Jornal pessoal

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Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00011

Full Text











E S CA~N DALO


iro de 1988


.IH ~ VV V V 1
partir desta semana, dezenas de pessoas em
BelBm comegario a ser intimadas para depor
na Policia Federal. Politicos, dirigentes de
emoresas pdblicas, empresbrios particulares,
contumazes frequentadores de colunas socials e at6
uma desembargadors terio que explicar sua partici-
pa~go num dos maiores rombos da hist6ria recente
da administration p~blica no Pare. Quase 800 pes-
soas serio chamadas para depor perante o delega-
do Fgbio Caetano, coordenador regional da Policia
Federal e president de um inquerito que, se for As
ultimas consequ~ncias, serb um dos mais importar
tes que a PF realizare.
Uma amostra das consequincias dessa investi-
gacio foi sentida nas 6ltimas duas semanas. No
dia 12 a juiza federal Julieta Lunz, da 13a Vara do
Rio de Janeiro, determinou a prisio de sete pessoas
envolvidas nas fraudes prateicadas na agancia do
Banco da Amazinia em Madureira, suburbio do Rio,
acusando-as de estelionato. Elas haviam formado
uma autentica quadrilha, que desviara quase 600
milhdes de cruzados (valor de agosto do ano passa.
do) atraves de 43 emprdstimos irregulares ou com-
pletamente fraudulentos, estes porque concedidos a
empresas fantasmas.
Segundo a investigation da PF, a aG~o comegava
pelo compositor paraense Billy Blanco, funciondrio
aposentado do Basa, que selecionava as empresas,
incluia o gerente e um sub-gerante do banco, passa-
va pela intermediagho de Guilberme Feldhaus, tinha
como element de ligagho o advogado Augusto Bar.
reira Pereira Jr., e finalmente chegava ao gabinete
do pai dele, que liberou todos os empr6stimos atro-
pelando as normas bancerias e com a colaboraGio
de seu assessor, Antonio Nunes. Feldhaus era uma
esp6cie de pombo-correio financeiro, que recebia os
cheques da "corretagem" e os distribuia entire os
comparsas, depositando aqueles que, em Bel~m, ca-
biam a pai e filho.
Ofensiva oportuna O cumprimento da ordem
de prislio deu-se com ampla cobertura da imprensa
do Rio, Stio Paulo e Brasilia, parte dela mobilizada
por ulma campanha de dendncias de corrupg~o que
chegava ate o gabinete do president Jos6 Sarney,
enquanto outra ala, liderada pelas organizaq~es Glo-
bo journall e televisio), aproveitou para demonstrar,
comn a pronta aCgo dos federals cariocas, a disposi-
WBo do president de punir corruptos comprovados,
mesmo que de colarinho branco.


UV IV Y I)VV UU IIIILVII .
O mais popular, o compositor Billy Blanco, apa-
receu como delinquent num dos programs de
maior audi~ncia da televisio brasileira, o "FantBsti-
co", e em diversas fotografias de jornais, que foram
ampliando o noticidrio a respeito (exceto em BelBm)
sem conseguir reconstituir com 16gica a hist6ria ou
sequer escrever corretamente os nomes dos envol-
vidos. Nio surpreende, assim, que nio tenham perce-
bido um detalhe relevant: embora causasse forte
impact a prisho de uma pessoa tio afetivamente
ligada B m~sica brasileira, Billy e seus dois compa-
nheiros de prisio receberam em conjunto menos da
metade da comissio que coube a um dos foragidos
e "coringa" nas transaqbes, Guilherme Feldhaus. E
menos ainda do que coube a Augusto e "Augustinho"
Pereira.
O filho era dado como evadido pela PF do Rio,
que admitia at8 a possibilidade de ele ter fugido do
pais. Na verdade, "Augustinho" permaneceu o tem-
po todo no Rio de Janeiro, sendo entrevistado pela
revista "Veja", enquanto o pal era mantido hospitali-
zado. 8 prov~vel que o ex-diretor e ex-presidente
interino do Basa jB soubesse da ordem de prison
quando atendeu uma agent federal na porta de sun
resid~ncia, em Belem, um pouco antes da mela-noite
do dia 12. A ordem de prisio chegara g PF do Pars
no inicio da noite, jB fora do expediente normal, mas
ainda assim Barreira Pereira acabou consentindo em
acompanhar a equipe policial (composta por 10 agen-
tes) e seguir para o aeroporto, onde pegaria o vio
da Transbrasil das 4,20 horas de s~bado.
Aparentemente, a juiza responssvel tamb~m
pela prislio de Castor de Andrade, famoso banqueiro
do jogo do bicho decidiu expedir o mandado por-
que Barreira Pereira faltara a duas audiancias para
depoimento, no dia 14 de janeiro e na prbpria sexta-
feira. Coom isso, impediria que o delegado respons8-
vel pelo inqubrito, Nicio Lacorte, cunhado do minis-
tro Paulo Brossard, concluisse seu trabalho e o en-
tregasse a Romeu Tuma, director da Policia Federal,
que a repassaria imediatamente ao ministry da Jus-
tica, ansioso para mostrar o trabalho e us8-lo como
instrument a serving da imagem do governor e
de outras serventias political ainda por confirmar,
no memento oportuno.
Para nio prejudicar a c61ere investigation, ba-
seada quase exclusivamente na auditagem que o
prbprio Banco da Amaz~nia executara, a juiza em
plena quadra carnavalesca exigiu do delegado a
apresentagio imediata de Pereira no Rio, mas saus


Journal Pessoa
Liicio Flsivio Pinto
Ano I N" 12 Circulaglio apenas entire assinantes 2* Quinzena de Feverei


megam as pnsoes
As prisBes que comecaram no dia 12, no Rio,
sho apenas o inicio de uma ofensiva que pode resultar
no mass explosive process contra "colarinhos broncos" no
Pard G o "caso" do rombo no Banco da Amazinia


