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E S CA~N DALO iro de 1988 .IH ~ VV V V 1 partir desta semana, dezenas de pessoas em BelBm comegario a ser intimadas para depor na Policia Federal. Politicos, dirigentes de emoresas pdblicas, empresbrios particulares, contumazes frequentadores de colunas socials e at6 uma desembargadors terio que explicar sua partici- pa~go num dos maiores rombos da hist6ria recente da administration p~blica no Pare. Quase 800 pes- soas serio chamadas para depor perante o delega- do Fgbio Caetano, coordenador regional da Policia Federal e president de um inquerito que, se for As ultimas consequ~ncias, serb um dos mais importar tes que a PF realizare. Uma amostra das consequincias dessa investi- gacio foi sentida nas 6ltimas duas semanas. No dia 12 a juiza federal Julieta Lunz, da 13a Vara do Rio de Janeiro, determinou a prisio de sete pessoas envolvidas nas fraudes prateicadas na agancia do Banco da Amazinia em Madureira, suburbio do Rio, acusando-as de estelionato. Elas haviam formado uma autentica quadrilha, que desviara quase 600 milhdes de cruzados (valor de agosto do ano passa. do) atraves de 43 emprdstimos irregulares ou com- pletamente fraudulentos, estes porque concedidos a empresas fantasmas. Segundo a investigation da PF, a aG~o comegava pelo compositor paraense Billy Blanco, funciondrio aposentado do Basa, que selecionava as empresas, incluia o gerente e um sub-gerante do banco, passa- va pela intermediagho de Guilberme Feldhaus, tinha como element de ligagho o advogado Augusto Bar. reira Pereira Jr., e finalmente chegava ao gabinete do pai dele, que liberou todos os empr6stimos atro- pelando as normas bancerias e com a colaboraGio de seu assessor, Antonio Nunes. Feldhaus era uma esp6cie de pombo-correio financeiro, que recebia os cheques da "corretagem" e os distribuia entire os comparsas, depositando aqueles que, em Bel~m, ca- biam a pai e filho. Ofensiva oportuna O cumprimento da ordem de prislio deu-se com ampla cobertura da imprensa do Rio, Stio Paulo e Brasilia, parte dela mobilizada por ulma campanha de dendncias de corrupg~o que chegava ate o gabinete do president Jos6 Sarney, enquanto outra ala, liderada pelas organizaq~es Glo- bo journall e televisio), aproveitou para demonstrar, comn a pronta aCgo dos federals cariocas, a disposi- WBo do president de punir corruptos comprovados, mesmo que de colarinho branco. UV IV Y I)VV UU IIIILVII . O mais popular, o compositor Billy Blanco, apa- receu como delinquent num dos programs de maior audi~ncia da televisio brasileira, o "FantBsti- co", e em diversas fotografias de jornais, que foram ampliando o noticidrio a respeito (exceto em BelBm) sem conseguir reconstituir com 16gica a hist6ria ou sequer escrever corretamente os nomes dos envol- vidos. Nio surpreende, assim, que nio tenham perce- bido um detalhe relevant: embora causasse forte impact a prisho de uma pessoa tio afetivamente ligada B m~sica brasileira, Billy e seus dois compa- nheiros de prisio receberam em conjunto menos da metade da comissio que coube a um dos foragidos e "coringa" nas transaqbes, Guilherme Feldhaus. E menos ainda do que coube a Augusto e "Augustinho" Pereira. O filho era dado como evadido pela PF do Rio, que admitia at8 a possibilidade de ele ter fugido do pais. Na verdade, "Augustinho" permaneceu o tem- po todo no Rio de Janeiro, sendo entrevistado pela revista "Veja", enquanto o pal era mantido hospitali- zado. 8 prov~vel que o ex-diretor e ex-presidente interino do Basa jB soubesse da ordem de prison quando atendeu uma agent federal na porta de sun resid~ncia, em Belem, um pouco antes da mela-noite do dia 12. A ordem de prisio chegara g PF do Pars no inicio da noite, jB fora do expediente normal, mas ainda assim Barreira Pereira acabou consentindo em acompanhar a equipe policial (composta por 10 agen- tes) e seguir para o aeroporto, onde pegaria o vio da Transbrasil das 4,20 horas de s~bado. Aparentemente, a juiza responssvel tamb~m pela prislio de Castor de Andrade, famoso banqueiro do jogo do bicho decidiu expedir o mandado por- que Barreira Pereira faltara a duas audiancias para depoimento, no dia 14 de janeiro e na prbpria sexta- feira. Coom isso, impediria que o delegado respons8- vel pelo inqubrito, Nicio Lacorte, cunhado do minis- tro Paulo Brossard, concluisse seu trabalho e o en- tregasse a Romeu Tuma, director da Policia Federal, que a repassaria imediatamente ao ministry da Jus- tica, ansioso para mostrar o trabalho e us8-lo como instrument a serving da imagem do governor e de outras serventias political ainda por confirmar, no memento oportuno. Para nio prejudicar a c61ere investigation, ba- seada quase exclusivamente na auditagem que o prbprio Banco da Amaz~nia executara, a juiza em plena quadra carnavalesca exigiu do delegado a apresentagio imediata de Pereira no Rio, mas saus Journal Pessoa Liicio Flsivio Pinto Ano I N" 12 Circulaglio apenas entire assinantes 2* Quinzena de Feverei megam as pnsoes As prisBes que comecaram no dia 12, no Rio, sho apenas o inicio de uma ofensiva que pode resultar no mass explosive process contra "colarinhos broncos" no Pard G o "caso" do rombo no Banco da Amazinia C intentos foram comprometidos por um acidente de percurso, real ou provocado. Jg com a mala pronta e no caminho de said, o ex-dirigente do banco sen- tiu-se mal, foi internado no incor com hipertensho e a partir dai entrou numa novela que o mantinha hospitalizado, uma semana depois, mesmo jB sem impedimento de sadde insan~vel para viajar e a des- peito do