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Ano I NP 15 Circula apenas entire assinantes is Quinzena de Abril de 1988 A de lei e de dois decretos-leis provocariam pre- juizos g Uniho no valor de 3,6 bilhaes de d6- lares. A denuincia surgiu durante a troca de acusaC6es entire o grupo do ex-ministro do Planeja- mento, Anibal Teixeira, e o do secretsrio-geral da Seplan, Michal Gartenkraut, na CPI da Corruppio, que funciona no Congresso. Apesar do valor atribui- do ao prejuizo, que seria causado por mera malicia na redaglio de documents legals, a revelaGio nio teve o impact merecido, nem o governor se sensi- bilizou pelo assunto. Ao contrBrio, o president Jose Sarney passou a comandar uma ofensiva do Paldicio do Planalto, que resultou at8 num longuissimo parecer do consultor geral da Repiiblica, para impedir seu secretsrio par- ticular e ex-genro, Jorge Murad, de depor na CPI. Invocando uma compara~gio que, pela insistincia e improced~ncia, esta se tornando patol6gica, o presi- dente em entrevi'sta encomendada ao jornal "Cor- reio Braziliense" disse que querem repetir, coem ele, o que fizeram com Getiilio em 1954. Na apura- giio do atentado contra Carlos Lacerda, que se trans- formou numa devassa contra a familiar Vargas e o cir- culo mais intimo do Pal~cio do Catete (entlio a sede do governor os officials da Aeronsutica e os politicos da UDN convocaram o irmio do president, Benjamin Vargas, para depor na Base do Galetio. Mas Get~lio se suicidou antes. Benjamin, que niio se envolvera no atentado, j6 havia aceitado ir ao Galetio. Sarney disse ao "Correio" que estito tentando coloch-lo entire a rendncia e o suicidio. A dramatici- dade d falsa, mais uma vez, como a inspiraglio em Getolio, js obsessive (Sarney ate mandou buscar os antigos mdveis do Catete para seu gabinete no Pla- nalto, o msximo que consegue de identifica~gio com Vargas). Ao inv~s de tentar reviver o clima de agos- to de 1954 (na verdade, est8 pensando em 1937, quan- do Vargas iniciou a ditadura do Estado Novo com o apolo das Forgas Armadas), o president deveria aconselhar o ex-marido de sua filha a procurar es- pontaneamente a CPI e esclarecer as diividas e sus- peitas que pairam sobre sua atuagho nos bastidores do governor. Afinal, Murad era quem dava a susten- tagio a Gartenkraut. E nho ests acima do bem e do mal . Apesar de ainda inconclusa, a hist6ria que a CPI jB reconstituiu e o bastante para desencavar a mais negra lama moral. Tem-se a impressio que ela 6 escrita por bandidos, sem a presenga de um moci- nho, por mais singular que fosse. O ex-ministro Ani- bal TFeixeira, ate algumas semanas atris sob a pro- tegiio pessoal de Sarney, nio conseguiu escapar ao indiciamento criminal, tantas foram as provas e evi- dancias de irregularidades reunidas contra ele. Em 10 meses de Seplan ele distribulu 27 bilh6es de cru- zados, atendendo a apenas 10% dos pedidos de ver- bas a fundo perdido. De uma forma esquiva, a Seplan acrescentou Cz$ 100 bilhbes ao projeto de lei sobre o excess de arrecadagio. A partir de uma generosa, mas bem orientada, distribuiptio de verbas sem retorno e quase sem ex- plicaglio, a CPI pode rastrear a relaglio fisiol6gica entire municipios e o Pal~cio do Planalto, ao qual a Seplan est8 vinculada. Minas Gerais, e particular- mente Belo Horizonte, por onde Anibal Teixeira pre- tendia sair candidate a prefeito, foram as mais bem aquinhoadas na repartiptio. Mas um caso interessan- te tornou-se o de Pinheiro, terra natal do president Sarney. A "Folha de S. Paulo" calculou que se to- das as cidades brasileiras recebessem o que foi apli- cado em Pinheiro, a Unitio precisaria de Cz$6 981,4 trilh~es, o que significa 80 vezes o PIB (Produto In- terno Bruto) do pais. Logo, se Anibal 4 culpado, al- gu6m mais acima dele tambem 6. Pode ser Murad. Mas pode ser o pr6pr~io Sarney. Insensibilidade no allto Um cidadlio, acostu- mado a placidez dessas hist6rias escabrosas num pais que perdeu a capacidade de se assustar, niio veria nada demais em que a apuraglio e a puniGlio fi- JaralPessoa Lricio Flsivio Pinto MARAJAS ilha fantasia da A alta administraqgo p~blica brasileira fica cada vez mais distant do povo. Por isso, consider naturais os saus muitos privilegios. Como os dos desembargadores, ou dos deputados do Park, que ninguem consegue acabar. I- 1 _ cassem a meio caminho, alcangando apenas os exe- cutores de ordens ou eventuals bodes expiat6rios. Mas as constantes indiferengas tornaram-se insupor- t8vels para uma naqiio que j6 paga um prego altissi- mo por causa dessa incdria da administraq~o plibli- ca. O que era retina estb se transformando em afron- ta a mis6ria em expansito. O "jeitinho" nio tem, nessas conjunturas de el6trica tensito, a mesma efi- c~cia de outras ocasides. Algo precisa ser feito. As elites, por~m, nito parecem acreditar nessa necessidade. Crbem que o povo suportarl calado e assistird pacifico a todos os abuses, mesmo que agora, com a difusio eletrbnica das informa~ges, esses abuses sejam revelad~os seguidamente em cada lar. A c6rte de Brasilia age como se fosse a de Versalhes, esquecida de que a revoluglio francesa oc~orreu h6 dois seculos. Talvez nio ignore propria- mente a revolugho, cujo bicentendrio o mundo come- morard no pr6ximo ano. Simplesmente nito parece ecreditar que o fimn dos privilbgios, a conquista maior da revoluCgo de 1789, possa se repetir num pais t~o defasado de seu tempo em materia de di- reitos civis como o nosso. Os olhos da justiga A justiga, por aqul, con- tinua nito sendo universal: retirando sorrateiramen- to a venda legend~ria, ela escothe os algozes confor- me sua riqueza, poder e