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Jornal pessoal
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 Material Information
Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular
 Subjects
Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage: Brazil
 Notes
Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00006

Full Text











EXCLUSIVO



Desabaf o de Gueiros
No encerramento da avaliaglo dos seis meses de trabalho,
a governador Hblio Gueiros, respondendo a criticas internal,
fez um desabafo. "N~o cheguei aqui de pbra-quedas",
disse ele. Foi o mais tens pronunciamento at6 agora.


or nPessoal
Liicio Flsivio Pinto
25 quinzena do mnoembro de 1987


Cz$ 3000


Seis meses, embora apenas um oitavo do mantato
complete, jB foram tempo mais do que suficiente para
o governador Hblio Gueiros perceber que recebeu de
seu antecessor, correligion~rio e amigo, o atual mi-
nistro Jbder Barbalho, um "abacaxi" multo mais diflcil
de descascar do que aquela fruta que the foi descrita
durante a campanha eleitoral. Mas s6 no encerra-
rnento de um semindrio interno de avaliaq8o do pri-
meiro semestre de governor, realizado entire os dias 2
e 3 de outubro, 6 que Gueiros colocou para fora al-
guma~s das observages, que vem fazendo em cfr-
culos mais intimos, sobre o acervo recebido da ad-
ministraq8o anterior.
'Foi um desabafo", como ele mesmo disse diante
de sua equipe, surpresa e espantada com os terms
duros do pronunt~iamento do governador, que nenhum
journal de Belem publicou. Sem citar nenhuma vez o
nome, Gueiros respondia a uma curta intervenglo*
um pouco antes, do Diretor da Companhia de Distri-
tos Industriais, Sbrgio Le~o. Mas aproveitou para ir
bem~mais long, provavelmente por achar que Le~o -
um dos membros da equipe anterior mantida na atual
tambem havia dado um recado.
Ato desastroso Respeitado por sua competencia
professional, Sbrgio Leho cometeu um ato que seus
pr6prios amigos classificam de desastrado, embora
involunt~rio: pediu a palavra ao coordenador do se-
minbrio, o secret~rio de Planejamento, Amilcar Tu-
piasssu, para lamentar "a falta de um program de
governor seis mess passados do inicio da nova
administragao.
Ironirou o "slogan" do governor Hblio Gueiros, di-
zendo ter ficado patente que, "em vez do caminhan-
do a equipe governmental esta enfrentando "des-
caminhos setoriais E fulminou: "o governor ainda
n~o tem piano e estA correndo atras dele". Sugeriu
que o orgemento do prdximo ano deveria funcionar
como um program de governor, "jA que n6s n~o te-
mos nada para perseguir Lamentou que a reunion
,de avaliagAo tivesse sido realizada "tarde demais" e
n~o logo no inicio do governor.
SBrgio Lelo constatpu ainda a "falta de entrosa-
mento, at6 mesmo de afinidade, com superposiqAo de
atividade e total desequilfbrio a nfvel de definiqbes".


Provocando tens~o no ar do auditbrio do Centro de
Recursos Humanos, em Marituba, arrematou: "N6s
estamos chutando para mais um ano essa possibili-
dade de acerto".
Amilcar Tupiassu tratou de dar a primeira respos-
ta, de pronto, considerando "um exagero" a critica do
director da CDI, que estaria "exagerando na desespe-
ranga". Observou que o orgamento para 1988 repetia
os orgamentos anteriores, "e nem por isso os gover-
nos anteriores ficaram sem rumo' .
Mas a exposigAo de Sbrgio Leao contrastara de-
mais com o fom conciliador ou timido das pourcas crl-
ticas feitas por secretlrios e dirigentes de emoresas
pbiblicas, embora nas entrelinhas alguns sugerissem
preocupagbes semelhantes as manifestadas crua-
mente por Lelo. O contrast estimulou ainda mais
o tom da resposta do governador,-que em alguns
mementos mais parecia estar fazendo um discurse
de palanque, como se revidasse uma agress~o.
Estes foram os principals t6picos da intervenglo
do governador, que tinha enderegos certos:
Ningubm conte comigo para aventuras. Conte
com trabalho serio. Quem trabalha com seriedade te-
rA meu apolo.
N~o fago nada por demagogia. As tentagbes do
poder ja nao tem mais condigbes de me atingir.
Ngo interfere na forma~go da equipe do ninguem.
N~o puxei do bolso o nome do ninguem para pedir
4ue indicassem.
Elogiou o president do Iterpa (Instituto de Ter-
ras do Para), Walcyr Monteiro. Ele estA distribuindo
terras sem-espelhafato, sem program. Ngo 6 obri-
gado a distribuir 50 ou 60 mil ttulos. Vai distributor os
tt~uos que puder distribuir. Tem ordem minha: est8
pronto o tWulo, entrega. N~o gosto de farolada. Isso
d~o faz o men genero. (Citou, como exemplo desse
estilo, a inaugurag~o do conjunto residential Teixeira
Gueiros, em homenagem a seu pai: "Nao houve
inaugura~g8 solene, com multa farolada".)
Pode ser que algubm nao esteja acostumado
com esse tipo de administragao. 6 problema de cada
um.
Sou governador do Estado e nao abro mao dis-





Ainda que a voz dissonante seja abafada, n~o hi
divida que ela express uma das vertentes do go-
verno. "O alvo principal das critics era o secretlrio
de Planejamento", interpreta outro dos consultados,
"mas, por trapalhada, o tiro acertou em cheio o go-
vernador".
HA insatisfaqo e indefinig~o sobre a forma de go-
vernar. Uns achram que a administrag;8o est8 multo
solta e imediatista, reagindo aos fats de cada dia.
Outros nho querem fazer planejamento de maior al-
cance, alegando as incertezas da conjuntura nacio-
nal. Mas hi aqueles que, mesmo admitindo essas
restriq6es, querem planejamento estrategico para al-
guns stores, como mineraC~o e energia. N~o con-
cordam com o "planejamento em process" do se-
cretario Amilcar Tupiassu, exigindo a formulag~o de
um texto acabado, de um piano formalmente consti-
tuido.
Condimentando essa tertirlia de certa forma aca-
~demica, ingredients politicos dio fervura i discus-
sho. Pode parecer que as criticas partem da admi-
nistraqlo Barbalho contra a administration Gueiros,
por via obliqua. O governador reage a tals investidas
com uma concepg~o pessedista do centralismo de-
mocrbtico, comn maior dosagem do primeiro element
do que do segundo. Mesmo semn ter exatamente a
prdtica, o governador Hblio Gueiros aspira ao estit'o
do ex-governador Magathies Barata, comt o qual jB
convivia quando J~der ainda estava nas fraldas.
A matriz, portanto, 6 outra, ainda que as diferen-
gas sejam mais de forma do que de contebdo. Mas
slo disting~es suficientemente expressivas, na 6tica
muito mais consistent de Gueiros, para que ele as
exija. Nestas origens dissociadas no tempo podem
ser buscadas as motivagbes para o crescente dis-
tanciamento dos dois ifderes politicos, uma fatalidade
do tipo daquela na qual os gregos eram mestres,
quando constitulam suas trag~dias, comedias ou um
pouco de cada uma delas.


