Misticismo e fanatismo no Nordeste

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Material Information

Title:
Misticismo e fanatismo no Nordeste
Physical Description:
39 p.
Language:
Portuguese
Creator:
Benevides, Aldenor Jayme Alencar.
Publisher:
Autor
Place of Publication:
Fortaleza, Ceara

Notes

General Note:
3d edition

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
All rights reserved by the source institution.
System ID:
AA00000290:00001

Full Text


MISTICISMO
E

F A ATISMO
NO

NORDESTE
N 0 R D E S T E

4a EDICAO
Conferencia pronunciada 'pelo Professor
ALDENOR IAYME ALENCAR BENEVIDES
no audit6rio da Escola Industrial de Tagua-
tinga, Distrito Federal
Enderoeo do Autor:
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63.180 luazeiro do Norte Co.






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PROFESSOR BENEVIDES

cousa ./ienexes

Nome complete: Aldenor Jayme _Alencar
Benevides. Nacionalidade: Brasileiro, cearense de
Pacatuba. Estado civil: solteiro casado cor a PAZ
UNIVERSAL. Profissio definitive: Nordestin6logo.
Assinalada por intense "paixonite aguda" as coisas
que definem e autenticam a alma sertaneja. Obras
publicadas: "PADRE CICERO E JUAZEIRO", em
2'. edigao. "MISTICISMO E FANATISMO NO
NORDESTE". agora em 4'. edicgo. Obras em pre-
paro: "ALTOS E BAIXOS". contos, "ODISSEIA
DA FAMILIAR MARCELINO", estudo bidgrafo-
sociol6gico. Atividades e desempenhos: Ex-Professor
de Geografia e Ingles na Escola Tecnica de Comercio
de Juazeiro do Norte. Ex-Professor de Geografia e
Ingles na Escola Tecnica de Comercio do Crato.
Membro da Uniao Brasileira de Escritores, seqio de
Sao Paulo. Ex-membro da Antiga e Mistica Ordem
Rosa Cruz (AMORC). Ex-membro do Circulo Esote-
rico da Comunhao do Pensamento: S. Paulo. Ex-
membro da Instituicio Cultural Krishnamurti. Rio de
Janeiro. Ex-membro da Sociedade Teosofica e Fra-
ternidade Universal, cor sede em Adyar, na India.
Ex-Juiz Suplente da Junta de Recursos Fiscais do
Distrito Federal, em Brasilia Ex-membro do Conse-
Iho Fiscal da Associa(co. Commercial doU)istrito Federal,
por duas gest6es consecutivas. Ex-tripulante de. navios
mercantes de quatro nacionalidades. Curso sobre
Cangaceiros, Beatos e Violeiros promovido pela Uni-
versidade de Brasilia. Curso de Oratoria ministradb
pelo Professor Dr. Joao B. Clayton Rossi, promovido
pela Universidade de Brasilia. E atualmente Repre-
sentante Comercial Autonomo em Juazeiro do Norte.






Temos ai o Professor Benevides. O home
e a obra. Conheci-o ha muitos anos quando aqui
permaneceu long tempo exercerido suas atividades
magisteriais. Fez-se logo meu amigo e eu dele e eesta
amizade, que muito me honra, permanece ate hoje
nio obstante suas andangas por outras terras cum-
prindo seu destino de andarilho sempre cor sede de
novos conhecimentos, novas revela6bes, sobtetudo de
novos conteudos sociol6gicos, para credito crescente
de sua inteligencia e cultural.
Ja naqueles tempos era ele um devotado
amante e entusiasta da saga sertaneja que carecterizou,
tanto quanto ainda hoje caracteriza em genero e
grau diferentes o Nordeste Brasilefro.
Pesquisava jA os seus condicionamentos
socials e culturais, seus re6tipos humans, seus cos-
tumes, tradig6es, a mesocracia envolvente e dominant
exercendo de cima para baixo o feudalismo ruralista
do baraco e cutelo nas mios sempre chelas de sangue
do politicastro travestido de "coronel" e ia tirando
suas proprias conclus6es.
De uma delays fez questSo de posicionar-se
numa contestacio a quantos se arvoraram em pes-
quisadores ajuramentados no prop6sito de umra imper-
doavel condenacio a certas particularidades do
fen6meno ou epiftnomeno sertanejo da epoca, post
que o Brasil, entio, nos seus longes alIm das lindes
poligonais da arida regiAo nordestina, sofria, com
maior ou menos intensidade, independentemente do
estilo ou da indumentAria, as mesmas vicissitudes e
incumbEncias criminol6gicas, fetichistas ou misticas.
Por que a celeuma, o fervor ululante, o
impiedoso e crucificante quase exorcismo critic con-
tra o cangaceiro e o beato, para s6 citar eles.dois na
palsagem de entio, como se fossem diabos dela
inarredaveis ?






E o fatalismo geografico ? A cega brutali-
dade do meio fatalizando o home, como queria
Hatzel? Ou a geopsicologia no concerto de Mukergee,
corn suas observaq6es 16gicas sobre as marcas im-
pressas no psiquismo do home pelo ambiente ecol6-
gico desde a paisagem ao acidente geogafico? E o
home "antes -de tudo um forte" de Euclides da
Cunha, o "homo-humus" corn o sentiment da terra
nele profundamente enraizado do berco ao timrulo, a
despeito do sol causticante e das injusticas senhoriais
dos bangues e valhacoutos de cabroeira armada ,at&
os dentes para garantir,. doesse em quer doesse, os
"direitos" do todo potentado senior da gleba?
Como estranhar o surgimento note-se
ainda o analfabetismo do beato e do cangaceiro
num ambiente assim tao carregado dei negaC6es e
desincentivos ?
A todas essas perguntas o Professor.
Benevides di uma resposta plenamente aceitAvel, neste
seu "MISTICISMO E FANATISMO NO NOR-
DESTE". Nao e uma'obra de desafio nern pontilha
a profundidade de um, estudo sociol6gico de, mil e
uma piginas, cansativo e de pouca acessibilidade ou
assimilagio A maioria., E, antes, um roteiro de fatos
elucidativos da vida sertaneja, tal qual ela em decades
passadas, corn o famoso e dito famigerado Lamplia
aterrorizando as caatingas, on o beato Jose condu--
zindo sua cruz e seu carneiro pelas ruas de nossa
cidade, .e, de permeio, as "est6rias" as superstigqes,
as crendices, enchendo espaco e tempo de peculiari-
dades tipicas de uma regiio crismada pelo infcrtonio.
Do clima e da ignor&ncia.
Mas, nem por isso delxa "MISTICISMO
E FANATISMO NO NORDESTE" de ser um
precioso docamento, escrito em linguagem clara; ho-
nesta e sincera sobre a nosso sertao de outros tempos,





reprcsentando, por outro lado, embora na sua humil-
dade, intengao valida a fim de quc se reformulem
velhos e ambiguos conceitos sobre os tipos humans
que nele se distinguiram pelo exotismo da fe ou a
braveza aterrorizante, attitudes das quais, na' ver-
dade, jamais tiveram culpa alguma.
Juazeiro do Norte, 1. de Dezembro de 1975.

