-
pard "constitui-se em algo muito acima do que de
fato vale aquela APE". Argumenta, em primeiro lu-
gar, que a Habitanorte, mandataria at6 entio da Vi-
venda, nio tem patrim6nio. E que o patrimonio liqui-
do da Vivenda, contabilizado em 3,2 bilh6es de cru-
zeiros (pouco mais de 10% do que foi pago a Catte-
te e Walbert), teria que ser distribuido aos associa-
dos, conform exig6ncia do voto do Conselho Mone-
tario Nacional. Caso o patrimonio liquido fosse ne-
gativo, a Banpard arcaria com o 6nus.
Se a Habitanorte nao tinha patrim8nio e se o
patrim6nio da Vivenda pertencia a seus associados,
em troca de que a Banpard pagou os 960 milh6es de
cruzados? Que direitos especiais teriam os contro-
ladores da mandatdria em relaoeo aos milhares de
depositantes da Vivenda ? Estas perguntas n5o fo-
ram feitas no oficio do entao president, mas sao
admitidas hoje dentro do corpo t6cnico do Banpard.

Um complicador
para o saneamento

Como sua sociedade de cr6dito imobilidrio nio
tinha recursos, foi o banco que efetuou os pagamen-
tos a Habitanorte, assumindo todos os encargos (in-
clusive a contribui io de 150 mil UPC's a moeda
do sistema financeiro habitacional ao Fundo de
Assistdncia Habitacional). Passados trds anos, a ab-
sorg o ainda nio ocorreu porque continue o saldo
a descoberto da Vivenda junto a Caixa, como suces-
sora do BNH, no valor aproximado de dois bilhoes
de cruzados.
Como todos os agents financeiros depois do
advento do Piano Cruzado, a Vivenda sofreu pesa-
das perdas em seu ativo. Entre seus problems estd
o Conjunto Maguary, onde a maioria dos im6veis fi-
nanciados estd perdida. O Banpard, que a principio
estava empenhado em reduzir o prejuizo, agora evo-


lui para a posicgo de considerar a compra da Viven-
da um mau neg6cio, que deve ser descartado. At6
hoje, a Banpard Imobilidria nio absorveu a Vivenda,
enquadrando-a como part do conglomerado. JA o
banco mant6m uma escritura9io A part, mas s6 po-
dera concluir seu pr6prio saneamento e sair do re-
gime de administra gio especial, ao qual o Banco
Central o submete desde maio de 1987, se lancar
em suas pr6prias contas o que aplicou na Vivenda.
Fazendo isso, anulard o lucro operational obtido no
primeiro semestre, voltando ao "vermelho". E, evi-
dentemente, nio poderd se considerar "saneado".
Mesmo participando da administragCo comparti-
Ihada do Banpara, o Banco Central ainda nio se pro-
nunciou sobre o caso Vivenda. "I2 a espinha atra-
vessada na nossa garganta", admite um dos mem-
bros da diretoria do banco estadual. Mas qualquer
decisao s6 sera adotada quando a auditagem, inicia-
da na segunda-feira passada, for concluida. Uma ala
tecnica defended a devolugco da Vivenda ao seu prin-
cipal credor, a Caixa Econ6mica Federal, pois, final,
foi o BNH que aprovou a operagao. Os tdcnicos
acham possivel pedir a liquidacgo extrajudicial da
Vivenda, inclusive porque, como citou Frederico Coe-
lho de Souza no oficio ao Banco Central, os proces-
sos de absorcgo "estio inconclusos em decorrencia
das in~meras falhas e irregularidades verificadas
nas Atas das Assembleias realizadas e nas delibera-
g~es de aumento de capital". O Banpard imitaria a
Socilar, que, depois de tentar absorver a Tropical,
devolveu-a ao BNH para que a liquidasse.
Alem do banco, os maiores interessados em es-
clarecer essa hist6ria sao os pr6prios depositantes
da Vivenda. Apesar de serem milhares, apenas al-
guns deles acompanham o process. Sao os autores
de cartas que tem chegado a ministerios, 6rgoos de
informaeio e alguns jornalistas. Acreditam que ha
algo errado no enredo, mas parecem desnorteados.
I a situacao de quase todos os cidadlos brasileiros
em casos semelhantes, tramados e decididos entire
os escrit6rios particulares e os gabinetes oficiais,
sem passar pelo conhecimento da opiniio pdblica.


O caso dos "colarinhos brancos"


Nio hd mais nenhum r6u preso no process so-
bre o desfalque no Banco da Amaz6nla: os princi-
pais envolvidos, o ex-diretor e ex-presidente interino,
Augusto Barreira Pereira, e seu filho, Augusto Junior,
foram liberados na semana passada. Depois de qua-
tro meses de prisio, a malor parte desse period
numa diminuta cela da Policia Federal no Rio de Ja-
neiro, Augusto retornou a Bel6m. O filho permane-
ceu no Rio, de onde nao se afastou durante essa
mesma fase, na qual foi dado como foragido.

O advogado Alberto Campos conseguiu a liber-
dade de seus clients alegando, junto ao Supremo
Tribunal Federal, a incompetencia da justica federal
porque o Basa 6 uma empresa de economic mista,
sob a jurisdicio da justiga comum. Apesar de reco-
nhecer a tese, o STF decidiu que a prison s6 poderia
ser revogada pelo juiz estadual ao qual ficaria afeto
o caso, o que aconteceu em seguida. A transferen-
cia do process para a justiga comum anulou tam-
bem o sequestro dos bens dos r6us e o bloqueio de


suas contas bancirias, medidas que a policia ja ha-
via adotado. O proximo pass do advogado serd con-
seguir deslocar o process do Rio de Janeiro para
Bel6m. Da mesma maneira, pedlu a declaragco de
incompetdncia da justice federal para julgar os des-
falques, de muito maior valor, que foram praticados
no Pard (al6m de BelBm, em Italtuba). Aqui, a Polf-
cia Federal ainda nio concluiu o inquerito.

