Jornal pessoal

MISSING IMAGE

Material Information

Title:
Jornal pessoal
Physical Description:
v. : ill. ; 31 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Pinto, Lúcio Flávio
Publisher:
s.n.
Place of Publication:
Belém, Pará
Publication Date:
Frequency:
semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note:
Title from caption.
General Note:
Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note:
Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification:
lcc - F2538.3 .J677
System ID:
AA00005008:00002

Full Text










BA LA NCO



A espera de um governo
O governor H~Lio Gueiros completou 6 meses sem comemoragdo.
Nem hit motive: falta dinheiro e a ad ministragdio ainda 6 um
caos. O maior desaffo que ele enfrenta, porkm, 4 o de
manter a confianga dos paraenses, abalada nos iiltimos anos.


No 2


Equilibrando-se sobre uma
corda bambissima, o go-
vernador HBlio Gueiros
atravessou os primeiros seismee osumnaed

quatro anos. A anemia fi-
nonceira do Estado o impe-
diu de instalar efetivamente
o governor: no 61ltimo mbs, a
folba de pagamento dos 60
mil funciondrios da admi-
nistragao direta consumiu
92% das disponibilidades
ifquidas estaduais. O go-
verno queixa-se de s6 ter
dinheiro para pagar sous
servidores e monter a md-
quina pirblica funcionando
precariamente.
A precariedade, po-
r~m, nelo 4 apenas de fun-
dos. Contaminada
largamente pelo virus do
empreguismo, do nepotis-
mo e do tr6fico de influen- d
cia, a administration
estadual transformou-se nu- Ct xE
ma ameba de ineficigncia.
O mais bem remunerado
servidor pbblico ganha 100
vezes mais do que o menor sal6rio pago. O pequeno
mas formid6vel ex~rcito de marajds tem, na comissio
de frente, deputados, desembargadores a secret~lrios
aposentados, que estio indo para a inatividade com
rendimentos acima de 200 mil cruzados mensais, des-
contando o imposto de renda, extorquido dos pobres
e comuns mortals, sobre uma mnfima parcela de seus
gan os.
Para poder governor, Hblio Gueiros percebeu qlue
precisaria passer a limpo a heranga de sou anteces-
sor e correligiondrio, Jdder Barbalho. O recadastra-
mento geral a que todo o funcionalismo submeteu-se
em maio deveria ser o ponto de partida para uma am-
pla reform administrative, qlue exorcizarianos "fan-


tasmas" (hd mil deles entronizados no folha de
pagamento), acabaria com as seis mil acumulagbes in-
devidas, remanejoria gente mal ou inadequadamente
alojada em suas fung~es e, em dltimo caso, cortaria os
ocioios.
Para um governor 6I mingua, neo h6 mesmo outra
alternativa senao reduzir o custo de possoal. Mosmo
.essa iniciativa, porem, obedeceria a nitidos crit6rios
tcnicost Essa 6 uma pergunta repetida com insistan-
cia ampliada pelos qjue receberam as promessas e
os atos iniciais de Hblio Gueiros como garantia de
um process de moralizageo, dignificasso e elevageo
do deteriorada administrator poblica. Ao fim do go-


Pesa
Liicio Fl~ivio Pinto
2a quinmena de setembro/87 Cz$ 20,00






verno Jdder Barbalho ela estava num nivel extrema-
mente baixo.

PALAVRAS E ATOS
Falando bastante e as vezes folando sem maior re-
flexao, Gueiros tem tido dificuldades de passar do re-
t6rica 6 pr6tica, cumprindo suas pr6prias palavras.
Tendo que consumir um grande tempo na arrumagao
internal do casa e juntando tostees para fochar a con-
to dos desposas de manutengao e custeio, o atual go-
verno permanece indefinido. Eleito por uma coligagao
indiscutivelmente comandada por Adder Barbalho, pre-
tende ser uma inovaCeo, mos oo mesmo tempo man-
tem os tragos b6sicos de continuidade. Suos largas
metas e elevados objetivos neio estao alcangando mui-
to al6m dos sales dentro dos quais o governador tem
sido um esforcado despachante. Ele neo vai aos su-
birrbios da capital e sua linica viagem ao interior foi
a Tucurui, levado pela Construtora Camargo Correa,
numa visit de relaybes p~blicas.
A so manterem essas caracteristicas, o governor estd
ameoqado de ver sua cabega crescer desmesurada-
mente, mas ficar com o resto do corpo atrofiado. Cen-
tralizando o control administrative, mas ao mesmo
tempo delegando completamente o fluxo do agBo e de
informagao, o governador pode acabor sitiedo por ele
mesmo. O resultado seria a complete separageo des-
so nodceo central dos ligaments perifericos otraves dos
quais ele se relaciona com a sociedade. A traduwoo
dessa idiossincrasia 6 desastre.
Para a comunidade de servidores pirblicos, ciente
do necessidade de uma reform administrative que cor.
tardy privilegios e corrigird distorgaes, deve ser dificil
acreditor numa justa execugeo dessas medidosJ se o go-
vernador neo consegue aplied-las em seu circulo mais
pr6ximo. No Palbcio Lauro Sodr6 continuam a ser efe-
tuados pagamentos a pessoas qlue ali neo trabolham,
nomeadas para funCaes de confianqa no governor
Passado;
Elas mntegravalm o quadro de assessores especiais,
vala comum ou santudrio conforme o caso para
acomodar situagaes e apadrinhar transgressiies fun-
cionais. Dos 36 seletos membros desse clube, openas
14 continuavam como assessores especiais e, em re-
9gra, soo os que trabalham. O esp61io da administra-
geo anterior foi reclassificado, ficondo seus integrantes
como assessores de gabinete. O sal6rio 6 de menos
do metade dos 56 mil pagos aos especiais, mas 6 um
belo vencimento para quem neo trabalha.
O governador, qlue parece considerar esses casos
como acidentes menores de percurso, vai em frente,
passando por cima dessas sutilezas. Por mero volun-
tarismo, sustenta acumulagaes de cargos as vezes de-
saconselh6veis ou totalmente equivocadas, como
convidar o matem6tico Guilherme de La Penha para
a Secretaria de Cultura sem que ele se desincompati-
bilizasse do absorvente direg~o do Museu Goeldi. Pior
ainda: delegar ao coronel PM Hgrcules Silva a com-
petencia de com um olho fiscalizar a Fundageo do
Bem-Estar Social e, com o outro, engordar o Detran,
acumulagao qjue pode levar ao estrabismo.

