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Jornal pessoal
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 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00009

Full Text

No 9


Circulagio apenas entire assinantes


14 Ouinzena de Janeiro de 1988


GARIMPO



Ou ro: a gue rra su ja
Serra Pelada continue sendo um caldeirio
de interesses, explodindo todas as vezes que eles entram
em cheque. A tIltima batalha gerou, como sempre
mortos. Mas a verdade ainda vai demorar a aparecer.


orrer 6- um ft orqiopaam lhae
pessoas (60% delas, no minimo, maranhen-
ses) que trabalham ou circulam pelo garimpo
de Serra Pelada, no sul do Pard. Oficialmente,
dali Js foram extraidas mais de 40 toneladas de ouro.
rt riqueza superior a 52 bilhees de cruzados, duas
vezes o orgamento do Estado para 1988. Diz-se -
em estimativa modest que mais metade dessa
produ~go official deve ter said ilegalmente, sem re-
gistro. E faganha sem paralelo para garimpo que nio
ocupa 50 mil metros quadrados de grea, ou cinco
hectares.
Dos 100 bilhaes de cruzados qlue Serra Pelada
gerou, por via legal ou illegal, reduzidissima fragio
ficou nas mios dos milhares de homes, humildes
e rudes, que se acostumaram a condigdes de traba-
Iho medievais e ao permanent c~ircuito da viol~ncia
e da morte. Dezenas je morreram debaixo de terra
e pedras roladas das encostas dos barrancos, apa-
nhando-os nas laterals ou no fundo da cava, um bu-
raco de mais de 100 metros de profundidade (equi-
valente a um predio de mais de 30 andares), que s6
nio fica sempre alagado porque bombas de sucio
funcionam sem parar, tirando Bgua.
Assim como nio se sabe quanto exatamente
Serra Pelada jB produziu de ouro, o nlimero correto
de mortos no garimpo 6 desconhecido. Essa conta-


bilidade macabra foi reforgada no dia 29 de dezem-
bro, quando 350 homes da Polic~ia Militar avangaram
sobre 1.500 ou dois mil garimpeiros (apesar de refe-
rdncias exageradas a at6 cinco mil), acampados na
ponte rodoferrovibria sobre o rio Tocantins, a seis
quil6metros da cidade de MarabB, langaram bombas
de gas lacrimoggneo, deram golpes de cassette e
dispararam tiros de rev61ver e fuzil.
Um piauiense de 33 anos morreu no local, comn
o abdomen varado por uma bala de fuzil, e outro
quando tentavam atend6-lo no Hospital da Fundagio
SESP. Atd o final da semana passada eram os dois
unicos corpos de vitimas oficialmente reconhecidas.
Outras 20 pessoas, entire as quais uma mulher e um
menor, receberam atendimento no mesmo hospital:
estavam feridas a bala ou apresentavam lesaes cau-
sadas por espancamentos. Mais da metade dos fe-
ridos por disparos foram atingidos por tr~s, quando
corriam. Depois de medicados, todos foram dispen-
sados, sem necessidade de hospitalizaCio.
O jogo da morte Mas a violgncia usada pela
Policia Militar alimentava a convic6Bo de que o nB-
mero de vitimas poderia ter sido bem maior. Havia
a possibilidade de corpos terem caido ao rio Tocan-
tins, quase 70 metros abaixo da ponte de concrete
e aco, a principal obra de arte da ferrovia de Carajis
e do complex rodovibrio entire o Maranhio e o Parb.


Jom Pessoa
Lrcio Flsivio Pinto








Antes mesmo de qualquer confirmaCio, as especula-
goes adquiriam conternos de denaincia ou mesmo de
verdade.
A4 morte est8 na agenda dibria dos garimpeiros
de Serra Pelada. Vbrios morreram por insistlr em
trabalhar clandestinamente, a noite, em locals inter-
ditados. Sabiam que a escavaG~o poderia provocar
desmoronamentos, mas a "febre do ouro" foi moti-
vagao nlais torte. Nemn todos os mortos foram re-
clamados per parents distantes, como o home
oranco, torte, de cabelos louros, que teve o pulmbo
atravessado por uma bala e permanecia 21 espera de
identifica~go em Marabb, como a segunda vitima
confirmada do cheque comn a PM.
Informagao exata 6 produto raro no caldeirbo de
tenses e inte~resses de Serra Pelada. Qualquer in-
formaghio serve para alguma das multas parties en-
volvidas, por acordo ou litigio. O governador HIlio
Gueiros, por exemplo, repassou g imprensa a ver
sho da PM de que os ocupantes da ponte teriamn
reagido a bala e sustentado um principio de tiroteio.
No entanto, nenhum home da PM queixou-se do
menor ferimento. Ainda que a verso oposta, de que
todos os garimpeiros estavam completamente desar-
mados, parega inverossimel, um balango dos aconte-
cimentos deixava mais do que evidentes oa exces-
sos praticados pela tropa.
Agente oculto AI6m de erros na condugho da
operagho de desobstrugho da ponte, fica nitida a
impressio de que a PM esperava uma reaqio dos
garimpeiros multo mais agressiva do que a d6bil
tentative de grupos reduzidos, estimulados pelo 6l-
cool ou por alguma palavra-de-ordem mais agressi-
va. E prov~vel tamb6m que oa garimpeiros nho es-
perassem uma investida t~io violent como a da tro-
pa. Pouco mais de um m~s antes a policia disparara
para o ar quando foi liberar a Belgm-Brasilla, blo-
queada por moradores da vila M~e-do-Rio. Na ponte
do Tocantins s6 os primeiros tiros foram para o ar;
depois, buscaram aivos.
Essa attitude agressiva pode ser explicada pela
expectativa criada dentro do prbprio governor. No
final da tarde do dia 29, vgspera do conflito, a dele-
gacia da Policia Federal em Marabi informou que os
garimpeiros decidiram reagir a qualquer tentative de
represslo pondo fogo "em todos os veiculos que so
encontram na referida ponte e manterem como re-
fem o dr. Nelson Marabuto, que preside as negocia-
g6es em Serra Pelada em nome do ministry do Inte-
rior"'. O governador H61lio Guelros recebeu o tele-
grama da PF na manha do dia 30. Pouco depois de-
terminava que a PM s6 aguardasse a desocupagio
espontinea da ponte at6 o final da tarde. A desobs-
truGhb teria que ser feita antes da noite avangar,
"de qlualguer maneira".
Na vespera e ao long da terga-feira o governa-
dor recebeu seguidos telefonemas de Brasilia e do