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APRESENTAPAO PELO Prof. PEDRO MARINHO
DE OLIVEIRA, DIRECTOR DA ESCOLA
INDUSTRIAL DE TAGUATINGA

Meus prezados amigos, alunos e visitantes aqui pre-
sentes. Dando prossegulmento As comemorasOes da So.
maia do Folclore, temos o prayer de receber honrados
nesta noite o Sr. Aldenor J. Alencar Benevides, profundo
conhecedor do folclore do Nordeste, estudioso assiduo
das raz6es que originaram as lutas dos cangaceiros e da
mission s6cio-religiosa exercida pelo Pe. Cicero Romao
Batista. Quen 6 pernambuCano, como eu, quem 6 estt-
dioso das colsas brasileiras, aqu6les que: se interessam
pelas colsas vivas da nacionalidade, devem ter algum
conhecimento do que fol o Pe. Cicero Romio Batista e
a sua aaio em Jubzeiro do Norte, no CearA. Temos
tamb6m a grande satisfagAo de receber aqui um dos
maiores conhecedores do folcibre naclonal e principal-
mente do Nordeste, que 6 o fr. Eurico Cordeiro Rocha,
alto funcionArio do Banco do Brasil epn Brasila, que
aqui se encontra para nos ilustrar corn sua presenga e
alguns apartes a respeito da palestra de hoje, que sera
das mais interessantes e, tenho certeza. IrA despertar
alegria e deselo de maiores conhecmentos por parte dos
presented. Temos ainda outra personalidade que velo
acompanhando o Sr. Aldenor Benevides, que 6 o Sr. Joai
Gomes Feitosa, que foi membro component de volantp
da policia pernambucana no tempo do Major Optato
Gueiros, um dos homes que mais combateram Lampiio
durante a d6cada de trinta. IrA ser interessante ouvi-lo,
porque eu mesmo, Interessado que sou, se bem come um
artists sempre me interessel pela part que toca ao fol.
clore national, a musical, mas mesmo assim tive inter6se
em conhecer a hist6ria de LamplAo, sua vida, etc., pars
poder escrever uma obra musical nela baseada,.coisa que
jA por duas v6zes tentei fazer. Dest- forma, acho que






estamos de parabdns por tio fellz inlciativa do Professor
Otavio Fanalli, por ter tido a lembranc& de convidar o
Sr. Aldenor Benevides. que eu nMo conhecia pessoalmen-'
te, mas de nome, pois, o poeta repentista Paulo Nunes
Batista, de AnApolis, sempre me falou ao seu respeito.
Eu JA fis algumas palestas a respeito da obra que es-
crevi e do folclore musical do Nordeste, a respelto das
raizes fundamentals que criaram o folclore do Nordeste
que muitos afirmam ser musical, que. vemi do cantochlo
-que 6 aqudle canto que nao apresenta ritmo definido,
que o padre cantava no altar no tempo em que a mlssa
era celebrada em latim eu procured ate o ano passado
defender uma tese afastando esta ideia e provando que
o folclore musical do Nordeste foi trazido pelos pretos
que vieram da Africa, do Congo, principalmente, os ne-
gros africanos que as estabeleceram no Norddste e tron-
xeram seu folclore, que continue vivo nos preg6es que
exi.tem em Recife quem 6 de 1A conhece muito bem
-- continue vivo no aboio dos vaqueiros, nas caatingas de
serra, etc. Nao quero avangar mtis neste ponto para
nAo fazer demorar a palestra que ira ser muito interes-
sante, inclusive focalizando particularidades da vlda do
Pe. Cicero Romao Batista. EntAo. convido o Sr. Aldenor
Benevides, Srs. Eurico Rocha e Jobo Games Feitosa,
alom dos Professeres aqul presents para tomarem as-
sento & mesa. Antes, por6m, de terminar minhas pala-
vras de apresentaCio, quero dizer que na semana pass
da terminei de ler um rvro que o Sr. Aldenor Benevides
escreveu s6bre o Pe. Cicero RomBo Batista, cuja obra
nio foi ainda publicada. Athei o livro muito interes-
sante e curioso, e tenho certeza de que, uma vez publi-
cado, sere de grande ajuda como subsidio para que co-
nhegam melhor a vida daquele hoinme que procurava
incentivar a paz e a boa compreensho entire todos. Eu
mesmo pensava antes ser o Pe. Cicero um cultivador do






atraso e responsive direto por tantos crimes havidos no
Nordeste. Mas, agora, confesso, depots do, haver lido o
lilro do Sr. Aldenor Benevides, afaste o antigo conceito
que mantinha em t6rno do Pe. Cicero RomAo Batista,
vindo a me convecer. haver sido aquele sacerdote um,
home bom e humilde que sofreu multa persegul6es,
inclusive por part do pr6prio clero. Era o Pe. Cicero
portador de certas qualidades on dons. psiqulcos que a
medicine oflcial nao quis atnda reconhecer como natu-
rats ao ser human. Assim, uma vez apresentedo o con-
ferencista desta note, eu pass a palavra ao or. Aldenor
Benevides.

O Sr. ALDENOR BENEVIDEB:

Sinceros slo os meus agradecimentos a esta Escola,
por Interm6dlo de seas Professmres, em particabr, seu
digno Diretor Professor Pedro Martnho e o Professor.
Otavio Fanalli, me cedendo oportunidade para ponun-
ciar esta palestra a respelto de um assunto imensamente
rico, extraordinriaMente profundo e que tanto vem des-
pertando interesse por part de jornalstas, escritores.
soci61ogos e outros estudiosos das cosas. brasileiras, li-
gado que 6, ease assunto, & pr6pria evoluco da sociolo-
gia brasileir. Sinto-me A vontade neste recinto com-
posto de pessoas estudiosas, cuja finalidade e aflidade
ambiental e spiritual se coadunam corn a minha pre-
senca aqul Feelianente, o assunto do cangacelr1mo no
Nordeste brasUlero, tanmbm a mim solcitado para aqui
falar, vemn endo compreendido e interpretado de certo
tempo a esta data com a devida justioa e de mantra
maLs real, nio como outrora acontecia, haverem sido os
cangaceiros instruments de diso~rdia e barbaridades,
mas uma decorrenca da pr6pria condigio evolutiva do
tempo, da 6poca. A march doe problems sociol6glos






nacionais vem dando margem a que e conbecam fat6
res outrora desconhecidos pelo povo, o que ocorria por
convenltncia dos apertlhos governamentals da 6poca que
ocultavam a realidade national. Naquele tempo, 3 e 4
d6cadas .atris, quando o Nordeste fol mals abalado peols
efeitos e consequtnciaa das lutas e insidlas politics In-
ternas, o Pais vivia mergulbado em Jastlmavel condiG&o
de ignorfneia socioldgica. No bavia Interesse pela tee-
nologia e o ensno era menos considerado por part dos
pod6res p6blicos do que hoje. Assim, Bio dispondo
povo de condigCes adequadas para evoluir escol~s,
hospitals, transported, comunicag6es e estimulo aos pro-
blemas utrgentes e imediatos por part dos governor -
sua visfo era diminutive on quase nenhuma, portanto,
nao tinha conhecimento daquilo que constitui felicdade
coletiva. Tal escasses de pirlciptes educadonals, patrol &
ticos, progresslstas e lhmaAnitrios, tz coa que fOssem
implantadas nos Estados nordestinos as tamoses oligar.
quias politicas que partiam das capitals e e ramificavam
nos interiors. Form essays oligaiqulas que deram mar-
gem & implantaglo de regimes de terror, crimes de. tda
natureza e apolo a tudo que, durante muito tempo, in-
felicltou o Nordeste. As families que daminavam grande
part dos, municipios nordestinos, tendo a frente os c6-
lebres "coron6is", contavam corn a paricipaco de jfaues
venals, delegados atrabiliArios e outras autoridades que
se- deixavam levar pela contaminagio local, inclusive mul-
tos vigArios apaixonados e renitentes que se cofstitufan
elements d dise6rdia nas comunidades. Essas maqui-
nas political organizadas e com o apolo oficial plneja-
vam emboscadas, surras, desfeitas e t6da sorte de crimes
e misrrias. Era o. regime das persegirg6es e do terror
que pontilhou as estradas nordestnas de cruzes, de in-
dividuos desapareddos nas emboscadas trafoeiras. A
justica e o direito, a ordem e o progress, a disciplina

