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Jornal pessoal

Permanent Link: http://ufdc.ufl.edu/AA00005008/00001

Material Information

Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: serial   ( sobekcm )
periodical   ( marcgt )
Spatial Coverage: Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00001

Permanent Link: http://ufdc.ufl.edu/AA00005008/00001

Material Information

Title: Jornal pessoal
Physical Description: v. : ill. ; 31 cm.
Language: Portuguese
Creator: Pinto, Lúcio Flávio
Publisher: s.n.
Place of Publication: Belém, Pará
Publication Date: 1987-
Frequency: semimonthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords: Politics and government -- Periodicals -- Brazil -- 1985-2002   ( lcsh )
Genre: serial   ( sobekcm )
periodical   ( marcgt )
Spatial Coverage: Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation: No. 1 (1a quinzena de set./87)-
General Note: Title from caption.
General Note: Editor: Lúcio Flávio Pinto.
General Note: Latest issue consulted: Ano 11, no 188 (1a quinzena de junho de 1998).

Record Information

Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23824980
lccn - sn 91030131
ocm23824980
Classification: lcc - F2538.3 .J677
System ID: AA00005008:00001

Full Text























Ndo foi apenas uma
[ ~F-vaga de deputodo
Federal qlue Paulo Cezar
r~ Fonteles de Lima perdeu
no final do ano passado:
derrotado na eleicao de
novembro, em marco
~CF i~lterminaria seu mandate
/ ~de deputado estadual,
I ~assumiria oficialmente
sua vinculac~o ao
Partido Comunista do
Brasil, deixando o "guarda-chuva" do PMDB,
e retornaria tr advocacia fundiaria, como de-
fensor de posseiros, atividade que o levou b Assembl~ia
como o mais combative dos representantes do es-
querda.
Para um grupo de propriet6rios de terras, era a
oportunidade do ajuste de contas: sem a protecdo do
mandate politico, Fonteles, 38 anos, se tornava um al-
vo menos complicado. Era precise aproveitar a opor-
tunidade, antes que a dedicacao exclusive bs lutas do
campo pudesse refazer seu suporte e novamente
transform6-lo num inimigo perigoso.
Prevavelmente o assassinate de Paulo Fonteles co-
megou a ser preparado em marco. Entre o final desse
mgs e o inicio de abril dois homes, ambos aparentan-


01'llal: OpC~o
Este d um journal pequeno e pessoal ndo por
ocoso. E um produto dos circonstaincias dentro dos
quais exerce sva opedio: a de transmitir 21 opinion
pciblica, sem retoques, os resultaldos do investiga-
cao dos temos mais importantes do conjuntura de
hoje, talvez a histdria de amonhai. A intendo 4
publicai-lo quinzenalmente, com um trafamento te-
mdfico, 21 maneiror deste primeiro ndimero, dedi-
codo Z morte do ex-deputado Padoa Fonteles, ou
ompliando o sev universe. Como o poet Carlos
Drummond de Androde, este jornalismo dedico
todos as suas energies cos homes presents e ao
tempo present a maneira maris adequada de
ndo se fazer ovsente.


do 30 anos, um deles alto, forte, barbudo, o outro ma-
gro e baixo, se hospedaram no Hotel Milanlo, um hotel
de segunda categoria mas encravado num ponto es-
trat6gico da avenida Presidente Vargas, a mais impor-
tante do centre da cidade.
Jose Roberto Vasconcelos, o "Betio", e Marcos
Antonio Nogueira, o f'Marquinhos", nio poderiam fi-
car em melhor local para desempenhar sua missio. Eles
deveriam observer Paulo Fonteles e checar um piano
de acao para dois outros homes, que s6 viriam de-
pois, com uma outra tarefa: matar o eg5deputado.
"Betao" e "Marquinhos" estiverant no Milano
mais duas vezes: entire 17 e 19 de maio e de 3 a 11 de
junho, dia do assassinate. As duas primeiras estadias
foram pagas pelo chefe deles. Na Oltima, sairam do
hotel sem guitar a conta, as pressas. O chefe tambem
deixaria Belem opressadamente naquele dia, embora
num vbo regular da Transbrasil, que sai als 4:20 da ma-
drugada para Sao Paulo.
Nos dois dias que antecederam o atentado, "Be-
tao" e "Marquinhos" teriam no hotel a companhia de
mais dois integrantes do piano: Antonio Pereira Sobri-
nho, um paraibano de 38 anos, muito forte e parecido
com "Beteo", que daria tr~s tiros precises na cabeca
de Fonteles, e Osvaldo R. Pereira, 44 anos, que ao se
hospedar apresentou-se como military, motorist do car-
ro usado no crime.

A Missio Especial
Para que eles pudessem estar em condicbes de exe-
cutar o advogado comunista na manha de 11 de junho
foi necess6rio preparar uma articulacio demorada. Ela
pode ter comecado em junho de 1986, quando James
Sylvio de Vita Lopes retornou a Belem, depois de um
ano e meio de ausancia do Pard. Em Saio Paulo, onde
nasceu em 1947 e fez uma tortuosa correira at8 1981,
quando deixou de vez a advocacia sua habilitacao
formal para se transformar em agent de seguran-
ca, James foi contactado e aceitou trabalhar para o
grupo Jonasa. Voltava a Belem para exercer sua espe-
cialidade: resolver problems de terras enfrentados por
propniettrrios.
Ele criara fama de home decidido e violent du-
rante pouco mais de tr~s anos em que atuara como


j~3%3
~5-~3 F~


Liicio Flsivio Pinto


O CASO FONTELES



Um crime bem planeysuor
Um mundo pouco conhecido, com subterrdneos invisiveis e
uma face externa ars vezes flustre, estdj por trirs da morte'do
ex-deputado Paulo Fonteles. O Jornal Pessoal levou doi8
meses para levantar o tapete desse mistbrio.






tro. Ali almoqava e jantava periodicamente, recebeu
um cartio de client especial e passou a associado do
Top Bel, um clube de gin6stica, musculaCao e sauna.

