Revista nacional

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Material Information

Title:
Revista nacional
Uniform Title:
Revista nacional (São Paulo, Brazil)
Physical Description:
v. : ill. ; 24 cm.
Language:
Portuguese
Publisher:
Companhia Melhoramentos de São Paulo
Place of Publication:
São Paulo ;
Rio de Janeiro
Frequency:
monthly
regular

Subjects

Subjects / Keywords:
Periodicals -- Brazil   ( lcsh )
Genre:
periodical   ( marcgt )
serial   ( sobekcm )
Spatial Coverage:
Brazil

Notes

Dates or Sequential Designation:
Began in 1921.
Numbering Peculiarities:
Issues for 1921-1922 constitute anno 1, containing 15 numbers.
General Note:
"Nossa terra, nossa gente, nossa lingua; educação e instrucção, sciencias e artes."

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 18032553
System ID:
AA00001493:00001

Full Text




HEVISTAl NCIONAL


OSSM TERRRf


H0S 5EHTE


HS0S LIH6Uf9

EDURIC9O E IHSTRUCCU O 5CIENCIFI5 E FRTE5


VV
V









JULHO DE 1923
ANNO II N. 7





PUBLICRErFO mENSRL
COmPAHHlA mELHORFRmEHTOS DE SAO PRULO
S. PfULO, Caixa 436 RIO DE IRiEIRO, raixa 1617

















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R REVISTA NACIONAh
.II ----- ... REDAC-AO: i ------i
iUlJnU f-i ji!ll Rua Libero Badar6. 90 SAO PAULO jj!0 i2 V



JOSP ALBANO
Jn memorial

Quando me dispunha a escrever, como de costume, as
minhas impresses de actualidade ou de reminiscencias para
os leitores da Revista Nacio na eis que me surprehende a
triste noticia do fallecimento emnParis de um dos nossos mais
inspirados poetas, Jose Albano. '0
Ninguem o conheceu quasi, f6ra de um pequenino cir-
culo de admiradores. Parece que escreveu muito pouco e quasi
nada publicou, a nao ser dois pequeninos cadernos de ver-
sos, exiguos e quasi clandestinos em sua insignificant cir-
culag~o.
Todavia, era Jos6 Albano um poeta inspirado, alheio a
todas as escolas poeticas a nao ser daquella que se approxima
das fontes genuinas da poesia popular.
Como era um discolo, pouco Ihe havia de importar o com-
mentario dos seus contemporaneos ou a gloriola de se ver
acclamado.
Coisa difficil, e is vezes empresa arriscada, era tentar arran-
car-lhe do ineditismo voluntario a que se propunha deliberada-
mente, evitando a vozeria dos critics e dos philisteus da lite-
ratura.
Faco versos para ninguem (dizia sempre) porque nem
a mim mesmo me aprazem.
E na.o era um dito vao, pois que na realidade se abstinha
da imprensa a que votava odio tranquillo, profundo e irredu-
ctivel.
Entretanto, conhecemos alguns dos seus versos.
A julgar por esses raros especimens do seu estro, dir-se-ia
que era um home simples que nada mais accusava que a
rusticidade da natureza.
Assim era. Mas, entretanto, sua erudiqdo foi vastissima,
pois que Ihe eram familiares as grandes literaturas do mundo
- a allem&i, a inglesa, a grega e a latina cujas linguas cultivava
cor esmero.
Parece um milagre que tdo vasta erudia.o nao prejudicasse
as qualidades nativas e ingenuas da sua poesia sem emphase,






Revista Nacional


simples e fluente, tVo natural como a das gentes sertanejas do
mraravilhoso nordeste, onde nasceu.
Essa falta de artificio explica-se talvez pelo seu horror
ingenito a tudo que era pedantismo literario; ainda que, se
olhasse um pouco para si proprio, acharia a imagem perfeita
do pedante.
Era, em verdade, um pedante de marca. Seus themas habi-
tuaes de conversacgo, quanto pude observer, cifravam-se em
impertinentes quest6es de grammatica e da peior grammatica
que a meu ver consiste na supposta propriedade dos usos di-
dacticos e classics;
Um dos seus dois folhetos 6 um poema, verdadeiro pas-
tiche dos Lusiadas e por isso mesmo de mediocre valor, embora
nella occorram lindos versos esparsos que, em outros seculos
mais petrarquianos que o nosso, lhe dariam qualquer lugat e
grao de estima.
O outro folheto e realmente o mais caracteristico da sua
imaginag5o poetica.
Corn tao mesquinhas paginas nao podera talvez fundar a
reputaCgo de um nome literario, salvo se deixou qualquer
obra inedita do mesmo teor.
Essa hypothese nao e muito provavel, porque Jos6 Albano
pouco escrevia e mais se dissipava nos dialogos intimos dos
raros camaradas.
Fui um destes raros (amigos,> do poeta. E nem posso
gabar-me de que fui amigo, porque Jos6 Albano protestava
nao os ter nem os querer, por impossiveis. Nao acreditava
na amizade e se acreditasse nella, faria como Platdo, previa
rasoura de tudo quanto de long ou perto cheirasse a literature.
Achava, como Kierkegard, que as letras cedo ou tarde
corrompem o character.
Assim, pois, crei.o que s6 teve companheiros momentaneos
e eventuaes, sem responsabilidades e sem compromissos.
Esse estado de alma era o prenuncio da molestia terrivel
que Ihe arrebatou a razio. Desde que o conheci notei o seu
desequilibrio mental: mas essa perturbacao, segundo o meu
inepto diagnostic, devia ser insignificant e precaria e talvez
fosse (pensava eu ent.o) uma dessas poses frequentes entire
certos homes de espirito.


i,


Jos6 Albano era ou tinha pretenc6es de elegant. Usava
o monoculo, e nao iam mal A sua figure (que lembrava a de
Musset) os seus colletes de velludo e a sua fina barba a Na-
zarena.


412 '






Jos6 Albano


Parecia-me antiquado nessas feiq6es romanticas que, cha-
mando a attencqo de todos, por isso mesmo se tornavam de
grande vulgaridade.
Um symptom grave das suas contradiq6es pude veri-
ficar no moment em que piartia do Rio de Janeiro, doente e ja
tristemente affectado pelos prodromos da loucura.
Jos6 Albano nao permittia em sua conversaqao qualquer
palavra impudica, e, nem pessoa alguma se animava a referir
qualquer anecdota impura ou qualquer historic erotica. En-
rubescia, vociferava cor grandes indignaq6es, e azulava.
De uma feita, em companhia jovial e desattenta, o bario
de H..., allemro, proferiu certa palavra equivoca ou licenciosa;
Jos6 Albano sacou do bolso o lenco e apresentou-lh'o, dizendo:
Limpe essa boca.
O caso ia degenerando em conflict, quando a intervenglo
discreta de alguns amigos conseguiu apaziguar a furia do
offendido e do offensor.
Pois bem. Quando Jos6 Albano se retirava do Rio, uma
livraria qualquer annunciava e punha a venda uma colleccgo de
livros allemles. Fui ver esses livros onde por ventura poderia eu
encontrar alguns numerous de interesse.
O que realmente vi foi essa terrivel Schund-literatur que
faria c6rar o proprio Rabelais, tdo desenvolto e desbocado era
aquelle thesouro bibliographico que se acotovelava corn os
versos de Goethe e de Heine. Era a livraria do nosso poeta.
Apesar dessa curiosidade malss, Jos6 Albano foi sempre
um home puro, honestissimo e digno da affeigAo de todos
n6s que o conheciamos.
Sua vida era illibada e sem macula; nada se podia incrimi-
nar ao seu character a nao ser aquella incuravel misanthropia
que, por vezes, o assaltava.
Era, pois, um doente e nada mais. A curiosidade por aquella
literature de erotismo devia ser mais uma das suas numerosas
contradicoes -e exquisitices de espirito sem importancia para
a vida cristalina e impeccavel do poeta.
Quando rebentou a grande guerra mundial de 1914 nelle
se exacerbou a molestia que o perseguia, declarando-se em
verdadeira loucura.
Tomou o ipartido da Inglaterra que conhecia e amava desde
os verdes annos da infancia e mocidade. Considerou-se per-
seguido da espionage allemr e foi recolher-se a ilha vingadora
donde poderia assistir a victoria final do occidente colligado.
Newm essa mesma victoria Ihe restituiu a razao que final se
apagou nas trevas num dia de julho em Paris.
As suas inconsequencias fizeram-no figurar nas chronicas
humoristicas do jornalismo e num romance national como per-
sonagem excentrico e intratavel.






414 Revista Nacional

Foi tudo quanto deu a sua memorial que, entretanto, me-
recia ,e merece muito mais.
E possivel que a familiar guard os manuscriptos do poeta,
se existem acaso. O pouco, muito pouco que delle temos, lem-
bra-nos pela escassez e pela suavidade as trovas de Crisfal.
Creio servir A curiosidade dos leitores publicando os versos
de Jose Albano que delle consegui a custo para o Almanaque
Garnier de 1908.
Fui eu quem passou a dirigir o Almanaque (depois de
Ramiz Galvao) annuario excellent pela imparcial variedade
de autores e escriptos e pelas noticias do Brasil e de suas
riquezas materialss e moraes. Infelizmente o Almanaque desap-
pareceu em 1914 e difficilmente cessara essa interrupiAo.
LA e ,que sairam pela primeira vez os versos de Jos6 Al-
bano. Vamos em parte transcrevel-os, pois qu.e nAo tiveram
maior repercusso, e jhoje seria difficil alcanqal-os em um numero
ji esgotado daquielle annuario.
As Redondilhas como era o titulo, abrangiam trovas
avulsas, cantigas e voltas.
Eis, em primeiro lugar, algumas das trovas:

Duas ancoras num dia
Vi rompendo em luzes flavas;
Uma era o sol que surgia
A outra eras tu que chegavas.

A violeta anda chorosa,
E a rosa alegre e faceta
S6 porque te chamei rosa
E nro te chamei violeta.

Nesta existencia padeqo
De dois males, ai! de mim!
Da ventura sem comevo
E da tristeza sem fim.

Sho bellos esses versos talvez inspirados na musa poptilar;
mais ainda sAo mais formosas as poesias esparsas e as cantigas
conforme se p6de ver de dois exemplos:

Esparsa

Ha no meu peito uma porta,
A bater continuamente,
Onde a esperanqa jaz morta
E o coraaIo jaz doente.
Em toda a parte em que eu ando
Oico este ruido infindo:
Sio as tristezas entrando,
E as alegrias sahindo.








Jose Albano


A Cantiga que se vae ler nao 6 inferior as que nos
deixaram *~'ernaldim Ribeiro ou ChristovAo FalcAo.
Eil-a:

Nestes sombrios recantos,
Nestes saudosos retiros,
A agua desliza dos prantos.
Sopra o vento dos suspiros.

Volta

Tenho n'alma dois moinhos,
Umrn d'agua, outro e de vento;
Ambos juntos e vizinhos;
Ambos sempre em movimento.
E giros tantos e tantos,
E tantos e tantos giros,
DIo ao primeiro os meus prantos,
E ao segundo os meus suspiros.


Os nossos poetas do moment recusariam o louvor a essas
canoes, umr pouco archaisantes, antiquadas ou camornianas
que s6 se encontram nos velhos cancioneiros de antanho. A
belleza, porem, nada ter que ver cor a chronologia: s6 a moda
gosta de triumphos ephemeros.
E plena que a obra poetica de Jos6 Albano seja tdo mes-
quinha pela quantidade, se acaso nao deixou in6ditas outras
joias de seu escrinio.
Eis o que posso dizer desse poeta quasi obscuro e des-
conhecido, pessimista, misanthroipo, grammatico e polyglotta
notavel.
Havia no seu espirito profunda religiosidade; era deista,
christao e catholico. Ap'enas nao acreditava na virtude dos
homes.
Em outro tempo seria talvez um inquisidor; hoje, um
maniaco.
AmanhA, quem sabe? sera um poeta ressussitado para o
nosso Parnaso.


JoAo RLBEumo






416 Revista Nacional



JECA TATU E MANE CHIQUE-CHIQUE

O tremendo flagello da secca, o secular problema do Nor-
deste, ha trezentos annos assola essa vasta regiao do Brasil,
mantendo em continue sobresalto mais de tres milh6es de bra-
sileiros, impedidos de evoluir, impossibilitados de progredir.
Dir-me-hAo talvez: nio passam de J6cas Tatis a ',, 'vlari de c6coras, incapazes de
cvoluqio c impenetraveis ao progress!
E um engano!
Quem 6 J6ca Tatt? Que faz?... Diga-o Ruy Barbosa:
<(Solta Pedro I o grito do Ypiranga: e o caboclo em c6-
coras. Vem, corn o 13 de maio, a libertacgo dos escravos, e o
caboclo, de c6coras. Derriba o 15 de novembro um throno, er-
guendo uma Republica; e o caboclo, acocorado. No scenario
da revolta, entire Floriano, Custodio e Gumercindo, se joga a
sorte do paiz, esmagado quatro annos por Incitatus; e o ca-
boclo ainda corn os joelhois A boca. A cada um desses baques,
a cada. um desses estrondos, soergue o torso, espia, coca a
cabeqa, mafgina, mas volve A modorra, e n.o di pelo resto.
S(De p6, n.o 6 gente. A nao ser assentado sobre os cal-
canhares, nao desemperra a lingua, cousa ). A sua biboca de sap. faz rir aos bichos de toca.
Por cama, <. Roupa, a do corpo. Manti-
mentos, os que junta aos cantos da sordida arribana. O luxo
do toucinho pendente de um gancho a cumieira. A parede,
a pica-pAo, o polvarinho de chifre, o rabo de tati, e em para-
raio, as palmas bentas. Si a cabana racha, esti de para o resto da vida ). Quando o colmo do tecto, alluido pelo
tempo, escorre para dentro a chuva, nao se veda o rombo;
basta aparar-lhe a agua em um gamello. Desaprumando-se os
barrotes da casa, um santo de mascate, grudado d parede,
Ihe vale de contraforte, embora, quando ronca a trovoada,
nao deixe o fdono de se julgar mais em seguro no 6co do
uma arvore vizinha.
<(O mato vem beirar cor o terreirinho ni da palhoca. Nem
flores, nem fructos, nem legumes. Da terra, s6 a mandioca, o
milho e a canna. Porque nao exigem cultural, nem colheita.
A mandioca, <), nao teme formiga. A canrha
di a rapadura, di a garapa, e assucara, de um rolete espre-
mido a pulso, a cuia do cafe.
U Um fatalismo cego o acorrenta a inercia. Nem um laivo
de imaginacgo, ou o mais longinquo rudimento d'arte, na sua
imbecilidade. Mazorro e soturno, apenas rouqueja lugubres
toadas. < Triste como o curiango, nem siquer assobia No meio





Jeca Tatfi e Man6 Chique-Chique


da natureza brasileira, das suas catadupas de vida, sons e co-
lorido, , a modorrar silen-
cioso no recesso das grotas. Nao falla, nao canta, nao ri, nao
ama, na o vive.>>
E este o J6ca Tati.


*


Reza a Historia, que, cinco annos antes do grito do Ypi-
ranga, ji se -ouvira um grito de Liberdade, que, percorrendo os
sertbes do nordeste, ecoara nas quebradas do Araripe.
Quatro annos antes do 13 de Maio, ji estavam partidos
os grilhoes e fechadas as senzalas em vasta zona do Nordeste;
nAo mais se davam as scenas de selvageria, nem se ouviam as
lamentaqbes e gemidos de infelizes escravos.
Antes do 15 de Novembro 65 annos, ji existira em terri-
torio brasileiro a ConfederaFco do Equador.
Antes do .scenario da revolta de 1893, ji os campos para-
guayos haviam presenciado o heroismo e a coragem dos que
defenderam o auri-verde penddo...
Quem deu ,o grito de Liberdade em 1817?
Quem libertou os escravos em 1884?
Quem fundou a Confederaclo do Equador em 1824?
Quem foi o heroe do Riachuelo, do Tuyuty e do Campo
Grande?
Quem, nos tempos que correm, realize a modern epopea
do desbravamento da Amazonia?
Jdca Tati?... Decerto que nao! pois elle vive de c6coras!
Acocorado, ninguem di vivas a Liberdade, nem liberta
escravos. Em c6coras, ninguem abate dictadores, nem funda re-
publicas. De c6coras, ninguem desbrava florestas, nem pov6a
terras.
Vemos muitas vezes, na mesma familiar, filhos dos mes-
mos paes, com o mesmo sangue nas veias, educados na mes-
ma escola, se tornarem ur, estroina, preguiqoso e rotineiro,
outro, um home honrado,- trabalhador e progressista. Nao
poderiamos escapar a regra; o mesmo se di na grande fa-
milia brasileira: filhos dos mesmos paes, com o mesmo san-
gue nas veias, educados na mesma escola, temos o Jdca Tati,
preguicoso e bisonho, e seu irmao Mane Chique-Chique, affoito
como o jaguar, resistente como o chique-chique.
Quem deu o exemplo a Pedro I? Quem preceded a Isa-
bel, a Redemptora? Quem se adeantou a Deodoro?...
Foi Mane Chique-Chique!
Quem veiceu Riachuelo, Tuyuty e Campo Grande? Quem
desbravou a Amazonia?....


