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Jornal pessoal
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 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00017

Full Text








LoFal Pessoal
Liucio Flivio Pinto


Anol N9MP20


Circula apenas entire assinantes


2* Quinzena de Junho de 1988


PETROLEO



0 pooo do president

I provavelmente magico o popo da Texaco em Maraj6:
da oleo antes de ser perfurado e provoca no president
um entusiasmo sem explicaiao racional. Mas
o que 16lgico nesse jogo de regras invisiveis?


president Jose Sarney nao disse, de fato,
que o pogo pioneiro perfurado pela Petrobras,
sob contrato de risco, na ilha de Maraj6, era
um "superpogo". A expressao foi cunhada
pela imprensa, mas traduziu fielmente o que o pre-
sidente quis dizer com a pantomima montada em
seu gabinete no dia 31 de maio. De 16, ao lado de
outros "notvveis" da Repiblica,.o president telefo-
nou para a base da Texaco no rio Macaquinhos, 280
quilbmetros a leste de Bel6m, e falou com o ge61ogc
Fausto Machado Coelho, da Petrobrds, em estado de
alerta desde tr6s horas antes & espera da ligaqao,
antepipada por aviso do setor de informagbes do
empresa. Entrosada com a cena, a onipresente (em
gabinetes oficiais) TV Globo documentou a conversa
e veiculou-a no mesmo dia para o pais inteiro.
SApesar da cautela do ge6logo, que viu no pogo
apenas a abertura de "uma grande margem de pes-
quisas para as futures prospec96es na bacia", a as-
sessoria da presidencia transmitiu aos rep6rteres
creidenciados no Pal6cio-do Planalto que a "bacia pe-
trotifera" descoberta tinha "alguma coisa em torn
de 18 bilh6es de bars, tres vezes mals que todas
as reserves brasileiras de petr61eo e g6s". Os mais
afoitos logo inclufram o Brasil na Opep, a organiza-
9go dos paises produtores de petr61eo, calculando
o dia da auto-suficiencia, seguida da exporta9go, ca-
paz de fazer o ex-ministro Shigeaki Ueki dangar fan-
tasiado de barril no Planalto.
Quando o balbo de entusiasmo murchou, sopra-
do pelos ventos da realidade, a assessoria do gover
no acusou a imprensa de ter criado o clima de iluso-
ria euforia sobre o "superpogo". No mAximo, a im-
prensa poderia ter-se penitenciado por entrar tao dis
plicentemente no bonde errado que colocaram em
seu caminho. Qualquer Jornalista medianamente in-
formado saberia que ningu6m pode delimitar jazida
de 6leo corn um Onico furo, que tragos de 61eo nao
significam petr6leo abundante, que uma bacia pode
estar cheia ou vazia, dependendo de sua segura ava-
lia9io. No segundo dia, a maioria dos jornais re-
flu!u b onda da Globo, que deu tempo nobre e espago
aberto para a "revelacgo", mas nao conseguiu sus-
tenta-la por mais tempo diante das s6lidas informa-
C6es em contrArio. O objetivo, pordm, jd havia sido
alcangado ?
Depois de ter sido embalada por agraddveis so-
nhos de auto-suficinncla da mais nobre das matdrlas-


r'1
\\ ~/ /. -

-\ \\ II( f/

C-
'Sr~n- ~ ~


primas que Ihe faltam, a socledade brasileira caiu
na realidade: houve manipulag o de informacgo.
Uma parcela considerAvel das pessoas que se inte-
ressam por algo mais do que as manchetes da im-
prensa achou que o president procurou influir sobre
o animo dos constituintes, conquistando-os para o
mandate de cinco anos. I possfvel, mas Sarney nio
precisaria de mals esse Instrumento para garantir
sua vit6ria, avalizada pela abertura do tesouro.
Uma influ6ncia mals duradoura poderia servir
para que, no segundo turno, os constituintes aceitem
report em vigCncia os contratos de risco, suprimidos
no primeiro turno por serem considerados contrarios


Arib N9 2








ao monop6lio estatal do petr6leo. Afinal, a "grande
descoberta" resultara de um contrato de risco.
De imediato, uma revelacAo tdo agradAvel pode-
ria tamb6m levar o Congresso a autorizar a Petro-
brAs a assinar um aditivo ao contrato de risco com
a Texaco, aceitando assumir investimentos que a
multinational estA incapacitada de fazer por causa
dos problems financeiros que enfrenta nos Estados
Unidos (pagara a maior indenizalio da hist6ria do
pais, de tres bilh6es de d61ares, h Penzoil). Embora
tendo um filZo de 6leo, a Texaco estava disposta a
ceder metade dos direitos sobre 70% da Area A Pe-
trobrAs. Dentro da empresa estatal, hA fortes grupos
de pressdo favorAveis a essa proposta, que seriam
auxiliados pelo anuncio presidenclal, capaz de ven-
cer as resistencias dos c6ticos, se nAo nos debates
t6cnicos internos, ao menos na batalha de conven-
cimento junto & opinido p6blica.
Marginalmente a tudo isso, hA tamb6m a feroz
especulaCAo de papeis na bolsa, que frequentemente
estA por trAs dos lances escabrosos armados muito
'onge das bases de pesquisa. Mesmo que nao jorre
6leo, muita gente ganha enormes quantidades de di-
nheiro s6 com as noticias de descobertas, estas, sim,
inesgotaveis. Quando se conseguir esclarecer satis-
fatoriamente este novo capitulo marginal B hist6ria
do petr6leo, todos jd terno esquecidos do epis6dio
- e predispostos, por isso, a novas manipulag6es.
Tem sido a regra.


