Misticismo e fanatismo no Nordeste.

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Material Information

Title:
Misticismo e fanatismo no Nordeste.
Physical Description:
39 p.
Language:
Portuguese
Creator:
Benevides, Aldenor Jayme Alencar.
Publisher:
Autor
Place of Publication:
Fortaleza, Ceara

Notes

General Note:
4th edition.

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
All rights reserved by the source institution.
System ID:
AA00000291:00001

Full Text



































S3.a E D I AO
=


o aConferencia pronunciada pelo Professor
g ALDENOR JAYME ALENCAR BENEVIDES
W *no audit6rio da Escola Industrial de
_o Taguatinga, Distrito Federal.








ft inboplasa
i nl stria de borrach s a plstlles s/a.






FABRICANTE
DAS
SANDALIAS









RUA SAO JOSE N. 1790

PBX 529 E 725

FONE 637

JUAZEIRO DO NORTE CEARA












v- B EABERTURA



Meus amigos e conhecidos, principalmente
os que mais de perto comigo privam, sdo tes-
temunhas do interesse por mim sempre ali-
mentado no sentido de colaborar na divulga-
gdo dos assuntos nordestinos quando, justa-
mente, mais se acentuam as suas grandes
perspectives de progress e industrializagdo.
Antes de Brasilia, Paulo Afonso e Boa Espe-
ranga o nordestino vinha tendo uma visdo li-
mitada e pouco animadora das suas reivindi-
cag6es imediatas, sobretudo os que vivem nas
cidades menos favorecidas pelos poderes pu-
blicos, desprovidas, como sabemos, dos mini-
mos recursos para a solugdo dos seus proble-
mas. Levado pelas circunstdncias o nordes-
tino viu-se obrigado a imigrar para outras
terras com o fito de melhor dar expansdo ao






seu espirito dindmico e empreendedor. As-
sim, foi no Rio, de Janeiro onde ele conheceu
uma nova modalidade de vida, em Sdo Paulo
onde ele se aperfeigoou nas fdbricas, viu no
Parana a lavourI mecanizada e em Brasilia
se acostumou a comprar nos supermercados
ao lado de politicos sem aquela arrogdncia ou
aparencia de semi-deuses de outrora. 0 nor-
destino vem se tornado um home mais ex-
perimentado porque estd compreendendo e se
convencendo de que deve dizer que o Nordeste
nunca foi ruim e que certas circunstdncias
o fizeram merecedor de injustas critics. As
possibilidades de hoje e maiores ainda para o
future, unidas as experiencias adquiridas fora
dos seus Estados, constituem uma razdo certa
para o nordestino aumentar seu grande de-
sejo de trabalhar pelo engrandecimento do
Brasil.


A. J. A. B.







INTRODUQAO


Ndo se trata de uma apresentagdo. Final, o que
poderiaimos acrescentar a urn trabalho, que como este,
chega a sua 3a. edigdo ? Antes, 6 uma adesdo. E feita
com entusiasmo. "Misticismo e Fanatismo no Nordeste"
6 um relato criterioso e muito bem elaborado, cuja inica
pretensdo ndo 6 outra sendo a divulgaogdo dos reais e
significativos valores histdricos e sociol6gicos do Nor-
deste e sua gente. Gente aqui representada por dois ti-
pos inconfundiveis: o Mistico e o Cangaceiro. Se repa-
rar-mos bem, sdo reag6es distintas a uma fnica frente de
injustigaLs sociais: o Fandtico, que premido pelas cir-
cunstdncias do seu meio ambiente outra coisa ndo en-
contra sendo a resignagdo, a oragdo o fanatismo e o
Cangaceiro, que vivendo os mesmos problems, assume
posigdo contrdria & anterior al vinganga, na tentative
de sobrepuid-los pela arma, pela violdncia.
Aldenor Benevides encontra-se entire aqudles que en-
caram a questdo cor muito interesse e a ela se dedicam
cor afinco. Sustenta umca tese, inddita, segundo a qual
o problema, muito em breve, estard vinculado a uma nova
cidncia a Cangaceirologia, no ramo da Sociologia -
no dizer do seu amigo poetal e escritor paraibano Paulo
Nunes Batista. Ndo sei avaliar, em profundidade, a va-
lidade desta tese. Contudo, valho-me da identidade ve-
rificada no relato simple e atraente dos fatos e dos
tipos destes nossos Sertdes Nordestinos, nemr por um
instant, esquecidos do author. Certamente, por isto 6 que
me propus a introduzi-lo. Cm isfa o, plenamente
justificada. Noi N ''

JuAzeiro do Norte, Natal de 1972






ESCRITORIO TECNICO CONTABIL
CARLOS DE ARAUJO ALVES
Escritas comerciais e fiscais Contratos -
Distratos Reavaliagdo de Ativo -
Orientagdo Fiscal
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JUAZEIRO DO NORTE CEARA


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JUAZEIRO DO NORTE CEARA


Escrit6rio CR AT O
de IVO CRATO CIDADE
Contabilidade Org. e Registro de Firmas Lei
dos 2/3 Fundo de Garantia C.G.C. I.N.P.S.
Pis Declarasgo de Rendas (Pessoa Fisica e
Juridica
RUA JOSE DE ALENCAR N.0 26
FONE: 816 -CRATO-CEARA






APRESENTA(AO PELO Prof. PEDRO MARINHO
DE OLIVEIRA, DIRECTOR DA ESCOLA
INDUSTRIAL DE TAGUATINGA

Meus prezados amigos, alunos e visitantes aqui pre-
sentes. Dando prosseguimento as comemorag6es da Se-
mana do Folclore, temos o prazer de receber honrados
nesta noite o Sr. Aldenor J. Alencar Benevides, profundo
conhecedor do fol'clore do Nordeste, estudioso assiduo
das raz6es que originaram as lutas dos cangaceiros e da
missEo s6cio-religiosa exercida pelo Pe. Cicero Romao
Batista. Quem 6 pernambucano, como eu, quem 6 estu-
dioso das coisas brasileiras, aqu6les que se interessam
pelas coisas vivas da nacionalidade, devem ter algum
conhecimento do que foi o Pe. Cicero Romao Batista e
a sua acgo em JuAzeiro do Norte, no 'Ceard. Temos
tamb6m a grande satisfagpo de receber aqui um dos
maiores conhecedores do folcl6re national e principal-
mente do Nordeste, que 6 o Sr. Eurico Cordeiro Rocha,
alto funciondrio do Banco do Brasil em Brasilia, que
aqui se encontra para nos ilustrar com sua presenga e
alguns apartes a respeito da palestra de hoje, que serd
das mais interessantes e, tenho certeza, ir6 despertar
alegria e desejo de maiores conhecimentos por parte dos
presents. Temos ainda outra personalidade que veio
acompanhando o Sr. Aldenor Benevides, que 6 o Sr. JoHo
Gomes Feitosa, que foi membro component de volantes
da policia pernambucana no tempo do Major Optato
Gueiros, um dos homes que mais combateram Lampiio
durante a d6cada de trinta. Ira ser interessante ouvi-lo,
porque eu mesmo, interessado que sou, se bem como um
artist sempre me interessei pela parte que toca ao fol-
clore national, a musical, mas mesmo assim tive inter6sse
em conhecer a hist6ria de Lampido, sua vida, etc., para
poder escrever uma obra musical nela baseada, coisa que
ja por duas v6zes tentei fazer. Desta forma, acho que