Assim, o primeiro process que chega h justica
brasileira para punir crime de "colarinho branco" ex-
perimentard uma significativa alterag~o de ritmo,
ou de rumos. Em fevereiro, o pr6prio president
Jos6 Sarney, sob a pressio de critics e cobransas
sobre corrupgao no governor (a mais destacada
delas de autoria da CNBB), aproveitou a descoberta
do escindalo do Basa para transformd-lo num exem-
plo de que nao assistiria de bravos cruzados as
fraudes na administracgo pOblica. Dado o exemplo,
com o rigor excepcional adotado, o caso pode estar
tomando agora o rumo convencinal.







ECOLOGIA


Maior


fogo


da


terra


O maior desmatamento da hist6ria da humanidade
poderia render 160 bilh6es de dolares, mas deu apenas
200 milh6es. Perplexa, a sociedade deve escolher
entire o nada e o coisa alguma na Amaz6nia. Pode?


F oi corn espanto que os cientistas da Nasa, a
agnncia espacial dos Estados Unidos, viram a
imagem que o satellite NOAA-9 havia transmi-
tido naquele dia, no inicio de setembro do ano
passado. Ao long das principals estradas que cor-
tam o sul do Pard, o norte e o oeste de Mato Grosso
e quase todo o Estado de Rond6nia, a floresta estava
sendo incendiada em 6.800 locals. Desde 1976, quan-
do outro satellite norte-americano, o Skylab, havia
"fotografado" um inc6ndio de 11 mil hectares pra-
ticado pela Volkswagen em sua fazenda (j6 vendida)
no municipio de Santana do Araguaia, no sul do Par6,
os monitoradores dos satdlites da Nasa se acostu-
maram a acompanhar as queimadas amaz6nicas. Mas
nada se podia comparar ao quo ocorreu em 1987.
A atividade humana alterou, no ano passado,
205 mil quil6metros quadrados de cobertura vegetal,
Brea quase igual a da Guiana. S6 Rond6nia destruiu
praticamente 20% de suas matas numa inica safra
de fogo. Foi algo desproporcional: o Brasil, campedo
mundial de desmatamento por causa do avango so-
bre a "fronteira" amaz6nica, vinha preocupando o
mundo com sua m6dia de derrubadas, entire 1,2 e
2,5 milhoes de hectares por ano. Em toda a faixa
tropical do planet, onde ainda se abrigam as maio-
res reserves florestais, essa taxa tem variado entire
8,5 e 11,5 milh6es de hectares anuais. Subitamente,
s6 os tr6s Estados amazOnicos "fotografados" pelo
NOAA-9, entire maio e outubro, desmataram 20,5 mi-
lh6es de hectares, record sem paralelo na hlst6ria
humana.
Os inc6ndios provocados na Amaz6nla fizeram
subir para a atmosfera 500 milh6es de toneladas de
compostos de carbon, 100 mil vezes makes fumaga e


gases do que o que o vulcAo "El Chich6n" liberou no
Mexico, em abrll de 1982. Os cientistas ja compro-
varam que as erupc6es do "El Chinch6n" alteraram
profundamente a composiglo quimica da atmosfera
e o clima da Terra. Falta verificar cientificamente
a extensio das repercuss6es das queimadas de flo-
resta sobre a camada de oz6nio que protege a Terra
da radiagco ultraviolet do Sol. Que estd havendo
interferencla, ningu6m duvida, nem pode.
O impact
dos ndmeros
Quando alguns dos participants do seminbrio
international sobre manejo racional de florestas
tropicais, promovido no Rio de Janeiro, na ltima se-
mana de abril, pela Fundacao SOS Mata Atlantica e
o World Wildlife Fund, se referiram a esses nime-
ros, cientistas estrangeiros relutaram em acreditar.
Ainda meio desconfiados, s6 comegaram a baixar
as resist6ncias ao saberem que o IBDF (Instituto
Brasileiro do Desenvolvimento Florestal) referendara
os dados e que eles haviam sido produzidos pelo
Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), de
Sao Jose dos Campos, Sdo Paulo, com base nas ima-
gens do satelite NOAA-9.
Procura-se atenuar o impact com uma relativi-
zagdo: dos 20 milh6es de hectares atingidos por
desmatamentos, 12 milh6es seriam areas de mata
final, cerrados, capoeiras ou mesmo pastos degrada-
dos. "Somente" oito milh6es de hectares constitul-
riam florestas densas nativas. Mesmo aceitando-se
essa temerdria diferenciagio, 6 impossivel minimi-
zar o significado da destrulgao: corn 100 metros
cibicos de madeira por cada hectare, em avaliaqio


I .









