Alma lirica sertaneja : poesias populares

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Material Information

Title:
Alma lirica sertaneja : poesias populares
Physical Description:
94 p.
Language:
Portuguese
Creator:
unknown
Publisher:
Editora Amfitrite Ltda.
Place of Publication:
Ceara?
Publication Date:

Notes

General Note:
Folk poems by Caninana, and others.

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
All rights reserved by the source institution.
Resource Identifier:
aleph - 003155590
System ID:
AA00000289:00001

Full Text





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Poesias


Populares


AhMA hlBICA SERTAHNEA





Editora Anfitrite Ltda.
1952







APRESENTACAO AO PUBL1CO


A <(Editora Amfitrite Ltda>. resolve
publicar esta coletanea de poesias popu-
lares recolhidas do antigo Estamos no tempo do modernismo.
Modernas so, as canr5es de radio. Mas
nao sao estas as que melhor falam ao
coradao do povo.
Toda vez que se cantam modas an-
tigas populares nota-se qne o povo as
aprecia e aplaude com gosto e entusi-
asmo. Sao realmente as mais belas e
sentimentais.
(Alma Lirica Sertaneja> se intitula a
a present coletanea de versos genuina-
mente populares,- que muitos dos serta-
nejos sabem quasi de coj. Dentro dessas
can6es rusticas, desses madrigals e di-
tirambos vibra e palpita em estos alma
lirica da gente do sertao. E' precise que
se Ihe ponha nas maos Isto de que ji
senate falta-e de que certamente esta sau-
dosa-a sua antiga poesia. E mais algu-
ma coisa.
E' isto o que ora fasemos n6s
OS EDITORS










0 Seringueiro


(Do cantador CANINANA-Ceard)


Eu vou ver se introduzo
A vida do seringueiro;
De noite esta na barraca,
De dia esta na madeira (50)

Vou principiar minha vida,
DWs que me dispuz a embarcar,
Sai do centro (51) e segui
Pro hotel no Cearh.

Luxei, bebi, passei bem,
Foi a vida irregulA,
Achei uma diferenca
Perto da beira da praia
No dia de me embarcar:

A mare cheia de mais,
Pegou o dia a ventar,
O mar se encheu de calombos, (52)


(50) Estar na madeira 6 o mesmo que esta cortando
a seringueira.
(52) Cenfro: interior do Estado.
(53) Calombos: 6ndulag6es nas aguas,






-2--


Comecou bote a virar.
Isto 6 contrariedade
De quem disp6e.se a embarcar.

Como 6 o embarque em vapor,
Como eu hei de contar:
Que a comida 6 muite ruim,
Mas peior 6 enjoar.

Ja principiei a viagem
Vou deixar ela de m&o (53)
Vou principiar de novo
Chegando no barracao:
Crece a saude e a amizade
Encontrande um bom patrao.

Agora you me aviar
Do que tenho precisao,
De jaba(54) e do arroz,
Da farinha e do feijao.

Mosquiteir6 para o sono...
Do cafe e do bulhio, (55)
Um aduzia de tijelas,
Feixe-me a conta, patrao.

De manha sahi A estrada,
Sem nela saber andar,
Com a machadinha na mio

(53) Deixar de mao: abandonar
(54) Jabt,-carne seca do sul, xarque
(55) Vaso de guardar o leite da seringueira






--3-

Corta aqui, corts acolA,
Coldcando as tijelinhas
Cada qual em seu lugar.

A' tarde volta a barraca,
Sem descaneo ao corapao,
Num brago conduz um rifle
No outro levo o bulhao.

A vida nao 6 tao boa.
Quem quizer va exDerimentar.
Se o colher (56) 6 muito ruim,
Mais peior 6 o defumar (57)
Ainda cortar cavaco,
E depois ir mariscar. (58)

Quando ele alcanga saude.
V6 a sorte em quanto dA,
Colhe todos seus trabalhos,
Sae sua conta legal.

Mas quando dA o cajiorismo,
Em tudo bate a sezao,
O beriberi aparece,
Incha perna e incha mao.

Da o.golpe cor a machadinha,
Nao v0 o leite gotejar;

[56] Colher o leite.
57] Defumar:-processo de passar na fumaga o leite
a coagular-se.
[58] Mariscar: quer dizer, pescar.






-4-


Cavaco ele nao encontra,
E nem aonde mariscar.

DA pinhum (59) da muripoca,
Encontra o passo(60) jacare;
Perdido na mata, encontra
O choque do puraqu6 (61)

Com beriberi nas permas
JA nao pode mais andar,
DA sezao e muda a cor,
Olhe o bucho pracola.

Improviso estas cousas
Que se da cor o seringueiro,
Perdeu cor, perdeu saude,
Perdeu credit e dinheiro.

Agora quanto a chegada
Quando vae p'ro CearA,
O resultado 6 o veixame
O rebuligo que ha.

Valentim e seu Nogueira
Joao Martins e Ponciano,
Antonio Ferreira e Barroso(62)
E' quem se vO nos veixames.



f59 Pinhum-mosquito de grande ferrao
60] Passo: quer dizer o bicho.
61[ Peixe eletrico do Amazonas
62 Donos de hospedarias em Fortaleza






-5-

Tratando destes doentes,
De molestia tio tirana.

Mais algum hotel que ha'
Passam por estes tormentos,
Sem ter maior resultado,
Passando por inocentes,

Sem receber os dinheiros,
Sem ter nenhum pagamento,
Da' saude a todos eles
Salvando estes doentes,
0 hotel do Ceara'
E' quem pass esses tormentos.




Adeus Cachafa

Eu que sou livre; nesta terra livre
Filho do indio, deste chao de bravos;
Canto a cachaga-que faz forte o frace,
Canto a cachapa-que nio faz escravos
Si 14 na gruta jd Page o antigo
Sondava arcanos, conversava aos Piagas
E' que a jurema e o cauim amigo
O remontavam do porvir nas vagas,

Moys6s, fugindo, sufocando em sede,
Pede agua a rocha-onde bebe o povo;
E' que fugiam: nao merecem fracos





-6-

Que a mandureba(63) Ihes de sangue novo,
Porem se um trago de cachaca forte
Lhe fosse ao craneo percorrendo as veias,
Todo ease povo que fugia a morte
Voltara ao Egito a rebentar cadeias

WVde essa Grecia que guerreiros cria.
Vede essa Roma produzir um Graccho?
E' que essas terras, tao fecundas em hervas
Criavam filhos adorando Baccho!
E pode Newtongresolver problems,
E pode o palco possuir um Talma,
E o calckta rebentar algemas,
Sem que a cachaca ihe estrebuche n'alma?

E que seria dos guerreiros nossos
Sem tu' cachaca na medonha guerra,
Onde Barroso triumfou no mar?
Onde Sampaio foi heroi em terra?
No chao gelado dos imensos pampas,
Que foi sudario dos le6es do norte,
Largai cachaga nas geladas camps
Que ainda podem resurgir da morte.

Mas eu que te amo, que te adoro-santa
Quebro hoje a taga qual poeta a lira;


63 Mandureba, 6 vocabulo muito popular no CearA
cor a significapBo de aguardente. No'norte esta pala-
vra ter dezenas de sinonimos, todos de indole popular:
cana, jurubita, grog, sinhasinha, a branca etc. etc.. Estes
versos sdo da lavra de Luiz de Miranda, um notavel ju-
rista, sem profundos estudos, que floreceu em Fortaleza.






-7-

E torno ao mundo, s6 de pluma amada
Nao.,. nao ti quero conduzir a pira,
E tu' que do home as ideas sondas,
Bern sabes, santa, que nao mais ti quero;
Mas, se do mundo naufragar nas ondas.
Oh! A ti volto cor amor sincere.


Infelicidade de um agricultor

Nio quero fazer a plant,
Que a sorte vem contra mim:
Planto cana nasce alpista.
Planto arroz, nasce capim.
Plantei mandioca branquinha
Na terra de bons canteiros,
A raiz era em cabelos
Da grossura de uma linha.
Mil eovas nAo deu> fMrinha
Que desse para uma janta(65)
Toda goma de uma arranca(66)
N&o deu uma tapioca(67)
Como vou nessa derrota
Nao quere fazer mais plant.
Usei de plantar cafe'
Quando nasceu foi quandi.


65) Um jantar.
66] Toda mandioca tirada da terra.
67) Especie de bejd






-8-


Botou fruta de jact
E semense de inhare',
Sei que a sort n~o me quer
Por essa maneira assim;
Eu plantei um gergelim,
Deu um puro carrapicho.
Isto 6 por um capricho
Que a sorte vem contra mim.

Usei logo plantar furno,
Meti a enchada no chao,
Veio um malvad,, pulgao
Oue de tudo levou'ruipo,
Aproyeitei p'ro consume,
Pois lA em casa todos pitam(68)
Botei mel de canafistula,
Para ndo perder o trablbho
Tudo virou foi pacalho(69)
Planto cana nasce alpista

Usei plantar gerimum,
E nasceu foi melarcia
E fez uma tal rodia,(70)
Que uma fruta nao se acha
A ro9a virou uma pasta
Que parecia um jardim
Sei que a terra nao 6 ruim
Que nao plant em capoeira(71)


(68) Fumam
(69) Fumo de pessinia qualidade
(70) Enrolada em forma de rodilha
[71] Mato ralo







-9-


Tudo virou tamboeira,(72)
Planto arroz nasce capim.



O Dinheiro
[PARAIBA]

Senhores, me deem licenga
Que eu agora vou conta
0 dinheiro quanto 6 bom,
Quanto tem e quanto hA;
Quanto pesa e quanto mede,
Quanto deu e quanto dA.

Dout6 quando v6 dinheiro
mete em qualquer questao,
ida um filho mAtando o pai
Ele diz que ter razio,
Por estas e outras cousas
Traz o dinheiro na mao.

Eu estava no sertlo
Me botei p'ra capitA.
DA licenga senior Bispo
Eu nao vim lhe visit,
Quero caesar c'uamana,
Ber me pode dispenser.


(72) Fruto mal nascido, peco







-10-


O Bispo cogou a barba
Passeou p'ra 1l p'ra ca
Perguntou se traz dinheiro,
Para poder dispense,
Escreveu p'ra freguezia
Mandando o padre casa.