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e a cultural, eram representados pelb bacamarte e os pu-
nhais. Foram anos tristes e negros para todo o Nor-
deste. As rivalidades se multiplicavam e em consequn-
cia disso o 6dio e a vinganga dominavam. NAo queren-
do, devido ao pouco tempo de que disponho, contar va-
rios casos a esse respeito, a mim citados por pessoas
tamb6m interessadas no assunto, vou apenas mencionar
o seguinte por mim testemunhado em 1948, o qual serve
para se ter uma iddia do rancor existente errtre os rivaip
politicos. Achava-me eu hospedado em modest pensio
de uma cidade pequena no interior cearense quando para
all se dirigiu um humilde sertanejo acompanhado ddesua
mulher em estado avanCado de gravidez e portadora de
uma infeccao dentAria. Ao aproximar-se de mim per-
guntou se o dentist estava. Quando 9ste apareceu e
depois de tomar conhecimento ser aquile casal morador
de um seu adversario politico, se recusou tender o pa-
ciente, alegando falta de tempo. Ante os apelos do ma-
rido da enf6rma, o dentist insistiu no seu prop6sito
dizendo que s6 atendia clients pessedistas nas 2as., 4as.
e 6as. Conheci um comerciante que tinha dois pregos
no seu estabelecimento: para os udenistas era um e para
os pessedistas outro. O fanatismo religioso foi tambem
uma arma poderosa que muito contribuiu para o atraso
no Nordeste. NAo contando cor o oportuno e providen-
cial trabalho ecumenico do grande Papa Joao XXIII, ine-
givelmente, um dos maiores homes do s6culo XX, diver-
sos foram os sacerdotes cat6licos que, b guisa de quere-
rem ser agradaveis aos seus chefes politicos, se presta-
iam aos mais degradantes e vergonhosos papeis. de sub-
servidncia, al6m de terem concorrido para o aumento do
fanatismo religioso que tinha influRncia acentuada nas
massas incultas que eram dominadas pelo m6do do cas-
tigo. Vou citar alguns exemplos do quanto foi o povo
nordestino prejudicado pelo fanatismo religioso. Em de-

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terminada cidade cearense, a qual apresenta hoje, feliz-
mente, confortador indice de progress, gragas a energia
de Paulo Afonso, presenciei o curioso fato. Um home
simples tangia tr6s muares conduzindo ancoretas (dep6-
sitos de madeira) cheias de Agua para vender. Uma se-
nhora chamou-o dizendo precisar dUsse liquid. Ao sa-
ber ela vir a agua de certa propriedade, desfez o neg6cio,
alegando ser o liquid "amaldigoado", porquanto o dono
da fonte era um espirita. Outros casos. Iniciava eu
uma campanha pelo Nordeste no sentido de adquirir ob-
jetos para um museu que pretend instalar em JuAzeiro
do' Norte. Em certa cidade paraibana comprei uma in-
teressante mrquina Singer, das primitivas, rara e pr6pria
para museu. Instantes ap6s haver fechado o neg6cio.
fui surpreendido corn a presence do ex-dono que me
pedia desfizesse a venda. Indagando porque assim pro-
cedia, adiantou Rle: "O padre me disse que o senhor
nio cat6lico, portanto, tendo pauta -com o Dem6nio,
eu procurasse receber de volta o meu objeto e fugir do
senhor". Em outra cidade da Paraiba naquele tempo
en usava cavanhaque vieram me dizer que o vigirlo
afirmara em sermfo, nio sendo eu cat6lic6, procurava
at6 me plrecer cor o Diabo usando cavanhaque igual
ao seu. Certo Monsenhor, ainda na Paraiba, conhecido
baluarte nas campanhas eleitorals, utilizou o seguinte
recurso ante as perspectives de vit6ria do candidate o-
posto ao seu partido. Munido de um jipe percorreu.todo
o seu municipio, distritos, fazendas, sitios, etc., e por
onde ia passando reunia o maximo de eleitores, indis-
tintamente. os quais se ajoelhavam diante d6le, que exi-
bia um crucifixo de, aproximadamente, 60 centimetros
de. tamanho, dizendo cada eleitor' de joelhos, m&os pos-
tas, e em voz que todos ouviam: "Juro por Nosso Senhor
Jesus Cristo votar no doutor fulano de tal". E foi assim
que seu candidate Venceu. Conheci um Monsenhot fa-

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bricante de cachaga. Sabendo haver na igreja de sua
cidade algdmas imagens antigas, procurei-o a tim de pro-
por neg6cio. Tratava-se de home JA bastante idoso. 0
dono da pens o onde me hospedei preveniu-me de que
referido sacerdote guardava certa m goa do clero por nio
Ihe haver promovido a Bispo conforme era sua preten-
slo. Talvez por se considerar intimainente um Bispo,
dito Monsenhor adquiriu o hAbito de movimentar sem-
pre a mao direita conservando os dedos minimo e anu.
lar curves, como fazendo as vezes de Bispo, abencoando.
Tlve o cuidado de observer que 6se movimento era mals
ininterrupto, principalment., quando o sacerdote estava
cor a palavra. Convencido de que -6le nio se dispunha
a vender as images, procurei retirar-me sem mals de-
longas. E quando dele me despedi, o Monsenhor, como
querendo me compensar por aquela derrota comercial;
perguntou-me: 0 senior bebe? NAo Monsenhor. res-
pondi. Bebi multo e deixei. Questbo de figado. 2 pena
-- dontinuou 8le -- porque se o senhor bebesse e
fazendo o signal de bncio corn a mAo direita iria
levar um litro da cachaga fabricada no meu sitio que,
por signal, 6 a melhor cachaga da Paraiba. Em JuAzeiro
do Norte quando certa vez eu palestrava corn um anciho
de mals.de oitenta anos, ao despedir-me do mesmo bas-
tante fatigado do meu trabalho cotidiano, abri a boca,
tendo do mesmo ouvido a seguinte advertenca: "T6da
vez que o senhor abrir a boca assim se benza trAs vzes,
pols, do contrArio, se o Cao estiver por perto, entra para
dentro do senior". Contaram-me uma passage interee-
sante verificada na cidade de Santa Cruz, hoje Rerutaba,
no CearA. Quando houve a mudanca no nome, por doe
creto governmental, o entao Prefelto do municipio pe.
diu so vigario o ajudasse acostumar o povo nio mala
chamar Santa Cruz. Nas-missas, novenas. etc., o sacer-
dote insistia quanto a mudan~a no nome da cidade. Urna






mulata solteirona e analfabeta, is vezes, quem iniciava o
tergo quando o reverendo estava confessando, certa oca-
siAo se investiu dessa fungo. Depois de ordenar que
todos se ajoelhassem assim iniciou ela sua obrigag~o:
"Pelo signal, da Reriutaba, livre-nos Deus Nosso Senhor
dos nossos inimigos". Se eu dispusesse de mais tempo,
citaria muitos casos curiosos e interessantes ligados a
precAria condicio de educago religiosa que durante mul-
tas d6cadas perdurou no Nordeste brasileiro. As supers-
tig6es foram outro fator de reconhecida influ8ncia no
dominio religioso falho e que tanto prejudicou o progres-
so e a cultural do povo nordestino. Vou citar algumas
delas dando um pouco de graga e humorismo a esta pa-
Testra. P6r a medalha para tras, 6 bom para curar so-
lugos; apontar estr8las corn odedo, faz criar verruga na
ponta do nariz; espirrar olhando para os lados, estoura
os ouvidos; assobiar de noite, chama cobras; levar topa-
da cor o p6 direito, 6 sinal de azar; varrer a casa con-
duzindo o cisco para fora, pela porta principal, ocasio-
na decadencia econ6mica; engolir o coracfo de um bei-
ja-flor. vivo, faz ficar cor boa pontaria; o home que,
por engano, vestir a cueca pelo avesso, fica azarento pelo
resto da vida; comer muita rapadura 'cria lombrigas; A
noite, nio se deve andar olhando para tris porque o
Cao aparece; a mulher, em estado de gravidez, passando
por cima de qualquer animal pequeno, mata; se a moga
quiser apressar o casamento basta enterrar de cabega
para baixo urma image de Santo Ant6nio; menino que
brinca com fogo de noite, mija na rede; nao se deve
passar a perna por cima de uma crianga porque ela fica
ana; contar historias de trancoso de dia, faz criar rabo;
se a crianga beber agua de chocalho, fala mais depressa;
moga que, por descuido, pisar em rabo de gato preto, de-
vera imediatamente isolar-se, isto 6, sentar-se numa cadei-
ra ou outro m6vel, conservando os p6s isolados do chAo






