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LoFal Pessoal Liucio Flivio Pinto Anol N9MP20 Circula apenas entire assinantes 2* Quinzena de Junho de 1988 PETROLEO 0 pooo do president I provavelmente magico o popo da Texaco em Maraj6: da oleo antes de ser perfurado e provoca no president um entusiasmo sem explicaiao racional. Mas o que 16lgico nesse jogo de regras invisiveis? president Jose Sarney nao disse, de fato, que o pogo pioneiro perfurado pela Petrobras, sob contrato de risco, na ilha de Maraj6, era um "superpogo". A expressao foi cunhada pela imprensa, mas traduziu fielmente o que o pre- sidente quis dizer com a pantomima montada em seu gabinete no dia 31 de maio. De 16, ao lado de outros "notvveis" da Repiblica,.o president telefo- nou para a base da Texaco no rio Macaquinhos, 280 quilbmetros a leste de Bel6m, e falou com o ge61ogc Fausto Machado Coelho, da Petrobrds, em estado de alerta desde tr6s horas antes & espera da ligaqao, antepipada por aviso do setor de informagbes do empresa. Entrosada com a cena, a onipresente (em gabinetes oficiais) TV Globo documentou a conversa e veiculou-a no mesmo dia para o pais inteiro. SApesar da cautela do ge6logo, que viu no pogo apenas a abertura de "uma grande margem de pes- quisas para as futures prospec96es na bacia", a as- sessoria da presidencia transmitiu aos rep6rteres creidenciados no Pal6cio-do Planalto que a "bacia pe- trotifera" descoberta tinha "alguma coisa em torn de 18 bilh6es de bars, tres vezes mals que todas as reserves brasileiras de petr61eo e g6s". Os mais afoitos logo inclufram o Brasil na Opep, a organiza- 9go dos paises produtores de petr61eo, calculando o dia da auto-suficiencia, seguida da exporta9go, ca- paz de fazer o ex-ministro Shigeaki Ueki dangar fan- tasiado de barril no Planalto. Quando o balbo de entusiasmo murchou, sopra- do pelos ventos da realidade, a assessoria do gover no acusou a imprensa de ter criado o clima de iluso- ria euforia sobre o "superpogo". No mAximo, a im- prensa poderia ter-se penitenciado por entrar tao dis plicentemente no bonde errado que colocaram em seu caminho. Qualquer Jornalista medianamente in- formado saberia que ningu6m pode delimitar jazida de 6leo corn um Onico furo, que tragos de 61eo nao significam petr6leo abundante, que uma bacia pode estar cheia ou vazia, dependendo de sua segura ava- lia9io. No segundo dia, a maioria dos jornais re- flu!u b onda da Globo, que deu tempo nobre e espago aberto para a "revelacgo", mas nao conseguiu sus- tenta-la por mais tempo diante das s6lidas informa- C6es em contrArio. O objetivo, pordm, jd havia sido alcangado ? Depois de ter sido embalada por agraddveis so- nhos de auto-suficinncla da mais nobre das matdrlas- r'1 \\ ~/ /. - -\ \\ II( f/ C- 'Sr~n- ~ ~ primas que Ihe faltam, a socledade brasileira caiu na realidade: houve manipulag o de informacgo. Uma parcela considerAvel das pessoas que se inte- ressam por algo mais do que as manchetes da im- prensa achou que o president procurou influir sobre o animo dos constituintes, conquistando-os para o mandate de cinco anos. I possfvel, mas Sarney nio precisaria de mals esse Instrumento para garantir sua vit6ria, avalizada pela abertura do tesouro. Uma influ6ncia mals duradoura poderia servir para que, no segundo turno, os constituintes aceitem report em vigCncia os contratos de risco, suprimidos no primeiro turno por serem considerados contrarios Arib N9 2 ao monop6lio estatal do petr6leo. Afinal, a "grande descoberta" resultara de um contrato de risco. De imediato, uma revelacAo tdo agradAvel pode- ria tamb6m levar o Congresso a autorizar a Petro- brAs a assinar um aditivo ao contrato de risco com a Texaco, aceitando assumir investimentos que a multinational estA incapacitada de fazer por causa dos problems financeiros que enfrenta nos Estados Unidos (pagara a maior indenizalio da hist6ria do pais, de tres bilh6es de d61ares, h Penzoil). Embora tendo um filZo de 6leo, a Texaco estava disposta a ceder metade dos direitos sobre 70% da Area A Pe- trobrAs. Dentro da empresa estatal, hA fortes grupos de pressdo favorAveis a essa proposta, que seriam auxiliados pelo anuncio presidenclal, capaz de ven- cer as resistencias dos c6ticos, se nAo nos debates t6cnicos internos, ao menos na batalha de conven- cimento junto & opinido p6blica. Marginalmente a tudo isso, hA tamb6m a feroz especulaCAo de papeis na bolsa, que frequentemente estA por trAs dos lances escabrosos armados muito 'onge das bases de pesquisa. Mesmo que nao jorre 6leo, muita gente ganha enormes quantidades de di- nheiro s6 com as noticias de descobertas, estas, sim, inesgotaveis. Quando se conseguir esclarecer satis- fatoriamente este novo capitulo marginal B hist6ria do petr6leo, todos jd terno esquecidos do epis6dio - e predispostos, por isso, a novas manipulag6es. Tem sido a regra. A falsa traducao A exagerada expectativa criada em torno do poco da Texaco na ilha do Maraj6, no Para, poderd resultar em mais uma frustragAo na hist6rla da busca de petr6leo na Amaz6nia, jd repleta desses desfe- chos desanimadores. Esse era o receio de v6rios tdcnicos do setor ouvidos em Belem, 48 horas de- pois do euf6rico pronunciamento do president Josd Sarney. Como sempre, esses t6cnicos, com longa experiencia de campo, ndo negavam a possibilidade de um resultado positive no IBV-1PA, mas nao con- cordavam em considerar esse pogo excepcional. Mesmo o ge6logo da PetrobrBs que falou com Sarney de Breves, pelo telefone, ouvindo a aprecia- 