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Jornal pessoal
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 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00010

Full Text









__ ~


J~ma Pessoa
Liicio Flivio Pinto
Ano I P10 Circulaglio apenas entire assinantes 2" Quinzena de Janeiro de 1988


GARIMPO



Houve um genocidio?

Horrores, bizarrias e absurdos fazem parte do cotidiano
de Serra Pelada, que s6 espantam quando slio associados a fats
como o conflito do dia 19 de dezembro.
O garimpo e, um retrato em 3x4 da loucura amazinica.


trgs mil homes, o Exercito precisou de oito
meses para acabar comn a guerrilha montada
pelo Partido Comunista do Brasil no A~raguaia,
entire abril e dezembro de 1973, matando ao redor
de 60 guerrilheiros. Atd hoje, 6 o fato mais traumi-
tico na hist6ria da regido, embora seus moradores
mais sofram as consequgncias desse acontecimento
do que dele tenham tornado parte ou conscigncia.
Por causa da sonegagio de informagies ou das in-
terpretagies exageradas, de ambas as parties envol-
vidas no confront, a guerrilha do Araguaia perma-
nece sendo um fato politico que ainda nho se conso-
lidou como event hist6rico. A fantasmagoria ou a
legend criadas em torno dela the dio a vida que
ela, intrinsecamente, nho tem, ou a vitalidade que
nunca alcangou.
Mais difuso ainda, apesar de tiio recent, um
outro epis6dio estaria fadado a superar em Impor-
tincia a pr6pria guerrilha e outros acontecimentos
mais recuados na histbria. tfo conflito em torno da
ponte rodoferrovibria sobre o rio Tocantins, iniciado
com sua ocupagio pelos garimpeiros de Serra Pe-
lada, na madrugada de 28 de dezembro, e culminan-
do com a aG~o da Policia Militar, que desobstruiu o
local 30 horas depois.
Como em relagio a guerrilha, a reconstituiqgo
dos fats val sendo atropelada pelas interpretaq~es
e manipulaq6es feitas pelos que participaram do
event ou nele t~m interesses. Sem os fats, que
s6 uma sociedade amadurecida poderia arrancar
imediatamente ap6s o traumatismo, n~o espanta que
falte ainda esclarecer tantas questbes elementares,
como o nlimero de vitimas, e sobrem tantas declara-
C~es grandil~oquientes. Reglio pioneira, onde os di
reitos modernos do cidadio ainda niio foram entro-
nizados (apesar dos dois s6culos que a Revolucho
Francesa completard no prbximo ano), nho tem di-


reito a hist6ria. f condenada a repeti-la monotona
e desesperadamente.
Reagees antaganicas O coordenador do Nli-
cleo de Estudos sobre a Violgncia da Universidade
de Sho Paulo, apesar de distanciado mais de dois
mil quil6metros do local, nho titubeou em classifi-
car a aG~o da Policia Militar do Parg de "um geno-
cidio". Segundo Paulo SBrgio Pinheiro, a repressio
da PM foi ainda pior do que o massacre de Canu-






dos : os adeptos de Antonio Conselheiro, que so
rebelaram na Bahia contra o governor central, "pelo
menos tinham armas para se defender", comparou
o professor, que tem posigGes de esquerda.
O deputado estadual Jos6 Scarpelini, do PMDB
do Parandr, que viu a prefeitura de Apucarana (onde
tem sua base) ser ocupada por um capitho do Ex~r-
cito revoltado com seus baixos vencimentos, pediu
logo a intervengho federal no Pars, proposta que
nem foi considerada em Brasilia. JSI a Anistia Inter-
nacional cobrou do Conselho Nacional pela Defesa
dos Direitos da Pessoa Humana uma investigation
do epis6dio. O president do Conselho, ministry
Paulo Brossard, que alimenta uma inusitada aversio
a Anistia, entidade respeitada no mundo inteiro, nho
atendeu o pedido. Brossard, que tanta pressio fez
junto ao governor estadual para a desobstruglio da
ponte, colocou Uma pedra sobre os acontecimentos.
O governador Hblio Gueiros tambem nito cum-
priu a promessa de mandar instaurar inqudrito sobre
a a68o da PM e designer um promoter especial pars
acompanh8-lo, provid~ncia rotineira em paises se-
melhantes ao Brasil. O comandante da Policia Mili-
tar, coronel Ailton Guimaries, observou que o in-
qubrito nso seria necess~rio porque a PM agiu den-
tro dos padress de t~cnica policial" e as baixas
foram "despreziveis" despreziveis para o coronel,
naturalmente, que nio teve o dissabor de ver um s6
de seus homes arranhado, ou nao foi abalado por
parents feridos, mnortos ou desaparec~idos.


da PM parece considerar pontos pacificos es-

H enhuma das duas quest~es que o comandante
so haja duas vitimas fatais oficialmente reco-
nhecidas, nio 6 fantasia pensar no dobro desse nlj-
mero ou chegar a nove mortos, como acredita uma
credenciada testemunha ocular do cheque entire a
PM e os garimpeiros, o coordenador da Defesa Civil
de ~MarabB, Wilson Faval de M'elo.