Um Crime Perfeito?

O Hilton foi escolhido para os contatos especiais,
refletindo uma das faces de James. Desde ianeiro ele
organizava uma firma pr6pria, a J.V. Seguranca Priva-
da, e por isso tambem podia ser encontrado no seu es-
crit6rio, numa rua central de Belem, a Rui Barbosa. Mas
tombgm ia muito ao Hotel Milano, onde o bom cafezi-
nho era o pretexto para trocar informac~es com mui-
tas outras pessoas qlue ali vio para saber de neg6cios
de terras, pistoleiros ou t6xicos, entire muitos outros as-
suntos qlue conferem hoje ao lugar a mesma func~io qlue
o Caf4 Avenida, mais adiante, desempenhou atk alguns
anos atri~s.
Em duas dessas visits, James pagou as despesas
de "Betio" e "Marquinhos", os homes de cobertura
do piano. Mas evitou qualquer ligacaio com Antonio
e Osvaldo, que seriam os executantes. Os dois, depois
de matarem Fonteles dentro do posto de gasoline Ma-
rechal IV, na said da aidade, voltaram ao hotel pa-
garam a conta e sairam, dizendo qlue iam para Sao
Paulo. J6 "Betio" e "Marquinhos" se esconderam na
sede da J.V., enquanto James viajava horas antes pa-
ra Sao Paulo. A presunSgao ero de que o crime, execu-
todo conforme o planejamento, jamais seria
esclarecido.
Dois meses depois o delegado Otacilio Mota, 52
anos, anunciava a reconstituicio integral do atentado,
vencendo uma barreira de ceticismo ou descrenca qlue
surgiu no cursor da investigacao. Dispondo de openas
tras investigadores e um escrivao, o chefe da Delega-
cia de Crimes Contra a Pessoa conseguiu identificar os
dois homes qlue mataram Fonteles eoa organizador do
atentado.
Mota obteve o mandado de prisilo para os tras,
concedido pela juiza Maria de Nazare Souza da Sil-
va, mas agora est6 diante de uma tarefa maior: che-
gar aos criminosos. Todos estao foragidos, embora o
mais important deles, a capitao James, tenha man-
dado uma carta de Sajo Paulo. Pode ser despistomen-
to, mas o delegado tem qlue agir com rapidez e
eficigncia se quiser chegar aos executantes antes de
qualquer tentative de "queima de arquivo", que en-
fraquecer6 os elos de ligacaio com o intermediario e
impedir6~ a concretizacao do qlue permanece sendo
uma hip6tese: a comple'ta elucidac~io, pela primeira vez
em muitos anos, de um crime politico.


"gerente do complex residential das empresas esta-
belecidas Zls margens da BR-316", na divisa do Para
com o Moranhaio, como declarara num inqubrito poli-
cial. Ali, numa gleba chamada Cidapar, com preten-
sao sobre um tergo do municipio de vizeu, empresas
como a Agropastoril Grupid, Comercial do Pard~, Co-
mepar e Propar6I, tendo como corro-chefe o Banco De-
nasa de Investimentos (ao qual o ex-presidente
Juscelino Kubitscheck esteve ligado), litigavam judicial-
mente com o Estado que considerava as terras de-
volutas e, no dia a dia, com quase 10 mil families
de posseiros com ocupaao antiga na 6rea.
Muitos conflitos e v~rias modtes ocorridas durante
os confrontos foram debitados no conto de Vita Lopes.
Andando as vezes com 50 homes, sempre fortemen-
to armada (com pistola 7.65 ou metralhadora), usan-
do motockcleta ou helic6ptero, trajando uniform de
campanha, neo foi dificil para ele passer a ser tratado
como capitol James. Teria estabelecido seu dominio
no 6lrea se nflo surgisse em seu caminho outro bando
com propbsitos conflitantes.
Quintino da Silva Lira, um cabocio da regiao, tam-
bem queria ser o donor do local, mas atravis de outra
clientele, a dos lawradores, para os quais passou a ser
uma especie de Robin Hood, que firava dos ricos para
dar aos pobres, (embora com uma adaptacao moder-
na: cobrando comissaio). O "capitao" James e o "ga-
tilheiro" Quintino testoram sucessivamente suas forces
nos atalhos da mata, mas quem p6s fim 6 contend
foi um terceiro personagem, a Policia Militar, nilo sem
a orientacalo de um dos contendores. Quintino foi mor-
to a 4 de janeiro de 1985 com um tiro de fuzil pelas
costas, depois de cair numa armadilha.
Mas James ndo poderia comemorar pessoalmen-
te essa vit6ria. Preocupado com o grau de indepen-
dgncia que ele havia conferido a si mesmo, passando
a prestar services para outras empresas ou agindo por
conta pr~pria, a Propordj que teria sofrido "pres-
sT~es governamentais", segundo o pr6prio James dis-
pensou os services do seu chf eseguranca e el
voltou para Sao Paulo. No retorno ele deu o qlue os
sambistas chamam de "volta por cima .
James foi do aeroporto para o Hilton, o Bnico ho-
tel cinco estrelas de Belem, de onde s6 saiu algum tem-
po depois para um bom apartamento de subOrbio. Mas
era um assiduo, gastador e generoso freqiientador do
hotel, que transformou num de seus pontos de encon-


