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Jornal pessoal
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Permanent Link: http://ufdc.ufl.edu/AA00005008/00012
 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00012

Full Text








_____


go de 1988


PeSSOa
Lticio Flsivio Pinto
NO 13 Circulaglio apenas entire assinantes la Quinzena de Mar


Ano 1


CASO


Acusado de ser o mandante do assassinate do
ex-deputado Paulo Fonteles, ocorrido em junho do
ano passado, James Sylvio de Vita Lopes pode aca-
bar passando por profeta. Dois meses depois do
crime, quando ji tinha contra si um mandado de
pris~o expedido pela justiga paraense, James escre-
veu uma cart postada em Slo Paulo e remetida
ao jornalista Jolo Malato em Bel~m defendendo-
se da acusagho (seria apenas um bode expiatbrio)
e orientando o president do inqu~rito a investigar
"possiveis ligaq~es do crime com o Sr. Joziel, resi-
dente em Capanema, donor de um pequeno impbrio,
onde muitas irregularidades ocorreram e ainda ocor-
rem". O "capit~io" James, como ficou mais conheci-
do por sua truculenta carreira de agent de seguran-
Ga, lembrou que Fonteles "dirigia-se, naquele fatidi-
co dia, para aquela cidade, segundo consta, para uma
audiencia no forum local, contra o citado cidadho".
Seis meses depois o "citado cidadio", o comer-
ciante paraibano Josiel Rodrigues, era dado pela po
Ifcia como o verdadelro mandante do assassinate
e preso, juntamente com oa que seriam os executores
da morte. Fol uma revlravolta surpreendente. Em
48 horas, a policia, desprezando os resultados da in-
vestigagio anterior e iniciando uma reconstitui~go
completamente nova dos ac~ontecimentos, fazla o
que James previra, seguindo a pista que nada rende-
ra ao delegado Otacilio Mota, mas fizera o delegado
Bertolino Neto, seu successor no caso, apresentar re-
sultados .
Linhas tortas O caminho que levou a tais
conclus~es nlo podia deixar de intrigar. Um assas-
sinato preparado durante no minimo tr~s mess, mo-
bilizando ampla logistic ae provocando um dos
maiores impacts na histbria recent dos crimes no
Estado, seria desvendado de formal quase ing~nua
porque uma suposta testemunha resolve contar o
que teria viato olto mess antes. O misterioso sar-
gento reformado da Aerondutica Agenor de .Macedo
e Silva Neto, golano de 30 anos, revelou o que sabia
porque teria perdido a mulher para o assassino do
ex-deputado, que tambem estaria tentando mat8-lo.
Alfredo Remigio Ferreira, o "Gaguinho", assu.
miu com inusitada tranqiiilidade a autoria dos dois
primeiros disparos que mataram Fonteles, mas ne-
gou que tivesse tirade Sonia de Agenor ou viesse
tentando math-lo. Mas a policia nio considerou re-
levantes esses "detalhes". Tambem nlo se deu ao
trabalho de conferir o primelro depolmento prestado
per Agenor.


No dia 19 de fevereiro, uma semana e meia de-
pois de iniciar contatos com a familiar Fonteles, mas
tras dias antes de entregar a grande pista, ao delega-
do Bertolino Neto, ele procurou a Policia Federal para
relater o que vira. Sua verso parece said de um
romance policial se nio for relativizada por duas hi-
p6teses: ou ele pr~pri~o participou do atentado de
que se diz apenas testemunha, ou foi contratado para
narrar uma hist~ria antecipadamente preparada. As
hip6tesese n~o s~o mutuamente excludentes.
No dia 10 de junho, Agenor atendeu, em sua
oficina de Capanema (cuja existgncia ainda nao foi
provada), o motorista de um Fusca vermelho. O
propriethrio, o agent federal (ou da policia rodovi8-
ria federal) Joel da Silva Carvalho, vinha de Salinas
para Belem e queria regular a> motor. Para poder
completar o reparo, Agjenor foi buscar 61leo num
posto vizinho. Enquanto esperava ser atendido, viu
Aue trgs homes consultavam um mapa dentro de
um Fusca cinza. Conseguiu perceber, apesar, de jB
haver sombras de final de tarde, que o mapa era das
regibes Bragantina e do Salgado. Sua- perceppio foi
mais poderosa ainda: percebeu, pela conversa dos
trbs, "que estudavam uma maneira diferente de che-
gar a Belim, sem passer pelos postos da Policia Ro-
dovibria". Viu tambem quando 'Gaguinho", que jB
conhecia, desceu para tirar as places do carrot eo
reconheceu, alertando os outros dois companheiros
(que identificou como sendo "Paraiba" e Guilherme)
para o intruso que os observava. Foram embora.
No dia seguinte Aglen~or veio para Belem de ca-
rona com o donor do Fusca vermelho, que Ihe disse
estar estudando numa Academia da Policia RodoviB-
ria Federal em Brasilia (inexistente, assim como
n60 foi encontrado nenhum Joel na PF). Pouco de-
pois das nove e mela da manh8 o pneu do carro fu-
rou, prendendo Agenor a prosaica troca de pneu por
mais de meia hora. Gragas ao incidente, ele pade
presenciar o assassinate, praticado pelos mesmos
personagens da v~spera. Recordou para a Policia
Federal "que o motorists do Fusca cinza permaneceu
em seu interior, enquanto que, alem de Gaguinho,
tambem Paraiba desceu do verculo, permanec~endo
porem encostado no carro, de costa para onde o de-
clarante se encontrava, demonstrando estar fazendo
cobertuira para a aglo de Gaguinho".
Agenor, apesar de empenhado na troca de
pneus, teve sua aten95o atrafda para o posto, a 200
metros de distlincia, do outro lado da pista, porque
o Fusca, chegando em alta velocidade, "cantou" os


FONTE LES


volta ao


De


comeCo


Ao reabrir a investigaCgo sobre a morte
do ex-deputado Paulo Fonteles, a policia apresenta uma
verdade que pode ser apenas o inicio de novas perguntas.
A quem interessa essa nova "verdade"?







