Joazeiro na assemblea legislativa do Ceara : discursos pronunciados nas sessoes de 16, 19, 22 e 23 de setembro de 1925 r...

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Title:
Joazeiro na assemblea legislativa do Ceara : discursos pronunciados nas sessoes de 16, 19, 22 e 23 de setembro de 1925 refutando accusacoes feitas pelo deputado Martins Rodrigues ao Padre Cicero Romao Baptista e ao Dr. Floro Bartholomeu da Costa.
Physical Description:
66 p.
Language:
Portuguese
Creator:
Castro, Godofredo de
Publisher:
Typographia S. Jose
Place of Publication:
Fortaleza, Ceara
Publication Date:

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
All rights reserved by the source institution.
Resource Identifier:
aleph - 003160809
System ID:
AA00000293:00001

Full Text
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GOOFREDO DE
ti' ^ -" "" a B '* 5


STRO "


JOAZEIRO


--- ASSEMBL A LEGISLATIVE
' _~_Do CO1EARA "



Discursos prounneiados nas ses-
ames de 16, 19,.22 e 28 de Setembro de
1925 refutando accusagbes feitas pelo
deputtdo Martins Rodrigues ao pa.
dre Cicero Roin'io Baptista e ao dr.
Floro Bartholonmen da Costa. nc -Aa-w


CEARA-FORTALEZA
TYPOGRAPHIA S. JOSt
*.'Q69--RUA MAJOR FACUNDO -259
192S


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.1, MILMEIRO






GODOFREDO DE CASTRO






JOAZEIRO
IT A.

ASSEMBLEA LEGISLATIVE
DO CEARA





Diseursom pronunelados nas ses-
stes de 16, 19, 22 e 23 de Setembro de
1925 refutando accusaoges feitas pelo
deputado Martins Rodrigues ao pa-
dre Cicero Romho Baptista e ao dr.
Floro Bartholomen da Costa. X *-* X


CEARA-FORTALEZA
TYPOGRAPHIA S. JOS1
259 -R UA MAJOR FACUNDO -259
1925










C~ 2ste modesto trabalho e luma just
( homenagem ao reverendo padre Cicero
o apostolo dos sertes nordestanos,
e, sobre tudo, am espontaneo cultto d ver-
dade historic acerca do Joazeiro o nucleo
mais progessista desta por7do do Brasil.
G. C.


tC)



















PIuas Patavras





VAo aqui enfeixadas quatro brilhantes oraq6es proferidas
pelo deputado Oodofredo de Castro da tribune da Assembl6a
Legislative do Estado, em defesa da terra malsinada do Joazeiro.
Esse digno representante do povo cearense e uma
organizaqao especial de home em que se reflect o tumulto das
multidoes, se espalha a vertigem do moment, se retrata a pureza
dos sentiments que o dominam.
Quando abraqa uma causa fal-o corn sinceridade, carinho e
energia mental e essas suas qualidades primaciaes s6 sgo
criticadas, puerilmente, por meio da facecia que tern a duraqio
ephemera de um minuto.
A alma desse legislator patricio, asseveremos para honra
da sua estirpe e exemplo dos contemporanes, nio 6 feita desse-
mesmo barro, fragilimo, que reduz os filhos da terra de Iracema,
os mais ricos, os mais illustrados, os que -se julgam nobres, i
miserrima condigqo de paria.
0 CearA, disse-o Ruy Barbosa, 6 um organismo morto.
E 6 mesmo.
E quando apparece na confusAo dos eunuchos o portador
de um espirito insubmisso patrocinando seu proprio pensamento,
ou qualquer id6a sadia, quando alguem quebra a monotonia do
entorpecimento ambiente, quando algum mortal se arroja a dizer
meia verdade sobre o impatriotismo de um governor ou desvirtude
de um bispo, ou de simples padre, a populaqgo mostra-se
bestializada, tomada de enorme panico.
Nao 6 que haja interesse de consciencia em advogar
aquelles; 6 que a pobreza da gleba ou a consequente difficuldade





4

na soluqio quotidiana do problema da vida, nos transformou,
mais do que a qualquer outra raqa, em espectros.
Parece foi para n6s que Max Nordau escreveu esta
profunda sentenqa: covardia,.
A defesa de Godofredo de Castro ao situacionismo
joazeirense, o que vale dizer, ao benemerito revmo. padre Cicero e
ao seu braco direito, o illustre deputado Floro Bartholomeu, como
bem testemunhou a sociedade de Fortaleza, pela logica dos
arguments empregados, pela narraqio fiel dos factos, pela
opportunidade da sua eloquencia, por tudo, emfim, estonteou,
aturdiu, confundiu e debandou o grupelho adversario que se
acastellara, indevidamente, por detraz das coisas sagradas,
profanando-as.
Os primeiros petardos dessa campanha ingloria e insensata
que um dia se chamou cabeqas dos ignorantes, produzindo o estrondo de um feixe de
raios desencadeiados do alto.
Seus effeitos demoraram um pouco, resultado da difficuldade,
a principio, de uma imprensa livre que ferisse o assumpto, ella
propria, no seu amago, com intelligencia e coragem.
Essa lacuna 'desapparecera quando, hoje 6u amanhi, f6r
lanqado a luz da publicidade mais um orgdo do jornalismo
conterraneo, para ser lido e entendido por quern souber ler e
entender.
Fort., 6-10-925.
R. GOES DE MATTOS
















* /


Padre Cicero Roni~o Baptista


m I

















Discurso pronunciado na sessio do dia 16 de
Setembro de 1925

O SR. GODOFREDO DE CASTRO:-Sr. President,
ha tempos vem preoccupando a opinigo public
desta capital e, quiqi do Estado todo, as gravissimas
denuncias formuladas por um membro do illustre clero cea-
rense e divulgadas pela imprensa catholica, contra os respon-
saveis pela situacqo political, religiosa e social do Joazei-
ro, essa hoje grande e prospera cidade do sul do Es-
tado, campanha esta que 6 do conhecimento de v.
excia. e de nossos pares.
Apesar de saber o quanto podem a maledicencia
e a perversidade humana, long estava de pensar que
fossem al6m do exaggero as audaciosas affirmativas fei-
tas contra dois cidaddos que, pela alta consideracqo em
que sdo tidos pelos seus concidaddos, e pela conscien-
cia que tem do cumprimento rigoroso e sev6ro do de-
ver, se julgaram a salvo de denuncias de tanta gravida-
de e que tanto escandalo tem produzido.
Puro engano! 0 exaggero ultrapassou os seus li-
mites, e a mentira surgiu corn todas as suas conse-
quencias, deixando a nodoa e a duvida e expondo a
execraqAo public aquelles que, no primeiro moment
do ataque, ndo poderam, de prompto, trazer ao public
o desmentido formal das imputacqes calumniosas.
O SR. MARTINS RODRIGUES :-Calumniosas oi ver-
dadeiras.






6

O SR. OODOFREDO DE CASTRO:-Felizmente, ca vic-
toria da mentira 6 ephemera; apenas corrido o vdo que
a occulta, a realidade impera corn sua imperturbavel re-
gidezi.
Talvez, sr. President, esta minha defesa aos que
foram alvo das pedradas do despeito e da inveja cause
admiracAo aos meus colleges, porque 6 precise se estar
apparelhado de grande convicqco ao assumir attitudes
como esta!
E esta convicqco eu a possuo, inabalavel, adquiri-
da corn a investigacqo complete que tive opportunidade
de fazer, quando de minha recent viagem ao sul do
Estado. E si mais cedo nao vim A tribune trazer a As-
semblea o resultado de minhas observag6es, dois mo-
tivos foram o determinante: 1.0, o meu estado de satide,
que nao me permittia fazer uma longa exposiq.o oral; 2.0,
ter julgado preferivel me aguardar para fazel-o, ao re-
gressar a esta capital a comitiva que, em companhia do
digno Presidente do Estado, foi assistir A inauguraqAo
da estacao da nossa ferro-via, de cMissao Velha,, e
dali foi at6 o malsinado , da qual fizeram
parte illustres colleges nossos que, corn as suas pala-
vras autorizadas e insuspeitas, poder.o collaborar nas
minhas affirmativas.
Sr. President, quem vae ao Joazeiro e ali se de-
mora, como eu o fiz, investigando, interrogando os pro-
prios inimigos do dr. Floro Bartholomeu e do reveren-
do padre Cicero, se deixa fatalmente tomar de just in-
dignacio ao constatar a falsidade corn que se affirmam
tao graves accusacqes contra aquelles dois illustres
cidaddos.
O SR. MARTINS RODRIGUES: -O Floro 6 urn santo.
O SR. OODOFREDO DE CASTRO: Nao e, porque
nio foi ainda canonizado pelo Papa; no entanto, 6 pos-
sivel que ainda venha a ser, como succedeu corn Joan-






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@f~- >0-


*1

9


ESTATUA DO PAI)IDRE ('I'ERO
Pra;a Aloxandrino do Alencar


@I wcN D



















DIA DE FEIJIA EM JOAZEIJU)


ASPECTOS DA CIIPAIE DO .IO.ZEIRO






7

na d'Arc, que a santificaram, depois de terem-na quei-
mado viva.
O SR. JORGE DA ROCHA: Nao 6 um santo, mas
6 um home de bem, um patriota as direitas.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO: -Joazeiro atraves-
sa uma phase de franca e accelerada evoluqco, devido
tdo somente a actividade incancavel do deputado Floro
e a solidariedade que lhe da o padre Cicero.
De uma grande aldeia, que era apenas hi poucos
annos, 6 hoje uma formosa e modern cidade, obede-
cendo a technical mais rigorosa na sua remodelaq.o.
Assim, tern vastas ruas, perfeitamente alinhadas, cujos
passeios unifor'mizados medem 3m. 50 de largura, dan-
do, ao viajante, a impressao de grandes avenidas. Toda
calqada, a cidade apresenta, na sua pavimentacao, me-
Ihor aspect de que Fortaleza, tern uma grande praga
onde erigiram a estatua de seu gratide bemfeitor, toda
ella calcada e feericamente illuminada a luz electric.
Joazeiro tern uma populaqao de cerca de cincoenta e
tres mil habitantes e perto de 8 mil casas.
O SR. MARTINS RODRIGUES:-Pelo menos durante
as festas.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO:- V. excia. bem sabe
que n.o se p6de fazer 8 mil casas nem arranjar uma
populaao de 53 mil habitantes durante uma festa.
Pois, bern, Sr. President, esta grande cidade nao
conta ainda quarenta annos, e faz pouco mais de 5 que
comeqou o 'seu remodelamento, tendo sido seriamente
intensificado de um anno a esta parte.
Parece exaggerado e faz receios affirmar-se tudo
isto sem se trazer testemunhos insuspeitos.
Mas, sr. President, nao fica somente, nos me-
Ihoramentos materials a accentuada actuacqo das duas
victims a que venho me referindo; elles forawn
mais long, procuraram fazer, e conseguiram, o sa-
neamento moral daquelle grande nucleo de homes






8

affeitos, pela educacao e pelo meio, A pratica de crimes
e de desvios das b6as normas que devem presidir As
sociedades humans, arrancando-os de um atavismo que
herdaram dos seus ancestraes, do home que disputa-
va aera a presa, a porta da caverna, pelo ingresso dos
bons costumes e do respeito religioso ao direito
dos outros.
O SR. MARTINS RODRIGUES:- Menos o direito
de vida.
O SR. OODOFREDO DE CASTRO:- A ordem, ali, 6,
posso affirmal-o, mais accentuada do que na propria
capital do Estado! Nos dias de feira, reune-se uma po-
pulacqo adventicia, de cerca de 5.000 pessoas, mas nao
se verifica a menor rixa e ninguem faz uso de armas
prohibidas!
Sim, durante 12 dias que ali estive, nao se verifi-
cou nenhuma prisao, nao vi ninguem embriagado, e
nem uma troca de palavras alterou a ordem public.
Qual o lugar no interior do Estado, mesmo pro-
ximo A capital, que imite, neste particular, a Joazeiro?
O SR. JORGE DA RoCHA: Mesmo em Fortaleza.
O SR. MARTINS RODRIGUES: Mesmo no Rio de
Janeiro.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO: No entanto, sr.
President, era ali annos atraz uma terra inhabitavel
para quem quisesse pacificamente viver e precisasse de
garantias para sua vida e para seus haveres.
De toda parte affluia para a grande aldeia uma po-
pulagqo adventicia, em cujo meio vinham, muitas vezes,
perigosos malfeitores, acossados quasi sempre pelas
policies dos Estados vizinhos, os quaes traziam em
constantes sobresaltos a populac.o ordeira, corn a pra-
tica de assassinios, roubos e outros delictos.
Debalde, a palavra evangelisadora e mansa do pa-
dre Cicero, desse bondoso conselheiro e protector dos
simples e dos humildes, incutia no animo dos degene-






9

rados o sentiment do bem, o proposito de retrocede-
rem do caminho escuso do crime e da maldade, por-
que, para tarados, n.o ha regeneragao possivel.
A acqfo repressive, sr. President, resultava inutil,
porque os dirigentes politicos daquella terra nao conta-
vam com o apoio efficient dos poderes publicos e a
falta de um convenio policial entire os Estados limitro-
phes servia de formidavel entrave A efficaz repressed
ao banditismo.
O SR. MARTINS RODRIGUES: 0 padre Cicero nao
precisa disso, basta uma cartazinha como aquella que
fez ao Lampeao.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO:-V. exia. esti fazen-
do uma affirmative calumniosa. 0 padre Cicero 6 inca-
paz de escrever uma carta como essa.
V.exia. aguarde-se para replicar depois. E'contra a
b6a norma parlamentar interromper o orador como esti
fazendo v. excia.
O SR. MARTINS RODRIGUES: Se v. excia. quiser,
nao darei mais nenhum aparte.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO:- Depois da expo-
siq.o qne venho fazendo, poderei responder a V. Excia.
O SR. MARTINS RODRIGUES:-Apesar de interessar-
me muito as consideraqoes que v. excia. vem fazendo,
aguardar-me-ei para responder depois.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO:- Tornou-se neces-
sario que isto se fizesse, isto e, que os governor dos
Estados vizinhos, de acc6rdo corn o deste, adoptassem
as medidas saneadoras que tdo apreciaveis e uteis re-
sultados term produzido, para que a ordem e a lei se
tornassem uma realidade naquella longinqua localidade
do sul do Estado.
Data dahi, sr. President, a grita escandalosa dos
inimigos do dr. Floro Bartholomeu e do padre Cicero,
apontando-os aos olhos dos desprevenidos e alheiados
do que realmente se passa no Joazeiro, como verdugos





