Cangaceiros do nordeste

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Material Information

Title:
Cangaceiros do nordeste
Physical Description:
279 p. : ; 19 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Baptista, Pedro
Publisher:
Livraria S. Paulo
Place of Publication:
Parahyba do Norte
Publication Date:

Subjects

Genre:
non-fiction   ( marcgt )

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 01292974
lccn - 33023908
Classification:
lcc - PQ9697.B325 C3
ddc - 869.8
System ID:
AA00000263:00001

Full Text
Cangaceiros do Nordeste
Cangaceiras do Nordeste 1


PEDRO BAPTISTA
CANGACEIRO do Nordeste
19 2 9
T, I V K A M I A ). F&VXO
Rua Maciel Pinheiro, 160 PHKflHYBR DO PORTE


A MEMRIA DE
Affonso Ari nos
pela grande sinceridade emotiva de sua penna de sertanista.


um personagem tnysterioso; mora no pampa', e as moitas de cardos so seu albergue; vive de perdizes; se o acaso o lana alguma vez de improviso nas garras da justia, ac-comette o grosso da tropa e merc de. quatro cutiladas que retalham a cara ou o corpo dos soldados, abre caminho entre elles, e deitando-se no lombo do cavallo para subtrahir-se aco das balas que o perseguem ruma para o deserto, at que fazendo espao conveniente que o separe dos seus perseguidores refreia o troto e marcha calmamente. Os poetas do arredor accrescentam a nova faanha d biographia do heroe do deserto, e a sua nomeada va por toda a vasta campanha. Sarmiento *Fjacundo>pag. 26


I
Tamanhas so as affinidades da terra e do homem nordestanos que difficil se torna observa-l-os, isoladamente.
Pennas incipientes ou no adestradas nas sinuosidades correlatas aos traos geraes de seus problemas, quasi sempre emperram ou titubeam em solues duvidosas.
Emmaranhamo-nos nesse intricado lia-me. E, como nos faltem elementos, scien-tificamente positivos, para lhe penetrar o mago, vamos nos esgueirar pela tangente acommodaticia das narrativas, deixando ao leitor a liberdade das iaes.
Rascunhamos narrativas e pi^ocuramos, com sinceridade, alcanar o filo, por onde o observador possa penetrar os meandros da-alma do sertanejo fiel a si mesmo.
Muito modesto, porm, o fim a que nos propomos.
Sem preoccupao de forma.e sem empfia ou preteno a intellectual, simples ras-
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cunhador, no affeito s lides da penna, iremos desfiando, conta a conta, o rosrio de factos que enchem mais de meio sculo da vida rural dessa faixa de terra que a Natureza limitou com os cursos do S. Francisco e do Parna-hyba. Contaremos, ao correr da penna, o soffrimento e a heroieidade de um punhado de sertanejos amantes gleba natal e resistentes como essa prpria terra. Terra forte!
Nem as inclemencias do destino, nem a lingua comburente de um sol de fogo conseguem,, vencer ou impedir o teu progresso que, a despeito de tacanho regionalismo poltico, tornada entidade em nossos dias, tripudia sobre, o effeito das seccas!
Grande tarefa?*
No. Suppra-se a falta de solida cultura pelo grande: interesse de ser util, e utilidade junte-se, elevada qinta-essencia, uma dose de forte nativismo'.
"Fijho d,esse vasto hinterland, tivemos o bero embalado ao sopro frio das br,isas da Borborema. Creana -ainda, ouvamos nos seres da fazenda, ao par das faanhas cie Carlos Magno e os Doze Pares de Frana, as lendas de Pedro-Malazarte e Gon-alo Valente, os episdios dos Quebra-Ki-los, as historias dos Guabirabas, de Je-suino Brilhante, dos Viriatos, dos Calan*


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gros, Montes, Feitosas, Filgueiras, Moraes e Pinto Madeira, cuja valentia culminou em todo., o Cariry Novo, por occasio d'aquelle glorioso tentame da Republica do Equador, a pagina mais exhuberante de patriotismo e coragem de toda a historia sertaneja. Os Cachoeiras de Misericrdia, Adolpho cognominado Rosa da Meia-Noi-te, Liberato, e finalmente toda a grande Famlia Terrvel, grande dissiminadora do mal, povoavam-nos o crebro infantil de sertanejo. Feito homem, palmilhmos sertes, e o destino levou-nos ao conhecimento de factos occorridos nos primeiros lustros deste sculo, que muito concorreram para formarmos um juizo seguro sobre o que tanto ouvramos.
Na antiga villa do Pat, ao p da Serra do Cajueiro, quem visita os velhos poisos que serviram de esconderijo aos Brilhantes, nota a grande saudade com que os sertanejos simples d'alli narram os feitos e enaltecem a bondade d'alma do caudilho valente que naquelles recncavos vivera e chefiara um bando.
Em Martins, Porta-Alegre e Pu-dos-Ferros, ouvindo a historia sympathica e a valentia cavalheiresca do celebre Moreira que ao mesmo tempo enfrentava o abastado fazendeiro Quincas Amorim e rebelava os famintos de 1877 contra a perversidade da


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eommisso de soccorros de Areia-Branca, para lomar e entregar s victimas da fome as migalhas que lhes mandava o Imperador e que eram miseravelmente desviadas do seu destino,admira-se com quanto enthusiasino sabe aquella gente rememorar os seus heroes!...
No valle do Jaguaribe, como em pagina de grande livro aberto, relm-se aquees episdios memorveis e oriundos do levante de Tristo Alencar que empolgou todo um decennio,1824-1834, da historia cearense-
Campina-Grande com os seus Palma-res em revolta contra o censo dos escravos; a Serra do Bodopit com o seu Ronco da Abelha; o Pajeh de Flores salientando-so na historia colonial com os seus cangaceiros aptos pratica de assassinatos por quatro vintns, so complementos desse mundo se-mi-barbaro, decantado pelos troveiros em gestas que o tempo transforma em verdadeiras jias do folk-lore e documentos de subido valor.
Quanta injustia!
Quanta calamidade!
Quanta famlia pobre, forada a emigrar da noite para o dia, deixando ao abandono todos os seus minguados possuidos, por se negar a cumprir qualquer ordem dos potentados da regio!


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Quantos vexames impostos aos pobres, porem altivos sertanejos, tm servido de causa a verdadeiras tragdias de requintada sanguinolencia que salpicam de pontos es-carlates paginas e mais paginas da historia regional!
No particularisamos.
Um relato, um exemplo implicaria n'uma infinidade de outros que degenerariam em chronica geral...
Comtudo ba ou m a orientao, nestas narrativas seguiremos as pegadas de Pedro Malazarte (pseudonymo de ura intelle-ctual conterrneo) na sua modesta publicao Os Cangaceiros que, interrompida no sou terceiro numero, no logrou a transposio das barreiras do Estado. Delle aproveitmos factos, opinies e por vezes descri-pes, servindo-nos, a cada momento, do pittoresco da paisagem e da vivacidade da narrativa.
Para Pedro Malazarte, o serto se de-vide em duas castas distinctas: a dos oppri-midos e a dos oppressores.. Diviso esta que somente em determinados pontos, tem a Re-jyjblica conseguido modificao lenta e insegura.
Os dois grandes partidos da monafchia confirmavam esse acerto, de modo categrico. A queda brusca de qualquer d'aquel-


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les esteios cia politica geral acarretava uma calamidade para os vencidos. D'ahi,'a formao desses grupos fortssimos que se sobrepunham aos prprios partidos e dos quaes se faziam dictadores, e,;de cima ou de baixo, dietavam sempre!
Dizia e exemplificava Pedro Malazai^te, na sua publicao alludida:
Ouve-me, leitor.
Ha dois sculos uma famlia, a Famlia Terrvel, veiu estabelecer-se em cima de rica serra que poderamos chamar Serra das Feras Humanas.
Esta serra, encravada na cordilheira geral que liga os Estados de Pernambuco, Parahyba e Cear, por discreo, lhe daremos este nome no curso destas linhas.
A Famlia Terrvel era poderosssima ; seus troncos estavam espalhados por quatro Estados vizinhos. Piranhas, Riacho dos Porcos, Rio do Peixe, Serid, Pajeh de Flores, Moxot, Jabitac, S. Jos do Egypto e Misericrdia eram o seu campo de aco. Sua fortuna era adquirida com o trabalho de escravos indgenas e africanos que possua.
Suas terras haviam sido herdadas de seus avs que :por sua vez as usurparam das naes arirys, Sucurs eCormas, quando as disvirginaram, como bandeirantes.


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E, tara de famlia, ainda os netos ex-poliavam as terras dos pequenos proprietrios, como hoje muito se pratica!
Os polticos e proprietrios limitrophes acovardados ante o poderio da Famlia Ter-rivelprocuravam sua alliana, eo seu man-donismo ia se alastrando pelos districtos de Patos, Pombal, Pianc, Milagres, Jardim, Ic, etc, etc.
fra o elemento particular com que elles contavam no centro-d'o!Piauhy, do Cear e do Rio Grande do Norte, esses homens dispunham de fortes amigos da situao poltica nas provncias de Pernambuco e da Parahyba, e assim, muitas vezes^ nas capites dessas provncias, eram elles saudados como senhores, e pacificadores dos sertes!
Ento, ps pobres sertanejos, julgados a. peior gente do mundo, supportavam o seu guante de ferra,, cabisbaixos, gemendo na sombra, emquanto aos seus olhos mais augmen-tava aquelle poderio!...
Continuavam sempre os membros dessa
famlia a adquirir prestigio, fama e fortuna, chegando a occupar cargos de elevada categoria nas provncias que dominavam, e mesmo a influir na alta poltica, da colnia, a principio e, depois na Corte.
Quando alguma famlia se revoltava contra certos vexames, era obrigada a reti-


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rar-se s escondidas, alta noite, para terras distantes. Partia com a convico de que jamais acharia alli a menor providencia.
Os homens da Famlia Terrvel eram cruis e eram desses que choravam quando sabiam da morte de um inimigo!...
Os seus crimes por maiores que fossem ficavam impunes, e o echo do gemido de suas victimas no atravessava as serranias da Borborema; quando as atravessasse, morreria ao p das escadas dos palcios onde devia residir a justia...
Para termos uma idia do que eram esses homens, alguns de cultura regular, entregues com todo o poder de senhores feudaes a vontade de suas paixes inferiores, n'um meio inculto e longinquo, de difficultosas com-municaes, como era at bem pouco o ha-bilat sertanejo, tenhamos em vistas o que ha alguns annos dizia a imprensa sobre Milagres, Monteiro, Pianc, etc.
Quando a Famlia Terrvel promovia correrias para tirar vingana ou praticar arbitrariedades, armava grande squito de escravos e cangaceiros. Raramente necessitava de auxilio do governo, mas quando reclamava, este vinha incontinenti. Soldados e paisanos, fmulos e escravos, tudo era instrumento cego nas mos dessa familia. E ces amestrados, cavallos ardegos e fogosos,