pneus ao frear. Anotou que o motorist do carro do
ex-deputadio e o bombeiro do posto, que conversa-
vam a tris metros do Chevy, correram para tr~s da
bomba de gasoline, ficando de costas para o ponto
em que Agenor se encontrava.
Relatou que, "logo em seguida aos disparos",
Gaguinho e Paraiba "entraram no Fusca, que saiu em
desabalada velocidade'. Antes de entrar no carro,
por~m, Gaguinho "olhou para os lads e viu que o
declarante estava no outro lado da pista olhando o
que se passava, tendo brandido o rev6Iver no alto
em diregio ao declarante, dando a entender que o
declarante estava ameagado; que da mesma distan-
cia em que se encontrava, pbde notar que a arma
que Gaguinho empunhava era um rev6Iver 'bem
grandso', de cano longo.
Apesar de haver duas pistas de trsfego intense
nos 200 metros que separavam Agenor do posto,
ele observou detalhes impressionantes, como a falta
do estribo no Fusca, que jB notara no dia anterior.
-Parece ter sido o linico a ouvir o cantar dos pneus
do carro dos assassinos na chegada. As outras tes-
temunhas dizem que o Fusca chegou devagar, sem
alarde. S6 ao sair 6 que houve esse barulho.
O assassinate foi praticado durante uns poucos
segundos, mas Gaguinho teria tido tempo, sangue
frio e dominio da situaqio para ver Agenor do outro
lado e ameaq6-lo. A principal falha na verso de
Agenor 6 que, no depoimento & PF, ele falou apenas
de dols tiros seguidos que Gaguinho teria disparado
contra Fonteles, por tris. Reforgou o depoimento
declarando ter "certeza quanto a quantidade de ti-
ros*
Mas como Paulo Fonteles foi morto com tras
tiros (um dos poucos fats acima de qualquer ques-
tionamento no caso), trgs dias depois, jb na Delega-
cla de Furtos de Veiculos, Agenor corrigiu sua ver-
sio, acrescentando um terceiro tiro, atribuido a Ar-
naldo Cavalcanti Coutinho, o "Paraiba", capataz de
Josiel, que sempre negou a acusagio. Sem essa
revisao, seu depoimento simplesmente perderia va.
lor. Mesmo, com ela, no entanto, a policia teria mo-
tivos suficientes para encard-lo com reserves, com~o
fez a PF.
Para culminar tantas coincidencias e uma capa-
cidade de observagio que parece previamente orien.
tada, Agenor diz que viu o crime e depois continuou
o caminho para Belem, sem se preocupar em apre.
sentar-se como testemunha, mesmo tendo uma no.
GWe do significado do que presenciara. No depoi-
mento diz que em janeiro de 1985 recebeu uma
passage da Enasa, no trecho Bel~m-Manaus, gra-
cas B interfergncia do entao deputado Paulo Fonte.
les, a quem procurara. Reconheseu Fonteles como
sendo a home morto dentro do carro, mas nem
pensou em ajudar naquele memento a policia. Se
tivesse dito o que tinha visto, dificilmente os assas.
sinos conseguiriam escapar.
Mas Agenor preferiu ir em fronte. Resolveu
seu oroblema, almogou no restaurant Wilma e foi
visitor um amigo no porto da Jonasa. Lg, por outra
incrivrel coincid~ncia, viu o Fusca cinza usado no as-
sassinato, exposto a curiosidade p~blica apesar de
jB estar sendo seguido pela policia, que dele tivera
a descrigio. Agenor esqueceu tudo o voltou a Capa-
nema. Sua vida nho foi alterada nem mesmo quan-
do, duas semanas depois, Gaguinho o ameagou de
morte por ser testemunha perigosa. Na semana se-
guinte sua oficina foi incendiada, mas ele diz s6
descobriu que os tr~s ocupantes do Fusca eram pis-
toleiros tris meses depois. Eficientes para liquidar


Fonteles, os pistoleiros falharam em tr~s tentativas
para calar de vez Agenor. A ultima falha foi 20 dias
antes de ele decidir contar o que sabia.
Ao vir para Belem, logo no inicio de fevereiro,
Agenor manteve contato com a familiar Fonteles, que
custeou sua perman~ncia em dois bot6is. Antonio
Fonteles, irmBo de Paulo, pediu-Ihe que esperasse
sua volta do Rio de Janeiro para procurarem juntos
a policia, mas Agenor resolveu prestar imediata-
mente seu depoimento na Policia Federal para tomar
rumo ignorado, pretendendo voltar a esta capital so-
mente se for cham~ado pela Justiga na fase de julga-
mento "
Seu prop6sito foi respeitado pela policia. Embo-
ra pudesse ser acusado de pertencer g quadrilha ou
ser submetido a acareaq~es e reinquiric~es, a partir
da falsidiade dos motives que o fizeram revelar se-
gredos ocultados por oito mess (que, ademais, o
tornavam climplice de um crime), Agenor continuou
a ser tratado como inocente testemunha.
Outro despistamento A partir da origem, a
hist6ria sobre a morte de Fonteles 6 inconvincente.
Ela pode ser considerada tio complete quanto a ver-
sao que o delegado Otacilio Mota levantou. De uma
formal desconcertante, as duas fases de um mesmo
inqubrito se chocam, tornando impossivel concilid-
las, embora provavelmente contenham parties da ver-
dade. Sio peas de um quabra-cabegas; sozinhas,
por6m, nho decifram o misterio.
Se nio ha diivida de que o Fusca cinza incen-
diado num ramal da BR-316 era o carro usado pelos
assassinos de Fonteles (a partir da reconstituiqio
do chassis, o carro foi rastreado at8 seu donor como
descartar a pista levantada pelo delegado Mota des-
de o Hotel Milano? Entre abril e junho, quatro ho-
mens se hospedaram nesse hotel por conta de J~a-
mes Vita Lopes. Dots deles usaram o Fusca na ves-
pera e no dia do atentado. Foram identificados tanto
por uma soldada da Policia Militar, como por um
motorist de tbxi e uma funcionsria do hotel. Se
nho executaram o deputado, podem ter participado
do esquema de despistamento. A Policia Federal do
Rio de Janeiro localizou o done do Volks. Ele tinha
antecedente criminal, estava em situaqio irregular
e contou uma hist6ria inverossimel, mas foi libera-
do. A policia nem cobrou a promessa que fez, de
apresentar o name do comprador do carro.
Os matadores de Fonteles sabiam que o caso
teria grande repercussio. Nio entrariam em aG~o
sem um bom planejamento. Os tr~s tiros seguidos,
que atingiram pontos muito pr6ximos no corpo do
militant do Partido Comunista do Brasil, foram da-
dos por um pistoleiro professional (ou por um ama-
dor em dia de fenomenal inspiradao para o crime,
hipbtese que nho pode ser simplesmente descartada,
mas tem probabilidade remota de ser verdadeira).
A carreira de Gaguinho, com seis registros policiais,
mostra o perfil de um home capaz de viol~ncias,
mas nio revela o pistoleiro tarimbado que a missao
requeria. Diz mais sobre algubm forgado a assumir
seu papel, talvez por violgncia.
O home que desceu do carro e atirou em Fon-
teles nio teve qualquer preocupag~io em esconder
o rosto. Mesmo percebendo que o bombeiro do pos-
to de gasoline o identificara, apenas ameagou-o. O
normal, nessa situagio, seria logo eliminar a tested
munha, se o assassino nio fosse de outro local. Jg
Gaguinho 6 morador da reglio ha nove anos. O
bombeiro ouviu a ameaga, mas nio fez qualquer re-
fer~ncia B forte gagueira de Alfredo Remigio Ferrei-
ra quando dep~s na primeira fase do inquerito. Se






Gaguinho nito fosse um professional, os mandantes
do crime provavelmente teriam tratado de "queimar'
o arquivo, eliminando-o. Sendo pistoleiro de aluguel,
nilo permaneceria no local do crime.