estamos de parab6ns por tao feliz iniciativa do Professor
Otavio Fanalli, por ter tido a lembranca de convidar o
Sr. Aldenor Benevides, que eu nao conhecia pessoalmen-
te, mas de nome, pois, o poeta repentista Paul'o Nunes
Batista, de Andpolis, sempre me fal'ou ao seu respeito.
Eu j6 fiz algumas palestras a respeito da obra que es-
crevi e do folclore musical do Nordeste, a respeito das
raizes fundamentals que criaram o folclore do Nordeste
que muitos afirmam ser musical, que vem do cantochio
-que 6 aquele canto que nao apresenta ritmo definido,
que o padre cantava no altar no tempo em que a missa
era celebrada em latim eu procurei at6 o ano passado
defender uma tese afastando esta idWia e provando que
o folclore musical do Nordeste foi trazido pelos pretos
que vieram da Africa, do Congo, principalmente, os ne-
gros africanos que se estabeleceram no Nordeste e trou-
xeram seu folclore, que continue vivo nos preg6es que
existem em Recife quem 6 de lI conhece muito bem
- continue vivo no aboio dos vaqueiros, nas caatingas de
serra, etc. Nao quero avancar mais neste ponto para
nHo fazer demorar a palestra que ird ser muito interes-
sante, inclusive focalizando particularidades da vida do
Pe. Cicero Romao Batista. Entio, convido o Sr. Aldenor
Benevides, Srs. Eurico Rocha e Jo5o Gomes Feitosa.
al6m dos Profess6res aqui presents para tomarem as-
sento a mesa. Antes, por6m, de terminar minhas pala-
vras de apresentacgo, quero dizer que na semana passa-
da terminei de ler um livro que o Sr. Aldenor Benevides
escreveu s6bre o Pe. Cicero Romio Batista, cuja obra
nao foi ainda publicada. Achei o livro muito interes-
sante e curioso, e tenho certeza de cue, uma vez publi-
cado, serd de grande ajuda como subsidio para que co-
nhegam melhor a vida daquele home que procurava
incentivar a paz e a boa compreensao entire todos. Eu
mesmo pensava antes ser o Pe. Cicero um cultivador do






atraso e responsAvel direto por tantos crimes havidos no
Nordeste. Mas, agora, confesso, depois de haver lido o
livro do Sr. Aldenor Benevides, afastei o antigo conceito
que mantinha em t6rno do Pe. Cicero Romeo Batista,
vindo a me convecer. haver sido aqu&le sacerdote um
home bom e humilde que sofreu muitas perseguigees,
inclusive por parte do pr6prio clero. Era o Pe. Cicero
portador de certas qualidades ou dons psiquicos que a
medicine official nao quis ainda reconhecer como natu-
rais ao ser human. Assim, uma vez apresentado o con-
ferencista desta note, eu pass a palavra ao Sr. Aldenor
Benevides.

O Sr. ALDENOR BENEVIDES:

Sinceros sAo os meus agradecimentos a esta Escola,
por interm6dio de seus ProfessOres, em particular, seu
digno Diretor Professor Pedro Marinho e o Professor
Otavio Fanalli, me cedendo oportunidade para pronun-
ciar esta palestra a respeito de um assunto imensamente
rico, extraordinkriamente profundo e que tanto vem des-
pertando interesse por parte de jornalistas, escritores.
soci6logos e outros estudiosos das coisas brasileiras, li-
gado que 6, 6sse assunto, A pr6pria evolugao da sociolo-
gia brasileira. Sinto-me a vontade neste recinto com-
posto de pessoas estudiosas, cuja finalidade e afinidade
ambiental e spiritual se coadunam cor a minha pre-
senga aqui. Felizmente. o assunto do cangaceirismo no
Nordeste brasileiro, tambem a mim solicitado para aqui
falar, vem sendo compreendido e interpretado de certo
tempo a esta data corn a devida justiga e de maneira
mais real, nao como outrora acontecia, haverem sido os
cangaceiros instruments de discrdia e barbaridades,
mas uma decorrencia da pr6pria condigio evolutiva do
tempo, da 6poca. A march dos problems sociol6gicos

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nacionais vem dando margem a que se conhecam fat6-
res outrora desconhecidos pelo povo, o que ocorria por
conveniencia dos aparelhos governamentais da 6poca que
ocultavam a realidade national. Naquele tempo, 3 e 4
d6cadas atrds, quando o Nordeste foi mais abalado pelos
efeitos e consequencias das lutas e insidias political in-
ternas, o Pais vivia mergulhado em lastimavel condigio
de ignorancia sociol6gica. Nao havia interesse pela tec-
nologia e o ensino era menos considerado por parte dos
pod6res pfiblicos do que hoje. Assim, nio dispondo o
povo de condig6es adequadas para evoluir escolas,
hospitals, transportes, comunicacges e estimulo aos pro-
blemas urgentes e imediatos por parte dos governor -.
sua visAo era diminutive ou quase nenhuma, portanto,
nao tinha conhecimento daquilo que constitui felicidade
coletiva. Tal escassez de principios educacionais, patrid-
ticos, progressistas e humanitdrios, fez com que f6ssem
implantadas nos Estados nordestinos as famosas oligar-
quias political que partiam das capitals e se ramificavam
nos interiores. Foram essas oligarquias que deram mar-
gem a implantac~o de regimes de terror, crimes de t6da
natureza e apoio a tudo que, durante muito tempo, in-
felicitou o Nordeste. As families que dominavam grande
parte dos municipios nordestinos, tendo a frente os c6-
lebres "corornis", contavam com a participagio de juices
venais, delegados atrabiliarios e outras autoridades que
se deixavam levar pela contaminagio local, inclusive mui-
tos vigarios apaixonados e renitentes que se coiistituiam
elements de disc6rdia nas comunidades. Essas mdqui-
nas political organizadas e com o apoio official planeja-
vam emboscadas, surras, desfeitas e t6da sorte de crimes
e mis6rias. Era o regime das perseguigCes e do terror
que pontilhou as estradas nordestinas de cruzes, de in-
dividuos desaparecidos nas emboscadas traigoeiras. A
justiga e o direito, a ordem e o progress, a disciplirra

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e a cultural, eram representados pelo bacamarte e os pu-
nhais. Foram anos tristes e negros para todo o Nor-
deste. As rivalidades se multiplicavam e em consequen-
cia disso o 6dio e a vinganga dominavam. Nao queren-
do, devido ao pouco tempo de que disponho, contar vA-
rios casos a 6sse respeito, a mim citados por pessoas
tamb6m interessadas no assunto, you apenas mencionar
o seguinte por mim testemunhado em 1948, o qual serve
para se ter uma id6ia do rancor existente entire os rivals
politicos. Achava-me eu hospedado' em modest pensdo
de uma cidade pequena no interior cearense quando para
ali se dirigiu um humilde sertanejo acompanhado de sua
mulher em estado avangado de gravidez e portadora de
uma infecgdo dentiria. Ao aproximar-se de mim per-
guntou se o dentist estava. Quando 6ste apareceu e
depois de tomar conhecimento ser aquele casal morador
de um seu adversirio politico, se recusou tender o pa-
ciente, alegando falta de tempo. Ante os apelos do ma-
rido da enferma, o dentist insistiu no seu prop6sito
dizendo que s6 atendia clients pessedistas nas 2as., 4as.
e 6as. Conheci um comerciante que tinha dois pregos
no seu estabelecimento: para os udenistas era um e para
os pessedistas outro. O fanatismo religioso foi tamb6m
uma arma poderosa que muito contribuiu para o atraso
no Nordeste. Nao contando corn o oportuno e providen-
cial trabalho ecumenico do grande Papa Jodo XXIII, ine-
givelmente, um dos maiores homes do s6culo XX, diver-
sos foram os sacerdotes cat6licos que, a guisa de quere-
rem ser agraddveis aos seus chefes politicos, se presta-
ram aos mais degradantes e vergonhosos pap6is de sub-
serviencia, al6m de terem concorrido para o aumento do
fanatismo religioso que tinha influencia acentuada nas
massas incultas que eram dominadas pelo mido do cas-
tigo. Vou citar alguns exemplos do quanto foi o povo
nordestino prejudicado pelo fanatismo religioso. Em de-