A falsa


traducao
A exagerada expectativa criada em torno do
poco da Texaco na ilha do Maraj6, no Para, poderd
resultar em mais uma frustragAo na hist6rla da busca
de petr6leo na Amaz6nia, jd repleta desses desfe-
chos desanimadores. Esse era o receio de v6rios
tdcnicos do setor ouvidos em Belem, 48 horas de-
pois do euf6rico pronunciamento do president Josd
Sarney. Como sempre, esses t6cnicos, com longa
experiencia de campo, ndo negavam a possibilidade
de um resultado positive no IBV-1PA, mas nao con-
cordavam em considerar esse pogo excepcional.
Mesmo o ge6logo da PetrobrBs que falou com
Sarney de Breves, pelo telefone, ouvindo a aprecia-
95o entusiasmada do president, parecia partilhar
essas reserves. Fausto Machado Coelho, com 12
anos de Petrobrds, admitiu que o poco de Breves nao
foi o melhor no qual ja trabalhou, apontando outros
- entire os mais de 100 incluldos no seu curriculo
professional que apresentaram caracteristicas
mais favoraveis.
O que provocou o andncio do "superpoco" pelo
president foi um fato praticamente rotineiro nas
prospecg6es feitas em Areas prioritdrias: o apareci-
mento de tragos de 6leo na area retirada do fundo
do pogo. Um ge6logo da Petrobras lembrou-se de jA
ter vivido experiencia semelhante, "mas acabamos
constatando que o 6leo era do pr6prio equipamento
de perfuracio", hip6tese que ele nio descarta no
caso de Breves.
Os t6cnicos ficaram Intrigados com o apareci-
mento do 6leo mil metros abaixo da zona considera-
da mais interessante pela sismica da Texaco "e mui-
to antes da formagdo convencionalmente mais apta
para o armazenamento do petr61eo". Observam que
a Texaco ja considerava encerrado o trabalho nesse


primeiro pogo pioneiro e atd preparara a pr6xima lo-
cagIo do segundo pogo pioneiro, que foi posicionado
numa estrutura distinta da anterior, "o que indica a
perda de confianga na Area em que vinham traba-
Ihando atW entao".
Mais estranho ainda para os t6cnicos foi a ini-
ciativa dos dois t6cnicos da Petrobras que fiscaliza-
vam a execuCdo do contrato de risco pela Texaco:
eles teriam forgado o prosseguimento da perfuracgo
e foi em consequencia do aprofundamento que sur-
giram os "indicios de hidrocarboneto liquido, segun-
do as cautelosas expresses do ge61ogo Fausto Ma-
chado Coelho. "e um procedimento completamente
original na hist6ria de 13 anos dos contratos de r
co", nota um tdcnico da Petrobrds: "normalmente,
decis6es desse tipo s6 quem pode tomar e a em-
presa contratante".
Os tecnicos reconhecem que, por m6todos com-
parativos, a regido do Maraj6 e todo o delta do rio
Amazonas apresentam enorme atrativo para a pro-
dugdo de 61eo. O "graben" (que quer dizer fossa)
do Maraj6, por exemplo, onde a Texaco atua sob
contrato de risco, apresenta uma estrutura seme-
lhante as melhores Areas produtoras de petr6leo no
Mar do Norte. A enorme extensio desses alvos, po-
rem, complica a prospecgco, segundo esses t6cni-
cos. A Area de interesse na foz do Amazonas se es-
tende por 150 mil quil8metros quadrados. Nela, ji
foram perfurados pogos, como o PAS-9, que chega-
ram a produzir 1.200 barris por dia, mas nio conse-
guiram tornar-se comerciais. Ou foram detectadas
estruturas que s6 em models te6ricos ideals pode-
riam ser mais aptas a armazenar o 61eo. Ainda as-
sim, entretanto, esse vasto litoral continue sendo
apenas o grande sonho dos ge6logos e engenheiros
da PetrobrBs e o poco de Breves nlo seria o mais
apto a transformer esses sonhos em realidade.
O resultado obtido pela Texaco em seu primpiro
pogo pioneiro represent um avango no conhecimen-
to do subsolo do Maraj6. Pela primeira vez, sabe-se
que all ha armazenamento de 6leo. Mas, ao anunciar
que ja existe uma jazida, o president Sarney foi
muito al6m do que a realidade e o mais elementary
bom senso podem sustentar. t como se um avicul-
tor ja anteclpasse a produgAo de ovos de sua-granja
antes de ter comprado as aves e organizado a pr6-
pria granja. Corn isso, o president prejudicou ao
inv6s de favorecer o s6rio trabalho de pesquisa -
e de investimento exigido para ir do 6leo A ja-
zida.


Frustra96es


do


passado


De hora em hora os t6cnicos do Departamento
de Explorag~o da PetrobrAs, no Rio de Janeiro, liga-
vam para o escrit6rio da empresa em Beldm, em
maio de 1980, cobrando informaq6es sobre os testes
de producdo no poco APS-31-A, a 200 quilometros
do litoral do Amapa. Entusiasmados, achavam que
dessa vez iriam chegar a uma grande descoberta:
os perfis eldtricos indicavam a existencia de muito
6leo, que poderia chegar a superficie porque a pres-
sao no pogo era extremamente alta. A estrutura, de
35 quilometros quadrados, era maior do que as Areas
produtoras da bacia de Campos. Todos aguardavam
pelo melhor resultado da prospecdio petrolifera na
hist6rla brasileira.








Mas a enorme estrutura que os perfis eldtricos
faziam supor estar cheia de 6leo continha, na ver-
dade, agua doce. Muita 6gua jorrou na plataforma,
libertando-se do armazenamento em que fora man-
tida por milhares de anos. Como o petr6leo, a agua
doce apresenta uma elevada resistividade nas rochas
marinhas do fundo do oceano. Na sismica, deu a ilu-
sao de que era um vasto pogo de petr61eo.
A frustracgo dos t6cnicos da Petrobrds cor a
APS-31-A nao era a primeira e provavelmente nao
sera a ~ltima na hist6ria da busca do petr6leo na
Amaz6nia. Ela tem sido marcada pela constant -
e quase sempre brusca sucessio de moments
de euforia quase incontrolada cor moments de
absolute desAnimo. Se a regido apresenta todas as
condip6es te6ricas para ser considerada uma das
zonas potencialmente mais ricas do planet para ae
acumulagdo de petr6leo, 6, tamb6m, uma das que
oferece maiores dificuldades para os t6cnicos.
No litoral do Amapd e do Pard houve at6 prodt
gco de 6leo, mas, muito distant do litoral (at6 250
quil6metros), ela nao teve viabilidade econ8mica.
Em 1976 o entao ministry das Minas e Energia, Shi-
geaki Ueki, fez uma visit de emergdncia a platafor-
ma de perfurapco para buscar um vidrinho do 6leo
que jorrou, levado pessoalmente para o president
Ernesto Geisel ver e tamb6m entusiasmar-se. Ueki
prometeu logo depois que sairia no carnaval fanta-
siado de barril de 6leo se o Brasil nao se tornasse
auto-suficiente logo. Isto nao aconteceu, nem Ueki
tentou o titulo de originalidade nos desfiles carnava-
lescos.
No Maraj6, sempre houve uma grande expecta-


