Alguns movimentos contra-aculturativos do nordeste.

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Title:
Alguns movimentos contra-aculturativos do nordeste.
Physical Description:
52 leaves ; 29 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
de Vasconcellos, Marina Sao Paulo
Publication Date:

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Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
All rights reserved by the source institution.
System ID:
AA00000294:00001

Full Text



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Marina Sao Paulo de Vasconcellos










ALGUNS MOVIMENTOS CONTRA-ACULTURATIVOS


DO NORDESTE.








Tese do concurso a Docencia
Livre da Cadeira de Antropo
logia e Etnografia da Facul
dade Nacional de Filosofia.










Rio de Janeiro


1949







PREFACIO


A interpretagao de umi assunto cientifico em bases
metodologicas deve ser a primeira etapa para uma real
compreensao. ], justamente, partindo de uma nomencla-
tura exata e estudando os problems sem falsos senti-
dos, que se consegue chegar a uma conclusao, e cque, em-
bora nao constituindo para alguns a melhor, tem contu-
do, o merito de uma apresentagao sem meandros,sendo, a-
bsolutamente, objetiva.
0 que tentamos realizar com o trabalho apresenta-
do, e o estudo, em bases antropologicas, "latu sensu",
de alguns dos muitos movimentos de reagao fen6menos
contra-aculturativos que aparecem na nossa historia
patria. E como historia patria, compreendemo-la como
um mosaico dd cultures de diversas origens que, si em
numerosos casos se adaptaram e se interpenetraram, em
outros foram verificadas repulsas, revoltas, culminando
com verdadeiras lutas armadas.
2sses "movimentos contra-aculturativos" que tambem
sao encontrados em todas as cultures das terras,consti-
tuem a expressao mais tipica de uma reagao contra pode-
res de dominagao, impostos violentamente, e sao uma res
posta psicol6gica, das mais convincentes da mente huma-
na, a quaisquer atos que possam violar, esfacelando, os
padres culturais de um grupo.
A interpretagao antropologica, no Brasil, dresses
fatos sociais, parece-nos, que a nao ser pelo 40040=-






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-A-M mestre Arthur Ramos, nas suas obras ja classicas,
nao foi tratada. Sem duvida, sao numerosos os estudos
hist6ricos sobre o assunto, as interpretagoes socio-eco-
n6micas e as investigagces geograficas. Mas, a anali-
se do factor cultural como element fundamental da expli
cagao das reagoes, nao foi ainda tentada.
Nosso objetivo e, portanto, estudar esses movimen-
tos, buscando as explicagoes na personalidade humana que
se projeta no cenario cultural e que e por &le influen-
ciada, constituindo um dos mais recentes capitulos dos
estudos antropol6gicos, "personalidade e cultural onde
se ve que o individuo nao e apenas o element fisiol6gi-
co mais o hereditario, mas 4 uma sintese dos dois prime
ros, adicionaros a sua poderosa contribuigao psico-soci-
al.
0 home, o portador da cultural se desenvolve dentro
do seu context cultural e portanto, ele pensa, senate e
realize, de acordo com a cultural do seu grupo.
Essa interpretagao home e meio cultural- e inces
sante, e sem substimar o valor do individuo, poderiamos
aceitar a ideia paideumatica de Frobenius, na sua conce-
pgao de que a culturala atravessa o homem.
Hoje, mesmo que se queira dar um sentido metafisico
ao "Paideuma", vamos verificar, nos conceitos modernos
de cultural, como o sabio alemao teve razao, em enaltecer
a importancia do mecanismo cultural. E, si o pensamen-
to organicista de Frobenius deixava-se, as vezes, levar
por um certo evolucionismo, contudo, foi ele, um marco
basico, na avaliagao do comportamento cultural do home.







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Estudando as reagoes culturais ocorridas em nossa
historia, que tem origens varias, teremos oportunidade
para realizar o metodo preconizado pelo grande Raimundo
Nina Rodrigues: Comparar as cultures alienigenas em
seus habitat de origem, como se comportaram no novo am-
biente e qual o resultado aculturagao depois dos em
bates das outras cultural.
A"contra-aculturagao" e, pois, um capitulo,onde as
sobrevivencias de outras cultures vem tona na mental
dade do grupo e, lutando contra os padres de cultural
estabelecidos, querem sobrepujar, ocasionando reagoes
especificas, desde as simplesmente individuals, at6 as
coletivas. Os resultados absolutamente imprevistos po
dem, aparentemente, ser considerados il6gicos, si a ob-
servagao for superficial, sem procurar as origens dos
fatos.
Foi o Nordeste, o ponto que escolhemos para as nos
sas observagoes. Regiao por todos os aspects muito
caracteristica, apresenta no setor do nosso trabalho,os
mais interessantes dados. Sua geografia, seus recur-
sos economicos, sua formaQao etnica, constituem um pal-
co especffico, onde as reagoes contra-aculturativas sao
em nimero apreciavel. Como as mais representativas,a-
chamos que PEDRA BONITA, CANUDOS e JUAZEIRO DO NORTE,po
dem fornecer os melhores exemplos. Tambem nao poderi-
amos deixar de mencionar aspects que muito se relacio-
nam com esses movimentos o cangago e os surtos de mis
ticismo.






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Quando fazemos Antropologia, estamos estudando o
principio da dinamica cultural, no conceito da continue
modificagao do fenomeno da cultural, atraves dos seus fa
stores intrinsecos -a inventive humana e, notadamente,
dos aspects extrinsecos contact e emprestimo cultu-
rais.
Dentro, pois, dessa "mudanga cultural", vamos en-
contrar os dois processes explicativos da criagao e da
transformagao da cultural: o convergentismo, paralelis-
mo ou evolugao independent e a migragao ou difusao.
2sses processes sao, evidentemente, realizados pelo ho-
mem, objeto preclpuo dos estudos antropologicos.
A posigao ecletica deve orientar o antropologo nas
suas pesquizas.
Dentro dos criterios modernos da compreensao meto-
dologica, e a fungao que imphrta na explicagao do feno-
meno cultural em correlagao com o context. A descri-

9ao, por mais pormenorizada que seja feita, sua locali-
zagao geografica, exatamente fixada, sao auxiliares u-
teis, sem duvida, para enriquecer a explicagao. Mas e,
essencialmente, a pesquiza da fungao, de como o elemen-
to cultural, material ou nao-material e olhado e utili-
zado pelo grupo, que vai permitir o conhecimento da con
figuragao cultural do grupo.
Isto nos leva a uma cada vez maior aproximagao cor
a modern psicologia, que compreende o valor da cultu-
ra, na apreciagao do individuo.
Dividaios o trabalho apresentado, em quatro Capftu
los, e, pensamos com isso abranger os aspects fundamen






5 -

tais desse assunto; a ambiencia, tomada em seu sentido
geografico; o home da regiao, responsavel pelos acon-
tecimentos, numa pequena analise de suas possibilidades
e problems; um retrospect hist6rico dos tries princi-
pais movimentos,escolhidos como os mais tipicos na con-
tra-aculturagao, expressao do desajustamento cultural e
sobreviventes de padres e estagios culturais anterio-
res, que, por circunstancias varias,apareceram como re-
agoes especificas, anacrSnicas, as vezes; o ultimo Ca-
pitulo vai se referir a exposigao e interpretagao do fe
nomeno cultural e das suas varias fases, aplicadas ao
tema exposto.
0 nosso trabalho e, pois, a consequencia dos anos
de aprendisagem continuada com o Mestre Arthur Ramos a
quem devemos a compreensao e am6r aos estudos sociais.




-


Rio de Janeiro, 25 de Abril de 1949.


Marina Sao Paulo de Vasconcellos






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CAPITULO I


A REGIAO DO NORDESTE.


Breve que seja o estudo da regiao nordestina,sob o
aspect geografico, e impossivel, dentro do conceito da
compreensao total do home, afasta-lo do solo,palco in-
dispensavel as atividades humans.
O prop6sito e fazer ressaltar a importancia do meio,
suas fundamentals propriedades, suas influencias sobre
o homem e as respostas que esse home da, de actrdo com
a sua mentalidade de adaptagao e invengao.
O Nordeste aqui referido, e o do "sertao", da re-
giao semi-arida, com chuvas irregulares po Nordeste das
secas, da zona da cultural do milho, como diz Josue de
Castro, e da criagao de gado. E o "Outro Nordeste" de
Djacir Menezes, que nao apresenta as riquezas do lati-
fundio agucareiro, mas que 4 tao important quanto aqul
le, na formagao da unidade brasileira.
Cerca de 670.000 quilSmetros quadrados, segundo o
Boletim ng 1, vol. 59, 1936, da I.F.O.C.S., estendem-se
para o sertao nordeste, abrangendo desde a margem direi
ta do rio Parnaiba, cuja bacia pode ser considerada co-
mo divisor entire as duas regioes do Nordeste Nordeste
Ocidental com a mesopotamia maranhense e o Nordeste Ori
ental ate as margens do Itapicuru, na Bahia, ocupando
portanto, uma vasta zona, que contem parte leste e cen-
tro do estado do Piaui, Ceara, Rio Grande do Norte, Pa-






