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__ ~ J~ma Pessoa Liicio Flivio Pinto Ano I P10 Circulaglio apenas entire assinantes 2" Quinzena de Janeiro de 1988 GARIMPO Houve um genocidio? Horrores, bizarrias e absurdos fazem parte do cotidiano de Serra Pelada, que s6 espantam quando slio associados a fats como o conflito do dia 19 de dezembro. O garimpo e, um retrato em 3x4 da loucura amazinica. trgs mil homes, o Exercito precisou de oito meses para acabar comn a guerrilha montada pelo Partido Comunista do Brasil no A~raguaia, entire abril e dezembro de 1973, matando ao redor de 60 guerrilheiros. Atd hoje, 6 o fato mais traumi- tico na hist6ria da regido, embora seus moradores mais sofram as consequgncias desse acontecimento do que dele tenham tornado parte ou conscigncia. Por causa da sonegagio de informagies ou das in- terpretagies exageradas, de ambas as parties envol- vidas no confront, a guerrilha do Araguaia perma- nece sendo um fato politico que ainda nho se conso- lidou como event hist6rico. A fantasmagoria ou a legend criadas em torno dela the dio a vida que ela, intrinsecamente, nho tem, ou a vitalidade que nunca alcangou. Mais difuso ainda, apesar de tiio recent, um outro epis6dio estaria fadado a superar em Impor- tincia a pr6pria guerrilha e outros acontecimentos mais recuados na histbria. tfo conflito em torno da ponte rodoferrovibria sobre o rio Tocantins, iniciado com sua ocupagio pelos garimpeiros de Serra Pe- lada, na madrugada de 28 de dezembro, e culminan- do com a aG~o da Policia Militar, que desobstruiu o local 30 horas depois. Como em relagio a guerrilha, a reconstituiqgo dos fats val sendo atropelada pelas interpretaq~es e manipulaq6es feitas pelos que participaram do event ou nele t~m interesses. Sem os fats, que s6 uma sociedade amadurecida poderia arrancar imediatamente ap6s o traumatismo, n~o espanta que falte ainda esclarecer tantas questbes elementares, como o nlimero de vitimas, e sobrem tantas declara- C~es grandil~oquientes. Reglio pioneira, onde os di reitos modernos do cidadio ainda niio foram entro- nizados (apesar dos dois s6culos que a Revolucho Francesa completard no prbximo ano), nho tem di- reito a hist6ria. f condenada a repeti-la monotona e desesperadamente. Reagees antaganicas O coordenador do Nli- cleo de Estudos sobre a Violgncia da Universidade de Sho Paulo, apesar de distanciado mais de dois mil quil6metros do local, nho titubeou em classifi- car a aG~o da Policia Militar do Parg de "um geno- cidio". Segundo Paulo SBrgio Pinheiro, a repressio da PM foi ainda pior do que o massacre de Canu- dos : os adeptos de Antonio Conselheiro, que so rebelaram na Bahia contra o governor central, "pelo menos tinham armas para se defender", comparou o professor, que tem posigGes de esquerda. O deputado estadual Jos6 Scarpelini, do PMDB do Parandr, que viu a prefeitura de Apucarana (onde tem sua base) ser ocupada por um capitho do Ex~r- cito revoltado com seus baixos vencimentos, pediu logo a intervengho federal no Pars, proposta que nem foi considerada em Brasilia. JSI a Anistia Inter- nacional cobrou do Conselho Nacional pela Defesa dos Direitos da Pessoa Humana uma investigation do epis6dio. O president do Conselho, ministry Paulo Brossard, que alimenta uma inusitada aversio a Anistia, entidade respeitada no mundo inteiro, nho atendeu o pedido. Brossard, que tanta pressio fez junto ao governor estadual para a desobstruglio da ponte, colocou Uma pedra sobre os acontecimentos. O governador Hblio Gueiros tambem nito cum- priu a promessa de mandar instaurar inqudrito sobre a a68o da PM e designer um promoter especial pars acompanh8-lo, provid~ncia rotineira em paises se- melhantes ao Brasil. O comandante da Policia Mili- tar, coronel Ailton Guimaries, observou que o in- qubrito nso seria necess~rio porque a PM agiu den- tro dos padress de t~cnica policial" e as baixas foram "despreziveis" despreziveis para o coronel, naturalmente, que nio teve o dissabor de ver um s6 de seus homes arranhado, ou nao foi abalado por parents feridos, mnortos ou desaparec~idos. da PM parece considerar pontos pacificos es- H enhuma das duas quest~es que o comandante so haja duas vitimas fatais oficialmente reco- nhecidas, nio 6 fantasia pensar no dobro desse nlj- mero ou chegar a nove mortos, como acredita uma credenciada testemunha ocular do cheque entire a PM e os garimpeiros, o coordenador da Defesa Civil de ~MarabB, Wilson Faval de M'elo. Apesar de evidenciar falhas, o depoimento de Wilson ajuda bastante a iluminar o que houve sobre a ponte. Ele desautoriza todas as verses que, ba- seadas em estimativas variando de 26 a 133 mortos, classificaram o epis6dio de genocidio. Tamb~m nega o entendimento do comandante da PM, de que a tropa agiu absolutamente dentro dos padress de t6cnica policial". N~o hB diivida de que a PM se excedeu. Hg fundadas suspeig6es de que o excess niio se deu por provocaptio ou no calor de um cho- que, que, a rigor, nio houve, ou nito ocorreu nas pro- porq6es que justificassem uma reaglio selvagem a descontrolada. O jogo de informaG~es Wilson logo desmen- to uma informaglio transmitida pela Policia Federal e que! certamente influiu no animo do