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invenenadores e man.dingueiros, esculcas e ras-lejadores, elles tinham de reserva para qualquer emergncia. Mas, a sua principal fora consistia nos criminosos de todos os matizes que, perseguidos pelas autoridades de outros districtos, se refugiavam pela Serra das Feras ou em propriedades, pertencentes a alliados da poderosa Famlia Terrvel, na certeza de que seriam bem acolhidos, encontrando repetidas occasies para evidenciarem as suas qualidades de degenerados sanguinrios, ou de salteadores distinguidos e audazes. Isso era bem sabido e corrente, e ento desde os sertes extremos do Piauhy s margens bahianas do S. Francisco at o littoral, affluiam, pedindo a proteco daquel-les potentados, curibocas perigosos que assassinavam fria e covardemente; aquelles que, revesados da sorte, tinham cahido na vida do cangao; e no muito raro, o vaqueiro destemido e honesto que os azares da vida o fizera criminoso e encarcerado, mas, um dia recebendo um habeas-eorpus respeitado como nenhum outro, porque fora tomado pela mo generosa e temida de Jesuino Brilhante ou de outro altivo arrombador de cadeias, alli procurava homisio seguro.
Para o leitor avaliar o desassombro com que estes factos se passavam, basta -saber que essa famlia era indispensvel ele-
Car]gaceiro3 do Nordeste


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mento a um dos dois grandes partidos que se degladiavam no tempo do Imprio. Era Liberal, e quando este partido subia, chegava ao apogeu a fora do seu domnio.
Amiga dos governos, a policia e a justia da zona sertaneja, onde ella influa, .compunha-se de pessoas escolhidas, dentre as mais criminosas,membros ou protegidos da grande Famlia Terrvel.
Cahidos os Liberaes, o odio dos Conservadores que, dentro das capites, demittia autoridades, insultava, dava surras, desterrava e praticava toda sorte de arbitrariedades, no lograva subir s fraldas daquella serra.
Alli, as autoridades do partido que subia, acovardadas, de cabea baixa, jamais tinham autonomia.
Quem conhece a organizao dos Estados do norte sabe perfeitamente que no exageramos. E se olhssemos um pouco para traz, veramos, em 1850, o chefe de policia de ento, officiar ao Presidente da Provncia, communicando que na comarca de Pajeh existiam 350 criminosos em liberdade;'0 e em 1724, no Cear, o capito Joo Ferreira da Fonseca reunindo-se a Francisco Alves Feitosa, frente de 800 homens quasi que arrasava Inhamuns; <2) e, ainda ha pouco
(1) Saint-AdolpheDicc. hist. do Brasil.
(2) Joo BrigidoHistoria do Cear,


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as villas de Aurora e Jardim depredadas, e o povoado de S. Thom, na Parahyba, devorado por um incndio horrvel!
O bacharel Santa Cruz apertado em circulo de frreas perseguies e injustias, desespera, allia-se a outro potentado, apossa-se de Alaga do Monteiro, aprisiona o promotor, o prefeito e outras autoridades de
destaque, levando-os como refns para o Cear.
E Dominguinho de Milagres; e Chico Chicote; eFloro Bartholomeu, medico, deputado federal e fiel devoto do Padre Cicero que levanta seis mil homens, depe Franco Rabello, torna-se baluarte da legalidade e enche o execrando Lampeo de dinheiro e munies, dando-lhe ainda de quebra honras e gales patriticos'?...
A Famlia Terrvel, portanto, no in ventava costumes. Contando com alguns homens illustres e de elevada posio social, seguia, o rifo de: em terra de sapos de ccoras com elles, e querendo manter taes regalias, aoitava quantos bandidos desgarrados procurassem a sua proteco.
Ai! de quem reclamasse contra qualquer dos seus actos!
Era grande a lista dos chefes de familia que, por lhe terem desagradado, haviam


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pago com a vida, desaparecendo mysterio-samente!...
E deitando a ultima p de terra sobre a autpsia moral da Famlia Terrvel, dizia ainda o referido auctor: A Justia do Oo que quando tarda vem no caminho, cahiu sobre ella impiedosa e exterminadora, pois, o ultimo de seus rebentos tombou varado pelas balas do rifle de Antnio Silvino, n'uma d'aquellas suas sortidas arrojadas, de caudilho que soube manter-se vinte annos, dormindo ao relento e respirando um ar livre como seu sonho de liberdade.


IT
Ao menor lance de vista sobre a carta geographica do Nordeste, resalta a deficincia do systema orographico que serve to vasta regio. D'ahi a penria potamographica para a sua bemfazeja irrigao natural, e conseqente secura atmospherica to agravada pelo sol tropical que nos calcina. O flagrante declive para o mar, o solo pedregoso e desarborizado dos sertes,disse I. Jofily so talvez a causa mais proeminente do grande mal que tanto apavora e affiige o Nordeste a secca.
No podemos deixar de tocar nesse ponto, muito embora sejamos forados, a um enguio, como o gato s brasas, mingua de conhecimentos positivos.
A secca retempera o caracter resistente do nordestano. E neste phenomeno paradoxal acharemos razo para grande parte destas narrativas cujos instrumentos activos e passivos rflectem a inconsistncia clima-


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trica que singulariza esta regio da nossa ptria.
Peregrinemos paciente leitor, que at aqui viesto emmaranhado no aranzel destas linhas, penetremos a soalheira onde se desencadeiam as grandes seccas.
E que veremos?
Nos prodromos da colonizao, os aborgenes dizimados ou em levantes contnuos, e, mais tarde, os colonizadores pagando bem caro o arrojo de seus tentames. Em 1692, verncs o Bispo de Pernambuco, na emergncia de vender at as cadeiras de seu palcio para distribuir o resultado com os famintos, e o Governador intervindo com a sua autoridade para forar a baixa dos gneros alimentcios, como refere J. Brigido, nas suas Datas Celebres da Historia do Cear.
O phenomeno vara sculos, tomando propores na relatividade do povoamento sempre crescente.
As datas calamitosas succedem-se na seqncia de grandes e pequenos cyclos que assignalam paginas tristes, porm memorveis, e que, por si ss, comprovam a resistncia de espirito e animo inquebrantavel ao servio da mais cega e forte confiana que faz do sertanejo, atravz de sua historia de povo anonymo, aquelle typo lendrio ou eni-


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gmatico que a penna de Euclydes da Cunha traou, com tamanho e percuciente carinho.
Dispensemo-nos deproseguir essa ronda lamurienta, pelo amontoado triste de episdios, tornados comezinhos fora de tanto se repitirem, e faltemos sobre este pedao de ptria onde,, ainda hoje, se encontra em alguns recantos, indemne, o velho culto daquelles bons sentimentos que nos legaram os iberosna phrase crua do pensador d'Os Sertes.
Como dissemos em nossas primeiras linhas, o Parnahyba e o S. Francisco fecham pelos quadrantes de N., O. e S., qual gigantesco Acheronte os vastos campos do Nordeste, cujas barreiras formidveis se achatam e diminuem em frente ao planalto central.
As prprias solues de continuidade dessas barreiras, offerecendo escoadouro natural para as guas, no passam de illuses, pois, muito embora, sejam taes sabidas legitimas, visto que o solo pronunciadamente inclinado para S O. e S E. no as sustem, ellas constituem artrias formadoras do S. Francisco.
Foi pelo S. e S -O., subindo os cursos do Moxot e Pajeh, primeiras vias de ac-eesso e communicao por onde provalvel-mente enveredaram as bandeiras que, de S. Paulo e Bahia, demandavam o incgnito.


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Bandeiras essas que alh deixaram em traos indelveis ainda no dizer de Euclydes, traos que persistem nas vestes''caractersticas, nos hbitos antigos, no extranho aferro s tradices. mais remotas; no sentimento religioso leArado at ao fanatismo, no exag-gerado ponto de honra, no folk-lore bellissimo em rimas, de tres sculos, e que caracte-risam em tudo, um absoluto espirito de independncia.
E' este, em apressado relance, o scena-rio onde se desenrolaram os dramas que vimos bosquojando e que a penna de Pedro Malazarte, com admirvel acuidade descreve.
A Villa das Feras, seria um paraiso se l no existissem homens da tempera d'Os Terrveis. Seu clima temperado in-contestavelment'"1, o melhor entre os mais salubres.
No alto d'uma serra, desvendam-se para os lados os mais agradveis panoramas, no-tadamente para o norte onde a vista se perde nos campos rasos do serto em que a brisa das tardes e a virao das noites de luar ondeiam o panasco, qual se fora o oceano em perpetua lida.
Ainda nas grandes seccas, quando se extingue a vegetao e rareiam, salpicando de verde o longo dos rios escarvados, copas de oiticicas e joazeiros, alli na serra, o feijo


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brabo, o sassafraz, o jatob, o gravat-ass e outras plantas naturaes da regio emprestam paizagem o aspecto luxurioso d'um osis* perdido em deserto immenso.
A creao multiplica-se mais do que pede o preceito divino. A agricultura prospera nas vastas searas que brotam dos roados, como por encanto, e a agua to minguada nos sertes que se desdobram l em baixo, cachoeira m lmpidos regatos pelas quebradas da serra, em cujas fraldas nascem os primeiros filetes dos rios Pianc,' Piranhas, "(jenipapo, Pinharas, Parahyba, Pajeh e Moxot.
Foi este seio de Abraho o escolhido pelos Terrveis para a morada de sua famlia que, com o tempo, se foi ramificando pelo Riacho dos Porcos, Caic, Pitombeira, Serra de Santa Catharina e Serra da Baixa-Verde.
Logo que estes comearam a estadear sua prepotncia, muitas foram as famlias que d'aili emigraram. Mas os .sertes se iam povoando dia a dia. Outras famlias ficaram, e se no arcavamc ontra os potentados, tambm a elles^no curvavam o cerviz. Viviam sem o&bajular nem combater, n'uma como independa reservada, e sem ostensiva altivez. No comeo do sculo passado a revolta intima rt'quella gente comeou a germinar.
(3) No elassifs. na "Botnica do Noidestu".
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E a somente no se estiola quando a gleba feraz!
As famlias das victimas, os pprimitlos, avqu.elles que no viviam da prepotncia e nem empregavam a fora contra os oppres-so.res se interrogavam cautelosamente:
Quando Deus se compadecer de tanta ignomnia e tanta maldade? Quando vir em nosso favor, castigando tanta misria e tanto crime, praticado contra pobres indefesos?
O vigrio, doce velhinho, de cabellos orancos, incanavel, a todos aconselhava pacincia; que esperassem em Deus; os velhos que mandassem os filhos para outras terras, onde podessem viver socegados e confiantes no Poder Divino.
Os moos, porm, s a custo sopitavam a chamma da revolta que lavrava intensa n'alma de todos. E em torno do pastor que aconselhava submisso e f na justia do co,. pouco a pouco ia se formando uma nova -espcie de conspirao, on&e mais entrava o ardor de paixes juvenis, que a plafio seguro e_ amadurecido' de um verJ,adeiro*le-vahte. Curioso paradoxo!
Os conselhos cheios de unco e cheios de*piedade daquelle eremita, era vez de humilhar, enchiam de ardor aquella mocidade con-tricta em cujas veias, em perenne ebullio