porque, do contririo, nio casari; se as orelhas esquen-
tarem d porque alguem estA falando mal da pessoa; 6
ruim urinar dentro dAgua porque a pessoa fica esqueci-
da; para diminuir uma trovoada, basta queimar uma pa-
lha benta em domingo de ramos; quando duas pessoas
se casam, na primeira manhi ap6s a cerim6nia, a que
primeiro puzer o pB esquerdo no ch~o, 6 a que morrera
primeiro; ao atravessar um rio sem Agua, em noite es-
cura, se perceber haver em uma das margens p6s de
oiticica, e convenient se benzer tres vezes; quando o
vento faz redemoinho 6 sinal de que Satanas anda all
por perto; quando chove fazendo sol 6 porque as raposas
estAo se casando; e, gritar alto de noite, chama as almas
penadas. Eu conheci o Maestro Henrique Jorge, pal do
falecido Senador cearense Paulo Sarazate. Certa vez o
Maestro Henrique Jorge adoeceu em determinada cidade
cearense. Como se tratava de pessoa muito aproximada
ao casal dono da pensio onde se hospedara, os cuidados
redobraram,-nada Ihe faltando. A certa altura do se-
gundo dia da sua enfermidade, coincidiu que um cavalo
rinchou em frente da janela do quarto onde -estavi o
ilustre enfrmo. Foi um Deus nos acuda. Ningu6m ti-
nha a coragem de ser o primeiro a verificar qual a c6r
daquele animal porque, se fosse preta, o Maestro teria
falecido instantes depois. Fellzmente, o cavalo nao era
fatidico. Alguem me contou o seguinte caso que bem
diz do espirito de desprendimento e a coragem invulgar
do nordestino. Terminada a costumeira missa dominical,
um sertanejo no Rio Grande do Norte se dirigia at6 sua
morada cerca de quatro quil6metros da cidade. De st-
bito, lhe surge na estrada uma onga. O ,sertanejo nao
perdeu a calma. Desceu de sua montada e amarrou o
muar numa Arvore. Em seguida, empunhou uma quic6
(faca pequena) e em posi.io de defesa disse o seguinte
sem pestanejar; "Nosso Senhor, se o Senhor estiver do






lado desta onga fazei corn que ela me engula logo e eu
nao sinta a dor da morte; se o Senhor estiver do meu
lado, fazei com que eu mate e1a com a minha quic.
Mas, se o Senhor nSo estiver nem do lado dela e nem
do meu, se assente all naquela pedra para o Senhor
presenciar a briga mais feia d6ste mundo". HA uma
regiAo io Nordeste na qual os.sertanejos costumam di-
zer qup a mulher para ser boa, precisa ser: pombinha,
galinha e formiguinha. Pombinha, cordata, nada recla-
mando e se conformando com tudo que o marido quiser,
achar e pensar; galinha, muito cuidadosa com os filhos;
e. formiguinha, danada para trabalhar. Certo home do
sertao se ufanava em dizer que a sua mulher era tao
formiguinha que, um dia nada tendo para fazer, mistu-
rou arroz corn feijio s6 para ir catar. M as, deixando a
parte humoristica, quero voltar a fazer outras apreciages
s6bre as possibilidades de progresso-existentes no Nor-
deste, naqueles anos perigosos e tristes que atravessamos,
gragas ao desprezo mantido pe os poderes pbblicos. Era
not6ria a falta de escolas publicas, nao havia postos de
saide para atender as populag5es desamparadas e cheias
de vermes, sempre sujeitas a toda sorte de epidemias.
Aisim vivia o povo do sertio A merc8 da pr6pria sorte.
Tamarha era a necessidade de mdicos que os sertane-
Jos sabiam onde os havia e seus nomes. 0 setor educa-
cional quase nio passava de uma utopia. Poucas ou
quase nenhumas eram as associaC6es de classes, os clubes
recreativos, grdmios literrrios e outras atividades da vida
cultural. Leonardo Mota, o querido Leota, que tive a
honra de conhecer pessoalmente, em seu livro "Violel-
ros do Norte" se referee a uma organlzagio liter-ria que
havia nos subirbios de Recite, chefiada por -um negro
semi-analfabeto que se arrogava de ser bom orador e
culto, uma vez que o seu' fraco era falar em phlico.
Entio. por ocasiAo da data comemorativa do descobri-






mento da Ambrica, 61e f6z um discurso numa organizamo
reckm-fundada e chamada Associae o Literaria. Vou ler,
na integra. Diz Leonardo Mota: "Contou-me em Vit6-
ria, Pernambuco, o acad6mico Pedro de Holanda haver
num arrabalde de Recife uma Associageo Literaria em a
qual tinha frequentemente a palavra um preto analfa-
beto, mas invencivel improvisador de bestialogia. Quan-
do na tribune, estimava que o aparteassem. Entio, todo
se inflamava e era uma graga vA-lb e ouvi-lo a dizer
disparates, convict do figurao que acreditava estar fa-
zendo. Por isso mesmo, a fama do "orador" cedo irra-
diou e uns rapazes estudant- :..-il para ir assistir as
tais "festas literArias" que, ordinkriamente, tinham efe-
tividade nos feriados nacionais. Os estudantes nio pe-
netravam na sede da "Associagio" e aparteavam, de fora,
corn dict6rios e para gaiddio do "sereno" os discursos
do negro verbose. Este, s6 perdia a calma quando o
chamavam "moleque". Num dia 12 de Outubro, o "ora-
dor" da "Associagio" discursava: "ASSIM CUMA
CRISTOVO CALUMO DISCOBRIU A AMERICA NO DIA
DE HQOJ. NOIS TAMBEM NO DIA DE HOJE INAU-
GUREMOS. ESSA ASSOCIAQAO E QUANDO ARGUM
DIA, PROGUNTAREM A ARGUM DE VOIS SE FUMO
NOIS QUE FUNDEMO ELA, VOCES TODO DIGA POR
UMA BOCA SO: FUMO, FUMO, FUMO". Nisso, algu6m
grita do, "sereno" :- Cala a boca, burro! E o orador,
entusiasmando-se: "BURRO, NO,., MAlI POREM
ARTIST! E O ARTIST i SIMIANTEMENTE IGUA
A UMA LOCOMOTIVE QUE ATRAV0ESA OS HORIZON-
TES DA VIDA E S6 BE PODE AVALUA MUNTO AVE&
XADAMENTE". Mas o aparteador insisted: Cala a
b6ca, negro!. Response o discursador, arregagando o
brago e JA cor a raiva Ihe iuzilando nos olhos: "ISWO
DE EPIDEMA DE CO PRETA, NAO PODE TI NINHUMA
INFLUENCE A. EU QUERO VZ & A BOA COMPORTA-






QAO DO INDIVIDO, SENDO QUE AS AQAO DE CANAIA
FICA DA PARTE DO SUJEITO QUE ASSIM PROCEDE".
Ouve-se, final, n'uma voz aflauteada: Cala a b6ca.
moleque! Ai quando o "orador" perde a calm e es-
murrando a tribune dela se retire exclamando desvaira-
do: POR ISSO P QUE ESSA MELECA NUM PRO.
GREDE".
Eu citei &sse caso para verificarem o seguinte. De
um lado, a justiga na mao de juizes, na maioria, naquele
tempo, venals e que se deixavam levar pelos caprichos
de chefetes politicos respons'veis por crimes e vingangas.
, oportuno dizer que muitos juizes se acovardavam dian-
te dos chefes oligarquicos dos sert6es. Ajudando a 6sses
absurdos e atitudes vergonhosas, havia delegados civis e
militares que tudo faziam para servir a viciosidade po-
litica reinante, inclusive protegendo criminosos profissio-
nais que passavam a ser "cabras" de contianag dos "co-
rondis". Pelo outro l1do, as secas castigando impiedo-
samente os sertoes nordestinos, acabando cor tudo. Ha-
via ainda, como ja disse antes, c descaso por parte dos
governor, que nio se lr.teresavamn T-menos do que hoje)
pelo solucionamento dos problems urgentes e imediatos
do povo. E, a frente de tudo isso, politicos inescrupu-
losos (ainda os ha em abundancia). frios e se interes-
sando apenas pelo solucionamento dos assu tos das suas
vantagens pessoais. Finalmente, concorrendo para tsato
InforAnio, a religiio deturpada que ameavavp Spas-csti-
gos e penas eternas. Eis a situacio do Nordeste naquela
fase triste e de horror. Jesuino Brilhante, Antonio Sil-
vino, Senhor Pereira, Chico Pereira, Luiz Padre, Lampiao
e tantos outros nio foram outra coisa senao produto da
condigio ambiental em que viveram. No foram bandi-
dos, absolutamente. Foram guerrilheiros rebelados con-
tra aquela condigio de misbrias que durante multo tem-
po infelicitou o Nordeste.