95o entusiasmada do president, parecia partilhar essas reserves. Fausto Machado Coelho, com 12 anos de Petrobrds, admitiu que o poco de Breves nao foi o melhor no qual ja trabalhou, apontando outros - entire os mais de 100 incluldos no seu curriculo professional que apresentaram caracteristicas mais favoraveis. O que provocou o andncio do "superpoco" pelo president foi um fato praticamente rotineiro nas prospecg6es feitas em Areas prioritdrias: o apareci- mento de tragos de 6leo na area retirada do fundo do pogo. Um ge6logo da Petrobras lembrou-se de jA ter vivido experiencia semelhante, "mas acabamos constatando que o 6leo era do pr6prio equipamento de perfuracio", hip6tese que ele nio descarta no caso de Breves. Os t6cnicos ficaram Intrigados com o apareci- mento do 6leo mil metros abaixo da zona considera- da mais interessante pela sismica da Texaco "e mui- to antes da formagdo convencionalmente mais apta para o armazenamento do petr61eo". Observam que a Texaco ja considerava encerrado o trabalho nesse primeiro pogo pioneiro e atd preparara a pr6xima lo- cagIo do segundo pogo pioneiro, que foi posicionado numa estrutura distinta da anterior, "o que indica a perda de confianga na Area em que vinham traba- Ihando atW entao". Mais estranho ainda para os t6cnicos foi a ini- ciativa dos dois t6cnicos da Petrobras que fiscaliza- vam a execuCdo do contrato de risco pela Texaco: eles teriam forgado o prosseguimento da perfuracgo e foi em consequencia do aprofundamento que sur- giram os "indicios de hidrocarboneto liquido, segun- do as cautelosas expresses do ge61ogo Fausto Ma- chado Coelho. "e um procedimento completamente original na hist6ria de 13 anos dos contratos de r co", nota um tdcnico da Petrobrds: "normalmente, decis6es desse tipo s6 quem pode tomar e a em- presa contratante". Os tecnicos reconhecem que, por m6todos com- parativos, a regido do Maraj6 e todo o delta do rio Amazonas apresentam enorme atrativo para a pro- dugdo de 61eo. O "graben" (que quer dizer fossa) do Maraj6, por exemplo, onde a Texaco atua sob contrato de risco, apresenta uma estrutura seme- lhante as melhores Areas produtoras de petr6leo no Mar do Norte. A enorme extensio desses alvos, po- rem, complica a prospecgco, segundo esses t6cni- cos. A Area de interesse na foz do Amazonas se es- tende por 150 mil quil8metros quadrados. Nela, ji foram perfurados pogos, como o PAS-9, que chega- ram a produzir 1.200 barris por dia, mas nio conse- guiram tornar-se comerciais. Ou foram detectadas estruturas que s6 em models te6ricos ideals pode- riam ser mais aptas a armazenar o 61eo. Ainda as- sim, entretanto, esse vasto litoral continue sendo apenas o grande sonho dos ge6logos e engenheiros da PetrobrBs e o poco de Breves nlo seria o mais apto a transformer esses sonhos em realidade. O resultado obtido pela Texaco em seu primpiro pogo pioneiro represent um avango no conhecimen- to do subsolo do Maraj6. Pela primeira vez, sabe-se que all ha armazenamento de 6leo. Mas, ao anunciar que ja existe uma jazida, o president Sarney foi muito al6m do que a realidade e o mais elementary bom senso podem sustentar. t como se um avicul- tor ja anteclpasse a produgAo de ovos de sua-granja antes de ter comprado as aves e organizado a pr6- pria granja. Corn isso, o president prejudicou ao inv6s de favorecer o s6rio trabalho de pesquisa - e de investimento exigido para ir do 6leo A ja- zida. Frustra96es do passado De hora em hora os t6cnicos do Departamento de Explorag~o da PetrobrAs, no Rio de Janeiro, liga- vam para o escrit6rio da empresa em Beldm, em maio de 1980, cobrando informaq6es sobre os testes de producdo no poco APS-31-A, a 200 quilometros do litoral do Amapa. Entusiasmados, achavam que dessa vez iriam chegar a uma grande descoberta: os perfis eldtricos indicavam a existencia de muito 6leo, que poderia chegar a superficie porque a pres- sao no pogo era extremamente alta. A estrutura, de 35 quilometros quadrados, era maior do que as Areas produtoras da bacia de Campos. Todos aguardavam pelo melhor resultado da prospecdio petrolifera na hist6rla brasileira. Mas a enorme estrutura que os perfis eldtricos faziam supor estar cheia de 6leo continha, na ver- dade, agua doce. Muita 6gua jorrou na plataforma, libertando-se do armazenamento em que fora man- tida por milhares de anos. Como o petr6leo, a agua doce apresenta uma elevada resistividade nas rochas marinhas do fundo do oceano. Na sismica, deu a ilu- sao de que era um vasto pogo de petr61eo. A frustracgo dos t6cnicos da Petrobrds cor a APS-31-A nao era a primeira e provavelmente nao sera a ~ltima na hist6ria da busca do petr6leo na Amaz6nia. Ela tem sido marcada pela constant - e quase sempre brusca sucessio de moments de euforia quase incontrolada cor moments de absolute desAnimo. Se a regido apresenta todas as condip6es te6ricas para ser considerada uma das zonas potencialmente mais ricas do planet para ae acumulagdo de petr6leo, 6, tamb6m, uma das que oferece maiores dificuldades para os t6cnicos. No litoral do Amapd e do Pard houve at6 prodt gco de 6leo, mas, muito distant do litoral (at6 250 quil6metros), ela nao teve viabilidade econ8mica. Em 1976 o entao ministry das Minas e Energia, Shi- geaki Ueki, fez uma visit de emergdncia a platafor- ma de perfurapco para buscar um vidrinho do 6leo que jorrou, levado pessoalmente para o president Ernesto Geisel ver e tamb6m entusiasmar-se. Ueki prometeu logo depois que sairia no carnaval fanta- siado de barril de 6leo se o