PODER PESSOAL
Com tantos desafios em too variados stores, a go-


vernador se arrisca a enfrentd-los com uma reduzida
equipe de assessores in pectu, sem uma racionalida-
do no divisdo de tarefas e mesmo sem uma caracteri-
zageio formal entire elas, como a acumulagelo de fato
qlue Frederico Coelho de Souza exerce na presidan-
cia do explosive Banco do Estado do Pard e no Casa
Civil, conciliada com o ativo funcionamento do escri-
t6rio particular do advocacia, um dos mais conceitua-
dos da pra~a.
Essa political pessoal, quase mon6rquica, teria
efeitos positives se o governador neo tivesse pela frente
propbsitos para a continuidade do poder. O prbprio
H61io, home de uma biografia imaculada sob o es-
trito ponto de vista da lisura possoal com o dinheiro,
tem procurado demonstrar qlue n6o pretend former
"entourage", aposentando-se ao final do mandate,
quando j6 estard com 64 anos. Mas so a vontade indi-
vidual tem peso nesses redutos mais exclusives do po-
der, as circunstancias engendram esquemas que a
extravasam.

Os politicos, sobretudo os do PMDB, que so ele-
geram certos de terem sido aquinhoados com um car-
tao de fronquias as dependancias do governor,
acompanham com um misto de desconfianqa e do in-
dignagio a autonomia do gorvernador. Mas hd expres-
siva distingdo de significado entire a autonomia
enquanto fim e a autonomia enquanto meio. Sem per-
mitir que alguem possa aindal demonstrar qlue usa es-
so autonomia com objetivos estrategios pessoais, o
governador tambem nelo convene sobre a primeira hi-
p~tese.
Convicro de suas pr6prias id~ias, qlue costuma ex-
pressor com a tranquiliidade de um freqiientador de ge-
ral de compo de futebol, o governador as pae em
execupao quase ignorando suas circunstancias (que os
politicos, sempre citando o fil6sofo espanhol Ortega
y Gasset, neo so consam de lembrar). Para ocupar a
inaugural Secretaria de Transportes, cujo projeto de
criageo chegard 6 Assembleia Legislativa nos pr6xi-
mos dias, Hblio foi buscar o deputado federal (ex-PDS,
hoje PMDB; o future a Deus pertence) Manoel Ribei-
ro. Com isso, abre uma vaga para o suplente M6rio
Martins, empresdrio de 6nibus e eficiente chefe de
"lobby" no setor.
Alguns politicos v~em em movimentos como esse
um sinal do inclinageo do governador para a direita,
reforgando um ocordo com o PDS que H()lio, por con-
tinggncia eleitoral, a custo engoliu. Mas neo h6 a niti-
dez ideol6gica que esses observadores enxergam. Em
compensageo, hd uma imprecisio digamos assim -
moral. Manoel Ribeiro, como secret6rio dos Transpor-
tes, vai comandar o estrategice DER sem deixor de ser
donor de um empreiteira do setor e continuando "sub-
judice" em um inquerito federal, instaurado no Code-
bar, que indicia sua empresa a Construtora Naza-
r6 como benefici6ria de v6rias irregularidades
praticadas em Barcorena.
Apenas estes casos indicam qlue o governor percor-
re um caminho dificilimo e o enfrenta comn um metodo
contraditcirio. Mas neo chegard a sustentar ate o fim
a esperanga e a confian~a com qlue uma parte da so-
ciedade paraense recebeu sous primeiros dias no "Lau-
ro Sodr6", e qlue ainda persistem, so perder a aura de






honestidade e sinceridade que a cerca. Dois episddios,
o do jogo do bicho eoa envolvimento de membros de
sua familiar (ver matbrias seguintes), podem ser
openas o inicio de um process que, se neo for desfei-
to logo e satisfatoriamente, evoluird ate transformar-
se no trago caracterizador, como ocorreu no adminis-
tragao J6der Barbalho, levada a travor a luta eleito-
roldo ano passado em torno do tema monoc6rdio do


corrupgeo. O PardI sofre as consequegncias de uma cri-
so geral, mas no base h6 uma crise de confianga, de
credibilidade, de homens v6cuo que algum alucina-
do, se neo houver lucidez equivalent, acabard preen-
chendo.
Sem esse pr6-requisito, a governador, que hoje ca-
minha em cima de uma corda bomba, poderd ter que
atravessar, no future, sobre uma faca s6 Iamina.