16






Todos bles foram um grito de protest dos sert6es
nordestinos contra as insidias political soclais e religio-
sas que tanto prejudicaram o progress e a felicidade
daquela region abandonada do Brasil. 2 sabido que a
maioria das volantes de policia em perseguigio aos cha-
mados cangaceiros constitula mais perigo para a tran-
quilidade do povo dos sertoes do Nordeste do que os
cangaceiros. Enquanto os chamados cangaceiros eram a
justia corn as suas pr6prias maos, esses policials eram
os cangaceiros em nome da lei, praticando horrores nos
sert6es. Lampiao foi o maior chefe de guerrillas no
Brasil. A diferenca entire fle e os guerrilheiros da Bo-
livia e de Cuba, 6 que estes tem ideologia, enquanto Lam-
piao,' brigou durante 20 anos e morreu sem saber porque
brigou, defendendo ricos e pobres. A epopeia dos can-
gaceiros nordestinos 6 uma pigina bonita na hist6ria
do Brasil. Se tivessem deixado Lampiao estudar, o Bra-
sil teria tido na sua pessoa um authntico lider national.
O tempo que me sobra 6 para falar s6bre o Padre Cicero
RomAo Batista, outra personalidade curiosa e que nio
pode ser tamb6m. analisada numa simple palestra. JA
verificamos que os governor foram os maiores respon-
sdveis pela condigAo de angfstia e atraso que durante
muito tempo reinou no Nordeste. Face a essa situaCgo,
tornava-ve dificil surgirem homes de moral e coragem,
capazes de tomar uma attitude definida em beneficio da-
quela gente sofredora. Possuidor de sentiments frater-
nais e por se compadecer dos pobres e desamparados,
logo se espalhou pelo Nordeste a fama de ser o Padre
Cicero, de Juhzeiro. um excelente conselheiro e orienta-
dor. Assim, verdadeiros exdrcitos humanos afluiam pa-
ra IA, sedentos de justice e de conselhos, al6m de o
sacerdote ter a paciencia necessAria, inclusive para ouvir
disparates de t6da natureza, por part de muitos, os que
mais mereciam compaixao. Era o pal spiritual de todo






o Nordeste, porque s6 a Nle os sertanejos confiavam suas
migoas e lamentos, dizendo os pianos e prop6sitos, can-
sados que viviam do convivio que nada em seu benefido
fazia. Vendo que os poderes publicos nao se interessa-
vam pelos problems imediatos das populag6es abando-
nadas, vivendo os governor divorciados das reivindica-
g6es populares, o Padre Cicero daquela gente se compa-
decia e, justamente, devido ao seu modo acolhedor e
fraternal, crescia cada vez mais a confianca do povo n61e
depositada. Antes de entrar neste recinto ful interrogado
se o Padre Cicero. recebia em Juhzeiro chefes de bandos
de cangaceiros. Ao que apurei, isto 6 verdade. por6m,
aquelas visits nao eram feitas corn prop6sitos crimino-
sos como acontecia quando a chamado de "coron6is" dos
sert6es que se utilizavam dos cangaceiros para os seus
c6lebres servicess". O Pe. Cicero mandava-os vir, secre-
tamente, para Ih6s aconselhar deixar a vida de cangacei-
ros prometendo indicar lugar onde poderiam. les iniciar
nova. vida. Assim 6 que mandou para o Estado de GoiAs
varios ex-chefes de bandos, dentre os quais Senhor Perei-
ra, Luiz Padre e outros, send que para surpresa nossa,
um deles chegou a ser, numa cidade goiana, suplente de
juiz. Achava o Padre Cicero ser essa uma forma exce-
lente de regenerar aqulres homes. Muitos deles tiveram
seus pais assassinados nas quest6es political. Como se
v6, sua obra s6cio-religiosa foi extraordinrria, patri6tica,
humana e louvavel, ben6fica e divina. O Padre Cicero
assim agia, baseado na teoria de Pontes de Miranda que
diz ser a mudanCa ambiental de suma importAncia na
regeneragEo do faltoso. Devido a isso, acusavam o Padre
Cicero de "protetor. de cangaceiros". Ale dizia sempre
para esses faltosos: "Voc6s nao sao criminosos, prbpria-
mente dito, e nem tem culpa dos crimes que praticaram.
Os verdadeiros criminosos sao aqu&les que, inv6s de da-
rem a voces 1apis, taboadas e cartilhas, dfo rifles; inv6s






de aconselharem o perdAo, ensinam como fazer embos-
cadas; inv6s de darem sementes e enxadas, dio balas.
Logo, meus amiguinhos, voces nao devem se considerar
culpados das mortes que fizeram. Uma vez que nao sa-
bem ler, coino enxergarem um palmo adiante do narlz ?"
Por haver chegado a hora de terminar, you contar
uma passage de LampiAo que tern Igaglo coni o Padre.
Cicero. Acabava aquele famoso guerrilheiro de dar corn-
bate a uma volante de policia. Quando descia um ser-
rote em companhia do seu grupo, avistou embaixo a
inica morada tosca e minfiscula all existent. Era uma
humilde casinha de palha. Cercou-a,-como era seu cos-
tume, e como ninguem respondesse, chamou outra vea
pelb dono da casa. Uma voz feminine disse que A ia.
Uma mulher maltrapilha, palida e corn fisionomia de
sofredora abriu a janela pequenina. Disse Lamplo nao
ser portador de nenhum piano de maldade e apenas que-
ria que ela Ihe trbuxesse o pote cor n gua para saciar
sua sede e dos seus homes, pelo que Ihe indenizaria.
Uma voz de home saindo debaixo de um cobertor ad-
vertiu-o que nao bebesse daquela Agua. Lampfao se irri-
tou com aquilo julgando que o liquid estivesse envene-
nado, conforme era costume da policia. Quando, por6m.
aquele home declarou ser um.morf6tico e assim proce-
dia. para evitar que a seu mal o afetasse, o cangaceiro
que presenciou contou Lampiao quedou im6vel ante o
gesto nobre daquele leproso. Duas criangas surgiram na
sala. Se compadecendo de sua sorte, o cangaceiro pen-
sou em retira-las dali. Medltou por alguns segndos.
De repente, ordenou a um dos seus homes que retirasse
daquela choupana as duas criangas.O morf6tico Ihe con.
tou uma triste hlst6ria. Disse que sua mulher havia pe-
dido-ao prefeito da cidade, no outro lado do serrote, ao
julz, ao deputado e ate ao vigArio para intercederem Jun-
to aos uodares competentes no sentido de os flhos serem






internados em urh col6gio do govmrno, mas que foram
infrutiferos os seus apelos, no prdp6sito de serem aquelas
crianQas afastadas de tAo desolador convivio. O guerri-
lheiro se refez, se transportando mentalmente para outro
setor de trabalho fraternal e human e ordenou a um
dos seus homes de maior confianga que se desfizesse
das roupas caracteristicas de cangaceiro, entregou-lhe
bastante dinheiro e ordenou que seguisse at6 Juhaeiro,
no Ceara, contasse aquele ocorrido e, em seu nome, pe
disse so Pe. Cicero que se encarregasse de acabar de
criar e educar aquelas vitimas da mal'dade dos politicos
dominantes. Eu disse antes que houve um tempo em que
eram contados a dedo os medicos existentes no Ceara,
quiga no Nordeste. Pois bem, naquele tempo, LampiAo e
Maria Bonita, como dois eximios parteiros que eram, pra-
ticaram, gratuitamente, em todos os sert6es do Nordeste,
a verdadeira caridade a parturientes, ajudando-Ihes a
"descansar", muitas delas embrenhadas no mato, a mui-
tas 16guas de distancia de cidades e vilas, sem urna viva
voz para Ihes socorrer. Em proporCgo ao nascimento
das crian4as dles iam batizando e sendo os padrinhos.
Muitas foram as sertanejas em. estado avangado de gra-
videz que fizeram promessa para que donaa" Maria Boni-
ta de suas casas se aproximasse na hora decisiva.
Agora, quero ceder a palavra.ao meu amigo e com-
panheiro Jolo Gomes Feitosa, hoje funcionLrio' autr-
quico e que durante lcngos anos deu combat a canga-
ceiros, inclusive Lampiao, como um dos components da
volante comandada pelo Major Optato Gueiros.