417





Revista Nacional


Foi Mane Chique-chique!
O chique-chique 6 um cardo da patria de Mane. Nasce e
prosper em qualquer terreno, bom, mediocre ou ruim; mas,
sobrio, resistente, tenaz e rude, prefer a todos, a pedra nua,
a rocha dura. Alli, onde parece impossivel a vida, onde qual-
quer planja estiolaria, e outra semente encontraria a more,
alli elle se firma, alli encontra seus elements de vida: a atmos-
phera clara e limpida, cheia de luz e batida pelos ventos ge-
raes; a agua, que cae dos c6os.e se empoga emcima da pedra,
e a humidade ique se infiltra na rocha; plara alimento, algum
detricto vegetal, que o vento Ihe traga, e os products mine-
raes, que seu proprio esforqo vae buscar nas fissuras da rocha.
Si Ihe falta o alimento, gasta as reserves; si a agua se eva-
pora, as raizes penetrantes se enfiam por uma brecha na ro-
cha dura e vao buscar a lympha vivificadora, onde ella esti-
ver. O chique-chique nunca perde sua roupagem verde, quer
no inverno diluvial, quer na secca mais tremenda. Filha ex-
traordinariamente; corte-lhe o caule em dezenas de pedacos:
de cada um, qualquer que seja o tamanho, e a posiqdo em que
caia, nasce uma nova plant. Depois de uma secca brotam
corn mais exhuberancia os rebentos, parecendo que a na-
tureza se apressa em preencher os claros, que abriu. Saiba
tratal-o, elle lhe apresentari a face macia; nao o leve corn geito,
elle se defenderA cor os espinhos. De-lhe trato, cultive-o
cor cuidado, desapparecerAo os espinhos. Modesto e despre-
tencioso, nao passa de chique-chique, despresado e villipen-
diado; mas, nos moments difficeis, nas seccas devastadoras,
todos recorrem a elle, alimento saboroso, tanto para os ani-
maes, como para os homes.
Assim tambem o homonymo Mane Chique-chique: nasce
e prospera em qualquer terra. Mas, sobrio, resistente, tenaz
e rude, prefer, a todas, a regiao arida e pedregosa, em que
nasceu. Alli, onde parece impossivel a vida, onde outra raca
estiolaria e outro povo encontraria a morte, alli elle se firma,
alli encontra seus elements de vida: a atmosphere clara e
limpida, cheia de luz e batida pelos ventos geraes; a agua, que
cae dos ceos e se empoqa sobre a terra; alguma fructa sil-
vestre, que o matto Ihe fornega, e bs products agricolas, que
seu proprio esfo.ro vae tirar do solo. Si Ihe falta alimento,
gasta as reserves do organismo; si a agua se evapora, elle vae
buscar a lympha vivificadora onde ella estiver, no subsolo,
dentro da rocha dura. Main 6 sempre o mesmio, forte e des:
temido, quer no inverno diluvial, quer na secca a mais tremenda.
De uma fecundidade extraordinaria, ter umra prole abundante,
send os nascimentos mais numerosos depois de uma secca,
parecendo que a natureza se apressa em preencher os claros,
que abriu. Saiba tratal-o, elle se deixari conduzir como um cor-
deiro; nao o leve corn geito, elle se tornara espinhento. For-










I Jea Tatti e Mane Chique-Chique 419

neqa-lhe instruccio, d&-lhe educaAo, desapparecerA a rudeza.
Modesto e despretencioso, nio passa de sertanejo, despresado e
villipendiado; mas, nos mnomentos difficeis, nas guerras san-
grentas, recorrem a elle, valente soldado e bravo marujo, para
came dos canhoes.
Emquanto nas veias de J6ca Tatti corre, ao que parece, sain-
gue degenerado, herdou Mane Chique-chique as qualidades no-
bres e viris dos Tabajares, dos Genipapos, dos Carirys, dos
Pitiguares e dos Apinages.
Aquelle vive numa toca, em logar escuso, dentro do mat-
to. Este, home de vistas largas, constr6e sua casa, limpa e
arejada, no alto, done possa dominar a estrada e perscrutar,
assumptar, os horizontes; o terreiro, vasto e limplo, a separa
da estrada.
Emquanto Jeca, acocorado em sua toca, corn olhar em-
baciado e palpebras preguicosamente semi-cerradas, mal en-
xerga a vereda estreita e coberta de matto, que vae ter i
estrada, os horizontes de Man6 Chique-chique nao teem li-
mites; cor seu olhar vivo, de long alcance, livre elle campeia
pelos vastos sertoes.


ILDEFONSO ALB ANO





420 Revista Nacional



A EVOLU;AO DO ENSINO NO CEARA

E A REFORM DE 1922


SUMMARIO I Primciros tempos; as escolas de latim. II Reacq5o contra a escola
latina. III Differenciaq~o do ensino primario. IV A Renascena ,: a reform de
1922. V Concluslio.

A evoluiao do ensino, no Ceard, como em quasi toda a
parte, ter consistido numa passage do classic e do verbal,
para o scienlifico e o utilitario.

I Primeiros tempos: as escolas de latim

Atd o meiado do seculo dezenove, dominou o latinismo..
Toda a instrucilo public consistia em algumas < latim que se localisavam na Capital e, escassamente, no in-
terior da Provincia. Entendia-se que o home nao tinha neces-
sidade de saber outra coisa sinao as declina!aes de rosa, rosae.


Dr. JUSTINIANO SERPA
Illustre prcsidente do Ceara, recentemente fallecido

Depois, fundaram-se, pouco e pouco, na Capital, cadeiras
isoladas de outras materials. Em 1844, existiam no interior da
provincia, nas cidades mais povoadas, 6 aulas de latim, cor












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422 Revista Nacional


84 alumnos matriculados; e em Fortaleza, 5 aulas isoladas di-
versas Latim, Logica, Rhetorica, Geometria e Francez -
cor 14 alumnos. (!) Deu-se, ent5o, o phenomenon que no Brasil
caracterisou a differenciaoo do ensino secundario: as cadeiras
isoladas se reuniram, sob o mesmo tecto, cor o nome de Lyceu,.
(Lei provincial, n.o 299, de 15-7-1844).
Em 1850, comeqa-se a comprehender a inutilidade desse en-
sino. No seu relatorio A Assembl6a Legislativa, em julho desse
anno, o Presidente da Provincia, Fausto Augusto de Aguiar,
estendendo-se em judiciosas consideracbes a respeito da ins-
truc0o public, em geral, lembra a conveniencia de serem sup-
primidas as 9 cadeiras de latim, existentes no interior do Ceari,
afim de que, corn essa economic, pudesse o Governo dar mais
amplo desenvolvimento ao ensino primario, criando < de 1.a classes> nas localidades mais populosas e florescentes.
O President era um home progressista. Enfrentando corn
desassombro os preconceitos de seu tempo, inaugurou brilhan-
temente a reactao contra o latinismo, do qual, segundo affir-
mou, <(a mocidade nao podia tirar nenhuma vantagem pratica >.

II Reaccio contra a escola latina

Em 1853, reaffirma-se a reacao. O entao Presidente, Joa-
quim Villela de Castro Tavares, louvando a iniciativa do Legis-
lativo, que resolvera fazer supprimir as cadeiras de Latim, a
proporco que se fossem vagando, faz consideraqbes sobre a
inutilidade desse ensino, cor a suppressao do qual faria o
governor uma economic de 4:1008000, que ploderia ser appli-
cada A uma instruccao mais proveitosa. Todavia, nao fala em
instruccio primaria, limitando-se a dizer algo do ensino secun-
dario, e concitando o Legislativo a crear cadeiras de Religi;o
Catholica, Physica, Mecanica, Botanica, Agricultura, Veterinaria,
Contabilidade e Escripturacio mercantil, bem como cadeiras de
artes liberaes, como Desenho e Musica. Sobre a Musica, diz,
literalmente: < Beaumont, encerra tudo, imaginaCgo, poesia, enthusiasm, sen-
sibilidade, forca de engenho, ternura de coracgo, canto de
gloria, e suspiros de amor; a music, cujos sons mysteriosos,
differences da palavra, e exprimindo mais que o pensamento,
nao se dirigem sinAo a alma; a Musica, que por mais de uma
vez tern adoqado os coraq6es e aperfeiqoado os costumes >, etc.
Era um president do tempo de Platio... S6 faltou encommendar
os citharistas, para que os cearenses, cigarras do estio, revi-
vessem neste pedago de terra secca, as magnificas melodies de
Hellade.
Mas nada se fez de pratico, por isso mesmo. Submettjdas a
lei fatal da evolucio, as cadeiras de latim, de ha muito con-





A evolucAo do ensino no Ceari e a reform de 1922


demnadas, iam desapparecendo, para darem lugar, aqui e alli,
is escolas de primeiras letras, provides, na sua maioria, por
pessoas quasi analphabetas. Dellas se exigia um exame sum-
marissimo e um tirocinio de 15 dias...

III --- DifferenciaQAo do ensino primario

S6 em 1881, se inicia um period novo. Tendo sido no-
meado Director da Instrucco Publica, a 2 de outubro desse
anno, o bacharel Amaro Cavalcante, que havia chegado da
America do Norte, animado de idWas novas, procurou o novo


Orupo Escolar do Outeiro, em Fortaleza, inaugurado em Janeiro deste anno. Funcciona em
predio amplo e arejado, corn uma matricula superior a setecentos alumnos.

funccionario conhecer a situagco do ensino na provincia e tomar
aos hombros a reform estatuida pela Lei provincial n.o 1951,
de 12 de setembro desse anno. Como o Director da Instruccio
era ao mesmo tempo director do Lyceu, o Regulamento da lei
citada comeqa por separar essas funcoes, ficando a instrucg~o
cor um chefe a parte: o Inspector Geral da Instruccao.
A lei 1951 creava ainda uma Escola Normal, e autorisava
a mandar um cearense a Europa, em commission, afim de fazer,
no curso de um anno (!) estudos completes de Pedagogia.
Essa disposigio aproveitou ao cidadao Jos6 de Barcellos, que
ja havia sido nomeado professor do future estabelecimento,
ainda ndo installado, e que partiu para a Franca em ou-
tubro de 1881.


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423





424 Revista Nacional

Constr6e-se, no anno seguinte, um pequeno edificio des-
tinado i Escola Normal, mas o bello movimento que se en-
saiava arrefece um pouco. A inspectoria da Instruccio volta
a fundir-se com a direcaio do Lyceu, cor prejuizo de ambas
as coisas. O professor Barcellos, chegado havia pouco, de
sua viagem, 6 addido ao Lyceu para ensinar Geographia e
Historia ...
Em 1884, funda-se, finalmente, a Escola Normal. Mas
a sua vida 6 precaria. Vive do patriotism de Jos6 de Bar-
cellos e de outros professors, que se offereceram para lec-
cionar gratuitamente, durante o seu primeiro anno de exis-
tencia. O Regulamento de 1881, que Ihe marcava um curso
de tres annos, 6 modificado cor a reducqlo dos estudos a
um anno, s6mente...
Comtudo, a fundacao do novo estabelecimento marca a
differenciacao do ensino primario. 0 classic vae cedendo












NOVO PREDIO DA ESCOLA NORMAL DE FORTALEZA
Este predio tem doze salas de alas, amphitheatre, bibliotheca, museu, directoria, secreta-
ria, hall e outras dependencias, sem contar o por.o habitavel, que servira para as aulas
de trabalhos manuaes, gabinete de chimica, etc. Representa o typo de construcqao
escolar: hygienica e economic. Foi orcada em 280:000$. A construcCqo estA adeantada,
devendo inaugcrar-se o predio dentro de dois a tres mezes.

terreno ao zitil e ao concrelo. Os futures professors apreri-
dem Portuguez e Arithmetica e noqoes de Geographia, Histo-
ria, Desenho Linear e Geometria pratica. As escolas pri-
marias se multiplicam cada anno, e penetram o sertdo, cora-
josamente. Em 1884 tinhamos quasi duzentas escolas; em
1894, 230; em 1904, 246.
Em toda a era de ensino, ha um home que a corporisa
- urn home diogenico. Nesse period de grande trabalho,
acima descripto, tivemos Jos6 de Barcellos, a cujo nome se
associaram todas as reforms do ensino primario no Ceari,
at6 1905. Foi longos annos o professor de Pedagogia da
Escola -Normal. Intelligencia de elite, home patriota, e so-
bretudo enthusiasta pela causa do ensino, tornou-se, entire
n6s, a maior autoridade em material pedagogica.
Era, entretanto, e infelizmente, um theorico. O curso







A evoluiao do ensino no Ceara e a refornia de 1922 425


.4


Escola Jos6 de Alencar na villa de Mecejana onde nasceu o grande romancista cearense.
Representa o typo-modelo das Escolas-reunidas, approvado pela Directoria da Instrucg5o.


Predio em que funcciona a Escola Modelo, a escola donde partiu a renovacqo technical e
onde prineiro foram empregados os modernos processes de ensino, no Ceara. A Es-
cola Modelo, annexa A Escola Normal, foi inaugurada a 11 de agosto de 1922, quatro
mezes apenas depois da chegada ao CearA do Prof. Lourenqo Filho. Foi montada corn
todo o material necessario importado de Sao Paulo.


I,
i





426 Revista Nacional


FESTA DAS ARVORES
O plantio da arvore, por occasiLo da Festa das Arvores no Grupo Escolar
do Outeiro em Fortaleza.

apressado que fizera na Europa, numa epoca em que as praticas
escolares ndo haviam attingido a perfeiqao de hoje nao Ihe
podia ter dado as qualidades de technico. Conhecia todos os
auctores, discutia as vantagens e as desvantagens de uma in-
finidade de processes didacticos, mas faltava-lhe o espirito
de realisaiAo indisplensavel nas reforms.
A escola primaria do Ceari, organisada sob sua influencia,
era um reflexo desse theorismo. O recurso pedagogico, por
excellencia, era a memorisa.do: os effeitos do ensino o ver-
balismo. A instrucgao popular trouxera assim, por via here-
ditaria, os vicious do classicismo da instrucqo secundaria. Ngo
organisava .os recursos da natureza humana: organisava o
p'alavrorio, orientava, quando muito, para o literatismo ou a
literatice.
E o peior e que o seu effeito social era o urbanismo e
a mania burocratica. Deslocava o home dos campos para
as cidades, das profissoes po.ssiveis die um meio em que se
vive quasi que exclusivamente da lavoura e da piecuaria, para
as profissoes ihtellectuaes ou pseudo-intellectuaes: a imprensa,
a literature, a advocacia e sobretudo, o funccionalismo public.
As artes e os officios e as profissbes normaes, essa escola
considerava humilhantes...
As tendencies dessa pedagogia cial coincidem cor as grandes manifestaqbes literarias do


i
I





A evoluqgo do ensino no Ceara e a reform de 1922 427





















FESTA DAS ARVORES
O brinquedo da lavoura realisado na Escola Modelo de Fortaleza, por occasilo da Festa
das Arvores, levada a affeito em todo o Ceari, em Maio deste anno, e tornada obriga-
toria pela reform do ensino.
tempo. Fundam-se a Padaria Espiritual e o Centro Literario
e outras associaq6es congeneres. SAo fabrics de poetas e
romancistas. Desse tempo escreve um literate do sul, que
entdo nos visitou: < Todo o icearense rabisca o seu conto e idealisa o seu romance >.
Pobre CearA! Emquanto as seccas dizimavam a pecuaria, des-
organisavam toda a vida economic, matavam o home e
extinguiam as suas riquezas, os homeses cultos ), de quem
alguma coisa de util se devia esperar, perpetravam sonetos
e se inspiravam para romances e novellas...
Raros espiritos dos que tomaram parte nesse movimento
literario, conseguiram engrandecer as letras patrias. A gran-
de maioria, a que faltavam qualidades individuals para veneer,
nao conseguiu sahir da obscuridade. E as difficuldades fi-
nanceiras dos intellectuaes concorreram ainda mais que a au-
sencia do genio literario para o desalento das hostes dos poetas.
Reproduzia-se a fabula, mais uma vez: a formiga mostrava
A cigarra que se no vive s6 de melodies. E' a reacqco devia
nascer. Os poemas ficam As moscas e as corporaqoes litera-
rias no conseguem mais existencia duradoira; formam-se e
se desfazem em seguida, deante do indifferentismo geral.
As desillus5es levam ao sceptismo, que se propaga com
os caracteres de uma psychose geral. O desprezo e as desil-
lusoes em relaqgo As letras coincidem corn o desprestigio da





428 Revista Nacional

escola public, que ji nao desperta a confianqa dos chefes de
familiar. Esse estado de espirito devia annunciar o advento
de um novo estado de coisas, porque o scepticismo 6 sempre
o architect de situaq6es novas. Destr6e e devasta, porque
toda a renovacAo deve nascer entire ruinas.

VI-A
Foi nesse period de crise profunda, que chegou ao Ceara,
chamado de SAo Paulo, o professor Bergstrom Lourengo Filho.
Comprehendeu logo o Sr. Justiniano de Serpa, Presi-
dente do Estado, que n.,o tinha a seu lado apienas um technico,


Gymnastica sueca no Grupo Escolar de Baturite, interior do CearA, inaugurado officialmente
a 25 de Marco deste anno. Como o Grupo de Baturit6 estdo funccionando doze outros
no sert5o.

mas o home de que precisava para realisar o seu grande sonho
de estadista e de patriot. E apenas inteirado disso, isolou a
instruccio da influencia dos politicos, entregando ao professor
paulista, armado com poderes discrecionarios, toda a maquina
administrative do ensino.
Nao 6 possivel dizer, num simples artigo de revista, o
que o novo Director da Instruccao, e tambem professor de
Pedagogia da Escola Normal, ter realisado nos dez mezes de
sua permanencia entire n6s. Mas para que se tenha idea
approximada da obra de remodelao.o technical e administrative
ji effectivada, basta que Ihe delineemos as linhas mestras.








A evoluq1 o do ensino no CearA e a reform de 1922


a) ReorgyanisaYio da Escola Normal -0 primeiro cuidado o
do professor Lourenco Filho foi o de reorganisar a Escola Nor-rn c c
mal, <, no seu proprio dizer. E ..
esse trabalho teve por objective principal ((corrigir a orienta-
cao literaria ou formalistica do programma, que composto mais'" ""
de sciencias abstractas ou descriptivas, orna o espirito mas nao do -
o forma.> (1) De feito, foi extincta a cadeira de Inglez, porC-u',.
desnecessaria, e a de Literatura, por demasiada, criando-se, oL^Vo
em compensaio a de Physica e Chimica, a de Anatomia e cLoo
Physiologia Humanas e Hygiene, a Pratica Pedagogica, ej, '
as aulas de Musica e Gymnastica, absolutamente necessarias. .
Para o curso normal poder alcanQar o seu nivel, e ter, outrosim,,- .
o desenvolvimento precise, foi creado o Curso Complementar,



















9 0
Uma aula de gymnastics na Escola Modelo do Ceard. A gymnastics 6 hoje obrigatoria
em todas as escolas publicas cearenses.

de dois annos, que estabeleceu a continuidade do ensino, antes -'-
inexistente. 0 novo professor de Pedagogia e Didactica, com <,
o seu simples exemplo suggestionador, e o auxilio sempre in- CL j
telligente e valioso do director do estabelecimento, dr. Joao .c
Hyppolito de Azevedo, reagiu firmemente contra o psittacismo
que reinava em quasi todas as cadeiras, inaugurando as pra-,
ticas escolares que se fundam nas leis da Psychologia e segun-
do as quaes, o alumno 6 um ser activo que se educa, reagindo
ao contact do meio amibiente. <<0 professor 6 apenas um in-o

(1) Prof. Lourenqo Filho, Memorial ao Governo, maio 1922.
LBt9k. O^-^
}5vX^^-~ r

----------------------------------^ -


42C9o C\AAA





Revista Nacional


termediario: o seu piapiel 6 o ide estreitar e knultiplicar as relacses
do individuo cor o meio, nao s6 aproveitando as circumstan-
cias, mas criando circumstancias artificiaes, de que o alumno
se tera de sahir, agindo e raciocinando, associando e abstrahindo
- organisando, emfim, a sua propria mentalidade >. E tudo
isso nao era apenas dito: era demonstrado experimentalmente,
a proposito de todas as disciplines, na Escola Modelo >, esta-
belecimento destinado a marcar epoca na historic do ensino do
Cear,>> segundo affirmou, em mensagem ao Legislativo, o
sr. President do Estado.
As Liqbes do professor Lourenqo Filho apaixonaram os
espiritos. Assistiam-n'as, diarimente, assim os alumnos da Es-
cola Normal, como professors publicos e particulares, inspecto-
res escolares, deputados, literatos, advogados e jornalistas.
O proprio sr. President do Estado, talvez o mais enthusiast,
costumava distinguir as aulas corn a sua presenga. O recinto
jA tinha o aspect de um salo de conferencias, ou melhor de
um cenaculo, porque nunca as aulas eram puramente expositi-
vas, mas animadas das mais interessantes discusses. Foi pre-
ciso estabelecer um curso especial, alem do da Es ola,-onde
se ouviram aulas memoraveis, que muito elevaram d- nivel in-
tellectual do professorado, ao mesmo tempo que Ihe accendiam
no espirito o amor pelas bellas coisas da educaao.
Assim comeqou a reform: por uma reform de id6as.
b) Installagdo da Directoria da Instrucido Havia-se crea-
do uma id6a-forqa admiravel. Mas nio bastava. O ensino
primario no Ceari nunca tivera um orgao proprio de direcqco,
a nlo ser nas leis. Era um organismo decapitado: agia tio
s6mente graqas aos reflexes medullares... A Inspectoria da
Instruccio, ora vivia em symbiose corn a directoria do Lyceu,
ora se enkistava na Secretaria do Interior, onde perdia o
nome. A sua historic 6 uma constant migrao.o daquelle es-
tabelecimento para esta Secretaria, desta Secretaria para aquelle
estabelecimento. Nessa vida ( nio; faltavam-lhe tradiqces.
Ultimamente, alguns annos ji, houve Luma tentative de
installaqao condigna e adequada de uma directoria ou Inspe-
ctoria. Adquire-se o mobiliario, aluga-se uma casa, nomeam-se
tres funccionarios... e os negocios do ensino continiavam na
Secretaria do Interior, como dantes.
Quando o professor Lourenco Filho chegou ao Ceari, a
situacio era essa. Acephalia complete, e a administraqlo do
ensino um pandemonio. A politiquice tudo havia contaminado.
Assumindo a chefia da nova repartico, o professor paulista
tonou logo duas ou tres medidas que mostravam a consolida-
ao do apparelho do ensino, pela inauguracao de um governor
proprio. Suspendeu, em absolute, at6 que se fizesse o recen-
seamento da populacao em idade escolar, todo o servico de