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e mandatarios de assassinios hediondos e ferozes per-
seguidores de honestas creatures que apenas saquea-
vam pelas estradas e roubavam a vida do indefeso ser-
tanejo que Ihes cahia no desagrado!
E o que 6 mais revoltante e terem partido essas
denuncias de quem, em discurso publicc, tanto exaltou
as qualidades moraes e o valor civico do mesmo ho-
mem que hoje calumnia e detrata.
O SR. JORGE DE SouzA:-Quem foi este?
O SR. GODOFREDO DE CASTRO :-O padre Macedo.
Sr. President, posso affirmar, corn seguranqa, a v.
excia. e a Assembl6a que sao miseravelmente falsas as
accusac6es feitas ao deputado Floro Bartholomeu. S.
excia. nunca mandou matar nem espancar a press
ou facinoras e isto porque nao 6 autoridade policial! 0
que o illustre representante cearense fez foi dar inteiro
apoio a accao da policia, nado estorvando-a, como fa-
zem, quasi sempre, os chlefes politicos protectores de
bandidosl S. excia. disse-me, corn a rude franqueza que
Ihe 6 propria, que sentia nao ser autoridade policial
para p6r em pratica medidas capazes de extinguir o
banditismo nos nossos sert6es, por6m dava todo o seu
apoio aos que se propusessem a esta obra benemerita
e salvadora. E' este o seu grande crime! Mas, sr. Pre-
sidente, para n6s, que aqui moramos e exercemos a
nossa actividade, aqui no meio culto, no littoral, cercado
de todas as garantias; n6s que estamos, portanto, a
salvo do punhal e do rifle do salteador, nao estamos
em condic6es de julgar aos que, no desempenho de
uma missao moralizadora, procuram estirpar esse ele-
mento pernicioso do seio das populaqoes laboriosas e
pacificas, deixando-nos tomar desse sentimentalismo
piegas, sem reflexao e sem razao de ser, esquecidos
das victims immoladas A sanha tigrina do bandoleiro
feroz e audaz.
De quem nos deviamos compadecer, de quem nos






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deviamos apiedar era desses agricultores ou fazendeiros
honrados que levam a existencia inteira no arduo tra-I
balho da terra, com o fim de assegurarem A prole as
commodidades que as necessidades da vida reclamam,
e, de um moment para outro, s.o assaltados por es-
sas fdras humans que, al6m da honra das indefesas fi-
lhinhas, arrancada na sua propria presenca, da violac.o
brutal da companheira querida, do incendio de suas
propriedades roubam-lhe a vida! Sim, para essas vic-
timas se devia inclinar a piedade desses que se deixam
impressionar pelas dores alheias.
Sr. President, devido aos nossos defficientes meios
de repressao, e a vergonhosa proteccao que geralmente
se dispensa a bandidos, no sertao, os quaes, quando
nao sao absolvidos pelo jury, e postos em liberdade
pela larga porta do chabeas-corpus,, sobre tudo de-
pois que inventaram irregularidades do process, ou
acintosamente arrancados das pris6es pelos seus com-
panheiros de delicto, continuam livres, a trilhar a
mesma estrada tortuosa do crime, consequencia da tara
ancestral e do meio ambiente onde nasceram e onde se
formaram os seus espiritos, que os impelle a essa ani-
malidade feroz, ultrapassando a hyena e ao tigre, porque
a faculdade do raciocinio 6 um poderoso estimulo e,
dahi, as criacoes ineditas de crimes monstruosos. --
Srs.,~6uma verdade insophismavel que s6 se p6de
extinguir o banditismo niatando o bandido! S6 se p6de
sanear o ambiente social desses miasmas deleterios e
pestilenciaes, extinguindo-se os charcos humans de
onde elles emanam!J
O SR. MARTINS RODRIGUES: Nesse caso o Floro
deve suicidar-se.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO:-Sr. President, como
viu V. excia. e a casa, sao pueris e injustas as accu-
saq es levianamente feitas ao dr. Floro Bartholomeu
por um illustre sacerdote que, levado pelo primeiro im-






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pulso de seu temperament irrequieto, se deixou con-
duzir pelos pescadores de aguas turvas e se emara-
nhou nesse intrincado cipoal de onde jamais podera
sahir incolume!
Ao dr. Floro e ao padre Cicero deve o Ceard,
incontestavelmente, uma enorme divida: o ter dotado
corn uma cidade, como Joazeiro, a maior. e a mais po-
pulosa do Estado, corn feicqo modern e fadada a ser
um grande centro industrial quando os meios de trans-
porte tornarem facil a conduccao de machinismos e, ao
mesmo tempo, poderem ser conduzidos ao littoral os
products de suas industries.
E isto ji podemos antever num future muito pro-
ximo: antes de um anno, o silvo da locomotive ecoard
na chapada do Araripe, em cuja raiz esta situada aquel-
la grande cidade.
Sr. President A acqco demolidora dos que em-
preitaram convencer aos desprevenidos de que o Dr.
Floro' Bartholomru, long de ser um abnegado popul-
sor do progress material e moral daquella parte do
Cariry, e, antes, um verdadeiro ferrabraz, nas suas pu-
blicidades, n'Ao ficaram satisfeitos somente com esta
parte do programma tdo desastradamente organizado,
foram al6m, e, na irreverenqia das investidas insensatas,
tentaram expor ao ridiculo e ao despreso public a per-
sonalidade, por muitos titulos veneravel, do padre Cicero
Rom.o Baptista, esta criatura, cuja alma 6 um verdadei-
ro cadinho, onde se acrisolam todas as virtudes e todas
as renuncias!
O SR. MARTINS RODRIOUES:- Isso tern demonstra-
do muito na sua vida.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO: Tentaram, ao prin-
cipio, apontarem-no como mentecapto e automato nas
mAos de seu grande amigo, e, depois, voltaram a velha
lenda do fanatismo, expondo-o aos olhos do povo como
um ignorante e supersticioso fanatisador de homes.




























~OA~ 9


ISPECTOS DA CIDADiE DO JOAZEIRO


1






13

No entanto, sr. President, o que realmente se veri-
fica, neste particular, 6 ser elle dotado de um espirito
culto e admiravelmente lucido. De uma bondade infinita,
nunca a nevrose da raiva p6de alterar o seu moral, des-
viando-o do caminho sereno e manso que se tragou,
no desideratum grandiloquo de fazer o bem. Para os
que o detratam tem sempre o perd.o, e um sorriso mei-
go traduz a verdadeira faceta de sua grande alma. Fa-
natizador! E, porventura, nao o forari os grandes refor-
madores das sociedades humans? Os predestinados de
todos os tempos, a quem uma missao historica,,fel-os
conductores de homes e remodeladores de religi6es e
de sectarismos, nao sao hoje, uns deificados pela
ortodoxia religiosa, e outros classificados pela inde-
fectivel justiqa historic como os maiores philosophos
da antiguidade? Jesus, o sublime e incomparavel philo-
sopho da Galil6a, nao foi acoimado pelo seus contem-
poraneos de embusteiro e fanatizador, e isto porque,
desprezando os ricos e potentados, procurava de prefe-
rencia os humildes e pequeninos, e, assim, fez de sirm-
ples pescadores os seus discipulos predilectos, os con-
tinuadores de sua grande obra?
O SR. MARTINS RODRIGUES: V. excia. quer dizer
que o padre Cicero 6 igual a Jesus ?!..,
O SR. GODOFREDO DE CASTRO: Pel o menos n.o
desvirtuou sua verdadeira doutrina.
Sr. President, a acqAo religiosa e social do padre
Cicero teem sido, infelizmente, mal comprehendida por
uns e miseravelmente' exposta, adulterada e phantasiada
por outros. Cbnvivendo corn gente simples e ignorante,
afastado dos centros civilizados, 1l nos confins do Es-
tado onde a defficientssima iristruccao public quasi nao
tinha actuaq.o, onde os meios de.transporte difficillimo
impediram o ingresso da civilizai.o na sua modest
manifestaqao, onde o crime campeava assombrosamente,
devido a inefficacia da accao repressive, s6 mesmo a sua






14

acqAo evangelizadora podia conduzir ao caminho do
bem, do trabalho honest e da pratica das virtudes, es-
ses nucleos de homes semibarbarizados, ainda mal des-
pertos do profundo somno da ignorancia e da animali-
dade.
Conformar-se com as determinac6es de uma dis-
ciplina inquisitorial, quando disto resultava prival-o de
p6r em pratica a sua grande obra de regeneraqao dos
que o procuravam, era isto inteiramente incompativel
corn os sentiments altruisticos que formam a persona-
lidade moral desse benemerito e indefeso semeador do
bem.
Deante do mal immense que poderia evitar e do
rancor dos seus superiores hierarchicos nlo hesitou,
porque a covardia nao tern ingresso na alma generosa
dos predestinados, e se deixou expor a toda esta in-
terminavel series de perseguig6es, que hd annos vem
formando uma especie de lenda em torno de sua figu-
ra veneranda.
E' esta a verdade insophismavel, senhores depu-
tados!
Foi por isto, porque elle preferiu desobedecer a
ordens absurdas e que veriam annullar a formidavel
obra que idealisara, e cuja realizaqAo benefica acabamos
de assistir, que se tem levantado esta grita ensurdece-
dora de despeito e de inveja.
Ao meu ver, a actuaeao do padre Cicero, encarada
sob o aspect social e religioso, tern sido de in-
contestavel benemerencia, porque reintegrou ao Estado,
sensivelmente modificada, podemos mesmo dizer com-
pletamente regenerada uma grande populaqAo que, sem
os seus conselhos e a sua evangelizaqao, permaneceria
nos mesmos habitos, afastada da verdadeira moral chris-
tA e da mais rudimentar civilizaqAo.
E desta affirmative, sr. President, acabamos agora
mesmo de ter a confirmacao. A Estrada de Ferro, que





15

estA quasi As portas do Joazeiro, ira ali encontrar uma
cidade civilizada, habitada por uma populacao ordeira,
laboriosa e mais ou menos instruida.
A inpressao colhida ali pelo sr. President do Es-
tado e sua illustre comitiva, recem-chegados a esta ca-
pital, e a demonstraqAo mais evidence da verdade de
minhas conclusoes.
Sr. Presedente, bemdicto despotismo este que fez
varrer de uma grande faixa do territorio cearense a ac-
este que reintegrou na civilizagco e no progress uma
densa populaqdo, sadia e forte, collaboradora efficaz da
grandeza deste nosso torturado, e, por isso mesmo,
querido e amado Ceard.
(Muito bern. 0 orador 6 cumprimentado).

















Discurso pronunciado na sessio do dia 19 de
Setembro de 1925

(REPLICA AO SR. MARTINS RODRIGUES)

O SR. GODOFREDO DE CASTRO: -sr. President,
quando na sessao em que tive opportunidade de falar a
v. excia. e a Assembl6a sobre o Joazeiro, seu progress
seus chefes e sua gente, long estava de support que
dada a serenidade e elevacao de vista corn que encarei
a momentosa questdo que se vem ha tempos travando
pela imprensa, provocasse a attitude vehemente e nervosa
do deputado Martins Rodrigues, que, alem de impertinen-
temente apartear-me, se inscreveu incontinente para
falar na sessao de ante-hontem.
Apesar de, por indole, por temperament e por
educaqgo, n.o costumar temer o adversario, senti, en-
tretanto, receio de que o illustre college podesse so-
phismar a defesa que eu vinha fazendo aos patriots
que transformaram a cidade de Joazeiro num nucleo
de homes civilizados e numa cidade que obedece a
technical mais rigorosa- das edificac6es modernas.
Receei porque, conhecedor do talent que or-
na o espirito do illustre representante do povo
cearense...
O SR. MARTINS RODRIOUES: Muito obrigado.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO: ...julgava-o em
condiqces superiores, para arranjar sophismas ha-






17

beis, arranjar documents embora ficticios, mas phan-
tasiados pela cerebracdo potente do habilidoso jorna-
lista -que podessem deixar pairar no espirito public a
duvida sobre as affirmativas que tive de fazer nes-
ta casa.
Puro engano, sr. President; s. excia., long de
trazer para esta Assembl6a uma documentacao s6ria e
convincente 'ou, pelo menos, invocar testemunhos que
merecessem alguma f duvida da palavra, por todos
n6s acatada, de s. excia. o sr. President do Estado e
dos' nossos 'dignos cd61egas que se transportaram a
Jo'azeiro, por occasi.o da inauguraqao da estaqco de
Missao Velha, veio renovando e sabbatinando as mes-
mas accusaqoes, ji tantas vezes produzidas pelo padre
Macedo e outras tantas vezes pulverizadas pelas victi-
mas e pela imprensa.
O SR. MARTINS RODRIGUES:-Ndo pulverizadas,
mas confirmadas.
O 'SR. GODOFREDO DE CASTRO: -S. excia., al6m de
nao ter provas cabaes 6' que convenqam, vem a tribu-
na 'ftbnar a respohsabilidade esposando uma causa in-
gatis'sima, cujo julgamento ha muito f6ra feito pela con-
sciencia public; fez' mais, censurou-me por trazer para
esta casa' uma quest.o que n.o diz respeito a um pro-
jecto de lei, a indicacqes ou a moq6es de solida-
riedade...
O SR. MARTINS RODRIGUES: Uma questao ociosa.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO : E' admiravel que
s. excia. tenha extranhado o meu procedimento, por-
que, sr. President, os' patlAmentos e os congressos
n.o sgo simple'smente fabrics de leis; nao, elles tem
missao mais amplla e, por isto, mais elevada. Cabe
aqiuelles que representam 6 povo, zelar pelos seus in-
teresses e direitos, defendendo-os quando se fizer mis-
ter e perquirindo dos governor as medidas por elles
adoptadas, quando as necessidades do povo, sobre






18

qualquer aspect, reclamarem as vistas dos pode-
res publicos.
Assim, s. excia., pondoem pratica o interesse que
revelou pelas suppostas victims do Joazeiro, devia ter
inquirido por intermedio da mesa, ao Governo, quaes
as medidas de ordem policial por elle adoptadas no
sentido de apurar as responsabilidades, os crimes de
banditismo denunciados pelo accusador do Joazeiro e
pelo orgdo em que s. excia. pontifica; crimes estes que,
segundo as denuncias a que me refiro, deviam ter
transformado aquella important e longinqua cidade
cearense numa verdadeira Calabria, num perigoso antro
de salteadores audazes.
S6 assim, sr. President, isto 6, munido de in-
forma 6es officials, poderia s. excia., corn o preciso e
necessario criterio, estigmatizar com vehemencia e ar-
dor os factos e homes que hoje vem atacar sem pro-
vas convincentes e precisas. Mas, sr. President, s. ex-
cia. preferiu fazer allegac6es sem provas e limitou-se
apenas a evocar o testemunho de ausentes, de indivi-
duos que estao bern long. Si houvesse sinceridade
nas accusac6es de s. excia. ao supposto despotismo de
Joazeiro, e onde porventura elle exista, si s. excia. es-
tivesse com a louvavel intenqgo de inteirar a Assem-
bl6a da verdade dos desmandos e das arbitrariedades
que tanto tern esvurmado, s. excia., na sua apreciaqao,
nao teria dado um salto de Joazeiro a Lavras, como o
fez, e onde quiz tambem fazer acreditar haver despotis-
mo, e teria estacionado no Cedro, porque ali s. excia.
verificaria o verdadeiro banditismo, disfareado na into-
lerancia religiosa, no acto selvagem que, ha pouco, pra-
ticaram, incendiando a casa de culto dos protestantes.
O SR. MARTINS RODRIOUES: E' falso, prova-o o
inquerito policial.
O SR, GODOFREDO DE CASTRO: 0 facto 6 do