O OASO FONTELES





0 agent de


: seguranea especial
No dia 2 de junho James Sylvio de Vita Lopes, ad- americana; quatro pentes de municio, com 90 balas;
vogado, divorciado, 40 anos, foi ar 20 Secao da 80 Re- seis granadas ofensivas, qlue t~m efeito moral, s6 ma-
giao Militar, qlue cuida de informagaes e costuma ser tando quando acertam diretamente o alvo; uma caixa
chamada de service secret. Queixou-se de ter sido de bala 38; de 30 a 40 balas calibre 45; uniforms ca-
roubado entire os dlias 28 e 29 de abril. Descreveu o muflados de areia e selva; comisetas e gorros.
roubo: um fuzil Colt, calibre 5.65, de fabricacqao norte- As declaracdes de James foram transformadas "in-
2 Jornal Pessoal







forme", que levou o nOmero 071, de natureza confiden-
cial, avaliado no grou 3. Isto quer dizer que nao
mereciam ser consideradas como uma informagao, exi-
gindo antes uma checagem para avaliar sua fidedig-
nidade, mas foram repassadas como algo a ser
analisado aos 6rgeos da "comunidade de informa-
S5es", entire os quais a Aeron6utica, a Marinho, o SNI,
a Policia Federal e a Secretaria de SeguranSqa Pdblica.

Arsenal Misterioso

O informed camera com a observageo de qlue
o declarante d "o famoso Capitio James". Ndo se tra-
tava, no verdade, de um capitilo das Forglas Armadas
(ou pelo menos nio do Exgrcito), mas o pr~prio Vita
1.opes nijo openas parecia satisfeito com o tratamento,
como o induzia. Agia de v6rias formas a parecer-se de
fato a um oficial do Exdrcito. O traquejo pode tg-lo es-
timulado a adotar uma iniciativa na qual um outro ci-
vi amas pnsaria: comunicar oo 6rg~io de
infrma~esdoExgrcito que Ihe foram roubadas ar-
masqcue ele simplesmente ndo poderia ter, por serem
de uso privative das Forcas Armadas ou exigirem, pa-
ra o porte, uma i~cenca especial, que ele noo possula.
Para o "famoso capitol James", um ato desses,
por~m, ndo era mais inedito. Em novembro de 1983,
quando chefiava a segurangqa das empresas da Gleba
Cida'par, ele conseguiu qlue o DOPS instaurasse inqu6-
rito para apurar outro desfalgue no seu bem sortido
arsenal. Na 6poca, haviam desoparecido tres rifles 38;
duas cartucheiras cano duplo, calibre 12; uma pistola
calibre 7.65; um rifle 22 com mira telescbpica, e 21
balas
O desaparecimento incluia tambem uniforms co-
muflados de campanha, que James usava como ex-
plicou ao depor no inqubrito "procurando
resguardar-se de iniciativas antag6nicas de pessoas mo-
rodoras da regiiao, permanentemente em conflito com
Spessoa d a ministraq6d das empresas. Argumen-
tou que as roupas roubadas bon4, camiseta, calca
verde e botas neo eram uniformes das Forcas Ar-
madas "e sim siio roupas opropriodas para capado-
res vendidas livremente no comercio do ramo, assim
como as armas selecionadas".
Numa carta que enviou ao jornalista Jodo Mala.
to, trs vgsperas de ter sua pris~io preventive decretada,
James contradiz as declaraFges de quase quatro anos
antes: informa qlue o uniforme cabuflado foi "adqui-
rido nos Estados Unidos": 36 no 2a Segao da 8a Re-
giaio Militar dissera que tc do o material, incluindo as
armas privativas, Ihe haviam sido dadas, "como pre-
sente", por um certo capitio Airton, do Exercito, em
1974. Nao falou sobre o sobrenome do official ou o qlue
motivara esse suposto capit~io Airton a uma doaqao
qlue constitui infrado disciplinary e ilegalidade. Nem Ihe
foi perguntado. Apenas deu a declaraeo e foi embo.
ra. Nove dias depois ocorria o atenta~do.
Segundo uma fonte military, muitas pessoas procu.
ram os 6rg~os de informaSges para fazer todos os ti.
pos de denajncias ou relater as mais variadas histbrias,
muitas delas absurdas ou fantasiosas. O "famoso co-
pitao James", de acordo com essa interpretaeo, se-
rio um tipo megalomaniaco, que ndo se deve levar
muito a serio, ou "ao p6 da letra", mas cujas informa-
C5es conv~m registrar para averiguagdes.
Talvez por esse principio metodol~gico, a descri-
g~o de um arsenal, qlue incluia ath granadas, ndo me-
receu maior atencaio. Mos James referiu-se tamb~m bs
atividades do deputado estadual (PMDB) Jodo Corios
.Batista, acusado de insuflar invasses de terras e tirar
Jornal Pessoal


proveito pessool desse fato, e aos quatro guardas-
costas que o acompanham, entire os quais "M~io de So-
la" e um irmeo do "gatilheiro" Quintino, o rival de ti-
roteios de James em Viseu.

