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A eleiqao municipal de novembro deverb acabar com a apargncia de harmonia do PMDB. A cis~o do partido mostrara qlue dois grupos ja disputam a divis~o de um poder que nho basta para todos. CLIV ~ rr I 2* Quinzena de Abril cle 1988 ____ N 16 criC ula arenas entre assinantes Ano I campos opostos, sem aquela intimidade que fazia o medico agir como uma esp~cie de assessor finan- ceiro pessoal do entlio governador, que, em troca, o indicou para a importantissima Sudam. Com maior amplitude, Kayath B agora um as- sessor informal de Gueiros, que, como ele, nito tem pianos exatamente iguals aos de Jiider. Por causa da intense movimentaglio de politicos e executives (alem de empres~rios, naturalmente) em seu gabine- te, Kayath estaria preparando nito apenas a candida- tura do filbo a deputado federal (por forga de uma campanha milionaria, Carlos Kayath comegou a car- reira como o deputado estadual mais votado, apesar das inibiq~es pessoals mais do que evidentes), co- mo seu ingresso no Pal~cio Lauro SodrB ou no Se- nado. Jdder ntio avaliza tals pretens~es, que podem colidir com as dele proprio. Jg Hdlio Gueiros pretend ir ate o final do seu mandate, mas parece interessado em passar a go- verno a um escolhido, que poderia ser o chefe de sua Casa Civil, Frederico Coelho de Souza, ou mes- mo Henry Kayath. Isto significa que Hblio niio dispu- tar8 nenhum mandate politico depois que deixar o governor, mas tambem niio ird aposentado para casa. A media em que esses projetos viio se definin- do, definem-se tamb6m os campos de luta. Jgder jB sabe que conta com o apoio de Jarbas Passarinho. Depois de ter sido o arqui-inimigo de Jdder em 1982, Passarinho deveu sua eleictio para o Senado, em 1986, ao acordo com o entlio governador, que cum- priu integraimente todos os itens da composictio acertada. Sob o impact da perda de sua esposa, Passarinho passou a dar um peso ainda maior ao que consider ser a lealdade do ex-inimigo, superior g de multos amigos (ou ex). A Invers~io das aliangas Foi por causa desse rec~onhecimento que os jar- bistas nito aderiram a candidatura do empressrio Sahid Xerfan g Prefeitura de Bel~m, pelo PTB. Afi- Ihado de casamento de Passarinho, Xerfan seria re- cebido com festas se fossem outras as circunstlin- cias. Mas, com seu nome vetado dentro do PMDB por Jgder, receoso de que Xerfan tente vingar-se da humilhante rendincia a que foi submetido por impo- t6 as eleiF6es municipais de novembro vio aflorar e cristalizar-se as dissenC6es e antago- nismos no PMDB, partido que, com a Nova Re- pijblica, se tornou tao dominant no ParB quan- to a Arena e o PDS haviam sido, sob regimes milita- res. Com o governor do Estado nas miios, controlando mais de 90% das prefeituras municipals e sendo majoritbrio em todos os niveis parlamentares, o maior inimigo do P-MDB, como de todos os partidos hipertrofiados, est8 dentro dele e nlio fora. Apesar da aparincia de unidade e das declara- 95es harmonicas de seus principals lideres, o PMDB estli sendo cindido, mais rdpido do que se previa e justamente onde parecia sdlido. Stio cada vez mais frias as relaq~es entire o governador H6lo Gueiros e o ministry Jgder Barbalho. O ex-governador, que continue sendo o donor do partido, vem engolindo em seco as estocadas do amigo. Niio faltam pombos- correio para transmitir a J~der as critics e obser- vaqbes irbnicas ou c~usticas de Gueiros sobre a ad- ministraglio que o antecedeu e que the repassou um monumental "abacaxi". Como o governador ainda est8 na plenitude da primeira metade de seu mandate, J~der pessoalmen- te prefer nito reagir, mas seu journal tem procurado responder na mesma media, embora pela via tor- tuosa das "indiretas". A familiar Gueiros jB acostu- mou-se a tratar o "Disrio do ParB" como "o journal da oposi~gio". Niio faltam escaramuqas de ambos os lads, que s6 niio se generalizaram porque Jgder e Hblio, por motives t~ticos ou estrat6gicos, preferem segurar os contendores je explicitos. A dispute, por enquanto, 6 travada como um jogo de xadrez, mas os dois lads estlio conscientes de que a vit6ria s6 poders ser alcangada fora do tabuleiro. Os dois lads da batalha As eleiq6es municipais podertio provocar movi- mentos mais abertos de hostilidade. J6 ficou bas- tante claro que 3 der niio conta mais com a solida- riedade do superintendent da Sudam, Henry Kayath. Por causa da velhissima lei que fez Arquimedes des- cobrir que dois corpos n~io podem ocupar a mesmo espago, os dois amigos estiio se posicionando em Jora Pessoa Lticio Flsivio Pinto ELEICAO de bastidores Guerra siglio do entlio governador, s6 restou ao empresario abrigar-se na legend do PTB, expondo-se aos riscos dessa decisho. Embora evite a interpretagio de que sua sim- ples filiagilo ao partido trabalhista jB significa 0 lan- gamento de sua candidatura, Xerfan deve saber que passa a ser o principal inimigo imediato de, Jgder, mas niio de Gueiros, que nio tem no curriculo qual- quer ato de hostilidade ao empresirrio. Ao contrdrio, poderia at6 dar-lbe apolo num segundo turno da elel- Cho se o PMDB, por falta de um bom nome, nito passar do primeiro turno. Hblio teria todos os moti- vos para dar esse apolo porque a alternative, no caso da derrota do PMDB, seria a eleiq~o de Carlos Levy, a pior de todas as hip6teses. Com a antecipagio da filia~go de Xerfan, Jgder fica numna posiGilo delicada para movimentar seus peges, jogo que ele prefer praticar com menos pressito. Sua salvaglio seria a candidatura de Almir Gabriel, que s6 estaria disposto a tentar o retorno B prefeitura de Belem comn a glarantia de que dela pode saltar para um minist~rio ou o governor do