C






intentos foram comprometidos por um acidente de
percurso, real ou provocado. Jg com a mala pronta
e no caminho de said, o ex-dirigente do banco sen-
tiu-se mal, foi internado no incor com hipertensho
e a partir dai entrou numa novela que o mantinha
hospitalizado, uma semana depois, mesmo jB sem
impedimento de sadde insan~vel para viajar e a des-
peito do preenchimento de todas as exig~ncias le-
gals para a prison.
Culpa maior Indo ou nio preso para o Rio de
Janeiro, Barreira Pereira e seus ciimplices t~m pou-
cas esperancas de escapar g responsabilizaqgo por
um conjunto de atos que representou desfalque equi-
valente a 30 milhaes de d61ares ao Banco da Ama-
z~nia. Ele 6 tambim o principal implicado pelas Ir-
regularidades e fraudes cometidas nas ag~ncias do
centro e da Pedreira, em Belem, e em Itaituba, no
interior, que representam valor quase quatro vezes
maior do que as do Rio de Janeiro e envolvem 20
vezes mais personagens.
Enquanto o inqu~rito carioca comegou em mea-
dos de agosto, o de Beldm s6 foi instaurado no final
de novembro, mas percorreu um caminho muito mais
complex. A Policia Federal recebeu oito volumes
de documents e anotaqbes levantados pela comis-
sho de sindicincia do Basa, relacionando desde o
empresbrio que recebeu albm de seu I~mite cadas-
tral ou foi beneficiado com taxas de juros inferiores
As determinadas, mas jB comps sua divida comn o
banco, at6 aquele que colocou a mio no dinheiro
atrss de empresas juridicamente inexistentes, ou
que foram criadas mas nio existiam de fato, as
"empresas de papel .
Cada um desses indiciados na sindicincia val
ter que explicar como conseguiu o dinheiro, que cre-
denciais tinha para recebe-lo, 0o que fez da quantia
e se pagou alguma comissio por agenciamento. Cer-
tamente entire 800 pessoas relacionadas num fich8-
rio montado na PF, vsrias apenas passario uma vez
pelo inqubrito e serho excluidas. Multas, por~m, se-
rao responsabilizadas por danos causados g adminis-
traCao pijblica e prdtica de crime financeiro, enqua-
drsvel na lei do "colarinho branco aplicada pela
primeira vez em um ano e meio de exist~ncia.
Pelo menos dois deputados federals do PMDB,
Manoel Ribeiro e Fausto Fernandes, serio chamados
porque receberam emprdstimos. E prov~vel que ou-
tros politicos tamb6m venham a ser ouvidos, assim
como administradores pdblicos e uma desembarga-
dora, igualmente beneficiada numa transagio. Em-
pres6rios que sempre aparecem nas colunas socials
receberho intimaqio, mas a PF mant~m discrigo
porque alguns irio apenas prestar esclarecimento.
O delegado F~bio Caetano garante rigor, seriedade
e justiga nas apuraq6es. Ele poder8 ter que ouvir
at6 10 pessoas por dia a partir desta semana.
.Mas a policia js acumula muitas informaqbes e
est8 amplamente documentada. O delegado Nicio
Lacorte, seguindo a trilha aberta pelos auditors, ras-
treou o dinheiro das comiss~ies, depositado nas con.
tas dos membros da quadrilha. Todos eles estio
com suas contas bloqueadas e bens custodiados. A
vigilincia abrange patriminio de parents e amigos.
Troca de acusaqiies Os depoimentos obtidos
pela PF tambem vio ajudar bastante. Guilberme
Feldhaus, 40 anos, admitiu que seus contatos no
banco eram Antonio Nunes e Augusto Pereira e re.
constituiu todo o esquema de repartigio do dinheiro,
atrav~s de dois ou at6 quatro cheques, em porcenta-
gens que iam de tr~s a seis por cento, este iiltimo
o valor para "Augustinho". Em seu depoimento in-
dividual, "Augustinho", 31 anos, negou quialquer par-
ticipa~go no neg6cio. Admitiu conhecer Feldhaus,
mas disse que nunca recebeu dinheiro dele. Insis-


tiu para o delegado registrar literalmente o conceito
que fazia de Feldhaus: "um bom filho da puta".
Na acareaCao entire os dois, no entanto, Guilher-
me confirmou que pagou a "Augustinho" "em che-
ques de v~rios bancos e via de regra entregues den-
tro do Banco da Amazinia, ag~ncia Centro de Be-
16m, e outras vezes na rua e uma ou duas vezes no
pr6prio escrit6rio" de "Augustinbo", que teria fica-
do com 60% de todo o valor recebido a titulo de co-
missio. Disse nho saber por que "A~ugustinho" ne-
gava "o fato de ter recebido valores e de ter efe-
tuado loby para liberar os financiamentos da ag~ncia
Rio-Metro ".
Augusto Barreira Pereira declarou g PF desco-
nhecer que Guilherme Feldhaus recebesse comrssio
pelo "lobby" que fazia, "embora imaginasse que isto
estivesse ocorrendo". Mas nio s6 desconhecia,
como nio acreditava que o filho tivesse recebido
comissaes. Explicou que autorizava as liberaq8es
de empr6stimos por telefone, baseando-se nas infor-
maq~es que Ihe eram passados pelo gerente da
ag~ncia de Madureira. Seu assessor, Antonio Nu-
nes, 6 que deveria fazer a checagem dessas informa-
qdes verbais, verificando os documents. 6arantiu
que s6 no memento de depor ficara sabendo, pelo
delegado da PF, que essa provid~ncia "nso foi toma-
da, razho porque nho houve fiscaliza~go e facilitou a
acgo desonesta do gerente da aggncia Rio-Metro",
manifestando "certeza absolute de que foi envolvido
de boa f6". Vgrias das empresas receberam dinhei-
ro sem dispor ao menos de cadastro no banco e,
apesar de ter autorizado as transaC~es, Augusto Pe-
reira nio se recordou, no depoimento, de "ter homo-
logado nenhuma das operaC~es liberadas pela agin-
cia Rio-Metro".
Para quase 600 milhbes de cruzados de libera-
95es, entire 70 e 90 milhges ficaram nas mbos dos
intermedisrios. No total, as "comissbes" devem ter
ultrapassado 300 milhaes de cruzados. Parte desse
dinheiro foi simplesmente dilapidada em gastos sun-
tudrlos, como a compra de autom6vels cars e fes-
tas; outra parte foi investida em im6veis, jB relacio-
nados pela policia. Ela nio tem mais d~vida das
culpas dos envolvidos, mas poder8 abrir ou restrin-
gir o universe da apuraqio, aprofund8-la ou mant&-la
a superficie.
Segundo fontes com acesso As provas reunidas,
o rastro do escindalo poderb chegar a gabinetes do
pr6prio Palacio do Planalto e outras dependancias
do governor, se nio houver nenhum desvio de percur-
so. O segundo home no gabinete civil da presi-
dancia da Rep~blica, Mauricio Vasconcelos, ex-se-
crethrio-geral do Ministirrio do Interior (ao qual o
Basa est8 subordinado), era quem dava mio forte a
Augusto Pereira, seu sogro. O director da Policia
Federal, Romeu Tuma, disse que Pereira tinha certe-
za de assumir definitivamente a presid~ncia do ban-
co. Se Isso ocorresse, as fraudes praticadas nio se-
riam mais reveladas, observou Tuma. Esse seria
tamb6m o motive capaz de explicar golpe tio gros-
seiramente praticado.
Nio foi falta de empenho de Vasconcelos que
Augusto Pereira nio foi president do Basa. Ele at6
levou seu chefe, o ministry Ronaldo Costa Couto,
para um fim-de-semana na casa do sogro, em Sali-
nas, em abril do ano passado, quando as operagdes
irregulares atingiam seu pique. Mas os pianos nso
se realizaram, da mesma maneira como o petardo
anti-corruppio que na semana passada o governor
exibia, como prova de suas boas intenGies e lisura,
pode acabar se transformando num bumerangue,
objeto de alto risco quando langado sobre telhados
de vidro.