influgncia. A primeira apli- cadio da lei do "colarinho branco" deu-se no ParB, com o Banco da Amaz~nia. Mas 6 dificil explicar como o principal indiciado foi mantido durante quase dois meses num c~modo apartamento de hospital sem ser submetido a pericia medica independent para avaliar seu alegado problema de salide. Tole- rincia semelhante nito haveria se o paciente fosse o trabalhador Joso da Silva, naturalmente. De qualquer maneira, no entanto, Augusto Bar- reira Pereira sofreu o constrangimento de uma cust6- dia policial e acabou send~o transferido, preso, para o Rio de Janeiro, o distrito da culpa no primeiro pro- cesso (hB outro, ainda na fase de inquerito policial, em Bel~m). Mas como explicar que a Policia Federal do Rio de Janeiro nio tenha localizado e prendido o mais extravagant dos membros dessa quadrilha que praticou o desfalque no Basa? Niio foi s6 Augusto Jr. que permaneceu foray do alcance da PF, mesmo nio tendo said do Rio. Tamb~m Guilherme Fel- dhaus nito foi encontrado. Seria receio de perder o control do caso, que poderia se alargar e se apro- fundar como o da Seplan, ficando na ante-sala do Paldcio do Planalto ? Pior do que nito apurar uma Irregularidade 6 acionar meios clandestinos ou ilegitimos para cir- cunscrever sua apuraglio. Os policiais, provavelmen- te mais do que quaisquer outros funcionbrios ptibli- cos, sabem o que isso significa, o efeito que essas ordens "de cima" exercem sobre a noglio do dever. Esse 6 um dos principals components do descr~cdito e da desmoralizaCio do servigo pliblico, que se afun- da na mneficibncia e na corrupplio, sem que mndivi- dualidades virtuosos consigam escaper a essa mb- quina de trituragilo de valores. Tal estrutura engendra uma capa grossa de in- sensibilidade, deavinc~ulando a alta administration da realidade do pais. Superfunciondrios ignoram de onde saem seus privilegios e o 6nus que pesa sobre muitos para sustentar uma cast praticamente initial ou ociosa. Acham que a elasticidade dos cofres pir- blicos e da tolerlincia da socledade 6 infinita. Enga- nam-se. ,Mas estlio incrivelmente dispostos a levar As 61ltimas consequgncias os limits desse erro. O Tribunal de justiga do Pars 6 um exemplo des- sa disposiglic suicide. De mais uma das reunlbes secrets que convocam quando se trata de seus ren- da Vivendo sob uma Repirblica que ainda niio con- seguiu completar duas dgcadas seguidas de vida constitutional regular, o Brasil acaba de dar mais uma contribuiglio a nada honrosa tradigio de trau- matismos politicos da America Latina. Os consti- tuintes nacionais decidiram sobre o regime de go- verno e o mandate do president coagidos IRor um boato de golpe military. Niio uma noticia palpsvel, uma informagilo mais consistent, mas pura e sim- plesmente um boato, que se consolidou apesar de contrariar a lei das probabilidades, o principio do bom sensor e a tendencia natural dos acontecimen- tos. Quem tem acesso a uma mdquina de fabricar boatos passou a ter, neste pafs de espinha dorsal mais do que flexivel, o poder. Nada haveria de censur~vel se os constituin- tes decidissem pelo presidencialismo e o mandate de cinco ou seis anos no cursor de um process 16gico, de um embate politico e ideol6gico. Mas a corrida de Girtima hora no rumo das posiq6es do Palicio do Planalto ocorreu sob o guante de uma espada ficticia e o tinir de trinta moedas. Contra- riou, por um movimento artificial, a evoluglio que vinha sendo registrada desde algumas semanas an- tes. Uma Constituinte que dormira parlamentarista acordou presidencialista por forga de bruxarlas com o cifrilo do povo e a espada de um sujeito silent ou oculto. Mais uma vez, na ocasitio em que precisava reformer, a elite political brasileira opta por negociar. Desta vez, nem foi precise mandar o general Meira Matos apagar a luz do Congress ou colocar Urutus nas ruas. Bastou blefar com o boato de um golpe intangivel para assustar os representantes politicos da nacgio e faz6-los decidir nito sobre o que acreditam, se 6 que acreditam em algo s61ido, mas sim sobre o que t~emem. Na situaGlio dram~tica em que se encontra o Brasil, nenhum crit6rio 6 mais nocivo As decis~es do que o do medo, ou sua contra- faio o do oportunismo, do proveito pessoal. Pois foi o que se adotou em Brasilla, e~ssa crista- lizaglio arquitet~nica da miragem brasilelra. Med o: decisao o criterio dimentos, os desembargadores sairam comn a dispo- sigBo de dobrar o que ganham. O pretexto tinha at6 seu fundamento legal: como os vencimentos dos dlesembargadores estlio vinculados ao dos secret6- rios, eles tambem teriam direito a representagio de 100% concedida pelo Executivo, em maio do ano passado, para que seus secretaries fagam a coorde- nagiio (um pretexto, claro). O que impression 6 que os desembargadores s6 tenham acordado para a equiparaglio 10 meses depois, quando podem ter sido inibidas quaisquer ve- leidades morals. O governador Helio Gueiros ques- tionou o direito dos desembargadores a auto-aplica- capilo do beneficio, argumentando sobre a necessi- dade de obt6-lo atrav~s de lei, regularmente subme- tida a Assembl~ia Legislativa. Mas ainda que essa tramitag~io nito seja necesssria, nito ha d~vida de que os magistrados deram toda a importlncia ao for- malismo legal, esquecendo sua substancia moral. Mateus, primeiro os teus Eles reivindicaram o recebimento da vantagem porque o vencimento bB- sico 6 apenas uma parte e a menor dos ren- dimentos globais. Um desembargador ird ganhar apenas 36 mil cruzados de vencimento, sobre o qual recolhe o imposto de renda. Mas alguns desembar- gadores jB haviam ultrapassado a barreira dos 400 mil cruzados