Es- tado. um complicador a mais para o ministry da Re- forma Agrdria. Sem um grande candidate, porbm, Jg- der exp~e-se B derrota (JA que Hdlio transferiu-Ihe todos os poderes para tratar do assunto, lavando as miios) e, o que 6 pior, a uma derrota que juntars Xerfan a Alacid Nunes e, depois, ao governador. Por causa desse emaranhado de desdobramen- tos, a eleiglio na capital (o linico municipio que tera eleigio em dois turnos no ParB, segundo os disposi- tivos constitucionais a serem aprovados) torna-se um jogo complicado e bruto. S6 assim se explica a ini- ciativa do prefeito Fernando Coutinho Jorge de inter- ferir na renovaglio das concessaes dos bnibus urba- nos, que 6 de execugho t~cnica, mas de inspiragio political (ver matgria seguinte). Tamb~m por forga das circunstilncias, Coutinho acaba sendo aliado de Jgder contra Helio e Xerfan, embora este preencha os pre-requisitos comn que o atual prefeito traga o perfil de seu successor. Como tem ocorrido quase sempre no ParB, en- tre uma e outra elei~gio agem tantos components novos e pess~oais que o que prevalecia numa modifi- ca-se inteiramente na outra. E que nito hB ideias po- liticas ou opg~es ideolbgicas para cimentar as posi- 95es dos grupos que disputam o poder. Hg, acima de tudo, a convenignc~ia dos interesses ou projetos dos lideres. A eleiglio de novembro promete nlio ser exceglio. Na vespera da fazer uma de suas mais demora- das viagen~s para fora de Bel~m, no dia 6, o prefeito Fernando Coutinho Jorge enviou ao president da EMTU (Empresa Metropolitana de Transportes Urba- nos), Paulo Sdrgio Nascimento, um singelo oficio, cujas 20 linhas niio davam a mais pslida iddia de sua explosividade. Na verdade, mais pelo que pode vir a fazer, do que pelo que efetivamente anunciava que faria, o prefeito disparava uma bomba contra o "bunker" que hB multo tempo os governor estaduals montaram para tratar do transport coletivo na Brea metropolitan de BelBm. Aproveitando o pretexto da denijncia dos con- tratos de concessio As empresas de 8nibus (ver JORNAL PESSOAL ns 15), o prefeito lembrava ao president da EMTU que s6 depois de autorizada pe- la Climara Municipal a empresa estadual poderia re- novar as concessies, que foram oficialmente susta- das. Acrescentava que se a EMTU pretend substi- tuir o regime juridico das concessbes por permission e autorizaglio, "a competgncia bbsica, no Ambito deste Municipio, 6 a da Coordenadoria de Engenha- ria de Transportes (CODET)", 6rglio criado pela pre- feitura no ano passado para assumir "a compet~ncia bssica nas breas de Transporte, Trdnsito e Sistema Vibrio ". O oficio arrematava com um argument seco e contundente : "prejudicado o conv~nio existente, credenciamos a referida Coordenadoria para as ges- tbes definidoras de novo ato, mais consistent e ob. jetivo aos interesses reciprocos". O recado estava dado: para renovar a autorizagilo para a exploractio dos transportes coletivos, a EMTU teria que refazer o conv~nio assinado com a prefeitura e nho ape- nas o contrato com as empresas particulares jd que, denunciado este, sem validade tambem ficava aquele. Mais ainda: a renovaqilo ter8 que acarre- tar uma reformulaglio das condigdes estabelecidas no contrato, js que a forma atual 6 considerada in- consistente e desinteressante pela administracio municipal . Prevenindo-se para eventuais acusaqcies de ter agido por impulses meramente politicos, o prefeito alega no oficio que foi a EMTU a responsivel pela dentincia, inspiradora da iniciativa municipal. S6 que entire a deniincia e o oficio decorreram quase dois meses. Assessores do prefeito justificam a de- mnora com a necessidade de realizar estudos sobre a question para uma definiglio t6cnica correta, que deu sustentaglio g manifestaglio de Coutinho. Mas ele poderia esperar mais um pouco para se manifestar se nito circulasse intensamente o boa- to de que, na ausincia dele, os contratos de conces- slio seriam renovados pelo Estado. O jogo de pres- s~es sobre a decision teria se deslocado da EMTU para a Casa Civil do governor. Um dos dons de Bnibus, o suplente de deputado federal Mgrio M/ar- tins, havia sido conduzido naqueles dias g presidin- cia do diret6rio do PMDB em Belem. Por press ou porque julgasse que deveria agir assim mesmo, o prefeito dirigiu seu oficio ao presi- dente da EMTU. O governador Hdlio Gueiros clas- sificou de inadequado a gesto e mandou dizer que nem levaria em consideration o oficio do prefeitq, que se comunicara diretamente com um subordina- do, quando a question estava sendo tratada pelo ga- binete. "Vou fazer de conta que o oficio nlio existe", disse o governador para um interlocutor no pal~cio. O governor, assim, continuard tratando da renovaglio sem considerar a manifestaglio da prefeitura. Das duas, uma: ou o prefeito se dirige ao go- vernador, refazendo oficialmente o canal de comu- nicaptio, ou assume o litigio, apostando nas raz~es juridicas e t~cnicas que a prefeitura diz possuir para ser ouvida na definiciio do assunto. O que nito val haver mais 6 conduplio pacifica at8 a decision. Do esfriamento em que se encontram, as relaqbes en- tre Coutinho e Gueiros podem caminhar para o es- tremecimento. Decisaio atravessou A partir deste ano, Caraj~s sers responsivel por um tergo da produgho de minbrio de ferro da Com- panhia Vale do Rio Doce, a maior vendedora desse produto no mundo. Alem de jb ter essa expressive participaglio na principal atividade da segunda em- presa do pais (que no ano passado faturou mais de 85 bilhdes de cruzados), o Pars abriga os mais im- portantes investimentos de diversificaglio da Vale, que aos poucos vai deixando de ser uma simples mineradora de ferro. Com a