Rio de Janeiro.O chefe do SNI (Servigo Nacional de
Informag6es), general Ivan Mendes, e o president
da Companhia Vale do Rio Doce, Agripino Abran-
ches, manifestavam preocupaCio comn a manutend8o
do bloqueio. A CVRD construiu a ponte e a terrovia
de Caraj~s, que Ihe custaram 1,5 bilhio de d61ares,
para usa-las no escoamento da produgio de minbrio
para embarque no porto da Ponta da Madeira, no li-
toral do Maranhao, a 870 quilbmetros da mina. f o
segundo maior eixo de exportagio do pais, que a
Vale opera na condigio de concessionbiria federal,
que exercer8 pelos pr6ximos 50 anos.

O carregamento dos navios que vgm de v~rias
parties do mund~o, mas sobretudo do Japho, em busca
do excelente minerio de ferro de Caraj~s nso pode-
ria ser prejudicado pelo bloqueio do trifego de trens
na ponte, ainda que a suspensio durasse v~rios dias.
O porto tem um estoque estrat~gico jus~tamente para
prevenir eventualidades desfavor~vels. MVas dificil-
mente compradores europeus e japoneses entende-
riam que uma ferrovia de tal importancia tivesse
sido paralisada por garimpeiros dispostos a morrer
para garantir seu melo de sobrevivencia. Paises de-
senvolvidos nio t~m mais ease tipo de problema hB
dgcadas, ou hB mais de seculo.

Os mais insistentes telefonemas, porem, foram
dados pelo ministry da Justiga. Sem nunca ser pro-
priamente explicit, o ministry Paulo Brossard -
cujo interesse recent pelo conflagrado sul do Pard
chega a ser com~ovente insinuava a necessidade
de o governor estadual assumir plenamente a tarefa
de garantir a seguranga pdiblica dentro de seus limi-
tes e algada. Mas Brossard n~o fez qualquer refe-
rancia ao que estava fazendo (e falando) a Policia
Federal, uma depend~ncia do Minist~rio da Justiqa.
As relag6es entire o ministry e o director do DPF,
delegado Romeu Tuma, estlo mais do que deterio-
radas.

O governador assumiu todas as responsabilida-
des pelo que a PM praticou na ponte, negando que
as ligag6es de Brasilia e do Rio de Janeiro tivessem
influido sobre o rigor na ordem de desobstrugh~o. No
dia seguinte recebeu uma esp6cie de console: o
comandante da 8a Regiho Militar, general Romero
Lepesquer, o visitou no Palicio Lauro Sodre e, sob
o pretexto de cumpriment4-lo pelo ano novo, infor-
mou-o de que o Exercito reforgaria o 520 Batalhio
de Infantaria de Selva, em Marabb, com 150 homes
remanejados do 29 BIS, em Belem. A tropa chega-
ria ostensivamente a Marabs para ser notada por
todos, ainda que nio interviesse na operaGio, man-
tida exclusivamente pela PM. A justificativa apre-
sentada foi de que o 52Q BIS estava desfalcado em
seu efetivo por causa das liceng~as de final de ano.

Guerra estranha Foi esta provavelmente a
linica iniciativa de apolo do governor federal ao es-