M.o


tiva. Aplicando a mais modern tdcnica sismica, a
Texaco identificou uma imensa estrutura certa-
mente a maior do continent brasileiro semelhan-
te bs mais produtoras do .Mar do Norte. Como havia
ocorrido cor o pogo amapaense, teoricamente as
possibilidades de descoberta de uma grande jazida
eram apreciaveis, mas semelhantes Bs de um jogo
de loteria programado por computador.
"So que aquilo que se imaginou ser 6leo eram,
na verdade, concreq6es mineral6gicas. Na sismica.
elas apareceram como 'pontos luminosos'", narra
um t6cnico. Quanto a esse "bright spot" ele nao
tem duvida: "Na PetrobrBs, todos suaram frio du
rante v6rios dias ao imaginar que a Texaco, contra-
ri-ndo as previs6es, havia mesmo descoberto um fi-
15o de 6leo". Mas quando a perfuraq~o passou dos
quatro mil metros, onde estava o alvo maior de in-
teresse, sem atingir o outro intervalo visado, muito
mais profundo e ao qual a sonda atualmente em uso
nao poderia chegar, "o pessoal da PetrobrBs voltou
a respirar aliviado".
O andncio do.presidente Sarney deixou os tdc-
nicos "completamente perplexos e aparvalhados".
confessou um deles, que imediatamente depois de
ver o Jornal Nacional telefonou para um dos execu-
tivos da Texaco. "Ele me disse que tambdm tinha
sido informado da 'descoberta' pela television e nao
sabia dar qualquer outra explicagio", narrou. Ape-
nas Sarney, a dois mil quil6metros de distancia, sa-
bia do que e por que estava falando. Aldm
do circulo mais pr6ximo da presidencia, natural-
mente.


HIDRELETRICAS



palmat6ria?


Quase quatro anos depois de ter ccnstruido
a usina de Tucurui, a Eletronorte ja admit virios errors
que cometeu e que recusava aceitar. Qual a relacgo
dessa confissio com a nova obra que a empresa realizard?


0 inico cinema de Altamira, um velho, pouco
iluminado e mal conservado pr6dio, talvez nao
fosse o melhor audit6rio, mas foi nele, duran-
te um semindrio sobre meio ambiente promo-
vido por entidades locais, na semana passada, que
o coordenador da presid6ncia da Eletronorte, Jose
Antonio Muniz Lopes, aproveitou para fazer um "mea
culpa" em nome de sua poltmica empresa. Foram
revelag6es importantes, que a maioria dos ouvintes
nio p6de avaliar inteiramente: a Eletronorte estava
admitindo erros que at6 entgo negava ter cometido,
uma nova postura que talvez tenha assumido para
nao ver repetidos, na construcgo da hidrel6trica de
KararaB, seu novo e gigantesco empreendimento, no
Xingu, os problems enfrentados em Tucurui, no To-
cantins.
Jos6 Antonio, que ingressou na Eletronorte dois
meses antes da inauguracgo da usina, em setembro
de 1984, reconheceu que, na construcgo da obra, a
empresa criou uma Tucurul de luxo e uma Tucurui de
lixo. O luxo estava na vila residential permanent,
instalada em uma area alta, corn vistas para o lago
e a barrage. Enquanto ali o padrdo de vida para
o "staff" era sueco, a alguns quil6metros de dis-


tancia, na velha sede municipal, transformada em
lixo, ocorriam problems africanos, como surtos de
gastroenterite, elevadissimo indice de prostitui4go,
car6ncia de moradias, desemprego. A obra, que che-
gou a mobilizar 30 mil pessoas, trouxe mais proble-
mas do que solug6es para Tucuruf, situagio agrava-
da porque o governor Geisel, arbitrariamente, isen-
tou os empreiteiros do pagamento do ISS (Imposto
Sobre Servicos), que deveria ser a principal fonte do
renda do municipio.
A Eletronorte limitou os beneficios ao canteiro
de obras, severamente protegido e isolado da mis6-
ria circundante, embora essa mis6ria fosse gerada
pela pr6pria usina: apenas uma pequena parcela dos
migrants que chegavam a Tucuruf, atraidos pela
oportunidade de emprego, conseguia realmente ser
absorvida. A maioria ficava em atividades paralelas.
marginais ou sem qualquer atividade, perambulando
pela cidade, que inchou e nao recebeu recursos para
tender a toda a demand que a explosAo demogrd-
fica provocou. Hoje, quando esses complicadores
persistem, Tucuruf nio se favorece nem da desativa-
cgo de part das moradias da vila da Eletronorte,
mantidas fechadas, sem uso e sem destinacgo pre-
vista. A Eletronorte agora promete n5o praticar essa