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lidavam dois sangues indomveis: o do*por-ttiguez que affwentou a fria tenebrosa do Atlntico e o do aborgene que s a ferro e a fogo entregou o palmo de terra que era seu ..
Dq numero desses moos fazia parte /An,tonio Thomaz-, filho de Manuel Thomaz, um descendente de Joo Leito, o colonizador destemido que secundando Lopes Romeu, desbravara aquella serra povoando a data da. Conceio, e auxiliara a formao do Arraial dos Canudos da Serra do Teixeira, alli perto, que no era bem visto pelos Terrveis.
Antnio Thomaz era d'uma bravura admirvel, e tanto nas vaquejadas elle vencia barbates, como nas cavalhadas no perdia a argolinha.
E estas, talvez, foram as razes que o fizeram mal visto dos Terrveis eespecial-mente do Vicente Terrvel, o Tenente Vicente, como era -conhecido.
Em certa cavalhada onde ambos formavam um pare, paceo luzido o forte, que se distinguia galhardo pelo orgulho e pela bravura, attrahindo sobranceiramente a at-teno cie todos, pondo em conflicto preferencias femininas, Antnio Thomaz, seis vezes seguidas, conquistara a argolinha.
m Derrota formidvel para o Vicente que se tinha em ba conta de cavalleiro. E mais


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formidvel ainda a ostentao, de seis laos de fitas de cores variegadas e berrantes, trQphu de estima inegualavel, com que certa moa enthusiasta galar^loara ao seu rival.
Aquillo ferira fundo!
Sua preferida, envergonhada, recolhera-se, ante tamanha derrota. E desd'ahi, o seu odio por Antnio Thomaz no tivera limites.
O velho Manoel Thomaz, ao lado do vigrio, emprestava seu valor, de fazendeiro abastado, ao Partido Conservador.
Grossa nuvem de incertezas pesava sobre a Provncia.
Andava no ar uma inquietao a procura de ctos para se concretizar.
Os fracassos de 17, 24 e 34 geraram no espirito do povo simples verdadeira e inconsciente effervescencia.
Os-padres, seus mais immediatos mentores, experimentavam os effeitos do estado geral. Aquelle caso do vigrio Antnio Manoel, intemorato companheiro de Pinto Madeira, benzendo com toda solennidade um capo (4) -de matto, existente ao p de sua casa, de onde deviam ser tirados os cacetes para a cabroeira se armar, em 32, bem caracte-
(4) Capo De ca tnatto e pa nesga, entremeio, matto isolado; matto redondo. ( B. t.)


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ristieo. E mais ca#acteriscas talvez fossem as suas' praticas, elogiando a efficiencia dos quirys, d'alli extrahidos, infalliveis na quebra de costellas dos malvados inimigos da revoluo.
Suffocado o movimento de Pinto Madeira, ficaram -os casos isolados estourando como bolhas. Aonde os Terrveis chegavam, subia assustadoramente o barometro dos crimes. Em 41, s o termo de Pianc apresenta um rol de culpados com 144 criminosos de morte!... Numero este superior a toda a Fora Publica da Provncia, fixada em 130 homens, como nota Irineu Pinto.
Joo Gonalves, facnora perigosissimo da laia dos Terrveis, preso no Brejo de Areia, em conflicto que provocara entre desconhecidos, declara jactancioso ser auctor de vinte assassinatos!
E nesse estado de coisas, mais tarde, vem cahir arlei de 18 de Julho de 1851 que estabeleceu o registo de nascimento e de bitos, explodindo como bomba.
Em Campina Grande, um curiboca afoito e valenteJoo Vieira ou melhor Joo Carga xVAgua, levanta os da sua espcie contra a lei, e exige dos vereadores os livros do censo para romper e queimar, era fogueira publica! No encontrada positiva a resistncia necessria, elles os insurrectos', tomam


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o pomposo nome de Ronco da Abelha, vo ao sitio Cacimbas e submettem o seu proprietrio, um vereador j velho, srios vexames. Em plena villa, em plena feira, obrigam certo commerciante que vivia em pec-cado com uma moa, tirada cia casa de seus paes, a ir a presena do Angario Calixto para ser casado, como devia!-...
Mulheres, revoltadas contra a lei, vo missa armadas de cacetes e levando pedras no seio, e, tcrnam-se communs.nas parochias reunies de 300 a 600 pessoas para ouvirem dos vigrios a leitura cio pajjel da escravido.
Na povoao dos Canudos, porm, dominava outro espirito. Alli se enraizara de longo tempo um forte interesse, em marcar posio aparte no chos geral. Desde 1830 que Bernardo de (Carvalho Andrade'Cunha ensaiara o plantio do trigo, com sementes encontradas entre palhas, de barricas de louas, e o interesse pela nova agricultura dominava a todos.
O plantio desse cereal atrae para a serra verdadeira avalanche de aves destruido-ras, e a Cmara de Patos vota uma lei premiando o seu extermnio e obrigando os moradores mover-lhes encarniada guerra.
Ao fado, porm, dessa grande azafama dos madrugadores do progresso, existia outra que minava, o espirito das populaes, fia-


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gellando-as, o estado geralvehiculado pelos Terrveis.
Approximando-se uma eleio, a primeira talvez alli realizada, em que as auras da vi-ctoria pareciam bafejar os Conservadores que, s mais tarde em 1848 chegaram ao poder, os Liberaes redobraram a propaganda.
O velho Terrvel, o grande chefe Liberal, um cacique que resolvia todas as grandes questes, como supremo arbitro, receava viessse perdel-a o seu partido, e matutava em longas noites de inomnia ao ombalo da alva rede de tapurana, vinda de Aracaty, no que deveria fazer.
E matreiro, precavido, foi manhosamen-te, pedir os conselhos da velha Billuca, typo horripilante de megera catimbozeira, que morava n'um casebre coberto de folhas de cravat-ass, no angulo extremo da rua.
No foi improficua a consulta, pois, no dia seguinte fugia, levando o melhor cavallo da fazenda, um negro, escravo de certa con-x fiana do velho Thonrz. O Cavallo pertencia a Antnio Thomaz que ma.is lastimou a sua falta que "a do escravo, e no se canou de procunar noticias e roteiros do destino tomado pelo negro fujo.
Dias antes da eleio, apparecia uma' noticia, um roteiro seguro do fugido. A prpria velha Billuca fora a Povoao e infor-


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mara a Manoel Thomaz que o seu negro tendo raptado uma moa branca e de famlia, na ribeira do Ic, havia sido preso na fazenda dos Tanques, perto de Quixeramo-bim, aonde lhe tomaram a moa. E minuden-eiava: como fosse noite, no o quizeram conduzir no escuro para a cadeia da Villa; o rapaz que -o capturara amarrou-o no esteio da casa, e confiado na segurana dos ns que dera, armou sua rede alli perto e, lastimvel imprevidencia ferrou no somno.
O escraA'0 aproveitando a falta de precauo e servindo-se dos recursos artimanhas de cangaceiro que se fizera na escola dos Terrveis, conseguio desatar-se e com a prpria faca do seu capturador tirou-lhe a vida. Ia fugir, levando armas e ba montai ria, quando foi novamente preso, e no outro>_ dia, obrigado a carregar a rede de sua vi-ctima at Quixeramobim, ficando na"*cadeia a espera do julgamento que o deveria mandar para a forca ou outro qualquer destino.
Sabedor disto, Antnio Thomaz que no perdoaria ao negro e nem aos .que o tinham preso, reuniu dez homens e disse"a seu pae:
Vou receber o cavallo e trazer escravo, pois, no obstante criminoso, l em outro termo, a mim, seu legitimo senhW, compete pedir ou applicar o castigo merecido.
E foi.


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Ao passar na ribeira do Ic, em cautelosas indagaes, conseguiu saber que a moa raptada pertencia a uma famlia desaffecta dos Terrveis...
D'ahi comea elle compreliender a razo do rapto e a presteza com que a velha Billuca soubera de tudo, pormenorizadamente...
Mas prosegue no seu intento. Em Qui-xeramobim, emprega inutilmente peditorios e mais peditorios para obter o preso, de quem as autoridades, gente de barao o cu-tello, queriam a primazia da vingana, sob a capa execranda da lei a mascara- quixotesca da Justia.
Exgottados os meios lcitos, recorrem-se aos outros; foi o que fez o audaz sertanejo. Atacou a cadeia, tirou o negro do tronco, armou-o, e passou-se para a margem sul do rio, onde levou a noite sambeando com ds seus homens, em regosijo, dizia elle, pela vi-ctoria que iria ter se o viessem perseguir
Ao quebrar das barras, partiu deixando recados atrevidos, e, fanfarro, mostrava uma sovela com que pretendia fazer rosrio das orelhas dos que tivessem o atrevimento de lhe seguir na batida. Conta Joo Brigido, no seu livro O Cear, ao narrar esse facto com alguns enganos, dando Antnio Thomaz como natural do Pianc, que este na primeira bifurcao do caminho, mandou collo-
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car as ceroulas do escravo, em forma de si-gnal, com os fundilhos para a Villa.
Venham, os cabras de Quixeramobim! Venham, e vero com quantos pos se faz uma cangalha!
Ao pender do sol, fazem alto n'uma fazenda e pedem que lhes dem almoo. Preparado este, iam servir-se, quando o que estava de guarda, avisou a approximao dos perseguidores. Era a tropa de Quixeramobim que vinha a toda a brida.
Num instante, entrincheirados e protegidos por um serrote que contornava o curral, no comeo do pateo, rompem fogo contra os atacantes, em numero de vinte ou trinta homens, os doze destemidos do Teixeira.
Os de Quixeramobim investem, e ladeando a cerca tentam envolver os fugitivos, mas, em vez de vantagens, encontram a morte a cada tiro certeiro que os alvejava. Por fim, acaba-se a plvora do lado de.Antnio Thomaz e elle e os que ainda lhe restam, pulam no campo raso, desafiando a luta a arma branca.
Luta ejjgarniada. Luta de selvagens!
Aos primeiros golpes os atacados tiveram tres mortos e quatro feridos, inutilizados para seguirem. O negro, sempre o mais affoito, teve o craneo espatifado, saltando-lhe os miolos, a uma coronhada de bacamarte.


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Nesse transe, Antnio Thomaz, muito feridoA grita que se rende.
Entregue as armas! intimam os as-saltantesv
Elle obedece, deixando cahir para um lado o clavinote em que se apoiava. Um caboclo destemido approxima-se para o amarrar, mas o audaz sertanejo, rpido e corajoso, apanha novamente a arma e desfecha-lhe tal bordoada que o prosta morto! Os da tropa, furiosos com aquelles ltimos arrancos, fecham-no era semi-cireulo e investem a cutiladas. Antnio Thomaz foi recuando, recuando, at se extinguir de todo o ultimo alento de sua energia frrea e coragem sem Limites.
J no podia mais!
Os seus perseguidores, cegos da raiva que lhes causara aquella resistncia, nem viam que elle hirto, a um canto da cerca no replicava os golpes. Um mais atirado deu-lhe grande cutilada que o fez tombar.
Estava morto... Morrera de p!
Esfaquearam-lhe o corpo, profanando-o como nos grandes dramas de vingana sertaneja, e por fim, deixando aos urubus nove cadveres de inimigosr voltaram conduzindo os seus feridos.
Do grupo atacado, na confuso dos primeiros tiros, consegue fugir um rapaz que,


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heroicamente, leva na lua da sella um seu irmo, gravemente baleado. Perseguido em comeo, o cavallo vence distancia e a sorte protege-o das balas dos bacarnartes~d-G ruim pontaria.
Suprema dedicao fraterna, essa, que se arroja e vence o pundonor, o orgulho, a altivez do sertanejo que tem na bravura de no recuar o ponto mais vertical de sua honra !... Equem no nos dir que elle affron-tando a fuga, no 'se revelou mais bravo ,que os que ficaram na sanga?
Logo que se pe ao abrigo dos inimigos, deixa a estrada, embrenha-se na caatinga at encontrar agua para o cavallo, e curativos para o irmo ,que se queimava em febre. Arranca bafadas de tinhoro que applica nos ferimentos, abriga o doente na cavidade de um pedra e, pela calada da noite volta ao local da luta onde se certifica do triste resultado dos seus companheiros, e emprehende o regresso ao Teixeira, conduzindo o ferido -em estado grave.
A'quelle bravo, primo de Antnio Thomaz, no desmerecia a coragem e nem mentia a descendncia do Tendo e de Cazuza Barreto, dois bravos teixeirenses.


