Em defesa de um abolicionista : resposta ao "Apostolado do embuste"

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Title:
Em defesa de um abolicionista : resposta ao "Apostolado do embuste"
Physical Description:
87 p.
Language:
Portuguese
Creator:
Sobreira, Azarias, Padre
Publisher:
A. Batista Fontenele
Place of Publication:
Fortaleza, Ceara
Publication Date:

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Holding Location:
UF Latin American Collections
Rights Management:
All rights reserved by the source institution.
Resource Identifier:
aleph - 003158567
System ID:
AA00000287:00001

Full Text


PE. AZARIAS SOBREIRA


A bondad'e converge maior ndmero de pessoas do
que o zdlo, a cidncia e a eloquencia; e sem a bondade
esses tris reunidos a ningudm consegue converter.
FABBER






EM DEFESA


DE UM


ABOLICIONISTA


(Resposta ao -APOSTOLADO DO EMBUSTE")





1956


Edilora A. Batista Fontenele
Rua Senador Pompeu, 1118
Forlaleza Ceard


~I ~


I __


-r










CENTRO DE INFORMAQAO E DOCUMENTAQAO
DA
ASSEMBLEIA MUNDIAL DA JUVENTUDE







JOSE CA1MBRIELLA
SECRET. ORAL, ADJUNTO A. M. J.






Av. President Vargas, 590 sala 1401
Rio de Janeiro GB. Brasil


Caixa Postal
2871 ZC-00












RESPOSTA AO
"APOSTOLADO DO EMBUSTE"






PE. AZARIAS SOBREIRA


A bondade converted maior n-mero de pessoas do que a
zelo, a ciencia e a eloquencia; e sem a bondade asses
tras reunidos a ninguim conseguem converter.
FABBER



EM DEFESA

DE UM

ABOLICIONISTA


(Resposta ao "APOSTOLADO do EMBUSTE)








1956
EDITOR A. BATISTA FONTENELE
Rua Senador Pompeu, 1118
Fortaleza Ceara























PROFESSOR JOSE MARROCOS


'" ~'$









EM DEFESA DE UM ABOLICIONISTA


II
"E' sempre A verdade que cabe, depois de tudo,
a vit6ria definitive."
Farias Brito

A "firmeza 6 pr6pria de um carAter superior,
enquanto a inconstancia e fraqueza sAo pr6-
prias de espiritos vulgares. A humildade exi-
ge, entretanto, que mantenhamos con mode-
raaio os nossos pontos de vista, sabendo tole-
rar a opiniao contraria, sem ofender os que
possuem idWias que se choquem cor as nossas.
Corn isto nao combine o home apegado As
suas ideias pessoais: ele se serve da audAcia e
violincia para atacar. Maltrata, injuria, afron-
ta quem quer que se atreva a discordar de seu
angulo visual. Verdadeiro tirano que se reve-
la insuportavel."
Lacordaire

PREAMBULO

Muito de prop6sito encimei esta tr6plica cor os di-
zeres supra para que nem por um milimetro eu me afas-
te do ideal tragado pelo Divino Mestre e que o citado fi-
16sofo Farias Brito tao acertadamente concretizou nesta
outra sentenga lapi'dar: "A verdade 6 o nosso dever su-







premo. Mas, para que sejamos verdadeiros, devemos re-
conhecer, em todos os que se apresentam comp 6rgoas de
uma consciencia, o mesmo principio que nos anima, e
respeitar neles o que queremos seja respeitado em n6s."
Desejo declarar, antes de tudo, que faz parte de meu
program de vida amar as pessoas que, num gesto cari-
doso e human, me confortam com o seu aplauso e soli-
dariedade; mas nao menos trago na lembranga aquilo de
Jesus Cristo: "Amai aos vossos inimigos: fazei bem Aque-
les que vos fazem mal; oral pelos que vos perseguem e ca-
luniam." E por isto, como tamb6m por um sentimento de
tolerancia que ja se tornou care de minha care e os-
so de meus ossos, acostumei-me a rezar por todos aquiles
que nao simpatizam comigo e me fazem sofrer. Quero bem
de coragdo a quem aponta meus erros e fraquezas, aju-
dando-me a cair em mim mesmo e corrigir-me com maior
prontidAo.

PAO-PAO, QUEIJO-QUEIJO

Feita esta introdu~go, pego aos que houverem en-
trado no conhecimento de minha primeira plaquette cor
o titulo da present publicacgo, e que depois leram a
resposta de meu antagonista, licenga para falar em ter-
mos mais significativos.
Ber sei que a 6tica social e a boa educacgo nos acon-
selham a fugir de t6da polemica de carAter muito pessoal,
uma vez que o objetivo marcante 6 e deve ser a conquista
da verdade, e nao desabafos do amor pr6prio ferido, dos
quais result desedificago p-iblica, desprestigio da classes,
regozijo dos maus. Mas ha cases que pcdem muito mais
do que a lei; e foi por semelhante razao que o ap6stolo
Sio Paulo, acotovelado pela prot6rvia de adversArios do







Evangelho, que deste se prevaleciam, manhosamente,
para estabelecerem a confused no rebanho divino, saiu,
certa vez, de sua humildade e desmascarou a impostura,
proclamando seus pr6prios titulos de ap6stolo e embaixa-
dor de Deus.
Vem isto tudo reclamado pela impressed que, no Ca-
riri e em circulos pensantes de Fortaleza, esta produzin-
do a leitura de violent panfleto que o gratuito contradi-
tor de Marrocos acaba de contrapor A minha referida r6
plica e a que deu o nome de APOSTOLADO DO EMBUS-
TE.
Sabem todos os que me leram cor Animo despreve-
nido, todos os que privam de minha amizade, com que
sentiments entrei na arena, para aparar os golpes por
ile desfechados num respeitado abolicionista, "educador
emerito" e jornalista de vastos recursos.
Ignorando ainda certa acusacgo agora feita ao meu
cc nstituinte, falecido, alias, havia 44 anos, sem haver
deixado descendencia que agora Ihe reivindicasse a boa
reputaCgo, fechei os olhos a quaisquer conveniencias e
disse, em trabalho que saiu impresso e que aparecera no
firn deste, aquilo que sabia s6bre o morto etn question.
O que foi a despretenciosa defesa por mim produzi-
da, seja no vigor das alegacges, seja na elevago da lin-
guagem, t6da ela visceralmente escoimada de paix6es e
reticencias indignas de um home educado, proclamou-
o a imprensa de Fortaleza por alguns de seus 6rgdos mais
salientes, afora quase uma d-izia de cartas particulares,
algumas firmadas por intelectuais de valor, todos unAni-
mes em atribuir a minha iniciativa um alcance incomum.
Dada a minha inegAvel obscuridade e a minha mesma
condig5o de padre velho, que nunca amealhou bens deste
mundo e cuja fnica riqueza 6 a sua pobreza honrada e





- -


desambiciosa, s6 uma explicacgo descubro para tao espon-
tanea vaga de elogios: o acervo de veracidade inerente ao
meu sobredito trabalho e a maneira cavalheirosa como me
referi Aquele que, tao ins6lita e deselegantement6, desen-
terrara um defunto de tantos anos, educator como ele,
jornalista tambem, mas que nunca o molestara, para o ex-
por A galhofa dos espiritos superficiais.
Pesa-me diz&-lo, mas julgo necessArio pbr a nu a
hediondez de certos homes de imprensa, sobretudo se re-
vestidos das credenciais de mestres da juventude, ou minis-
tros de uma religiio de amor. E' precise que se ndo gene-
ralize semelhante jeito de discutir, em attitude de franca
agressdo, vomitando insultos e ameagas s6bre quem Ihe
merecia respeito, mesmo porque, contestando-lhe as ideias,
havia-o tratado cavalheirosamente e nao deixara de ser seu
amigo. Eis, tal qual, a minha condigio para com o con-
traditor de Marrocos,

IRREQUIETO ANTAGONIST

Para se adquirir uma nocgo menos rasa do despro-
p6sito que presidiu ao aparecimento desta pol8mica, g&-
nero de esgrima em que nio tenho outro estimulo sendo
o desejo de ressalvar minha dignidade e a dignidade da
classes a que pertenco, basta verificar como 6ste assunto
foi trazido a ribalta pelo meu antagonista, meu ex-aluno
c ex-dirigido de Seminario, no Crato.
Conforme se pode averiguar no suplemento deste
folheto, Sua Senhoria, no final de uma curta monografia
de exaltacgo a seu respeitavel av6 paterno, que Ihe havia
custeado a educago, entra de improvise, sem a mais pe-
quenina transicgo, a enxovalhar a mem6ria de Jcs6 Mar-
rocos. Afora a descaridade de dizer que o finado, send
filbo de uma "cabra", era-o tamb6m de padre, e neto de







um jesuita, circunstAncia que nio interessava ao pdfbli-
co e que define a mentalidade do autor, aponta-o como
jornalista cor um ano de servigo, quando era conhecida,
de todo estudioso da hist6ria do Ceara, a pujante ativida-
de jornalistica de Marrocos, tanto no Rio e Fortaleza,
quanto no Cariri. E tudo isto pelo simples prazer de
mostrar erudicgo em sua especialidade e tornar despre-
zfvel um nome, at6 aquele tempo, geralmente bemquisto
de gregos e troianos. E cautelosamente, apesar de com-
petente professor de hist6ria, silencia-lhe o-brilhante
passado de pioneiro da aboligCo.
Nao content de tudo isto, passa a sustentar que o
morto era um jansenista, um aluno expulso do SeminA-
rio por indesejdvel, um cat6lico sem coerencia, um rou-
bador de objetos considerados sacros, um burlao, um si-
mulado, um caluniador da divindade, um feiticeiro, um
dtplice, uni embusteiro-mor, um fargante, um Caglios-
tro-mirim, o grio mrgico do embuste, o Antonio Conse-
Iheiro intellectual do Cariri, um tratante, um ap6stolo do
embuste, um chantagista, e outras delicadezas desta es-
p6cie,
No fim, A guisa de resgate de tanta falta de 6tica e
de tanta falta de caridade, p6e este remate a sua mono-
grafia: "... professor em6rito, muito Ihe deve a instru-
cio de Crato, que Ihe perpetuou o nome numa de suas
ruas, merecidamente."
Mas de quanto levo dito, o mais important vein a
ser o seguinte. Quando me veio as mros o primeiro ata-
que a pessoa de Marrocos, apenas o havia lido e medi-
tado suficientemente, tomei da pena e, corn a lealdade
que devemos uns aos outros, escrevi a Sua Senhoria, sob
registro postal, dizendo-lhe do meu pasmo em face de
sua attitude e prevenindo-o de que naquela data ia enviar,





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para ser editada em Fortaleza, uma contestaCgo & sua
referida pdgina contra Marrocos. Desta minha comuni-
cagdo 6 testemunha o atual advogado do Banco do Bra-
;il no Ceara, meu amigo e amigo de Sua Senhoria, o Dr.
Marcelo Linhares.
Prontamente me responded 'le, afirmando, em alto
rr-lvo, que assim procedera estribado nos conhecidos ar-
tigos de imprensa trazidos A luz pelo Dr. Raul Carvalho e
que, n5o ter sofrido contestagSo, Sua Senhoria os conside-
rava uma verdade liquid! S6 atrav6s dessa sua confis-
sdo se percebe o senso de responsabilidade de Sua Se-
nhoria, na maneira de apreciar a reputacgo de um ser
human, mrnxime se 6ste j. nao possui quem o defend,
cu quem tenha coragem para contradizer o acusador.
Ai de minha reputagSo e da de Sua Senhoria que,
como eu, nao vai deixar descendencia, se daqui a 44 anos,
quando o p6 do esquecimento houver apagado o pobre
rastro de nossa passage pela terra, algu6m de iguais
entranhas entender de nos arrancar da sepultura para,
firmado em pequeninos indicios, pequeninas fraquezas
inseparAveis dos filhos de Eva, expor nossa mem6ria a
tho unilateral e tao impiedosa dissecagio!

UMA SIMILITUDE

Se ap6s tantos anos depais de sepultados, outro es-
pirito irrequieto, intrigado com o alto conceito de que
gozam um Jos6 de Alencar, um Clovis Bevilaqua, ur
Justiniano de Serpa, ur Diogo Ant6nio Feij6 e tantos
outros, estr8las de primeira grandeza na constelago na-
cional, saisse de seus cuidados para dizer que nao mere-
ciam t~o alta posigqo, alegando motives que tais, quem
nao se indignaria contra ur tal process de dernoligo?





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Nao 6 apenas a ascendencia que decide de nossas apti-
d6es psicol6gicas, de nosso carter e destiny. A prova 6
baver tanta gente ilustre e respeitavel, proveniente de
lares decaidos e, ao mesmo tempo, tantos tipos degenera-
dos entire filhos de pais de irreprochdvel proceder. Quan-
tos gnnios nos aponta a hist6ria que foram filhos espu-
rios ou de pais alco6latras, ou portadores de outros es-
tigmas!
Em qualquer hip6tese, parce sepultis. Ou melhor: de
mortuis, aut bene aut nihil. E, se temos de submeter os
finados a julgamento de natureza hist6rica ou de outra
elevada finalidade, "tome-se posicgo", mas comn a sere-
nidade pr6pria dos que buscam a verdade e cor um co-
medimento, de expresses que afaste t6da e qualquer sus-
peita de paixio desordenada.
Basta ler, de olhos abertos, o fogoso panfleto de Sua
Senhoria para sentir" nle, do principio ao fim, o sinete
inescurecivel de um despeito insopitavel, uma sede de
destruigdo, uma ansia de inutilizar reputacdes bem ali-
cergadas, contanto que assim abra passage para sua
arrogante personalidade.
Nao 6 e nem pode ser assim que deve proceder um
mestre da juventude, especialmente se encanecido como
eu e, como eu, percebendo que o espago. que Ihe separa
o berco da sepultura se encontra pasmosamente encur-
tado. Do contrdrio, ficard sem autoridade para ensinar,
sobretudo para ensinar o Evangelho, onde se 16: Se vais
levar a Deusa tua oferenda e no caminho te advertes de
que teu irmdo tem alguma cousa contra ti, volta, vai fazer
as pazes cor teu irmao e depois vem fazer tua oferenda.
Vale a pena recorder aqui o que nos ensina o Ap6s-
tolo SAo Paulo, numa pdgina.imortal: "Meus irmios. Ain-
da que eu falasse as linguas dos homes e dos anjos, se
me faltasse a caridade, tornar-me-ia como o som de um






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metal ou como o tenir de uma campainha. E, ainda que
eu tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mis-
t6rios, e possuisse t6da a ci6ncia; ainda que eu tivesse o
a f6, a ponto de deslocar montanhas, se me faltasse a ca-
ridade, nada seria. E ainda que distribuisse todos os meus
bens para sustento dos pobres, de nada isto me aprovei-
taria. A caridade 6 paciente e benigna, a caridade nao
6 invejosa, rno procede levianamente, nao se ensoberbe-
ce, nao busca seus pr6prios interesses, nao se irrita, nao
suspeita mal..." (1 Cor. 13, 1-12).
Nao conhego espetdculo mais contristador do que um
pedagogo, um ministry de religido, despido de delicadeza
de sentiments, impando de confianga em si mesmo, que-
rendo triunfar pelo terror e pela audicia das attitudes.
Nao nos basta ensinar o perddo, se nao soubermos
perdoar; nio nos basta ensinar a humildade evang6lica,
se em n6s o que prevalece 6 a arrogAncia e o azedume,
fonte envenenada donde manou a ruina de tantos outros
que, a nosso exemplo, evangelizaram algum povo. Anda-
mos mal em nos contentarmos de recomendar a modera-
S-o na linguagem, se procedemos de maneira contraria.
E' que as palavras v6am, mas os exemplos arrastam.

INDE IRAE

Quando redigi a minha replica, s6mente uma ex-
pressdo me saiu da pena que pessoalmente pudesse me-
lindrar a Sua Senhoria. Ei-la: "Aconteceu, por6m, que,
da pAgina 24 por diante, o author, mudando de rumo, pas-
sa a ocupar-se, at6 o fim, de Jos6 Joaquim Teles Marro-
cos, inolvidAvel abolicionista, educador e jornalista cea-
rense. E nao para apont.-lo ao aprego da posteridade





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e sim, para denegrecer-lhe a mem6ria, atribuindo ao
mesmo, procedimento tdo infamante que, a ser compro-
vado, p6-lo-a no rol dos Joseph Fouch6, Silv6rio dos Reis
e outros que tais".
Pois bem. Bastou 6sse nonada para que Sua Senho-
ria, perdendo de vista os bonitos exemplos de mansidio
que Ihe deu, invariavelmente, o Coronel Basilio Gomes
da Silva, seu modelar av6 paterno, como tamb6m o seu
papel de natural modelo de seus discipulos, contra mim
saisse a campo cor ares ditatoriais.
Vamos as provas.
1 Para contestar minha inocente afirmativa de
haver gozado de "inteira confianga" do primeiro Bispo
do Crato, apreciemos-lhe o calibre da contestagio, encon-
travel a pagina 10: "Isse falecido principle da Igreja, tem-
peramentalmente reservado, jamais depositou confianga
inteira em pessoa alguma, em que pese ao equivoco do au-
tor da Defesa, no qual observava certo pendor para o que
costumava chamar "as cousas de Juazeiro", a respeito
das quais lia exaustivos documents ao autor da Defesa,
como ilustragdo mas tamb6m como ilustrago preventive
e terapeutica."
2 Mas nio fica nisto s6 o desabafo pessoal de Sua
Senhoria contra mim. Ougamo-lo a pagina 43: "Pedro
Lobo de Meneses, pai do autor da Defesa, de tal modo se
possuiu da crenga na droga marroquina que abandonou
seu sitio "Pelo Sinal", terminando por vend8-lo a Reinal-
do de Sousa, pai do ilustre Monsenhor Silvano de Sousa
e do Juiz de Direito Reinaldo de Sousa. E mudou-se para
Juazeiro."
3 Ainda, noutro local, a pagina 53, assim maldo-
samente se express: "Uma das oracoes fortes de Jos6
Marrocos, em seu Caderno de assuntos misticos, ainda
boje em estado de quase conservag~o: "Cobra ti nio mor-





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deste a... N ... Mordeste ao Veneravel Padre Jose de
Anxeta."
E acrescenta: "0 autor da Defesa ensinava-nos no
SeminArio a fazer "pedra-de-veado" anti-ofidica, ou f6sse
para neutralizar veneno de cobra. Uma afinidade do au-
tor da Defesa cor Jos6 Barrocosl..."