O jogo do bicho 4 uma das principals ati-
vidades econ6micas do Rio de Janeiro. Em Per-
nambuco esid integrado ao cotidiano. Mas em
nenhum dos Estados brasileiros, onde a con-
travengao j6 faz part da retina ou recebeu
as bgnqaos governamentais, houve uma cena
como a presenciada em Belem na semana pas-
sada: acompanhado de jornalistas e seguran-
gas, o governador embarcou num 6nibus de
luxo, o rinico disponivel na cidade naquele mo-
mento, e foi a oito instituiqbes filantr6picas fa-
zer doaq~es, com o dinheiro do bicho.
No vespera, os dirigentes dessas entida-
des foram alertados para a visit do gover-
nador, mas nenhum imaginou que Hblio
Gueiros Ihes levaria dinheiro e que os cheques,
cada um deles de SOO mil cruzados, foram sa-
cados de uma conta mantida por banqueiros
do jogo do bicho. Pessoalmente, trajando pa-
let6 e sapatos brancos, como convinha 6 oca-
siaio, o governador transformou-se num dos
elos da vasta engrenagem do bicho, que pe-
netra por terrenos mais de acordo com a con-
travengaio do que com a filantropia.
A visit Zls creches, asilos e escolas era o
cumprimento de uma promessa que o gover-
nador fizera a jornalistas, que Ihe cobravam
uma postura cristalina em relaceo ao jogo do
bicho. Entregando os oito cheques a destina-
t6rios nem sempre esclarecidos sobre a origem
do dinheiro ou, quando cientes, indecisos so-
bre o que fazer diante do iniciativa inusitada,
o governador queria demonstrar que mais im-
portante do que perquirir a provenigncia dos
fundos seria verificar sua aplicagao.

Pouca Luz

A transpar~ncia, por~m, chegou apenas
a um dos cemodos do vasto territ6rio hoje do-
minado pelos banqueiros do jogo do bicho. O
governador oficializou a atividade, alegando
que ela emprega oito mil pessoas, paga-lhes
sal6rios razo6veis, 6 aceita pela populagao e
sobreviverd ao combat de um governante me-
nos sensivel as circunstancias socials que ate-


nuam o enquadramento penal do jogo. i uma
argumentageo. Mas outros c~modos, nos quais
varias dessas virtudes soo comprometidas pelo
crime, pela fraude, pelo desvio de dinheiro,
permanecereo toio soturnos e inacessiveis
quanto antes.
Como em quase todo o Brasil, a jogo do
bicho funcionou como caixa dois para politi-
cos e o governor no administraqaio passada,
embora sem ter qualguer vinculo direto com
ela. O entiio governador J6der Barbalho nao
recebia bicheiros e at6 mandou a policia
reprimi-los. Mas mantinha canals invisiveis de
ligagap, que permitiam aos banqueiros colo-
car dinheiro no Fbesp, entreg6-lo B primeira
dama para obras socials, financial a campa-
nha de politicos ou ajudar a ediSaZo de jornal.
Naturalmente, sempre sobrava dinheiro para
aplicagBo mais deleteria, como conquistor sim-
patia policial, fazer amigos e influenciar pes-
soas, segundo metodos qlue o inggnuo Dale
Carnegie "best-seller" no assunto sequer
desconfiou.
Hblio Gueiros levou tras meses para tomar
uma decisao sobre a jogo do bicho. Nesse pe-
riodo, de abril a maio, enquanto destinavam
200 mil cruzados b Fbesp, os banqueiros ne-
gociavam por dois canals com a atual e a an-
tiga administracqao. Os interlocutores eram o
deputado estadual Hamilton Guedes eoa de-
putado federal Arnaldo Moraes Filho, ex-
presidente da OAB (Ordem dos Advogados
do Brasil) e ex-secretirrio de seguran~a pdbli-
ca. Guedes afastou-se depois de dois meses,
durante os quais abasteceu com 400 mil cru-
zados as combalidas finangas do Clube do Re-
mo, para evitar desgastes ao seu nome. Foi
substiturdo por Valdir Fiock, irmeo de criageo
do deputado federal Fernondo Velasco, um
dos parlamentares qlue mais o bicho tem
ajudado.

Dmnheiro: Onde?

A primeira dificuldade enfrentada nessa
intrinco'da rede de negociagaes era sobre o va-


BA LA NCO





Bicho, a decision


de alto risco






lor de cada cota a ser pago. Um dos banquel-
ros che90u a cobrir o valor total das con-
tribuiqaies, desde qlue recebesse o monop61io
do jogo, mas a proposta neo foi aceita. Ou-
tro sugeriu cotas de valor elevado (a maior
send de 500 mil cruzados), o qlue eliminaria
concorrentes mais fracos, mas tambem a suges-
taio nao prosperou. Afinal, ficou acertado qlue
as tr~s maiores bancas de bicho pagariam 200
mil cruzados cada e as cinco menores, 100 mil.
A soma, de 1,1 milhao de cruzados, neo ba-
to com a quantia 900 mil cruzados anun-
ciada pelo governador, que, indagado, con-
firmou esse valor. Se h6 a diferenga, para on-
de os 200 mil estao send destinadost
Mas so realmente o total das contribuiSaes
mensais 4 de 900 mil cruzados, o valor 4 con-
siderado simb61ico diante do faturamento do
jogo do bicho, imprecisomente calculado en-
tre 20 milhaes e 60 milhaes de cruzados por
mas apenas em Belem. Esse fosso sempre ser-
vird de estimulo para as pessoas acharem qlue
mais dinheiro est6 sendo pago pelos bichei-
ros em troca da oficializageo, qlue Ihes 4 pre-
ciosa. Hd versees garantindo qlue, parale-
lamente ao recolhimento official, continue a ha-
ver, mais caudalosa, uma drenagem clandes-
tina, qlue por um de sous desvios chega is
moos de cinco politicos federais do PMDB.
Pagar 900 mil cruzados 8 uma taxa mais
do qlue suave para dar tranquiilidade aos ban-
queiros do bicho. Ao contrdrio dos cologas co-
riocas, eles neo t~m qualguer esquema de
assist~ncia aos cambistas e sous satblites, qlue
se restringem a uma participagao no valor de
cada aposta. Nao deo atendimento medico,
neo fazem pecrdlio, neo contribuem para des-
pesas domesticas. Por isso, t()m uma rentabili-
dade maior, too apreci~vel que um dos gran-
des banqueiros sentiu-se estimulaldo pelo pr6-
prio sucesso a entrar na fila de cumprimentos
ao governador durarnte um encontro social e
foi sutilmente retirado pela seguranga, antes
qlue o pior acontecesse.
Ao anunciar a of~icializageo do bicho, a
governador chegou a reconhecer qlue o valor