Amizades Influentes

E possivel que o Exercito desconhecesse os regis-
tros do DOPS sobre o "famoso capit~io" e seu arse-
nal, continuamente exposto a saques. Mas no cart a
Malato, datoda de 14 de agosto e teoricamente pos-
tada tres dias depois, James faz questao de mostrar que
niio B um ne6fito nesses comin os tortuosos.
Ele arrola entire os amigos "policiais civis, milita-
res e federals", com os quais "mantinha bom relacio-
namento, trocava informaaes importantes e vitais para
o bom desempenho de certas misseies". Acsescenta que
informava esses amigos "sobre os passes, reunises e
decisses daqueles qlue mncitavam b invasaio de proprie-
dades privadas"
Na carta que mandou, James tenta caracterizar
a perseguiSio que sofre como resultado de sua posi-
5ao e atribui-la aos respons6veis por essas invas~es,
qlue "aiam e sa em o quanto posso a et6- os com
o meu trabalho", mnsmuando qlue a morte de Fonteles
po eria ter sid o rquitetada pelo pr6prio PC do B, co-
mo uma "queima de arquivo", ou para criar um m6r-
tir que os comunistas poderiam usar. A irnica pessoa
acima de qualguer suspeita seria ele mesmo, que n~io
se arriscaria a praticar um crime, e amnda por cima dei-
xando tantas pistas, abusando, assim, "do confranga
de tantos bons amigos, dentro ou fora do Governo"
Entre os amigos, poderia estor o diretor geral da
Policia Federal, Romeu Tuma. Jose Antonio da Silva,
que trabalhou com James no empresa de seguranca
J, disse ao deegado Qtacilio Mota que seu patraio
almopou com TUma no Hilton Hotel. O pr6prio Jos6
Antonio ndo presenciou o almoco, mas qjuem the deu
a informaCgao foi Walter Cardoso, seguranga do Hilton,
Cardoso, no seu depoimento no inqubrito, tombem in-
formou que Jafnes "regularmente almoqava com Joa-
quim Fonseca~ donor do Grupo Jonasa.
O propriet6rio do Hotel Milano, o francs Jean
Frangois Le Cornec, 37 anos, declarou ao delegado
Mota ter sabido, "por terceiros", qlue James "seria pes-
soa ligada ao Servigo Nacional de Informagaes", booto
esse reforgado pelo fato de qlue James foi visto no ho-
tel conversondo com Rubineti, "pesson ligada oo ser-
viS.o de informag~es". Um dos agents do empresa de
seguranqa de James, que trabalhou para ele na fazen-
da de Joaquim Fonseca, um segundo-tenente da reser-
va do Exrcito conhecido a~ena compo Pauloo
declarado como informantedoNIprosAnni
da Silva, tombem contratado como seguranqa por Vi-
to impes.
O SNI mesmo teve uma intervengijo na apuracao
do assassinate. O 6rgao informou o delegado Otaci-
lio Mota qlue os pistoleiros tinham said de Belem no
Santana de propriedade de James, no dia 15. Mas o
delegado pegou uma pistol errada: o carro, provovel-
mente com uma bala no porta, havia sido recolhido
a Belauto para conserto tr~s dias antes do atentado e
16r permaneceu at6 um mas depois.
Na carta a Malato, James nbo chega a confirmer
o almopo com o chefe da Policia Federal. Diz apenas
que cumprimentou Tuma, "porque ja1 tinho sido apre-
sentado ao mesmo, h6 muitos (anos) mais, quando era
Director da D.O.P.S. paulista, pelo amigo comum, Dr.
Quass", mas se apressa a dizer que a tentative de en-






lembra mais o sobrenome.


volvimento dessas "diversas personalidades ilustres"
neo pass de uma "manobra tipica de esquerda". Dis-
cretamente, a Policia Federal do Pard est6r investigan-
do a histbria, por ordem superior.
A carta revela detalhes novos na biografia, mas
deixa claro que est6 omitindo muito mais, fiel ao estilo
do capitolo James", entire o misterio e a grandiloqign-
doa, estilo muito usado alguns anos atrrjs. Defendendo-
se do acusacao de "falso capitio" (que ele usou an-
tes de ter sido acusado), de ex-agente do Doi-Codi ou
membro do Rota, a violent patrulha policial de Sao
Paulo, Vita Lopes diz ter sido procurador juridico da pe-
quena Prefeitura de Pen6polis, no interior paulista. Co-
mo pertencia b Coordenadoria da Defesa Civil,
"sempre estava no Pal6cio dos Bandeirantes", ao tem-
po em qlue o inquilino era o governador Paulo Maluf.
Isso foi entire 1979 e 1981, period em que a hist6-
ria de Vita Lopes projeta alguma luz. Sobre a fase an-
terior h6 apenas sombras e ele n6o parece nem um
pouco interessado emn dissip6r-las. Sabe-se qlue se for-
.mou em Direito com idade j6r razoavelmente avanca-
da para um estudante comum, 27 anos. Foi justamente
nesse ano qlue credenciou-se a receber um arsenal de
um capitio amigo, j6 falecido, infelizmente, do qual nio


Agente "da Pesada"
Tais tracos biograficos indicam segurantente que o
"capitio james" ndo 4 uma pessoa conventional. Wal-
ter Cardoso, o detetive do Hilton, confessou ao dele-
gado Mota que ficou impressionado com o home, que
nio parava de falor na montagem de um "esquema".
Os dois estavam em frente ao hotel, vendo passar uma
passeata de protest de professores, quando James fez
um comentirrio que Cardoso ndo esqueceu:
-- Comigo nao tem dessa. Jogava logo uma bom-
ba de gas lacrimog~neo, jogava logo uma granada,
dava uma rajada de metralhadora.
James enfiara ainda outras armas nessa reacao,
como escopetas e pistolas. Cardoso, cinco mil cruza--
dos por m~s para ser seguranga no hotel cinco estre-
las, concluiu desse linguagem que estava diante de um
guerrilheiro. Nao era uma deducaio de todo incorre-
ta: James, como num drama liter~rio igualmente tr61-
gico, era um personagem Z1 procura de autor. S6 qlue
ndo levaram a serio ou quiseram camuflar o en-
redo que ele desfiava.