Apesar de evidenciar falhas, o depoimento de
Wilson ajuda bastante a iluminar o que houve sobre
a ponte. Ele desautoriza todas as verses que, ba-
seadas em estimativas variando de 26 a 133 mortos,
classificaram o epis6dio de genocidio. Tamb~m nega
o entendimento do comandante da PM, de que a
tropa agiu absolutamente dentro dos padress de
t6cnica policial". N~o hB diivida de que a PM se
excedeu. Hg fundadas suspeig6es de que o excess
niio se deu por provocaptio ou no calor de um cho-
que, que, a rigor, nio houve, ou nito ocorreu nas pro-
porq6es que justificassem uma reaglio selvagem a
descontrolada.
O jogo de informaG~es Wilson logo desmen-
to uma informaglio transmitida pela Policia Federal
e que! certamente influiu no animo do governador
para dar a ordem dr~stica que deu e na disposigio
da tropa para cumpri-la. Mementos antes do inicio
da operaClio de desobstrugho da ponte, o delegado


da PF de MarabB informou atraves de telex, repas-
sado ao governor do Estado pela coordenadoria regio
nal do Pars, em Belem, que os garimpeiros, "ao to-
marem conhecimento da chegada g cidade de Mara-
bB do pelotao de cheque da Policia Militar e da
possivel chegada de outro pelotso de cheque, deci-
diramn, em caso de repressio da PM, atearem fogo
em todos os veiculos que se encontram sobre a re-
ferida ponte e ainda manterem como refem o dr. Nel-
son Marabuto, que preside as negociaG~es em Serra
Pelada emn nome do ministry do Interior".
JB o coordenador da Defesa Civil em Marabb
testemunha, depois de vistoriar a ponte, ter perce-
bido "claramente que os garimpeiros que ocupavam
a ponte nho estavam com a inteng~o de com~eter
atos violentos e que estavam somente desorienta-
dos por falta de informa66es dos prbprios dirigen-
tes".

WNilson, como outras testemunhas, insisted sobre
essa desorientagao: agrupados emn Serra Pelada, os
garimpeiros foram colocados em caminhbes, pagos
por fornecedores de barrancos, e levados para ocu-
par a ponte sem receber instrug~es ou apoio logis-
tico, sem um trabalho que pudesse captar a simpa-
tia da populaCio de .MarabB (que ignorou o movimen-
to ate ocorrerem as escaramugas) ou atenuar a re-
volta dos motorists prejudicados pelo bloquelo.
Agiram como tipicas "buchas de canhao em torno
de questies (discutidas, no predio da Prefeitura, por
pessoas que, em v~rios casos, nemn foram g ponte)
que n~o lhes diziam respeito diretamente.
A preparaqio de um ato de protest comegou
no inicio de dezembro, estimulada pelos fornecedo-
res de Serra Pelada. A eclosito deveria ocorrer a 5
de janeiro e a Policia Federal acompanhava as arti-
cula~ges, segundo um mntegrante da diretoria da
cooperative, que conversou a respeito com um agen-
to da PF. Mas essas informagaes nio foram repas-
sadas ao governor estadual, nem B dire6Bo national
da PF. Ao contrsrio, hB razbes para crer que o ato
for antecipado emn fungho dos boatos, cuja origem
est8 associada & PF Iocal, de que os agents fede-
rais sairiam de Serra Pelada, sendo substituidos por
policiais paraenses. A conturbada prisio do delega-
do da Policia Civil, fdson Ferreira, expulso pelos
federal sob a acusag~io de corrupplio e mandado de
volta a MarabB, onde acabou solto, foi mais um elo
na composiglio dos fats.
Troca de acusaG6es O delegado da PF, Paulo
Duarte, disse que era inevit~vel a prisilo do outro
delegado porque ele fora flagrado extorquindo garim-
peiros, fazendo chantagens, cobrando para liberal
bebida, que e proibida nos cabarbs, e tendo barran-
co na cava. J'S I'dson Ferreira reagiu acusando Duar-
te de querer o control de Serra Pelada para tomar
ouro dos garimpeiros. A acusagio foi repetida pelos
dons de barrancos que prestaram depoimento pe-
rante a Comissito de Defesa dos Direitos Humanos
da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil, Secclio
do ParB), no dia 18, em Bel~m. Manoel da Graga de






Souza, em Serra Pelada desde o inicio, foi seguidas
vezes preso pela PF, a quem responsabiliza pelos
rpoblemas no garimpo. Muitas das irregularidades
listadas em 16 itens, num document entregue a
Comissio, seriam de responsabilidade da PF.


N li 6 de estranhar qlue surjam essas denun-
cias, como vdrias outras apresentadas por
grupos de politicos que visitaram Serra Pela-
da depois dos incidents. A Policia Federal
tornou-se uma prefeitura informal de Serra Pelada.
resolvendo todos os problems (ou ao menos se
credenciando a resolvg-los) e concentrando o poder,
principalmente depois de afastar a concorrancia da
policia civil.
Tratando-se de um centro de produglio qlue,
mesmo na 6poca atual de vacas magras, ainda rende
mensalmente entire 130 e 150 milhges de cruzados,
justifica-se o tascinio. Mais do que a decadente re-
ceita official, no entanto, Serra Pelada atral porque
todos sabem qlue grande parte da produgho de ouro
segue caminhos sem control official, varios dos
quals aesembocam no trdfico de drogas, o ouro ser-
vindo como moeda "limpa", qlue nito deixa rastros.
Segundo as estimativas oficiais, das 120 toneladas
de ouro que o pais deve ter produzido no ano passa-
do, somente 25 toneladas foram comercializadas le-
galmente pela rede de compradores credenciados,
formada por tris mil pessoas ou empresas.
Em Serra Pelada o contrabando se acentuou ain-
dia mais por causa da percentage destinada a coo.
perativa. Essa parcela comegou em 3% em 1984,
mas jdi atingiu 7%, sete vezes o valor do imposto
(o ItJMI aue o Estado. o Municiolo e a Unitio dividem
entre si. Mas somente 2% da receita esta ficando
realmente com a Coogar porque 1% destina-se a
amortizar a divida com a Construtora Brasil, execu-
tora cio uiltimo rebaixamento na cava (um buraco qlue
jB passou de 100 metros de profundidade), e o res-
tante foi vinculado judicialmente a outros debitos. A
receita dessa porcentagem B de 350 mil cruzados ao
dia, um belo faturamento ainda qlue, na forma atual
de partilha, nlio d6 para viabilizar a administragiio do
garimp~o.
Sabendo que boa parte do dinheiro nho retorna
em investimento na cava e redondezas, os garimpei-
ros desviam grande parte do ouro que produzem. Ai
entram em a~gio os viirios "lobbies" que se forma-
ram em Serra Pelada e fora dela, numa promiscuida-
de qlue dificulta enormemente o trabalho de apura-
glio por aqueles que desconhecem os hastidores do
garimpo e sua estrutura de poder. Evidentemente,
papel fundamental desempenha o agent policial,
pelo que faz ou sobretudo pelo que deixa de
fazer.