III
Era a primeira vez que os representantes dos dois grandes partidos locaes se iam enfrentar e medir valores, n'uma eleio sem fraudes.
No passava de torpe simulacro, triste arremedo, as realizadas sob o domnio Liberal.
lei accomodava-se, como ainda hoje se accomoda, s exigncias da vontade do depositrio do poder, e isso era tudo"!
Agora, porm, a coisa era outra.
Os Conservadores ^estavam* arraigados no Gabinete, e prevendo o redobramento de dios mal contidos n'quelles que sentiam o Partido svair-se, por lhe fugir o poder, como a terra aos ps do enforcado,temiam a pratiGa de methodos violentos e queriam implantar-se pele domnio absoluto da lei, em contraposio aos processos dos adversrios.
A lacuna aberta pelo desapparecimento de Antnio Thomaz era sensibilissima, mas


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a parochia arregimentara seus eleitores e trabalhava, azafmadamente, pela liberdade e pela independncia do pleito.
O juizo districtal, em mos de ngelo Bernardino, era uma segura garantia para ambos os partidos.
No termo do Teixeira, defrontavam-se; de um lado os Carvalho Nobregas, e Baptis-tas e do outro os Dantas e Cavalcanti Ayres.
Um incidente occorrido alli, dois mezes antes da eleio, veiu influir de algum modo no resultado desta e evidenciar conseqncias que s contendores no aguardavam.
Estava em grande voga a importncia da Guarda Nacional. Os portadores de patentes superiores tinham ares graves de fidalgos e exigiam, com desmedido rigor, as continncias *que lhes eram devidas.
Em certo encontro, um Conservador, capito, commtra pequena falha na continncia a um major Liberal, e isso fora o bastante para a applicao de uma pena que se cumpriu, e separou definitivamente as relaes de urbanidade entre duas familias antigas d'alli.
Mandado recolher-se, em priso disciplinar de oito dias, em sua prpria residncia, o Conservador recorreu para o Coronel Com-mandante das Armas, em Pombal, e este> mandou relaxar a priso, no quinto dia.


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Hoje, tal incidente causaria riso; na12 quelle tempo porm, simples appicao de disciplina pesava como labo, embora injustamente, acarretava para a victima dolorosa diminuio do prprio prestigio.
Foi sob o domnio de semelhante estado de prevenes, oriundas no s do interesse dos partidos, mas das desavenas familiares, postas em jogos por aquelle incidente, que se feriu o pleito.
Pleito renhido, pleito decisivo em que a seu turno, procurava cada Partido demonstrar, claramente, aos seus chefeg"na Capital da Provncia, o prestigio insophismavel e positivo que o mesmo alli representava.
A despeito de fundas apprehenses dos Conservadores, a eleio correra sem incidentes, dando sensvel maioria aos seus candidatos. Isso feriu atrozmente ps Liberaes, que no tendo arranjado causa para nulli-dade, estavam na imminencia deacceitar o resultado, assignando a acta respectiva.
Lavrado o termo, o livro correu a mesa, recebendo assignaturas, at chegar s mos do Grande Capito que o susteve, longo tempo, escrevendo silencioso, em suas folhas.
A anciedade era geral.
O tempo escoava-se, e elle continuava fazendo a penna correr sobre o papel, calmo>


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rosto sereno, no deixando trahir vislumbre de contrariedade, pela derrota do seu partido.
Interrogado pelo presidente da mesa, respondeu estar adduzindo certa nota, indispensvel aos apuradores, para o reconhecimento da eleio.
A impacincia j invadia a todos, quando, com o mesmo sangue frio e a mesma physionomia serena, a mesma moderao de gestos, elle pediu licena para ler o que havia escripto.
Dada a permisso, levantou-se e leu com vz grave, solennemJnte, um formidvel e vehemente protesto, pedindo a nullidade do pleito, visto que fora presidido por um desertor da milcia nacional!
A estupefaco invadiu os presentes.
ngelo Bernardino pe-se de p e exige provas.
E elle, com a mesma calma, pausado e grave:
As provas ahi esto, empenhadas pela minha palavra e pela honra de minha assi-gnatura!...
Mediram-se os olhares.
Durante Segundos aquelles dois homens desafiaram-se, em silencio.
m ccusava e o outro exigia provas, Po fim, ngelo-sentou-se e acceitou o protesto, assignando-o sob a condio de que as pro-


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vas fossem enviadas, conjunctamente, As-sembla.
Tinha razo o velho Liberal.
ngelo era realmente desertor^ Havia annos, com dois outros companheiros, chegara alli, de procedncia desconhecida, e in-telligente insinura-se n'aquelle meio, de tal modo, que viera a occupar as mais altas posies.
Soldados da Guerra da Independncia, na Bahia, aps um daquelles afrouxamentos de disciplina que succedem a ebriez de victorias como a do 2 de Julho, ngelo Bernardino e companheiros: um indigena das margens do S. Francisco e um pardo batedor de sertes, concertam a aventura de uma desero.
Do plano aco nada custou.
Demandaram o S. Francisco. Guiados pelo destino deviam proseguir at onde encontrassem local aprazivel e seguro para viver, sem receio de mais tarde serem descobertos.
Ao transpor o caudal do S. Francisco, estiveram em perigo de vida.
ngelo nadava menos que os outros e, a meio rio, sentiu esvairem-se-lhe as foras: prenuncio da morte, delle se approximando. Braz, o indigena, dedicado feito na luta com
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as guas, presta-lhe mo forte e assim attin-gem margem desejada. Nesse transe, alli, sob o testemunho do co, da corrente e da mtta virgem, com as. juras de fidelidade reciproca e inquebrantavel, fazem votos para cada um, por seu turno, onde chegassem, praticar uma nobre aco que lhes assigna-lasse a existncia, recompensando a graa alcanada.
E sempre marchando para o norte, cortando as caatingas resequidas do Moxot, e varando os sertes ridos e pedregosos do Pajeh, chegaram Serra onde se fixaram, cumprindo o promettido.
Braz, intelligente e com algumas lettras, fizera-se musico, professor e alfaiate. E, para viver em paz com os poderosos, alistou-se eleitor dos Liberaes, por onde viera mais tarde, o grande chefe saber o segredo de sua desero e nella estribar-se para 0 protesto.
s conseqncias desse protesto, como fcil de prever, foram desastrosas. A an-nulao do pleito, alm do esperado afastamento d ngelo das funces de Juiz Dis-trictal, trouxe um pouco de prestigio para os arrogantes Liberaes, que cada dia ^edobra-vam na pratica de violncias.
E o serto viveu dias de vexame!


IV
Correra o tempo.
Agora, novamente, estava-se em vspera de commoes partidrias.
Uma espcie de terror acovarda os sertanejos que, de perto, sabem at onde chegam os limites da prepotncia dos Terrveis. O Grande Capito, cujas relaes polticas na Capital da Provncia e na Corte o traziam, seguramente informado da real situao dos Partidos, anda algo apprehensivo e toma medidas vexatrias nos seus arraiaes. Mesmo que obtivesse victoria local, esta no lhe im-pederia a derrota e nem o desprestigio dos Liberaes, visto que os Conservadores esto de razes cada vez mais profundas mais seguras no prprio Gabinete.
E da segurana deste depende, como sabido, a continuao do domnio Conservador, domnio' esse, muito relativo, pois, quando os Liberaes esto de baixo, os Terrveis praticam maiores violncias e commettem


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maiores crimes, com o fim tfnico de demonstrar aos contrrios a razo absoluta porque se impem.
Contrariado com as conseqncias que ao Partido trouxera a morte do filho, o velho Manoel Thomaz de Carvalho estava indeciso quanto ao que devia fazer n'aquella emergncia, pois, at ento, era Antnio Thomaz quem manobrava a machina eleitoral. Consultado, intervm o Vigrio e lembra que se aproveitassem no momento, os servios de Liberato, filho de Vicente Thomaz de Carvalho Nobrega, primeiro supplente de delegado e tambm segundo Juiz Districtal.
Acceito o alvitre, feriu-se o pleito, tendo os Conservadores outra vez conseguido vi-ctoria nas urnas e tomado todo o cuidado para evitar perturbao da ordem, por parte dos Liberaes. Nesse tentame de pazeamento teve Liberato o valioso auxilio de Delphi-no,<5) primeiro supplente de Juiz, que se constituir pela brandura de caracter, competncia e intelligente compenetrao do cargo, um dos esteios do Partido.
O velho Terrvel fingia-se manso como carneiro, e ao mesmo tempo resava pela cartilha da violncia e do crime. At ento vira como nico empecilho sua victoria, a aco
(5) Delphino Baptista de Mello.