Brasil nao se tornasse auto-suficiente logo. Isto nao aconteceu, nem Ueki tentou o titulo de originalidade nos desfiles carnava- lescos. No Maraj6, sempre houve uma grande expecta- M.o tiva. Aplicando a mais modern tdcnica sismica, a Texaco identificou uma imensa estrutura certa- mente a maior do continent brasileiro semelhan- te bs mais produtoras do .Mar do Norte. Como havia ocorrido cor o pogo amapaense, teoricamente as possibilidades de descoberta de uma grande jazida eram apreciaveis, mas semelhantes Bs de um jogo de loteria programado por computador. "So que aquilo que se imaginou ser 6leo eram, na verdade, concreq6es mineral6gicas. Na sismica. elas apareceram como 'pontos luminosos'", narra um t6cnico. Quanto a esse "bright spot" ele nao tem duvida: "Na PetrobrBs, todos suaram frio du rante v6rios dias ao imaginar que a Texaco, contra- ri-ndo as previs6es, havia mesmo descoberto um fi- 15o de 6leo". Mas quando a perfuraq~o passou dos quatro mil metros, onde estava o alvo maior de in- teresse, sem atingir o outro intervalo visado, muito mais profundo e ao qual a sonda atualmente em uso nao poderia chegar, "o pessoal da PetrobrBs voltou a respirar aliviado". O andncio do.presidente Sarney deixou os tdc- nicos "completamente perplexos e aparvalhados". confessou um deles, que imediatamente depois de ver o Jornal Nacional telefonou para um dos execu- tivos da Texaco. "Ele me disse que tambdm tinha sido informado da 'descoberta' pela television e nao sabia dar qualquer outra explicagio", narrou. Ape- nas Sarney, a dois mil quil6metros de distancia, sa- bia do que e por que estava falando. Aldm do circulo mais pr6ximo da presidencia, natural- mente. HIDRELETRICAS palmat6ria? Quase quatro anos depois de ter ccnstruido a usina de Tucurui, a Eletronorte ja admit virios errors que cometeu e que recusava aceitar. Qual a relacgo dessa confissio com a nova obra que a empresa realizard? 0 inico cinema de Altamira, um velho, pouco iluminado e mal conservado pr6dio, talvez nao fosse o melhor audit6rio, mas foi nele, duran- te um semindrio sobre meio ambiente promo- vido por entidades locais, na semana passada, que o coordenador da presid6ncia da Eletronorte, Jose Antonio Muniz Lopes, aproveitou para fazer um "mea culpa" em nome de sua poltmica empresa. Foram revelag6es importantes, que a maioria dos ouvintes nio p6de avaliar inteiramente: a Eletronorte estava admitindo erros que at6 entgo negava ter cometido, uma nova postura que talvez tenha assumido para nao ver repetidos, na construcgo da hidrel6trica de KararaB, seu novo e gigantesco empreendimento, no Xingu, os problems enfrentados em Tucurui, no To- cantins. Jos6 Antonio, que ingressou na Eletronorte dois meses antes da inauguracgo da usina, em setembro de 1984, reconheceu que, na construcgo da obra, a empresa criou uma Tucurul de luxo e uma Tucurui de lixo. O luxo estava na vila residential permanent, instalada em uma area alta, corn vistas para o lago e a barrage. Enquanto ali o padrdo de vida para o "staff" era sueco, a alguns quil6metros de dis- tancia, na velha sede municipal, transformada em lixo, ocorriam problems africanos, como surtos de gastroenterite, elevadissimo indice de prostitui4go, car6ncia de moradias, desemprego. A obra, que che- gou a mobilizar 30 mil pessoas, trouxe mais proble- mas do que solug6es para Tucuruf, situagio agrava- da porque o governor Geisel, arbitrariamente, isen- tou os empreiteiros do pagamento do ISS (Imposto Sobre Servicos), que deveria ser a principal fonte do renda do municipio. A Eletronorte limitou os beneficios ao canteiro de obras, severamente protegido e isolado da mis6- ria circundante, embora essa mis6ria fosse gerada pela pr6pria usina: apenas uma pequena parcela dos migrants que chegavam a Tucuruf, atraidos pela oportunidade de emprego, conseguia realmente ser absorvida. A maioria ficava em atividades paralelas. marginais ou sem qualquer atividade, perambulando pela cidade, que inchou e nao recebeu recursos para tender a toda a demand que a explosAo demogrd- fica provocou. Hoje, quando esses complicadores persistem, Tucuruf nio se favorece nem da desativa- cgo de part das moradias da vila da Eletronorte, mantidas fechadas, sem uso e sem destinacgo pre- vista. A Eletronorte agora promete n5o praticar essa "poluiqco social" em Altamira. No Xingu, a Eletronorte se compromete a corri- gir outra falha de Tucurui: fard uma delimita9go mals rigorosa da drea do reservat6rio. Houve varios cAl- culos da Area de inundagao da barragem no Tocan- tins, que comegaram em 1.600 quil6metros quadra dos, subiram para 2.160 km2 e acabaram em 2.430 km2. Essa excessive margem de erro decorreu da imprecisao dos mdtodos adotados e acorretou si- tuacqes inc6modas, tanto para a empresa como para outros 6rgios pdblicos e, principalmente, a popula- g~o atingida. Jos6 Antonio anunciou que, ate 1990, a Eletronorte e o Ministdrio do Ex6rcito fario um le- vantamento real da area do reservat6rio da hidre- l1trica de Karara6, que devero ter 1.225 quil6metros quadrados, dos quais 615 km2 jd sao ocupados pela calha do rio. S6 assim serd possivel precisar os contornos do lago a ser formado com o represamen- to do rio, prevenindo problems antes, durante e de- pois do enchimento, como os que ainda persisted em Tucurui. Jose Antonio, que tamb6m chefia o planejamen. to da Eletronorte, reconheceu que o balango das re- lacqes entire a Eletronorte e a regiio, em Tucurui, foi negative e que, por isso, o projeto "foi tratado mes- mo