das contribui95es era baixo, mas resistiu a to-
das as insinuagaes dos jornalistas para reve-
lar quem sao as altruistas cidadaios que todos
os meses depositam no conta 01-4396-5 da
agancia da Cidade Velha do Banco Meridio-
nal, sem exigir recibo para ressarcimento do
impostor de renda, qlue, evidentemente, nalo pa-
gam. No dia 13 de maio, quando foi aberta
com um depbsito de 900 mil cruzados,
essa conta estava em name da president do
Ipasep, Maria das Neves Seixas, secret6ria
particular de Gueiros antes glue ele assumisse
o governor. Um pouco antes do anljncio da se-
mana passada, a conta passou a ser denomi-
noda "Obras Sociais do Pard", teoricamente
destinada a receber contribuiqaes de todos,
mas na pr6tica, pelo fato de agoverno neio
divulg6-la, privativa dos favores dos banquei-
ros de jogo do bicho.
"Em carter pessoal", como o governa-
dor fez questao de salientar, a president do
Institute de Aposentadorias e Pensees do Es-
tado 6 a pessoa encarregada de movimentar
a conta, cujo extrato He1io Gueiros forneceu
b imprensa, apresentando um saido de pou-
co mais de 24 mil cruzados ap6s o saque dos
quatro milhaies doados na semana passada.
Ao buscar a transparancia e fugir do hi-
pocrisia, a governador na verdade revelou
apenas uma mindscula dependgncia desse
complexo empreendimento chamado jogo do
bicho, mas avivou a curiosidade da opiniao
priblica para o que ficou protegido das luzes
do informagao. N~ada mais natural: final, co-
mo toda atividade clandestine, embora tole-
rada, o jogo vive nas sombras, nas quais gatos
pardos podem passar por pretos, as funcaes
sofrom mutageo e quem estava de um lado, do
balcao passa para outro. E assim que o car-
tor6rio Sdivio de Miranda Correa, um consa-
grado socialite, deixou as fungaes de
cordenador do bicho, qlue exerceu no gover-
no Jader Barbalho, para ser ele pr6prio um
banqueiro segundo versees, neo compro-
vadas e desmentidas pela familiar, associado
a Paulo Gueiros, irmao do governador.


Ate o inicio deste ano o projeto da Ebal (Estalei-
ros da Bacia Amaz~nica) ero openas um entire muitos
que congestionam a pauta da Sudam 21 espera do
conta-gotas de recursos dos incentives fiscais. Aprova-
do em dezembro de 1985, noda recebera durante to-
do o ano seguinte, mas a situag~o mudaria neste ano:
em abril a Sudam liberou tres milhaes de cruzados e
logo em junho mais 16 milhaes, virtualmente aplican-
do todo a dinheiro qlue havia comprometido com o pro-
jeto, aprovado para uma participagaro equivalent a


SS mil OTN's (19,4 milhaes de cruzados no 6poca do
riltima liberag~o).
A partir de abril, assim, a Ebal passou a receber
um tratamento privilegiado: enquanto a esmagadora
maioria dos projetos, inclusive muito mais antigos, con-
tinuavam jejunos de incentives fiscais, a Ebal recebia
19 milhaes de cruzados pelo artigo 17. Os recursos
compreendidos nesses artigo, qlue representam menos
de 20% do orgamento do Finam, soo os qlue realmen-
to a Sudam pode aplicar. Os outros 80%, do artigo


BA LA NCO





Mbrito p~essoal

on mnfluencia?






ros, que, como a mulher, secretbria de Educag~o, tent
Procurado manter a familiar fora de neg6cios. Ele atri-
bui as hist6rias sobre a participagao de Andr6 em fa-
vor da Ebal ao pr6prio Camara, "quie, evidentemente,
neo ficou satisfeito comn a minha decisao".
Defendendo o filho, "gue 4 um menino s~rio e es-
t6 agindo com lisura", a governador nega qlue a Su-
dam tenha concedido algum favor especial ou escuso
6 Ebal. "Eu cobrei isso do doutor Kayath e ele me as-
segurou qlue est6 tudo legal", diz Gueiros. "Eu fiz tu-
do para evitar essas hist6rias. Mas neo posso impedir
mou filho de ganhar a vida com seu trabalho".
A Ebal, de qualguer moneira, neo apenos rece-
beu tudo a qlue tinha direito, atrav~s de uma fonte qlue
s6 fornece recursos minguados (exceto para o grupo
Joao Santos), como conseguiu aprovar, ha duas sema-
nais, no i1tima reunialo do Conselho Deliberative do
Sudam, a ampliagao do seu parque industrial, em
Icoaraci. Na realidade, ele j6 est6 implantado eo q ue
ocorrer6 agora serd a duplicag~o, qlue absorverd 365
mi B~es de cruzados, dos quais 146 milhaes de incen-
tivos fiscais agora pelo artigo 18. Ad prevendo es-
ses rumos, a empresa aumentara, em maio, o limited de
seu capital autorizado, qlue era de 20 milhaes, para
83,6 milhaes de cruzados. Quando executor a amplia-
g~o, ter6 se transformado no principal indlistria de
construsao naval do Estado. Um feito.