terminada cidade cearense, a qual apresenta hoje, feliz-
mente, confortador indice de progress, gragas A energia
de Paulo Afonso, presenciei o curioso fato. Um home
simples tangia tres muares conduzindo ancoretas (dep6-
sitos de madeira) chelas de agua para vender. Uma se-
nhora chamou-o dizendo precisar desse liquid. Ao sa-
ber ela vir a agua de certa propriedade, desfez o neg6cio,
alegando ser o liquid "amaldigoado", porquanto o dono
da fonte era um espirita. Outros casos. Iniciava eu
uma campanha pelo Nordeste no sentido de adquirir ob-
jetos para um museu que pretend instalar em Juazeiro
do Norte. Em certa cidade paraibana comprei uma in-
teressante mdquina Singer, das primitives, rara e pr6pria
para museum. Instantes ap6s haver fechado o neg6cio,
fui surpreendido corn a presenga do ex-dono que me
pedia desfizesse a venda. Indagando porque assim pro-
cedia, adiantou 61e: "O padre me disse que o senhor
nao 6 cat6lico, portanto, tendo pauta corn o DemOnio,
eu procurasse receber de volta o meu objeto e fugir do
senior". Em outra cidade da Paraiba naquele tempo
eu usava cavanhaque vieram me dizer que o vigario
afirmara em sermao, nao sendo eu cat6lico, procurava
at6 me parecer cor o Diabo usando cavanhaque igual
ao seu. Certo Monsenhor, ainda na Paraiba, conhecido
baluarte nas campanhas eleitorais, utilizou o seguinte
recurso ante as perspectives de vit6ria do candidate o-
posto ao seu partido. Munido de um jipe percorreu todo
o seu municipio, distritos, fazendas, sitios, etc., e por
onde ia passando reunia o maximo de eleitores, indis-
tintamente, os quais se ajoelhavam diante dele, que exi-
bia um crucifixo de, aproximadamente, 60 centimetros
de tamanho, dizendo cada eleitor de joelhos, mros pos-
tas, e em voz que todos ouviam: "Juro por Nosso Senhor
Jesus Cristo votar no doutor fulano de Tal". E foi assim
que seu candidate venceu. 'Conheci um Monsenhor fa-

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bricante de cachaga. Sabendo haver na igreja de sua
cidade algumas imagens antigas, procurei-o a firm de pro-
por neg6cio. Tratava-se de home jA bastante idoso. O
dono da pensto onde me hospedei preveniu-me de que
referido sacerdote guardava certa migoa do clero por nao
Ihe haver promovido a Bispo conforme era sua preten-
sao. Talvez por se considerar intimamente um Bispo,
dito Monsenhor adquiriu o hbbito de movimentar sem-
pre a mao direita conservando os dedos minimo e anu-
lar curvos, como fazendo as vezes de Bispo, abengoando.
Tive o cuidado de observer que 6sse movimento era mais
ininterrupto, principalmente, quando o sacerdote estava
com a pal'avra. Convencido de que ele n~o se dispunha
a vender as imagens, procure retirar-me sem mais de-
longas. E quando dele me despedi, o Monsenhor, como
querendo me compensar por aquela derrota commercial,
perguntou-me: O senhor bebe? NAo Monsenhor, res-
pondi. Bebi muito e deixei. Questao de figado. A pena
- continuou 8le porque se o senhor bebesse e
fazendo o sinal de bingco corn a mao direita iria
levar um litro da cachaga fabricada no meu sitio que,
por sinal, 6 a melhor cachaga da Paraiba. Em Juazeiro
do Norte quando certa vez eu palestrava cor um anciao
de mais de oitenta anos, ao despedir-me do mesmo bas-
tante fatigado do meu trabalho cotidiano, abri a boca,
tendo do mesmo ouvido a seguinte advertencia: "T6da
vez que o senhor abrir a boca assim se benza tres vezes,
pois, do contrdrio,"se o Cao estiver por perto, entra para
dentro do senhor". Contaram-me uma passage interes-
sante verificada na cidade de Santa Cruz, hoje Reriutaba,
no Ceard. Quando houve a mudanga no nome, por de-
creto governmental, o entdo Prefeito do municipio pe-
diu ao vigario o ajudasse acostumar o povo nao mais
chamar Santa Cruz. Nas missas, novenas, etc., o sacer-
dote insistia quanto a mudanga no nome da cidade. Uma






mulata solteirona e analfabeta, as vezes, quem iniciava o
tergo quando o reverendo estava confessando, certa oca-
sido se investiu dessa fungpo. Depois de ordenar que
todos se ajoelhassem assim iniciou ela sua obrigaQgo:
"Pelo sinal, da Reriutaba, livre-nos Deus Nosso Senhor
dos nossos inimigos". Se eu dispusesse de mais tempo,
citaria muitos casos curiosos e interessantes ligados a
precAria condigpo de educag5o religiosa que durante mui-
tas d6cadas perdurou no Nordeste brasileiro. As supers-
tig6es foram outro fator de reconhecida influencia no
dominio religioso falho e qde tanto prejudicou o progres-
so e a cultural do povo nordestino. Vou citar algumas
delas dando um pouco de graga e humorismo a esta pa-
lestra. P6r a medalha para tras, 6 bom para curar so-
lucos; apontar estrelas cor o dedo, faz criar verruga na
ponta do nariz; espirrar olhando para os lados, estoura
os ouvidos; assobiar de noite, chama cobras; levar topa-
da cor o pe direito, 6 sinal de azar; varrer a casa con-
duzindo o cisco para fora, pela porta principal, ocasio-
na decadencia econ6mica; engolir o coracqo de um bei-
ja-flor, vivo, faz ficar cor boa pontaria; o home que,
por engano, vestir a cueca pelo avesso, fica azarento pelo
resto da vida; comer muita rapadura cria lombrigas; A
noite, ndo se deve andar olhando para tras porque o
Cao aparece; a mulher, em estado de gravidez, passando
por cima de qualquer animal pequeno, mata; se a moga
quiser apressar o casamento basta enterrar de cabega
para baixo uma image de Santo Ant6nio; menino que
brinca com fogo de noite, mija na rede; nao se deve
passar a perna por cima de uma crianga porque ela fica
and; contar hist6rias de trancoso de dia, faz criar rabo;
se a crianga beber agua de chocalho, fala mais depressa;
moga que, por descuido, pisar em rabo de gato preto, de-
verA imediatamente isolar-se, isto 6, sentar-se numa cadei-
ra ou outro m6vel, conservando os p6s isolados do chdo

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porque, do contririo, nio casari; se as orelhas esquen-
tarem 6 porque algu6m estA falando mal da pessoa; 6
ruim urinar dentro d6gua porque a pessoa fica esqueci-
da; para diminuir uma trovoada, basta queimar uma pa-
Iha benta em domingo de ramos; quando duas pessoas
se casam, na primeira manhA ap6s a cerim6nia, a que
primeiro puzer o pB esquerdo no chlo, 6 a que morrer.
primeiro; ao atravessar um rio sem agua, em noite es-
cura, se perceber haver em uma das margens p6s de
oiticica, 6 convenient se benzer tres vezes; quando o
vento faz redemoinho 6 sinal de que Satanis anda all
por perto; quando chove fazendo sol 6 porque as raposas
estEo se casando; e, gritar alto de noite, chama as almas
penadas. Eu conheci o Maestro Henrique Jorge, pai do
falecido Senador cearense Paulo Sarazate. Certa vez o
Maestro Henrique Jorge adoeceu em determinada cidade
cearense. Como se tratava de pessoa muito aproximada
ao casal dono da pensdo onde se hospedara, os cuidados
redobraram, nada Ihe faltando. A certa altura do se.
gundo dia da sua enfermidade, coincidiu que um cavalo
rinchou em frente da janela do quarto onde estava o
ilustre enfermo. Foi um Deus nos acuda. Ninguem ti-
nha a coragem de ser o primeiro a verificar qual a c8r
daquele animal porque, se f6sse preta, o Maestro teria
falecido instantes depois. Felizmente, o cavalo nio era
fatidico. Algu6m me contou o seguinte caso que bem
diz do espirito de desprendimento e a coragem invulgar
do nordestino. Terminada a costumeira missa dominical,
um sertanejo no Rio Grande do Norte se dirigia at6 sua
morada cerca de quatro quil6metros da cidade. De si-
bito, Ihe surge na estrada uma onga. O sertanejo nao
perdeu a calma. Desceu de sua montada e amarrou o
muar numa drvore. Em seguida, empunhou uma quice
(faca pequena) e em posigdo de defesa disse o seguinte
sem pestanejar; "Nosso Senhor, se o Senhor estiver do