preenchimento de todas as exig~ncias le- gals para a prison. Culpa maior Indo ou nio preso para o Rio de Janeiro, Barreira Pereira e seus ciimplices t~m pou- cas esperancas de escapar g responsabilizaqgo por um conjunto de atos que representou desfalque equi- valente a 30 milhaes de d61ares ao Banco da Ama- z~nia. Ele 6 tambim o principal implicado pelas Ir- regularidades e fraudes cometidas nas ag~ncias do centro e da Pedreira, em Belem, e em Itaituba, no interior, que representam valor quase quatro vezes maior do que as do Rio de Janeiro e envolvem 20 vezes mais personagens. Enquanto o inqu~rito carioca comegou em mea- dos de agosto, o de Beldm s6 foi instaurado no final de novembro, mas percorreu um caminho muito mais complex. A Policia Federal recebeu oito volumes de documents e anotaqbes levantados pela comis- sho de sindicincia do Basa, relacionando desde o empresbrio que recebeu albm de seu I~mite cadas- tral ou foi beneficiado com taxas de juros inferiores As determinadas, mas jB comps sua divida comn o banco, at6 aquele que colocou a mio no dinheiro atrss de empresas juridicamente inexistentes, ou que foram criadas mas nio existiam de fato, as "empresas de papel . Cada um desses indiciados na sindicincia val ter que explicar como conseguiu o dinheiro, que cre- denciais tinha para recebe-lo, 0o que fez da quantia e se pagou alguma comissio por agenciamento. Cer- tamente entire 800 pessoas relacionadas num fich8- rio montado na PF, vsrias apenas passario uma vez pelo inqubrito e serho excluidas. Multas, por~m, se- rao responsabilizadas por danos causados g adminis- traCao pijblica e prdtica de crime financeiro, enqua- drsvel na lei do "colarinho branco aplicada pela primeira vez em um ano e meio de exist~ncia. Pelo menos dois deputados federals do PMDB, Manoel Ribeiro e Fausto Fernandes, serio chamados porque receberam emprdstimos. E prov~vel que ou- tros politicos tamb6m venham a ser ouvidos, assim como administradores pdblicos e uma desembarga- dora, igualmente beneficiada numa transagio. Em- pres6rios que sempre aparecem nas colunas socials receberho intimaqio, mas a PF mant~m discrigo porque alguns irio apenas prestar esclarecimento. O delegado F~bio Caetano garante rigor, seriedade e justiga nas apuraq6es. Ele poder8 ter que ouvir at6 10 pessoas por dia a partir desta semana. .Mas a policia js acumula muitas informaqbes e est8 amplamente documentada. O delegado Nicio Lacorte, seguindo a trilha aberta pelos auditors, ras- treou o dinheiro das comiss~ies, depositado nas con. tas dos membros da quadrilha. Todos eles estio com suas contas bloqueadas e bens custodiados. A vigilincia abrange patriminio de parents e amigos. Troca de acusaqiies Os depoimentos obtidos pela PF tambem vio ajudar bastante. Guilberme Feldhaus, 40 anos, admitiu que seus contatos no banco eram Antonio Nunes e Augusto Pereira e re. constituiu todo o esquema de repartigio do dinheiro, atrav~s de dois ou at6 quatro cheques, em porcenta- gens que iam de tr~s a seis por cento, este iiltimo o valor para "Augustinho". Em seu depoimento in- dividual, "Augustinho", 31 anos, negou quialquer par- ticipa~go no neg6cio. Admitiu conhecer Feldhaus, mas disse que nunca recebeu dinheiro dele. Insis- tiu para o delegado registrar literalmente o conceito que fazia de Feldhaus: "um bom filho da puta". Na acareaCao entire os dois, no entanto, Guilher- me confirmou que pagou a "Augustinho" "em che- ques de v~rios bancos e via de regra entregues den- tro do Banco da Amazinia, ag~ncia Centro de Be- 16m, e outras vezes na rua e uma ou duas vezes no pr6prio escrit6rio" de "Augustinbo", que teria fica- do com 60% de todo o valor recebido a titulo de co- missio. Disse nho saber por que "A~ugustinho" ne- gava "o fato de ter recebido valores e de ter efe- tuado loby para liberar os financiamentos da ag~ncia Rio-Metro ". Augusto Barreira Pereira declarou g PF desco- nhecer que Guilherme Feldhaus recebesse comrssio pelo "lobby" que fazia, "embora imaginasse que isto estivesse ocorrendo". Mas nio s6 desconhecia, como nio acreditava que o filho tivesse recebido comissaes. Explicou que autorizava as liberaq8es de empr6stimos por telefone, baseando-se nas infor- maq~es que Ihe eram passados pelo gerente da ag~ncia de Madureira. Seu assessor, Antonio Nu- nes, 6 que deveria fazer a checagem dessas informa- qdes verbais, verificando os documents. 6arantiu que s6 no memento de depor ficara sabendo, pelo delegado da PF, que essa provid~ncia "nso foi toma- da, razho porque nho houve fiscaliza~go e facilitou a acgo desonesta do gerente da aggncia Rio-Metro", manifestando "certeza absolute de que foi envolvido de boa f6". Vgrias das empresas receberam dinhei- ro sem dispor ao menos de cadastro no banco e, apesar de ter autorizado as transaC~es, Augusto Pe- reira nio se recordou, no depoimento, de "ter homo- logado nenhuma das operaC~es liberadas pela agin- cia Rio-Metro". Para quase 600 milhbes de cruzados de libera- 95es, entire 70 e 90 milhges ficaram nas mbos dos intermedisrios. No total, as "comissbes" devem ter ultrapassado 300 milhaes de cruzados. Parte desse dinheiro foi simplesmente dilapidada em gastos sun- tudrlos, como a compra de autom6vels cars e fes- tas; outra parte foi investida em im6veis, jB relacio- nados pela policia. Ela nio tem mais d~vida das culpas dos envolvidos, mas poder8 abrir ou restrin- gir o universe da apuraqio, aprofund8-la ou mant&-la a superficie. Segundo fontes com acesso As provas reunidas, o rastro do escindalo poderb chegar a gabinetes do pr6prio Palacio do