Jogo de segredos Dono de uma fortune que
cresceu tito rapidamente como sua fama de violent,
Josiel 6 o home mais temido na regitio de influ~n-
mia de Capanema. Quando protegidas pelo anonima-
to, fontes variadas referem-se aos roubos de carre-
tas, desvios de pimenta-do-reino ou quadrilhas de
pistoleiros colocados na conta desse paraibano de
46 anos que e o representante da Antartica, tem tres
fazendas, com 22 mil hectares e 2.800 cabegas de
gado, e multos negocios. Apesar de tantas denun-
cias, a Delegacia de Furto de Veiculos, onde foi pre-
so, nito tinha um s6 registro contra ele at6 entlio.
No dia 11 de junho Paulo Fonteles ia para Capa-
nema nlio para questioner na justiga contra Josiel,
como disse o "capittio" J~ames, mas para defender
o irmiio, a medico Ronaldo Fonteles, num litigio de
terras com o frances Roland Louis Donlzeau iniciado
no dia 3 de abril. Apesar das relaq6es tensas entire as
duas parties, o process ainda nito estava em fase
de decisiio. Ate agora nito surgiu nenhuma pista li-
gando Donizeau a Joziel, ou estabelecendo um ponto
de atrito entire o comerciante e o ex-deputado.
Atd que surja ao menos uma evid~ncia nesse
sentido ,Josietl niio parece ter interesse direto capaz
de motivar o assassinate. Mas 6 possivel que saiba
mais do qoue admitiu, ou esteja em tal condiFio, de-
vido a seus antecedentes, que niio possa fazer uma
defesa mais frontal em relaglio As acusaqbes feitas.
Elas stio insuficientes para mante-lo tanto tempo na
prisho, principalmente se considerada sua legendB-
ria influencia nos bastidores policiais.
E mais do gue evidence que os personagens en-
volvidos no inquerito, tanto na fase presidida por
Otacilio Mota, como na atual, sob a responsabilidade
de Bertolino Neto, escolhido pela familiar como uma
esp~cie de president "ad-hoc", nito tem biografias
limpidas e cristalinas. Suas vidas revelam manchas
ESCI^I



ApuraC~o p
Com base na auditagem do Banco da Amaz8nia,
a Policia Federal relacionou 280 empresas que foram
beneficiadas por emprestimos irregulares autoriza-
dos nas agancias de Belem e Itaituba pelo
ex-diretor de credito geral e ex-presidente interino
do banco, Augusto Barreira Perelra. Esses mesmos
dados levaram g expediG~io, ate a semana passada,
de quase 400 intimagies para pessoas que deverio
depor no inquerito instaurado em Bel~m pela PF.
Como a lista inclui politicos, emprestirios e pessoas
notliveis ou influentes, as intimag6es provocaram
impact malor, nos melos locals, do que todas as
medidas econbmicas adotadas nos iiltimos tempos
pelo governor.
Iniciou-se, entlio, uma intense articulaglio de
inastidores para modificar a feiglio do inqudrito. Se-
gundo algumas fontes do setor, o pr6prio Banco da
Amaz~nia, "sensivel a essa situaqiio", poderia redu-
zir o alcance da denlicia apresentada g policia. O
n~mero de empresas arroladas poderia ser reduzido
de sete vezes, para algo em torno de 40 o que,
consequentemente, evitarb que comparegam diante
do delegado Fgbio Caetano para depor muitos figu-


de sombra, a que tanto pode levantar suspeitas, co-
mo dar-lhes a condiglio de bodes expiatbrios. Mas
tamb~m ficou claro que se alguns falam mais do
que sabem, outros sonegam informaqbes. E hB tam-
bem os que fazem revelaq6es importantes sem rece-
ber atenglio.
So niio apareceu mais ningu6m que finesse re-
fer~ncia ao principal personagem do primeiro capi-
tulo dessa novela, o prdprio James Vita Lopes. Jo-
siel Rodrigues tentou desmentir que a conhecesse,
mas vacilou alguns segundos quando um jornalista
fez refer~ncia a carta que o"capittio" James mandou
de Stio Paulo, lembrando que James, num de seus
antigos depoimentos g policia, por causa do conflito
na gleba Cidapar (ele chefiava a seguranga da em-
presa que disputava as terras com os posseiros),
admitira ter ido ao dep6sito de Josiel. "Se ele foi, eu
nlio estava lIi", responded o comerciante, final.
Apenas por esses fats, entire muitos outros que
uma investigagilo mais seria apontars, niio hB diivida
que a reabertura do caso Fonteles, As vesperas de
um arquivamento natural, langou novas luzes sobre
o assassinate. Mas s6 pessoas menos exigentes ou
mal informadas se satisfariam com a hist6ria apre-
sentada pela policia no final de fevereiro. Ainda niio
6 a verdade, nem a palavra final, ou a mais autoriza-
da. Seu maior merito terdi sido o de provocar novas
perguntas e acusacdes, questionando velhas e novas
respostas mal dadas.

N. da R. Esta materia jik estava pronta quan-
do, no dia 9, "Gaguinho" denunciou para a juiza Ma-
ria de Nazare Silva que assumira a autoria do assas-
sinato de Paulo Fonteles forgado pela policia, que
o espancara. Gaguinho" negou toda a hist6ria que
havia contado, reabrindo mais uma vez o caso Bs
vesperas do despacho da juiza, que iria pedir a pri-
slio preventive dos seis acusados pelo delegado Ber-
tolino Neto e liberar os tras indiciados pelo delega-
do Otacilio Mota, inclusive James Sylvio de Vita
Lopes. O novo capitulo que se inaugura confirm
as reserves da reportagem.

IDALO



,ara valer ?
rantes do "jet-set" paraense, como slio tratados nas
colunas socilas, onde t~m lugar cativo.
Essas fontes, entretanto, tentam assegurar que
nito se trata de favorecimento ou de submissilo a
inger~ncias espiirias, apenas porque se trata de pes-
soas destacadas. Explicam que, no~ caso das inves-
tigagdes feitas no Rio de Janeiro, a Policia Federal
seguiu apenas as empresas que receberam emprds-
timos fraudulentos, deixando de lado os casos de
irregularidades que poderiam ser sanados atraves
de composictio entire a banco e o client. JA na apu-
radio do rombo em Beldm foram abrangidas todas
as 507 operacdee deferidas por Augusto Pereira. Por
isso, foram intimadas pessoas ou empresas que jB
quitaram saus d6bitos ou realizaram transaq~es que
niio caracterizam fraude. Se fossem chamadas a
policia, apenas prestariam informaq6es e seriam li-
beradas, estando fora de qualquer possibilidade de
indiciamento. Para poupar esse trabalho, o pr6prio
banco poderia rever a listagem.
Universe de interesses Como ests, ela 6 uma
bomba de vsrios megatons, que tanto pode levar a
apuragiio policial Bs 6ltimas consequbncias (que nem