A hora do revide Depois de seguidas acursa-
96es feitas contra elas, as policies estaduais acaba-
ram espulsas pelo despreparo de seus homes (se
njio por outros motives, porque nio conseguem re-
sistir g seduplio do dinheiro qlue escorre invisivel-


mente pelo garimpo) e pela complexidade do jogo
de poder, que exige mais sutileza do que s~lo capazes
de ter. O lance derradeiro ocorreu em outubro de
1986, quando o soldado Jorge Oliveira matou o "for-
miga" Jodo Borges, num epis6dio controvertide. Os
prbprios gorimpeiros prenderam o PM c o entrega-
ram B policia civil, que se recusou a autu8-lo. Revol-
tados, mas tambem estimulados a isso, os garimpei-
ros destruiram os pr~dios da delegacia e do quartel~
literalmente pondo para correr os policiais.

Na pr6pria ocasiho a Policia Militar ensaiou c
revide, mobilizando 200 homes para invadir o ga-
rimpo, mas por Brasilia a iniciativa foi sustada.
Quando o governador Hdlio Gueiros autorizou a PM
a desobstruir a ponte, "de qualquer maneira", virios
dos militares que nho haviam esquecido o passado,
para eles humilhante, acharam que chegara a hora
de ajustar as contas, indo aidm do que exigia uma
operagilo como aquela.


Tuma, diretor-geral d-o DPF, o delegado Wilson
Alfredo Perp~tuo, enviado especial a Serra
Pelada, disse que a ordem de fogo para a tropa
na ponte partiu de um tenente. Se isso for verdade,
trata-se de uma circunstancia completamente anij-
mala, tratAndo-se de operaqio encabegada por um
tenente-coronel, que acumula o comando do 40 Ba-
talhlio da PM, em MarabB, com o cargo de delegado
geral de policia do sul do Pard. Em vsrios dos con-
fhitos socials ocorridos na regilio ficou mais do que
demonstrada a falta de condigdes de oficiais inferio-
res, como um tenente, para enfrentar situag8es the
explosives como essas, sem provocar violencias.
Niio apenas esse detalhe 6 grave: o governador
H41io Gueiros exp~s-se ao erro quando manteve um
finico canal de voz entire Belem e MarabB, exclusiva-
mente atraves cle oficiais da PM. Em Belem, o chefe
da Casa Militar, major Flaviano Gomes. Em MarabB,
o tenente-coronel Reinaldo Chaves. Faltou uma voz
civil autorizada, com prerrogativas de comando,
para uma agiio menos contaminada de passionalida-
de, emogio e vicios corporativos.
No seu relat6rio, o delegado Wilson Perpbtuo
assegura como "praticamente certo que as tropas
de Marabli dispararam sobre os garimpeiros, en-
quanto a tropa de cheque (aero-transportada de Be-
lem) niio fez uso de armas de fogo, embora estives-
se armada com rev6Iveres Esse detalhe comprova-
ria que a PM estava se vingando da "desonra" de 14
meses antes.
Ainda que o governador Helio Gueiros lance
suspeiglio sobre o relat6rio do enviado da Policia
Federal, produzido sob evidence unilateralismo e
cujo tom emotional contrast com o padrio da PF
em outras ocasi~es semelhantes, nito pode ignorer
os testemunhos sem uma verificadio independent,
que s6 o inqubrito com promoter especial possibi-
lita.






As chaves do segredo A forma de execugio
da oper~agio pela PM precisa ser reconstituida. A
principal acusagilo feita contra ela a esse respeito
6 a de que cercou as duas extremidades da ponte,
de 2.300 metros, e investiu atirando contra os ga
rimpeiros. Nio hB converggncia nos testemunhos,
mas parece acima de qualquer questionamento que
os manifestantes, ao contrsrio de mementos anterio-
res (como em 1984, na tentative de invas~io da Serra
de Carajds), nlio apresentavam maior agressividade.
Os jornais se referiram a tris mil ou at6 cinco mil
garimpeiros, mas a estimativa do coordenador da
Defesa Civil entiree mil e 1.500) parece muito mais
pr6xima da realidade. Evidentemente, nito se trata-
va de um movimento completamente pacifico, mas a
aglio dos garimpeiros esteve sempre aquem da vio-
18ncia utilizada pela PM.


O subcomandante do 49 Batalhilo de Infantaria,
major Iran Gongalves, sustentou que a tropa ocupou
apenas uma das extremidades da ponte, nito arman-
do, assim, uma embosc~ada. Segundo o tenente-co-
ronel Reinaldo, a principio os soldados atiraram
bombas de gas e fizeram disparos com balas de
festim. S6 usaram balas verdadeiras depois de agre-
didos a tiros ou pedradas. Ai o esquema icicial, que
permitia a fuga dos garimpeiros por um corredor la-
teral deixado na ponte pela tropa, desfez-se e o tu
multo generalizou-se.


O pr6prio comandante geral da PM, coronel Aill
ton Guimarties, admitiu que esperava multo mais
mortes tanto do lado dos garimpeiros como dos
soldados. Esse estado de animo fora criado pelas
informagies (ou contra-informaq6es) originadas da
Polic a Federal (dai o ministry Brossard ter sid o a
mais constant nos telefonemas ao governador, pe-
clindo provid~ncias) e pelos antecedentes nas rela
95es entire a policia e os garimpeiros, circunstlincias
complicadas que nem os soldados, nem os -"formi-
gas", colocados em confront sobre a ponte, esta-
vam em condigaes de perceber. Niio 6 sem prop6sito
que agora se fale em massa de manobra e armadi-
lha. .