como um enclave na region". Lembrou que, ori- ginalmente, a Eletronorte pensava em implantar um pequeno aproveitamento energ6tico no Tocantins, em Santo Antonio, para 1.100 megawatts, que abas- teceria Beldm, cronicamente submetida a raciona- mento. "Mas a empresa recebeu do governor a mis- sio de construir usina maior", que viabilizaria proje- tos eletrointensivos, como as fabricas de aluminio da Albrds, em Barcarena, e da Alumar, em Sco Luls. Depois de um semindrio realizado em Bel6m, em dezembro de 1985, a Eletronorte decidiu refletir sobre sua mission, procurando "maior inserq~o regio- nal". Por essa "nova visio" aninciada por Jose An- tonio, a Eletronorte esta convencida de que o apro- veitamento do potential hidrel6trico das bacias ama- z6nicas ter que ocorrer "no context regional" - nio apenas com o objetivo de gerar a maior quantida- de possivel de energia a um menor custo, meta ob- sessiva em Tucurui. A empresa nio permitirla mais que no Xingu se repetisse a situagco lamentada no Tocantins: cidades pr6ximas a usina continuam sen- do abastecidas por velhos geradores A base de pe- tr61eo enquanto a energia 6 remetida para consumi- dores privilegiados a long distancia. Tamb6m ele anunciou a disposicio de corrigir a erro praticado sobre a floresta da Brea de inundaaio da barrage. Em Tucurui, depois da rocambolesca tentative da Capemi de dar destinagio economic a madeira, a maior parte da floresta acabou submersa no lago, com grande prejuizo economic e sdrias sequelas ecol6gicas. Para o Xingu jd comegam a ser feitos pianos de aproveitamento e a Eletronorte ga- rante que ira mais long: estimulard o beneficiamen- to, no pr6prio local, da madeira que for extraida do future reservat6rio. Jose Antonio garantiu ainda que o Xingu vai se incluir num capitulo novo da historia da Eletronorte, que comegard, a rigor, corn a usina de Manso, em Mato Grosso: a empresa avaliard os impacts eco- l6gicos antes que eles ocorram, antecedendo mesmo o inicio das obras. Esses estudos sao exiggncia cor- rente ha trds d6cadas em paises desenvolvidos, mas foram ignorados na construCio de Tucurui e Balbina (para nio falar nas pequenas usinas anteriores, de Curud-Una, no Pard, e Coaracy Nunes, no Amapd). Declarou o t6cnico que um dos crit6rios para a de- finipao da hidreletrica de Kararao foi justamente o minimo de interfernncia sobre o Parque Nacional do Xingu, o maior do ginero no pals. Empolgado, Muniz disse que s6 ha uma hidreld- trica melhor do que a de Karara6: 6 a de Xing6, que encerra o ciclo de aproveitamentos no "rio da inte- grageo national", o legenddrio Sio Francisco. O Nor- deste nio terd mais hidrel6tricas depois de Xing6. JA a Amaz6nia ainda terd muitas delas depois de Karara6, que serd a maior de todas, superando in- clusive a binacional Italpu. avanCo. Mas que avan o? A Eletronorte s6 comecou a avaliar os efeitos ecol6gicos da hidrel6trica de Tucurui cinco anos de- pois do inicio das obras civis. No Xingu, o Relat6rlo de Impactos Ambientais deverd estar pronto no fi- nal deste mis, pelo menos um ano e meio antes de qualquer execuCgo em obras de apoio A barrage. 6 um avanco incontestavel, mas qual a qualidade desse avango? Se nio hd d6vida que elimina uma defasagem brutal em relagao a paises mals exigen- tes do que o Brasil, ainda falta checar com rigor se de fato atualiza convenientemente o pais ao que hd de contempornneo em mat6ria de construcdo de barragens. A Eletronorte assegura que tem comparecido a todos os encontros que sio realizados para a discus- sio do projeto de Karara6, mas 6 surpreendente o grau generalizado de desinformacio que ainda per- siste, mesmo em audit6rios teoricamente qualifica- dos. Essa pouca difusio de informaq6es sobre a obra pode, ao menos parcialmente, ser explicada pela maneira com que esses conhecimentos sio pro- duzidos por consultores contratados de acordo com cliusulas draconianas, que transformam o resultado das pesquisas em produtos exclusivistas. A forma de divulgar os estudos em andamento tamb6m limita bastante as possibilidades de aprofun- dar o conhecimento e, sobretudo, a controversial - sobre a obra no grau que seria desejdvel. Duran- te tr6s dias desta semana a Eletronorte, atravds de seus consultores, participou de um semindrio em Beldm, realizado quando o Rima jA estd praticamente concluido, com reduzida ou nenhuma margem para absorver eventuais critics e fazer retificac6es ou completes reformulag6es. O diAlogo que a empresa de fato esti travando cor a comunidade acaba vi- rando uma converse entire surdos. Como os parnmetros de andlise parecem ser'os pdssimos exemplos de Tucurui e Balbina, os avan- gos surgem como grandes conquistas. Mas eles perdem expressio quando referidos ao que deveria ser um padrno contempornneo de construcFo de bar- ragens em Areas tao complexes como a AmazOnia. Apesar das antecipag6es que a Eletronorte esta fa- zendo em relag~o a Karara6, o tempo ainda parace muito curto para permitir melhor discussion do proje- to. Mais ainda do que isso, tais discusses podem servir apenas de decoragbo para decis6es ji adota- das. Mais uma vez, por exemplo, a transposicio da barragem 6 dissociada da usina de energia. Apesar da ret6rica em torno do aproveitamento mdltiplo da nova obra, que inexistiu em Tucurui e nao existira Um em Balbina, a Eletronorte exclui de seus custos tudo o que nio for geragco de energia. A posigio tem coerdncia com a funcgo de uma empresa especiali- zada, mas contradiz o compromisso anunciado por Jose Antonio