todos 06tfiO intef688ados em alcangar), co~mo ter
efeito justamente contrbrio, dispersando os aivos
e impedindo o inquerito de alcangar algumi objetivo
concrete. Pois tanto receberam -dinheiro empresas
fantasmas, criadas no papel mas sem funcionar de
fato, como s6lidos empreendimentos, com garantias
reais suficientes para responder pela divida. Alguns
dos beneficidrios nito apenas js foram identificados
como envolvidos com a quadrilha que se instalou no
Basa, como at6 confessaram o pagamento de comis-
s6es aos intermedibrios, entire os quals o mais con-
tumnaz 6 o filho do ex-presidente, que continue no
Rlo de Janeiro mas ainda nito foi preso.
A relaCho de deferimentos de Barreira Pereira
s6 tem 16gica se, al6m do objetivo de propiciar ga-
nhos ilicitos aos que faziam parte da rede de inter-
mediaglio, ela for relacionada ao jogo de poder que
so travava dentro do Banco da Amaz~nia. Os direto-
res paraense e amazonense que se revezavamn na
presidencia durante o v~cuo de quatro meses (Au-
gusto e Mnatias Pereira) procuravam conquistar alia-
clos para definir a dispute. Esse criterio explica a
seleglio de alguns clients especials. Ao depor na
sindictincia, Antonio Nunes da Silva, o principal as-
sessor de Augusto Pereira (e tambem arrolado no
inquerito), declarou que "a todo memento o Diretor
Augusto recebia telefonemas dos Minist~rlos, soli-
citando interfer~ncias para agilizagio de operaq~es
de credito". Citou como exemplo Paulo Maia, "que
ocupa, segundo o Dr. Augusto, fungdio important na
P'resid~ncia da Repirblica". Ainda de acordo com
Nunes, o mesmo acontecla com outros politicos, en-
tre os quaia Augusto referia-se ao ex-governador
Alacid Nunes, ex-deputado Osvaldo Melo e depu.
tados federals Arnaldo Moraes Filho, Manoel Ribei.
r~o e Carlos Vinagre.
Barreira Pereira tinha o poder total quando as-
sumia a presid~ncia do banco, comn a cobertura do
genro, entlio o segundo na hierarquia do Minist~rio
do Interior, ao qual o Base 6 subordinado. Mesmo
os cliratores que sabiam das irregularidades, em
crescimento fantistico, preferlam usar politicamen-
to a informagilo. Por causa dessa teia de relaCaes
sutis niio chegou a surpreender quando a primeira
grande percussion pliblica do inqu6rito veio atravis
do president do Sindicato dos Banctirios, Carlos
Levy. Embora assinada pelo secret~rio-geral do PL,
partido pelo qual 6 candidate g Prefeitura de BelBm,
Levy estava por trss de uma durissima nota contra
o delegado regional da Policia Federal, Roberto
Porto, publicada com destaque (e alto custo) no "Jor-
nal do Brasil" e "Correio Brasiliense".

Primeiro caso Porto nito chegara a fazer qual-
quer refer~ncia pliblica ao nome de Levy como en-
volvido em uma das operaqbes irregulares autori-
zadas por Barreira Pereira. O candidate, na verdade,
reagira a perguntas de uma jornalista enviada do
Rio de Janeiro pela "Folha de S. Paulo" para uma
reportagem sobre ~o esciindalo do Basa. A reporter
comentara com Levy que na Policia Federal ele era
dado como intermedidirio e beneficidrio indireto de
empr~stimos de pouco mais de 15 milh~es de cruza-
dos (valor hist6rico, sem correGlio monetdria) conce-
didos & Empresa de Transportes Draglio do Mar. Em-
bora juridicamente instalada, a empresa nito funcio-
nava. Seu donor, Carlos Pinto, evadido atualmente,
era o organlzador e o candidate potential do PL &
Prefeitura de Ananindeua, e jb estava em campanha.
Acabou afastado do partido porque o TRE nito defe-
riu seu registro.


Levy acusou Porto de disseminar esse "boato"
em multos encontros socials, fazendo o jogo de seus
adversirrios politicos e corruptos, o que teria esti-
mulado uma intense onda de comentbrios nilo s6
sobre o possivel envolvimento de Levy, seu si-
14ncio em relagilo As irregularidades praticadas no
Basa, ao long da administration de Barreira Pereira,
como logo apbs, no inicio das apurac;~es, contras-
tando com seu feroz combat g corrupplio nas ges-
ties anteriores. O journal "DiBrio do ParB", do mi-
nistro Jgder Barbalho, aproveitou a oportunidade
para usar contra Levy, seu maior inimigo, o mesmo
feitico que ele usa contra o ex-governador: a anti-
corruppio. Tal arma pode ser fatal para as preten-
sies do candidate.
O tom emotional da nota, 0o mesmo da reporta-
gem, poderia avivar o interesse da opinitio pdblica
por um escindalo das dimens6es que tem o do Basa,
com um rombo de tris bilh6es de cruzados, mas
tamb~m desviar, pela polgmica political, o que 6 o
principal nas apuraqbes: verificar quem realmente
tem culpa e reaver o dinheiro pljblico que foi des-
viado criminosamente para bolsos particulares. O
pr~pri~o banco, tanto pelo legitimo interesse de re-
tomar suas atividades normals, desfazendo-se do
estigma que Ihe foi mais uma vez Iangado, como pe-
los desdobramentos politicos do caso, parecia inte-
ressado em langar um pouco de Bgua na fervura,
talvez uma quantidade exc~essiva.
O banco divulgou seu balance annual destacando
para o lucro de 3,5 bilhges de cruzados, que poderia
recompor sua imagem junto ao p~blico, gragas a
distribuiglio de dividends aos acionistas, mas que
se sustenta sobretudo em correctio monethria e no
pique inflacionfirio. Em nota official, a diretoria in-
formou ainda que s6 precisou provisionar 516 mi-
Ih~es de cruzados dos prejuizos que as operaCbes
autorizadas por Augusto Pereira the causaram. Ou-
tros 1,2 bilhilo ficaram como cr~ditos em liquida~gio
e mais 1,1 bilhbo estariam em composiglio. Mas
que tipo de composiglio o banco estaria fazendo para
poupar-se de provisionamentos mais pesados? Um
dos mais citados membros da lista de beneficifirios
das operaq6es, Luis Guilherme Barbalho, irmlio do
ministry Jiider Barbalho, exibiu a prova de sua re-
gulariza~gio Junto ao banco, mas a nota de quitagdo
de d~bito era de 8,2 milh6es de cruzados, o mesmo
valor das quatro transagies da AP Engenharia
(da qual Barbalho 6 um dos s6cios), sem incluir a
correptio monetsria de oito meses. Ou estli faltando
algum outro document, ou a conclustio 6bvia da
andlise da quitaglio 6 de que o banco estd dando
mais importlincia g beleza de seu balango contdibil
do que g situaCio real de seu caixa quando apaga
de suas contas os malsinados creditos em liquida-
Cgo.
Como a repercussion de um rombo de 30 milh~es
de d61ares foi muito menor do que se poderia espe-
rar desse tipo de event numa sociedade que con-
trolasse melhor o patrimbnio pijblico e fosse mais
sensivei Bs questies de moralidade pliblica, a ma-
nuten~gio de multos pontos obscures alimenta a des-
conflanga de que mais este crime de "colarinho
branco" passardi impune, se niio houver cobranga de
fora do governor. Para que essa cobranga assuma
sua plenitude e tenha boa base informative, o papel
da imprensa local 6 tfio fundamental quanto tem sido
sua omissiio at4 agora, com a exceCio de um jornal,
o "Dibrio do Parir", cuja participation tem que ser
relativizada por seu interesse politico na questlio.