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raiba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e parte centro-nor-
te da Bahia, excetuando-se a faixa costeira, que, desde
o litoral riograndense do norte ate o baiano,oscila ate
300 quilometros de largura, mas numa media de 80 quilo-
metros.
0 solo do sertao e constituido de rochas cristali-
nas com predominancia de mica-xistos, onde, em various
lugares, aparecem intrusoes de granito, diorito e com-
plexos de greda, que, alternativamente com camadas de
calcareo, recobrem a base arqueana, com uma espessura
de 500 a 700 metros. Os taboleiros al existentes, po-
bres em argila de decomposigao, o que Ihes da uma tona-
lidade mais esmaecida, sao recobertos de pouca terra a-
ravel, atingindo de 700 a 900 metros de altura,mostran-
do um aspect arenoso e numerosos seixos mais ou menos
arredondados.
2, pois, num estudo de conjunto, o solo do Nordes-
te, uma peneplanicie cristalina de altitude pequena e
que decresce a vizinhanga do mar. As chapadas e ser-
ras Ibiapaba, Araripe, Borborema, Baturite sao os a
cidentes mais importantes nesta regiao.
0 efeito erosivo das aguas correntes e do calor so
lar sobre o solo, e grande, e os boqueiroes constituem
importantissimos acidentes na geografia nordestina, uma
vez que, oferecem lugares favoraveis a construgao debar
ragens, pois represam a agua das chuvas.
0 sistema hidrografico do nordeste e de carter
torrencial e dai, a sua tendencia de, no verao, suas a-
guas se reduzirem, e parecerem pequenos lagos que vao






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secando. S6mente sao perenes, os rios perto da foz,de
pois de terem provindo do interior, s6bre terreno rocho
so e de grande declive. 0 Sao Francisco, o Parafba e
seus maiores afluentes e o Itapicuru (no Maranhao),pela
constituigao do leito onde correm, sao perenes,desde as
suas nascentes.
O regime de chuvas e irregular, com variagoes acen
tuadas. Nos meses de Dezembro a Maio, as chuvas caem
mais ou menos torrencialmente, quando o ano 4 "inverno-
so". Si o ano 4 menos invernoso, comegam as chuvas em
Janeiro, ficam ausentes em Fevereiro, recomegando emMar
go, para findarem em Maio, e, no caso do ano ser escas-
so em chuvas, estas so aparecem em Marco, para findarem
em menos de tries meses. Nao havendo chuvas depois do
equinoxio de Margo, a regiao padecera da seca.
2stes periodos de estiagem que aparecem em nossa
hist6ria desde 1692, segundo I. Joffily,repetiram-se pe
riodicamente, em 6poca mais ou menos decenal, diz o Dr.
Thomaz Pompeu, e coincidindo com periodceidenticos da
Africa Oriental e Australia, pensa o Prof. Quelle,que
esses fenomenos sao produzidos por deslocamentos de a-
reas de alta pressao.
A primeira seca de 1692, diz ainda I. Jofffly, oca
sionou uma grande debandada de indios, que, em grupos,
cairam sobre as fazendas das ribeiras, saqueando-as,en-
quanto que outra parte da populagao, migrou para as la-
vras de ouro, em Minas Gerais.
0 grande poder de evaporagao pela elevada tempera-
tura e a constituigao do solo que impede o armazenamen-





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to da agua, tornam mais penosos os aspects das secas.
Certos pontos do Nordeste foram considerados "cala
mitosos", em fungao das secas, e, uma carta foi levant
da por F. Freise, mostrando que mais do que outras re-
gioes, o Ce-ara, o centro e o oeste do Rio Grande do Nor
te, da Paraiba e de Pernambuco, estao sujeitos a severe
dade climatica e portanto a repetigao das estiagens. Ro
dolfo Theofilo diz que e o Ceara o estado que sofre corn
mais intensidade e mais repetidas vezes, o flagelo das
secas, dando como explicagao o solo com taboleiros du-
ros e arenosos, acentuada inclinagao do terreno per- o
mar, o que permit grande escoamento das aguas na esta-
gao invernosa e ainda a nao existencia de qualquer rio
perene.
1 tao important o fenomeno das secas na vida do
nordestino, que 4 possivel dizer com Jose Americo de Al
meida: "toda a psicologia do povo ficou dominada pelo
concerto da seca". a o folc-lore que nos vai dar, nu-
ma "tirada", o valor dessa influencia, quando da seca
de 1877/78:
"Que e feito dos cangaceiros
Que dominavam Teixeira?
Deu-lhe a fome uma carreira;
Foram esbarrar no lameiro.
Que de homes de dinheiro
Que ralhavam no sertao?
Que 6 feito do valentao
Que cevava o guarda-costa?
Vive tudo de mao posta,
Dizendo Deus dai-nos pao."

Jose Americo conta-nos, que, a partir de 1711 ate

1915, houve dezesseis secas, dando todas grandes preju-






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izos e algumas de terriveis consequencias, como a de
1877/79 e a de 1790/93, que foi chamada a "grande seca",
com o aparecimento de morcegos. Guy Lassere cita tam-
bem, como das mais importantes, a de 1928/31.
No solo nordestino, de caracteristicas tao marcan-
tes, tries tipos de vegetagao, vao diferenciar este ser-
tao, dando-lhe fisionomias diferentes, em sub-areas per
feitamente definidasg o agreste, a caatinga e o alto
sertao. 0 primeiro 4 sem duvida um ultimo brago da flo
resta umida do litoral, pois nele, existe sempre um pou
co de agua para vivificar as florestas espinhosas que a
li existem; no alto sertao, as savanas e os carnaubais,
tornam, pela existencia de um clima menos inclemente, a
vida humana menos dificil.
2, porem, azona da caatinga, a que caracteriza o
nordeste semi-arido e sua grande extensao, pois abrange
quasi todo o interior dos Estados do Piaui, Ceara, Rio
Grande do Norte, Paraiba, Pernambuco, Alagoas,Sergipe e
norte da Bahia, da para quem a ve de long, na estagao
seca, aquela nota de mancha acinzentada,constituida por
uma faixa de arbustos e de formagoes herbaceas. 2, sem
duvida, a caatinga, o resultado da luta da vegetagao con
tra a seca e a perda das folhas, as possibilidades para
guardar agua nas suas raizes e caules, sao demonstra-
9oes frizantes dessa luta.
As juremas, os angicos, o pau-pereiro, o pau-d'arco,
os xiques-xiques, os mandacarus, as corSas de frade, as
barrigudas, as macambiras, os juazeiros,as carnaubeiras,
vao, entire outras, caracterizar uma flora tipica, que o






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home aproveita em sua vida diaria e tira dela o maxi-
mo, quando a ameaga da seca bate as portas, usando ate
o xique-xique, a macambira e o gravata, para a sua ali-
mentagao e a do seu gado. Ate mesmo a mucuna, bem la-
vada, que 4 conhecida em Pernambuco e Bahia,segundo Al-
meida Pinto, como coroa de frade, de propriedades noci-
vas conhecidas, e usada como alimento nas grandes secas.
Tao prejudicial 4 esta leguminosa, que diz um ditado po
pular: "A mucuna suja, mata, e lavada, aleja".
A pesca, a'pequena agriculture e a criagao, notada
mente esta, dao ao nordestino facilidades de melhoria
na alimentagao e maiores possibilidades na vida economic
ca.
n neste ambiente geogrifico, de luta adaptativa,
que o sertanejo vive e exerce seu trabalho. E as chu-
vas benfazejas que modificam periodicamente a paisagem,
com uma rapidez que deslumbra, tornando verdejante o que
na vespera era desert, da ao home aquele desejo inten
so de voltar a terra, si, pela imposigao das grandes es
tiagens, ele se tornou um retirante.


- x -






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CAPITULO II


0 HOME DO NORDESTE.


O home do Nordeste ter que orientar sua vida no
principio da luta para a sobrevivencia. Sua tradicio-
nal forga de vontade, deu ensej.o a "Sertoes", concreti-
zagao da genialidade de Euclides da Cunha.
Proveniente de varios cruzamentos do branco e do
indio, e o sertanejo um mameluco resistente e afeitomais
ao trabalho que condiz melhor com os padres culturais
de onde se originou: a criagao de gado.
Foi a extinta ou quasi extinta familia Cariri, que
forneceu a base etnica indigena para essa populagao,pois
estendendo-se em todo o Nordeste, desde o Paraguag6 e o
Sao Francisco ate o Gurupi, travou luta contra os Tupi'
que a empurrou para o interior. Mais tarde,com os co-
lonizadores lusos, novas e memoraveis lutas foram trava
das, durante anos, inquietando constantemente os portu-;
gueses.
Constituiam os Cariri- numeroso grupo linguistico,
subdividido em varias tribus: Tremembe, Jandui,Ic6,etc.
A mais recent classificagao desse grupo por Chestmir
Lcukotka, admite certas intrusoes com os grupos Caribe
e Camacan. 0 contingent negro foi muito pequeno e po
demos mesmo dizer, que sua contribuigao, quasi nula na
vida do nordestino do interior. As mestigagens entire
brancos e indigenas, entire mamelucos e brancos e entire
mamelucos e indlgenas continuaram a se processar, e,ho-