Muniz, de que a hidrel6triac faz parte de um contexto regional". Para que a frase vA do discurso A pr6tica, 6 precise que um 6rgio institu- cionalmente mais forte do que a Eletronorte partici- pe da execucgo do empreendimento. Mas esse 6r- gao, que poderia ser a Sudam, assistiu indiferente a Tucuruf e continue & distancia de KararaO. A,Ele- tronorte 6 a dona da obra e a realize conforme sua pr6pria image setorial. As possiveis eclusas no Xingu estao numa con- figuragio diferente da que havia no Tocantins. Como o desnivel na barrage 6 20 metros maior, a reposi- 9o da navegaGio exigiria uma camara a mais do que as duas de Tucurui, canals mais extensos e in- vestimento elevado, seguramente nio abaixo de 400 milh6es de d6lares. Alem disso, nunca houve nave- gagio regular na grande volta do Xingu, local da usina, nem ha perspective no horizonte favorAvel ao transport fluvial como opqio de escoamento. Ainda assim, a delegacAo dupla de compet&ncia a Eletro- norte cor a barragem e a Portobrs corn as eclusas, vistas como obras distintas mant6m os erros do passado. Agora a Eletronorte ja esta tratando de umr pa- no director para Altamira, que nZo houve em Tucurui, mas ainda 6 uma providencia timida em relacao & extensio do impact que a cidade e o municipio so- frerio. S6 corn o pessoal que a obra mobilizard dire- tamente, a populaqco de Altamira crescerd de um tergo. A Eletronorte promote nio fazer mais ndcleos residenciais isolados, mas estd disposta a impor "uma certa discipline" sobre as duas "cidades li vres" que vio surgir, jd atrasadas. Nao 6 impossivel que a empresa tenha bons prop6sitos nessa inicia- tiva, mas novamente age como entidade setorializa- da, que bitola sua visao do regional pela contabilida- de do custo de cada quilowatt instalado. Nesse aspect, Karara6 surge sob um signo mais favordvel. Produzird quase tr6s vezes mais energia do que Tucurui, inundando drea 40% menor, a um custo final do kw 50% inferior. Na fase de piano bAsico, Karara6 esti orgada em 5,8 bilh6es de d6lares. Tucurui comegou corn previsio de US$ 2,5 bilh6es e foi concluida com preco hist6rico (sem juros) dobrado, mas com a ameaga de ultrapassar US$ 8 bilh6es ate star inteiramente amortizada. Bern que Karara6 poderia comegar a inovar em ma- teria de projegAo orgamentdria e de cumprimento da palavra empenhada. Cacique INDIO no mercado Para falar de natureza numa fabrica que polui, Raoni veio, viu e voltou ao Xingu. Seus gestos e suas palavras na entrevista coletiva dada em Belem, deixam no ar o complement da image: indio pode vencer? A cena chega a ser bizarre. Algumas dezenas de pessoas se movimentam nervosamente na sala modern no satimo andar do pr6dio da tristemente famosa Capemi, num dos princi- pais bairros de Bel6m. Todas gravitam em torno de uma mesa ocupada por tres indios. Dois deles ves- tem-se como qualquer um dos cinegrafistas ou re- porteres que estio diante deles, embora sejam ca- ciques. O outro tambrm 6 cacique, veste uma blusa quadriculada de manga compride, calga preta e san- dalias com meias, ostentando um rel6gio metilico no pulso. Mas fala na sua pr6pria lingua, corn de- senvoltura que o enorme batoque nos libios nao prejudice. Sobre a blusa, que tirou no meio da en- trevista, colares vistosos combinando c6res, o metal dos broncos e os produtos da floresta. 8 dificil nio acreditar em Raoni, um dos mais influentes lideres indigenas do Brasil, quando ele diz que se voltar a encontrar-se com o president da Funai, Romero Juc6 Filho, "posso bater nele" Alto, musculoso e bem conservado para seus 55 ou 56 anos, Raoni fala com vigor, quase gritando, quan- do ataca Jucd, president do drgao governmental designado por lei para ser o tutor de todos os in- dios. Fecha os olhos, faz careta, modula o tom da voz, movimenta expressivamente os bragos, "vive" suas palavras, um modo oriental de falar que parece confirmar as melhores teorias sobre a origem do ho- mem da Amaz6nia, como de todos os lugares do planet. Raoni diz que no curriculo de Jucd j4 hd muitos indios mortos, os Tikunas no Amazonas e os lano- mami em Roraima, assassinados a tiros sem pbder se defender. Os Tikunas sio os indios corn a mais antiga tradirio de contato cor a civilizagco branch, o inico agrupamento de expressAo demografica ain- da vivendo na calha do rio Amazonas. Raoni diz, com 6dio, que Jucd "esti matando indios, por isso nao gosto dele". Ha um env6lucro especial nessas palavras. Rao- ni foi trazido do Parque Nacional do Xingu, a mais important experiencia aculturativa national, com quase trds d6cadas de exist6ncia, para fazer uma rapida palestra de 30 minutes na Albrds, o cons6rcio nipo-brasileiro que produz aluminio a 40 quil6metros de Belem. A Albrds, sob o peso de realizar uma das atividades industrials mais hostis ao meio am- biente, quis arrematar sua semana ecol6gica de for- ma original. Raoni relutou a principio, mas aceitou o convite. Nada cobrou alem de passagens, hospeda- gem e presents para ele e dois acompanhantes (um terceiro veio por conta pr6pria). Entrou na sala que a assessoria de imprensa da Albrds ocupa no pr6dio da Capemi como um esta- dista que vai dar entrevista a correspondents es- trangeiros. E isso o que Raoni 6 na sua pr6pria tribo, cor ascendencia sobre outros caciques como Mega- ron ou Paiakan. Os dois serve de int6rpretes, nao apenas para traduzir perguntas e respostas (tarefa nem sempre necessdria porque Raoni fala razoavel- mente o portugu6s, optando taticamente pela sua lingua), mas para