0 Inverno
(PARAIBA)

Quando para o mez de festas(73)
Para entrada de janeiro,
O povo pega escutar
Quem ouve o trovao primeiro

Ahi cresce o nevoeiro
E na forga da lua
O inverno continue,
Molhando o taboleiro
Traz agua aos balseiros,
Riachos e rios
Vao desembocando,
E as aguas afastando
Tomam logo os baixios.

NAo ha vida tao content
a

[73] Dezembro






-11-


Quando o ano 6 bom de inverno
Que no ceu ronca o trovio.

Ahi os astros troveja,
Escurece o nascente,
Retumba o poente
E as aguas alveja,
E just que veja
Zoar a solidao
Abre e fecha o relampago
Estremece o campo
E corre a zelagdo.




0 Cavaco
CRATO-CEARA

Um cavaco como eu dei
Nao cuidei que tal houvesse
Todos os paos da catinga
Um tal cavaco nao desse

Nem pau d'arco, nem batinga,
Nem louro, nem gameleiro,
Nem cedro nem cajueiro
Nem 6ipo' parabatinga,
Nem pao seco da catinga
Tal eavaco nio criou
Mas sb por causa de eam6,,
Desprezei meu coraglo,







-12-


Estes paos todos ndo dao,
Um cavaco como eu dou

Nem imbri. nem imburana,
Nem inga nem ingahba,
Oiticica ou tatajuba
Trapia ou cajarana.
Eu bem sei que o pau corana,
Para mim se inclinou,
Eu sofro todo o rigor,
Contra minha sorte craian(74)
Nem a propia sapucaia.
DA cavaco como eu dou.

E nem nas matas do sul
Tupy, serem, muricy,
Burrarcma e cunduru'
Amarelo e pau Kbrasi,,
Nemr pinbo e nem calumbi,
Nem Frei Jorge e ner tambrr,
Madeira superior.
MarmGta e coracio,
Estes phos todos nao dao,
Um cavaco como eu dou.

Nem bom tom e nem bamborra,
La nas matas do Sop6
Nem mascate e mucambo,
Nem, angico e nem so6,
LA nas matas do CoitB,


[74] Ralha






-13-

Nem piaba on roncador.
Nem mesmo espinheiro em flor
Todos os paos do sertso,
Todos todos nao darao
Um cavaco como eu dou



56 voga quem ter dinheiro
[PARAIBA]

Nesta vida transitoria,
A base mais principal
E' ter o seu capital,
E tudo mais B historic,
LA no tribunal da gloria,
Regula Deus verdadeiro
Porem ci no mundo inteiro
Em quanto a mim me parece,
Que quem nao tern no merece,
So voga quem tern dinheiro.

Neste mundo vaidoso
Quem 6 rico 6 mais que tudo:
Passa logo por sizudo;
Inda sendo mentiroso;
E' tido por generoso
Talvez seja um caloteiro
Inda sendo um aveutureiro
Porem como ter moeda
Todo defeito se arreda...
S6 voga quem ter dinheiro







-14-


Um home pobre e de bem.
Fiel que fale a verdade,
Na melhor sociedade
Nao fala nele ninguem
E quande a falar se vem,
E' por modo passageiro.
Figurando -um jornaleiro
Trabalhador e de !e;
Fora disto nada e...
S6 voga quem ter dinheiro.

Um pobre tenha razao
Corn o rico pegue em luta
Sem dinheiro nada avulta,
E no fim perde a questao.
Paga as custas, perde a agao
Isto num tempo ligeiro;
Pois basta ter o ponteiro
De s6 viver em pobreza
Para nqo achar defesa...
Sb voga quem tern dinheiro.

Dinheiro em grande porgio
DA honra e capacidade
Da respeito e qualidade
A quem 6 quasi carvao
DA aos homes posicdo
De chegar a brigadeiro
Faz-se tornar marinheiro(77)
O pardo que 6 um ricago;


[77] Marinheiro: home branco







-15-


Corn cor ninguem se embaraga..
S6 voga quem ter dinheiro.

Um branco fino da eOr
Pobresinho como Job,
E' ninguem, 6 nada, 6 p6,
Para o rico 6 ser vigor;
Nao pode gosar valor
Neste mundo feiticeiro
Nao passa d'um bagageiro,
Ganhador de seu vintem
Nada 6 porque nio ter...
S6 voga quem ter dinheiro,

Eu tenho visto pessoa,
Tipo tdo aborrecido
Que nao tendo possuido
Andava no mundo atoa,
Como ter, e cousa boa:
E se 6 um rapaz solteiro
Anda engomado, no cheiro
JA muita moaa se influe,
Casa bem porque possue...
Sb voga quem tern dinheiro.

Viuvo velho e feiao,
Carregado de familiar,
Tendo bem fazenda brilha
Em toda e qualquer aqao
Para as mogas ter razao
Logo 6 tido por faceiro,
E o pai muito interesseiro
Di sua filha donzela,







-16-


P'ra ele caesar cor ela
Sb voga quem tem dinheiro.

Em qualquer reunifo,
De pagode e brincadeira
Quem nao tiver na algibeira
Ninguem Ihe da a atengdo
E a quem tem se'dA a mdo
Se diz:-entre, companheiro
Venha ci. beba primeiro,
Pois aqui nada Ihe falta;
E d-.se em voz bem alta...
S6 voga quem ter dinheiro.

As vezes ter pela porta
Um pobresinho encostado
Mais de ninguem 6 lembrado
A sua presence 6 morta,
A sua experiencia 6 torta
Para o povo pagodeiro
E se bebe 6 o derradeiro.
Se por acaso dao fB,
Do pobre que esta em pe..
Sb voga quem ter dinheiro.

Quem 6 branco e figurado,
Tendo cobre e formusura
Tem sorte e dita e ventura
Deste mundo 6 adorado;
De tudo nasceu dotado,
Na fortune foi herdeiro...
MorrerA no cativeiro,
Na vil pobreza infeliz,







-17-


Porque em qualquer paiz...
S6 voga quem tem dinheiro.

Para um home proletario
Que nenhum prazer existe;
Que isolado, de triste,
Tudo Ihe 6 bem necessario
Serve a um milionario,
Como escravo ou cosinheiro,
Algum que chega a caxeiro.
Fica em melhor condiQgo,
Eis a melhor posiqao...
S6 voga quem ter dinheiro,

Dinheiro d& galhardao,
DA prazer e di virtude,
Finalmente, muit( ilude,
A todo e qualquer cristAo
Co berto de precisao:
Faz trabalhar o ferreiro,
Na colher luta o pedreiro,
Trabalhando p'ra ganhar.
Para t6r corn que gastar...
S6 voga quem ter dinheiro.

O filho do rico aprende,
P'ra ser doutor ou vigario,
Ou ser chete mandatario,
A quem homenagem rende,
O filho do pobre entende,
Que deve ser sapateiro;
Algum da p'ra marcineiro,
Porque nao pode estudar,







-18-

E' pobre vai trabalhar...
Sb voga quem ter dinheiro.

Quantos rapazes activos
Que estudando aprenderiam
E como n&o podem criam;
Da ignorancia cativos!
Sao gente porque sao vivos...
Vivem ahi de balseiro,
Coberto de desespero,
Sofrendo flagelo e lida,
Porque nessa infame vida.
S6 voga quem ter dinheiro.



A Missa de Natal
CEARA'

Apronta-se o povo n'aldeia.
Comega o sino a tocar;
Grita o menino em peleja
-0 galo hoje na igreja
Tern gente que penicar(87)
Aprontou a roupa nova,
Mariquinha Quixada;
Diz Rufino Papa-ova,
Morador no Camara:

(78] R uma troea popular; o galo pinicar a quem for
a Missa de Natal cor roupa velha.






-19-


O galo, o ano passado,
Pinicou tambem por cA.

Por isto nao, diz Joaquina,
Eu vou contar-te uma historic,
Houve quem A Vicencia da Guloria;
Filha do Pedro Fonseca,
Neta da Chica Zidoria,

JS vi barulho na Igreja
Nesta noite meu senh6,
Credo em cruz, horrenda coisa,
Foi mesmo um forr6b6d6
Deu ur ataque 1A nela,
Todo povo se assanhou.
Nao era parent minha,
Mas tambem me enyergonhou

Tf bem, senhora Jo quina
Que historic feia 6 esta?
Respeite o dia de hoje,
Olhe que 6 note de testa,
Fala Joaninha das Dores
Moradora na Floresta.

Por causa destas e de outras,
Aqui o ano passado,
Houve fordungo bem feio,
Mane foi esconjurado
Pelo compade vigario,
Que ficou muito zangado
Por n6s aqui na calqada
Termos a ele iapolhado,.






-20-


Tocava a terceira entrada
Chamando tndo o cristao
JA se aprontava o vigario
Para faser o sermao
E entrava o povo vechado
Fazendo enorme rojio.

O padre tinha o rostinho
De mocinha apaixonada;
Azulzinha como anil,
De navalha bem raspada;
O sacristao ji cor somno,
Tinha a cara enfarruscada(88)

Tudo em silencio se achava
Quando o povo se assanhou
O que foi? o que nio foi?
Um rapazola gritou!
Uma mocinha bem pronta
Dentro da igreja soltou
Um enorme e feio berro
Que o povo todo assombrou!

Credo em cruz. diz uma velha,
Que falta de inducacao,.'
Logo na hora em que o padre
EstA dizendo o sermao!
Diz a mocinha, coitada:


[88] Cara de quem estA de mau humor






-21-


Tudo em fim diz que nao foi,
Nao foi ninguem, foi o cAo,
E' possivel que o capita
Na hora deste sermao
Tenha entrado na igreja
P'ra fazer malcreaceo?

Dizia a velha danada
Porque errou a oragao,
Batendo s6 cor os beigos
Rodando as contas na mao,
Este berro tio danado
E' de quem comeu leijao,
Repetio a velha A moga,..

Terminou a missa. e o povo
Em grupo d'ali sahia.
Desculpe minha conversa,
Meu leitor minha alegria,
O resto, coato mais tarde,
Fica p'ra Missa do dia.



A Caip6ra
CEARA

Maria hontem na mata "
Grande sobropo(89) senti;


[89] Modo, pavor.






-22-


Escuta quero contar-te
Em que camisas me vi;
Fiquei sem fala e jA tonto,
Dentro da mata cai.

Eu cortava, minha vebha
De lenha este bom feixinho,
Quando eu vi sair da mata
Um medonho caboquinho
Com um cachimbo no queixo,
Montado n'um porco-espinho.