*

Chegado a 6ste ponto, seja-me licito apor alguns co-
inentArios A margem dessas insinuaSges.
1 Ao primeiro item tenho a dizer que, em se tra-
tando de pesscas s;rias, nada ha, naquela minha manei-
ra de falar, que mereqa a injuriosa contestago de Sua
Senhoria. Quando se diz de um m6dico, ou de um gover-
nador de Estado, que se gozou de sua inteira confianga,
nem de leve se quer sustentar que se tenha estado na
posse de todos os seus segredos profissionais. Confianga
assim s6mente se encontra, e nem sempre, entire marido
e mulher. Nao passava aquilo de uma forma de expres-
sao perfeitamente compreensivel.
Se eu quisesse, entretanto, reafirmar aquela expres-
soo, nao precisaria bancar o gabolas. Bastava invocar
dois entire outros fatos conhecidos, por serem de maior
evid'ncia. Por exemplo, quando Dom Quintino Rodrigues
pre'endia fundar a frustrada Congregaggo Josefina de
padres, corn que eclesidstico contava Sua Excelencia pa-
ra, apesar de seu atraso, de seus defeitos e de sua pouca
sauide, p6r-se a frente daquela arrojada fundano? Qual
foi o eclesiastico mogo que teve o beneplAcito de Sua Ex-
c2lencia para ir mensalmente a Juazeiro, sabendo que a
&le se confessava, de cada vez, o Padre Cicero, naquela
fase trepidante de desajustamento e incompreensao?





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Merce de Deus, em lugar de envaidecer-me dessas e
de outras mostras de paternal confianga, o que fiz mul-
tas vezes foi despistar a curiosidade dos confrades, dando
a entender exatamente o contrArio. E, depois de all ter
trabalhado oito anos, levando vida modestissima, ao sair,
entire a vida e a morte, precise tomar por empr6stimo
cem mil r6is ao advogado Ocelo Sobreira. E tive tamb6m
que vender dezenas de meus livros que me poderiam ser-
vir de preciosa distragdo, no ostracismo forgado que tinha
diante de mim.
Pedro Lobo de Meneses ndo se retirou do vizinho Mu-
nicipio de Barbalha para Juazeiro porque estivesse "pos-
suido da crenga na droga marroquina", como ir6nica-
mente escreveu Sua Senhoria. Nascido em Crato, mas
passando meses de inverno em propriedade da familiar &
margem do Salgadinho, rio que banha Juazeiro, era na-
tural que meu pai, sentindo abeirar-se do ocaso, prefe-
risse acabar seus dias ali, onde decorrera sua acidentada
infancia. Foi all, exatamente, que seu honrado padrasto,
receoso de Joaquim Pinto Madeira, que o havia mandado
intimar para pegar em armas e acompanha-lo em seu
movimento de rebeliao, foi bArbaramente assassinado,
uma tardinha, com dois tiros e dezoito facadas.
Alem de tudo o mais, meu velho pai, saindo de Bar-
balha, pretendia distanciar-se de um parent que o de-
sacatara em sua sala de jantar e, ao mesmo tempo, esta-
belecer-se com uma loja de tecidos, ramo de neg6cio em
que fizera independnncia na cidade de Ic6. E Juazeiro,
ante o in6dito surto de romaria que para 16 se encami-
nhava, era ponto estrat6gico nada desprezivel. Verda-
de 6 que aquela estranha agitagdo em trno de prodigious
tio assoalhados, diante da fama de santidade que cercava
o future Patriarca, impelia-o a olhar o Padre cor parti-





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cular estima. Alias, eram contraparentes e amigos de
a,ntiga data. Quem, no sul do Estado daquelas eras, nao
tinha pelo Padre Cicero uma verdadeira venerago? quem
nao Ihe queria bem? quem nao fazia questio cerrada de
possui-lo por padrinho de um de seus filhos? 0 respeitA-
vel e culto Bispo de Pelotas, a quem Sua Senhoria se re-
fere em terms tio elogiosos, era, como eu, afilhado de
batismo daquele sacerdote, e nascido apenas a quatro
quil6metros de Juazeiro.
Pelos modos, tinha meu pal outro objetivo ao mu-
dar-se para aquela povoagdo, qua distava de Barbalha
tr s 16guas. Sabe qual vinha a ser? Vidvo e pretendendo
casar-se, apesar de envelhecido, parece que naquela mu-
da 'le esperava decidir minha mre, sua prima, j& em fran-
ca march para os quarenta anos e muito agarrada aos so-
brinhos, a aceitar-lhe a mro, o que sucedeu depois.
Asse Pedro Lobo de Meneses tinha sido um dos elemen-
tos mais prestadios na cidade de Barbalha, onde deixou
amizades preciosas e um nome respeitado. Quer saber o
que dcle diz o historiador cratense Irineu Pinheiro, & pa-
gina 157 de seu livro "O CARIRI"? Transcrevo-a eu para
poupar-lhe canseiras. Ei-la:
"A 28 de Marco de 1869, instituiu o missionArio a Casa
de Caridade de Barbalha, cujo terreno foi doado por Men-
do de SA Barreto.
"E esta, na integra, a ata de instalacgo: "Aos 28 de
Margo de 1869, sendo 6ste dia Domingo de Pdscoa, foi
instituida a Santa Casa da Vila de Barbalha pelo seu
fundador e benfeitor da mesma, o Reverendo Padre Mes-
tre Jos6 Ant6nio de Maria Ibiapina, cor o rnmero de
vinte e tres pessoas, como se vera do mapa seguinte, no-
meando, na mesma ooasiio, os empregados da Casa, como












- ---





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PEDRO LOBO DE MENESES
PEDRO LOBO DE MENESES





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abaixo se verA; e para constar em todo o tempo, eu, o re-
gente da Casa, fago 8ste termo em que me assino. Barba-
Iha, 28 de Marco de 1869. Pedro Lobo de Meneses."
"Escolheram os conselhos director e consultivo. Da-
q:elee participaram, entire outros, Pedro Lobo de Meneses,
regent, pal temporal e primeiro benfeitor da Santa Ca-
sa, e o VigArio Padre Jodo Francisco da Costa Nogueira,
pai e director spiritual (Livro do Arquivo da Matriz de
Barbalha).
"Consideram Pedro Lobo de Meneses primeiro ben-
feitor por ter 61e presenteado a nova instituigao com a im-
portAncia de dez contos de reis, elevadissima em referen-
cia Aquela 6poca."
At6 aqui a pAgina de Irineu Pinheiro.

***

Quer Sua Senh'oria saber em quanto poderiam mon-
tar, na moeda depreciada de hoje, aqu'les dez contos de
r6is que o autor dos meus dias ofertou, em 1869, para a
Casa de Carldade de Barbalha?'Nada menos de seiscen-
tes contos de r6is, ou sejam Cr$ 600.000,00 da atualidade.
Var~o de poucas letras, mas com grande pratica co-
mercial e com um ativo de diversas viagens a Recife e
Fortaleza, foi um home s6rio, desassombrado, manso,
temente a Deus e havido como pal da caridade naquela
terra, cnde passou cerca de vinte e cinco anos. Com 61e se
carteava o santo missionario cearense, Padre Ibiapina, e
dessa correspondencia guard comigo onze preciosas epis-
tolas.
Para Sua Senhoria saber, entretanto, como se alongou
da verdade e da justiga, atribuindo a meu pal o que ir6-
picament se compraz em chamar de "droga marroqui-





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na", dir-lhe-ei, a f6 de minha palavra, que nunca vi nem
soube o autor de meus dias, embora f6sse leal amigo do
Patriarca, na casa deste filtimo. 0 que sucedia era o con-
trArio: era o Patriarca ir, de long em long, visitA-lo em
nossa resid6ncia, onde, sem a menor sombra de fanatismo,
todos o estimavam de coragco.
Mas 6 assim mesmo: sera o home o que suas agSes
o revelarem. Cada qual da do que possui.



Ao terceiro item, els o que tenho a adiantar:
Quando Sua Senhoria, a 6ste seu antigo professor
pretend injuriar, dizendo maldosamente que por vOzes
o viu ensinando a preparar o conhecido contra veneno
de cobra, comumente chamado pedra-de-veado, simples-
raente eu o lastimo. Lastimo-o porque Sua Senhoria, se
ainda nao perdeu o senso de suas responsabilidades, fin-
giu encontrar descaida moral onde s6 existia sentimiento
humanitArio bem entendido. Nao hA near ser aquele
tratam-ento anti-offdico de surpreendiente efeito, e ter
salvado muito sertanejo de morrer sob a picada de cobras
venenosas.
A Sua Senhoria devo ter explicado, entdo, onde
aprendi aquela meizinha: num journal do interior de Mi-
nas Gerais e no convivio do VigArio Geral dessa cidade,
Monsenhor Vicente S6ter de Alencar, cujo irmZo sacer-
do.e, de santa recordag~o, entregava-se, como eu, a 6sse
g6nero de solicitude para cor os deserdados da fortune.
Assim, infelizmente, sdo diversas das alegagSes cons-
tantes do seu panfleto APOSTOLADO DO EMBUSTE.
Pelos autos, quererA Sua Senhoria que por essa mesma
forma o venham a tratar, mais adiante, seus ex-alunos,






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votando-o ao desprezo, como acaba de proceder comigo
que, bem ou mal, fui seu professor e director interno de
Semindrio? Mas Deus The perd6e, como seu divino Filho
perdoou aos que contra gle, agonizante, vomitavam in-
sultos e blasf6mias. Ndo me causaria nenhum espanto,
contudo, que, volvidos mais alguns anos, Sua Senhoria,
a exemplo de alguns outros que se haviam constituido
espontAneos inimigos de Juazeiro e seu fundador, tendo
perdido sua boa estila, s6 puderam encontrar paz na-
quela terrinha tdo malsinada. E foi de 16 que alguns deles,
positivamente modificados, partiram para a etenidade
sob as bengdos daquela populagEo eminentemente labo-
riosa e ordeira, cuja preocupagco maxima, nem sempre
na media ideal, 6 servir a Deus e alcangar o c6u A som-
bra da-Santa Igreja Cat6lica, Ap6stolica, Romans, eomo
incessantemente foi aconselhada pelo Padre Cicero Ro-

NOTA Para se ter uma id6ia da perfeita ortodoxia constant da
orientaglo dada pelo Padre Cicero a seu povo, vem a proposito referir
o caso seguinte. Em 1925, no auge da polrmica travada entire o atual
Mensenhor Manuel Macedo e o caudilho Floro Baatolomeu, no silenelo
de meu gabinete onde conversivamos a s6s, enderecei Aquele esta p6r-
gunta: Macedo, berm ei que voo6 estA ressentido corn o Padre Cice-
ro, e nao sou eu quem Ihe negue a razao. Mas me diga, Iuz de sua
c'nsciencia, o que Ihe prece dos conselhos do Padre Cfoero. a86 o
Papa os poderia dar melhores", responded, sem titubear, o interpe-
lado.
E cumpre ponderar que Monsenhor Manuel Macedo figure antre os
mais cultos, virtuosos e conspicuous membros do Clero Brasileiro. E nix-
gu6m, mais do que l6e, teve reiterados ensejes, quando menino, e
depois de ptdre de ver e ouvir o Patriarca em suas falas e consellhf a
pessoas de todas as oategorias que o consultavam, procedentes de tbtdoi
os recantos do Nordeste.






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mro Batista, que nunca abriu a boca para falar mal de
um sacerdote.
Por tal forma teria resgatado o desassossgo, que im-
prudentemente plantou em milhares de espiritos primi-
tivos.

AFIRMACAO IMPENSADA

Passando a analisar outras assertivas de Sua Senho-
ria, comecemos pela de haver Marrocos, no derradeiro ano
de sua vida, transferido sua residencia para Juazeiro, on-
de teria tentado ressuscitar a vencida questdo religiosa e
feito manifest campanha de descr6dito contra a Autori-
dade Episcopal.
Ate onde chega ao meu conhecimento, a realidade 6
b?m outra. Marrocos, velho, adoentado e desiludido, ao fi-
xar resid&ncia em Juazeiro, um ano, alias, antes de sua
morte, nio foi colaborador assiduo d'O REBATE, redato-
riado que era por Alencar Peixoto, dono da emprsa, e
Floro Bartolomeu da Costa, medico baiano ali rec6m-che-
gado, um e outro fogosos e destemidos homes de im-
prensa, positivamente interessados em adquirir populari-
dade.
Nem foi Marrocos atraido a Juazeiro'com os fins in-
confessdveis que Sua Senhoria inculca. 0 intuito do Pa-
dre Cicero, empenhando-se pela presence daquele edu-
cador, ao que tudo indica, era conseguir, por interm6dio
do mesmo, uma certa instrugRo secundAria na juventu-
ae juazeirense, que comegava a sonhar com melhores
dias, mesmo em vista da grande preocupagio do momen-
to, que era a autonomia municipal da localidade. Dou-
tro lado, esperava o Padre Cicero que Marrocos, ex-pro-
fessor do Redator-Chefe d'O REBATE e alvo extremado






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da admiragCo deste lltimo, exercesse sabre o mesmo, um
genio bilioso e arrebatado, a desej6vel influencia modera-
dora.
Quanto ao fato a que alude Sua Senhoria, de haver
O REBATE, aq tempo da morte de Marrocos, declarado
que este havia sido colaborador daquele semanArio, os que
lidamos cor nsses assuntos podemos, sem esf6rco, redu-
zir a expressao a seus justos limits. Quando se trata de
personagens de rel6vo, basta que estas tenham mandado
uma ou duas colaborag~es para determinado 6rgao de
imprensa para que este se consider cor o direito de afir-
mar que possui, naquela entidade, um colaborador...
Como uma paixao desordenada pode transtornar o
verdadeiro sentido dos acontecimentos e induzir a conde-
nar, como um infame, algu6m que, no tribunal divino,
talvez esteja mais seguramente amparado do que n6s
dois! Alias, nao 6 licito julgar a respeito das interig6es dos
outros: de internis non judicandum.
Adotado que seja um tal crit6rio de julgamelito, uni-
lateral e ressumante de espirito sect&rio, nenhum home
de projegio political ou religiosa, mormente se envolvido
em quest6es de tao melindroso carter, escaparia & re-
provagdo e ao vilipendio.
Por que enxergar s6mente a Marrocos como pessoa
capaz de produzir aquelas farpas, absolutamente condenr-
veis, contra o venerando Bispo Diocesano, ou mesmo con-
tra certos bispos em geral, se ali se encontravam os outros
dois jornalistas acima referidos, de not6ria e ostensiva
combatividade? Pelo menos, quando Alencar Peixoto, em
1912 (?), partiu definitivamente de Juazeiro, publicou,
pela imprensa de Fortaleza, uma declaraCgo que termina-
va assim, mais ou menos: "..... tendo usado, para com meu






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Superior HierArquico, expresses que por demais o sus-
ceptibilizaram......, achava-me corn meu sacerd6cio inuti-
lizado pela censura eclesiastica..... Assim, reconciliado cor
meu Deus, cor meu proximo e comigo mesmo, pois preci-
sava de ondas de paz para afogar as tristezas de minha al-
ma, cumpria-me fazer ao pliblico solene deliberagdo. Ei-la
ai, pois."


Quanto a determinadas expresses menos respeito-
sas, que Sua Senhoria afirma ter descoberto nos arqui-
vos, expresses essas de Marrocos para a augusta pessoa
do Diocesano, conv6m ponderar que, do outro lado, nem
sempre se escolhiam meios para emudecer e desnortear,
pela palavra escrita e falada, os defensores do Padre Ci-
cero. Hoje em dia, decorridos sessenta e cinco ancs, 6-
nos muito fdcil sentir a estranheza de uma tal attitude,
ante a qual parece que o advogado da Defesa, em 1891,
era um home irreverente e desmedido na linguagem, o
que nao corresponde a realidade objetiva.
NAo serei eu, entretanto, quem justifique a Marrocos,
Infstrltamente, nessas raras expresses, incompatlvels
rom um sentiment cat61ico idealmente disciplinado. Mas
6 possivel que a Sua Senhoria falte a devida autoridade
para, a tdo grande distancia no tempo e no espago, con-
denar Marrocos sob tal aspect, uma vez que Sua Senho-
rfa nem sempre andou isento de indisciplina na manei-
ra de falar e escrever.
Enfronhado em Direito Can6nico, Teologia e Hist6ria
da Igreja, nio ignorava o defensor de Juazeiro que, ape-
sar dos esforgos de Roma, em todos os s6culos, sem exce-
.qo sequer do primeiro da era cristd, t&m aparecido sa-
cerdotes e ate prelados arredios de seus sagrados deveres,






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jungidos a sentiments subalternos e, portanto, capazes
de tudo, sempre que esteja em j6go seu amor pr6prio
exacerbado.
Dom Joaquim, nao obstante o seu edificante z6lo, a
austeridade de seus costumes, sua eloqiiUncia e impec-
vel compostura prelaticia, tivera apenas um tri6nio de
Semindrio ao ascender ao sacerd6cio. Al6m disto, s6 ad-
mitia por verdadeiros milagres os fatos que, como tais,
nos s~o inculcadcs na Escritura Sagrada, conforme o rea-
firmou, em 1910, no pr6prio Pago Episcopal, a alguns
Bispos do norte do Brasil, reunidos em concilio na capi-
tal de nosso Estado. E Marrocos, possuido de ing6nua
convicqgo em t6rno de sua causa; Marrocos, nao igno-
rando donde haviam said um Ario, um Eutiquio, um
Couchon, um Lutero, julgava-se comr o direito de ir mais
long do que a rever6ncia filial Ihe permitia.
Mas uma cousa 6 fora de dfivida. Ainda no aceso da-
quela batalha ensurdecedora, nem um instant Marro-
cos contestou o legitimo direito que possui a Autoridade
Diocesana de tomar conhecimento de qualquer irregula-
ridade ocorrida dentro de seus dominios, mixime se tal
irregularidade atinge, como no case em f6co, os interesses
sagrados do Dogma e da Moral. Jamais deixou Marrocos
de reconhecer na Santa Igreja o direito de, na pessoa de
seus Bispos e Vigirios, defender o patrim6nio da Revela-
g.o contra toda sorte de assaltos do inferno.

0 PACTO DO SIGILO

Corn o fim de despistar a f6rCa de meu arguments:
quando estranhei que, tendo sido quatro as figures cra-
tenses que assistiram A entrevista de Ant6nio Luis comn
o Padre Cicero, nenhuma delas, durante 44 anos, houves-







se traido aquile segr6do, eis como Sua Senhoria sa ex-
plica, A pagina 9:
"Quanto a Jose Dourado, sabe-se que era leal como
ago a seu chefe Antonio Luis Alves Pequeno. Alguns
membros da familiar Ant6nio Luis, a par da entrevista
e seu contefido firmaram um pacto de sigilo em torno do
assunto, por motivo da traditional amizade entire essa
Familia e a do Padre Cicero, bem como tendo emi vista os
lagos politico-partidarios que uniam a primeira ao Padre
Cicero. Falecidos 6ste e Antonio Luis, os sobreviventes da
tribo do segundo, senhores do segtrdo, o historiador Iri-
neu Pinheiro, por exemplo, mantiveram o sigilo. Porem
o Dr. Raul de Sousa Carvalho o rompeu em 1953, peia im-
prensa, ap6s o seu regresso ao Ceari e um passeio a Crato
e Juazeiro."