Planalto e outras dependancias do governor, se nio houver nenhum desvio de percur- so. O segundo home no gabinete civil da presi- dancia da Rep~blica, Mauricio Vasconcelos, ex-se- crethrio-geral do Ministirrio do Interior (ao qual o Basa est8 subordinado), era quem dava mio forte a Augusto Pereira, seu sogro. O director da Policia Federal, Romeu Tuma, disse que Pereira tinha certe- za de assumir definitivamente a presid~ncia do ban- co. Se Isso ocorresse, as fraudes praticadas nio se- riam mais reveladas, observou Tuma. Esse seria tamb6m o motive capaz de explicar golpe tio gros- seiramente praticado. Nio foi falta de empenho de Vasconcelos que Augusto Pereira nio foi president do Basa. Ele at6 levou seu chefe, o ministry Ronaldo Costa Couto, para um fim-de-semana na casa do sogro, em Sali- nas, em abril do ano passado, quando as operagdes irregulares atingiam seu pique. Mas os pianos nso se realizaram, da mesma maneira como o petardo anti-corruppio que na semana passada o governor exibia, como prova de suas boas intenGies e lisura, pode acabar se transformando num bumerangue, objeto de alto risco quando langado sobre telhados de vidro. As relaqaes ocultas Todo o submundlo que media o biombo entire a imprensa e o poder e revelado no livro de mem6rias impressionante escrito no Brasil. Depois do que Samuel Wainer escreveu, tudo continuare* igual como a mais ntes ?~ oho Lage, donor de um journal influence na de- cada de 30, "O Pais", dizia que Ihe bastavam 22 leitores: os 21 governadores de Estados e o president da Repliblica. A frase era ci- nica, mas "refletia com absolute clareza as relaq8es entire a imprensa e o poder no Brasil", segundo ou- tro jornalista, igualmente autorizado a falar "de cs- tedra" sobre o assunto. Samuel Wainer dedicou um livro explosive ao relate das tras d~cadas em que toi um dos principals protagonistas desse relacio- namento, quase sempre promiscuo. O livro Minha Raz~io de Viver, Editora Record, 282 p8ginas, 890 cruzados, 3a edigio tera seu lu- gar garantido na historia como uma das mais impres- sionantes mem6rias jB produzidas no pais. O livro 6 o produto de entrevistas concedidas por Samuel Wainer a jornalistas, a 61ltima das quais a apenas um mis de sua morte, aos 67 anos, em setembro de 1980. Wainer falou com sinceridade mais do que rara entire os memorialistas, baseado em que suas revelaq6es s6 se tornariam pdblicas depois que ele morresse. E certo que nem tudo o que disse 6 ver- dade, mas foi multo al6m do que estio dispostos a avangar os auto-bi~grafos. Essa ousadia o credencia a uma credibilidade geral, ainda que em alguns tre- chos omita fats ou os distorga. Mas nem seus ad- iterssrios, muito mais prbximos da manipulaCio do que ele, poderio contest8-lo. f o golpe p6s-morte que Wainer desferiu contra esses inimigos podero- sos, alguns dos quais ainda vivos. Sio o que ele chama de principless da Imprensa". t~io ricos e cinicos quanto o portuguis J'oho Lage, mas que nem sempre se dso ao luxo da sinceridade, mesmo a pr6-ag8nica de Wainer. Um dos maiores no period de 1930 a 1960, durante o qual Wainer tambem exerceu seu principado, foi Assis Chateau- briand. A partir da ddcada de 20, "com dinheiro que conseguira da Light", o paraibano com nome fran- cgs construiu um imperio que abrangeu 20 jornais, vsrias emissoras de radio e televisio, revistas e editor. "O Cruzeiro", revista que chegou a circular em espanhol, atingiu 700 mil exemplares numa 6po- ca em que o Brasil tinha 40% de sua atual populacio. Manipulagio pessoal Frequentemente Cha- teaubriand usou essa poderosa msquina para cam- panhas que mobilizavam a opiniho piiblica, mas que eraml orientadas por seus interesses particulares. Liderou, por exemplo, rima campanha national para a proliferaqio dos campos de aviaqio, "sem revelar qlue lucrava com a venda dos avi~es Paulistinha, fa- bricados pela familiar Pignatary". Estimulou ainda a instalagio de postos de puericultura, "quando, no Fundo, que~ria apenas vender mais rem~dios e au- mentar a receita dos laboratbrios farmac~uticos nos quais tinha interesse", denuncia Samuel Wainer. Chateaubriand era contra a auto-suficiencia brasileira na produCgo de trigo porque isso convinha aos trustes internacionais que detinham o monoip6- lio do comercio. Mas alegava apenas que, se o Brasil deixasse de importar trigo da Argentina, os ergentinos deixariam de comprar nosso mate. Reporter dos "Associados", Wainer foi mandado ao Rio Grande do Sul, no inicio de 1949, justamente para fazer uma reportagem de encomenda contra a pretens~io g auto-suficiancia. Wainer, que vira com os pr~prios olhos a possibilidade de o pais produzir todo o trigo necessdrio ao consume, foi salvo do im- passe que o aguardava por uma de suas muitas ini- ciativas bem sucedidas: parou de improvise na fa- zenda em que o senador Getdlio Vargas se auto- exilara e registrou declarag~es que representariam o langamento da campanha pelo retorno de Vargas B presidbncia. A entrevista teria um imenso impact e faria Chateaubriand esquecer as reportagens con- tra a produglio national de trigo. A partir dai, Getulio e Wainer se tornariam amigos e, even~tualmente ciimplices". Wainer des- trutaria do privildgio de ser o 6nico jornalista a co- brir a campanha eleitoral do candidate do PTB, en- quanto eram numerosas as comitivas que acompa- nhavam o brigadeiro Eduardo Gomes e o general Juarez Tgvora, outros concorrentes. A imprensa sim- plesmente decidira ignorar a volta de Vargas e mes- mo os jornais "Associados" s6 davam tratamento favor~vel no material de Wainer, que