conservadora seriam 800 milh6es de metros cibicos.
que, numa cotag~o quase simb6lica, de 30 d61ares por
metro cibico (as esp6cies mais valorizadas estao aci-
ma de US$ 300), significaria rendimento potential de
2,4 bilh6es de d61ares, mais de 10 vezes o que o
Brasil faturou com as exporta96es de madeira no
ano passado.
Este calculo simpl6rio pode parecer (e 6) arbi-
trArio, mas 6 igualmente obtuso. Um metro c6bico
de madeira tropical contdm mais energia do que um
barril de petr6leo. Mas 80% desse potential ener-
g6tico 6 simplesmente destruido, pelo fogo ou pelo
desperdicio. Segundo os calculos dos tdcnicos que
atuam na indlstria madeireira, para cada metro c6bi-
co que chega ao patio das serrarias, sete metros
cibicos ficam apodrecendo na mata ou se perdem
pelo caminho at6 o local de beneficiamento. E a
metade de cada metro cubico que 6 serrado acaba
sendo jogada fora como coisa inaproveitavel ou quei-
mada a cdu aberto, ao lado da serraria, como se po-
de testemunhar no centro da cidade de AcailAndia,
no Maranhao.
O raciocinio adquire tonalidades ainda mais 16-
gubres quando deixa a bitola da madeira s6lida. Uma
floresta nao se reduz a ser fonte de fornecimento
de madeira: ela pode permitir m6ltiplos aproveita-
mentos, conform o home esteja disposto a am-
pliar sua percepgCo. Durante o seminario do Rio de
Janeiro, o cientista Gerardo Budowski, nome con-
ceituado que aparece entire os pesquisadores de
tendencias pragmaticas, exibiu uma das raras expe-
riencias de manejo florestal que vem sendo condu-
zida na Costa Rica; e reconheceu que, em determi-
nados bosques, o home s6 tem a ganhar deixando
a natureza produzir seus processes criativos (dos
quais resultam sementes, ess6ncias, principios ati-
vos e a pr6pria complexidade da vida natural) sem
qualquer interferencia. Afirmou que um hectare de
floresta amaz6nica pode render oito mil d61ares ao
ano se, al6m da madeira, forem obtidos outros pro-
dutos florestais. Nesse caso, os 20 milh6es de hec-
tares desmatados (o que pressup6e que a cobertura
vegetal origindria foi de alguma maneira alterada)
representariam 160 bilh6es de d61ares se o agent
da atividade economic na Amaz6nia nao fosse o
predador alucinado que 6 e que o governor finan-
cia para que assim continue a ser.

Muito jogo
para nada

Muitos cAlculos e raciocinios espantosos podem
ser montados se o autor consegue desvencilhar-se
do calculo econ6mico estreitamente pobre que esta
na base do process de ocupagdo da Amaz6nia.
Mas ainda que nio se chegue aos refinamentos de
etnobiologia ou nao se quebre o colossal etnocen-
trismo que empareda os caminhos de acesso a Ama-
z6nia, uma andlise mais racional ainda consegue pro-
duzir choques muito fortes.
Essas analises nio estio mais saindo apenas
das agnncias ecol6gicas ou de entidades preserva-
cionistas. Entre os que as produzem comegam a apa-
recer 6rgdos governamentais e entidades ligadas ao
empresariado. E as matrizes desses ensaios sao as
"imparciais" imagens dos sat6lites de informapgo,
a fonte de maior credibilidade na sociedade contem-
porAnea. O Landsat, por exemplo, mostrou que 72%
dos 12,3 milhees de hectares de floresta alterados
at6 1980 serviram para a formacgo de pastagens em
fazendas de criagqo extensive. Avaliaq6es dos re-
sultados dessa atividade, como a efetuada em de-


zembro de 1985 pela Comif (Comissio de AvallaQio
de Incentives Fiscais), chegam a conclus6es melan-
c6licas. Quase 80% do que se aplicou nessas fa-
zendas foi desperdigado. E, junto corn o dinheiro,
a natureza.
Quando realmente chega a substituf-la, o produ-
to criado pele home no lugar do que era a floresta
vale menos. Depois que 1,5 bilhAo de d6lares -
dos 2 bilh6es usados volatizaram-se na ciranda
de especulag6es formada pela polftica de incentives
fiscais, a Amaz6nia 6, quando muito, um centro de
recria e engorda de gado. Continue comprando cada
vez mais alimentos fora de suas divisas. O mais
trAgico, no entanto, 6 que desmatamento significa
principalmente a simples queima da floresta, sem
qualquer relagao com um process produtivo em
bases racionais.
Se tanto, apenas 1% do potential de madeira
chega a ter algum tipo de beneficiamento. E tamb6m
com 1% que o Brasil participa do com6rcio interna-
cional de madeiras tropicais, embora tenha a maior
floresta do planet. Esse paradoxo aparece sempre
nos discursos do IBDF, sem que o 6rgio tenha con-
dig6es de resolv--lo. Toda a ret6rica sobre o desti-
no florestal da Amazonia nio conseguiu diminuir o
enorme fosso que separa o potential da regido de
sua produgdo real. A madeira continue a ser consu-
mida na pira especulativa: o Brasil nio saiu dos
1% mesmo quando, em trds Estados amaz6nicos, se
desmatou mais do que em todo o restante do pla-
neta.
Reflexes desse tipo devem ter passado muitas
vezes pelas cabegas dos fornidos representantes de
43 paises que participaram, durante 10 dias, no Rio
de Janeiro, do 49 Congresso Internacional de Madei-
ras Tropicais, promovido pela ITTO, entidade sediada
no Japao e que congrega os principals compradores.
Seis deles, incluido o Japao, detem metade do mer-
cado. Eles vio buscar na Africa e na Asia a madeira
que, depois, transformam em produto de muito
maior valor do que as toras comercializadas (em pa-
pel e celulose principalmente). As condic6es de for-
necimento na Africa tornaram-se extremamente di-
ficeis. Em alguns passes asidticos haverM exaustdo
na passage do s6culo. I certo que esses seis
grandes compradores nao poderdo manter a multi-
plicagco de suas relag6es de troca com base nas
mesmas fontes de suprimento.
O congress da ITTO pode demonstrar que, 10
anos depois das primeiras incurs6es, ainda experi-
mentais, eles podem star comegando realmente
transferir-se se nio integralmente, ao menos em
parte para a Amaz6nia. Os organizadores esco-
Iheram o Copacabana Palace como sede, preocupan-
do-se em manter os jornalistas brasileiros discrimi-
natoriamente B distancia. E, a1, podem ter definido
estrat6gias bem mais consequences do que a propos-
ta dos contratos de risco florestais, apresentados
em 1978 como se fossem um subproduto 16gico e na-
tural dos contratos de risco petroliferos.