de rendimento total e, agora, irlio albm de 600 mil. Enquanto isso, a media dos secretaries recebe 108 mil. Mas enquanto a soma dos quinquinios de um secretbrio nho pode ultrapassar a 35%, para os de- sembargadores o "efeito cascata" chega a 140%, o que, mais do que agresslio a matemstica, d um es- csrnio ao bom sensor. Alem disso, por osmose coem prerrogativa federal, eles se concederam o auxilio moradia (30%) e o auxilio transport (25%), mesmo morando na capital e tendo conduglio do Tribunal (apenas um desembargador continue usando taxi e depositando o dinheiro em caderneta de poupanga para a hip6tese, muito provsvel, se suscitada, de de- volugho). Buscando a base legal nos textos federal ou estad~uals, os desembargadores nito t~m ponderado essa indormida vigilincia sobre seus salaries coem as disponibilidades do tesouro p~iblico. Nem preci- sam fazer essa relativizaglio. Ao se aplicarem o be- neficio dado aos secretaries, limitaram-se a informer ao governador que a folha precisaria de 10 milhdes de cruzados adicionals. O Executive paga no escuro porque, da mesma forma que o Legislativo, o Judi- cibrio nio manda a folha de pagamentos, mas apenas seu montante final. O Tribunal at6 deixou de prepa- rar a folha no Prodepa, o servigo estadual de proces- samento de dados, depois que o governador teve acesso As informag6es para divulgar a relagito dos marajds, em cuja comissio de frente apareciam ma- gistrad~os. Uma formal de responsabilizar cada poder por seus gastos seria fixar percentuais sobre a arrecada- gio estadual que Ihes caberia. Qualquer estouro na previsio acarretaria cobranga sobre o autor da im- previd~ncia e o Executivo nlo estaria obrigado a li- berar alem do que tivesse sido aprovado. Mas todas as tentativas para fixar quanto do orgamento deve caber ao Legislativo ou ao Judicisrio tgm sido emr vio, por ample coniv~ncia entire as parties. Resta saber qual a amplitude da arguiglio de in- constitucionalidade que o governor pretend apresen- tar ao Supremo Tribunal Federal contra o TJE. Ela pode se restringir a impedir que as vantagens da magistratura se estendam ao Tribunal de Contas, ao Conselho de Contas dos Municipios, ao Minist~rio P~blico e gs Procuradorias, assemelhadas entire si quando se trata de conseguir vantagens. Mas pode ir at6 os ganhos ilegais ou question~veis da pr6pria magistratura, dentro da qual ha o contrast entire marajss bem cevados e funcionSbrios mal remunera- dos. O governor tem sua grande cota de participaG~o nesses "imbroglios" porque nio conseguiu transfor- mar em realidade o anunciado saneamento na admi- nistraCgo pdblica, velho de quase um ano. A distan- cia abissal entire o menor e o maior salbrio, em cada um dos stores do Estado, persiste. Nem sem- pre os salbrios guardam coergncia com a natureza da fun6Bo dos que os recebem. A tensio que existe na policia civil pode ser ao menos parcialmente ex- plicada pela diferenga entire o que ganha um delega- do que exp~e sua vida cotidianamente e a remune- raCio de um t6cnico de gabinete. O msmo se aplica a Policia Militar, ~onde um coronel jB ganha tanto quanto o mais bem pago secret~rio de Estado, mas soldados e cabos estlio abaixo de peho. .Mais desconcertante 6 verificar que um gradua- do barnab6 vai para a inatividade com rendimentos inflacionados se transitou pela c~pula da administra- glio. tE esse absurdo que faz os ex-secretbrios apo- sentados puxarem o cordho dos maraj~s. Mesmo eles, porem, aparentam pobreza franciscana quando comparados aos ex-parlamentares mantidos pelo Ipalep, o institute de previdgncia que est8 na imi- nancia de colapso pela impossibilidade de suportar as milionbrias pens~es. Hg algumas mais modestas, mas onde, fora dessa bolha de magnanimidade, um cidadlio consegue pensiio satisfat6ria com oito anos de serving? Melhor do que ser deputado estadual, s6 mesmo sendo ex-deputado estadual. Esse mundo de privilbgios nlio consegue adqui- rir solidez porque do outro lado est8 uma nagilo que Ee exaure para pagar a conta de tantos erros e ini- quidades. Como a rainha Maria Antonieta antes da revolugiio francesa, os detentores desses privilegios julgam-nos eternos e, ao mundo, imut~vel, sejam eles os desembargadores no Tribunal de Justiga do ParB, como o president Sarney no PalBcio do Planalto, per- sonagens B procura de um autor, que, se aparecer, n~io escreverb as histbrias por eles imaginada. A histbtria, se for escrita, serb bem outra. Luis XIV disse que, depois dele, viria o dildvio. Sarney est8 mais para Luis XVI, o que sofreu o dillivio precipita- do por seu antecessor. ONIBUS Por cima, como antes Os dons das empresas de 8nibus de Belem es- t~o provando, mais uma vez, que junto ao governor do Estado nenhum "lobby" 6 mais forte do que o de- les. Na semana passada, um dos empresbrios, o su- plente de deputado federal M~rio Martins, foi em- possado como o novo president da executive muni- cipal do PMDB na capital, por indicaG~o pessoal do ministry Jgder Barbalho. O cargo ganha import~ncia por causa da eleigio de novembro, alem de ser um razobvel instrument de presslio. A maior vitciria obtida pelas 19 empresas de transport urban de Bel~m, no entanto, nho teve tanta divulgaq~io quanto a escolha de M~rio Martins, que durante v~rios anos foi president do sindicato patronal. Como convem aos "lobbies", ela vai sendo consolidada nos bastidores, com toda a discregio possivel. Sua importincia niio pode ser minimizada. I' que os empresbrios vlo reverter uma situagio que parecia estar completamente contra eles. Tudo comegou no dia 8 de janeiro, quando a EMTU (Empress ,Metropolitana de Transportes