de grego
do como recurs extreme para impedir que o governor
Aloysio Chaves vendesse as greas da provincia mineral de
Caraj~s A Companhia Vale do Rio Doce, um process que
so transformou em esoganalo national. Embora a BR-158,
de Sgo Fdlix do Araguala a A~mara nunca tenha sido
construida, o governo federal assumniu a jurisdigao sobre
30 milhbes de hectares ao long dessa rodovia porque o
1164 permitia a federalizag~o at6 mesmo das estradas
simplesmente projetedas no mapa.
A sbbita iniciativa do governor de revogar o 1164 se
antecipou & norma constitucional, que estd sendo definida
na Constitulnte, e evitou uma esolarecedora discuss~o pd-
blica, mas incdmoda park o governor, sobre a constituclo-
nalidade do decreto (questionamento que pode gerar o
direito de indenizaglo em favor dos Estados) e sobre o
fato de que continue em vigor dispositivo constitutional
que possibilita a decretag~o do interesse para a seguranga
national sobre as terras da Amaz6nia, sempre que este
interesse for argtlldo pela Unilo. A seguranga national foi,
so long de 16 anos, a panac61a para acobertar multa ne-
gociata agrdria, travestida de regularizag~o ou, mais re*
centemente, de reform agrbria.
Diante de tantos complicadores em suspense, a festa
organizada para comemorar o ato de revogag~o, em Be-
16m, pelo president Sarney, s6 n~o espanta porque todos
sabem que os troianos tambem comemoraram o cavalo que
os gregos Ihe deram de presented.


Quem tem que gostar aqui 6 o governador, nin-
guem mais.
Aqui nAo falou nonhum demagogo, nenhum ma-
landro.
Niko 4 mole governor com seriedade.
Ngo cheguei aqui de pAra-quedas. Foi uma luta
Ardua, dificil. Me cassaram, me espancaram, me
prenderam, me cortaram os direitos politicos, me
proibiram de exercer minha profiss~io de jornalista.
Tinha cinco filhos para criar, mas me deixaram no
meio da rua. Os ifderes do movimento de 64 tinham
6dio de mim. Por que, eu nAo sei. Ngo fiz nada contra
eles. Apenas sempre fui leat ao povo. poer isso que
mereci orrespeito da opini~o plblica e cheguei aqui
de cabega erguida, sem conchavo com ninguem. sem
cambalacho de especie alguma.
Quando desabafo, desabafo pra valer.
Me acusem de tudo, mas nAo me acusem de
falta de seriedade no trato da coisa p~iblica. Pretendo
manter inc61ume essa minha reputag~o ate o fim.
Podemos ser complacentes com uma fraqueza
administrative aqui e hli. Mas nbo vamos transigir
com a falta de seriedade e honradez no trato da coi-
sa pbblica.
Vamos trabalhar de mgos dadas, sem posturas,
sem imposituras, sob o comando 6nico e exclusive do
governador constitutional do Estado do ParB, que
sou eu.
Temos que estimular o trabalho, ndo bancar p8-
se, querer puxar a orelha de quem quer que seja.
Os desdobramentos Vgrios dos participants do
encontro, consultados, admitiram, reservadamente,
que uma das conseq06~ncias mais imediatas do epi-
sbdio podera ser o afastamento de S~rgio da CDI,
por iniciativa dele ou do governador. "N~o ha mais
clima para ele no governor disse uma das fontes,
lamentando a pearda, "se ela vier a ocorrer".


Present
Os governadores da Amazdnia comemoraram o recebi-
mento de um presented, a devolug~o das terras devoluta fe-
deralizadas em 1971 pelo decreto 1164, sem terem certeza
de que n~o se trata de um presented de grego. Na verdade,
receberao uma heranga amarga. Em 16 anos, o governo
federal apurou a situagao dominial de apenas um quarto
desse vasto patrimbnio fundidrio. Na brea discriminada,
onde a terra pdbiltca jB foi separada da propriedade priva-
da, uma pequena parcel recebeu destinagao econbmica.
Na malor parts e hoe mesmo apropria~go illegal.
AlBrir disso, o eixo das rodovias federais, a partir do
qual foi estabelecida a faixa de dominio da Uni~o com 200
quilbmetros de largura, transformou-se numa zona confla-
grada. nela que se concentram os conflitos de terra da
Amazdnia, jB que as estradas valorizam o prego do terreno
e d~o acesso aos mercados. Os Estados, que antes tinham
apenas o poder de policia, agora vao precisar administrar
esse conturbado esp61io, As presses repassado pelo go-
verno Sarney, sem nenhuma garantia de que receberlo os
recursos necessdrios para viabilizar qualquer tipo de agao
administrative compativel com a dimenslo do problema. E
ainda que nlo falter dinheiro, faltar8 gente e compet~ncia
para os 6rggos fundidrios estaduais, esvaziados nesses
period de mntervnglo federal.
Mais grave alnda: n~o sendo abolido outro decreto-lel.
baixedo comn base no 1164 pelo governor Geisel, em 1976.
as terras mais valorizadas do Pard continuarao sob o do-
minio da Uniao. Esse decreto foi a extenslo do 1164, usa-
















Total desconhecimento 6 pouco prov~vel que o
coronel Antonio Carlos Gomes desconhega os regis-
tros de sua secretaria, transformando em auxiliar
de confianga alguem com tao movimenta'da hist6ria
de contravencbes e duplo processamento penal ain-
da em cursor. Mas o secretario tem dado demonstra-
g6es de alheamento a suas tarefas realmente emba-
ragantes.