A evolurdo do ensino no CearA e a reform de 1922


nomeaq6es, remoqSes e permutas, media que tendia a affas,
tar os elements politicos da reparticgo; substituiu a antiga
escripta, rotineira e falha por uma escripta racional e exacta,
baseada nos mais modernos processes de fichas e promptuarios;
e emprehendeu, em seguida, cor o auxilio das Prefeituras, o le-
vantamento da ( base scientific > da reform, cor o service que
veiu a chamar-se Cadastro Escolar.

c) Realisagdo do ( Cadastro Escolar>> Tratava-se de um
balango geral da situaqlo: 1) o recenseamento de todas as cre-
ancas do Estado, de 6 a 12 annos, analphabetas ou nlo; 2) a























ESCOLA MODELO DE FORTALEZA
Uma aula de leitura analytica, na 1.a classes. Por occasiao da inauguraq o official desta
escola, tres mezes depois de sua installaq5o, ja muitos alumnos que havian sido ma-
triculados analphabetos sabiam ler correntemente. A leitura analytica 6 hoje empregada
em todos os grupos de Fortaleza e nos grupos ultimamente installados no interior do
CearA.

inscripAo dos auxilios das Prefeituras e particulares a locali-
sacao das escolas ji existentes, e daquellas a serem creadas;
3) o balanco do material existente nas escolas publicas (de
que nao havia inventario) e organisaqdo da estatistica geral
do ensino; 4) uma enquete entire os chefes de familiar, sobre
horarios, ferias e outras questoes locaes.
O trabalho era gigantesco, e na sua realisacgo rapida pouco
acreditavam. Entretanto, o Cadastro foi levantado, em todo
o Estado, cor exactidao e presteza, em menos de tres mezes.
Organisou-se a plant cadastral de cada municipio, no qual





Revista Nacional


sao determinados os nucleos de populaq~o escolar, as distan-
cias entire si e em relaco i s6de do municipio; ao lado estdo
os algarismos correspondents a cada nucleo, de modo a se
poder fazer a distribuiCo just e equitativa das escolas, ao con-
trario do que acontecia anteriormente. (1) Alem disso, foram
obtidos gratuitamente, de particulares e das Municipalidades,
mais de mil predios urbanos e ruraes, para escolas isoladas,
af6ra predios para grupos-escolares e escolas reunidas nas
sides de dois terqos dos nossos 74 municipios. Inventariou-
se todo o material existente nas escolas, organisaram-se esta-
tisticas, e' foi possivel determinar, apurando os dados de uma
enquete entire os chefes de familiar, quaes os horarios, pro-
grammas e ferias mais convenientes is diversas regioes do
Estado.
Mas, o resultado, por excellencia, do Cadastro foi o seu
prodigioso effeito moral. O professor Lourenco Filho tinha
a nitida comp'rehensao de que uma reform do ensino 6 uma
reform de costumes, e que nao p6de ser feita por um ho-
mem s6, nem tdo s6mente pelo Governo. Era precise acordar
o povo! Assim antes de iniciar o serviqo fez uma propaganda
geral no sentido de interessar todas as forcas sociaes na reali-
sagdo do Cadastro. Depois de conseguir a adh'esao das Pre-
feituras, no Congresso de Prefeitos, realisado em maio do
anno passado, obteve as adhesbes valiosissimas do Arcebispado
de Fortaleza, da Inspectoria de Obras contra as Seccas, da Admi-
nistracio dos Correios, da Repartiqdo dos Telegraphos, e da
Associag~o Commercial do Ceard, cujos subordinados, em
toda a part, receberam ordens de auxiliar os funccionarios da
Directoria da Instruccao.
Al6m disso, os chefes das 6 regi6es, em que foi dividido
o Estado, para os effeitos do Cadastro, todos mo.qos e enthu-
siastas, percorrendo os logares mais distantes, fizeram em todos
os recantos do sertio, a mais intense propaganda verbal, des-
pertando nas populacqes a id6a da obrigaqao de cuidar do
ensino primario. Nesse sentido, os vigarios prestaram tam-
bem inestimaveis serviqos, fazendo do pulpito uma propaganda
de grande effeito, dado o immenso prestigio de que gozam em
todos os logares do interior.
'A reform, por isso, foi ventilada por todo o public.
Durante dias e dias, era o assumpto das conversas e discusses
em todo territorio do Estado, desde as cidades mais adeantadas
at6 aos logarejos mais obscuros. Si desse edificante movi-
mento de platriotismo nao houvessem resultado os extraordi,
narios beneficios materials do Cadastro, ji acima enumerados,
os beneficios moraes que delle advieram compensariam todos

(1) De accord comn o Cadastro, a Directoria da Instrucqio ji propoz no Governo a
creacgo de mais de cem escolas.








A evoluuio do ensino no Ceari e a reform de 1922


os esforcos e a sua insignificant despeza por parte do Es-
tado. (1)
O Cadastro produziu effeitos dynamogenicos. Levantou
em toda a prate o nivel do interesse pelo ensino, incorporou
i psychologia public alguma coisa de novo e de salutar. Se-
gundo os calculos do professor Lourenco Filho, < metade da reform >. Elevou rapidamente a matricula nas
escolas, porque muitos paes tomaram o recenseamento como ma-
tricula compulsoria. Acordou as proprias corporaq6es munici-
paes, que, aterradas corn as cifras de analphabetos que lhe fo-
ram postas deante dos olhos, criaram numerosas classes pri-
marias, a sua custa. Foi um vibrant toque de reunir. (2)























Urna aula de gcographia, pela cartographia, no 4.0 anno da Escola Modelo, annexa a Es-
cola Normal de Fortaleza, evidenciando a orientai;o do apreiudizado actico, ahi seguida
em todas as disciplines.

d) Relocalisa(do das escolas S6 displomps de uma es-
cola Normal, que funcciona em Fortaleza, (3) pelo que, quasi
todas as professors do Estado tem familiar na Capital e ndo
se conformam em trabalhar nos sert6es longinquos. Quando
muito trabalhariam cor prazer pelos municipios vizinhos. Em
vista disso, a metade das escolas primaries do Estado tern

(1) As dcspcsas, por parte do Estado, nao chegaram a vinte contos de reis; por
part dos municipios orqou approximnadamente em cincoenta contos.
(2) S6 a Prefeitura de QuixadA criou, de uma s6 vez, dez escolas; a de Acarahu,
5; a de Camocim, 5; diversas outras, varias escolas. Alguns municipios subvencionaram
estabelecimentos privados, como o de Aracaty, onde acaba de se installar uni gymnasio-
o < Collegio Jose de Alencar .
(3) Entra nos pianos da refornma a creaqco de duas escolas normaes no seio do ser-
tIo: umna no Crato, outra em Sobral.





Revista Nacional


estado sempre localisadas nessa pequena faixa do territorio
cearense; ultimamente, essa tendencia de centralisado, aju-
dada pelo favoritissimo politico, havia torado proporqces as-
sustadoras. Quasi diariamente as escolas do sertio, entire as
quaes algumas muito bem localisadas, funccionando de longa
data em nucleos muito povoados, eram transferidas para a
Capital, para suppostos arraiaes. 0 urbanismo assumia uma
feicio nova. Depois de deslocar os homes dos campos, a
propria escola se deslocava...
A solucfo da crise ndo era facil, pior que vinha contrariar os
interesses de innumeras pessoas. Mas a reform enfrentou-a
decididamente. Dividindo o Estado em 4 entrancias de ensino,
e tornando difficultoso o access A l.a (Capital) que s6 p6de
ser feito agora mediante concurso real, na escola Normal, e
tornando menos facil o access i 2.a entrancia (municipios vi-
zinhos A Capital) que exigem o concurso de nota de diplomas,
a reform cortou o passo ao congestionamento. Essa media
salutar e os dados do Cadastro, constituem a base da revisao
da localisao~o das escolas, que ji foi iniciada e prosegue sem
embaracos, muitas vezes conduzindo os proprios professors.
Outra media de grande alcance ter sido o agrupamento
das escolas.
Antes da reform, possuiamos apenas alguns grupos esco-
lares na Capital e dois no interior. Nenhumas nidas >, typo commodo e barato do grupo-escolar. Agora, po-
rem,, ji foram creados e installados mais 8 grupos em diversas
cidades do interior, em que o Cadastro autorisou fazel-o, e
bem assim, 21 escolas-reunidas, quasi todas j6 installadas.
Para o funccionamento regular de todos esses estabelecimen-
tos, fez o Governo uma grande encommenda de material peda-
gogico a S. Paulo. (1)
e) Introducgdo das novas praticas escolares Ja tivemos
occasido de assignalar que a Escola Modelo, annexa i Escola
Normal, fundada e organisada pessoalmente pelo prof. Berg-
strom Lourenqo Filho, ter as funcqSes de padrio da nova
escola primaria do Estado. Installada cor material todo vindo
de S. Paulo, e orientada por um professor paulista do valor
do pedagogista de Piracicaba, o novo estabelecimento tornou-
Se, em pouco tempo, comparavel a um grupo escolar do grande
Estado. Foi ahi onde primeiro se introduziram as novas praticas
escolares (a leitura analytica, o calculo concrete, o ensino si-
multaneo da -leitura e da escripta, o desenho do natural, o
, a cartographia, a gymnastics sueca, etc.), praticas essas
que, neste instant, se irradiam par todos os grupos escolares
da Capital e do interior, como os clarbes de umia nova 6ra.

(1) Boa parte dessa encommenda foi adquirida na Comp. Melhoramentos de S Paulo.
Um recent decreto autorisa a Directoria da InstrucqZo a adquirir 3.000 carteiras americanas.








A evoluoo do ensino no Ceara e a reform de 1922


Uma aula de geographia no 2. anno da Escola Modelo de Fortaleza, fazendo-se uso do
taboleiro de area, para estudo dos accidents, que as proprias creanqas constr6em,
comparam, analysam e denominam.

A Escola Modelo tornou-se por muito tempo o object de
verdadeiras romarias. Iam ahi assistir as aulas tanto os nor-
malistas, como professors e professors, quer publicos quer
particulares, chefes de familiar, jornalistas, curiosos. O inte-
resse que haviam despertado as aulas de pedagogia na escola
Normal e no Curso especial manteve-se no public, por muito
tempo.
f) O < Mas a reform technical s6 pela
Escola Modelo estava restrict i Capital e aos municipios de
facil access. Foi entao que o prof. Lourengo Filho esta-
beleceu, aproveitando o period das ferias do fim do anno, o
curso cor razuo chamado de ( dida uma pequena ajuda de custo aos professors do interior,
e em breve a matricula attingia ao espantoso numero de
trezentos e sessenta e dois! 0 Curso teve necessidade de func-
cionar num recinto muito vasto, e e assim que o < Theatro Jose
de Alencar>> teve de se fazer sala de aula e se encheu diaria-
mente, por mais de uma quinzena, de professors que vieram
dos recantos mais longinquos do Estado, para respirar o oxyge-
nio das novas ideas. As aulas do professor Bergstrom s,.o
entremeadas de palestras rcalisadas por muitos de seus disci-
pulos, o que demonstrou que as suas licoes n~o tem sido impro-
ficuas. O < sobre hygiene pratica realisada por medicos especialistas, ten-
do produzido a melhor impressAo ao public que o seguia de





436 Revista Nacional


perto, e enriquecido de muito o cabedal de conhecimentos
technicos do professorado, nelle representado por mais de dois
terqos do total dos educadores do Ceari.
g) A construcado de predios escolares 0 problema do en-
sino, no Ceara, nunca tratado cor os cuidados necessarios,
desprezado mesmo por alguns governor, soffrendo, como tudo
o mais, na administraiAo, os collapses das seccas, comeqava,
antes da reform de 1922, por apresentar a grande falha da
ausencia dos predios escolares. O construido em 1884, para
a Escola Normal, e que era at6 ha pouco o que de melhor
possuia o Estado para esse .fim, serviria muito hem para um
grupo escolar, mas nunca para um estabelecimento daquiella
natureza...
O professor Lourenco Filho chamou a attencio do Gover-
no para a question, propondo em primeiro logar a construction
.de urm edificio adequado e condigno para a Escola Normal,
edificio esse que ja se alteia numa das melhores pracas de
Fortaleza, obedecendo a uma plant magnifica. Dentro de
tres ou quatro mezes estara concluido, e ahi teremos a segt-
ranqa da continuidade das id6as da reform.
Mas nao 6 s6. Foi adquirido e adaptado um excellent
predio para o grupo escolar de Outeiro e sera iniciada breve
a construcgio do grupo escolar do Bemfica, nesta Capital.
Acha-se quasi concluida a construcg~o das escolas-reulnidas
de Mecejana e v5,o adeantadas as obras das de Pogos dos
Paus. As Municipalidades de Quixada, Cratheds e Cascavel
iniciaram a construcio de edificios destinados aos grupos
escolares das referidas cidades, obedecendo as plants for-
necidas pela Directoria da Instrucc~o.
h) Outras innovaodes da Reforma Muitas outras innor
values da reform comecam a demonstrar a firmeza do techni-
co que as concebeu e as esta executando. Assim, sao medidas de
inestim,avel alcance os processes de remociao e nomeaqao por
concurso, sempre, alheiando outros interesses que nao o-~da
boa march do servico e a moralidade da administraogo; as
promotes por merecimento, exclusivamente; a fiscalizacio sys-
tematica das escolas; a obrigatoriiedade escolar realisada, de
fact, dentro dos limits dos recursos actuaes; a instituigio
da Caixa Escolar, ja florescendo em muitos municipios; a
propaganda' do Escotismo, a grande escola de moral e de
civismo; etc.
Uma media que merece ainda registro especial,' pela
sua opportunidade e necessidade, 6 a da Inspecoio Medico-
escolar, a que o Professor Lourengo Filho esta dando grande
attengSo. Os trabalhos dessa inspecqdo, dirigidos pelo medico-
chefe Dr. Jos6 Furtado Filho, foram iniciados na Escola Mo-
delo e grupos desta Capital, onde todos os alumnos se acham







A evolu~lo do ensino no Ceara e a reform de 1922


collocados, nas classes, segundo a sua acuidade visual e audi-
ctiva, e tem o exame medico-pedagogico complete para o
prehenchimento da < Ficha Sanitaria Individual >.

V Conclusao

Toda essa obra, mais que de reform de construcco
e organisacaio tern tido, por si, sem vacillaq6es, a mdo forte
do sr. Justiniano de Serpa, Presidente a quem o Ceara ja
muito e muito deve. Noutros governor houve tentativas de
remodelaao do ensino, mas A palavra << reform> ji se asso-
ciava a idea de papelorio. O que se reformavam eram os
Regulamentos... Sempre, o prestigio da letra! Da letra que
a escola antiga incorporava ao cerebro, inconscientemente, pela
memorisaao brutal, imaginando produzir mentalidades; da le-
tra, que a sociedade depois fazia pompear nas leis nlo cumpri-
das, e nos regulamentos artificiaes, imaginando crear instituic6es.
Esta nova phase da evolucao do ensino no Ceara restabeleceu
a verdadeira accepcio do termo < reforma. A remodelacao es-
colar assumiu a feico de uma renovaqdo social, pienetrando
ate ao sub-solo dos costumes.
Nella, a letra s6 veio depois dos factos. Veio depois,
para .os systematisar, para representar coisas que ja existem,
para representar coisas de realisagdo possivel, para dar signi-
ficaqo e continuidade A grande obra iniciada. Ha dez mezes
que o prof. Lourenco Filho e seus auxiliares trabalham inces,
santemente e s6 agora comeqa o journal official a publicar o
novo Regulamento da Instruc'ao Publica.
A sua appariqdo marca a victoria da reform e annuncia o
segundo cyclo duma maravilhosa obra de cultural e de patrio-
tismo.
Fortaleza, janeiro de 1923


NEWTON CRAVEIRO





438 Revista Nacional


INTRODUC(AO
AO ESTUDO DA HYGIENF

SUMMARIO Hygiene Ideas geraes, evoluigo da sua concepg o A razo- do seu es-
tudo nas Escolas Normaes Sua divulgacao por intermedio das professors primaries.

Terminadas as prelecqoes sobre a parte de Pedagogia, co-
meqam as de Hygiene (1), e muitos de v6s, certo,,estfo interro-
gando, de si para si, porque da material do actual curso da Escola
Normal, foram s6 essas duas, as que mereceram destacadas
neste programma de f6rias, a que nos congregou o Sr. Director
da Instrucco.
Muitas sabeis, vagamente, e conheceis da Hygiene pela
concepco usual e icommnum que o public tem da palavra, ou-
tras, por leituras proprias talvez tenhais algumas id6as; e s6
as turmas mais recentes do professorado, as que alcanqavam
na Escola Normal um estudo mais claro, mais efficient, tem
de fact um conhecimento mais apurado das principles ques-
toes que na material se prendem ao respective programma,
orientado para aj dissemianacio de instrucq6es praticas, terra-a-
terra, q'ue nao serve para enflorar o pedantismo 'de presu-
midos doutos, mas que podem de verdade ser uteis e venham
contribuir por melhorar a nossa regeneraoao physical e moral
a comerar pela base, que 6 a educa~ o da creanqa.
Antes desta orientaoo, o que se consignava nos program-
mas, corn o rotulo de estudo de noqces de Hygiene, era uma
diversdo, collocada visivelmente at6a, por copia servil dos pro-
grammas europeus.
Na'o temos, entretanto, de que nos envergonharmos plorque
do mesmo mal soffreram at6 pouco tempo as demais Escolas
Normaes do Brasil, ajustadas quasi todas para o prepare de
professors primaries a velha nogao, que ji sabeis caduca, de
ensinar a-l r, escrever e contar, por methods presumidamente
pedagogicos.
S6 de dois decennios para ci, comerando por S. Paulo,
6 que se modificaram os obsoletos processes de didactica e
um s6pro de nova vida passou triumphant, desarvorando os
professors que ficaram fossilisados no archaismo do ensino
palavroso e;6co.
Foi precisamente por esse tempo, no comer o da presidencia
Rodrigues Alves, que na capital do Paiz, surgiu para as cul-

(I) Este trabalho resume a aula inaugural das liq6es de hygiene, constantes do
SCurso de Ferias realisado em Fortaleza, Ceara, em Janeiro deste anno, por iniciativa da
Directoria Geral da Instruccio, como uma das medidas complementares de reform do en-
sino, operada no grande Estado do Nordeste. O pedagogia e hygiene trezentos e sessenta e oito professors.