18, tShn sua destinageo vinculada pelo aplicador do
incentive e a Sudam apenas os repassa aos destina-
t6rios.
Somente a grupo Joao Santos, um empreendimen.
to tradicionalmente favorecido pelas ordens dados de
Brasilia, recebeu mais dinheiro do artigo 17 do qlue
a at6 entio obscura Ebal. O responsdvel pela trans-
formacao seria o recem-admitido diretor-tecnico da em-
presa, qlue passou a circular pelos corredores da
Sudam e teve transito livre comn o superintendent,
Henry Kayath.
O governador He1io Gueiros, pal de Andre, o no-
vo diretor-tecnico da Ebal, nega veementemente que
seu filbo tenha usado tr6fico de mnflugncia para favo-
recer a empresa. Lembra que Andrb formou-se no ano
passado em engenharia naval, em Sao Paulo, com as
melhores notas. Ao voltar para Belem, um companhei-
ro de turma, filho do empres6rio Carlos Camara, do-
no de um outro estaleiro, a ETN (Empresa Tecnica
Nacional), convidou-o como s6cio para um empreen-
dimento que iriam former.
H61io vetou a associaSeo, alertando o filho de qlue
pretendiom us6-lo para conseguir vantagens. "Eu nio
permit que entrasse numa firma nova, nem que fosse
admitido como s6cio. Iriam logo dizer qlue ele estava
se beneficiando do pai governador", argument Guei-


Durante v6rios meses
o filho de um dos di-
retores do Banco da
Amazania, qlue tam-
b6m assumiu interina-
mente a presidgncia
da instituivalo, cobrou
comissaes para con-
seguir emprestimos
em favor de empresas
junto a tr~s ag~ncias
-- em BelBm, Rio de Janeiro e Itaituba. Segundo esti-
mativas nio oficiais, a cobranga dessas comissees po-
de ter rendido atci 100 milhaes de cruzados ao
advogado Augusto Barreira Pereira 36nior. Em com-
pensageio, o Basa pode ter sofrido prejuizo superior
a um bilhao de cruzados, qlue se refletirdI sobre seu bo-
Iango de final de ano.
Provavelmente contando com a cobertura do poi,
o tambem advogado Augusto Barreira Pereira, Perei-
ra Jlinior conseguiu qlue o Basa emprestasse a seus
clients em condisses extremamente vantajosas, sem
obedecer as normas banc6rios e, as vezes, sem sequer
dispor de garantias reais. Em certas situagbes, o dnico
beneficiado no neg6cio era o pr6prio intermedi6rio.
E esse o caso qlue a IPC (Indirstria Paraense de
Cartonagem), uma pequena sociedade mercantil es-
tabelecida em BelBm, est6 denunciando no Justiga. O
principal s6cio da firma, Gerson Rodrigues Alves, ale-
go qlue no inicio deste ano recebeu proposta de Au-


gusto Pereira 16inior para receber 70 milhaes de
cruzodos atraves de um emprestimo junto ao Basa. A
oferto era mais do qlue atroente: o dinheiro seria pa-
go "em prozos, qlue poderiam ser renegociodos suces-
sivamente, ate qlue a empresa devedora alcangasse
estabilidade financeira necessdria 6 liquidez do debi-
to contraido", segundo o relate de Gerson Soares.
O banco de fato emitiu, no dia 19 de fevereiro, uma
Cgdula de Credito Industrial, com vencimento em 60
dias. "Com surpresa", o empresdrio diz ter verificado
que a c6dula ero de apenas cinco milhaes de cruza-
dos. Barreira Pereira Adrnior procurou tranquiliz6-lo, ex-
plicondo que se tratava apenos de "uma primeira
etapa": "ap6s esta, viriam outras, sucessivamente, ate.
o alcance do valor proposto", narra o empres6rio. Mas
as outras parcelas neo sairam, talvez porque o gover-~
no j6 estivesse informado sobre as transagaes.
O pior, segundo o testemunho do empres6rio, 6
que o dinheiro do primeira porcela foi retido por Au-~
gustinho, como o advogado 4 mais conhecido. Ele ain-
do recebeu mais 2,3 mith~es de cruzados para.
completar a pagamento antecipado de sua comissio,
de 10%, conforme a recibo assinado pelo s6cio, Pau-
lo Henrique de Aradjio Barros. A empresa nada
recebeu.
E isso que o donor do IPC argumentou ao contes-
tar a agao executive movida contra ele pela nova di-
regao do Basa. Como a transagelo neo apresentava
garantia real e a IPC se recusasse a reconkecer o de-
bito, neo restou oo Basa outra alternative: cobrar ju-