Dois delegados e um investigator de policia man-
tiveram James de Vita Lopes sempre bem informado so-
bre as investigacaes do delegado Otacilio Mota, que
se reportava apenas a um reduzido nOmero de inte-
grantes do governor. O pr6prio James admite, na car-
to datada de 14 de agosto, que estava "prestes para
embarcar para Belem" quando recebeu "telefonemas
de amigos para que ndio retornasse porque era suspei-
to" de envolvimento no assassinate de Fonteles. Os
amigos disseram que ele seria preso no oeroporto e,
quando fosse colocado na cadeia, poderia ser lincha-
do por militants do PC do B e pelo deputado Joao
Batista .
Entres esses amigos policiais est6 um ex-delegado
do DOPS, que atuou dura~nte a repressdo a posseiros
da gleba Cidapar, a grande miss~io que James desem-
penhou entire 1981 e 1984. O investigator ainda est6
at6 hoje no DOPS, mas o entaio delegado foi remane-
jado para outro posto. Foi desse setor da policia que
sairam os primeiros "vazamentos" de informac~es pa-
ra a imprensa.
Na carta supostamente enviada de Sao Paulo, Ja-
mes diz que "as suspeitas sobre o meu envolvimento
iniciaram-se quando o delegado Otacilio Mota
apegou-se a uma noticia dada por um dos jornais da
cidade, de que dois suspeitos teriam se hospedado no
Hotel Milano". Quando "A Provincia do Pard" publi-
cou a informaao, dada por um delegado, Mota na
verdade fazia diliggncias em Belo Horizonte, tentando
justamente aproveitar-se do sigilo. O "vazamento" pre-


judicou a investigageo, alertando os criminosos. Mas
James nbo poderia dizer que a publicagjo levara o de-
legado b suspeita.
Um outro fato mostra qjue ele estava recebendo as
informacdes antes mesmo que elas chegassem a im-
prensa, quando ainda eram privilggio de um reduzido
grupo de qjuatro autoridades. No memento em qjue Ja-
mes estava se preparando para voltar a Belem, uma
semana depois do crime, nenhum jornal havia publi-
cado uma vez seqjuer o nome dele como suspeito. No
entanto, ele j6 sabia que a delegado Mota comecova
a investig6-lo.
Esse invej6vel canal de informacaes deve ter esti-
mulado Vita Lopes 6 iniciativa de enviar uma carta, na
qual revelou dados que nem a policia conhecia. O des-
tinat~lrio foi escolhido a dedo: al~m de ser um intransi-
gente defensor dos fazendeiros e de suas organizacdes,
o jornalista Joaio Malato 6 pai do delegado Mario Ma-
lato, tido como amigo de James. Recebendo a carta,
Malato enviou-a ao jornal "O Liberal", neio sem antes
submet9-la a uma atenta copidescagem (revisdjo), mas
retendo o envelope, onde estaria o registro do despo-
cho postal.
Mas o que ainda causava especulagio eram os
motives que levaram o "capit~io" James a fazer reve-
lagqdes tdo comprometedoras. Ele disse, por exemplo,
que as despesas com o conserto de seu carro, um San-
tana 1985, foram pagas pela Jonasa. E um dado per-
turbador: embora dizendo tb-lo dispensado a 16 de
abril, no dia 8 de julho a empresa se responsabilizou
Jornal Pessoal


O CASO FONTELES





Policiais ajudam


OS crimlllOSOS






por despesas de James e ainda mandou entregar-lhe
em Sao Paulo o carro, mesmo sabendo porque j6
entdo as especulagdes haviam sido publicadas pela im-
prensa que ele estava sendo acusado de envolvimen-
to no crime.
No carta James diz que as notas de despesa "de-
vem estar arquivadas na contabilidade" da Belauto. De
fato, um investigator da Delegacio de Crimes contra
a Pessoa viu no computador no dia 10, o registro da
responsabilidade pelo conserto em nome de Joaquim
Fonseca Novegagao S/A. Era sexta-feira e pediu um do-


cumento de comprovacao. No segunda-feiro, l6 apa-
receu no video do computador o nome de James Sylvio
de Vita Lopes. Num oficio de 15 de agosto a~empresa
diz que ele foi quem pagou o conserto.

Por que o "copitio" James tornou poblicas infor-
macaes embaracosas como essa, que a policia ou a
opinido pirblica ignoravam? Talvez com a intencao de
mandar recados para destinatfirios certos, avisando
que poder6 dizer ainda mais se faltar-lhe o apolo de
que precisa para livrar-se de mais essa complicacio.