Medonha coisa!-o que disse!
Credo em cruz; seri o cao?
Mas isto que ele nao visse,
Nem bater-me o cora'ao.
M'encolhi o mais que pude,
M'estirando pelo chao.

Mais, ai Maria a pantasma(90)
Veio bater no meu rumo,
Rindo-se muito e dizendo:
DA-me uma p6ia(91) de fumo,1
E c'o a faca afiada
Batendo em mim cor seu gumo,(92)

Bati a mao no bisaco(93)
E logo o fumo Ihe dei,


(90) Fantasma
91) Pele
92) Gume.
93) Embornal






-23-


Mas corn sobroco tamanho,
Que nao sei como fiquei...
Daf saiu galopando,
Gritndo como nao sei!

Marido pela converse
Do padre IA da Fulbra,
Ja descubri 9 que 6,
O que 6 a sua historic;
Um mau agoiro da mata.
E' a tal da caip6ra.



b)e ci a

De que me serve, Josena
Ser da Marinha empregado:
Si tudo em mim 6 ruina.
Vivo pobre e desgragado!

Muita gente, hoje iludida
Trago com o meu proceder,
Porque quero parecer,
Morgado de alta guarida.
Mas se ti visses a ferida,
Que tanto me contamina
Porias em cada esquina,
Um cartaz do meu viver.
Que em isto tu dizer;
De que me serve Josina.
Pelas ruas da cidade
Tu me v6s muito gamenho,







-24-


Qual rico senhor de Engenho.
Ostentando a probidade:
Porem falando a verdade,
NAo pass de um desgragado,
Que por decencia, obrigado,
Da fraqueza fago forga,
Mostrando, em tamanba c6rfa
Ser da marinha empregado.

Ber mobiliado aposento
Aonde a musa consulto,
Isto mesmo nqo te oculto,
Nada mais tambem aumento,
Macia cama de veto,
Colchgo de palha bem fina...
Ah! se til viras, Josefina.
CompaixAo de mim terias.
E mulher conhecerias
Se tudo em mim 6 ruina.

Cor razAo, hoje, eu te digo,
Sem mesmo mudar de c6r,
Que ndo sou possuidor
D- dois vintens por castigo,
Nao temo nenhum perigo
Em razao do meu estado.
Inda que eu seja notado,
S6 por usar de franqueza,
Tu es, Josina, a nobreza..
Vivo pebre e desgracado.







_____ --25-


Decima

Inda depois de en'errado.
Debaixo do frio chlo
Veras teu ncme giava'do
No meu terno coraeio.

Quando a parca traiocira
tUontra a mirm mover s(-us passes
Solttando os terriveis bra os,
Tirar-me a triste vida,
Quando a tumba denegrida
A mim tiver encerredo;
Qu.ando meu corpo levado
For A fria sepulture
AcharAs minha fI pura
Inda depois de enterrado.

Meu amor quando ti forces,
A fria terra habitar,
Busca sem susto o lugar
Onde meu corpo jazer;
Entra logo, sem temer,
Na fatal etcuridao,
E corn a tua proprid mao,
Arrojando' a pedra dura;
Meu esqueleto procura
Debaixo do frio chao.

Olha meu bem, ti nao fiques
Corn teu juizo turvado,
Quando vires carcumidos,
Meus ossos embranquigados.







-26-


Na caverna d'essa treva,
Meu peito descobrirAs,
E este coraco verds,..
E dentro desta caverna,
Alma do c6u boa e terna,
Veras teu nome gravado.

Verbs teu nome gravado,
No mortal peito insculpido,
E depois de teres lido
Torna o sepulcro fechar.
Deixa meus ossos ficarem
Nessa fria habitacao...
Nao lances suspiros. nao;
Que a morte gera outro fado...
Deixa o teu nome gravado
No meu terno coragao.



DECIMA

JA se quebram os lagos
En que preso me tiveste,
JA tomaste outros amores,
Foi favor que me fizestes.

Passo ao C o seja forgoso
Quebrar a prisao de amor
Onde corn fatal rigor
Me prendeu o Deus vendado.
E viverei descanqado,
Pois tudo liz em pedagos,







-27-


Agora darei mil passes
P'ra alivio do coragfo.
Porque da antiga prisai
JA se quebraram os laQos,

JA vivo cor liberdade
JA descango com socAgo.
Pois cor grande desapigo
Larguei a tua amisade
Obrei esta crueldade.
Foi pelo que me fizeste,
E como assim o quizeste,
Tudo mais fiz de repente.
Quebrei a gross corrente
Em que preso me tiveste.

Dize ingrate eu nuo te amei
Cor firmeza e lealdade?
Nao ti fiz toda a vontade,
Tudo por ti nfo obrei?
Dize, fera, eu nAo jurei
Suportar os teus rigores
Mil finezas,.mil favors,
Nio te dei meu coragao?
Dize.me porque razao
Ja tomaste outros amores.

Nao me julgues ofendido
Desse tei genio tio fero;
Antes assim. 6 que quero
Ser-te mais agradecido.
Rendo gragas a Cupido
Pelo praso que me deste,






-28-


E assim como quizeste,
Te confesso, na verdade:
Ficarei em liberdade.
Foi favor que me fizestes.



0 Casamento
CEARA'

Maria, a gentil mulata,
Filha do Joao Catol6,
Quer casar, mesmo por forga
Corn o Chico Cassund6e
Mas sua mae, enraivecida,
Lhe estA cortando a passada,
Por nao ser de opinion
Que ela case cor o rapaz
E assim com o Ze Tomaz
Do coletor escrivao.

Um dia se achavam todos
Reunidos na calgada,
Quando chegou um creado
Cor uma carta lacrada;
De chapeo agaloado,
Sapatos, ealga engomada.

E foi dizendo: Aqui trago
Uma carta a (seu Francisco;
D@ licenqa que me assente...
A vontade, diz Curisco.







-29-


eTeja, a comodo. Antoe Pitanga,
Que aqui nao corre risco.

E sentou-se e foi dizendo:
VosmicO dO-me atencao,
Leia aqui este cbiete>
Que trago do (cGaviao;,
Mandando por 8sen cadete,
Que se acha comandando
Da cavalaria o piquete,
Destacado no 'Limio
*

0 bilhete tinha escrito
Um pedago apaixonado,
Assinado por-P. C.,
Caboclo muito afamado
Cunhado do Joaquim Leite,
E parent do Cadete
LA no xLimao, destacado.

Dizia: 0. Maria,
Deus Ihe d6 muita saude
Assim a Rosa e a Luzia,
Antes que o tempo se mude,
Quero dizer-lhe uma coisa,
Gente espetta nao se ilude.

A minha intengdo 6 franca.
Nao ha mesmo novidade;
Me escute, D. Maria.
Me ouga por caridade,






-30-


Se cazasse comMaria,
Fazia minha felicidade.
Maria, a gentil morena,
Que 6 da c6r d'auucena
Aberta em manhd de Abril,
E' para mim um future
Future certo, seguro,
E felicidades mil,

Comunique-me a seu pai
O Sr. JoAo CatolM;
Lhe pergunte come vae
Da feridinba do p6;
Que me respond se da-me
Em lugar do Cassund6,
A Maria minha bela.
Para ser minha mulher.
Que ele sabe"n&o e de hoje
Que sou sacristio da S6,
Que posso ser o seu genro,
Salvo se ele n&o quiz6.

No mais saude e gordura
Seu primo aMane VenturA,.

Logo a resposta da carta
Se deu naquele moment.
Dando-se a mae de Maria
A Ventura em casamento.

Estava present o Zt,
Parente do Cassund6
Cor quem ela ia casar:
Botou o chapeu na cabega,






-31-


Montou cavalo a press!
E ao CassundB foi contar

Contar o que se passou
A respeito do pedido
De Maria em casamento.
Por um home t o perdido.

E contou.lhe toda historic
Da carta e do portador,
Dizendo: nao se encomode,
Cassund6. voc6 p'ro m6de
Que nao 6 namoradO
NIo falta mulh6 no mundo,
Que nao queira teu amou;
Devemos fazd agora
E' dar de xiqueradou(94)
Uma surra no cadete
Pra nao ser alcovitete,
Para nao ser tao traidor!

Diz entao o Cassund6
Coitado, quasi choraddo:
Ai, Maria Catol6,
Eu morro sempre ti amando,
Nos beijos d'aquela noite
Eu vivo sempre pensando.

O console que me rest
Da grande separagao,
E' que th casas com ele
Mas o meu teu coragao.

(94] Chicote







-32-

A YARA
LENDA AMAZONENSE
(Teles de Souza)
Era na taba dos Manaus, outrora,
Num recanto da virgem Natureza,
Onde risonha se levanta, agora,
Do Rio Negro a prospera princeza!(95)

E o filho do Tuchau preparAra
O necessario p'ra sahir a pesca;
-Cantava alem, fatidica cauan...
E depois dirigiu-se n'uma iygAra
Ao pequeno regato que refresca
A ponta do Taruman...

Era da tribu o mogo mais formoso
Agil, robusto forte e destimido
Assim tao destemido e valoroso
Ainda outro n~O tinha aparecido.

Quem da*floresta virgem no regago,
A zarbatana destroy mAnejava,
Cuja flecha, certeira, n5,o errava
A aracuan atravessando o espago!

Quem o tacape ohfn valor brandia
Das guerras nos embates,
Era o moCo tapuio! a quem cabia
A palma dos combates,


[95] A capital do Estado do Amazonas.






-33-

Era o orgulho da taba dos Manaus!
E do velho tuchdua o sucessor,
Que dos Munducurts f6ros e maus
Fira sempre o terror!

E o filho do tuchAua prepardra
O necessario para ir a pesca!
Cantava alem, fatidica cauan..
E depois'dirigiu-se n'uma ygara
Ao pequeno regato que refresca
A ponta do Taruman.

Tarde estival; o sol jA descambava
Por traz da colina,
Onde a sombra da mata esmeraldina
EntAo se projetava.
Morbida luz, beijando a ribanceira,
Ia se refletir tristonha e flava
Do Rio Negro na ebanina esteira.

O ceo ermo de nuvens; no horisonte
Distendia-se esplendido arrebol;
A noite-perto! e por detraz do monte
Palido e triste, se ocultava o sol.