tadual. O president Jos6 Sarney telefonou de seu
retire maranhense, na ilha do Curupu, mas, segundo
fontes de Brasilia, limitou-se a cumprimentar o go-
vernador e agradecer-lhe o apolo. Gueiros tamb~m
nio provocou a questio incbmoda. No entanto, nho
faltaram petardos contra o governador.
Os mais agressivos, naturaimente, vieram dos
garimpeiros. Os mais graves, no entanto, partiram
do paiol da Policia Federal. Ja na quinta-feira che-
gou a Serra Pelada um enviado especial, delegado
Wilson Perp~tuo comn a mission de fazer uma avalia-
glio da situaglio e relatar suas observaq~es ao mi-
nistro Paulo Brossard, antes entregando-as a Tuma,
naturalmente. Ele passou quase todo o tempo em
Serra Pelada mesmo (fez apenas uma rspida incur-
slio a MarabB), ouvindo garimpeiros.
Ouviu, como os outros 15 ou 20 agents da PF
na grea, o auto-assumido organizador da ocupagio
da ponte, Victor Hugo, 37 anos, ameagar -- num
comicio feito no palanque do garimpo destruir
trechos da ferrovia se os terms do acordo assina-
do com o representante do Ministerio do Interior,
Nelson Marabuto, nito forem cumpridos pelo gover-
no. Victor Hugo garantiu que os garimpeiros t~m
dinamite e sabertio us8-la para explodir os trilhos,
que passam a pouco mais de 20 quilimetros ao nor-
te da cava. Um agent, consultado, minimizou a
declaraglio: "Os garimpeiros estlio de cabega quen-
te", disse, sem negar, entretanto, a possibilidade.
Fora de Serra Pelada uma tal ameaga teria gerado
imediatamente process pela Lei de Seguranga Na-
cional, que a Nova Repiiblica ainda mant6m. Victor
Hugo, que tem participation em alguns barrancos e
B fornecedor de garimpeiros, nio foi incomodado.
Quase tiio agressivo quanto Victor Hugo, foi o
delegado substitute da PF em Serra Pelada, Isaias
Munhosa (o titular, Paulo Duarte, que 8 nome de
hospital, estava de licenga quando ocorreram os
incidentss. Isaias acusou a PM de ter ocultado ca-
diveres, assegurava que havia pelo menos oito mor-
tos e dizia ter uma relagilo de 79 desaparecidos
que tamb6m poderiam ter morrido. JB em Brasilia,
Marabuto aproveitou o mote e anunciou para o "Jor-
nal do Brasil" que os mortos poderiam chegar a
100, com base em uma list que ninguem chegou
a conferir.

A "febre do ouro" O comportamento da po-
licia em Serra Pelada discrepa em relaglio ao que
B usual em outras Breas menos carregadas dessa
tensilo especial que o ouro provoca. Na resposta,
o governador H61io Gueiros foi explicit quando se
referiu B "febre do ouro", apontando a porcentagem
destinada g cooperative, 5% sobre a produgio total,
como um fator de fascinio e seduglio.
De fato, tris diretorias e duas interventorias
passaram pela directio de uma cooperative que se
julga a maior do pais, com 50 mil associados, e sem
d~vida g uma das mais polbmicas, para dizer o mi-


nimo. Suas contas sio uma confus~o, suas dividas
um assombro e o tratamento principesco que dis-
pensa aos diretores, remunerados com sal~rios de
marajss, contrast com a pobreza da esmagadora
maioria dos filiados. Mas Nelson Marabuto, depois
de atribulada administra~gio na presidencia da Funai
e metecirica passage pela subsecretaria de Segu-
ranga Pljblica do Rio de Janeiro, JA aposentado da
Policia Federal, nega a carapuga e devolve a acusa-
glio ao governador, travand~o comn ele um duelo se-
melhante ao que envolveu o president da CNEN
(Companhia Nacional de Energia Nuclear), Rex Naza-
reth Alves, sobre a deposiglio do lixo atbmico no
ParB. Marabuto diz que 6 pobre e honrado.

Outros jB fizeram a mesma declaraglio, mas 100
bilhoes de cruzados, a valores de hoje, 6 multo dl-
nheiro. As riquezas que possibilitou acabam apa-
recendo. As riquezas que promete s~o uma tenta-
glio. O ex-todo-poderoso chefe de Serra Pelada, o
"major Curi6" do SNI, que imprimiu a face de Serra
Pelada quando p~s para correr oa compradores in-
dividuais de ouro, 6 hoje, ele pr6prio, um bem-suce-
dido comprador, depois de exercer um rjnico man-
dato de deputado federal pelo PDS, obtido gragas a
uma campanha milionbria, que os "capitalistas" de
Serra Pelada financiaram.

Identidades mutantes A mera observaglio vi-
sual seria suficiente para distingiiir os homes e mu-
lheres que bloquearam a ponte dos que, a seis quilb-
metros dali, se sentavam na mesa de negociagbes,
na sede da Prefeitura de MarabB, limpos, perfumados
a bem vestidos, para negociar o acordo em nome dos
garimpeiros. Tantas e tiio desconexas liderancas
acabaram prejudicando o movimento, que, em outras
ocasi~es, conseguia aparentar maior coestio e uni-
dade. Para que o acordo assinado na Prefeitura pu-
desse ter algum valor toi necesabrio buscar adestio
para ele na serra e na ponte. Os negociadores tive-
ram que gastar horas no convencimento de pessoas
sem interesses afins. O document acabou perden-
do coerancia e forga.


Esse resultado nito surpreende. Os garimpeiros
fizeram a obstruFio da estrada no inicio do inverno,
epoca pouco apropriada para a movimentaglio de
terra. Mesmo que o rebaixamento emergencial seja
executado no prazo previsto por ,Marabuto, de 60
dias, dificilmente permitird o reinicio das atividades,
Poucos acreditam no cumprimento de outros itens,
comlo a definiCtio do rebaixamento definitive, que exi-
girs 80 vezes mais serving e custard 12 vezes mais.
Mais do que em qualquer outra ocasillo, fica palp~vel
a sensaglio de que os sofridos garimpeiros, expondo-
se ao risco da morte diante da policia, defenderam
menos seus interesses do que oa de outros grupos
personagens obliquos e quase Invisiveis nessa obs-
cura hist~rla que 4 Serra Pelada.