A desconfianGa
dos nativos

A fome de madeira dos passes centrals jA nio
pode mais ser saciada por col6nias africanas e asiA-
ticas. Na Amaz6nia, o desperdicio 6 brutal. A com-
binagio dos dois pressuostos torna automaticamen-
te bem-vindo o ingresso dos grupos madeireiros in-
ternacionais. Foi corn os bragos escancarados que
o ministry das Relag6es Exteriores, Abreu Sodrd, os
recebeu, em nome do governor brasileiro. Cor os








dois p6s atrds os ecologistas acompanham essa
"evolugfo" do desperdicio ao quase nada de rendi-
mento florestal, que 6 exatamente o que essas in-
distrias se prop6em a fazer quando se deslocam da
Asia e da Africa sem mudar seus m6todos.
No semindrio da Fundacio SOS Mata Atlantica,
realizado justamente para produzir um document de
alerta encaminhado & ITTO, Gerardo Budowski arris-
cou dizer que menos de 1% das florestas tropicais
sio manejadas, isto 6, ndo sao simplesmente quei-
madas ou cortadas, sem preocupaggo com sua repo.
sicGo (ou regeneragio). E possfvel que tenha at6
exagerado nesse percentual minimo. Mesmo as pou-
cas experi6ncias de manejo sao conduzidas sob con-
dicionantes especificas: em areas pequenas, por
nativos, para unidades de produgAo familiares e nem
sempre chegando ao mercado.
Budowski acredita que ease panorama, muito
pobre, vai mudar porque o prego da madeira cres-
cera muito, mais do que o de alimentos, novas esp6-
cies ingressarao no mercado e haverd maior desejo,
de toda a comunidade international, "de buscar so-
lugces para o manejo sustentado nos tr6picos".
Hd um piano impreciso do Banco Mundial de
aplicar oito bilh6es de d6lares em manejo florestal
nos tr6picos nos pr6ximos cinco anos. A ITTO dis-
p6e-se a investor US$ 3 milh6es, provocando 12 mi-
IhWes de contrapartida do governor brasileiro, no ha-
nejo de 104 mil hectares no Acre. A expectativa de
retorno parece ser grande, como se fosse possivel
responder a tantas duvidas t6cnicas e cientificas a
curto prazo. Num moment em que governor euro-


peus, como o da Alemanha, estio dispostos a pa-
gar pela preservag9o de florestas amaz6nlcas ape-
nas pelo receio sobre as consequ&ncias planetarias
das queimadas, alguns grupos ecol6gicos parecem
animados com projetos de manejo como o que o go-
verno acreano props.
Seria esta a inica maneira de apoiar o movie
mento dos seringueiros do Acre, responsaveis pela
mais important forma de resistencia & derrubada
da floresta. Os "empates", que organizam para "em
patar" as queimadas dos fazendeiros que invadiram
o Acre, t6m resultado em conflitos e atd mortes.
Com o apoio do governor do Estado, ficariam cor
uma reserve extrativista de 18 mil hectares, onde as
seringueiras seriam preservadas para a extradio do
ldtex e as castanheiras continuariam dando frutos
para a coleta.
Sem a retaguarda de experitncias sdrias de ma-
nejo e sem a protegoo de informag6es frescas ou
confiaveis sobre o mercado international, os grupos
ecol6gicos temem que esteja sendo post em prati-
ca, em nova version, a velha tatica de oferecer um
boi para fazer a manada atravessar tranquila um rio
de piranhas. Se os grandes grupos madeireiros in-
ternacionais decidiram, de fato, fincar os p6s no sa-
queado solo amaz6nico, vao encontrar entire os na-
tivos um estado de perplexidade pr6prio de quem
tem sido forgado a escolher entire o nada e o coisa
alguma, que 6 o que sobra dessa vasta pilhagem fel-
ta na Amaz6nia para satellite registrar e cientista
lamentar.