lado desta onga fazei com que ela me engula logo e eu
nao sinta a dor da morte; se o Senhor estiver do meu
lado, fazei cor que eu mate ela com a minha quic6.
Mas, se o Senhor nao estiver nem do lado dela e nem
do meu, se assente ali naquela pedra para o Senhor
presenciar a briga mais feia deste mundo". HA uma
regido no Nordeste na qual os sertanejos costumam di-
zer que a mulher para ser boa, precisa ser: pombinha,
galinha e formiguinha. Pombinha, cordata, nada recla-
mando e se conformando corn tudo que o marido quiser,
achar e pensar; galinha, muito cuidadosa corn os filhos;
e. formiguinha, danada para trabalhar. Certo home do
sertao se ufanava em dizer que a sua mulher era tao
formiguinha que, um dia nada tendo para fazer, mistu-
rou arroz cor feijdo s6 para ir catar. It)as, deixando a
parte humoristica, quero voltar a fazer outras apreciag6es
s6bre as possibilidades de progresso-existentes no Nor-
deste, naqueles anos perigosos e tristes que atravessamos,
gragas ao desprezo mantido pelos poderes piblicos. Era
not6ria a falta de escolas piblicas, nao havia postos de
safide para tender as populat6es desamparadas e cheias
de vermes, sempre sujeitas a t6da sorte de epidemias.
Assim vivia o povo do sertao A merc8 da pr6pria sorte.
Tamanha era a necessidade de medicos que os sertane-
jos sabiam onde os havia e seus nomes. O setor educa-
cional quase nio passava de uma utopia. Poucas ou
quase nenhumas eram as associates de classes, os clubs
recreativos, gr6mios literArios e outras atividades da vida
cultural. Leonardo Mota, o querido Leota, que tive a
honra de conhecer pessoalmente, em seu livro "Violei-
ros do Norte" se refere a uma organizagco literdria que
havia nos subdrbios de Recife, chefiada por um negro
semi-analfabeto que se arrogava de ser bom orador e
culto, uma vez que o seu fraco era falar em pfblico.
Entio. por ocasido da data comemorativa do descobri-






mento da America, 1ie fiz um discurso numa organizagho
recem-fundada e chamada AssociaCeo Literaria. Vou ler,
na integra. Diz Leonardo Mota: "Contou-me em Vit6-
ria, Pernambuco, o academico Pedro de Holanda haver
num arrabalde de Recife uma Associagao Literaria em a
qual tinha frequentemente a palavra um preto analfa-
beto, mas invencivel improvisador de bestialogia. Quan-
do na tribune, estimava que o aparteassem. Entdo, todo
se inflamava e era uma graga v&-lb e ouvi-lo a dizer
disparates, convict do figurdo que acreditava estar fa-
zendo. Por isso mesmo, a fama do "orador" cedo irra-
diou e uns rapazes estudantes deram para ir assistir as
tais "festas literArias" que, ordinkriamente, tinham efe-
tividade nos feriados nacionais. Os estudantes nao pe-
netravam na sede da "Associag o" e aparteavam, de fora,
corn dicterios e para gafidio do "sereno" os discursos
do negro verboso. Rste, s6 perdia a calma quando o
chamavam "moleque". Num dia 12 de Outubro, o "ora-
dor" da "Associagao" discursava: "ASSIM CUMA
CRISTOVO CALUMO DISCOBRIU A AMERICA NO DIA
DE HOJE, NOIS TAMBEM NO DIA DE HOJE INAU-
GUREMOS ESSA ASSOCIAgAO E QUANDO ARGUM
DIA, PROGUNTAREM A ARGUM DE VOIS SE FUMO
NOIS QUE FUNDEMO ELA, VOCES TODO DIGA POR
UMA BOCA SO: FUMO, FUMO, FUMO". Nisso, algu6m
grita do "sereno": Cala a b6ca, burro! E o orador,
entusiasmando-se: "BURRO, NAO, MAIS POREIV
ARTIST! E 0 ARTIST A SIMIANTEMENTE IGUA
A UMA LOCOMOTIVE QUE ATRAVESSA OS HORIZON-
TES DA VIDA E SO SE PODE AVALUA MUNTO AVE-
XADAMENTE". Mas o aparteador insisted: Cala a
b6ca, negro! Responde o discursador, arregagando o
brago e ja corn a raiva Ihe fuzilando nos olhos: "ISSO
DE EPIDEMA DE CO PRETA, NAO PODE Te NINHUMA
INFULUENgA. EU QUERO Ve 2 A BOA COMPORTA-






QAO DO INDIVIDO, SENDO QUE AS AQAO DE CANAIA
FICA DA PARTE DO SUJEITO QUE ASSIM PROCEDE".
Ouve-se, final, numa voz aflauteada: Cala a b6ca,
moleque 2 quando o "orador" perde a calma e es-
murrando a tribune dela se retira exclamando desvaira-
do: POR ISSO 2 QUE ESSA MELECA NUM PRO-
GREDE".
Eu citei 6sse caso para verificarem o seguinte. De
um l'ado, a justiga na mio de juizes, na maioria, naquele
tempo, venais e que se deixavam levar pelos caprichos
de chefetes politicos responsiveis por crimes e vingangas.
2 oportuno dizer que muitos juizes se acovardavam dian-
te dos chefes oligdrquicos dos sert6es. Ajudando a esses
absurdos e attitudes vergonhosas, havia delegados civis e
militares que tudo faziam para servir a viciosidade po-
litica reinante, inclusive protegendo criminosos profissio-
nais que passavam a ser "cabras" de confianga dos "co-
ron6is". Pelo outro lado, as sicas castigando impiedo-
samente os sert6es nordestinos, acabando corn tudo. Ha-
via ainda, como ji disse antes, o descaso por parte dos
governor, que nHo se interessavam (menos do que hoje)
pelo solucionamento dos problems urgentes e imediatos
do povo. E, a frente de tudo isso, politicos inescrupu-
losos (ainda os ha em abundAncia), frios e se interes-
sando apenas pelo solucionamento dos assuntos das suas
vantagens pessoais. Finalmente, concorrendo para tanto
infortdnio, a religiao deturpada que ameagava cor ca-T!itC.
Sa e penas eternas. Eis a situagdo do Nordeste naquela
fase triste e de horror. Jesuino Brilhante, Antonio Sil-
vino, Senhor Pereira, Chico Pereira, Luiz Padre, Lampiao
e tantos outros nao foram outra coisa senAo produto da
condigdo ambiental em que viveram. Nao foram bandi-
dos, absolutamente. Foram guerrilheiros rebelados con-
tra aquela condigSo de miserias que durante muito tem-
po infelicitou o Nordeste.