As relaqaes ocultas


Todo o submundlo que media o biombo entire
a imprensa e o poder e revelado no livro de mem6rias
impressionante escrito no Brasil. Depois do que
Samuel Wainer escreveu, tudo continuare* igual como a


mais


ntes ?~


oho Lage, donor de um journal influence na de-
cada de 30, "O Pais", dizia que Ihe bastavam
22 leitores: os 21 governadores de Estados
e o president da Repliblica. A frase era ci-
nica, mas "refletia com absolute clareza as relaq8es
entire a imprensa e o poder no Brasil", segundo ou-
tro jornalista, igualmente autorizado a falar "de cs-
tedra" sobre o assunto. Samuel Wainer dedicou um
livro explosive ao relate das tras d~cadas em que
toi um dos principals protagonistas desse relacio-
namento, quase sempre promiscuo.
O livro Minha Raz~io de Viver, Editora Record,
282 p8ginas, 890 cruzados, 3a edigio tera seu lu-
gar garantido na historia como uma das mais impres-
sionantes mem6rias jB produzidas no pais. O livro 6
o produto de entrevistas concedidas por Samuel
Wainer a jornalistas, a 61ltima das quais a apenas um
mis de sua morte, aos 67 anos, em setembro de
1980. Wainer falou com sinceridade mais do que
rara entire os memorialistas, baseado em que suas
revelaq6es s6 se tornariam pdblicas depois que ele
morresse. E certo que nem tudo o que disse 6 ver-
dade, mas foi multo al6m do que estio dispostos a
avangar os auto-bi~grafos. Essa ousadia o credencia
a uma credibilidade geral, ainda que em alguns tre-
chos omita fats ou os distorga. Mas nem seus ad-
iterssrios, muito mais prbximos da manipulaCio do
que ele, poderio contest8-lo. f o golpe p6s-morte
que Wainer desferiu contra esses inimigos podero-
sos, alguns dos quais ainda vivos.
Sio o que ele chama de principless da Imprensa".
t~io ricos e cinicos quanto o portuguis J'oho Lage,
mas que nem sempre se dso ao luxo da sinceridade,
mesmo a pr6-ag8nica de Wainer. Um dos maiores
no period de 1930 a 1960, durante o qual Wainer
tambem exerceu seu principado, foi Assis Chateau-
briand. A partir da ddcada de 20, "com dinheiro que
conseguira da Light", o paraibano com nome fran-
cgs construiu um imperio que abrangeu 20 jornais,
vsrias emissoras de radio e televisio, revistas e
editor. "O Cruzeiro", revista que chegou a circular
em espanhol, atingiu 700 mil exemplares numa 6po-
ca em que o Brasil tinha 40% de sua atual populacio.

Manipulagio pessoal Frequentemente Cha-
teaubriand usou essa poderosa msquina para cam-
panhas que mobilizavam a opiniho piiblica, mas que
eraml orientadas por seus interesses particulares.


Liderou, por exemplo, rima campanha national para
a proliferaqio dos campos de aviaqio, "sem revelar
qlue lucrava com a venda dos avi~es Paulistinha, fa-
bricados pela familiar Pignatary". Estimulou ainda a
instalagio de postos de puericultura, "quando, no
Fundo, que~ria apenas vender mais rem~dios e au-
mentar a receita dos laboratbrios farmac~uticos nos
quais tinha interesse", denuncia Samuel Wainer.
Chateaubriand era contra a auto-suficiencia
brasileira na produCgo de trigo porque isso convinha
aos trustes internacionais que detinham o monoip6-
lio do comercio. Mas alegava apenas que, se o
Brasil deixasse de importar trigo da Argentina, os
ergentinos deixariam de comprar nosso mate.
Reporter dos "Associados", Wainer foi mandado
ao Rio Grande do Sul, no inicio de 1949, justamente
para fazer uma reportagem de encomenda contra a
pretens~io g auto-suficiancia. Wainer, que vira com
os pr~prios olhos a possibilidade de o pais produzir
todo o trigo necessdrio ao consume, foi salvo do im-
passe que o aguardava por uma de suas muitas ini-
ciativas bem sucedidas: parou de improvise na fa-
zenda em que o senador Getdlio Vargas se auto-
exilara e registrou declarag~es que representariam
o langamento da campanha pelo retorno de Vargas






B presidbncia. A entrevista teria um imenso impact
e faria Chateaubriand esquecer as reportagens con-
tra a produglio national de trigo.