Urba- nos) notificou as empresas conc~essiondrias que o governor nio estava interessado em renovar-lhes a concessio, com vencimento a 17 de fevereiro, "nas mesmas condiq6es pactuadas no contrato ora denun- do cidMudanGa estrategica Entre a EMTU, onde foi redigida, e a Casa Civil do governor, que Ihe deu a forma final, a comunicaglo sofreu ligeira mas deci- siva modificaptio em seu 61ltimo par6grafo. A mnten- Cgo original da EMTU era a de simplesmente nto renovar mals as concess6es dos 6nibus, denuncian- do o contrato com as empresas. A Casa Civil abran- dou a decision: as concessies serio renovadas, com algumas modificaq6es. Ao inves de par fimn ao melhor negbcio da cida- de, com reduzidas ou, em alguns casos, nenhuma vantagem para o usu~rio, o governor assinar8 nova- mente o contrato se as empresas fizerem algumas pequenas alteraG~es de itinersrio, instalarem termi- Snais, criarem novas linhas e mudarem a nomenciatura das linhas, adotando c6digos, alem de informarem sobre os pontos extremes de seus itinersrios. Ou seja : o governor paraense quer o cumprimento de medidas h6 muito tempo praticadas rotineiramente nas capitals brasileiras, nada mais do que perfuma- ria diante do precirio serving prestado pelas empre- sas de 6nibus. Ao tender essas suaves exigencias, as empre- sas se preparam para o pulo do gator: aproveitando o pretexto da denlincia do contrato, querem ampliar o prazo da c~oncesslio, para tornd-lo "mais compati- vel com a necessidade de se oferecer ao empresbrio a seguranga de que necessita para investor os recur- sos exigidos, inclusive, para a continue renovaglo da frota, a incessante preparagilo de recursos huma- nos e, tamb6m, para responder eficientemente g na- tural expans8o dos servings", como dizem na res- posta B notificapilo da EMTU. Alegam ainda que o empres~rio do setor nio pode "ficar dependendo diretamente do subjetivis- mo dos ocupantes eventuais dos cargos que enfel- xam o poder da outorga de tals concess~es". Admi- tem que o relacionamento com o atual governor 6 de harmonia, mas advertem que "a natureza das obriga- 96es do concessiondrio e o montante expressive dos investimentos necess~rios para cumprir estas obri- gaC~es imp6em a definiCtio de regras precisas a res- peito do assunto". Dai concluem "ser vital que esse laps de tempo ultrapasse e at8 supere mandates politicos transitbrios". Querem multo mais do que os atuais cinco anos e, se o "lobby" continuar tiio eficiente, conseguirio. I' justamente o contrbrio do que pretendia a EMTU, interessada em substituir o regime de concessies pelo de permissio, que ate- nuaria o enorme poder das empresas. Assim, de uma situaqio que, a partir do anlinclo pliblico da denOncia dos contratos, parecia adversa, as empresas de inibus sairio com mais vantagens ainda. Parece um absurdo, mas isso tem sido co- mum na hist6ria das c~oncess~es para o transport urban em Belem. O governor I~mita-se a renov4-las, com uma ou outra exig~ncia secundsria. A Prefeitu- ra assisted passivamente a condugiro do assunto, co- mo se niio Ibe dissesse respeito. E o que deveria ser um servigo a favor do pljblico, torna-se um belo neg6cio para duas dezenas de empresbrios enrique- cidos pela omission ou coniv~ncia das assim chama- das autoridades. Nalo por coincidgncia, as empresas de 6nibus slio as maiores financiadoras de campa- nhas eleitorais, juntamente com os empreiteiros. O ganho "por foray" Nlo que o servigo seja de todo ruim ou nito exija investimentos. Na sua res- posta ao governor, as empresas lembram que tam uma frota de quase mil inibus, avaliada em pouco mais de seis bilh~es de cruzados, exigindo 1,5 bilhio na renovaglio e mais um quarto desse valor para man- ter a qualidade do servigo. Tgm ainda toda a infraes- trutura e logistica de apolo e empregam diretamen- te cinco mil pesoas. Stio nirmeros expressivos, mas hii outros que os superam. O faturamento das 19 empressas deve es- tar girando agora ao redor de 600 milh~es de cruza- dos por m~s. O dinheiro entra no caixa diariamente, permitindo As empresas aplic6-lo no mercado finan- ceiro. Gragas a isso, podem aumentar a receita em 20%, uma vantagem formidivel para quem paga a maioria de seus compromissos no prazo de 30 dias ou mais. I' quase certo que todos os cinco mil em- pregados sito pagos apenas com a receita das apli- caG~es financeiras. Para cumprir o itinerdirio padrlio, um Bnibus em Bel~m nito chega a percorrer 30 quilgmetros. Em m6dia, cada viagem recebe mais de mil passageiros, dando uma renda de quase 20 mil cruzados por via- gem. Explica-se assim a razo6vel taxa de renovaCio de frota praticada pelas empresas. E a not~vel afluencia de seus dons, v~rios dos quais, portugue- ses pela origem, fazem frequentes viagens g Europa ou acumulam aprecidiveis patrim8nios. A ameaga de cancelamento dos contratos, a par- tir da den~ncia feita pel~o governor, poderia indicar a disposiglio do poder pljblico de p8r fim aos abuses tradicionalmente existentes no transport coletivo da cidade. Ou permitir um avanco na pr6pria agBo do governor, que, ao criar a EMTU, Ilmitou-a a ser uma empresa de gerncla e administrayso, sem qual- quer participaCio operacional no servigo de inibus. Bel~m 6 uma das raras, seniio a Ijnica, entire as ca- pitais brasileiras que nio tem sua empresa de trans- p~orte. A administration municipal 6 mantida g mar- gem desse servigo essencial ao municipio, enquan- to a governor reduz-se a carimbador de pap~is. Os dons das empresas sabem que o piiblico, pagando alto prego por um servigo insatisfat6rio, es- ta disposto a exigir mais do que Ihe 6 oferecido. Por isso, antecipam-se para tender algumas