Em tudo inteira calma:
-0 dia agonisava...
Do buriti na verdadejante palma
Dolentemente o noitib6 gemia...
Trescalando a baunilia. perpassava
Uma brisa macia.
Era jd noite estrelejada e clara
Inda a pequena ygara;






-34-

A' flor das aguas celeres corria.
E o noitib6 cantara
Do buriti na palma verdejante
Mas triste como o canto da hiumare,
Tal do joven tapuio era o semblante!

Bern tarde ele chegoul apreensivo...
Sua ygAra prendeu a mamaurana;
E depois taciturno e pensativo,
Foi sentar-se ao batente da cabana

E suA velha mAe estremecida,
Silenciosamente all chorava,
Ao ver -sta tristeza indefinida
Que o semblante do filho anuviava

MiMAe, disse o moCo, eu sei o que nao das geito
Mas s6 a ti poderei dizer
O que me vae pelo intimo do peito,
O que me faz sofrer:

Era uma moga tao linda...
Como aqui nao vi ainda
Entre as filhas dos Manaus!
Comevava a noite clara,
Ia eu s6 na minha ygAra
Sem temer os genios maus,..

E a minha ygara vagava,
Levemente deslizava...
-Cantava, alem, a cauan...
Dbce brisa me acomparha






-35-


T6 ao regatoque banha
A ponta do Taruman.

Eis da noita no arrepio.
Saiu da margem do rio
Um canto fascinador!
Mudo e quedo eu escutava
Aquela voz que cantava
Como quem sore de amor.

Doce cantar que quebrantal
Tao mavioso nto canta
Nas matas o yrApur ..
Depois o canto se alava
Como a brisa que sussurrava
Nas trondes do condurh.

Eu a vi... era tao bela
Aquela.mulher... Aquela
Encantadora visao!
Desde all perdi a calma;
Por ela pulsa minh'alma
Palpita meu cora~o!

Eu a vi... nessa paragem
Tao alva... sentada a margem,
Tao alva Jacy n&o e!
Trazia ao loiro cabelo
Espesso. ondulante e belo.
As flores do murure.

Seus olhos azues me viram,
Seus labies meigos sorriram...
Mais entao se me mostrou






-36-

Depois estendeu-me o braco,'.
E. das aguas no regaQo,
N'um moment se ocultoul...


--Ai! nao sabes, meu filho que me assustas!)
Disse a velha tapuia suspirando!
E pelas faces adustas
Vae o pranto deslisando..,

Nao sabes, filho, o que vistes!
-E' a causa deste meu pranto;
Quem a v6 jamais resiste...
Foge, foge ao seu encanto!
Nio me cause tanta magua,
Quem a v6 jamais resisted,
Filho a mulher que rl viste
E' a YAra,,, 6 ,a mie d'agua!

Os conselhos maternaes
Nao esquegas amanha...
Nao voltes, niao voltes mais
A' ponta do Tarumans!
............... 1....................... ...... ........................................................................... .......
E assim a velha indiana
Ao filho aconselhAra apreensiva!
E sentada ao batente da cabana.
Ele inclinou a front pensativa!

Mas no dia seguinte, ele voltarac
Quando o sol na floresta s'escondia...
Do Rio Negro a pequena ygAra
A' flor das aguas, celeres corria...






-37-

E alem na mata cantave,
Dolentemente, a cauan;
la o sol, depois voltava,
Mais ele nAo voltou mais.

Da ponta do Taruman!
Dos conselhos maternaes
Fora esquecido porem;
Por isto que ndo voltou...
E o que por 1a se passou
Ninguem o sabe, ninguem!

Somente os pescadores, sem receio,
Que por ali passavam
Quando a noite ia em meio,
Perto do igarape que murmurava
Nas sombras semi-oculto,
LA ao long, na margem, vislumbravam
De mulher claro vulto que cantava...
E de um home tambem um outro vulto
Mas se as vezes dali se aproximavam
Os dois vultos nas aguas se ocultavam...



Paraiba do Norte
Discriq~o pelo cantador alagoano Manoel Moreira, segun-
do publicou Leonardo Mota na (A NOITE do Rio.

Eu vim de long,
Do centro das Alagoas.
JA andava quasi at6a,
Sem dinheiro p'ra passA






-38-


Passei fome,
Passei sede nos camim,
E, ja vendo a coisa ruim,
Me vali deste ganza.
Eu entrei dentro
Do sertio paraibano
Cor um magote de cigano
Quasi me acabo de anda...
Tive em Campina.
Alagoa Mamanguape,
Permit Deus que eu escape
Deste duro camiah,!

Fui na Areia
Ver a riqueza da cana,
Depois fui a Itabaiana
cMode ver galo brig6...
Tive no Inga
Pedra de Fogo Espirito Santo
Que fica jh num recanto,
Entre o sertao e o mi.

Cabaeeira.
Umbuzeiro e Guarabira,
Terra boa que admiral,
Ela 6 melhor que Pila..
Lagoa Nova.
Soledade, no Picuhi.
No Sdo Joao do Cariri
Quasi morro de dansa.

Fui abaixo,
Fui de banda, fui arriba,







-39-


Andei toda a Paraiba,
Nunca pude descanqg'
Tive em Souza,
No Brejo das Bananeira,
Maculada do Teixeira,
Da outra banda de 1a,

Caipara,
Araruna, Serraria,
(Vala-me, a Virgem Maria,
Eu ja estou poudre de andhI
Me encontrei
Cor um magote de romeiro
De Alag6a do Monteiro,
Gente que sabe brigs.

Piane6
Misericordia, Conceigio,
La no centro do sertao;
Bern abaixo de PombA...
Tive em Princeza,
Que 6 coito da cabroeira
Do coroner Z6 Ferreira,
Bicho macho no punhd!

Cajaseira
Rio do Peixe e as Espiahara,
Terra rica, terra rara
P'ro algodio Brejo do Cruz,
Catol6, ai, meu rosario,
Na Serra do Comissario
Eu perdi as contas,la.







-40-


Tive medo
De decer o Pajehii,
Que 6 past dos urubfi,
Terra de morrer e mata'!
Cabra de la'
E' macho na lazarina.
No fuzil na carabina
No cacete e no punha'.

Passei rio,
Subi serra, cortei matos,
Descansei dormi nos Patos;
Morei no TaperoA,...
Na Paraiba
Remechi toda sertio!
Botando meus anelo.
Fui bater na Capita'...

Eu sou corrido
No Brasil em dez Estado,
Trago todos decorado
Na memorial de grava';
E' Alagoa.
E' Peruambuco, 6 Paraiba,
Vem subindo cA pra riba;
E' Rio Grande e Ceara'.

E' Piaui
E' Maranhao, 6 Amazona,
Que tern ura grande zona
Da borracha prospera'...
Ai, me esqueci,







-41-

Ja deixei ficar atraz
Bem arriba de Coiaz
O Estado do Para.



Frei Serafim
(PARAIBA)

Em S. Tom6 chegou um padre
Por nome Frei Serafim.
Sb por Deus veio mandado
Esse missionario assim...
Veiu findar uma obra
Que nunca mais tinha fim.

Essa obra pia e santa
De valor e de mister,
Que 6 o sagrado madeiro
Da igreja de S. Tom6
Veiu pregar os martirios
De Jesus de Nazar6.

Abriu a santa mission
Mandou no dia terceiro
Que fossem'cortar um pau
P'ra levantar um cruzeiro.
E chamassem carapina
P'ra trabalhar no madeiro.

Do madeiro encarregado,







-42-

Ao cabo de onze dias
Deu por pronto e terminado.
Pela nossa redempAo,
Ele foi (incolocado>.

Veiu Bernardo Nogueira,
Cor seu machado na mao.
ZM Francisco e Z6 Diniz,
Z6 Evaristo e seu irmao
Para cortar a brabna
Nas matas do Riachao.

Sessenta palmos de altura
Tern o sagrado madeiro,
Os bravos ter vinte e cinco
Onde formou-se o cruzeiro;
Satanaz por ser demonio
Corre dele o dia inteiro.

Cristao se te perguntarem
O sinal que Deus te deu,
Dizei que foi uma cruz
Aonde Jesus morreu;
Pela nossa salvacao
JA foi home sendo Deus.

Uma nuvem tao frondosa
Parece os raios do sol,
Ter seis cravos de -brilhante,
Cor resplendor ao redor,
Cor ciencia de David,
Cor paciencia de Job.






-43-

Uma medalha bem feita
Que parece um resplendor,
No meio ter um jardim
Todo cheio de uul6,.
Bemdita, louvada seja
A santa cruz do Senhor
A santa caixa das almas,
Perto do cruzeiro tern;
Cada qual d6 sua esmola
Que eu tambem dou meu vintem,
Bemdito louvado seja
O santo cruzeiro. Amem.


Jogo do Bicho
CEARA'
Chula de RAMOS pintor

Eu sou banqueiro(114)
Aperfeigoado,
E o primeiro
Que paga dobrado:
0 coito 6 franco(115)
Aceito o b6r6(116)
Pago as boxexas(117)
E ninguem tenha d6.


(114) Jogador que banca o bicho
[115] E sem limited.
(116) Dinheirol
(117] 0 mesmo que muamba, furto disfareado.






-44-


Macaco, porco, jacar6. cavalo,
Aguia, cachorro, camarao, peiti,
Bode, cabrito, periquito, galo,
Touro, elefante, javanan, tati.

Eu sou banqueiro, etc.

Veado, cabra, cangati, raposa
PavAo, marreca, guaxinin. siri,
Burro, piolho, pulga, mariposa,
Lebre, galinha, pato, patori.

Eu sou banqueiro, etc.

Chrneiro, mosca, jaburfi, pot6.
Hiena, tigre, tubarao, mutf,
Jumento. urso, pApagaio, socb,
perdiz, carnario, sabia, nambi.

Eu sou banqueiro, etc.

Guariba, gato, mucuim, pium,
Mosquito, lesma, borboleta, boto.
Cari, piaba. guabiri, mutum,
Curuja, cobra, gia, gafanhoto

Eu sou banqueiro, etc.

Furio, aranha, cangu9g, lagarta,
Mutuca, vibora. imbue, lejo,
Girafa, espada, tapacu', barata,
Tainha, ostra, cici6 cagao.


Eu sou banqueiro, etc.






-45-

Camelo, zebra, dromedarlo. vaca,
Moce, cassaco, gaiamun, capote,
Card, traira, zabeie, tacaca,
Peitica, cisne, cururu, capote.