To.os ,i es form .:ur grito de protest dos sert6es
nordetji, .acnp.- ti4a -a& nsidias political sociais e religio-
sas que. tanto prejudicaram. o progress e a felicidade
daausala regidao abandonada do. Brasil. IE sabido que a
.aiqr.ia das.. .Jlaxtes de poliqia em- perseguicao aos cha-
mados canga.eirp,s coq.stituia. mais perigo para a tran-
gqilidade do,-povo dos, sertQes do .Nordeste do que os
cangageirqs.. ,E qqanto qs chamados. cangaceiros eram a
justia, CPp as, ,as prQpirias mnos, esses policiais eram
ps. cang.a.iros e.m nrme ca lei,, praticando horrores nos
se.ts.. Laijio .foQi. o .maipr thefe de guerrillas no
3rPSil, 4,-difreca.:;ntrQ. ~e e. os guerrilheiros da Bo-
livia e de ,-4oba, .que 6stes em. ideolQgia, enquanto.Lam-
pji~o,.b igPI dujratet 21 alos diorreu sem saber porque
brigou, de.f~eidq.~. ricos. e pobres. A epopeia dos can-
gaceiros nordestiios e umEa pAgina bpnita na hist6ria
do Brasil.,.Se liv;-ssem deixado .Lampido estudar, o Bra-
sil teria.jidQ .n.. s.i, peoa umn- autntico lider xac-ional.
.0 temp. tgaer:je ,sqbria ,paratalr-.spbre o Padre Cicero
oomla.. Batiita. putra pegrplnajdade curiosa. :eque nio
po4e ser tamb~;r an aisaada.n.um, sJaples palestra. Ja
verificanos que os governos. foram qs ,maiores r.eson-
saveis pela eondic~o de angifstia e atraso que durante
wmuito tempo reirou no .Nordeste, Face a essa situaqgo,
tDrnava-ve dificil surgigrm homens. de moral e coragem,
capzes. de to mar ..rps, atitudeo. def4ida em beoeficio da-
qum.a geAlte. sofredpor4:;R Possuidr ddeo 1entimentos frater-
4ais- e. pr, se. coppajecqr dos p.obres ,e desamparados,
logo se ._pallyou pelo Nordeste a fama de ser o Padre
Cicero, de Juazeiro, um excelente conselheiro e orienta-
dp.o...Assim,, verdadeiros ex4rcitos humans afluiam pa-
ra 1 a,. sedogtg. de j estica. e de. conselhos, al6m de o
sacerdote ter ,S paci4ncia necessdria, inclusive para ouvir
disp aates de _tda_ natuseza, por parte de muitos, os que
mais mereciam compaixao. Era o pal spiritual de todo






o Nordeste, porque s6 a le os sertanejos conflavam suas
magoas e lamentos, dizendo os pianos e prop6sitos, can-
sados que viviam do convivio que nada em seu beneficio
fazia. Vendo que os poderes piblicos nao se interessa-
vam pelos problems imediatos das populag6es abando-
nadas, vivendo os governor divorciados das reivindica-
gves populares, o Padre Cicero daquela gente se compa-
decia e, justamente, devido ao seu modo acolhedor e
fraternal, crescia cada vez mais a confianca do povo n6le
depositada. Antes de entrar neste recinto fui interrogado
se o Padre Cicero recebia em Juazeiro chefes de bandos
de cangaceiros. Ao que apurei, isto 6 verdade. por6m,
aquelas visits nao eram feitas cor prop6sitos crimino-
sos como acontecia quando a chamado de "coron6is" dos
sert6es que se utilizavam dos cangaceiros para os seus
celebres "servigos". O Pe. Cicero mandava-os vir, secre-
tamente, para Ihes aconselhar deixar a vida de cangacei-
ros prometendo indicar lugar onde poderiam eles iniciar
nova vida. Assim 6 que mandou pafa o Istado de Goias
varios ex-chefes de bandos, dentre os quais Senhor Perei-
ra, Luiz Padre e outros, sendo que para surpresa nossa,
um d6les chegou a ser, numa cidade goiana, suplente de
juiz. Achava o Padre Cicero ser essa uma forma exce-
lente de regenerar aqueles homes. Multos deles tiveram
seus pais assassinados nas quest6es political. Como se
v6, sua obra s6cio-religiosa foi extraordinaria, patri6tica,
humana e louvAvel, ben6fica e divina. O Padre Cicero
assim agia, baseado na teoria de Pontes de Miranda que
diz ser a mudanga ambiental de suma importancia na
regeneragAo do faltoso. Devido a isso, acusavam o Padre
Cicero de "protetor de cangaceiros". ele dizia sempre
para asses faltosos: "Voces nHo slo criminosos, prbpria-
mente dito, e nem tem culpa dos crimes que praticaram.
Os verdadeiros criminosos sao aqueles que, inv6s de da-
rem a voces lapis, taboadas e cartilhas, dAo rifles; inv6s






de aconselharem o perddo, ensinam como fazer embos-
cadas; inv6s de darem sementes e enxadas, dio balas.
Logo, meus amiguinhos, voces nao devem se considerar
culpados das mortes que fizeram. Uma vez que nao sa-
bem ler, como enxergarem um palmo adiante do nariz ?"
Por haver chegado a hora de terminar, vou contar
uma passage de Lampiao que tern lgagio com o Padre
Cicero. Acabava aquele famoso guerrilheiro de dar corn-
bate a uma volante de policia. Quando descia um ser-
rote em companhia do seu grupo, avistou embaixo a
inica morada tosca e miniscula ali existente. Era uma
humilde casinha de palha. Cercou-a, como era seu cos-
tume, e como ninguem respondesse, chamou outra vez
pelo dono da casa. Uma voz feminine disse que jA ia.
Uma mulher maltrapilha, pdlida e com fisionomia de
sofredora abriu a janela pequenina. Disse Lampiao nio
ser portador de nenhum piano de maldade e apenas que-
ria que ela Ihe trouxesse o pote cor Agua para saciar
sua sede e dos seus homes, pelo que Ihe indenizaria.
Uma voz de home saindo debaixo de um cobertor ad-
vertiu-o que nao bebesse daquela agua. Lampiao se irri-
tou cor aquilo julgando que o liquid estivesse envene-
nado, conforme era costume da policia. Quando, por6m.
aquele home declarou ser um morf6tico e assim proce-
dia para evitar que o seu mal o afetasse, o cangaceiro
que presenciou contou Lampido quedou im6vel ante o
gesto nobre daquele leproso. Duas criangas surgiram na
sala. Se compadecendo de sua sorte, o cangaceiro pen-
sou em retir--las dali. Meditou por alguns segundos.
De repente, ordenou a um dos seus homes que retirasse
daquela choupana as duas crianqas.O morf6tico Ihe con-
ton uma triste hist6ria. Disse que sua mulher havia pe-
dido ao prefeito da cidade, no outro lado do serrote, ao
juiz, ao deputado e at6 ao vigario para intercederem jun-
to aos poderes competentes no sentido de os filhos serem






internados em um col6gio do governo, mas que foram
infrutiferos os seus apelos, no prop6sito de serem aquelas
criangas afastadas de tdo desolador convivio. O guerri-
Iheiro se refez, se transportando mentalmente para outro
setor de trabalho fraternal e human e ordenou a um
dos seus homes de maior confianga que se desfizesse
das roupas caracteristicas de cangaceiro, entregou-lhe
bastante dinheiro e ordenou que seguisse at6 JuAzeiro,
no Ceara, contasse aquele ocorrido e, em seu nome, pe-
disse ao Pe. Cicero que se encarregasse de acabar de
criar e educar aquelas vitimas da maldade dos politicos
dominantes. Eu disse antes que houve um tempo em que
eram contados a dedo os m6dicos existentes no Ceara,
quigd no Nordeste. Pois bem, naquele tempo, Lampido e
Maria Bonita, como dois eximios parteiros que eram, pra-
ticaram, gratuitamente, em todos os sert6es do Nordeste,
a verdadeira caridade a parturientes, ajudando-1hes a
"descansar", muitas delas embrenhadas no mato, a mui-
tas l6guas de disthncia de cidades e vilas, sem uma viva
voz para Ihes socorrer. Em proporqgo ao nascimento
das criancas 6les iam batizando e sendo os padrinhos.
Muitas foram as sertanejas em estado avangado de gra-
videz que fizeram promessa para que donaa" Maria Boni-
ta de suas casas se aproximasse na hora decisive.
Agora, quero ceder a palavra ao meu amigo e com-
panheiro JoHo Gomes Feitosa, hoje funciontrio autdr-
quico e que durante longos anos deu combat a canga-
ceiros, inclusive Lampiao, como um dos components da
volante comandada pelo Major Optato Gueiros.