As exportagoes feitas pelo Pars no ano passado
podem ter se aproximado do primeiro bilhso de d6-
lares. I' provsvel que nenhum Estado brasileiro possa
apresentar crescimento semelhante nas suas ven
das para o exterior. Metade das exportaq~es pa-
raenses jB sso constituidas de produtos de origem
mineral, que vso desbancando os itens tradicionais
na pauta do com~rcio exterior, como madeira, pimen-
ta e pescado. A contribuiqso paraense para o comer-
clo exterior brasileiro ainda gravita em torno ~e
dois ou tr~s por cento, mas js represent aproxima-
damente 10% do saido commercial do pais, um nuime-
ro expressive.
O Para tem um peso forte no comercio de mi-
nbrio de ferro, mangan~s, bauxita, aluminio, ouro,
madeira, pescado, pimenta-do-reino, dend6 e, cada
vez mais no future, energia. No entanto, apesar des-
ses indicadores de grandeza, apontando com largas
perspectives para o horizonte pr6ximo, a filtragem
social dos beneficios revela um descompasso in-
quietante.
Embutido num piano regional de desenvolvimen
to, o Para e o que o governor federal imp~e que seja.
Dele, a UniHo espera que se espcialize na export
FWo de materias-primas e insumos b~sicos para mer-
cados previamente acertados no exterior e que,
nessa relagho dte troca, gere sempre mais saldos em
dolar. Internamente, sua "vocagio" 6 a de permitir
efeitos multiplicadores nos centros de produgho
mais adiantados, nem que o produto 16gico dessa
especializagio seja alargar o vasto fosso que separa
a Amazinia do Centro-Sul.
O outro lado Na mensagem que enviou &
abertura dos trabalhos legislativos, no dia 19, mar-
cando tamb~m seu primeiro ano g frente da adminis-
traG~o puiblica estadual, o governador H6Ilo Gueiros
pinga alguns dos indicadores que delineiam essas
amargas contradiC~es. Se ests chegando a marca de
um bilhbo de d6Iares de exporta~go (o dobro do que
conseguia no inicio da d~cada) e seja responssvel
por 10% do saido commercial brasileiro, o Pars tem
que conviver com a contrafaqZio desse aparente be-
neficio do "modelo" de desenvolvimento que the foi
Imposto .
Sua renda "per capital que 6 apenas um pouco
superior a metade da national, ainda ests abaixo da
media regional. Por outro lado, aumenta o contin-
gente dos que nso conseguem emprego. Entre os
consos de 1970 e 1980 a populagio economicamente
ativa representava 30% da populagio total, propor-
Fgo que baixou para pouco mais de 18% na estima-
tiva official de 1985. Em 1980 havia no Estado 1,5
milhso de pessoas com mals de 19 anos, mas 500
mil delas nso estavam trabalhando, nem mesmo in-
formalmente (nos "bicos").
O pior 6 que a agropecubria, o setor que absor-
via quase 60% da mio-de-obra em 1970, entrou em
decadincia (37% estimado para 1985), sendo espe-
rado pela primeira vez na hist6ria paraense re-
cente pelo setor de servigos, "o que, obviamente,
assume, nas condiqdes s6clo-econ~mico-politicas do
Pard atual, a condiso de um verdadeiro esc~ndalo".
Apesar de vsrlas dezenas de projetos agrope-
cusrios aprovados pela Sudam para o Estado, a par-


ticipaFgo do setor decaiu de quase 23% do Produto
Interno Bruto emn 1970 para 20% em 1980. O incre-l
mento da induistria, que passou de 12% para 31%
do PIB no mesmo period, est8 long de poder re-
presentar uma compensagio para a decad~ncia da
agropecudria num Estado que 6 obrigado a buscar
fora de seu territbrio quase 80% dos hortifrutigran-
jeiros que consome.
Tambem a beneficiamento industrial orienta-se
para a exportaglo, o que significa receita tributbria
quase nula e prejuizo nas relaciies de troca por cau-
sa da compressio dos pregos dos produtos da "fron-
teira". O governador Hblio Gueiros calcula que o
subsidio a exportaCho tirou o equivalent a 60 mi-
Ih~es de d61ares de impostos do Estado, um tergo
de sua arrecadagho real.
Como o governor federal, principal agent da
penetraqio econ~mica na Amazinia, nio admite ou-
tro caminho para o desenvolvimento senio atrav6s
da exportaCgo, o governor local s6 conseguir8 rever-
ter os efeitos danosos desse process questionando
o "modelo". Ou quebrando a linha de subservigncia
que tem marcado o relacionamento entire Brasilia e
as capitals amazbnicas, tratadas como se fossem
um distant e incompreensivel nijcleo colonial.
Concentraqio brutal O diagn6stico da situa-
glo pode parecer dramatizado para quem se deixa
embalar apenas pelo acalanto do que entra na region,
sem se preocupar em saber para onde vai o dinhei-
ro, a quem serve e que volume sai em consequgncia
do circuit criado na A~maz~nia. Os te6ricos tim
dito que a Amazinia serve para multiplicar o capital,
que volta g mbo do donor, ampliado, como um bume-
rangue. O residue retido na region 6 absorvido por
pouca gente, gerando uma concentraq~io de renda
brutal, maior ath do que a concentra~go nas blreas
de ocupagao mais antiga no pais, para as quals a
"fronteira amazinica deveria ser uma solug~o ou
uma "valvula de seguranga".
A mensagem do governador registra que 35%
das pessoas que trabalhavam no Estado em 1980 ga-
nhavam de um salbrio minimo para baixo. At6 dois
salsrios minimos, eram 66%. Nio diz, mas atrav~s
de outros calculos pode-se verificar que apenas 23
mil pessoas, numa populagio de 3,4 milhaes de ha-
bitantes e pouco mais de um milh~o considerados
como economicamente ativos, ganhavam acima de
20 salbrios minimos (a nivel de hoje, seriam 85 mil
cruzados). Com a agravante de que os dados esta-
tisticos "abrangem apenas as pessoas que de algu-
ma forma trabalharam em 1980 e, portanto, nio di-
zem respeito propriamente aos desempregados",
como ressalta a mensagem. Com um mercado inter-
no desse porte, resultado 16gico do "modelo" im-
posto g Amaz~nia, nho chega a surpreender o colo
nialismo a que ela estd submetida.
Hg maneira de impedir a continuidade desse
" modelo" que enriquece o agent do process, empo-
brecendo o paciente, os natives e seu mundo? HE,
certamente. Mas, ao tragar seu perfil na primeira
mensagem que enviou ao Legislativo, o governor
H61io Gueiros parece admitir que nio est8 a altura
dessa missio, ou nho est8 disposto a ir As Ij1timas
consequ~ncias desse desaflo.