S6 ignorantes da realidade caririense ou de excessive
boa f6 poderao engolir uma tal explicacgo. Que amizade
era essa, taio sagrada e inviolAvel, que permitia, nao sem
not6rio e pleno apoio do Cel. Antonio Luis, que o Dr.
Raul Carvalho, seu sobrinho afim e juiz de Direito inte-
rino nessa terra, tratasse o Pe. Cicero corn tao violentas
e revoltantes mostras de hostilidade, quais as que Raul
Carvalho tornou conhecidas em seus discutidos artigos
publicados nos Didrios Associados?
Que amizade tao inviolavel era essa que o citado Juiz
de Direito, nascido na serra da Ibiapaba e educado em
Fortaleza, exatamente depois de seu noivado na familiar
Ant6nio Luis, passou a escrever violentos artigos contra
a terra do Padre Cicero, culminando tudo isso na afron-
tosa attitude que adotou para cor aquele sacerdote ap6s






25 -
a morte de Marrocos? Quem all viveu naquela 6poca sen-
tia, de maneira iniludivel, que Raul Carvalho ecoava ape-
nas o sentir do situacionismo local, nio enxergando me-
Ihor maneira de atrair os aplausos da familiar de sua jovem
e prendada esp6sa.
Que amizade tdo sacra e inviolAvel era essa que per-
mitia ao Cel. Ant6nio Luis desabafar-se cara a cara, corn
o Padre Cicero, de caso bem pensado, empregando aquelas
expresses de portdo de feira citadas por Sua Senhoria?
Quem nao percebe prontamente que aquilo nao 6 jeito de
quem tenha qualquer vislumbre de amizade, especialmen-
te se 6, como de fato era, home de boa educagpo. A ver-
dade 6 que ningu6m teve jamais uma tal coragem de falar
ao Padre Cicero por aquela forma: "Tome 1 as suas por-
cariasl"
Que amizade era essa que, par quase mais dois anos,
ainda animou aquele chefe politico a manter, pelo se-
mandrio que The obedecia incondicionalmente e era re-
digido sob suas vistas, uma campanha sem quartel e das
mais violentas contra Juazeiro e o seu just ideal de in-
depend6ncia political? Caso ainico na hist6ria do Ceara,
minha terra-bergo, com uma populagdo urbana de vinte
a cinco mil almas, nao conseguia governar-se por si mes-
ma; antes sofria repetidos vexames e humillag6es, por-
que, mesmo contando corn a boa vontade do Govrno Es-
tadual, a isso se apunha, com um ardor digno de melhor
causa, o Cel. Ant6nio Luis!
Foi necessArio que, cansados de tanto esperar e sa-
cudidos pelo verbo altiloqiiente de Alencar Peixoto e Flo-
ro Bartolomeu, quatrocentos de nossos homes pegassem
em armas e proclamassem alto e bom som: "Aqui nao se
paga mais imposto a Crato."






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Dado, por6m, na mais improvAvel das hip6teses, que
o encontro ao p6 do Cemit6rio do C61era se houvesse re-
vestido daquelas c6res e daquele desmarcado azedume, 6
absolutamente certo que o Patriarca teria infalivelmente
perdoado, como sempre perdoou a todos que o injuria-
ram, oralmente ou por escrito; mas nunca teria consti-
tuido o Cel. Antonio Luis, como mais tarde o fez, seu
testamenteiro, ou seja alvo de sua irrestrita oonfianca.
Pensardo de modo diferente apenas os que nao co-
nneceram aqufle carAter de rija tempera, aquele Animo
desassombrado que nunca trepidou diante de nenhum
perigo, nunca baixou a um ato de bajula~ao a quem quer
que f6sse.
Tdo forte era, no velho sacerdote, a preocupacAo de
se manter a cavaleiro de umas tantas condescendencias
que sua voz interior, tal qual, nio pudesse subscrever, que,
mesmo tendo de combinar corn a opiniao do interlocutor,


NOTA Em t6rno das afirmativas acima, manda a justiga que
.e faga a seguinte observacto. A cidade do Crato ndo responded nem
pode responder por determinadas attitudes assumidas pela facc&o
political dominant em certas fases de sua exist6ncia, como povo.
Sobretudo do oomago dfste s6culo at6 o aparecimento do Gov'Ono
Justiniano de Serpa, tempo em que o mandonismo sertanejo era uma
realidade inescurecivel; nio admiral que so registrassem na Princesa
do SuW do CearA, terra em que a fidalguia dos sentiments e altitude
do ideal se imp6em corn a f6rga de um axioma, cenas como aquelas
acima descritas. E ai se acha a hist6ria de todos os povos, sem excegAo
dos mais civilizados, para atestar que nenhuma coletividade estA isenta
de possuir governor ao arrepio de seus sentiments e convic96es.






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era-lhe frequent externar-se por esta forma: "Ndo! Vo-
cO precise entender isso melhor."

"UMA PISTA"

A pAgina 25 de APOSTOLADO DO EMBUSTE, diz o
seu autor: "... a tradicio oral... atribui a Jose Marro-
cos o papel de embusteiro-mor nesse embuste."
Exatamente A margem dos dizeres atima 6 que vou
tecer alguns despretenciosos comentArios.
Essa afirmacgo de Sua Senhoria, atribuindo a Mar-
rocos a autoria intellectual de execrandos embustes cor
o fim manifesto de produzir os chamados "milagres de
Juazeiro", 6 mais uma de suas afirmativas de escabrosa
e dificil comprovagdo. Senio, vejamos
No Crato, muito antes de Sua Senhoria, morou o au-
tor destas linhas, durante 10 anos, sempre na ocupagio
de cargos de algum rel&vo; e nunca ouviu falar em tal
cousa.
No Crato, durante 39 anos, morou o Padre Quintino
Rodrigues de Oliveira e Silva, depots primeiro Bispo de
Crato; e nunca, conforme Sua Senhoria reconhece, 6le
que tinha consigo t6das as possibilidades de inteirar*se de
semelhante "tradigdo oral"; Zle que, depois de haver sido
professor e reitor d3 Semindrio dessa cidade, ai foi Vig.-
rio e, logo em seguida, Bispo por 29 anos consecutivos;
6le que conhecia, oomo ningu6m, os homes e as maze-
las de todo o Sul do Estado; ele que ai foi um verdadeiro
orAculo, a quemr meio mundo citadino ia levar suas quei-
xas e ansiedades; 6le nunca, jamais, ndo obstante sua
pasmosa capacidade de observagco serena, soube de tal
cousa.






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No Crato, antes de mim e Sua Senhoria, nasceu o
Dr. R., Gomes de Matos, que ai passou a infancia e parte
da adolescencia; ai voltou freqiientemente, quando aca-
demico, advogado e Diretor da Faculdade de Direito, fa-
zendo parte das melhores rodas da cidade, gozando de
crescente e incontrastado prestigio; e nunca tinha ouvi-
do falar em tal cousa.
No Crato passou a adolescencia o Dr. e Senador Fer-
nandes TAvora, figure proeminente da mais relevant
familiar do CearA atual; ai, depois de medico, fixou resi-
dencia, precisamente no primeiro decenio ap6s "Milagres
de Juazeiro"; ai era frequentador assiduo e querido dessa
mesma rodinha leiga, onde Sua Senhoria ndo se cansa
de impingir suas "descobertas hist6ricas", e onde, em
1904, foi planejada homerica afronta ao Padre Quintino
Rodrigues, do que resultou a fugida deste para Juazeiro,
donde s6 arredou p6 cinco meses mais tarde; e 8sse Dr.
Fernandes Tavora assegura que nunca, jamais ouviu fa-
lar em tal cousa.
Ai nasceu, criou-se e tem voltado, infumeras vezes o
jornalista Vicente Roque, cuja franqueza e mem6ria sdo
proverbiais; e 8sse benquisto cratense nunca, jamais ou-
viu falar em tal cousa, a nao ser depois dos escritos de
Sua Senhoria.
Monsenhor F. Silvano de Sousa, filho ilustrissimo
de Barbalha e Reitor do SeminArio de Pelotas, no R. G.
do Sul; Monsenhor Silvano que ai fez seus estudos gina-
siais, exatamente depois dos Acontecimentos Religiosos
le Juazeiro, e, nunca perdeu de vista, seja de Santan6po-
le, seja de Fortaleza onde morou muitos anos, a march
evolutiva do Crato, nunca, jamais ouviu falar em tal cousa.





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O Dr. Leio Sampaio, medico de invejAvel atuago e
nomeada nessa zona; medico, por cujo consult6rio pas-
sou, durante 18 anos, a flor da intelectualidade e das fa-
millas do Cariri, declara que nunca ouviu dizer mal de
Marrocos.
Dom Joaquim Grangeiro de Luna, ex-Prior do Mos-
teiro de S~o Bento, no Rio, e pena das mais bem aparadas
do Clero Cearense; Dom Joaquim G. de Luna que, depois
de rapaz, foi aluno de Marrocos por quatro anos e meio
na cidade de Barbalha, afirma conservar daquele edu-
cador a mais grata recordagdo, e que nunca ouviu dizer
dele sendo o bem.


O mesmo, eu poderia afirmar de uma centena de
outros, inclusive cratenses que nunca sairam dessa ci-
dade episcopal e que, passantes dos 50 anos, declaram
que nunca tinham ouvido falar nessas mis6rias contra
Marrocos. O que se deu foi exatamente o contrario. Nos
dez anos que ai vivi (1916 a 1918; 1921 a 1929), tive en-
soio de conversar, demoradamente, com os principals ho-
mens e senhoras da sociedade cratense de entao. Con-
versei, joguei gamdo, passed horas esquecidas corn o Cel.
Nelson da Franca Alencar; por essas ocasi6es, conversei
longamente cor o seu irmao Abdon da Franca Alencar,
a quem prepare para a eternidade; conversei cor o ve-
Iho Menandro Lemos, confidence do Cel. Ant6nio Luis,
mas igualmente amigo de Dom Quintino Rodrigues, em
cujo solar tinha franca e afetuosa aceitagdo; e esses tres
respeitaveis cratenses, o iltimo dos quais gozava de me-
m6ria e argidcia incomuns, nunca, jamais me adiantaram
qualquer cousa desfavordvel A reputaggo de Marrocos.
Conversei com o Cel. Antonio Fernandes Lopes na





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sua fazenda Sussuarana, onde fui seu vizinho; como tam-
b6m cor Ranulfo Pequeno e sua inteligente esp6sa, de
quem fui h6spede e amigo particular; e nunca, jamais
ouvi de seus lbios qualquer cousa contra Marrocos.
Conversei longamente, em 1917, cor essa mesma Ma-
ria do Espirito Santo, a quem Sua Senhoria invoca em
favor de sua tese; e o que dela ouvi, a respeito de Marro-
cos, resume-se nestas palavras: era ur homenm religioso
e caritativo; conservava sempre acesa uma lampada ao
lado de seu santuirio domestico e, ao que se dizia, reza-
va diiriamente o Brevifrio, como os padres.
Tive demorada conversa cor Jose Teles Filgueiras
e suas irmds inuptas; cor Dona Naninha Pinheiro e sua
filha Dona Clotilde, sendo aquela a matriarca da presti-
giosa familiar Pinheiro Bezerra de Meneses, do Crato. Con-
versei por igual cor seus ilustres e benfazejos filhos: Pe-
dro, Quinco, Cicero e Ant6nio Pinheiro Bezerra de Mene-
ses, dos quais fui amigo e confidence; e nunca ouvi, de
qualquer deles, a menor referencia m &b pessoa de Mar-
rocos.
Conversei muito cor Zacarias de Brito e Dona Tu-
dinha, sua desvelada irma; troquei id6ias, muitas vezes,
corn o professor e jornalista Jos6 Bezerra de Brito, meu
velho amigo e colega de professorado; converse cor os
principals carpinteiros, pedreiros, comerciantes e donos
de sitios, sempre desejoso de conhecer o passado, tend&n-
cia que herdei de meu honrado pal; e nunca ouvi qual-
quer alusho a essas mis6rias agora dai despejadas contra
Marrocos.


De tudo isto, uma conclusAo se impoe. E' que, se





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"tradigIo oral" existe ai em tal sentido, terd sido a tra-
diqc o que Sua Senhoria, de indole irrequieta e sequiosa
de sensaggo, vem criando, de 25 anos a esta parte, entire
seus centenares de alunos e frequentadores de sua roda.

A VERDADEIRA "TRADIQAO ORAL"

Chegou agora a vez de fazer-se ouvir a voz serena
dos aureolados cratenses e barbalhenses, seja de nasci-
mento, seja pelo coraggo, aos quais acima me referi e a
quem solicitei que, A luz de suas pr6prias cnsciencias me
dissessem, por escrito, o que pensavam de Jos6 Joaquim
Teles Marrocos.
Falar- primeiro o Dr. Fernandes Tavora, na sua
carta abaixo transcrita:

"Rio, 27-9-55.

Meu Caro Padre Azarias.

Pax et bonum

"Recebi, ontem, sua prezada carta de 16 deste, que
estou respondendo muito As pressas, pois, havendo che-
gado da Europa no dia 23, ja estou de partida para o
Ceard, afim de votar no dia 3 de outubro.
"Minha viagem a Europa foi rapida, durando exata-
mente um mes; mas, nesse curto lapso de tempo, percor-
ri a Finlandia e os pauses escandinavos, dos quais trou-
xe a melhor das impresses.
"Li o que s6bre Jose Marrocos disse o Dr. Raul de
Sousa Carvalho e estou long de concordar cor a sua
opinido, acerca daquele grande educador.







"Fui discipulo de Jos6 Marrocos e tenho pela sua
mem6ria uma grande reverencia. Sempre o tive como
umn bom cat6lico, home culto e probo, caridoso e bom.
Lembro-me que nos dizia (aos alunos), quando algum
pobre pedia esmola: "Nunca neguem esmola a uma cria-
tura que a pede; nao pronunciem jamais essa dura pa-
lavra: perd6e". E uma vez, n~o tendo outra cousa que
dar a um esmoler, foi ao quintal e trouxe uma galinha
que entregou ao pedinte.
"Foi um grande jornalista e bateu-se, denodadamen-
te, pela redenco dos cativos. Era um competent pro-
fessor latinista, conhecendo profundamente o vernaculo,
e creio que com regulars conhecimentos do grego e do
hebraico. Nao tenho motives para duvidar do seu carter,
e sempre me pareceu um home de bem.
"Desambicioso, preferiu viver no, Crato, distributhdo
os tesouros de seu saber cor seus conterrAneos, emn vez
de brilhar em meios maiores, como fez em Fortaleza e-no
Rio, na sua mocidade.
"Acredito que 8le haja concorrido para incentivar,
no dnimo do Padre Cicero, a crenga nos chamados "mila-
gres de Juazeiro". Mas nio seria isso de admirar, quando
padres e at6 m6dicos incorreram no mesmo engano.
"Em resume: um home culto, honesto, humanita-
rio e bom, que passou pela vida servindo a sua terra e
a sua gente.
"Um cordial abraWo do velho amigo

FERNANDES TAVORA


Tern a palavra agora o Dr. Raimunuid Gomes de Ma-





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tos, chefe incontestado da familiar Gomes de Matos no
Ceard:
"Fortaleza, Setembro, 22, 1955.
"Distintissimo Amigo Padre Azarias:
"Manifesto-lhe meu profundo agradecimento ao ge-
neroso e cordial convite para passar umo mes debaixo do
seu tecto.
"Raimundo Girio mostrou-me seu trabalho s6bre
Jos6 Marrocos, em virtude de sua recomendacgo neste
sentido. Foi bom faze-lo, pois o Padre Peixoto, a quem o
amigo consider morto ha dcis anos, est. vivo numa ci-
dade mineira e ha dez meses, jd com 80 invernos, estevO
no Crato, onde ndo conheceu mais ninguem.
"Telegrafei para o Crato indagando o nome da cida-
de de Minas.
"Quanto ao que escreveu s6bre o bonissimo profes-
sor Marrocos, legitimor sbio para aquile meio atrasado,
honradez em pessoa, pobreza dignissima, eu subscrevo,
pois o conheci, eu, seu aluno no Crato, curso primario.
Nunca vi home mais modesto, mais religioso, mais te-
mente a Deus. Seu orat6rio tinha uma lAmpada de 6leo
eternamente acesa e, ao p6 do mesmo, l8e se ajoelhava e
orava varias vezes ao dia.
"Caridosissimo, A porta do col6gio, aparecia um me-
nino dos brejos e dos p6s-de-serra, trazendo gaiolas cheias
de passarinhos: candrios, patativas, bigodes, rolinhas, pa-
pa-arroz e outros. O velho mestre comprava tudo por ata-
cado, por preco infimo, e ali mesmo, na calgada do pr6-
dio, chamando cs discipulos para testemunhas, abria a
porta do presidio, libertava as avezinhas. Era para '1e
prazer especial v8-las esvoagarem em procura de seus la-
res.
"Assisti a essa cena mais de cem vezes, e ele era pau-





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pirrimo. Aquele tempo, menino como eu pagava a esco-
laridade de dois mil r6is por mes.
"O Pe. Gomes estA fazendo hist6ria, no Crato, ou-
vindo hist6rias de calgada.
"Vindo a Fortaleza, nao deixe de me aparecer, em
nossa casa, preferindo eu que o faca A hora do almb6o,
para compartir do meu bife.
"Sem mais, receba um abrago do seu admirador

R. GOMES DE MATOS"


Escutemos agora as declarag6es do, jornalista Vicen-
te Roque:
"Encontrava-me eu no Rio, quando se festejou no
Crato, onde vim ao planet, o centenbrio do em6rito pro-
fessor Jos6 Joaquim Teles Marrocos. Levarei tamb6m a
minha parca contribuigao a quem na vida s6 praticou o
Bern e a Caridade, no silencio de uma consciencia tran-
quila.
"Neste particular, pass a referir epis6dio autentico,
ocorrido entire o nosso preceptor e um conterrAneo bo8-
mio. Regressava Marrocos da antiga C6rte quando, ao
desembarcar na Bahia, de acordo com a escala do navio,
deparou-se-lhe Jos6 Severino que conheci na minha lon-
ginqua infAncia, liso da gaita, ao 16u da sorte, em extrema
penfiria.
"- Jose Marrocos, quero voltar ao Ceara: d8-me uma
passage para minha terra.
"- Como, home de Deus? Eu tambem nada tenho.
"- Pois, nesse caso, ajuntou o pedinte, eu me sui-
cido (Ato continue, navalha desfolhada, o "maluco" le-
vou-a A goela, em exibicgo teatral.)