convivia com editorials violentos contra o ex-ditador. gas ganhou sua primeira guerra contra a im- prensa e percebeu que precisava ter um jor- nal a seu Favor. No livro, Wainer reconhece, pela primeira vez, que a criaqiko de "t)Itima Hora" Ihe foi sugerida pelo president. Os 30 mil cruzeiros que usou para comprar a grsfica do extinto "DiBrio Carioca" foram obtidos, em parties iguais, dos em- presbrios Walter Moreira Salles, Euvaldo Lodi e Ri- cardo Jafet, na 6poca presidindo o Banco do Brasil. Os dois primeiros ("mais cautelosos") subscreve- ram as ages mas logo as repassaram a terceiros, para evitar complicagbes futures". Jafet daria o di- nheiro atrav6s de um banco da familiar e, sovinamen- te, faria o redesconto do titulo no Banco do Brasil, o "rabo do gator" que Lacerda puxaria depois, quan- do iniciou uma campanha para mostrar que o journal fora financiado com dinheiro piiblico. Os 30 mil cruzeiros dariam para comprar a ofi- cina e o pr6dio do "Dibrio Carioca", mas os recursos para movimentar o journal viriam do entlio governador de Minas Gerais, Juscelino Kubitscheck, um segredo que W~ainer mant~eve at6 ditar as mem6rias. O rela- cionamento com- JK originara-se de uma audi~ncia com Get~lio que Wainer conseguira para o governa- dor mineiro. Depois do favor, Wainer pediu a JKi tr~s mil contos (uma quantia calculada aleatoria- mente) para seu journal. Juscelino lhe disse que o dinheiro viria atraves de tras bancos e que outro jornalista, Medeiros Lima, antigo militant do Parti- do Comunista, seria o avalista, embora nenbum dos dois tivesse condigaes econ6micas ou financeiras de participar da operagiio. "Eram, evidentemente, transaq~ies de carter politico", reconhece. "O pa- yamento seria feito em publicidade", acrescenta logo, garantindo ter levado 20 anos para saidar a divida. Origem na lama A origem niio era limpa, mas Samuel Wainer js tinha 15 anos de experibncia nos bastidores enlameados da imprensa brasileira. Em 1937 ele langara a revista "Diretrizes", referencial obrigat6rio na hist6ria da imprensa brasileira, com uma subvenglio de dois contos de r~is ("um bom dinheiro para a 6poca"), que a Light repassava men- salmente a Azevedo Amaral para que a revista cir- culasse. "Diretrizes" era, no entanto, apenas um item na contabilidade secret de subornos, subvenqbes e verbas paralelas que a Light mantinha. Assis Cha- teaubriand era seu maior client, mas a empresa dava dinheiro a todos os jornais, inclusive "A Ma- "Oltima Hora" marcou 6poca na imprensa brasileira entire as ddcadas de 50 e 60. Causava impact js na primeira psgina, Impressa a cores. Na 6poca, apenas dois jornais usavam cor, mas ambos um em Slo Paulo e outro no Rio de Janeiro utilizando o vermelho. UH foi o primeiro a optar pelo azul. A primeira pbgina tam- 5bm valorizava a fotografia e pela primeira vez serviu para abrigar a foto colorida de um time de futebol. Apesar de ser o grande esporte national, o futebol era maltratado pelos jornais. UH lhe daria destaque, igual no da cobertura policial, tamb6m desprezada pela gran. de imprensa. UH conquistaria leitores atrav6s de multas colu- nas. "Na Hora H", uma das mais lIdas, era escrita por Jacinto de Thormes. Nelson Rodrigues dava um apro. veitamento especial a noticia policial com "A vida como Fla 6". A sectio "O dia do presidente, escrita direta. mente do Paldcio do Catete (sede do governor federal na 6poca), teve grande sucesso, que Wainer explica : "Desde os tempos do Departamento de Imprensa e Pro. paganda, o DIP, que remetia aos jornais as no~ticias que interessavam ao governor e proibia a divulgagio de tudo quanto considevasse inconvenient, desaparecera o hdbi. to da busca de informapges no pr6prio palticio". O jornal criou os dois cadernos, um rodando mais cedo, com as amenidades, e outro, mais tarde, com as principals materias. Introduziu as hist6rias em quad'ri- nhos, trouxe da Imprensa americana o h~bito das promo. q8es (com primios para os leitores) e uma seq50 para divulgar as reivindicaC~es populares. Tamb~m respeitou o hor~rio de circulagio ("naquele tempo, os jorna'bs cos- tumavam sair quando podiam')] e foi o primeiro a circu- lar emr bancas, entregue diretamente aos revendedores eltrav~s de uma frota pr6pria de veiculos, "novidade re. volucionarift para a epoca". Mas, o que pode ter sido tlo important, UH inovou internamente. W~ainer decid'iu investor na redaglio, "um pecado mortal para homes habituados a aplicar em ou. tros locals e atividades os lucros que extraiam dos seus jornais". A sede do journal tinha paindis do famoso pintor Di Gavalcantl nas paredes, mesas especiais para os re.. datores, sal~rios melhores par~a os jornalistas. Os grd- ficos recobiam leite para combater a contaminaqio por chumnbo, exigencia sanitbria raramente cumprida. Comr uma carreira tlo atribulada, "Oltima Hora" so. breviveria enquanto estivesse em sintonia com a forma populista de governor adotada entire os anos 50 e 60, que lhe conferia favors oficiais. Mas Wainer tem sua radio quando diz que um d~os principals fatores a manter vivo o journal foi a criatividade. Sem ela, nem os cofres pliblicos slio capazes de manter o jornailsmo. Basta olbar em volta para perceber. UH: um jornalismo de vanguard nhii", do Partido Comunista. Os editorialistas mais influentes dos jornals recebiam diretamente da Light "pagamentos destinados a torna-los d6cels diante das imoralidades que a beneficiavam". Com a autoridade de quem tambem recebeu esses dona- tivos, W~ainer conclui: "S6 no dia em que forem abertos os arquivos da Light se saber ate