"poluiqco social" em Altamira.
No Xingu, a Eletronorte se compromete a corri-
gir outra falha de Tucurui: fard uma delimita9go mals
rigorosa da drea do reservat6rio. Houve varios cAl-
culos da Area de inundagao da barragem no Tocan-
tins, que comegaram em 1.600 quil6metros quadra
dos, subiram para 2.160 km2 e acabaram em 2.430
km2. Essa excessive margem de erro decorreu da
imprecisao dos mdtodos adotados e acorretou si-
tuacqes inc6modas, tanto para a empresa como para
outros 6rgios pdblicos e, principalmente, a popula-
g~o atingida. Jos6 Antonio anunciou que, ate 1990,
a Eletronorte e o Ministdrio do Ex6rcito fario um le-
vantamento real da area do reservat6rio da hidre-
l1trica de Karara6, que devero ter 1.225 quil6metros
quadrados, dos quais 615 km2 jd sao ocupados pela
calha do rio. S6 assim serd possivel precisar os
contornos do lago a ser formado com o represamen-
to do rio, prevenindo problems antes, durante e de-
pois do enchimento, como os que ainda persisted
em Tucurui.
Jose Antonio, que tamb6m chefia o planejamen.
to da Eletronorte, reconheceu que o balango das re-
lacqes entire a Eletronorte e a regiio, em Tucurui, foi
negative e que, por isso, o projeto "foi tratado mes-
mo como um enclave na region". Lembrou que, ori-
ginalmente, a Eletronorte pensava em implantar um
pequeno aproveitamento energ6tico no Tocantins,
em Santo Antonio, para 1.100 megawatts, que abas-
teceria Beldm, cronicamente submetida a raciona-
mento. "Mas a empresa recebeu do governor a mis-
sio de construir usina maior", que viabilizaria proje-
tos eletrointensivos, como as fabricas de aluminio
da Albrds, em Barcarena, e da Alumar, em Sco Luls.
Depois de um semindrio realizado em Bel6m,
em dezembro de 1985, a Eletronorte decidiu refletir
sobre sua mission, procurando "maior inserq~o regio-
nal". Por essa "nova visio" aninciada por Jose An-
tonio, a Eletronorte esta convencida de que o apro-
veitamento do potential hidrel6trico das bacias ama-
z6nicas ter que ocorrer "no context regional" -


nio apenas com o objetivo de gerar a maior quantida-
de possivel de energia a um menor custo, meta ob-
sessiva em Tucurui. A empresa nio permitirla mais
que no Xingu se repetisse a situagco lamentada no
Tocantins: cidades pr6ximas a usina continuam sen-
do abastecidas por velhos geradores A base de pe-
tr61eo enquanto a energia 6 remetida para consumi-
dores privilegiados a long distancia.
Tamb6m ele anunciou a disposicio de corrigir a
erro praticado sobre a floresta da Brea de inundaaio
da barrage. Em Tucurui, depois da rocambolesca
tentative da Capemi de dar destinagio economic a
madeira, a maior parte da floresta acabou submersa
no lago, com grande prejuizo economic e sdrias
sequelas ecol6gicas. Para o Xingu jd comegam a ser
feitos pianos de aproveitamento e a Eletronorte ga-
rante que ira mais long: estimulard o beneficiamen-
to, no pr6prio local, da madeira que for extraida do
future reservat6rio.
Jose Antonio garantiu ainda que o Xingu vai se
incluir num capitulo novo da historia da Eletronorte,
que comegard, a rigor, corn a usina de Manso, em
Mato Grosso: a empresa avaliard os impacts eco-
l6gicos antes que eles ocorram, antecedendo mesmo
o inicio das obras. Esses estudos sao exiggncia cor-
rente ha trds d6cadas em paises desenvolvidos, mas
foram ignorados na construCio de Tucurui e Balbina
(para nio falar nas pequenas usinas anteriores, de
Curud-Una, no Pard, e Coaracy Nunes, no Amapd).
Declarou o t6cnico que um dos crit6rios para a de-
finipao da hidreletrica de Kararao foi justamente o
minimo de interfernncia sobre o Parque Nacional do
Xingu, o maior do ginero no pals.
Empolgado, Muniz disse que s6 ha uma hidreld-
trica melhor do que a de Karara6: 6 a de Xing6, que
encerra o ciclo de aproveitamentos no "rio da inte-
grageo national", o legenddrio Sio Francisco. O Nor-
deste nio terd mais hidrel6tricas depois de Xing6.
JA a Amaz6nia ainda terd muitas delas depois de
Karara6, que serd a maior de todas, superando in-
clusive a binacional Italpu.


avanCo.


Mas


que avan o?


A Eletronorte s6 comecou a avaliar os efeitos
ecol6gicos da hidrel6trica de Tucurui cinco anos de-
pois do inicio das obras civis. No Xingu, o Relat6rlo
de Impactos Ambientais deverd estar pronto no fi-
nal deste mis, pelo menos um ano e meio antes de
qualquer execuCgo em obras de apoio A barrage.
6 um avanco incontestavel, mas qual a qualidade
desse avango? Se nio hd d6vida que elimina uma
defasagem brutal em relagao a paises mals exigen-
tes do que o Brasil, ainda falta checar com rigor se
de fato atualiza convenientemente o pais ao que
hd de contempornneo em mat6ria de construcdo de
barragens.
A Eletronorte assegura que tem comparecido a
todos os encontros que sio realizados para a discus-
sio do projeto de Karara6, mas 6 surpreendente o
grau generalizado de desinformacio que ainda per-
siste, mesmo em audit6rios teoricamente qualifica-
dos. Essa pouca difusio de informaq6es sobre a
obra pode, ao menos parcialmente, ser explicada
pela maneira com que esses conhecimentos sio pro-
duzidos por consultores contratados de acordo com
cliusulas draconianas, que transformam o resultado
das pesquisas em produtos exclusivistas.
A forma de divulgar os estudos em andamento
tamb6m limita bastante as possibilidades de aprofun-


dar o conhecimento e, sobretudo, a controversial
- sobre a obra no grau que seria desejdvel. Duran-
te tr6s dias desta semana a Eletronorte, atravds de
seus consultores, participou de um semindrio em
Beldm, realizado quando o Rima jA estd praticamente
concluido, com reduzida ou nenhuma margem para
absorver eventuais critics e fazer retificac6es ou
completes reformulag6es. O diAlogo que a empresa
de fato esti travando cor a comunidade acaba vi-
rando uma converse entire surdos.
Como os parnmetros de andlise parecem ser'os
pdssimos exemplos de Tucurui e Balbina, os avan-
gos surgem como grandes conquistas. Mas eles
perdem expressio quando referidos ao que deveria
ser um padrno contempornneo de construcFo de bar-
ragens em Areas tao complexes como a AmazOnia.
Apesar das antecipag6es que a Eletronorte esta fa-
zendo em relag~o a Karara6, o tempo ainda parace
muito curto para permitir melhor discussion do proje-
to. Mais ainda do que isso, tais discusses podem
servir apenas de decoragbo para decis6es ji adota-
das.
Mais uma vez, por exemplo, a transposicio da
barragem 6 dissociada da usina de energia. Apesar
da ret6rica em torno do aproveitamento mdltiplo da
nova obra, que inexistiu em Tucurui e nao existira