0 tempo


da


Se,at6 a metade desta d6cada a pecuaria vinha
sendo a causa principal dos desmatamentos na Ama-
z6nia, corn a tenddncia de perder posig~o nos pr6-
ximos anos para a extraQio madeireira, que ainda
vem bastante atras, o future imediato langa uma
torrent de preocupag6es sobre o significado do
complex siderOrgico em implantasqo ao long da
ferrovia de Carajas. Ha diverg6ncias de nimeros
entire os que avaliam a necessidade de floresta a
ser post abaixo para que se produza o carvio vege-
tal exigido pelos fornos, mas ningudm mals tem dd-
vida de que a siderurgia sero a maior demandadora
de drvores da regiao.
O impact 6 tao grande que as guseiras, duas
das quais ja em funcionamento, v6m insistindo em
minimizar suas necessidades. Alegam que fario o
reflorestamento pelo menos para que um tergo do
que precisam venha dessas reserves. Mas 6 dificil
crer que isso venha realmente a acontecer. Nao 6
apenas pelo atraso dos experiments silviculturais
em relaGso A atividade econ8mica ou pela extrema
carancia de informag6es sobre manejo florestal para
esse fim especifico. O ceticismo alimenta-se sobre-
tudo das circunstAncias que fizeram essas siderdr-
gicas optarem pela Amaz6nia.
Elas estao vindo de Minas Gerais, durante trds
d6cadas o fornecedor ferro gusa A base de carvao
vegetal para a ind6stria automobilistica instalada em
Sio Paulo. As florestas mineiras, com suas exten-
s6es vizinhas no Espirito Santo e mesmo na Bahia
ou Goias, foram dizimadas para alimentar os fornos.
Atualmente os produtores de carvAo dessa area tmrn


destrui ao

que buscar madeira native a distancias de at6 800
quil6metros, que se tornam anti-econ8micas. A al-
ternativa que tamb6m esta sendo apontada para a
Amaz6nia, o reflorestamento, nio atende a mais do
que 2% do consume.
Em cAlculo de ponta de lapis, mais barato do
que continuar procurando floresta native na regilo
ou implantar reflorestamentos 6 transferir-se pars
a Amaz6nia evidentemente, nao para plantar no-
vas florestas, mas para usar as que ja existem. .
uma repetigqo de Minas Gerais de trds d6cadas
atras, com as mesmas promessas do passado e os
mesmos riscos de sempre. So que as preocupacges
com os riscos sco atropeladas pela busca do lucro
imediato.
A part a vantage da floresta como fornecedo-
ra de carvio vegetal, ha tamb6m atrativos locacio-
nais na regilo de Carajds, do Para ao Maranhio.
Mas, num planejamento s6rio e sensivel, esses (tens
nio seriam o bastante ara decidir logo pela instala-
cao do p61o siderdrgico. HA complicadores ecol6gi-
cos graves, como a pr6xima exaustio das florestas
densas do Maranhio, a carancia de agua em alguns
locais (um dos principals sendo o de Agailandia,
para onde foi previsto o maior ndmero de usinas) ou
a fragilidade dos ecossistemas de transig i no Gu-
rupi, que jd estio expostos a uma destrugico incon-
trolavel (o Gurupi, como se sabe, 6 zona de refugio).
Ha tamb6m as ainda recentes "descobertas de gas,
a principal delas no Urucu, Amazonas, que poderlam
aposentar o anacr6nico carvio vegetal nos fornos
das guseiras. E apenas uma questao de tempo, mas
nunca se da esse armisticio A Amaz6nia.









JUSTIQA



Lei do menor esforgo

Cada viagem de um desembargador para fora do Estado
significa um novo salario no fim do m6s. Os privil6gios
sao concentrados e provocam uma onda de reacao.
Mas, no final, o que prevalece mesmo 6 a acomodacgo.


Na iltima quinzena de marco o Tribunal de Jus-
tiga do Pard gastou mais de 1,5 milhAo de cruzados
corn pagamentos a dois desembargadores e um fun-
ciondrio, que viajaram para Brasilia. S6 o presiden-
te, Ossiam Almieda, recebeu 950 mil cruzados de
ajuda de custo para permanecer seis dias em
dois periods em Brasilia, onde foi participar de
reunibo do Conselho da Magistratura e dar "apoio
aos parlamentares". A corregedora geral, Maria LO-
cia Santos, teve direito a 482 mil cruzados, tambem
pelos seis dias que passou em Brasilia participando
da mesma reuniao do Conselho e assistindo a posse
da Associacqo dos Magistrados. Jd o filho do pre-
sidente, Fernando Antonio Almeida, ganhou 131 mil
cruzados por tres dias de didrias na capital federal.
Ele 6 lotado na Corregedoria de Justica.
Como muitos outros contribuintes, uma juiza
cobrou no ano passado do desembargador Ossiam Al-
meida uma explicacgo sobre os criterios que sao ado-
tados para a definicgo das didrias. Indo fazer uma
correigbo em Marabb, ela estava ganhando muito
menos do que funciondrios designados para uma
missbo em Santardm que, na verdade, escondia o
simples turismo de final de semana (e em familiar .
O president se aborreceu e nao responded, como
costume agir. "A dibria ou a ajuda de custo depen-
dem da cara de quem pede e dos humores de quem
concede", explica um graduado funciondrio do Tribu-
nal. Em maio, um desembargador foi fazer correicao
em Itaituba com 72 mil cruzados para gastar em tres
dias, enquanto uma desembargadora recebia 108 mil
para desempenhar igual tarefa em Tucurui, onde as
despesas costumam ser bem menores do que em
Itaituba, inflacionada pelos garimpos de ouro.
As didrias, de qualquer 'maneira, obedecem a
uma tabela usada como base de chlculo. Ja as aju-
das de custo extrapolam qualquer parhmetro. Ainda
que passe um 6nico dia fora do Estado, um desem-
bargador tem direito a receber o saldrio integral de
um mrs, nele incluidos adicionais e vantagens que
o pr6prio governor do Estado tern questionado como
inconstitucionais e algumas a nova Constituicgo ex-
purgarA. Na segunda quinzena o president recebeu
tres salirios gracas a mete6ricas viagens a Brasilia.
As viagens
maravilhosas
Talvez seja mera coincidencia, mas desde que
o Tribunal de Justica adotou essa pritica, copiada
do Tribunal de Contas do Estado, o desembargador
Ossiam Almeida tem sido visto frequentemente nos
movimentados avi6es entire Brasilia e Bel6m. Retor-
nava de uma dessas visits na madrugada do dia 25
de junho e era, seguramente, o passageiro com a
melhor ajuda de custo para viagem: mais de 200 mil
cruzados por dia de permanencia no Distrito Fede-
ral. Mesmo um esbanjador voltaria dessas viagens