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je nao ha mais popula(oes indigenas puras, a nao ser
talvez, alguns 0, em Aguas Belas.
Assimilados, tanto indigenas como mamelucos foram
denominados de "nordestinos", "sertanejos", "cabbclos",
passando a constituir a populagao da regiao.
A preferencia para a criagao de gado, prende-se as
tentativas frustadas dos colonizadores para encontrar
minas de ouro e pedras preciosas. As primeiras cabe-
gas de gado, deram entao origem aos grandes rebanhos
que tornaram depois o nordestino, essencialmente, um
criador, embora fizesse s-as pequenas rogas, que segun-
do Josue de Castro, "vieram constituir um magnifico ele
mento de valorizagao das condigoes de vida regional".
3, pois, esse sertanejo, simples e bem humorado",
contemplativeo, musicista e dansador e sobretudo narra-
dor", segundo A. J. de Sampaio que, demonstrando a qual
quer moment sua bravura, vai com valor e fanatismo,ser
itor ou mesmo responsavel, por fatos caracteristicos
que o podem levar ate ao exterminio proprio ou alheio,
na defesa de suas ideias.
Muito novo, o sertanejo ja participa ativamente da
vida de seu grupo. 2 vaqueiro e embrenhando-se nas ca
atingas, conhece como movimentar-se e como aproveitar a
flora regional tanto na epoca de fartura como na de po-
bresa. Aprende, na zona brasileira que "contem maior
sentido de tragedia", como diz Josue de Castro,desde lo
go, na escola viva da experiencia, qual o comportamento
adequado para a sua sobrevivencia.
Ao lado dessa aprendizagem vivida, ter tambem oser






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tanejo, o notavel acervo das tradigoes, que atraves dos
ditados populares, das oragoes, mesinhas e trovas,de u-
ma riqueza folcl6rica extraordinaria, a que se apega de
modo absolute, e que vao ser, muitas vezes, os roteiros
para as suas agoes e processes de trabalho. Tal e o e
xemplo de "cura de bicheira". Quando alguma res esta
atacada, para que procura-la e traze-la para o curral,
si, no alpendre da casa, o sertanejo e seus companhei-
ros, acocorados e voltados para o lugar onde foi visto
o animal, escrevinham no chao e rezam ou colocam a mao
no rasto do animal doente? Sao metodos infaliveis e,
si seus antepassados usaram com "bons resultados", nao
ha motives para que se usem outros.
Falemos, agora tambem, da importancia das "experi-
encias" para os prognosticos das chuvas. Si no dia de
Santa Luzia, 13 de Dezembro, chuviscou, o mes de Janei-
ro tera chuvas. Neste dia tambem sao colocadas seis
pedras de sal ao sereno, representando os seis meses do
ano; a pedra que amanheceu mais dissolvida, represents
ra o mes mais chuvoso. Da maneira de aparecer a auro-
ra de Natal e Ano Bom; o cerco da lua; o ocaso do sol;
o florescer premature ou demorado do imbuzeiro, do pau-
d'arco, do facheiro; o canto e a migragao de certas a-
ves; o coaxar das ras; as "mudangas" de certos inse-
tos e como se partem as h6stias nas missas de Natal,
constituem processes exatos para a predigao das chuvas
ou das secas. E conforme sejam os resultados dessas
"experiencias", o sertanejo permanece na sua terra ou
preve uma retirada.





15 -


Quem estuda o home do Nordeste da caatinga, veri-
fica que potential human extraordinario esta nele con-
tido o investigando as causes de suas sedig-es, de seu
cangago, do fanatismo pseudo-religioso, das suas cren--
gas cegas em alguns homens-guias, conclue que e1e refle
te a cultural do grupo, o que possibility a compreensao
do seu comportamento.
Com uma ameaga pairando s6bre suas vidas a sca -
acarretando o nomadismo como corolario, pequena densida
de demografica, com o trabalho de criagao oqe Ihe da u-
ma grande liberdade, tradicionais lutas de terras, des-
de as concessoes das sesmarias que explodiram nas lutas
politicas dos pequenos chefes locais e consequente for-
magao das oligarquias politicas, tudo isto repousando
s6bre as bases 6tnicas lusa e indigena nas suas constant
tes lutas, o sertanejo esta, evidentemente, inclinado a
desforra pessoal.
Diz Jose Americo de Almeida que o canga9o ter ori-
gem na instituigao dos guardas-costa, defensores das fa
zendas ameagadas pelos indigenas e que chegou a ter um
carterr de milicia permitida e depois tolerada pelas
autoridades", estas pouco eficazes na protegao da popu-
lagao. Mais tarde, abolido o perigo dos ataques indf-
genas, nao prescindiram os fazendeiros dresses valentes,
que lhes davam forga para continuar resguardando suas
propriedades e tambem Ihes possibilitavam conquistas
territoriais futures.
Existia, portanto, uma "paz armada", e a "psicolo-
gia do valentao" vai se robustecendo e tornando-se sam-






- 16 -


bolo do verdadeiro valor do home. A preocupagao dos
proprietarios de atrair "cabras de confianga", vai tra-
zer, posteriormente, o aproveitamento dos criminosos que
ofereciam seus servigos, em paga da protegao dos senho-
res.
Se, porem, o auxlio dos capangas nao tinha mais
razao de ser, tornava-se mais facil para esses, associ-
arem-se a alguns, e entao former bandos, que eram em
muitos e muitos casos, favorecidos pelos governos lo-
cais, ou mesmo estaduais, continuavam seus misteres de
"protegao". Mas nao se queira dizer cor isto, que nao
possuiam estes individuos habilidades que lhes permits
sem ganhar a vida. Gustavo Barroso, em "Lampeao e ou-
tros cangaceiros", cite uma trove interessante a respei
to:
"Querendo tange comboio
Inte sou bom comboeiro;
Querendo faze sapato
Inte sou bom sapateiro;
Querendo anda no cangago
Inte sou bom cangaceiro
Que isso de mata gente
So servigo mais maneiro."

0 que admiral o sertanejo e a coragem pessoal, a bravura
na luta, e sua concepgao de dignidade pessoal, de hon-
ra, muito a fl6r da pele, esta intimamente relacionada
com a atividade economic da criagao de gado,sabido que
o ep teto "ladrao de cavalo", 6 uma das maiores ofensas.
Uma trova nos da um exemplo do significado da reagao in
dividual para o nordestino:





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"0 cangaceiro valente
Nunca se rende a soldado,
MIelhor e morrer de bala
Cor o corpo cravejado
Do que render-se a prisao
Para descer do sertao
Preso e desmoralisado."


A idea de liberdade do home do sertao, serve de
base para a admiragao que acompanha a vida aventureira
do cangago, e o folc-lore, espelho das reagoes popula-
res, vai nos dar a afirmagao das possibilidades do can
gaceiro:


"Cbiando Deus o Brasil
Desde o Rio de Janeiro
Fez logo present dele
Ao que fosse mais ligeiro;
0 Sul e para o Exercito!
0 Norte e pra cangaceiro'"


E voz corrente no sertao, que o sertanejo foi,ini-
cialmente, vitima da justiga: pessoa ou pessoas de sua
familia, teriam sido vitimas de assassinos que ficaram
impunes. Portanto, o cangaceiro ve-se na contingencia
de fazer a sua pr6pria justiga. A literature, a este
respeito, e vasta: Cabeleira, Conduru, Rio Preto,Adol-
fo Meia-Noite, Jesuino Brilhante, Cirino Guabiraba, An-
tonio Silvino, Virgolino Ferreira da Silva (Lampeao) e
seus companheiros, que tambem se tornaram conhecidos:
Colchete, Jararaca e Volta Seca.
Que e, pois, o cangago, senao uma expressao social
motivada por todas as causes que viemos citando, forta-





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lecidas pelo baixo padrao de vida que Ihe acarreta a ca
rencia alimentar, ignorancia, falta de transport?
Se, de um lado, ha a extroversao da personalidade
do sertanejo para o cangago, como uma resposta violent
a falta de justiga, por outro lado, dentro desse pr6pri
o meio, vamos encontrar o fanatico, consequencia, como
diz Djacir Menezes, da reagao mistica.
Mas, nao h. barreiras intransponiveis entire o ban-
doleiro e o fanatico. nste, na defesa de seus pontos
de vista, pode arregimentar comparsas, e 1ee pr6prio o
sera cangaceiro, chefe de bando, pronto a praticar vio-
lncias que justifica e julga necessarias. Nem se di-
ga que o mais celerado dos cangaceiros nao participa de
urn intense misticismo que se manifesta segundo as mais
variadas f6rmas, orando antes da pratica de um crime,
trazendo medalhas cor efiges de santos ao lado de amule
tos e, sem vacilagoes, aceitando como entidade divina,
qualquer individuo que Ihe parega de certas virtudes.
Merecemespecial referencia dentro desse grande ca-
pitulo do fanatismo, certos "beatos" e "penitentes",que
vivendo da caridade public, justigando-se atraves de
jejuns prolongados e o uso de cilicios, vestindo tuni-
cas, falando em calamidades proximas, e reunindo-se jun
to aos cemiterios para orar pelos defundos, merece-m das
populagoes sertanejas um grande respeito e auxilio.
Muitas vezes, a esses aspects, ainda o fanatico
junta outro: o de curar. este charlatao, involunta-
rio muitas vezes, pois o faz plenamente convencido de
suas propriaspossibilidades e de sua intima participa-






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gao com poderes sobrenaturais, tem prestigio, pois, re-
presenta para o seu grupo, a pessoa "qualificada" para
combater-as enfermidades.
0 home do Nordeste... deste nordeste das secas,da
caatinga, da criagao de gado, do conceito da mais ampla
liberdade, cor uma especificidade interessantissima no
cangago; o home que aceita e cre nos "santos" e curan
deiros..., e este sertanejo rijo, sintese de todas es-
sas caracteristicas, que num surto de vida e de ener-
gia, vai contribuir, para a formagao da nossa etnia, re
sultante que e de uma continuada miscigenagao e acultu-
ragao.