Um desses atestados foi passado na semana pas-
sada, quando ele depbs na CPI da Assembl~ia Legi-
sativa que apura o assassinate do ex-deputado Paulo
Fonteles. O coronel disse nlo saber se a politur (Po-
ifcia de Proteqao ao Turismo) estaria funcionando
nas dependencias da Jonasa, empresa de Joaquim
Fonseca, acusado de ser o mandante do crime pela
familia Fonteles.
Horas antes de tomar posse na secretaria, em
margo, o coronel acompanhou o entao secretario, L6-
lio AlcAntara, a inauguragao da Politur, que de fato 6
mais do que vizinha da sede da Jonasa, na orla da
bafa de Guajara. JA naquele memento era dado como
certo que a empresa nao apenas havia doado o ter-
reno para a delegacia, como financiara sua constru-
glo e suplementaria as despesas operacionais. Na-
turaimente, tal benemerencia gerava como subpro-
duto os servigos de policia quase como seguranga
particular.
No memento em que a policia 6 chamada a atuar
com imparcialidade e eficiencia da elucidaq~o de um
crime, no qual Fonseca 4 acusado de envolvimento,
a associaq~o da Politur com a Jonasa 6 "uma acusa-
Cgo multo grave", como admitiu o coronel no seu de-
poimento. Mas se tal vinculagAo teve natural desta-
que na CPI, tgo ou mais grave slo outros fats, que
levaram o secretario a instaurar sindic~ncia, at6 hoje
n~o conclulda.
Segundo uma das denbncias, uma lancha doada a
policia paraense pelo MinistBrio da Justiga, ao inves
de ir para a Politur, foi usada durante varies meses
pelo ent~o director administrative da Segup, MArio Mo-
reira. No final de 1986 serviu a campanha eleitoral do
ex-secretario e atual deputado federal Arnaldo Mo-
raes Filho, concunhado de Moreira. Depois, a lancha
foi incorporada aos fins-de-semana do ex-diretor, s6
sendo retomada na atual administraCgo, que a foi en-
contrar ancorada no late Clube, com a hblice avaria-
da (o conserto custou 280 mil cruzados).
A sindic~ncia foi sustada e, com ela, outra investi-
gag8o, sobre os bens mbveis e im6veis da Segup. A
devassa que o coronel Antonio Carlos prometera,
sob o impact das primeiras descobertas que fez
quando assumiu a Segup, parecem ser coisa do pas-
sado. A presenga de Leir Saraiva Gomes no gabinete
parece ser um sinal do present.


Para pr~ender Leir Saraiva Gomes, cumprindo a or-
dem da julza da 7a Vara Penal, Heralda Rendeiro.
qualquer delegado lotado na sede da Secretaria de
Seguranga Pdblica teria que dar apenas alguns pas-
sos. Leir 6 um diario e desembaragado freqiientador
do gabinete e da residencia do pr6prio secretlrio, co-
ronel Antonio Carlos Gomes, atendendo telefone,
abrindo porta e ath mesmo convocando delegados,
alem de andar ao lado do secretlrio no carro official
ou acompanhd-lo ao sitio, no final de semana.
O fato vem provocando comentbrios e embaragos
na Segup. A ficha de antecedentes criminals de Leir,
um ex-soldado expulso da Policia Militar e corretor
do Detran, tem seis registros, dos quais tres foram
cancelados. Sua passage pela policia comegou em
1974, indiciado por crime de estelionato. Os outros
registros sao por les~es corporals, contrabando, fal-
sidade ideolbgica e por participar do jogo do bicho.
Saraiva tem uma banca que funciona na praga Dom
Machado Costa, vizinha ao predio da Segup.

No ano passado ele foi indiciado duas vezes. Uma
pela Policia Federal, que o prendeu em flagrante por
contrabando. A outra foi pela DOPS, uma divis~o da
Segup. Ao encerrar o inqubrito, no dia 27 de novem-
bro, o delegado Paulo Tamer disse n~o ter feito a
identifica~go criminal porque o juiz Otavio Maciel
concede um salvo-conduto para Leir, mas afirmour
ter constatado nele "aptid~o para attitudes anti-so-
ciais e penalmente reprovaveis"*
Convencida de que nos autos do inqubrito havia
prova do crime, alem de impressionada pelos seis
assentamentos, a juiza Heralda Rendeiro expediu o
mandado de pris~o preventive, para que Leir "fosse
afastado da sociedade, por algum tempo, para que
n~o volte a por em pratica suas aqdes perniciosas e
prejudiciais e para que, ardiloso como 6, nho venha a
prejudicar o andamento do feito e future aplicaq~o da
Lei Penal".
Leir foi* indiciado depois que o Banco do Brasi de-
nunciou-o por ter-se apropriado, em setembro de
1985, de 800 mithbes de cruzeiros (na moeda de en-
tho), gragas a um artificio fraudulent. Ele forjou uma
ordem de pagamento vinda de Natal,.no Rio Grande
do Norte, e, usando dupla identidade fajsa (como
pessoa ffsica e em nome de uma empresa jurldica),
sacou ilicitamente o dinheiro. Agentes da Policia Fe.
deral, quando prenderam Leir, encontraram na casa
dele uisques e perfumes contrabandeados. Antes de
transferi-lo para a policia civil, o indiciaram, remeten-
do o process para a Justiga Federal. Ouvido na
DOPS, Leir negou o crime, mas tanto o delegado co-
mo a juiza nio tiveram dividas de pedir sua prison
por causa do volume de provas juntadas ao autos. A
detenCgo, porbm, nho foi cumprida.