que ponto este pais foi corrompido pelo famoso 'polvo cana- dense"', apelido muito apropriado para uma empresa que, na 6poca, controlava os servigos de luz, gds, agua e telefones. Seu poder era tiio ampl o qe ar- rancou do Congresso uma lei "que Ihe permitia man- dar seus lucros para o exterior em ouro". Levado por Chateaubriand, W~ainer participou das tamosas reunides que o superintendent da Light, Mc Crimmon, promovia todos os s~bados em sua mansio carioca. Mesmo com a presenga de altas autoridades da Republica (como o sacrossanto pre- sidente Eurico Gaspar Dutra), o ambiente "era de puro deboche", atesta o jornalista, para quem Mc Crimmon e "Chat8" tinham "um forte trago em co- mum : o cinismo. Era o cinismo tipico dos pode- rosos"). Eterno mecenato O cinismo foi tambem o combustivel para Samuel Wainer chegar ao estsgio de poder dos outros principles da imprensa que ele relaciona, como Paulo Bittencourt (do "Correio da Manh5"). Quando "Diretrizes" estava em dificul- dades, procurou "algum capitalist que nos ajudas- se", encontrando o paulista ,Mauricio Goulart, que aceitou investor 100 contos de reis, "uma fortune . Logo depois da famosa entrevista com Getdlio na fronteira gaticha, -faz uma materia com o governador Adhemar de Barros, que paga 300 contos de reis a Chateaubriand, donor do journal, e 60 contos a W~ainer, autor da entrevista. Com a dinheiro, ele compra um apartamento na avenida Atlintica, no Rio, que hoje niio sairia por menos de 10 milh6es de cruzados. Para conseguir 100 contos de rdis do Banco do Distrito Federal, W~ainer comprometeu-se a fazer re- portagens "mostrando a importincia das refinarias de petr61eo", algumas das quais controladas por em- pressrios ligados ao pr6prio banco. O donor, depu- tado Drault Ernani, que era "uma das fontes de sus- tentaglio financeira de Assis Chateaubriand", conse- guiu o espago necessario para as reportagens nos "Dibrios Associados". W~ainer n~io deixa passar a hist~ria sem uma observaCio pedag6gica: "Chateau briand jamais recusava algum pedido de seus ban- queiros, mesmo quando se tratava de algo contrsrio a seus interesses como a defesa da nacionalizaglio das jazidas e do monopdlio estatal de exploraglio do petrdleo, inaceit~vel para quem era "um entreguista radical . ministry. Atrav~s de seu banco, Moreira Salles con- cedeu emprestimo a Wainer, que assinou a promis- s6ria "convencido de que ela jamais seria cobrada" A cobranga, porem, acabou vindo. Samuel jura ti-la pago, "com publicidade". "lj1tima Hora" tamb~m publicava artigos ou re- portagens favoraveis aos interesses dos industrials paulistas, por encomenda de Euvaldo Lodi, presiden- te da Federacao das Industrias e um eterno can- didato g presidancia da Republica, que retribuia "com algum present, ou alguma quantia em dinheiro". O empresbrio tornou-se "ainda mais generoso" quando Getulio voltou ao poder: compreendeu que o jorna- lista "podia facilitar-Ihe o acesso ao presidente. Essa qualidade, entire outras, fez com qlue Sa- muel considerasse Jkiscelino "um 6timo politico", respons~vel por contribui6~es em favor de "ij1tima Hora" ainda mais generosas do que as de Getolio. WJainer diz que JK se convencera de que "era indis- penssvel fazer-me agrados para conservar o aliado", percepplio que Getulio n~io desenvolveu tanto. Um dos favores foi o de livrar Wainer de um "dos inume- lIveis processes movidos contra mim". O julgamen- to estava indefinido. "Entiio, um dos juizes encarre- gados do caso fez com qlue me chegasse a informa- CNo de que ficaria multo mais sensivel a meus argu- mnentos se fosse promovido a catedrdtico da faculda- de de Direito onde era professor. Passei o recado a JK, que atendeu prontamente a reivindicadio do juiz. F~ui absolvido gragas ao voto do novo catedratico". Portas opo~rtunas Abrir portas de amigos que estavam no poder para "aliados" dispostos a finan- ciar suas atividades fez com que Samuel W~ainer atra- vessasse os governos opulistas acumulando forgas ate atingir o mdximo com Joho Goulart. Jango e San Thiago Dantas entiree outras fungies, foi primeiro- ministro no parlamentarismo de afogadilho adotado depois da crise da renuncia de Janio Ouadros) che- garam a agenciar dinheiro para que ele assumisse os "DiBrios Associados", jB ent~o em franca deca- d~ncia ("Assis Chateaubriand foi uma das Oltimas expresses do Brasil colonial. Ele e seu imperio niio poderiam sobreviver g modernizaqio do pais"). San Thiago tinha pretensiio a candidate 9 presi- dancia e estaria articulando "algum.grande neg6cio envolvendo o governor, que lhe permitiria angariar uma esplgndida gorjeta, capaz de assegurer aquelas transagies milionbrias Mas Jango foi derrubado antes e por isso Samuel ficou sem saber "se a verba realmente existiu e se San Thiago resolve embol- s8-la ". Num certo memento, porem, ele diz ter tentado ''reduzir drasticamente" o grau de dependgncia que "'Oltima Hora" tinha do governor, atraindo a publici- dade do com6rcio: "Fiz horrores para conseguii aninclos, vendi minha alma ao diabo, corrompi-me at6 a medula. Em certas ocasides, cheguei a namo- Irar filhas de comerciantes para fechar neg6cio". Sem poder escapar g marca do cinismo que vi nos adversdirios de principado, Wainer narra os mB- todos que adotava para conseguir ani~ncios: "Se duas s metodos de Samuel Wainer nlio foram mui- to diferentes. Em troca de dinheiro, ele ne- gociou para que Walter Moreira Salles fosse embaixador em Washington, o mais cobigado da carreira diplom~tica, abaixo apenas do de posto empresas envolviam-se em determinada dispute, eu