peque- nas exig~ncias. Ao participarem, na semana passada, da inau- guraqio de um terminal suburban de bnibus, construido pelo governor, os empres~rios patroci- naram coquetel para 150 pessoas, desfrutando, du- rante uma hora e meia, da alegre e descontraida presenga do governador Helio Gueiros. Era o mesmo ambiente de confraternizagio que se repetiria dois dias depois, quando Mgrio Martins, um dos anfitribes do coquetel, foi aciamado president da comiss~io executive municipal do P.MDB. Se alguem pensou que a dentincia dos contratos de concession pudesse dar inicio a uma nova era no transport de mass de Bel~m, os empres~rios t~m o just direito de nito serem incluidos entire tals inggnuos. O msximo que o governor pensou em obter ao denunciar os contratos com as empresas de 8nibus de Bel~m seria modificar o regime juridico que per- mite a explora~gio dos transportes coletivos. Ao in- v~s do sistema atual, de concess~es, leonino em favor das empresas, seria instituida a permissio, que dB mais poderes ao governor. O contrato denun- ciado obriga o governor a renovar as concess~es, sal- vo se puder apresentar just causa contra os con- cessiondrios. Como eles nio aceitam modificar o "status" vigente, qualquer alteraglio mais profunda obrigaria o governor a recorrer g via judicial ou usar instruments de presslio, que estso ao seu alcance, mas permanecem absolutamente virgens em rela~lio aos dons de bnibus. O president da EMTU, Paulo Sdrgio Nascimen- to, jB declarou que nito estA nem sendo cogitada a estatizaglio do setor. Depois que o entio governador Leonel Brizola fez isso no Rio de Janeiro e o atual governador Moreira Franco revogou essa decision, devolvendo o transport coletivo aos particulares, governor e a imprensa vgm dando destaque aos as- pectos negatives da experi~ncia. Eles de fato existem, mnas tanto podem ser as- sociados B impericia do Estado empres~rio, como As naturals e artificials dificuldades que qualquer um, mesmo particular, enfrentaria para gerir uma ati- vidade nova e complex como o transport de mas- sa, tendo ao lado a reaqilo poderosa do setor. Mesmo que a experi~ncia tenha claudicado, porem, foi com a encampagilo de 16 empresas de bnibus que o ca- rioca ficou sabendo que os proprietsrios dessas em- presas tinham butiques, aggncias de turismo, restau- rantes, im6vels no Brasil e no exterior, imensa frota de carros particulares, aviho, terrenos na avenida Brasil, lanchas de corrida, carros de formula 1, motel na Baixada e concessionsrias de veiculos. A auditagem nas contas das empresas compro- you ainda que elas praticavam fraudes nos prepos de combustivel e de peas, e adulteravam o registro de quil8metros rodados pelos 8nibus e o niimero de rodovibrios contratados. A situaG~o seria diferente emn Bel~m ? Um negocio do Japaio a diretoria no relat6rio de balango. Por forga da comp~etigho que os Estados Unidos e o Japho travam no com6rcio international, o yen foi sensivelmente valorizado em relagilo ao d61ar, atingindo com violgn- cia tomadores de emprestimos na moeda japonesa, como a Albrds. O saldo do debito com o cons6rcio NAAC (in~tegrado por consumidores e produtores de aluminio, mais tradings companies" e bancos), que estava em sete bilhdes de yenes em 1976, saltou pa- ra mais de 47 bllhdes no ano passado, apesar dos pagamentos efetuados, devido a essa flutuaq~o cam- bial. A diretoria promete que, para "melhorar a si- tuaglio econdmico-fmIanceira da empresa", a Compa- nhia Vale do Rio Doce negociou com a NAAC, seu s6cio no projeto, a reduglio das taxas de juros dos empr6stimos japoneses, o aumento dos prazos de amortizaglio e o inicio do pagamento de quase a to- talidade da divida a partir dos primeiros anos de produglio a plena capacidade da fsbrica, que ocorre- ri depots de 1989. Ainda para atenuar o horrorpso perfil dessa divida, foram capitalizados os "suppliers credits" (creditos para a compra de produtos no A valorizaqilo do yen em relaglio ao d61ar cau- sou prejuizo g AlbrBs de 47,4 bilh~ies de cruzados no ano passado, quase trgs vezes a arrecadaglio glo- bal receita pr6pria mais transfergncias federals -- do ParB em 1987. Com a corre~glo monetsria, o prejuizo foi baixado (essa B a expression exata, ji que ele niio diminuiu naturalmente, mas devido a um arranjo contbbil) para pouco mais de 20 bilh~es de cruzados, ainda assim quase uma vez e meia a renda do Estado onde a f~brica de aluminio, a segunda maior do pais, est8 Instalada. Por causa dessa variaGlio cambial, a Albrbs apre- sentou prejuizo de 16,3 bilh6es de cruzados no ba- lango de 1987, divulgado na semana passada. Em terms operacionais (Isto 6, diferenga entire a recei ta e a despesa ocorridas diretamente no process produtivo), a AlbrBs saiu de um prejuizo de Cz$ 287 milhges, registrado em 1986, para um lucro de 3,8 bilh~es em 1987. O rombo de fantbsticos Cz$ 47,3 bilhies nas contas da Albrds deve-se ao fato de que "parcela significativa" dos emprestimos usados pela empresa foram contraidos na moeda japonesa, como explica O que nao nas contas aparece Ir -r pals que fornece o dinheiro) japoneses e os finan- ciamentos do Finame, a ag~ncia do BNDES. O Banco Nacional do Desenvolvimento Econ~mico e Social tambem refinanciou a divida da CVRD em condiqGes equivalentes aos emprestimos da NAAC. Sangria total A suavizagio do custo financei- ro 6 indispenssvel para impedir que a Albrds sim- plesmente naufrague nas ondas da valorizagio do yen. Os sbcios japoneses, mesmo abrindo miio das gorduras financeiras, ainda terito lucros formid~vels por serem os financiadores da primeira etapa do pro- jeto. Ganho tiio grande ou, do ponto de