GOVERHO




que o d~esafio


Menor





de


Ou seja, o governor Gueiros recebeu uma heran-
ga maldita em meio a fanfarras que the sugeriam
festa. Sempre que pode, o governador lembra que a
cada tris meses 6 obrigado a amortizar um empresti-
mo de 20 milhBes de d61ares contraido por seu an-
tecessor junto ao Banco do Brasil trgs dias antes de
entregar o cargo. As parcelas sho reajustadas pela
atualizacgio do d61ar, nho dando tempo para o gover-
no respirar. Trata-se, na verdade, mais de um "pa-
pagaio" tomado nos extertores do governor anterior
para pagamentos de 61ltima hora, sem a menor caute-
la em relagio aos custos da operaqio, como se o go-
verno fosse um comerciante asfixiado que assina
uma nota promiss6ria no balcho de um banco.
Mesmo sem o dizer explicitamente, o governa-
dor sugere na mensagem que ests de bragos atados.
Embora uma estatistica indique certo alivio orGa-
mentdrio gragas g redugio das despesas correntes,
o saido liquido para despesas de capital 6 reduzido
porque pouco mais de 10% da receita estadual foi
destinada g amortizaglio da divida. Computando os
recursos que repassa e as despesas com pessoal e
encargoe socials (quase 60%), a mensagem conclui
que as despesas c~ompulsbrias chegaram, no ano pas-
sado, a quase 89%, "sobrando para o Governo a exi-
gua margem de liberdade de decidir sobre menos
de 11,4%".
O quadro pode ser mais ou menos esse, mas
nio 6 exatamente esse. Como seu antecessor, o go-
vernador HBlio Gueiros continue administrando im-
peridlmente o Fundepard (Fundo de Desenvolvimen-
to do Estado do ParB). O Fundo represent 14,4%
do orgamento, mas foi embutido na conta das despe-
sas vinculadas, que o governor nho poderia dispor B
sua vontade. No entanto, como Jgder, Gueiros des-
tina recursos do fundo sem qualquer tipo de consul-
ta ao Conselho Superior de Desenvolvimento, que
seria o drgio competent para isso e que nho se
reljne ji hB cinco anos. Assim, o Fundepar6 quase
se transformou num caixa dois a disposiGao do go-
vernador, que o aplica mesmo sem levar em consi-
derag8o certas vinculaq6es, como as que sio im-
postas pelo Imposto Onico sobre Minerals, ou os
abjetivos que justificaram a criaG~o do fundo, nada
coerentes com a dispers~o desordenada dos recur-
sos segundo critbrios politicos. Esse 6 um trago de
continuidade da administraqio anterior que em nada
credencia a atual.


Pela terceira vez nesta decada a receita global
do Pard diminuiu em relagho ao ano anterior. Isso nto
ocorria desde 1983, mas voltou a repetir-se em 1987,
como jB havia acontecido antes, em 1981. Na sua
mensagem annual, o governor procura atenuar o sig-
nificado dessa retraq~io lembrando que a queda foi
relativamen~te mnenor do que a s~ofrida por outros
Estados, nho deixando de anotar, entretanto, que e!a
deu-se apesar do esforgo para aperfeigoar a msquina
de arrecadaG~o.
Em termos reais, a receita estadual dobrou nos
Gltimos 10 anos, passando de oito bilhbes para lo'"4
bilhoes de cruzados entire 1978 e 1987. Aparente-
mente, pbde assim absorver os efeitos de um cres-
cimento demcgrdfico qlue foi de aproximadamente
50.:0 nesse period. Mas o mncremento foi obtido
grages, sobretuldo, a operaqaes de cr~dito, boa parte
das quais t~m sua aplicaqio previamente vinculada.
Nao podem ser usadas livrernente pelo governo.
Esse endividamento se mntensificou no governor Jd-
der Barbalho, que em 1985 elevou-o em 1.361%, fa
zendo-o passar de 1,2% para 11% do orgamento.
Em 1986 houve uma pequena redugBo nessas
operag~es, que ficaram emn 9,4% do orgamento, mas
a administration Barbalho transferiu ao governor
Gueiros um orgamento com 17,9% de empr6stimos.
Registra o governador na mensagemn que se as re-
ceitas pr6prias (menos 5,7%) e as transferidas
(-- 17,4%) cairam, "aumentaram significativamente
(84,5%) as entradas de dinheiro B conta das opera~
95es de cr6dito, sendo que estas operaqbes tinham
elevado sua participagio no total para astronomi-
cos 17,9% ".
,Mial disfargando um ressentimento no texto, a
mensagem lembra um outro detalhe "que particula-
riza 1987 multo mais: 6 que nada menos de 77,5%
dos recursos provenientes das operag6es de cr~dito
foram especificamente destinadas a pagar dividas
contraidas anteriormente". E traduz para quem pode
nao ter apreendido exatamnente o significado: "alim
de se defrontar com uma recessio a nivel national,
que afetou severamnente a economia paraense, o
Governo Estadual arrostou, em 1987, quedas nas re-
ceitas total, prbpria e transferida e, ainda por cima,
o linico segment que mnostrou elevaCio estava com-
prometido majoritariaments com a amortizaGio da
divida".


Sob a transparincia,
Se um dos objetivos da mensagem que o gover- No que se
nador Hdlio Gueiros encaminhou g AssembiBia Le- pessoal, o go~
gislativa era o de tornar o governor transparente a usou expressBe
partir da heterogeneidade que a caracteriza" o resul- lhos", "engolir
tado n~o poderia ser melhor. A comegar pela errada recorreu a um
concordancia da frase (a heterogeneidade 6 do go- uma frase de
verno, nho da transparbncia) e vkrios outros erros, vara curta", qu
que poderiam ser corrigidos numa revisio mais aten- inspiraGio, mer
ta, at6 o desencontro de estilos. nal (cutucar ou
Publicada no format de um livro, com 431 pB- vel destinat~rio
ginas, a mensagem, "ao lado de seu valgncia politic Produzida c
ca, tem uma inegsvel importancia como registro num audit6rio i
hist6rico", atesta o pr6prio texto, com a auto-pre- se chocou tanl
tensho de se transformer "numa especie de obra de do texto inaugl
refer~ncia". JB na leitura da apresentaglio no plend- esgaivarva e el
rio da Assemblbia, o document causou certo es- per um dici~onb
panto. nocratas do go\