escoihia a qlue fosse brasileira, ou a qlue melhor atendesse aos interesses de Get~lio, e passava a defenda-la. Em seguida, reivindicava dessa empresa qlue ajudasse o jornal em forma de anOncios". Um exemple dessa postura, que nio considerava antibti- ca, foi a dispute pelos primeiros avi6es a jato Cara- velle entire a Panair e a Varig. Como a Panair era subsidibria da norte-americana Panam, "Oltima Hlora" ficou com a Varig. "Meu journal precisava de publi- cidade, e era natural que eu cobrasse do meu clien- te nacionalista meios de assegurar a sobreviv~ncia da "O3ltima [Hora", argument Wainer, confundindo national com nacionalista, o que nem sempre signi- fica a mesma coisa. Mas Samuel est8 sempre disposto a vestir com roupas mais elegantes atos de mero neg6cio. Ele acentua a contradiG~o de a "Oltima Hlora" paulista, publicaqio "indiscutivelmente popular, com posi- q~es nacionalistas de esquerda", ter sido financiada por um conde milionbrio e conservador. Mas a len- dario conde Francisco Matarazzo, que "vira seu im- p6rio crescer na era getulista, favorecido por favo- r~es fiscais e aduaneiros", estava interessado apenas em agradar a Getalio e se vingar de Chateaubriand, que vivia chatageando-o. degraus do poder com a ajuda de sua pr6pria compet~ncia, Wainer percebeu as mudanqas qlue ocorriam no fr~gil biombo separand oa imprensa do poder. "Ainda nos anos 50, a imprensa brasileira tinha como anunciantes, basicamente, pe- quenos comerciantes a indiistria nacio~nal nio al cangara sua maioridade, e tampouco havia grupos financeiros de grande porte". Os jornais vendiam pouco, o pdblico era restrito e os dons buscavam outras fontes de renda, "utilizando como moeda de troca seu peso junto B o~piniho pljblica". Jd o gover- no procurava atrair a imprensa contemplando jornais e revistas "com isenC~es fiscais, facilidades para a importa~go de papel, eventualmente anonclos . Mas se na Primeira Rep~blica "multos dons de jornais prosperaram como agents dos interesses dos exportadores de cafe", no Brasil da decada de 50 a grande fonte de lucros passaram a ser os em. preiteiros, dos quais os dons de jornais se torna- ram porta-vozes. Samuel cita o exemple de Assis Chateaubriand, que "costumava procurar pessoal- mente ministros de Estado, ou mesmo o president dar Repliblica, para solicitar que um trecho de deter. minada obra uma rodovia, uma hidreletrica - fosse entregue a esta ou Bquela construtora. Ficava claro que se o pleito nio fosse atendido, a ira do lornal desabaria sobre ~o autor da recusa". Se em 1960, ao conbecer Rabello, constatara ter encontrado ''uma figure indispensivel B decifra8o dos jogos do poder no Brasil", 12 anos depois, quan- do as projetos dos empresblrios js navegavam por dguas que nio as populistas, outro empreiteiro, Mau- ricio A~lencar, punha fim ao principado de Wainer ao comprar a "Oltima Hora" por 1,5 milhio de d61ares, pagos em 36 prestaqT~es. Alencar, B frente de outros empreiteiros tambem ligados ao coronel Mgrio An- dreazza, um incans~vel executor de obras, tio agres- sivo quanto Juscelino, jB sepultara, antes, o outrora poderoso "Correio da ManhB". "Minha grande aven- tura terminara", sio as dltimas palavras de Wainer, que se considerava, acima de tudo, um grande aven- tureiro e com toda a razio. Esqueceu-se de lem- brar, no entanto, que Andreazza estava incluido entire os militares que tentaram derrubar Getdlio (e o leva- ram ao suicidio) e depuseram Jango. Mas Js entio o aventureiro, que de hB multo sufocara o jornalista, nio estava mais em condicbes de lembrar o que nio fosse puro neg6cio. Caminho sem fim Wainer percebeu o mapa da mina e se aproximou de Marcos Paulo Rabello, o principal empreiteiro das obras de Brasilia, "de quem Frequentemente se dizia, sem provas concre- tas, que era s6cio de JK". Mesmo sem essa prova, foi o president que fez baixar a ponte juntando o empreiteiro ao jornalista. Wainer reconstitui: "Fui ao encontro de Juscelino, relatei-lbe os problems financeiros que enfrentava e tirei minha carta da manga, lembrando que Rabello poderia resolver a quest~o. O president emudeceu, ensaiando uma ex- pressio de quem jamais ouvira aquele nome. Impas- sivel, reiterei que seria uma boa id~ia apresentar-me a Rabello como algudm recomendado pe'o presiden- te. JK ainda tentou negar qualquer ligagio entire ambos, mas final baixou a guard : Procure-o e diga que pergunto se pode ajudar - concede JK O empreiteiro ajudou. ,18 entao Samuel Wainer s6 sabia esse caminho de fazer journal ou tentar expandir seu imperio. Ele admite que para poder assumir o control da R~dio Clube foram feitas "algumas manobras, determina- das negociatas" (acabaria perdendo depois a radio porque os adversaries recorreram a um artificio le- gal e Getilio nio brecou a manobra: "No memento em que uma esquecida norma legal foi acionada con- tra o amigo do president, tornou-se claro que a amizade ja nho era a mesma", constata, com sua cinica 16gica, ou vice-versa). Assim, a cadela de jor- nais "Oltima Hora" foi se formando pelo pais vincu- iada tambem a interesses politicos. A UH pernam- bucana, por exemplo, nasceu para sustentar a can- didatura ao Senado do empreslrio Jos6 Ermirio de Morals, donor do grupo Votorantim (hoje com os fi- lhos, Antonio e Jos6). "O velho Ermirio deu-me o dinheiro necess~rio para o langamento e, depois, co- mo faltassem anijncios a direita pernambucana fez o possivel para esmagar-me -, garantiu a sobre- vivgncia do journal com novos empr~stimos", confes- ,sa Wainer. Assis Chateaubriand, O "grande capitho" do