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de Antnio Thomaz; agora, com aquella nova organizao, estarrecia surprezo!...
Ho de pagar-me caro, e bem caro, dizia o chefe Liberal, tempo querem as cousas... e o meu tempo ha de chegar!...
A partir d'ahi, intensificaram-se cor-rerias, violncias e insultos, praticados pelos cangaceiros dos Terrveis, nas adjacncias da Villa das Feras. Em quasi todas as feiras se verificavam pequenas rusgas, e desacatos na povoao dos Canudos aonde os Guabirabas no faltavam, blasonando, ameaadores e atrevidos. Era um perigo immi-nente para quantos alli se iam abastecer, ou vender os produetos da pequena lavoura sertaneja.
Emquanto os Liberaes assim procediam, os Conservadores, conscios da sua victoria lidima e incontestvel, serenos no proceder, apoiados na razo e no direito, envidavam tudo em prol do seu logarejo.
Assim, despresando.rixas improduetivas, tricas mesquinhas e covardes, conseguem, por intermdio do Governo da Provncia, de 1849 a 52 a construco do aude da baixa dos Canudos, tendo sido arrematante do servio Jos Dantas Correia de Ges; em 57 a elevao da capella em matriz, com a creao da freguezia de Santa Maria Magdalenada Serra do Teixeira, desannexada da de N. S. da Guia,


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de Patos; o contracto de um agricultor especialista no plantio do trigo Gabriel Soeiro e a creao da villa, em 59, assignalam a anci productiva dos Conservadores, que incrementam a produco agricola, conseguem a instalao da Agencia do Correio e fornecem ao ento Presidente, Arajo Lima, uma estatstica das produces do Municpio, em que demonstram o gro da actividade a, que podia chegar n'aquelle tempo, o trabalho profcuo e intelligentemente applicado de uma Communa rural, bem dirigida e entregue a mos honestas e bemfeitoras.
Mas, s afflies provenientes do desas-socego espalhado pelos Terrveis, juntou-se uma outra, cujo cortejo de desolao era insupervel.
Do littoral marchava para o centro, en-lutando e devastando, a epidemia do segundo cholera.
Esava bem nitida, na lembrana de todos, o que havia sido a primeira invaso da peste negra, e d'ahi, o terror que se enraizara no espirito das populaes.
Scenas lancinantes como aquella verificada em Campina Grande, onde toda uma famlia, com escravos e aggregados perecera nos horrveis transes da sede, deixando vivas, entre cadveres, unicamente, duas cre-ancinhas que permaneceram aterradas e sem


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direco, toda uma noite e um dia, at que a fome as desacuou e os coveiros alli descobriram tarefa penosa e exhaustiva, repetiam-se, e multiplicavam-se em narrativas que o espirito irreflectido do povo, naturalmente, havia de exagerar.
Campina Grande, interposto natural entre o littoral e o serto, representando no commercio e na politica papel de notvel salincia foi, talvez, na contingncia do destino, tambm o interposto da peste!...
Para alli levaram-na comboieiros de Goy-anna, do Pilar e da Capital, e d'alli vehicu-laram-n'a o tangerho e o boiadeiro, que foram espalhando o micrbio por todo o serto. As grandes commoes revelam os heres, e o cholera revelou em Campina Grande um abnegado, que se se no notabilizou como Ibiapina, deixando o seu nome immortalizado em monumentos que vem vencendo o tempo, implantou-o na alma dos seus contemporneos, como verdadeira aureola de virtudes o vigrio Calixto Nobrega, parente de Libe. rato, homem bom e de sentimentos verdadeiramente christos. Ao lado do medico do governo, o vigrio Calixto fez-se enfermeiro infatigavel, e quer nesta qualidade, quer na de sacerdote, jamais algum o procurou, a qualquer hora do dia ou da noite, que elle presto no fosse, como homem ou como mi-


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nistro cia religio, postar-se ao p do necessitado.
O primeiro cholera fora de effeitos ter-rificos. Numa epocha em que o servio de estatstica era o mais defficiente possvel, o Governo da Provncia' organiza uma com o numero phantastico de 25390 victimas!...
Trabalho inaudito de administrao em luta com o espirito refractario das populaes, onde a revolta contra o censo ainda era bem viva.
O terror espalhado pelo cholera toma as propores daquelle descripto por Manzoni quando se occupa da Peste de Milo.
Em Campina, chega do interior conduzindo, as malas do Correio, o estafeta Manuel Pereira do Nascimento e .atacado de febre. O mal, alli, havia j serenado, mas, o pavor era intenso. No encontra quem o abrigue, no acha quatro telhas onde se acoste, negam-lhe agua para mitigar a sede abrasante, exgottam-se-lhe as foras para caminhar e, infeliz, ningum delle se compadece!..
Embotara-se o sentimento christo, to proverbialmente reconhecido naquellepovo, e elle, o pobre doente, deixa-se cahir sombra de uma arvore qualquer.
E' um mensageiro da peste!
Dizem a quem encontram. E uma conspirao de exaltados tenta correi-o a pe-


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dradas, Por fim, carregam com o doente para o deixar abandonado no matto, longe da villa, onde doze dias depois morria de fome e sede!...
Extraordinrio!
Aquella gente que antes, nas vascas agudas do cholera encontrara no vigrio Calixto o exemplo, profundamente christo, agora, passado menos de um anno, procedia assim com um infeliz que o destino levara a uma morte to desamparada e triste.
Na Villa das Foras e na Serra do Teixeira a peste no fizera victimas. Apenas passara benignamente, sem encontrar apoio no clima privilegiado. As pessoas atacadas logo se restabeleciam, e o terror da molstia em breve desapparecia, para dar logar quelle outro terror que a peste no levara os Guabirabas.
Localizados pelo tenente Vicente, na Fazenda Jatob, aquellas feras faziam correrias pelas adjacncias, infligindo aos' pobres matutos um sem numero de vexames e humilhaes.
velho Terrvel jurara vingar-se do papel saliente tomado por Liberato, nas ultimas eleies, e de olhos fitos nos ltimos arrancos do Partido Conservador, vendo avizinhar-se o occaso de seus desafectos, re-jubilava, recommendando aos apaniguados
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que apertassem o assedio, redobrando as violncias.
O Teixeira foi o ponto preferido para as maiore tropelias, visto estar alli localizado- um dos mais importantes ncleos de Conservadores.
Certo dia de Fevereiro, quando se realizava a feira semanal, foi a populao sobre-saltada com a presena de quatro facnoras armados de pistolas, bacamartes, facas do Pajeh, cingidos de cartucheiras,' ameaadores, cavalgando fogosos animaes. Em carreiras desabridas e insultuosas, proferindo improprios, detonando armas a esmo, os quatro homens, assenhorearam-se do terreno, e minutos aps, blasonadores e victoriosos, mesmo sem ter havido luta, espalhavam o terror...
Dissolvida a feira, os pobres sertanejos buscam esconderijos, emquanto as autoridades recolhidas em suas casas, servem-se das armas de que" podem dispor para, em caso de ataque prprio, vender caro a vida e inviolabilidade do lar. Occulto, Liberato ouvia os insultos, os tiros e o seu nome proferido escarnecedoramente. A familia o prende, e, mais que a familia, acoyarda-o no momento a falta de munio e de homens para o ajudar.


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Os Guabirabas, enthusiasmados com semelhante prova de fraqueza d'aquella populao sobresaltada, redobram as praticas de misrias, invadem lares indefesos, depredam e arrazam tudo!... Ningum lhes veiu ao encontro, e elles depois de prolongarem pelo tempo que lhes aprouve aquellas scenas selvagens, decidem ir-se embora.
Agora vamos beber um golinhodisse o Manuel Rodrigues, e vamos para casa que isso aqui no tem homem...
Isto, Manecoapoiou Cyrino. Eu s me sinto disposto para fazer um trabalho bom, quando boto azeite nos feixos...
Pois ento vamos matar o bicho, mas no consinto que se brigue hoje, interveio Jovino. Aquelles gatos ruzagaes de Liberato no so homens para ns...
Aquillo l gente!disse Joouns amarellos que nem tiveram coragem de botar a cabea de fora para eu tor com uma bala!... Aquillo s serve para se sangrar quando estiver dormindo, pois at para morrer elles ho de fazer um barulho que no deste mundo... Vocs no se importem mais, deixem commigo que eu sozinho, na primeira vez que me encontrar com Liberato, hei de ensinal-o como que se respeitam homens como o Grande Capito1. Elle me paga o


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novo e o velho. E depois, o mandarei fazer uma Ansita ao canhoto... Todos riram.
No tem mel de abelha? perguntou Cyrino ao vendeiro, se tem, faa uma cachimbada boa.
E emquanto o vendeiro preparava o cachimbo, elles continuaram dando trla lingua, bazofios e atrevidos. Cada qual bebeu sua poro e passou o copo ao imme-diato, repetindo a doze diversas vezes, at que Cyrino os convidou a se irem embora: Acceito o convite, montaram novamente e rumaram para o Jatob.
Abandonada a villa pelos bandidos, foram apparecendo as autoridades para resolverem ao que deviam fazer. Uns apoiaram Liberato, que queria formar uma escolta e na noite d'aquelle dia cercar o Jatob e despersar os criminosos se no os podessem prender; e outros, entre estes o detentor do exerccio de delegado Delphino, opiniaram se despachasse um prprio para a Capital, pedindo urgente, uma fora bem municiada para dar combate em regra. E nesta delonga se passou o- dia, e com esse dia a effervescen-cia das resolues precipitadas. Officiado ao Chefe de Policia, este demorou a resposta, longos dias, pois eram fundas as cogitaes do governo j antevendo os prodromos do


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domnio Liberal, em vsperas de abocanhar as rdeas do poder.
Quasi se no esperava mais, quando um sargento com oito praas e um officio para o delegado chegou, trazendo ordem de reunir gente e effectuar a priso dos bandidos. Delphino comprehendeu a manobra, lendo nas dbias entrellinhas do officio o pensamento do governo, e immediatamente, passou o exercicio do cargo ao seu substituto Liberato.
No iria lutar improficuamente; o tamanho d'aquella fora, os dizeres pouco firmes do officio do Chefe de Policia, cer.ta reserva que alcanara nas palavras do sargento, indicavam perfeitamente o que pairava no ar poltico da Provncia, e a elle delegado que no convinha sacrificar a sua vida e a de sua familia, em luta inteiramente desigual.
Organizada uma deligencia para ir ao encalo dos scelerados, o sargento allegou trazer ordem do Chefe cie Policia para no entrar em termo de outra Provncia, e se Jatob estivesse nesse caso elle, l no iria!... O sargento era um desses typos que enganam: espadado, trigueiro, olhar vivo> chapu cie couro Pajeh, confirmava a phi-losophia popular:
Cavallo grande, besta de po.


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E para sahir do dilemma da diligencia deu um plano, plano esse que divergindo da opinio do delegado, demonstrou com clareza a qualidade das ordens que o Governo lhe dera.
Eu vou fazer o seguintedisse mando desafiar os cabras e com as praas intrincheiro-me ao p da ladeira, e elles ca-hiro que s rabaan na bebida.
No acho isso conveniente, replicou o delegado'so muitos os caminhos e si se der uni desencontro teremos a vila exposta sanha dos cabras, e a nossa desgraa estar feita...
Qual nada! Conheo estes sertes que nem as palmas das minhas mos. Mando o recado aos cabras e esteja descanado que eu darei conta delles!
Tres praas que por infelicidade se achavam presente olharam-se de esguelha, significativamente. O sargento presentiu e disse-lhes, mal humorado e autoritrio:
Vo me esperar l no armazm onde esto os outros.
E continuou, contando bravatas:
Pde ficar descanado. Nunca botei emboscada em criminoso para elle me escapar!
Mas, sargento, no muito mais seguro ficar aqui com os seus homens, guarne-cendo as estradas que nos do accesso.