Durante quase trgs anos o garimpo de Serra
Pelada foi comandado por um tenente-coronel do
Ex~rcito, que era agent do SNI (Servigo Nacional
de Informagies), 6rglio destinado por lei a assesso-
rar o president da Repljblica. Esse coordenador se
apresentava de pljblico por um pseud~nimo e se di-
zia membro do Conselho de Seguranga Nacional, o
mais alto colegiado da administraGio pliblica, for-
mado pelo president e todos os ministros, que nun-
ca protestou contra o uso indevido de seu nome.
Ningu~m tambem reagiu por um 6rgio de assesso-
ria do president assumir fungBo operacional e
para legal.
Semi-deus durante esse period no garimpo, o
ex-deputado federal Sebastiso Rodrigues de Moura,
o "Curi6", 6 hoje umn nome execrado em Serra Pela-
da. Mas 16 continuam trabalhando dois matadores
que "Curib" recrutou na pr6pria regiho para comba-
ter a guerrilha do PC do B, depois instalou como
agricultores na OP-3 (estrada primbria aberta pelo
Ex~rcito) e, finalmente, levou para o garimpo como
"olheiros" e guarda-costas. "P6-na-cova" teria cor-
tado a cabega de "Osvaldho o lider da guerrilha.
Mas 6 discrete.
Hist6rias assim bizarras fazem parte da "nor-
malidade" em Serra Pelada, O Oinico garimpo criado
por lei e mantido pelo contribuinte brasileiro. Ali 6
considerado garimpeiro tanto o secretirio-geral do
sindicato, Milton Gatti, o home mais rico de Serra
Pelada, donor de fazendas e posto de gasoline, que
fornece para 160 barrancos, como Jesus Pinheiro, o
ex-assessor pessoal do entio ministry das .Minas e
Energia, C~sar Cals, que possum quatro barrancos em
posiCtio privilegiada. Uma relagio de detentores oe
barrancos, que estio por tr~s de milhares de "sa-
queiros", "mneias-pragas" e "testas-de-ferro", sur-
preenderia mais do que a lista de "doagies" dos
banqueiros do jogo do bicho.
Para o "formiga", o home que escava o fundo
do buraco e carrega a terra rros ombros, o "bambur-
ro" de ouro 6 uma possibilidade tio plausivel quan-


to ganhar o grande prgmio na loteria esportiva. Au-
mente ou diminua a produgho, para esse enorme con-
tingente flutuante, que jB chegou a reunir mais de
50 mil homes, trabalhar ali rende um prato de co-
mida e 20 cruzados por cada saco de terra.
O rejeito 6 c~onduzido para autinticas fortalezas,
onde B lavado e dali se extra atualmente a maior
parcela da produg~o de ouro, JB que apenas dois ou
tras por cento dos barrancos est& em atividade. O
morro artificial de rejeitos que se formou das exca-
vaqdes deve center, segundo c~lculos conservado-
res, mais de 10 toneladas de ouro, que valeriam ago-
ra 10 bilh~es de cruzados. Essa 6 a linica mina
segura de Serra Pelada. Por isso, a diretoria anterior
chegou a negociar esse rejeito com uma empresa
australiana, que pagaria, de "comissio", um milhio
de ddlares a cada director. Mas o acordo nho chegou
a ser fechado. Ao nivel de 50 quilos por mgs, o mor-
ro levaria mais de oito anos rendendo bem, at6 ter
todo o seu ouro esgotado.
Certamente multos grupos, dentro e fora de!
Serra Pelada, est~o de olho nessa mina. Se por aca-
so nio houver mais ouro no subsolo, ou nho tanto,
6 para o monte que convergirio os interesses. Mas
essa 6 a segunda etapa, que esses grupos s6i irio
acionar depois que o garimpo for desmobilizado.
Por enquanto, a meta 6 conseguir convencer o go-
verno a aplicar mais dinheiro em Serra Pelada, nio
tanto para o rebaixamento dos altos taludes, mas
para a amortizagBo dos capitals investidos. Nao 6
por outro motiv o qe jB existe uma AssociaGio dos
Fornecedores de Serra Pelada, dentro da qual estho
112 credores, reclamando quase 200 milhbes de cru-
zados. G o mais poderoso "lobby" dentro do garim-
po. E, tamb6m, a outra mina.
O grupo de trabalho formado pelo governor para
proper solug~es para o garimpo endossou a princi-
pal reivindicaglo desse grupo, recomendando a apli-
cagao de 315 milhbes de cruzados a fundo perdido.
Os credores ficariam com quase 310 milh~es. Os
garimpeiros 6 que levariam a fama, como sempre.