governador para dar a ordem dr~stica que deu e na disposigio da tropa para cumpri-la. Mementos antes do inicio da operaClio de desobstrugho da ponte, o delegado da PF de MarabB informou atraves de telex, repas- sado ao governor do Estado pela coordenadoria regio nal do Pars, em Belem, que os garimpeiros, "ao to- marem conhecimento da chegada g cidade de Mara- bB do pelotao de cheque da Policia Militar e da possivel chegada de outro pelotso de cheque, deci- diramn, em caso de repressio da PM, atearem fogo em todos os veiculos que se encontram sobre a re- ferida ponte e ainda manterem como refem o dr. Nel- son Marabuto, que preside as negociaG~es em Serra Pelada emn nome do ministry do Interior". JB o coordenador da Defesa Civil em Marabb testemunha, depois de vistoriar a ponte, ter perce- bido "claramente que os garimpeiros que ocupavam a ponte nho estavam com a inteng~o de com~eter atos violentos e que estavam somente desorienta- dos por falta de informa66es dos prbprios dirigen- tes". WNilson, como outras testemunhas, insisted sobre essa desorientagao: agrupados emn Serra Pelada, os garimpeiros foram colocados em caminhbes, pagos por fornecedores de barrancos, e levados para ocu- par a ponte sem receber instrug~es ou apoio logis- tico, sem um trabalho que pudesse captar a simpa- tia da populaCio de .MarabB (que ignorou o movimen- to ate ocorrerem as escaramugas) ou atenuar a re- volta dos motorists prejudicados pelo bloquelo. Agiram como tipicas "buchas de canhao em torno de questies (discutidas, no predio da Prefeitura, por pessoas que, em v~rios casos, nemn foram g ponte) que n~o lhes diziam respeito diretamente. A preparaqio de um ato de protest comegou no inicio de dezembro, estimulada pelos fornecedo- res de Serra Pelada. A eclosito deveria ocorrer a 5 de janeiro e a Policia Federal acompanhava as arti- cula~ges, segundo um mntegrante da diretoria da cooperative, que conversou a respeito com um agen- to da PF. Mas essas informagaes nio foram repas- sadas ao governor estadual, nem B dire6Bo national da PF. Ao contrsrio, hB razbes para crer que o ato for antecipado emn fungho dos boatos, cuja origem est8 associada & PF Iocal, de que os agents fede- rais sairiam de Serra Pelada, sendo substituidos por policiais paraenses. A conturbada prisio do delega- do da Policia Civil, fdson Ferreira, expulso pelos federal sob a acusag~io de corrupplio e mandado de volta a MarabB, onde acabou solto, foi mais um elo na composiglio dos fats. Troca de acusaG6es O delegado da PF, Paulo Duarte, disse que era inevit~vel a prisilo do outro delegado porque ele fora flagrado extorquindo garim- peiros, fazendo chantagens, cobrando para liberal bebida, que e proibida nos cabarbs, e tendo barran- co na cava. J'S I'dson Ferreira reagiu acusando Duar- te de querer o control de Serra Pelada para tomar ouro dos garimpeiros. A acusagio foi repetida pelos dons de barrancos que prestaram depoimento pe- rante a Comissito de Defesa dos Direitos Humanos da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil, Secclio do ParB), no dia 18, em Bel~m. Manoel da Graga de Souza, em Serra Pelada desde o inicio, foi seguidas vezes preso pela PF, a quem responsabiliza pelos rpoblemas no garimpo. Muitas das irregularidades listadas em 16 itens, num document entregue a Comissio, seriam de responsabilidade da PF. N li 6 de estranhar qlue surjam essas denun- cias, como vdrias outras apresentadas por grupos de politicos que visitaram Serra Pela- da depois dos incidents. A Policia Federal tornou-se uma prefeitura informal de Serra Pelada. resolvendo todos os problems (ou ao menos se credenciando a resolvg-los) e concentrando o poder, principalmente depois de afastar a concorrancia da policia civil. Tratando-se de um centro de produglio qlue, mesmo na 6poca atual de vacas magras, ainda rende mensalmente entire 130 e 150 milhges de cruzados, justifica-se o tascinio. Mais do que a decadente re- ceita official, no entanto, Serra Pelada atral porque todos sabem qlue grande parte da produgho de ouro segue caminhos sem control official, varios dos quals aesembocam no trdfico de drogas, o ouro ser- vindo como moeda "limpa", qlue nito deixa rastros. Segundo as estimativas oficiais, das 120 toneladas de ouro que o pais deve ter produzido no ano passa- do, somente 25 toneladas foram comercializadas le- galmente pela rede de compradores credenciados, formada por tris mil pessoas ou empresas. Em Serra Pelada o contrabando se acentuou ain- dia mais por causa da percentage destinada a coo. perativa. Essa parcela comegou em 3% em 1984, mas jdi atingiu 7%, sete vezes o valor do imposto (o ItJMI aue o Estado. o Municiolo e a Unitio dividem entre si. Mas somente 2% da receita esta ficando realmente com a Coogar porque 1% destina-se a amortizar a divida com a Construtora Brasil, execu- tora cio uiltimo rebaixamento na cava (um buraco qlue jB passou de 100 metros de profundidade), e o res- tante foi vinculado judicialmente a outros debitos. A receita dessa porcentagem B de 350 mil cruzados ao dia, um belo faturamento ainda qlue, na forma atual de partilha, nlio d6 para viabilizar a administragiio do garimp~o. Sabendo que boa parte do dinheiro nho retorna