O Sr. JOAO GOMES FEITOSA:

Meu il'stre amigo Sr. Aldenor Benevides, Srs. Pro-
fess6res, Sr. Eurico Rocha e prezados discipulos. Me per-
doem abusar pelo adiantado da hora, mas fui aqui apre-






sentado para dizer algumas palavras, nio passando assim
em branco a minha presenga, principalmente quando fui
apresentado como um element que integra uma pequena
parte do folclore nordestino e, porque nao dizer, do fol-
crore brasileiro. Entao, possivelmente, os meus poucos
minutes de palestra irio ser mais ou menos parecidos
cor o que acabastes de ouvir. Mas, para que nao vos
traga uma sobremesa de feijao para quem acaba de jan-
tar feijao, you dar uma sobremesa diferente e nio you
fazer como Ivon Cury que nao seja doce de feijao. Creio
que satisfaz para o prato desta noite e que servirA para
o estudo que vos interessa agora uma parte quase da mi-
nha biografia, ligada aos tempos em que prestei services
na ativa em uma das policies do Nordeste.
Em 1931, ou por outra, Lampiao ja estava no cangago
desde 1917. O Sr. Aldenor Benevides ja se referiu a mui-
tos casos s6bre Lampido, Jubzeiro do Norte e o Pe. Cicero
Romeo Batista, muitos dresses levados ao conhecimento
do pfiblico por interm6dio da imprensa. Em 1931 perdi
meu pai e como morava em regido onde propriet&rios de
terras davam surras em moradores quando famintos ti-
ravam algo da roga para comer ou vender para comprar
remedios para os filhos quando adoeciam, me record de
muitos casos dignos de citacgo. Os proprietarios de ter-
ras compravam o produto do trabalho dos seus moradores
pelo prego que Ihes convinha. Se houvesse qualquer
manifestacio em contrArio, eram surrados de chibata.
Quando por ocasido da seca de 1930 um morador na
Paraiba de nome Vicente Preto, possuidor de tres mulhe-
res, t6das unidas e residindo na mesma casa cor n le,
teve que, para matar a fome dos seus crioulinhos, de ir
ao rocado do patrio e de 16 tirar alguma mandioca para
os alimentar. Tres dos seus filhos estavam caidos pela
fome, sem energia para se levantar. Entao, Vicente le-
vou aquCle alimento para casa reavivou um pouco das






energies dos filhos famintos. Os donos daquela proprie-
dade, na 6poca, Drs. Agnaldo Veloso e Jodo Salim, man-
daram chamar Vicente Preto para Ihe darem uma surra
porque 6le havia roubado mandioca. Vicente conduzia
sempre uma espingarda daquelas que disparam com es-
poleta de papel, muito conhecida no Nordeste. Ao subir
os degraus da casa do chefe da fazenda, o bom-dia que
houve foi um disparo. Vicente Preto langou mAo de uma
faca-peixeira e se atracou cor o Dr. Salim, tendo tido
inicio uma luta corporal entire os dois. A certa altura
da mesma o Dr. Agnaldo surgiu acompanhado de um
terceiro e assim, Vicente Preto, fraco e cor poucas f6rcas
devido a situagdo da s6ca, foi por bles dominado. Quan-
do aquela briga acabou, Vicente estava amarrado e rece-
beu diversas pancadas seguidas de enorme surra. Algu-
mas horas depois, levaram-no para o p6 da serra e 16
chegando, -- ste que vos fala nao presenciou as cenas
que se sucederam, na presence dos espancadores de Vi-
cente mas, escondido, devidamente, vi, a duzentas bracas
de distAncia sem que fosse localizado pelos criminosos,
quando Vicente foi amarrado e em seguida escutei dez
tiros de-rifle. No dia seguinte, querendo satisfazer a mi-
nha curiosidade de jovem, por 1d passei e vi uma cova
coberta de terra fresca. Nao a descobri porque isto iria
constituir s6rio perigo para mim. Presumo que ali foi
o Vicente sepultado porque ouvi quando aqu6les covardes
disseram que, para todos os efeitos, Vicente havia fugido.
Foi na terra dresses homes que eu fiquei sem pal. Filho
de vifiva pobre e com muitos irmros menores tive que
enfrentar muitas dificuldades, inclusive trabalhando de
sol a sol por oitocentos r6is, o sal6rio que consegui na
epoca. Algum tempo depois resolvi ir para a Capital do
Estado onde verifiquei praca na policia. Quando passed
a pronto, tive a infelicidade de me defrontar cor a re-
volugAo paulista de 1932, tendo logo sido alistado para ir






combater na mesma. Depois de realizar algumas viagens,
cai num ninho de metralhadoras tendo, por6m, felismen-
te escapado, sem nenhum arranhao. Perdido dez dias no
mato, consegui me agrupar a cinco companheiros e corn
6les segui destiny ignorado, tendo o cuidado de disfargar
o sotaque nordestino. Diz um adagio popular que, quan-
do a mentira 6 para o bem, pode ser usada. Pois bem,
quando iamos chegando nas fazendas paulistas, diziamos
que 6ramos nordestinos residents ha muitos anos naque-
le Estado e que haviamos sido recrutados para combater
a favor de Sao Paulo. E assim, fomos nos mantendo.
Ficamos, entao, sabendo que o R. G. do Sul brigava cor
Sao Paulo e corn Pernambuco. Fomos nos apresentar a
policia de Pernambuco. Era, entao, comandante da mes-
ma o hoje General Bizarria Mamede, Capitao comissiona-
do de Coronel para comandar a Brigada de Pernambuco.
Fomos incorporados Aquela unidade. Foi dali que eu co-
mecei a tirar uma conclusao face ao procedimento da po-
licia do meu Estado, naquela 6poca, que era composta
de cangaceiros fardados. Ao completar o tempo de ser-
vice, ja de regresso no Nordeste, tentei veneer na agri-
cultura, mas nada consegui. Vi-me obrigado, assim, a
retornar A vida da caserna. Foi quando houve um con-
venio entire os Estados nordestinos para o combat defi-
nitivo aos cangaceiros que eram chamados tamb6m de
bandidos. Fui designado para fazer parte de volantes.
Tenho a honra de dizer que servi sob o comando do de-
cente e brioso official, naquele tempo, Tenente Optato
Gueiros, posteriormente Capitao e depois para a reserve
no posto remunerado de Major. Na f6rga sob o coman-
do de Optato Gueiros, que era sediada na fronteira de
Pernambuco corn Alagoas, eu tive a felicidade de servir
cor um official que ndo fazia e nem consentia que nin-
gubm fizesse injusticas ao pacato sertanejo, desamparado
no mato, sem instrugao e sem a minima assistencia por






parte de qluem de direito. Eu estava em missed sob as
vistaosde qfiiais d a-mentalidade de Optato Gueiros que
ensinava se proceder condignamente, sem os instintos
-birbaros .e revoltantes da maioria dos seus co'egas. Al-
oaneei umr-tempo em que-o banditismo progredia, mas
de cro a quele period teye de decrescer e o que teste-
munhamos do banditismo. 6 que quando acabou nos del-
xou-saudades, n-o .s6 pela influ6ncia de n6s sermos os
seus perseguidores porque, em muitas ocasi6es se chora-
va.1 grimas-de-6angue, mas, em outras, se comia manjar
doe. oue-.se ,tinh. uma vida .divertida, testemunhando as-
'sim Q .ldQ positivo e o: negative da vida que levamos.
Sou testeaunhw deaag6es nobres praticadas por Lampiio,
denot~ndo. sua c-lera e o seu instinto de revolt ante
ftalta ;iijustiga:,.e indigi-idade, Se no. me falha a me-
moria, -em 1948 on 1949Q potato .Gleiros passou pela Bahia
e, me reoonbheendo, pxesenteou-me corn um exemplar do
seu Jivro: "Lamppiao: -- menmrias de um. official ex-coman-
,a~ate-de f 6ras volants'. Assim se referiu Optato para
si4n.'I, "Joao Gomes.- eom. era eu tratado na tropa -
me pedir~A.m uma fortune para publicar este meu livro.
Em vista do, prego elevado, deixeide relatar nele muitas
eoiwsasAnteresgantes e que poderiam servir de documents
hist6rieo. Mis, para v.oc- ter uma lembranga do seu
velbo c nandante ai. esta. nmeaionado no livro o seu no-
me". Entdi, no relate, dos pequenos combates, Optato
assinalou, meu nona. com- una caneta, fazendo uma seta
.pra que, quando eu. abriro 9 lvro naquela part, me lem-
brg,e&ile. Es.te xemplr. do Jivro de Optato Gueiros vem
a-g9o. Por -mixn guardado como uma preciosa reliquia.
-QOpitt::p,;.te.niar;:..ei:-tar. que .Lampiao, dias era como
mag ovvlha,: dias como um.tigre, era. um grande parteiro,
-ni@,.;e.fia}eiro0 e tratavfi do sen pessoal.com o mixi-
n.m arjp.lgeesp ecial dedicao. A ordem. e :a discipline
no seu grupo, faziam gosto. Depois de haver Maria Bo-