Por eliminar todos os agravantes do epis6dio,
a versfic da PM 6 pura demais para ser aceita. Que
houve estimulo a uma tentative de reaglio por parte
clos garimpeiros e que alguns atiraram pedras contra
os policiais, parece fora de d~vida. Mas tamb~m 6
mndubittivel que os policials continuaram atirando,
batenido e perseguindo mesmo quando os opositores
s6 estavam interessados em escapar, que seria 0 ob-
jetivo da mission se no seu cumprimento nito houves-
sem as demais components que nada tim a ver com
a "t~cnica policial". Niio B por mera coincid~ncia que
a maior pate dos feridos tenha sido atingida pelas
costas.


zenas de pessoas tenham se atirado da ponte
sobre o rio Tocantins, 74 metros abaixo, comn
meio metro de I~mina d'ggua em multos tre-
chos porque apenas estd comegando a encher, ou que
multos caddiveres foram recolhidos e enterrados
clandestinamente pelos policiais. A operaqio em si
niio dem-orou mais do que 15 minutes. Mesmo com a
denunciada selvageria de parte da tropa, niio haveria
condi~ges para ocultar caddiveres nas proporgies qlue
alguns jornais chegaram a noticiar. Apesar da incri-
vel carincia de testemunhos independents, a PM pre-
cisaria de toda uma logistica para praticar o que seria
um dos mais b~rbaros e repulsivos crimes da hist6ria
brasileira. AtB nas guerras os inimigos reconhecem
entire si o direito de enterrar os mortos.

Versiio insatisfatiiria No entanto, a sociedade
esta multo distant da tranqiiilidade com a qual a
PM reconstitui os atos. Wilson de Melo diz em seu
relat6rio ter visto quatro corpos e admite at6 nove
vitimas fatais. Seu relate dii uma id6ia do alvoropo
que se seguiu ao memento em que a PM diz ter sido
atacada, por pedra ou bala: "Vimos cair uma mulher
de estatura baixa com roupas brancas. Tivemos a
intenglio de correr para ajuds-la. Estava ela flerida
e vimos quando era suspense e jogada por cima da
cerca de seguranca da ponte. Um rapaz que minu-
tos antes comia sentado na cerca tamb6m calu, e
tudo se tornou uma loucura".

Depoimentos dessa envergadura slio suficien-
tes para justificar a reserve da opinitio p~blica dian-
te da verstio official, mas nito chegam a autorizar a
leviandade de certos jornais e da pr6pria PF na re-
constituiglio dos acontecimentos. A verdade esta
mais pr6xima, quanto ao nomero de vitimas, da po-
siglio official, mesmo que niio coincide com ela, mas
se distancia dela quando se trata de apurar respon-
sabilidades por violincias totalmente injustificadas.
Mas esta tarefa elementary, a Oinica capaz de report
a question no grau minimo de dec~ncia que se espe-
ra de uma sociedade civilizada, parece nlio interes-
sar mais As autoridades-

O future: manipulado ? Em mais um "vaza-
mento" g imprensa, aparentemente volunt~rio, como
a generosa s6rie de outros "vazamentos" de infor-
magbes, Brasilia fez saber que niio pretend renovar
a licenga para o funcionamento do garimpo em Serra
Pelada. A noticia foi desmenticia viirios dias depois,
mas ficou a ameaca de que a partir de jan~eiro do
prdximo ano a lavra de ouro teria que se tornar me-
canizada, com o afastamento dos garimpeiros. Era
justamente o contrdirio do que eles pretendiam quan-
do ocuparam a ponte.
A readio de Jos6 Altino Machado, president da
Unillo dos Sindicatos e AssociaCBes de Garimpeiros
da Amaz~nia Legal (Usagal), foi desconcertante. Nor-
malmente um enfurecido lider dos garimpetros (fol
quem comandou a invasiio da reserve dos indios






Yanomami, em Roraime), pareceu admitir o fimn de
Serra Pelada, discordando apenas do m~todo adota.
do para araunciar a decisio. "Cometeu-se uma mons
truosidade ao anunciar com tamanha antecipacio a
desmobilizagho dos barrancos", declarou, aparente-
mente defensor de uma evacuaqio de surpresa e ra-
pida, como a que o governor fez em Rondinia. em
1971, acabando com a garimpagem de cassiterita e
entregando as jazidas a empresas, sem dar tempo
para os garimpeiros organizarem uma reacio.
Jos6 Altino tamb6m ds a impressio de acreditar
na possibilidade de conciliar a exploraqio mecaniza-
da do ouro com a extraglio manual ou semi-mecani-
zada dos garimpeiros. E a posigio de muita gente
que, em Serra Pelada, brada a plenos pulmies pela
manutengdo do garimpo, mas da boca para fora. Es-
ses nho estlio convencidos da viabilidade de manter
a atual forma de extraqio de ouro, ou estlio certos
justamente do contrario, mas querem sustentar ao
m~ximo o garimpo para forgar o governor a investor
n~a area. G a tatica principalmerite dos fornecedores
e dons de barranco que estao no "vermelho'.
Altino tem razao num ponto: ainda 6 cedo parer
antecipar com seguranga como sera a reacao de
Serra Pelada a essa decisiio. Centenas ou milhares
de homes estAo ail dispostos a morrer porque acre-
ditam sinceramente que em nenhum outro local terho
a mesma remuneraCho para sua atividade. Ao obser-
vador externo, pode parecer inacreditavel essa sen-
saptio: final, o trabalho em Serra Pelada s6 nho 6
a mesmo dos escravos da Antiguidade porque existe
o sistema de "aviamento", velho conhecido da Ama-
zinia extrativista, para criar ilus~es. Os indicadores
socials sobre prostituigiio, doengas transmissi-
vels, tuberculose, les~es causadas por merc~rio,
criminalidade e outros itens das relagaes marginais
-- sho verdadeiramente espantosos.
Mas atrds da motivaglio de milhares de homnens
esta uma situaglio social em suas areas de origem,
sobretudo o Maranhilo e o Piaui, tiio ou at6 mais ini
qua, porque nem a iluslio permit. Basta viajar na
ferrovia de Caraj~s (custo: 1,5 bilhilo de d61ares),
feita para escoar minbrio, e ter acesso a uma escan
dalosa introduGho a misdria absolute que imobiliza
grande parte do Estado natal do primeiro president
da Repdblica que o Maranhilo fez em um seculo.
M~iseria que talvez estara agravada quando o pr6xi-
mo maranhense subir ao trono republican, se isto
vier a ocorrer no mesmo intervalo que a hist6ria im-
p~s ao primeiro.