Se havia algubm qlue o empres6rio Francisco Joa-
quim Fonseca poderia ter interesse em mandar mator,
essa pessoa seria o deputado estadual do PMDB Jodo
Carlos Batista e neo o ex-deputado Paulo Fonteles. A
observacao foi feita na semana passada por um diri-
gente da UDR (Uniao Democr6tica Ruralista) em Pa-
ragominas, membro tambem da Associacaio Rural de
Pecu6ria do Pard, que raciocinova "apenas como hi-
p6tese", manifestando a opiniaio de qlue Fonseca ndo
teve qualquer participac~io no assassinate de Fonteles.
"Mas se ele quisesse mator algubm, visaria o Ba-
tista, qlue j6 lhe causou muitos problemss, disse o
membro da UDR, nao vendo 16gica no envolvimento
do chefe do Grupo Jonasa com a morte de Fonteles,
"que nunca atuou no regiao da Belem-Brasilia". Um
membro da familia Fonteles reconhece qlue Fonseca
nao teria motives para encomendar um atentado ao
ex-deputado, mas est6 convencido de qlue o empres6-
rio foi envolvido por fazendeiros do sul do Pard e de
Paragominas, "que o desafiaram a aceitar a emprei-
tada e ele aceitou". No meio das acusacdes difusas de
cumplicidade qlue a familiar faz aparecem os bancos
Real e Bamerindus.
Mos se nenhum desses possiveis aliados aparece
em qualquer memento do inquerito policial presidido
pelo delegado Otacilio Mota, Joaquim Fonseca i6 tem
nos autos uma posicao delicada. Ele poder6 ser cha-
mado a explicor as contradicaes entire suas afirmativas
e a de James Vita Lopes. Fonseca diz que deixou de
ter relacdes comerciais com James em 14 de abril, mas
a 2 de junho, quando foi ao quartel-9eneral da 8P Re-
giao Militar, o ex-seguranca assegurou qlue ainda tra-
balhava para a Jonasa. E declarou no carta qlue
Fonseca pagou o conserto do Santana a 8 de julho,
enviando-lbe o carro provavelmente de carreta -
para Sao Paulo.
A nota qlue Fonseca publicou pela imprensa suge-
ria qlue ele ndio tinha qualquer intimidade com James,
mantendo com ele um relacionomento puramente co-
mercial. No entanto, o seguranca Jos6 Antonio da Sil-
Jornal Pessoal


va disse, em seu depoimento, qlue James "regularmente
almocava com Joaquim Fonseca" no Hilton, baseado
em conversa qlue tivera com o detetive do hotel, Wal-
ter Cardoso.
Fonseca, o maior armador da navegacao fluvial
em todo o pais, foi buscar James em Salo Paulo para
tentar resolver, ainda qlue 6 forca, problems em tres
fazendas qlue possui na Belim-Brasilia: a Vale do Ca-
pim Agro Industrial, a Companhia Agropecu~ria do Rio
Jobuti (a maior, com 21 mil hectares), ambas incenti-
vadas pela Sudam, e a Fazenda Del Rey, com 12 mil
hectares.
Na entrada dessa fazenda, em julho do ano pas-
sado, foi assassinado Jose Bernardo Pinto. Ele era um
dos ocupontes da fazenda, contra os quais a Policia Mir
litar e policiais civis investiram numa agao de desarma-
mento e retirada de invasores. Duas semanas depois
Jos6 Bernardo foi morto a tiros, as 11 horas da noite,
quando carregava uma motosserra para conserto.
Fonseca queixava-se de que essas pessoas inva-
diam suas terras openas para tirar madeira, servindo
ars madeireiras, e qlue, ao resistir, havia sido ameaga-
do de morte. Os ocupantes se declaravam agriculto-
res e denunciavam a conivancia da policia com a
violencia. Foi justamente quando o conflito estava agu-
do qlue chegou 6 rea o "capit~io" James, disposto a
reeditar por ali os m~todos vitoriosos da gleba Cidapar.


O CASO FONTELES






Mandante:


entire empresarlos

















giaio, por motives mais do qlue 6bvio. Sao os
sindicatos do crime.
Esses pistoleiros estao muito long de cor-
responder 6 imagem deles projetada pelos fil-
mes sobre o faroeste norte-americano. S6
andam armados quando estaio em servigo e,
ainda assim, a arma qlue usam neo & deles:
a mandante do crime 6 quem a fornece. Um
pouco antes e um pouco depois do crime en-
comendado, o pistoleiro fica sob a protecao
do clientte. Feito o serviSgo, volta para o seu
trabalho rotineiro, como lavrador ou garimpei-
ro. Calcula-se qlue s6 no regiao de Imperatriz
haja algo em torno de 500 pistoleiros profis-
sionais.
Com o anoincio do piano nocional de re-
forma agr~ria, em maio de 1985, a mercado
da "pistologem", como a atividade d conhe-
cida no interior, entrou em alta, multipli-
caram-se personagens como o "capitio" Ja-
mes. Um "trabalho" como o assassinate do ex-
deputado Paulo Fonteles pode custar v6rias
centenas de milhares de cruzados. Mas h6 pis-
toleiro disposto a "apagar" algu6m por nbo
mais do qlue 10 mil cruzados. Tudo fica mais
carol, por~m, quando torna-se necess6rio, alem
de matar, "queimar" arquivo. O assassinate
de Fonteles j6 est6 nesse nivel.