servirem de mediadores. Os dois fazem parte de um tipo de liderange ainda bastante recent entire os indios. Megaron tra- balha na assessoria da presidencia em Brasilia e Paiakan na diretoria regional, em Belem. SAo, simul- taneamente, caciques tribais e burocratas. Quando as perguntas sao mais inc6modas ou afetam mais frontalmente a Funai, Megaron e Paiakan fazem con- sultas mrtuas na pr6pria lingua antes de repassar a pergunta, ou tentam dar as respostas. Querem fa- zer fluir os protests de Raoni, mas ficam numa po- si(go inc6moda enquanto empregados do tutor au- toritdrio, como algod6es entire vidros. Tecnologia branch a service do indio Raoni estd em franca campanha para depor JucO da presidencia da Funai, mas nunca foi tao agressi- vo como durante a coletiva em Beldm. Apesar de o Xingu ter mais de quatro milh6es de quil6metros quadrados, Raoni diz que os indios do parque estio cada vez mais cercados, jd nao podem circular em areas que constituiam seus dominios imemoriais, ocupados por fazendeiros, garimpeiros e madeirei- ros. Ha um certo constrangimento na sala quando ele invested contra o president Sarney, que Ihe pro- meteu preservar toda a vasta drea na divisa do Pard com Mato Grosso, entire o parque do Xingu e a re- serva Kayap6, esta corn 3,6 milh6es de hectares. Mas essas terras tambdm estao sendo devastadas, irrita-se Raoni. Ele pega uma pasta de couro que esta no chao, coloca-a sobre a mesa, em cima de um envelope de papel, e retira dois mapas. Um deles jd 6 famoso: os constituintes circularam com ele pelo pr6dio do Congress, carregando uma versio ampliada. e o mapa que localiza alvards de pesquisa ou de lavra concedidos dentro de territ6rios indigenas, contra- riando lei em vigor. E trabalho do CEDI (Centro Ecumdnico de Documentcgao e Informagao), a prin- cipal fonte de informag6es sobre indios no Brasil e, hoje, sua mais important assessoria t6cnica. O ou- tro mapa enfileira os aproveitamentos hidrel6tricos previstos para o Xingu, com suas respectivas dreas de inundag~o. Paiakan diz que o obteve nos Estados Unidos, "porque a Eletronorte nao deu at6 agora ne nhuma informagco para n6s sobre essas hidrel6tri- cas", complete Raoni. Nao foi apenas mapas que os indios; consegui- ram trazer dos Estados Unidos. Com as dendncias apresentadas, eles fizeram um consultor do Banco Mundial, a "consciencia critical" do process de ocu- pagdo da Amaz6nia sob a Nova Repablica, vir ao Bra- sil verificar o que foi dito em Washington. Os indios ja sabem transitar pelos complexes caminhos buro- crdticos e tem acesso a algumas das chaves para esclarecer certos mistdrios que desabam sobre suas vidas por forga das decis6es dos brancos. Raoni fala corn desenvoltura, introduzindo na sua lingua voc6bulos que nao faziam part do seu cotidiano (gravador, por exemplo, arma tao estima- da quanto a borduna), corn a sem&ntica que apren- deu nos contatos com os caciques de palet6 e gra- vata. t uma linguagem que os amigos acadrmicos chamariam de articulada, sem perder, no entanto, a capacidade de se expressar em imagens originals. Mas com toda a cautela: enquanto os cinegrafistas das emissoras de televisio trabalham com suas ca- meras JVC, o indio Waiwai, da comitiva de Raoni, document tudo na sua pr6tica Magnavox. Na volta, a tribo vai poder avaliar como foi a entrevista e quem a ganhou. Beneficio dos m6todos audiovisuais que nao podem ser uteis apenas a uma das parties. A visit de Raoni deve ter sido a primeira de um cacique a uma fabrica quase s6 associada nega- tivamente a ecologia. Teve tratamento de autori- dade, com direito a atrair funciondrios curiosos e uma imprensa presenteada com boas imagens, cheias de contrastes. Mas nao serd a ultima: os in- dios tambem aprendem muito com essas experign- cias, adquirem mais traquejo. Com roupa e tudo, Raoni teorizou sobre as vantagens da vida natural, os beneficios que pode trazer tanto para os que nela vivem diretamente e em harmonia, como para os que estao no fim da linha, nas cidades, mas podem encontrar ervas e raizes miraculosas em seu mer- cado urban. Encantado, Raoni identificou na feir, do Ver-o-Peso ervas e raizes que estao no dia-a-dil dos Trukarramde no Xingu, e depois confessou: seri; bom que esses produtos nunca desaparecessem Mas, por enquanto, este 6 um suspiro de esperang sobre a qual poucos podem, honestamente, acresce;- tar um ponto de exclamagro. Faca a sua assinatura Para obter informag6es, basta telefonar para 224-3728. Se vocJ jd 6 assinante, verifique se jd nao 6 hora de fazer a renovagdo. Se aprova o JORNAL PESSOAL, divulgue-o. Novo COMUNICAQOES imperio a Em 1982, Jader Barbalho tinha apenas um precario journal de campanha. Agora, esta formando um imperio. Mas cria inimigos pelo caminho. Nessa luta, delineia-se a "avant-premiere" da dispute pelo poder. No m6s passado o empresario Carlos Santos, dono de uma das principals cadeias de lojas de varejo de Bel6m e um dos maiores vende- dores de discos do pais, percebeu que nao conseguiria obter o mais novo canal de televisao que o governor vai conceder na capital paraense (on- de funcionam quatro emissoras e a quinta esta em fase de instalacao). O canal 10 j6 estava reservado ao ministry da Reforma Agrdria, Jdder Barbalho, mesmo antes da abertura das nove propostas apre- sentadas era o que se dizia nos corredores do Ministdrio das Comunicaq~es, em Brasilia. "Trata-se de premiacao que o president Jose Sarney vai dar a um dos membros de seu governor que mais se empenhou pelo mandate de