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Qual, seu delegado, deixe eu agir com a experincia que tenho e no me escapar nem mosquito que venha em companhia dos .Guabirabas. Eu sei trabalhar! Ainda ha poucos annos, em Guarabira, o servio que eu fiz no foi deste mundo. Havia l um antigo coito de ladres de cavallos, cinco damnadinhos, d'aquelles da Cachoeira para Pirpirituba, bichos sarados, mas, eu com dez praas escolhidas fiz l um sarceiro de todos os diabos. Basta lhe dizer que um d'elles, o Jos Ponteiro, deu uma carreira que at hoje no ap-pareceu e o Xavier de Borges ainda est preso na cidade. Do resto o que sesahiu melhor foi, um que levou um tiro, com licena da palavra, aqui atraz, l nelle, que quasi morria na cadeia.
Est me vendo esta baixa aqui na cabea? (e tirou o chapu de couro mostrando uma cicatriz antiga) foi no Pilar. Uns cabras atrevidos, mesmo como esses taes d'aqui estavam gosmando que s tropa de- linha, e eu dei-lhes um tiroteio e uma carreira, ainda mesmo depois de ferido, que os fui deixar perto de Itamb.
E assim continuou muito tempo contando valentias e bravateando a sua coragem incubada. O delegado, que se no deixou levar poraquellas historias e quando o sargento o avisou ter mandado o desafio, e que ia em


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seguida para a emboscada, elle tomou suas precaues, mandando um esculca para lhe seguir os passos...
Ao sahir, a tropa tomou a direco da Serra, mas ao encobrir-se dobrou na primeira vereda, voltando no rumo de Pernambuco. O spia acompanhou-a por alguns momentos, comprehendeu-lhe a inteno de se desviar dos Guabirabas e voltou, incontinenti a dar parto do que vira. Quando communicava esse resultado, ao delegado, um bodegueiro que se achava presente disse exasperado:
Ah! co do inferno. Co damnado! Carregou-me dez mil ris de carne e man-timentos, dizendo que era para comer na emboscada, e me vinha pagar amanh! Co damnado, has de morrer de uma bala e eu liei de te ver comido pelos urubus! Tenho f em Deus, co dos infernos, que isso h de te sevir de caldo l nas profundas!...


V
Peorra a situao.
A vinda do sargento ,e aquella sabida franceza desapontaram a populao que se desabafava em commentarios acres e incisivos.
Fosse tempo de eleio,dizia um o o delegado teria aqui todas as praas que pedisse...
E' disso que vem a desgraa dessa terra; s se faz conta de sertanejo, quando preciso elle votar! commentava outro, com azedume.
Eu s queria poder, ajuntava um terceiro,que ainda faria uma autoridade da Capital passar seis mezes na ribeira do Pa-jeh. Bastavam seis mezes, e ella ficava en-sinadinha, que era um gosto.
E foram por ahi, nesse diapazo, fustigando impiedosos, o msero abandono, o despreso injustificvel e criminoso em que o governo os deixava.
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Aquelles cabras, vindos do Pajeh, havia tempo, nas proximidades da ultima eleio, viviam acintosamente na fazenda Jatob, perto do Rosrio, tidos e mantidos pelo Vicente Terrvelo tenente Vicentee constituam uma affronta a tudo e a todos.
Uma precatria recebida pelas autoridades, recommendava-lhes a captura e enumerava uma serie de crimes, praticados nas ribeiras do Riacho do Navio e Afogados de Ingazeira. Mas, nem isso era sufficiente para mover o governo. E aos pobres sertanejos restava triste consolo: desabafar, dando expanso lingua.
O governo s bom para o Capito 'Terrvel. Fosse elle quem tivesse pedido fora, e isso aqui estava era cheinho de soldados e officiaes, cada qual mais valente.
Era assim mesmo, bastava elle fazer um aceno e se havia de ver aqui, no um sargento ruzag que s o que sabe contar pabulagem, mas um batalho completo!...
Agora, se os sertanejos fossem todos de minha opinio, a coisa seria outra. Quando o presidente precisasse da gente, a gente nem como coisa... Elle ahi havia de ver se era bom deixar o serto entregue aos cangaceiros...


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Qual! Isso no valo nada. O bom, era se elle viesse para aqui ver o que a gente passa!
Ah! se elle viesse, ficava-aprendidi-nho da silva. Mas as coisas no so assim. O governo vive repimpado n'um casaro de Palcio, adulado por nma scia de pelintras, e por cima disso, ainda tem a porta cheia de solcfados armados de .elavinote e grana-deiras, promptos para tudo o que elle quizer* E no se falle na dinheirama do errio s suas ordens, para mandar buscar as pelegas de cem e quinhentos, todas as vezes que sentir falta em casa. Se elle fosse como ns sertanejos, que no comeo do inverno ou mesmo no correr dos repiquetes, mette a mo no bolso e s tira os cinco dedos, olha para o mundo e no v em que se pegar, ahi, havia de proteger os pobres!...
Ora no diga isso, seu Joaquim Caboclo,replicou o bodegueiro em cuja calada se travara esse dialogodeixe o tempo correr que eu ainda tenho esperana de ver um sertanejo encarrapitado l na cadeira do governo.
H de ser quando as gallinhas criarem dentes!
Pois eu lhe mostro. No possivel que Deus do Co e Santa Maria Magdalena


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no escutem os clamores de tanta desgraa, o os brados de tanto desespero!
Qual, meu amigo, j se foi o tempo em que Deus Nosso Senhor olhava para o mundo. Hoje, desprezaram elle', e s o que se v so usos escandalosos por toda a parte. Por isso os pedidos no so mais ouvidos, o muito menos attendidos.
No descreia; Deus Nosso Senhor no deixa de punir os maus. A justia dc cu ha de vir!
A essa invocao silenciaram.
Todos os espiritos perdiam-se emconje-cturas... Se Deus castigava os maus, implacavelmente, por que sua justia tardava tanto? Por que os homens da tempera dos Terrveis no recebiam o castigo? E deante delles se desenrolava o quadro da realidade: os homens do governo apenas auferindo lucro de suas posies,a fora entregue quelles que tinham maiores posses, as autoridades desprestigiadas, e os criminosos protegidos,in-nocentes perseguidos e expostos aos golpes rudes da maldade humana...
Dois dias depois, na sexta-feira, chegou villa um moleque, trazendo um recado de Cyrino para Liberato:que no dia seguinte viria feira, e elle ficasse avisado para no se desculpar.


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Essa noticia correu, vertiginosa, todas as casas do logarejo. Conjecturaram-se mil coisas que, a principio sussurradas, foram tomando vulto, e noite, j se dizia e affirmava elle vir a mandado do Grande Capito da Villa das Feras...
Liberato estava entre a cruz e a caldeira; ou o enfrentava como homem, ou como autoridade, e, dentro da lei; consultado Delphino sobre o que se deveria fazer e se queria reassumir o cargo, esquivou-se geitosamente, apoiado na incompatibilidade das duas funces que exercia. Embora isso no passasse de pretexto, n'um meio onde a lei sempre deslembrada. Ningum insistiu, e elle guardou para si a viso que se lhe desenhava nitida do resultado de tudo aquillo.
Liberato, nesta emergncia, tomou deliberao:Que o cabra viesse. Ningum o tiraria a terreiro, e elle com alguns homens de sua confiana se occultaria em local de onde podessem, em qualquer momento, vir em soccorro da povoao.
No dia seguinte, muito cedo, era s de que fallavam os feirantes, e estampavam-se no rosto de todos, os signa es da espectativa que os suffocava. Liberato no apparecera. Os que lhe no conheciam os planos, conjectu-ravam coisas, cada qual mais exdruxula.


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Por volta de meio dia, chegou o cabra. Atrevido, cavalgando um fogoso quartu, em galope acintoso, o bandido contornou a feira, percorreu a povoao e foi blazonar e beber aguardente na primeira venda.
Foi um dia de terror: No appareceu quem o enfrentasse, e elle medida que se esqiientava redobrava cie insultos, contando valentias.
Liberato, de seu esconderijo media bem o tamanho e o sentido craquella humilhao.
Estavam com elle dez homens escolhidos: Moreira, destemido e j experimentado, bastantes vezes; Ludgero, negro afeito s lutas, em qualquer terreno; Joaquim Caboclo, typo franzino e agil que servia de admirao e paradigma n'aquella redondeza; o negro Benedicto, sempre valente e sempre cumpridor das ordens de seus senhores; Jos do Carmo, curiboca semi-selvagem e to a-feito vida ao relento que a sola de seus ps, era impenetrvel a qualquer espinho; Joaquim do Couto, Joo Cruz e mais tres cabras, todos talhados para a luta, e de sua inteira confiana.
Moreira e os companheiros quizeram sahir e enfrentar o Guabiraba, mas, Liberato no consentiu. E deu ento o plano: sahissem de um a um e por caminhos differentes fossem todos se juntar no Salo, na volta da


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estrada, l onde havia umas touceiras de cravat-ass.
Essa tropa irregular ao servio da autoridade regular, era a mais lidima expresso da cultura e do senso jurdico do representante da lei. No inventava moda. Praticava um acto trivial.
Um homem mais disposto ou mais audacioso, quasi sempre, ou em qualquer momento difficil, assume a direco *cle tudo que entende e, como se fosse a autoridade mais legal do mundo, casa e baptisa!...
Os criminosos so ahi utilizados como elemento de defesa. A autoridade sem o menor escrpulo, lana mo d'elles/e os chefes politicos, velhos babaquras de p de serras, so mais respeitados e melhor atten-didos pelo governo, quando o numero dos assassinos homisiados em suas propriedades se eleva em poderoso grupo...
ko pender do sol, elles comearam sa-bindo, disfaradamente, e s pelo meio da tarde que se reuniram todos. Distribudos pelas margens do caminho, occupando uma rea, mais ou menos de 50 metros, protegidos por pedras e barrancos, e aproveitando um agudo cotovello da estrada, chasquea-vam, trocando ditos em voga, occultos sobre o capim de flexa, promptos para a luta.. Esperaram o resto da tarde a toda a noite


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Impacientes, maldiziam certo attractivo que prendia o cabra na povoao, onde fatalmente elle teria ficado para passar a noite. Verberavam o gaz dos Terrveis que fazia de seus apaniguados verdadeiro flagello dos homens de bem e dos pacatos sertanejos, como vinha succedendo a Liberato, quando ouviram um tropel que se approximava.
As barras estavam altas e o sol, sol de serto, vinha aponta no aponta.
Todos emmudeceram, e de rastros, ap-proximaram-se da estrada, o mais possvel.
Era Cyrino!
Bacamarte na lua da sella, chapu de couro, quebrado frente, petulante e atrevido o cabra esquipava como se fosse gente.
Conforme combinao, logo que elle at-tingisse determinado local entre os dois pontos principaes da tocaia, deveria avisar por um assobio o que lhe ficassse por traz.
E assim foi feito.
Ah!, fez o cabra, esses cachimbos do Teixeira ainda se enganam commigo!...
Liberato levantou-se, mostrou o peito destemido e intimou:
Cabra, renda-se!
Joaquim Caboclo que ficara do lado op-posto, n'um pulo de jaguar veio cahir onde estava o cangaceiro. Com a mo esquerda gadanhou as rdeas do bucefalo que esta-


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cra, orelhas levantadas, soprando assustado, e com a direita apontou a garrucha aper-rada, repetindo a ordem de priso.
Cyrino, em rpido olhar, comprehendeu a situao e resolveu vender caro a vida:
Um cabra da minha marca no se rende!Disse e disparou o bacamarte, dextra-mente, indo o projectil cravar-se no hombro esquerdo de Joaquim Caboclo, que apenas tivera tempo de lhe negar o corao pontaria, e detonar a garrucha queima-roupa, dilacerando, com carga, o baixo-ventre do cangaceiro. Outro tiro, este da arma de Jos do Carmo, alcanou o rosto de Cyrino, es-tonteando-o.
Nesse transe, com a vista turva e a esvair-se em sangue, o Guabiraba teve uma reflexo, reflexo de segundos: abraou o pescoo do animal e cravou-lhe os acicates. O cavallo, para salvar a situao do cavalleiro, arremeteu para diante, n'um pulo, rodopiou jogando um par de couces no negro Bene-dicto, que foi atirado a certa distancia, e partiu em disparada louca.
Cyrino no resistiu aos pinchos do cor-cel e rolou por terra, adiante, ainda tentando disparar a garrucha sobre Moreira que, por sua vez, se desviando, negaciou o corpo, e deu-lhe o tiro de misericrdia.
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Perdeste a fama, cabra damnado! vociferou Ludgero...
Estava nas vascas da agonia.
Os atacantes cercaram-n'o, e certificados de que estava seguro, arrastaram-n'o, dei-xanxlo-o em um barranco prximo, e trataram de verificar a munio que lhes restava.
O cavallo de Cyrino, na disparada em que sahira, com os arreios manchados de sangue, iria levar aos outros Guabirabas o aviso do succedido, e elles talvez no demorassem em vir tomar a vingana natural que devia ser esperada. De armas insufficientis-simas e desmuniciadas algumas, como a de Moreira que no tinha mais balas, estavam elles quasi reduzidos a chuos, cacetes e facas. Comtudo, Liberato pz em ordem novas tocaias, e elles alli ficaram mais algum tempo, sem que os cangaceiros viessem. Joaquim Caboclo, sempre palrador, embora ferido, commentava, fazendo os outros rirem, certos lances da luta.
Passava-se o tempo, e os cabras no davam novas de si. Liberato resolveu regressar; foi quando verificou que o negro Beneclicto, Joaquim Caboclo e Jos do Carmo no podiam andar. Incontinente, seguiu portador para o Teixeira, a fim de trazer redes e intimar gente para carregar os feridos. A noticia correu clere.