O governador H&Iio Gueiros tem se quei-
xado a assessores mais pr6ximos de que a Po-
likia Militar forma pessoal para as agbncias
particulares de seguranca. Elas pagam um
pouco mais e atraem os soldados da PM de-
pois que eles passam pelo centro de formaSeo.
E podem fazer isso: afinal, poupam todo o di-
nheiro invest'ido pelo Estado no treinamento de
pessoal.
Mas o problema neo seria taio grave se se
reduzisse a essa drenagem. Mas as pr6prias
outoridades sabem que oficiais intermedifirios
da PM, mesmo sem deixar a funSgao, estoo or-
ganizando milicias para empresas particulares.
A policia civil tombem participa desse tipo de
trabatho duplo, um poblico e legal, o outro in-
formal e illegal. Na regiao de Paragominas e
no sul do Estado j6 existem milicias, como as
qlue James Vita Lopes comandava na Cidapar
e sob a camuflagem de sua agencia de segu-
ranca, a JV.
Quando a empresa ndo tem condiSsies de
suportar as despesas com esses grupos orga-
nizados, recorre a pistoleiros aut6nomos. H6
centenas deles em v~rios pontos da Amaz~nia
e o principal centro 6 Imperatriz, no Maranhtio,
onde o chefe de uma das quadrilhos virou po-
litico e exerce inquestion6vel lideranSga na re-


Jornal Pessoal


O CASO FONTELES






A ago dos

sindicatos do crime


~L~"-~ZZZ1













lares, os sustentadores verticals de superficie do pr&-
dio. O qlue aconteceu com o "Raimundo Farios"
mostrou que, quando as fundagabes cedem, essas
lajes nelo tgm qualguer capacidade de retenao.
Caem como um castelo de cartas, o que explica o
empilhamento das lajes.
V6rios dos engenheiros que chegaram nervo-
samente b procura de informacgaes sobre o desa-
bamento do "Raimundo Farios" tinham seus
motives para apreensdes.

Uma dos empresas que mais constr6i em Be-
14m, com sede fora do ParCI, possui pr~dios com la-
jes tipo cogumelo, construidos tambem em 6reas
alagodas. Desde que ndoa hajo problems de re-
calque de fundagaes, essas Iajes oferecem bom de-
sempenho. Mas por causa do acidente, pelo menos
uma dessas construtoras mandou rever os projetos
dos prgdios i6 construidos.

O acidente ocorrido 11 dias depois com o edi-
ficio Villa-1.obos, que afundou pelo menos sete cen-
ts'metros e inclinou-se 17 centimetres, deixou claro,
por~m, que neo basta ter boas plants: 6 precise
execut6-las adequadamente. Os 24 apartamentos
do pr~dio sooa considerados de boa qualidade por
seus hoje desencorajados propriet6rios ou inquili-
nos. Mas tudo indica qlue houve negligencia onde
menos ela poderia ter ocorrido: na concretagem
dos pilares, onde 6 fleito a ligaSqBo entire as vigas
e o bloco de concrete, qlue 6 o cintamento supe-
rior das estacas.

A negligencia neo teria sido propriamente na
distribuicqao do concrete entire a ferragem, feite
atraves doe vibrador, mas no limpeza da lama que
se acumulou no base do pilar, no ponto em qlue
ele se liga ao bloc de concrete. O fluxo natural
de 6rgua era muito intense, por se trator de um so-
lo localizado quase ao nivel do mar, mas nejo hou-
ve maior cuidado com o esgotamento dessa 6gua.
Ela invadiu o concrete e provocou brocos de ate
20 centimetres dentro do concrete, tornando-o oco.
Sob pressio e com resistancia cada vez menor do
concrete, o pilar foi sendo esmagado.
Fos nesse memento, quando o concrete estou-
rou e a ferragem comesou a ser retorcida, que o
pr~dio tambem de 12 andares cedeu. Ele te-
ria tido o mesmo destiny do "Raimundo Farios" se
suas lajes fossem tipo cogumelo. Mas o "Vila-
Lobos" era conventional neste aspect: tinha vi-
gas, que resistiram oo impact e, embora trincan-
do, suportaram a estrutura. Depois qlue o process
de tombamento foi contido, a tarefa agora B che-
car todas as estruturas do pr~dio e refor26-las, o
qlue exigir6 alguns meses.

Alarmada por esses dois acidentes, a popula-
Cpio descobriu bruscamente que h6 quest~es extre-
momente complexas em torno dos espig~es de
concrete em multiplicaSgo pela cidade. Se 6 certo
que o medo criou uma sindrome com aspects com-


Com suas 60 mil tonela-
das de peso, o edificio
Raimundo Farias, de 12
andares, se sustentava so-
bre estacas de metal cra-
vadas 13 metros no
interior de uma densa camada de argila, num dos
trechos mais pantanosos de Belem. No final da tar-
de de 13 de agosto, as estacas quebraram "flam-
baram", na linguagem dos engenheiros eo
pr~dio ruiu. Mas ele caiu como se tivesse sofrido
uma implosao natural, sem o uso de dinamite: com
pouca inclinacao, as lajes de concrete foram se em-
pilhando umas sobre as outras, formando um monte
com menos de 15 metros de altura, debaixo do qual
a aivenaria foi praticamente transformada em p6.

A tragedia consumiu a vida de 41 oper6rios,
deixou outros 19 feridos, provavelmente liquidou
uma empresa de construcaio civil ainda jovem, po-
de ter comprometido a carreira de alguns dos at4
ent~io mais bem sucedidos engenheiros do Pard e
lanSgou uma nuvem negra sobre a construtpao civil
no Estado. Pelo menos duas comissees uma, da
Secretaria Municipal de Obras, e a outra do Con-
selho Regional de Engenharia e Arquitetura, o
CREA est~io investigando o qlue provocou o lite-
ral desabamento do "Raimundo Farias", desenca-
deando a partir dal um clima de inseguranqa e
nervosismo na cidade. Mas as pistas principals id
foram identificadas.