CORRUPCAO NO BASA



Rombo de Cz$k 1 bilhio






rique Barros e Jeanine Rodrigues Fontenelles e
reservou-se a presidencia do Conselho Administrativo,
com poderes iguais aos dos s6cios.
Entre abril e agosto o advogado, que jd tivera uma
passage conturbada pela Prefeitura de Belim, pa-
trocinou uma serie de financiamentos irregulares, usan-
do a cobertura do pai, que ocupava justamente a
diretoria de cridito geral e revezou com outro director
na presidgncia do Basa durante uma fase de interini-
dades aberta com a renancia de Carlos Thadeu
Gomes.
Empresas como a IPC foram beneficiadas com v6-
rios empristimos sucessivos em valores abaixo de seis
milhaes de cruzados. Era esse o limited de autonomia
de cada director do banco, que podia autorizar a libe-
ragao sem defender dos demais. Boa parte dos toma-
dores de dinheiro neo tem a menor capacidade
financeira ou econ6mica para honrar os compromis-
sos assumidos. E o banco j6 sabe que corre o risco de
ter surpresas desagrad6veis como a do IPC, que,
declarando-se devedora de boa f4, devolve ao pr~prio
Basa a responsabilidade pela divida.


dicialmente os cinco milhaes. Acrescida de juros e
outros encargos, a divida atingiu 13,2 milhaes de
cruzados.

A FRAUDE
No embargo que apresentou perante a juiza da
11a Vara Civel, onde a processo est6 tramitando, a IPC
afirma que a divida foi contraida "mediante fraude por
parte das intermediacbes". Por isso, "o cr~dito fica co-
mo gerado do ilicito, que neo alcangou a tutela da lei".
AIem de ne~o ter direito ZI cobranga, a banco seria obri-
gado a arcar "com o dano causado pelo seu
preposto".
O "preposto" a que a empresa se refere 6 o pr6-
prio ex-diretor do banco, Augusto Barreira Pereira, que
exercia a funcao quando o emprbstimo foi concedido.
Para intermedliar os empristimos, o filho criou, no ini-
cio de abril, uma empresa a Novo Visual nomi-
nalmente destinada a produzir e comercializar roupas,
na pr6tica uma corretora de tr6fico de influencia. Co-
locou dois amigos na direcao da firma Paulo Hen-


Logo ao reassumir a pre-
sidgncia do Banco do
Amazenia, depois de ts-
la deixado 14 meses an-
tes para ocupar a Supe-
rintendencia do Desen-
volvimento da Zona
Franca de Manaus (Su-
U.LTframa), o economist
,piauiense Delile Guerra
de Macedo, 52 anos,
mandou instaurar inqubritos para aprofundar e respon-
sobilizar os autores de fraudes que j6 haviam sido
apontados em auditagem internal. O primeiro inqueri-
to, sobre a agancia metropolitan do BASA no Rio de
Janeiro, dever6 estar concluido no final desta semana.
O segundo, abrangendo Belim e Itaituba, demorard
mais uma semana.
O bonco mant~m sigilo em torno das apuraS~es,
mas Delite garantiu que as investigag5es se processam
com todo o rigor, as conclusses sereo divulgadas atra-
v~s da imprensa e a puniSao dos implicados ser6 soli-
citada b policia e ir justiga, oo mesmo tempo que serao
adotadas medidas para tentar reaver o dinheiro
desviado.
O rombo tem um alcance too amplo que poderd
consumer integraimente o lucro, de 2,5 bilhaes de cru-
zados, apresentado pelo BASA no primeiro semestre.
Mesmo esse lucro neo passa de escrituraao cont6bil:
apontado no balanqo, neo tem significado para os co-
fres do banco, que estilo praticamente vazios. Justa-
mente num memento em que enfrenta enormes
dificuldades de capitalizageo e uma onda sutil mas
poderosa que pode extingui-lo, o BASA va-se na di-
ficil situago de comprovar a dilapidaCeo dos poucos


recursos de que disp~e.
Naio 6 uma situaao nova, mas ela obriga os de-
fensores da maior participagao local nas decisses re-
gionais a refletir sobre a distancia entire a ret6rica e
a pr6tica. O critbrio de partilhar a diregao do banco
entire as liderancas politicas dos Estados amaz6nicos,
estabelecido em parametros desvinculados de compe-
tgncia e seriedade, tem causado profundos prejuizos
6 instituigilo. Os quatro paraenses glue ocuparam a pre-
sidgncia nos riltimos periodos Lamartine Nogueira,
Oziel Carneiro, Ubaldo Correa e Augusto Pereira -
deixaram atr6s de si saldos amplamente negatives.
O banco quase sucumbe B administrator de La-
martine, indicado pelo entao ministry Jarbas Passari-
nho. Para suceds-lo, o governor federal mandou um
interventor draconiano, o garicho Jorge Babot de Mi-
randa. Os creditos de dificil recuperageo eram, ent~io,
duas vezes e meia superiores ao capital do banco. A
situaao apresentava os mesmos contornos quando, em
1985, o ex-deputado federal Ubaldo Correa entregou
a presidencia a Delile Macedo, um bem sucedido inte-
grante do outrora poderoso IPEA (o institute de pes-
quisa da Secretaria de Planejamento da Presidgncia
da Repbblica, hoje ministerio). O principal problema
era, novamente, o das operag6es mal feitas, sem am-
paro nas normas banc6rias. O BASA fora transforma-
do num dos caixas da campanha do entaio ministry do
Interior, M6rio Andreazza, ir Presidencia da Repdbli-
ca. Foi por isso que a Construtora Servix foi presen-
teada comn um emnprestimo de cinco milhaes de d61ares,
ate hole neo pago e neo recuperado pelo banco.

UM CAOS

Depois de 14 meses tentando sa near o BASA, De-


CORRUPCAO NO BASA.