lativas que s6 um paciente e arguto trabalho

G ravitam em torno do garimpo espirais especu-
estadual (PMIDB) Haroldo Bezerra, eleito por
MarabB, por exemplo, foi garimpeiro durante um ano.
Jane Rezende era lider dos garimpeiros quando em
Serra Pelada mulher nito entrava, o que niio a impe-
diu de controlar barrancos-
Nada haveria de ruim, muito pelo contrario, em


pequenos investidores serem dons de barrancos.
Seria uma das poucas alternatives para eles num
capitalism cada vez mais concentrado. Porem a
renda obtida em Serra Pelada, gragas aos subsidies
oficiais c h tolerancia com o submundo que ali se
mrantem gragas a indiferenga governmental, acaba
descendo pelo mesmo funil, deixando a margem a
:egiho de homes atraidos para o local pelos sonhos
de riqueza que se desfazem qaundo eles retornam,
embrutecidos e acabados, da "corrida ao ouro". Essa
corrida 6 multo mais veloz do que eles sho capazes
de acompanhar ou mesmo perceber. Serra Pelada
ajuda a manter essas didsporas e reproduz, tangen
cialmente, mas com um elevado grau de concentra-
glio, as distorgaes de uma estrutura para a qual se-
ria suceddineo ou alternative.

Sucesslio de engodos Ainda assim, milhares
de homes sentem-se ludibriados pela aFgo publica.
Detentora desde 1974 dos direitos minerdrios numa
area de 10 mil hectares, a Companhia Vale do Rio
Doce passou por sobre Serra Pelada atris de mine-
rio de ferro e mangan~s. Os garimpeiros 6 que des-
cobriram o ouro, em janeiro de 1980. A Vale so
comunicou a descoberta ao DNP,M quatro meses de-
pois. Atd pedir a conversio do decreto para ouro,
atuou inusitadamente como compradora, atra-
ves da subsidifiria de pesquisa, a Docegeo, de uma
produgio que nho era a sua. Foi forgada a isso pela
"comunidade de informag6es", que se utilizava e era
usada pelo tenente-coronel Sebastilio Rodrigues de
Moura, o primeiro agent do SNI inoculado no parla-
mento, promiscuidade institutional e legal que cons-
titui uma das razies da fragilidade com que este
pais foi e vem sendo organizado.
A CVRD foi indenizada no equivalent a 50 mi-
ihdes de d61ares (metade do valor do ouro extraido
de Serra Pelada) para que os garimpeiros pudessem
continuar trabalhando no local por cinco anos. Se o
governo nio autorizar-lbes a permanancia depois de
diezembro ou nito surgir mais uma lei oportunista no
Congress, qual sere a situa~gio de Serra Pelada com
a mecanizaglio? Simplesmente readquirirlio sua ple-
n~itude os direitos de lavra da CVRD, ou comeg~ar8
(prosseguird ?) uma intrincada teia de negociaq~es
para definir quem sera o novo donor de pelo menos
10 toneladas de ouro contidas no morro de rejeitos
a ceu aberto ou do que ainda houver abaixo do fundo
da cava. Niio falt~arlio lances emocionantes ou esca-
brosos como os do capitulo atual, teoricamente ain-
da em cursor.

Faga o que fizer, Serra Pelada jB nito consegue
espantar a sensibilidade de uma Naqiio lettirgica, em-
brutecida ou ressonante. Serdi que ali algudm diz a
verdade, ou estli interessado nesse produto, consi-
clerado ocioso, alem de incbmodo ? H6 um jogo de
faz-de-conta praticado como se fosse a s~rio. Em
pleno inverno, de chuvas pesadas, o governor gasta
72,5 milhies de cruzados para rebaixar 250 mil me-
tros cijbicos de terra, quando o necesssrio seriam
oito milhdes de metros clibicos, ao custo de 10 a 15






milh~es de d61ares. Rebaixamentos do faz-de-conta
abundaram em Serra Pelada. No uiltimo, concluido
em agosto de 1986, a Construtora Brasil retirou 400
mil m3 dos 900 mil programados. Mas credenciou-
se a uma porcentagem de 1%o sobre a produgho qlue
seria eterna se os homes nio fossem transit6rios.
As raizes das empreiteiras em Serra Pelada she mais
funds e mais extensas do qlue pode calcular a vi
filosofia .