POLICIA




Companhia incamoda






















"Deus segurou os outros predios, mas deixou
cair esse para nos ensinar". A confiss~o, feita por
um dos engenheiros da obra, da uma explicag8o ale-
g6rica sobre as causes do desabamento do edificio
Raimundo Farias, o mais grave acidente da constru-
q~o civil em toda hist6ria do Park, com 39 mortes.
Os dois laudos tecnicos divulgados at6 agora (o
da policia tecnica de Slo Paulo, encomendado pela
DOPS, e o da Universidade Federal do Rio de Janei-
ro, pedido pela Secretaria Municipal de Obras) pbem
em ddvida ter-se tratado propriamente de um aci-
dente. A leitura dos documents deixa nitida a sen-
sa~go de que o predio nso caiu, mas acabou derru-
bado pela negligencia com que foi projetado e cons-
truido e pelo excess de confianga dos tecnicos
chamados para tratar de seus problems quando eles
comegaram a aparecer.
& quase certo que os erros cometidos no pro.
jeto e na execugho do "Raimundo Farias" se repetem
em muitas outras obras semelhantes espalhadas pela
cidade. HA pelo menos 11 pr6dios sendo recupera-
dos ou que jB foram salvos em Belem, depois de es-
tarem seriamente ameagados de ruir. O caso mais
clbssico 6 o do edificio Godoy. Ele inclinou quase um
metro, mas sua estrutura suportou o recalque, permi.
tindo que os engenheiros tivessem tempo para rea-
prumd-lo. Outros predios grandes como o "Paes de
Carvalho", o "Pedro Carneiro" c o "Gilberto Mestri-
nho" tambem atravessaram a mesma linha de alto
risco.
Quando o "Raimundo Farias" tombou cinco
centimetros, os engenheiros, acostumados a esse ti-
po de event, que jB integrava a retina dos construto-
res (embora pouco conhecidos fora desse circulo),
acharam que era mais um caso a resolver sem gran-
de dificuldades. Uns desconheciam os atropelos
ocorridos desde que comegou a obra, no final de
1985. Outros nho avaliaram adequadamente a ousa-
dia do projeto.
Sem seguranga Os tecnicos da Universidade
Federal do Rio de Janeiro que prepararam o laudo
para a Prefeitura trataram de destacar esse aspect.
Observam que o pr6dio 6 "uma estrutura constitulda
por p6rticos esbeltos isolados, interligados basica-
mente pelas lajes de piso, com deficiencias nas liga-
g6es estrutura-fundaq6es"'. Erros de cllculos fizeram
com que seis dos 14 pilares, que faziam a articula-
glo da estrytura superior do predio com suas funda-
95es, estavam com cargas verticals permanentes


nas fundaq6es superiores As cargas de projeto. O
pilar nilmero 12, por exemplo, justamente o que pro-
vocou o desabamento, estava recebendo uma carga
35%6 superior B prevista no projeto.
Como o predio foi construldo com base em cBl-
culos errados ou inadequados, a cada acrescimo de
carga permanent (com a ascenslo dos pavimentos)
a presslo sobre o conjtinto pilar-estaca tornava-se
maior do que ela podia realmente absorver, desenca-
deando um "prooesso relativamente lento de flamba-
gem". Ja no est~gio avangado desse process, o pi-
lar 12 sofreu "ruptura brusca por flexo-compres-
s~o .*
As caracteristicas do desabamento, que fizeram
o predio entrar em colapso total como se tivesse so-
frido uma implosio, shio atribuldas B "concepg~o es-
trutural blsica em balancins", qure "gerou mementos
resultantes nos pilares de cada pavimento sempre
volvendo para o interior do edificio". Os peritos di-
zem que esse mecanismo "se deveu ao fato de que
tanto fundag6es consideradas isoladamente on em
conjunto com os elements estruturais a ela ligados
- quanto os pr6prios pilares em concrete armado n~o
apresentavam a necess~ria reserve de seguranga
prescrita pela normas de projeto".

O "Raimundo Farias" foi concebido por seu
calculista como uma estrutura n~o conventional. Seu
cintamento era ao nfvel terreo, sem laje de piso,
"sendo inadequado e por vezes inexistente na dire-
gBo longitudinal do obra". As irnicas vigas ainda
assim "bastante esbeltas" existentes nos pavi-
mentos eram as que se ligavam ao pogo de elevado-
res cha caixa de escada, nlo havendo vigamentos
continues transversais. Esse ni~cleo estrutural, por
sua vez, era constituldo "por pilares de pouca rigidez
a flexao e vigas ainda menos rlgidas". Havendo essa
deficiencia nos pavimentos estruturais inferiores, no
alto do pr~dio n~o foi construldo "travejamento hori-
zontal adequado", capaz de compensar a aGlo do
vento.
Por tudo isso e por d~rios outros detalhes tec-
nicos apontados, o relatbrio de UFRJ diz que seria
precise fazer "uma verificaGao rigorosa de estabili-
dade e um dismensionamento dos elements estrutu-
rais (estacas met~licas e pilares) com adoq8o de
coeficientes de seguranga majorados, bem como um
detalhamento adequado em terms de travamento ao
nfvel do coroamento das fundagbes".


EN GENH ARI A




Predio foi derrubado

A tragedia do edifl'cio Raimundo Farias pode prevenir
outros acidentes no future. Mas se as sangrentas ligijes

que s6 agora estio sendo reveladas forem aprendidas.
Do contrbrio, a crime se repetir8 e ficar8 impune.