com uma alentada poupanca. Um passageiro, infor-
mado dessas mordomias, quis cobrar explicag6es.
Foi contido a tempo de evitar-se um tumulto na bu-
c61ica viagem.
A turma do "deixa disso" tem sido ativa tam-
b6m no pr6prio Tribunal, no qual crescem as reac6es
a uma onda de nepotismo, favorecimento e mordo-
mias cultivada & sombra da atual administragdo. A
tenddncia B acomodag~o, uma das caracteristicas do
F6rum de Belem, onde poucos magistrados escapam
de serem capitulados em qualquer um desses males
cr6nicos, tem impedido as critics abertas ou mes-
mo os conflitos. "Ningu6m ateia fogo porque tem
rabo de palha", diagnostic um antiquissimo obser-
vador das lides forenses. A desembargadora Lidia
Fernandes, por exemplo, tentou arremeter contra
recent concurso para juizes, mas esbarrou na con-
tra-acusacgo de que estaria se insurgindo porque
uma parent foi prejudicada. "Hd famflias inteiras
trabalhando aqul dentro, sem que se saiba, sem que
fosse legalmente possivel", arremata o mesmo ob-
servador, acrescentando nao ser exatamente esse o
caso da desembargadora Lidia, uma mulher quase
espartana.

A grande ciranda
do rabo de palha
Essa ciranda familiar que se espraia pelos com-
partimentos da Justiga paraense foi recentemente
enriquecida com a nomeacao de outro filho do pre-
sidente, Raimundo Correa de Almeida Neto, para o
cobigado cargo de avaliador judicial da Fazenda do
Estado. A vaga existe, mas, alegando irregularidade
no preenchimento, os dois inicos avaliadores o
vereador Alonso Guimaraes e Jos6 Sidrin Junibr -
tentaram derrubar o ato do director do F6rum. O de-
sembargador Almir de Lima Pereira rejeitou o re-
curso, argumentando que o mandado de seguranga
nao era o meio correto e sim uma aqdo popular.
Nao deixou de lembrar, porem, que os dois avaliado-
res, embora no exercicio do cargo durante os sete
anos de vigencia do C6digo JudiciArlo, "nao se lem-
braram de arguir por via capaz a afludncia dos textos
que dao na Comarca da Capital a existancia de tres
avaliadores".
Entre outros motives, os dois alegaram que seu
rendimento caird se o servigo for dividido por tres
avaliadores. Protestaram contra a nomeacao sem
concurso plblico, eles que tambem se tornaram ava-
liadores sem preencher essa exigencia. E temem,
com alguma procedencia, que a nomeacao provis6-
ria do filho do president se perpetue, como se per-
petuam os arranjos feitos no Tribunal.
Essa descrenga gera no comum dos cidaddos a
convicqco de que, quando h6 interesse interno, o for-
necimento da justice, que deveria ser tao cego quan-
ta faz crer seu simbolo, fica condicionado aos inte-









resses mais altos que se alevantam. Maria de Na-
zar6 Pantoja, por exemplo, andava na semana pas-
sada pelas redag6es dos jornais expondo sua situa-
(go angustiante: nenhum advogado que procurou
queria patrocinar a acio de despejo proposta por-
que o r6u era o filho do president, Fernando Anto-
nio. O advogado que ajuizara a aCgo logo desistira
de tentar fazd-la cumprir, assinando em branco um
subestabelecimento, e os outros descartavam a
client para nio se "desgastarem" com o desem-
bargador Ossiam Almeida. Nazar6, que hd oito me-
ses nao recebe o aluguel do apartamento ocupado
por Fernando, queixava-se de ter sido expulsa do ga-
binete do president e ter ouvido a ameaga do filho


de que a acio nao vai prosperar, por "embargo de
gaveta". Se tem razto, 6 questAo a definir. S6 que
o normal seria defini-la na justiga, sem as condicio-
nantes que Ihe sio impostas.
Evidentemente, nao serd o primeiro, nem o
ultimo "embargo de gaveta", mas a situaqco atual
poderi se modificar com os rumos que a sucessao
no Tribunal tomar. Ossiam pretend a reeleigao, se-
gundo alguns pares atropelando as normas em vi-
gor. Resta saber se haverd concorrente cor dispo-
sicao e condic6es de se tornar oposicao. NAo ha-
vendo, prevalecerd a lei maior do Tribunal: a da aco-
modapco.