A partir dai, Getulio e Wainer se tornariam
amigos e, even~tualmente ciimplices". Wainer des-
trutaria do privildgio de ser o 6nico jornalista a co-
brir a campanha eleitoral do candidate do PTB, en-
quanto eram numerosas as comitivas que acompa-
nhavam o brigadeiro Eduardo Gomes e o general
Juarez Tgvora, outros concorrentes. A imprensa sim-
plesmente decidira ignorar a volta de Vargas e mes-
mo os jornais "Associados" s6 davam tratamento
favor~vel no material de Wainer, que convivia com
editorials violentos contra o ex-ditador.


gas ganhou sua primeira guerra contra a im-
prensa e percebeu que precisava ter um jor-
nal a seu Favor. No livro, Wainer reconhece,
pela primeira vez, que a criaqiko de "t)Itima Hora"
Ihe foi sugerida pelo president. Os 30 mil cruzeiros
que usou para comprar a grsfica do extinto "DiBrio
Carioca" foram obtidos, em parties iguais, dos em-
presbrios Walter Moreira Salles, Euvaldo Lodi e Ri-
cardo Jafet, na 6poca presidindo o Banco do Brasil.
Os dois primeiros ("mais cautelosos") subscreve-
ram as ages mas logo as repassaram a terceiros,
para evitar complicagbes futures". Jafet daria o di-
nheiro atrav6s de um banco da familiar e, sovinamen-
te, faria o redesconto do titulo no Banco do Brasil,
o "rabo do gator" que Lacerda puxaria depois, quan-
do iniciou uma campanha para mostrar que o journal
fora financiado com dinheiro piiblico.


Os 30 mil cruzeiros dariam para comprar a ofi-
cina e o pr6dio do "Dibrio Carioca", mas os recursos
para movimentar o journal viriam do entlio governador
de Minas Gerais, Juscelino Kubitscheck, um segredo
que W~ainer mant~eve at6 ditar as mem6rias. O rela-
cionamento com- JK originara-se de uma audi~ncia
com Get~lio que Wainer conseguira para o governa-
dor mineiro. Depois do favor, Wainer pediu a JKi
tr~s mil contos (uma quantia calculada aleatoria-
mente) para seu journal. Juscelino lhe disse que o
dinheiro viria atraves de tras bancos e que outro
jornalista, Medeiros Lima, antigo militant do Parti-
do Comunista, seria o avalista, embora nenbum dos
dois tivesse condigaes econ6micas ou financeiras
de participar da operagiio. "Eram, evidentemente,
transaq~ies de carter politico", reconhece. "O pa-
yamento seria feito em publicidade", acrescenta logo,
garantindo ter levado 20 anos para saidar a divida.

Origem na lama A origem niio era limpa, mas
Samuel Wainer js tinha 15 anos de experibncia nos
bastidores enlameados da imprensa brasileira. Em
1937 ele langara a revista "Diretrizes", referencial
obrigat6rio na hist6ria da imprensa brasileira, com
uma subvenglio de dois contos de r~is ("um bom
dinheiro para a 6poca"), que a Light repassava men-
salmente a Azevedo Amaral para que a revista cir-
culasse.

"Diretrizes" era, no entanto, apenas um item na
contabilidade secret de subornos, subvenqbes e
verbas paralelas que a Light mantinha. Assis Cha-
teaubriand era seu maior client, mas a empresa
dava dinheiro a todos os jornais, inclusive "A Ma-


"Oltima Hora" marcou 6poca na imprensa brasileira
entire as ddcadas de 50 e 60. Causava impact js na
primeira psgina, Impressa a cores. Na 6poca, apenas dois
jornais usavam cor, mas ambos um em Slo Paulo
e outro no Rio de Janeiro utilizando o vermelho. UH
foi o primeiro a optar pelo azul. A primeira pbgina tam-
5bm valorizava a fotografia e pela primeira vez serviu
para abrigar a foto colorida de um time de futebol.
Apesar de ser o grande esporte national, o futebol era
maltratado pelos jornais. UH lhe daria destaque, igual
no da cobertura policial, tamb6m desprezada pela gran.
de imprensa.
UH conquistaria leitores atrav6s de multas colu-
nas. "Na Hora H", uma das mais lIdas, era escrita por
Jacinto de Thormes. Nelson Rodrigues dava um apro.
veitamento especial a noticia policial com "A vida como
Fla 6". A sectio "O dia do presidente, escrita direta.
mente do Paldcio do Catete (sede do governor federal
na 6poca), teve grande sucesso, que Wainer explica :
"Desde os tempos do Departamento de Imprensa e Pro.
paganda, o DIP, que remetia aos jornais as no~ticias que
interessavam ao governor e proibia a divulgagio de tudo
quanto considevasse inconvenient, desaparecera o hdbi.
to da busca de informapges no pr6prio palticio".
O jornal criou os dois cadernos, um rodando mais
cedo, com as amenidades, e outro, mais tarde, com as


principals materias. Introduziu as hist6rias em quad'ri-
nhos, trouxe da Imprensa americana o h~bito das promo.
q8es (com primios para os leitores) e uma seq50 para
divulgar as reivindicaC~es populares. Tamb~m respeitou
o hor~rio de circulagio ("naquele tempo, os jorna'bs cos-
tumavam sair quando podiam')] e foi o primeiro a circu-
lar emr bancas, entregue diretamente aos revendedores
eltrav~s de uma frota pr6pria de veiculos, "novidade re.
volucionarift para a epoca".
Mas, o que pode ter sido tlo important, UH inovou
internamente. W~ainer decid'iu investor na redaglio, "um
pecado mortal para homes habituados a aplicar em ou.
tros locals e atividades os lucros que extraiam dos seus
jornais". A sede do journal tinha paindis do famoso pintor
Di Gavalcantl nas paredes, mesas especiais para os re..
datores, sal~rios melhores par~a os jornalistas. Os grd-
ficos recobiam leite para combater a contaminaqio por
chumnbo, exigencia sanitbria raramente cumprida.
Comr uma carreira tlo atribulada, "Oltima Hora" so.
breviveria enquanto estivesse em sintonia com a forma
populista de governor adotada entire os anos 50 e 60,
que lhe conferia favors oficiais. Mas Wainer tem sua
radio quando diz que um d~os principals fatores a manter
vivo o journal foi a criatividade. Sem ela, nem os cofres
pliblicos slio capazes de manter o jornailsmo. Basta
olbar em volta para perceber.