Nio h6 mais do que duas mil pessoas realmen-
to produzindo ouro em Serra Pelada. Tiram em m6-
dia entire 4 e 6 quilos por dia. A renda presumfvel,
pouco acima de 5 milhbes de c~ruzados, nio dB para
manter os investimentos necessdrios g produgao,


nem garante a sobrevivgncia de uma comunidade 10
ou 20 vezes maior (as estatisticas t~m sempre uma
enorme margem de imprecis~io). Pouco sobra para
amortizar o que ji foi aplicado em Serra Pelada.
Assim, s6 hB uma alternative: encontrar mais ouro


GARIMPO




Jogo duro da especulaq~o


O "lobby" dos capitalistas








transformando-se por forga da alta especulagio
havida em Serra Pelada em assalariados, sem
vincula~go empregaticia e sem qualquer das vanta-
gens que o direito social confere a outros trabalha-
dores. Vivem na expectativa do "bamburro", a gran-
de descoberta, cada vez mais rara num garimpo que
s6j produz menos de uma sexta parte das 13 tonela-
das records alcangadas em 1983.
Naturaimente, 6 possivel dizer que o garimpo
nao produz mais porque a grea trabalhdvel ficou di-
minuta. Com a interdigSo de quase toda a cava, a
produg~o prov~m da lavagem de cascalho. ainda
contaminado de ouro. HE cascalho que jB foi lavado
mais de 10 vezes. Os garimpeiros, no entanto, es-
thej firmemente convencidos de que ainda existe
multo mais em camadas que se aprofundam. O "ma-
jor Curid" nio thes disse que hB uma laje compact
de ouro la embaixo? O interesse da Companhia Vale
do Rlo Doce de receber de volta a Brea seria mais
um element a confirmer a desconfianGa.
E estranho, assim, que, no acordo de 16 itens,
nenhuma das duas parties tenha feito referbncia a
novos estudos geol~gicos, a Ojnica maneira de con-
firmar se hB ou n~io mais ouro e em que volume
- para justificar os 10 milh~es de d61ares que o
rebaixamento definitive val exigir. Sem as sonda-
gens mais profundas e as anllises t6cnicas, aplicar
em Serra Pelada torna-se uma loteria, que custard
carol aos cofres pliblicos, principalmente com o risco
de novos desvios de dinheiro para bolsos particu-
lares.


ou forgar o governor a jogar dinheiro na brea. Do
contrsrio, sem precisar lutar contra seus fantasmas,
reals ou imagindrios, Serra Pelada, a maior mina de
ouro da histbria brasileira, ir8 a fal~ncia. Se 6 que
jB nho est8 falida.

A~ divida da cooperative, a Coogar, criada em
1984 para administrar o garimpo, 6 avaliada em 440
milh~es de cruzados. S6 com a Construtora Brasil,
respons~vel por v6rios servings de terraplenagem,
ela seria de 110 milhdes de cruzados. Duas outras
construtoras teriam direito a 80 milh6es. Milton
Gatti. um dos maiores dons de barrancos, espera
receber desde 1983, pelo fornecimento de 61eo e
lubrificante, um cr6dito de 60 mith~es de cruzados.

Homens como Gatti, que ja Iangaram em suas
contas de deve ou de haver muitos milh~es de cru-
zados, sho tratados impropriamente como garimpei-
ros. Eles pertencem a uma casta de n~io mais do
que 100 "capitalistas", B qual so agregam os forne-
cedores, nem sempre diferencidvels uns dos outros,
como acontece com o pr6prio Gatti e Victor Hugo.
Chegam a participar, com porc~entagens, de dezenas
de barrancos, Iotes do aproximadamente seis me-
tros quadrados, que ultrapassavam trgs mil quando
ainda era possivel dar alguma ordem ao fundo da
cava.

Os verdadeiros garimpeiros, no significado ori-
ginal da palavra, slo hoje "formigas": raros mais
de 90% num universe de 40 mil homes conse-
guiram manter-se como produtores autbnomos,


constituem uma incognita para os historiad~ores. "A
guerrilha ainda 6 uma sindrome", diz um destacado
personagem do governor: "os militares raciocinam
que se ela ocorreu uma vez, poderb voltar de novo,
desde que se repitam as condiG~ees".

Nessa regiho estlo alguns dos maiores investi-
mentos puiblicos ou privados do Brasil, como a hi-
drel6trica de Tucurui (custo de 5,5 bilhbes de d61a-
res), com seu reservat6rio espraiando-se por 2.430
quildmetros quadrados e acumulando 45 trilh~es de
litros de Agua, e o Projeto Ferro Carajirs (3,1 bilhbes
de d61ares). O principal item desse empreendimen-
to 6 a ferrovia, que os garimpeiros periodicamente
ameagam sabotar. Uma tropa de elite pode facil-
mlente ser deslocada de helicbptero para prevenir
ou combater atos desse tipo. A simples m~ontagem
de uma estrutura militer mais pesada influiria sobre
o Anime de v~rios dos personagens envolvidos nos
constantes e numerosos conflitos que ocorrem? na
regitio. Sua complexidade social, ao que parece, vai
corresponder a uma intensificaCgo do process do
militarizagio ou de sofisticaCgo dessa presenga.


O Ex~rcito vai reforgar o seu efetivo em Mara-
bB, instalando novas unidades, uma aerotransporta-
da e outra de blindados. Com isso, dard mais im-
portincia a 23a Brigada Militar, que comanda bata-
Ih~es de infantaria de selva espalhados por MarabB,
Altamira, Itaituba (no Pars) e Imperatriz, no Mara-
nhao. HE entire 600 e 700 homes nesses batalhoes,
mas pobremente equipados.