Justica


na terra


do faroeste


Ao decidir instaurar inqu6rito disciplinary admi-
nistrativo contra o juiz Juramir Barbosa de Oliveira,
da 2a Vara de Marabb, nesta semana, o Conselho da
Magistratura do Pard poderd remexer em casos es-
cabrosos de uma das mais movimentadas e explosi-
vas comarcas do Estado. O inqu6rito foi solicitado
pela corregedora geral, Maria Lucia Marcos dos San-
tos, com base nas conclus6es de sindicancia feita
por uma comissao presidida pelo juiz Paulo S6rgio
Frota e Silva. Mas, al6m de Juramir, outros mem-
bros locais da magistratura, serventudrios da Justi-
pa e advogados poder5o ser atingidos se a investi-
gac o for tao ampla quanto sugeriu a comissio sin-
dicante.
O precario funcionamento da Justiga em Mara-
ba, vasta region marcada pela violdncia e a tensao
social, comecou a ser levantado a partir de um inci-
dente envolvendo o juiz e o advogado S6rgio Couto.
O advogado resistira a uma ordem de prisao do juiz,
que literalmente deu-lhe uma "gravata" no aeropor-
to de .Marabd e o conduziu preso. Mas a dendncia
do advogado sobre o epis6dio tornou-se secunddria
diante de constatac6es mais graves feitas na sindi-
cancia.
Desde que chegou a Marab6, Juramir Barbosa
de Oliveira vinha manipulando a distribuicio dos
processor no F6rum, do qual era director. In-
dependentemente da ordem e preferdncia para as
outtas tres varas, ficava cor as ;ausas de maior
valor ou as que envolvessem determinados advoga-
dos. Usando o official de justica Alan (que fez apro-
var em concurso no qual atuou como presidente,
teria contactado v6rios advogados para dividir o va-
lor das causes. Os advogados procuravam o juiz an-
tes mesmo de haver a distribui~go e frequentemen-
te conseguiam acertar as quest6es. Mesmo quando
nio atuava no process, o juiz aproveitava as ausnn-
cias das titulares para despachar em favor de parties
como a Cooperativa dos Garimpeiros de Serra Pela-
da, que, desinteressadamente, doou m6veis para o
F6rum e o pr6prio juiz, segundo apurou a comissao
de sindicincia, ganhou passagens para a Franga.
Ela ouviu testemunhos sobre as gratifica6bes
(de 5 mil a 10 mil cruzados) que o juiz cobrava para
realizar casamentos, al6m da taxa transformada
em coisa regulamentar quando o ato era no pr6-
prio F6rum. O juiz tambem recebia com incondicio-
nal boa vontade presents e empr6stimos de advo-
gados, como o pr6prio Sdrgio Couto, que Ihe entre-
gou 200 mil cruzados e duas passagens areas de
ida e volta entire Marabd e Bel6m. De outro advoga-
do, o "emprestimo" foi de 400 mil cruzados, o di-
nheiro entregue em notas dentro de um saco de


supermercado.
Muitas das acusag6es nao puderam ser inves
tigadas pela comissao porque algumas testemunhas
depuseram preocupadas com as ameacas que Ihes
eram feitas, entire as quais uma juiza e um serven-
tuario p6blico. Na vasta documentagao juntada na
sindicancia e no relat6rio da comissio, pordm, ha
pistas que, se forem rastreadas cor ateng6o, com-
petencia e honestidade permitirio montar um quadro
dramdtico da situacgo da Justiga na region. Nao 6
A toa que somente em MarabB estdo registrados
quase 100 advogados, a maioria usando caminhos
marginais para atingir os resultados.
O sul do Pard ter sido o cen6rio ideal para os
maiores atos de violencia praticados no Estado, mui-
tas vezes passando por cima da insensibilidade da
Justica ou contando mesmo com a sua coniv6ncia.
Quando nas sedes das comarcas atuavam juizes sin-
gulares, sem qualquer estrutura de apoio e mal re-
munerados, era dificil fazer qualquer exig6ncia. A
situaCgo atual, se ainda esta long de padres ideals
quanto a qualquer desses itens, mudou bastante em
relacAo ao passado.
Juizes j6 nao ganham saldrios tao baixos que
os impegam de ter um padrio de vida medianamente
digno. Eles passaram a contar com um F6rum mini-
mamente equipado e, as vezes, residdncias oficiais.
As varas foram multiplicadas, embora a avolumaglo
de processes ainda exija mais e, sobretudo, me-
thor nivel de qualificag9o. O que, nesse quadro todo
ja nio mais se justifica 6 o alheamento aos gravis
simos problems que tnm sido apontados e aos
nio poucos casos semelhantes ao de Marabd, que
raramente chegam a ser convenlentemente apurados
e, muito menos ainda, punidos.