As graves cfdeficicias Ao contririo, a estru-
tura apresentava graves deficiencias. Suas estacas,
"de grande esbeltez", metblicas e com ponteiras de
concrete, estavam sujeitas a flambagem para cargas
inferiores As exigidas por norma (com coeficiente de
seguranga). Os pesquisadores da UFRJ s6 admiti-
riam a adog~o desse tipo de estacas se elas fossem
submetidas a uma prova de carga, nio realizada,
como 6 praxe na quase totalidade das construgBes
em Belem.
Os tecnicos apontam tambem uma incorreta
distribuigep de cargas nos pilares, que fez alguns
deles ficarem sob cargas "maiores que as de proje-
to". Dizem que esta situagao "foi ainda agravada
pela execu~go de mais um pavimento e pela adog~o
de revestimentos de piso com espessuras maiores
do que aquelas consideradas no projeto estrutural".
O relatbrio indica ainda a inexistencia de cinta-
mentos na direqAo longitudinal da obra ou de uma laje
de piso no nfvel tbrreo, "para impedir deslocamentos
horizontais dos pilares ou blocos de fundag~o", e
a falta de verificaqAo rigorosa do conjunto pilar-esta-
ca como deficiencias que contribuiram para o desa-
bamento.
Os responsgvels Menos tecnico e mais sumb-
rio, o laudo do institute de Criminalistica de Sao
Paulo repete a maioria dos (tens relatados pelos pes-
quisadores de UFRJ sobre o sistema de travamento
da fundag~o, as irregularidades nas cargas dimen-
sionadas, o "aumento da carga estrutural sem o de-
vido rec~lculo e reforgo das fundagC~es" e as "defini-
Cglea construtivas". Mas dAI uma reda~go enf~tica ao
que o relatbrlo tecnico da Universidade nlo conclui.
Diz que houve deficincia de sondagem e irregulari.
dade na cravag~o das estacas, "com comprometi-
mento da nega" (o ponto no subsolo em que as esta.
cas ficam sustentadas).
So seguisse fielmente as conclusbes do relat6-
rio da policia pautista, o delegado Paulo Tamer, que
preside o inquerito na DOPS, teria que incriminar to-
dos os cinco engenheiros respons~veis pelas virias
etapas da obra, da sondagem a construg~lo. Os lau-
dos jA nlo deixam mais ddvidas sobre as responsa-
bilidades de Eduardo Marques e Haroldo Farias, do-
nos da Construtora Marques Farias, e Archimino
Athayde Neto, o calculista. Mas hB uma controv6rsia
tecnica instaurada a respeito de Antonio Eneas Res-
que Duarte, responsavel pelas sondagens, e Fabiano
Pinheiro, das fundac;)es. Todos est~o indiciados,
mas talvez o delegado acabe deixando para a Justiga
a tarefa de decidir sore a incriminagAo dos dois Glti-
mos. Eles apresentaram o parecer de uma consultora
especializada de Sgo Paulo, a Consultrix, de que as
profundidades dos pilares slo "perfeitamente nor-
mais" e que a "nega" obtida 6 inquestiondvel.
Se dependesse dos peritos da policia paulista,
nonhum dos engenheiros escaparia ao enquadra-
mento de crime culposo por neglig~ncia e impericia.
Mas o relatbrio da UFRJ e as contestaqdes das de-
fesas apresentadas por Enhas e Fabiano poderiam
levar o delegado Tamer a decidir n~o expor-se a uma
desqualificag~o em jufzo, que poderia comprometer
todo o seu trabalho, por arrolar dois indiciados que


nAo estariam com sua culpa comprovada.
Ainda assim, a decis~o 6 delicada. Desde que,
pela primelra vez em multos anos, trgs engenheiros
foram obrigados a recorrer a "habeas corpus" para
n~o serem identificados na policia como criminosos
(casos de Haroldo, Eduardo e Archimino), a catego-
ria vem discutindo nervosa a agitadamente a ques-
tao. Uns querem conferir "status" superior ao relat6-
rio da UFRJ em relaglo laudo da policia paulista. HA
os que contestem tanto um, produzido sem visit ao
local, como o outro, elaborado depois de uma perma-
nencia dos tecnicos de apenas cindo dias em Belem.

Culpas evidentes Os terms categ6ricos dos
dois laudo, entretanto, indicam que nenhum desses
dois aspects sera suficiente para invalidar o que
constataram. Os erros e defici~ncias estruturals e
construtivos do "Raimundo Farias" ficaram tao evi-
dentes, quando submetidos a uma analise mais refi-
nada, que desautorizam qualquer controversia. No
entanto, como determinados aspects foram delibe-
radamente ou nlo apenas referidos superficial-
mente nos dois trabalhos, ainda ha um vasto campo
aberto a investigag~o propriamente policial, que po-
deria at6 evoluir do crime culposo para o crime dolo-
so, agravando a situa~go dos indiciados.
Um desses aspects 6 o n~mero exato de an-
dares que tinha o "Raimundo Farias". Os pesquisa-
dores da UFRJ encontraram uma discrep~ncia entire
o projeto arquitet~nio e o projeto estrutural, dois pro-
dutos distintos entregues a elaborag8o de dols tecni-
cos diferentes. O projeto arquitetqnico previa 12 pa-
vimentos, reduzidos no projeto estrutural a 11. Con-
sultada, a Secretaria de Obras confirmou que foram
construidos 12 pavimentos, sendo 10 "standard" e
dois "duplex". Os pesquisadores, porem, n~o pare-
cem ter considerado definitive a informa~go, prefe-
rindo trabalhar em cima das duas hipotese, mesmo
porque, na projeqgo das cargas, o calculista levava
em considerag~o uma estrutura com 11 pavimentos.
E~ quase inacreditavel que uma dbvida dessa
seja suscitada nos laudos a ao long do inquerito,
mas ela deixa de surpreender tanto quando se re-
constitui a trajet6ria dos sucessivos projetos que fo-
ram sendo preparados para o "Raimundo Farias". O
Projeto original, que chegou & SEMOB em novembro
de 1985, tinha 11 andares e 2.060 metros quadrados
de area construlda. No mgs seguinte a area foi am-
pliada para 3.636 metros quadrados. E, em outubro
de 1986, foi novamente modificada, ficando com
3.859 m2 de area construida. Mas a's modifichgt~es
realmente feitas estariam plenamente de acordo com
o que foi descrito nos projetos aprovados pola Se-
cretaria, o CREA e os bombeiros?
Dlrvidas sem respostas As dividas, que vdo
-do nl~mero de pavimentos ao acrescimo dos 24 pares
de sacadas com 170m2 e 70 toneladas de peso (in-
troduzidas para valorizar e embelezar o predio,
quando sua estrutura no inicio apenas um felo cai-
xote retangular num terreno estreito e comprido jB
estava levantada), s~o estimu~ladas por uma certa
desorganizag~Ao da Construtora Marques Farias.
Quando a obra ja estava no quinto piso, os engenhei-







cesslrio reforgar as fundagdes. Segundo ele, d
acrescimo de peso inerente g alteraq~o no projeto
"deveria ter sido pelo calculista previsto, pois os
cllculos de fundaqbes normaimente obedecem um
coeficiente que admite certa sobrecarga com relaglo
ao peso total do predio".
De acordo com o projeto, o coeficiente de segu-
ranga do "Raimundo Farias" era dois, isto 6, ele po-
deria suportar o dobro da carga projetada. So isso
fosse verdade, realmente as fundaqbes nlo precisa-
riam de reforg~o. Mas o predio veio abaixo quando
ainda faltava 20% para atingir seu peso de projeto.
Com tantas deficigncias assim, Deus para usar a
alegoria do engenheiro deve ter preferido nlo segu-
rar o "Raimundo Farias" para evitar que os erros,
negliggncias, impericias e descasos continuassem
fazendo parte da retina da engenharia em Belem. A
tragedia do "Raimundo Farias" vai servir de marco
de refergncia, se a sociedade cobrar devidamente' o
alto prego em vidas humans estupidamente sacri-
ficadas exigido por essa liq8o.