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CAPITULO III


RETROSPECT HISTORIC;
Pedra Bonita;
Canudos;
Juazeiro do Norte.
Parece-nos que, entire os movimentos coletivos ex-
troversos mais tfpicos para a exemplificagao e interpret
tagao dos fenomenos contra-aculturativos, estao Pedra
Bonita, Canudos e Juazeiro do Norte.
Um retrospect hist6rico, rapido, s3bre Pedra Bo-
nita nos vai relatar o seguinte: Na comarca de Pageu
das Flores, no interior de Pernambuco, existed duas pe-
dras, cor cerca de trinta metros de altura e apresentan
do, mais ou menos, a f6rma de duas grandes colunas. 0
revestimento de mica, de uma delas, da uma tonalidade
prateada e da~ sua designagao de Pedra Bonita.
Em 1838, um mestigo, Joao dos Santos ou Joao An-
t6nio, segundo carta de Francisco Barbosa Nogueira ao
senhor Francisco Rego Barros, president da Provincia,
datada de 25 de Maio de 1838, comegou a interessar a po
pulagao da regiao, mostrando duas pequenas pedras, tam-
bem revestidas de mica, afirmando serem diamantes e te-
rem sido retiradas de uma mina que f$ra por 1ee desco-
berta, apos sua escolha pelos poderes sobrenaturais,pa-
ra receber esta misteriora revelagao e dar conhecimento
ao seu povo. A mina, proxima a uma lagia, seria a in-
dicagao de um pals de riquezas incalculaveis que teria






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submergido, mas que ainda demonstrava as duas pedras-co
lunas, torres de um grande templo. 0 pages, era o rei-
no de D. Sebastiao, rei de Portugal, desaparecido em lu
ta contra os mouros, na Africa, mas que deveria ser de-
sencantado,apos certas cerimonias de magia.
A ideia do reino sebastianista, como uma verdadei-
ra sobrevivencia cultural, era o centro da questco.
Baseando-se JoEo dos Santos ou Joao AntSnio em un
antigo "pliego de cordel" portugues como diz Gustavo
Barroso, que cantava em versos que D. Sebastiao ressus-
citaria no dia em que um tal Joao se casasse com uma tal
Maria. Dessa maneira, o desencantamento traria,para o
povo que praticasse certos ritos, muitas felicidades.
A populagconuito se inpressionou com as arengas do
novo profeta, mas, as autoridades eclesiasticas conse-
guiram que Joao dos Santos se afastasse da localidade.
Dois anos mais tarde, um cunhado daquele, de nome
JoEo Pereira ou Ferreira, e que, segundo constava,esta-
va cumprindo ordens do primeiro, conseguiu reunir cerca
de trezentos adeptos para a pratica de atos necessarios
a resurreigao. Assim, durante mais ou menos dois me-
ses, os novos crentes alimentaram-se pouco, usaram be-
bidas alcoolicas, dansaram, praticaram excesses, orien-
tados por estranhas praticas de "preparagao".
Dizia Joao Pereira, ou Ferreira, aos seus ouvintes,
que era peciso sangue, para regar as duas grandes pedras
e os campos vizinhos, afim de vivificar o reino e o rei.
Prometia aos que, voluntariamete, se sacrificassem,
premios, como: riquezas e imortalidade, juventude perpe-
tua e a mudanga da c$r dos negros e mestigos para bran-





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cos. Chamando-se a si proprio de "rei", marcou a data
para o "grande sacrificio". No dia, sem esperar nova
solicitagao, muitos adeptos se atiraran das pedrast e a
queles que nao o faziam, eram mortos a facadas. Na re-
frega, que durou dois dias, o "rei" tambem foi assassi-
nado.
Debalde, esperaram os sobreviventes o milagre, for
gados pela putrefagao dos cadaveres, retiravam-se ja pa
ra outro local, quando foram press por um contingent
armado, enyiado pelo comandante Manuel Pereira da Silva,
tendo, poren, antes, oferecido resistencia.


CANUDOS foi um capitulo da nossa hist6ria, onde
se refletiu, de modo insofismavel, as sobrevivencias de
una cultural que persistiu, anacronicamente.
Falar nesta campanha, e, sen duvida, evocar os be-
los "Os Sertoes", obra imperecivel. As modernas com-
provagaes cientificas vao trazer novas luzes a certos
trechos desta obra, no que se refere, por exemplo,a "ra
ga" "mestigagem" e "meio social", como demonstrou Ar-
thur Ramos nos seus magnificos capItulos sobre a mesti-
gagem no Brasil. No entanto, e aquelo trabalho, boa
fonte hist6rica, para o conhecimento do assunto.
Se Canudos 6, antes de tudo, a hist6ria de um indi
viduo, torna-se depois um capItulo das nossas lutas in-
ternas, pela importLncia e perigo que apresentou para a
unidade brasileira.
Depois de uma vida acidentada, desempenhando va-
rias profissoes e mudrndo constantemente de residencia,
AntSnio Vicente Mendes Maciel, nascido em Quixeramobim,






S23 -


no estado do Ceara, talvez em 1835, resolve viver como
um penitente, de esmolas, e, viajando muito pelos ser-
toes, pregava uma existencia de sacrificios. Aos pou-
cos, foi angariando adeptos e ate a proclamagao da Re-
pdblica, percorreu numerosas vilas do sertao do Ceara,
Pernambuco e Bahia. Em desacordo com a nova forma re-
publicana de governor, certa vez, quando passava pela vi
la do Bom Conselho, queimou, diante de um grupo, alguns
editais relatives cobranga de impostos. Temeroso das
consequencias, dirigiu-se, com seus companheiros, para
Canudos, pequena regiao situada a margem esquerda do Va
sa Barris, decadente fazenda de gado, que servia de a-
brigo a individuos desordeiros e fugidos das prisoes. A
li is fixaran.
A partir de 1893, Canudos se transformou em um lo-
garejo povoado de numerosas families que abandonavam os
seus lares em Inhambupe, Tucano, Cumbe, Itapicuru, Bom
Conselho, Natuba, Massacara, Monte Santo,Geremoabo, Ua-
ua, Entre Rios, Mundo Novo, Jacobina e Itabaiana,segun-
do Euclides da Cunha, para viver junto de AntSnio Con-
selheiro, nome que passara a adotar.
0 aumento de populagao naquela regiao, e, princi-
palmente, pela adesao irrestrita dada ao chefe pelos
"jagungos", sempre prontos a uma refrega armada,comegou
a preocupar as autoridades.
Em 1895, a pedido do president da Bahia, Dr. Joa-
quim Manoel Rodrigues Lima, foram tentados meios suas6-
rios, atraves de dois frades capuchinhos que, no entan-
to, nada conseguiram, apezar de permanecerem mais de u-
ma semana em Canudos.





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Qualquer ideia de um ataque armado ainda nao teria
entrado nas cogitagoes do governor do estado, si nao fos
se a madeira que AntSnio Conselheiro desejava para a
construgao da sua Igreja, e que, havia encomendado em
Juazeiro.
Tendo chegado, naquela localidade, a noticia de
que o proprio Conselheiro ia buscar a sua encomenda, os
habitantes pediram garantias e, pelo governor do estado,
foram enviadas cem pragas, comandadas pelo Tenente Mano
el da Silva Pires Ferreira. Acampando na pequena vila
de Uaua, a tropa foi atacada de surpreza por cerca de
tres mil jagungos. 0 Tenente Pires Ferreira teve que
abandonar a 19.de Novembro de 1896 a povoagao onde che-
gara a 12 do mesmo mes.
Foi esta a primeira vitoria dos adeptos do Conse-
lheiro.
Pela bravura e fanatismo com que combatiam, os ja-
gungos deram motives a episodios lendarios, criados pe-
la imaginagao popular e que foram fixados atraves de
trovas, frases, ditados, repetidos constantemente pelos
sertanejos.
A reagao do governor foi logo preparada, sob a dire
gao do Major Febr6nio de Britto, numa bem equipada e ar
mada expedigao, que, seguindo para Queimados, chegou a
Monte-Santo, onde demorou-se perto de duas semanas,dan-
do assim, tempo para que os jagungos, avisados pelos
seus espias, preparassem a resistencia.
0 combat foi iniciado no dia 18 de Janeiro de 1894,
e, depois de cinco horas de luta, nenhum resultado posi
tivo havia. Quando se apresentou uma relative possibi