Iendo o governor dado a partida a novo capitu-
lo dessa novela, 6 prov6vel que dentro de pou-
co tempo os gritos, protests ou declaraq6es
de bons prop6sitos se tenham esgotado nos
estreitos limits de sua pr6pria ret6rica. Todos vi-
radio displicentemente a pbrgina, gloriosa ou sangren-
ta, conforme a interpretaglio, qlue na "fronteira" dis-
pensa altivamente os fats. No meio do ardoroso
combat verbal com a policia estadual, o delegado
cla Policia Federal, Paulo Duarte (estrategicamente
removido para Brasilia no inicio da semana), revela-
va qlue mil pessoas js haviam morrido em oito anos
de Serra Pelada, sendo 400 soterradas ou mortas
em acidentes de trabalho e 600 em homicidios di-

BEL


verses.
Oficialment~e, conhece-se 31 mortos em desaba-
mentos de barrancos, acrescidos de um, o primeiro
de 1988, no dia sete. Que um delegado da Policia
Federal afirme terem havido 400 mortes em traba-
lho ja seria motive para escindalo, pois provavel-
mente em nenhuma outra unidade de produio (que,
no final das contas, o garimpo 6) houve tantas bai-
xas. Mil mortes, num mesmo local, em oito anos, 6,
por todos os titulos, um autgntico genocidio. Mas
ningu~m se escandalizou. E o pr6prio delegado pa-
rece nlio ter percebido que foi c~olocado na funglio
para impedir que tais crimes ocorram, ou punir os
que o praticaram, ao inv6s de simplesmente ficar
revelando que eles existem.
Em escala desfigurada, por seu grau de concen-
tracio, Serra Pelada B apenas um retrato da bizarria
e da loucura em que foi transformada a "conquista
da liltima grande fronteira do planeta, a que, jB sem
saber exatamente o que isso significa, deu-se o no-
me de Amazinia, remota refer~ncia do que, aigum
dia, no passado perdido, se imaginou ser a sucursal
do paraiso e vai se transformando no Qltimo circulo
do inferno.

EM


Por opgho, sou duas vezes belemense. Aos cin-
co anos de idade, quando meu pai, deputado estadual
recem-eleito por Santarem, trouxe a familiar para a
capital do Estado. Vinte anos depois, ao retomar o
pleno domicilio em Bel~m, depois de peregrinagies
poel Rio de Janeiro e Sho Paulo. Estou aqui porque
amo a cidade e, al6m disso, sei que B important
essa posigio para quem quer ver e participar dessa
paixio amazanica, em seu duplo sentido. Belem 6
a porta de said e de entrada na regiho e isso
n6o deveria ser uma mera constatagiio geogrsfica.

Aqui monte uma trincheira jornalistica voltada
contra o poder estabelecido, a maior contribuigio
que podemos dar ao nosso p~blico chg sociedade em
geral. Ninguem, como a imprensa, quando impren-
sa de verdade e no bom sentido, pode evitar a hiper-
trofia, tend~ncia quase natural entire n6s, tal a cen-
tralizaCio de poder, que faz do chefe do Executivo
rei eleito pelo voto. Da monarquia informal g tira-
nia real, personalissima, basta um pass, em Brasi-
lia ou em suas satrapias. Tem havido poucas pedras
no meio desse caminho.

Num memento em que fazer este journal exige


multo mais do que profissionalismo, foi com alegria
aue recebi a noticia de que um conselho municipal,
presidido pelo prefeito, me conferira a medalha Cal-
deira Castelo Branco, comemorativa do anivers~rio
de Belem. Nio 6 propriamente medalhas que tenho
recebido do "outro lado". O gesto, portanto, 6 raro.
Aceith-lo significaria recompor um pouco de forga
para continuar a enfrentar um monstro que tem rea-
gido mais com seducio (quando nio com violgncia)
do que com respeito a uma instlincia civil indepen-
dente e oposta por principio, que 6 o que a imprensa
deveria representar. Prefere tentar engoli-la a en-
trent8-la na arena e segundo regras que somente a
sociedade poderia sancionar.
lillas nho foi possivel aceitar a medalha como o
ato de reconhecimento ao trabalho de um jornalista
que tem colocado seu engenho & arte a favor da
cidade. Rejeitei a homenagem porque ela, embora
fizesse justiCa a 21 outras pessoas de alguma ma-
neira ligadas positivamente a Bel~m, tinha tambem
um significado politico que consider negative. Pre-
miava o empres~rio predador e engrossava o cordlio
dos que tentam ressuscitar uma legend political
morta para usi-la como biombo para interesses pes-


Os mortos e os vivos

Belem 4 uma cidade anestesiada. N~o percebe o seu
drama. Por isso, nho hB motive algum para comemoracdes. Mas
as que sho organizadas t~m objetivos pessoals,
que e necessario denunciar,






soais vivissimos, mas que desserviram e desservi-
rio ainda mais, hoje c~omo farsa, a cidade e ao Es-
tado.

O empresinrio predador E bom para Belem
que se consolide uma nova empresa distribuidora
de g~s Iiquefeito de petr61eo, o popular (no uso, ja
que no prego a coisa se modifica) g~s de cozinha.
Nada e mais odioso, sob o capitalism, do que o
monopo~lio, principalmente porque ele gera os anti
corpos que anulam seu antibi6tico social, a aGio
mediadora e reguladora do Estado. Sob a Paragas,
o Para viva sujeito a um monopblio que apenas co-
mnega a ser desfeito com o surgimento da Tropigas.
Todos esperamos que o novo concorrente tenha
vindo para ticar. Um jornalista, porem, nao pode
ignorar que a origem do empreendimento nao esca-
pou ao circulo vicioso dos stores monopolizados,
nos quais o Estado 8 quase uma extensio do mono-
polio ou do cartel, agindo por trifico de influencla e
nao pelo referencial de interesses da sociedade.
Originalmente, o projeto estava nas miios de amigos
do governador J~der Barbalho e do entso president
do Conselho Nacional do Petr61eo, general Oziel Al-
meida.