produplio de aluminio (na Albrds) e de bauxita (na Mineraglio Rio do Nor- te), a CVRD chegard a~o final da d6cada faturando acima de 500 milh6es de d61ares.Isso significa que em 1990 a empresa estatal ter8, apenas no Pars, uma receita equivalent B que obt6m atualmente em toda a venda de minbrio de ferro. As perspectives para a decada seguinte sto ainda mais amplas. Durante os anos 90 a Vale es- tars extraindo do Pard e, se os paraenses des- pertarem para isso a tempo, aqui beneficiando - manganas, cobre, niquel, cassitersta, ouro e madei- ra, uma soma de atividades de mais alto valor do que a que entito poders ser desenvolvida no chama- do Sistema Sul, que abrange Minas Gerais, Espirito Santo, Rio de Janeiro e Bahia. Um desprezo injustificado No entanto, ninguem conseguiria ter uma di- menasio desse potential a partir da estrutura que a empresa montou no Pars e do tratamento que veln dando ao Estado. Nas operaCBes de campo, a miio- de-obra local s6 e absorvida de forma expressive em atividades semi-qualificadas ou niio-qualificadas . Nos stores de ponta e, por isso, mais bem re- munerados he um monop61io de mineiros, quan- do multo entremeado por sulistas. Essa domina~gio compact nito 6 de estranhar: final, o Pars ainda nito tem tradiglio em mineraGio e nos stores de apoi~o. O inquietante 6 que pratl- camente nito he formaGlio e aperfeigoamento da mito-de-obra local, ou iniciativas que possam suge- rir a vontade sincera e consequente de fazer do Pard nito apenas um p6Io de absorglio de habilitag6es qualificadas, mas de geraglio tambem. No ano pas- sado o Amazonas, com horizontes incomparavelmen- te mais estreitos do que os do Pard em min~rios, ganhou uma Escola de Mines gragas B sagacidade da Paranapanema, o principal grupo de cassiterita do Brasil, agora com profundas incurs~ea na produglio de ouro. Na retaguarda, a Vale continua a considerar o Pard como um ponto de passage, onde faz pousos ocasionais para tender aos obtusos reclamos do empresariado, preocupado exclusivamente comn as compras do varejo, uma migalha diante do celeiro de ganhos que uma aCio de maior fb1ego propiciaria. Fiel a essa postura colonial, a Vale mantem em Be- 16m apenas uma gerancia de compras e de apolo de primeira hora, recusando-se a destocar a mais singe- la das reJbustas estruturas administrativas e t6cnicas encasteladas no atraente literal carioca. Se tanto, por consequ~ncia dos interesses do president Jos6 Sarney, uma fragio dessa estrutura ficar8 sob as bri- sas litorineas do Maranhilo. A "jungle", infestada por indios insatisfeitos e garimpeiros agressivos, 6 ~reservada ao corpo de engenheiros formados na su- cessilo de obras interioranas. A socledade paraense, pela voz dos que dizem represent8-la, contenta-se com pouco, fiel, por sua vez, g heranga mercantill que os portugueses lega- ram e que faz dos advogados, abridores de portas ou *testas-de-ferro", os profissionais mais bem su- cedidos na esteira da ''corrida ao Norte". Ningudm parece interessado, por exemplo, em quest~es que afetam ainda que indiretamente nossos inte- resses vitals, como o destiny da Caraiba Metais, a unica metaluirgica de cobre do pais, por incapacida- de de ver obliquamente ou de ir alem do pr6prio nariz. O estrabismo mental custard carol. No caso do cobre, custar8 ouro em quantidade pelo menos 20 vezes superior B de Serra Pelada, que s6i sere re- cuperado na concentraCio do min6rio e, se de- pender do president Sarney, no Maranh~io e nito no Pare, em cujo coraglio eternamente violado estao depositadas as rochas. Se os paraenses por nada disso se interessam, so estlio desinformados e pedem tiio pouco, a pode- rosa Companhia Vale do Rio Doce trata-os como me- recem. Esse pouco caso val desde nito inclui-los nas grandes decis~es ate atos simb61icos, como ti- rar o nome de Nossa Senhora de Nazare, a padroei- ra do Pare, do hospital de Carajes, rebatizando-o de Yutaka Takeda, o "big boss" japon~s que mais vai comprar minerio de ferro, ou reservar B imprensa do Estado um pelido resume de seu balango annual, que sai generosamente no sul. O resume publicado na semana passada - impede a opin~io pilblica local de fazer andilises de- talhadas das contas daquela que jB 6 a maior corpo- raglio econbmic~a em funclonamento no Estado, mas nito apaga a impressio de que, embora potencial- mente multo rico, os pr(5ximos anos serito tambem de muitas dificuldades. A Vale apresentou um pre- juizo liquid de 13,6 bilhees de cruzados, fato sem paralelo em sua hist6rla. E neste ano toer que pa- gar 550 milhiies de d61ares de sua divida. Quanto As dificuldades, estas, pelo menos, nito foram criadas pelos paraenses. EMPRESA O vizinho de dentro Em pouco mais de tr~s anos de mandate, o pre- sidente Jos6 Sarney ji esteve mais vezes em Cara- jas do que todos os governadores paraenses. Fez o dobro das visits de HBlio Gueiros, que foi duas ve- zes g serra, mas sempre por causa do prbprio Sarney e niio por iniciativa pr6pria. AtB a liberagilo da Nova Repdblica, Carajds era, na verdade, uma possessio federal encravada no territbrio do ParB. Durante os governor militares, o governador do Estado tinha pra- ticamente que pedir autoriza~gio para entrar IA. E sempre se sentia como um estranho, isolado entire pessoas de fora, que tinham elos hierdrquicos ou funcionais com Brasilia, Rio de Janeiro ou Minas Gerais, mas nito com Bel~m. A situaqilo mudou um pouco, mas os governado- res estaduais ainda se comportam em Carajss como se fossem convidados, sem desenvoltura ou traguejo sobre uma grea que, em alguma media, tamb~m es. tB na sua esfera de jurisdigiio. Parte desse estado de desconforto result do fato de que a brea foi