em investimento na cava e redondezas, os garimpei- ros desviam grande parte do ouro que produzem. Ai entram em a~gio os viirios "lobbies" que se forma- ram em Serra Pelada e fora dela, numa promiscuida- de qlue dificulta enormemente o trabalho de apura- glio por aqueles que desconhecem os hastidores do garimpo e sua estrutura de poder. Evidentemente, papel fundamental desempenha o agent policial, pelo que faz ou sobretudo pelo que deixa de fazer. A hora do revide Depois de seguidas acursa- 96es feitas contra elas, as policies estaduais acaba- ram espulsas pelo despreparo de seus homes (se njio por outros motives, porque nio conseguem re- sistir g seduplio do dinheiro qlue escorre invisivel- mente pelo garimpo) e pela complexidade do jogo de poder, que exige mais sutileza do que s~lo capazes de ter. O lance derradeiro ocorreu em outubro de 1986, quando o soldado Jorge Oliveira matou o "for- miga" Jodo Borges, num epis6dio controvertide. Os prbprios gorimpeiros prenderam o PM c o entrega- ram B policia civil, que se recusou a autu8-lo. Revol- tados, mas tambem estimulados a isso, os garimpei- ros destruiram os pr~dios da delegacia e do quartel~ literalmente pondo para correr os policiais. Na pr6pria ocasiho a Policia Militar ensaiou c revide, mobilizando 200 homes para invadir o ga- rimpo, mas por Brasilia a iniciativa foi sustada. Quando o governador Hdlio Gueiros autorizou a PM a desobstruir a ponte, "de qualquer maneira", virios dos militares que nho haviam esquecido o passado, para eles humilhante, acharam que chegara a hora de ajustar as contas, indo aidm do que exigia uma operagilo como aquela. Tuma, diretor-geral d-o DPF, o delegado Wilson Alfredo Perp~tuo, enviado especial a Serra Pelada, disse que a ordem de fogo para a tropa na ponte partiu de um tenente. Se isso for verdade, trata-se de uma circunstancia completamente anij- mala, tratAndo-se de operaqio encabegada por um tenente-coronel, que acumula o comando do 40 Ba- talhlio da PM, em MarabB, com o cargo de delegado geral de policia do sul do Pard. Em vsrios dos con- fhitos socials ocorridos na regilio ficou mais do que demonstrada a falta de condigdes de oficiais inferio- res, como um tenente, para enfrentar situag8es the explosives como essas, sem provocar violencias. Niio apenas esse detalhe 6 grave: o governador H41io Gueiros exp~s-se ao erro quando manteve um finico canal de voz entire Belem e MarabB, exclusiva- mente atraves cle oficiais da PM. Em Belem, o chefe da Casa Militar, major Flaviano Gomes. Em MarabB, o tenente-coronel Reinaldo Chaves. Faltou uma voz civil autorizada, com prerrogativas de comando, para uma agiio menos contaminada de passionalida- de, emogio e vicios corporativos. No seu relat6rio, o delegado Wilson Perpbtuo assegura como "praticamente certo que as tropas de Marabli dispararam sobre os garimpeiros, en- quanto a tropa de cheque (aero-transportada de Be- lem) niio fez uso de armas de fogo, embora estives- se armada com rev6Iveres Esse detalhe comprova- ria que a PM estava se vingando da "desonra" de 14 meses antes. Ainda que o governador Helio Gueiros lance suspeiglio sobre o relat6rio do enviado da Policia Federal, produzido sob evidence unilateralismo e cujo tom emotional contrast com o padrio da PF em outras ocasi~es semelhantes, nito pode ignorer os testemunhos sem uma verificadio independent, que s6 o inqubrito com promoter especial possibi- lita. As chaves do segredo A forma de execugio da oper~agio pela PM precisa ser reconstituida. A principal acusagilo feita contra ela a esse respeito 6 a de que cercou as duas extremidades da ponte, de 2.300 metros, e investiu atirando contra os ga rimpeiros. Nio hB converggncia nos testemunhos, mas parece acima de qualquer questionamento que os manifestantes, ao contrsrio de mementos anterio- res (como em 1984, na tentative de invas~io da Serra de Carajds), nlio apresentavam maior agressividade. Os jornais se referiram a tris mil ou at6 cinco mil garimpeiros, mas a estimativa do coordenador da Defesa Civil entiree mil e 1.500) parece muito mais pr6xima da realidade. Evidentemente, nito se trata- va de um movimento completamente pacifico, mas a aglio dos garimpeiros esteve sempre aquem da vio- 18ncia utilizada pela PM. O subcomandante do 49 Batalhilo de Infantaria, major Iran Gongalves, sustentou que a tropa ocupou apenas uma das extremidades da ponte, nito arman- do, assim, uma embosc~ada. Segundo o tenente-co- ronel Reinaldo, a principio os soldados atiraram bombas de gas e fizeram disparos com balas de festim. S6 usaram balas verdadeiras depois de agre- didos a tiros ou pedradas. Ai o esquema icicial, que permitia a fuga dos garimpeiros por um corredor la- teral deixado na ponte pela tropa, desfez-se e o tu multo generalizou-se. O pr6prio comandante geral da PM, coronel Aill ton Guimarties, admitiu que esperava multo mais mortes tanto do lado dos garimpeiros como dos soldados. Esse estado de animo fora criado pelas informagies (ou contra-informaq6es) originadas da Polic a Federal (dai o ministry Brossard ter sid o a mais constant nos telefonemas ao governador, pe- clindo provid~ncias) e pelos antecedentes nas rela 95es entire a policia e os