vista estrategico, ainda maior estlio tendo por recebe- rem energia subsidiada que 6 produzida a 20 mil qui- lametros de dist~ncia de seu territbrio. Traduzido para a fase atual, de crise energ6tica, 6 exatamente isso o que estd ocorrendo: o Brasil empacota sua cara energia em 6xido de alumina, mais alguns insumos agregados, e remete o produto sob a formal de lingote de aluminio para ser desdobrado no Japlio em laminados, perfilados, pa- nelas ou quaisquer outros artefatos de aluminio de multo maior valor. E a melhor said que os japoneses encontraram para seu pr6prio impasse : slio os maiores consumidores do metal, mas nito tgm ener- gia em quantidade e custo vi~vels, al6m de enfren- tarem outros components mais dificeis e cars (mlio-de-obra, polui~gio, etc.). Projetos como o da Albris, que estio espalhando pela periferia (geogrs- fica ou econ~mica), sito a sopa no mel. Mas tam um gosto extremamente amargo para n6s. Das 173.575 toneladas de metal que a Albrds produziu no ano passado, em sua f~brica de Barcare- na, a 40 quilbmetros de BelBm, apenas 221 toneladas njio foram para o mercado externo, entregues como simbolo a beneficiadores locais. A cota dos sbcios japoneses foi de 80 mil toneladas, mas eles conti- nuam controlando a parte da CVRD, que, nas condi- 95es econ8mico-financeiras do projeto, tem uma margem de autonomia multo estreita, se 6 que existe. Vantagem unilateral Todas essas dificulda- des foram criadas com a primeira fase do projeto, de 160 mil toneladas, que consumiu 744 milh~es de d61ares. Para completar a produglio, com mais 160 mil toneladas, sertio necesssrios mais US$6 625 mi- lhaes. S6 que desta vez grande parte do dinheiro (USS 437 milh~es) ter8 que vir dos cofres do BNDES. Assim, se na primeira etapa o pais esta sendo viti- ma da variaglio cambial do yen, agora terdi que san- grar nas suas poupangas para financial um empreen- dimento praticamente cativo dos joponeses. Eles continuam exercendo pressio para que o distrito industrial de Barcarena continue sendo ape- nas um sitio de produglio de aluminio primbrio. Niio querem a verticalizaglio da Albrds, nem o surgimen- to de ind~istrias de extensito ou paralelas. Discreta- mente, a CVRD iniciou um process experimental de produglio de uma liga especial, que pode ser usada na fabricaptio de roda de carro, blocos de motor e peas de alta resist~ncia. O objetivo 6 o mercado americano, mas os s6cios japoneses nho diio qual- quer apolo a essa iniciativa. No entanto, eles s6 tgm tido vantagens. A NAAC retirou-se do projeto da Alunorte, a indlistria com- plementar da AlbrBs que Ihe deveria fornecer seu principal insumo, a alumina. Para nito ficar capenga, a Vale anuncia a disposiglio de arranjar os 400 mi- lhbes de d61ares necessarios para dar continuidade a Alunorte, jB que nito conseguiu interessar nenhum outro s6cio pelo empreendimento (nem poderia, pois a Alunorte esti praticamente condenada a ser uma f~brica cativa da Albris). Sera um novo custo que a CVRD tera de arcar sozinha, num dramatico mo- mento em que registra prejuizo em seu at6 entlio limpid~o balango. Os japoneses assistem de camaro- to a esses problems: qualquer que seja o desfecho, recebertio a alumina. Depois da AlbrBs, os brasileiros tertio que apo- sentar a expressito neg6cio da China para se referir a essas transag6es leoninas: neg6cio do Japilo, por sua evidence atualizaglio, sera multo mais adequada. a Texaco, com problems de caixa nos Estados Unidos, estava com seu cronograma de compro- mlssos com a Petrobrss, em funglio dos contratos de risco, defasado. Neles, aplicara apenas 20 mi- th6es de d61ares. E dificilmente poderia cumpri- los, quaisquer que fossem as perspectives de seu trabalho. Nesse memento, apareceu com a proposta de repassar a Petrobris os direitos sobre 70% da direa que Ihe fora destinada. A Petrobrbs ficaria assim com os investimentos e, se tivesse suces- so em seus blocos, a Texaco participaria com 50% dos investimentos relatives a fase de avaliaglio da descoberta e de desenvolvimento do campo. Mas ter8 remunera~go equivalent a metade da recei- ta bruta do campo produtor. Com essa composi- ~gio, os contratos da Texaco nito estariam mais expostos a ameaga de caducidade por inadimpl~n- cla, a program de prospecq6es prosseguiria sem exigir capital da Texaco, o contrato de risco seria mantido as vesperas da decisito da Constituinte, que pretend expurga-lo do novo texto constitucio- nal, e todos ganthariam se jorrasse petrdleo. Mas o "happy end" s6 se concretizaria se a voraz mul- tinacional se tr~ansformasse em instituiglio gene- rosa e benevolente. Ha quem acredite. Um imagindri A Texaco, empresa fundada nos Estados Uni- dos em 1902 e que opera no Brasil desde 1915, na distribuiglio de derivados de petr61eo, jB tem seu lugar garantido na hist6ria do pais e da pr6- pria prospecglio mundial de 61eo: sem ter feito uma s6 perfuraglio, a multinational norte-america- na conseguiu alardear ao mundo que descobriu na ilha de Maraj6, no ParB, um vast campo petroli- fero, com potential para 16 ou at6 20 bilhges de barris e valor equivalent a quatro vezes a divida externa brasileira. A auspiciosa noticia tem brotado seguidamen- te nas colunas sociais, sem chegar a ter melhor tratamento nas seq6es especializadas. Menos rea- glio ainda provocou entire os tecnicos do setor, que se mantiveram ao largo da euforia que se difundiu, sintomaticamente, nas bolsas de valo- res, ajudando a levantar um pouco o combalido conceito da Texaco no circuit dos bem informa- dos analistas das aq~es do mercado international. Niio 4 de todo improv~vel que a Texaco tenha plotado seus 14 