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Pelo amor de Deus, espere um pouco, atalhou
o jornalista.
"Saindo dali, Marrocos contratou seus servigos pro-
fissionais no Col6gio Abilio C6sar Borges, recebendo
adiantamentos destinados A passage do indesej.vel
importuno. E por 1l (pela Bahia), ficou alguns mtses,
satisfeito de ter cortado a corda do pescogo ao pseudo-
enforcado....."
Narrado por Vicente Roque, home de bem, mem6-
ria invejada e carAter seguro, o. epis6dio acima assume
um valor incomparAvel, como document de primeira or-
dem para a definigdo dos sentiments, que sempre ani-
maram o peito de Jos6 Marrocos, cuja reputagio sem n6-
doa, 44 anos ap6s o seu sepultamento, espiritos desavi-
sados procuram iniitilmente cobrir de opr6brio.
Atos de tMo impressionante renfincia, em bem do pr6-
ximo, quase inteiramente os desconhece a nossa 6poca, e
sempre constituiram eloqiiente revelagdo de grandeza dal-
ma, mais pr6pria dos santos que de simples mortals. Mar-
rccos, contudo, a fim de evitar o suicidio de um irrespon-
savel, de boa mente interrompe sua viagem de regresso
ao Ceard, e fica durante meses na terra estranha, feliz
no seu exilio.
**
De Vicente Roque recebi, a prop6sito de tao palpitan-
te assunto, recent missiva, da qual quero destacar o tre-
cho seguinte:
"Ao terminar as aulas, no Col6gio Venerivel Ibiapi-
na, Jos6 Marrocos tirava o tergo; e n6s, seus alunos, res-
pondiamos, o que prova a sua invejAvel qualidade de ca-
t6lico praticante.
"O professor B.G., anti-clerical impedprnido, :e n
roda de amigos, fez ameagas ao velho abolicionista, por





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simples implicancia m6rbida. Informado do caso, limi-
tou-se Marrocos a exibir o tergo, seu inseparavel compa-
nheiro, dizendo: "Cor esta arma, eu saberei me defen-
der de meus gratuitos inimigos."
"Poliglota, erudito, fazia discursos para os alunos;
mas, na qualidade de orador, era perfeita boca de siri,
consoante a giria popular.
"Penso, meu valente soldado de Cristo, ter dito tudo,
pelo menos o que guardei na mem6ria sobre aquele velho
educador, com quem me cartee', em tempos idos."


Em carta corn data de 8 de novembro do ano passa-
do, assim me falou o Deputado Federal Leao Sampaio, a
respeito de Marrocos:
"Conheci-o pessoalmente, pois me lembro de o ter
visto varias v'zes em Barbalha, quando crianga.
"Tanto meu pai como minha mae e meus tios refe-
riam-se a 6le corn frequencia. Nio tenho recordagdo de
jamais ter ouvido algo em desabono de sua pessoa ou de
seu carAter."
***

Vai ter a palavra, agora, o ilibado Presidente do Con-
selho Central Vicentino, como tamb6m professor e jor-
nalista na cidade do Crato, Jos6 Bezerra de Brito:
"Recebi e, de um f6lego, li atentamente o seu precio-
so folheto: EM DEFESA DE UM ABOLICIONISTA.
"Receba o meu sincere e cordial abrago de agradeci-
mento e felicitag6es pela sua nobre, just e oportuna ati-
tude, tomando, espontanea e eningicamente, a defesa da
veneranda mem6ria de um cidaddo que, por todos os ti-
tulos, merece o respeito e a veneraggo da posteridade.
"Fui aluno de Jos6 Marrocos; conheci-o de psrto, em-





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bora ncs separasse um pouco a distAncia das idades: o
mestre era jd sexagendrio, quando o aluno contava ape-
nas onze anos. Isto, por6m, ngo prejudicou a grande esti-
ma e o respeitoso conceito que sempre fiz do professor
emrrito. Por um principio de justiga, sou-lhe solidArio
em tudo o que escrever na defcea da mem6ria do grande
mestre e denodado campedo da campanha abolicionista."
(A carta supra traz a data de 14-10-55.)

As linhas que se seguem vdo ser ocupadas cor de-
clara.6es do mais alto valor comprobativo, como abaixg
se vera:
"Mosteiro de Sio Bento, Rio, 30 de setembro de 1955
"Mui prezado Pe. Azarias.
"Recebi sua estimada cartinha de 17 deste mrs.
Agradego-lhe os conceitos nela expresses a respeito do
meu trabalho publicado na Revista do Instituto do Cca-
rd, de 1951, trabalho 6sse relative ao antigo mosteiro de
Santa Cruz da Serra do Estivdo.
"De seus trabalhos, tenho lido e apreciado alguns,
sobretudo dois: a biografia de Dom Quintino e a de Zuca
Sampaio. Em ambas V. Revma. soube tragar, cor gran-
de exatiddo, as notas caracteristicas d&sses dois nossos
coestaduanos e a benemerencia de ambos.
"Agora, quanto a Jos6 Marrocos, quais as impresses
que dMle colhi durante a minha permanencia em Barba-
Iha, como educador, home da sociedade, cidadio parti-
cular, cat6lico, etc.? A isso devo dizer que, durante os qua-
tro anos e pouco, que passei em Barbalha (1897-1902), vim
a conhecer o Marrocos como professor num curso: notur-
no do Gabinete de Leitura, do qual eu era aluno.
"Como educador, a meu ver, era exemplar pela sua
bondade, dedicagdo e interisse que tomava pelo aproveita-





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rnento dos alunos. Era para n6s um prazer assistir is
suas aulas. Interessava-se por cada aluno em particular.
De porte austero, era de coraco bonissimo, por isso esti-
madissimo de todos n6s.
"Como home da scciedade, sempre notei ser 81e tido
em grande consideragdo, pelos seus dotes intelectuais e
morals, pelas melhores families de Barbalha.
Como cidaddo particular, era caridoso, de porte dig-
no e austere, mas afAvel e de moral ilibada, apesar de
solteirio. Como cat6lico, era cat6lico convict e de gran-
de f6: ndo faltava A missa aos domingos e dias santos,
tinha particular devogdo A paix.o do Senhor.
"Eis, meu caro Pe. Azarias, as minhas impresses
dUsse grande educador, jornalista e intellectual que, foi
Marrocos durante os quatro anos que fui seu aluno. E
esta minha impressio julgo ter sido a de todcs os meus
co!egas daquele tempo, na maioria j6 falecidos: o Pe. M.
Duarte de Queiroz, Ant6nio Gomes, Miguel Teixeira, etc.
Rste meu testemunho concorda cor oa que dele escreveu
o Bardo de Studart no seu Diciondrio Bio-Bibli;oagrAfico,
volume II, pig. 131, edigdo de 1913, que o Sr. deve co-
nhecer. Pode fazer uso do que acima afirmei de Marro-
cos, se julgar convenient.
Dom Joaquim Granjeiro de Luna, O.S.B."

***

Terd a palavra agora o Reitor do SeminArio Episco
pal de Pelotas, no R.G. do Sul:

"Meu caro Azarias.
"Estive, mais uma vez, em preparativos para Ihe es-
crever e dar-lhe as informagSes que poderiam ser liteis a





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seus trabalhos, mas a intransigencia dos meus horarios
mo impediu. Agora acabo de reler a sua monografia s6-
bre Jos6 Marrocos. Minhas informag6es nada poderiam
acrescentar ao que Voc8 disse tdo bem.
"Nos meus iltimos anos de Semindrio, encontrei-me
em Barbalha com Jos6 Marrocos, entao director de um Co-
IAgio que funcionava no Gabinete de Leitura. Admirava
aquele home ji encanecido., espirito culto, que vivia
modestamente dos proventos, mais que modestos, de urn
col6ginho sem nome. Quando tocava o sino da matriz,
anunciando o Vidtico aos enfermos, 1a estava 6le, recitan-
do cor o VigArio as preces litirgicas daquela e rimonia,
durante todo o percurso A casa do pobre doente.
"Conhecia-o como home de inprensa e de grande
ilustragdo. Ouvia-o, uma vez ou outra, casualmente,
sempre corn muito respeito e admiragio. Nao fui, por6m,
de suas relag6es pelo simples fato de ser eu ainda um po-
bre seminarista de muito poucas letras. Ai pelo com6go do
s6culo, criou-se em Barbalha o JORNAL DO CARIRI, se
bem me lembro. Marrocos devia fazer o artigo de fundo
e de apresentacgo que era, no dizer de nosso saudoso Cli-
m6rio, o primo-editorial. Tudo pronto, o artigo de Mar-
rocos ndo aparece. Vai ter cor le uma comisso de ami-
gos. O home nao se lembrava do compromisso... Sen-
ta-se A sua tosca mesa de trabalho e de mais outras cou-
sas. Dentro de uns quinze minutes, se tanto, entrega aos
amigos o esperado artigo com 8ste titulo: Ei-lo ai. Foi um
sucesso a apresentagio do journal!
"Depois perdi de vista o velho Marrocos. Mais tarde
ouvi dizer que ia se finando quase na miseria, como geral-
mente se da cor os idealistas que nao conseguiram con-
cretizar, na vida real, o mundo maravilhoso que Ihes po-
voava a mente. E assim, o ocaso deles nio ter aquela apo-





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teose de c6res, que acompanha o sol, quando se despede
dos luminosos dias de verio. E' a sorte de todos os que
quiseram viver fora de seu tempo, por antecipagdo ou re-
jersao.
"Li, corn verdadeiro prazer, a sua UMA FLOR DO
CLERO CEARENSE. E' uma pAgina evocative, -em que fa-
la o seu corago de colega e amigo, deixando transparecer
um discreto sentiment de pesar envolto na saudade que
Ihe ditou aquela bonita exposig'o em t6mo de uma vida
que mal desabrochava para a Igreja, e jA Ihe dava tantas
esperangas no prenincio de um apostolado edificante. Ndo
cheguei a conhecer pr6priamente a Antonio Gomes. Quan-
do cheguei a Fortaleza, em 1915, enoontrei apenas a lem-
branga do seu nome e o perfume de suas virtudes. Con-
servo boa lembranga de outro Gomes, tamb6m notivel pe-
lo talent, e, gragas a Deus, ainda vivo para a salvagio
da par6quia de Sdo Crist6vdo, no Rio de Janeiro.
"Antecipo os meus melhores votos de boas festas de
PAscoa, por que a sua alma se enriquega de tWdas as gra-
gas e dons trazidos aos homes pela ressurreigdo de Nos-
so Divino Mestre. Entre 8sses dons estari, de certo, o de
esclarecer as almas atrav6s do seu estilo to limpido e
transparent.
"Um afetuoso abrago do velho amigo e colega:
Monsenhor Sousa
MEU RETRATO INTERIOR
Vai para 45 anos que me acompanha a preocupaggo
de corresponder, na media de minhas pobres f6rgas, A
id6ia de veneer minhas-mds tendencias. AliAs, basta ler,
srriamente, os santos Evangelhos para sentir que deve-
mos aspirar A perfeigao religiosa e, em tal diregdo, orien-
tar t6da a nossa atividade.





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Mas, ai de mim! Quanto mais tenho chorado minhas
repetidas fraquezas, quanto mais tenho suspirtdo pror
6sse ideal haurido na Boa Nova, tanto mais descubro a
ruindade de minha natureza, tanto mais dou pela minha
incapacidade para a atmosfera de pureza e rentncia a
que somos chamados por vocagdo!
No meu incessante esf6rgo, para sondar meus defei-
tos e dar-lhes, assim, o devido combat, vim a reconhe-
cer que sdo treze as mds tendencias corn que nasci; e, em
vista disso, contrai o costume de, cada noite, ao recolher-
me ao leito, suplicar A SS. Virgem, no seu papel de minha
Madrinha de batismo, que me ajude a conseguir as treze
virtudes contrdrias. Eis o teor dessa minha rogativa, que
ja ter cabelos brancos: "Minha Mde do C6u, alcanCai-
me de Deus, para mim e meus colegas, que sejamcs sa-
cordotes dignos de v6s: fi6is, obedientes, castos, humildes,
pacientes, mansos, modestos, en6rgicos, caridosos,' ale-
gres, sinceros, reservados e resignados."
Ainda hoje, haja o que houver, atento ou cochilando,
faco a sobredita prece. Do proveito que dai tirei, no sen-
tido de minha suspirada emenda, sabe-o Aqu6le que "son-
da o corago e os rins"; isto 6, Aquele a quem rnada 6 ocul-
to, sem excluir nossos mesmos pensamentos. Um dia,
quando cessarem as sombras que nos envolvem, saberei
eu e Sua Senhoria tamb6m, o que valem nossos pobres
empreendimentos de feicgo sobrenatural.
Mas... agora me aparece o. fogoso autor de APOS-
TOLADO DO EMBUSTE apontando em mim, ndo mais
para meu uso pessoal, e sim para que todos saibam, tr6s
novos defeitos de que eu nao conseguira advertir-me. As-
sim 6 que, a pAgina 44, d6, de minha pobre pessoa, o se-
guinte retrato moral: "... um sacerdote, produto psiqui-
co do meio em que o embuste em f6co tevel o seu bergo e





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deixou a marca indel6vel de seu espirito sutil, difuso e
impregnante."
ConseqiiUncia 16gica de uma tal conceituagdo 6 que
a minha defesa a Marrocos perde todo o merecimento
pelo simples fato de eu ter vindo ao mundo em Juazeiro
do Norte e, por tal motive, possuir- a mente estragada
para uma observacdo digna de f6 em cousas atinentes a
Juazeiro.
Passe em branco, a circunstancia bem aprecidvel de
ser aqui um meu antigo discipulo quem maneja a palma-
t6ria para me corrigir em praga pfiblica, como se eu f6ra
algum "malfeitor social", qualificativo atribuido a Mar-
rocos por Sua Senhoria. Pouco importa. E' raro que um
pobre monge tenha a fortune de possuir um seu antigo
aluno sentado na cadeira de Sao Pedro, mas isto. aconte-
ceu a Sio Bernardo em' relagAo ao Papa Eug6nio VI. LA,
por6m, o Papa ndo se esquecia de que o velho monge ti-
nha sido o seu mestre e director spiritual, tanto assim
que, freqiientemente, se correspondia corn o mesmo, exi-
gindo suas luzes para' a solugo, de neg6cios intrincados
de ordem temporal. E, ao ver que se Ihe aproximava a
morte, f6z questao' de t6-lo A cabeceira para fechar-lhe
os olhos...
No caso em f6co, verifica-se precisamente o contra-
rio: o antigo aluno se insurge contra o antigo professor e
se p5e a reduzi-lo A expressed mais simples, numa concei-
tuagio arrasadora e deselegante, al6m de descaridosa.
Infelizmente nio consigo, por mais que me tenhoi
examinado, descobrir em que mereci, nao por pensamen-
tos, mas por atos externos, aquelas tr6s carapugas. E, co-
mo a roupa suja comecou a ser lavada no meio da rua,
venho pedir a Sua Senhoria que, para depois nao Ihe ser
langada a pecha de leviano e maledicente, proclame, em





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nova letra de fOrma, em que raz6ep se apoiou ao escrever
aquelas arrojadas afirmagres. Res, non verba.
Ver-se-A entdo, tamb6m, por 'sse desabafo, o mundo
de delictos e iniquidades por mim praticados nos meus 39
anos de sacerd6cio. Farto material para tal pesquisa 6 o
que sobra. Por ai deve haver ainda centenares de cartas
de alguns milheiros que tenho escrito, na esperanga de,
por tal forma, consolar-me da inutilidade de meus dias.
Um tergo da referida correspondoncia foi, provAvelmente,
enderegado a pessoas do Cariri, algumas das quais ami-
gas de Sua Senhcria. Nada, portanto, mais ffcil do que,
nessas pobres piginas manuscritas, encontrar coom que
encher todo um libelo, se tnm base tais inSinuacges.
LA verificara se ja dei algum mal conselho, se jd me
insurgi, mesmo veladamente, conta a autoridade consti-
tuida, se desacreditei meus colegas e superiores, se subs-
crevi alguma attitude inconfessAvel, se condescendi corn
o 8rro, se usei palavras de duplo sentido, se tentei desviar
algu6m do bom caminho, se fui ganacioso ou egoista, se
fui mal pagador, se neguei sombra amiga a quem) me veio
bater A porta, se escandalizei a quem quer que seja.
Se as cartas n~o bastarem, por ai Ihe ficam & dispo-
sigdo as freguesias de Ouricuri, Milagres, Campos Sales;
as cidades de Cascavel, Crato e Aracati; as vilas de Abai-
ara e Bom Jardim, onde exerci ocupagnes de manifesta
notoriedade e, tendo nelas passado 30 anos.lde vida pu-
blica, por 1l deve haver muita gente capaz de dizer como
me conduzi A luz de minha missdo de paz e edificago po-
pular.
Se f6r precise mais algum roteiro, poder& Sua Senho-
ria rever centenas de artigos que, desde 1912, tenho pu-
blicado na imprensa de Canind6, Crato, Fortaleza e Rio
de Janeiro, tanto em simples jornais quanto, em revistas.





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E, algumas vOzes em que me servi de pseud6nimos, assi-
nava-me assign: Josoe, Alcindo Cariri, Elmano S&, Livio
Sobral.
Existe ainda outro roteiro valioso: verificar se minha
familiar, em algum tempo, serviu de pedra de tropeco por
falta de compostura, de amor ao trabalho, de comedi-
mento na lingua, etc.
// MARROCOS ACREDITAVA
A razdo das raz6es pela qual, no meu fraco entender,
no poderia ser Marrocos o autor intellectual de EMBUS-
TES a ele atribuidss por Sua Senhoria vem a ser a se-
guinbe: o velho abolicionista acreditava piamente no ca-
riter sobrenatural do sangue aparecido durante a comu-
nhao de Maria de Araijo.
Entre outras provas concomitantes, descubro, por
exemplo, sua inexordvel decisdo de ficar, at6 a morte, por
mais dezenove anos, como guard vigilante e solicito da-
queles paninhos ensanguinhados, pouco se Ihe dando da
pobreza e desconforto que Ihe ficaram sendo companhei-
ros de t6das as horas. Mais do que isso, pois Ihes ficou
prestando um culto de adoragdo no mais discreto e to-
cante siltncio, dado o pronunciamento da Sagrada Con-
gregagdo do Santo Oficio condenando-os como embuste.
Sabendo embora que as sentengas de qualquer Congrega-
gdo Pontificia sdo de sua natureza reformdveis, nro igno-
rava outrossim que possuem a prerrogativa de, ipso facto-
obrigarem a t6da a cristandade no f6ro externo; e dai o
respeitoso silencio em que permaneceu, sistemAticamen-
te, silencio s6mente quebrado quando, na defensive, via-
se arrastado a prestar algum esclarecimnento, pela im-
prensa, a prop6sito do melindroso assunto.
Nisso o velho abolicionista, cuja pujante dialktica
ninguem jamais conseguiu emudecer, seguia o exemplo





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classico de S. Filipe Neri, de que nos fala COsar Cantu
em sua Hist6ria Universal, e que vem a dar no seguinte:
apesar de haver Frei Jer6nimo 'Savonarola, a quem ele
conhecera de perto, sido' excomungado por Alexandre VI e
queimado vivo como herege, aqu8le santo conservava con-
sigo o retrato do mesmo em sua banca de trabalho, na
certeza de sua inocencia. Sdo Filipe N6ri era confessor
do Papa e, dentro do Vaticano, gozava de invulgar e cres-
cente prestigio.
E como sei disto? perguntar-me-ao. Atrav6s de
declaragSes fidedignas prestadas por pessoas que, nos der-
rodeiros anos da vida de Marrocos, serviram-lhe de pagens
em suas semanais viagens a Crato, seja de Barbalha, seja
de Juazeiro.
ContrAriamente ao que assegura o autor de APOSTO-
LADO do EMBUSTE, Marrocos nao conduzia consigo os
paninhos ensanguinhados: deixava-os em seu sobradinho,
na cidade do Crato, cada vez que era forgado a mudar de
residencia para a vizinha cidade de Barbalha, onde uma
juventude sequiosa de instrugao o concitava a repartir
cor ela os tesouros, entao bem raros, de seu saber pro-
fissional. Para Juazeiro apenas se transferiu no. derradei-
ro ano de sua existencia, permanecendo ali c&rca de oito
meses.
Tais companhefros de viagem eram unanimes em
declarar que o em6rito educador, mal chegado a seu sobra-
dinho no Crato, entrava para seus aposentos, onde brilha-.
va sempre uma lAmpada a 6leo, e ali se deixava ficar por
espago de uma hora, ajoelhado em oragao.
Que pena haverem morrido Sebastiao de Sa. Barreto
Sampaio, "Xilderico" Filgueiras, Ant6nio, Correia, Vivi
Sampaio, Manuel Leite de Melo para nos darem seu teste-
munho em tomo de tdo delicada questdo! Na falta deles,





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escrevi ao advogado Jos6 Ferreira de Meneses, resident
em Juazeiro, mem6ria prodigiosa e ex-aluno de Marrocos,
pedindo-lhe que, na sua qualidade de acompanhante d's-
te ufltimo em suas viagens de Juazeiro a Crato, me disses-
se, corn a mdo na consciencia, o que teve oportunidade de
Observer enteo.