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Destino funesto pesava sobre aquella terra; sua desgraa estava feita.
Liberato comettera uma loucura, no avanando em perseguio dos outros bandidos enfocados em Jatob. E elles des-previnidos seriam destroados, talvez, sem muito sacrifcio.
Mas, se era o destino, que esse destino se cumprisse!...
O moo era inexperiente, e era aquella a primeira luta em que se empenhava. Para enfrentar os Terrveis urgia tctica equivalente, e esta lhe faltava.
Era um sonhador.
Ferido em sua altivez e espezinhado por acintes e mais acintes, no podra deixar de tomar armas para mostrar que presava o conceito em que o tinham.
Sua familia, o seu partido, o vigaio, e o circulo de seus amigos viviam constantemente procurando desvial-o dos golpes dos Terrveis, mas, repugnava-lhe soffrer ou fugir quando era provocado.
E uma hora depois, ao recolher-se a diligencia com os seus feridos, os habitantes, franzidos de medo, faziam mil conjecturas sobre o que lhes estava reservado, a qualquer momento, logo que os Guabirabas se decidissem vingar a morte de Cyrino.
Era uma situao crudelissima!


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Toda uma populao acovardada sob a espectativa de um inimigo terrvel.
A fraqueza e a passividade indicavam-lhe consolao nica: botar para Deus...
E de cada casa, evolavam-se oraes contricts, pedindo o auxilio do cu!
Foram horas funestas, horas de presa-gios, sobresaltos erussiantes e desesperos.


VI
Estava-se em pleno inverno. Abril, mez em que o milhoal em vspera de amadurecer, vae dourando, a folhagem, onde a ausncia (ia chlorophylla se pronuncia em tons amarellaos, para em junho tomar logar definitivo, e, em que os cuidados se multiplicam na defesa da bezerrama, e proteco urgente da mida ereao. O dia meticulosamente dividido, evitando-se deslises que se venham reflectir sobre o campo ou sobre o roado, e prejudique, assim, qualquer dos dois grandes ramos da actividade sertaneja. Mas, nem isso, esse grande e absorvente toma tempo desviava as apprehenses dos Terrveis.
Naqelle dia, o sino da igreja de Santa Maria Magdalena, tocara, febrilmente, convocando os fieis para a missa domingueira o, de todas as estradas, affluiam roceiros.
Pelas caladas, brincavam crianas, e l no fim da. rua principal, sob frondoso flam-boyant, uma familia de ovelhas brancas des-


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cancava na paz bemdicta dos mansos de corao, quando regressaram os homens de Liberato, que vinham da emboscada.
A populao presa da crise de nervos que lhe produzia a esp"ectativa da vingana dos outros Guabirabas, perdia-se em furtivos commentarios.
Sabia-se agora, com maior segurana, a origem d'aquellas feras.
Naturaes de Cachoeira Grande, da ribeira de Afogados, eram quatro irmos e um cunhado : Antnio, Cyrino, Joo e Jos e Manoel Rodrigues. Criminosos afamados da escola do Pajeh.
Um dia, Antnio Guabiraba desacata certa moa matuta, e tem de se haver com os irmos delia que o juraram. E de represlia em represlia, bota-lhes o Guabiraba emboscadas fataes e desastrosas. Victima de uma dellas, Gabriel e Antnio Nogueira, este conhecido por Bit, cahem varados a balas, n'uma estrada erma. No dia immedi-ato a esse duplo assassinio, outros membros da familia Nogueira conseguem pr a mo sobre o Guabiraba, e a seu modo, cevam-se na vingana, repartindo-lhe o corpo em diversas postas que foram atiradas cachor-rama daquella redondeza!
O outros Guabirabas acovardam-se e procuram a proteco de Antnio Gadelha,


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o God, que por su? vez os offerece ao velho Terrvel, e este manda o filho Vicente acoital-os na Villa das Feras Humanas.
A velha Billuca no descanava- e desde, pela manh, quando chegou a nova da morte de Cyrino, amiudra visitas aos Conservadores, sondando-lhes o pensamento, e pescando algo ao seu interesse.
Seria de bom aviso que se acautelas-sem; ella no affirmava, mas desconfiava que o Grande Capito auxiliaria os cabras na desaffronta que estes iriam tirar de Liberato. Cyrino era de todos o mais protegido pelo velho. Ella mesma, fingindo-se ap-prehensiva e ao mesmo tempo fazendo-se af-flicta, deante dos amigos de Liberato, estendia-se em planos, cada um mais caviloso, para assenhorear-se, em. tudo por tudo, do pensamento e das intenes particulares dos proceres conservadores.
A missa fora pouco concorrida, e o vigrio, em pratica repassada de conselhos humildes, procurara encorajar a todos para que confiassem na proteco divina, que os no havia de abandonar.
Crentes e contrictos, os sertanejos que tantas vezes antes se deixavam embevecer nos sonhos e benesses que a religio christ prodigaliza, ouvindo a palavra dcil do vigrio que lhes penetrava no mago do co-


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rao, mais se affligiam e mais se faziam ap-prehensivos. Aps missa, cada um, procurando recolher-se, deixava o povoado, e esto n'um crescendo de desespero e triste es-pectativa levou o resto do dia, mergulhando em silencio, ao cahir da noite. E quando no dia seguinte, ao pender do sol, os bandidos surgiram ameaadores, naquellas aperturas do salve-se quem puder, s se ouvia essa phrase aterradora:
Os Cangaceiros! Os Cangaceiros!
Os Guabirabas!...
Enorme descarga de portas e janellas a se fecharem, apressadamente, expremia, com sinceridade, a iudole e a coragem cVaquella gente.
Quem dispunha de armas para defesa de sua casa, tratou de escoval-as e de esperar o inimigo. Quem tinha armas e coragem, porque aquellas sem esta, do em pantanas.
Liberato, iinmediatamente, mandou avisar a guarda da cadeia, e chamou, para sua casa homens de confiana que o ajudassem, em qualquer emergncia.
Na estrada, na passagem do Salo, os bandidos j haviam immolado a sua primeira victima: Antnio Tavares, humilde supplente de Juiz, um pobre roceiro esforado, continuadamente, para se fazer amigo de todos.


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Elle no tivera culpa na morte de Cyrino, mas, os bandidos tinham pressa de vr sangue, e como fosse aquelle sexagenrio a primeira creatura que avistassem, antes de entrar no Teixeira, no trepidaram em o assassinar.
Ainda lhes estavam nos ouvidos as palavras de juramento que, segundo os verso de Leandro Gomes, fizera Joo Guabiraba viuva de Cyrino, momentos antes:
Minha cunhada no chore Que vou vingar meu irmo; Se foi homem que o matou Vou acabar-lhe a gerao, No hei de deixar com vida Nem um menino pago!
Nada lhe disseram.
O primeiro a saltar do cavallo e de, punhal na mo, foi 0 Joo Guabiraba que se atirou furioso victima, ferindo-a covarde e miseravelmente. Os outros dois, Joyino e Manoel Rodrigues, acompanharam-n'o como se estivessem combinados, mas, sem proferir palavra. Iam com as mos crispadas e m brilho- satnico nos olhos de perversos en-demoninhados.
As finas lminas de ao embeberam-se nas carnes do velhinho que, nem siquer, ge-
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meu. Apenas, surpreso, arregalou os olhos nevoentos, cahindo sobre um fardo de l, sem foras. O sangue jorrou dos ferimentos como se fosse de um animal que se immolasse, e aquelles tres homens sedentos, recebendo nos rostos os salpicos quentes do esguicho arterial, lambiam os beios e dilatavam as narinas com soffreguido de feras. Um del-les quiz applicar os lbios sobre o jorro vermelho, e n'uma sede de degenerado psychopa-tha sugar o fillete, com ferocidade de tigre.
O sangue, elles acreditavamafastava o receio da luta.
Depois, abandonando a infeliz victima disse um:
Este porco no presta para sarapatel.
Deixemol-o aos urubusaccrescentou outro.
Todos riram.
Vamos sangrar um bacorinho mais novo!
Vamos a Delphino!
Vamos!
E montados, n'um instante, abalaram para o Teixeira, deixando a victima de borco, braos abertos em cruz, n'uma poa cie sangue.
E assim entraram pela rua, a toda brida, proferindo insultos e desafios.


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Apparea Delphino, queremos matal-o como se mata um co!
Minutos aps as portas de sua casa eram arrombadas a coices de armas, e os bandidos invadia m-n'a a cavallo, disparando os clavi-notes, atoa, para dentro.
No encontraram ningum.
Quebraram tudo que havia em casa. As pessoas que l se achavam fugiram pela cosinha.
No encontrando em quem cevar o odio, os bandidos voltaram furiosos para a rua, onde defrontaram um roceiro retardatario que tremia como varas-verdes. Mettido n'um circulo de punhaes foi obrigado a dizer onde estava Delphino. E elle gaguejou:
No Barro Verde!
Vamos matal-o na fazenda!
A galope para o Barro Verde!bradou Manoel Rodrigues.
E sinistros, como enviados do inferno, galoparam rua abaixo, desenfreados e desafiando cos e terra!
Era 21 de Abril de 1862.
Dia, cuja lembrana, permanecendo como estigma sobre a fraqueza de uns e a misria moral de outros, jamais se apagar; triste marco, na historia teixeirense.
Attingido o extremo do villarejo, galgaram a parede do aude novo.