Introduc qo ao Estudo da Hygiene 439

minancias da celebridade o vulto do grande medico Oswaldo
Cruz e cor as armas da Hygiene, scientific e evidence to-
mou a si a incumbencia, que positivamente realisou, de ris-
car da nosographia do Rio de Janeiro o espantalho da febre
amarella, que por 60 annos paralisava o progress da grande
metropiole, della afugentando capitaes e bravos.
Mais qiue os outros factors que concorreram ao deside-
ratum do chefe da naAo foi o subsidio da Hygiene, resolvendo
a equaio do saneamento, que tornou possivel a remodelaFgo
phantastica do Rio, pela seguranqa com que se sentiram ao
deplois nas suas vidals e fortunes os grandes homes de fianga,
na derrama do oiro em monumentos e em industries produ-
ctoras.
Foi dessa epoca tambem que no Brasil se comecou a dar
mais attencio ao valor da Hygiene em relaqgo is collectivi-
dades, qiuando at6 entao s6 era entendida como uma m6ra
reparti~,o para despacho de services burocraticos.
Neste auditorio, muitas das ouvintes foram minhas disci-
pulas, mas v6s que estudastes pelos antigos programmas, pas-
sastes, verdade que ndo por culpa vossa, passastes em branca
nuvem pela material basica do curso normal a Pedagogia,
quanto mais pelo conhecimento de outras, entanguidas i letra do
velho Regulamento e que ao tempo eram referidas como uma
inutilidade, uma sobrecarga perfeitamente dispensavel e a v6s
eu devo, plortanto, dizer que muitos dos preceitos pedago-
gicos hodiernos encontraram os seus fundamentos racionaes
em sciencias que embora nao sejam exclusivamente medical,
ainda hoje convimos em assim chamal-as, talvez porque nas
faculdades de medicine 6 que sdo professadas e entire essas
esti justamente a Hygiene que aqui por uma mera coinciden-
cia vem ser esplanada por um grupo de medicos.
Disse numa das suas prelecqces o sr. prof. Lourenco Filho
que o fim da escola primaria n3o era como se suppoe.erronea-
mente e teimam, digo eu, em supper ainda muitos que se
tem por letrados, ensinar a l1r, escrever e contar e sim que o
fim da escola primaria era educcr o individuo para por seus
conhecimentos ser urn element de triumph na vida pratica,
na vida social. E o joven professor subdividiu a educacao
no seu triplice aspect physico, psychico e moral. Mostrou a
sua interdependencia, a moral apoiando-se na intellectual e
esta na material, lembrando-se muito a proposito de um grande
educador britannico, celebre por muitos outros predicados, que
ji ao seu tempo affirmira convict que <
para o success da vida era ser um bom animal isto 6, um
bom organismo, um corpo funccionando bem, perfeitamente
bem.
Avocando o conceito de Spencer, o nosso actual professor
de Pedagogia mostrou-se convencido que uma das condiqbes





Revista Nacional


mais seguras para o exito da educa o psychica deve repousar
na educacio physical bem orientada, e esses dados de orientacFo
sao fornecidos, qu.er para uma parte, quer para outra, pela
Hygiene, visando no seu objective nAo somente a conservaqao
da saude do individuo como outr'ora, assim tambern o seu
aperfeicoamento organic. E a Hygiene que estabelece as re-
gras proprias a assegurar um bom desenvolvimento, uma b6a
conservaio, um bom funccionamento do organism.
O home, como qualquer animal, 6 um organismo, tend
cada orgam a sua funcqco definida para o entreter na vida.
Quando uma funcCgo se altera 6 que o orgam esti soffrendo
e a vida comeqa a periclitar. O bom funccionamento de um
organismo 6, pois, a resultante das b6as funcq6es de todos os
orgams que o comp6em.
A Hygiene tem de facto na educaco do individuo um
papel de relevo porque nos seus objectives al6m de procurar
assegurar a saude, ella tambem visa o aperfeicoamento phy-
sico e 6 do corpo que se vAo adquirindo os habits, as nor-
mas que conduzem o individuo plor toda a vida a seguir sempre
o melhor caminho insensivelmente.
Habitos de Hygiene ha cuja quebra revela para os in-
fractores *nao somente ignorancia mas ainda uma falta de edu-
caco social que assim sao os delictos contra a Hygiene quando
concorrem para prejudicar a saude dos outros.
NMo me posso furtar a tentagqo de um exemplo.
Para mostrar quanto 6 prejudicavel cuspir no solo, nos
vehiculos e pavimentos das habitaq6es o hygienista diz: < cuspir
no chao e escarrar na bocca do proxima>. Ora cuspir na
cara dos outros niio ha negar 6 uma grande falta de educacgo.
No, as cousas sao differences, pois se quasi todo mundo
cospe no chao, nos bonds, nos automoveis, nas egrejas, nos
theatros, nas proprias habitaq6es, nas escolas! E, entretanto,
a explicaio 6 bem simples.
O individuo ao escarrar expelle uma grande quantidade
de microbios que coin a saliva excretada ahi se conserve
at6 que dessecada o vento levanta cor poeiras esses micror-
ganismos, productores da tuberculose, do typho, da pneumonia
e tantas outras molestias, microbios que revoluteando no ar
sao ao deprois absorvidos quando respiramos esse mesmo ar
e no nosso organismo podem ao depois propagar as infeccqes
de que ellcs sao a causa primeira.
Nao phantasieis .o meu exemplo, nao ha necessidade disso;
encontral-o-eis se quizerdes ao d'aqui sahirdes, observando
ruas, passeios e principalmente os nossos bonds, onde os
que cospemr e fumam nno sao precisamente os conductores e
motorists.
Podereis a isso contrap6r-me que essas pequenas cousas
nao avultam deante outras maiores falhas no saneamento da





Introducco ao Estudo da Hygiene


nossa urbs, sabei tambem que essas grandes falhas cabem
em m6r parte A populacao destituida de conhecimentos sa-
nitarios, n3o valendo posturas municipaes que nao podem ser
comprehendidas.


*


A Hygiene n o 6 propriamente uma sciencia no sentido
de independencia do seu estudo, antes 6 uma applicailo ra-
cional de grande numero de sciencias, quer da orbita medical
quer de extranha uma realisaqlo pratica dos conhecimentos
adquiridos na esphera de quasi todas.
Assim a Physiologia humana (estudo das func6es physico-
chimicas do nosso organismo), A Anthropologia (desenvolvi-
mento do organismo do home) e a Psychologia experimental
(estudo das funcc5es intellectuaes) deve a Hygiene os magni-
ficos resultados obtidos pela cultural physical e intellectual do
indivi'duo, lanqando as bases da melhor educagSo da creanca,
o equilibrio entire o desenvolvimento physico e psychico.
E justamente nos conhecimentos destas tres sciencias que
a Pedagogia assenta grande parte dos seus principios actual-
mente em voga.
A psychologia experimental estudou o orgam das funcq6es
intellectuaes e estas as estudou desd'e as primeiras mani-
festacqes na creanqa at6 a edade adulta, foi al6m e alcanqou as
regresses dio orgam corn as ruinas da edade ensinando aos
pedagogistas o caminho natural e logico dos conhecimentos,
como se adquirem, mostrou que o cerebro, como qualquer
orgam do nosso corpo, esta sujeito as vicissitudes dos gas-
tos e Idas reparaqGes, A nutriCo e ao repouso e que o trabalho
intellectual fatiga da mesma f6rma que o trabalho physico,
e como 'este tem um limited visivel, apreciavel aos olhos de todo
o inundoi, e os olhos do professor devem tambem enxergar no
trabalho mental dos discipulos um limited e uma gradaao,
nao sendo perdoavel o mestre que ignorante 'ou arbitrario
exige o impossivel e nro respeita esses preceitos de didactica.
O trabalho physico que um home 6 susceptivel de sup-
portar nao 6 o mesmo que o de uma creanca, assim o tra-
balho intellectual de que um adulto 6 capaz nao sera o que
a uma creanca cabe exigir. Foi a Psychologia ainda que fez
a Pedagogia lembrar aos mestres que o cerebro de uina creanqa
n~.o tem a mesma associac~o de imagens, de id6as, que elles
os preceptores se por isto os aconselha que nunca falem
aos seus 'discipulos de acc6rdo com o seu modo de ver,
mas saibam comprehender o estado intellectual dos alumnos
e subordinem a essa craveira as suas licoes, as suas expli-





Revista Nacional


caq6es. Nao os cansem nem os fatigue, nao prejudiquem a
saude de um organismo, obstando a normalidade das suas
funcqbes e provocando talvez uma depressAo do system ner-
voso da creanga, do discipulo, is vezes, por isto, irremediavel-
mente perdido nas complicadas malhas de uma neurasthenia.
Foi por isto que os labios de um grande hygienista pro-
feriram: < nao 6 plor nao estar bem informada do como deveria modi-
ficar o eqsino >. Pensai bem nesta phrase e as vossas re-
flexes, dobradas da experiencia que ji tendes alcangado no
magisterio, daro razaes de sobra a quem a formulou, tao
just, to precisa e tao verdadeira.
E quantos professors, entire n6s, conhecem estas verdades
que jA as minhas ultimas discipulas tnm como cousas come-
sinhas?
Sabeis o que faltou, e falta a esses mestres?
O conhecimento terra-a-terra, elementary da Psychologia.
O Sr. Director da Instrucco cor muito acerto vos disse
nas 'primeiras de suas aulas que quando vemos uma creanpa
,mutilada, sentimos immensa p'ena e mais deviamos sentir se
possivel fosse enxergarmos as mutila9des do cerebro, as muti-
lagqes do system nervoso de que taes mestres so em m6r
parte os unicos causadores.
Passemos, emfim.
O que vos disse 6 sufficient neste particular que 6 do
vosso horn senso no plerlustrar o erro quando de ante-mao o
conheceis.
Retomando o fio que levavamos no assumpto diremos que
al6m da Physiologia, da Psychologia tambem prestam inesti-
maveis ensinamentos a Hygiene, a Physica, a Mechanica, a Chi-
mica nas suas multiplas applicaw-es que entendem de perto
cor a construcgSo, illuminacao, ventilaq~o, asseio e desinfec-
95o dos edificios publicos e particulares, bem como com a
fiscalisaq~o dos alimentos, a depuraqdo das aguas e o sanea-
mento das materials usadas e dejectos.
A Microbiologia ou Bacteriologia e a Parasitologia deram
A Hygiene a chave do problema das d.oenqas transmissiveis,
mostraram-lhe os vectores dos microbios e a Hygiene se armou
de meios efficazes de defeza, permittindo aos poderes publicos
agirem comr precisa seguranqa no evitar a propagagdo das
epidemias, que hoje no devastam o mundo civilisado comr
o mesmo terror que ha menos de um seculo atraz Ihe dizimava
e extinguia populaaGes inteiras, como nos dizem or s fastos da
Historia ie como ainda provavelmente deve succeder entire os
povos que nao sahiram da barbaria e cujas chronicas mal co-
nhecemros.
Costumam os classics no assumpto dividir essa' evolu-
95o em 4 ciclos ou eras que representam mui de perto atra-





IntroducAo ao Estudo da Hygiene 443

v6z dos tempos os conceitos da doenqa e da saude e assim o
primeiro ciclo 6 chamado religioso, no tempo em que a medicine
era funcio dos sacerdotes e a hygiene, reduzida a estreiteza
de dogmas rigidos e inflexiveis, como sao to'dos os preceitos
religiosos. Considerava-se a doenca um castigo divino, um.
flagello vindo dos ceus e era professado por isso o terror do
doente e da doenca, cuja cura era buscada em rezas para
que Deus abrandasse a sua colera sagrada.
Ainda hoje ha quem assim pense e assim pratique. Sao os
que atrav6z de todos os tempos, de todas as evoluqces e
adeantamentos se ficaram apegados ao primeiro ciclo.
0 segundo ciclo ou 6ra medical, em que unicamente era
procurada a cura do doente, fazendo-o defender do mal que
o atacara, ter tambem, como o primeiro ciclo, os seus ferre-
nhos sectarios os quaes sao os que ndo observam nenhum pre-
ceito de Hygiene salvo aquelles, que por feliz coincidencia, estdo
nos seus habitos.
No terceiro ciclo ou era prophylactica, quando foi possi-
vel comeear comprehender as do.engas como perigo public,
visou-se resguardar os saos dos maleficios das molestias to-
mando a Hygiene uma feiqlo inteiramente nova, gragas aos
trabalhos de Pasteur, que descobriu como causa das molestias
contagiosas agents vivos, que sao hoje nossos conhecidos
- microbios, series unicellulares e microscopicos, animaes uns,
vegetaes ,outros e que por sua rudimentarissima constitui-
95o sao classificados nos lugares mais baixos das respectivas
escalas: protozoarios, protophytas.
Seja dito de passage, entretanto, que nem todos os mi-
crobios sao capazes de provocar phenomenon morbidos, bern
ao contrario, s6 uma pequena minoria 6 causa de alteragIo
da saude quando penetra o organismo do home, d'ahi a di-
visao .dos microbios em pathogenicos (os que geram as molesfias)
e os saprophytas e saprozoarios (os que vegetaes ou animals
produzem a decomposigao das materials organicas de que elles
se nutrem).
As primeiras noq5es scientificas sobre a Hygiene repousam
por conseghfinte na causa germen das molestias, quando Pas-
teur descobriu a accao dos microbios. Uma infec~go 6 a ag-
gressdo, do organism por microbios que nelle penetram e vi-
vem a expenses suas, como parasitas.
Ja dizia um sabio russo, nome muito arrevesado para
v6s, por6m, muito conhecido entire os medicos Metchnikoff
- o conflict entire o invasor e o invadido limita-se a uma
questao de alimento e de digestdo e as armas que os microbios
fabricam contra os seus aggressores no nosso organismo que
so os globulos de sangue sao os seus venenos a se derra-
marem nos nossos tecidos, nos nossos orgams. A nossa vida
depend 'do triumph do nosso sangue na lucta...





444 Revista Nacional


*

A Hygi'iie estuda as causes das infecqoes e tambem os
meios de combater essas causes e 6 a isso que se chama
a prophylaxia para cada uma em relaqao aos meios em que
vivemos solo, ar atmo-spherico e agua; o solo em que
nos movemos e pisamrots, a agua que ebeemos.
Os recurs-os da Hygiene nas campanhas prophylacticas dos
seus primordios foram as praticas rigorosas das quarentenas.
Pensava-se que os microbios produziam o contagio levados
pelos ventos a grandes distancias; depois veio o conheci-
mento de que na m6r parte o contagio era indirecto, princi-
palmente nas infeccqes de mortalidades communs agudas -
a peste, a febre amarella, o paludismo, as formas typhicas e
paratyphicas, quando o germen provindo de um doente 6 ino-
culado ou vehiculado pelas pulgas, mosquitos, moscas...
Chegamos por ultimo ao quarto ciclo que nao represent
propriamente uma modificaFio radical na pratica da terceira era.
No quarto ciclo a Hygiene passa a ser regulada intei-
ramente pelo Estado e como elle por grande parte de sua mis-
s5o deve encarar o ponto de vista economic no sentido do
trabalho, o caminho naturalmente indicado na solucao deste
problema foi o de considerar o hormem u'a machine de trabalho,
sendo um onus para a sociedade o doente, desde que seja
considerado um instrument de trabalho parade, estragado ou
diminuido na sua producC~o.
Da mesma f6rma que o home valido constitute uma
fonte de receita, pelo trabalho de que 6 capaz, quando doente
elle se transform em um element de despeza: gasta e nao
produz.
A vida humana' ndo 6 phantasia, tern para o Estado um
valor monetario apreciavel.
Disse Afranio Peixoto que emquanto romanticamente se
concede i vida humana um valor inapreciavel, faltou-lhe es-
tima. Nao valia sacrificio de dinheiro para conserval-a e menos
para produzil-a; hoje, por6m, o home se conta como um
valor; sua vida ter um prepo.
O home yale para a prosperidade de sua naio o que
elle produz dos 16 aos 55 annos.
Esti claro que produziri mais o que estiver physical e
intellectualmente melhor apparelhado para a vida de seu meio;
menos, aquelle em que essas qualidades faltarem ou forem
tambem menores.
Num paiz, quanto maior o numero de individuos aptos e
capazes para o trabalho, maior a producio, maior a prospe-
ridade.





Introduccio ao Estudo da Hygiene


Do nascimento a edade util o home consome em instruc-
.co, cultural, alimentacqo uma importancia em que grande parte
e indirectamente do Estado e chega entao A edade de retri-
buir-lhe para o augment da producco de qualquer ordem
da riqueza public.
E pensando assim que o Estado mantem suas despezas
cor a Hygiene, como a assistencia medical e instituices con-
generes, corn a instrucc6o e demais services publicos; procura
tornar as cidades saneadas afim de evitar o maior numero pos-
sivel de doentes que sao parcellas negatives e nervosas.
No 6 pelo espirito de caridade que o Estado mantem as
instituic6es de assistencia aos doentes.
O seu fim nAo 6 de modo algum esse sentimentalismo
apregoado pelas. instituioqes religiosas que visam como sabeis,
um interesse de ordem different do que o que compete ao
Estado o interesse simplesmente economic no sentido da
maxima producco.
De uma feita um grande vulto da medicine patria, na
antevis.o dos problems que se prendem ao future da orga-
nisagao economic do nosso paiz, para despertar o torpor.
dos nossos estadistas, atirou aos ventos de todo nosso ter-
ritorio esta phrase que ainda echoa como um alarma: < Brasil 6 um vasto hospital >>.
A repercussao destas palavras proferidas por Miguel Pe-
reira foi tao intense e tao profunda que os despertados para
logo trataram de organisar a' campanha nos multiplos servisos
da Prophylaxia rural, espalhada por todos os Estados.
Nao sei se os resultados conseguidos pelos medicos que
se empenham nessa cruzada sao efficientes e seguros aqui
no Ceara porque tenho duvida que comprehend o nosso povo
precisamente o senso de preceitos comesinhos de hygiene 'e
os doentes restabelecidos pelos cuidados desses meus colleges
ao depois nao se contaminem novamente e voltem como par-
cellas negatives a pezarem onerosas na economic do Estado.
E qual sera o recurso para evitar semelhante fracasso?
Simplesmente a observacio de regras comesinhas de hy-
giene, que deixam de ser cumpridas por falta de quern
explique a.os nossos sertanejos e mesmo citadinos o seu alcance.
Na pratica da clinic tenho visto constantemente mui-
tos clients que, atacados de uma verminose e medicados ade-
quadamente por este ou aquelle college, nos primeiros tempos da
medicaco se sentem melhorados, mais animosos, mais dis-
postos para seus trabalhos e Tmenos de tres mezes depois voltam
ao estado primitive de mal estar, de indolencia, de preguiqa.
Porque?
Porque desconhecem como deveriam proceder em relacao
is suas obrigaqbes de hygiene.