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lidade, dispersados os jagungos, os soldados, exaustos,
foram acampar a tres leguas de Canudos. Mas ao amanhe
cer do dia 19, a tropa legal viu-se cercada pelos serta
nejos e depois de uma sangrenta luta, obrigada a voltar
a Monte-Santo, inteiramente aniquilada.
Nova expedigao foi enviada pelo president da Ba-
hia, a pedido do entao vice-presidente da Republica, em
exercicio, Manoel Victorino Pereira, cabendo o comando
ao Coronel Moreira Cezar.
Numa rapida march, pois partindo do Rio de Janei-
ro a 3 de Fevereiro, a 8 estava em Queimados,contava es
ta expedigao com quasi tries mil homes, bem armados. Lo

go, porem, por motives de saude do comandante, houve um
retardamento. A expedigao seguiu para Monte-Santo,Ran
cho do Vigario, Cumbe e estava as portas de Pitombas,
quando numa pequena escaramuga, um official e seis pra-
gas foram mortos. Isto, era, no entanto, um aviso,
pois tSdos os jagungos estavam no rdduto da antiga fa-
zenda, para impedir a tomada pelas forgas legais.
Ao atacar Canudos, verificaram as tropas o vigor
da defesa. Mortos numerosos de parte a parte,inclusi-
ve do pr6prio Moreira Cesar, se verificaram. 0 chefe
substitute, Coronel Pedro Antunes Tamarindo, apenas pou
de ordenar a retirada, onde tambem pereceu.
0 terceiro desastre para a dominagao de Canudos
foi recebido pelos brasileiros como uma verdadeira cala
midade. E, entao, os mais exaltados ja asseguravam re
ceber os jagungos, auxilio dos monarquistas, chegando
ao ponto de destruir jornais, como a "Gazeta da Tarde"
do Coronel Gentil de Castro, que foi depois assassina-





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do. Tambem foram empastelados os jornais "0 Ap6stolo"
e "Liberdade", acusados de favorecer os rebeldes.
Nova expedigao, teve a chefia do General Arthur Os
car de Andrade Guimaraes, que deu ao General Claudio do
Amaral Savaget, o comando da segunda coluna. 0 ponto
de reuniao seria em Juazeiro, de onde partiriam para o
ataque a Canudos.
Lutando cor grandes dificuldades de transport e
abastecimento de viveres, o General Arthur Costa atin-
giu Pitombas no dia 27 de Junho, mas viu-se cercado pe-
los jagungos dirigidos pelo celebre bandoleiro Pageu. A
inda assim, os soldados conseguiram chegar ate a Favela,
regiao elevada que favorecia o ataque ao reduto. No en
tanto, os rebeldes rechassaram a tropa e dominaram a si
tuagao.
Por outro lado, Savaget havia travado violentos
combates em Cororobo, com perdas numerosas, mas atingi-
ra, no dia 28, a uma pequena chapada, a dois quilometros
de Canudos.
Fome, cansago, desergoes, se verificaram entire os
legais. Era necessario terminar, o mais breve possi-
vel, com a luta e entao, um ataque ao arraial foi plane
jado para o dia 18 de Julho. Mesmo neste forte ataque,
s6mente uma pequena parte da praga foi conseguida pelos
soldados. A situagao, tornou-se entao, de extrema gra
vidade.
Outra expedigao foi enviada, sob o comando do Se-
cretario dos Neg6cios da Guerra, Marechal Carlos Macha-
do Bittencourt, cle, bem orientado ja, quanto as neces-
sidades do local, organizou servigos de transport, e






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hospital. Com um efetivo de tres mil pragas e trezen-
tos oficiais, em Setembro, reforgou o cerco a Canudos,
cerco este que se ampliou e se robusteceu.
A resistencia, porem, dos jagungos persistia e o
arraial so caiu, depois de lutas sem treguas, a 5 de Ou
tubro, quando, diz Euclides da Cunha, tambem "tombaram
seus ultimos defensores" e que "eram quatro apenas: um
velho, dois homes feitos e uma crianga, na frente dos
quais rugiam raivosamente cinco mil soldados".


Apresentando varios pontos de contactocom Canudos,
a sedigao de Juazeiro do Norte, ou como foi depois cha-
mado, Juazeiro do Padre Cicero, vai tambem constituir
um episodio important das nossas lutas sertanejas.
Foi em torno do Padre Cicero Romao Batista, que gi
raram uma seria de fatos, evidentemente, em acordo com
o meio social e que constituiram problems de dificil
solugao, uma vez que, motives politicos entraram tambem
em jigo, aproveitando para seus fins, uma multidao in-
culta e com uma historic pregressa de crimes.
Padre Cicero nasceu no Crato, Ceara, em 1844. Or-
denando-se em Fortaleza, fixou-se, posteriormente, no
arraial de Juazeiro, entire Missao Velha e Crato,em 1872.
A vida simples que levava e sua prestimosidade na-
tural, deram-lhe o respeito dos habitantes da localida-
A A a
de. Sua influencia foi grande, quando da seca de 1877
a 1879, pois conseguira a construgao de pequenos pogos,
animara o plantio da mandioca e da manigoba nas terras
do Araripe, dando conselhos de grande valia para a popu
lagao, quanto a precaugao de doengas, conseguindo uma






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relative melhoria das condigoes higienicas para os mora
dores.
Permitindo e mesmo estimulando que a sua fama ul-
trapassasse os limits normais, foi o seu retrato colo-
cado entire nuvens e anjos, e, medalhas foram feitas ten
do.no verso sua efigie e no anverso, Nossa Senhora. Tam
bem deixou ser impresso, em pequenos pedagos de papel,
seu retrato, com oragoes especisis.
Isto foi possivel, depois do famoso "milagre" da
beata Maria de Araujo, em 1890, que tendo recebido a
h6stia consagrada das maos do Padre Cicero, fora presa
de violenta crise nervosa" e 'notando os finis "que um
fiosinho de sangue Ihe escorria da b6ca entreaberta",
"verificaram depois que as mesmas- species eucarlsticas
se haviam transformado em sangue rubro e palgitante",co
mo nos conta Lourengo Filho.
Admoestado pelos seus superiores eclesiasticos,sus
penso de ordens pelo Bispo de Fortaleza, Dom Joaquim Vi
eira, que numa Carta Pastoral de 25 de Julho de 1894,a-
lerta o clero e os fi6is da sua Diocese contra o "mila-
gre", taxando-o, ap6s analise, de "grosseiramente su-
persticioso", como nos conta Monsenhor Jose Quindere,
nao limit mais o Padre Cicero seus atos. Antes, sua
influencia parece crescer e na sua ambigao e agora a po
litica que vai acenar-lhe com maiores possibilidades pa
ra a dominagao complete.
Propriet6rio de extensa zona do Cariri e adjacen-
cias, aumentou territorialmente Juazeiro, e, a fama -de
milagres multiplos que realizava, comegou a ser cantada,
sobejamente, no folc-lore. Camara Cascudo cita uma ti





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rada:
"Me diz que faz milagres,
Que do vinho faz vinagre
E muitas curas de assombrar
De dia 4 branca a cabega
E logo que a noite desga
Ja comega a renovar."


Padrinho de toda a populagao de Juazeiro e de ou-
tras regioes, seu prestIgio pessoal, junto a massa po-
pular, levou a que varios politicos pretendessem a sua
alianga, constituindo uma carta sua, o mais sagrado sal
vo-conduto, pois qualquer um poderia sem receio, aventu
rar-se nas regioes onde o cangago imperava.
Esta situagao prolongava-se, ate que, modificagoes
politicas no governor do Estado vao trazer consequencias
imprevistas, no primeiro moment.
Tendo sido, em 14 de junho de 1912, o Coronel Mar-
cos Franco Rabelo, eleito president do Ceara, terminan
do, dessa maneira com o dominio da familiar Accioly, que
durante vinte anos havia exercido o governor, nao conse-
guira aquele estabelecer a calma no estado. Paixoes po
liticas se degladiavam e afirmando terem estabelecido
um pacto anterior cor o entao president, exigiam os
Accioly "metade dos lugares de eleigao e nomeagao",nar-
ra-nos Rodolpho Theophilo.
A Assembl4ia do Estado que havia reconhecido o no-
vo president, premida por interesses partidarios, re-
solveu reunir-se para cassar o reconhecimento.
Pouco a pouco, porem, foi sendo normalizada a si-
tuagao e o Coronel Franco Rabelo pode exercer, sem mai-





- 30 -


ores tropegos, o seu mandate.
5, porem, numa determinagao do president do Cea-
ra, que vamos encontrar o germe da famosa sedigao do Ju
azeiro.
Asilo de todos os bandoleiros, aquela vila repre-
sentava um serio perigo a vida das outras povoagoes, e
assim, a ordem para terminar com o banditismo levou "cer
tos chefetes do interior cujo prestigio estava unica e
exclusivamente no grupo de capangas que mantinha as or-
dens", como bem acentua Lourengo Filho, a unir-se aos
politicos da capital, adversaries do governor.
A este aspect, junte-se o problema sucessorio da
Repidblica, que, deveria, pela praxe, ser indicado pe-
lo P.R.C. Partido Republicano Conservador e cujo
chefe era Pinheiro Machado.
Um protest surgiu do governador de Pernambuco,Ge-
neral Dantas Barreto, afirmando ser anti-democr.tica es
ta norma e pedindo uma Convengao Nacional. Sua atitu-
de foi.apoiada pelos estados de Sao Paulo, Rio, Minas,
Alagoas e Ceara, mas tendo sido langada a candidatura
de Wenceslau Braz, Sao Paulo e Minas nao mais partici-
param da polemica, e dessa maneira, os outros estados
nao poderiam contar com uma possivel resistencia.
Emissarios cearenses, contrarios a Franco Rabelo,
deliberaram com os dirigentes do P.R.C., a deposigao do
governador. Se isto nao fosse possivel pelo partido
dos "marretas", dirigido por Joao Brigido dos Santos,
seria entao provocado por um movimento armado, partin-
do de Juazeiro, chefiado pelo Padre Cicero, e que, por
certo, logo aniquilaria com a resistencia governmental.