Eu sou banqueiro, etc.

Piau, carangro. verdelin, curica,
Pitu', giboia, avestruz. capdo.
Coelho, grilo, rouxinol, furrica.
Guara, jandaia. beija-flor, carao.



Despedida do siringueiro
CEARA'

Vou-me embora. vou-me embora
Pra minfia terra natal,
Diabo leve a siringa
E o dono do siringal;
Que na minha terra eu como
Sem dispender um real!

La plantava a mandioca,
A melancia, o melo
Mondubim e macacheira
Por entire o milho e o feijao,
Remexia na patrona(123)
Nao me faltava um tostio

[123] Remecher na patrona: ver se ter dinheiro







-46-


Nesta terra de miseria
De riqueza apiegoada
Que parece ser mentira
De uma rude cagoada
Eu nao quero mais viver,
Vou tocando em retirada

Da came velha(124) inda levo,
Minha barrigainflamada,
De gordas s6 levo as pernas,
De ura molestia malVada;
Dinheiro... nem um vintem,
S6 levo conta(125) e... mais nnda.

De pilulas para sez6es
Vinte caixas eu coni.
P6s de ferro foi sem conta
E drogas que nunca vi;
Sardinha, came e pescada,
E couzas que nao comi.

Vou-me embora, meus amigos.
Pra minha terra natal;
Levo uma conta de tudo,
No bolso.. nem um real;
Tudo foi-se em tratamento
No barracao do hospital,

Vou-me embora, you-me embora,
Vou plantar meus gerimuns,


124 Carne velha 6 o mesmo que xarque ou jabA.
125 Debitos






-47-


Embora que as chuvas faltem
Sempre ha os camapuns(126)
Ao menos la eu nao sofro
Estes malditos piuns.(127)

Na minha terra eu ja sei
Onde moram os tatcs,
A dormida dos veados,
As comidas dos jaciis,
A capoeira onde correm
Os ligeirinhos namb6s.

P'ra casa vinha cantando
Minha chula, meu baiao,
Sem sofrer carapanis(128)
Dependuradas na mao;
Comia moc6. pre
Sem dever no barracao.

A' porta minha Joana
Vinha logo me encontrar
Dava-me um riso brejeiro
la o logo renovar,
E nele punha a chaleira
Para cor agua aquentar.

Quando rompia a manha
O leite eu ia tirar;
Joana fazia o pao
Para cor ele almogar,

(1261 Fruta silvestre
[127] Mosquito de grande ferrao.
(128] Mosquito, Morigoca.







-4-8-

E depois... quantos prazeres
Entre n6s p'ra desfrutar!

Adeus 6 terra de lama!
Vou plantar meus geremuns
Dos veados ver a cama
E o despertar dos antins.
Viver cor a minha Joana
Sem o ferrao dos piuns.


0 Rabicho da Geralda
(Quixeramobim-CearA-1792, segnndo informaCgo do pran-
teado historiador cearense, Antonio Bezerra de Menezes,
que guardava (0 RAB1CHO DA GERALDAx entire os seus
papeis).

Sou o boi liso o rabicho
Boi de fama, conhecido,
Minha senhora Geralda
Ja me tinha por perdido.

Era minha fama tanta,
Nestes sertoes estendida..
Vaqueiros vinham de long
P'ra me tirarem a vida.

Onze anos more eu
LA na serra da PreguiCa,
MAinha senhora Geralda
De mim nao tinha noticia.
Morava em cima da serra,
Nequeles altos penhascos,






-49-


S6 davam noticias minhas
Quando me viam os rastos.

Ao cabo de onze anos
Sal na Varzea do Cisco,
Por minha infelicidade
Por um caboclo fui visto.

Quando o caboclo me viu
Saiu por all aos topes,
Logo foi dar novas minhas
Ao vaqueiro Jos6 Lopes.

Quando o caboclo chegou
Foi corn grande matinada:
-Oh! Jose Lopes eu vi
O Rabicho da Ceralda.

Estava na Varzea do Cisco
Corn um magotinho de gado,
LA na pontinha de cima
Onde entra p'ro talhado.

Jose Lopes chamou logo
Por seu filho Antonio Joao;
WVa buscar o barbadinho
EE o cavalo tropelao.

eDiga ao Sr. Jos6 Gomes
(Que traga sua guiada(132)


[132) Guiada: vara de ferr-o.
[132) Gujada: vara de ferrao.







-50-

E venha pronto para irmos
cAo Rabicho da Geralda,.

Chegados eles que foram,
Montaram e fizeram linha(133)
A quem eles encontravam
Perguntavam novas minhas.

Encontrando Z6 Tomaz,
Que vinha 1A da Qneimada...
cCamarada di-me novas

-Ainda mesmo que eu visse,
Eu nao daria passada,
Pois sera muito o tr8balho,
E lucro nlo sera nada.
-Nao senhor, meun amarada,
A cousa estA conversada,
A dona mesmo me disse
Que desse boi nao quer nada.

Uma das bandas e o coiro
Fica p'ra n6s de abocorio,,(134)
A outra vai se vender
P'ras almas do purgatorio.

Despediram-se uns dos outros,
No carrasco(185) se internaram,

[133) Fafzer linha 6 tomar a posipao lado a lado
134) De graga.
(135] Carrasco: trecho de mnato fechado.







-51-


Cacaram-me todo o dia
Porem nfo me alcangaram.

Deram de march p'ra casa,
JA todos mortos de fome,
Foram comer um bocado
Na casa de Jos6 Gomes.

Passado bem cinco dias,
Estando eu na ribanceira,
Quando fui botando os olhos.
Vejo vir Manoel Moreira.

Um dos vaqueiros de fama
Que naquele tempo havia,
Que muita gente supunha
S6 ele me pegaria,

Olhei para o outro lado.
Para ver se vinha alguem;
Divulguei Manuel Francisco
E seu sobrinho Xerem.

Fui tratando de correr
Pelo lugar mais, fechado,
Quando o Moreira gritou-me
Aos pes juntos enrabado,(136)

Corra. corra, camarada,
Pise seguro no chao,


[136) Enrabado: quasi alcanQar a saia da rez isto 6 o
rabo.







-52-


Que hoje sempre dou fim
Ao famanaz do sertio.

aTiremos uma carreira
Assim por uma beirada;(137)
Eu mesmo desconfiei
Do Rabicho da Geralda.

Mais adeante puz-me em p6
Para ver o ,zuadao>:
Encherguei Manuel Francisco
Caido n'um barrocao.

Estive ali muito tempo.
Ali posto e demorado;
A resposta que me deram
Foi dizer; vai-te malvado!

Toda vida terei pena
De correr atraz de ti;
Bern me basta minha faca,
E minha espora que perdi!

Dai seguiu para traz
Ajuntando o que era seu,
E juntamente caqando
O Xerem que se perdeu

Nesse tempo tinham ido
A Pajeti ver um vaqueiro;

[137) Entre o mato grosso e o descamlado.






-53-

D'entre muitos que Ia tinha.
Viera o mais catingueiro.(138)

Este veio por seu gosto,
Trazendo sua guiada.
E desejava ter encontro
Cor o Rabicho da Geralda.

Chamava-se Inacio Gmes,
Era cabra curiboca,
O nariz achamurrado(139)
Cara cheia de pip6ca.

Na fazenda da Concordia
Chegou ele a uma hora;
Muita gente jA dizia
O Rabicho morre agora,

Dizia que p'ra matar-me
NAo precisava de mais;
Bastava dar-me no rasto
De oito dias atraz.

Deram-lhe entio um guia
Que bem soubesse do past.
E que tambem conhecesse
Dentre todos o meu rasto.

Onze dias me caaram
Cor grande empenho e cuidado.


(138)Que sabe vaquejar na caatinga.
[139]Grosso corn as ventas de um boi chamurro.









Nao poderam descfibrir
Nem novas e nem mandado.

Passados os Onze dias
LA no Riacho do Agudo,
Quando fui botando os olhos,
Vi o cabra tupetado.

Disse o guia me avistando
Venha ver, meu camarada,
Eis ali o boi de fama
O Rabicho da Geralda.

Ber cedo ao sair do sol,
Vimo-nos de cara a cara
E nos primeiros arruncos
Logo Ihe caiu a vara.

Ele disto nao fez caso,
Relho no cavalo chegou(1~0)
E em poucas palhetadas(141)
Ber pertinho'me gritou;

Corra corra cauarada;
Puxe bem pela memorial
Que nao vim da miinha terra
Para vir contar historic.

Oritou-me da outra banda
O senhor guia tambem.


[140] Apoitar corn forga.
(141) Poucas pAlhetadas, quer dizer; pouco tempo.






-55-


Tih cuidas que sou Moreira
Ou seu sobrinho Xerem?
Tinha um pau atravessado
Na passage d'um riacho;
O cabra passou por cima
E o cavalo por baixo.

Segui a meia carreira,
No meu correr costumado,
E antes de meia legua
Ambos jd tinham ficado.

Poz-se o cabra tupetudo
A pensar o que taria,
E quando chegasse em casa
Que historic contaria !...
Na fazenda da Botica
Tinha gente em desmasia.
Esperando ter noticia
Do rabicho nesse dia.

Perguntou Jos6 de Goes,
Morador no Carrapicho,
Amigo, seja bem vindo:
Da-me novas do Rabicho?

Eu o vi, mas nio fix nada,
Pois nunca vi correr tanto,
Cfomo esse boi, o Rabicho,
f cousa que causa espanto!

Nessa terra eu nao vejo
Quem o pegue pelo p6,






-56-

Aquele more de velho
Ou de cobra cascavel.

Respondeu Jose de G6es
Morador no Carrapicho;
Eu pelos olhos conhe4o
Quem da voltas ao habicho.

J4 anda em dezoito anos
Que Z6 Lopes o capou,
Era ele entao garrotinho,
For isso foi que pegou.

Foi-se o cabra topetudo,
E nao seio se l~ chegou,
S6 sei 6 que ele foi
Cor os beicos corn que mamou(142)

Chegou emfim-noventa e dois-
Aquela seca comprida;
Logo vi que era a causa-
De eu perder a minha vida.

Secaram-se tbs olhos d'agua
No tive aonde beber,
E botei-me aos campos grandes
JA bem disposto a morrer.