jor- nalismo brasileiro (titulo conferido por um de seus Bulicos, David Nasser), passou quatro anos sem visi- tar a redaCio de "O Jornal", lider de sua cadela. Pagava mal a seus jornalistas e dizia odiar os em- pregados. Nao se separava do rev6Iver, colocado em cima da mesa, durante as madrugadas, enquanto acompanhava a impressio do journal. Jd Samuel Wainer instalou sua sala dentro da redagBo, coman- dando o funcionamento do journal atrss de uma pare- de de vidro (no famoso "aquirio", que se multiplica- ria depois nas redagoes). Esse era um dos principals tragos que diferen- clavam W~ainer dos outros principles da imprensa. Depois de confessar em seu livro participagao em tantas negociatas, ele garante que havia outro dife- renciador: "Sempre que algum neg6cio me benefi- ciava, o dinheiro era integralmente aplicado na Ultima Hora nunca quis nada para mim. Meus colegas pensavam diferente : eles colocavam nos proprios bolsos as verbas recebidas, jamais cogita- ram de aplica-las nas empresas que dirigiam. Assim enriqueceram muitos barges da imprensa brasileira. Se diferenga houve, por6m, ela foi sutil. Com umna sinceridade que nunca sera suficientemente louvada, W~ainer conta como participou, no comeGo de 1964, de uma opera6Bo "destinada a fazer entrar no Brasil 450.000 dolares, a serem aplicados em ma- nobras political". Foi buscar o dinheiro na Suiga e IA deixou, em seu proprio nome, depositados 20 mil dolares, gastando algumas centenas de ddlares a mais em compras pessoais. "Eu poderia, sem pro- blema algum, ter deixado 100.000 d6Iares em minha conta tratava-se de um dinheiro clandestine, nin- guem poderia fazer algo contra mim", exime-se. "Por que nho fiz isso? Francamente, nho sei". Esse dinheiro seria util quando Wainer asilou-se. Um pouco antes, ele pedira um milhio de d61ares a Jorge Serpa, um contumaz intermediador e lobbista de todas as Rep~blicas recentes, mas s6 encontrou 100 d61ares depositados num banco suigo. Depois de constrangedoras negociagbes", arrancou mais 90 mil d61ares de Serpa, a quem fez uma ameaga: "se nio me fosse entregue um milhao de ddlares, conforme me havia prometido, eu revelaria todos os detalhes da transaCgo que ele comandara". Mas os tempos la eram outros e Wainer teve que se conten- tar com os 90 mil dolares. Ele tinha, na verdade, 140 mil d61ares clandestinos, mas, "sempre perdulsrio", deixou 40 mil para serem aplicados em UH, que, em 1965, lhe daria o retorno mensal de quatro mil d6- lares A linguagem e os modos je nho eram os de um jornalista aventureiro, mas os de um aventureiro no jornalismo. No exilio europeu, Wainer produziria um filme e, para tenter salva-lo do fracasso, confessa ter subornado critics para escreverem favoravel- mente. Nesse memento, ji era apenas mais um no principado, sem qualquer distingio. Esse assemelhamento comegara bem antes. E no que deveria ser o reduto sagrado de "Oltima Hora": a redagBo. Wainer conta que s6 readmitiu Paulo Francis, colunista do journal, demitido porque defendia o Grupo dos 11 de Leonel Brizola (ao qual pertenceria, o que Francis nega), atendendo a um pedido do banqueiro Jose Luiz Magalh~es Lins. "Pau- lo, voc4 vai voltar, porque fago tudo que meu ban- queiro mandar", relembrou Wainer, aparentemente esquecido de outro trecho das mem6rias, quando diz, com p~retensa superioridade, que "por trds de cada journal de Chateaubriand havia um banqueiro". Com uma filosofia tio cinica quanto as anterio- res, W~iner costumava dizer aos jornalistas de UH que nio teriam liberdade para escrever: liberda'de era algo que s6 o donor do journal poderia ter. O que eu Ihes assegurava era independancia". Tamb~m usava o mesmo anti-profissionalismo: "Assinar uma coluna na OIjtima Hora era possuir um espago nobre na imprensa, o que me permitia eventualmente re- crutar celebridades como colunistas sem pagar sa- larios". N~o chega a surpreender esse comportamento num home que se submetia a censura com mais toler~ncia do que seria possivel esperar de um jor- nalista altivo. Quando ainda dinigla "Diretrizes Samuel tirou da primeira pdgina a fotografia do pre- sidente americano Franklin Roosevelt, desagradavel ao chefe de gabinete do ministry da Guerra do Es- tado Novo, que flertava com o nazi-fascismo. Acatou a ordem seguinte da censura, que nio queria ums foto isolada de Benjamin Constant na capa, obrigan- do W~ainer a incluir tambem a foto de Deodoro da Fonseca, mais afinado comn a ditadura. Submeteu-se docilmente a outra exig~ncia: que Mauricio Goulart, "nosso providencial capitalista, se afastasse da re- vista. G~oulart, ligado g oposigho udenista, aceitou a exig~ncia, "sempre elegante, e W~ainer ficou so- zinho na empresa. Jg na fase de "Ojltima Hora", ele aceitou publicar na primeira pagina o soneto patrio- teiro de um aspirante do Exercito em resposta g cangdo "Pra nho dizer que nho falei de flores", de Geraldo Vandre, considerada ofensiva Bs Forgas Ar- madas. "A coragem fisica nunca foi um de meus atri- butos",1 confessa W~ainer. ,Mas em 1964 ele se exce- deu: asilou-se na embaixada do Chile mal os milita- res comegaram a sublevaglio, a 31 de margo, "cons- ciente de que, se por algum milagre o golpe malo- grasse, eu nito poderia sair Bs ruas de cabega er- guida efinai, nem mesmo esperara a queda do governor para buscar asilo. Jango ainda era presi dente e eu js era um asilado". Apesar disso, Wainer diz que "lutava por uma causa Seu amigo Jorge Amado, na apresenta~go do livro, diz que ele era um patriota. Certamente foi uma pessoa agradavel, simpatica e fiel aos amigos. mas