O Sr. JOAO OOMES FEITOSA:

Meu ilustre amigo Sr. Aldenor Benevides, Srs. Pro-
fess6res, Sr. Eurico Rocha e prezados discipulos. Me per-
doem abusar pelo adiantado da hora, mas ful aqul apre






sentado para dizer algumas palavras, nao passando assim
em branco a minha presence, principalmente quando fui
apresentado como um element que integra uma pequena
part do folclore nordestino e, porque nMo dizer, do fol-
clore brasileiro. Entao, possivelmente, os meus poucos
minutes de palestra irAo ser mais ou menos parecidos
cor o que acabastes de ouvir. Mas, para que nao vos
traga uma sobremesa de feijao para quem acaba de Jan-
tar feiJo, vou dar uma sobremesa diferente e nio vou
faser como Ivon Cury que nao seja doce de feijio. Creio
que satisfaz para o prato desta note e que servira para
o estudo que vos interessa agora uma parte quase da mi-
nha biografla, ligada aos tempos em que prestei serviqos
na ativa em uma das policies do Nordeste.
Em 1931, on por outra, Lampiao jd estava no cangaco
desde 1917. O Sr. Aldenor Benevides jd se referiu a mui-
tos casos s6bre "Lampiao, Jukzeiro do Norte e 0 Pe. Cicero
Romio Batista, muitos ddsses levados so conhecimento
do pdblico por intermtdio da imprensa. Em 1931 perdi
men pal e como morava em regilo onde proprietArios de
terras davam surras. em moradores quando famintos ti-
ravam algo da roca para comer ou vender pars comprar
remedios para os filhos quando adoeciam, me record de
muitos casos dignos de citasgo. Os proprietArios de ter-
ras compravam o produto do trabalho dos seus moradores
pelo prego que lhes convinha. Se houvesse qualquer
manifestagio em contrArio, eram surrados de chibata.
Quando por ocasilo da seca de 1930 um morador na
Paraiba de nome Vicente Preto, possuidor de trds mulhe-
res, t6das unidas e residindo na mesma casa com 61e,
teve que, para matar a fome dos sons crioulinhos, de ir
ao rogado do patrAo e de 1l tirar alguma mandioca pars
os alimentar. Tres dos seus filos estavam caidos pela
fome, sem energla para se levantar. Entao, Vicente le-
vou aqu6le alimento para casa reavivou um pouoo das






energies dos filhos famintos. Os donos daquela proprie-
dade, na epoca, Drs. Agnaldo Veloso e Joio Saum, man-
daram chamar Vicente Preto para Ihe darem uma surra
porque Mle havia roubado mandioca. Vicente conduzia
sempre uma espingarda daquelas que disparam com es-
poleta de papel, muito conhecida no Nordeste. Ao subir
os degraus da casa do chefe da fazenda, o bom-dia que
houve foi um disparo. Vicentp Preto langou mio de uma
faca-peixeira e se atracou cor o Dr. Salim, tendo tido
inicio uma luta corporal entire os dois. A certa altura
da mesma o Dr. Agnaldo surgiu acompanhado de um
terceiro e assim, Vicente Preto, fraco e cor poucas f6rgas
devido .a situaCo da seca, foi por l6es dominado. Quan-
do aquela briga acabou, Vicente estava amarrado e rece-
beu diversas pancadas seguidas de enorme- surra. Algu-
mas horas depois, levaram-no para o pc da serra e 1l
chegando, --' ste que vos fala nao presenciou as cenas
que se sucederam, na presenga dos espancadores de Vi-
cente mas, escondido, devidamente, vi, a duzentas bragas
de distAncia sem que f6sse localizado pelos criminosos,
quando Vicente foi amarrado e em seguida-escutei dez
tiros de rifle. No dia seguinte, querendo satisfazer a mi-
nha curiosidade de jovem, por ls passel e vi uma cova
coberta de terra fresca. Nio a descobri porque isto iria
constituir s6rio perigo para mim. Presumo que all foi
o Vicente sepultado porque ouvi quando aqudles covardes
disseram que, para todos os efeitos, Vicente havia fugido.
Foi na terra dresses homes que eu fiquel. sem pal. Filho
de viiva pobre e corn muitos irmaos menores tive que
enfrentar muitas dificuldades, inclusive trabalhando de
sol a sol por oitocentos. r6is, o salario que consegul na
6poca. Algum tempo depois resolve ir para a Capital do
Estado onde verifiquei praca na policia. Quando passel
a pronto, tive a infelicidade de me defrontar corn a re.
volucao paulista de 1932, tendo logo sido alistado para ir






combater na mesma. Depois de realizar algumas viagens,
cai num ninho de metralhadoras tendo, por6m, felismen-
te escapado, sem nenhum arranhdo. Perdido dez dias no
rzato, consegui me agrupar a cinco companheiros e cor
dles segui destino ignorado, tendo o cuidado de disfargar
o sotaque nordestino. Diz um adagio popular que, quan-
do a mentira 6 para o bem, pode ser usada. Pois bem,
quando iamos chegando nas fazendas paulistas, diziamos
que 6ramos nordestinos residents hA muitos anos naque-
le Estado e que haviamos sido recrutados para combater
a favor de S~o Paulo. E assim, fomos nos mantendo.
Ficamos, entao, sabendo que o R. G. do Sul brigava cor
Sao Paulo e cor Pernambuco; Fomos nos apresentar A
policia de Pernambuco. Era, entao, comandante da mes-
ma o hoje General Bizarria Mamede, CapitAo comissiona-
do de Coronel para comandar a Brigada de Pernambuco.
Fomos incorporados aquela unidade. Foi dali que eu co-
mecei a tirar uma conclusio face ao procedimento da po-
licia do meu Estado, naquela 6poca, que era composta
de cangaceiros fardadcs. Ao completar o tempo de ser-
vico, ja de. regresso nu Nordeste, tentei veneer na agri-
cultura, mas nada consegui. Vi-me obrigado, assim, a
retornar A vida da caserna. Foi quando houve um con-
venio entire os Estados nordestinos para o combat defi-
nitivo aos cangaceiros que eram chamados tamb6m de
bandidos. Fui designado para fazer parte de volantes.
Tenho a honra de dizer que servi sob o comando do de-
cente e brioso official, naquele tempo, Tenente Optato
Gueiros, posteriormente Capitio e depois para a reserve
no posto remunerado de Major., Na f6rga sob o coman-
do de Optato Gueiros, que era sediada na fronteira de
Pernambuco corn Alagoas, eu tive a felicidade de servir
corn um official que nio fazia e nem consentia que nin-
guam fizesse injustigas ao pacato sertanejo, desamparado
no mato, sem instrucio e sem a minima assistncia por






parte de quem de direito. Eu estava- em mission sob as
vistas de officials da mentalidade de Optato Gueiros que
ensinava se proceder condignamente, sem os instintos
bArbaros e revoltantes da maioria dos seus colbgas. Al-
cancel um tempo em que o banditismo progredia, mas
dentro daquele period teve de decrescer e o que teste-
Ihunhamos do banditismo 6 que quando acabou nos del-
xou saudades, nao s6 pela influencia de n6s sermos os
seus perseguidores porque, em muitas ocasi6es se chora-
va lIgrimas de sangue, mas, em outras, se comia manjar
do c6u e se tinha uma vida divertida, tejtemunhando as-
sim o lado positive e o negative da vida que levamos.
Sou testemunha de ages nobres praticadas por Lamnpio,
denotando sua c6lera e o seu instito de revolt ante
tanta injustiga e indignidade. Se nio me falha a me-
m6ria, em 1948 ou 1949 Optato Gueiros passou pela Bahia
e, me reconhecendo, presenteou-me cor um exemplar do
seu livro "Lampilo memrrias de um official ex-coman-
dante de f6rgas volantes'. .Assim se referiu Optato para
m'mn: "Joao Gomes como era eu tratado na tropa -
me pediram uma fortune para publicar 6ste meu Rvro.
Em vista do prfgo elevado, deixel de relatar n6le miitas
coisas interessantes e que poderiam servir de documents
hist6ricos. Mas, para voce ter uma lembranga do seu
velho comandante, ai estA mencionado no livro o seu no-
me". Entio, no relato, dos pequenos combates, Optato
assinalou meu- nome cor uma caneta, fazendo uma seta
para que, quando eu abrir o livro naquela parte, me lem-
bre d6le. Sste exemplar do livro de Optato Gueiros vem
sendo por mim guardado como uma preciosa reliquia.
Optato pretendia relatar que Lampiao, dias -era como
uma ovelha, dias como um tigre, era um grande parteiro,
eximio enfermeiro e tratava do seu pessoal cor o mixi-
mo carinho e especial dedicago. A ordem e a discipline
no seu, grupo, faziam g6sto. Depois de haver Maria Bo-