19

dominio public e delle largamente a imprensa se
occupou.
Sr. President, na sabbatina que s. excia. fez do
que disse o accusador do dr. Floro, apontando-o como
amigo de Jos6 Ignacio, s. excia. nao foi mais feliz do
que nas outras allegac5es. Ao tempo em que a Jos6
Ignacio prendiam ao dr. Floro.
O SR. MARTINS RODRIGUES:- Velha camaradagem...
O SR. GODOFREDO DE CASTRO: -...velha cama-
radagem...
O SR. MARTINS RODRIGUES: -...de officio.
O SR. OODOFREDO DE CASTRO:- De officio diz
v. excia. (risos).
A esse tempo, sr. President, exercia Jos6 Igna-
cio important cargo public, era prefeito de Milagres e,
neste character, mantinha relacoes com o Governo do
Estado, corn as altas autoridades e com os chefes mais
eminentes da political cearense (apoiados).
Ninguem conhecia, nao se sabia si Jos6 Ignacio
seria capaz de apoiar os criminosos que se dizia vive-
rem sob a sua protecqao.
O SR. MARTINS RODRIGUES: Nao se queria saber.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO: Nao se podia sa-
ber porque, como Jos6 Ignacio, sdo accusados de pro-
tectores de bandidos quase todos os chefes politicos
do interior (apoiados), e s6 apuradas, em inqueritos re-
gulares, as denuncias contra esses chefes, deveriam col-
locar os culpados na situaqco de abandonarem os car-
gos e provocar o afastamento das relaqces das pessoas
que, de b6a f6, Ihes davam apoio.
Sr. President, depois que se fizeram inqueritos a
respeito, e nao sei si parciaes ou nao, salientaram-se
as denuncias de que Jos6 Ignacio era protector de can-
gaceiros; e isto foi no fim do governor Serpa, sendo
chefe de policia o sr. Abilio Martins, nao se podendo






20

provar que o dr. Floro tivesse feito a menor defesa
Aquelle chefe politico, mantendo-se numa digna e lou-
vavel neutralidade.
O SR. MARTINS RODRIGUES: Mandou-o com uma
carta para Goyaz.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO: As provas! V.
excia. s6 accusa sem provas!
Sr. President, o facto de um home de bern ter
amizade com pessoas que nao o sejam, nao- 6 admira-
vel, nem inedito nas nossas relac6es:sociaes, torque
ninguem p6de advinhar o que s6 o tempo vein de-
monstrar com a revelaqco dos sentimen,tos e do carac-
ter desses individuos a quem demos todo o acatamento,
ingressando-os, muitas vezes, nos nossos lares, com
elles frequentando reunites e logares publicos (apoiados).
E quando se verifica que o canalha ou o bandi-
do surge do disfarce, 6 quando a nossa indignaqAo e
o nosso repudio tomam o logar do affect e da con-
sideracqo que por elle tivemos.
Assim, sr. President, como as outras, e banal e
pueril a exploraq.o que se tern feito em torno da sup-
posta protecq.o e amizade do dr. Floro Bartholomeu
ao coronel Jos6 Ignacio. E, por sediqo, nao me demoro
emh considerac6es a esse respeito, mesmo porque, al6m
de ter sido esta balela ji desfeita pelo accusado, trata-
se de um facto commum e naturalissimo, como procu-
rei demonstrar (apoiados).
Agora, sr. President, permittam-me v. excia. e a
casa que eu toque no ponto mais delicado da ques-
tao. S. excia., o illustre deputado Martins Rodrigues,
levado pelo seu espirito irrequieto e ardoroso, nao he-
sitou em fazer perante esta Assembl6a uma gravissima
e leviana accusacao ao dr. Floro Bartholomeu, accuse
cAo esta que, como as outras, se desfaz qual simples
bolha de sabao, quando se referiu d revoluqao do
Joazeiro.











1~1~


~


ExcluhsAo prosidlefcial


117e






21

O SR. MARTINS RODRIGUES: JA se disse aqui que
era historic antiga.
O SR. OODOFREDO DE CASTRO:-S. excia. o sr. Mar-
tins Rodrigues affirmou que o dr. Floro Bartholomeu
veio chefiando a leva de sediciosos em busca da capi-
tal, deflorando, matando e commettendo toda a sorte
de crimes e de desmandos.
O SR. MARTINS RODRIGUES:- Disse que alliciou
bandidos.
O GODOFREDO DE CASTRO:- S. excia. ignorava
que o nosso college deputado Jos6 de Borba e o co-
ronel Pedro Silvino foram os unicos que vieram de Joazeiro
chefiando os sediciosos, si bem que s. excia., que esti
present, p6de e deve dar explicaq6es a respeito. Posso
affirmar que este nosso digno e illustre college tem as
m.os limpas e pr6sa, corn a nobreza que lhe e propria,
os sios principios da dignidade e da honra (apoiados),
para consentir ou praticar os crimes hediondos que s.
excia. o sr. Martins Rodrigues attribue aos revoltosos
e ao seus commandantes.
O SR. JosE DE BORBA:-Opportunamente o farei.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO:- Demais, sr. Pre-
sidente, nao cabe a mim que, como hoje, era naquelle
tempo adversario politico do illustre chefe do Joazeiro,
e sim aos seus correligionarios da bancada conserva-
dora, da qual faz parte o deputado Martins Rodrigues,
produzir a defesa dos dirigentes da revolucqo do
Joazeiro.
O SR. MARTINS RODRIGUES: V. excia. faz obse-
quio de dizer qual o partido de que faqo parte.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO:- Do conservador.
O SR. MARTINS RODRIGUES: -Ndo faqo parte do
partido conservador.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO: -Sobre este ponto
conversaremos depois.
Sr. President, 6 precise restabelecerem-se os fac-






22

tos, que sao do dominio public, porque foram de
hontem, referentes a revoluqco de Joazeiro, cuja histo-
ria ainda nao se escreveu corn a imparcialidade e sere-
nidade precisas. Aquella revolucao nasceu de um erro
politico do nieu partido, que teve por origem a demis-
sao do padre Cicero do cargo de prefeito. Este acto
do entAo president do Estado, coronel Franco Rabel-
lo, que o praticou mal informado a respeito daquelle
reverendo sacerdote, veiu aggravar a situaa.o political
do Estado, porque a este tempo ja o partido situacio-
nista estava rompido com o general Pinheiro Machado,
chefe do P. R. C. e, pode-se dizer, do Presidente da
Republica. A revoluqco foi abertamente patrocinada pelo
governor federal, que tudo negou ao do Estado, cor-
tando-lhe todas as franquias e reconhecendo a dualida-
de de governor. Floro e padre Cicero agiram como
adversaries e por instinct de conservacao. Parece-me
que, diante dos factos que s.o de hontem, ninguem
pode p6r em duvida as minhas affirma6es, A interven-
clo federal decretada para o Ceard e as posteriores
condemnaq6es, pelo Supremo Tribunal, ai Nacao pagar
avultadas indemnizaqces por prejuizos occasionados pela
revolucao, s.o a prova mais evidence do que affirmo.
0 deputado Firmeza, em brilhantes razbes advoca-
cionaes na accAo que v. excia., sr. President, moveu
contra a Uni.o assim se express a respeito:
qtue se nao teriam levado a effeito si nao f6ra a atti-
tude em que se collocou o governor, ora expedindo ac-
tos que se traduziam como auxilio aos revoltosos, ora
deixando de praticar, corn a mesma significaqdo, outros
do seu dever.
,Os revoltosos declararam desde os primeiros dias
do movimento que deporiam as armas ao menor gesto
de reprovaqdo do governor federal.






23

por intermedio de um emissario, official do Exercito,
que para l1 enviou e que ouviu aquella declaraqdo do
proprio Chefe da sedigco.
da Republica, nao s6 por telegrammas que Ihe foram ex-
pedidos da regido conflagrada, por innumeras pessoas,
mas ainda por communicac6es do Presidente do Esta-
do, da Associacao Commercial e, ainda, verbalmente
do deputado cearense Moreira da Rocha, como tudo
esta provado dos autos.
#Ndo se move s. excia., apesar de ser regra, di-lo
Amaro Cavalcante, em taes casos, dirigir-se o gover-
no, antes da intervencao armada, em mensagem aos re-
voltosos, chamando-os A ordem e a obediencia As leis,
o que na America do Norte ha produzido os mais ex-
cellentes resultados.
Republica quando o do Estado legalmente o solicitou.
Omittiu, portanto, um dever e concorreu, deste modo,
para que progredisse o movimento revoltoso.
quella recusa, tanto mais quanto se nao acha regula-
mentado o art. 6.0 da ConstituicAo e a nenhuma forma-
lidade teria pois de ajustar-se o pedido, senao a de ser
dirigido pelo governor do Estado e no caso de pertur-
baqao da ordem e tranquilidade public.
A responsabilidade das pessoas juridicas decorre
do acto como da omissao.>
O SR. MARTINS RODRIGUES: Cabe A Uni.o a res-
ponsabilidade juridica.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO: Decorrente da
moral.
O SR. JOSE DE BORBA:-A revoluqao f'o foi,-.pro-
movida por Floro; foi promovida por todo povo oppri-
mido do Ceard.






24

O SR. MOREIRA DE AZEVEDO :-V. excia. 6 suspeito
para falar sobre a revolucao do Joazeiro.
O SR. JosE DE BORBA:-V. excia. tambem o 6.
O SR. MOREIRA DE AZEVEDO:- Entao calemo-nos
(risos).
O SR. JosE DE BORBA :- Entretanto, sahi da revo-
lugco corn as mros limpas, como provarei daqui.
O SR. MOREIRA DE AZEVEDO:-Nao ponho em du-
vida, absolutamente, a honestidade de v. excia.
O SR. OODOFREDO DE CASTRO: Mas, sr. Presi-
dente, provado que nao cabe ao dr. Floro a responsa-
bilidade da revolucqo de Joazeiro, bern como ji fiz sen-
tir a Assemblda, o dr. Floro nao sahiu dali du-
rante o movimento, e, tendo sido a leva de revoluciona-
rios commandada pelo. deputado Jos6 de Borba, pare-
ce-me que ruiram por terra as accusaqces que o illustre
deputado Martins Rodrigues lhe fez neste particular.
A honestidade do dr. Floro caracteriza-se ainda,
levando-se em conta o seu estado financeiro ao chegar
a esta capital, ap6s a revoluqco victoriosa, tendo tido
necessidade de recorrer a um amigo, pedindo-lhe em-
prestado a diminuta quantia de 1:000$000, como se ve-
rifica dessa carta dirigida ao sr. R. Ribas.
Como esta, sao todas as outras imputaq6es que
a mA f6 e a leviandade tem erguido na imprensa e na
tribune desta casa contra aquelle illustre representante
cearense no Congresso Federal e o venerando Patriar-
cha do Joazeiro.
E' lastimavel, sr. President, que se tenha dado
importancia t.o vultuosa a esta campanha, mantida por
uam paranoico, como e este sr. padre Macedo.
O SR. MARTINS RODRIOUES :-Protesto.
O SR. PRESIDENT :-Attenqao.
O SR. MARTINS RODRIOUES: V. excia pode fazer
escandalo sobre o que quiser, menos sobre o padre
Macedo. As attitudes de v. excia. sao bern conhecidas.






25

O SR. GODOFREDO DE CASTRO:- Perfeitamente, as
minhas attitudes sao bem conhecidas, porque nio cos-
tumo me acocorar por traz dos altares e das sachristias
e pela imprensa atacar a honra dos homes de bem.
O SR. MARTINS RODRIGUES:- (DA um aparte).
O SR. GODOFREDO DE CASTRO: 0 catholicis-
mo de hoje de s. excia. 6 As avessas, como foi o seu
atheismo de hontem (risos nas galerias).
O SR. PRESIDENT :-Attendo.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO:- Sr. President,
quanto as accusaq6es que o sr. Martins Rodrigues, na
irreverencia de suas attitudes, tentou fazer ao reverendo
padre Cicero, acoimando-o de fanatisador, penso jd
ter deixado este ponto perfeitamente explicado no met
ultimo discurso.
O SR. MARTINS RODRIoUES: Esta na consciencia
public.
O SR. GODOFREDO- DE CASTRO: Fanatismo 6 uma
f6rma de manifestac.o da solidariedade e do affect.
Assim como os politicos manifestam aos seus chefes,
por meio de mesuras, elogios e cumprimentos exagge-
rados a sua solidariedade, o home inculto procura fa-
zel-o object da sua admiraq.o e da sua amizade,
beijando-lhes as ma.os, como o fazem os que se acer-
cam do padre Cicero.
Fanatismo 6 tambem, e com accentuado exagge-
ro, essas contemplaq6es mysticas dos altares; sao as pro-
cissoes de beatos que, na propria capital, passeiam
pelas ruas; 6 esta humilhacao hypocrita dos que vao
buscar no confissionario o disfarce para a pritica de
suas verdadeiras intenq6es.
0 SR. MARTINS RODRIGUES:-V. excia. quer com-
parar a adoraqco sincera...
O SR. GODOFREDO DE CASTRO:-O fanatismo deve
ser encarado sob qualquer modalidade em que se possa
manifestar.