Um








em Balbina, a Eletronorte exclui de seus custos tudo
o que nio for geragco de energia. A posigio tem
coerdncia com a funcgo de uma empresa especiali-
zada, mas contradiz o compromisso anunciado por
Jose Antonio Muniz, de que a hidrel6triac faz parte
de um contexto regional". Para que a frase vA do
discurso A pr6tica, 6 precise que um 6rgio institu-
cionalmente mais forte do que a Eletronorte partici-
pe da execucgo do empreendimento. Mas esse 6r-
gao, que poderia ser a Sudam, assistiu indiferente
a Tucuruf e continue & distancia de KararaO. A,Ele-
tronorte 6 a dona da obra e a realize conforme sua
pr6pria image setorial.
As possiveis eclusas no Xingu estao numa con-
figuragio diferente da que havia no Tocantins. Como
o desnivel na barrage 6 20 metros maior, a reposi-
9o da navegaGio exigiria uma camara a mais do
que as duas de Tucurui, canals mais extensos e in-
vestimento elevado, seguramente nio abaixo de 400
milh6es de d6lares. Alem disso, nunca houve nave-
gagio regular na grande volta do Xingu, local da
usina, nem ha perspective no horizonte favorAvel ao
transport fluvial como opqio de escoamento. Ainda
assim, a delegacAo dupla de compet&ncia a Eletro-
norte cor a barragem e a Portobrs corn as eclusas,
vistas como obras distintas mant6m os erros do
passado.


Agora a Eletronorte ja esta tratando de umr pa-
no director para Altamira, que nZo houve em Tucurui,
mas ainda 6 uma providencia timida em relacao &
extensio do impact que a cidade e o municipio so-
frerio. S6 corn o pessoal que a obra mobilizard dire-
tamente, a populaqco de Altamira crescerd de um
tergo. A Eletronorte promote nio fazer mais ndcleos
residenciais isolados, mas estd disposta a impor
"uma certa discipline" sobre as duas "cidades li
vres" que vio surgir, jd atrasadas. Nao 6 impossivel
que a empresa tenha bons prop6sitos nessa inicia-
tiva, mas novamente age como entidade setorializa-
da, que bitola sua visao do regional pela contabilida-
de do custo de cada quilowatt instalado.
Nesse aspect, Karara6 surge sob um signo
mais favordvel. Produzird quase tr6s vezes mais
energia do que Tucurui, inundando drea 40% menor,
a um custo final do kw 50% inferior. Na fase de
piano bAsico, Karara6 esti orgada em 5,8 bilh6es de
d6lares. Tucurui comegou corn previsio de US$ 2,5
bilh6es e foi concluida com preco hist6rico (sem
juros) dobrado, mas com a ameaga de ultrapassar
US$ 8 bilh6es ate star inteiramente amortizada.
Bern que Karara6 poderia comegar a inovar em ma-
teria de projegAo orgamentdria e de cumprimento da
palavra empenhada.


Cacique


INDIO



no


mercado


Para falar de natureza numa fabrica que polui, Raoni
veio, viu e voltou ao Xingu. Seus gestos e suas
palavras na entrevista coletiva dada em Belem, deixam
no ar o complement da image: indio pode vencer?


A cena chega a ser bizarre. Algumas dezenas
de pessoas se movimentam nervosamente na
sala modern no satimo andar do pr6dio da
tristemente famosa Capemi, num dos princi-
pais bairros de Bel6m. Todas gravitam em torno de
uma mesa ocupada por tres indios. Dois deles ves-
tem-se como qualquer um dos cinegrafistas ou re-
porteres que estio diante deles, embora sejam ca-
ciques. O outro tambrm 6 cacique, veste uma blusa
quadriculada de manga compride, calga preta e san-
dalias com meias, ostentando um rel6gio metilico
no pulso. Mas fala na sua pr6pria lingua, corn de-
senvoltura que o enorme batoque nos libios nao
prejudice. Sobre a blusa, que tirou no meio da en-
trevista, colares vistosos combinando c6res, o metal
dos broncos e os produtos da floresta.
8 dificil nio acreditar em Raoni, um dos mais
influentes lideres indigenas do Brasil, quando ele
diz que se voltar a encontrar-se com o president
da Funai, Romero Juc6 Filho, "posso bater nele"
Alto, musculoso e bem conservado para seus 55 ou
56 anos, Raoni fala com vigor, quase gritando, quan-
do ataca Jucd, president do drgao governmental
designado por lei para ser o tutor de todos os in-
dios. Fecha os olhos, faz careta, modula o tom da
voz, movimenta expressivamente os bragos, "vive"
suas palavras, um modo oriental de falar que parece
confirmar as melhores teorias sobre a origem do ho-
mem da Amaz6nia, como de todos os lugares do
planet.


Raoni diz que no curriculo de Jucd j4 hd muitos
indios mortos, os Tikunas no Amazonas e os lano-
mami em Roraima, assassinados a tiros sem pbder
se defender. Os Tikunas sio os indios corn a mais
antiga tradirio de contato cor a civilizagco branch,
o inico agrupamento de expressAo demografica ain-
da vivendo na calha do rio Amazonas. Raoni diz,
com 6dio, que Jucd "esti matando indios, por isso
nao gosto dele".
Ha um env6lucro especial nessas palavras. Rao-
ni foi trazido do Parque Nacional do Xingu, a mais
important experiencia aculturativa national, com
quase trds d6cadas de exist6ncia, para fazer uma
rapida palestra de 30 minutes na Albrds, o cons6rcio
nipo-brasileiro que produz aluminio a 40 quil6metros
de Belem. A Albrds, sob o peso de realizar uma
das atividades industrials mais hostis ao meio am-
biente, quis arrematar sua semana ecol6gica de for-
ma original. Raoni relutou a principio, mas aceitou o
convite. Nada cobrou alem de passagens, hospeda-
gem e presents para ele e dois acompanhantes (um
terceiro veio por conta pr6pria).
Entrou na sala que a assessoria de imprensa da
Albrds ocupa no pr6dio da Capemi como um esta-
dista que vai dar entrevista a correspondents es-
trangeiros. E isso o que Raoni 6 na sua pr6pria tribo,
cor ascendencia sobre outros caciques como Mega-
ron ou Paiakan. Os dois serve de int6rpretes, nao
apenas para traduzir perguntas e respostas (tarefa
nem sempre necessdria porque Raoni fala razoavel-
mente o portugu6s, optando taticamente pela sua