Segundo depoimentos dados em confianga por
vd~rios engenheiros de alguma maneira associados
6 obra, houve um erro na concepedo das estacas.
Apenas nas pontas elas eram de concrete. Essas
pontas estavam ligadas a trilbos (que os engenhei-
ros chamam de perfis), emendados uns aos outros
com solda el~trica. Essas estocas mistas foram con-
cebidas em funcao do terreno. Como havia ape-
nas lama entire a "nega" (o ponto a partir do qual
o bate-estacas neio mais consegue fazer a estaca
atravessar) e a superficie, deve ter sido considera-
do desperdicio fazer estacas totalmente de concre-
to. O metal facilmente atravessaria a camada de
lama, como ficou provado no estaqueamento do
pr~dio: "Era como se enfiassem prego no 6rgua",
lembrou uma testemunha.

Mas os perfis de metal eram fins (teriam 15
centimetros de espessura). Nao suportando a pres-
saio vertical do pr~dio e horizontal da lama, pro-
vavelmente quebraram em pontos de ligageo das
soldas. Nesse memento, todo o pr~dio veio abai-
xo de uma s6 vez por causa de outra caracteristi-
ca do projeto: ele tinha lajes cogumelo. Esse tipo
de laje, reforSgada, dispensa a viga de concrete, que
foz a amarracao horizontal do edificapao aos pi-
Jornal Pessoal


Uma sindrome bem real







pletamente irracionais, qlue o tempo eliminard, nio
B menos verdade qlue os dois exemplos escancara-
ram uma situacaio sobre cuja gravidade nem B pos-
sivel exagerar.

Segundo alguns depoimentos de pessoas que
acompanharam ou participaram das obras do
"Villa-Lobos", neo havia engenheiros no local
quando os tr~s pilores afetados por esmagamento
foram concretados, durante a noite. Essa ausgncia
j6 era considerada retina nessa e em outras cons-
truc~es, facilitando a pr~tica de um fato tombem
comum nas obras: o excess de 6rgua adicionada
oo concrete, prejudicando sua qualidade, mas fa-
cilitando o serving.

Em etapas cruciais de uma construcaio, como
a fundiSgio de laje, as condicdes de trabalho sao
prectrrios, principalmente 6 noite e durrante o in-
verno chuvoso. Mesmo nesses periodos, as cons-
trutoras mant~m um cronograma apertado, que
reduz o grau de seguranca e confiabilidade, au-
mentando o aisco.

Os pr6prios engenheiros, por enquanto ope-
nas em circulos fechados, tem discutido serias ques-
t~es de projeto que s6 com dois acidentes ficaram
bem evidenciadas. H6 poucas d~vidas de qlue a
metodologia utilizada nas sondagens, para a de-
finicao do ponto de sustentacgeo das estacas, ndo
6 adjequada para o tipo de solos qlue BelBm pos-
sui. Foi por isso qlue o edificio Godoy, oito anos
atrd~s, quase ruiu tombem. Mesmo neo tendon sido
cometido qualquer error, a estaca foi fincada nu-
ma "nega" falsa, j6 que abaixo dela havia lama.
Apenas sondagens mais profundas, enriquecidas
por informagdes geol6gicas de maior amplitude,
poderiam ter esdlarecido melhor o trabalho das fun-
dacaes.

Os moradores de pr~dios tombem estao veri-
ficando qlue muitas garantias qlue lhes sdo apresen-
tadas, como os seguros, na pr~ltica sdo fr~geis e
nem sempre cobrem o risco de prejuizos. A legis-
lacqie 6 generica ou omissa o suficiente para ser
explorada por advogados h6beis. Aos usu6rios res-
to a organizacao dos condominios, qlue geralmente
neio tem condig~es financeiras, t~cnicas ou admi-
nistrativas para agir eficazmente em sinistros como
os qlue ocorreram em agosto.

Por um acaso, v6rios engenheiros tgm aparta-
mento no "Villa-Lobos". Um deles, inclusive, era di-
retor da Construtora Inca atg um mas antes do
acidente e participara das obras do pr~dio. Escla-
recidos, eles tiveram a iniciativa de convocar um
especialista em recuperate de edificases, o en-
genheiro Paulo Barroso, antes mesmo da constru-
tora adotar qualquer providgncia (embora tenha
dito o contr~rio numa nota b imprensa). Mas d pou-
co provd~vel qlue essa condic~io se repita da mes-
ma maneira em outros prbdlios.

A inseguranca, real, queria apenas um pretexto
para tornar-se consciente, visivel. A acgo governa-
mental, mesmo quando impulsionada por um fato
traumtrtico, est6 distant de poder oferecer uma
perspective aceitd~vel de melhoria. Apesar da ra-
pidez do resposta, a Prefeitura ofereceu apenas
normas burocraticas, quando muito eficozes ope-


nas em relac~io a uma certa ordenacbo de uso do
solo, mas ab~solutamente in6cuas quanto ao sub-
solo. Aplicado tr tramitaceo burocra~tica, o maior
rigor prometido pela Prefeitura poder6r se traduzir
tao somente em maior complicacaio administrati-
va e, possivelmente, mais 6nus no desvencilhamento
"por fora", atravgs de propinas, dessas mesmas di-
ficuldades. Como todo bom brasileiro est6 cansa-
do de saber, quando tam essa origem, tais rigores
saio mais para ingibs ver. Depois de ver tanta coisa-
feita apenas para impressionar pela fochada, o be-
lenense i6 sabe que esse tipo de construgaio um dia
desaba.