26

O SR. MARTINS RODRIGOUES:- V. excia. nao deve
duvidar das crencas dos outros.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO: Estou respon-
dendo a v. excia. da mesma f6rma corn que v. excia.
me tern falado.
O SR. MARTINS RODRIOUES:-Nao 6 verdade.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO : Porque v. excia.,
como todo aquelle que obedece a um sectarismo c6go,
como todos estes beatos d paisana (risos), costuma
trazer ao peito a cruz, symbol da f6, e na mdo o fa-
cho corn que Nero accendia as fogueiras de Roma (pal-
ma nas galerias).
O SR. MARTINS RODRIOUES:-Ou! ou! ou! he!
O SR. GODOFREDO DE CASTRO: Pode v. excia.
usar da f6rma que quiser, aparteando-me, porque maior
ridiculo nao pode v. excia. fazer nesta casa.
O SR. MARTINS RODRIGUES:-Esti direito, sou eu
quem esta fazendo ridiculous!
O SR. GODOFREDO DE CASTRO :- Sr. President, a
acq.o do padre Cicero tern sido de uma benemerencia
extraordinaria, nao s6 conseguindo, corn seus conselhos
paternaes, modificar o character dos que o procuram,
como tambem mandando-os para o trabalho fecundo
do s6lo, concorrendo, assim, de forma notavel para o
jesenvolvimento da agriculture na uberrima zona do
Cariry, que neste particular Ihe deve services inestima-
veis.
Assim, nem a imprensa adversaria de Joazeiro nem
o sr. Martins Rodrigues tem autoridade moral para con-
testar a illustre comitiva que foi recentemente a Joazei-
ro...
O SR. MARTINS RODRIGUES: Ja expliquei como
foi a ,camouflage...*
O SR. JORGE DA ROCHA: E' agora que estamos
todos com os olhos fechados!
O SR. GODOFREDO DE CASTRO:-...e da qual, alum























Membros da excursdo presidential a Joazeiro






27

do digno Presidente do Estado, fizeram parte as se-
guintes pessoas cujos nomes peco permissao para ler:
Dr. Rockert, director da "R. V. C.; deputados
Francisco Linhares e Jorge Moreira; drs. A. E. Gadelha,
Joio de Alencar Nogueira, Humberto Monte e Hugo
Rocha, engenheiros da Rede; capitao-tenente Pedro Bit-
tencourt, commandant da Escola de Aprendizes Mari-
nheiros; "dr. Oodofredo Maciel, prefeito de Fortaleza;
dr. En6as Vieira Carneiro, delegado fiscal; dr. Jos6
Pires de Carvalho, chefe de policia; dr. Manoel
Theophilo 0. de Oliveira, secretario da Fazenda;
deputados J. J. de Almeida Filho e Luiz Felip-
pe; dr. Carlos Ribeiro, medico; F. Saboya, redactor
do ,Jornal do Commercio*; Julio Ibiapina, director .do
-O Cearda; capitao F. Montenegro, ajudante de ordens
da Presidencia; deputado Antonio Botelho; dr. Pedro
Firmeza, director do 9Diario do Ceara; Cesar de Ma-
galhaes, redactor do cCorreio do Ceara.; Jos6 Meneleu
Filho, Vicente Linhares, dr. Carvalho Lima, coroneis An-
tonio Fiuza Pequeno, F. Hollanda e Augusto C. de
Araujo; Meton Gadelha, Albino Alves, representante da
,American Locomotiveo; R. Gomes de Mattos, advoga-
do; Luiz B. Vieira, pelo Ceari Illustrado'; Manoel Lei-
te, photograph, dr. Affonso V. Lima, operator da
,Aba Film>, e o sr. Luiz Sucupira, redactor do cO Nor-
deste>.
O SR. MARTINS RODRIGUES:-Este tambem esti en-
thusiasmado?
O SR. JORGE DA ROCHA:-Est5, sim, porque decla-
rou no trem, na presence de todos n6s, que n.o tinha
visto nada no Joazeiro que pudesse censurar.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO: Sr. President,
al6m de todas estas pessoas, 'de cuja sinceridade seria
infantil duvidar, temos a opinido sensata e insuspeita
do President do Estado que, nao satisfeito em mani-
festar a todos o que viu e que pensa sobre o Joazeiro






28

e sua gente, ao regressar a esta capital, transmittiu ao
padre Cicero o seguinte telegramma, ji conhecido da
Assembl6a, mas que passo a ler, a fim de que fique re-
gistrado nos Joazeiro
No meu proprio nome e no da comitiva que me
acompanhou, agradego penhorada mente a fidalga hospe-
dagem que v. revdma. nos proporcionou em nossa es-
tadia nessa prospera cidade.
Trouxemos de Joazeiro a mais lisonjeira impres-
s.o e da sua nobre e generosa gente a mais grata lem-
branqa pela fidalguia corn que nos acolheu.
Saudaq6es
DESEMBARGADOR MOREIRA
President do Estado."
Sr. President, nobre e generosa gente chamou s.
excia. aos habitantes daquella grande terra, annullando,
assim, no conceito dos homes bern intencionados as
calumnias vilissimas corn que a perversidade humana
tem querido tisnar uma consideravel parte da populagqo
do Estado. Nao p6de ter nobreza nem generosidade
quem vive na pritica do fanatismo e dos crimes
monstruosos! 0 que 6 certo, n.o podendo sofirer con-
testaqdo, 6 que, ou o que afffrmou o sr. President do
Estado 6 uma verdade, ou s. excia. 6 um leviano, um
insensato que n.o esti na altura do cargo, porque se
deixou atordoar corn os banquetes e as festas e, de-
pois, em document public, proclama a nobreza e ge-
nerosidade da mesma gente a que o sr. deputado Mar-
tins Rodrigues tem t.o impiedosamente atacado ou, fi-
nalmente, o accusador do Joazeiro tern falseado a ver-
dade e o journal onde pontifica tern dado guarida, em
suas columns, a accusacqes positivamente infames! A
verdade, entretanto, esti na affirmative do honrado Pre-
sidente do Estado. Conheqo s. excia. e considero-o

































Besembargador Jos6 Moreira da Rocha
PRESIDENT DO CEARA






29

criterioso e prudent para nao tomar attitudes como
esta que assumiu, sem estar perfeitamente seguro do
que publicamente affirmara.
Sr. President, ainda hoje o brilhante jornalista sr.
Julio Ibiapina, corn o criterio e o espirito de justiqa que
o caracterizam, no seu journal '0 CEARA'2, referindo-se
ao Joazeiro, assim se expressou: cNesta terra, de popula-
cao adventicia, sem tradiqces, sem apego ao meio, uma
administrator intelligence e esfor;ada, em um anno, o-
perou uma metamorphose de conto de fadas>.
O SR. MARTINS RODRIOUES: Ninguem nega que
ultimamente tem havido um certo progress no Joazeiro.
O SR. JORGE DA ROCHA: Certo progress, nao,
progress colossal!
O SR. PRESIDENTE :-Est, terminada a hora do ex-
pediente.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO:-Requeiro a v. exc.
que consulate a casa se consent seja adiada, por 30
minutes, a hora do expediente, para concluir as minhas
consideraqoes. (Posto em discussao o requerimento foi
approvado).
O SR. GODOFREDO DE CASTRO: Sr. President,
confesso-me grato pela attenqao que os meus colleges
acabam de me dispensar e quero crer que ella nao foi
feita tdo somente a minha humilde pessoa; foi, antes,
um culto i verdade que s. s. excias. quiseram tributar.
O SR. MARTINS RODRIGUES:-Foi em attenqao a v.
excia.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO:- Refiro-me A maio-
ria.
0 SR. MARTINS RODRIGUES:-V. excia. estA explo-
rando com uma coisa que nao devia explorer.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO:- Outro ponto in-
teressante, sr. President, 6 esta piedade que domina a
alma dos que se dizem catholicos, pelos bandidos, por
esses tarados, por individuos incapazes de regeneraqAo






30

e que constituem o maior perigo para a sociedade.
O SR. MARTINS RODRIGUES:-Mas merecem justiqa.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO :-Quem conhece, co-
mo n6s conhecemos, os factos que a imprensa diaria-
mente registra e que testemunho insuspeito faz che-
gar igualmente ao nosso conhecimento, factos estes que
caracterizam a hediondez de crimes monstruosos, prati-
cados contra a vida, a honra e a propriedade do serta-
nejo indefeso, por essas feras humans em quem uma
tara ancestral acorda a volupia de todos os delictos,
nao p6de experimentar esta piedade piegas, t.o somente
compativel corn os beatos e os contemplativos.
O SR. MARTINS RODRIOUES:-V. excia. acha que
se deve matar os bandidos ?
O SR. GODOFREDO DE CASTRO:- Como do orga-
nismo human se amputa o membro gangrenado, da
sociedade deve ser eliminado o element pernicioso que
perturba, violentamente, a sua harmonia, desorganizando
o trabalho, profanando lares e roubando vidas preciosas
Sr. President, o que merece o bandido que pro-
cura conseguir de sua presa a confissdo onde sdo guar-
dados os seus haveres, para roubal-os, infligindo-lhe
toda uma series de perversidades ineditas, chegando d
horripilante selvageria de, a ponta de faca, arrancar as
unhas de suas victims, conforme, na sua recent via-
gem ao Cariry o nosso college Pedro Firmeza teve op-
portunidade de ouvir a narrative, por pessoas de f6, de
um facto destes; e, depois, nao satisfeito com o roubo
das migalhas que o pobre lavrador penosamente conse-
guiu accumular, amarram-no e, na sua presence, estu-
pram-lhe as filhinhas indefesas! 0 que merecem, srs.,
estas feras humans? Prendel-as para sahirem mais tar-
de pela porta do ry ou pela fuga, e livres continuarem as suas perniciosas
facanhas? Demais, sr. President, a lei nao p6de ter sua
applicaqao rigorosamente igual em toda parte. Ella obe-






31

dece a diversos factors na sua execu.do. Como na ca-
pital ou centros civilizados, ella nao p6de ser applicada
nos logares afastados e de civilizac.o ainda rudimentar.
Assim, a repressao nao p6de ser rigorosamente appli-
cada em Joazeiro, por exemplo, como o 6 na capital do
Estado, onde ha seguranca do presidio, de onde o ban-
dido rararnente se p6de evadir.
No sertao, alem da facilidade com que contam
para a fuga, habitualmente se revoltam contra a escolta
que os conduz de uma cadeia para outra, resultando
dahi, dessa reacqao, a morte dos facinoras (aparte da
bancada conservadora).
O SR. GODOFREDO DE CASTRO:- Estou ouvindo
os apartes da bancada conservadora!...
O SR. MONTE ARRAES:-Ninguem esti inhibido de
dar apartes. Discutem-se pontos de vista doutrinarios,
em que podemos descordar de v. excia.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO:-Outro ponto, im-
portante nesta questdo do Joazeiro, que merece ser com-
mentado, sr. President, 6 o facto do illustre clero do
Crato nao ter dado apoio a campanha feita pelo padre
Macedo...
O SR. MARTINS RODRIGUES: V. excia. se esque-
ceu de Lampeao.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO:-Lampeao faz parte
do clero do Crato? (risos nas galerias e no recinto)
O SR. JORGE DA ROCHA:-O Presidente da Parahy-
ba, em telegramma ao Presidente deste Estado, disse que
Lampeao esta na Parahyba e nunca se approximou do
Ceard.
O SR. MARTINS RODRIGUES:-O President da Pa-
rahyba sabe onde elle esta, tanto quanto eu.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO:- V. excia com o
seu faro policial, dava um excellent .
Sr. President, o sr. bispo do Crato, o illustre d.
Quintino, guia spiritual do clero do Cariry, disse ca-






32

tegoricamente ao sr. desembargador Jose Moreira da
Rocha que o padre Macedo nao tinha razao na cam-
panha que estava movendo contra o Joazeiro.
O SR. MARTINS RODRIGUES:-JA declare que, por
mais respeitavel que seja a opiniao do bispo do Crato,
posso descordar della e at6 da do Papa, quando nao
seja em questao de f6.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO:-Disto v. excia. nao
me poderA nunca convencer (risos).
O SR. MARTINS RODRIGUES:-V. excia. nao sabe.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO:- Sr. President,
ninguem mais autorizado, revestido de mais direito
do que o Bispo do Crato e o illustre clero daquella
diocese, para darem opiniao a respeito dessa ingrata
campanha movida pela inveja, pelo despeito e pelo
interesse.
Nao podemos, absolutamente, deixar de dar cre-
dito a s. excia. reverendissima, que IA nao foi unica-
mente numa epoca de festas e de banquetes, porque s.
excia. Ia reside.
Sr. President, referindo-se as importancias que
os romeiros levam para Joazeiro e depositam nas maos
do seu Patriarcha, o sr. Martins Rodrigues disse...
O SR. MARTINS RODRIGUES: Eu disse que havia
uma commandita de exploragco.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO :- Perfeitamente,
foi isto mesmo que disse v. excia.; entretanto, o padre
Cicero nao accumulou fortune para si, para gozal-a;
mora em uma modest casa, corn conforto relative, e
nio passeia nos Estados nem na Europa.
O SR. MARTINS RODRIGUES: V. excia. devia pre-
cisar as allus6es.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO: NMo estou fa-
zendo allus6es, falo em these. Estou dizendo que o
padre Cicero nao desfructa os haveres que the dao
comr sua pessoa...







33

O SR. MARTINS RODRIOUES: V. excia. 6 tio
cheio de m. f6, que suppuz houvesse feito alguma
allusdo.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO- Como todo pecca-
dor, nao posso ter a boa f6 que tem a angelical pes-
soa de v. excia. (risos).
O padre Cicero, sr. President, pretend deixar os
seus haveres aos Salesianos, corn a condiqao de funda-
rem um collegio no Joazeiro e, para isto, jd est. con-
struindo um grande predio.
O SR. MONTE ARRAES: Disso tenho perfeito co-
nhecimento.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO: Permitta-me, sr.
President, que eu ainda uma vez occupe a attenq.o da
Assembl6a, referindo-me A ordem mantida no Joazeiro;
e o faqo porque, ainda hontem, o dr. Chefe de Policia
autorizou-me a dizer da tribune que encontrou mais or-
dem em Joazeiro do que em fortaleza.
O SR. MARTINS RODRIGUES:- Seria engracado en-
contrar Joazeiro em desordem.
O SR. JORGE DA ROCHA: -O sr. deputado Almei-
da Filho foi a Joazeiro e, ao chegar a Fortaleza, foi
roubado (risos).
O SR. GODOFREDO DE CASTRO: A ordem no Joa-
zeiro nao 6 somente em tempo de festa, o que seria
at6 um contrasenso! E disso p6de dar testemunho o
deputado Almeida Filho que, interpellando o seu digno
filho, que ali reside como engenheiro da construcc.o da
Estrada de Ferro, dr. Jos6 Augusto, sobre as denuncias
do padre Macedo, sua senhoria affirmou que a ordem
ali naquella cidade era inalteravel a qualquer tempo.
Assim, diante de tanta prova contra a insensata
campanha movida contra o dr. Floro e padre Cicero,
parece-me que ella obedeceu mais a uma questao eco-
nomica...







Conhecia V. ao D6ptdo. Godofredo de Castro? Foi 81e do Joaseiro?
Afirma 81e a ordem civic do Joaseiro a do que o Pe. Cicero
sempre pro curou a ordem. Pode dar alguns exemplos da tal
actuag;o do Padrinho?