garimpeiros, circunstlincias complicadas que nem os soldados, nem os -"formi- gas", colocados em confront sobre a ponte, esta- vam em condigaes de perceber. Niio 6 sem prop6sito que agora se fale em massa de manobra e armadi- lha. . Por eliminar todos os agravantes do epis6dio, a versfic da PM 6 pura demais para ser aceita. Que houve estimulo a uma tentative de reaglio por parte clos garimpeiros e que alguns atiraram pedras contra os policiais, parece fora de d~vida. Mas tamb~m 6 mndubittivel que os policials continuaram atirando, batenido e perseguindo mesmo quando os opositores s6 estavam interessados em escapar, que seria 0 ob- jetivo da mission se no seu cumprimento nito houves- sem as demais components que nada tim a ver com a "t~cnica policial". Niio B por mera coincid~ncia que a maior pate dos feridos tenha sido atingida pelas costas. zenas de pessoas tenham se atirado da ponte sobre o rio Tocantins, 74 metros abaixo, comn meio metro de I~mina d'ggua em multos tre- chos porque apenas estd comegando a encher, ou que multos caddiveres foram recolhidos e enterrados clandestinamente pelos policiais. A operaqio em si niio dem-orou mais do que 15 minutes. Mesmo com a denunciada selvageria de parte da tropa, niio haveria condi~ges para ocultar caddiveres nas proporgies qlue alguns jornais chegaram a noticiar. Apesar da incri- vel carincia de testemunhos independents, a PM pre- cisaria de toda uma logistica para praticar o que seria um dos mais b~rbaros e repulsivos crimes da hist6ria brasileira. AtB nas guerras os inimigos reconhecem entire si o direito de enterrar os mortos. Versiio insatisfatiiria No entanto, a sociedade esta multo distant da tranqiiilidade com a qual a PM reconstitui os atos. Wilson de Melo diz em seu relat6rio ter visto quatro corpos e admite at6 nove vitimas fatais. Seu relate dii uma id6ia do alvoropo que se seguiu ao memento em que a PM diz ter sido atacada, por pedra ou bala: "Vimos cair uma mulher de estatura baixa com roupas brancas. Tivemos a intenglio de correr para ajuds-la. Estava ela flerida e vimos quando era suspense e jogada por cima da cerca de seguranca da ponte. Um rapaz que minu- tos antes comia sentado na cerca tamb6m calu, e tudo se tornou uma loucura". Depoimentos dessa envergadura slio suficien- tes para justificar a reserve da opinitio p~blica dian- te da verstio official, mas nito chegam a autorizar a leviandade de certos jornais e da pr6pria PF na re- constituiglio dos acontecimentos. A verdade esta mais pr6xima, quanto ao nomero de vitimas, da po- siglio official, mesmo que niio coincide com ela, mas se distancia dela quando se trata de apurar respon- sabilidades por violincias totalmente injustificadas. Mas esta tarefa elementary, a Oinica capaz de report a question no grau minimo de dec~ncia que se espe- ra de uma sociedade civilizada, parece nlio interes- sar mais As autoridades- O future: manipulado ? Em mais um "vaza- mento" g imprensa, aparentemente volunt~rio, como a generosa s6rie de outros "vazamentos" de infor- magbes, Brasilia fez saber que niio pretend renovar a licenga para o funcionamento do garimpo em Serra Pelada. A noticia foi desmenticia viirios dias depois, mas ficou a ameaca de que a partir de jan~eiro do prdximo ano a lavra de ouro teria que se tornar me- canizada, com o afastamento dos garimpeiros. Era justamente o contrdirio do que eles pretendiam quan- do ocuparam a ponte. A readio de Jos6 Altino Machado, president da Unillo dos Sindicatos e AssociaCBes de Garimpeiros da Amaz~nia Legal (Usagal), foi desconcertante. Nor- malmente um enfurecido lider dos garimpetros (fol quem comandou a invasiio da reserve dos indios Yanomami, em Roraime), pareceu admitir o fimn de Serra Pelada, discordando apenas do m~todo adota. do para araunciar a decisio. "Cometeu-se uma mons truosidade ao anunciar com tamanha antecipacio a desmobilizagho dos barrancos", declarou, aparente- mente defensor de uma evacuaqio de surpresa e ra- pida, como a que o governor fez em Rondinia. em 1971, acabando com a garimpagem de cassiterita e entregando as jazidas a empresas, sem dar tempo para os garimpeiros organizarem uma reacio. Jos6 Altino tamb6m ds a impressio de acreditar na possibilidade de conciliar a exploraqio mecaniza- da do ouro com a extraglio manual ou semi-mecani- zada dos garimpeiros. E a posigio de muita gente que, em Serra Pelada, brada a plenos pulmies pela manutengdo do garimpo, mas da boca para fora. Es- ses nho estlio convencidos da viabilidade de manter a atual forma de extraqio de ouro, ou estlio certos justamente do contrario, mas querem sustentar ao m~ximo o garimpo para forgar o governor a investor n~a area. G a tatica principalmerite dos fornecedores e dons de barranco que estao no "vermelho'. Altino tem razao num ponto: ainda 6 cedo parer antecipar com seguranga como sera a reacao de Serra Pelada a essa decisiio. Centenas ou milhares de homes estAo ail dispostos a morrer porque acre- ditam sinceramente que em nenhum outro local terho a mesma remuneraCho para sua atividade. Ao obser- vador externo, pode parecer inacreditavel essa sen- saptio: final, o trabalho em Serra Pelada s6 nho 6 a mesmo dos escravos da Antiguidade porque existe o