445





Revista Nacional


Expellidos os vermes pela medicaoio nao tiveram cuidado
necessario para depois nao ingerirem os ovulos desses mesmos.
parasitas que se .acham nas aguas que bebem, contaminadas
em extreme porque nao n'as filtram, nio n'as fervem.
Esses ovulos introduzidos com a agua no organismo, no
apparelho digestive, ahi fazem a sua eclosIo e de novo pro-
duzem outra camada de vermes que vAo minando as forcas e
a vida do seu hospedeiro.
Andam os sertanejos por economic descalcos e gastam'
a saude quando por esse habito estao sujeitos pela pelle A
penetrac5o das larvas do-ancylostomo que uma vez no orga-
nismo Ihes causa a anemia e progressivamente a diminuicio
do trabalho at6 as raias do irremedi,avel.
SAo esses pequenos conhecimentos de Hygiene que fal-
tam a esses infelizes e a v6s compete justamente na actual
missAo da escola primaria o ensaio e a divulgaq~o.
Creio que 6 idea do Sr. Director da Instruccao organisar
um folheto para distribuico, ao professorado primario e onde
se encontrarao, na linguagem simples que convem ao caso, as
prescripqses que ireis ensinando 4s creancas das vossas es-
colas e aos adults. Estes quando "tiverem entendido a -im-
piortancia dessas cousas, praticalas-5o, zelando o-s proprios in-
teresses, porque sao os ensinamentos da Hygiene, os que bem
comprehendidos, melhor que quaesquer outros se observam
rigorosamente. O individuo defended o seu proprio corpo e
seri :o primeiro a reclamar das infracqbes alheias, se o pre-
judicam.
O individuo bebe uma agua de gosto supportavel, reti-
rada de polos abertos e desabrigados, contaminada, porque
vendo-a clara, transparent, julga que nao contem os germens
que produzem as molestias, as verniinoses, as perturbaqbes
gastro-intestinaes e outras desordens; o individuo come uma
came de procedencia suspeita porque nao imagine os ve-
nenos que esti engulindo; respira um ar viciado, carregado
de poeiras porque nao sabe que 6 o ar puro que Ihe tonifica
o sangue e que este, 6 o liquid restaurador das suas forqas,
fazendo a correccao das suas funcqbes organicas, desde o
menor movimnento muscular at6 o mais complex dos nossos
actos o pensamnento.
0 individuo nao ter method de trabalho, e para mos-
trar-se forte, prolonga-o, faz por exceder-se o que nao Ihe
permitted ,o organismo e para breve eil-o enfraquecido, depri-
mido.
Nao sabe o indivisduo que as func~6es do seu organismo es-
tao sujeitas a duas phases o movimento e o repouso. No
movimento ,o organismo, nos seus intimos elements as cel-
lulas desprende parte das substancias corn que se havia nu-





Introducqdo ao Estudo da Hygiene 447

trido, transforma-as nesta ou naquella energia; no repouso
o organismo vae reparar essas perdas, esses gastos.
Accresce ainda que .o trabalho, al6m dos gastos de substan-
cia, acarreta para o interior dos orgams a formaqdo de substan,
cias desassimiladas e toxicas, que se torna preciso explellir e
para isso o organismo deve aguardar o moimento de descanso,
para fazer tal eliminacao e quando infringimos as leis da Phy-
siologia e por um trablalho a mais produzimos maior quantidade
dessas substancias venenosas, sem darmos tempo i sua sa-
hida, ficamos mais ou menros intoxicados e o tecido primeiro
compromettido 6 o system nervoso, que se revela assim nos
mais polymorphicos *e disparatados signaes da neurasthenia.

*

Ao entrardes pela primeira vez neste curso pensaveis que
o ensino primario lograva um unico objective que ides com-
prehendendo ji 'nao ter neste instance mais razao de ser, e ao
deixardes esta capital, levareis aos logares d'aqui afastados,
aos nossos sert6es, um conhecimento mais seguro' do objective
actual.
As vossas obrigaq6es se tornaram mais complexes, 6 ver-
dade, mas tambem nio vos hdo de faltar animo, e esforqo para
desemplenhal-as como o Estado espera da missdo que vos
confiou, que a obrigaio de servil-o 6 de todos n6s, cada qual
na esphera das suas attribuiqoes.

*

Quando annos atraz deixastes a Escola Normal, muito
differences eram as condicoes desse estabelecimento quanto
ao ensino hoje professado e que cada dia tem maior tendencia
plor melhhorar e progredir pela natural lei das cousas. Refi-
ro-me a isso para fazer-vos sentir que nao 6 vossa a culpa
de nesse estabelecimento nao terdes encontrado a esse tempo
as mesmas facilidades dos vossos colleges dos mais recentes
terms do prbfessorado.
Nem o material escolar era o que o estabelecimento exi-
gia *nem os programmas de ensino eram de molde a former o
vosso espirito para as luctas do magisterio e sobretudo, peior
que tudo, nao posso deixar de o dizer, eram os methods de
ensino proprios para desalentar os mais esforqados.
Nao tenho intenqdo de magoar a quem quer que seja,
mas sendo medico, devendo por obrigacao dos meus estudos
profissionaes saber alguma cousa de Psychol6gia e por amor
do officio pratical-a obrigatoriamente a todos os mom:entos, aos









448 Revista Nacional

meus olhos de clinic nio podium passar despercebidas as
falhas que desde a minha estrea no professorado fui riotando
ate chegar 6 direcqAo do curso, onde se me impunha procurar,
como ao menos me tenho esforcado por o conseguir, uma re-
modelacao capaz de dar i Escola do Ceard um renome egual
ao que no paiz tem as que occupam merecido destaque.
Ao encontro dos meus desejos, o Exmo. Dr. President do
Estado pediu a S. Paulo um dos seus mestres.de Pedagogia
que jA o conheceis digno por diversos titulos do reconhecimento
do Ceari.
Eu vos confesso que .tenho ainda a impressao que a ca-
deira de Pedagogia na Escola Normal s6 em 1922 que foi
pela primeira vez ensinada de verdade e dos resultados obtidos,
para nao ir muito long, posso indicar-vos o que ji observastes
na Escola Modelo e aqui nas preleccqes de quatro de vossas
colleges, uma tendo deixado os bancos escolares apenas ha
2 mezes, mas o espirito afeito para a sua nobre mission.
Nos grupos escolares ireis encontrar uma pleiade de pro-
fessoras orientadas pelas lives do mesmo mestre de que sois
tambem agora as suas mais novas discipulas.
Apezar do curso rapido e das poucas liq6es recebiidas,
voltareis ao desempenho das vossas cadeiras corn uma outra
orientagao e quando aqui novamente chegardes de outra feita,
estou que, por bem comprehendida a vossa tarefa, o Sr. Di-
rector da Instruccqo s6 ter6 motives para agradecer o vosso
grandiose concurso na cruzada do nosso ensaio.


DR. Joxo HIPPOLYTO DE AZEVEDO E SA
Director da Escola Normal de Fortaleza





A educagdo civica e as festas escolares


A EDUCACAO CIVICA
E AS FESTAS ESCOLARES
(Palestra realisada por occasido do Curso de Ferias z, em Janeiro de 1923,
em Fortaleza, Ceard)

Bern sabeis que a escola primaria 'nao 6 s6 a fonte da
instrucc5o das camadas populares; 6, mais ainda, a forja onde
se devem former caracteres, onde se deve fornecer ao future
cidadao uma educagdo national, baseada no culto do civismo.
Formar o espirito, educar o character, desenvolver na creanga a
intelligencia e o coracgo, mas de maneira a dirigil-o no sen-
tido -do engrandecimento da Patria eis um dever que nao
pode ser esquecido.
O principal sentiment, que a instrucAo civica, no ponto
de vista educativo, ter por fim despertar, 6 o amor ao solo
patrio. E como poderemos provocar, na creanga, esse senti-
mento de civismo?
Na verdade, o meio unico 6 fazel-a bemr conhecer o paiz
em que nasceu, plorque s6 poderemos amar a nossa patria,
conhecendo-a, aprendendo a admiral-a, na vastidao de seu ter-
ritorio, no poder de seus grandes rios e montanhas, nas suas
decantadas bellezas e riquezas naturaes inexgottaveis; conhe-
cendo-a tambem nas suas gloriosas tradiges, nos factos ca-
pitaes de sua evolulio, e no heroismo dos seus grandes ho-
mens; e, verificando quaes s.o os grandes horizontes, do fu-
turo sem igual, que se deparam r nacionalidade brasileira, se
os seus filhos se tornarem dignos della. -
Sem civismo nao ha nag~o, pois o individuo e a terra, por
si s6s, nao a formal: a mnagAa 6 uma entidade moral, resultante
dos sentiments civicos. E preciso cpnsiderarem se o territorio
e seus habitantes, trabalhando activamente em commum, se-
gundo suas capacidades e aptidbes, apegados ao solo natal,
consagrando seus mesmos ideaes, operando todos para o pro-
gresso da patria. Alem do patriotism, a educacio civica en-
sina a obediencia As leis, os deveres de um cidadZo para corn
sua nacionalidade, isto 6, o proprio equilibrio funccional da
sociedade.





450 Revista Nacional

O mestre deve mostrar aos discipulos como todos podem
servil-a, instruindo-se e procurando cumprir o seu dever, qual-
quer que seja a esphera social em que esteja collocado; que
as creancas, vindo i aula e applicando-se, cumprem tambem
um dever civico, preparando-se, pela instruccio, para mais tarde
bem servirem ao seu paiz.
O fundamento da educago civica 6 a 'Historia Patria. Assim
como a vida individual nao se comprehend sem o passado,
assim tambenm a patria nao se explica sem a tradicgo. O en-
sino da Historia Patria se destina a um triplice fim: ornar
o espirito da creanga das noqoes historical mais importantes;
interessal-a no destiny de seu paiz,, exercital-a a julgar e a ra-
ciocinar, comparando factos do passado aos do present.
SPara isso, bem se comprehend que a historic no p6de
ser ministrada pelo process enfadonho e indigesto de recitar,
cor minuciosidades chronological, de c6r, palavra por palavra,
sem explicacqes, sem elareza; antes, deve ser ensinada por meio
de comparaq6es e exemplos, analysados, discutidos, bem com-
prehendidos, para que possam ficar incorporados a persona-
lidade do discipulo.
A historic exige parallelamente o ensino da geographia do
paiz. E que colheita immensa de civismo nao poderemos obter
dos germens de patriotism que innocularmos no corago dos
nossos pequenos alumnos, por meio da geographia! Esti claro,
por6m, que falo do ensino methodico, sem a tarefa da decoracao
inconsciente, que no dizer expressive de um grande mestre de
pedagogia, imbecillisa o alumno e o professor.
Mas o meio mais efficient de cultivar o civismo infant,
minhas colleges, o meio de fazer vivel-o, e a organisag~o de
festas escolares, que commemorem os grandes feitos da nossa
historic. Ellas possuem o condo magico de transformar a
escola num logar querido, cheio de attractivos, para onde as
creanqas vao prazenteiras, al6m de que exercem uma influencia
tambem consideravel, no animo dos paes. Em todos os paizes
cultos, as festas escolares sdo levadas a effeito continuamente.
A infancia 6 a vida em festa. E porque nao aproveitar o
coraci.o da petizada tdo propenso ao enthusiasm?
Havendo uma festa, despertam-se as energies emocionaes
dos alumnos. E como nesses dias, as creancas plassam a ter
maior actividade, ellas proprias dizendo, e cantando, e applau-





A educaq~o civica e as festas escolares


dindo, bem se comprehend que o ensino se torna ahi active
por parte do alumno. Educa-se assim a creanca, divertindo-a.
A proposito, farei minhas ,as palavras de Bilac: << Dir-me-,o,
talvez, que a creanCa bem p6de divertir-se em casa, quando
ataba a labuta diaria. Mas, perdao! o que torna util a festa
escolar 6 justamente o poder facilitar is creancas a occasion do
divertimento collective, que traz o habito da sociedade o
goso collective da animaqco festival, das musicas, das bandeiras,
das flores, das expanses ruidosas, o goso collective em uma
palavra, da alegria de viver, base unica da felicidade physical
e moral >.
Num dia de feriado national, tres de Maio, por exemplo
porque ndo poderemos alliar a id6a de feriado a de festa ver-
dadeira, de alegria?
No 6 difficil.
< rior; a !p6s tudo nos falta, encontramos impecilhos a cada pass,
a comeqar pela nenhuma comprehensao e pouca importancia
dos matutos, dos paes de familiar atrazados >.
Respondo eu, por6m, que 6 justamente por ser assim, pela
falta de comprehensio dos elements que formam as acanhadas
sociedades dos centros menos cultos, que A professor compete
ter iniciativa e trabalhar. Depois de uma ou duas tentativas,
serao elles proprios os que mais apreciarAo as festas escolares.
Tudo depend da habilidade do mestre.
Deplois de fornecidos aos alumnos, pelos processes da
modern pedagogia, os conhecimentos de que carecem para
bem comprehender a Isiolerinidade commemorative que se vae fa,
zer, exercitam-se os alumnos na recitagAo de curtas e interes-
santes pioesias, allusivas a data historic, bem como de pequenos
trechos de prosa, de facil comprehensao.
Nao p6de deixar de haver music, e essa sera a music da
escola o CANTO CORAL, excellent exercicio hygienico,
esthetico e fonte das mais puras emoq6es. Cumpre, entre-
tanto, fazer cantar, e nfao permittir que... se grite, como e
t2o commum observer. P6de a mestra, para despertar ainda
maior interesse, deixar para esse dia a leitura das boas notas,
collocacao dos nomes nos quadros d6 honra, distribuiqco de
pequenos premios, etc.
Conv6m que o progranlma seja sempre curto, por6m. Nunca










Revista Nacional


mais de dez numerous, que occupem, no maximo, quarenta mi-
nutos.
Nao perdendo a opportunidade de cultivar as relac6es com
as families dos alumnos, interessando-as pelo que se faz na
escola, deve a professor convidal-as para as festas civicas dA
escola; para muitas sera uma novidade impressionante, quiqi
de optim.os effeitos. E assim, educando os filhos, de modo in-
directo iremos educando os paes.
Si a sala de aula no tiver tamanho sufficient para uma
reuniao de muitas pessoas, faqa-se a festa ao ar livre, de
manha. Num ou noutro local, nao se deve esquecer o culto
devido A Bandeira Nacional, que .e como a imagem da -Patria:
ella deve ter o logar de destaque na ligeira ornamnentaaio
que se fizer.
Uma festa escolar bem feita vale mais que uma semana de
aula, pelo seu valor educativo. Por isso, cuidemos de firmar
o bom habito que a Reforma da Instrucoio veio muito incen-
tivar. Nada mais facil, especialmente agora que grande nu-
mero de escolas acabam de ser reunidas e agrupadas, collo-
cando sob o mesmo tecto as professors da mesma localidade,
para melhor trabalharem pelo mesmo patriotic ideal que aqui
nos congrega.


MARIA DE JESUS MELLO






Como a escola primaria deve ensinar rudimentos de sciencias naturaes 453



COMO A ESCOLA PRIMARIA
DEVE ENSINAR RUDIMENTOS DE
SCIENCIAS NATURAES

A primeira cousa que o aprendiz entrando na officina pre-
cisa ir sabendo e: o nome dos instruments de trabalho no
meio dos quaes vae aprender o seu officio ou arte, e o para
que serve de cada ,um delles na sua aprendizagem e mais tarde
para ganhar a vida, como carpinteiro ou ferreiro, ourives ou
reloj.oeiro, etc.
Cousa mais ou menos semelhante deve ser com a creanga
entrando na escola primaria, cuja funco educadora, em re-
laoo ao ensino de rudimentos de sciencias naturaes, que a gente
deve aprender, como tudo o mais para se viver melhor, e -
como uma porta aberta para a grande officina dentro da qual
trabalhamos todos n6s, aprendendo a viver, como bons out
mios operarios, cuidando da nossa vida e da vida da collecti-
vidade; e prejudicando tantas vezes uma e outra cor tantos
males, como a miseria do trabalho disperse, damnificando so-
bremodo cada um de n6s, e tudo anarchisando e destruindo,
ignorantes que somos de tanta cousa util da natureza, como
por exemplo: dos milagres da divisdo do trabalho, por meio
da qual ella fabric, conserve e multiplica, dentro de cada cel-
lula e de cada tecido, de cada org3o e de cada apparelho, de
cada organismo emfim, a vida da arvore mais frondente ou do
home mais robusto.
E por isso mesmo uma das necessidades primaciaes da
escola primaria para a educago popular 6 o mestre ensinar is
creancas, muito rudimentarmente, ao lado do a b c o nome
das cousas da natureza, que mais interessam vida humana para
melhoral-a, apontando-as porem aqui e alli, onde estiverem,
afim de serem vistas por esse modo pelas creancas, desde a
escola primaria, pois com ellas a sua vida esta sempre em
contact intimo, desde o primeiro ao ultimo dia; e ensinar-
lhes tambem ao mesmo tempo o para que serve de cada
uma dellas a sua existencia, afim de poderem tirar qualquer
proveito desse conhecimento, desde a infancia, e em qualquer
profissao mais tarde; e muito especialmente para ellas, rece-
bendo tal ensino, sentirem interesse intelligence em defenderem
e melhorarem a propria vida, que si nAo f6r assim cuidada,
desde a escola primaria, auxiliar precioso da 'educa~io da
familiar, entao tal vida nem a ellas quando homes, nem A
patria quando cidadctos, serviri para cousa alguma util, a nao





Revista Nacional


ser para encher os hospitals e as prisbes de enfermos e cri-
minosos.
A escola primaria portanto, ao lado do a b c e no mesmo
tempo, deve ensinar muito rudimentarmente, e como necessi-
dade ainda maior que a do a b c, o essencial dos conhecimentos
mais indisplensaveis a vida do home, A conservacio do in-
dividuo pelo trabalho produzindo-lhe o alimento e o ves-
tido, e pela defesa do seu corpo amparando-lhe a saude; -
porquanto, se nao cabe a, escola primaria, na divisdo do tra-
balho da educaiao cuidar do professional para esta ou aquella
actividade humana cabe-lhe, por6m, cuidar do individuo, ainda
creanca, collaborando cor elle no inicio da sua educagdo,
qualquer que seja o seu destiny mais tarde, dentro desta ou
daquella prqfiss.o. E 6. para isso que ella deve ensinar-lhe os
rudimentos de sciencias naturaes, mais indispensaveis, para
facilitar-lhe a vida no trabalho e na defesa da saude; tanto
mais quanto, e este ponto 6 de maxima importancia, a maior
parte da nossa populaao escolar da.regido rural nao vae alem
do ensino da escola primaria, accrescendo ainda que boa parte
della, pela necessidade de auxiliar os paes na cultural das terras,
abandon a escola sem terminar o curso. 1E essas circum-
stancias evidenciam anecessidade inadiavel de cuidarmos, me-
ihor e mais praticamente, da educacao escolar da nossa gente,
principalmente da nossa populac:o rural insulada como vive
no interior do paiz, dentro da immutabilidade de costumes e
principios, exigindo modificacqes conservadoras, mas urgien-
tes, para melhoral-a, a ella, que esta tao long dos beneficios.
que os nossos estabelecimentos de ensino distribuem larga-
mente A plopulagFo das cidades; e quando 6 justamente cor
a intelligencia e os musculos do home do interior, cultivando
a plant ou criando o gado, que 6 elaborado e feito quasi todo
o trabalho national.
De outro lado, plara orientar como deve ser feito o ensino
de rudimentos de sciencias naturaes na escola primaria, e
clarear mais o assumpto: assim como a creanca aprende
a lr vendo f6rmas de letras as mais diversas nas respectivas
cartilhas de ensino, assim tambem ella deve aprender na es-
cola primaria rudimentos de sciencias naturaes vendo f6rmas
de plants e animaes, de folhas e sementes, de nuvens e
nevoas, e de tanta cousa mais, que a gente ve a cada pass,
em todos-os logares e numa cartilha bemr maior, que 6 a
natureza.
E de accord com este criterio, para pratical-o uniform
e geralmente na escola primaria de qualquer aldeia do paiz,
diante da qual esti sempre aberta a grande cartilha que e a
natureza, basta o professor, guiado por livros apropriados -
mostrar As creancas a plant e o animal, sob a f6rma de
qualquer plant e de qualquer, animal ao alcance dos seus