Golpe em fase critical





torias a ser mudada seria a de cr~dito geral. Augusto
Pereira entendeu o recado e logo depois pediu de-
missao.
A reform do diretoria, sem o uso dos velhos cri-
terios politicos de escolha, seria o primeiro passo de
um program de revitalizageio que o BASA est6 pre-
Parando para negociar com o governor federal e con-
seguir uma redefinicao do inc6moda posigao de hoje.
O banco quer autorizago para funcionar com finan-
ceira, poupanga, CBD's, cartio de cr~dito e poder
modernizar-se, recompondo ao mesmo tempo sua fun-
gao de planejamento, virtualmente extinta.
Conseguir esses objetivos exigird uma dura bata-
tha. O Banco Mundial, que desde maio vem negocian-
do com o governor brasileiro um empr~stimo de 500
milhaes de d61ares, condiciona a liberag~o do dinhei-
ro 6 realizag~o de uma ampla reform no setor finan-
ceiro national. O BASA, como o Banco do Nordeste,
perderia aggncias e a possibilidade de so transformar
em banco de mdltiplas atividades, como pretend,
enfraguecondo-se. Justamente quando enfrenta essa
campanha, apoiada pelos bancos privados nacionais
e ecoada pela imprenso do Sul, as irregularidades que
estcoo sendo constatadas nos inqubritos representam um
golpe sofrido por tr6s ou por dentro da instituiCao.


lile foi transferido com a mesma fungo para a
Suframa, onde incompatibilizou-se com o governador
do Amazonas, Amazonino Mendes, inconformado em
nelo controlar a principal fonte de recu~rsos do Estado.
De volta ao BASA exatamente 14 meses depois de ter
said, numa trajet6ria inedita na hist~ria.do banco, De-
lile encontrou um verdadeiro caos: Augusto Pereira, po-
raense e Matias Pereira, amazonense, que faziom
revezamentos quinzenais no presidencia, neo openas
neo se entendiam, como se hostilizavam na dispute pe-
la efetividade no cargo. Os demais, othando 6 distan.
cia, estavam mais interessados em manter suas pr6prias
posicaes.
Algumas fontes bem informadas no banco dizem
qlue a primeira reuniao do diretoria com o president
que retornova foi durissima. Delile apontou diretamente
todos os erros na direcao do BASA, anunciou a apu.
ragao complete das irregularidades e revelou qlue fa.
ria remanejamentos, alem de pedir ao Presidente do
Repliblica para indicar dois novos diretores: Hugo de
Almeida, ex-superintendente da Sudam, atualmente na
Casa Civil da Presidancia, e Marcal Marcelino, funcio.
n6rio aposentado do BASA que ocupa a presidencia
da Codebar (Companhia de Desenvolvimento de Bar-
carena) h6I dois meses. Delile disse qlue uma dos dire-


O CASO FONTELES



Process



de cabega



para baixo


Tras meses depois do crime ter sido cometido, 6 pe-
lo menos original a situagio do process atrav~s do
qual a policia apura o assassinate do ex-deputado
Paulo Fonteles, ocorrido no dia 11 de junho (ver Jor-
nal Pessoal no 1). Os dois pistoleiros e o organiza-
dor do atentado ja estao plenamente identificados, mas
todos tr~s devidamente foragidos, sem qualguer sinal
de qlue a policia pode chegar at8 eles.
Em compensageo, membros da familiar Fonteles e
do Partido Comunista do Brasil transformaram-se, de
parceiros da vitima, em r~us. Contra eles j6 tramitam
ages na Justiga impetradas pelo empres6rio Francis-
co Joaquim Fonseca e pelo coronel Eddil Castor: acu-
sados de envolvimento no assassinate, os dois
responderam com processes por calirnia, inj~ria e di-
famacio contra seus acusadores. J6 policiais amigos
do personagem central da hist6ria, o agent de segu-
ranca James Sylvio de Vita Lopes, pediram garantias
de vida aos seus superiores no Secretaria de Seguran-
ca Pliblica. Mais um pouco eoa morto acabar6 sendo
responsabilizado tambem.
Esse qjuadro bizarre recebeu mais alguns traces
com um artigo escrito por Jodlo Malato em "O Libe-


ral" do dia 19. O jornalista, intermedidrio de uma car-
to de Vita Lopes qlue atcj hoje nelo foi devidamente
esclarecida, invested contra o president do inquerito e
o acusa de neo estar interessado em prender os ver-
dadeiros mandantes do crime, restringindo-se a ele-
mentos perif~ricos.
Para Malato, Fonteles "com seus procedimen-
tos ideol~gicos e confessadamente marxistas" "vi-
nha pondo em perigo os direitos de propriedade de
centenas, senaio milhares de fazendeiros, castanheiros,
madeireiros e latifundi6rios do grande zona banha-
da pelo Tocontins e Araguaia". Mas essa gente, "nu-
merosa e bastante endinheirada", constitui um
"pau-de-formiga", do qual o delegado Otacilio Mo-
to se teria desviado "e partiu no rumo de gente mais
desqualificada, financeiramente, como seriam, talvez,
os antigos segurancas particulares James de Vita Lo-
pes e Jos6 Antonio Silva". Malato acha qlue os dois
pobres segurancas poderiam servir de "bode expia-
t6rio" apenas "por terem prestado servicos a v6rios
fazendeiros daquela zona, inclusive o armador Joa-
quim Fonseca"; nessa condiSao, ficaram "ao corrente
de qualguer tram6ia criminosa".




































