34

O SR. MARTINS RODRIGUES: E' unicamente de or-
dem economic.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO:-Porque as im-
portancias que para Ia se canalizam sao applicadas Id
mesmo, grande parte em soccorros aos necessitados e
em outros fins de ordem philantropica, como ja disse,
na construccqo e manutenqao ali de um collegio sa-
lesiano.
O SR. MONTE ARRAES:- Tem o meu testemunho
absolute.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO:- Sr. President, e
porque o falado dinheiro do Joazeiro nao tern o desti-
no que term o de Canindd, que la n.o 6 todo ap-
plicado...
O SR. MARTINS RODRIGUES:- Queira v. excia. ex-
plicar o destino que tmr os dinheiros de Canind6; duvido
que v. excia. prove o mau destino que se tenha dado.
O SR. OODOFREDO DE CASTRO:- V. excia. deixe
acabar de expressar o meu pensamento, e permitta-me
que diga, entire parenthese, que nao tenho medo de ar-
reganhos. Eu nao estou affirmando qual o destino que
se da As collectas feitas no cofre de Canind6, si sao
bem ou mal applicadas, e isto porque nao quero incor-
rer no mesmo erro de v. excia. que s6 tern feito accu-
sacoes sem provas, que s6 tem feito arguiq6es que se
perdem no vento.
Digo apenas, e porque 6 voz public, que as im-
portancias arrecadadas em Canind6 n.o sao todas des-
pendidas IA.
O SR. MARTINS RODRIGUES: Sao applicadas ali
mesmo.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO: Ha dois padres
na Assembl6a que podem informar.
O SR. JosE QUINDERI:- Sao applicadas todas ali.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO:- V. excia. prove e
eu me convencerei.






35

O SR. JosE QUINDERE: Ha ali dois collegios de
meninos e meninas.
O SR. MARTINS RODRIGUES:-V. excia. affirma uma
falsidade.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO: -N.o estou affir-
mando, porque nao sou como v. excia. que garante as
coisas corn urn pasmoso desassombro, sem ter certeza,
sem poder provar; porque n.o sou teimoso como v.
excia. que esta a repetir aqui histories ji muitas vezes
pulverizadas. Toda gente diz isto, isto 6, que nao s.o
applicadas em Canind6 todas as esmolas dos romeiros,
e si todo o mundo esti enganado, v. excia. prove que
eu me convencerei.
O SR. SALAZAR DA CUNHA:- Todo o mundo nao
p6de affirmar isto.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO: Sr. President, jai
vae terminando a hora da prorogagco que generosa-
mente a casa me concede, mas, antes de sentar-me, per-
mitta-me v. excia. que eu lance daqui um repto ao sr.
Martins Rodrigues, o que fago, por entender que nao
deve ter assento nesta casa um deputado mentiroso ou
um deputado leviano. E este r6pto consiste no com-
promisso que assume perante v. excia., a Assembl6a e
o Povo de minha terra de renunciar o mandate, desde
que fique provado que menti na defesa que venho fa-
zendo a Joazeiro e aos seus dirigentes. Outrotanto, de-
vera fazer s. excia., verificado que foi leviano, fazendo
accusag6es sem poder proval-as.
O SR. MARTINS RODRIGUES: De Canind6 tambem?
O SR. GODOFREDO DE CASTRO:- Nao estou falan-
do de Canind6, porque a respeito nada affirmei, nada
garanti, como fez v. excia., corn reiaq.o a Joazeiro.
O SR. Jost QUINDER: De Canind6 correra pe-
rigo.
O SB. GODOFREDO DE CASTRO: Assim, sr. Presi-
sidente, lembro a v. excia. a nomeacqo de um tribunal






36

que nos julgue, cujos membros devem ser nomeados
pelo Presidente do Estado, pessoa insuspeita ao depu-
tado Martins Rodrigues, pois gragas Aquelle Presidente,
devemos a collaborato nesta casa das luzes e do ta-
lento de s. excia.

















Discurso pronunciado na sessao do dia 22 de
Setembro de 1925

(TREPLICA AO SR. MARTINS RODRIGUES)

0 SR. GODOFREDO DE CASTRO:-Sr. President, 6
lamentavel que, apesar da elevacao de vistas com que
procurei encarar o caso do Joazeiro, o meu contender
o tivesse desviado para o terreno ingrato das retalia-
5es pessoaes e, adulterando o meu pensamento, ten-
tasse levar a discussao para um ponto inteiramente dif-
ferente do que ella se propunha, attribuindo-me inten-
cges que nao tive, pensamentos intimos que s6 a Deus
6 dado conhecer, porque para Elle nao ha hypocrisia
que se possa occultar, ainda mesmo no disfarce de
uma santidade ensaiada na beatifica contemplacgo dos
altares.
Assim foi que, referindo-se a Canind6, tentou meu
contender adulterar as minhas palavras e as minhas in-
tenq es, porque, quando aqui disse que a questdo de
Joazeiro prendia-se a uma quest.o economic, quiz ape-
nas frisar que as importancias resultantes das esmolas
dos romeiros nao eram desviadas para outra parte ou
para outro firn que n.o fossem de ordem puramente
philantropica e isto porque, nao estando o padre Cice-
ro sujeito A discipline da igreja, nao consentiria que para
outra freguezia ou para o Bispado ou Arcebispado fos-
sem levadas aquellas importancias, como succede no






38

Caninde, que estA sob a jurisdiccqo ecclesiastica, sujei-
to As suas leis e As determinaq.es dos dirigentes da
igreja cearense. Sobre a mA ou boa applicaqgo que se
da ao product das esmolas, nao entrei em apreciacqes,
e tao somente porque, sobre isto, me falta exacto co-
nhecimento e, sem provas, nao quero, como fez o meu
illustre college, accusar por sport.
Assim como succede corn o Estado, que arrecada
os products das collectorias do interior e os faz reco-
lher ao Thesouro, o Arcebispo p6de recolher, e 6 natu-
ral que o faqa, aos cofres do Arcebispado, o product
das esmolas angariadas pelos cofres de S. Francisco de
Canind6. Joazeiro assemelha-se, neste particular, a um
municipio autonomy.
Outro nao foi o meu pensamento, e se friso bem
este ponto, e t.o somente porque, como ji tenho va-
rias vezes feito sentir desta tribune, nao quero, nem
devo, por nio ser digno e compativel corn o meu fei-
tio moral, fazer accusag6es, sem as poder immediata-
mente provar.
0 meu illustre contender e alguns colleges apro-
veitaram-se do incident para censurar uma attitude que
nao tive, e prestar homenagens ao sr. Arcebispo de
Fortaleza, cuja benemerencia ou defeitos nao me inte-
ressam. Preciso, entretanto, affirmar ao meu illustre con-
tendor e A Casa, que si tivesse provas authenticas da
ma applicacqo dos products dos cofres de Caninde,
nao vacillaria um s6 instant em demonstral-as cla-
ramente.
Sr. President, al6m desse expediente, indignifican-
te, de que lanqou mao o accusador de Joazeiro, revelando,
em absolute, falta de compostura parlamentar e inteiro
alheiamento As leis da educaqco domestic, atirou-me
insultos grosseiros e pilherias, incompativeis corn o res-
peito que todos os homes de sociedade se devem mu-
tuamente, insultos que nao revido, porque prefiro dei-






39

xal-os sepultados no tapete desta casa. Dito isto, pas-
semos a refutaqdo ao meu contender, A defesa que ve-
nho fazendo do dr. Floro Bartholomeu e ao revdmo.
padre Cicero.
Nao pretendia voltar mais sobre este assumpto, e
isto porque julgo ter demonstrado, A saciedade, a po-
breza das accusacoes feitas Aquelles dignos propulsores
do progress do Estado; mas, como b meu antagonista
disse que se felicitava por ter conseguido esmagar as
minhas assers6es a respeito, cabe-me voltar ao assump-
to, lendo A casa documents irrefutaveis que fardo des-
apparecer o arrojo do accusador de Joazeiro. E si at6
agora tinha poupado A Assembl6a o incommodo de ou-
vir a leitura desses documents, foi porque, sendo todos
do dominio public, desnecessario seria a sua leitura
nesta casa, nao f6ra a impertinencia da accusaqao, que
assim me fornece a opportunidade de deixar estes do-
cumentos figurando nos Insistindo, o meu contender, nos suppostos as-
sassinios a que attribue connivencia ao dr. Floro, es-
queceu-se de que aquelle illustre representante cearense
no Congress Federal, em telegramma transmittido ao
sr. Vicente Linhares, deixou desassombradamente cahir
os pontos nos ii neste sentido. 0 telegramma a que
me refiro 6 o seguinte:
,Joazeiro, 30 5 25. Vicente Linhares CearA.
Recebi seu ultimo telegramma. As ultimas accusacoes a
mim feitas por esse padre Macedo, denunciando-me
como autor de numerosas mortes, nao s.o' mais sdrias
que as que jA foram feitas, porquanto, pelo menos, so-
bre ellas o governor actual e a populaqao sertaneja sabem
tanto ou mais que eu qual o numero e quaes as victi-
mas, quaes os seus autores e mandantes e causes das
mesmas mortes. Nestas condiqes, o abalo da opiniao
public desapparecerA, recorrendo ella a fontes de infor-
maq6es seguras, que ora aponto. E como p6de, meu






40


amigo, a opiniafo public estar tao abalada pelos ata-
ques calumniosos desse padre, que ella conheceu ago-
ra, quando 6 essa mesma opiniao pub!ica que me co-
nhece e ja tern lido e ouvido em cabaes defesas contra
factos da mesma natureza, a ponto de ficar t.o revolta-
da porque eu tive a altivez de mandar processar crimi-
nalmente meu aggressor? Essa mesma opiniao public
devia tei comprehendido que lancei mao do unico meio
que, por ser legal, descobriril a verdade. S6 o facto
desse padre, ap6s tanta a'rrogancia pelo. O Nordeste,
pelo pulpito, egrejas e associaqSes religiosas, recorrer,
corn apoio no clero, aos meios mais extremos de com-
pressao moral para fugir a acqco da lei, basta para a
opiniao public fazer o verdadeiro juizo do character
desse padre, o valor de seus ataques. A'6m disso, se
eu tivesse receio de uma devassa na minha vida, nao
me animaria a chamal-o a juizo, creia-me, meu caro
amigo, este padre que 6 capaz dos papeis mais repulsivos.
A causa de sua feroz attitude 6 a inveja do conceito
do meu nome, e tambem pelo despeito de n.o ter con-
seguido se impor na confianqa do padre Cicero, na
direcqco political e na administraqao do municipio. Des-
illudido da pretensio, seguiu para ahi visando dois fins:
desmoralizar-me e provocar, servindo de testa de ferro,
a renovacao da nefanda perseguiqao religiosa a Joazeiro
e padre Cicero. N.o estamos enganados e nem mais
seremos pegados de surpresa. Abraqos. Floro Bartho-
lomeu>.
Neste telegramma, sr. President, o dr. Floro diz
que todo mundo sabe o numero das mortes de bandi-
dos praticadas, e affirma que o proprio governor dellas
teve conhecimento. Tendo sido este telegramma larga-
mente divulgado pela imprensa, era natural que o de-
putado accusador do dr. Floro tivesse antes tido a co-
ragem de, desta tribune, accusar A policia, a quem cabe
a culpa, pois era ella quem conduzia os criminosos que






41

foram assassinados. No entanto, s. excia. preferiu atacar
o lado mais fraco, e deixou a policia em paz. 0 que
s. excia. devia ter feito era, desassombradamente, no
cumprimento de um dos deveres do mandate de que
esti investtdo, requerer, por intermedio da mesa, infor-
macoes ao governor, ao Presidente do Estado, relativa-
mente ao facto de que se faz mencao no telegramma
que acabei de ler, publicado por dois jornaes ,desta ca-
pital. Si s. excia. tivesse adoptado este procedimento,
recommendar-se-ia, collocando-se numa situaa.o de s6
accusar, corn provas, se ellas fossem concludentes, e
nao como vemn invariavelmente fazendo.
Nao pretendia, sr. President, insistir a respeito da
morte dos facinoras que infestam os nossos sert6es,
entravando a sua evoluq.o moral e economic, mas e
opportuno demonstrar a v. excia. e a casa, nio ser de
hoje a eliminacqo dos bandidos no nordeste, pois isto
se tern praticado desde o tempo do antigo regimen.
Em 1845, si nao me trahe a me'noria, era pre-
sidente do Ceard o padre senador Jos6 Martiniano
de Alencar. As constantes incursbes de bandidos nos
sert6es da nossa e das provincias vizinhas, obrigaram
os governor de Parahyba, Rio Orande do Norte e Cea-
ri a accordar num convenio, como agora se tern feito,
corn o fin de dar combat ao cangaceirismo. Daqui
partiu um official de policia commandando uma forca e
conduzindo uma carta de prego, escripta pelo presiden-
te Alencar. Este official, ao chegar a JardiPK, encontrou-
se com os outros commandantes dos destacamentos das
provincias convencionadas, corn os quaes, em acqio
conjunta, teria de dar caga e capture aos criminosos.
Era necessario, por6m, a abertura da carta que levava,
pois nella estavam as ordens do governor. Isto fez e,
corn grande surpresa do official cearense, nella encon-
trou contidas apenas as seguintes palavras: Nesta Pro-
vincia nao existem jaulas para firas. Era a determina-






42

cAo irrevogavel de que os bandidos deveriam ser fusi-
lados. 0 resultado, sr. President, deste saneamento,
nao se fez esperar, e a Provincia passou largos annos
livre dessas fWras, e o trabalho honrado do sertanejo
nao foi, por dilatado tempo, perturbado pelo bacamarte as-
sassino do bandoleiro.
O SR, ODORICO DE MORAES: Quem era o presi-
dente da Provincia nesse tempo?...
O SR. GODOFREDO DE CASTRO:-O padre senador
Jos6 Martiniano de Alencar.
Sr. President, o dr. Floro Bartholomeu tem se-
rena a sua consciencia, nao o podendo attingir essas
accusaq6es levianas e impertinentes que Ihe tem sido
feitas. Ao seu lado esta a opiniao insuspeita, e respeita-
vel, dos dignos magistrados da zona do Cariry, que
lhe dirigiram cartas, repellindo os ataques e estigmati-
zando as calumnias de que tem sido victim.
O dr. Joaquim Olympio, integro juiz de direito
do Crato, assim se express, em carta que escreveu ao
dr. Floro:
(Illmo. amo. dr. Floro B. da Costa.
Cordiaes saudacges.
qTenho present a sua carta de 2 do corrente
que respond, e o que faQo corn a imparcialidade que
prende todos os meus actos. Satisfazendo, pois, a sua
solicitaqao, cumpre-me affirmar que durante todo o tem-
po em que esse termo, hoje comarca, pertenceu a esta do
Crato,Uda qual sou juiz de direito, ha 11 annos, nunca ti-
ve ensejo sindo de louvar a sua acrco sempre prompta,
energica e moralizadora, em prol do bemestar e tran-
quillidade dessa terra que, corn tanto extremo, tornou-
se o grande bemfeitor, gosando ella, por isto, hoje da
maior paz que se possa desejar.
cQuanto ao progress, asseio e ernbellezamento
dessa mesma cidade, hoje uma das mais importantes,
sin.o a mais important do interior do Estado, a v. so-