Eis a resposta:

a) Jos6 Marrocos, procedente da cidade do Crato,
veio residir nesta cidade de Juazeiro em principio do ano
de 1910, onde fundou um colegiozinho, do qual eu fui alu-
no; mas, morando aqui, todas as quintas feiras 1le viajava
para o Crato, e sempre comigo, a convite dele.
b) Marrocos conservava tamb6m sua residencia no
Crato, um bom sobrado A Rua do Com6rcio, em frente da
aritiga igreja de S. Vicente F6rrer, hoje Avenida Siqueira
Campos. Acontecia que, ao chegarmos a Crato, 6ramos
rccebidos por uma velha da confianga de Marrocos que
vivia 1a dentro. Em seguida, tomavamos caf6, palestrd-
vmros um pouco, moment em que Marrocos, retirando-
sc, entrava para um dos aposentos do sobradinho e 1 per-
manecia, por mais de uma hora, ajoelhado a orar.
c) Jos6 Marrocos n~o acendia lampada naquele
quarto, quando 1& entrava, de vez que 16 encontrava uma
lampada sempre acesa s6bre uma vidraga que ali existia.
Isto mesmo eu observe algumas vOzes, quando o mestre,
saindo do quarto, fechava a porta, botando depois a chave
no b6lso do palet6.
Acrescente-se que o Professor Marrocos foi um dos
grandes abolicionistas brasileiros. No Rio, juntamente
corn Jos6 do Patrocinio e Carlos de Laet, fundou a GAZE-
TA de NOTICIAS, destinada especialmente A causa da i-





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bertagSo dos escravos. Como abolicionista em Fortaleza,
sofreu as maiores perseguig6es dos senhores de escravos,
cnegando a fugir, em traje de vaqueiro, para fora da ca-
pital, a fim de escapar das ditas perseguigoes.
O Dr. Justiniano de Serpa (depois Presidente do nos-
so Estado), tamb6m abolicionista como Marrocos, quan-
do morava em Manaus, decorridos dez anos ap6s a aboli-
gdo no Cear., publicou um artigo a respeito do assunto,
no qual artigo chamava pelos nomes os principals aboli-
cionistas. Dizia assim: "Joio Cordeiro que sonhou cor a
Repfblica, foi por ela atirado em Fernando Noronha; Mar-
rocos, o incompreendido, foi abafar suas dores nas flores-
tas perfumadas do sertio."
(Ate aqui a sinopse das declaracSes do advogado J.
Ferreira de Meneses).
PANO DE AMOSTRA
Atrav6s do que abaixo se lera ndo seria impossivce
colher uma id6ia a mais acerca dos sentiments de aver-
sao que, jd em maio de 1954, alimentava 8ua Senhoria
contra Juazeiro e seu fundador. Serei breve.
Foi, exatamente, no sobredito mes e ano que estive na
cidade do Crato pela tiltima vez, por sinal, hospedado no
pr6prio Pago Episcopal ex vi de paternal imposigio do
Anjo daquela Diocese, Dom Francisco de Assis Fires, que
entao me cumulou de ateng6es e gentilezas.
Ali, conforme testemunhou Sua Excethncia, visitou-
me, logo no dia imediato A minha chegada, o autor de
aPOSTOLADO do EMBUSTE, demorando-se tanto a pa-
lestrar comigo que Dom Francisco acabou indo ata o quar-
tinho a mim reservado e onde se travara aquela palestra;
e fez-me sentir que ignorava f6ssemos tdo amigos assim.
0 assunto trazido A balha por Sua Senhoria foi, sem





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tirar nem p6r, as recentes descobertas feitas por sua pes-
soa nos arquivos diocesanos do CearA. E tais novidades
me comunicou que eu prontamente Ihe repliquei: Se eu
vier a convencer-me disso, tocarei fogo em tudo que possuo
in6dito s6bre o Padre Cicero.
Em setembro do ano passado, em carta que tenho de-
vidamente arquivada, relevant intellectual e jornalista de
Fortaleza, dizia-me o seguinte: "P. A. G. agora me es-
creveu afirmando ter colhido, em fonte segura, que....
ao Padre Cicero. Disparate de extraordinAria enormida-
de. Nunca nenhum inimigo do Patriarca de Juazeiro fez
semelhante afirmativa, nem quando ocorriam os supos-
tos milagres de sangue, nem depots, nem nunca."
Dois ou tres meses mais tarde me veio as mdos longa
missiva do gratuito contraditor de Marrocos, na qual, en-
tre outras cousas, me adiantava: "Gosto de dizer a meus
alunos que a castidade do Padre Cicero ndo tinha o me-
nor merecimento, uma vez que &le, de ac6rdo com o pare-
cer de um de seus medicos, era cast porque assim o fez
a natureza".
Quem nao v0, s6 atrav6s dresses tres pans de amos-
tra, a doentia preocupago de Sua Senhoria, no sentido de
inutilizar, por todos os meios a seu alcance, a reputaggo
de um seu colega no sacerd6cio, colega que nunca Ihe fi-
zera o menor mal e que partira para a eternidade, aos no-
venta anos, com ilibada reputagio nesse plano inclinado
de nossa existincia?


Nada, entretanto, mais chocante com a realidade do
que essa assertive de haver sido o Patriarca um caso bem
caracterizado de frigidez em patologia m6dica. Hoje em
dia, possuo dados bastante respeitbveis para sustentar a





- 49 --


tese contrAria, baseado tambem num discipulo de Galeno
que Ihe serviu de enfermeiro Em diversas doengas, e que
fala de cadeira.
Se essa indiferenga fisiol6gica atribuida ao fundador
de Juazeiro tivesse raizes incontrast.veis, o autor de Jua-
zeiro do Cariri, que conheceu o Padre Cicero bem de perto,
porque fora seu comensal por tres anos consecutivos, te-
ria vislumbrado roteiro para, no referido livro, insinuar,
a seu respeito, a suspeita de adult6rio?
Ainda uma vez, quanto uma paixao mal reprimida
pode cegar um entendimento; arrastando-nos a attitudes
as mais lamentAveisl Enquanto o autor de JUAZEIRO do
CARIRI, em 1913, dando vazdo a rmgoas de carter mui-
to pessoal, atribui ao Patriarca o delito, do adultkrio, o au-
tor de APOSTOLADO do EMBUSTE, em 1955, nega a esse
memo Patriarca qualquer merecimento na guard per-
p6tua de sua pureza sacerdotal, a p6rola das virtudes cle-
ricais, alegando ser Ble incapaz de estimulos para o vicio
contrario! Dois pesos, duas medidas!
O primeiro, merc6 divina, ndo cbstante seu genio bi-
lioso e arrebatado, corn o perpassar do tempo, mudou de
sentiments e voltou a ser um dos bons amigos da terra
do Padre Cicero. Quando chejar, a vez de Sua Senhoria?
Tao ma nao sera aquela freguesia, desde quando, ao tem-
pc em que para 1U foi nomoado Vigdrio Monsenhcr Jovi-
niano Barreto, muito desejou Sua Senhoria acompanh.-
lo no oficio de seu Vigario Ceoperador. Quem de seus ami-
gos do peito ignora Wsse fato?
Interessantel Poucos dias depois do aparecimento do
livro JUAZEIRO do CARIRI, tive ensejo de estar cor o
Padre Cicero, a quem, de caso bem pensado, perguntei
sem pre&mbulo:
0 Sr. jA leu o recent livro de F.?





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JA, responded o Patriarca. Era s6 o que falta-
vam dizer contra mim. At6 ha pouco, atribulam-me
todos os defeitos, mas deixavam comigo a pureza sacerdo-
tal. Agora arrebatam-me tamb6m esta qualidade, e quem
o faz 6 aquele que comeu muitas vezes comigo na mesma
mesa e a quem dispense tWdas as ateng6s que nos mere-
cem os que nos batem A porta... Homo unanimis et no-
tus meus, qui mecum dulces capiebat cibos...
E nada mais adiantou.


Ainda dentro de tao melindrosa matbria, seja-me li-
cito relembrar um epis6dio de que fui testemunha, va'
para 33 anos.
Padre Cicero, disse-lhe um jovem sacerdote seu
conhecido e amigo, como foi que o Sr. conseguiu tao com-
pleto dominion s6bre si mesmo? Vejo passar diante do Sr.
t6das as figures humans, das mais asquerosas at6 as
nmas sedutoras, e com o mesmo olhar o Sr. contempla a
todas e a t6das da o devido despacho!
Menino, quem faz de sua parte, recorrendo a ora-
cao e fugindo das ocasi6es, Deus ajuda para ndo cair.
Quem nio senate, na curta resposta do Patriarca, um
mundo de humilde desconfianga de si mesmo e outro
mundo de confianca no poder da graga divina?


Na realidade, aquele alto dominio de si mesmo, 6le
o adquiriu em nada menos de dez anos de jejum cotidia-
no, dez anos de prisdo entire as grades do confessiondrio,
pois s6 tomava a primeira refeico, depois do nieio dia,
no afi de ouvir de confissdo levas e levas de penitentes que
at6 1A iam de todo o sul do Estado e que nem seis sacer-





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dotes c.nseguiam jamais esgotar completamente. E as
noites dormidas no duro chco? E a pobreza franciscana que
era entlo o seu pio de cada dia? E o recato que Ihe foi um
trago pr6prio, bem digno de imitagao?
E a enternecida devogdo que nunca deixou de ter e
incutir para corn a S.S. Virgem, de cujo culto foi um dos
maiores e mais eficientes propagandists de todo o Norte
do Brasil?

COLCHA DE RETALHOS

A fim de poupar papel e tempo, uma vez que tempo
6 ouro e papel estd custando os olhos da cara, ocipar-me-
ei A vol d'oiseau, ou seja pela rama apenas, de algir.as
alegag6es feitas contra Marrocos e que uma s6 penada pode
deitar por terra.
10. A pagina 45 diz Sua Senhoria: "Qualquer mani-
Iftaago louvaminheira a Jose Marrocos, partida de Jua-
zeiro, dcve ser, em geral, recebida corn reserves. Os mo-
tives sio 6bvios."
Engragada essa maneira de encarar o assunto! Da
Juazeiro, por mais respeitevel que seja o testemunho,
pouco ou nada valerA, porque naquela cidade possui Mar-
rocos corag6es amigos. De Crato, por6m, ainda os mais
encarnicados e not6rios adversarios do grande abolicio-
nista podem, sem o menor escripulo, ser convidados a dar
parecer! Pelo menos, 6 o que faz Sua Senhoria quando in-
voca determinados cidad.os e os chama A fala neste de-
bate. Um dos mais salientados 6, hA quatro decenios, co-
nhecido como inimigo jurado de Juazeiro e de seu fun-
dador. Outro, alem de ter nascido num lar onde, a ma
vontade para cor Juazeiro 6 bem de raiz, foi, por sinal, a
1inica voz que se pronunciou, em verdadeira mensagem,





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congratulando-se com Raul Carvalho, pelos seus artigos-
estopim nos Didrics Associados, em 1953. Por que tama-
nha parcialidade? Se os afeigoados A mem6ria de Marro-
cos sdo suspeitos, como nao extender 'sse juizo aos seus
not6rios desafetos?
Pbr que, em lugar de recorrer a tais testemunhos,
nao aceitou o meu palpite para que ouvisse outras perso-
nagens que, tendo privado mais de perto corn o educador
embrito, poderiam pronunciar-se com maior isencio de
vistas?


20 A pagina 40, diz Sua Senhoria: "Jos6 Marrocos
nLo cumpria os deveres de cat6lico concernentemente &
Confissho, a Comunhlo e a assist'ncia & Missa aos do-
mingos e dias santificados, ao tempo em que o C6nego
Climbrio era seu aluno interno em um col6gio que o mes-
mo mantinha na cidade do Crato. Entretanto, o director
tentava burlar o internato, dando-lhe a impressgo de que
assistia a Missa nesses dias. Combinaram-se os internos
(dois do Maranhdo e um de Santana do Cariri) e identi-
ficaram a burla. Calculadamente distribuiram-se pelos
dois inicos templos da cidade, nos quais havia Missa na-
queles dias; e, durante quatro domingos seguidos, ai nio
compareceu o director do colegio As Missas clominicais! Nes-
sas ocasioes, identificaram-no os alunos, 6le estava a con-
versar em casa de um seu irmgo, resident A rua das La-
ranjeiras."
Quem foi educador como n6s dois, pode perfeitamente
avaliar a quanto montam as afirmativas de rapazelhos
despeitados contra a autoridade constituida. 56 a inicia-
tiva adotada pelos tres estudantes di margem para des-
confiarmos da pureza de suas intengSes. Ha deles a quem





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basta qualquer mAgoa do professor para forjarem acusa-
gSes tremendas, na esperanga de uma desforra. Ainda hb
vinte anos, outros adolescents de imagifiago vivaz chega-
ram a conclusdo de que o Reitor do seu Seminirio nao se
confessava senao de long em long e a am sacerdote
meio caduco! HA 45 anos, do mesmo Seminario um alu-
no que depois se distinguiu pela virtude e saber, envious
para casa, dentro de. um envelope, um pouco de comida,
afirmando ser tudo quanto Ihe haviam dado por almo-
go!...


30. A pigina 53, sustenta Sua Senhoria: "Uma das
oraoes fortes de Jos6 Marrocos, em um seu caderno de
assuntos misticos, ainda hoje em estado de quase conser-
vago: "Cobra tu nao mordeste a N.... Mordeste ao Ve-
neravel Padre Jos6 de Anxeta."
Foi um instant fatidico 8sse em que Sua Senhoria
lancou mio de semelhante argument para atrair o ridi-
culo s6bre a mem6ria de Marrocos. Sabem por que? Sim-
plesmente porque a pr6pria maneira filtra-errada como
aquele aprumado vernaculista grafou a palavra Anchieta,
nome que qualquer menino de ginAsio sabe escrever cor-
retamente, deixa patent a elevada preocupacgo de Mar-
rocos, que nada tinha a ver cor "orag~es fortes" e assun-
ios misticos.
O que 8le queria, na sua qualidade de arguto obser-
vador do linguajar sertanejo, sobretudo na qualidade de
Jegitimo precursor de Camara Cascudo e Leonardo Mota,
era surpreender e anotar material folcl6rico, encontradi-
go naquelas eras de insulamento do Cariri. Assiduo lei-
tor de escolhidos jornais do Rio, como tambem de La
Croix, L'Univers, Osservatore Romano etc., Marrocos





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acompanhava a march da literature do Ocidente e nao
perdia vaza de exteriorizar a repercussdo que, em seu es-
pirito perspicaz, exerciam semelhantes leituras. Bastaria
um exame desapaixonado do tal Caderno de assuntos
misticos para tirar a limpo a sem razdo do ataque. Falo,
alids, ex ordinariis contingentibus.
S40. As paginas 45 e 47, diz Sua Senhoria: "Por ca-
da inteligencia que instruiu, o Cagli6stro de Juazeiro imo-
bilizou dez mil na petrificacgo do fanatismo, consagran-
do-se, por isto, educador frustrado, pesados os resultados
prAticos de suas atividades." "Em fim, a atuarqo de Mar-
cos no embuste paralizou a ascensgo de camadas socials
inteiras, devendo por isso ser considerado element nega-
tivo e andrquico do process evolutivo da civilizagio nes-
tas plagas. "Ainda 9 pbgina 25 havia dito: "..... con-
correu pelo exemplo, pela palavra falada e escrita, para
corromper a pureza da F6 na consci6ncia da massa po-
pular que se imobilizou e ce mineralizu na- superstiCgo,
daqueles a estes tempos."
Mas como, arguto observador popular, se foi Sua Se-
nhoria em pessoa quem escreveu no mesmo folheto, a p.-
gina 29, esta descriCgo de Juazeiro: "Uma metr6pole ser-
taneja, palpitante de progress, na plenitude de sua vi-
talidade"?.
Como assim, uma vez que minha terra-berco nada
mais 6, a crermos em seus impertinentes detratores,,do
que o "quartel general" dessa mesma mentalidade
que se imobilizou e se mineralizou na superstigio, daque-
les a estes tempos? Onde ji se viu o im6vel, o mineral acu-
sar progress e plena vitalidade?
Dois pesos e duas medidas.
50 Em minha citada replica de Setembro de 1955,
A pAgina 8, eu argumentei: "Ha ainda uma impressionante





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observacgo a fazer. E' que, sendo o historiador Irineu
Pinheiro, sobrinho, amiigo do peito e o element de maior
projeglo do Cel. Ant6nio Luis, n~o se concebe haja aqut-
le intellectual ficado na ignorAncia de tais ocorr8ncias. E,
se estava a par de tudo, como justificar nele, no seu papel
de historiador, o relate que fez na sua cbra JUAZEIRO DO
PADRE CfCERO E A REVOLUQAO DE 1914, dos mal fa-
dados milagres de Maria de Araijo? Se sabia de tdo triste
explicago para o caso, por que'nem de leve a insinuou?
Esta 6 a conceituacgo de Irineu Pinheiro no seu so-
bredito livro, sem tirar nem p6r:
"Dominava-o ao Padre (Cicero), nessa 6poca, fund
misticismo. Passava os dias e as noites entregue aos seus
misteres de cura das almas, a celebrar, a pregar, a rezar
cor os fi6is interminAveia oracges; a confessar os inii-
mercs penitentes que o procuravam de todos os recantos
do Cariri, e os enfermos, as residencias d&stes, at6 altas
horas da noite. Alheio as vaidades humans, vestia sem-
pre uma batina velha, desbotada pelo tempo. Era precise
is v-zes que a mudassem os amigos, oferecendo-lhe uma
nova que substituisse a jA quase imprestavel. Alimenta-
va-se mal e em horas irregulares... Foi sempre notAvel
a influuncia do Padre Cicero em t6da a regiao caririense
e cidades que Ihe sHo pr6ximas, desde pouco depois de
sua ida para a capelinha de Juazeiro. Impressionava t6-
da a gene a vida austera de penitencia, de castidade, de
abnegada ren6ncia de prazeres, no jovem ap6stolo da mo-
desta localidade. Mas essa influ8ncia cresceu de vulto
ap6s os milagres de que foi protagonista a beata Maria de
Araijo. Em 1889, aos seis de Marco, primeira sexta feira
da quaresma, ocorreu, na pequena povoagao de Juazeiro,
uia fato admiravel: ao receber Maria de Arafjo, na igre-
ja, das mnos do Padre Cicero, a particular sagrada, trans-





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formou-se-lhe esta em sangue vivo e rubro. Repetiu-se
o fen6meno por vdrias vWzes e durante anos. Comoveram
esses sucessos extraordinArios os sert6es, em raio de cen-
tenas de 16guas. E comegou o 6xodo para Juazeiro, a es-
tranha migrago de homes, mulheres e criangas de uma
vasta extensdo do Pais, tal que, depois de largos anos,
transmudou o obscure lugarejo em um grande centro po-
puloso... Todos queriam ver, cor os pr6prios olhos, o
precioso sangue e tamb6m a beat, em cuja modestissima
pessoa se realizava o portentoso milagre. Foi um nome
famoso, nos sertoes brasileiros, o de Maria de Aradijo.
Mas, A media que se Ihe ia aos poucos esbatendo a figu-
ra, ate apagar-se de todo nos iltimos anos de sua vida,
ressaltava, cada dia corn maior relvo, a do Padre Cicero
que, na sua 6poca, foi o home de mais profunda influen-
cia individual do Brasil.
"Padres e m6dicos afirmaram a sobrenaturalidade do
acontecimento maravilhoso: o sangue, diziam, era o de
N. S. J. Cristo... Mas, pela voz de seus bispos, a Igreja
acabou por condenar os milagres. O que nunca p6de con-
seguir foi arrancar, das almas de milhares e milhares de
homes, a f6 na santidade do Padre Cicero."
At6 aqui a transcrigdo do livro JUAZEIRO do PADRE
CICERO e a REVOLUgAO DE 1914.