454






Como a escola primaria deve ensinar rudimentos de sciencias naturaes 455

olhos, dizendo-lhes o para que serve de cada um delles na
natureza: a plant servindo para elaborar, para fabricar tudo
,o que 6 precise para o animal viver, desde o alimento e o
vestido, at6 o ar que elle respira:.- e o animal servindo para
destruir tudp o que a plant produz, comendo-lhe os frutos,
as folhas, as raizes, utilisando-se das colheitas, da madeira,
queimando a lenha, etc. e muitas vezes destruindo at6 a propria
plant.
E mostrar tambem cor o mesmo critetio pratico, a luz
do sol, entrando pelas portas e janellas da escola, ou illumi-
nando os campos, as florestas e as plantaoqes, dizendo-lhes
tambem: o para que serve ella na natureza, cahindo sobre
as folhas de todas as plants, afim de fazer cor que ellas ela-
borem, fabriquem tudo o -que 6 preciso para a plant produ-
zir; flores, frutos, gri.os de cafe, de milho, de arroz, de
trigo, de feijao, capulhos de algoddo, leite para borracha, ma-
deira, lenha, etc., al6m de ar puro, para todos os animaes e
todas as plants poderem respirar e viver, o ar puro que e
feito dentro da folha de toda e qualquer plant desde a mais
alta at6 a mais humilde, rastejando o solo, coberta de poeira,
e at6 mesmo dentro da folha das plants pizadas e judiadas
pelos animaes, inclusive o proprio home, que de todos os
animaes 6 aquelle que mais utilisa do trabalho das plants,
e mais as destroe.
E assim por este modo ou semelhante, a creanca, apren-
dendo ainda o a b c, nas educada cor este criterio, de synthese
biological, acommodada as necessidades pedagogicas da escola
e economics do individuo, entendera facilmente o para que
serve de tanta cousa da natureza, interessando tao directamente_
a sua vida, como por exemplo: da atmosphere ou ar que
respiramos; das florestas e dos campos; das plantagces e dos
rios; das terras e dos mares; da luz do sol e das nuvens, etc.;
cousas essas corn as quaes ella vive em contact diario- ate
morte, como todo organismo, e que ella v6, a cada passo, aqui
e alli, nos logares onde mora, e onde as colheitas e os rebanhos
sAo elabora'dos pelo conjunto de todas ellas e de muitas outras
mais.
,E aprender a creanca desde a escola primaria o para
que serve da luz do sol e da folha da natureza, factors pri-
maciaes da Vida sobre a Terra, elaborando os alimentos dos
animaes, e dos quaes o ar que respiram 6 o mais precioso,
garantindo-lhes a vida, sadia e forte, a saude, s..o conheci-
mentos, como outros mais, que- mesmo ministrados rudimen-
tar e popularmente, suggestionam poderosamente a intelligencia
da creanga, e no melhor sentido da vida util, bem como sugges-
tionam todo aquelle que os adquirirem; e essas suggestoes
criam em todos, o espirito de iniciativa, de observacio, de disci-
plina de trabalho, determinando assim umra corrente de forces








Revista Nacional


novas, tio indispensaveis A conservacao e mnultiplicacao da ener-
gia hacional, sob todas as f6rmas da actividade humana, den-
tro desta ou daquella funceio, por mais elevada ou humilde, e
muito principalmente em relac~o a populagao do interior do
paiz.
De mnodo que a nossa g'ente assim educada, vendo essas
cousas 'em todos os logares, saiba cor humildade, mas pratii
camente aonde est3o as foras da natureza, cor as quaes ella
p6de contar para melhorar a sua vida e o seu trabalho, e sinta
por isso mesmo maior necessidade de aprender o a b c, afim de
poder l1r tambem nos livros que ensinam melhor a utilidade de
cada uma dellas.
E assim, mais ou menos, que devemos educar os nossos
filhos, desde a lescola primaria, preparando tambem desde en-
tao a intelligencia das creanqas para entenderem mais tarde e
com mais facilidade e interesse o ensino da botanica, da zoo-
logia, etc.
E ~entro destes moldes de ensino de utilidade economic
e immediate, que devemos construir os alicerces de uma instruo-
Oio primaria, popular, praticavel em todo o paiz, e indispensavel
A 'organisa ,o da grande naqdo que hade ser o Brasil, e cujos
factors naximos, por isso mesmo, devem estar dentro de
cada familiar e de cada escola primaria.
A effectividade e efficiencia deste ensino dependem, po-
rem, de livros apropriados para tal fim, e habilitando portanto
o professor a ministral-o com facilidade e seguranga, sem o que
sera impraticavel: e por isso, e para collaborar, cor humildade,
no movimento patriotic da reform do ensino primario, como
propagandista 'que somnos do ensino popular, acabamos de
elaborar a 2.a edioao da nossa Biologia Popular, que bre-
vemente sera publicada, destinada ao ensino de rudimentos
de sciencias naturaes, e agora, especialmente modificada e
feita 'com li~6es ja preparadas, o mais praticamente possivel,
afim d6 iniciar este method de ensino nas escolas primaries
do Brasil.

DIAs MARTINS


F'3


456





As letras no CearA 457



AS LETRAS NO CEARA

Cor n livro A poesia Cearense no Centenario deu o
Ceara uma prova da vitalidade e apuno com que a arte do verso
e cultivada na Terra da Luz. Outros aspects de sua vida men-
tal estAo estudados na parte que ao Ceard foi reservada no
grande diccionario do Centenario, cuja primeira parte foi pu-
blicada recentemente sob a direcqao do eminente sr. Ramiz
Galv5o.
A terra de Alencar, de Rocha Lima e de Farias Brito
nao deixa de produzir talents que sustentam a sua reputaqgo,
mesmo 'quando deixa de produzir o pio de que se alimentam
seus filhos.
De tempos em tempos se forma uma vaga de actividade
intellectual, que passa para dar logar a outra, com intervallos
mais ou menos longos.
Para hao estirar fiuito esta resenha, limitamo-nos A apre-
cia~o Udo moment actual da vida mental cearense, bosquejando,
is pressas, as suas figures mais significativas.
Da velha guard, temos em primeiro logar o venerando
poeta 'Juvenal Galeno, que ainda vive e verseja, apesar de quasi
nonagenario e cego ha muitos annos. O grande bardo popular
foi contemporaneo e amigo de Gonqalves Dias, de quem re-
cebeu 'os primeiros incentives para cultivar o genero em que
se immortalizou. Temos depois o festejado romancista Rodolpho
Theophilo, autor de livros notaveis nZo s6 na literature de
ficlo como tambem na literature historic, com seus preciosos
estudos sobre as seccas, e alguns trabalhos scientificos de
reconhecido valor. Dois grandes nomes cearenses sAo tam-
bem 'o erudito polygrapho Thomaz Pompeu e o eminente his-
toriographo Baraco de Studart.
Outro romancista, cujo nome nio se contem nos limits
do Ceari 6 Papi Junior, cujos livros Ihe grangearam uma re-
putaio solida de escriptor.
A nova geracio, que esta na maior pairte comprehendida
na Poesia Cearense no Centenario, 6 rica de talents que ji d4ao
fructos brilhantes ou que encerram magnificas promessas.
Essa 'anthologia, publicada sob os auspicios do Presidente
do 'Estado, enfeixa os nomes de Jos6 Albano, Cruz Filho, Salles
Campos, Clovis Monteiro, Soares Bulc.o, A. Furtado, Epiphanio
Leite, 'Alfredo Castro, Mario Linhares, Julio Maciel, Beni Car-
valho, Octacilio de Azevedo, R. de Andrade, Quintino Cunha,
Saboya Ribeiro, Irineu Filho e Leao Vasconcellos.
Ao lado destes poetas temos um joven conteur de muito ta-





458 Revista Nacional

lento e de muito future Herman Lima, cujo livro de estrea
appareceri breve.
Outro element valioso de nosso meio 6 o festejado f6lklo-
rista Leonardo Motta, cujo livro Cantadores foi um dos
maiores successes de critical e de livraria que se ter visto
nestes ultimos tempos.
Entre os bachareis que mais se distinguem no cultivo do
direito e alguns delles so literatos praticantes se con-
tam J. Carlos Peixoto, Moreira de Azevedo, Leiria de Andrade,
Antonelle Bezerra, Beni Carvalho, Cursino Bel6m, Edgard Ar-
ruda, Eduardo Girdo, Dolor Barreira e Gustavo Frota.
Entre os professors devemros mencionar como cultores
especiaes de philologia, Raymundo Arruda, Ferreira dos San-
tos, Martins de Aguiar, Clovis Monteiro, padre Climerio Chaves,
e em outras disciplinas --Antonio Augusto, Menezes Pimentel,
padre Misael Gomes, Pedro Albano, D. Judith Rosas.
Entre os estudiosos de questoes philosophical e sociaes ha
as duas bellas e cultas mentalidades de Jos6 Sombra e Elcias
Lopes.
No jornalismo contam-se algumas plennas primorosas -
Fernandes Tavora, Leonardo Motta, Andrade Furtado, Pedro
Firmeza, etc.
Nao devemros esquecer alguns medicos, que, f6ra de sua
profissao, se distinguem ainda por outros m6ritos intellectuaes
- Castro Medeiros, Alvaro Fernandes, Carlos Ribeiro, Amo-
rim Justa, Octavio Lobo, Th. Pompeu Filho e Nelson Catunda.
0 bello sexo ter tambem representantes de valor em
nosso meio spiritual: Alba Valdez, escriptora elegant, al6m
de -educadora provecta, as irmns Adelaide e Judith Amaral, tam-
bem escriptoras e pro'fessoras, as irms poetisas Maria Clara
e Abigail Sampaio.
A novissima geracfo, que ainda ndo transpoz ou mal passou
a casa do's vinte iannos, encerra promessas auspiciosas personi-
ficadas em Faustino do Nascimento, Sobreira Filho, B. Pontes,
Jader de Carvalho, J. Martins Filho, Helio Caracas, Elias
Mallmann e various outros qule constituem a < Academia dos No-
vos>, e o E ha os expiatriados, os transplantados para diversos pon-
tos d.o paiz e principalmente para o Rio, onde se fixaram desde
muito: Clovis Bevilaqua, Capistrano de Abreu, Joao Lopes,
Candido Juc6, Americo Fac6, Gustavo Barroso, Carlos de
Vasconcellos, Leo de Vasconcellos, Oscar Lopes, Frota Pess6a,
Mario Linhares, Alvaro e Arthur Bomilcar..
Em summa, o Ceari'estuda, plensa e trabalha, a despeito de
toda falta de estimulo plor parte de um public que trabalha
sem pensar em outra cousa que nao seja ganhar dinheiro para
gosar a ivida de accord cor seus gostos e capacidade mentaes.








As letras no Ceari 459

Agora, organisou-se ali uma Academia de Letras, ou, antes,
reorganisou-se uma antiga Academia, que jazia em estado de
lethargia, da qual despertou gralas aos esforcos combinados do
President do Estado, dr. Justiniano de Serpa e do dr. Thomaz
Pompeu, que preside a ella.
Em geral s,ao vistas com scepticismo justificavel essas
corploragces literarias nos meios provincianos e que mais pa-
recem instituiqes decorativas, proprias para favorecer a vai--
dade dos literatos locaes. Mas sera mais generoso pensar que
ellas prestam bons servigos por incentivarem o gosto e coor-
denarem esforqos,-affirmando-se como uma iniciativa de cora-
gem intellectual nessas capitaes onde as unicas occupaqoes e
preoccupacoes sao a actividade mercantile e as lutas da poli-
ticagem.
Poder-se-i dizer que si o centro intellectual do paiz ter
uma Academia, 6 natural que os nucleos pensantes provincianos
tenham tambem as suas, e ndo 6 basofia affirmar que nestas
se deparam personalidades no caso de figurar cor brilho na
Academia da metropole.
E a Academia Cearense offerece garantias de exito, pois
ter por emquanto o bafejo official que Ihe proporciona o Pre-
sidente do Estado, membro della e espirito privilegiadd em
que ainda nio se apagaramn os generosos enthusiasmos da
mocidade.
O Ceara, finalmenfe, ndo 6 e nunca foi um 61o obscure na
cadeia do espirito national: pobre e suppliciado pelas suas pe-
riodicas calamidades climatericas, nunca desapparece ali o amor
das *letras, nunca se abandon o culto das id6as, e no balanqo da
mentalidade brasileira, minha terra se apresenta corn valores
que se contam entre'os mais preciosos, os mais honrosos para
a reputag5o intellectual de nosso paiz.


ANTONIO SALES





460


Revista Nacional


AS CAUSES DAS SECCAS E OS MEIOS
DE MINORAR-LHES OS EFFEITOS

A secca 6 um phenomenon climatico cuja causa 6 ignorada.
So mal congerrito do Ceari. Das primeiras seccas, do Brasil
colonia, sabe-se pouco, vagas noticias chegaram a n6s pela tra-
di~go. Uma das maiores foi a de 1723, durou quatro annos.
Imagine-se o que teria sido este flagello sem meios de trans-
porte, sem assistencia de especie alguma! A populaoo civili-
sada era pequena, e esta mesma acabou-se de fome. Os indi!os
morreram pela metade, escapando os que emigraram para
as praias.
Durante o centenario do Brasil naao, onze vezes a secca
nos flagellou nos annos de 1825, 1845, 1877, 1878, 1879,
1888, 1889, 1898, 1900, 1915, 1919.
Fui testemunha ocular de todas estas calamidades, i exce-
poFo das ide 1825 e 1845.
De todas ,occupei-me em livros que publiquei.
A primeira secca que tivemors, depois da maioridade de
D. Pedro II foi em 1845. O flagello durou somente um anno,
e, por curto, pouco impressionou.
Deslembrados estavamos delle plor um period de trinta
longos annos de paz e abastanca, quando nos chegou a secca
de 1877, que. durou tres annos. Foi indescriptivel o panico
que de todos se apoderou.
A C6rte 1chegavam todos os dias novas da nossa desgraca.
A imprensa da grande capital pedia providencias promptas ao
Governor. O Centro Cearense pedia esmolas para soccorrer-nos.
A todos o flagello impressionava.
D. Pedro II, ouvindo os clamores que se levantavam de
toda a parte, reuniu no Instituto Polytechnico os sabios do
paiz para pedir-lhes conselhos sobre as seccas do nordeste.
Sob a 1presidencia do sr. Conde d'Eu, reuniram-se os scien-
tistas brasileiros, 'Barao de Capanema, Andre Rebouqas conse-
Iheiro Beuarepaire 'Rohan e senador Viriato de Medeiros, em
sessao, no dia 18 de Outubro de 1877.
Discutiram as causess das seccas e os meios de reme-
diar-lhes os ffeitos.
Esperava-se que 'desse areopago sahissem medidas effi-
cientes que debellassem os effeitos da calamidade.
O Bara.o 'de Capanema e o senador Viriato de Medeiros
eram os unicos que conheciam de visu o Ceara, o primeiro por
ter estado aqui, em 1862, como membro da Commissio Scien-
tifica que 'veiu estudar a fauna, a flora, a mineralogia, a cli-





As causes das seccas e os meios de minorar-lhes os effeitos


matologia, a geologia da provincia; o segundo por ter aqui
nascido e vivido.
Das causes *das seccas pouco se occuparam.
Lembraram a falta de focos de evaporaio, a devastagqo
das mattas, as manchas do sol. Nao falaram na direcqdo dos
ventos.
Foram pouco felizes em suas presumpoqes. As mattas
devastadas nao sdo a causa do flagello.
Nos seculos XVI e XVII, quando presume-se o Ceara
coberto por uma floresta virgem, tivemos as maio-res seccas
de que ha memorial.
A de seiscentos e tantos durou cinco annos. O que a
matta faz 6 conservar a humidade do solo amenisando o cli-
ma; proteger as mananciaes que estao a sua sombra, do calor
do sol, das correntes areas, dimiinuindo a evaporaqlo. Qual o
maior f6co de evaporaco, nao 6 o oceano?
E, no entanto, a secca n.o respeita o littoral e nem mesmo
as ilhas nas regimes das seccas.
As manchas do sol influindo na meteorologia da terra das
seccas- outra presumpcio falsa.
Comparadas as tabellas das manchas do sol e as das
seccas, de 1712 a 1878, 166 annos, s6 duas vezes coincidem as
seccas corn as minimas de manchas solares. Neste period
dezeseis vezes as manchas solares desceram ato minimo e s6
duas vezes a secca assolou o Ceara.
Nao ha portanto a mais notavel coincidencia entire os dois
phenomenon, como affirma o sr. BarAo de Capanema.
Das causes passaram aos-effeitos e meiios de combatel-os.
Grandes foram as heresias ditas, isto para ainda uma vez
provar que os intellectuaes brasileiros conhecem mais os paizes
extrangeiros do 'que o seu paiz.
As medidas por elles apresentadas foram a construccio de
cisternas, a arborisaqao dos sert6es com arvores fructiferas, a
remessa de grandes alambiques para distillar a agua do mar.
O Barao de Capanema opinava pelas cisternas, apoiado
pelo senador Viriato de Medeiros, e regeitava os aqudes.
Um espirito observador examinando a topographia do
solo cearense, assistindo um inverno aqui veria que 6 abrupt
o declive do sertao para o mar, que as ravinas transformam-se
em rios caudalosos e que trilhbes de metros cubicos dagua
perdem-se no oceano. Descendo a um exame mais demorado
do relevo 'da terra ficaria convencido de que si a natureza nos
legou o flagello das seccas, nos'deixou na configuraq8o da crosta
da terra o que o home devia fazer para annullar os effeitos
da calamidade.
Si .o Bario de Capanema tivesse reflectido maduramente
sobre o caso, nio opinaria pelas cisternas.