con- cedida B Companhia Vale do Rio Doce, empresa de porte superior ao da maioria dos governor estaduais, Mas tamb6m decorre do modo como Sarney encara Caraj~s . Serra paraense, mas a favor do Maranhlo E possivel que o president tenha se deixado fascinar pela exuberante paisagem da selva, que combine o encanto da natureza com o postal de um gigantesco empreendimento econ~mico brotando no meio de uma selva compact e tito distant do lito- ral. Mas certamente nada disso teria tanto atrativo para Sarney se CarajBs nlio pudesse ser transforma- da numa usina de produtos em beneficio do Mara- O fascinio r Desta vez o president Jos6 Sarney nito p~de mostrar apenas bucolismo e capacidade empreende- dora ao seu convidado em Carajds. Para evitar que o pr6prio Sarney e seu colega colombiano Virgilio Barco presenciassem desgrad~veis cenas de protes- to, comuns no distant Brasil real, um forte esque- ma de seguranga foi montado na serra, cuja aglio foi facilitada pelo mau tempo, que reduziu o program dos dois presidents na Brea. Agentes da Policia Fe- deral, pelo menos 100 homes da 23a Brigada de Infantaria de Selva, sediada em Marabs, e soldados da Policia Militar foram mobilizados para garantir as cinco horas de passeio dos dois presidents por uma das principals provincias minerals do planet, uma situaCio inedita na hist6ria de Carajds. E para manter a imprensa sempre distant a qualquer pre- go, como nos tempos dos governor militares. O ambiente na serra, que j6 era nervoso desde o inicio do ano, ficou ainda mais tens depois de di- vulgado o resultado da audi~ncia de conciliaq~io, no Tribunal Superior do Trabalho, em Brasilia. Forgada pelo Sise, o 6rglio do governor que control os said- rios das empresas estatais, a Companhia Vale do Rio Doce ofereceu 11,01% de aumento para seus nhilo. O future da terra natal de Sarney depend mais dos tesouros guardados nas entranhas da serra paraense do que de qualquer outro bem de seu pr6- prio patriminio. Dai a frequ~ncia das visits do pre- sidente e sua disposiglio para levar visitantes ilus- tres a Caraj~s, como Virgilio Barco e Alfonsin. De a opinitio pliblica a impressito de que a grea onde esta uma das mais importantes provincias minerals do planet 6 direito liquid e certo tanto da Unitio quanto do Maranhilo. O Pare 6 acidente geogrsfico e impertin~ncia political. Os minerios de Carajds seo essenciais para que se implantem emn Stio Luis uma grande usina side- rilrgica, com investimento para tris bilh~es de d61a- res, e uma usina de concentraCdio (ou talvez at6 mesmo uma metalorgica) de cobre, aidm de abaste- cer unidades de gusa, silicio e outros produtos inter- medibrios que se instalam ao long da ferrovia de Caraj~s. O Pare tambem este se tornando o maior centro de absorgio da mlo-de-obra nito qualificada do interior maranhense, que nito vQ mais distinglio de divisas entire seu Estado e a parte sudeste do territ6rio paraense. Carajds serve tamb6m como bloqueio aos impe- tos separatists do sul maranhense, que poderiam comprometer o patriminio que o president quer transmitir ao filbo no maior de seus projetos: fazer do deputado "Zequinha" Sarney o successor de Epi- t~cio Cafeteira no governor do Estado. No fundo, 6 para isso que Sarney briga comn todo o impeto pelos cinco anos, na verdade querendo o mandate integral de seis anos. Pensa menos na grandeza do Brasil do que na consolidation de sua dinastia maranhense, um projeto que este mais g altura de suas compet~ncias e afinidades do que a directio de uma naglio tiio gran- de e complex. do funcionsrios, que reivindicavam pelo menos 37%, aidm de 15% de produtividade. Segundo os dirigentes do sindicato dos trabalha- dores em Carajds (mais conhecido como Metabase), a posiCtio da empresa provocou irritaglio e indigna- Cgo entire os 1.700 empregados na mina, mas sobre- tudo junto aos 1.400 trabalhadores semi-qualificados ou nSto-qualificados, integrados majoritariamente por natives da regitio. Aldm de s6 receberem um quinto do que julgam necess~rio para nito sofrer perda sa- larial, eles perdertio quase todas as vantagens ofere- cidas aos que se dispuseram a viver no confinamen- to da serra. Os contrastes da visit Por causa do estado de animo, o protest, que deveria ser simb61ico (portas e janelas das casas ficariam fechadas e, na frente delas, crianqas nuas e adults com roupas surradas procurariam atrair a atenglio dos visitantes), foi assumindo contornos mais ostensivos nas cabegas dos organizadores. Apa- receram voluntiirios, que criticavam os gastos no apolo a visit dos dois presidentes, Na serra circu- Carajas pa rando esta president Aldm dessa brutal agresslio, o organismo dos que adoeceram ou morreram estava debilitado por uma subnutriglio crinica, quando niio desnutrictio aberta. Nesses casos, nem mnesmo os medicamen- tos anti-diarrbicos podem ser utilizados. A base de uma dieta pobre (feijo, farinha, capa ou charque) em qualidade e quantidade, o morador tipico da locali- dade nito tem resistgncia natural contra doengas co- muns e por isso more. Apesar de fazer parte de uma regitio aberta hB mais de trbs decadas a ocupaCio econbmica pioneira com base na pecubria, Mile do Rio forma uma comunidade da fome. As lideranqas political acreditam que a emanci- pagilo do distrito, que quer se separar de Irituia para former um novo municipio (o plebiscito foi marcado pelo TRE para o dia 24), modificard a situa~gio atual. Mile do Rio nio aceita o prefeito de Irituia, Walde- mar Nunes, que, em repreadlia, ignora as necessida- des do distrito. Mas se a autonomia pode ser a so- luglio administrative, niio garante que cenas medie- vais como a do surto de gastroenterite deixarlio de