lingua), mas para servirem de mediadores.
Os dois fazem parte de um tipo de liderange
ainda bastante recent entire os indios. Megaron tra-
balha na assessoria da presidencia em Brasilia e
Paiakan na diretoria regional, em Belem. SAo, simul-
taneamente, caciques tribais e burocratas. Quando
as perguntas sao mais inc6modas ou afetam mais
frontalmente a Funai, Megaron e Paiakan fazem con-
sultas mrtuas na pr6pria lingua antes de repassar a
pergunta, ou tentam dar as respostas. Querem fa-
zer fluir os protests de Raoni, mas ficam numa po-
si(go inc6moda enquanto empregados do tutor au-
toritdrio, como algod6es entire vidros.
Tecnologia branch
a service do indio

Raoni estd em franca campanha para depor JucO
da presidencia da Funai, mas nunca foi tao agressi-
vo como durante a coletiva em Beldm. Apesar de
o Xingu ter mais de quatro milh6es de quil6metros
quadrados, Raoni diz que os indios do parque estio
cada vez mais cercados, jd nao podem circular em
areas que constituiam seus dominios imemoriais,
ocupados por fazendeiros, garimpeiros e madeirei-
ros. Ha um certo constrangimento na sala quando
ele invested contra o president Sarney, que Ihe pro-
meteu preservar toda a vasta drea na divisa do Pard
com Mato Grosso, entire o parque do Xingu e a re-
serva Kayap6, esta corn 3,6 milh6es de hectares.
Mas essas terras tambdm estao sendo devastadas,
irrita-se Raoni.
Ele pega uma pasta de couro que esta no chao,
coloca-a sobre a mesa, em cima de um envelope de
papel, e retira dois mapas. Um deles jd 6 famoso:
os constituintes circularam com ele pelo pr6dio do
Congress, carregando uma versio ampliada. e o
mapa que localiza alvards de pesquisa ou de lavra
concedidos dentro de territ6rios indigenas, contra-
riando lei em vigor. E trabalho do CEDI (Centro
Ecumdnico de Documentcgao e Informagao), a prin-
cipal fonte de informag6es sobre indios no Brasil e,
hoje, sua mais important assessoria t6cnica. O ou-
tro mapa enfileira os aproveitamentos hidrel6tricos
previstos para o Xingu, com suas respectivas dreas
de inundag~o. Paiakan diz que o obteve nos Estados
Unidos, "porque a Eletronorte nao deu at6 agora ne
nhuma informagco para n6s sobre essas hidrel6tri-
cas", complete Raoni.
Nao foi apenas mapas que os indios; consegui-
ram trazer dos Estados Unidos. Com as dendncias
apresentadas, eles fizeram um consultor do Banco
Mundial, a "consciencia critical" do process de ocu-
pagdo da Amaz6nia sob a Nova Repablica, vir ao Bra-
sil verificar o que foi dito em Washington. Os indios
ja sabem transitar pelos complexes caminhos buro-
crdticos e tem acesso a algumas das chaves para
esclarecer certos mistdrios que desabam sobre suas
vidas por forga das decis6es dos brancos.
Raoni fala corn desenvoltura, introduzindo na
sua lingua voc6bulos que nao faziam part do seu
cotidiano (gravador, por exemplo, arma tao estima-
da quanto a borduna), corn a sem&ntica que apren-
deu nos contatos com os caciques de palet6 e gra-
vata. t uma linguagem que os amigos acadrmicos
chamariam de articulada, sem perder, no entanto, a
capacidade de se expressar em imagens originals.
Mas com toda a cautela: enquanto os cinegrafistas
das emissoras de televisio trabalham com suas ca-
meras JVC, o indio Waiwai, da comitiva de Raoni,
document tudo na sua pr6tica Magnavox. Na volta,
a tribo vai poder avaliar como foi a entrevista e
quem a ganhou. Beneficio dos m6todos audiovisuais


que nao podem ser uteis apenas a uma das parties.
A visit de Raoni deve ter sido a primeira de
um cacique a uma fabrica quase s6 associada nega-
tivamente a ecologia. Teve tratamento de autori-
dade, com direito a atrair funciondrios curiosos e
uma imprensa presenteada com boas imagens,
cheias de contrastes. Mas nao serd a ultima: os in-
dios tambem aprendem muito com essas experign-
cias, adquirem mais traquejo. Com roupa e tudo,
Raoni teorizou sobre as vantagens da vida natural,
os beneficios que pode trazer tanto para os que nela
vivem diretamente e em harmonia, como para os
que estao no fim da linha, nas cidades, mas podem
encontrar ervas e raizes miraculosas em seu mer-
cado urban. Encantado, Raoni identificou na feir,
do Ver-o-Peso ervas e raizes que estao no dia-a-dil
dos Trukarramde no Xingu, e depois confessou: seri;
bom que esses produtos nunca desaparecessem
Mas, por enquanto, este 6 um suspiro de esperang
sobre a qual poucos podem, honestamente, acresce;-
tar um ponto de exclamagro.


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Novo


COMUNICAQOES



imperio


a


Em 1982, Jader Barbalho tinha apenas um precario
journal de campanha. Agora, esta formando um imperio. Mas
cria inimigos pelo caminho. Nessa luta,
delineia-se a "avant-premiere" da dispute pelo poder.