sistema de "aviamento", velho conhecido da Ama- zinia extrativista, para criar ilus~es. Os indicadores socials sobre prostituigiio, doengas transmissi- vels, tuberculose, les~es causadas por merc~rio, criminalidade e outros itens das relagaes marginais -- sho verdadeiramente espantosos. Mas atrds da motivaglio de milhares de homnens esta uma situaglio social em suas areas de origem, sobretudo o Maranhilo e o Piaui, tiio ou at6 mais ini qua, porque nem a iluslio permit. Basta viajar na ferrovia de Caraj~s (custo: 1,5 bilhilo de d61ares), feita para escoar minbrio, e ter acesso a uma escan dalosa introduGho a misdria absolute que imobiliza grande parte do Estado natal do primeiro president da Repdblica que o Maranhilo fez em um seculo. M~iseria que talvez estara agravada quando o pr6xi- mo maranhense subir ao trono republican, se isto vier a ocorrer no mesmo intervalo que a hist6ria im- p~s ao primeiro. lativas que s6 um paciente e arguto trabalho G ravitam em torno do garimpo espirais especu- estadual (PMIDB) Haroldo Bezerra, eleito por MarabB, por exemplo, foi garimpeiro durante um ano. Jane Rezende era lider dos garimpeiros quando em Serra Pelada mulher nito entrava, o que niio a impe- diu de controlar barrancos- Nada haveria de ruim, muito pelo contrario, em pequenos investidores serem dons de barrancos. Seria uma das poucas alternatives para eles num capitalism cada vez mais concentrado. Porem a renda obtida em Serra Pelada, gragas aos subsidies oficiais c h tolerancia com o submundo que ali se mrantem gragas a indiferenga governmental, acaba descendo pelo mesmo funil, deixando a margem a :egiho de homes atraidos para o local pelos sonhos de riqueza que se desfazem qaundo eles retornam, embrutecidos e acabados, da "corrida ao ouro". Essa corrida 6 multo mais veloz do que eles sho capazes de acompanhar ou mesmo perceber. Serra Pelada ajuda a manter essas didsporas e reproduz, tangen cialmente, mas com um elevado grau de concentra- glio, as distorgaes de uma estrutura para a qual se- ria suceddineo ou alternative. Sucesslio de engodos Ainda assim, milhares de homes sentem-se ludibriados pela aFgo publica. Detentora desde 1974 dos direitos minerdrios numa area de 10 mil hectares, a Companhia Vale do Rio Doce passou por sobre Serra Pelada atris de mine- rio de ferro e mangan~s. Os garimpeiros 6 que des- cobriram o ouro, em janeiro de 1980. A Vale so comunicou a descoberta ao DNP,M quatro meses de- pois. Atd pedir a conversio do decreto para ouro, atuou inusitadamente como compradora, atra- ves da subsidifiria de pesquisa, a Docegeo, de uma produgio que nho era a sua. Foi forgada a isso pela "comunidade de informag6es", que se utilizava e era usada pelo tenente-coronel Sebastilio Rodrigues de Moura, o primeiro agent do SNI inoculado no parla- mento, promiscuidade institutional e legal que cons- titui uma das razies da fragilidade com que este pais foi e vem sendo organizado. A CVRD foi indenizada no equivalent a 50 mi- ihdes de d61ares (metade do valor do ouro extraido de Serra Pelada) para que os garimpeiros pudessem continuar trabalhando no local por cinco anos. Se o governo nio autorizar-lbes a permanancia depois de diezembro ou nito surgir mais uma lei oportunista no Congress, qual sere a situa~gio de Serra Pelada com a mecanizaglio? Simplesmente readquirirlio sua ple- n~itude os direitos de lavra da CVRD, ou comeg~ar8 (prosseguird ?) uma intrincada teia de negociaq~es para definir quem sera o novo donor de pelo menos 10 toneladas de ouro contidas no morro de rejeitos a ceu aberto ou do que ainda houver abaixo do fundo da cava. Niio falt~arlio lances emocionantes ou esca- brosos como os do capitulo atual, teoricamente ain- da em cursor. Faga o que fizer, Serra Pelada jB nito consegue espantar a sensibilidade de uma Naqiio lettirgica, em- brutecida ou ressonante. Serdi que ali algudm diz a verdade, ou estli interessado nesse produto, consi- clerado ocioso, alem de incbmodo ? H6 um jogo de faz-de-conta praticado como se fosse a s~rio. Em pleno inverno, de chuvas pesadas, o governor gasta 72,5 milhies de cruzados para rebaixar 250 mil me- tros cijbicos de terra, quando o necesssrio seriam oito milhdes de metros clibicos, ao custo de 10 a 15 milh~es de d61ares. Rebaixamentos do faz-de-conta abundaram em Serra Pelada. No uiltimo, concluido em agosto de 1986, a Construtora Brasil retirou 400 mil m3 dos 900 mil programados. Mas credenciou- se a uma porcentagem de 1%o sobre a produgho qlue seria eterna se os homes nio fossem transit6rios. As raizes das empreiteiras em Serra Pelada she mais funds e mais extensas do qlue pode calcular a vi filosofia . Iendo o governor dado a partida a novo capitu- lo dessa novela, 6 prov6vel que dentro de pou- co tempo os gritos, protests ou declaraq6es de bons prop6sitos se tenham esgotado nos estreitos limits de sua pr6pria ret6rica. Todos vi- radio displicentemente a pbrgina, gloriosa ou sangren- ta, conforme a interpretaglio, qlue na "fronteira" dis- pensa altivamente os fats. No meio do ardoroso combat verbal com a policia estadual, o delegado cla Policia Federal, Paulo Duarte (estrategicamente removido para Brasilia no inicio da semana), revela- va qlue