fambem niio se pode ignorar as tentativas de
composiglio que, frustradas, n~io deixaram outra
opgio sentio aceitar a competiglio. Muito menos
pode esquecer que o donor do neg6cio reage a criti-
cas ou informaG~es desfavoriveis batendo no bolso,
onde presume que guard o segredo da bonra alheia.
O chefe nazista Goebbels reagia B cultural puxando
seu 38. Hg avangos, sem d~ivida, nesse tipo de into-
lerlincia, mas nho no campo moral e 6tico, que, infe-
lizmente (para os padres usuais nesses circulos),
e o que mais me sensibiliza.
O sr. Jair Bernardino 6 um empres~rio bem su-
cedido, mas o que ele fez por Belem que niio coinci-
disse com os interesses especificos de seus neg6-
cios e de seu lucro ? O que ele fez de abnegado,
de desinteressado, destinado apenas ao bem coleti-
vo ? As vesperas de ser um dos medalhados, ele
vinha praticando uma das mais frontals agressbes
ao c6digo que regulla as edificacqges na cidade, levan-
tando um predio sem a licenga competent e fazen-
do uma obra em torno da qual pairam mais do que
fortes suspeiq~es de que causard problems ao tr8-
fego aereo. Este journal acompanhou a querela e mos-
trou que uma composiCtio em andamento niio aten-
deria o bem da cidade, mas conveni~ncias political.
O interesse pelo morto Outro tipo de conve-
ni~ncia est8 por trds da lembranga, p6s-morte, do
general Magalhlies Barata. Vendo-o de uma perspec-
tiva mais larga, trbs d~cadas depois de sua morte,
chegaremos a conclusito de que ele inegavelmente
era a melhor coisa do "baratismo a adaptaptio cau-
dilhesca, ao ParB, do PSD national. Tinha carisma.
acreditava no que pregava e fora honest. No pri-
meiro period, quando ainda nito estava completa-
mente formada a "entourage" que o cercou, repre-


sentava um avango na vida paraense. Foi o primeiro
governador a abrir estradas, ouvir o povo do interior,
a~largar um pouco as comprimidas margens de parti-
cipagilo popular. Depois, suas virtudes serviram de
instrument para o assalto ao poder e ele prbprio
niio conseguiu mais furar a s61ida parede de bajula-
clio que o distanciou cada vez mais do povo e de sua
histbria .

Com um romance, "Rio de Raivas", Haroldo
M~aranhilo, neto do major inimigo, deu a Barata um
enterro muito mais digno do que os laudat6rios elo-
glos finebres dos correligionsrios ou a omiss~io
constrangida dos adverssrios. Mas Barata este mor-
to e, jdr agora, bem enterrado. Niio hd "baratismo"
sem ele porque o "baratismo" 4 um vicuo politico,
ideol6gico, de id6ias. Exceto por um ou outro caso,
nao e precise chamar de "baratismo" o que nilo pas-
sa de botim, saque, usufruto pessoal e outras ex-
pressies que se quiser usar para definir fisiologis-
mo. No Pard dos nossos dias, "baratismo" nito e
apenas anacronismo: represent uma deslealdade
para com o Estado, tiio carente de solidez para rea-
gir As agress~es externas que vem sofrendo.
E absolutamente artificial o empenho de velhos
e novos politicos, unidos, acima da barreira crono-
16gica, pelo mesmo appetite de d6cadas atrss, na res-
surreiglio do "baratismo". Esse esforgo comegou na
administration J~der Barbalho, mas ao pr6prio gover-
nador o manteve em banho-maria porque, afinal,
acima de Barata deveria estar .fider Barbalho. O
atual governador Helio Gueiros, um "baratista" his-
t6rico, avivou ainda mais o estilo. Niio parece expli-
citamente interessado no projeto, mas o alimenta na
media em que, de certa forma, repbe a dualidade
da 6poca de Barata : a honestidade pessoal do lider
convivendo com os apetites dos liderados, uma con-
viv~ncia dificil, mas nito impossivel.
A personalidade political mais important em
tr~s d~cadas da vida political no Pars, Barata jB e
imist6ria, independentemente de nossas opinibes a
favor ou contra ele. Sua mem6ria este definitiva-
mente registrada em ruas, pr~dios p~blicos, m~onu-
mentos. O que falta 6 uma melhor compreensito so-
bre a 6poca dele. He uma sub-literatura de gulicos
que nada ilumina o chefe. E um injustificado alheia-
01ento dos intelectuais, capazes de saber mais sobre
JOlio de Castilho do que a respeito de Barata. Se
eles estivessem mais ligados B terra fariam o con-
tra-canto a essa articulada investida sobre os des-
pojos do lider, mais uma, agora pbs-morte, sendo a
morte tiio plenamente morrida.
Como ocorreu em vida, os homenageadores es
tio pensando B em si pr6prios quando elogiam a
morto. Uma das alternatives g sucessito de Helio
Gueiros, que jB este sendo trabalhada, 6 a do supe-
rintendente da Sudam, Henry Kayath. Os que criti-
caram Jgder Barbalho pela tintura de "baratismo"
que mostrou (na verdade, ele 6 uma versito atualiza-
da do caudilhismo; ainda niio completara 15 anos
quando Barata morreu), vertio sua expression mais








E provdvel que nenhumna das capitals brasilei-
ras tenha sofrido devastaglio semelhante B que as-
sola Beldm. A cidade ainda consegue disfargar essa
destruidio com seu encanto pr6prio, seu cheiro e
suas cores, um anestesiante no apurar das contas.
E isto mesmo o que sobra no balango: a cidade foi
anestesiada, tornando-se incapaz de expressar e re-
fletir o Estado, de ser um canal e um veiculo do dra-
ma que o Pard vive, ou de perceber sua pr6pria
situaglio. Se visse, veria que vive numa ilus6ria ilha
da fantasia, masqune a ilustio serb curta. Em novem-
bro, ou nao muito depois, poders comegar um novo
pesadelo. Vamos pagar bem carol pela indiferenga e
outros pagariio ainda mais por nossa causa.