43

mente sao devidos, por que si nao fossem os seus es-
forcos nada se teria feito, embora nao faltasse a boa
vontade daquelles que podiam ajudal-o pecuniariamente.
(A sua attitude para commigo, durante o long
period de tempo que, na qualidade de juiz de direito, des-
ta comarca, jurisdicionei esse termo, foi a mais leal e
cavalheiresca, collocando-se sempre ao lado da justice,
toda vez que esta necessitava de seus serviqos e apoio.
,Penso ter assim, e de consciencia, respondido,
embora englobadamente, os itens da sua carta, de cuja
resposta autorizo-o a fazer o uso que Ihe convier.
cCom apreqo e estima, am.o e obro.
J. Olympio da Rocha.i
Tenho ainda em maos, sr. President, um artigo
do dr. Juvencio de Sant'anna, nao menos integro juiz
de direito de Joazeiro, em que s. s. protest contra os
ataques feitos pelo <(O Nordeste> aos dirigentes de Joa-
zeiro e a sua pessoa, porque este magistrado nao quiz
endossar a desleal campanha movida contra o dr. Floro.
Parece-me, sr. President, que nao ha necessidade
de demorar em consideraq6es relatives a pulverizaqao
que tenho feito das impensadas allegac6es contra o dr.
Floro Bartholomeu, porquanto nao acredito que mais
alguem duvide de que lado esta a verdade.
O SR. PRESIDENTE:- Lembro ao nobre deputado
que esta esgotada a hora do expediente.
O SR. OODOFREDO DE CASTRO: -Peqo a v. excia.
que pergunte a Casa se me proroga o tempo por 30
min utos.
O SR. PRESIDENTE:-Approvado o requerimento.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO:- Ainda uma vez
me confesso summamente grato pela benevolencia dos
meus illustres colleges.
Passemos, agora, a um outro ponto da discussed.
O illustre accusador de Joazeiro protestou corn
vehemencia quando affirmei, na ultima vez que occupei






44

a tribune, ser o padre Macedo um paranoico, e que,
por isto, as suas accusaq6es nao deviam ser tomadas a
serio pela opinion public.
A paranoiaa, ou antes , como querem
diversos auctores, 6 um delirio systematizado que se
assesta em um degenerado, estabelecendo-se o delirio
justamente por causa de uma id6a falsa.
A palavra paranoia significa pensar errado, pensar
mal. Tudo quanto o doente pensa 6 absurdo, porque
n.o tern base solida; entretanto, faz corn perfeicqo a
associaqco de id6as.
O meio, a profissao, fomenta a evolugqo do ca-
racter do paranoico.
Elle se julga de grande merecimento e acha que
todos devem se submetter aos seus caprichos e dese-
jos.
Na vida pritica o seu maior caracteristico 6 a vo-
lubilidade.
A paranoia 6 sempre chronic; nao ha cura para
ella.
E' o amollecimento cerebral que se process no
doente, em consequencia da excitaqdo continue da
zona fronto-esphenoidal.
Segundo Magnan, esta molestia tem 4 periods
perfeitamente claros :
1.o, period de hesitacao ou de ruminaq.o in-
telectual;
2.0, period de perseguiqao;
3.o, period de grandeza;
4.0, period de demencia.
O SR. JORGE DE SOUZA:-E' preciso saber si a de-
finicqo esta certa ou errada.
O SR. ODORICO DE MORAES:-Estd certa.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO: As attitudes do
padre Macedo, as innumeras incoherencias e os ridicu-
los formidaveis a que se tern prestado, bern como a






45

mania de perseguiqao que nio o deixa, prova exhube-
rantemente tratar-se de um perfeito caso clinic.
Demonstrarei A casa o que venho affirmando,
para nao incorrer nos mesmos erros de meu illustre
adversario. Padre Macedo, certo dia teve a id6a de fazer
uma romaria 4 Barbalha, nao sei por que motivo de or-
dem penitente, e para aquella cidade se dirigiu a frente
de mais de 15 mil pessoas que o acompanharam, para
nao o desgostar, porque nesse tempo era elle vigario
de Joazeiro. Partiu conduzindo um verdadeiro exercito
e, para se fazer acreditar corn o mesmo poder e as
mesmas virtudes do padre Cicero, conduziu o cajado
daquelle Patriarcha. Em logar do chap6o sacerdotal, le-
vava na cabega um kepi de music, e na cintura, pre-
sas a correames, diversas cabanas contend mantimen-
tos para a viagem. Fez mais: durante toda a caminhada
tocou num bombo que a banda de music Ihe empres-
tara.
Sr. President, 6 verdadeiramente authentic, e 6
conhecida e contada em todo o valle do Cariry, a narra-
gao que acabo de fazer, corn espanto desta casa.
Um poeta matuto, certamente enthusiasmado
corn a marcialidade do seu pastor, improvisou estas
pitorescas quadrinhas, que peqo permissao para ler:

,<0 reverendo vigario
Nessa peregrinaqao
Calqado de alpercatas
A p6 com um cajado na mao
Tanto por n6s se interessa
Corn um quepe na cabeqa
E um bellissimo cinturio.

Assim foi que se seguiu
Da cidade de Joazeiro
Em romaria a S. Antonio






46

De Barbalha padroeiro,
Nessa peregrinagio
Todos em boa uniAo,
Jdi vi pessoal ordeiro!

E o nosso digno vigario
Quando a missa terminou
0 vigario de Barbalha
Para o almoqo o convidou,
Por6m elle agradeceu
E corn n6s mesmo comeu
Que satisfeito ficou ~.

O SR. ODORICO DE MORAES: -ISSO e verso?!...
O SR. RUBENS MONTE :-E' e 6 verdade... (Apartes).
O SR. GODOFREDO DE CASTRO: E' verdade.
Nao fica nisto, srs. deputados, a mania desse po-
bre moqo que se quer, a muque, tornar celebre. Ainda ha
pouco, de Sant'Anna do Cariry, transmittiu ao dr. Floro
o seguinte telegramma:
,Dr. Floro-Joazeiro-De Sant'anna, 43-32--26--11.
Para prevenir informacqes falsas tendenciosas par-
ticipo v. s. apregoei leilao hontem aqui havendo Bolo pa-
dre Macedo, Padre Correia e nao houve pordm bolo dr.
Floro.Ninguem ficou escandalisado. Sauda65es-PADRE
MACEDO>.
O SR. JORGE DE SOUZA:-E' authentic o telegram-
ma?
O SR. GODOFREDO DE CASTRO:-O telegramma traz
o carimbo da estagdo de Joazeiro, cujo telegraphista 6
Pelusio de Macedo, pae do padre Macedo.
Mando o telegramma a v. excia., para que o veja.
O SR. JORGE DE SOUZA :-Jd 0 Vi.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO:-Veja-o novamente.
O SR. JORGE DE SOUZA:-Nao e precise.






















~'J=


Padre Macedo a frente de cerca de quinze mil pessOas se dirige em
romaria a S. Antonio de Barbalha






47

O SR. GODOFREDO DE CASTRO:-Sinto, sr. Presi-
dente, sinto com certo escrupulo ter necessidade de tra-
zer para a Assembl6a esta prova cabal do estado men-
tal desse illustre moqo, e, si o fiz, fui a isto forqado
pelas attitudes que tem tomado nesta casa o imperti-
nente accusador do dr. Floro. Apesar de nao ser ca-
tholico, tenho o culto da caridade e procuro seguir os
bellissimos ensinamentos que legou a humanidade o
sereno philosophy da Galil6a, na sua luminosa peregri-
naqco pela terra, razdo por que hesitei em trazer a pu-
blicidade da tribune a prova do que affirmei, n.o s6 sob
o ponto de vista scientific, como sob o. ponto de vis-
ta moral.
Sr. President, o meu illustre contender, no seu
discurso, insistiu na sabbatina, respeito ao fanatismo do
Joazeiro. Meu illustre college esqueceu-se de que fana-
tismo quiz semear ali o seu amigo padre Macedo,
quando fez a celebre romaria a que me referi.
Disse s. excia. que as procissoes e as romarias as
igrejas nao podiam ser encaradas como fanatismo. No
entanto, srs. deputados, o que preferis?-este fanatismo
por um home que, de bragos abertos, acolhe paternal-
mente os necessitados, os que padecem os infortunios
da vida e os aconselha a rumarem em busca do cam-
po, da agriculture, do trabalho, concorrendo -assim de
f6rma notavel para a grandeza economic do Ceara, ou
esta adoroqco paga a idolos e imagens de esculptura?
(Palmas nas galerias).
O SR. PRESIDENTE-As galerias nao se podem ma-
nifestar.
DIVERSOS SRS. DEPUTADOS:-Protesto...
O SR. GODOFREDO DE CASTRO: Sinr, sr. Presi-
dente, nAo 6 censuravel o fanatismo praticado pelos
ignorantes, que procuram, pela f6rma que a sua com-
prehensao Ihes permitted, manifestar a sua gratiddo e o
seur affect aos que lhes fazem beneficios. Fanatismo






48

censuravel 6 o insufflado por pessoas cultas e intelli-
gentes, por esses jesuitas de frack, que mais culpados
se tornam porque deviam, corn a sua intelligencia e ar-
gucia, guiar esses pobres de espirito, em vez de rumo
As igrejas, rumo as escolas, rumo ao campo, rumo ao
trabalho (palmas nas galerias).
O SR. PRESIDENTE:- As galerias nao se podem
manifestar.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO: -N.o desejava to-
car em certos pontos melindrosos, mas a isto sou for-
qado, porque talvez seja a ultima vez que fale sobre o
assumpto...
UM SR. DEPUTADO:-Talvez?!...
O SR. GODOFREDO DE CASTRO:- Talvez, sim, por-
que, si me replicarem, voltarei.
Preciso trazer ao conhecimento da casa e do
Ceara inteiro, as incoherencias do meu antagonista, o
illustre accusador do dr. Floro Bartholomeu, a respeito
de seus sentiments e attitudes political. S. excia., em
resposta ao meu ultimo discurso, affirmou nao ser po-
litico, quando eu o suppunha conservador. Entretanto,
talvez Aquella mesma hora, ja tivesse assignado urn te-
legramma cognominado de politico pelo clornal do
Commercio>, e dirigido ao ministry Francisco SA, em
que se delegavam a este poderes para representar o
Ceara junto ao future Presidente da Republica.
O SR. MONTE ARRAES: -Politico, na accepqao mais
elevada da palavra; n.o no sentido corriqueiro em que
se toma esta expresso.
O SR. MARTINS RODRIGUES :-E' o unico ponto do
discurso de v. excia. que you responder.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO:-O que mais sali-
enta nesse telegramma, sr. President, 6 a incoherencia
do gratuito accusador do Joazeiro, pelo facto de se de-
clarar solidario corn a candidatura de Washington Luiz,
quando 6 sabido por toda a Assembl6a que, ao votar-






49

mos uma moqAo aquelle candidate, s. excia. deixou a
cadeira que occupava de 1.0 secretario e retirou-se do
recinto, declarando-se depois, na presenqa de various col-
legas nossos-dos quaes lembro o nome do deputado
Costa Souza,-que sahira porque nao estava de accor-
do corn essa candidatura.
O SR. COSTA SOUZA:-Posso dar o meu teste-
munho.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO: Si trouxe este
facto a Assembl6a, sr. President, foi t.o somente para
mostrar mais esta contradiq.o em que cahiu o meu no-
bre college, porque ji deu outras demonstrates na sua
curta carreira political.
Ha cerca de um anno, mais ou menos, s. excia.,
em discurso pronunciado no ,Centro Artistico,, atacou
fortemente os conchavos politicos. Entretanto, pouco
tempo ap6s, s. excia nao se dedignou de ter entrada
nesta Assembl6a pela porta de um conchavo ou cam-
balacho e, o qye 6 peor, trazido pela complacencia do
sr. President do Estado, de cuja palavra honrada e a-
catada, nao vacilla em duvidar, insistindo nas affrmativas
calumniosas sobre a mesma terra e os mesmos ho-
mens a quem aquelle Presidente nao se canqa de tecer
os mais encomiasticos elogios (apoiados). Nao falo a
esmo. Ainda hontem, o accusador do Joazeiro,
bem reflectidamente, porque trouxe notas escriptas, dis-
se que o dinheiro do Canind6 nao era gasto, como o
do Joazeiro, em festas, recepo6es e banquetes, verdadei-
ras ocamouflagesD, s6 elogiadas pelos que disto se a-
proveitaram.
No entanto, todo o mundo sabe que, quem rece-
beu festas, recepcqes e banquetes, ha poucos dias, na-
quella cidade, foram o sr. President do Estado e sua
illustre comitiva. 0 egregio malsinador de Joa-
zeiro nao podia ser mais incoherente e ingrato, referin-
do-se tao aggressivamente ao sr. desembargador Morei-






50

ra da Rocha, a quem deve a sua cadeira de deputado.
O SR. CESAR CALS:-E v. excia. a quem a deve?
O SR. GODOFREDO DE CASTRO:-Ao meu partido.
O SR. CESAR CALS:-Qual 6 o partido de v. excia.?
O SR. GODOFREDO DE CASTRO:-O 0 democrat, cujo
chefe 6 o senador Jodo Thom6.
O SR. CESAR CALS: V. excia. declarou que nao
pertencia ao partido democrat.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO: -Nunca disse isso.
O que disse foi que, se porventura houvesse de future
qualquer desintelligencia entire o meu grande amigo dr.
Sylvio Gentio, .a quem muito devo na minha vida poli-
tica, e o partido a que estou filiado, preferiria renunciar
o mandate, a abandonar este mesmo partido.
O SR. COSTA SOUZA:-E' verdade o que v. excia.
affirma.
O SR. PEDRO FIRMEZA:-Posso dar o meu testemunho
O SR. JORGE DE SOUZA: -V. excia. nao fala agora
nos passaportes do rabellismo.
O SR. COSTA SOUZA:-O partido democrat honra-
se corn a collaboraqao do illustre deputado Godofredo
de Castro.
O SR. MOREIRA DE AZEVEDO: Collaboraqao util,
leal e dedicada.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO:-Sou muito grato
aos meus dignos colleges.
Sr. President, penso vir demonstrando sufficiente-
mente as incoherencias do deputado inimigo do Joazei-
ro, e, por isto, adianto-me na refutaqAo que Ihe venho
fazendo.
Referiu-se s. excia., no seu discurso de hon-
tem, ao calqamento do Joazeiro, dizendo que a popula-
qao concorria para a sua construcq.o, e que se esta-
vain dispendendo rios de dinheiro corn o mesmo. Ora,
srs. deputados, nao 6, como deveis saber, com poucas
dezenas de contos de reis que se pode levar avante