mil pessoas js haviam morrido em oito anos de Serra Pelada, sendo 400 soterradas ou mortas em acidentes de trabalho e 600 em homicidios di- BEL verses. Oficialment~e, conhece-se 31 mortos em desaba- mentos de barrancos, acrescidos de um, o primeiro de 1988, no dia sete. Que um delegado da Policia Federal afirme terem havido 400 mortes em traba- lho ja seria motive para escindalo, pois provavel- mente em nenhuma outra unidade de produio (que, no final das contas, o garimpo 6) houve tantas bai- xas. Mil mortes, num mesmo local, em oito anos, 6, por todos os titulos, um autgntico genocidio. Mas ningu~m se escandalizou. E o pr6prio delegado pa- rece nlio ter percebido que foi c~olocado na funglio para impedir que tais crimes ocorram, ou punir os que o praticaram, ao inv6s de simplesmente ficar revelando que eles existem. Em escala desfigurada, por seu grau de concen- tracio, Serra Pelada B apenas um retrato da bizarria e da loucura em que foi transformada a "conquista da liltima grande fronteira do planeta, a que, jB sem saber exatamente o que isso significa, deu-se o no- me de Amazinia, remota refer~ncia do que, aigum dia, no passado perdido, se imaginou ser a sucursal do paraiso e vai se transformando no Qltimo circulo do inferno. EM Por opgho, sou duas vezes belemense. Aos cin- co anos de idade, quando meu pai, deputado estadual recem-eleito por Santarem, trouxe a familiar para a capital do Estado. Vinte anos depois, ao retomar o pleno domicilio em Bel~m, depois de peregrinagies poel Rio de Janeiro e Sho Paulo. Estou aqui porque amo a cidade e, al6m disso, sei que B important essa posigio para quem quer ver e participar dessa paixio amazanica, em seu duplo sentido. Belem 6 a porta de said e de entrada na regiho e isso n6o deveria ser uma mera constatagiio geogrsfica. Aqui monte uma trincheira jornalistica voltada contra o poder estabelecido, a maior contribuigio que podemos dar ao nosso p~blico chg sociedade em geral. Ninguem, como a imprensa, quando impren- sa de verdade e no bom sentido, pode evitar a hiper- trofia, tend~ncia quase natural entire n6s, tal a cen- tralizaCio de poder, que faz do chefe do Executivo rei eleito pelo voto. Da monarquia informal g tira- nia real, personalissima, basta um pass, em Brasi- lia ou em suas satrapias. Tem havido poucas pedras no meio desse caminho. Num memento em que fazer este journal exige multo mais do que profissionalismo, foi com alegria aue recebi a noticia de que um conselho municipal, presidido pelo prefeito, me conferira a medalha Cal- deira Castelo Branco, comemorativa do anivers~rio de Belem. Nio 6 propriamente medalhas que tenho recebido do "outro lado". O gesto, portanto, 6 raro. Aceith-lo significaria recompor um pouco de forga para continuar a enfrentar um monstro que tem rea- gido mais com seducio (quando nio com violgncia) do que com respeito a uma instlincia civil indepen- dente e oposta por principio, que 6 o que a imprensa deveria representar. Prefere tentar engoli-la a en- trent8-la na arena e segundo regras que somente a sociedade poderia sancionar. lillas nho foi possivel aceitar a medalha como o ato de reconhecimento ao trabalho de um jornalista que tem colocado seu engenho & arte a favor da cidade. Rejeitei a homenagem porque ela, embora fizesse justiCa a 21 outras pessoas de alguma ma- neira ligadas positivamente a Bel~m, tinha tambem um significado politico que consider negative. Pre- miava o empres~rio predador e engrossava o cordlio dos que tentam ressuscitar uma legend political morta para usi-la como biombo para interesses pes- Os mortos e os vivos Belem 4 uma cidade anestesiada. N~o percebe o seu drama. Por isso, nho hB motive algum para comemoracdes. Mas as que sho organizadas t~m objetivos pessoals, que e necessario denunciar, soais vivissimos, mas que desserviram e desservi- rio ainda mais, hoje c~omo farsa, a cidade e ao Es- tado. O empresinrio predador E bom para Belem que se consolide uma nova empresa distribuidora de g~s Iiquefeito de petr61eo, o popular (no uso, ja que no prego a coisa se modifica) g~s de cozinha. Nada e mais odioso, sob o capitalism, do que o monopo~lio, principalmente porque ele gera os anti corpos que anulam seu antibi6tico social, a aGio mediadora e reguladora do Estado. Sob a Paragas, o Para viva sujeito a um monopblio que apenas co- mnega a ser desfeito com o surgimento da Tropigas. Todos esperamos que o novo concorrente tenha vindo para ticar. Um jornalista, porem, nao pode ignorar que a origem do empreendimento nao esca- pou ao circulo vicioso dos stores monopolizados, nos quais o Estado 8 quase uma extensio do mono- polio ou do cartel, agindo por trifico de influencla e nao pelo referencial de interesses da sociedade. Originalmente, o projeto estava nas miios de amigos do governador J~der Barbalho e do entso president do Conselho Nacional do Petr61eo, general Oziel Al- meida. fambem niio se pode ignorar as tentativas de composiglio que, frustradas, n~io deixaram outra opgio sentio aceitar a competiglio. Muito menos pode esquecer que o donor do neg6cio reage a criti- cas ou informaG~es desfavoriveis batendo no bolso, onde presume que guard o segredo da bonra alheia. O chefe nazista