repetir-se. O que, em greas adlantadas jii B pega de museu de um passado que foi superado pelo .pro- gresso socialmente just, na Amaz~nia ainda 6 even- to de um cotidiano tragicamente difundido por toda a regi50. Campanha de assinaturas Para fazer sua assinatura, se voc6 ainda nho tem uma, ou renovar a que j6 possul, basta telefonar para 224-3728 ou ir diretamente8 rua Aristides Lobo, 871. O JORNAL PESSOAL est8 sendo distribuido apenas entire assinantes. Iavam muitos autom6veis de luxo e inibus de dois andares, com ar condicionado, para servir aos 400 membros das comitivas oficiais. Gargons, cozinhei- ros e decoradores foram levados de aviio de Belem, aidm da comida. Os alojamentos foram melhorados As pressas para abrigar hbspedes, recebendo gela- deiras e? aparelbos de televisio. O Ijnico hotel foi inteiramente reservado aos visitantes. Talvez por falta de previsio de sua assessoria, Sarney contribulu para agravar ainda mais um senti- mento de revolta e hostilidade que js havia contra a Vale. O sindicato condenou a intransig~ncia da em- presa, argumentando que em CarajBs a forga de tra- balho ests sub-dimensionada (precisaria de, no mi- nimo, mais 300 contratagies). Uma consequ~ncia 6 a grande quantidade de horas extras que os empre- gados stio obrigados a fazer. A insatisfaglio generalizada garantiu o sucesso das operac;6es-tartaruga comandadas pelo sindicato, que provocaram 22 paralisaciies na usina de benefi- ciamento do min~rio de ferro: de 55 mil toneladas, sua capacidade nominal dibria, ela chegou a funcio- nar com 4.800 toneladas. Prevenindo-se contra es- sas paralisaq6es, a Vale estocou 3,6 milh~es de to- neladas de mindrio no terminal da Ponta da Madeira, no Maranhilo, para abastecer os oito navios que de- vem atracar. Mas os funcionarios pretendem parali- sar tamb~m as atividades portudirias, que, nas opera- 95es tartaruga, chegaram a funcionar sem adotar todas as medidas de seguranga. Os trabalhadores dizem estar conscientes de que, por trbs do problema salarial, hB quest~es mais ampias. Eles acreditam que a CVRD, se pudesse agir autonomamente, iria al~m dos 11% que o governor Ihe impis. A intransig~ncia official faria parte de um plano para enfraquecer a estatal como parte de uma estrat~gia geral para minar a atuaqio do Estado nes- se setor e favor~vel a uma privatizaCio sem maiores reflexes. Os sindicalistas sabem que h9 uma arma- dilha por trss da oferta de aumento insignificant, mas argumentam tamb6m que precisam defender seus sal~rios. Enquanto isso, pela primeira vez os australianos, os maiores concorrentes no fornecimento de minerio de ferro, acompanham comn interesse a evoluglio do confront entire a Vale e seus empregados. f a in- versito de uma situaqilo comum, na qual o Brasil se beneficia das constantes paralisaC~es que os traba- Ihadores australianos conseguem fazer em seu pais. Em Vila Mile do Rio, cidade com mais de 10 mil habitantes que fica As margens da rodovia Bel~m- Brasilia, a 200 quil~metros da capital paraense, 90% das casas nito tam fossas biolbg~icas: os dejetos e as fezes humans stio jogados ao ar livre ou depo- sitados em prec~lrios buracos. Nenhuma casa 6 ser- vida por esgotos e apenas 20% das moradias rece- bem ggua encanada. As ruas, sem asfalto, ficam en- lameadas durante o inverno e atraem porcos e crian- gas para uma promiscua conviv~ncia. Nesse am- biente, niio chega a surpreender que uma epidemia de gastroenterite tenha atingido 40% dos moradores e matado 25 pessoas, entire as quais 19 criancas, ate a semana passada. Paises civilizados j6 nito registram surtos dessa doenga h6 muito tempo. Mesmo quando ela ocorre, ntio tem a gravidade comn que se manifestou em Vila Mile do Rio. Uma comparaglio dB uma id6ia da gra- vidade da epidemia: se ela tivesse acontecido nas mesmas proporC~es em Bel~m, teria causado mais de 2.500 mortes. Em Stio Paulo, seriam quase 30 mil, um caso multo mais grave do que o famoso surto de meningite de 1973. Por trais da doenga : fome Tiio elevado indice de mortes tem uma explica- clio na contamination das fontes de ggua da popula- glio de Vila Mile do Rio. Depositando fezes em fun- dos de quintal ou em locals niio isolados, a popula- glio exp~s-se a males criados por ela mesma. Esta- va tomando Bgua com um grau de contaminagio alarm~ante: at8 2.400 colif6rmios por cada 100 mili- metros de Agua, quando o nivel admissivel esta en- tre cinco e oito colif6rmios. Os moradores estavam literalmente ingerindo fezes liquidas decompostas. DOE NCA O hoje medieval de Enquanto se realizavam os preparativos para a transmissho de governor, os "banqueiros" do jogo do bicho de Belem distribuiam uma recomendagho a toda a rede, que envolve quase 10 mil pessoas: era para retirar as places de identificaCgo dos pon- tos de jogo espalhados pela cidade. Queriam o mB- ximo de discriCio na passage de governor. A expectativa era procedente. Ao long do go- verno Jgder Barbalho os bicheiros foram estreitando cada vez mais suas relaC~es com a administraGio estadual, embora o governador, pessoalmente, evi- tasse os contatos. Mas havia uma inc6gnita e at4 mesmo um receio de hostilidade com o novo gover- no. Esses temores pareciam confirmar-se quando o coronel da PM Antonio Carlos Gomes assumiu a Se- cretaria de Seguranga Pliblica. Vindo de uma atuaq5io essencialmente rural, na delegacia de MarabB, o coronel tomou posse anun- ciando que combateria e eliminaria o jogo do bicho, como outras contravenq6es penais. Da palavra A acgo, no mesmo dia o secretirio comandou uma in- vestida sobre o cassino que comegara a funcionar nos altos do sofisticado restaurant Miako, estrate- gicamente colocado atr~s do Hilton Hotel. No