contratos de risco, assinados com a Petrobrdrs quatro anos atrds, em cima de uma reserve de 61eo. A geoffsica, umn m6todo indireto de avaliaglio, apresentou indicadores positives. ,Mas hB multos exemplos de que nem sempre uma geoffsica favorbvel result em 61eo. Na verdade, fi nal feliz O economists Armando Mendes tem sido um dos mais criatives escritores da Amazenia. Depois de desempenhar funq6es puiblicas, como a presid~n- cia do Banco da Amazgnia, foi um dos criadores do Naea (Nlicleo de Altos Estudos Amaz~nicos) da Uni- versidade Federal do Para e atuou no Conselho Fede- ral de Educacgo. Paralelamente, tentou influir sobre a political de ocupaGlo da Amaziinia atraves de do- se implantam no Pard (Carajss, Albrss/Alunor- te, Tucurui, Jari e Trombetas) representam in- vestimento de 11,5 bilhibes de ddlares. Quando totalmente amortizados, tertio absorvido 16 bilhaes de d61ares, o equivalent a 15% da atual divida ex- terna brasileira. Esses empreendimentos foramn rea- lizados para "desenvolver" e "integrar" a Amaz~nia. Em qualquer pais do mundo esse dinheiro permitirla executar umn expressive esforgo de desenvolvimento regional. Todos os cinco projetos JB em fase opera- cional, no entanto, o Pars tem muito mais problems do que antes e as estatisticas nito refletem nenhum grau de progress adicional. Ao contrsrio, perdeu mais autonomia, ficou mais pobre. Se ningudm pode contestar que na Amaz~nia tem entrado muito dinheiro, proporcionalmente mais do que em qualquer outra regilio, um observador mais atento percebers que dessas aplicaq6es result umna condigio colonial. Os "brazilianists", inclusive os que usam o portugugs como lingua materna, re- solvem o problema angustiante para os natives - atrav~s do fetiche do capital. Seus sacerdotes, cul- tuando o lucro. Seus opositores religiosos, assegu- rando ser precise deixar o capitalism estabelecer- se porque ele engendra ("naturaimente"?) as forges da sua pr6pria destruicito. A ferrovia que levou os Ingleses g India foi a mesma que eles usaramn para fugir, escreveu Karl Marx. Mas Karl Marx era alemlio, escreveu a maioria de seus textos dentro do Museu Britanico e c~ons- truiu a maior anatomia da cathedral capitalist que se conhece, mesmo que acrescentando a essa taxono- mia a sua repulsa ao sistema. Se Marx andasse nos trens colonials ingleses (o que nunca fez), provavel- mente nito prestaria atenglio aos natives e seu mnun- do que encontrasse pelo caminho. Diria que eram parties de um mundo antediluviano fadado a desapa- recer sob a Ibmina do capitalism modernizador. Prol~ongamentos dessa tradiolio c~olonialista, te- mnos que tomar conta de nossas vidas, ainda que elas sejam descritas pelos "bwanas" como passadismo, transferivel a prospecCio arqueolbgica. Deveriamos, por isso, aprofundar muito mals a "quest~o regional", cumentos produzidos a pedido de 6rglos e entidades da regilo, como o pol~mico "InvenGio da Amaziinia", durante a administraqlo Geisel. No final do ano pas- sado, Armando Mendes laneou seu Gitimo livro "O Mato e o Mito", que reline v~rios textos ]6 publicados ou ineditos. A pedido da UFPa, escrevi um parecer, que serviu de introduCio para o livro, abaixo trans- crito. encarando com certa reserve essa literature da "ex- pansio do capitalismo, produzida no mesmo centro responssvel pela dominaqio (o que nlio tira a razio de Marx: 6 a anatomia do home que explica a ana- tomia do macaco e niio vice-versa). O professor Armando Mendes est8 atento a essa perspective. Neste seu livro, ele se prop~e a esquar- tejar "a construCio ideol6gica que justifica a expro- priaglio das nossas riquezas naturals, sobretudo as niio-renov~vels, a partir de uma 6tica nationall". Mas national porque respondendo aos interesses begemanicos do centro desenvolvido". Trata-se de um esquartejamento just, capaz de exibir os ossos nus de um Estado que se diz naci~onal sob a vesguice de seu compromisso hegeminico. Armando Mendes comega o saneamento pelas formas mais simples, da sem~ntica e da toponimia, ironizan- do a division regional que travestiu o Pard em Ama- z8nia Oriental e rebatizando a estatal de maior pre- senqa numa regiflo onde o Estado 6 capittio-do-mato, a Companhia Vale do Rio (Mar) Doce. avorecido pelos deuses da intelig~ncia, Arman- do Mendes transit pela lingua com uma de- senvoltura rara entire os economists, cujo maior produto nesse setor slio os "dantescos" decretos-leis incorporados g bibliografia de dois sB- culos de autoritarismo no Brasil. Tanta graga As ve- zes o leva a exarcebaqilo do jogo de palavras, numa atragilo pelo aforismo que sabemos ser dificil de evitar como readio B outrance. Nem o mitol6gico Odisseu resistiu. A ironia 6 a arma sofisticada ao alcance dos que se indignam com a "ocupaglio", aqui usada no seu vel'ho sentido colonial. O native fica perplexo diante do cavalo de Tr6ia que o colonizador constr6i com desfagatez g sua frente, apenas pintando-o de verde e adornando-o com araras e vit~rias-r~gias para justificar o apelido de amazinico. Armando Mendes anota absurdos cometidos por esses novos deuses astronauts, que definem vocapies econ~mi- cas B revelia das condiq8es naturals ou que esque- drinham engenharias stuprando a prbpria geografia, como aconteceu em Caraj~s. Esses atos nito stio compreensivels a partir de uma racionalidade Internra, A mitologia e o mato raneos desta Amazinia do final do seculo XX, que talvez nito resista para aguardar a tempo em que o capitalism de hoje sera superado pela utopia de manhit Sua condi6io de regilio-col~niar 6 o seu terri- vel demiurgo. A ignorancia municipal O general Charles De Gaulle encontrou perigo- sos