A 23a Brigada, chefiada por um general, recebe-
rB um novo quart~el, jB em construgho, projetado
para abrigar mil homes. A infantaria sedio acres-
cidas tropas aerotransfortadas e grupos de carros
leves e pesados. O objetivo da ampliaqio e do re-
forgo 4 evidence: MarabB domina uma das regimes
mais estratggicas do pais, nio s6 pelo conjunto de
atividades que redne ou vir8 a ter proximamente,
como porque em sua Brea de influencia ocorreu um
fato traum~tico para oa 6rglos de seguranga inter-
na: a guerrilha organizada pelo Partido Comunista
do Brasil, s6 definitivamente erradicada em 1975,
ao fim de sucessivas campanhas que, mesmo hoje,


Presenga military mais forte








LIVRO


acerto de contas


Num livro corrosive e brilhante, Haroldo Maranhio
reconstitui literariamente os Qltimos tempos do mais poderoso
journal da hist6ria do ParB, a "Folha do Norte"'.
E tira uma liChio: journal nio 6 s6 folha de papel.


Atd o final da decada de 60, vendedor de journal
em BelBm nlo era jornaleiro: era "folheiro", expres-
slio inventada pelo povo em razlio do absolute domi-
nio exercido na imprensa paraense, durante pelo
menos cineo dbcadas, pela "Folha do Norte", o journal
de Paulo Maranhio. Da Bahia (onde imperava e ain-
da impera "A Tarde") para cima, nenhum se com-
parava em poder e prestigio a "Folha". Os jornalei-
ros sabiam disso e s6 apregoavam o nome da "Folha"
ao percorrerem matinalmente as ruas de BelBm, sem
a concorrbncia das bancas, inovagilo trazida pelas
estradas. Viraram "folheiros", para desespero dos
outros Jornals.
Nenhum poder se estabelecia no ParB sem que,
antes, o candidate posasse ao lado do "velho" Ma-
ranhbo, sentado em cadeira de palhinha e tendo ao
fundo estantes anarquicamente entulhadas de livros,
para engalanar o inevit~vel registro fotogrdfico da
visit. A forga da "Folha", no entanto, nito foi con-
quistada facilmente: durante duas d6cadas e meia
ela travou ferozes batalhas contra o outro eixo do
poder local, o general Magalhlies Barata, epigono do
"baratismo". Paulo e Joho Maranhilo, seu filho e
incansivel gerente, viviam praticamente exilados no
predio da "Folha", cuja arquitetura sugeria mesmo
estradas. Viraram "folheiros".
Nem sempre tiveram sucesso: Paulo Maranhlo
foi banhado em fezes quando entrava em sua casa,
jB septuagendrio, num atentado praticado por um dos
mais radicals "baratistas", Armando Correia, a par-
tir de entlio tratado pela "Folha" como "Armando
Trampa". Ao reagir a uma referbncia do journal "ba-
ratista" de entlio, "O Liberal", que divulgara o inusi-
tado incident sob o pretexto de cobrar a instaura-
~gio de inqu6rito para reparar o dano, Maranhilo foi
mais uma vez devastador: disse que de um governor
de merda, s6 se poderia mesmo esperar merda.
Barata morreu em 1959 e o "baratismo", a partir
de entiio, entraria na curva descendente. A "Folha"
tamb6m seguiria o destiny de seus inimigos mortais,
nito propriamente por causa deles. A causa determi-
nante da destrulglio do Jornal, que desapareceria no
inicio da decada de 70, viria de dentro dele mnesmo,
por desentendimentos e erros crassos praticados por
membros da familiar ou, especificamente, por um
deles, CI6vis Niaranhilo, filho do "velho" Paulo, que
morreu a tempo de nito ver o fim de aeu jornal.


Ajuste de contas Um neto do Jornalista, tambem
ele jornalista, mas acima de tudo escritor, revolveu
as feridas e sujeiras que marcaram a paixiio do prin-
cipal jornal paraense. "Rio de Ralvas" (Editora Fran-
cisco Alves, 278 p~ginas, 1987) 6 um ajuste de con-
tas de Haroldo Maranhilo com a amarga histbria dos
dias derradeiros da "Folha", "Folharal" no livro. f
tambgm o corrosive retrato de uma 6poca, a 6poca
anterior a "integraglio" da Amaz~nia a este outro
pafs chamado Brasil. E mals uma prova da imensa
capacidade criadora do mals importante ficcionista
da Belem contemporsnea.
"Rio de Raivas" 6 o prolongamento de "Os
An~es", romance langado em 1984, embora en-
quanto tem~tica seja cronologicamente anterior.
Personagens de um livro emergem no outro, todos
reais ou reconstruidos a partir de inspiraglio na rea-
lidade. Um dos divertimentos ou martirios, con-
forme a identidade do leitor que Haroldo Mara-
nhilo oferece 4 justamente a busca das identidades
frouxamente escondidea sob nomes bizarros. Cagar-


U m








Sraios Palscio 6 Barata. Palma Cavalso (tirado de Eca
de Queiroz) 6 Paulo Maranhlo, com uns acr6scimos
de Joso, pai de Haroldo. Em torno deles gravita uma
legitio de homes e mulheres que nio conseguem
definir um caminho pr6prio, uma alternative ao dua-
lismo que marcou as ditimas d6cadas em que o Pard
piide produzir political prbpria, ainda que de baixa
qualidade. Depois, niio seria mais do que uma satra.
pia do poder central, como quase todo o Brasil, de
resto .