O Sr. Antonio de SA
Por ser um bom portador

[142] E um modismo que exprime voltar sem ter
obitido o que deseja.






--57-


D6 lehbrancas que eu mando
Ao meu procurador.

Pego-lhe qu6 me perdoe,
Nlo se d6 por agravado,
Daquela vez eu deixei-o
No seu cavalo melado.

Eu sempre former de conta(145)
No fim do meu testamento
Tambem deixar lembrangas
A Manuel do Nascimento.

Lembrando daquela vez
Que me deu um pontap6,
De vez em quando gritando,
Por compare Barnab6.

JoTo Amancio, venha ca,
Quero Ihe pedir tambem,
De lembrangas que eu mando
Aos vaqueiros de Belem.

Pois you bem consolado
Porque nao sou dos primeiros;
Adeus camaradas todos
Do carrasco do Ribeiro.

Adeus, camaradas meus
Queiram se esquecer de mim;
Tudo quanto nasce more.
Tudo no mundo tern fim.

(145) Formar de contas, pretender.






-58-

0 inferno no sertAo
De Francisco Romano

Qundo Deus quer dar bom tempo
Prepara-se um nevoeiro.
Desenrola. cahe a chuva.
Corre agua no faboleiro
Chega abundancia na terra
Que abrange o mundo inteiro.

Movem-se as pedras.
Grande 6 o movimento...
S6 pelo talent,
A agna as carrega
E nas aguas navega,
O chao humedece,
O barro amolece,
Que tempo suave,
Brotam as arvors,
O sertao reverdece.

Quando chove no sertao
O gado berra escramuga,(158)
O jumento rincha no campo.
O porco, se esponja e fussa,(159)
Juntam-se os animaes.
Salta e berra a miunga

Vem das cabeceiras,
As aguas correntes

[158):Escaramugar: dar poupas,isaltar como faz o cabrito.
[159) Em vez de fossa.






-59-


Os rios valentes
Quebram as bArreiras.
Roncam as cachoeiras
Que nem o jaguar
Que sem se dilatar.
Procuram os baixios,
Riachos e rios
Sb descem p'ro mar

Quando chove n6 sertao
Estes homes fasendeiros,
Logo que amanhece o dia,
Vao a casa do vadueiro:
*Acho bom que vA ever
0 gado no taboleiro,.
Ele Ihe responded
Acaba de almogar;
Depressa se necora,(160)
Sae de campo afora,
Revendo cor geito,
E achando perfeito
Seu gado feliz.
Chega em casa. diz:
EstA tudo direito.

Com abundancia do inverno
Se alegram os passarinhos,
Uns saltitam pelos paus,
Outros gorgueiam nos ninhos
Por verem tanto recurso


[160] Vestir-se de coiro.







-60-

Para crear seus filhinhos
Canta a juriti,
Codorniz, pedrez,
Voa o urubt reis,
Salta o bemtivi,
O potiguari.
A garga, o carao,
Pato, mergulhao,
Soc6, jaburi,
Voa o anum,
Estala o cancao.

Quando clove, as abelhas
Comegam a trabalbar.
Moga branca e a pimenta
Mandasaia e Mangangd,
Canudo, man6 de abreu,
Tubiba e arapuA.

Ronca a tathira,
Faz boca o limao;(161)
Z6a o sanharao,
Trabalha a jandaira,
Busca floor a cupira.
Faz mel o exui,
Zba o capuchb
Vai a fonte a jati
Campeia o enxui
Faz mel o uruu'.


[161] Limao; qualidade de abelha cujo m61 6 azedo.
Fazer boca; dispor a entrada da colmeia em forma de ca-
nudo,





--61-


So faz verao ninguem v8
As abelhas trabalhar.
At6 mesE.o os passarinhos
Ninguem os ouve gorgeiar.
Porem na tarde que chove
Tudo sae a passeiar.

Rufa o caitetu'
Salta o veado,
La pelo rogado
Onde anda o timbu'
E o tejuassu',
O peba escavaca,(162)
O bola emburaca,
A raposa passeia
Nos bancos de areia,
Onde fussa a ticaca.(163)

O agricultor se alegra
Quando ouve trovejar,
E vai dizendo a familiar
<(Amanha vamos plantar,
Que o inverno esta na terra(164)
Nao ter por quem esperars.

Chega a madrugada,
Levanta-se a gente
Um acunha a enxada,
Outro escolhe a semente,
O cheTe na frente

(162] Sqo tatuis,
[1631 Maritataca
164] Est& na terra: quer dizer chegar.






-62-

Cor a enxada na mao,
A cavar o chio,
Dizendo a seus filhos,
Voceis planitem o milho
Que eu plant o feijiov.

Cantam em bando os caraunas.
E o xex6o pelo earvar,
Nos rocados o Caviao,
No baixio o arumarA,
T6teo grita pela varzea,
Dobra o canto o sabiA.

Fala a maracanA
Grita a saridma,
Urra no campo a ema
Ronca a ribaca,
,Chama a caua
Geme o jacti,
O jacuruti,
Soc6, pica-pau,
Sopra o bacurau.
Da hora o nambfi,

Quando ribomba o trovqo
O acompanha o relampago,
Clareia o fogo no c6u,
Se vista a restea no campo
Cae o corisco nos paus.
Que os facheia e voa o tampo.(165)


(165] Facheiar ou esfachiar reduzir a facho peque-
no feixe de lenha, em forma de iacho.






-63-

Lasca as aroeiras,
B rola o juce
Vira o trapid
Assa as catingueiras
As caraibeiras
Vao se rebentando...
Umbuzeiros virando,
Os paus vao rangindo,
Angicos caindo,
Outros se balangando.


Quando chega o mez de Junho.
Chamado mez de Sao Jo&o.
Solta-se uma ventania,
Zoa a serra e o boqueirao,
Seca a terra, muda o ar
Do brejo at6 o sertao,


Logo do nascente
Nasce um neblineiro
E atraz o nevoeiro
Ate o poente...
Passa de repente,:
Que tempo mudado!
Nasce o sol dourado,
Feclando e abrindo,
E o 6eo se cobrindo
De um manto azulado.


(bP






-64-

A. B. C. do Frade
CEARA

A
A' dez anos haverb meu doce emprego
Que no teu A-B-C tenho esftidado,'
Sem fazer uma s6 letra porque cego
Nao cuidei que o tempo a mim era chegado.

Ainda que tarde navego
Farei um A-B-C bem mal talhado
Comepando pelo que o amor ordena
Em material de amor borro de pena.

Amanheceu a aurora naquele dia
Que a quatorze de margo se contava,
Mais tarde do que nunca, porque viam,
Que no ar de uma negra sombra se tu-rvava,
Aves nos ninhos inda dormiam,
Abelhas nos cortigos ja roncavam,
Porque ver nao queriam minhas maguas
Aves, Abelhas. Aurora, Ares e Agua.

B
Balas eram os meus ais com que feriam-me
A brenha e o bosque maltratados
Toda brenha do bosque estremecia
Por nio chegar taes madrugadas
Bomba d'agua de men peito despidia
Os buracos de meus olhos congelava-me
Parecendo-me entao a triste sala
Brenha, Bosque, Buraco, Bomba e Bala.






-65-

C

Cai logo na cima adormecido.
Buscando pelo catre essa figure
Pena va s6 topei de urn bem perdido
Nesta funebre casa tao escura.
A candeia apagueia de um suspiro,
Ficando-me o caix&o qual pedra dura
Gritei: ai quem me acode. que me abraza
Cama, Catre, Caixao, Candela e Casa.

D

Doqura de meus brapos... que pirata
Me roubou de um peito amante,
Fina, mais fina do que a prata?
Porque sendo de meu centre amor volante.
De dia despertou a sorte ingrata.
A neite reubou um also amante,
S6 para que eu nao tivesse nesta cama
Dopura, Diamante, Dia e Dama,

E

Espera, encosta, encalha esta barquinha
Que tao ligeira caminha pelos mares.
Se levas uma esperanpa que caminha,
Deixa uma esperanga de tornares
Olha que o claro dia se avisinha,
Espelho que ha de ser dos meus pesares,
Vem ti pois para mim que te procure,
EsperanCa, Estendida, Espelho, Escuro.






-66-

F

Frija o fogo em men pelto amor ti ano.
Porque sendo fuzil de pedra esta fi Neza,
0 incendio acendeu para meu dano
No luzido farol desta beleza.
Facho de palha !oi meu trste engano,
Apagando cor o vento da tristeza,
Porque sendo incenso em ti nao acho
Fogo, Farol. Fuzil, Faisca e Facho.

G

Grande gloria perdi perdendo a gloria,
Que por graga me deu~a tua graga,
Tragedia loi o gosto desta historic
Cuja gala cortou fortune escassa,
Nao quero mais governor que a memorial
Somente em cuidar quao ligeiro um bem se pass
Riscando para sempre de ten rosto
Graga, Gloria, Governo, Gala e Gosto.

H

Hospedei-te em meus bracos docemente,
Quiz honrar-te, impediu-me o cruel fado,
Curei-te quando estavas mais doente.
Humilde a teus p6s sempre prostado.
Sofri murmuraglo sempre content
S6 para nao chegar a dar-te um so' cuidado
Entraste e saiste fementida.,.
Hontem, Hospede, Humilde. Hoje, Homicida.





-67-

I

Inda hontem vi ires navegando,
Idolo de minha alma imagem rara,
Parece-me mil anos que penando
A sofrer mil infernos acabara.
Ilusies meus discursos iam formando.
Indicio foi de pena eterna para mim,
S6 me deixaste em casa esta riqueza:
llusao, lmaginag~o, Inferno e Indicio.

L


Lerbs dentro em mim meus sentiments,
Que escondido em minha alma entao ficaram
TerAs largas elargas lamenta~ges e largos ventos
Qual os navegantes nao toparam.
Deixaste nos livros dos assentos,
Cobrando sb por lutos que deixaram
Largas lamentag6es e Largos ventos

M

Mar6 morta buscaste n&o querendo
Esperar de meus olhos agua viva.
Mar6 e mar foste sofrendo
Nas vigorosas ondas fugitives.
Se o mundo vais correr, n&o vas correndo,
Que aqui fica um bem que aqui te priva
AcharAs na pobreza desta capa
Mare, Maltratagem, Mundo e Mapa.