cinco anos", informou uma fonte do Ministdrio. Carlos Santos foi quem viabilizou tecnicamente o novo canal: financiou estudos que mostravam a possibilidade de colocd-lo no ar, remanejando-o de Castanhal, para onde originalmente estava destina- do. Durante tr6s anos tratou de fazer andar o pro cesso em Brasilia, onde esteve cinco vezes para tra- tar especificamente do assunto. Mas a ultima hora apareceu o ex-governador, al6m de outros seis pre- tendentes, estes podendo ser derrotados na concor- rdncia, mas Jader imbativel no "tapetAo". Com seu jeito humilde, Carlos Santos arriscou um Iltimo lance. ,Marcou uma audiencia e foi ao apartamento de Jdder, uma luxuosa cobertura ao lado do Museu Emilio Goeldi, para conversar. Como se desconhecesse as informag6es de bastidores, rela- tou o esforgo que vem fazendo para concretizar seu "maior sonho" e pediu o apoio do ministry para con seguir a television. jader foi seco: disse que nao podia dar esse apoio porque tamb6m era concorren- te e tinha o apoio do president para ficar com o canal. Carlos Santos tentou uma alternative: ficaria com o canal, mas deria todo o espago de que Jdder precisasse na televised, ou mesmo poderia se asso- ciar a ele, em cotas iguais. O ministry encurtou a converse: como empresrrio, Carlos Santos queria a television para transform6-la num neg6cio rentivel, enquanto ele, Jdder, precisa de um instrument de comunicaQgo com objetivos politicos. Estava selado o rompimento. Mas ele n5o atingiu apenas Carlos Santos, que se consider injustigado enquanto homem de comu- nicap5o", dono da radio AM com o mais alto indice de audiencia na cidade (60%). Tamb6m chegou ao Grupo Guajard, comandado pela familiar Lopo de Cas- tro. Hd duas semanas a television e a radio Guajard sustentam uma ofensiva de ataques a Jdder, subita- mente transformado em inimigo publico nimero um. A animosidade result da incursio que o ministry fez nos interesses da Guajard: depois de um contato em Sho Paulo com Joao Saade, o dono da TV Bandeiran tes, que c3ntratou para seu executive o ex-governador do Amazonas, Gilberto Mestrinho, amigo de Jdder, o ex-governador garantiu que sua future emissora fi- card afiliada a rede Bandeirantes. Para isso, sera rompido o contrato que a Bandeirantes mant6m com a Guajard. Nao faltariam pretextos a Bandeirantes para agir assim: a Guajard constantemente descumpre cldusu- las contratuais, deixando de retransmitir programs de veiculagio obrigat6ria. Mas o motivo real da ini- ciativa seria a associagio de Saade a Jader, com a garantia de que a nova televisao poderd entrar em funcionamento no prazo de nove meses. A rapidez 6 uma das preocupaq6es de Jdder, que quer dispor do mais eficiente meio de comunica4qo a tempo de montar uma campanha para o governor do Estado. Para chegar a esses objetivos, ele enfrentarc um empresbrio ressentido e uma familiar furiosa. Cer- tamente, nao terd nenhum espago na radio Marajoa- ra, a traditional camped de Ibope. Passou a ganhar tratamento violentamente hostile nos vefculos da Gua- jard, que esta abrigando todos os adversarios e ini- migos do ex-governador. O fosso continuard se am- pliando em relacAo ao mais poderoso grupo de co- municaqio do Pard, o Sistema Romulo Maiorana. 0 quebra-cabega de bastidores Circulam tamb6m informaa6es de bastidores se- gundo as quais o ministry da Reforma Agraria, de alguma maneira, estaria fazendo gestbes indiretas junto ao dono da rede Globo, Roberto Marinho, atra- v6s de poderosa intermediagio do Palicio do Planal- to. A meta seria lavar a Globo a transferir seus direitos de retransmissao em Beldm para Jair Ber- nardino de Souza, que espera colocar no ar sua TV CarajBs no final de julho. Por enquanto, a TV Carajas 6 afiliada da rede Manchete, mas ninguem ter d6vida de que Bernar- dino jamais conseguira de volta o investimento feito na sua emissora, suntuosamente instalada a base da maior torre da cidade, com 100 metros de altura, uti- lizando a programacdo da televisao que tem o mais baixo indice national de audiencia. Ou ele fez um pdssimo neg6cio e esta disposto a subsidia-lo, ou espera alguma coisa que ainda nlo veio. Essa "coi sa" seria o contrato da Globo, camped de faturamen- to. "Quando ligar a tomada da Carajas, a linha da Globo sera desligada da TV Liberal", diz uma fonte do grupo Belauto. A TV Globo cultiva os contratos que faz, evitan- do rompe-los. S6 toma essa attitude em carter ex- tremo, por inadimpl6ncia do parceiro (como ocorreu com a Guajard, a primeira retransmissora, que per- deu os direitos para a Liberal) ou por pressio do go- verno, junto ao qual Roberto ,Marinho faz questAo de estar sempre afinado, independentemente do que pensa quem snta no trono do Palicio do Planalto (ou, antes, no Catete). Foi a pressao do governor que fez a Globo romper o contrato cor a TV Aratu e entregd- vista la ao grupo do ministry Antonio Carlos Magalhies, na Bahia. O epis6dio poderia se repetir no Pard, fa- vorecendo o ministry Jader Barbalho ? SNo 6 uma hip6tese impossivel, como mostra o precedent, mas nao 6 muito prov6vel, inclusive por- que Antonio Carlos 6 o dono das Comunicag6es, corn ingerencia direta sobre a televisio, e Jader transa- ciona cor terras. A Globo nao teria em relagao f Liberal os mesmoS arguments t6cnicos que usou para romper corn a Guajar6 na ddcada passada. Mas, por coincid6ncia ou sintomaticamente, tmr crescido as reclamag6es da central de produg6es da Globo em relagdo a qualidade do material e do apoio que Ihe sao fornecidos em Bel6m