meio da noite o cassino foi interditado pelos policiais, armados at6 de metralhadora. Explicando-se diante da reaglio provocada por sua fulminante iniciativa, o coronel disse que estava apenas cumprindo o que a lei determine contra as contravenC~es. "Se eu nio fizer minhas obrigagaes de secretsrio, poderei at6 mesmo ser exonerado das func6es. Como isso eu nito desejo, you enfrentar a contravengiio", foi seu argument. Procurado pelos jornalistas para comentar a de- cisito do secretsrio, que, ao menos aparentemente, havia agido sem consults-lo, o rec6m-empossado go- vernador Hdlio Gueiros procurou um ponto de equi- librio, ou conciliaglio. Reconheceu 4ue, sendo o jo- go do bicho uma contravenglio, "6 evidence que o governor nho pode co~ncorciar com ele porque g con- tra a lei". Alertou que "quem tem que comandar a aCgo sou eu". Caberia ao secretsrio "receber a de- terminaglio de mim", porque "quem tem que deter- minar actio especifica contra determinada atividade considerada irregular e ilicita sou eu". Assegurou que a mdquina governmental per- maneceria g distlincia do jogo do bich~o, do qual o governor nito participaria em hip6tese alguma, mes. me que houvesse a legalizaGIo. Declarou-se numa posiCtio de quem acompanha as acontecimentos, es- perando a definiCtio da Assembidia Constituinte so- bre a question dos jogos de azar. "At6 Id, resolve o problema", prometeu. Regras do logo foram antecipadas Mas o governador nito aguardou a definiio constitutional. Um pouco depois de assumir o go- verno, ele encarregou um assessor de verificar co- mo era a relaglio entire o bicho e o governor na admi- nistraglio anterior, de seul amigo d'dder Barbalho. p Soube que as oito bancas de bicho recolhiam 200 mil cruzados mensais para as obras sociais da primeira dama, Elcione Barbalho, e da FBESP (Fundagio do Bem Estar Social do Pard)], sem prestar contas. O dinheiro era recolhido pelo cartorsrlo S~lvio de Mi- randa Correa, um velho amigo de J~der envolvido, com outro integrante do circulo mais intimo do en- tio governador, o ex-secretsrio estadual Manoel Ac~cio e Silva, em outros empreendimentos realiza- dos no period, como a Tropighs e o loteamento Vila Bernini. A coordenagBo saiu das mitos de S~lvio para as do deputado federal Arnaldo ,Moraes Filbo, ex-secre- thrio de Seguranga Pliblica e ex-presidente da OAB do ParB. De 200 mil cruzados a contribuiqBo passou para 900 mil. Uma nova banca surgiu, na qual um dos s6cios seria um irm~io do governador, Paulo Gueiros. E os banqueiros, que permaneceram enco- Ihidos entire margo e maio, se expandiram e relaxa- ram, atuando com uma desenvoltura de que nio des- frutavarn nem mesmo antes. O bicho passou a ter complete endosso official. Mas nem essa protegio official impediu que con- tinuasse a ser uma contravengho penal, que cabe B policia combater. Foi essa elementary base legal que o delegado da DOPS, Cl6vis Martins, foi buscar para um ato de protest contra o governor que pudesse ser imune B acusaglio de imprbprio: resolve "es- tourar" as "fortalezas" (esp~cie de sedes adminis- trativas dos grupos, onde slio realizados os sor- teios). Assim, imaginava o president da associa- Cii0 dos delegados colocar o governor em situagho dificil e forq6-lo a negociar as reivindicaCBes dos policiais, entire as quals o retorno da gratificaCgo por risco de vida, suprimida por Gueiros. No dia em que o delegado escolhera para come- Car a ofensiva, os banqueiros resolveram criar - ainda que informaimente uma inusitada associa- glio de contraventores penais, posaram pela primeira vez para fot6grafos da imprensa, em conjunto e sor- ridentes, acusaram Clbvis Martins de ser um entire outros policiais que recebiam propinas do bicho, re- feriram-se ao acordo de cavalheiros com o governor, selado por donativos para fins assistenclais, e pra- ticamente desafiaram a policia a tentar fechar as "fortalezas", insinuando que jB dispunham de prote- glio g altura de qualguer agressito. O delegado ntio fez a tiio longamente anunciada "blitz", ameacou processar os bicheiros, entregou seu cargo na DOPS (no qual foi mantido), pediu pro- vid~ncias da secretaria, reuniu munictio documental, metralhou acusaqbes verbais generalizadas e reco- Iheu-se, aparentemente B espera de melhor oportu- nidade. O secret~rlo de seguranga, que B amigo de um cambista com banca montada a 20 metros do pr6dio da Segup, tentou ser irbnico dizendo que i Ijnico jogo que conhecia era o de futebol, alegou desconhecer o acordo do bic-ho com o governor, reco- nheceu que o jogo 6 uma contravenglio, mas nito to- mou nenhuma providencia, nem mesmo contra a acusa~gio de corrupqilo ao delegado, "por falta de ,rovas". Jg o governador, reformulando posiglio an- A dispute anunciada terior, disse aos jcrnalistas, que the cobravam decla- raq6es, que nito iria falar sobre problems policiais, "da algada do secretirio". Uma batalha apenas para as encenaG6es A opinitio piiblica teria multos motives para achar que houve uma batalha de Itarar6, aquela que ficou famosa sem ter ocorrido, ou justamente por isso. Niio faltou muniglio, oferecida a e por - todos os contendores, mas eles preferiram, quando multo, p61vora seca, tiro de festim. Mudou muito a situaglio um ano depois. O co. ronel Antonio Carlos, que fora ao Miako armado para fechar o cassino, voltou ao local para comemorar seu aniversbrio, abrilhantado pela preseng~a de mui. tos policials. O journal "Didrio do Pardi", de proprie- dade do ministry J~der Barbalho, disse que a festa foi paga pelos banqueiros do jogo do bicho, que usa- ram como intermedidrio outro senito o delegado C16- vis Martins. "Se for comprovada a acusa~gio, fica dificil ao