A pena gcida de Haroldo desenha os contornos
/tragic8micos desse caleidosc6pio humane. Outros
escritores antes dele e, at6 a definitive globaliza-
glio do planet, outros depois desnudaram esses
mundos provincianos, com seus tipos e molduras.
Gragas Rs suas qualidades de escritor, Haroldo estd
SIncorporando BelBm ao universe da melhor literature.
Mas tamb6m ajudando-a a se conhecer melhor. A
Sficolio the dB essa possibilidade de escapar g bitola
reducionista da cigncia. Em relaglio B capital paraen-
se, nenhum outro escritor tem feito mais do que ele.

Fechada em seus Irmites, dos quais poucos con-
seguem escapar (o "Folharal" at6 criou a coluna "pa-
Sraenses que vencem no sul" para saud8-los), a cida-
Sde cria seu modo de vida, sua prbpria linguagem,
que Haroldo capta com felicidade, referindo-se a pa-
lavras e expressiies como petisqueiro, p8-casca, nd-
ris de pitibiriba, de flose, cogado (que o obtuse "Au-
rdlio" nito registrar, qual 6 o p6, ir parar na caixa-
prego, capina da minha frente, escreveu nito leu pau
comeu.

Mundo em decadgncia O romance dB a chave
para entender esse mundo e usufruir dele. Tem, as.
sim, duplo valor. Como obra literdria, permit o pra-
zer da leitura gragas a uma narrative Agil e simples,
nessa simplicidade das coisas bem construidas. Co-
mo testemunho, o livro 6 uma bomba atirada sobre
os contempor~neos, para meditarem sobre os tempos
apaixonados da "era de Barata". Haroldo comeca
desmontando a empatia dos lideres e a fachada de
respeito de suas cidadelas, enquanto apanha os pi-
rilampos que gravitam em torno dos chefes coem
seus espamos de luz.

I' o brilho da inventive, da graga, do humor, do
trago prciprio que ds atraglio a esses microscosmos
de gentes. Mas aos poucos, mesmo sem aprofundar
a caracterizaglio de tipos (cacoete de contista), Ha-
roldo val convergindo para os dois personagens em-
blemiticos, enquanto apequena os coadjuvantes. Na
segunda metade do livro, sobreleva Cagarrios e Pal-
ma acima da mediocridade generalizante, dando-lbes
uma estatura de lideres que jB faltava B 6poca e e 4
ainda mais vasqueira hoje. Superabundam os anbes.
Somem os gigantes. A percepGlio 6 a mesma ao fim
de "Os An~es" e "Rio de Ralvas". A decad~ncia do
Pars, um Estado que perde a luta por sua pr6pria
identidade e destiny, comega na decad~ncia de suas
liderancas .


O retorno de Mimi Cavallio (CIbvis Maranhiolo
para "modernizar" o "Folharal" 6 a expresso desse
dieclinio. Para comandar a reform, traz do Rio de
Janeiro o marechal reformado Gorila Majestic (mare-
chal Augusto Magessi), "que niio sabe distingiiir um
fuzri de um croquete de camario, mas marech~al"'.
Para canalizar melhor sua indignaglio, Haroldo passa.
por cima da hist6ria real e constrbi uma trag~dia
mais g altura da fic68o: Cavallo more antes de Ca-
garraios, mas depois da intervengio de Mimi, que o
interdita judicialmente e o langa a indigbncia; Majes-
tic chega antes do movimento military de 1964, a tem-
po de ser contempor~neo de Cagarraios.

Do leito, Caval~io ganha lucidez e dignidade, ven-
do desmoronar sua obra: "Os jornais cumprem um
ciclo de vida, como as pessoas. Niio 6 mais um Jor-
nal, mas um papel sem opiniao", observaGio de valor
eterno em relaglio aos jornais, que seus dons even-
tuais nem sempre slio capazes de perceber. A sirene
do "Folharal", acionada em todos os mementos gra-
ves como "aviso de mau agouro que alastrava a
Inquietaglio na cidade como o canto do acauii", niio
dobrou para si pr6pria. I' uma sina. Sere sempre ?

Com "Rio de Raivas', Haroldo Maranhilo de o
enterro merecido a "Folha do Norte" e ao "baratis-
mo". Ao mesm~o tempo, evita que eles morram, pe-
renizando-os com o sopro da obra de arte, tiio ca-
rente numa cidade da qual at6 o vento tem sido des-
viado pelas incontrolaveis paredes de concrete le-
vantadas sebre um chilo de lama.



Para Os amigos

O ministry do Desenvolvimento Urbano (que 6
tamb~m deputado federal) Prisco Viana deixou bem
claro durante sua visit a Belem, no dia 28: o presi-
dente Jos6 Sarney sera generoso apenas com seus
amigos e aliados. Prisco, um dos politicos mais pr6-
ximos de Sarney (apesar de ser ex-malufista)- trouxe
5,3 bilhdes de cruzados da Caixa Econ~mica Federal
para serem aplicados em obras de saneamento em
Belem. Foi a primeira grande verba para o governor
Gueiros vinda de Brasilia.
Antes de assinar os convbnios, o ministry tra-
tou de esclarecer que os recursos deviam-se as po-
siq6es do governador, que "convergem para tender
os mais altos interesses nacionais". E destacou o
sentido politico do ato, muito mais do que seu signi-
ficado administrative: "O president quer prestigiar
o governor do Estado e o lider politico de dimensilo
national", referindo-se a Gueiros.

Jd o governador declarou-se um "aliado firme e
determinado' de Sarney, garantiu n~io ser "apolo
t~ergiversador, que muda a cada semana" e aprovei-
tou para defender o mandate de cinco anos para o
president.