UH: um jornalismo de vanguard






nhii", do Partido Comunista. Os editorialistas mais
influentes dos jornals recebiam diretamente da
Light "pagamentos destinados a torna-los d6cels
diante das imoralidades que a beneficiavam". Com
a autoridade de quem tambem recebeu esses dona-
tivos, W~ainer conclui: "S6 no dia em que forem
abertos os arquivos da Light se saber ate que ponto
este pais foi corrompido pelo famoso 'polvo cana-
dense"', apelido muito apropriado para uma empresa
que, na 6poca, controlava os servigos de luz, gds,
agua e telefones. Seu poder era tiio ampl o qe ar-
rancou do Congresso uma lei "que Ihe permitia man-
dar seus lucros para o exterior em ouro".
Levado por Chateaubriand, W~ainer participou das
tamosas reunides que o superintendent da Light,
Mc Crimmon, promovia todos os s~bados em sua
mansio carioca. Mesmo com a presenga de altas
autoridades da Republica (como o sacrossanto pre-
sidente Eurico Gaspar Dutra), o ambiente "era de
puro deboche", atesta o jornalista, para quem Mc
Crimmon e "Chat8" tinham "um forte trago em co-
mum : o cinismo. Era o cinismo tipico dos pode-
rosos").

Eterno mecenato O cinismo foi tambem o
combustivel para Samuel Wainer chegar ao estsgio
de poder dos outros principles da imprensa que
ele relaciona, como Paulo Bittencourt (do "Correio
da Manh5"). Quando "Diretrizes" estava em dificul-
dades, procurou "algum capitalist que nos ajudas-
se", encontrando o paulista ,Mauricio Goulart, que
aceitou investor 100 contos de reis, "uma fortune .
Logo depois da famosa entrevista com Getdlio na
fronteira gaticha, -faz uma materia com o governador
Adhemar de Barros, que paga 300 contos de reis a
Chateaubriand, donor do journal, e 60 contos a W~ainer,
autor da entrevista. Com a dinheiro, ele compra um
apartamento na avenida Atlintica, no Rio, que hoje
niio sairia por menos de 10 milh6es de cruzados.

Para conseguir 100 contos de rdis do Banco do
Distrito Federal, W~ainer comprometeu-se a fazer re-
portagens "mostrando a importincia das refinarias
de petr61eo", algumas das quais controladas por em-
pressrios ligados ao pr6prio banco. O donor, depu-
tado Drault Ernani, que era "uma das fontes de sus-
tentaglio financeira de Assis Chateaubriand", conse-
guiu o espago necessario para as reportagens nos
"Dibrios Associados". W~ainer n~io deixa passar a
hist~ria sem uma observaCio pedag6gica: "Chateau
briand jamais recusava algum pedido de seus ban-
queiros, mesmo quando se tratava de algo contrsrio
a seus interesses como a defesa da nacionalizaglio
das jazidas e do monopdlio estatal de exploraglio do
petrdleo, inaceit~vel para quem era "um entreguista
radical .


ministry. Atrav~s de seu banco, Moreira Salles con-
cedeu emprestimo a Wainer, que assinou a promis-
s6ria "convencido de que ela jamais seria cobrada"
A cobranga, porem, acabou vindo. Samuel jura ti-la
pago, "com publicidade".
"lj1tima Hora" tamb~m publicava artigos ou re-
portagens favoraveis aos interesses dos industrials
paulistas, por encomenda de Euvaldo Lodi, presiden-
te da Federacao das Industrias e um eterno can-
didato g presidancia da Republica, que retribuia "com
algum present, ou alguma quantia em dinheiro". O
empresbrio tornou-se "ainda mais generoso" quando
Getulio voltou ao poder: compreendeu que o jorna-
lista "podia facilitar-Ihe o acesso ao presidente.
Essa qualidade, entire outras, fez com qlue Sa-
muel considerasse Jkiscelino "um 6timo politico",
respons~vel por contribui6~es em favor de "ij1tima
Hora" ainda mais generosas do que as de Getolio.
WJainer diz que JK se convencera de que "era indis-
penssvel fazer-me agrados para conservar o aliado",
percepplio que Getulio n~io desenvolveu tanto. Um
dos favores foi o de livrar Wainer de um "dos inume-
lIveis processes movidos contra mim". O julgamen-
to estava indefinido. "Entiio, um dos juizes encarre-
gados do caso fez com qlue me chegasse a informa-
CNo de que ficaria multo mais sensivel a meus argu-
mnentos se fosse promovido a catedrdtico da faculda-
de de Direito onde era professor. Passei o recado a
JK, que atendeu prontamente a reivindicadio do juiz.
F~ui absolvido gragas ao voto do novo catedratico".
Portas opo~rtunas Abrir portas de amigos que
estavam no poder para "aliados" dispostos a finan-
ciar suas atividades fez com que Samuel W~ainer atra-
vessasse os governos opulistas acumulando forgas
ate atingir o mdximo com Joho Goulart. Jango e San
Thiago Dantas entiree outras fungies, foi primeiro-
ministro no parlamentarismo de afogadilho adotado
depois da crise da renuncia de Janio Ouadros) che-
garam a agenciar dinheiro para que ele assumisse
os "DiBrios Associados", jB ent~o em franca deca-
d~ncia ("Assis Chateaubriand foi uma das Oltimas
expresses do Brasil colonial. Ele e seu imperio niio
poderiam sobreviver g modernizaqio do pais").
San Thiago tinha pretensiio a candidate 9 presi-
dancia e estaria articulando "algum.grande neg6cio
envolvendo o governor, que lhe permitiria angariar
uma esplgndida gorjeta, capaz de assegurer aquelas
transagies milionbrias Mas Jango foi derrubado
antes e por isso Samuel ficou sem saber "se a verba
realmente existiu e se San Thiago resolve embol-
s8-la ".
Num certo memento, porem, ele diz ter tentado
''reduzir drasticamente" o grau de dependgncia que
"'Oltima Hora" tinha do governor, atraindo a publici-
dade do com6rcio: "Fiz horrores para conseguii
aninclos, vendi minha alma ao diabo, corrompi-me
at6 a medula. Em certas ocasides, cheguei a namo-
Irar filhas de comerciantes para fechar neg6cio".
Sem poder escapar g marca do cinismo que vi
nos adversdirios de principado, Wainer narra os mB-
todos que adotava para conseguir ani~ncios: "Se duas