secretsrio explicar que nito sabia a origem do dinheiro que patrocinou o rega-bofe do aniversa- riante", desafiou o journal. A~trav~s de sua assessoria de imprensa, o secre- tsrio remeteu para o journal a rela~gio de 38 delega- dos que assinaram uma lista de adesdes, com con- tribuiglio minima de um mil cruzados (que nem todos pagaram), responssveis pelo financiamento da festa (ao m6dico custo de 22,3 mil cruzados]. Independentemente de saber comn quem est8 a verdade, a pol~mica revelava a dispute political (uma delas) por trbs da question do jogo do bicho. Co- mandado pelo deputado Arnaldo Moraes, que 6 o director responsivel pelo "Dibrio do ParB", um grupo da administration estadual anterior pretend derru- bar o coronel Antonio Carlos da Segup. Seu lugar seria ocupado por algubm de confianga do esquema do ex-governador, ou o pr6prio Arnaldo Moraes vol- taria B secretaria. A toler~ncia de Antonio Carlos com CIdvis Martins seria explicada pela disposigio do delegado da DOPS de enfrentar o grupo de Arnal- do, denunciando vsrias irregularidades que ele pra- ticou na Segup. A investida contra o jogo do bicho poderia atin- gir tamb~m o ex-secrettirio, respons~vel pelo enten- dimento com os bicheiros. Quando os banqueiros declararam que recolhem mensalmente 1,6 milhlo de cruzados para as obras socials do Estado, abriram um flanco contra Arnaldo. Afinal, conforme o con- trole da conta que forneceu b imprensa, o governa- dor Helio Gueiros admite receber apenas 900 mil. Para onde iriam entlio os 700 mil cruzados da dife- renga ? Vgrios policiais, intimos dos banqueiros, garan- tem que muito mais do que essa quantia continue indo para alguns bolsos particulares e niio para a conta que o governor abriu na agancia do Banco Me- ridional, na Cidade Velha, administrada pela amiga do governador e president do Ipasep, Maria das Neves. Essas suspeitas, dificeis de comprovar, slio ali- mentadas pelo valor inexpressive da "contribuicto social" do bicho. A julgar pelas declaraqbes do ban- queiro Miguel Pinho, o bicho fatura oito milh~es de cruzados por dia, o que daria 120 milhdes por mis, numa estima provavelmente conservadora. Oficial- ment~e, assim, o desconto para as obras socials seria de 0,8%; extraoficialmente, ficaria em 1,5%. i cla- ro que os bicheiros estariam dispostos a recolher muito mais para niko terem complicac;8es com as autoridades. Dando pouco para ficar com muito A benevolancia do governor com o bicho teria motivac~es superiores. Os banqueiros calculam que dito emprego a 50 mil pessoas. O governor avalia o contingent em 10 mil, mas ainda assim atesta a im- portante significapilo social da contravenglio: entire os que absorve estlio deficientesfisicos, que, de ou- tra maneira, niio poderiam estar em atividade eco- namica. i uma verdade, mas pela metade. O bicho n~io paga impostos, nito faz recolhimentos socials, est8 imune Bs protegoes trabalhistas e o que reparte entire seus empregados represent arenas um pouco maisdo que destina ao governor. O "grosso" da ren- da vai para 20 mitos, quando muito. O lefio da receita federal sabe disso, tanto que comecou a convocar os banqueiros para uma con- versa aritmetica. Um dos menos privilegiados entire os bicheiros que jii depuseram estava com 700 mi- lhbes de cruzados de seu patriminio "a descoberto . Simplesmente nito podia explicar de onde viera 0 dinheiro para comprar os bens e isto numa pri- meira verificaCio. Por que c~onferir a tals cidadlios o privil6gio de former fortunes A margem do rigor fiscal que se abate sobre o comum dos contribuin- tes ? i obvio que tais fortunes estlio abertas a dedu- 95es em favor dos que querem e podem contribuir para manter a situactio tal como ela ests hoje. Ouan- do o "status quo" sofre alguma ameaga, os bichei- ros abrem mihimetricamente o bad de segredos e revelam uma ponta desses vastissimos bastidores escuros nos quais atuam personagens ocultos. Dian- te desse quadro, as meias-verdades que o governor utilize quando busca a transpar~ncia sito the os mais negatives do que menteras por mnteiro. Elas langam uma r~stia de luz apenas sobre os amblentes que the interessa ou pode mostrar, iludindo os que pen- sam estar vendo todo o cendrio. Em tais circuns- tilncias, transparincia passa a ser o antipoda da ver- dade. Da montanha sai um rato N. da R. Depois de ameagar durante duas semanas, o delegado CI6vis ,Martins investiu contra o jogo do bicho no dia 20. Niio foi a grande ofensiva que se anunciava: comandando duas equipes da DOPS, o delegado invadiu uma aggncia de jogo (a apenas uma quadra do pr6dio da Secretaria de Se- guranga Pijblica) e uma das "fortalezas" do JB, de Jolio Bosco Moys~s, que parece ter adotado a pre- cavidia attitude de espalhar o que at6 entlio estava concentrado numa Onica sede. Foram apreendidos pouco mais de 50 mil cruzados em dinheiro, puless" do jogo e arquivos de ago onde slio guardadas, por cinco dias (para confer~ncia), as c6pias das apostas. Do pessoal que qlue estava nos locals, apenas dois gerentes foram detidos, fichados criminalmente e li- berados, depois de pagarem fianga, "porque o resto 6 raia midda", como explicou o delegado. Mas o fato de a policia prender apenas alguns dos que foram flagrados por pratica de contravenglio penal, liberando outros, al~m de tomar os pr6prios empregados do jogo do bicho como testemunhas, seria utilizado pelos advogados dos banqueiros para pedir na Justica o relaxamento do flagrante. Teria havido incorreptio tecnica no procedimento da poli- cia. Deferido o relaxamento, os advogados poderiam solicitar a devolucito do material apreendido. E tudo contrdrio, pode ladss. E~ que no proc F fipt tvo o legado