nita ingressado no seu grupo, o respeito passou a impe-
rar. Nao havia no grupo de Lampido excesses de bebidas
e ningu6m desrespeitava mulheres e families. A discipli-
na era urn fato. Como soldado de volante que fui, du-
rante muito tempo, concordo corn o Sr. Aldenor Benevi-
des quando afirma que Lampiao foi simplesmente um
guerrilheiro por circunstAncias da 6poca. Nada mais pos-
so adiantar de uma palestra dessa, porque sei que estou
cansando os presents.

O Sr. EURICO CORDEIRO ROCHA:

Eu, anunciado como folclorista ? bondade dessa
gente. Quero contar dois casos pequenos, um de sabor
brejeiro e um de sabor literArio. Leonardo Mota foi um
home que levantou o folciore do cangago e escreveu
quatro livros. Contem no livro d6le, rec6m-editado, "Ser-
t~o Alegre", uma hist6ria muito engragada, s6bre um ra-
paz que sempre viveu no interior do Piaui e saiu para
tentar a vida em Parnaiba. La chegando ficou abismado
porque nunca tinha visto coisa igual. Escreveu, entgo,
uma carta para a mae d6le, descrevendo a cidade. Vou
1lr a carta para voc6s, na linguagem dele. Escreveu &le:
"Mamde. Parnaiba 6 uma cidade monarca de grande.
De manhdzinha se alvoroca tanta gente na beira do rio
que parece formiga ao redor de lagartixa morta e quase
tudo 6 trabaiad6 cagando ganho. O mercado 6 outro
despotismo. Se arreune mais povo do que na desobriga
quando o padre diz missa na capela dos morros da Dona
Chiquinha. Tudo se vende, de tudo se faz dinheiro. Fi-
quei b6sta de espid gente comprando maxixe, quiabo, li-
mdo azedo, f6lha de JoAo-Gome e int6 taiada de girmum.
O passadio daqui 6 bom. Todo o dia eu como pao da
cidade cor manteiga do reino. Mamae. As coisas aqui
sdo muito deferente e adversas dai. As casas sdo apre-






gadas umas nas outras que nem casa de maribondo de
parede e 6 quase de telha e atijolada e tem umas calgadas
e forrada de tuba pru riba que nem gaiolh de xex6u e
se chama sobrado. Gente rica 6 em demasia. Inda 6nte
numa loja eu vi uma ruma de dinheiro de cobre no chio
que parecia ju& quando se ajunta mode dar pra bode em
chiqueiro. Mamae. A igreja faz int6 sobr6oo de grande
e alta. Cabe dentro dela todos os morad6 da Barra das
Lage, do Bom Principio, da Fazenda Nova e ainda se
adquere lugar para mais de cem vivente. O povo daqui
tem um sestro munto engragado. Nao diz."6 de casa",
nao; quando chegam nas casas alheia, bate 6 palma co-
mo quem estruma cachorro mode acuA tatf no buraco.
Mamae. A luz aqui 6 feita num tal de gazome. Nao pre-
cisa pavio nem trucida de algod5o mode acend6. s6
distroc6 uma torneira como quem tira cachaga de anco-
r6ta e riscar um f6sco que a luz acende biatamente e tio
culara que faz 6 gosto. Se o cristAo nao acend6 mais
que depressa espdia um ch8ro de ceb6la podre danado,
diz pru via dum tal de carabur6to. IVamae. Aqui tem
um j6go chamado biA que num hai diabo qui intend
mais porem, s6 joga nele gente de famia. t arredor du-
ma meza grande forrada cum pano como bai de pregaria
e os jogado segurando umas vara mode empurrar uma
bola que 6 v6 Ovo de ema. Quando estbo jogando de por
visto dois mexed5 de farinha num forno de barro, ajei-
tando os rodo mode nao desmanchar os beijf. Mamae.
Aqui tern tamb6m uma latejo invisive que 6 um tal de
cinema. A s6 a musga toc, aparece uma figure de gen-
te, de animal e de rua, tudo prefeito, mesminho, como
se estivesse vivo e bulindo. O cinema 6 um pano estica-
do parecido cor vela de embarcagEo e 6 a coisa mais
bonita e mais encantada que eu jd vi. MamRe. Cheguei
6nte da Tutoia. Fui nas barca da Companhia Busse mo-
de trabaiA num vap8 inguilez, ganhando dois minr6is por






dia e quatro pru noite. Na Tutoia a gente v0 o mar int6
onde l6e encosta nas parede do c6u. As barca sacode a
gente chega faz d6 de instambo e vontade de vomitar
qui nem urubf novo, tudo isso pru via de desassusego
de mar. O vap6 inguilez 6 um paid6gua de grande, mai6
do que a vazante de fumo do compare Domingo Preto
e mais alto do que o pB de tamarina da porta 1l de casa.
Os purdo de both carga sHo tao fundo que escurece a
vista de cristao que espiA. Mamae. O pessoa que mora
no vapo sao tudo branco rosalga, 6io azu, cabelo vremeio.
A fala deles s6 pro diabo, nio hai no mundo quem in-
tenda: 6 uma embruiada como de priquito em roga de
milho novo. SHo danado por papagaio ou por uma gar-
rafa de geritiba. Quando os inguilez falam uns corn os
outro 6 uma trapaiada direitinho a de tia Damiana adis-
pois qui teve a molestrit do ar. Outra coisa engragada que
eu acho nos inguilez do vapor 6 tudo se chama piloto,
mode coisa qui os padre da terra deles nao batizam nin-
guem com outro nome. Preu Ihe contd tudo direitamen-
te nao hai papel que chegue. Vou acabar pruqu8 ji me
d6i as bonecas dos dedos de eu tanto escrev8".
Vou dizer agora um pensamento rimado de um gran-
de cearense, Quintino Cunha que foi ao Pard editar um
livro s6bre o Amazonas. IEnto, em visit a Universida.
de do Park, pediram que 6le deixasse o sinal de sua
visit ali. Escreveu 6Ie:

"Na hist6ria da teimosia
Entre a rudeza e a arrogAncia,
A tao forte a ignorancia,
Tao cruenta, tHo mendaz,
Que a pr6pria sabedoria,
De tudo sabendo tanto,
Nao pode saber do quanto
O ignorante 6 capaz".