No m6s passado o empresario Carlos Santos,
dono de uma das principals cadeias de lojas
de varejo de Bel6m e um dos maiores vende-
dores de discos do pais, percebeu que nao
conseguiria obter o mais novo canal de televisao
que o governor vai conceder na capital paraense (on-
de funcionam quatro emissoras e a quinta esta em
fase de instalacao). O canal 10 j6 estava reservado
ao ministry da Reforma Agrdria, Jdder Barbalho,
mesmo antes da abertura das nove propostas apre-
sentadas era o que se dizia nos corredores do
Ministdrio das Comunicaq~es, em Brasilia. "Trata-se
de premiacao que o president Jose Sarney vai dar
a um dos membros de seu governor que mais se
empenhou pelo mandate de cinco anos", informou
uma fonte do Ministdrio.
Carlos Santos foi quem viabilizou tecnicamente
o novo canal: financiou estudos que mostravam a
possibilidade de colocd-lo no ar, remanejando-o de
Castanhal, para onde originalmente estava destina-
do. Durante tr6s anos tratou de fazer andar o pro
cesso em Brasilia, onde esteve cinco vezes para tra-
tar especificamente do assunto. Mas a ultima hora
apareceu o ex-governador, al6m de outros seis pre-
tendentes, estes podendo ser derrotados na concor-
rdncia, mas Jader imbativel no "tapetAo".
Com seu jeito humilde, Carlos Santos arriscou
um Iltimo lance. ,Marcou uma audiencia e foi ao
apartamento de Jdder, uma luxuosa cobertura ao lado
do Museu Emilio Goeldi, para conversar. Como se
desconhecesse as informag6es de bastidores, rela-
tou o esforgo que vem fazendo para concretizar seu
"maior sonho" e pediu o apoio do ministry para con
seguir a television. jader foi seco: disse que nao
podia dar esse apoio porque tamb6m era concorren-
te e tinha o apoio do president para ficar com o
canal. Carlos Santos tentou uma alternative: ficaria
com o canal, mas deria todo o espago de que Jdder
precisasse na televised, ou mesmo poderia se asso-
ciar a ele, em cotas iguais. O ministry encurtou a
converse: como empresrrio, Carlos Santos queria a
television para transform6-la num neg6cio rentivel,
enquanto ele, Jdder, precisa de um instrument de
comunicaQgo com objetivos politicos. Estava selado
o rompimento.
Mas ele n5o atingiu apenas Carlos Santos, que
se consider injustigado enquanto homem de comu-
nicap5o", dono da radio AM com o mais alto indice
de audiencia na cidade (60%). Tamb6m chegou ao
Grupo Guajard, comandado pela familiar Lopo de Cas-
tro. Hd duas semanas a television e a radio Guajard
sustentam uma ofensiva de ataques a Jdder, subita-
mente transformado em inimigo publico nimero um.
A animosidade result da incursio que o ministry fez
nos interesses da Guajard: depois de um contato em
Sho Paulo com Joao Saade, o dono da TV Bandeiran
tes, que c3ntratou para seu executive o ex-governador
do Amazonas, Gilberto Mestrinho, amigo de Jdder, o


ex-governador garantiu que sua future emissora fi-
card afiliada a rede Bandeirantes. Para isso, sera
rompido o contrato que a Bandeirantes mant6m com
a Guajard.
Nao faltariam pretextos a Bandeirantes para agir
assim: a Guajard constantemente descumpre cldusu-
las contratuais, deixando de retransmitir programs
de veiculagio obrigat6ria. Mas o motivo real da ini-
ciativa seria a associagio de Saade a Jader, com a
garantia de que a nova televisao poderd entrar em
funcionamento no prazo de nove meses. A rapidez
6 uma das preocupaq6es de Jdder, que quer dispor
do mais eficiente meio de comunica4qo a tempo de
montar uma campanha para o governor do Estado.
Para chegar a esses objetivos, ele enfrentarc um
empresbrio ressentido e uma familiar furiosa. Cer-
tamente, nao terd nenhum espago na radio Marajoa-
ra, a traditional camped de Ibope. Passou a ganhar
tratamento violentamente hostile nos vefculos da Gua-
jard, que esta abrigando todos os adversarios e ini-
migos do ex-governador. O fosso continuard se am-
pliando em relacAo ao mais poderoso grupo de co-
municaqio do Pard, o Sistema Romulo Maiorana.
0 quebra-cabega
de bastidores
Circulam tamb6m informaa6es de bastidores se-
gundo as quais o ministry da Reforma Agraria, de
alguma maneira, estaria fazendo gestbes indiretas
junto ao dono da rede Globo, Roberto Marinho, atra-
v6s de poderosa intermediagio do Palicio do Planal-
to. A meta seria lavar a Globo a transferir seus
direitos de retransmissao em Beldm para Jair Ber-
nardino de Souza, que espera colocar no ar sua TV
CarajBs no final de julho.
Por enquanto, a TV Carajas 6 afiliada da rede
Manchete, mas ninguem ter d6vida de que Bernar-
dino jamais conseguira de volta o investimento feito
na sua emissora, suntuosamente instalada a base da
maior torre da cidade, com 100 metros de altura, uti-
lizando a programacdo da televisao que tem o mais
baixo indice national de audiencia. Ou ele fez um
pdssimo neg6cio e esta disposto a subsidia-lo, ou
espera alguma coisa que ainda nlo veio. Essa "coi
sa" seria o contrato da Globo, camped de faturamen-
to. "Quando ligar a tomada da Carajas, a linha da
Globo sera desligada da TV Liberal", diz uma fonte
do grupo Belauto.
A TV Globo cultiva os contratos que faz, evitan-
do rompe-los. S6 toma essa attitude em carter ex-
tremo, por inadimpl6ncia do parceiro (como ocorreu
com a Guajard, a primeira retransmissora, que per-
deu os direitos para a Liberal) ou por pressio do go-
verno, junto ao qual Roberto ,Marinho faz questAo
de estar sempre afinado, independentemente do que
pensa quem snta no trono do Palicio do Planalto (ou,
antes, no Catete). Foi a pressao do governor que fez
a Globo romper o contrato cor a TV Aratu e entregd-