(*) A, flambagem, na linguagem da engenharia, con-
siste no encurvamento "a que estlio sujeitas peas
de uma estrutura taiss como colunas e pilares) que
trabalham por compressbi", como registra o dicio-
ndrio "Aurdio". Flexionado por essa compression, o
pilar foi esmagado e rlui bruscamente.

O acidente com o "Ralmundo Farlas" provocou
uma redugao drestica no ritmo da constru~go civil
em Belem, mas a "normalidade" val sendo reto-
made aos poucos, g medida em que as possoas
v~o esquecondo o episbdlo. De janeiro a julho, a
medla de alvares concedldos pela Secretaria M~u-
nicipal de Obras foi de 38 por mgs, com o "pique"
em malo, quando houve 45 Ilcenclamentos. Em
agosto a nd~mero baixou para 25 e, em setembro,
foi parar no menor indice: apenas 13 alvarbs. Em
outubro a procura voltou a aumentar, com 21 lI-
congas para construgAo expedidas.



muito neg ra
os operarios jA faziam comentarios sobre rachaduras
que surgiam na viga de cima do pilar 12. O mestre de
obra os tranquilizava dizendo tratar-se de situagAo
comum (os peritos da UFRJ salientaram que o pilar
sofreu um processo relativamente lento de flamba-
gem"). Novas rachaduras apareceram quando foram
cravadas estacas em frente ao predio.
A semana crflica O process s6 tornou-se ace-
lerado no dia 5 de agosto, quando o mestre de obras
foi informado do aparecimento de fissuras no 10 e no
20 andares, depois estendidas pelas cops dos
apartamentos ate o 120 pavimento. No dia seguinte
trincas foram notadas e no dia 7 o engenheiro Archi-
mino foi chamado. Ele verificou ent~o que a si'tuagao
era mais grave do que alguns meses antes: a estru-
tura "havia se movimentado".
O problema era em um pilar central, o 12, ligado
no subsolo a cinco estacas e projetado para suportar


ros verificaram que estavam so utilizando equivoca-
damente da plant original de ferragens dos pjilares e
(1ao da nova plant, que Archimino Athayde havia
elaborado em substituigeio. Archimino teve que recal-
cular novamente os quatro pilares situados nas ex-
fremidades do predio, reforgando-os.
A hist6ria dessas modificag~es de projeto e sua
execug~o ainda n~o foi satisfatoriamente reconstitul-
da. O responsAvel pela Fundagbee Ltda, Roberto
Santos Cardoso, disse em seu depolmento B policia
que as fundag~es foram efetuadas entire fevereiro e
margo de 1986, enquanto as modifieca6es estruturais
se processaram em meados de outubro desse ano,
sem o conhecimento de sua empresa e sem o reforgo
das fundagC~es.
Haroido Farias, um dos dons da construtora,
explicou que sua empresa nlo notificou a Fundag~o
Ltda sobre a alteraC~o do projeto, "por ser costumei-
ro tais informagbes serem repassadas a empresa
que executa servigos de fundagbes pelo calculista
das obras". Mas Archimino Athayde rechagou ser o
respons~vel pela comunicagao, negando tambem que
o acrbspimo de carga tenha causado o desabamento.
JA Fabiano Pinheiro, da Fundadqies Ltda, disse no
seu depoimento que os acrescimos podem ter mnfluido
sobre o equillbrio do predio, evitando, porem, fazer
maiores coms0tbrios porque desconhecia esse
acrescimo.
HA ainda um outro detalhe important. O terre-
no, estreito e comprido, determinou a configuragho
do predio. O arquiteto Edson Arruda disse, logo de-
pois de depor na policia, que concebeu o edificio
exatamente no limited do terreno. Mas Edson n~io fol
consultado sobre as alteraqbes posteriores. Isso po-
de significar que, acrescentado o andar dos "du-
plex", a Construtora extrapolou os limits do projeto
licenciado pela SEMOB, tornando-o, por esse prisma,
illegal. Para que isso nho ocorresse, adequando-se b
lei de zoneamenta, teria que dispor de mais terreno.
Umea ligao sangrenta Haroldo Farias diz que
mesmo com as modificagdes no projeto n~o seria ne-


Uma semana
Em fevereiro deste ano toda a estrutura do edificio
Raimundo Farias, localizado num dos perimetros de
mais acelerada valorizag8o imobilibria de Belem (em-
bora um dos mais complicados para grandes cons-
trugfes, porque marginal a um igarap6, com Agua at6
a superficie do terreno), estava levantada, com qua-
se 40 metros de altura. Um pouco antes, quando a
construgao se encontrava entire a 9" e a 10" Iaje, 0
calculista do pr~dio, Archimino Athayde Neto, foi'
chamado para ver uma fissura que surgira numa viga
localizada fora da torre central, onde seria a gara-
gem. Archimino concluiu que se tratava de uma fissu-
ra "comum em obras de tal porte". Pediu que os res-
ponshveis pela obra obqervassem para ver se se ca-
racterizava um "movimento". Mas n~o foi novamente
incomodado.
No entanto, segundo o depoimento de Manoel Emi-
litinho da Fonseca g DOPS, entire fevereiro e margo