sua contribulpho important foi a sinceridade que usou nas membrias. A dlescriGao realista da- queles tempos popullstas serve para explicar o apolo que os militares ganharam da populacio quan- do se propuseram a combater a corrupg~o, o glac6 que recheava as relag6es entire a imprensa e o po- der. Mas a narrative de Wainer tamb6m deixa bem claro que, desde entlio, se alguma coisa mudou, foi para pior. O que tambem tira o credito de seus cri- ticos moralistas e do movimento military que insufla- ram, as eternas vivandeiras dos quartbis. Para o jornalista at~nito com tanto cinismo e tiio pouca esperanga, fica uma certeza : journal que negocia sua opiniho transforma-se em armaz~m de secos & molhados. De boa apar~ncia, talvez, mas sem substancia, um mero comercio de lantejoulas. Em journal, opiniao nao se vende Qualquer cidadlio pode ir a ag~ncia do Banco Meridional na Cidade Velha, em Belem, e fazer de- pdsitos na conta 01-4396-5, que o governor do Estado abriu para receber contribuigoes destinadas a "obras socilas do ParB". No entanto, os dep6sitos feitos nessa conta tim quase sempre um valor constant, sao efet~uados com regularidade e o autor das doa- q~es niio aparece oficialmente. Ele nito foi identificado nem mesmo quando o governador He1io Gueiros, em solenidade realizada no Pal~cio Lauro Sodr6, no dia 11, repassou 5,8 milhdes de cruzados dessa conta a 17 institui66es filantr6pi- cas ou de aGio social. No discurso que fez antes de entregar os cheques entiree o mdximo de 800 mil e o minimo de 100 mil cruzados cada um deles), Gueiros disse que a conta existe "para receber do- nativos de quem queira doar". Ressaltando que os jornalistas presents jB haviam recebido c6pias do extrato da conta, argumentou ser essa uma prova de que o governor estava procurando ser "o mais transparent possivel para a populaglio fi car infor- mada e corrigir "os erros de distribuigiio que hou- ver". A transpar~ncia, por~m, continue limitada. A conta, na verdade, 6 movimentada exclusivamente pelos banqueiros do jogo do bicho. O donativo foi a forma de alcangarem a legalizaqiko para a ativida- de, que 6 uma contravenglio penal e deveria ser re- primida pelo governor, se apenas as leis existentes fossem cumpridas. Os 900 mil cruzados que slio re- colhidos mensalmente b conta, administrada pelo Ipassp, (o institute dos aposentados e pensionistas do 1-stado, dirigido por uma amiga particular do go- vernador), representariam, quando muito, 2% do que o jogo movimenta em Belem. Persistem as verses de que uma parte do dinheiro, coordenado ainda pe. los metodos estabelecidos no governor anterior, tem destinactio distinta das obras socials e volume major -, drenando-se para agbes political ou bolsos particulares . Paternidade errada O governador HBlio Gueiros teve uma desagra- d~vel surpresa na sua terceira incurstio ao interior do Estado desde que assumiu o cargo, hB quase um ano (as outras duas visits foram a Tucurui). Guei- ros comegava a entregar titulos de propriedade de terras a lavradores, em Castanhal, no mis passado, quando percebeu que o inv61ucro de pl~stico dos documents alertava os benefici~rios que eles de- viam aquela titula~gio unicamente ao ex-governador e atual ministry da Reforma Agrsria, Jgder Barbalho. A programa~gio previa a entrega de 27 titulos, mas o governador deu apenas o primeiro titulo e considerou entregues todos os demais, simbolica- mente. As pessoas mals pr6ximas notaram a gran- de irritagilo de Guelros, que havia assinado os do- cumentos, expedidos pelo Iterpa, mas desconhecia o detalhe dos plssticos com os dizeres creditando os meritos da titulaglio ao seu antecessor. S6 perce- beu o fato na hora em que leu a inscriglio, jB diante do agricultor postado B sua frente para o recebimen- to. Os demais tiveram que esperar at6 o Iterpa re- tirar as capas pl~stica8. Algumias das instituicies beneficiadas, que re- ceberam por telegrama convite para comparecer no dia anterior g solenidade no gabinete do governador, desconheciam o que seria feito ou o que recebe- riam. Mas nito era o caso, segundo fontes palacia- nas, da Igreja Evangdlica Maanaim, que na semana seguinte devolveu seu cheque, de 100 mil cruzados (comunicando o fato g imprensa antes de efetu6-lo). Segundo essas fontes, confirmadas pelo pr6prio go- vernador, a Igreja foi a Bnica que tomou a iniciativa de pedir a ajuda "e, evidentemente, sabendo de onde vinha o dinheiro, porque vocas todos publica- ram", lembrou Gueiros aos jornalistas, no final da semana passada. O governador, que tamb6m 6 evangdlico, embo- ra de outra Igreja, a presbiteriana, contestou as ba- ses filos6ticas e religiosas apresentadas pelo pastor Jeronymo Filho para devolver dinheiro prqduzido em jogo de azar, apresentando duas razies "menos fa- risaicas": o baixo valor do dinheiro ou as diverg~n- cias internal na seita, que fizeram uma ala aceitar o dinheiro e outra forg~ar a rejeiglio. Afinal, no dia da entrega o representante da Igreja Maanaim saiu do palscio alegre, satisfeito e ciente das origens da verba, como todos os demais. Mas como o governor nito pratica a complete transpar~ncia que anuncia, niio apenas permit o farisaismo, como estimula aproveitamentos marginais e pessoais em torno de uma atividade que est8 long da cristalinidade da filantropia. Olmnal PCSSOal Editor respons~vel: Li~cio FI~vio Pinto Enderego (provisdrio): rua Aristides Lobo, 871 Bel~m, ParB, 66.000. Fone: 224.3728 Diagramapio e ilustrapgo: Luiz Pinto Opg~o Jornalistica O "bicho" do jogo |
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