s metodos de Samuel Wainer nlio foram mui-
to diferentes. Em troca de dinheiro, ele ne-
gociou para que Walter Moreira Salles fosse
embaixador em Washington, o mais cobigado
da carreira diplom~tica, abaixo apenas do de


posto






empresas envolviam-se em determinada dispute, eu
escoihia a qlue fosse brasileira, ou a qlue melhor
atendesse aos interesses de Get~lio, e passava a
defenda-la. Em seguida, reivindicava dessa empresa
qlue ajudasse o jornal em forma de anOncios". Um
exemple dessa postura, que nio considerava antibti-
ca, foi a dispute pelos primeiros avi6es a jato Cara-
velle entire a Panair e a Varig. Como a Panair era
subsidibria da norte-americana Panam, "Oltima Hlora"
ficou com a Varig. "Meu journal precisava de publi-
cidade, e era natural que eu cobrasse do meu clien-
te nacionalista meios de assegurar a sobreviv~ncia
da "O3ltima [Hora", argument Wainer, confundindo
national com nacionalista, o que nem sempre signi-
fica a mesma coisa.

Mas Samuel est8 sempre disposto a vestir com
roupas mais elegantes atos de mero neg6cio. Ele
acentua a contradiG~o de a "Oltima Hlora" paulista,
publicaqio "indiscutivelmente popular, com posi-
q~es nacionalistas de esquerda", ter sido financiada
por um conde milionbrio e conservador. Mas a len-
dario conde Francisco Matarazzo, que "vira seu im-
p6rio crescer na era getulista, favorecido por favo-
r~es fiscais e aduaneiros", estava interessado apenas
em agradar a Getalio e se vingar de Chateaubriand,
que vivia chatageando-o.


degraus do poder com a ajuda de sua pr6pria
compet~ncia, Wainer percebeu as mudanqas
qlue ocorriam no fr~gil biombo separand oa
imprensa do poder. "Ainda nos anos 50, a imprensa
brasileira tinha como anunciantes, basicamente, pe-
quenos comerciantes a indiistria nacio~nal nio al
cangara sua maioridade, e tampouco havia grupos
financeiros de grande porte". Os jornais vendiam
pouco, o pdblico era restrito e os dons buscavam
outras fontes de renda, "utilizando como moeda de
troca seu peso junto B o~piniho pljblica". Jd o gover-
no procurava atrair a imprensa contemplando jornais
e revistas "com isenC~es fiscais, facilidades para a
importa~go de papel, eventualmente anonclos .
Mas se na Primeira Rep~blica "multos dons

de jornais prosperaram como agents dos interesses
dos exportadores de cafe", no Brasil da decada de
50 a grande fonte de lucros passaram a ser os em.
preiteiros, dos quais os dons de jornais se torna-
ram porta-vozes. Samuel cita o exemple de Assis
Chateaubriand, que "costumava procurar pessoal-
mente ministros de Estado, ou mesmo o president
dar Repliblica, para solicitar que um trecho de deter.
minada obra uma rodovia, uma hidreletrica -
fosse entregue a esta ou Bquela construtora. Ficava
claro que se o pleito nio fosse atendido, a ira do
lornal desabaria sobre ~o autor da recusa".

Se em 1960, ao conbecer Rabello, constatara ter
encontrado ''uma figure indispensivel B decifra8o
dos jogos do poder no Brasil", 12 anos depois, quan-
do as projetos dos empresblrios js navegavam por


dguas que nio as populistas, outro empreiteiro, Mau-
ricio A~lencar, punha fim ao principado de Wainer ao
comprar a "Oltima Hora" por 1,5 milhio de d61ares,
pagos em 36 prestaqT~es. Alencar, B frente de outros
empreiteiros tambem ligados ao coronel Mgrio An-
dreazza, um incans~vel executor de obras, tio agres-
sivo quanto Juscelino, jB sepultara, antes, o outrora
poderoso "Correio da ManhB". "Minha grande aven-
tura terminara", sio as dltimas palavras de Wainer,
que se considerava, acima de tudo, um grande aven-
tureiro e com toda a razio. Esqueceu-se de lem-
brar, no entanto, que Andreazza estava incluido entire
os militares que tentaram derrubar Getdlio (e o leva-
ram ao suicidio) e depuseram Jango. Mas Js entio
o aventureiro, que de hB multo sufocara o jornalista,
nio estava mais em condicbes de lembrar o que nio
fosse puro neg6cio.

Caminho sem fim Wainer percebeu o mapa
da mina e se aproximou de Marcos Paulo Rabello,
o principal empreiteiro das obras de Brasilia, "de
quem Frequentemente se dizia, sem provas concre-
tas, que era s6cio de JK". Mesmo sem essa prova,
foi o president que fez baixar a ponte juntando o
empreiteiro ao jornalista. Wainer reconstitui: "Fui
ao encontro de Juscelino, relatei-lbe os problems
financeiros que enfrentava e tirei minha carta da
manga, lembrando que Rabello poderia resolver a
quest~o. O president emudeceu, ensaiando uma ex-
pressio de quem jamais ouvira aquele nome. Impas-
sivel, reiterei que seria uma boa id~ia apresentar-me
a Rabello como algudm recomendado pe'o presiden-
te. JK ainda tentou negar qualquer ligagio entire
ambos, mas final baixou a guard :

Procure-o e diga que pergunto se pode ajudar

- concede JK O empreiteiro ajudou.

,18 entao Samuel Wainer s6 sabia esse caminho
de fazer journal ou tentar expandir seu imperio. Ele
admite que para poder assumir o control da R~dio
Clube foram feitas "algumas manobras, determina-
das negociatas" (acabaria perdendo depois a radio
porque os adversaries recorreram a um artificio le-
gal e Getilio nio brecou a manobra: "No memento
em que uma esquecida norma legal foi acionada con-
tra o amigo do president, tornou-se claro que a
amizade ja nho era a mesma", constata, com sua
cinica 16gica, ou vice-versa). Assim, a cadela de jor-
nais "Oltima Hora" foi se formando pelo pais vincu-
iada tambem a interesses politicos. A UH pernam-
bucana, por exemplo, nasceu para sustentar a can-
didatura ao Senado do empreslrio Jos6 Ermirio de
Morals, donor do grupo Votorantim (hoje com os fi-
lhos, Antonio e Jos6). "O velho Ermirio deu-me o
dinheiro necess~rio para o langamento e, depois, co-
mo faltassem anijncios a direita pernambucana
fez o possivel para esmagar-me -, garantiu a sobre-
vivgncia do journal com novos empr~stimos", confes-
,sa Wainer.