51

uma obra colossal, como 6 o servico de pavimentacAo
de uma cidade de cerca de 8 mil casas! Alm disto,
trata-se de um serviqo caprichosamente feito, e que
p6de rivalizar corn o calhamento de Fortaleza, como
p6de informar o nobre college Jorge da Rocha, que 6
engenheiro, e ld esteve recentemente.
O SR. JORGE DA ROCHA:-O calaamento de Joazei-
ro 6 o melhor que tenho visto aqui no Estado.
O SR. CEZAR CALS:-Calqamento ou orqamento?
O SR. JORGE DA ROCHA:-Calcamento.
O SR. OODOFREDO DE CASTRO: -Uma obra deste
vulto seria impossivel levar avante sem o auxilio parti-
cular. E isto nao e novidade, porque aqui mesmo ha
uma lei que obriga os proprietarios de casas beneficia-
das por calcamento novo, a custeiarem uma parte da
respective construcqco.
O SR. JORGE DA ROCHA; 0 calqamento de Joa-
zeiro 6 todo de meio-fio, como 6 o de Fortaleza.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO: Referindo-se a
este assumpto, o illustre reporter> do ,Ceara Illustra-
do, o sr. Luiz Vieira, diz o seguinte naquella revista:
,Estou certo de que, si em vez desse jornalista
(elle se refere ao sr. Luiz Sucupira, reporter, do 40
Nordeste,), tivesse nos acompanhado o dr. Martins Ro-
drigues, suas impresses teriam sido communicadas ao
public, ansioso como este vive de ouvir o que pen-
sam gregos e troianos. Si fosse o dr. Martins Rodri-
gues, estamos certos, produziria uma corrigenda naquel-
le artigo do padre Macedo sobre o orcamento da pre-
feitura de Joazeiro. Incluiria, na despesa do municipio,
cerca de 300 contos dispendidos, a olhos vistos, corn
o fio de pedra, a remodelacso, as indemniza6;es e o
calcamento realizados pelo governoro phenomenon que
na realidade, 6 um phenomenon no Ceard, onde nao
se v6 cousa igual em outro municipiov.
Penso, sr. President, ter respondido contentadora-








mente a esta parte do discurso do meu illustre conten-
dor, a quem a cegueira da parcialidade nao consentiu
que fossem registradas no seu journal as impresses do
reporters d'O Nordeste>, colhidas na visit que fez a
Joazeiro, em companhia da comitiva presidential, o qual
chegou a declarar na presenqa de todos, no emeetingD
feito no trem, que nao tinha encontrado naquella cidade
motivo algum digno de censura, e, muito menos, qual-
quer signal do falado cangaceirismo e que lamentava
nao ter forqa moral para fazer orientagAo a -respeito de Joazeiro.
Sr. President, a pallida defesa que venho de fa-
zer, nesta casa, dos meus dignos amigos dr. Floro Bar-
tholomeu e revdmo. padre Cicero, provocou a colera
incontida do orgao que se diz representante da mansa
e serena doutrina do meigo Nazareno, daquelle que a-
conselhava a humildade e o perdao, e que, palmilhando
as escaldantes .esfradas da Palestina, ia de aldeia em al-
deia pregando entire os homes o amor e a fraternida-
de, bases fundamientaes do grande edificio social que o
seu espirito mistico e sonhador idealizara. Este orgao,
raivoso e odiento, procurou arrastar-me ao ridiculo, in-
sultou-me e teve a semceremonia de recortmendar-me
ao odio dos eleitores catholicos.
No entanto, sr. President, este journal nao tern
autoridade moral para censurar a ninguem, mormente
sob o aspect religioso, porque, no anno passado,
quando um dos seus redactores ainda nao tinha assen-
to nesta casa, nao vacillou em atacar sordidamente a
Assembl6a, provocando esta sua irreverencia a attitude
digna e louvavel de monsenhor Salazar da Cunha, sa-
cerdote veneravel e figure preeminente no seio do il-
lustre clero e da sociedade cearense, o qual pronunci-
ou, na sessdo de 24 de Outubro de 1924, um discurso
vehemente, cujos trechos peqo a v.excia. permissio para
ler, porque nao 6 conhecido de todos os nossos colle-
































Monsenhor Salazar da Cunha
DEPUTADO ESTADOAL







53

gas, e muito menos do povo, por nao ter sido divul-
gado:

Quero, sr. President, desaggravar a dignidade desta As-
sembl6a, cujo esplendor tenho obrigaiao de zelar, como tambem
todos os meus nobres colleges. Quero desaggravar, digo, quero
fazer um protest solenne e energico contra os insultos baixos
que um journal da terra, que traz o nome de KO Nordeste, tem
langado contra esta Assembl6a (muito bem).
Nao posso, sr. President, deixar de carpir nenias repassa-
das de sentimentalismo ao contemplar a conduct irregular, a con-
ducta, posso dizer muito bern, a conduct nefanda do journal AO
Nordeste, para corn esta Assemblea.
Nao posso igualmente, sr. President, deixar de patentear a
minha indignaqao, que 6 santa, porque 6 filha de sentiments no-
bres, contra o proceder do aO NordesteD.

Eu, sr. President, desejava examiner corn minudencia os
trez ultimos artigos langados nas paginas do esta casa, mas nao o farei, nao s6 para nao roubar o tempo pre-
cioso desta Assembla, como tambem por me achar adoentado;
direi apenas, sr. President, que o project 66, que diz respeito a taxa do subsidio dos deputados, o
fez corn alteracao, afastando-se da verdade.
Mas. sr. President, elle nao podia deixar de assim fa--r,
porque 6 elle conhecido como o inimigo da verdade.
O SR. SOARES BULCAO: V. excia. diz uma verdade.
O SR. SALAZAR DA CUNHA: Elle ahi declara, sr. Presi-
dente, que a Assembl6a elevou 50 0/0 o subsidio para deputados
e, ainda mais, que este acto foi feito em nosso favor, dos depu-
tados actuaes, quando nao e verdade; elle deve saber, e, na rea-
lidade o sabe, esse subsidio foi fixado para os deputados vindoi-
ros, e nao para n6s (apoiados), e, portanto, nada ha de in-
decoroso.

conclue a sua injuriosa publicacqo corn as
palavras seguintes: Maior patriotism, srs.....
Que audacia, sr. President!
Impatriotico, sr. President, 6 aquelle journal, que 6 domina-
do pelo espirito de partido, esse monstro tdo prejudicial a socie-
dade, a religion e A political.
Impatriotico, sr. President, e aquelle journal cujas paginas,







54

muitas vezes vem eivadas de subtil veneno e de principios que
nio podem preparar a sociedade para a sua necessaria re-
generaqao.
Impatriotico, sr. President, 6 aquelle journal que, soberbo,
emitte sua opiniao e quer que seja acceita como urn dogma
(apoiados); e ai daquelle que nio acceita a sua theoria, embora
seja erronea, embora nio seja a expressio da verdade!
Impatriotico, sr. President, 6 ainda aquelle journal que di-
zendo-se catholico e defensor da religiao de Jesus Christo, nio
diz a verdade, diz o que senate e o que nio senate, louva e infa-
ma, approval e desapprova, reprova e desreprova, conforme as
paix6es que o dominam na occasido; isto nao 6 da nossa santa
religiao, sr. President.
Ramo peco da imprensa 6 aquelle journal, que tem trahido
a missAo nobre, civilizadora e regeneradora na boa impren-
sa (muito bem).
Talvez, sr. President, eu tenha admirado a esta Assembl6a,
aos meus nobres colleges, de nio ter neste meu protest usado
antes de docura que do rigor; mas eu espero que meus nobres
colleges se persuadam que esta minha aspereza 6 da verdade,
nio 6 minha. Esta verdade, sr. President, 6 mansa, 6 humilde, 6
tranquilla; mas quando se v6 impugnada e atacada com audacia,
levanta-se, inflamma-se e torna-se indigaada. Assim, esta minha in-
dignaq~o 6 mais da verdade do que minha. Contudo peco per-
missao i verdade para que eu me aproprie dessa indignaqio, tor-
nando-a propria, porque 6 uma indignaq~o santa, produzida pelos
sentiments santos.
Eu vou concluir, sr. President, lancando o meu protest
-vibrante, corn toda a energia de minha alma, contra os insultos
que o journal <0 Nordeste tern atirado contra esta Assembl6a. E
lanqando este protest, sr. President, eu dirijo ao cO Nordeste,
as mesmas palavras que o Divino Salvador dirigiu a satanaz que
o insultava-VADE RETRO (muito bern, muito bem).
(Revisto pelo orador).
O SR. JORGE DE SOUZA: -Ndo parece a linguagem
do padre Salazar; nao serd apocrypho?
O SR. GODOFREDO DE CASTRO: Esti nos -An-
naes> desta casa, e me foi fornecido pelo sr. 1.0 Se-
cretario.
O SR. JORGE DE SOUZA:- Estou s6 perguntando...
DIVERSOS SRS. DEPUTADOS: Todos n6s ouvimos
o padre Salazar pronunciar esse discurso.






55

0 SR. JosE DE BORBA: A opinion do padre 6 hoje
outra.
O SR. ANTONIO BOTELHO: -O O Nordeste, o
mesmo.
O SR. JORGE DA ROCHA: -N No se trata do cO
Nordeste, e sim de deputado Martins Rodrigues.
0 SR. OODOFREDO DE CASTRO: Sr. President, a
hora ji vae adeantada, you terminar, requerendo, por6m,
antes a v. excia. que consulate a casa se consent se-
jam transcripts nos Annaes a entrevista que o pa-
dre Cicero concede ao illustre jornalista Julio Ibiapina,
publicada no ,O Cearda, de 20 do corrente, bern como
um artigo que o illustre dr. Joao Nogueira publicou no
bre a personalidade do abnegado Patriarcha do Joazei-
ro, para que o CearA de amanha, quando sobre este il-
lustre e bondoso cearense, corn o decorrer do tempo
se poder fazer a indefectivel justiqa historic, relembre
com veneraqao e carinho o seu nome e a sua obra, im-
mortalizando-o, n.o nas esculpturas das praqas, por-
que o bronze e o marmore sao desleaes, apaga-os, mui-
tas vezes, a mao impiedosa do tempo, mas sim no
recondito de noss'alma, que o tempo nao consome,
porque d'ali o transmittiremos aos nossos filhos, re-
commendando-o is geracoes porvindouras.
(Muito bem. Palmas nas galerias. 0 orador foi
muito cumprimentado).

















Discurso pronunciado na sessio do dia 23 de
Setembro de 1925

(ULTIMA RESPOSTA AO SR. MARTINS RODRI-
GUES) (*)

O SR. GODOFREDO DE CASTRO: Sr. President,
n1o r-e causou a menor surpresa a justificag.o que
acaba Je tentar fazer o orador que me precedeu na tri-
buna, porque ja estou habituado A pobreza dos argu-
mentos que emprega, todas as vezes que tem necessi-
dade de justificar as suas audaciosas affirmativas.
N.o podia esperar, portanto, do sr. Martins Rodri-
gues outra conduct.
Assim, s. excia. long de desfazer as accusaq6es
que Ihe fiz desta tribune, amparadas em factos publicos
e incontestaveis contra o seu incoherente procedimento
politico, long disso, s. excia. confessou, ponto por pon-
to, as minhas assercoes e confirmou haver assignado o
jA celebre telegramma de solidariedade ao ministry
Francisco SA. Quiz, por6ni, justificar o seu procedimen-
to, allegando ndo ser politico aquelle telegramma!
Ora, sr. President, querer negar os propositos
genuinamente politicos que determinaram a transmissao
do despacho a que, me refiro, 6 trabalho superior aos
fracos recursos mentaes de que dispie s. excia. 0 tele-
(*) 0 orador nao voltou i tribune por nao ter proseguido
na discuss.o o sr. Martins Rodrigues.






57

gramma comeqa com as seguintes palavras: da Assembl6a Legislativa do Estado, etc.,. Quem empre-
ga a palavra maioria, em document desta ordem,
deixa transparecer, claro como a luz meridiana, o pen-
samento politico, o proposito partidario que determinou
a attitude assumida pelos seus signatarios.
O SR. COSTA SouzA:- Basta usar das palavras
maioria da Assembl6a, para ser considerado politico.
O SR. JORGE DE SOUZA: E' ou nao 6 a maioria?
O SR. PRESIDENTE:-Attenqio.
O SR. OODOFREDO DE CASTRO:-0O eJornal do
Commercio>, orgao do partido conservador, referindo-
se Aquelle telegramma, chamou-o eminentemente po-
litico; e o seria effectivamente, si nao tivesse as-
signaturas de politicos do quilate de quem vem
negando esta qualidade ao document que as-
signou. Trata-se, pois, nao de um telegramma emi-
nentemente politico, como disse o alludido orgao,
mas sim disfarqada e manhosamente politico, feito para
obter assignaturas dos covardes, dos que n.o tendo co-
ragem para assumir attitudes desasso'nbradas, sendo
por indole affeitos A hypocrisia e A perfidia, preferem fi-
car no meio termo, ou antes nessa situaq.o commoda,
por6m indesejavel, de ser e nao ser.
No entanto, sr. President, a verdade insophisma-
vel 6 que o sr. Martins Rodrigues, dando sua assigna-
tura a esse despacho politico, atirou-se em cheio nos
braqos do acciolysmo, que tem como chefe o sr. mi-
nistro Francisco SA, e ainda depois disso, tern a sem-
ceremonia, a ousadia, de vir dizer a Assembl6a que nao
assignou telegramma politico...
O SR. MARTINS RODRIGUES: E eu digo a v. excia.
que si eu assignei foi porque quiz.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO: Entdo nao negue
que assignou um telegramma politico, tornando-se, por
isto, adepto da facqco que o inspirou; nio venha para






58

ci julgando que esta Assembl6a 6 Deus, que v. excia.
procura enganar.
O SR. JORGE DE SOUZA:- V. excia. quasi assignou
tambem.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO:- Falta a v. excia.
autoridade moral para affirmal-o. V. excia. esti dizendo
uma inverdade.
No seu discurso, o deputado Martins Rodrigues
nao p6de negar, igualmente, ter em discurso public
censurado os conchavos politicos, conforme eu havia
affirmado, bern como atacara impiedosamente esta As-
sembl6a, por occasiao do encerramento das aulas da
Academia, que entao frequentava.
S. excia. nada desfez do que eu disse.
Ficaram, portanto, de p6 todas as minhas accusa-
qbes, isto 6, s. excia. que estigmatisara os conchavos
politicos e a propria Assembl6a, para ella entrou por
effeito de um conchavo, conduzido pela m.o amiga do
President do Estado; assignou um telegramma politico
depois de ter affirmado, da tribune desta casa, nao per-
tencer a nenhuma facqao partidaria do Estado, affirmati-
va esta que ainda tenta fazer como si estivesse falando
a imbecis.
E sr. President, o sr. Martins Rodrigues, para des-
fazer o pessimo effeito que a sua conduct tern produ-
zido no conceito public, tentou estabelecer paralello
corn as minhas attitudes political e as suas. No entan-
to, sendo s. excia. um egresso dos coeiros, um politico
de hontem, em uma semana, em tres dias, em 24 ho-
ras, assumiu diversas attitudes, commettendo uma longa
series de incoherencias (muitos apartes).
O SR. PRESIDENT: Attenq.o.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO:-Sr. President,
toda gente sabe que pertenci ao antigo partido conser-
vador, chefiado pelo general Thomaz Cavalcanti, e
quando este partido rompeu corn o entao Presidente do