nita Ingressado no seu grupo, o respeito passou a impe-
rar. Nio havia no grupo de Lampiao excesses de bebidas
e ningubm desrespeitava mulheres e families. ,A discipli-
na era um fato. Como soldado de volante que fui, du-
rante muito tempo, concordo corn o Sr. Aldenor Benevi-
des quando afirma que Lampilo foi simplesmente um
guerrilheiro por circunstancias da dpoca. Nada mais pos-
so adiantar de uma palestra dessa, porque sei que estou
cansando os presents.

O. Sr. EURICQ CORDEIRO POCHA:

Eu, anunciado como folclorista ? ~. bondade dessa
gente. Quero contar dois casos pequenos, um de sabor
brejeiro e um de sabor literdrio. Leonardo Mota foi um
home que levantou o foldore do cangaco e escreveu
quatro livros. Cont6m no livro dele, recim-editado, "Ser-
tao Alegre", uma historia muito engragada, s8bre um ra-
paz que sempre viveui no interior do Piaui e saiu para
tentar a vida em Parnaiba. La chegando ficou abismado
porque nunca tinha visto coisa. igual. Escreveu, entao,
uma carta para a mae dele, descrevendo a cidade. Vou
l1r a carta para voces, na linguagem dele. Escreveu 6le:
"Mamae. Parnaiba 6 uma cidade monarca de grande.
De manhAzinha se alvoroca tanta gente na beira do rio
que parece formiga ao redor de lagartixa morta e quase
tudo e trabaiad6 cagando garno. 0 mercado 6 outro
despotismo. Se arreune mais povo do que na desobriga
quando o padre diz missa na capela dos morros da Dona
Chiquinha. Tudo se vende, de tudo se faz dinheiro. Fi-
quel besta de espia gente comprando maxixe, quiabo, li-
mio azedo, fblha de Joio-Gome e int6 taiada de girmum.
O passadio daqui 6 bom. Todo o dia eu como pio da
cidade cor manteiga do reino. Mamie. As coisas aqui
sao muito deferente e adversas dai. As casas sao apre-






gadas umas nas outras que nemr casa de maribondo de
parede e 6 quase de telha e atijolada e tern umas calgadas
e forrada de tauba pru riba que nem gaiolk de xexdu e
se chama sobrado. Gente rica 6 em demasia. Inda 6nte
numa loja eu vi uma ruma de dinheiro de cobre no chio
que parecia juA quando se ajunta mode dar pra bode em
chiqueiro. Mamie. A igreja faz int6 sobr6co de grande
b alta. Cabe dentro dela todos os morad6 da Barra das
Lage, do Bom Principio, da Fazenda Nova e ainda se
adquere lugar para mais de cem vivente. O povo daqui
ter um sestro munto engragado. Nio diz "6 de casa",
nio; quando chegam nas casas alheia, bate 6 palma co-
mo quem estruma cachorro mode acua tati no buraco.
Mamie. A luz aqui 6 feita num tal de gazome. NAo pre-
aisa pavio nem trucida de algodio mode acend6. i s6
distroc6 uma torneira como quem tira cachaga de anco-
r6ta e riscar um f6sco que a luz acende biatamente e tio
culara que faz 6 gosto. Se o cristao nio acend6 mais
que depressa espaia um ch6ro de ceb6la podre danado,
diz pru via dum- tal de carabur6to. Mamae. Aqui tem
um j6go chamado biA que num hat diabo qui intend
mais porem, s6 joga nele gente de famia. I arredor du-
ma meza grande forrada cum pano como bai de pregaria
e os jogado segurando umas vara mode empurrar uma
bola que 6 v6 6vo de ema. Quando estio jogando de por
visto dois mexed6 de faritha numn f6rno de barro, ajei-
tando os r6do mode nao desmanchar os beijf. Mamne.
Aqui tem tamb6m uma latejo invisive que 6 um tal de
cinema. P s6 a musga tocA, aparece uma figure de gen-
te, de animal e de rua, tudo prefeito, mesminho, como
se estivesse vivo e bulindo. O cinema 6 um pano estica-
do parecido corn vela de embarcagio e 6 a coisa mais
bonita e mais encantada que eu JA vi. MamAe. Cheguel
6nte da Tutoia. Fui nas barca da Companhia Busse mo-
de trabaiA num vap6 inguilez, ganhanfo dois minr6si por

26






dia e quatro pru noite. Na Tutoia a gente v0 o mar inte
onde 6le encosta nas parede do c6u. As barca sacode a
gente chega faz d6 de instampo e vontade de vomitar
qui nem urubi novo, tudo isso pru via de desassusego
de mar. O vap6 inguilez 6 um paid6gua de grande, mai6
do que a vazante de fumo do compadre- Domingo Preto
e mais alto do que o p6 de tamarina da port 1a de casa.
Os purio de bota carga sao tao fundo que escurece a
vista de cristio que espid. MamRe. O pessoa que mora
no vap6 sao tudo branco rosalgA, 6io azu, cabelo vremeio.
A fala d6les s6 pro diabo, nAo hai no mundo quem in-
tenda: 6 uma embruiada como de priqulto em roga de
milho novo. Sao danado por papagaio on por uma gar-
rafa de geritiba. Quardo os inguilez falam uns corn os
outro 6 uma trapaiada direitinho a de tia Damiana adis-
pois qui teve a molestrit do ar. Outra coisa engragada que
eu acho nos inguilez do vap6 6 tudo se chami piloto,
mode coisa qui os padre da terra deles nAo batizam nin-
guem corn outro nome. Preu Ihe conta tudo direitamen-
te nio hai papel que chegue. Vou acabar pruqug j4 me
d6i as bdnecas dos dedos de eu tanto escrev6".
Vou dizer agora um pensamento rimado de um gran-
de cearense, Quintino Cunha que foi so Park editar um
livro s6bre o Amazonas. Entlo, em visit a Universida.
de do Para, pediram que Mle deixasse o sinal de sua
visit all. Escreveu 61e :

"Na hist6ria da teimosia
Entre a rudeza e a arrdg&ncia,
i tao forte a ignorAncia,
TAo cruenta, tao mendaz,
Que a pr6pria sabedoria,
De tudo sabendo tanto,
NAo pode saber do quanto
0 ignorant 6 capaz".






ARMAZEM ORIENTED
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luazefro do Norte Ce.


MALARIA VENESA
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lnfeccies e geral Velas em grosse e a vrej
FILIAIS: R1A SUII LUIZU, 316 FORE: 2-948 JUaUElO DO OItKE-CE.
RUI SEM PI MPEU, 958 FORITLEU CE.
MAT? RII 1 SIO PEDRO, 533 FORE: 2-948 JUA1EIo DO DOITE-CE.


BAMtC E@ CEEAA 5/A
"UM BANCO SEU AO SEU LADO"

Filiais: Juazeiro do Norte e Sobral Ce.
Matriz: Fortaleza Ce.