Goebbels reagia B cultural puxando seu 38. Hg avangos, sem d~ivida, nesse tipo de into- lerlincia, mas nho no campo moral e 6tico, que, infe- lizmente (para os padres usuais nesses circulos), e o que mais me sensibiliza. O sr. Jair Bernardino 6 um empres~rio bem su- cedido, mas o que ele fez por Belem que niio coinci- disse com os interesses especificos de seus neg6- cios e de seu lucro ? O que ele fez de abnegado, de desinteressado, destinado apenas ao bem coleti- vo ? As vesperas de ser um dos medalhados, ele vinha praticando uma das mais frontals agressbes ao c6digo que regulla as edificacqges na cidade, levan- tando um predio sem a licenga competent e fazen- do uma obra em torno da qual pairam mais do que fortes suspeiq~es de que causard problems ao tr8- fego aereo. Este journal acompanhou a querela e mos- trou que uma composiCtio em andamento niio aten- deria o bem da cidade, mas conveni~ncias political. O interesse pelo morto Outro tipo de conve- ni~ncia est8 por trds da lembranga, p6s-morte, do general Magalhlies Barata. Vendo-o de uma perspec- tiva mais larga, trbs d~cadas depois de sua morte, chegaremos a conclusito de que ele inegavelmente era a melhor coisa do "baratismo a adaptaptio cau- dilhesca, ao ParB, do PSD national. Tinha carisma. acreditava no que pregava e fora honest. No pri- meiro period, quando ainda nito estava completa- mente formada a "entourage" que o cercou, repre- sentava um avango na vida paraense. Foi o primeiro governador a abrir estradas, ouvir o povo do interior, a~largar um pouco as comprimidas margens de parti- cipagilo popular. Depois, suas virtudes serviram de instrument para o assalto ao poder e ele prbprio niio conseguiu mais furar a s61ida parede de bajula- clio que o distanciou cada vez mais do povo e de sua histbria . Com um romance, "Rio de Raivas", Haroldo M~aranhilo, neto do major inimigo, deu a Barata um enterro muito mais digno do que os laudat6rios elo- glos finebres dos correligionsrios ou a omiss~io constrangida dos adverssrios. Mas Barata este mor- to e, jdr agora, bem enterrado. Niio hd "baratismo" sem ele porque o "baratismo" 4 um vicuo politico, ideol6gico, de id6ias. Exceto por um ou outro caso, nao e precise chamar de "baratismo" o que nilo pas- sa de botim, saque, usufruto pessoal e outras ex- pressies que se quiser usar para definir fisiologis- mo. No Pard dos nossos dias, "baratismo" nito e apenas anacronismo: represent uma deslealdade para com o Estado, tiio carente de solidez para rea- gir As agress~es externas que vem sofrendo. E absolutamente artificial o empenho de velhos e novos politicos, unidos, acima da barreira crono- 16gica, pelo mesmo appetite de d6cadas atrss, na res- surreiglio do "baratismo". Esse esforgo comegou na administration J~der Barbalho, mas ao pr6prio gover- nador o manteve em banho-maria porque, afinal, acima de Barata deveria estar .fider Barbalho. O atual governador Helio Gueiros, um "baratista" his- t6rico, avivou ainda mais o estilo. Niio parece expli- citamente interessado no projeto, mas o alimenta na media em que, de certa forma, repbe a dualidade da 6poca de Barata : a honestidade pessoal do lider convivendo com os apetites dos liderados, uma con- viv~ncia dificil, mas nito impossivel. A personalidade political mais important em tr~s d~cadas da vida political no Pars, Barata jB e imist6ria, independentemente de nossas opinibes a favor ou contra ele. Sua mem6ria este definitiva- mente registrada em ruas, pr~dios p~blicos, m~onu- mentos. O que falta 6 uma melhor compreensito so- bre a 6poca dele. He uma sub-literatura de gulicos que nada ilumina o chefe. E um injustificado alheia- 01ento dos intelectuais, capazes de saber mais sobre JOlio de Castilho do que a respeito de Barata. Se eles estivessem mais ligados B terra fariam o con- tra-canto a essa articulada investida sobre os des- pojos do lider, mais uma, agora pbs-morte, sendo a morte tiio plenamente morrida. Como ocorreu em vida, os homenageadores es tio pensando B em si pr6prios quando elogiam a morto. Uma das alternatives g sucessito de Helio Gueiros, que jB este sendo trabalhada, 6 a do supe- rintendente da Sudam, Henry Kayath. Os que criti- caram Jgder Barbalho pela tintura de "baratismo" que mostrou (na verdade, ele 6 uma versito atualiza- da do caudilhismo; ainda niio completara 15 anos quando Barata morreu), vertio sua expression mais E provdvel que nenhumna das capitals brasilei- ras tenha sofrido devastaglio semelhante B que as- sola Beldm. A cidade ainda consegue disfargar essa destruidio com seu encanto pr6prio, seu cheiro e suas cores, um anestesiante no apurar das contas. E isto mesmo o que sobra no balango: a cidade foi anestesiada, tornando-se incapaz de expressar e re- fletir o Estado, de ser um canal e um veiculo do dra- ma que o Pard vive, ou de perceber sua pr6pria situaglio. Se visse, veria que vive numa ilus6ria ilha da fantasia, masqune a ilustio serb curta. Em novem- bro, ou nao muito depois, poders comegar um novo pesadelo. Vamos pagar bem carol pela indiferenga e outros pagariio ainda mais por nossa causa. Engenheiro explica Recebemos a seguinte cart do engenheiro Jos6 Mlaria Vieira Filho : "Por conhecer a seriedade do