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No dia 9 de Dezembro de 1913, o chefe de Juazeiro
resolve iniciar a luta e sem trabalho, conseguiu depor
as autoridades da povoagao, bem como desarmar um peque-
no contingent da Forga Publica.
E assim, tornou-se Juazeiro um verdadeiro estado
autonomo e, por um decreto, deu o Padre Cicero posse do
governor do Estado ao Dr. Floro Bartholomeu da Costa,seu
preposto e que logo se tornaria prepotente e absolute,
mesmo para com o seu protetor.
As mais inexpressivas medidas foram tomadas pelo
novo chefe; mudanga da capital para Juazeiro,dissolugao
do Batalhao de Policia e da Guarda Civica do Estado, a-
diamento "sine-die", para pagamento de impostos. E,com
a franquia telegrafica que tinham todos os despachos as
sinados pelo Padre Cicero, foi muito facil a participa-
gao dresses atos ao governor federal.
Mas os sediciosos haviam-se adiantado no desencade
amento da luta e o chefe do P.R.C. maldizia a impruden-
cia do fato.
0 governo do Estado do Ceara resolve combater a
revolta e enviou o Batalhao Militar do Estado,sob o co-
mando do Coronel Alipio de Lima Barros.
Ao se aproximarem da vila, foram os soldados inqui
etados por alguns tiros esparsos dos jagungos que esta-
vam na vanguard da povoagao, mas, a tropa prosseguiu,
esperando tomar, sem grandes lutas, a localidade.
No entanto, em todos os caminhos haviam sido cons-
truidas valas e trincheiras, trabalho realizado por to-
da a populagao, dominada pela ideia de defender o Padri
nho, dos inimigos que se aproximavam.






- 32 -


A impossibilidade da tomada imediata da praga, a-
gora forte, e a munigao esgotada, forgaram os le-
gais a uma retirada cautelosa para Crato, afim de aguar
dar reforgos.
0 animo da tropa nao era dos melhores, e ainda, a
estagao chuvosa dificultava o envio de auxilio. Por ou-
tro lado, as noticias veiculadas constantemente, refe-
riam-se a numerosos cangaceiros, provindos de todas as
regimes proximas para engrossar as fileiras do Padre C1
cero.
A pedido do governo cearense, enviou o General Tor
res Homem, da Inspetoria Militar do Recife, suprimentos
de munigao e, como corria a noticia de que a sedigao de
Juazeiro era feita com a aquiescencia do governo fede-
ral, mandou que um seu emissario fosse, "in loco", sa-
ber a verdade. E, diz o autor da "Sedigao do Joazeiro",
que o Padre confirmou que "agia por ordem do Governo"
e, enquanto nao recebesse aviso em contrario, continua-
ria lutando.
Nova preparativa para novo ataque com um novo co-
mandante, Major Ladislau Lourengo de Souza, foi feita,
procurando agora, serem fechadas as estradas para Paral
ba, por onde se abasteciam os sediciosos.
Depois de nove dias de espectativa, veio a ordem
para o ataque, que se realizou no dia 23 de Janeiro de
1914. A principio, os Jagungos nao responderan,mas lo
go depois, uma tremenda reagao obrigou os soldados a u-
ma retirada para a localidade de Crato.
Apesar dos protests dos oficiais, o Major Ladis-
lau seguio para Barbalha, de onde as comunicagoes com a





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Capital, tornavam-se mais dificeis.
A retirada pouco honrosa do Ladislau, possibilitou
para os sediciosos o avango para a Capital.
Tropas sem qualquer conhecimento de tatica,consti-
tuida por fanaticos e bandoleiros, que s6mente visavam
a pilhagem ou a viganca pessoal, saquearam Crato e Bar-
balha, atingindo Iguatu, t6rmino da Estrada de Ferro.
0 governador Franco Rabelo ordenou nova expedigao,
que partiu para Miguel Calmon, comandada pelo Capitao
Jose da Penha Alves de Souza. Naquela cidade,aguardou
se o ataque e este se fez, sem demora. Apesar de gran
de numero, foram os sediciosos rechassados,custando po-
r6m a vida do Capitao Jose da Penha.
Foi impossivel continuar, no entanto, repelindo
os rebeldes, e, varias localidades como Quixada, Quixe-
ramobim, Baturite e Redengao foram saqueadas. Baturit4
possibilitou, com sua estrada de ferro a ida dos rebel-
des para os suburbios de Fortaleza.
Pedidos insistentes do povo ao Governo Federal e
ao Inspetor Militar da Regiao para terminar com aquele
perigo, nao foram atendidos. Em vista dos aconteci-
mentos, resolve o Presidente da Republica decretar o
estado de sitio em todo o territ6rio do Ceara, e tambem,
a intervengao federal, sendo nomeado interventor o Coro
nel Setembrino de Carvalho, e deixando Franco Rabelo o
governor estadual.
As tropelias, porem dos Jagungos, continuavam e 2
telegramas trocados entire o Padre Cicero e o Coronel In
terventor, sao documents interessantes s6bre esta sedi






- 34 -


gao. Dizia o Padre Cicero que retiraria a sua gente
de Fortaleza, si fosse esta a vontade do Interventor. A
isto respondeu-lhe o Coronel, encarecendo a presteza
com que fosse tomada esta media.
Infelizmente, as disc6rdias e as perseguigoes polio
ticas continuaram, e, varios cargos politicos foram da-
dos aos principals cabecilhas do movimento, honrando-se
o Padre Cicero com a vice-presidencia do estado e ao Dr.
Floro Bartholomeu, com a deputagao estadual.
A influencia do Padre Cc.ero persistiu,fortalecida
pela leva crescente de jagungos e dessa maneira conti-
nuou ate sua morte, aureolada por um resplendor de san-
tidade, resultante daquele meio onde pautara a sua men-
talidade e ages.





- 35 -


CAPITULO IV



INTERPRETAQAO ANTROPOLOGICA.


Ao buscarmos uma interpretagao antropologica para
os movimentos de sedigao, tratados em paginas atras,den
tro do conceito cultural, fazemo-la segundo a ecletica
metodologia funcionalista. Estudando a posigao do ele
mento ou trago de cultural dentro de um grupo, relacio-
nando-o com a totalidade cultural e verificando a impor
tancia dessa continue interdependencia.
Aceitamos, com Kroeber, o criterio da "area geogra
fica" conciliando-a com "area funcional" e com Clark
Wissler, a nogao da perspectivea hist6rica", de grande
valor para as mudangas culturais nas reconstituig~es
hist6ricas.
Foi este, portanto, o motivo pelo qual,iniciamos o
trabalho por um esbogo geografico-humano, seguido de um
resume hist6rico.
Sa cultural" a responsavel pela explicagao dos
fatos socials, tomada na mais ampla significagao do seu
termo, que, desde a definigao do etnologo E. B. Tylor
como "um complex, no qual estao incluidas ciencias,
crengas, arte, moral, leis, costumes e outras capacida-
des e habitos adquiridos pelo home como membro da so-
ciedade", ate os mais recentes trabalhos de. Antropolo-
gia Cultural, tem sido o ponto de partida para as inter
pretagoes do comportamento human.






36 -


R. Lowie define como cultural "o conjunto de tradi-
goes sociais"; R. Thurnwald, citado por H. Baldus e E.
Willems, diz que e a sistematizagao e harmonizagao de
todos os conhecimentos e habilidades do equipamento ci-
vilizador e da individualidade traditional de um povo,
constituicao social e mental, em determinado corte trans
versal no tempo e ainda, um sistema de attitudes e modos
de agir, de costumes e juizos de valor, de instituigoes
e organizagoes de uma sociedade; F. Boas diz que e a
totalidade de reagoes e atividades mentais e fisicas que
compoem o grupo coletivo, as reagoes desse grupo com ou
tro e com o meio; B. Malinowski, acha que e o conjunto
de artefatos herdados, .bens, tecnicas, ideias, habitos
e valores; para R. Linton, e a heran9g social ou espe-
cificamente, uma determined variante da heranga soci-
al; M. Herskovite acen.tua a aprendisagem como fator es
sencial no process cultural, ou seja o conhecimento
transmitido atrav6s de sucessivas.geragces.
Ainda sao conhecidas outras definigoes: cultural -
e a soma das criagoes humans ou o patrimonio material
e nao material de um p6vo.
0 que podemos tirar de fundamental nessas defini-
goes, sao conceitos basicos, que, entrosados, vao per-
mitir a boa compreensao da material prescipua para a
Etnologia.
Assim:
1) a cultural 6 obra exclusivamente humana;
2) todos os trabalhos executados pelo home, quer se-
ja no dominio da simples confecqao material, quer
nps manifestagoes intelectuais puras, estao conti-





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dos no conceito de cultural;
3) a separagao de cultural material da de nao-material,
deve ser considerada, apenas, como .uma necessidade
didatica, uma vez que, a primeira nada mais e se-
nao, a exteriorizagao palpavel do pensamento e da
inventive do home,
4) a cultural e um acervo de experiencias acumuladas e
transmitidas atraves de varias geragoes;
5) essas experiencias transmitidas vao sofrer modifi-
cagoes pelas injungoes do meio e da pr6pria inven-
tiva humana, sem, contudo, serem abandonados seus
aspects, que poderiamos chamar de originarios;
6) os processes culturais criados pelo homem,sao res-
postas aos excitantes de ordem externa meio-ambi
ente e aos de ordem internal individualidade -4
7) a cultural constitute um todo, que embora participant
do do meio geografico, dos determinantes economi-
cos e dos fatores biologicos e psicol6gicos do in-
dividuo, forma um context pr6prio e e a grande ba
se para a.explicagao do comportamento human.