Assis Chateaubriand, O "grande capitho" do jor-
nalismo brasileiro (titulo conferido por um de seus
Bulicos, David Nasser), passou quatro anos sem visi-
tar a redaCio de "O Jornal", lider de sua cadela.
Pagava mal a seus jornalistas e dizia odiar os em-
pregados. Nao se separava do rev6Iver, colocado em
cima da mesa, durante as madrugadas, enquanto
acompanhava a impressio do journal. Jd Samuel
Wainer instalou sua sala dentro da redagBo, coman-
dando o funcionamento do journal atrss de uma pare-
de de vidro (no famoso "aquirio", que se multiplica-
ria depois nas redagoes).
Esse era um dos principals tragos que diferen-
clavam W~ainer dos outros principles da imprensa.
Depois de confessar em seu livro participagao em
tantas negociatas, ele garante que havia outro dife-
renciador: "Sempre que algum neg6cio me benefi-
ciava, o dinheiro era integralmente aplicado na
Ultima Hora nunca quis nada para mim. Meus
colegas pensavam diferente : eles colocavam nos
proprios bolsos as verbas recebidas, jamais cogita-
ram de aplica-las nas empresas que dirigiam. Assim
enriqueceram muitos barges da imprensa brasileira.
Se diferenga houve, por6m, ela foi sutil. Com
umna sinceridade que nunca sera suficientemente
louvada, W~ainer conta como participou, no comeGo
de 1964, de uma opera6Bo "destinada a fazer entrar
no Brasil 450.000 dolares, a serem aplicados em ma-
nobras political". Foi buscar o dinheiro na Suiga e IA
deixou, em seu proprio nome, depositados 20 mil
dolares, gastando algumas centenas de ddlares a
mais em compras pessoais. "Eu poderia, sem pro-
blema algum, ter deixado 100.000 d6Iares em minha
conta tratava-se de um dinheiro clandestine, nin-
guem poderia fazer algo contra mim", exime-se. "Por
que nho fiz isso? Francamente, nho sei".
Esse dinheiro seria util quando Wainer asilou-se.
Um pouco antes, ele pedira um milhio de d61ares
a Jorge Serpa, um contumaz intermediador e lobbista
de todas as Rep~blicas recentes, mas s6 encontrou
100 d61ares depositados num banco suigo. Depois
de constrangedoras negociagbes", arrancou mais
90 mil d61ares de Serpa, a quem fez uma ameaga:
"se nio me fosse entregue um milhao de ddlares,
conforme me havia prometido, eu revelaria todos os
detalhes da transaCgo que ele comandara". Mas os
tempos la eram outros e Wainer teve que se conten-
tar com os 90 mil dolares. Ele tinha, na verdade, 140
mil d61ares clandestinos, mas, "sempre perdulsrio",
deixou 40 mil para serem aplicados em UH, que, em
1965, lhe daria o retorno mensal de quatro mil d6-
lares
A linguagem e os modos je nho eram os de um
jornalista aventureiro, mas os de um aventureiro no
jornalismo. No exilio europeu, Wainer produziria um
filme e, para tenter salva-lo do fracasso, confessa
ter subornado critics para escreverem favoravel-
mente. Nesse memento, ji era apenas mais um no
principado, sem qualquer distingio.
Esse assemelhamento comegara bem antes. E
no que deveria ser o reduto sagrado de "Oltima
Hora": a redagBo. Wainer conta que s6 readmitiu
Paulo Francis, colunista do journal, demitido porque
defendia o Grupo dos 11 de Leonel Brizola (ao qual
pertenceria, o que Francis nega), atendendo a um
pedido do banqueiro Jose Luiz Magalh~es Lins. "Pau-


lo, voc4 vai voltar, porque fago tudo que meu ban-
queiro mandar", relembrou Wainer, aparentemente
esquecido de outro trecho das mem6rias, quando
diz, com p~retensa superioridade, que "por trds de
cada journal de Chateaubriand havia um banqueiro".
Com uma filosofia tio cinica quanto as anterio-
res, W~iner costumava dizer aos jornalistas de UH
que nio teriam liberdade para escrever: liberda'de
era algo que s6 o donor do journal poderia ter. O que
eu Ihes assegurava era independancia". Tamb~m
usava o mesmo anti-profissionalismo: "Assinar uma
coluna na OIjtima Hora era possuir um espago nobre
na imprensa, o que me permitia eventualmente re-
crutar celebridades como colunistas sem pagar sa-
larios".
N~o chega a surpreender esse comportamento
num home que se submetia a censura com mais
toler~ncia do que seria possivel esperar de um jor-
nalista altivo. Quando ainda dinigla "Diretrizes
Samuel tirou da primeira pdgina a fotografia do pre-
sidente americano Franklin Roosevelt, desagradavel
ao chefe de gabinete do ministry da Guerra do Es-
tado Novo, que flertava com o nazi-fascismo. Acatou
a ordem seguinte da censura, que nio queria ums
foto isolada de Benjamin Constant na capa, obrigan-
do W~ainer a incluir tambem a foto de Deodoro da
Fonseca, mais afinado comn a ditadura. Submeteu-se
docilmente a outra exig~ncia: que Mauricio Goulart,
"nosso providencial capitalista, se afastasse da re-
vista. G~oulart, ligado g oposigho udenista, aceitou
a exig~ncia, "sempre elegante, e W~ainer ficou so-
zinho na empresa. Jg na fase de "Ojltima Hora", ele
aceitou publicar na primeira pagina o soneto patrio-
teiro de um aspirante do Exercito em resposta g
cangdo "Pra nho dizer que nho falei de flores", de
Geraldo Vandre, considerada ofensiva Bs Forgas Ar-
madas.
"A coragem fisica nunca foi um de meus atri-
butos",1 confessa W~ainer. ,Mas em 1964 ele se exce-
deu: asilou-se na embaixada do Chile mal os milita-
res comegaram a sublevaglio, a 31 de margo, "cons-
ciente de que, se por algum milagre o golpe malo-
grasse, eu nito poderia sair Bs ruas de cabega er-
guida efinai, nem mesmo esperara a queda do
governor para buscar asilo. Jango ainda era presi
dente e eu js era um asilado".
Apesar disso, Wainer diz que "lutava por uma
causa Seu amigo Jorge Amado, na apresenta~go
do livro, diz que ele era um patriota. Certamente foi
uma pessoa agradavel, simpatica e fiel aos amigos.
mas sua contribulpho important foi a sinceridade
que usou nas membrias. A dlescriGao realista da-
queles tempos popullstas serve para explicar o
apolo que os militares ganharam da populacio quan-
do se propuseram a combater a corrupg~o, o glac6
que recheava as relag6es entire a imprensa e o po-
der. Mas a narrative de Wainer tamb6m deixa bem
claro que, desde entlio, se alguma coisa mudou, foi
para pior. O que tambem tira o credito de seus cri-
ticos moralistas e do movimento military que insufla-
ram, as eternas vivandeiras dos quartbis.
Para o jornalista at~nito com tanto cinismo e
tiio pouca esperanga, fica uma certeza : journal que
negocia sua opiniho transforma-se em armaz~m de
secos & molhados. De boa apar~ncia, talvez, mas
sem substancia, um mero comercio de lantejoulas.