sera logo afs opara 4 fai apura 95es. rr,1 Depois do primetrD "round", quando o l~elegado ameagou desencandear uma "blitz ampla e profun- da, contra o bicho, os banqueiros receberam garan- ties, de um porta-voz do governor, de que o "acordo de cavalheiros" seria mantido, com a tolerlincia ofi- cial a contravenglio. Resta saber as consequ~ncias do segundo "round", que nlio teve maior expresso porque a invasiio policial B ag~ncia c h "fortaleza" do "JB" aconteceu uma hora antes do segundo sor- teio do dia dos cinco que sito realizados. Por isso, o prejuizo foi menor, s6 nito tanto porque a moral pliblica continue a ser seriamente comprome- tida por essa meia transparancia e essa mela guerra. Iconsequente mento no valor da folha de pessoal do magist6rio, aidm de tentar racionalizar e modernizar o manute que 6 a estrutura administrative da Seduc. Com tudo isso, porem, o governor est8 apenas mantendo a educaptio em nivel de subsist~ncia. A folha dos professors de fato cresceu 340% em um ano, mas ainda abaixo da evoluglio das OTN (352%), que slio o indice official de mediGlio da inflagito me- nos distant da realidade de mercado. Mesmo com o Gltimo aumento, a esmagadora maioria do profes- sorado ainda ganhardi abaixo de 10 mil cruzados por m~s, rendimento do menos qualificado dos ~trabalha- dores bragais no setor privado. Com o intuito de obter rendimentos politicos contra a greve, o gover- no deu o dobro de aumento as professors leigas e 50% a mais para as normalistas em rela~go ao in- dice aplicado gs de formaglio universitbrias. A efi- chcia dessa media 6 mais do que duvidosa: nito elevar8 tiio significativamente os menores saidrios, mas os aproximard tanto dos das professors me- lhor qualificadas que desestimular8 acarreira e a habilitaglio. A moral desses conflitos deveria ensinar os governantes a estabelecer para cumprir uma politica s~ria, s611da e corajosa para a educaptio no Estado antes de serem empossados. A administra- glio H~lio Gueiros, que anunciava a educaptio como prioridade maxima, prometia esse trabalho, mas mergulhou tanto no varejo do confront que pode perder essa perspective mais larga. Quanto As lide- rangas dos professors, empenham-se tiio impetuo- samente no avango a qualquer prego que esquecem principio elementary na estrat6gia de quem combat: preparar a hip6tese de recuo titico. Por isso, sub- metem os liderados aos golpes da decepplio e do abandon. aJOmda PeSSOM Editor responsive : L~icio FI~vio Pinto Endereco (provsisrio): rua Aristides Lobo, at I Belbm, Pard, 66.000. Fone: 224.3728 Diagramacio e ilustrardio: Luiz Pinto oneso Jornalistica voltaria mais ou menos g estaca zero se niio vierem a ocorrer dois desdobramentos : 1 O delegado investir~contra os demais gru- pos (slio nove e alguns do porte do "JB") e pren- der os dons, nito seus gerentes, que slio apenas um pouco mais qualificados do que os cambistas. 2 O secrettirio de seguranga poiblica ou o go- vernador reagirem cont1-a o delegado. Os bicheiros continuam sustentando que a de- legado s6 decidiu atacar o bicho para pressionar o governador a devolver a gratificaptio de risco de vida aos policiais e porque quer manter-se em evidgncia no noticibrio da imprensa para ajudar sua candida- tura de vereador. Asseguram que, havendo sindl- clincia ou inqu6rito administrative, apresentartio pro- vas de que CI6vis recebe propina, mas niio estio dispostos a confirmar essa acusaglio em juizo (aO Confronto in A guerra entire os professors e o governor jd pode ser agendada no calendario de events do Pard sem o risco de cancelamento: todos os anos provo. ca uma ou mais batalhas. Sob a presslio da maior categoria funcional do Estado, que congrega mais de 22 mil pessoas, o governor acaba cedendo algumas vantagens, mas os professors conquistam sempre menos do que a reivindicado e muito abaixo do me- recido. Por ma conduGho de ambos os lads, as ten- tativas de negociar se transformam em confrontos de forg~a e consume todo o tempo que as eventuais liderangas podem dispor no "front". Isso garante justificativas e munictio para os cheques seguintes, ainda que com outros protagonistas. Entre os perde- dores perp~tuos, estlio os alunos, seus pais, a edu- capilo e o Estado, que niio consegue avangar aidm da question dos salbrios. Se nas tras ultimas administraC~es pliblicas essa question provocou entrechoques anuals, eles adquiriram dimension de gravidade sem paralelo no atual governor, que fez a maior mobilizaglio de tropa de Bel~m em todos os tempos (400 homes, com cavalos e cachorros) para inibir uma passeata de professors multo menos expressive do que viirias anteriores. A intransigincia, o radicalismo ou a in- fantilidade voluntariosa dos dois lads fez os dois dirigentes da federaglio dos professors, a Feppep, recorrerem a um instrument de luta, a greve de fome, usado comn precipitaglio tiio artiflosa que a ele o governador reagiu com ironia igualmente fora de propjsito para quem deve administrar um Esta- do, explosive como o ParB, com um minimo de isen- Glio e tirocinio. O governador tem se comportado nessas circunstlincias como se estivesse numa tri- buna de comicio ou nas trincheiras jornalisticas & moda antiga e niio no comando do Estado. HBlio Gueiros poderia alegar em sua defesa que fez uma estrepitosa demonstration de forga, mas nao a usou, justamente para prevenir mais viol~ncia. Pode tambem argumentar, como tem feito, que sou governor foi o primeiro a cumprir o Estatuto do Ma- gist6rio, maior aspiraglio da categoria; que fez o en- quadramento de 80% dos professors jd integrados ao estatuto; ou que manteve um aprecitivel incre- |
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