pela Liberal. A Globo quer que suas afiliadas absorvam o padrAo que a matriz adota em sua programagio, cobrando novos investimentos na melhoria do pessoal e dos equipa- mentos. Quem nio se enquadrar aos canones dessa biblia podera ser expurgado. Ha uma outra component apontando para o fu- turo das rela6oes da Globo com a rede de afiliados. Os sucessores de Roberto Marinho na corporagfio, sobretudo o filho mais velho, acalentam pianos an- tigos de dar amplitude national ao journal "O Globo", seguindo o caminho do "USA Today" nos Estados Unidos. O journal seria impresso em varias cidades brasileiras com paginas em fotolito transmitidas por laser. Nesse caso, poderia haver alguma incompati bilidade com redes de comunicagio locals, como a do Sistema Romulo Maiorana. Um grande guarda-chuva Se estd trabalhando para dissociar a Globo da Liberal, como dizem algumas fontes, Jader age em beheficio de Jair Bernardtno e sua TV Carajfs e nio para o canal 10. Jair tem sido o empresdrio de mais intima ligagao comr Jder, que, quando governador, trabalhou para que o canal 13 ficasse com seu ami- go (a outra peca-chave foi o senador Jarbas Passari- nho,, cujo relacionamento com Jair foi facilitado pela Depois da festz Depois da festa da compra pelo Mirad dos cas- tanhais do sul do Pard, comemorada mais pelas su- postas vitimas desse ato, vem o grande desafio: o que fazer nos 219 mil hectares repassados, a altis- simo custo, para o control do governor. Como os 6rgaos oficiais ainda nao conseguiram iniciar res- postas prAticas, os interessados tomam a iniciativa: filas se formam na sede do Mirad, em Maraba, de pessoas interessadas em receber lotes de terras. Quem nio entra na fila, entra logo na terra: come. ram as disputes e invas6es no castanhal do Cardo- so, a propriedade que, mantida sob preservagdo pe- los Mutran, continha a melhor densidade de casta- nheiras. Como o arremate da transaaio ocorreu no inicio da 6poca de broca, tudo faz crer que o desmatamen- to sera intenso, podendo comprometer as poucas areas, como o castanhal do Cardoso, onde ainda 6 possivel fazer os assentamentos extrativistas (ao contrario dos outros, se baseia na exploracio e nio na derrubada da floresta, no caso, para a co- leta de castanha). Essa 6 a parte mais dificil da ta- refa: como preservar os castanhals, o argument mais forte usado pelo Mirad para justificar a urgen- cia em assumir o control das areas aforadas. As alianCa, cada vez mais estreita, com Jader). Os dois sao tidos em alguns circulos como s6cios porque o ingresso de Jair na distribuiGao de gas e nas comu- nicac6es resultou de operag6es triangulares nas quais o ex-governador era um dos vortices. Por esse motive, quando implantar sua estaqio, JAder tera a disposigio duas emissoras de television, um poderoso suporte ainda que, ate Ia, a animosida- de contida do grupo Liberal possa ter-se tornado hos- tilidade aberta. Nao podera ser considerado menos significativo o impdrio pessoal de comunicag6es do ministry. Em 1982 ele montou o primeiro veiculo, um journal precario, que parecia destinado a viver apenas em campanha eleitoral. Hoje, o "Diario do Pard" dispute o segundo lugar com "A Provincia do Para", beneficiado por um pesado program de in vestimentos (que nao parece nem um pouco preocu- pado com a possibilidade de retorno do capital) e por uma proximidade meio promiscua com o gover- no, os donos de 6nibus e os bicheiros. Tem ainda duas emissoras de radio, que, mesmo no rabo da fila de audidncia, tamb6m nio param de investor. Para quem consegue essas faganhas empresa- riais, nio sera dificil vencer a concorrdncia pela te- levisao. Ha outros oito candidates na qualificagio, encerrada a 30 de maio. Jdder esta representado pela esposa, Elcione, o irmso, Luis Guilherme Bar- balho, e Pedro Paulo de Melo, s6cios no Sistema Clube do Pard de Comunicagio, a nova razfo social. Carlos Santos aparece atrav6s de dois pretendentes, num deles ainda associado ao deputado federal (PMDB) Manoel Ribeiro, ex-dono da Marajoara. Ou- tro amigo (ou ex) de Jader, Jesus Bittencourt, tenta a sorte atraves da TV Pard. Corre por fora o grupo do ex-governador Alacid Nunes, corn a Rddio e Tele- visio Maraj6, o filho entire os s6cios (um outro 6 o filho do deputado Dionisio Hage). Outros acndidatos sio Josd Roberto .Maluf e dois grupos empresariais sem major expressio. Mas todos eles, quando o process chegar as mios do ministry Antonio Car- los Magalhaes para a decision final, se transforma- rio em mera figuracGo. O canal Ja tern dono. : o que fazer esperangas quanto a essa preservagio quase che- gam a ser ilus6rias. Sem uma rdpida e segura definiGio sobre o que fazer nos antigos castanhais, logo se desencadeara um process especulativo incontrolavel. Aldm das quase trds mil families que o Mirad identificou para o assentamento, ha outros lavradores querendo ter- ras e tambem comerciantes, extratores de madel- ra, grileiros. O process de selegio de novos clien- tes, aldm dos que jd haviam se Instalado nos casta- nhais, sera um pass decisive. O normal seria es- perar que o governor delegasse parcel de decision sobre o recrutamento e selegio aos pr6prios lavra- dores, atravds de seus sindicatos. Mas o normal nem sempre 6 a regra nas ac6es do governor. I Journal Pessoal Editor responsevel: Lclo Flivio Pinto Endereqo (provis6rio): rua Aristides Lobo, 871 Bel6m, Par, 66.000. Fone: 224.3728 Diagramanuo e ilustmjoW: Lut Pinto Oprgo Jornalistica |
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