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Apresentagfo de PAULO NUNES BATISTA

Paulo DANTAS

Pede-me o Benevides umas palavras de apre-
sentagdo do seu grande amigo Paulo Nunes Batis-
ta, o rei do folheto popular em Goids e adjac6n-
cias. Nao poderia a isto me furtar, j& que falar
do xard 6 falar da alma popular, que tanto adoro
e luto por ela.
Paulo Nunes Batista 6 o que se pode chamar
de um cabra curtido e sarado na arte da vida e
da poesia popular. Autor de mais de quarenta
folhetos publicados, muitos dos quais cor mais
de duas edicSes, Paulo Nunes Batista safreja poe-
sia por todos os poros, num bom empenho de ri-
mas e cad6ncias, de ritmos quentes, de achados
populares.
Nasceu cor a poesia na massa do sangue,
descendente de ilustres cantadores do Nordeste,
tanto do lado paterno, como materno. Nao nega
fogo e despeja forte, a todo instant evidenciando
sua estirpe ritmada, que se faz pronta e inteiriga
A menor solicitagdo amiga.
Conheci o Paulo Nunes Batista na filtima Se-
mana Santa, levado pela mro do Benevides, que o
adora tanto. Foi nesses corumbas de goids, num
lavap6s dos humildes. Impressionou-me a fibra,
a luta, o carAter, a garra e a inspiraggo do home.
Ja o conhecia de nome atrav6s da leitura de um
"abc" dedicado a Bernardo Saygo, uma das me-
lhores coisas que j li, em versos, s6bre o nosso
her6i telfirico do oeste.






Alma lutadora do oeste, Paulo Nunes Batista
ja se aculturou em Goias, Estado onde vive hi
mais de vinte anos. Veio da Paraiba, terra que
segundo Cavalcanti Proenga deu e continue dando
os melhores e mais aut&nticos versejadores do po-
vo, os nossos mais legitimos cantadores de feira.
De olhar vivo e incendiado, Paulo Nunes Ba-
tista 6 uma fera de inspiragdo quando pega um
tema na media. O verso brota nele como uma
fonte, jorra numa espontaneidade admirAvel. Le-
va a rima para onde quer, dando seu recado na
praga.
Motivado, bem engraxado nos cascos alados,
Paulo Nunes Batista ter qualquer coisa de apo-
caliptico na sua densa inspiragho. Em rajadas de
luz e fogo, essa inspiragao ja me tonteou vArias
vezes, com seus arrancos e corn seus espantos.
Nordestino atW a raiz dos cabelos, Paulo Nu-
nes Batista ja conheceu seus instantes de gl6ria
literdria, quando foi citado pelo grande Manuel
Bandeira em "Andorinha, Andorinha", ja figuran-
do em diversas antologias.
Nas bancas de jornais e revistas em Sdo Pau-
lo, vi vxrios folhetos seus, editados pela "Preludio',
e, agora, bem me lembro que o conheci, vibrant
e atuante, participando de um Congresso Brasilei-
ro de Escritores, em Porto Alegre.
Meu conhecimento mais intimo e profundo
com o xard data, por6m, de pouco tempo, quando
o visitei em Corumbd de Goias, onde 6 modesto
funcionario pfiblico, vivendo ao lado da sua musa
cabocla, essa paciente e admiravel Eulina, que ja
deu ao poeta, sete filhos.
30






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A AGUA Mie dos seres vivos,
de que o Sol, na Terra, 6 Pai;
AGUA dos Rios da vida,
que p'ro Mar da Vida, vai;
AGUA! Salvai da Mis6ria
o meu Nordeste! Salvai!

B Brotai dos Olhos, da MAgoa,
das Chagas! Subi do Chlo:
dos leng6is subterrAneos
vinde, em clara florago,
florir em flares de Paz
para perdoar o Sertio!

C Chovei, s6bre a Dor das Almas
Cangaceiras e Profetas!
Chorai, na Grande Pobreza
cantada pelos Poetas!
Correi, socorrendo a Sede
das Gentes Analfabetas...

D Descei dos C6us Agua Santa!
Subi dos Pogos Profundos
onde aguardais o Mandado
do Grande Senhor dos Mundos!
Lavai as Manchas do Carma
dos deuses meditabundos...

E Em busca de V6s, no Espago,
sobem dedos vegetais,
crispadog nos Desesperos
das S&des Descomunais -
voam Promessas e Preces,
em misticismos mortals...





F Fundi vossos Amazonas,
Sao Franciscos, Tocantins,
Araguaias, Parands:
AGUA vinde dos confins
dos Infinitos! Mas, vinde,
pelos n5os ou pelos sins!

G Guardada, do Subsolo
no Seio, em rios esconsos,
a quem servis, 6 Mde Agua,
surda aos Aflitos Responsos ?!
Vinde! Inundai o Nordeste
de Iguagus... Paulos-Afonsos!

H Ha, hoje, Agudes imensos,
como o gigantesco Or6s;
Araras, Banabuii,
Lima Campos onde V6s,
6 AGUA servis aos grandes,
n~o servindo ao Povo os j6s!

I Irrigado, sendo, um dia,
o Sofredor Chdo-Nordeste,
AGUA, a correr nas Caatingas,
AGUA, a rolar pelo Agreste:
o Poligono das sicas
sera um Jardim Celeste!

J Ja se conhece o Remedio:
Os Pogos Artesianos
Sao a soluguo das Secas
corn seus Dramas S6bre-humano.
T. Jan6r fez, em Paulista,
UM para os Pernambucanos.





L LITROS, s6 de Agua Potdvel,
jorra, 8sse POQO, por hora,
MEIO MILHAO. No future:
de CINCO MILHOES pra fora!
Corn CEM POQOS ARTESIANOS
mais nunca o Nordeste chora!

M Milh6es e milh6es de litros
de AGUA se podem tirar
de um s6 p6go artesiano
para as terras irrigar.
Em vez de prender as aguas
vamos "as AGUAS rolar"...

N NORDESTE B6rgo de Bravos:
Henrique Dias... Poti...
de Jodo Cabral, o Poeta...
do C6co... do Sapoti...
teu Sertao sendo IRRIGADO,
quem fugiria de ti?

O Os agudes estao cheios!
Mas... a seca CONTINUA
EXPULSANDO OS NORDESTINOS,
na penit6ncia mais crua...
"AGUAS PARADAS NAO MOVE
MOINHOS" nem l1 na Lua!

P Pentecostes, Feiticeiro,
Or6s e Varzea da Ema,
sdo aqudes fabulosos:
por6m, da S.CA, O PROBLEMA
PERMANECE, NO NORDESTE,
que sofre, em peniiria extrema!





Q Quem'stA por dentro, bem sabe
o SOFRIMENTO de 1:
PARA1BA, PERNAMBUCO,
PIAUI E CEARA,
estdo SECOS, no Sertao,
A espera do "deus-dara"...

R Regiio que sendo seca,
sempre foi deficitAria,
seria se recebesse
IRRIGAIAO NECESSARIA:
do Progresso do Brasil
Pot6ncia Extraordinaria!

S Sete Estados do Brasil
vivem, da SeCA, na CRUZ:
area enorme do Sertao:
nas SACAS nada produz
al6m de LEVAS MENDIGAS
de ESFAIMADOS... SEMI-NUS.

T Todavia, do Gov6rno,
depend encontrar-se o "x"
dessa Equagao que ha 3 s6culos
desafia 8ste Pais:
ELIMINANDO, DAS SeCAS,
A TRISTE HISTORIC INFELIZ

U UM SO POgO ARTESIANO
IRRIGA L2GUAS, ALEM...
Para exterminar as SECAS
nio precisa mais de 100!
DEUS que h6 muito sabe disto -
2 NORDESTINO, TAMB2IM!





V Vinde, Forga Soberana
dos Infinitos Espagos!
Descei ao Chgo do Nordeste
na Unido de Muitos Bragos:
ARRANCAI A AGUA QUE DORME
DA TERRA EM FUNDS REGACOS !

X Xiquexique, Unha-de-gato,
Gravatd, Mandacaru
vgo transformar-se em FEIJAO,
MILHO, ARROZ, CABRA E ZEBU:
se o NORDESTE tiver AGUA,
em vez de rato e urubu...

Z Zombar "dos que v6m de long"
sem Terra, sem Pao, sem Paz,
mesmo se falando em Cristo
6 servir a Satands...
6 AGUIA! Salvai Meu Povo
do Santissimo Voraz!!!...






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