ApresentaCio de PAULO NUNES BATISTA

Paulo DANTAS

Pede-me o Benevides umas palavras de apre-
sentacio do seu grande amigo Paulo Nunes Batis-
ta, o rei dp folheto popular em Goids e adjactn-
cias. Nao poderia a isto me furtar, j& que falar
do xarA 6 falar da alma popular, que tanto adoro
e luto por ela.
Paulo Nunes Batista 6 o que se pode chamar
de um cabra curtido .e sarado na arte da vida e
da poesia popular., Autor de mais de quarenta
folhetos publicados, muitos dos quais com mais
de duas edig6es, Paulo Nunes Batista safreja poe-
sia por todos os poros, num bom empenho de ri-
mas e cadencias, de ritmos quentes, de achados
populares.
Nasceu com a poesia na massa do sangue,
descendente de ilustres cantadores do Nordeste,
tanto do lado paterno, como materno. Nio nega
fogo e despeja forte, a todo instant evidenciando
sua estirpe ritmada, que se faz pronta e inteiriga
A menor solicitagio amiga.
Conheci o Paulo Nunes Batista na ifltima Se-
mana Santa, levado pela mao do Benevides, que o
adora tanto. Foi nesses corumbas de goids, num
lavap6s dos humildes. Impressionou-me a fibra,
a luta, o carter, a garra e a inspirago do home.
JA o conhecia de nome atrav6s da leitura de um
"abc"' dedicado a Bernardo Sayao, uma das me-
Ihores coisas que ja 1i, em versos, s6bre o riosso
her6i teldrico do oeste.





Alma lutadora do oeste, Paulo Nunes Batista
jA se aculturou em Goids, Estado onde vive hA
mais de vinte anos. Veio da Paraiba, terra ,que
segundo Cavalcanti Proenga deu e continue dando
os melhores'e mais autenticos versejadores do po-
vo, os nossos mais legitimos cantadores de feira.
De olhar vivo e incendiado, Paulo Nunes Ba-
tista 6 uma fera de inspiraCgo quando.piega um
tema na media. O verso brota n6le como uma
fonte, jorra numa espontaneidade admiravel. Le-
va a rima para onde quer, dando seu recado na
praga.
Motivado, bem engraxado nos cascos alados,
Paulo Nunes Batista ter qualquer coisa de apo-
calfptico na sua densa inspiraCgo. Em rajadas de
luz e fogo, essa inspiragio .ja me tonteou varias
vezes, cor seus arrancos e cor seus espantos.
Nordestino atW a raiz dos cabelos, Paulo Nu-
nes BatYsta jA conhceu seus instantes de gl6ria
literaria, quando foi citado pelo grande. Manuel
Bandeira em "Andorinha, Andorinha", j6 figuran-
do em diversas antologias.
Nas bancas de jornais e revistas em Sao Pau-
lo, vi varios folhetos seus, editados pela "Preludio',
e, agora, bern me lembro que o conheci, vibrant
e atuante, participando de um Congresso Brasilei-
ro de Escritofes, em Pfrto Alegre.
Meu conhecimento mais intimo e profundo
corn o xarA data, pordm, de pouco tempo, quando
o visited em Corumbi de Goias, onde 6 modesto
funcionArio pfblico, vivendo ao lado da sua musa
cabocla, essa paciente e admiravel Eulina, que JA
deu ao poeta, sete filhos.
30







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A AGUA Mie dos s&res vivos,
de que o Sol, na Terra, 6 Pai;
AGUA dos Rios da vida,
que p'ro Mar da Vida, vai;
AGUA I Salvai da Mis6ria
o meu Nordeste I Salvai!

B Brotai dos Olhos, da Magoa,
das Chagas Subi do Chio:
dos leng6is subterrAneos
vinde, em clara florago,
florir em flares de Paz
para perdoar o Serto I

C Chovei, s6bre a Dor das Almas
Cangaceiras e Profetas I
Chorai, na Grande Pobreza
cantada pelos Poetas!
Correi, socorrendo a SMde
das Gentes Analfabetas...

D Descei dos C6us Agua Santa I
Subi dos Pogos Profundos
onde aguardais o Mandado
do Grande Senhor dos Mundos!
Lavai as Manchas do Carma
dos deuses meditabundos...

E Em busca de V6s, no Espago,
sobem dedos vegetais,
crispados nos Desesperos
das S6des Descomunais -
voam Promessas e Preces,
em misticismos mortais...





F Fundi vossos Amazonas,
Sao Franciscos, Tocantins,
Araguaias, ParanAs :
AGUA vinde dos confines
dos Infinitos! Mas, vinde,
pelos naos ou pelos sins!

G Guardada, do Subsolo
no Seio, em rios esconsos,
a quem servis, 6 Mae Agua,
surda-aos Aflitos Responsos? I
Vinde Inundai o Nordeste
de Iguagus... Paulos-Afonsos I

H Ha, hoje, Agudes imensos,
como o gigantesco Or6s;
Araras, Banabuit,
Lima Campos -- onde V6s,
6 AGUA-- servis aos grades,
nao servindo ao Povo 08 j6s!

I *- Irrigado, sendo, um dia,
o Sofredor Chgo-Nordebte,
AGUA, a correr nas Caatingas,
AGUA, a rolar pelo Agreste:
o Poligono das secas
sera um Jardim Celeste

J JA se conhece o Rem6dio:
Os Pogos Arteslanos
Sao a soIucEo das S8cas
com seus Dramas S6bre-humano.
T. Jan6r fez, em Paulista,
UM para os Pernambucanos.







L LITROS, so de Agua Potavel,
jorra, isse POCO, por hora,
MEIO MILHAO. No future;
de CINCO MILHOES pra fora!
Corn CEM POCOS ARTESIANOS
mais nunca o Nordeste chora!

M Milh6es e milhbes de litros
de AGUA se podem tirar
de um so poco artesiano
para as terras irrigar.
Em vez de prender as aguas
vamos "as AGUAS rolar"...

N NORDESTE Berqo de Bravos:
Henrique Dias... Poti...
de Joao Cabral, o Poeta...
do C6co... do Sapoti...
teu Serto sendo IRRIGADO,
quem fugiria de ti?

O Os aqudes estio cheios!
Mas... a seca CONTINUA
EXPULSANDO OS NORDESTINOS,
na penitincia mais crua...
"AGUAS PARADAS NAO MOVEM
MOINHOS" nem 1l na Lua!

P Pentecostes, Feiticeiro,
Or6s e Varzea da Ema,
sao agudes fabulosos:
por6m, da SECA, 0 PROBLEMA
PERMANECE, NO NORDESTE,
que sofre, em peniria extrema!






Q Quem'sta por dentro, bem sabe
o SOFRIMENTO de 1 :
PARAIBA, PERNAMBUCO,
PIAUt E CEARA,
estio SECOS, no Sertao,
A espera do "deus-dara"...

R Regido que sendo skca,
sempre foi deficitAria,
seria se recebesse
IRRIGAQAO NECESSARIA:
do Progresso do Brasil
Potencia Extraordinaria!

S Sete Estados do Brasil
vivem, da SACA, na CRUZ:
Area enorme do Sertio:
nas SECAS -r nada produz
al6m de LEVAS MENDIGAS
de ESFAIMADOS... SEMI-NUS.

T Todavia, do Govrno,
depend encontrar-se o "x"
dessa Equagao que hA 3 seculos
desafia este Pais:
ELIMINANDO, DAS SeCAS,
A TRISTE HIST6RIA INFELIZ

U UM S6 PCQO ARTESIANO
IRRIGA LiGUAS, AL;M...
Para exterminar as SSCAS
nao precise mais de 100
DEUS que ha muito sabe disto -
2 NORDESTINO, TAMBAM!






V Vinde, Fa6ra Soberana
dos Infinitos Espa;os I
Descei ao Chio do Nordeste
na Uniio de Muitos Bragos:
ARRANCAI A AGUA QUE DORME
DA TERRA EM FUNDS REGA(POSI

X -. Xiquexique, Unha-de-gato,
GravatS, Mandacaru
"- vio transformar-se em FEIJAO,
MILHO, ARROZ, CABRA E ZEBU:
se o NORDESTE tiver AGUA,
em vez de rato e urubu...

Z Zombar "dos que vem de long"
sem Terra, sem Pao, sem Paz,
mesmo se falando em Cristo
e servir a Satanas...
0 AGUA! Salvai Meu Pove
do Satanismo Voraz 1 ...



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