-68-

N
N6o nova te darei em que navegues
Segura de topares ventos escassos,
Ainda que tarde chegues sempre chegas,
Sendo velas meus ais e remos meus bragos,
Vinde pois a meu lado sem estorvo.
NBo. Navegagco, Navio, Novo.

0
Onde estAs que nao v6s este oriented?
Qual 6uro para li estA guardado?
Nao estimes t&o pouco no present
Que ainda te posso ser prestavel.
Oraculo do amor tdo excelente
Que da inveja de muitos era chorado,
Serei para ti sem ser tezouro
Oraculo. Oriente, Orvalho e Ouro.

P
Perdi as esperangas de mais ver-te
Sem que perdesse a mesma de adorar-te.
Paixao grande teria se perdesse
A minha contigG em adorar-te
Ainda posso sofrer por mar e terra
Pena, Paixao, Pranto e Pezar:

Q
Querer te abusar 6 cousa dura,
Queixar-me contra ti rezao nio tenhr.
Quebrantarei uma Me, maior loucura,
Oponho-me a razgo valente empenho,








At6 quando ha de durar esta amargura?
Quando hei !de empreender o desempenho?
Juro de nao te ver mais se assim th queres
Queixoso quebrantarei se th quizeres,
R

Retrato que nestk terra apareceu
O qual ramo cortado disse *a caste*
PIois como raiz mais nao tiveste
Que ate o rasto me apagaste.
S6 me rest dos danos que fizeste,
Raio ligeiro te mostraste,
Nao deixando se quer para teu trato
Rasto, Roma, Raiz, Resto. Retrato.

S

Sofro ap6z saudade na memorial,
Que memorial nao teve do future,
Saibam pois a vontade transitoria
Que para cegueira 6 mal segurs,
Altbs entendimentos sem vitoria
Sofrer aquelas mros assim tao puras,
Sendo eu um despojo em soledade
Silencio, Sofrimentos, Sono, Saudade.

T

Toca tua march que jA me animals,
Termas ambos iguais no pensamento,
Pois nao ter outra corda mais que a prima,
Que nela toca-se a recolher esse instrument.
Escolbi por primeira entire a siia
Pois tive sempre e sempre cor estima,i







-70-

Vem cair sobre mim, troveja a guerra,
Toques, Tambores, Trombeta e trema a Terra.

V
Viva quem pode mais a patria doce,
Praza a Deus quem em perder-te perca apalma,
A quem f6ra a vizao que ver te fora,
O vapor que este mar pureza em calma...
Levastes ao mesmo vento que te trouxe.
Adeus andorinha de minha alma,
Faz de conta que eu nao son de seu content,
Visao Vapor. Viagem, Vela e Vento.
X
Xeque foi da fortune minha estrela
Que deste pulo me nao deixa,
cXatriz> acharAs 1l para (rula
Melhor fora tal seringa nAo bebe-la,
Sendo th a causa desta refxa.
Eu te afirmo que agora melhor topes
Xaque, Xifre, Xiringas, e Xarope.
Z

Zuna l1 neste pulo amada prenda.
Zombe s6 quem ignore esta ruina,
Que nao pode sair dessa cantina
Quem nas ondas do mar l1 vA morar,
Erro deste A-B-C nao tern emenda
Inda que a pena seja final
Descobrindo nele os erros mais subidos
Zana, Zeloso, Zuada. Zunino.






-71-

Falta o til que nao pode ser escrito
Porque o mundo j. dele nao faz conta,
Pbr ser um risco que i infinite.
Jd hoje entire os homes pouco monta,
Nao ha presdestinado e nem perfeito
Que nao tenha seu til sempre na ponta
S6 Cristo e sua Mae podem dizer.(207)


Joao Zacarias (cabra)

e JoAo Vieira (negro)

ambos do centro do Rio Grande do Norte


Jofa Zacarias:
O' Vieira eu Ihe pego,
Me arresponda n'um moment:
Quero que voc6 me diga
De que se gerou jumento.

Joao Vieira;
Tu me pergunts, meu Joao.
De que se gerou jumento,
Foi da tua ruim cantiga,
Do teu inau procedimento.

[207) Reproduzo este A-B-C como exemplo de futu-
rismo anonimo,






-72-

Joao Zacarias:

Minha gente eu ji seio
Que corn o Vieira nao posso.
Quero que voc mnie diga
O meio do Padre-Noss(.

Joao Vieira:
O burro deste cavalo
Esse juntamento tanjao,
Vem meter o Padre-Nosso
No meio da vadiagRo.

La se mete o Padre-Nosso
Onde se enfia o cordlo.
Tibe 16te, toma 14,
Tibe gia, vou-te, cdo,
Passando-te a mao na cara,
Tres dias rolas no chao.
JoAo Zacarias:

Meu Vieira eu te peco
Fales por outro modelo,
Quero que voce me diga
De que se gerou camelo.

Joao Vieira:

Por dentro de came e osso
Por fora couro e cabelo,
Pescogo muito comprido,
Espinbaao de novelo;






-73-

Boto de perna p'ra cima
Fica de um feio modelo.

Joao Zacarias:

Se me derribar a casa
Nfo derrube a cumieira,,
Que 6 p'ra servir de forca
Para o tal do Joao Vieira.

Joao Vieira;

Se me deriubar a casa
Nao me deirube as ufurquias,
Que 6 p'ra servir de forca,
P'ro tal de Joao Zacarias
Te pass a mio pela cara.
Cabra ruim 6 o que querias.

Joao Zacarias:

Vou-me embora desta terra,
Me retire p'ra Barrinha
Vou plantar bem mandioca
Para te vender farinha.

Joeo Vieira.

Cabra, voc6 nao fale
Dos caboclos da Barrinha,
Se nio quer que minha faca
Saia f6ra da bainha.
Seu cabra, tao atrevido,
Cabra ladrA~o de galinha.






-74-

Joao Zacarias:

E peguei o Joao Vieira
Dentro de minha vazante
Roendo or meus gerimuns
Comendo o capim mandante,

Historia deBoberto de Belem

Se n~o souber o meu nome
Sou tPoberto de Belem,(225)
Sou como uma ovelha mansa,
Que nao faz mal a ninguem,
Para onde me chamam eu vou,
Para onde me botam. venho,

Meus senhores. deem licenDa,
Que eu agora you contar
No tempo daquela crise(226)
Como foi o meu passar.

No tempo daquela crise,
Daquela crise maior,
Filho brigava com a mae,
Neto brigava cor a av6,
Brigavam por cousas b6as
Por um beijiA de potb.

Quanldo foi naquela crise
Naquela crise passada.

(225) Povoado do Estado. da Paraiba comarca de
Guarabira,
[226) Seca de 1877.






-75-


Farinha de barriguda
Ja logrou um bom estado,
Na feira de Guarabira
2 litros por um cruzado,
Senhores, s6 conto aquilo
Que comigo foi passado.

Quando foi de tardesinha
Eu peguei a imaginary
Em terra que nio se come
Nao ha quem possa morar.

Eu disse a Joaquim Bezerra
Que queria ir me embora.
E por falta de mantimento
Isso era a minha demora.

Ele foi entrou p'ra dentro,
Foi buscar uma matrutagem,
Disse pega 1l, Roberto
Para suprires A viagem,
Pedi um pouco de cana
Ele veio cor um quarteirao;
Ele bebeu um pouquinho
E eu a maior porcao.
E eu sai por all af6ra
Nao senti terra no chio.

LA no principio da rua
Encontrei Joao Senhorinha:
Roberto, ti qnando saes?
Homem, eu saio de manhasinha.
Roberto, por despedida,
Toma um copo de vinho.







-76-


Senhor Virginio Peixoto,
Como o bom camarada:
Roberto, por despedida,
Toma Id uma copada.

Que assim que eu bibi,
Mudei logo de condiRao
Chegou-me toda a coragem
Dei logo pra valent&o
Sai por all afora,
Nao senti terra no chao.
Na porta do cemiterio
Encontrei Joaquim Vicente
Roberto para onde vaes
Tao alegre e tdo content?
Homem you ao tanque Danta,
Vou dar uma surra em gente,
Roberto til nao me chamas?
EstAs cor um cabra bom de fama.

Quandd chegamos jA perto
Na decide do grotfo:
Joaquim o que 6 que fazemos
Pri levar Joca a facto?

A mulber dele 6 quem sae
Ao batermos na janela;
Tu metes o pao no Joca
Que eu cA enterto eom ela.

Oh! de casa senhora dona,
Faz favor abrir a porta?
E' hoje chegado o dia
De eu vir conversar cor Joca.







--77--


Senti logo um grande choque
Quando vi a mulher chorar,
Dizendo corre meu Jeca,
Que Roberto quer te dar.

Eu saltei pela janela,
Que encheu-me o corpo de ans,
E na carreira que dei,
Rebentei uns carit6s
Nro vi nada em minha frente
Si nko fosse a escoridAo,
E logo vi um tinido
Parecido de facdo,

Botei o ouvido a escuta.
Vi uma zoada no mundo,
Como bem o batalhao
De seu Don Pedro Segundo

O soldado Z6 Romno
Que 6 metido a valentAo
Si quer ser preso corn honra
Cabrito aao faga aeo,

E fui preso e inquirido
Pelo soldado Jos6 Imbira.
Dizendo que me levava
P'ra o quarter de Ouarabire,

N6 topete da ladeira
Em casa de D. Aninha
Ela assim que me avistou;
Como vcm meu passarinho?!







-78-


Eu nao sou seu passarinho
Nio canto em sua gaiola
Sou um pobre cantadar
Vivo da minha viola,

Senhora D. Mariinha
Mulher do coraqgo crh
Nao seja assim contra a mim,
Nem seu tenente Luli.

Roberto ter f6 em Deus
E abaixo de Deus em mim.
Que enquanto vida eu tiver
Tu nao pisas no capim.

No mundo existem dois bomens
Que em respeito sgo igual:
Um 6 para me prender
Outro .para me soltar.

Senti pegar-me nos cos
O soldado Jos6 Imbira:
Para onde vai este preso?
Para o Quartel de Guarabira.

Quando cheguei na cadeia,
LA do dito quarteirao,
Encontrei quatro soldados
Todos de rifle na mao,
Perguntando uns aos outros;
E' criminoso ou ladrao?!

Depois de eu estar no quarto
Me botaram na corrente,







--79--


Depois me tiraram ela
Por eu dar parte de doente

Avistei minha Maria.
Marcando passada e media.
Coitadinha barriguda.
Andando por terra alheia
Uns adiante. outros atraz.
Como urn rebanho de ovelha.