Vejamos agora o autor de APOSTOLADO do EMBUS-
TF na sua impotente tentative de fugir a f6rga probativa
de minhas alegag6es. Ei-lo A pdgina 9 do seu folheto:
"... 6sse circunspecto historiador..... era um dos
ilustres membros da familiar Ant6nio Luis, que conhecia
o sigilo..... Alimentava a convicqgo de que Jose Marro-
cos e seu "formuldrio", ou livro de fazer sangue, funcio-
naram, regularmente, na producgo do EMBUSTE dos mi-





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lagres da solerte Maria de Arafjo. Em seu livro JUAZEI-
RO do PADRE CICERO e a REVOLUQAO DE 1914, evitou
a revelagio do aludido segredo, considerando os dois mo-
tivos familiar e political e tamb6m face A sua amizade
pessoal ao Padre Cicero, de quem foi m6dico. Se tivesse
de fazer uma segunda edicio d6sse livro, disse-o uma vez,
morto o Padre Cicero, modificaria quanto escrevera s6bre
a chamada QUESTAO RELIGIOSA de JUAZEIRO, sobre-
tudo depois que entrou na posse de documnentos que con-
servou em seu arquivo....."
Afinal, onde 6 que nos encontramos? Entdo Irineu
Pinheiro nao era contemporineo dos acontecimentos re-
ligiosos de Juazeiro? Nio tinha acompanhado, pass a
pass, do com6go ao fim, 6 desenrolar dos sucessos que
registra, como fora de contestagdo, no seu aludido livro?
Nio lera e comentara tudo quanto se havia dito, pr6 e
contra, achrca dos fatos por 6le focalizados, sem meios
tWrmos, na sua discutida cbra? Nao era cat6lico de prin-
cfpios, conhecendo, por isso mesmo, de fonte segura, a
opinifo da Santa Igreja em t6rno dos tais sucessos? E, se
possuia, como quer Sua Senhoria, uma profunda convic-
glo de haver sido, aqu6le sangue da sagrada h6stia, puro
e sacrilego embuste, para que toma a iniciativa de apre-
senta-lo como sangue verdadeiro e portentoso milagre?
Por que nio langou mao de um subterffigio, bem fAcil de
conseguir, para ocupar-se do assunto, sem se comprome-
ter como politico e afeigoado ao Patriarca? Falar, por6m,
nos terms em que falou significa ser aquela a sua firme
persuasdo. Sustentar o contrArio equivale a passar-lhe
atestado de homo duplex, de irresponsavel, de nulidade,
enfim, no mundo moral; 6 decapita-1~ desumanamente,
na sua missdo de historiador. E o passado impoluto de
Irineu Pinheiro ergue-se, nas pontas dos p6s, para pro-





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testar contra quem a tanto se arroja, na Ansia ingl6ria
de persistir na defesa de uma tese malograda.
Conv6m salientar que, ao tempo da publicagdo do li-
vro em foco, jA n~o pertencia ao munmero dos vivos o Pa-
triarca, havendo cessado, por conseguinte, as invocadas
raz6es de pura conveniencia.
E, se Irineu Pinheiro chegara a uma convicgo con-
trAria e tinha, em vista disso, a intencgo de reeditar o li-
vro cor as inculcadas modificag6es, por que o deixou de
fazer? Nao era milionario, desocupado e no g6zo de per-
feita satde? Vinte anos se escoaram, entretanto, sem que
saisse a edigdo salvadora.
Melhor 6 abandonar essa causa e enveredar por novo
caminho...
A PALAVRA DO REITOR
Nesta altura, nao sera desinteressante saber o que
pensa o magnifico reitor da Universidade do Ceara, o Dr.
Martins Filho, cratense educado no Crato e nao passivel
de suspeito de fanatismo, ac6rca do Padre Cicero. Eis-lhe
o dosapaixonado parecer, extraido do aplaudido e agigan-
Lado volume o CEARA, feito, alias, em colaborago corn o
historiador e genealogista de m6rito que se chama Rai-
mundo Girao:
"... durante meio s6culo, em redor de sua pessoa se
reuniam romeiros e visitantes ilustres de todas as par-
tes, desejosos os primeiros de receberem-lhe os conselhos
e efertarem-lhe presents; e os segundos, de conhecerem
o ilustre vafdo t~o discutido, elogiado e censurado, de
ac6rdo com o ponto de mira em que se colocava e ainda
hoie se coloca o observador, na interpretaCgo dos fatos
e das cousas da Meca cearense.
"O que 6 inegAvel, por6m, 6 que o Padre Cicero rea-





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lizou uma obra social notdvel, quase incrivel, concorren-
do ndo s6 para a criagdo da cidade mais populosa do Cea-
ri, excluida a Capital, e uma das maiores, mais progres-
sistas, mais comerciais e mais movimentadas do
norte do Pais, como tambem para o maior povoamento
de todo o vale do Cariri e da Serra do Araripe, e, conse-
quantemente, para a maior expansAo produtiva dessa rica
regiao.
"Qualquer que seja o conceito que se forme acgrca
de sua destacada individualidade, impossivel sera negar
tenha sido 6le um fator de enormd progress; e, no campo
spiritual, um conselheiro e um protetor devotado de seu
povo. "Todos os que o procuravam, desiludidos dos po-
derosos, nele encontravam, invariAvelmente, o carinho de
uma palavra, ou de um gesto amigo. Durante horas a
fio, desde a manha atW alta noite, recebia os romeiros,
consolando-os atravms de seus conselhos e de sua b6nqo
amoravel, paternal, Respondia-lhes os telegramas e as
cartas, as vezes de uma adorAvel ingenuidade. Nunca se
Ihe viu espelhar no rosto a sombra de um enfado. Foi, na
realidade, o Consolador das geness abandonadas dos ser-
tWes, que sempre tiveram fome e sWde de justiga."
E Martins Filho fala de cadeira, pois presenciou bas-
tantes v'zes e conheceu de perto, atrav6s de informages
verazes, a realidade juazeirense. Mas, quanto sua lingua-
gem serena e desapaixonada difere da do ferrenho con-
traditor de Marrocos e gratuito inimigo d, minha terra-
bergo e de seu fundador!
(Ext. de O CEARA', pig. 3G6, 2a. ediio,,ano de 1945)
0 QUE FALTA PROVAR.
Embora uma respeitkvel tradigao d& Marrocos como
diAcono da Santa Igreja reconduzido ao estado leigo,





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conv6m ressaltar duas fortissimas raz6es em contrArio:
la. Por aqueles tempos, consoante observa o Padre
Guilherme Vaessen, nao havia as facilidades de hoje para
devolver ao laicato um estudante de Teologia que houves-
se recebido alguma das ordens maiores, entire as quais
avulta o diaconato;
2.a Nos anais e arquivos do SeminArio Provincial
de Fortaleza, nem de leve se encontra a mais pequenina
alusdo desfavoravel ao future abolicionista cearense. Ora,
uma expulsdo seria um caso de imensa repercussdo entire
as paredes daquele acreditado institute de formagco ecle-
si&stica, mAxime em se tratando de um aluno brilhante
e jA As portas do sacerd6cio. E' isto, precisamente, o que
me deixam entrever duas cartas sucessivas que acabo de
receber do atual Reitor do mesmo, Padre Demerval
Jos. MontalvAo, e de um dos antigos reitores daquela
Casa, que, um ap6s o outro, estiveram manuseando,
exaustivamente, os memorials do referido SeminArio,
e a quem escrevi solicitando o maior empenho na
busca de semelhantes documents. E quem, melhor do
que os escrupulosos arquivos daquela casa de educago,
maxime no que diz respeito a preterig6es e expulsoes de
cl!rigos, poder-nos-ia falar corn mais autoridade? Quem
sabe se uma tal versdo nao assenta no costume atribui-
do a Marrocos de recitar diAriamente o Breviario Roma-
no? Dicant paduani.
HA pouco recebi important carta de velho jornalis-
ta e escritor cearense, na qual me assegura que, vai para
alguns decenios, em conversa corn Monsenhor Antero
Jose de Lima e outro venerando sacerdote nosso coesta-
duano, veio a saber que, ao deixar o SeminArio de For-
taleza, Marrocos fora avisado por um Lazarista da Casa:
se quisesse entrar para a Congregagao da Missio,





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ser-lhe-ia fdcil... E que, ao que ouvira dizer, o motive
pelo qual Ihe aconselharam desistisse da carreira cleri-
cal havia sido a sua dupla ascend6ncia levitica!
E, se tudo isso tiver base s6lida, aonde ird esbarrar
o home de imprensa que acaba de vomitar horrores con-
tra Marrocos, firmando-se tamb6m nesse controvertido
roteiro, agora p6sto em dtivida pelos arquivos do Semi-
nario?
Como 6 dificil fazer afirmativas em assuntos hist6-
ricos ainda carecidos de comprovagdol
JUAZEIRO da ATUALIDADE
Uma colmeia humana, uma imensa oficina, a maior
do interior do Nordeste Pdtrio, eis o que jA se tornou pro-
verbial dizer, para definir Juazeiro na atualidade.
Uma terra onde a instrucgo primAria e secundaria
possuem estabelecimentos regorgitando de estudantes,
capazes de ser postos em confront com os melhores do
Estado, e onde funciona e goza de grande cr6dito a Es-
cola Normal Rural Mod6lo de todo o Pais.
Terra onde se comprime uma populacgo, s6 no peri-
metro urban, de sessenta mil almas, e onde a
ordem, o trabalho honest, a boa alegria de viver
sdo notas salientes e caracteristicas, Juazeiro do
Norte 6 a cidade brasileira onde se reza cor mais fervor,
onde a SS. Virgem 6 venerada cor maior enl6vo, onde
se ouve a Santa Missa com requintada devoCao e em maior
numero de assistentes, onde uma simples b6ncAo do SS.
Sacramento, na Matriz, concentra, aos domingos, para
mais de duas mil pessoas, em determinados meses do ano
litirgico.
Terra pobre, mas onde todos t6m ocupagao certa e
onde o trabalho, ap6s um dia chcio de intenso labutar,







ext'nde-se, nos subirbios, pela noite a dentro, a escassa
luz do luar ou dos lampeoes da Municipalidade.
Terra onde se fez A SS. Virgem a mais comovida e
grandiosa receplo, por motivo da passage de sua ima-
gem peregrina, hd bem pouco tempo; recepglo tao fora
do comum e tao acima das possibilidades de uma cidade
do interior que induziu o Padre Demoutier a falar assim:
"S6 em CeilTo eu assist a uma tal demonstracgo de F6".
Terra onde, em apenas seis anos, numa regiio sujei-
ta so flagelo das s'cas peri6dicas, se ergueu, sob as vistas
dcs Missiondrios Capuchinhos ali residents, um dos maio-
res e mais admirdveis templos do Brasil a S. Francisco de
Assis; temple para cuja inauguragao concorreram seis Pre-
lados e que comporta alguns milhares de pessoas.
Terra onde quase todos rezam o rosario da Mle de
Deus e onde o sacerdote cat6lico recebe, seja 8le quent
f8r, um acolhimento tio filial e sincere, tao carinhoso e
tocante que s6 uma f6 profunda na magnitude do sacer-
d6cio cat6lico e no seu minist6rio de salvagio pode ex-
plicar suficientemente. Sobe de ponto esta observacgo
quando nos detemos a refletir em reiterados choques'ha-
vidos entire parte daquela gente e determinados repre-
sentantes da Santa Igreja, mesmo nos 39 anos decorridos
ap6s a criagdo da par6quia. Passado, por6m, que seja o
dissabor, cedo volta o caudal a seu leito e as almas de
novo v~i abeberar-se de luz ao p6 do plilpito sagrado, e
de seiva sobrenatural no tribunal da penit6ncia e na me-
sa eucaristica.
Para convencermo-nos disso, nao hi como abrir un
mapa daquela par6quia e ver o movimento religioso da
mesma, por exemplo, no ano de 1950:
Pdscoas realizadas entire os s6cios do Circulo Opera-
rio S. Jos6, GinAsio Sta. Teresinha, Militares, Patroes e


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Operdrios, Ferrovidrios e Carregadores, Ourives, Foguis-
tas e Pedreiros, Mogas, Educanddrio S. Jose: 3.083 comu-
nh6es.
Comunh6es de devogoo ..................... 324.947
Confiss6es de Enfermos .................... 1.575
Casamentos ................. ........... 416
Batizados ............................... 2.449
Viaticos e Extremas Ung6es ................ 1.575
Associag6es Religiosas:
Apostolado da Oraglo, Filhas de Maria, Congrega-
gco Mariana, Sociedade S. Vicente de Paulo, Propagago
da F6, Irmandade do SS. Sacramento e de N.S. do Per-
p6tuo Socorro, Circulo Operdrio S. Jose, etc. corn um to.
tal de oito mil duzentos e cinco associados.


Melhor prova nio pode haver da mentalidade cat6-
l'ca de Juazeiro do Norte, excegao feita, naturalmente, de
uns tantos mentecaptos e cegos de espirito que hd por
t6da parte, do que julg--la atrav6s da saudade que seus
antigos vigarios, mesmo os que dali sairam desgostosos,
ficaram sentindo da terrinha, saudade que s6 p6de extin-
guir-se depois que puderam regressar para 1l, donde nao
mais quiseram afastar-se. Exemplifiquemos.
O primeiro vigario de Juazeiro foi Monsenhor Pedro
Esmeraldo da Silva, vir bonus dicendi peritus, que, no
fim de quatro anos cheios de frutuoso apostolado, aban-
donou o p6sto, francamente magoado, indo ocupar o Cu-
rato da S6 de Pelotas, no R.G. do Sul. Pois bem. Nov?
anos mais tarde apertaram-no tanto as saudades que vol-
tou ao Ceard; mas, enquanto nao recuperou seu lugar em
Juazeiro nao sentiu prazer na vida. E, durante sua nova
gestdo & frente de Juazeiro, nao perdia vaza de fazer ver,





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mesmo do pfilpito, que fora 81e o culpado, e nao o povo,
-e sua brusca retirada dali. Tamb6m, ao verificar-se-lhe
o falecirmento, viu-se um ea:peti~culi invulgar no Bra-
sil: dez mil pessoas de todas as classes socials na maioria
a pb, foram deixar-lhe os restos mortals no jazigo perp6-
tuo de sua ilustre familiar, no Crato, a treze quil6metros
de distAncia!
O mesmo espethculo se registrou por ocasilo do se-
pultamento de outro de seus vigdrios, Monsenhor Jovinia-
no Barreto, igualmente sepultado naquela cidade episco-
pal. Embora fosse dia de grande feira e animado com6r-
cio, tudo parou, como por cn:-can'.o, para concentrar-se a
atengio geral no lutuoso fato em perspective. Toda a ci-
dade se deslocou A noite para velar o cadaver na Matriz,
em comovida romaria. E nao se tratava de sacerdote que
sempre houvesse estado em harmonia de vistas cor a
opinion geral da terra. Mas era um bom e zeloso ministry
da Santa Igreja, e tanto bastava para aquela inusitada
demonstragdo de pesar e solidariedade.
Monsenhor Manuel Macedo, segundo Vigdrio, ainda
nco terminava seu trienio de paroquiato, quando, exau-
rido por uma trabalheira incessante e absorvente, resig-
nou, por sua vez, as fung6es paroquiais; e nao-iem des-
g6sto, nao do povo, e sim do caudilho Floro Bartolomeu,
que entio dominava, tiranicamente, a atual Cicer6polis.
Ao despedir-se, por6m, mal contend o amargor da reti-
rada, assim encerrou seu discurso:
Minha terra ter palmeiras
Onde canta o sabiA:
Nao permit Deus que eu morra
Sem que volte para cA. (Glz. Dias)
E' verdade que nAo voltou definitivamente, comio





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aconteceu a dois outros ex-vigarios daquela terra incom-
preendida, pois a Santa S6 precisou de seus servigos na
Direcio Espiritual do Semindrio Provincial de S. Paulo
e, mais tarde, como Visitador Geral da Congregag6o das
Irmis de Jesus Crucificado. Dispondo, todavia, de ferias
mais prolongadas, 6 para 16 que, de prefernncia, costuma
encaminhar-se; e 16 se fica no seu conhecido afa de evan-
gelizador, feliz de ainda poder servir a seus antigos pa-
roquianos.
NOTA FINAL

Ja se achava no seu ablativo esta humilde publica-
gco quando me veio ao poder sigilosa carta de distinta
senhora do Cariri, dizendo-me: "Encontrei-me com nosso
Vigario que foi logo me pedindo noticias suas. Mle me
rogcu que fizesse tudo para o Sr. ngo dar resposta ao
P.G. Lembrou que se trata de um home multo
forte, que sabe da vida de todo o mundo e todos t~m medo
dele... E acrescentou: "Nao viu como 8le se referiu A mAe
do Padre Azarias, chamando-a Madalena nas semanas san-
tas do Padre Cicero? Aquilo foi muito grave..."
Poucos dias depois, recebi outra carta da mesma zo-
na firmada por conhecido farmaceutico, carta na qual
me concitava a fazer mais um ato de humildade, n.o dan-
do qualquer resposta a APOSTOLADO do EMBUSTE. E
dizia ainda: dessa resposta pode resultar uma luta de
conseqiiUncias muito graves. A16m disso, consta que o au-
tor esta bastante arrependido...
A t6das essas sugestoes, tenho a dizer cor Eduardo
Girdo: "O despr6zo da honra, como o da vida, 6
tamb6m um suicidio." Nao nasci, parece-me, com
vocacao para sacrificar a honra a nenhum outro
interesse, seja embora a conservaio da vida. Ainda






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que dai me sobreviesse a morte, afirmo que morreria feliz
de ter proclamado a verdade, ou seja aquilo que tal se me
afigura. Ac menos assim, poderia suceder que, daqui a
quarenta anos, algum cronista piedoso, recordan-
do a pol8mica em que estou empenhado, pusesze esta
manchette no frontespicio de seu escrito: A MEM6RIA do
PADRE AZARIAS SOBREIRA, UM SACERDOTE MAR-
TIR.