Em journal, opiniao nao se vende










Qualquer cidadlio pode ir a ag~ncia do Banco
Meridional na Cidade Velha, em Belem, e fazer de-
pdsitos na conta 01-4396-5, que o governor do Estado
abriu para receber contribuigoes destinadas a "obras
socilas do ParB". No entanto, os dep6sitos feitos
nessa conta tim quase sempre um valor constant,
sao efet~uados com regularidade e o autor das doa-
q~es niio aparece oficialmente.
Ele nito foi identificado nem mesmo quando o
governador He1io Gueiros, em solenidade realizada no
Pal~cio Lauro Sodr6, no dia 11, repassou 5,8 milhdes
de cruzados dessa conta a 17 institui66es filantr6pi-
cas ou de aGio social. No discurso que fez antes
de entregar os cheques entiree o mdximo de 800 mil
e o minimo de 100 mil cruzados cada um deles),
Gueiros disse que a conta existe "para receber do-
nativos de quem queira doar". Ressaltando que os
jornalistas presents jB haviam recebido c6pias do
extrato da conta, argumentou ser essa uma prova
de que o governor estava procurando ser "o mais
transparent possivel para a populaglio fi car infor-
mada e corrigir "os erros de distribuigiio que hou-
ver".
A transpar~ncia, por~m, continue limitada. A
conta, na verdade, 6 movimentada exclusivamente
pelos banqueiros do jogo do bicho. O donativo foi
a forma de alcangarem a legalizaqiko para a ativida-
de, que 6 uma contravenglio penal e deveria ser re-
primida pelo governor, se apenas as leis existentes
fossem cumpridas. Os 900 mil cruzados que slio re-
colhidos mensalmente b conta, administrada pelo
Ipassp, (o institute dos aposentados e pensionistas
do 1-stado, dirigido por uma amiga particular do go-
vernador), representariam, quando muito, 2% do que
o jogo movimenta em Belem. Persistem as verses
de que uma parte do dinheiro, coordenado ainda pe.
los metodos estabelecidos no governor anterior, tem
destinactio distinta das obras socials e volume
major -, drenando-se para agbes political ou bolsos
particulares .


Paternidade errada

O governador HBlio Gueiros teve uma desagra-
d~vel surpresa na sua terceira incurstio ao interior
do Estado desde que assumiu o cargo, hB quase um
ano (as outras duas visits foram a Tucurui). Guei-
ros comegava a entregar titulos de propriedade de
terras a lavradores, em Castanhal, no mis passado,
quando percebeu que o inv61ucro de pl~stico dos
documents alertava os benefici~rios que eles de-
viam aquela titula~gio unicamente ao ex-governador
e atual ministry da Reforma Agrsria, Jgder Barbalho.
A programa~gio previa a entrega de 27 titulos,
mas o governador deu apenas o primeiro titulo e
considerou entregues todos os demais, simbolica-
mente. As pessoas mals pr6ximas notaram a gran-
de irritagilo de Guelros, que havia assinado os do-
cumentos, expedidos pelo Iterpa, mas desconhecia
o detalhe dos plssticos com os dizeres creditando
os meritos da titulaglio ao seu antecessor. S6 perce-
beu o fato na hora em que leu a inscriglio, jB diante
do agricultor postado B sua frente para o recebimen-
to. Os demais tiveram que esperar at6 o Iterpa re-
tirar as capas pl~stica8.


Algumias das instituicies beneficiadas, que re-
ceberam por telegrama convite para comparecer no
dia anterior g solenidade no gabinete do governador,
desconheciam o que seria feito ou o que recebe-
riam. Mas nito era o caso, segundo fontes palacia-
nas, da Igreja Evangdlica Maanaim, que na semana
seguinte devolveu seu cheque, de 100 mil cruzados
(comunicando o fato g imprensa antes de efetu6-lo).
Segundo essas fontes, confirmadas pelo pr6prio go-
vernador, a Igreja foi a Bnica que tomou a iniciativa
de pedir a ajuda "e, evidentemente, sabendo de
onde vinha o dinheiro, porque vocas todos publica-
ram", lembrou Gueiros aos jornalistas, no final da
semana passada.
O governador, que tamb6m 6 evangdlico, embo-
ra de outra Igreja, a presbiteriana, contestou as ba-
ses filos6ticas e religiosas apresentadas pelo pastor
Jeronymo Filho para devolver dinheiro prqduzido em
jogo de azar, apresentando duas razies "menos fa-
risaicas": o baixo valor do dinheiro ou as diverg~n-
cias internal na seita, que fizeram uma ala aceitar
o dinheiro e outra forg~ar a rejeiglio. Afinal, no dia
da entrega o representante da Igreja Maanaim saiu
do palscio alegre, satisfeito e ciente das origens da
verba, como todos os demais. Mas como o governor
nito pratica a complete transpar~ncia que anuncia,
niio apenas permit o farisaismo, como estimula
aproveitamentos marginais e pessoais em torno de
uma atividade que est8 long da cristalinidade da
filantropia.



Olmnal PCSSOal
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O "bicho" do jogo