Estas observagoes sobre a cultural como unidade fun
damental e, portanto, agindo s6bre o home que a criou,
nao nos leva a um aspect pouco objetivo, significando
uma entidade independent da vontade humana. Mas, diz
R. Linton, p6de continuar a existir mesmo depois da mor
te das personalidades que dela participaram, pois,embo-
ra em forma "latente e mutilada", persistira nos empres
timos as outras cultures.
Cultura e home se interpenetram de tal maneira,que





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e impossivel dissocia-los e nos modernos capitulos da
psico-logia social ja estao assinalados, como acentuam D.
Krech e R. Crutchfield pontos essenciais, comos a cultu
ra como determinante de opinions e attitudes; a cultural
como determinante de contacts interpessoais, a cultural
como fonte de frustagoes.
Em obra classic, R. Lowie afirmou ser a cultural
um fenomeno "per se" e ja L. Frobenius dizia ser ela
tao important, que iria, uma vez criada,determinar o
comportamento do seu criador.
2 certo, que a integral interpretagao organicista
da cultural feita por Frobenius, nao p6de ser mais acei-
ta, pois nenhuma cultural more. Se por qualquer even-
tualidade hist6rica ela e dominada, vai apenas desapare
cer nominalmente, pois os contacts, os emprestimos que
dara a outra cultural, vao transformar os elements cul
turais do pr6prio grupo dominant.
Tambem nao se consider mais a pretensa culturala
primitive". este antigo conceito evolucionista, que
teve o apogeu no seculo XIX e que continuou mesmo ate
os dois primeiros decenios deste seculo, foi o resul-
tado de uma observagao etnocentrica dos fenomenos hu-
manos encontrados nas sociedades diferentes das euro-
p4ias. Observadores faziam girar as manifestagoes
culturais de um grupo, em torno dos "mores" europeus
ocidentais, num aspect tolomeico, em vez da verdadei-
ra compreensao dos fatos.
0 que interessava era o pitoresco, o diferente da
quilo que era visto nas esferas europeias e entao, lo-
go se estabeleceu uma escala de valores apriorlsticos,






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numa racionalizagao forgada da cultural dos povos africa
nes, indigenas, australianos ou melanesoides.
Buscavam ainda, esses escritores, ou mesmo viajan-
tes e naturalistas, uma cultural pura primitive, acredi-
tando na possibilidade de um isolamento integral,que ti
vesse assim mantido formas originarias imunes de outras
influencias.
Mal grado regeitarmos os aspects etnologicos des-
se evolucionismo, nao podemos deixar de reconhecer que
foi, sem duvida, gragas a um Tylor, a um VIc Lennan ou
de um Bachofen, que se iniciaram, com sistematizagao, o
estudo da realidade cultural.
A cultural e, pois, suscetivel de modificagoes, ja
o dissemos antes. Essas transformagoes vao dar uma
feigao dinamica a cultural e sao provenientes,diz Hersko
vits, do "meio ambiente, da hist6ria e dos fatores psi-
col6gicos.
Admitindo, portanto, como materia pacifica os em-
pristimos culturais que, de modo continuado e concrete
sao encontrados em todas as cultures da terra, chegamos
ao important capitulo da "aculturagao", hoje,estudo da
mais not~vel valia para o conhecimento verdadeiro dos
comp6sitos culturais nos varios grupos humans.
0 termo "aculturagao", diz Herskovits, em 1928,era
definido pelo Wesbster's Unabridged Dictionary como a
"aproximagao de uma raga ou tribu humana a outra,em cul
tura ou artes, pelo contacto. Nume recent edigao de

1934, este mesmo dicionario define como sendo "a aproxi
magao de um grupo social human de outro, em cultural ou
artes pelo contact; a transferencia de elements cul-





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turais de umr grupo social human para outro". Em 1936,
o New Standard Dictionary refere-se como "a participa-
gao da cultural de um povo por outro povo".
No entanto, J. W. Powell, em 1880, ja acentuava as
grades mudangas na cultural determinadas pela acultura-
cao e W. H. Holmes, em 1896, referindo-se a cermica dos
antigos pueblos, afirmava que as artes passam de. lugar
a lugar e de povo a povo pelo process aculturativo e
assim se explica, porque, povos de diferentes origens
tem as mesmas artes, enquanto que grupos com a mesma o-
rigem, tem-nas diferentes.
Boas, em 1896, tratando do desenvolvimento das mi-
tologias americanas, dizia que a aculturagao se proces-
sou tao intensamente entire as varias tribus, que era im
possivel separar as origens dos mitos, uma vez que,via-
jando de tribu para tribu, formaram num grande todo,
constituindo um fundo comum nos grupos indigenas.
Em 1935, um comite da Social Science Research Coun
cil, formado pelos antropologos norte-americanos, Prof.
Robert Redfield, da Universidade de Chicago, Ralph Lin-
ton, da universidade de Wisconsin e Melville Herskovits,
da Northwestern University, apresentou um Memorandum,on
de se estabelecia a definigao de "aculturagao", .separan
do-a de outros terms que pudessem trazer confusao a
compreensao etnologica e um metodo de trabalho para os
estudos aculturativos.
Aculturagao foi, entao, considerada, como sendo "a
queles fenSmenos que resultam quando grupos de indivi-
duos de diferentes cultures entram em contact direto e
continue com subsequentes mudangas nos padres cultu-






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rais originarios de um ou de ambos os grupos".
0 metodo de trabalho seria a coleta de dados,aclas
sificagao, a tecnica utilizada para a analise dos fatos,
tipos de contact cultural, situagoes ocorridas, process
sos da aculturagao atraves da selecao dos tragos,da de-
terminagao e da integragag, os mecanismos psicol6gicos
e os resultados da aculturacao.
A "aculturagao" e, portanto, o process dinamico
da cultural no seu contact de gm grupo com outro grupo
e que apresenta, como resultado, neo uma outra cultural,
propriamente, mas, uma feigao nova, sintese que e de
duas ou mais unioes culturais.
Sa "aculturarao", termo que hoje esta generaliza-
do em todas as obras de Antropologia Cultural, um pro-
cesso mais amplo que a assimilagao, pois, e esta, se-
gundo o citado comite, uma "fase do process total que
e a aculturagao".
Uma vez verificada a "aculturagao", como se com-
portarao as cultures que foram submetidas, por quais-
quer determinismos historicos, a conviver? E evidence
que a situagao e complex e nem se deva supor que uma
das cultures va, imediatamente, aceitar a outra, sem a
presentar reagoes pr6prias ou comportamentos especifi-
cos.
Foi, justamente, observando esses fatos, que, em-
bora admitindo as cultures como verdadeiras realidades,
fizeram os professors antropologos norte-americanos,
ressaltar a importancia dos mecanismos psicologicos na
"aculturagao", tendo sempre em conta o papel dos indi-
vIduos como membros do grupo, suas attitudes, sua rece-





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ptividade ou nao quanto aos elements culturais alieni-
genas.
Entramos, entao, nos "resultados da aculturagao
que o medmo.comite divide em tres aspects: a "aceita-
gao", quando a aquiescencia de uma cultural aos padres
da outra se faz inteiramente; a "adaptagao", quando ha
harmonia entire as cultures dos dois ou mais grupos,for-
mando-se, entao, um verdadeiro mosaico cultural numa
perfeita conciliagao de attitudes; a "reagao", quando
as cultures entram em choque, desejando cada uma guar-
dar seus elements culturais e sobrepujar-se a outra.
2, dentro da compreensao da "reagao", e portanto,
do fenomeno "contra-aculturativo", que procuramos en-
quadrar os movimentos ja enunciados. Essas reagoes
culturais aos processes de deminio de uma cultural a ou-
tra, estao ligadas, de modo absolute, as forgas psicol6
gicas individuals e coletivas de manutengao da cultural,
num desejo cons'tante de resguardar o patrim6nio de suas
tradigoes a dominagao estranha.
No entanto, quando observamos os movimentos "con-
tra-aculturativos", verificamos que, embora reagindo a
interferencia de cultural ou cultures diferentes,nao fi-
caram os tragos culturais do grupo rebelado, isentos das
influencias que repudiam. Na quasi totalidade dos ca-
sos, as cultures se mesclaram, em varios pontos, prince
palmente no setor material.
A "reagoes" estao mais ligadas qo conteudo nao-ma
trial, tal, como, a religiao, a magia, as dansas cere-
moniais, lutando por uma sobrevivencia psico-emocional.
a o que nos narra, com uma notavel penetragao Monica