59

Estado, indo para o ostracismo, fiquei firme no meu
posto, assumindo, leal e abnegadamente, nesta Assem-
bl6a a orientacqo da campanha parlamentar, e da tribu-
na fiz a critical do governor, cujo chefe, insufflado pelas
intrigas dos que haviam desertado das nossas fileiras,
hostilizou aquelle partido. Nunca disso fiz mysterio, isto
6, a minha accqo foi public, porque nao costumo fa-
zer, como os pusillanimes que nao tem coragem civica
nem moral para, a peito descoberto e com a leal som-
branceiria dos que cumprem religiosamente o seu de-
ver, assumir a responsabilidade integral das suas con-
vicq es.
O SR. CESAR CALS: V. excia., portanto, ji per-
tenceu ao partido conservador.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO: V. excia. 6 o me-
nos competent para apartear-me neste sentido, porque
v. excia. tem peregrinado por todos os partidos.
O SR. JORGE DE SOUZA:- Deante daquelle folheto
v. excia. nao tem desculpas.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO: Aquillo me hon-
ra. Esti alli esteriotypada a cor'agem civica e a lealdade
do seu autor.
Sr.Presidente, na defesa dos interesses do partido a que
estava filiado, nunca vacillei e s6 o abandonei quando verifi-
quei, como todo o Ceard sabe, que estavamos sendo trahi-
dos pelos chefes que, no Rio de Janeiro, negociavam o
reconhecimento do dr. Justiniano de Serpa, a nossa re-
velia, vendendo-nos como Jos6 do Egypto foi vendido
por seus irmAos. Certo do conchavo que se iniciava no
Rio, pedi ao dr. Fernandes Tavora para cabographar ao
nosso candidate, dr. Belisario Tavora, e a resposta foi
a confirmacqo da trahiqao de que aquelle illustre cea-
rense estava sendo victim. Tomei, pois, sr. President,
a unica attitude cabivel no moment. Vinguei-me, inuti-
lizando o accord que, uma vez ultimado, sacrificaria
inevitavelmente aos correligionarios que tinham, como






60

eu, mais se salientado na campanha. E eu, cujo estado
de pobreza todo mundo sabe, pois cheguei a vender a
ultima cadeira de minha casa, mantive-me firme ao lado
dos que eu julgara capazes de comprehender, de res-
peitar o sacrificio supremo que vinha fazendo o mais
humilde dos seus correligionarios, porem dos mais sin-
ceros e desinteressados.
Sr. President, para provar que nao trahi o candi-
dato do meu partido, ap6s a minha adhesao 6 candida-
tura Serpa, delle recebi, juntamente corn o deputado
Botelho, que teve igual procedimento, urn telegramma
de apoio, que 6 a minha maior defesa (*).
O SR. MOREIRA DE AZEVEDO:- Esta 6 que 6 a
historic.
O SR. GODOFREDO DE CASTRO: Sr. President,
nao e digno de censuras attitudes como as que tenho
assumido, e que sao perfeitamente justificaveis.
Vergonhoso 6 lanar-se mao de subterfugios e es-
capatorias, todas as vezes que se 6 chamado ao cum-
primento de um dever politico. Indignidade 6 se tirar
proveito dos partidos sern querer, dos seus actos, ter a
natural responsabilidade. Ademais, no Ceari ninguem
tern escapado de ir e vir na onda dos conchavos e accor-
dos politicos. Todos os partidos se tem mesclado em
dados moments historicos, e nao 6 desdouro para
ninguem esses entendimentos, quando sao leaes e vi-
sam o interesse public. E si n.o estou affirmando
uma verdade, aquelle que, neste sentido, se julgar limpo
de culpaj, atire a primeira pedra. (Muito bern, o orador
6 vivamente cumprimentado).

(*) Deputado Godofredo de Castro-Fortaleza.
Profunda gratid.o, estensiva Botelho, nobilitando liqAo civis-
mo aos que dominados de injustificavel fraqueza moral celebra-
ram conchavo a que fui sempre contrario e revel.
Affectuoso abrago
(a) BELISARIO TAVORA>

















"A obra do odio se

desfaz"

ENTREVISTA CONCEDIDA PELO PADRE CICERO ROMAo BAP-
TISTA AO JORNALISTA J. DE MATTOS IBIAPINA, DI-
RECTOR DO '0 CEARA, CUJA INCLUSKO, NOS *AN-
NAES, DA ASSEMBLE, FOI REQUERIDA NA SESSAO
DE 22 DE SETEMBRO DE 1925.
'Antes de entrar no objective da sua pergunta,
permitta-me que Ihe diga, meu caro sr. Ibiapina, que
sinto grande constrangimento em falar sobre este as-
sumpto.
0 padre Macedo 6 o filho mais velho de um ca-
sal das minhas relag6es de amizade, velha amizade trans-
mittida por heranqa dos seus maiores e que sempre
cultivei corn dedicaqAo e carinho.
Assim sendo, nomeado elle vigario desta parochia,
ap6s ter feito, segundo me informaram, urn brilhante
curso no Collegio Pio Americano e um nao menos bri-
lhante professorado no Seminario de Sao Paulo, era
natural que muito esperasse eu das suas luzes, do seu
saber, da sua amizade e, sobretudo, da sua apregoada
piedade, em favor do meu querido Joazeiro, do seu
povo e, para que nao dizel-o, da minha pessoa tam-
bem.







Pergintas a Sr. Odicilio de Figueiredo

1. Na entrevista concedida pelo Pe. Cicero ao Sr. Julio de
Matos de Ibiapina, redactor d' 0 Ceari, no 22 de septembro de
1925, e a qual foi requeirida enteiramnente nos Annais da
Legistlative Estadoal da mesma data, 0 pe. Cicero declarou
que Pe. Manoel Macedo tornou-se amigo

"duma certa rodinha de pessoas que ja foram causa de intrigas
pequenas e grande desgostos de outros vigarios, cujo afastamento
do Joazeiro tanta celeuma produzira, attribuindo-se, com revoltante
injustiga a minha pessoa, os motives desses afastamentos.






62

Neste presupposto, apresentei-o ao povo joazeiren-
se como um present do c6o por Deus, para me auxi-
liar na minha velhice, na ardua e important tarefa da
salvaqgo das almas.
Pedia, insistia, exigia que todos o estimassem mais
do que a mim mesmo, tributando-lhe o respeito, acata-
mento e consideraqAo de que o julguei merecedor.
Depressa, estas minhas recommendacqes se espa-
Iharam por entire esta grande populaa.o e a actividade
do padre Macedo encontrava franco apoio a todas as
realizac.es imaginadas pelo seu espirito desordenado e
irrequieto.
E, nas proporces de suas iniciativas e esforqos,
que muito realce deram ao culto religioso na freguezia,
crescia a estima do povo a sua pessoa.
A minha satisfacao era immensa. Comecei, entre-
tanto, a notar que o padre Macedo ia tornando de
eleicgo a sua amizade uma certa rodinha de pess6as
que ja foram causa de intrigas pequenas e grandes
desgostos de outros vigarios, cujo afastamento do Joa-
zeiro tanta celeuma produzira, attribuindo-se, corn re-
voltante injustiqa a minha pessoa, os motives desses
afastamentos. Notei tambem que, quanto mais se amiu-
davam as suas palestras nessa rodinha, que se tornou,
accentuadamente, das suas predilecq6es, mais elle se
distanciava de mim e, principalmente, do dr. Floro.
Comprehendi que a campanha de insidias se des-
envolvia e tive conhecimento de que, nas suas prati-
cas, ji comeqava a dirigir-me indirectas.
Mas, nem por isto, me amofinei nem deixei de
procural-o, como si nada houvera.
Deste modo, continuaram as cousas at6 que che-
garam as festas de Dezembro ultimo. Por occasion
dessas festas, 6 usual, aqui pelo sertio, venderem as
prefeituras o que se chama privilegio dos jogos licitos.
Como as outras, a de Joazeiro vendeu este privilegio,





63

cuja importancia foi, immediatamente, applicada no pa-
gamento de material e operarios das obras de melho-
ramento da PraQa Alexandrino de Alencar.
Oasto o dinheiro e quando viu que o cofre mu-
nicipal se achava inteiramente vasio e sem possibili-
dades para indemnizar os compradores dos ditos jo-
gos, abriu o padre Macedo uma tremenda campanha
contra os mesmos e, sem nenhum previo entendimento
corn os poderes locaes, concitou o povo para acabar
corn esses jogos, violentamente.
Temendo que se d6sse uma lucta, procurei enten-
der-me corn elle, que me tratou grosseiramente, apesar
de lhe ter promettido esforqar-me para que fosse satis-
feita sua vontade.
Dias depois, quando ji constava estar resolvido
a retirar-se do Joazeiro, nao obstante terem os com-
pradores dos jogos, para attenderem ao meu desejo,
deliberado renunciar ao direito que lhes assistia, fui,
em companhia do dr. Juvencio Santanna, juiz de di-
reito, procurar demovel-o daquella resolugao, no que,
alids, nada conseguimos.
Pelo contrario, noticiando-lhe que nao se jogaria
mais, tive o desprazer de receber esta resposta: -Ndo
fico satisfeito de se acabarem os jogos por meios con-
ciliatorios; s6 me' contentaria si fossem acabados pela
policia>.
Quanto d sahida, disse que ninguem o demove-
ria desse proposito; que estava muito magoado com-
migo, pois eu o teria offendido profundamente.
Affirmei-lhe que me nao accusava a consciencia
de tel-o offendido, nunca: si, por6m, involuntariamente,
o offendera, Ihe pedia perd.o. Respondeu-me que,
como padre, Ihe cumpria perdoar-me; a magoa, entre-
tanto, lhe ficaria no coracqo. Disse mais se achar in-
formado de que se Ihe attribuiam pensamentos de im-
miscuir-se na political local (cousa em que ate ento






64

ninguem falara) e pensava que, em qualquer difficulda-
de em que se achasse, eu estivesse ao seu lado, con-
tra quem quer que fosse; que, por6m, deste modo de
pensar se desvanecera, ultimamente, porque, no caso
dos jogos, em vez de collocar-me ao seu lado, como
esperava, me collocara ao lado do dr. Floro. Deveria,
portanto, retirar-se daqui porque, em outra difficuldade
maior, estaria sozinho.
E' convenient dizer-se que, no caso dos jogos, o
dr. Floro 6 que havia negociado o imposto, como
mandatario meu, esta claro, porque sou o prefeito.
Dahi, allegar o padre Macedo que me colloquei ao lado
deste meu amigo, contra elle, quando apenas me recu-
sei de agir como me exigira, contra urn acto praticado
por delegacAo minha. Mas o seu pensamento era o de
desmoralizar o dr. Floro, por meu intermedio, para
abalar a amizade que nos prende. Por isto, nao se con-
formou corn a minha promessa de resolver o caso
conciliatoriamente.
E qual seria a outra difficuldade maior em que
poderia se encontrar, si me julgasse ao seu lado?
Achei de bern, meu amigo, dar-lhe estas explicaqes,
como resposta a sua pergunta, porque sciente de tudo
quanto occorreu, prefiro que o public ajuize, por si
mesmo, dos verdadeiros motivos que determinaram o
rompimento do padre Macedo commigo.
0 que nao ha duvida, por6m, 6 que elle deixou
transparecer, de modo evidence, no correr dessa celebre
campanha que se chamou cJoazeiro em F6co,, a pre-
tensdo descabida de derribar o situacionismo deste mu-
nicipio. Dahi se conclue que, desde os primeiros inci-
dentes, alimentavam-lhe as attitudes, sempre irritantes e
hostis, um pensamento occulto que bern poderia ser o
de chefiar tambem politicamente esta localidade.
Isto se explica, ainda mais, porque todos os seus
odios se voltaram contra o dr. Floro, a quem, ha mui-







tos annos, entreguei a direcqAo political do Joazeiro e
que tern sido, innegavelmente, a muralha de resistencia a
todas as avangadas contra n6s dirigidas.
Pensou elle, talvez, que inutilizando o dr. Floro,
facilmente se apoderaria desta grande terra.
0 pretexto procurado para o rompimento, ou seja
a attitude assumida contra os jogos, foi de sorte pue-
ril que nem ao menos occultou os verdadeiros intuitos
que o animavam. Basta dizer-se que o seu olhar e zelo
religiosos s6 descobriram este vicio aqui, e ainda as-
sim, depois que resolvera se incompatibilizar comnosco,
porque, no anno anterior, andara, de banca em banca
de j6go, pedindo esmolas para a igreja. Igualmente, em-
quanto lhe nao chegou a ambiqao do mando, elle nun-
ca enxergou a tyrannia, o despotismo, os crimes e as
deshonestidades administrativas que tanto o inflammaram,
agora, a sua sensibilidade de apostolo e de patriota.
Sobre este ponto basta; creio que at6 ja me excedi das
normas que sempre orientaram a minha conduct para
corn os que me offended.
E' costume meu nunca maldizel-os, porque sempre
os perd6o, sem me ficar magoa no coraqao.
Relativamente A outra pergunta, isto 6, qual a
attitude do clero desta regiqo, sabe-se geralmente que
esta attitude foi da mais absolute reserve.
Nem o exmo. sr. bispo d. Quintino, nem um s6
dos padres da nossa Diocese deu palavra sobre o as-
sumpto. Attribio que assim procederam porque, tra-
tando-se de caso As portas da s6de do Bispado, ti-
nham inteiro conhecimento de tudo quanto aqui occor-
reu e, consequentemente, da injustiqa da campanha.
Infelizmente, esta important circumstancia nao serviu
de aviso ao clero de Fortaleza e de outras Dioce-
ses que tomaram attitude inteiramente contraria, ac-
cendendo os odios pessoaes do padre Macedo,
estimulando-o para uma campanha de injuries e ca-







lumnias, de improbidades e mentiras. Esta campanha
ruiu por terra, justamente como eu previra, de co-
meqo, quando affirmei ao dr. Gomes de Mattos, em
longo telegramma que lhe dirigi, que a cobra do odio
se desfaz, por si mesma, pelo natural descredito em
que sempre cahe.