seu trabalho de Jornalismo s6rio, embazado em documents que comprovam a mattbria. estou encaminhando esta corresponddncia. No JORNAL PESSOAL da Za. quinzena de Dezembro de 87, na matdria "Salve-se quem Puder" hB uma afirmaglio de que responsabilizo o autor do Projeto Estrutural do Ed. Raimun. do Farias pela queda do mesmo, de uma forma "incontest8- vel . Estou encaminhando junto a este, relat6rio sobre a And- lise do Projeto Estrutural em questito, para verificaglio de que esta afirmativa niio 6 mencionada. O que busquel no relat6rio t6cnico, puramente profissio- nal, foi emitir um parecer honest, mostrando a realidade dos fats, independent de ligap~es de amizade ou de profissiona. lismo, da mesma forma que V. Sria. o faria. Realmente 6 "espantosa" a constataCgio de que dentro das Normas Brasileiras, obedecidos os coeficientes de segu. ranga e calculada a Carga Mgxima Admissivel, o pr~d'io supor- to 4 pavimentos tipo quandfo foi calculado para 8 pavimentos tipo, como est8 comprovado em nosso relatbrio. Dizer a verdade sobre qualquer assunto que por forga professional temos que emitir, tem que ser feito sob o aspecto t~cnico, independent de qualquer vinculo comn as pessoas. O relat6rio foi desta forma elaborado tanto para a Caixa Econ8. mica como para a Construtora Marques Farias. Tenho convicotio, embora conhepa V. Sria. apenas por seus artigos, que o seu comportamento 6tico seria o mesmo. Pelo exposto, pego que o assunto seja colocado nos ter- mos do que foi relatado. Aproveito a oportunidade para felicitar sua iniciativa no seu Jornal Pessoal". N. da R. A frase citad~a entire aspas consta do parecer do engenheiro Paulo Marques, irmlio de um dos dons da Construtora Marques Farias, e niio do parecer de Jos6 Maria Vieira Filho. Sobre o desabamento do edificio Raimundo Fa- rias, as verdades dos envolvidos ja foram apresentadas. Faita, agora, apurar a "verdad~e verdadeira", que, espera-se, surgird no curso do contradit6rio judicial. Este journal, que vem acom- panhando o caso, voltar8 a tratar do assunto. Depois de le. vantar os documents incluidos no inqu6rito policial, ouvird os testemunhos. A relevlncia da questlio para a vida da ci- dade justifica o interesse permanent. loaOIal PCSSOal Editor respons~vel : Li~cio Fl~vio Pinto Enderego (provisbrio): rua Aristides Lobo, 871 Belbm, Parid, 66.000. Fone: 224.3728 Diagramagio e ilustraglo: Luiz Pinto Op~lo Jornalistica acabada se Kayath chegar ao Palscio Lauro SodrB. Se sobreviverem fisicamente ate 18, s6 entlio os "baratistas" histbricos conquistarlio o poder. Pode- se ter uma iddia do que oc~orrer8 entlio pelo que jBk fizeram at6! agora, tendo apenas uma parcela do poder. Olhar para o future Niio 6 o que um cidadao espera para o seu Estado, vendo ocorrer uma re- gressito political justamente quando mais se exigo algo contempor~neo, ao menos, a esse saque mo- derno. HE um viicuo de vontade, de compreensho e de inteliggncia que comprometerdi o future deste Para, expondo seus bens naturals e humans - a essa pilhagem que o desfigura, dando-lhe a apa- rencia de Estado derrotado, Incapaz de sequer saues o que Ihe val pelas entranhas. O present 1a e! suti- clentemente terrivel para que ainda sejamos embro- mnados por um passadismo natimorto, que so a iner- cia da sociedade faz passar por coisa viva. Diante desse quadro, nho hdi motivaglio para aceitar medalhas. Nem hB razio para Bel~m come" morar aniversdirio. A cidade est8 sendo desfigurada diante dos nossos olhos. Nada fazemos para evitar atos danosos, que tornarito, dentro de alguns anos, insuportilvel viver aqui. Os parediies de concrete transformarlio em privildgio o calor do qual hoje nos queixamos. A brisa quase constant que a natureza ofereceu g cidade, gragas a sua proximidade comn o mar aberto, serdi desviada por essas estruturas, com a agravante de que elas se erguem em locals ina- dequados. E claro q~ue o problema niio 6, teoricamente, de engenharia. T6quio jdi est8 construindo pr6dios, sob fantasticas molas de ago, capazes de resistir aos constantes abalos que sofre, avango que jB foi tes- tado c~om sucesso. Pode-se tamb6m edificar satis- fatoriamente sobre plintanos, desde que a engenha- ria esteja marcada por essa preocupaglio e o poder p~blico tenha fixado regras em functio desse con- texto. Nada disso hB em Bel~m, onde o Ojnico com- bustivel emn uso 6 o da mais desenfreada espec~ula- glio, que leva construtores a desrespeitarem os c6- cligos e ignorarem at8 mesmno os gestos das autori- dades, transformados em coisa inirtil, como o prefeito mnterino. Osdas Silva, ao lado dos escom- bros de um predio cujo estilo de 6poca mereceria ser preservado. A Prefeitura assisted, impotente, o desm~orona- niento do "ethos" da cidade, de sua mem6ria, como algo plenamente descart~vel e at8 mesmo inevittivel. O imobilismo 6t geral e profundo. S6 ele explica como foi possivel derrubar, no ano passado, o pr~dio da Booth Line, na avenida Presidente Vargas, c~omo jd, antes, fora descaracterizado a Palacete Pinho e posto abaixo o casarlio da Palmeira, hoje um buraco, amanh5 para desespero de quem vive ou circula pelo centro um "shopping-center". |
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