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Hunter no seu trabalho "Reaction to Conquest", assina-
lando os efeitos dos contacts culturais entire europeus
e os Pondo, habitantes da Africa do Sul.
Essas "reagoes" obedecem a duas especies de lutas:
a introversa e a extorversa. A primeira, fechada, de
aspect mais individual, conhecida atraves dos suici-
dios, do abuso de bebidas embriagantes, dos infantici-
dios e abortos voluntarios, do "banzo", uma das expres-
soes mais tipicas da hist6ria da escravidao na nossa ter
ra, Ainda nas "reagoes" introversas, estao as chama-
das "dansas dos espiritos", sobrevivencias de antigos
cultos magicos que s6 sao efetuadas ocultamente, dando
origem as religioes de misterio, em face das persegui-
goes sofridas. A segunda expressao e a extroversa, o
conflito aberto, a rebeliao bem caracterizada, a guer-
ra. Entao, neste moment, antigas sobrevivencias cul-
turais voltam a tona na mentalidade do grupo e a luta
armada, juntam-se as interpretagoes de sonhos promisso-
res de uma vida melhor, numa volta de antigos her6is ci
vilizadores, num verdadeiro process messianico de liber
tagao, e o chefe escolhido no moment da reagao, conse-
gue prerrogativas especialissimas de "shaman", de predes
tinado e cuja vontade deve ser cegamente obedecida.


Que encontramos na aprecigao "contra-aculturativa"
de Pedra Bonita?
Logo, o saudosismo, expresso pelo sebastianismo e,
portanto, o desejo da volta a uma determinada epoca an-
terior, que supunham aqueles crentes, ser melhor do que
a que estavam vivendo. Poi, portanto, uma epidemia ve




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sanica, sem duvida, de fundo religioso que emergiu em
forma ciclica, de um ambiente pr6picio ao fanatismo e
que logo tomou aspects messianicos.
Arthur Ramos assinalou que o delirio religioso
"cresce de importancia ao verificar-se que ele raramen-
te se confina num individuo" e que "num amplo cont .acto
sugestivo", a tendencia "a expansao nao conhece limits"
A fe e a obediencia ao chefe, porem, nao bastavam
para que se concretizassem os anseios-dos crentes: sa-
criflcios penosos foram exigidos para que as recompen-
sas fossem equivalentes. ., sob que modalidade se a-
presentavam os premios? Justamente, se correlaciona-
vam com as situagoes de "inferioridade", criadas pelo
impact da cultural dominadora: a c6r, a pobreza, a obe-
diencia aautoridade.
E foi isto o que vimos prometido pelo mestigo Joao
dos Santos quaudo houvesse o desencantamento do reinb
de Pedra Bonita.
0 grupo que logo aderiu ao individuo que acenava
cor uma future felicidade, estava num estagio cultural
inferior a cultural da epoca e, entao, numa supercompen-
sagao, agiu violentamente, fazendo face as autoridades,
afim de preservar antigos padres culturais. 0 aspect
wistico da reagao, foi portanto, o movel determinante,
pois e aquele que mais tempo se conserve no plano emo-
cional.


Em CANUDOS, a complexidade 4 maior, pois existe,a-
l4m da massa inculta, a personalidade de um chefe, um
"meneur", que, trazendo consigo uma debilidade mental






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paranoide, urdiu o seu delirio com "uma forma social",
como diz Arthur Ramos, no meio em que vivia. 2, por-
tanto, AntSnio Conselheiro, um tipo que se enquadra nos
'"delirios arcaicos": teria desenvolvido um comportamen

to retardado, em correlagao com a epoca.
fsse comportamento anEcrinico achou guarida e eco
junto as populagoes sertanejas, taamboi em estagio cul-
tural atraz,&io.
Ant6nio I'iaciel, diz Nina Rodrigues, teve a sua vi-
da marcada por tries fases, que eram tambem, a hist6ria
da progressao de sua psicose: uma, quando procurou a-
fastar-se de sua'cidade, buscando varios lugares para
esquecer suas desditas e que Favilla enquadrou dentro
dos "alienados migradores", qu, pretendem incessantemen
te, mas debalde, fugir as proprias alucinagoes. Na se-
gunda fase, ja era o Antonio Conselheiro,individuo que,
numa roupagem exterior de penitente, pregava uma vida
de renuncias; no terceiro period de sua vida, era o
"leader" do grupo que o seguia fanatizado.
Naquele moment, suas reagoes a epoca estavam em u
nissono com as dos seus adeptos a revolt contra a Re
pdblica, contra a separagao da Igreja do Estado, contra
a secularizagao dos cemiterios, contra o casamento ci-
vil, contra as moedas com as novas efigies dos chefes
republicans, contra o pagamento dos novos impostos.
Seria impossivel, diz Nina Rodrigues, exigir que
populagoes sertanejas pudessem compree-der uma nova or-
dem econ6mic:.-social, pois se "achavam no, estadio infe-
rior da evolugao social". Se modificarmos as palavas
"evolugao social" para "estagio de cultural vemos, co-





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mo ja o grande mestre baiano havia encarado o problema
sob os fundamentos da modern "contra-aculturagao".
A resistencia de Canudos ao assedio das tropas le-
gais e, sem duvida, uma demonstragao daqu~le valor pes-
soal do jagungo, mas orientado na senda do fanatismo re
ligioso, e que represent o desejo veemente da conserve

gao de seus "costumes".




A interpretagao cultural de Juazeiro do Norte,mos-
tra, tambem, muitos pontos de contact com os dois pri-
meiros movimentos.
Sem ser um paranoide, o Padre Cicero utilizou a
mentalidade atrazada da populagao para a consecugao de
seus propositos. Suas "curas", seus "milagres", os au
xilios que dava aos sertanejos, como estes apreciavem,
isto e, ensinando "rezas" mescladas de superstigoes lo-
cais e permitindo que fosse sua pessoa confundida com a
divindade catl6ica, constituiram as expresses concre-
tas de uma fase cultural anacronica do grupo.
A trova popular guardou as "qualidades" do Padre
Cicero:-


"Nao tenho capacidade
Mas sei que nao digo atoa
Pade Cisso e. uma pess6a
Da Santissima Trindade."


A reagao armada, coroamento obrigat6rio dos movi-
mentos extroversos, deu a caracteristica final a "con-
tra-aculturagao".






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Os sucessos.militares iniciais, tambem favorecidos
pela pr6pria tropa estadoal, tirada, quasi toda do mes-
mo meio cultural, animaram os jagungos. Entao,'ja nao
era apenas o religioso, o Santoo", queali estava junto
dos sediciosos, era tambem o "iluminado", o chefe mili
tar que precisava ser obedecido para a vit6ria final.
A crenga, entire os sertanejos, de que as balas das
forgas do governor nao penetrariam nos seus corpos e 3i
entrassem, nenhum nal lhes poderia fazer, retratam o es
tado de espirito dos rebeldes que era o de uma perfeita
certeza na legitimidade da sua causaa" e na santidade
do "Padim Cisso".
Mais uma vez verificamos o desejo de uma existen-
cia, em moldes. que eram os unicos compreendidos e esti-
mados por uma populagao. A imposigao de outros pa-
droes trouxe a volta violent ao ambiente cultural an-
terior.




Finalisando o nosso ensaio da interpretagao "con-
tra-aculturativa" dos movimontos: Pedra Bonita,' Canu-
dos e Juazeiro do Norte, podemos, entao, concluir:


1) que houve uma incompreensao dos grupos sertanejos
pela cultural dominadora;
2) que esta incompreensao gerou um desajustamento que
se exteriorisou pela luta aberta;

3) que este desajustamento foi proveniente de um est6
gio cultural anterior, tacitamente aceito, e, em
cujos "mores", as populagoes pautavam a sua vida;






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4) que os "chefes" daqueles .movimentos sao produtos
do seu ambiente cultural, exercendo a funcao de di
rigentes, com exito, pela ligagao estreita que e-
xistia com a formagao mental do seu grupo;

5) que para se conseguir a diminuigao, ate o desapare
cimento de tais movimentos, mister se faz a adogao
de normas cientificas para o conhecimento do home,
como forga psicol6gica e como criador de cultural;
6) que se torna cada vez mais necessario o estudo da
realidade brasileira em suas origens etnicas e cul
turais, afim de ser conseguido, sem lutas, o verda

deiro progress em todas as areas brasileiras.


- x -






- 49 -


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INDICE


Pag.


PREFACIO


CAPITULO I A Regiao do Nordeste ..............


CAPITULO II 0 Homem do Nordeste ...............


CAPfTULO III Retrospecto Historico .............


- Pedra Bonita.........

- Canudos ............

- Joazeiro do Norte....


CAPITULO


IV Interpretaqao Antropologica .......


BIBLIOGRAFIA .................. .... ... ...... .

















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