adversaries e ferozes inimigos em toda a sue long carreira de soldado, politico e estadista. Boa parte dessa legitio nito aceitava as inclinaG6es bona- partistas de De Gaulle, que fez da consult plebisci- tsria um instrument a serving de seu poder e con- tra as oposicbes. Mas nem mesmo os mais radicals opositores do gaullismo imaginaram uma forma tito s6rdida e calhorda de ataque a uma das maiores personalidades de home pljblico deste seculo como a que saiu da Camara Municipal de Belbm no m~s passado. Numa dessas desinformadas discusses que surgem a partir de uma frase atribuida a De Gaulle, e que ele jamais disse, de que o povo brastleiro nito 6 s6rio (por ser jB tautologia, dispensa autoria), o vereador Raimundo Wilson do Nascimento acusou (se isso pode ser considerado propriamente acusa- glio) o extinto president francs de ter sido homos- sexual. Foi alem o ex-vereador do PMDB, hoje no PFL: "explicou" que De Gaulle tinha ressentimentos contra o nosso pais devido a um "caso" com um marinheiro brasileiro. Em nenhuma das biografias de De Gaulle que conhego ha a menor refergncia a uma remota possi- bilidade de homossexualismo do chefe da resistin- cia francesa na Segunda Guerra Mundial. Mas ainda que o vereador tivesse acesso a informag6es inedi- tas sobre tal inclinagiio, nenhum ser vivente dotado do mais elementar raciocinio acreditaria que De Gaulle subordinaria sua aglio pdblica a um "caso de amor". Um dos dirigentes da Alianga Francesa em Be- 16m reagiu a bizarre discussion travada na Climara Municipal preferindo tratar apenas da autoria da frase sobre nossa falta de seriedade. Como se recomendaria a uma pessoa civilizada, polida e estrangeira, ignorou a demonstration troglodita do vereador. Niko podemos n6s, cidadlios, eleitores e contribuintes, no entanto, ignord-la. A conta de custeio do parlamentb, mirim ou gigante, vem buscar nosso bolso e o ataca selvagemente. O vereador desceu ao mais baixo nivel de bate- boca de botequim justamente no memento em que, por exiggncia constitutional, a nliniero de cadelras no plendrio da Camara Municipal pode aumentar de 19 para 33 ou at6 41. A parte a idiossincrasia evi- dente, de um plendrio municipal igualar-se ao legis- lativo de um Estado com mais 90 municipios, fica a amarga constataglio de que corremos o risco de mul- tiplicar os Raimundo Wilson, nos expondo a um ri- diculo que jir nio 6 municipal, nem federal, mas uni- versal. ~JOITTR PCSSOR). Editor respons~vel: L~iolo FI~vio Plato Endereq~o (provisbrro): rue Aristides Lobo, 87 I solem, Parsl, ee.ooo. Fone: 224.3728 Diagramag~o e Ilustrag~o: Lula Pinto Op l ornalistica mnas em fung~o do favorecimento a interesses e ne- cessidades externas, que fazem o rico minbrio de Carajds ser cotado a prego inferior do minerio "stan- dard" no mercado international, "misterios que es- capam ao mou alcance, na complicada economic mi- neral mundial", confessa Armnando Mendes. Ele combat a attitudee colonial-imperialista dos centros decis6rios nacionais", exigindo que a popu- lagio da Amaz~nia seja Informada sobre o que estd sendo felto em seu territ6rio e consultada antes das decis2~es. Val alem, enumerando itens de uma pla- taforma mais favordvel g regillo, cobrada, porerm, do mesmo centro decis6rlo. Propae vbrias medidas, que revoluclonarlam a atual situaqilo, embora talvez res- tritas ao Ambito institutional, sem democratiz8-lo (c~aso a aC~o chegasse a municipalizar-se) e talvez gerando uma nova hipertrofla institutional (da Sudam, por exemplo). I' claro que qualquer Investida nesse rumo ofe- rece o rlaco do regionalismo obtuse, para o qual Ar- mando Mendes est8 alerta: ele sabe que 6 precise distinguir entiree as decis~es que podem e devem ser tomadas a nivel interno de uma regitio, como a Amaz~nia, e as que necessarlamente slio assumidas (nas condig~es atuals) pelo Governo national ou mesmo por emnpresas transnacionais". Mas o dese- quilibrio 6 tilo flagrante e tito desfavor~vel & Ama- z6nia que 6 Impossivel center a revolta. Armando Mendes a canaliza tentando ressuscitar um "Movi- mento Cabano pelo espirito", que assumiria "posicto de malor independgncia perante o Poder Central". rebelaram-se contra o monop61io colonial por- tugugs, que sobreviveu g independ~ncia poli- tica brastleira. Foi a malor guerra popular do Imperio: um tergo da populaglio sucumbiu na luta entiree os que tgm e os que nada tgm", na expresso de Handelman. Mas a pior represslio foi a do imperio brasileiro, que nito estava questionado e nem amea- gado, mas reaglu comn a violgncia que Portugal empre- garia se a capital colonial ainda fosse Lisboa (mas JA era o Rio de Janeiro). Na 6poca, faltou "espirito" aos Ilderes cabanos, Iudidos com o Estado Nacional, sobre o qual Armando Mendes tem, hoje, poucas Iusgea, mas quando sobra espirito. Niio 6 por falta dele que uma nova Cabanagem torna-se apenas um emblema : 6 porque a semente talvez tenha sido plantada em terreno inapto para a frutificaglio. Intelectual, Armando Mendes nito quer ser ape- nas um asceta manipulador de palavras. Busca "con- taminar-se comn o que estd ocorrendo", assumindo "a funglio trdgica de Profetas, comprometidos com 0 que deve ocorrer". AIem de suas reflexes tebricas, ele temn apresentado projetos e realizado coisas pr6- ticas, como o Nlicleo de Altos Estudos Amaz~nicos. Nessa busca de caminhos, que val albm da "necrbp- ala dos descaminhos", nemn sempre o idealizado 6 o que f~oi feito. Mas fazer bem, fazendo novo, fazendo para si, sem nunca deixar de pensar sobre o que estd fazendo, 6 o grande desafio dos homes contempo- |
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