umT vacuo
Presume ter sido sua contribuigio
vernador, um Jornalista professional,
es como "misturar alhos com buga-
gato por lebre", "devagar e sempre",
"prudenties" e foi remexer no bad
Janio Ouadros, "chugar a onga comn
ie, sem considerar a infelicidade da
ecia ao menos uma adap'taglio regio-
catucar diz mais ao poviio, presumi-
Sda mensagem, do que chugar).
:om o deliberado prop6sito de ser lida
solene, a abertura da mensagem qua-
to, por seu estilo, quanto a sisudez
ural do governor Aloysio Chaves, que
idia quest~es para ouvintes ansioses
rio. Jg no restante do texto, oa tec-
verno HBlio Gueiros perpetraram suas


atadas


AdministraCao


maos






invenC~es vernaculares, desferindo "tecnicalidades",
"mais prioritsrio", "oportunizar", ou recqrrendo a
neologismos de suspeita criatividade, como "adho-
crdtico".
Talvez receando pelos efeitos dessa inventive
salada de frutas, o redator pede v~nia antecipada-
mente, explicando que "em virtude dos dados forne-
cidos pelos 6rgiios terem sido melhores ou piores
- ou por outras raz~es hB mat~rias bem tratadas,
outras mal e outras nem isso". Jg a redagio "tem
a inconvenient marca da press (a Mensagem foi
montada em exiguo tempo) e pode ser menos ex-
pressiva ou mais redundante do que deveria". Rapi-
damente admite que "pode ter ocorrido falha de
copy-desk'', mas tamb6m arrisca que as absorventes
funqdes da administration nito dito tempo para os
"possiveis editors finals" trabalharem em documen-
tos.
No texto que tem sua assinatura, o governador
HBlio Gueiros demonstra estar com olbos voltados
para a hist6ria e a conjuntura political, remexendo
o passado e estocando o present. Critica a reagio
dos que se opuseram a sua pretendida iniciativa de
"colocar alguma ordem no caos que tempos de las-
sidito, amoralismo e regimes de 'mateus, primeiro


os teus' infelizmente disseminaram em nossas pla-
gas brasileiras". Admite que "a m~quina pdblica
paraense, nio fugindo B infeliz regra brasileira, est8
inchada".

Critica o tratamento dado aos professors, "que
deviam estar no centro do setor, (mas) tam sido
anos a fio desprezados, espezinhados e marginaliza-
dos da gestlio educational". Passa recibo g revoga-
clio do decretco-lei que federalizou as terras devolu-
tas estaduais como "uma vit6ria maidscula", embora
js tenha sido demonstrado suficientemente que isso
nhlo ocorreu. Nilo explica por que o Mirad, dirigido
por um paraense, jB fez conv~nio comn o governor de
Stio Paulo para regionalizar a reform agrbria, mas
niio com o governor do seu Estado, onde o process
est& atrasado.
Marcada pelo "trago 6tico" de "falar tamb~m da-
quilo que nho deu certo", a mensagem sucumbe 8que-
la velha constatagito de que boa intenglio nito 6 pas-
saporte para o ceu, nem sinceridade o suficiente
para agir certo. O governor complete um ano enre-
dado em suas metas, atado ao seu passado e sob o
peso do acervo que lhe foi transmitido quase como
um espdlio.


in


Vinte anos depois de seu inicio e 10 anos ap6s
comegar a produzir, o projeto de um enorme plantio
de arroz na virzea do rio Amazonas, idealizado pelo
miliondrio norte-americano Daniel Keith Ludwig,
est8 pr6ximo do fim. A Companhia do Jari, formada
por 22 dos maiores conglomerados econbmico-finan-
ceiros do pais para substituir Ludwig no control do
Projeto Jari, decidiu que at6 o final do ano ter8 de-
sativado o arrozal se nito conseguir, antes, pass8-lo
adiante. Como outras empresas privadas do setor
nito se interessaram pelo projeto, a Gltima esperanga,
mais uma vez, seria o gorverno. Os ministerios da
Reformna Agrdria ou da Agricultura poderiam assumir
a plantagilo.
Essa decisiio foi comunicada ao governador H6-
lio Gueiros, em Belem, pelo president do conselho
de administra~gio da Companhia do Jari, o ex-minis-
tro e general da reserve Costa Cavalcanti. Ele ale-
gou que, desde a primeira safra, colhida em 1977,
a Slio Raimundo Agroindustrial vem dando prejuizos
entire tris e cinco milh~es de d61ares por ano, que
os novos dons nito estlio mais dispostos a tentar
absorver.
O conglomerado national assumiu o Projeto Jari
das miios de Ludwig em abril de 1982, mas, durante
dois anos, resistiu g absor~gio da Sho Raimundo, jb
entlio acumulando grandes "deficits". Depois de di-
ficeis negociaC~es, Ludwig passou em frente seu
projeto de arroz por um valor simbblico, mas o em-
preendimento nlio alcangou sua viabilidade.
Ao inici8-lo, um ano depois de haver adquirido
uma vast possessito de terras na foz do rio A~mazo-
nas (que imaginava, na 6poca, comn 3,5 milhaes de
hectares, mas cuja titulagilo s6 garante a dominio
sobre 10% desse total), Daniel Ludwig previa que
seu projeto, abrangendo 14 mil hectares de solos
Inund~veis, produziria tanto quanto toda a Amaz~nia
e teria condiC6es de competir no mercado interna-
cional.


Mas, segundo as informaqGes de Costa Caval-
canti. um quilo de arroz da Jari chega a Belim pelo
mesmo prego do arroz produzido no Rio Grande do;
Sul, que percorre distlincia sete vezes superior.
Houve apenas uma exportagilo, para a Itslia, ainda
em 1977, mas desde entlio o arroz da Jari ficou res-
trito a consumidores no norte e nordeste.
Usando a mais sofisticada tecnologia da bpoca,
Ludwig previa que o arrozal lhe permitiria faturar 45
milhdes de dolares ao ano, com lucro de nove mi-
lhies de ddlares, mas esses nirmeros se tornaram de-
lirantes. Uma usina de beneficiamento, com capaci-
dade para proc;essar de 60 a 80 mil toneladas por
ano, s6 funciona trgs meses por ano. A brea planta-
da, que deveria se estender por 14 mil hectares, nito
foi alem de tr~s mil, enquanto a produGlio, esperada
para 160 mil toneladas, estancou em 25 mil.
Com um passive monumental, o future do em-
preendimento estaria entire duas alternatives. A pri-
meira seria o seu simples cancelamento, com a des-
mobilizagilo de 1.500 pessoas. A outra seria a sua
conversito para a criaglio de b~falos ou o plantio de
outras cultures, entire as quals o milho. Como em
relaglio a outros projetos idealizados por Ludwig
para o vale do Jari, os novos proprietirios parecem
esperar muito do governor para essa converstio, tal-
vez entregando a colons agenciados pelo Mirad um
plantio que o milionsrio americano fez tudo para
manter B distlincia deles. Ao tentar mostrar que as
ricas virzeas amazdnicas podem produzir alimentos
em grande quantidade, Ludwig um fiel sacerdote
das prsticas e mentalidades colonialistas esco-
lheu o caminho errado, da opplio pela intensividade
da mbquina e do capital, pelo desprezo As condiCges
ecol6gicas do local e por uma tecnologia adequada
a ela. Agora, para remir esse pecado, todos teriam
que pagar um pouco. E a Amazinia mais ainda. f~ pos-
sivel que, esquecendo as razoes e origens do erro,
se prefira a viciada liCio das consequgncias: que as
v~rzeas amazanicas slio mesmo invibvels.