Revista Nacional


As vantagens dos' aqudes, sobre as cisternas, nao se dis-
cutem. As aguas destes pocos nada produzem, a dos reservato-
rios alimentam a grande riqueza agricola, enchendo os celeiros,
remindo assim ,o home da fome.
O instinct da aqudagem 6 innato no cearense. Uns dos
brinquedos predilectos das creancas na terra das seccas 6 fa-
zerem barragens nos plequenos regatos que descem pelos ca-
minhos, nos dias de chuva. Eu as fiz muito e quando hoje vejo
os meninos fazendo aqudes pelas estradas, concluo do fa-
cto uma manifestacio da previdencia humana.
O sr. Beuareplaire Rohan, acreditando que, restabelecida
a arborisagco no Ceari, as seccas fatalmente diminuiriam ou aca-
bariam, propoz que se cobrisse a terra das seccas corn o
abacateiro, laurus persia.
Esta arvore vestida de bella folhagem amenisaria o clima
e 'quando os retirantes descessem do sertao em rumo do littoral,
acossados pela secca, viriam alimentando-se do saboroso fru-
cto o abacate.
Estas e outras opinibes 6 que me convenceram que n6s
conhecemos mais a China do que o Brasil. O abacateiro 6
uma plant que em nosso clima s6 di nas serras. Na planicie,
no littoral mesmo, para conseguir-se um abacateiro 6 neces-
sario ser regado e muito beem regado, duas vezes por dia.
Imagine-se no sertao em que a temperature A sombra
chega aquasi 40.0 centigrados e o solo no vero parece com-
busto, o que seria do pobre abacateiro?!
Andr6 Rebouqas, este luminar da engenharia brasileira,
no !seu tempo, n.o foi mais feliz em seus projects, pedindo
que fossem enviados para o Ceari alambiques para distillar
agua do mar. Por esta proposta v6-se que o notavel scien-
tista desconhecia por complete a geologia da zona flagellada.
Em todo .o Estado ha um farto lenqol dagua no sub solo.
A questdo 6 chegar a elle, que se acha em maior ou menor
profundidade.
Em Fortaleza observa-se um phenomenon curioso. A ci-
dade, como se sabe, esti assente em uma duina de area,
que pior sua vez repousa sobre uma camada de argila permeavel
de maior ou menor espessura. A rocha de argila permeavel
descansa sobre uma camada impermeavel.
Quando o inverno 6 copioso, chega a dois metros, as
aguas infiltram-se at6 encontrarem a camada impermeavel, e
ficam retidas. Nao podendo descer afloram e alagam os luga-
res mais baixos da cidade, constituindo pantanos que muito
prejudicam o estado sanitario.
A media capital para no future attenuar os effeitos da
secca *6 a aqudagem.
Na sesso do Instituto Polytechnico ninguem se lembrou
della: plelo contrario, condemnaram-ina!






As causes das seccas e os meios de minorar-lhes os effeitos


D. Pedro .II, por lembranqa e iniciativa sua, deu comeqo a
grande aqudagem.
Ha quarenta annos que venho me batendo p'ela aqudagem.
Eu havia dito na minha propaganda: imitemos a Hollanda, que
lutou para livrar-se das aguas; aqui, ao contrario, lutemos
para apossar-nos das aguas que caem do ceo.
Unamos todo o nosso esforpo mental para o engrandeci-
mento de nossa terra; suffoquemos em n6s o egoismo e com-
batamos a imprevidencia, herdada do indio e do africano; sa-
crifiquemos tudo pelo bem do Ceara, que em breves dias
o nosso Estado sera um dos Estados mais prosperos e felizes
do Brasil.
Quando escrevi isto, mal sabia eu que Deus me prolon-
garia a vida para que eu visse, em parte, realisado o meu
ideal.
Ha quasi meio seculo, eu pedia, ao menos, a pequena aqu-
dagem, jA que os grandes .reservatorios a NagAo ndo podia
construir, a falta, mais de vontade, do que de recursos. Eu
dizia, convencido, que uma vez feitos os grandes aqudes nos
quatro pontos cardeaes do Estado, estaria conjurado o fla-
gello das seccas e o Ceara occuparia o lugar que Ihe competia
entire os Estados mais prosperos do Brasil.
Tive a ventura de ver iniciadas as grandes obras do Nor-
deste corn que sonhei na mocidade para salvaco da minha
terra; tive a felicidade de ver em via de resoluq5o o secular pro-
blema das seccas.
Nao sei si Deus me concedera vida plara que eu veja rea-
lisado todo o meu sonho, si terei a ventura supreme de ver o
Jaguaribe correr perenne, fecundando a terra em uma ex-
tensAo de centenas de kilometros.
Quando as colheitas forem fartas e repetirem-se tres e
quatro vezes por anno, e estivermos assim libertos do jugo
terribilissimo da miseria, das seccas, da fome, nao esquecamos
o nome de Epitacio Pessoa, o Moysis biblico da terra-cea-
rense. Nao esqueqamos nunca esse espirito superior e bom que
nos remiu do crime national.
A nossos filhos ensinemos a amal-o e respeital-o, para
que elles ensinem tambem aos filhos o amor e a veneracio
a este grande brasileiro passando de geraoio em geraqlo, at6 a
consummacAo dos seculos.

RODOLPHO THEOPHILO


C~i~b







O CEARENSE PATRIOT


Acostumado a uma luta sem treguas que lhe desenvolve
formidavelmente a energia, vibrant e decidido, o cearense
sempre-foi no Brasil dos primeiros a esposar as grandes
causes e a bater-se por ellas cor denodo inegualavel e comr te-
nacidade inexcedivet.
Quando em 1817 o nacionalismo ardente dos Nordestinos
se rebellou contra o pioder portuguez, os patriots cearenses
acompanharam, na zona do Cariry, corn a sua palavra e a sua
accao, a ousadia pernambucana. Jose Martiniano de Alencar,
entgo seminarista, mas que seria mais tarde notavel home
politico no seu paiz, A frente de muitos membros de sua fa-
milia! e de various amigos, tomou attitude de franca revolta contra
as autoridades ,do Reino, na villa do Crato. Isso deu azo a uma
series de rperseguiqces tremendas que os Alencares e os que
os acompanhavam soffreram como verdadeiros patriots, de
cabega erguida.
Ao se agitar, sob o peso da cor6a lusa, a chamada lucta
constitutional, os cearenses continuaram a provar o seu forte
patriotism. Elles .chegaram a organisar, no fim de 1821, um
governor (templorario)> e, depois, um governor
em Fortaleza. Os eleitores, convocados para escolher deputados
is Cortes de Lisb6a, preferiram nomear os membros desse
directorio patriotic independent.
Chegam os acontecimentos de 1822, cujo primeiro cen-
tenario, commemoramos, todo o Ceari vibra, agitado pielos
seus sentimentos nativistas. A 16 de Outubro proclamava-se
a Jndependencia na villa de Ic6. NAo havia tempo de chegarem
noticias do grito do Ipiranga; todo o mundo alli completamente
o ignorava. A forga public prende os que tiveram essa coragem.
Mas os seus amigos e parents os libertam pelas armas. E
todos reunidos dao aos soldados que ainda defendiam a rea-
leza joanina o combat da Forquilha, aprisionando-os. Um
exercito de sertanejos, armados do dia para a noite, depoe o
governor da provincia e install na mesrma a primeira'admi-
nistracao brasileira.
Esse movimento u um fact historic affirmado pelos
melhores historiadores do Ceari. A Independencia do Ic6 e
parallel A das visinhangas da Paulicea. Emquanto o coraglo
national pulsava, assim, no Sul, o coraio cearense, ignorando
por complete os factos, estremecia tambem, no Norte. Tristao





0 Cearense patriota 465


Goncalves Pereira de Alencar e Jose Pereira Filgueiras, domi-
naram a terra cearense, pioliticamente. O primeiro tomira parte
saliente na demonstrag~o republican de '1817 e es'tivera preso
algum tempo na Bahia. Passado algum tempo, soube-se da
proclamacgo feita .por D. Pedro I is margens do arroio paulista:
O governor provisorio da capital manda o Major Luiz Rodrigues
Chaves corn soldados cearenses de linha e de milicias ajudar os
independents do Piauhy na expulso das forqas portuguezas
do commandant das armas dalli Joao da Cunha Fidi6.
Estas varrem a metralha, no campo do Retiro do Geni-
papo, a gentle do Piauhy e os valentes <, re-
colhendo-se i villa de Caxias, no Maranho. Mas em Margo de
1823 uns seis mil cearenses sem discipline e quasi sem armas
regulars assediam-n'os, obrigando o chefe plortuguez a capi-
tular.
Em 1824, quando se proclama em Pernambuco a Repu-
blica do .Equador, o Ceard tambem acomplanha o grande movi-
mento patriotic do Brasil contra o dominio do partido semi-
estrangeiro do Imperador. Elles se revoltam, os cearenses, e'
remettem preso, para o Rio de Janeiro, o delegado do poder
imperial Pedro Jos6 da Costa Barros. No mez de Agosto
deste anno, Tristao Gongalves proclama a Republica e li-
ga-se federativamente a Pernambuco. As suas tropas transpoem
as fronteiras provinciaes e batem-se em various logares contra
as Imperiaes. Retrocedem e batem-se ainda no Joazeiro e na
Batateira, o denodado Tristao Gonqalves tendo deixado For-
taleza para fazer uma expedigqo ao Aracaty e nio podendoi
voltar a essa capital, por ter ella cahido em poder de lord
Cochrane, continue a luta no sertao. Envolvido pelos inimigos
em Santa Rosa, lutou at6 ficar s6sinho. Entao, fugiu a unhas
de cavallo, send morto pelos que o perseguiam. E, ap6s a
victoria do governor imperial, de 30 de Abril a 28 de Maio
de 1825, subiam ao patibulo na actual praca dos Martyres, em
Fortaleza, os maiores patriots do movimento republican:
o padre Gonqalo Ignacio de Loyola Albuquerque e Mello
Moror6, o coronel Jo~o de Andrade Pess6a Anta, Francisco
Miguel Pereira Ibiapina, o major de milicias Luiz Ignacio de
Azevedo Bolao e o tenente coronel de milicias Feliciano Jos6
da Silva Carapinima.
Esses exemplos de abnegacao, de coragem, de patriotism
fructificaram nessa terra de fortes, onde viver 6 sustentar uma
luta tremenda e desigual contra os elements impiedosos. Mas
o cearense ama profundamente a sua terra infeliz e calcinada
pela soalheira. Ama-a muito e tudo faz- para levantar bem





466 Revista Nacional

alto o seu nome. O sangue que derramou nas lutas patrioti-
cas da primeira decade da Independencia 6 o mesmo que offe-
receu ao paiz quando em guerra cor o Paraguay, o mesmo
que verte sorrindo nessa formidavel eplop6a do desbravamento
da Amazonia, a obra mais ingente da raqa cearense, que corn
ella di um mundo ao Brasil.
Nos chacos e banhados paraguayos, o cearense cobrio-se
de gloria. Alem de ter forneeido uma immensa quantidade de
officials e praCas para os corpos do Exercito Nacional, elle deu
para a guerra, enthusiasticamente, o 14.o de jnfanteria cor
o effective complete e o 26.o de voluntarios, um dos batalhoes
que mais louros conquistaram na campianha, a sua forqa de
policia e levas e levas e mais levas de homes para prehen-
chimentos dos claros. Provaram galhardamente o valor mili-
tar de seus filhos her6es de Moror6 e da tomada do Esta-
belecimento, os exemplares altissimos dos generaes Sampaio,
o chefe da divisao 24 de Maio, no chao de Tuyuty, e Tiburcio, Antonio Tiburcio
Ferreira de Souza, que, como coronel, commandira o 12.o
de infantaria, o < Treme-Terra >!
A mesma gene deu para a Revolta da Armada, quando
Ihe mataram Gustavo Sampaio, para as pugnas sertanejas de
Canudos e para as perigosas emboscadas do Contestado, onde
se celebrisou Potyguara.
Como dizia, expressive e naturalmente, um matuto dos
sertoes aspleros daquella terra de sol o patriotism do cea-
rense >. Nunca, cor effeito, porque elle
6 uma das virtudes profundas dos habitantes do solo com-
prehendido entire o Oceano Atlantico e as fraldas a pique da
serra da Ibiapaba.
Nao o demonstra o cearense somente no tercar das ar-
mas brutas em lides. sangrentas; por6m maiormente no com-
bater pelas id6as nobres que dignificam o paiz, no sacrificar-se
pelas grandes causes. Antes que qualquer outra regiao do
Brasil fizesse, io Ceari libertava seus escravos. Elle decla-
rara i face do Brasil ainda cheilo de senzalas e estralejante dos
chicotes de feitores:
-- Nao ha mais escravos no meu territorio! Nao ha mais
um unico individuo nascido no Ceard que seja,escravo!
Por isso, o chamaram Terra da Luz e os negros de outras
paragens o saudaram c6mmovidos:
Bemdita sejas tu, Terra da Liberdade!
Bemdita sejas tu, Terra da Promiss..o!
Affirmou seu alto, desinteressado piatriotismd em todos






O Cearense patriota 467

os ramos da actividade e da intelligencia humans, offerecendo
ao Brasil uma pleiade luminosa de grades vultos nas sciencias,
nas letras, na music, nas armas, no direito, no jornalismo:
Jos6 Avelino, Moura Brasil, Neplomuceno, Clovis Bevilacqua,
Capistrano, Heraclito Graqa. Dominou a litteratura national
corn esse formidavel, sempre formidavel Jos6 de Alencar; do-
minou em tempo o Estado cor a figure solemne e diigna
do conseiheiro Jos6 Lib.erato Barroso,
Tudo o cearense ter feito afim de servir bem o Brasil,
dando-lhe o melhor dos seus esforqos em qualquer ramo da
energia national, 'embora Ihe r6a o figa.do um abutre voraz co'mo
o de Prometheu a Skcca!
Nunca a Naoio deixou de contar com elle. A ardencia do
seu habitat, batido de muito sol, di-lhe um calor tio grande
quanto ella 'nos seus sentiments e emoq~o patrioticos, como
propugnador dos ideaes e liberdade, nas epocas da oppressao,
como guerreiro nas lutas contra os ininiigos externos ou in-
ternos, como desbravador das regioes inhospitas ou como li-
bertador das r'aas escravisadas!


JOAO DO NORTE










PROGRESS DO ENSINO PRIMARIO NO CEARA
NOS ULTIMOS 7 ANNOS, DEMONSTRADO PELA MATRICULA
NAS ESCOLAS

1916 10.945
1917 19.116
1918 19.224
1919 (Incompleta)
1920 (Incompleta)
1921 I 19.360


1922 5.


25.725






E-STADO DO 10 OEnARA

ESTATISTICA GERAL DO ENSINO EM 1922

Escolas Estaduaes Escolas Munlcipats Escolas particulares
MUNICIPIOS PopulaNio Popul.o =,-
o s T TTT'

1 AcarahA . 23.053 3.515 6 269 169 269 169 7 oo 93 Olo
2 Aquiraz . 83.520 4.404 20 794 601 10 193 155 987 656 15 ol0 85 o/o
3 Aracaty.. .. 27.551 2.493 12 493 321 13 850 240 3 140 100 983 661 39 olo 61 o/
4 Aracoyaba . 8.187 1.072 5 253 163 1 25 25 278 168 24 0ol 76 %ol
5 Araripe . .. 9.288 1 334 2 121 67 2 30 80 151 97 11o 0 89 0/o
6 Assar4. . .. 8.872 1.053 2 79 48 1 63 46 142 94 13 olo 87 /oo
7 Aurora .... 12.453 1.789 2 106 70 12 160 110 266 180 16 o0 85 0/o
8 Barbalha .. ... 29.900 8.674 4 216 122 3 179 110 6 239 162 624 894 17 o 83 o
9 Baturit6 .. ... 16.000 2.494 11 581 827 4 214 130 798 457 32 /0 65 %o
10 Boa Viagem. ... 11.483 1.043 8 77 46 1 k8 13 100 59 10 % 90 olo
11 Brejo dos Santos 11.797 1.216 2 105 61 1 30 24 8 47 42 182 127 15 o 85 0o
12 COchoeira ... 8.926 1.296 6 172 100 1 50 48 222 148 17 0/0 83 0io
13 Oamocim . 17.271 1.931 7 811 189 1 60 31 3 80 64 451 257 23 ol0 77 olo
14 Campo Grand 17.882 2.145 3 176 119 1 10 10 186 129 9 0/ 91 %
15 Campos Salles .. 9.142 1.167 1 60 35 1 45 -30 105 6 6 94 %o
16 Cauind4 . 18.043 3.201 10 418 253 8 258 220 676 473 21 o0 79 oo
17 Casoavel. . 26.01 4.434 13 640 410 2 75 55 5 200 155 915 620 21 ol% 79 0/o
18 Cedro . .. 11.000 1.465 8 162 112 2 143 73 805 185 21 /o- 79 o/o
19 Coit6 .. 6.553 637 8 101 52 1 80 26 181 78 20 % 80 Oo,
20 Cratheds .. ... 18.876 3.394 3 185 139 8 215 151 400 290 12 0oo 88 %o
21 Crato ...... 84.921 4.806 11 494 827 1 85 22 6 818 248 877 597 20 0lo 80 Oo,
22 FORTALEZA .. 98.235 11.650 14 6.047 3.601 2 109 40 28 3.574 2.6f9 9.720 6.263 83 o/0 17 0o
28 Granja . 27.926 2.498 8 342 229 4 71 71 413 800 17 % 88 %
24 Guaramiranga .. 9.000 1.071 7 316 217 1 80 60 2 28 18 419 295 38 o/o 62 o
25 Ibiapina. . 11.426 1 610 3 180 108 180 108 11 0/o 89 oo
6 Ic6. .. .. 19.209 2.895 5 141 84 141 84 6 ol 94%
27 IguatA. .. ... 82.406 2.099 7 83L 197 6 860 189 1 60 25 741 411 31 /ol 69 o/o
28 Independencia .. 14.118 698 2 96 49 1 20 18 116 67 11 oo 89 /ol
29 Ipd. .... . 22 834 8.919 4 237 163 8 35 26 272 189 7 ol 93 %/o
80 Ipueiras ..... 22.433 2.155 2 73 55 1 5 30 108 88 65 %/ 95 ol/
81 Itapipoca. .... 84.409 8 919 16 775 471 1 45 80 820 501 21 Olo 79 olo
82 Jaguaribe-Mirim 9.759 1.85 8 17 75 2 8 70 221 145 16 o! 84 %
88 Jardim .... 12.979 1.920 3 181 84 4 208 176 2 90 78 479 888 25 oo 75 oo
81 Juazeiro. . 22.077 2.758 3 178 114 1 178 111 6 l 94 %
85 Lages ... 9.000 871 8 205 121 2 80 20 285 141 27 ol 78 o/







Laranjeiras . .
Lavras . .
Limoeiro .. .
Marnnguape .
Maria Pereira .
Massap6 . .
Milagres . .
Missato Velha .
Murada Nova .
Pacatuba . .
Pacoty . .
Palma . .
Pedra Bran .
Pentecostes . .
Pereiro . .
QuixadA . .
Quixeramobim'..
Redempg ,o . .
Saboeiro . ..
Sant'Anna . .
Sant'Anna do Cariry
Santa Quiteria. .
SRo Benedicto .
Slo Bernardo das Russas
Sao Franisco .
Sao Goncalo .
Sao Joao da Uruburetama
Sao Matheus .
Sao Pedro do Cariry
Senador Pompe .
Sobral . .
Soure . .
Tamboril ..
Tauha. . .
Tiangua .. '. .
Ubajara . .
Unilo . .
Varzea Alegre .
Vigosa . .