Engenheiro explica
Recebemos a seguinte cart do engenheiro Jos6 Mlaria
Vieira Filho :
"Por conhecer a seriedade do seu trabalho de Jornalismo
s6rio, embazado em documents que comprovam a mattbria.
estou encaminhando esta corresponddncia.
No JORNAL PESSOAL da Za. quinzena de Dezembro de
87, na matdria "Salve-se quem Puder" hB uma afirmaglio de
que responsabilizo o autor do Projeto Estrutural do Ed. Raimun.
do Farias pela queda do mesmo, de uma forma "incontest8-
vel .
Estou encaminhando junto a este, relat6rio sobre a And-
lise do Projeto Estrutural em questito, para verificaglio de que
esta afirmativa niio 6 mencionada.
O que busquel no relat6rio t6cnico, puramente profissio-
nal, foi emitir um parecer honest, mostrando a realidade dos
fats, independent de ligap~es de amizade ou de profissiona.
lismo, da mesma forma que V. Sria. o faria.
Realmente 6 "espantosa" a constataCgio de que dentro
das Normas Brasileiras, obedecidos os coeficientes de segu.
ranga e calculada a Carga Mgxima Admissivel, o pr~d'io supor-
to 4 pavimentos tipo quandfo foi calculado para 8 pavimentos
tipo, como est8 comprovado em nosso relatbrio.
Dizer a verdade sobre qualquer assunto que por forga
professional temos que emitir, tem que ser feito sob o aspecto
t~cnico, independent de qualquer vinculo comn as pessoas. O
relat6rio foi desta forma elaborado tanto para a Caixa Econ8.
mica como para a Construtora Marques Farias.
Tenho convicotio, embora conhepa V. Sria. apenas por
seus artigos, que o seu comportamento 6tico seria o mesmo.
Pelo exposto, pego que o assunto seja colocado nos ter-
mos do que foi relatado.
Aproveito a oportunidade para felicitar sua iniciativa no
seu Jornal Pessoal".
N. da R. A frase citad~a entire aspas consta do parecer
do engenheiro Paulo Marques, irmlio de um dos dons da
Construtora Marques Farias, e niio do parecer de Jos6 Maria
Vieira Filho. Sobre o desabamento do edificio Raimundo Fa-
rias, as verdades dos envolvidos ja foram apresentadas. Faita,
agora, apurar a "verdad~e verdadeira", que, espera-se, surgird
no curso do contradit6rio judicial. Este journal, que vem acom-
panhando o caso, voltar8 a tratar do assunto. Depois de le.
vantar os documents incluidos no inqu6rito policial, ouvird
os testemunhos. A relevlncia da questlio para a vida da ci-
dade justifica o interesse permanent.




loaOIal PCSSOal
Editor respons~vel : Li~cio Fl~vio Pinto
Enderego (provisbrio): rua Aristides Lobo, 871
Belbm, Parid, 66.000. Fone: 224.3728
Diagramagio e ilustraglo: Luiz Pinto
Op~lo Jornalistica


acabada se Kayath chegar ao Palscio Lauro SodrB.
Se sobreviverem fisicamente ate 18, s6 entlio os
"baratistas" histbricos conquistarlio o poder. Pode-
se ter uma iddia do que oc~orrer8 entlio pelo que jBk
fizeram at6! agora, tendo apenas uma parcela do
poder.

Olhar para o future Niio 6 o que um cidadao
espera para o seu Estado, vendo ocorrer uma re-
gressito political justamente quando mais se exigo
algo contempor~neo, ao menos, a esse saque mo-
derno. HE um viicuo de vontade, de compreensho
e de inteliggncia que comprometerdi o future deste
Para, expondo seus bens naturals e humans -
a essa pilhagem que o desfigura, dando-lhe a apa-
rencia de Estado derrotado, Incapaz de sequer saues
o que Ihe val pelas entranhas. O present 1a e! suti-
clentemente terrivel para que ainda sejamos embro-
mnados por um passadismo natimorto, que so a iner-
cia da sociedade faz passar por coisa viva.

Diante desse quadro, nho hdi motivaglio para
aceitar medalhas. Nem hB razio para Bel~m come"
morar aniversdirio. A cidade est8 sendo desfigurada
diante dos nossos olhos. Nada fazemos para evitar
atos danosos, que tornarito, dentro de alguns anos,
insuportilvel viver aqui. Os parediies de concrete
transformarlio em privildgio o calor do qual hoje nos
queixamos. A brisa quase constant que a natureza
ofereceu g cidade, gragas a sua proximidade comn o
mar aberto, serdi desviada por essas estruturas, com
a agravante de que elas se erguem em locals ina-
dequados.

E claro q~ue o problema niio 6, teoricamente, de
engenharia. T6quio jdi est8 construindo pr6dios, sob
fantasticas molas de ago, capazes de resistir aos
constantes abalos que sofre, avango que jB foi tes-
tado c~om sucesso. Pode-se tamb6m edificar satis-
fatoriamente sobre plintanos, desde que a engenha-
ria esteja marcada por essa preocupaglio e o poder
p~blico tenha fixado regras em functio desse con-
texto. Nada disso hB em Bel~m, onde o Ojnico com-
bustivel emn uso 6 o da mais desenfreada espec~ula-
glio, que leva construtores a desrespeitarem os c6-
cligos e ignorarem at8 mesmno os gestos das autori-
dades, transformados em coisa inirtil, como o
prefeito mnterino. Osdas Silva, ao lado dos escom-
bros de um predio cujo estilo de 6poca mereceria
ser preservado.

A Prefeitura assisted, impotente, o desm~orona-
niento do "ethos" da cidade, de sua mem6ria, como
algo plenamente descart~vel e at8 mesmo inevittivel.
O imobilismo 6t geral e profundo. S6 ele explica
como foi possivel derrubar, no ano passado, o pr~dio
da Booth Line, na avenida Presidente Vargas, c~omo
jd, antes, fora descaracterizado a Palacete Pinho e
posto abaixo o casarlio da Palmeira, hoje um buraco,
amanh5 para desespero de quem vive ou circula
pelo centro um "shopping-center".