JARI


Erro


made


Brasil














































especializada do governor no setor fundi~rio e obri-
gando-o a rec~orrer ao minist6rio pliblico federal, ja
assoberbado de serving.
Essa restri~gio, fixada na pr6pria lei, val impedir
que o institute contest as empresas, como a Agro-
pecus, que tem recorrido b aGio declarat6ria para
obterem da Justiga o reconhecimento de serem em-
presas rurais e, nessa condiCio, imunes g desa-
propriaglio por interesse social.
Administrativamente o incra havia conseguido
descaracterizar a Agropecus como empresa rural,
embora ela tenha projeto aprovado pela Sudam. A
Agropecus passou a ser Iatiflindio por explora~gio.
De seus 43.417 hectafOS, nO municipio de Conceiglio
do Araguaia, 25.970 hectares deveriam ser desapro-
priados e redistribuidos entire 127 families que ocu-
param parte das terras.




Editor respons~vel : LWclo Fl~vio Plnto
Enderego (provis6rlo): rue Aristides Lobo, 871
Bel~m, Para, 6e.000. Fone : 2243728
DiagrarmaFlo e ilustrag~o: Lulz Pinto
Opple Jornalistica


do


Como a aqio nito de direito a participaqiko na
administration da empresa, seu Oinico retorno serlam
os dividends a serem pagos a partir do memento
em que o empreendimento comegar a dar lucro.
Isso demora multo a acontecer, quando ocorre. A
maioria dos projetos da Sudam permanece sob a
tutela do fundo muito mais tempo do que o normal
ou aceitfrvel gragas a v~rios mecanismos, um dos
quais 6 sua volta constant ao Condel (o Conselho
Deliberative) para reformulagdes, atualizaC~es, mo-
dernizagdes, etc. He projetos que, dessa maneira,
ficam recebendo incentives (que podiam chegar a
ate 75% do valor do projeto, se ele recebesse -
como a maioria recebia prioridade um) por oito,
10 ou 15 anos.
Mas, ainda que a proporglio seja insignificant,
alguns acabariam tendo qlue pagar dividends ou
tendo qlue apresentar contrapartida mais efetiva.
Nesta circunstancia e em mais alguns outros ca-
sos a melhor alternative 6 recomprar as agbes
no leillio, o que ainda permit um bom lucro finan-
ceiro. A parcela majoritsria das ag8es oferecidas no
dia dois foi cotada a um cruzado por unidade, quando
o valor de mercado 6 Cz$ 6,60 e o valor patrimonial
(num caso aleat6rio) de 23,19. Um comprador pode-
ria ter lucro imediato de at6 50% graqas a essa
simples diferenga de valores, alem de desobrigar-se
junto ao fundo dos dividends.
Esse estranho mercado, que nada tem a ver com
o desempenho produtivo das empresas ou as regras
ferozes do mercado aberto de agbes, s6 se mant~m
porque seu grande combustivel 6 o subsidio gover-
namental, subsidio que, em suas engrenagens soltas,
estimula o mero jogo especulative praticado selva-
gemente na Amaz8nia.


agraria


Em outubro do ano passado o governor federal
criou o Inter (Instituto Juridico das Terras Rurais)
em substituiCtio ao Incra (Instituto Nacional de Colo-
nizaqilo e Reforma Agrdria), seu linico 6rglio de a~gio
fundidria. Quatro meses depois, est8 mais do que
demonstrado que o novo institute serge incapaz de
ocupar o espago do antecessor. Na troca, o governor
saiu perdendo, saido dificil de imaginar diante da
car~ncia de que ji se ressentia o pr6prio Incra.
Essas limitaq~es estlio se evidenclando no ParB,
numa das v~rias aqijes de desapropriaglio que fica-
ramn mais dificeis de executar em consequgncia da
mudanga institutional. O juiz federal Aristides Me-
deiros nito aceitou que o Inter, como successor do
incra, participasse de uma agilo cautelar proposta
pela Agropec~us, que teve parte de sua propriedade
incluida no plano regional de reform agrsria.
Segundo o juiz, a lei 2.363, que criou o Inter e
inibiu ainda mais a reform agrdria, niio previu a
atuaglio do novo 6rglio em feitos como a aglio cau-
telar. Nesse caso, quem deveria se apresentar seria
a Unitio Federal e nlio seu institute de terras. A lei
estabeleceu que o novo 6rgilo poderia atuar apenas
nas desapropriaqbes, nas discriminat~rlas e na exe-
cugio fiscal, para a c~obranga do ITR (Imposto Terri-
torial Rural). Por isso, o Inter perdeu muitas fun-
g8es que o Incra desempenhava, prejudicando a agii0


faz-de-conta


Agoes: o jogo
Quem fosse ao audit6rlo da Associaqilo Comer-
cial do Parb, em Belem, no dia 2, teria uma surpresa.
Ao inv~s do nervosismo e da dispute caracteristicas
de uma venda de ag8es conventional, o leillio espe-
cial do Finam, que comercializa ag6es de empresas
incentivadas pela Sudam, era de uma calma e uma
ordem mais adequadas a um convento do que a um
pregso de bolea. Estavam sendo oferecidas pouco
mais de 30 milh~es de aGC~es de 125 empresas, das
quais apenas 515 mil agbes, de cinco empre-
sas, chegaram a ser apregoadas. Mesmo os que
disputavam essas poucas agiies acabaram acertando
quantas cada um levria e a que prego. Todas as ou-
tras foram vendidas por acerto direto, sem a neces-
sidade do lance a "viva voz".
No vasto sallio havia poucas pessoas e o ujnico
pretendente que nao era das prbprias empresas in-
centivadas representava o Banco do Brasil, que tra-
dicionalmente usa parte do seu imposto de renda
no Finam, o fund de investimentos admmnistrado
pelo Banco da Amazania e a Sudam. Na verdade'
s6j quem possui os Cl (Certificados de Investimen-
to), que representam as aplicaq6es feitas, pode par-
ticipar do leillio. onde esses documents slio usados
em lugar de moeda nas transaG6es. Em geral, quem
arremata as agiies slio oa prciprios dons dos em-
preendimentos .
Essa situaglio aparentemente esdrujxula aos
~olhos de um observador desavisado tem uma expli-
captio. Como contrapartida ao dinheiro que recebem
da Sudam para Implantar seus empreendimentos, as
empresas beneficiadas emitem ages preferencials
(sem direito a voto) em favor do Finam, que, reunin-
do-as, forma uma carteira de papeis que circulam em
circuit fochado, apenas entire as mesmas empresas
do sistema.


em refluxo


A reform