262 toneladas, um dos mais solicitados entire todos
os pilares. Na regiko desse pilar houve apenas uma
sondagem, com 19 metros de profundidade, "que n~o
exprime realmente o solo do local", segundo o pare-
cer dos peritos da policia paulista, que consideraram
a "nega" (ponto de su~stentagio do predio) duvidosa.
Na segtmnda-feira, dia 10, a situagao jA era crltica;
os operarios que depuseram no inqubrito deixaram
isso bem claro. Eles perceberam que, naqueles dias,
os dois engenheiros da obra jB estavam no local Bs
seis da manhA. Normalmente, Paulo Le~o s6 chegava
As 9 horas da manh8 e Eduardo Farias s6 ficava de
oito a 15 dias por mes. Ainda assim, o operdrio Ma-
noel Emilitinho disse que durante a escavaqgo do pi-
lar afetado "nenhum engenheiro compareceu para
inspecionar aquele bloco ou mesmo a escavaq8o".
Um operArio que limpava esse bloco mostrou ao
engenheiro Paulo Leao que o pilar de sustentag8o
havia se deslocado do bloco. Como demonstraq8o'
enfiou uma colher instrumento de trabalho do pedrei-
ro) no d~o. Archimino confirmou que as estacas es-
tavam ligeiramente fora do prumo e o bloco de con-
creto sofrera rota~go de aproximadamente cinco
centimetros.
Os engenheiros decidiram ent~o escavar ao redor
do pilar, ja que o predio, sem laje de piso (uma das
deficiencias apontadas no laudo da UFRJ), n~o podia
ser escorado: as escoras, sem o suporte adequado,
afundariam (os operarios do escrit6rio do engenheiro
Paulo Barroso, o 6ltimo a ser chamado, diriam depots
que se o pr~dio n~o fosse escorado, cairia). A esca-
vaq~o seria feita para permitir aos engenheiros ob-
servar a parte inferior do bloco e as estacas que o


Pontos negros
O observador mais atento notary que dois prddios,
embora ainda em construgao, jd estdio escorados.
Um deles d o "Times Square", apenas uma quadra
distant dos escombros do "Raimundo Farias". Es-
coras de madeira fazem a sustentagdo entire os pisos
e a situago, crltica, fez a construtora convocar o
engenheiro Paulo Barroso, transformado nos blti-
mos meses numa espkcie de bombeiro da enge-
nharia local. O cdiculo, as sondagens e as fundagdes
foram executadas pelos mesmos personagens do
"Raimundo Farias".
Tambdm a future sede da TV Carajds, na Almi-
rante Barroso, estd escorada por pilares de madeira.
Aldm do recalque, teria havido trincas nas vigas. A
construtora pertence ao mesmo grupo proprietdrio da
emissora, a Belauto, que jdf estd com problems em
relagdo & torre-restaurante (ver Jornal Possoal nd-
mero 5).
Na Doca de Souza Franco g bastante delicada a
situagdo do Conjunto Cabanagem, particularmente a
ediffcio Felipe Patroni. O piso da garagem afundou
por complete, hd trincas nas lajes a na alvenaria ea a
dgua so infiltra pelas ferragons das lajes, vigas a pi-
lares, oxidando-as. So ndo forem logo realizado ser-
vigos de recuperagdo, a estrutura poderd ficar com-
prometida. O ediffcio tem apenas seis anos de uso.


sustentariam. O problema deveria ser contornado
com a cravag8o de estacas de reforgo.


O buraco perigoso o buraco aberto atingiu pro-
fundidade entire 2,20 e 2,50 metres, segundo os va-
rios testemunhos prestados a policia, Suficiente-
mente profundo para permitir que Archimino e Antonio
Enbas se deitassem sob os blooms e vissem as es-
tacas. No v~o entire elas, havia um vazio, preenchido
apenas por Agua. Com a escavagho, o terreno ja nbo
mais comprimia o pilar, nem o sustentava, O operario
Adenor Freitas Magalhies ficou com medo desse bu-
raco, que "estava profundo e com isso receava que a
obra calsse". Quando comegaram os estalos, foi
saindo de perto do predio e assim se salvou.

No dia 13, dia do desabamento, pela primeira vez
todos os engenheiros mobilizados pela Construtora
Marques Farias estavam na obra. Mas Fabiano Pi-
nheiro sugeriu que recorressem a um engenheiro ate
entlo estranho ao "Raimundo Farias". Paulo Barroso
chegou ao local jA no final da manhi, sugeriu a cra-
vaq8o de estacas especiais atraves de macaco hi-
draulico, que se ap6ia no pr6prio bloco, e nio de ba-
te-estacas, para evitar vibraebes perigosas. O servi-
go comegaria cinco dias depois, tempo riecessario
para a montagem do aparelho. Mas Barroso s6 pode-
ria dar um parecer definitive depois de ver as plan-
tas, que desconhecia. Algubm saiu para providen-
cia-las. Achando que os cinco dias seriam muito
tempo, Antonio Eneas sugeriu a cravagho dessas
estacas atraves de um aparelho rotative, que s6 o
engenheiro Nagib Charone possula. Foram atras de-

Eram 17,15 horas quando o estagidrio de engenha-
ria Jolo Martins chegou ao escrit6rio de obra, mon-
tado no pilots, e disse a Paulo Leho que fora ouvido
"um pequeno ruido". Paulo, que nesse memento fala-
va com a esposa, desligou imediatamente o telefone
e desceu para a garagem com o estagibrio. Viu a vi-
ga do pilar 12, ja fissurhda, se romper. Saiu corren-
do. S6 teve tempo de chegar a calgada, mas ainda foi
alcangado por restos de escombros. Uma pedra o
atingiu e ele desmaiou.

Mortes: inevitheis? O Iaudo da policia paulista
diz que aproximadamente 100 pessoas estavam
dentro do predio quando o "Raimundo Farias" velo,
abaixo. O predio desabou quase que verticalmente,
com ligeiro movimento para um dos lads. As lajes
dos andares superiores foram se superpondo umas
sobre as outras. Era como se tivesse sido implodido.
Naquele memento, Joto Batista Ribeiro Barbosa
colocava azulejos nas paredes de um apartamento
no Gltimo andar, o 12". Outros 12 oper~rios faziam
servigos semelhantes, no mesmo pavimento. S6 Joao
se salvou, n~o sabe como. Outros operbrios pode
riam ter escapade, mas esbarraram numa cerca de
madeira de dois metros de altura, que n~o consegul-
ram ultrapassar. Segundo Aqdenor, a cerca foi cons-
truida no dia 13 mesmo. Para que? "Para evitar que
pessoas de fora da obra observassem os servings
que estavam sendo feitos" no pilar 12.