Como vlo nossos filinhos,
Maria, por Jesus Cristo?
O Jos6 jd morreu hontem
E Manoel esta para isto.

Olinda por ser minha filha
Minha filha de bengdo,
Ela foi me deu um abrapo
Por cima do correntac,
Chegou dar-me uma frieza
Que quasi caio no chao:
Agora jA seio que bs filhos
SAo cordas do coraCgo.

Entao mandel me valer
Da filha de um coronel,
Ela deu-me uma esperanga
Que era doce como mel:
E depois um desengano
Que amargava que nem f61.

Mal empregado tf series
A filha de um coronel,






-08-

Que o teu respeito ndo da
Para me tirar do quarter.

Fui solto no outro dia
Sem diabo de coronel
For um bravo paraibano
Morador em S.lJose.

Esta fei minha prisio
Em que eu fui condenado,
Agora faltA contar
Dos meus 5 mil pecado,








Alma Iilrca









--88--

Quadras de Adelmar Tavares

Vou vivendo a minha vida
Como Deus quer e consent,
Sou como a folha caida.
Levado pela corrente...

Sou jardineiro imperfeito,
Pois no jardim da amisade,
Quando plant um amor-perfeito
Nasce sempre umna saudade.
De Amor... Amor 6 infinitol
Do encanto do seu poder,
Tanta cousa ae tem dito!
-E ha tanta cousA a dizer...
Trovas, cantigas do povo,
Alma errante doa caminbho...
De lavradores... cigarras...
Mulheres... e passarinhos.

Para esquecer-te, outras amo...
Mas vejo por meu castigo,
Que qualquer outra que eu ame,
Parece sempre comtigo..
Amor 6 obra perdida
Mas, que dissessem queria,
Se nao fosse amar na vida,
A vida que valeria ?
Para matar as saudades,
Fui ver-te em ancias eorrendo...
-E eu que fui matar saud&des,
Vim de saudades morrendo...








-84-

A voz da sereia
-C. MARTINS


No barco segula
pelo vasto mar.
Na praia longinqua
a sereia eantava.

Meu barco vacilava.
Mas ouvindo a sereia,
eu nqo quiz ficar
na praia d6 area.

A voa da sereia
era seduoao.
Pela vida frmne
eu devo seguir

Eu pretend ir
sem me perturbar
com essa cana&o
da sereia do mar

a porto longin quo
do meu ideal
no meu bareo airoso
Relo mar em I4ra.






______________-__45--

Flores da noite
C. MARTINS

Ha ruitas flores aqui na terra
vivas e belas, que a noite ama.
A flor do cacto o calix descerra
e, entao, de amores a noite inflama.

Amam as estrelas o ceu da, noite.
quando. elas surgem vivas e belas.
O ar estremece. em vivo agoite
porque a noite ama as estrelas,

SAo as estrelas flores mimoeas,
flores da noite, mim sas do ceu,
flores eternas e radiosas
a iluminarem da noite o v6u.

Flores da noite no ceu, na terra,
amo-as, contemploas embevecido!
Quanta beleza que se encerra
no ceu da noite-jardim florido!



Os passarinhos
C. MARTINS
Nas Arvores observamos
o passeio dos passarinhos.
Para eles bao os seus rami s
e os ramos para os seusninhos.






-86-


Corn toda habilidade
ali fazem as sens passeios
a disferir os seus gorgeios
numa divine alacridade.

Eles se sentem muito berm
de ramo em ramo saltitando
Que felicidade que t&m
por entire os ramos passeiando!

As Arvores. Ihes sPo portanto.
umas prediletas vivendas.
Amigo, esouta-lhes o canto,
e, amaodo-os, nAo os ofendas.

SAo bnnsinhos, sqo muito belos,
as nossas vistas e ouvidos
agradam. Merecem desvelos.
serem amados e queridos.

Mas ha, quem, pelo memosear, os
engaiole! E inda soe dizer
que ama loucamente os pAssaros.
-Crianga, ou home, ou mu!her.

SAo dos campos os passarinhos
beleza, encanto e primor
e sb merecem nosso amor,
nao maltratos, os pobresinhos

Apreciamos-los tafues,
livres e lindos a voar,
nos campos e espagos azues
seus belos cantos a soltar;






-87--

Sgo dcs campos a alegria,
amada com tcda belefa
do c6u, da terra e a luz do dia,
e encantos slo da natureza.

0 vale do Cariri
C. Martins
Canto esta bela terra
onde ha bosques e palmeira:
o vale montes e serra
formando uma cordilhcira.
0 vale do Carrir
o uma terra bizarre
onde a Araripe sorri
e canta alegre a cigarra.
Da serra as fontesperenes
anunciando fartura
como de engenbus cirenes
anunciam rapadura
Cheiran,do a canaviais
e a wel, o Carili
tambem cheira a manacai
e a fleres de pequi.
Sao belas como a baunilha
as flores do piquizeiro
imitando, de ligeiro
a graciokit escumilha.
Cheira a ,bonina e a rcse,
assucena e brgarl
e a fruta deliciosa
-o vale do Cariif







-88-


O valedo Cariii
encerra imense riqueza
mas 6 someone a beleza
o que me irteressa aqui.

Canto as coisSs somente
so perto belas, mimosas
e as de vulto imponente
-longe, e perto, nio vistosas.

De. alegria improvisos.
16 onde a vista se perde,
pequenos lagos- sorrisos
De Aguaazul no campo verde.

E v6-los-emos de perto,
tocando as aguas cora us p6s,
n&o lindos assim.- cebertos
de pastas e aguap6s.

Vi toda esta linda terra.
banhei-me nas suas fontes.
Descortinei-lhe borizontes
do alto daquela serra.

Vi-a nas manhas luzentes,
ouvindo as aves cantar,
nas tardes, e aos sols-poentes,
e nas noites de luar,

E'-Terra da PromissfA
por sua fertilidade,
Foi chamada-coragAo
do Ceara. em realidade






-89-

0 vale do Cariri
C. Martns
Meu pensamento rev6a
por sobre as suas paisagens,
Ligetro nessas viagens,
minha lira o canto Ihe ent6a.

Que falem outros notando
sua civilisagdo.
enquanto que eu vou cantando
o below e vasto,.ertdo.

Nao jA lhe cantei tambem
a belesa dos jardins
das cidades, que contAm
tantas gosas e jasmins?

Deles, certo, falariam
outros, melhor do que eu,
e coisas belas diriam
como as belesas do ceu.

Vi esse vale de dia
e a luz dos pirilampos.
Nao se descreve em poesia
seus lindos e vastos campos.

E' a terra dos amores,
\dos cantos do rouxinol,
da cigarra. em estridores.
nas selVas ao por do sol,

Na sua populag~o
ha gente branca e de c8r.






--90--

mopas lindas como a floor,
que nos falam ao coragAo.


Trechos de "0 SOL e a LUA"
de CATULO Cearense

De manha heroicamente
vibrando um canto de guerra,
na crista daquela serra,
pontualmente. fatalmente.
ve-se a lua aparecer
E a Lua, corn o seus caprichos
que anda sempre com as-estrilas
comadriando em cochichos,
nio tern hora de nascer!

Finda missAo da jornada
o Sol, A hora aprazada,
no splendor da apoteose,
comeVa a decer a escada
do horizonte rosicler!
A Lua sempre aluada
sewpre, sempre irrefietida
nao tern hora de partida!
Segundo a sua nevrose,
vai-se embora quando quer.


Pru via disso ela vorta
assim magrinha e tso fela,
pra i de nove engordando,






--91-

int6 ficar Lua cheia!
A Lua nfo ter rejumel
A Lua 6 mule! Vareia!


Pode o Mar s6 assassin!


Abasta que veje a Lua.
ter arma e ter coraco!
E o coraico da mui6.
Seu dout6, onde 6 que estA?!
Iscute. Eu vou Ihe esprica!

Vance tA vendo a laooa
daquelA baixa? AculA?
Oie pro fundo das Agua,
qae logo vainc8 verA
a cara da sua cara
1l no fundo, a Ihe ispii!

Fique 1A o dia intro,
que a cara nAo sai de l11
Vaince se rindo ela ri!
Vaince chorando ela choral
Mais se vaince vai-se embora.
duma vez, pra nao vortA,
a cara da sua cara
pra sempre se assumiral

0 que ela fez cum o sinh6,
que sabe 16, qri e dout6,








--92--

faz cor a mcsmn catimb6a,
cum quarque umrsabagante
cum o primiro, que vinhb!

Apois aquela lagoa
e o coragao da muie.


Pintando. como ele pinta,
cum a co de todas as tinta.
do S6 nascendo on morrendo,
o vento vira pint6!

De pinto vira poeta,
e pro vento s6 po6ta,
abasta que o vento veje
um jardim cheio de fr6!

E quando, entonce arrem6xe,
nos matagA rebolero,
na coroa dos coquero,
nas foias do bambuero,
as arve do cemitfro,
nos cipreste gemed6,
ele canta e t6ca musga,
Pro que 6 musga e cantad6!

Faz tudo que Mle deseja!
O vento int6 toca sino.
e reza quando 81e pass
de noite pul'uma igreja!
Mas porem o vagabundo
so que vive pra goza.






-93-

0 vento ano qu6 ceZA!
Vendo a frO, chora, namora,
beja. abrava e as vez disfrora,
mas dexa a fr6 no lug6,
pru que ale sabe que ainda
ter muita fr6 que bjfA.

A cigarra e a formiga

.avendo passado a vida
A cantar todo o verio
A cigarra desprovida
Se achou na tria esta~go.

De mosca on verme sequer
Migalha tendo a misquinha,
Corn a formiga !oi ter,
Que morava ai visinha.

Rogando que The emprestasse,
Per favor ou compaixAo,
Alguns graos com que paseasae
At6 a nova estlaco
-Vindo o tempo da clbeta.
Prometo, A f1 d'anima],
Que hel de ptgar de vura Teita
0s JurosB a principal.

Mas nunca empresia a formiga,
Eis a sao menor defeito.





-94--

Entao pergunta a mendiga:
-E no verno que tern eito?

-Eu cantava noite e dia.
A todo instant a toda hora!
-A cantar entio vivia?
Pois, amiga, dance agora!

Eugelio Weraeck











A- A


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0.m L-