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A consult

aos oraculos
A estratdgia de todos os partidos para a eleigao
de novembro em Beldm estd dependendo da defi-
nicio do candidate do PMDB. Dentro e fora do par-
tido do governor todos reconhecem que o inico nome
capaz de combinar a forga da mdquina eleitoral corn
o respaldo de um candidate pessoalmente s6rio, en-
tre as alternatives disponiveis, 6 o senador Almir
Gabriel. A unanimidade inclui o governador Hdlio
Gueiros, o ministry Jader Barbalho e o prefeito Cou-
tinho Jorge, aldm dos stores a direita ou a esquer-
da que nio integram o minoritdrio grupo dos que
pleiteiam outra escolha.
Mas o pr6prio senador Almir Gabriel informou,
durante sua permandncia em Bel6m nesta semana,
que s6 tomar6 uma decision no final do m6s. Ele ga-
rante que sua indecisAo tem uma Onica motivag~o:
nio sabe onde pode "servir melhor" as causes po-
pulares, se no Senado, ajudando a criar a legislacio
ordinbria que cristalize as conquistas constitucio-
nais no campo social, ou se na prefeitura de Belem.
Disse que vai concluir uma rodada de conversas
cor as pessoas mais pr6ximas e os lideres do par-
tido antes de revelar sua decision, "que nada tem a
ver cor passes posteriores da minha carreira", co-
mo ressalta.
Embora o senador manifesto seu fascinio com
a possibilidade de arrematar os projetos que idea-
lizou para a saide e a seguridade social em tres dd-
cadas de atuag~o nesses stores, depois de uma de-
cisiva participagio na criagio constitutional, Almir
Gabriel vem se aproximando cada vez mais do retor-
no a PMB. Cita a "formidavel experidncia" de 27
meses no cargo, a import&ncia de voltar a prestar
esse service e reconhece sua candidatura, nio ape-
nas como alternative viavel, mas como a melhor.
Afastou-se de vez, ao menos em terms imediatos,
da dissid6ncia que partiu para o novo partido, o
PSDB, e reforgou a solidariedade ao ministry Jdder
Barbalho. O que falta para concluir esse trajeto 6
matdria do subjetivo, ou de bastidores. Cada um
pode fazer sua escolha especulativa at6 o final do
m&s, quando realmente podera comegar a campa-
nha pela prefeitura de Beldm.

0 que esta

alem do canal
Lopo de Castro Jinior, um dos donos da TV
Guajard, esta convencido de que o empenho da Rede
Bandeirantes em transferir os direitos de retrans-
missio de sua programagio em Bel6m para o minis-
tro Jdder Barbalho, quando ele receber a concessio
para o canal 10, ainda em licitagfo, envolve um ne-
g6cio muito mais amplo do que aparenta (ver JOR-
NAL' PESSOAL n9 21). Quando recebeu a notificaCio
sobre o rompimento do contrato, Lopinho foi a Sio
Paulo e ouviu do dono da Bandeirantes, JoAo Saad,
a informarao de que a emissora passaria a trabalhar
cor o ex-governador. Jdder atd ofereceu 50 milh6es
de cruzados para cobrir a multa contratual que a
Bandeirantes terd de pagar i Guajar.d se vencer a
question provocada na justiga paulista pela emissora
paraense, que ganhou uma liminar.
Depois de permanecer 11 anos associado a Ban-
deirantes, tres deles sem contrato, Lopinho acha


que a ligacao da emissora com o novo canal que
esta surgindo em Belem ser6 muito mais estreita,
"talvez mesmo uma relagio societAria'. Lembra
que o ex-governador do Amazonas, Gilberto Meatri-
nho, 6 nao apenas vice-presidente da Bandeirantes,
"mas provavelmente s6cio do Saad". Segundo o di-
retor da Guajara, Mestrinho teria adquirido, por 50
milh6es de d6lares, 45% da rede Bandeirantes. Ele
tambem estaria por trAs do canal 13, de Manaus, for-
malmente concedido a um grupo empresarial lidera-
do pela Di Greg6rio. Os concessionarios teriam as-
sinado um contrato, pre-datado, para transferir o ca-
nal a Mestrinho cinco anos depois de obtd-lo, contor-
nando assim as exigbncias da lei, que nao admite
qualquer transagAo nesse period.
Lopinho esta certo de que formula semelhante
sera adotada em relagao ao canal 10, de Bel6m. Ele
aposta que a concessao ficard com as Emissoras
Continentals Ltda. e nio com o Sistema Clube do
Pard, a frente do qual estio a esposa e um dos ir-
mios do ministry da Reforma Agrdria. As Emissoras
Continentals foram constituidas por dois diretores
da Bandeirantes (Jos6 Roberto Maluf e Maurilio de
Campos Serra Filho) e a filha do advogado da em-
presa, Fuad Razuk. Eles tamb6m assinariam um do-
cumento de transferdncia para J3der cinco anos de-
pois da concession do canal.
A Bandeirantes, segundo o raciocinio de Lopi-
nho, esta numa investida political nova. Depois de
passar muito tempo a margem do oficialismo, a
emissora teria mudado de estrategia a partir do mo-
mento em que, superando muitas tentativas infruti-
feras, conseguiu um canal de television em Brasilia.
Agora, aldm dos servings de Mestrinho e da future
parceria de Jdder, ela tem entire seus funcionarios
o ex-ministro das Comunicag6es, Quandt de Olivei-
ra. A Bandeirantes estaria tentando former uma re-
de tao global quanto a da lider em audiencia, se-
guindo caminhos similares.

Um titulo

solitario
0 que os ge6logos mais experimentados pre-
viam ocorreu: a Texaco suspended a perfuragco do
superpogo" de Breves. A version official assegura
que a suspensio 6 tempordria e deve-se apenas a
acidentes. Mas novamente os t6cnicos do setor dis-
cordam: acham que dificilmente a locag~o poderf
ser recuperada. De qualquer maneira, volta-se ao
ponto de partida: a ilha de Maraj6 at6 podera dar
6leo, mas nenhuma informacro tecnicamente aceitd-
vel permit fazer tal afirmativa. As expectativas per-
dem o "glamour" que o president Jose Sarney ten-
tou dar-lhes quando falou por telefone de Brasilia
com a base da Texaco, na "jungle". Solitdrio em
sua "descoberta", o president pode atd reivindicar
o titulo que Ihe cabe sem concorrencia: ge6logo do
ano.



Journal Pessoal
Editor responsivel: Licio FIivlo Pinto
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Belim. Par. 66 000 Fone: 224.728
Diagramacno e ilustraclo: Lulz Pinto
Opcio Jornalistica