.POR DENTRO.


Editor responsivel: Litcio Fl~ivio Pinto
Enderego (provisbrio): rua Aristides Imbo, 871,
Bel~m, ParB, 66.000. Fone: 224-3728.
Diagramagio e ilustragilo: Luiz Pinto
OpCgo Jornalistica


Haroldo Farias admitiu que sua construtor8 real-
mente levantara o taputhe, mas explicou que era para
impedir que os propriethrios "passassem a questio-
nar os motives daquele servigo e, como leigos no
assunto, passassem a formalizar distorqbes, pois
aquele pr~dio encontrava-se em fase de acabamen-
to". O outro sbcio, Eduardo Marques, o contraditou:
disse que o tapume jB existia, sendo apenas modifi-
cado. "O que ocorreu foi uma alteraqio na entrada
de acesso ao predio". argumentou.
O operbrio Odias Trindade Flext acha que o ta-
pume era mesmo para esconder os servings feitos no
pilar dos proprietarios dos apartamentos, que "ja fa-
ziam visits & obra". O "Raimundo Farias" seria en-
tregue aos seus dons em outubro e a "Marques Fa-
rias" estava muito atenta a esse detalhe. Por isso,
jmpedia o acesso dos visitantes aos apartamentos
nos quais jB eram visiveis as feias rachaduras. O
operbrio Manoel dos Reis Viegas diz que no dia 8,
quando comegaram a surgir rachaduras nas copas
doi apartamentos, "IA foram cologgdas vdrias latas
de tintas que dificultavam o acesso as mesmas co-
pas, acreditando que aquela media foi adotada para
.evitar que os visitantes proprietarios de apartamen-
tos n~o pudessem ali entrar e observer os problems
que ocorriam". Alcir Ferreira Lima lembrou-se de que
tambem foram colocadas portas nos apartamentos
com rachaduras e Jolo Batista referiu-se a traves-
sas nas entradas, alem de um vigia bloqueando a
passage.


Mas, apesar de uma tentativa de Archimino Athay-
de para convencer que os engenheiros chegaram a
pensar na evacuaCio do predio quando ele comegou
a rachar, nenhum deles confirmou essa vers~o. No
depoimento a DOPS, Paulo Le~o reconheceu que a
Oinica media de seguranga seria "a evacuaqgo nlo
s6 do predio em obras, como tambbm dos predios vi-
zinhos". Mas nenhuma vez essa providbncia foi tra-
tada ao long da semana em que a situaqo do
"Raimundo Farias" foi se tornando extremamente
crltica. No dia 13, havia operdrios assetando azule-
jos e lajotas no 01timo a~ndar. Dois operbrios da Villa-
res montavam o elevadjor. Aos incautos visitantes,
tudo deveria parecer normal.


Onze dias depois, moradores do edificio Villa-Lo-
bos, semelhante ao "Raimundo Farias", abandona-
ram apavorados seus apartamentos depois de ouvi-.
rem estalos. Um engenheiro, convocado, atestou a
"suspeita de recalque de um dos pilares de suporta-
cao de maior carga do predio". Entre 2,15 e oito ho-
ras da manhA houve evacuaqo total para que come-
gasse a recuperag8o do predio, seriamente ameaga-
do de desabar. Os moraldores do "Villa-LoboS" foram
poupados de uma nova tragedia pelo exemplo drama-
tico e sangrento do "Raimundo Farias". Para o bem
de todos, espera-se que este exemplo permanega tri-
vo na membria da cidade para sempre.


m~s. & equipe suficiente para
transformar a gabinete do vice-go-
vernador em equipe eleitoral. Jd
foi dado um aviso aos navegantes:
mais gente aportard no Paldcio.
Lauro Sodrd.


do para certos ajustes, quando
Hdlio voltasse. Com os 74 cargos
da Vice-Governadoria, a esmaga-
dora maioria jdl existentes, mas
reclassificados, o Estado gastard
quase um milhdo de cruzados por


O Ministro do Interior, Joiio Alves
Filho, nomeou um obscure economist,
jB sem funglio relevant no Banco Cen-
tral, para presidir o Banco da Amaz~nia
- e niio consultou as principals lideran-
gas locals. Waldenur Messias de Arathjo,
50 anos, 28 de carreira, foi, nos tiltimos
sete anos, president da Fundaglio do
Banco Central de Previdbncia Pnivada,
As proximidades da aposentadoria. Nor-
destino, assumiu a presidbncia do Basa
como uma espdcie de interventor, em-
bora ainda ningudm se considerasse em
condig~es de dizer que esp6cie de inter-


ve ntoria realizard.
$ a terceira intervengli branca so-
frida pelo Basa nas duas tiltimas ddca-
das. Nenhuma das indicagbes dos groups
politicos que disputavam o cargo pre-
valeceram. A nomeagli de Messias po-
de ser entendida tamb~m como represai-
lia B votagli de vdrios politicos da
Amaz~nia contra o mandate de cinco
anos que o president Jos6 Sarney ten-
tou conquistar. Entre os mais destaca-
dos, o senador Almir Gabriel e o depu-
tado federal Bernardo Cabral.


Ausencia

proveitosa

O governador Hdlio Gueiros
pode ter voltado decepcionado de
sua viagem ao Jap~o, ndo trazen-
do os 120 milhdes de dblares com
os quais pretendia financial duas
obras de maior impact (a ligagio
rodoviaria de Beldm ao Baixo To-
cantins e o distrito industrial de
Barcarena). Mas a vice-governa-
dor Herminio Calvinho aproveitou
multo bem a ausbnsla do titular do
cargo
Herminio pagou 72 milhbes de
cruzados aos empreitairos, que
haviam comegado, com recursos
prdprios, a recuperagdo da malha
rodovidlria prdxima a Beldm, numa
ofensiva de emerg&ncia, sem con-
corrbncia pdblica. Mas tambdm
enviou & Assembleia Legislativa
um projeto-de-lei que consolida 0
quadro de pessoal da Vice-Gover-
nadoria. Esse projeto deveria ser
encaminhado juntamente com igual
projeto para o Governadoria, reti-


Interveng ao branca