O governor H6lo Gueiros resolve comemorar
seus oito meses de vida produzmndo uma s6rie de
seis paginas sobre as realizag6es nos principals se-
tores da administraglo pliblica. A campanha deve
ter custado quase quatro milhbes de cruzados em
veiculaGoes na imprensa. Mas, obrigado a restringir-
se ao pagamento de pessoal e ao custelo da mdquina
official, super-inchada (s6 o governor Jdder Barbalho
c~ontratou mais de 15 mil novos servidores, sem con-
curso), a campanha apresentou nfameros pilidos, re-
tratando a baixa capacidade de investimento de uma
administraghio ainda obrigada a guitar empr~stimos
da anterior.

M~ais do que em qualquer setor, no de seguran-
ga puiblica a aggncia de propaganda precisou usar -
e abusar da imaginagho para preencher a pega
publicit~ria. Teve que incluir entire os feitos da
Segup uma media illegal: a cobranga de licenga
p~ara a passage de veiculos pela estrada que da
said a Belem. A barreira montada na BR-316j e na
travessia de oalsas, segundo a Segup, reduziu o
roubo de carros, mas deixou mal o governor, que con-
tmnua agredindo a lei e dearespeitando declsao ju-
dicial .
C~onforme reconheceu o Tribunal de Justiga, ao
apreciar mandado de seguranga, o governor do Estado
pode fazer a vistoria dos voiculos, mas n~o pode
cobrar o licenciamento. O cidad~io deve submeter-se
a vistoria do carro e dos documents, mas nho a pa-
gar uma taxa nso instituida legalmente (e a legisla-
Cho sobre veiculos 6 federal). O pr6prio governador
Helio Gueiros admitiu a irregularidade, prometendo
tornar gratuita a expediG~o da licenga e descentrali-
zar o atendimento, eliminando as enormes e ener-
vantes filas. Mas sua promessa nho foi cumprida.
Assim, qualquer dos desembargadores que quisesse
cumprir sua pr6pria decislo ficaria diante do impas-
se: nito aceitar pagar a licenga, expondo-se a nito
passar na barreira, mas "comprando a briga" para
fazer cumprir a lei, ou esquecg-la e ir pagar submis-
samente o que 6 cobrado, como preferiram fazer os
acomodados cidadios ?

Espera-se que o Par6 n~o esteja voltando Bque-
les tempos de considerar a lei nada mais do que
potoca.


O prdprio Banco Central admite que o Banco
do Estado do Pard', um dos nove no pais subme-
tidos a regime de administragd'o especial, sd pode-
rd sobreviver se receber 1,f bilhbio de cruzados de
dinheiro novo para so capitalizar. Mas ainda n~o
hdl um acordo sobre a forma de repassar esse di-
nheiro: o Ministe'rio da Fazend~a quer que o gover-
no do Estado emita OTE's (Obrigagado do Tesouro
Estadual) e as comercialize junto ao pdblico. O
E~stado, que nunce transacionou com papd'is desse
tipo e sabe da pouca credibilidade do seu banco
junto ao pdjblico, em virtude de todos os escdnda-
loj em que esteve envolvido nos u'ltimos anos'
prefer que o governor federal encarteire as OTE's,
sd aprese~ntando-as quando for necessdirio acertar
as contas.

Essa d'a principal quest~io que ainda falta ser
definida para que Bacen e Banpard' acertem o fi-
nal da administragd~o conjunta. O montente da di-
vida ainda exlge uma apuragd~o final, mas as con-
digdes oferecidas siio ta~o vantajosas que o gover-
No estadual nd'o poderd' recued-las. O Banco
Central aprovou-as para que ele prdprio possa
techer suas contas, o que no memento ndio g pos-
sivel.




A Policia Federal dever8 concluir, ate o final
desta semana, o inquerito sobre as irregularidades
praticadas na agbncia do Banco da Amaz~nia no bair-
ro carioca de Madureira. Foram indiciadas 12 pes-
soas, entire funcionirios da aggncia e intermedibrios
nas operaF8es fraudulentas, todos enquadrados na
chamada "lei do colarinho branco", mas comn possi-
bilidade de processamento por peculate.

O ex-diretor e ex-presidente interino do Basa,
Augusto Barreira Pereira, um dos indiciados, foi iden-
tificado criminalmente na Superintendancia da Poli-
cia Federal no Rio de Janeiro, juntamente comn seu
filh~o, Augustinho, os principals acusados. O pedido
de prisio preventive solicitado pelo delegado Lacort
niio foi aceito pela juiza federal que atua no caso,
nlas ela praticamente impas uma prisio domiciliar
aos dois. Eles s6 p~odertio fazer livremente viagens
entire Bel~m e o Rio de Janeiro, o distrito da culpa.
Para qualquer outro lugar, do pais ou do exterior.
p~recisartio obter autorizaglio judicial.

A policia conseguiu rastrear o dinheiro que era
pago como comissio pelos tomadores de empresti.
m~os irregulares. O intermedisrio nessas operag8es'
Guilherme Feldhaus, admitiu que levava dinheiro
par~a o entho dlretor do banco, que, ao depor, negou
as acusaC~es, considerando-se inocente.


A potoca, de volta?


JOITTRI YOSSOal
Editor responsivrel : L~clo FI~vio Pinto
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