Editor responsivel: Lddco Fl~ivio Pinto`
Enderego (provisdrio): rua Aristides Lobo, 871, Belim,
Pardi, 66.000. Fone: 224-3728
Oppao Jornalistica


sao dessa hipbtese 4 desconcertante, j6 que o delega-
do reconstituiu as identidades e os passes desses
individuos.
O jornalista tem razao quando diz qlue o proces-
so chegou a um ponto em qlue "h6 um crime a punir,
mas neo h6 criminosos". De fato, a impunidade tem
sido uma regra na hist6ria dessas investigates. Jus-
tamente porque os criminosos ficam impunes e qlue o
capitol James pode apresentar uma carreira tio ex-
tensa de contravenc5es ao lado de um crescente pres-
tigio, que Ihe permitiu ser um assiduo freqiientador do
Hilton Hotel. V6rios processes foram instaurados a par-
tir de denancias feitas contra ele, mas em nenhum foi
responsabilizado, como nos instaurados pelo DOPS.
Ali foi recrutar amigos para o ajudorem na instalacgo
de sua pr6pria empresa de seguran~a, como admitiu
um investigator daquela delegacia, Francisco Martins,
no depoimento prestado no inquirito: "Outros policiais
da DOPS, indistintamente de cargos, travaram conhe-
cimento com James", disse ele.

i procedente o receio de qlue, desaquecido, o pro-
cesso Fonteles caia no esquecimento e ingresse no ex-
tenso rol dos casos irresolvidos. Mas se isso ocorrer,
a responsabilidade neo poder6 ser imputada exclusi-
vamente nem principalmente ao de ega o Ota-
cilio Mota e sua reduzida equipe. Encontrar Vita e os
dois pistoleiros 4, agora, uma torefa da response i i-
dade de toda a policia, a dos Estados e a federal. Mas
elas estarilo empenhodas nessa busca.
E de se duvidar. A Policia Federal do Rio de Ja-
neiro demonstrou displicancia ao tomar o depoimento
do fazendeiro H61io F6bio Vieira Lopes, donor do
Volkswagen cinza usado pelos pistoleiros para matar
Fonteles a tiros na said de Belem. A hist6ria contada
por F6bio 4 fant6stica: ele disse ter-se encontrado oca-
sionalmente com dois homes dentro de uma lancho-
nete, localizada na rodovia Rio-Sao Paulo, e um deles
comprou no ato o Fusca. Quando foi ZI policia, F6bio
neio tinha nem mesmo o recibo de venda. Prometeu tra-
zer o enderego do comprador, que estaria em sua ca-
sa, mas nunca mais retornou. Nem a PF foi atr6s dele,
embora sabendo-o foragido de Minas Gerais, onde co-
meteu um crime e foi condenado.
Com toda a boa vontade, a Policia Federal pode,
na pr6tica, ter agido como o jornalista Jodlo Malato,
qlue pretendeu forcar o delegado a investor contra gente
gradida e acabaria, se atendido, desviando-o para
muito long, atrdis de uma pista falsa. Bem intenciona-
damente, 6 claro.


Tortuoso 4 o raciocinio de Malato. Seguindo sua
desinteressada orientagao, o delegado Mota terio qlue
deixar de lado o sinistramente famoso capitol James
e sair atr6s de centenas, sendo milhares de proprietd-
'rios rurais, gente "muito numerosa e bastante endinhei.
rada" que Malato defended com prontideo e desvelo
excepcionais. Como nenhuma delas est6 sequer cita.
do nos autos, o delegado perderia seu tempo inutil-
mente inutilmente para ele, mas nio para lames,
por exemplo, que ficaria fora do rota de investigagbes.
A irnica possibilidade qlue o delegado tem para
chegar aos mandantes do crime 4 atrav~s dos dois pis-
toleiros e de James, sobretudo deste, qlue 4 a pega cha-
ve porque o 6nico elo de ligaSgeo entire os executores
e os idealizadores do atentado. Malato diz que Vita
Lopes 6 gente mais desqualificada financeiramente do
qlue Fonseca e outros fazendeiros para os quais pres.
tou services. Nao h6 dirvida. Mas, com uma correira
criminosa nos costados e provada periculosidade, o ca-
pitao James (que nio 4 capitio) est6 Ionge de ser um
simples "bode expiat6rio", apesar de todo o esforgo
do jornalista para desviar as atenSges de cima do ami-
go de sou filho, o ex-delegado do DOPS, M6rio
Malato.
Apesar de jamais ter sido visto acompanhando as
investigag~es ou fazendo suas pr~prias apuragaes, Ma-
lato faz afirmativas originals, como se dispusesse de
ume fonte qlue the entrega em casa mnformagaes em pri-
meira milo (foi assim, final, que recebeu a carta en-
viada de Sao Paulo por Vita Lopes). Afirma, por
exemplo, queo capitol James prestou services "aI v6-
rios fazendeiros daquela zona" (do Araguaia-
Tocantins), detalhe completamente ignorado pela opi-
niao pdblica: ate entio supunha-se que James fora con-
tratado no Pard apenas pela Propard e por Joaquim
Fonseca.
Seria de alto valor para as investigac~es qlue a jor-
nalista aprofundasse essa revelocao, identificando es-
ses fazendeiros, com os quais tem um transito
completamente livre, para dizer o minimo. Tambem aju-
daria a avangar o inquirito, por cuja conclusilo mani-
festa tanto interesse, se fosse mais explicito sobre as
tram6ias criminosas qlue sup~e ter James ouvido du-
rante sua convivgncia com os fazendeiros glue o con-
trataram.
Talo interessante seria ele citar os motives pelos
quais acredita que os individuos apontados pelo de-
legado Mota como envolvidos no assassinate de Fon-
teles podem nio existir, "individuos qlue ningubm sabe
se existem", como escreveu Malato. A simples admis-