Tomo a Deus por testemunha de que, consciente-
mente, ndo me arredei da verdade em tudo. que s: contcimn
nesta minha despretenciosa publicago. Tomo-O tambem
por testemunha de que continue a amar, por amor dcle,
ao meu ferrenho contraditor; nem quero para mim e os
meus qualquer prosperidade que por igual n6o deseje do
intimo dalma, para Sua Senhoria.
Desde ja, fica a minha farta documentago ao dispor
de todos os homes s6rios.
Aracati, 20 de Maio de 1956.
Pe. Azarias Sobreira






Apendice I


EM DEFESA DE UM ABOLICIONISTA

Ainda hA poucos dias me velo as mdos, gentilmente
ofertado pelo seu ilustre autor, um folheto de cunho bio-
grifico, brochure de 28 pAginas e corn o titulo de Um
Civilizador do Cariri.
Trabalho documentado e esqrito em linguagem cor-
rentia e s6bria, consoante os imperativos dess& genero li-
terfrio, foi para mim um prazer a sua leitura, mesmo
porque o que all se diz em torno de Basilio Gomes da Sil-
va, a figure central do folheto, coincide, perfeitamente,
corn o que ja me f6ra dito a respeito.
Aconteceu, por6m, que, da pAgina 24 por diante, o
autor, mudando de rumo, passa a ocupar-se, at6 o fim,
de Jos6 Joaquim Teles Marrocos, inolvidAvel abolicioniista,
educador e jornalista cearense. E nio para apontA-lo ao
apreco da posteridade, e sim, para denegrecer-lhe mie-
m6ria atribuindo ao mesmo procedimento tdo infamante
que, a ser comprovado, p8-lo-A no rol dos Joseph Fouch6,
dos Silv6rio dos Reis e outros que tais.
Se, ao menos, o signatArio do opisculo houvesse se-
guido o caminho de Raul Carvalho, ocupando-se do as-
sunto em simples artigos de journal, nunca eu sairia de
meu anonimato para uma-tentativa de restauraggo do
bor nome de uma tal individualidade, tao de perto liga-
da a hist6ria da abolicgo no Ceara. Mas o instrument
de que langou mio o bi6grafo de Basilio Gomes da Sllva
6 dcsses que exigem imediata analise, antes que seja por
todos aceito tio arrasador juizo s6bre Marrodos.
O que tenho em mira 6 tamb6m cooperar no sentido
de esclarecer melhor o future historiador, ajudando-o,





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cor novos dados, a descobrir a verdade e, s6 depois de
exaustivamente informado, langar o seu veredictum.
Eis o que se encontra nas pdginas finals de Um Civi-
lizador do Cariri:
"Quando a quimica do Professor Jos6 Marrocos, as-
sociada k astficia da beata Maria de Aradjo e A boa fM do
Padre Cicero, maravilhava o Cariri com a apresentagdo,
na capela de Juazeiro, do simulado milagre de sangue,
pretensamente de origem divina, Basilio Gomes abalou-
se e transportou-se para aquela localidade, resolvido a
demorar dias.
"Mas apenas tres dias eram passados, comuniccu
discretamente A esp6sa: Vamo-nos embora. Aqui nio ha
nada do outro mundo. E voltou a Brejo Santo, onde pas-
sou a repetir a quantos o interpelavam s6bre os fatos es-
tranhos, em curso no Juazeiro: O Padre Cicero estA enga-
nado. Por isto Brejo Santo permaneceu imunizado da su-
perstigdo em apr6go.
"S6 muito depois o Padre Cicero se advertiu de que
f6ra logrado, conforme o confessou sigilosamente em pre-
senqa do coronel Ant6nio Luis Alves Pequeno, chefe po-
litico do Crato; Antonio Nogueira, irmgo do autor de
O Cariri; Dr. Raul de Sousa Carvalho e Jos6 Dourado. Es-
sa confissio ocorreu nas vizinhangas da cidade do Crato,
A margem da estrada Crato-Juazeiro, em casa de Isabel
Roldao, A altura do cemit6rio do c6lera.
"Movidos por amigos comuns, ali encontraram-se o
referido coronel e o Padre Cicero, para o fim de reatarem
as relag6es pessoais, rompidas quando o primeiro se opu-
sera A independencia political de Juazeiro, antes distrito
de Crato.
"Ap6s a mencionada revelagao do Padre Cicero, An-
t6nio Luis o censurou pelo fato de nao haver dado divul-





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gagao ao embuste de que f6ra vitima. Defendeu-se, o ex-
probado, alegando que a revelagdo teria entravado o
crescimento de Juazeiro.
"Assim, Juazeiro cresceu vertiginosamente ao embalo
de um embuste, para cuja manipulagio concorreu valio-
samente um Formuldrio de preparago de anilina solfi-
vel A base, em 1910 surpreendido de mistura corn uns ve-
Ihos paninhos, outrora tintos nos lbios rubros de Maria
de Araijo. Surpreendido, repito, pelo citado Dr. Raul de
Sousa Carvalho, Juiz de Direito de Crato, no esp6lio do
dito Professor Jos6 Marrocos, falecido naquele ano de
1910.
"Cor a invectiva "Tome as suas porcarias" o
Coronel Ant6nio Luis passou ao Padre Cicero, por oca-
sido da aludida entrevista, o Formuldrio do Professor Jo-
se Marrocos e os famosos paninhos, os quais tinham sido
depositados pelo Dr. Raul Carvalho em m~os do mesmo
Antonio Luis. Padre Cicero os conduziu para Juazeiro.
"Anos decorridos, falecendo, em Juazeiro, a beata
Bichinha, velhinha cAndida e de confianga absolute da
easa do Padre Cicero, ditos paninhos foram encontrados,
condicionados numa pequena caixa, a que o ent~o vigA-
rio daquela par6quia, Monsenhor Joviniano, deu o fim
merecido. Era o fltimo vestigio da quimica de ZVmarro-
cos!
"Os aludidos paninhos foram recolhidos, em certo
dia do ano de 1891, A matriz de Crato, para exame cien-
tifico posterior. Dai furtaram-nos misteriosamente.
"No dia do falecimento do Professor Jos6 Marrocos,
surgiu em Crato o Padre Cicero a exigir que Ihe f6sse en-
tregue o esp6lio livresco do extinto. Recusando-se o Dr.
Raul Carvalho, o pretendente acenou com o emprfgo da
f6rga. Tudo em vio! Atribuiu-se ao Professor Marrocos






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a subtrag.o dos tais paninhos.


"Marcado de jansenismo prAtico, traduzido na fu-
ga 9 comunhio eucaristica, de que se julgava absoluta-
mente indigno, o Professor Jos6 Marrocos foi dispensado
do Semiindrio, ja diAcono. De entio at6 a more, nao se
confessava. De sua vez, o Patriarca de Juazeiro, por mo-
tivos de certos exageros misticos, teria talvez esbarrado
A porta do sacerd6cio, nao f6ra a intervengio pessoal de
Ant6nio Luis Alves Pequeno, pal do referido de igual no-
me, junto a Dom Luis Ant6nio, Bispo do CearA.
"O Professor Jos6 Marrocos procedia de Jodo Marro-
cos Teles (pe.) e era neto materno de Alexandre Leite
de Oliveira, jesuita egresso, e tetraneto de Jose Pereira
Ago, o rival da familiar Feitosa. De cultural humanisti-
ca bem assinilada, jornalista corn servigo de um ano pres-
tado A imprensa carioca, professor em6rito, muito Ihe de-
ve a instrucgo de Crato, que Ihe perpetuou o nome, numa
de suas ruas, merecidamente.


"Depois de recebida a comunhao, as beatas velavam
o rosto com o manto, punham na boca a h6stia branco-
vermelha (nio consagrada, ja se v0) que traziam oculta.
Fingiam 6xtase, do qual eram despertadas pelo sacerdo-
te que Ihes ordenava abrissem a boca. Eis o milagre."

S* *

At6 aqui o trecho final do folheto em apreciagco.
Antes, do mais, assiste-nos o direito de perguntar ao
Dr. Raul Carvalho, criatura de Indole :xpansiva e afel-





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to as lides de imprensa, por que deixou escoarem-se 44
anos para trazer a piblico tdo sensacional revelagao.
Medo? Esquecimento? Conveniencia? Em tal caso, por
que, ao menos numa boa revista do Pais, nao editou o
epis6dio que tamanha repercussio poderia ter, enquanto
estavam vivos os que poderiam dar-lhe o competent des-
mentido? HI vinte e um anos morreu o Padre Cicero, ha
vinte e oito morreu Floro Bartolomeu... Porque tamanha
procrastinagao?...
Al6m disto, nao 6 nada dificil de acontecer que, corn
o perpassar das d6cadas, as inpressbes colhidas no ins-
tante do encontro se tenham alterado na retentiva do ar-
ticulista, nao de caso pensado e sim por efeito de velhos
recalques, por efeito do subconsciente sequiosE de repre-
salia a umas tantas mAgoas sofridas outrora. Como se
depreende da leitura do Correio do Cariri (?), o bem feito
semandrio situacionista do Crato, onde escrevia o Dr.
Raul, S. Sa., embora filho de Ipu, embora arvorado em Juiz
de Direito, cedeu A seducgo da luta facciosa e tomou par-
tide contra Juazeiro, escrevendo apaixonados artigos sob
a epigrafe: Juazeiro d'Agua Abaixo.
Longa foi a refrega, dia a dia mais acesa, em vista
do tom provocador que assumia, do outro lado, a pena
mordaz e embebida de fel de Alencar Peixoto, que havia
fundado O Rebate, primeira manifestabgo de imprensa
em Juazeiro e especiaimente criado para excitar os Animos
contra a dominagco political, jA por demais humilhante,
do Crato.
Reler o que entdo se publicava nas duas localidades
em choque equivale a verificar que nem sempre saiu Raul
Carvalho sem alguma mossa ou contus~o. E dal a possi-
bilidade de recalques, capazes de alterar notavelmente o
espirito de sua narrative. E, se a realidade objetiva cor-





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responded ao horror trazido a lume, s6 em 1954, pelo ex-
Juiz de Direito, como explicar que, tendo sido quatro as
figures cratenses que assistiram a tal entrevista corn o
Padre Cicero, nenhuma delas, por espago de 44 anos, ji-
mais tenha traido 6sse segredo, nem mesmo o guarda-
costas Jos6 Dourado?
HA ainda impressionante observago a fazer. E' que,
sendo o historiador Irineu Pinheiro, sobrinho, amigo do
peito e o element de maior prcjeg~o do Coronel Ant6nio
Luis, ndo se concebe haja aqu6le intellectual ficado na ig-
norAncia de tais ocorr6ncias. E, se estava a par de tudo,
como justificar nile, no seu papel de historiador, o relate
que fez, na sua obra Juazeiro do Padre Cicero e a Revo-
lugio de 1914, dos mal fadados m-lagres de Maria de A-
rai.jo? Se sabia de tao triste explicag~ o para o caso, por
que nem de leve a insinuou? Por que. ao menos em reser-
va, nada adiantou a respeito em suas constantes confa-
bulac6es corn o primeiro bispo do Crato, seu antigo mestre,
seu confidence e de quem era m6dico?
Sem receio de contestacgo, afirmo que jamais Irineu
Phnheiro revelou a Dom Quintino Rodrigues qualquer
cousa que pusesse uma grande interrogagao em t6rno da
carAter de Jos6 Marrocos. Porque, se Dom Quintino hou-
vesse ficado persuadido de ser Marrocos capaz de tao ne-
gregado proceder, em suas reiteradas palestras comigo,
durante dez anos em que vivi perto dele e no g6zo de sua
inteira confianca, mixime quando me teve de falar e
quantas vezesl da question religiosa de Juazeiro e mes-
mo de Jos6 Marrocos, por certo me teria adiantado irn-
press5es tao pr6prias a definir aquele educador.
Mas o que posso sustentar, a face de Deus e dos ho-
mens, 6 que nunca Dom Quintino, ainda por ocasido da
leitura que andou fazendo para mim de exaustivos docu-






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mentos relacionados com o tal precioso sangue, me disse
uma palavra sequer contra a honradez de Marrocos. E
quem conheceu o venerando prelado sabe quanto ~!e era
co-nhecedor dos homes do Cariri e quanto era desassom-
brado no desmascarar a impostura e o embuste.



Existe ainda outro aspect da matkria em foco, tal-
vez mais digno de reflexdo e exame. E' que Jose Marrocos
ndo passou pelo sul do Estado como uma ave de arriba-
cgo. Nascido no Crato, all viveu t6da a sua infincia e t6-
das as f6rias de seu curriculo estudantil, seja em Caj&-
zeiras, sob a diregdo do sAbio Padre InAcio de Sousa Ro-
Jim, szja em Fortaleza, no Semindrio Maior daquela cida-
de. Deixando a carreira sacerdotal quase As v6speras do
presbiterato, rumou para o Rio, e logo entrou a military
na imprensa conm o ardor de um cruzado,.cmbro a ombro
cor Jos6 do Patrocinio e Joaquim Nabuco, empolgado
pelo ideal abolicionista.
Quando Ihe pareceu que a id6ia jd estava suficiente-
mente amadurecida, velejou para o CearA e aqui, de mros
dadas cor Justiniano de Serpa e Ant6nio Martins, dois
bravos pioneiros do movimento anti-escravlsta, fundou
o journal O Libertador com o fito ostensivo de extirpar o
cancro social que era o cativeiro no Brasil. Quem quiser,
em dois minutes, adquirir uma nocgo do papel entdo de-
sempenhado por Marrccos, ajudado por aqu6les dois inol-
vidavels cearenses, 6 s6 abrir "O CearA" (de R. Girdo e M.
Filha), A pAgina 180. E 6 Marrocos o primus inter pares.
E quem isto afirma 6 Antonio Sales, autoridade no as--
sunto.
No empenho de dar maior rel6vo ao element escra-





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vo, promoveu e viu concretizada a construgho de uma
igreja em honra de S. Benedito, o pretinho, onde os po-
bres negros pudessem reunir-se sem a humilhagco de
sentir-se os derradeiros na casa de Deus. Af esta, ainda
agora, o templozinho marroquino atestando, eloquente-
mente, os seus sentiments de F6 cat6lica e sua capaci-
dade de renmncia a favor do pr6ximo, fosse quem fosse.
Uma vez triunfante a campanha abolicionista, que
fez Marrocos? Longe de usufruir as vantagens a que ti-
nha direito pelos servigos prestados A coletividade, long
de colher o fruto de suas nobres reivindicag6es, o que fez
foi entregar os louros aos colegas da jornada e rumar pa-
ra sua terra-bergo, a fim de nela consumer t6da a sua
Jonga existencia no oficio hiper-merit6rio de preceptor da
mocidade. Falecido 1a pelos setenta anos de idade fechou
os olhos no instant em que chegava da missa dominical
e em pleno exercicio de suas espinhosas fung5es de inde-
fesso e pertinaz mestre de humanidades.
E quando foi que o viram converter em balcAo a sua
atividade como jornalista e educador? Quando foi algu-m
solicitar-lhe uma carta, um discurso escrito (falado nro,
pois nao tinha queda para a tribune, tal como Ant6nio
Sales), um conselho, uma esmola, um lugar gratuito para
um menino esperangoso no seu col6gio, e de 1a regressou
decepcionado? Duvido que se me aponte um exemplo.
E a quem foi jamais pesado Jos6 Marrocos? A quem
ocupou industriosamente, a quem explorou, jamais, a bca
f6 ou seja o que tenha sido? O que se sabe de sua peregri-
nagio pela terra nos conduz, exatamente, a conclusoes
opostas is que nos sio inculcadas pelo autor de U~m Civi-
lizador do Cariri. Modesto no seu modus vivfndi, modest,
nos seus haveres, isento do mais pequenino vicio, exceto
o caf6 e nao me record se o cigarro; trajando sempre ir-






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repreensivelmente, mas sem afetacgo; falando sempre com
elegant dicgco, por6m corn evangelico comedimento de
expresses; interessado no maior bem-estar de sedus con-
terrdneos, mas sempre a cavaleiro das incessantes tricas
political; militando frequentemente no jornalismo, rnas
fazendo imprensa elevada e construtiva a Joo'o Lopes e
Andrade Furtado; amando apaixonadamente a paz, po-
rdm nunca descendo, para isto, a um ato0 de bajulagio e
muito mEnos de servilismo diante dos tuchduas, regionais
ou da capital; ganhando pouco, mas bastahdo-se a st mes-
mo e nunca assumindo compromissos financeiros que o
diminuissem na consideraqgo pfblica Marrocos nunca
foi um ambicioso, um gozador, um carter acomodaticio,
um homo duplex, um cidaddo indefinido, um cagador de
popularidade e muito menos de elogios. Viveu suas sete
d6cadas t luz da publicidade, A disposicgo dos que o iam
procurar: para seus alunos, para a defesa do que Ihe pa-
recia verdade e bem, em sentido sempre vertical, de cabe-
ga sempre erguida, alvo do respeito de todos os homes de
bern que o cercavam, inclusive de seus adversaries, que n&o
Ihe faltaram e ante os quais nunca fez uma curvatura ver-
tebral.
Quanto A Religido, ignore se comungava anualmen-
te. 0 que sei 6 que nio perdia a Missa domnircal, que em
Brvbalha, onde manteve, por longos anos, um institute da
educagoo, frequentemente visitava, A noitinha, o SS. Sa-
cramento na Matriz. Que seus amigos mais do peito foram
sempre os homes mais respeitAveis daquela terra: os tr6s
da firm Sampaio e Irmdios, e Totonio Filgueira, e Pedro
Lobo de Meneses, e Vivi Sampaio, etc. Que pena nio se-
jam vivos o Padre Antonio Jatai e o Padre Miguel Coe-
Iho para deporem nesta oportunidade! Ougam-se, entre-






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tanto, Monsenhor Silvano de Sousa, Dr. Ledo Sampaio,
Dr. Florencio de Alencar, Padre Ant6nio Coelho, Jos6 Be-
zerra de Brito, os tres irmros Fernandes Teles, Dr. Eli-
slo Figueiredo, Jose Alves de Figueiredo, Francisco de
Lcdo Alencar, Mons. Jos6 A. de Lima, Dr. Juvencio San-
tana, Francisco N6ri da Costa Morato, varies de superior
formagdo moral e a altura de trazerem o seu testemunho
pr6 ou contra Marrocos. Como tamb6m o Dr. R. Gomes
de Matos, o Senador Fernandes Tavora, Dom Joaquim G.
de Luna, Dr. R. Noroes Milfont.
Agora uma pergunta: se tao ilustre cratense, em to-
do o seu long peregrinar pela terra, pautou seu procedi-
mento por semelhante estaldo, como admitir nele, exata-
mente na idade madura, uma descaida ignominiosa, qual
a que se Ihe atribui no folheto em f6co? Ninguim se tor-
ja p6ssimo nem 6timo da noite para o dia. Tanto a subi-
da ao v6rtice da perfei'go quanto a descida ao fundo do
precipicio moral faz-se gradativaaminte: gole por gole, de-
grau por degrau. Se Marrocos, uma natureza inimiga de
confidencias, um temperament altaneiro e fidalgo, um
home que ndo baixava a mexericos e conversas escusas,
sasu algum dia de seus cuidados, da atmosfera limpida
em que costumava viver para, cor a audiencia ou a reve-
lia do Padre Cicero, ensinar uma preta ignorante e scrn
o menor atrativo, a profanar o sacramento da Eucaristia.
cuia grandeza 'ele estudara nas fontes e por cuja gl6ria
prrecia disposto a todo sacrificio, entdo teremos esbarra-
do diante de um problema de mortificante decifracgo, bern
digno de ser estudado pelos mestres da psiquiatria moder-
na.
E como foi que, depois de ter caido tao espetacular-
mente, p8de soerguer-se de pronto e ficar, por mais deze-





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nove anos, ate a morte, seguro de sua orientagao, extreme
de vicios e indignidades?
Chegado a sste ponto de nossas considerag6es, nad
andariamos melhor interpretando sob outro prisma o fa-
to de terem sido encontrados, entire os livros e m6veil Cd
Marrocos, os paninhos em questdo e tamb6m um livro corn
formulas para a produgdo de uma aparencia de sangue,
mediante o emprego de determinada anilina?