11.712
17.860
18.512
25.896
10.273
11.457
23.360
16.452
12 316
13.374
8.148
12.471
11.400
7.473
11.569
26.065
20.801
16.955
4.786
16.651
14.159
7.665
21.089
16.969
14.587
17.969
11.246
22.477
9.855
10.195
39.003
19.753
13.825
13.756
14.493
9.256
15.376
113.850
19.315


1.216
2.005
2.184
8.564
1.938
2 968
3.760
2.806
1.992
1.945
1.119
1.071
1.276
840
1.380
2.456
1.418
1.738
720
2.249
2.474
1.548
3.640
1.745
2.466
1.120
761
2.800
1.472
1.164
3.708
2.199
1.135
1.269
1.582
1.496
1.666
1.664
1.862


5 156
7 385
5 186
25 1.141
4 215
7 295
5 204
3 156
4 130
17 649
4 r-9
5 287
2 111
2 128
5 170
11 464
9 829
11 449
3 123
4 153
4 209
5 160
9 483
8 270
7 272
10 867
4 178
4 207
2 92
7 843
16 624
14 619.
5 238
6 237
2 62
'3 110
5 212
2 108
5 173


104 -
235 -
84 -
741 1
132 -
220 -
146 1
119 1
73 1
556 -
69 2
148 -
91 -
53 -
87
293 11
199 -
294 4
76 -
100 1
115 2
115 -
291 -
160 1
190 1
240 -
88 -
77 -
56 1
190 -
442 -
402 5
181 -
161 -
32 -
60 -
126 2
49
113 1


68
63

256


19
31
20

40

44
20

210




27
275
75
76

159
120






420
18
-


65
75

47


66
46


-
112




15
15

40

44
18

177



20
206
75

121
65






296
16



60
82

80


224
898
136
1.427
215
295
289
217
210
649
199
287
165
148
170
1.120
324
559
123
272
620
235
488
449
420
867
178
207
118
343
1.044
767
238
237
62
175
3641
108
260


170
281
E4
783
182
220
222
149
134
456
136
148
135
66
87
828
199
380
76
138
421
190
291
285
281
240
83
77
62
190
738
497
181
161
82
110
214
49
163


18 o/o 28 o/o
20 /o 80 o/o
6 Olo 94 O/o
40 Oo 60 o/o
11 o/o 89 /lo
10 /o 90 O/o
8 o/o 92 %o
8 0!o 92 o/i
11 o0o 89 0/l
33 0/o 67 Olo
18 /o 82 o0/
22 o/o 78 01o
12 o0o 88 o/o
18 0/o 82 o/o
12 O/o 68 o0o
45 0/o 55 /o,
28 0o/ 77 0ol
82 o/o 68 O/o
17 oo 83 o/o
12 0o/ 89 O/o
25 O/o 75 olo
15 /o 85 0o/
13 O/o 87 o/o
26 o/o 74 0/o
17 /o 83 o0o
338 o 67 0/o
28 Olo 77 01o
7 0/o 93 olo
8 O/o 92 O/o
29 o/o 71 o/o
23 /o 72 o/o
35 o/o 65 /oa
21 o/o 79 /ol
19 0/o 81 0/l
4 /lo 96 o'o
12 0/o 88 o!%
22 ol0 78 0/o
6 0ol 94 o0/
14 0%o 86 01o


POPULA;AO TOTAL DO ESTADO (Recenseamento Federal de 1920) . . 1.319.228
POPULA(AO EM IDADE ESCOLAR DE TODd O ESTADO (Cadastro Escolar realisado pela Directoria da Instrucglo
em Setembro de 1922) . . ... ... .. . 161.572
MA-TDI7ITI A Ta TAT FM iT lA h A- Fn(I As nDO FSiTAnD ... .. 36.058






Revista Nacional


O ENSINO NO CEARA
RESUMO GERAL DA ESTATISTICA DE 1922


ESCOLAS SUPERIORS, SECUNDARIAS E PROFISSIONAES
Matricula Frequencia
Faculdade de Direito (Estad.) . ... 61 32
Faculdade de Pharmacia e Odontologia (Subv.)
Escola de Agronomia (Subv.) .. . 40 30
Escola Normal .. . . 142 140
Escola Complementar .. . 50 45
Lyceu do Ceard . . . 72 -
Escola de Aprendizes Artifices (Federal) .. 345 152
Escola de Aprendizes Marinheiros (Federal) .. 170 163
Seminario de Fortaleza : . . 100 100




ENTREVISTA CONCEDIDA A < REVISTA NATIONAL.
PELO
Prof. LOURENCO FILHO
-Director Geral da Instrucg5o Publica do Estado do Ceard

A ( Revista Naacional esti procurando ouvir todos os che-
fes do ensino public nos Estados, estabelecendo, assim, um
verdadeiro inquerito, de que se poderg, mais tarde, resumir
interessantes conclusoes sobre o sempre momentoso assum-
pto da educacao popular no Brasil.
Tendo estado -em S. Paulo, a servigo da commission que
no Ceari desempenha, como director do ensino, o distinct
professor paulista sr. Bergstrom Lourenco FiIho, lente da Es-
cola Normal de Piracicaba, procuramos ouvil-o a respeito do
ensino naquelle grande Estado do Nordeste.
A reform da Instruccao que ahi se vem operando, iniciada
na administracao do illustre sr. Justiniano de Serpa, cujo infausto
passamento roubou ao paiz um dos seus grandes estadistas, e ida
qual, alias, damos alguns ;interessantes documents neste numero,
6 a comprovaqgo, do que p6de a boa technical pedagogica e a,
energia de um governor de intengoes series, que resolve romper
com a rotina. Nada mais interessante do que ouvir, ao pro-.
prio chefe desse movimento, que ter impressionado at6 ou-
tros Estados nortistas, as difficuldades que encontrou e como





0 ensino no Cdara 471

as remove -, motive prelo qual foi por ahi que encetimos
a conversagco corn o prof. Lourenqo Filho, que, da modern
gerago Ide professors paulistas 6, incontestavelmente, um dos
que mais se tern distinguido pelo seu talent e pouco vulgar
prepare professionall.
A reform do ensino, cor a implantaaio de um novo
regimen administrative e technico, se fez facial e rapidamente,
no .Ceari, disse-nos S. S.,. e pode ser hoje considerada como
victoriosa. Mas conforme tive a occasi5o de fazer notar, ella
no represent nenhum milagre: 6 devida, em grande parte,
a um conjuncto de circumstancias felizes do moment. Pode-
mos resumil-as dizendo que nunca foi tao grande a prospe-
ridade economic do Estado e que nunca nelle se trabalhou
mais que desde que alli se iniciaram as grandes obras contra
a secca. Cor essas obras, houve um sopro de vida por todo o
Nordeste. Viu-se que havia novas cousas a fazer. Uma atmos-
phera de confianqa comecou a levantar o moral de to-da a
populacao, que dantes se considerava condemnada a um com-
pleto abandon. Havendo, da parte do Governo Estadual, uma
administracao honest e intelligent, como a actual, comprehen-
de-se porque o Ceara tem podido levar a cabo grades re-
formas, de interesse capital para o seu future, .como a reform
fiscal, a da Constituigio e a do ensino. Tendo entregado a
reconstruccio financeira do Estado ao dr. Mano.l Theophilo,
Secretariat da Fazenda, o Presidente Serpa agira cor feliz ins-
pirac'o, pois as rendas duplicaram em pouco mais de tres annos!
O anno passado, o Cearf rendeu mais de dez mil contos,
send o orqamento de menos "de sete. Este anno, s6 a Re-
cebedoria de Rendas ji accusa maior movimento que todo o
do anno de mil novecentos e dez. Sao factos muito significa-
tivos e que demonstram, outrosim, as grandes possibilida-
des da region.
Apezar das seccas? indagimos.
JA esplerava a objeccio. Nao se comprehend aqui o
Ceara sem secca... O conceito geral que se faz por aqui, do
Ceari, 6 o imais immerecido plossivel. A comegar por essa id6a
da secca: a secca 6 urn accident formidavel por certo -
mas um desastre templorario, que n.o p6de ser comprehen-
dido como o regimen normal de toda a regilo. Nem mesmo,
por occasiAo do flagello, todo- o Ceari retrograda: ha grandes
tractos de seu territorio que nunca soffrem a aciao das estia-
gens prolongadas. Alias, luta-se firmemente contra os des-
equilibrios climaticos, e nessa luta se platenteia bem a intel-
ligencia natural do povo. O que falta, em geral, no Nordeste,





472 Revista Nacional

como em todo o Norte, e maior cultural do sertanejo. A que
ha 6 pouca, e quasi sempre desnaturada por um ensino quasi
que s6 literario. Uma das grandes preoccupaqdes da reform
cearense 6 justamente a de opp6r uma orientagao mais na-
tural, A tendencia que ha, arraigada, de ensinar apenas a lr,
a escrever, a decorar... O ensino primario deve ser rhais alguma
coisa, as noq5es mais necessarias A vida, no ambiente em que
a creanqa tera que viver. Afinal de contas, 1er e escrever no
adianta nem atra2a a ninguem, se, na escola, nao se ddo outras
nocoes que formem equilibradamente o espirito e o informem
para agir cor intelligencia, isto e, de modo a aproveitar as
forqas da natureza, na producAio da riqueza geral e no con,
forto da vida. Por isso, os novos programmas das escolas cea-
renses dedicam grande atteng~o as sciencias physico-naturaes',
dando aos alumnus os elements mais necessarios as profis-
sbes agrarias, A hygiene, A vida commum.
E entao um ensino quasi professional?
NAo. Nao 6, nem p6de ser professional, na expressio
technical da palavra; mas, sim, a adaptagio da mentalidade
dos nossos futures homes as profissoes normaes... O ensino
professional propriamente dito, ser' dado para outras idades,
em escolas especiaes. 01 sr. Ildefonso Albano, Vice-Presidente
do Estado, em exercicio, apaixonado corn 6, pelo ensino pro-
fissional, estuda elle proprio a mais rapida executio dos apren-
dizados de artes e officios e dos patronatos agricolas de que
cogitou a reform de 1922.
E o povo, como tern elle recebido as innovakes do
ensino?
A principio, com o desinteresse natural que as promes-
sas de reform merecem, porque ellas se'fazem em todo o
Brasil, quasi sempre, no papel... Desde, por6m, que o public
percebeu que havia segura intenco de trabalho, nao tivemos
sinAo que encaminhar o setf enthusiasm e amor plelo ensino.
Aqui estA uma id6a em que convem insistir: imagina-se, no
geral, que o caboclo 6 inimigo da escola. Um dos nossos gran-
des scientists, que tambem andou pelo Norte, antes de nossa
partida para o CearA, em palestra, teve occasiao de lamentar
fossemos empregar esforqos numa regio que elle dizia < penetravel A escola>p... No ha maior injustiqa ou erro de
observaio: o sertanejo nao 6 inimigo da escola, nem da
maquina. Pelo menos no Ceard, cujo sertdo conheqo. A pro-
posito da comprehenso dos modernos progresses mechanics,
basta citar que elle imita, cor admiravel paciencia e percep .o
agudissima, reproduzindo em madeira de carnahuba, todo um





473


engenho de bomba de vento! Desde a ventoinha, atW ao corpo
de bomba, tudo 6 reproduzido corn perfeigo, servindo como
servem os grandes apparelhos que as obras contra a secca
teem plor 14 disseminado, nos poqos, que abre. Encontramos,
hoje, o automovel, guiado pelas maos do sertanejo at6 nos
mais longinquos municipios do Cariry; ja tive occasion de
ver um campleiro mettido dentro da sua roupa de couro,
guiando elegantemente um < Ford>>... A industrial de algodMo,
bem adiantada em Sobral, Iguati, Maranguape e outros pontos,
fala pela comprehens.o que o caboclo tern do valor da maquina.
Em Baturit6, em pileno corago do Cear6, ha uma fabric de
caramellos e bonbons de chocolate, cujos products piodem
ser comparados corn os das nossas melhores fabrics. Quanto
ao amor pela instruc0,o, basta verificar que, em oito mezes
de trabalho, a matricula subiu de 30 %0/ e a frequencia de 50 o/o.
Em 1921, a matricula era de 19.360 e a frequencia de 10.137,
em seiscentas unidades escolares; em 1922, ella, a pirimeira,
se .elevou a 25.725 e a frequencia attingiu a 15.971, para o
mesmo numnero de classes. A matricula tambem attingi.u unm
bello numero nas escolas municipaes e estabelecimentos par-
ticulares. Vinte e dois por cento das creanqas em idade esco-
lar frequentam escolas no Ceari, o que significa que li esta-
mos na mesma proporgRo de S. Paulo, ha poucos annos atraz.
Isso basta para mostrar o amor que li se tem pela instruccao.
O sertanejo ndo 6 impenetravel i maquina e a escola; os go-
vernos, em geral, 6 que teem mantido uma criminosa indif-
ferenq.a pielo problema da ctltura popular.
Mas n-a 6 isso, principalmente, falta de recursos fi-
nanceiros?
Principa l|nte, na.o. Si ha Estados como S. Paulo, Santa
Catharina, Rio Grande do Norte e Ceara que gastam quasi um
quinto das suas rendas comn a instrucclio, outros esquecem que
educar deve ser a nossa principal political. Ha Estados ricos e
prosperous, que gastam a ninharia de tres por cento... Demais,
6 preciso considerar que esse dispendio nem sempre 6 been
feito, tendendo a uma organisagdo efficient e compensadora.
O problema do ensino ndo deve ser encarado simplistamente,
s6 pelo lado da extensao. Muito ha a considerar a boa qua-
lidade do ensino.
Para isso nao seria, entlo, aconselhavel o auxilio fe-
deral?
Evidentemente. Feito o recenseamento escolar, no Cea-
ri, verificamos que, em 162.000 creancas em idade escolar,
e podendo frequentar escolas, apenas 36.000 se achavam ins-


0 ensino no Ceara






474 Revista Nacional


criptas nos estabelecimentos de ensino public e privado. Nem
a quarta parte, pois, da populagao escolar recebia instrucqco.
O Estado no ,p6de gastar muito mais do que gasta, visto
comno n.o p6de abandonar outros services tambem de neces-
sidade vital. As rendas nao crescerdo sem o incremento da edu-
caco popular, e fica-se assim, num circulo vicioso: a miseria
produz a ignorancia, a ignorancia eterniza a miseria... Ninguem
discute felizmente a jolbrigacao que tern a Uniao de auxiliar o en-
sino primario e professional dos Estados. O discurso do snr. Mi-
nistro do Interior, ao assumir as suas funcc6es, salientou
esse dever. Animado por essas declaraq6es do Dr. Jodo Luiz
Alves, o Governo do Ceara solicitou um auxilio para a creaqio
de novas escolas, apresentando os resultados do Recenseamento
Escolar, a estatistica complete do ensino em 1922, os dados
referentes as despezas do Estado, os programmas do ensino
adoptados, etc.
Corn o possivel auxilio federal, a instrucqdo no Ceara
tomarA um grande incremento e a obra do ex-Presidente Serpa,
que estA sendo continuada cor o mesmo ardor pelo Vice-Pre-
sidente Albano, *nao mais se perderA. Comr elle, continuado o
trabalho da reform, corn o mesmo espirito at6 agora man-
tido, dentro de dois ou tres annos, poderemos ter a metade
das creanpas eem idade escolar frequentando escolas.
Ter esperancas no auxilio da Unig.o?
Sim! Accresce para a cooperacgo da Uniao, que ella dis-
pendeu- e estA dispendendo sommas fabulosas para attenuar
os effeitos das seccas, na region do Nordeste, de que o Ceard
occupa a maior parte. Essas obras, e o trabalho agricola e in-
dustrial que -ellas irAo permittir, pouco significarao, por6m, nas
m5os da grande massa ignorante do povo. Sem o complement
da escola, que de ao sertanejo rude uma certa discipline de es-
pirito, que elle nro tern, e os conhecimentos rudimentares
da m.oderna technical agricola, das sciencias physico-naturaes e
da hygiene, as grandes obras do Nordeste nao correspqnderAo
A expectativa natural de condicio de fomento da riqueza do paiz.
Lembro, apcnas, a proposito, que o aqude de QuixadA es-
teve deplois de prompto, doze annos sem um palmo de cul-
tura abaixo da barrage e que foi um agronomo do sul que alli
iniciou o plantio...
A feicao climatica esp'ecialissima do Ceara, a.o mesmo tem-
po que acena cor as vantagens de uma produccao vegetal e
animal simplesmente fantastic, uma variedade de campos e
de terras propicias a todas as actividades agrarias, exige por
parte de quem os explore o mais intelligence afan na com-







0 ensino no Ceari 475

prehenso dos phenomenon naturaes, ao lado da previdencia
para poder resistir aos dias calamitosos. Exige, emfim, o que o
nosso povo em geral nao possue: capacidade technical e edu-
ca5ao economic. Reclama as qualidades primaciaes da edu-
caoao primaria e professional: o method e a discipline do tra-
balho.
Assim, o auxilio da Unido, si 6 util em qualquer Estado,
no Ceara 6 indisplensavel e urgent. Deem-lhe escolas e aqudes
e o Ceari dentro de pouco tempo seri dos Esfados mais pros-
peros do Brasil, gragas i reconhecida intelligencia de seu povo
e a tenacidade inquebrantavel do sertanejo.











GRAPHIC DEMONSTRATIVO DO ENSINO NO CEARA


NUMERO DE ESCOLAS
ESTADUAES 5.9 7
SPART[CULMES 1 205
72








476 Revista Nacional


0 RAPAZ DA GUIA


Pobre rapaz da fazenda,
.Nos campos do Ceard,
Foi-me sorte ser guieiro
Oh, meu Deus, que sorte ma!
M'escolheram por esperto,
Em susto continue vou;
Segui-me, gado formoso,
6 boiada, e cou... e lou...

Vou cantando aqui na frente
D'este gado a caminhar,
Onde terei certa a morte
Quando a boiada arrancar;
Pois o gado sequioso,
Se uma fonte adivinhou
Corre todo eu fico morto;
Oh, que sina!... 8 cou... e lou...

Oh, que sina! No perigo
E' meu dever aboiar;
Ddo-me sempre um born ginete,
Em qu'eu me possa salvar.
Ai qu'apenas me consola,
Nesta vida em que estou,
Toadas de minha gaita...
O' Espaqo... e cou... e lou...


Eu, por isso sou humilde,
E por isso canto assim...
Se minha voz a boiada
NIo escutar... ai de mim!
Mas uma voz entoada
Sempre a boiada escutou;
Ate mesmo a mocambeira
Vae direito e cou... e lou...

Quando o guieiro saudoso
Sabe seu canto dizer,
Marcha o gado reunido,
Como que chora a gemer!
Pois elle conhece o canto
Que terno choro molhou!
Ama a rez a voz saudosa...
Eia, avante... e cou.. e lou...

Mas a cantiga receio,
Que p6de gado esconder;
E nas pontas d'um novilho,
Tenho medo de morrer!
E comtudo eu sou sozinho,
Minha mfe jA se finou...
E' minha familiar o gadc...
Eia, avante... e cou... e lou...


Minha vaca Noite escura,
Nada, nada de parer!
Meu Surubim, meu boi Liso,
C6r de noite de luar;
Toca, toca para a feira,
A viagem nio findou;
Adiante, 6 Pintadinho,
O' Bargado... E cou.. e lor...


JUVENAL GALENO