vista









la ao grupo do ministry Antonio Carlos Magalhies,
na Bahia. O epis6dio poderia se repetir no Pard, fa-
vorecendo o ministry Jader Barbalho ?
SNo 6 uma hip6tese impossivel, como mostra o
precedent, mas nao 6 muito prov6vel, inclusive por-
que Antonio Carlos 6 o dono das Comunicag6es, corn
ingerencia direta sobre a televisio, e Jader transa-
ciona cor terras. A Globo nao teria em relagao f
Liberal os mesmoS arguments t6cnicos que usou
para romper corn a Guajar6 na ddcada passada. Mas,
por coincid6ncia ou sintomaticamente, tmr crescido
as reclamag6es da central de produg6es da Globo
em relagdo a qualidade do material e do apoio que
Ihe sao fornecidos em Bel6m pela Liberal. A Globo
quer que suas afiliadas absorvam o padrAo que a
matriz adota em sua programagio, cobrando novos
investimentos na melhoria do pessoal e dos equipa-
mentos. Quem nio se enquadrar aos canones dessa
biblia podera ser expurgado.
Ha uma outra component apontando para o fu-
turo das rela6oes da Globo com a rede de afiliados.
Os sucessores de Roberto Marinho na corporagfio,
sobretudo o filho mais velho, acalentam pianos an-
tigos de dar amplitude national ao journal "O Globo",
seguindo o caminho do "USA Today" nos Estados
Unidos. O journal seria impresso em varias cidades
brasileiras com paginas em fotolito transmitidas por
laser. Nesse caso, poderia haver alguma incompati
bilidade com redes de comunicagio locals, como a
do Sistema Romulo Maiorana.
Um grande
guarda-chuva
Se estd trabalhando para dissociar a Globo da
Liberal, como dizem algumas fontes, Jader age em
beheficio de Jair Bernardtno e sua TV Carajfs e nio
para o canal 10. Jair tem sido o empresdrio de mais
intima ligagao comr Jder, que, quando governador,
trabalhou para que o canal 13 ficasse com seu ami-
go (a outra peca-chave foi o senador Jarbas Passari-
nho,, cujo relacionamento com Jair foi facilitado pela


Depois


da


festz


Depois da festa da compra pelo Mirad dos cas-
tanhais do sul do Pard, comemorada mais pelas su-
postas vitimas desse ato, vem o grande desafio: o
que fazer nos 219 mil hectares repassados, a altis-
simo custo, para o control do governor. Como os
6rgaos oficiais ainda nao conseguiram iniciar res-
postas prAticas, os interessados tomam a iniciativa:
filas se formam na sede do Mirad, em Maraba, de
pessoas interessadas em receber lotes de terras.
Quem nio entra na fila, entra logo na terra: come.
ram as disputes e invas6es no castanhal do Cardo-
so, a propriedade que, mantida sob preservagdo pe-
los Mutran, continha a melhor densidade de casta-
nheiras.
Como o arremate da transaaio ocorreu no inicio
da 6poca de broca, tudo faz crer que o desmatamen-
to sera intenso, podendo comprometer as poucas
areas, como o castanhal do Cardoso, onde ainda 6
possivel fazer os assentamentos extrativistas (ao
contrario dos outros, se baseia na exploracio e
nio na derrubada da floresta, no caso, para a co-
leta de castanha). Essa 6 a parte mais dificil da ta-
refa: como preservar os castanhals, o argument
mais forte usado pelo Mirad para justificar a urgen-
cia em assumir o control das areas aforadas. As


alianCa, cada vez mais estreita, com Jader). Os dois
sao tidos em alguns circulos como s6cios porque o
ingresso de Jair na distribuiGao de gas e nas comu-
nicac6es resultou de operag6es triangulares nas
quais o ex-governador era um dos vortices.
Por esse motive, quando implantar sua estaqio,
JAder tera a disposigio duas emissoras de television,
um poderoso suporte ainda que, ate Ia, a animosida-
de contida do grupo Liberal possa ter-se tornado hos-
tilidade aberta. Nao podera ser considerado menos
significativo o impdrio pessoal de comunicag6es do
ministry. Em 1982 ele montou o primeiro veiculo,
um journal precario, que parecia destinado a viver
apenas em campanha eleitoral. Hoje, o "Diario do
Pard" dispute o segundo lugar com "A Provincia do
Para", beneficiado por um pesado program de in
vestimentos (que nao parece nem um pouco preocu-
pado com a possibilidade de retorno do capital) e
por uma proximidade meio promiscua com o gover-
no, os donos de 6nibus e os bicheiros. Tem ainda
duas emissoras de radio, que, mesmo no rabo da fila
de audidncia, tamb6m nio param de investor.
Para quem consegue essas faganhas empresa-
riais, nio sera dificil vencer a concorrdncia pela te-
levisao. Ha outros oito candidates na qualificagio,
encerrada a 30 de maio. Jdder esta representado
pela esposa, Elcione, o irmso, Luis Guilherme Bar-
balho, e Pedro Paulo de Melo, s6cios no Sistema
Clube do Pard de Comunicagio, a nova razfo social.
Carlos Santos aparece atrav6s de dois pretendentes,
num deles ainda associado ao deputado federal
(PMDB) Manoel Ribeiro, ex-dono da Marajoara. Ou-
tro amigo (ou ex) de Jader, Jesus Bittencourt, tenta
a sorte atraves da TV Pard. Corre por fora o grupo
do ex-governador Alacid Nunes, corn a Rddio e Tele-
visio Maraj6, o filho entire os s6cios (um outro 6 o
filho do deputado Dionisio Hage). Outros acndidatos
sio Josd Roberto .Maluf e dois grupos empresariais
sem major expressio. Mas todos eles, quando o
process chegar as mios do ministry Antonio Car-
los Magalhaes para a decision final, se transforma-
rio em mera figuracGo. O canal Ja tern dono.


: o que fazer
esperangas quanto a essa preservagio quase che-
gam a ser ilus6rias.
Sem uma rdpida e segura definiGio sobre o que
fazer nos antigos castanhais, logo se desencadeara
um process especulativo incontrolavel. Aldm das
quase trds mil families que o Mirad identificou para
o assentamento, ha outros lavradores querendo ter-
ras e tambem comerciantes, extratores de madel-
ra, grileiros. O process de selegio de novos clien-
tes, aldm dos que jd haviam se Instalado nos casta-
nhais, sera um pass decisive. O normal seria es-
perar que o governor delegasse parcel de decision
sobre o recrutamento e selegio aos pr6prios lavra-
dores, atravds de seus sindicatos. Mas o normal
nem sempre 6 a regra nas ac6es do governor.


I Journal Pessoal
Editor responsevel: Lclo Flivio Pinto
Endereqo (provis6rio): rua Aristides Lobo, 871
Bel6m, Par, 66.000. Fone: 224.3728
Diagramanuo e ilustmjoW: Lut Pinto
Oprgo Jornalistica