Meu ponto de partida, depois do que levo dito, ven
a ser o seguinte: se Jos6 Marrocos, um belo esp6cime de
inteligencia ponderada, home que sempre sobrevoou aos
labirintos e intrigas da politicalha de antanho, durante
de7enove anos consecutivos ap6s a condenacgo dos pseu-
do-milagres de Juazeiro, conservou ndo s6 os paninhos en-
sanguinhados, mas tamb6m um tal livro; se o fez sabendo
que, em suas reiteradas permanencias em Barbalha, pode-
ria ser roubado em objetos tdo cobigados e tdo compro-
metedores, 6 porque outro havia sido o seu objetivo na
obtengdo e conservagao de uma e outra cousa.
Qual? perguntar-me-Ao. Quanto ao livro, para o
fim de desfazer as alegag6es aduzidas por certos de seus
adversArios, afirmando que se tratava de sangue de gali-
nha, ou entdo de anilina... Cor um tal formulArio a mao,
alijs escrito em frances e de autor competent, estaria
habilitado a pulverizar 6sse novo argument que Ihe ha-
vism lancado em rosto.
Quanto aos paninhos ensanguinhados, para me ser-
vir de uma tachativa expression de Dom Quintino Rodri-
gues, a meu ver, o que movia Jos6 Marrocos a permane-
cer corn les contra express determinagdo da Autoridade
Diocesana era, simplesmente, a convicgfo em que estava,





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e em que talvez haja morrido, de ser de franca origem so-
brenatural e divina o sangue aparzcido nas h6stias rece-
bidas por Maria de Arafijo.
Objetivamente errados, 6le e o Patriarca bem pode-
riam estar subjetivamente certos; e, em vista dessa sua
visao obnubilada, merece, no tribunal divino e tamb6m no
da posteridade, a devida absolvicgo. Profundamente con-
vencidos do carter sobrenatural do mristerioso sangue,
arreceavam-se de que o mesmo sofresse profanacgo... e o
defendiam assim. Do contrdrio, ter-se-iam desembaracado
do livro e dos paninhos, metendo-os no fogo, sem detenca.


Suponho haver atingido o termo final do humilde
trabalho a que me senti arrastado por um imperative de
consciencia, mercer de Deus sempre avido de justiga:
suim cuique tribuere. Tamanha foi a isengdo de espirito
corn que entrei nesta apreciagdo que, se Marrocos houves-
se sido um inimigo de minha familiar e at6 meu inimigo
pessoal, para reivindicar-lhe a honrada mem6ria, teria
saido a campo cor igual disposigdo e ndo menor calor. E'
o caso: dilexi justitiam.
Mais uma observagCozinha, e pingarei o ponto final.
E' que, se me nao mente a mem6ria, no process ca-
n6nico a que Maria de Arafjo foi submetida, 1-se o se-
guinte: que, moments antes de Ihe ser dada a Sagrada
ConunhEo pelo Padre Glic6rio da Costa Lobo, chefe da
comissdo incumbida de inspecionM-la, e composta de ou-
tro sacerdote cearense e dois medicos dos de malor pro-
jego estadual, dava-se-lhe solugdo de nitrato de prata
para bochechar... Ora, sabe-se que o nitrato de prata
ter a propriedade de tornar impossivel a salivag~o por
bom espago de tempo. Sendo assim, mesmo que a beat





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pretendesse, num como passe de migica, p6r na brca a
massa branco-vermelha, de que nos fala o articulista que
venho comentando, para o fim de dar a impressio de san-
gue, como nao ser logo pegada em flagrante? E, na hip6-
tese pouco provdvel de conseguir burlar a vigilAncia dos
elements da Comissio, como poderia ela, sem o auxilio
da saliva, molhar a referida massa para a efetivagco do
sacrflego embuste?
Ao julgador imparcial, a critical do caso.


Para ter-se ideia da distancia em que vivia Maria de
Arafijo em relacgo a Jos6 Marrocos, seja-me dado referir
um epis6dio que, ha quarenta anos, mais de uma vez ou-
vi dos lAbios de minha mae. E' que, na epoca dos fami-
gerados milagres, a famosa beata, c6nscia de sua peque-
iaez, desejando ouvir ler uma Imitagao de Cristo que Jcs6
Marrocos possuia e da qual ouvira falar como cousa mui-
to compreensivel, mandou tomd-la de empr6stimo a
Marrocos, mas servindo-se, abusivamente, do nome de
minha mae... Marrocos depois tirou o fato a limpo, fi-
cando a autora de meus dias bem desapontada com o
abuso de confianca. E a autora de meus dias sabia onde
tinha a cabega e nao era mulher para scr apanhada em
contradigio, Deus louvado.
O restante a ser comentado encontra-se implicita-
mente entendido atrav6s do que deixei acima exposto.

NOTA Abstive-me de declinar o nome do author de UM CIVLI-
ZADOR DO CARIRI por mera defer&ncia h circunstincia de ser nme
confrade e particular amigo. Em todo caso, AMICUS PLATO, SED MIA-
GIS AMICA VERITAS.
Araeati, Setembro de 1953







Apendice II

0 TESTAMENTO

Para a decifrago do fundador de Joazeiro, talvez
nenhuma contribuigdo se possa deparar mais decisive do
que o seu testamento.
Trabalho redigido A luz da eternidade, por ocasigo
de uma mol6stia pertinaz, se bem que onze anos antes de
sua more, no seu testamento, mais do que nos outros
passos de sua carreira acidentada e contradit6ria, deve
vislumbrar-se o seu pensamento intimo, a raiz central de
suas lucubrag~es.
Atrav6s dessas plginas, simpl6rias e chis, escritas
em outubro de 1923 e que s6 foram conhecidas ap6s o seu
passamento, deparamnos um padre Cicero bem diferente
do que esperavam, tanto os seus Endeusadores quanto os
seus desafetos.
NAO SE FAZ DE PROFETA
Comega por declarar que ndo conhecia a 6poca de
sua morte: "Achando-me adoentado, mas sem gravi-
dade e em meu perfeito juizo, e na incerteza do dia da
minha morte, tomei a resolug~o de fazer o meu testa-
mento....."
Ante uma tdo formal declaragdo, nao caird por tsr-
ra, pelo menos em part, a preocupacgo que Ihe atribuia-
mos de se impingir por adivinho e profeta? Quem assim
fala nao parece equiparar-se aos outros filhos de Addo?

TINHA PAI E MAE, COMO NOS
Logo adiante, na mesma pdgina, esclarece a sua fi-














4-.?* -


PE. CICERO ROMAO BATISTA


I.r


L~k~"~pg~tj";





- 81 -


liagco exata: "Declaro, diz l1e, que sou filho legitimo
dos falecidos Joaquim Romdo Batista e Dona Joaquina
Vic6ncia Romana, e nasci na cidade do Crato, neste Es-
tado do Ceard, no dia 24 de marco de 1844".
A vista de tais dizeres, recua ao terreno da dUivida a
certeza que muitos tinham de que o, patriarca vivia empe-
nhado em disfargar a sua verdadeira origem, querendo
passar por anterior ao dilidvio universal, menos home
do que um anjo caido do c6u.

QUEM 0 FEZ PADRE
Semelhante interpretagdo 6 plenamente confirnmada
pelo t6pico imediato onde assegura: "Como profissao,
adotei o ministerio sacerdotal, de acordo corn as ordens
que me foram conferidas pelo entdo bispo do Ceard, Dom
Luis Ant6nio dos Santos, de saudosa mem6ria....."

MORTAL ENTIRE OS MORTAIS
Longe de se dizer igual ao Altissimo, ele reconhece
que de Deus 6 que recebeu nio somente a safde e a vida,
mas tamb6m o g6zo de suas faculdades mentais. Depois
de afirmar que professor o sacerd6cio cat6lico conform
a propria vocagdo, corn amnr, dedicagdo e boa vontade,
acrescenta. "... desejando assim continuar enquanto
o bom Deus, pela sua divina miseric6rdia, me conceder
f6rcas e conci6ncia dos meus atos."
SUA RENYONCIA INICIAL
"Declaro mais, afirma em seguida, que, desde a mi-
nha ordenagdo, mesmo durante o pouco, tempo que fui vi-
g6rio da par6quia de So Pedro do Crato, nunca recebi
um real sequer pelos atos religiosos que tenho praticado
como sacerdote cat6lico."






- 82 -


EM QUE EMPREGOU AS ESMOLAS

"Declaro mais que todos os dinheiros que me foram
e continual a ser dados, como ofertas (feitas) -a mim
finicamente, os tenho distribuido em atos de caridade que
estio no conhecimento de todos, bem como em grandes
e vantajosas obras de agriculture, cujo resultado tenho
aplicado em bens que ora deixo, na maior parte, para a
benemerita e santa Congregagdo dos Salesianos, afim de
que funde aqui, no Juazeiro, os seus col6gios de educago
para criangas de ambos os sexos....."
OS SALESIANOS SUA PROPRIA PESSOA
"Estou certo, continue 81e, que todos os romeiros
aqui domiciliados, ou de pontos distantes, como prova de
estima e amizade a mim, e em louvor e honra a Virgem
Mae de Deus, continuarao a frequentar 6ste meu amado
Juazeiro com a mesma assiduidade, e auxiliarao aos be-
nembritos Padres Salesianos, como se f6sse a mim pr6-
prio......"
DE QUE FAZ DEFENDER, NO ALeM-
TUMULO, A SUA TRANQUILIDADE.
E, desenvolvendo os mesmos pensamentos, ajunta:
- "..... auxiliarxo os benem6ritos Padres Salesianos
para a manutengdo aqui ..... dos seus col6gios, cuja
existencia..... nesta terra seri a malor tranquilidade
para a minha alma na outra vida."
Do que acabamos de ler, forgoso 6 concluir ndo s6 a
confianca imensa que o patriarca depositava nos filhos
de Dom Bosco, porem, sobretudo, o seu apaixonado am6r
A instrucgo, a ponto de dar a entender que nao acharia
inteira paz na outra vida, se nao f6ssem cumpridas as suas






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disposigSes, neste capital assunto.
A QUEM DEVE A SUA CASTIDADE
"Devo ainda declarar, por ser para mim uma grande
honra e um dos muitos efeitos da graga divina sobre mim,
que, em virtude de um voto por mim feito aos doze anos
de idade, pela leitura que, nesse tempo, eu fiz da vida
imaculada de So Francisco, de Sales, conservei a minha
virgindade e a minha castidade, at6 hoje."
Em tais expresses do padre Cicero, exatamente tex-
tuais, somos levados a enxergar uma resposta ao autor
carense que, depois de haver-lhe tessido, mesmo pela
imprensa, os maiores enc6mios, apontou-o ao mundo como
um monstro sem entranhas, capaz ate do crime de adul-
terio.
Palavras d&ste quilate exprimem sentiments humil-
des, e quem as profere, parece long de querer a pr6pria
divinizagdo, j& que se mira na vida de um santo, feito
de came e osso, como n6s.
SEU ESPIRITO DE TOLERANCIA
E prossegue: "Afirmo que nunca fiz mal a nin-
gu6m, nem a ningu6m votei 6dio nem rancor, e que sem-
pre perdoei, por amor de Deus e da SS. Virgem, a todos
os que me fizeram mal, consciente ou inconscientemente."
PORQUE SE FiZ POLITICO
Eis as suas sensacionais declaracges s6bre o melin-
droso assunto: "Nunca desejei ser politico; mas, em
1911, quando Juazeiro, entdo povoado, foi elevado a ca-
tegoria de vila, para tender aos insistentes pedidos do
entdo president do, Estado e meu saudoso amigo, comen-
dador Ant6nio Pinto Nogueira Aci6li, e, ao mesimo tem-





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po, evitar que outro cidadio, na diregdo political deste
povo, por nao saber ou nao poder manter o equilibrio de
ordem at6 entdo por mim mantido, compronietesse a boa
march desta terra, vi-me forgado a colaborar na
political "

PEDE MISSAS

Depois de ter determinado que, verificada a sua
morte, seis propriedades suas f6ssem vendidas, tendo em
vista o pagamento de dividas que porventura deixasse,
disp6e que o excedente seja empregado em beneficio de
diversas mogas pobres, suas protegidas, como tamb6m em
missas para sufragio de sua pr6pria alma, sem esquecer
as almas do purgat6rio.

A VIRGEM MARIA JNICO REMEDIO.

Depois de manifestar que se acha perto da morte,
o padre Cicero roga, aos seus romeiros, que nao se afas-
tem da sua cidade; e, neste sentido dA-lhes expressivos
conselhos: "... continue domiciliados aqui, no Jua-
zeiro, venerando e amando sempre a SS. Virgem M-e de
Deus, ninico remedio de t6das as nossas aflie6es; auxilian-
do a manutencgo do seu culto e de t6das as instituig6es
religiosas que aqui se fundarem, e, com especial mengro,
a dos benem6ritos Padres Salesianos que serdo meus con-
tinuadores nas obras de caridade que aqui fundei...."

A IGREJA CAT6LICA PORTA DO CAU

E, sem se distanciar da mesma ordem de conceits,
adianta: "... pego, como sempre aconselhei, que se-






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jam bons e honestos, trabalhadores e crentes, amigos uns
dos outros e obedientes As leis da Santa Igreja Cat6lica,
Apost6lica, Romana, no seio da qual tao somnente pode
haver felicidade e salvagio."
Como a indicar o grau de seu z6lo pela eterna bema-
venturanga dos seus, persiste ainda nas mesmas ortod6-
xas recomendag6es: "..... e sejam bons e honestos,
trabalhadores e crentes, amigos uns dos outros e obedien-
tes As leis civis e da Santa Igr6ja Cat61ica, Apost6lica,
Romana, no seio da qual tao somente poderemos encon-
trar felicidade e salvagco."
A parte restante do testamento excetuados peque-
ninos t6picos, consta de uma longa e minuciosa enume-
racao de bens, quasi todos imoveis, no valor de uns mil
contos de reis, que legou A igreja-matriz da sua Cicer6-
pole e, particularmente, a Igreja Cat6lica, na pessoa da
CongregagSo dos Padres Salesianos, objetivando, sempre,
o esplendor do culto e a educag-o da juventude, em
moldes cat6licos.
Ao cabo de tudo isto, nao se fica mesmo, emudecido?
Nao 6 6ste o mesmo padre Cicero de querm se disse, alto
e bom som, que negou pdo e Agua ao servi'o de alfabeti-
zacdo do seu povo?
Nao seria exatamente a conciencia cat6lica de que
fazia mengdo Jackson de Figuei'rdoi, conciencia cat6lica
absolutamente indestrutivel, resistente aos erros alheios,
resistentes a todos os seus proprios erros?!








Apendice III

DO JOURNAL "CONSTITUICAO" DE 31 DE OUTUBRO
DE 1875

FELICITACAO

Ilmo. Sr. N6s abaixo assignados, alunnos de la-
tim no Lyceu do Ceara, faltariamos ao duplo ever de
gratid~o e appreqo, se nao significassemos d V. Sa. que
foi bern sensivel a sua retirada do magisterio que exerceo
entire n6s desde o dia 9 de setembro at6 22 expirante.
Perfeito latinista, V. Sa. fez-nos appreciar a belleza
da lingua sublime que nao morreu corn Virgilio e Cicero,
Horacio e Tito Livio, deu-nos o gosto e o exemplo dos
classics, que empenhou-nos ao mais serio estudo dos
autores latinos.
Permitta-nos pois V. Sa. que agora que se ausenta
de n6s, Ihe dirijamos pelo present document um solene
voto de appreco que passar, alem dos bancos escolares:
Semper honos, nomenque tuum, laudesque manebunt.
Deus guard a V. Sa. Ilmo. Sr. Jos6 Joaquim
Telles Marrocos, M. D. lente interino das duas cadeiras
de latim do lyceu do Ceard.

OS ESTUDANTES

Antonio Ferreira da Costa Lima, Cloves Bevilaqua,
Leoncio Gurgel do Amaral, Raimundo Justiniano de
Oliveira, Jodo Firmino Dantas Ribeiro, Francisco B. da
Costa Filho, Domingos Eustaquio Vieira, Antonio Pauli-






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no Delfim Henrique, Jacome da Cunha Freire, Leopoldo
dos Santos Brigido, Francisco Nogueira de Holanda Li-
ma, Marcos Franco Rabelo, Eugenio Augusto de Mo-
rais, Francisco Dias Martins, Livino Lopes Dantas Ribei-
ro Filho, Manuel Jos6 de Melo, Rodolfo Te6filo Ribeiro,
Francisco Pereira Ibiapina e Antonio Albano dos Santos.

Liceu do Ceari, 23 de outubro de 1875.










CORRIGE


linha 28
linha 10
linha 26
linha 6
linha 19
linha 11
ibdem


Em vem de:
Deusa
s'rias
apunha
umo
ganacioso
carense
tessido


Leia-se:
Deus
s6rias
opunha
um
ganancioso
cearense
tecldo


Composto e impressed na Editors
A. BATISTA FONTENELE
Julho de 1956 No 34


Pg. 11,
" 14,
" 25,
" 33.
" 43,
" 83,
ibdem






S, V ) O -\(A -2S









6 -~G a Ar t d-,e





(' i ^ M- SI?). 5/