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No extremo opposto, na outra ponta, ficava a casa do padre Vicente, um bom velhinho, que Deus o tenha na sua santa gloria, o que, tendo recebido aviso da approximao dos sicarios, dispozera-se a sahir, vindo-hes ao encontro, resolvido a empregar o seu sacerdcio, na defesa de todos.
A arma de que lanou mo foi um crucifixo.
Parado, no meio da estrada, erguia no alto, acima de sua cabea a imagem do Senhor crucificado e implorava aos monstros.
Mostrou-lhes as chagas do Divino Cordeiro e indagou-lhes das intenes que levavam.
Responderam que iam a Delphino, e o padre tentou os convencer da innocencia do mesmo, na morte de Cyrino.
Padre, v cuidar da sua igreja e deixe os mais descanados disse Manoel Rodrigues, e passou adiante.
O padre continuou insistindo para o Joo que o ouvia, e Manoel Rodrigues interveio :
Seu Padre, Joo no quer se confessar, v guardar esse Senhor que ns no at-tendemos a ningum.
Nesse instante, Delphino apparecia l no alto da estrada, e em vez -de fugir, se apresentava, visto estar innocente.


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L vem o damnado!disse Jovinoe todos avanaram.
Peguemol-o vivo!bradou Joo.
Eu quero arrancar o corao d'aquelle malvadoregogou Manoel Rodrigues.
A victima, limpa de culpa e conscincia, confiada, vinha vindo, quando .de clavinote disparado foi o projectil alcanal-a em pleno corao, prostando-a no meio da estrada.
Abandonando as cavalgaduras os tres sicarios avanaram, e sem verificar se ainda estava vivo ou se j era cadver, foram cevando o instincto selvagem em horrvel tru-cidamento a punhaes e coices de armas.
Quem diria que este desgraado, manso como um cordeiro, desse para a fera que deu?'!
E' verdade!
Mas, com toda certeza, este santinho matou o nosso irmo s treio.
Juro que foi!
E junto com Liberato.
Advinhaste mu cunhadodisse Manoel Rodrigues,eu vi Cyrino mandar dizer a Liberato que ainda vinha lhe tirar a vida e o couro no meio da feira.
No tivesse elle morrido que era homem para fazer isso mesmo.
Pois eu juroexclamou Joo, tirando o chapu,que hei de tirar o couro de Li-


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berato ou Dons Nosso Senhor no me d a salvao.
Estamos promptos para te ajudar!
Emquanto entretinham esse dialogo no cessavam de ferir o corpo j inanimado. Abriram-lhe o peito e arrancando o corao, levantaram-ivo em trophu, na ponta dos punha es.
O padre Vicente nada pudera fazer. Approximou-se, pois o drama desenrolava-se quasi sua j>orta e, tocado pelo espectaculo, pedia aos cabras tivessem mo com aquella scena macabra. Empunhando a imagem a que se apegara, procurava implorando, corajoso e christo, n'uin supremo esforo, conter os monstros. Rogou o perdo para aquelle corpo que era de um filho de Deus, manso e inoffensivo...
Na fria em que estavam os bandidos, apontaram as armas para o Crucificado!...
padre .retrocedeu e as feras continuaram na faina maldita. No satisfeitas ataram os frangalhos de carne humana a corda-e arrastando-os,. voltaram para o centro da rua.
O sino da igreja dobrava finados e por todas as partes espalhava-se uma nevoa de desgraa.
A rua ficara inteiramente deserta. Os Guabirabas afinal canaram e deram-se por satisfeitos, ante a covardia d'aquella gente.


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Abandonaram o cadver e de roupas, mos e rostos tintos de sangue dirigiram-se a uma venda. Beberam e trocaram chaiaas, riram, como se nada tivessem feito, e cavalgando os corceis abalaram pela estrada do Riacho Verde, rumo ao sul, buscando o Pa-jeh, na direco de Emburanas.
No Riacho Verde morava Manoel Ba-ptista, irmo de Delphino, e iam aproveitar a occasio para o liquidar.
O destino porm, 'reservava-o para golpes futuros e, no momento, o protegeu.
A dedicao de uma negra, sua escrava que se achava na rua, salvara-o. Pra ella uma das pessoas que fugiram pelos fundos da casa de Delphino quando os cabras a invadiram. Fugiu, e abalou a correr para o Riacho Verde aonde foi levar o aviso ao seu senhor. Elle estava no roado e l se occultou emquanto a negra voltava povo-ao para trazer noticias seguras.
De caminho, nos mulungus das areias, depois do sitio S. Bernardo, a escrava encontra-se com os Guabirabas que a interrogam se era da casa do Baptista; ella nega, nega e informa que pela manh vira-o seguir para a rua e l deveria estar.
Perdemos o saltodisse Manoel Rodrigues.
E proseguiram rumo do Pajeh.


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Liberato e os companheiros logo aos primeiros tiros, sahiram por traz da casa onde se achavam, e galgaram um enorme bloco de granito que se eleva alli perto,a Pedra d'Agua. De l, elle assistira todas as scenas, acovardado e pusilnime. Podia ter evitado a morte de Delphino. Podia ter enfrentado os bandidos, mas nada fez. Um eve arrepio de terror passou-lhe pelo corpo, e, supersticioso, disse conjurando a morte:
Vai-te para o aougue!...
O medo chumbara-lhe os ps.
Mais tarde, no sabendo explicar tamanho accesso de covardia, envergonhava-se. Seu parentesco com Antnio Thomaz, Cazuza Barreto e Joo Leito pesava-lhe no intimo, em luta aterradora.
E no mormao d'aquella tarde, o sol de inverno, indifferente, illuminava um mundo verde, exhuberante de vida, emquanto n'uma impresso dolorosa, n'um misto de pnico e consternao, os frangalhos do corpo de Delphino, insepultos, com horrvel expresso no rosto, o thorax aberto, em pedaos, clamavam justia, e confrangiam a alma de todos.


VII
Chegara ?o occaso o domnio conservador. Os Partidos no podiam ter estabilidade dentro do regime exigido pelo espirito vigilante do monarcha."
A estratgia e a habilidade de Zacha-riasde Ges, "congrassando na Corte, os mais fortes e valiosos elementos da poltica militante n'um bloco nicoo Partido Progressistaem 1863," preparavam o terreno para mais tarde, em 64, formar o Gabinete de que lhe coube a presidncia firmando o consulado Liberal. Vimos pelo desenrolar dos factos, que, em 62, j os Liberaes dominavam, seno pelo direito, mas pela fora de violncias e desprestigio do partido que agonizava na Villa das Feras. As demisses no se fizeram esperar; foram em massa!...
E foi assim que Liberato perdeu o cargo, sendo substitudo por Udefonso Ayres Cavalcanti, que, com a morte de Delphino, aceumu-lou as funes de primeiro supplente de Juiz.
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O 21 de Abril de 1862 marcara o ultimo dia da gesto conservadora. A partir d'ahi, emquanto os Liberaes no se organizavam definitivamente, reinava o chos. No havia autoridade que tivesse prestigio ou autonomia. Desse modo, quem seria capaz de empunhar as rdeas do poder?
Nesse estado de incertezas, ficou a populao entregue ao mysticismo das suas crenas christs, sem que algum cogitasse dos deveres da justia, relegada ao abandono pela covardia de todos.
Foi quando Geraldo, irmo de Delphino, que residia n'um sitio afastado, sahiu em perseguio dos bandidos.
De caminho, passou? pela casa de Eduardo Rodrigues, dando-lhe noticia do plano traado, que, segundo suas intenes, .haveria de surtir effeito. Se falhasse, era da sorte, mas fizera a diligencia. Este fazendeiro tocando o bzio de alarme, reuniu logo vinte homens que seguiram em sua companhia.
Em casa dos Carvalho Nobrega, em reunio de familia, Geraldo mostrando a necessidade de vingar a morte do irmo, pediu mais dois cabras de confiana. Bastavam dois que fossem bons; valeriam por muitos.


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Nointerveio Liberatofui eu o causador de toda essa desgraa. De mim, portanto, exige o dever, ir vingal-o!
Pois bem, disse o mais velho da reunio, orgulhoso da resposta:vae, e leva em tua companhia os homens que precisa-res. E's novo nesta vida e irias arriscar-te a srios perigos se fosses s. Confio muito em Moreira e Chico do.Coito, mas, elles no podero ir. Escolhe a quem achares melhor, comtanto que saibas honrar o teu nome e o da familia.
Combinado o melhor meio de perseguio,. Geraldo e Liberato dividiram, entre si, os homens, seguindo aquelle com uma parte no encalo dos Guabirabas, emquanto este com a outra trilharia caminhos differentes.
Assim aconteceu.
A fora de Geraldo seguiu o roteiro dos cabras, n'um percurso de dez lguas, e proseguindo ainda, foi at a ribeii-a do In-gazeira onde se escoaram, por completo, as noticias. Varou todo o Pajeh, Gravata, Pi-anc, Riacho dos Porcos e para o sul, at Moxot, Navio, etc. Em Riacho dos Porcos soube que os Guabirabas estavam occultos no Riacho do Navio, em logar recommenda-do pelo Capito Terrvel.


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Reforada, a sua tropa, em entendimento com Liberato, delineou ento um plano de ataque.
Para andarem desassombrados, usavam de estratagema: diziam, por onde passavam, que eram cangaceiros do Capito Terrvel da Serra das Feras e isso lhes valia respeito e auxilio nas fazendas onde tocavam.
Usando desta e outras manhas, appro-ximaram-se do Navio, ficando duas lguas distantes, onde colheram as ultimas e precisas informaes. Um dos cabras, natural d'quellas paragens, era de opinio que pela calada da noite tomassem chegada, e cercada a casa, esperassem o appareeimento d'elles, para a luta, sem aviso...
Qual!Interveio Liberatoser melhor bater porta e convidal-os a se entregarem.
Para matal-os, depois?
No!- para entregar justia.
Vosmic no est vendo que aquellas feras estando na mo da justia, esto na rua? !
Isso mesmo seu Chico, dito e feito. Isso por aqui affirmou um pajehense; basta ser gente do Capito Terrvel!
Mas, argumentava Liberato, Baptisto nosso amigo e tem influencia em Afogados.


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Qual nada, patrozinho. E quem pode mais, elle s no Afogados ou seu Capito Terrvel que basta fazer um bilhetinho ao Governo e a justia ser capaz de cascar um processo pesado em ns que entremo em Pernambuco, sem as orde delle?...
Ns deve fazer o seguintedisse o Chico.A gente se esconde no oito da casa e atiremo umas pedrinhas na porta; elles vm v o que , e ns eheguemo o ferro frio nelles. Tiro no serve, faz zuada e pde acudir gente.
E assim descutiram longo tempo, a espera da noite, para irem toca dos sce-lerados. Tomaram todas as precaues e foram chegando desconfiados e sorrateiros para depois de grande anciedade, cahirem na mais estonteante desilluso. Naquelle mesmo dia, ao anoitecer, os cabras haviam demandado o territrio cearense, em cumprimento de ordem do Capito Terrvel.
Noite fria, noite constem ante de fim de inverno, affligia os homens de Liberato, de par com a decepo que vinham de soffrer. A natureza dormia embalada' pelo vento solto que varre o Pajeh, vindo dos lados do S. Francisco, desencadeado pelos boqueires, uivando incessantemente nas pontas de serras e contrafortes do terreno, aoitando o panasco, revolvendo a folhagem amadure-


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cida, acordando raposas e animaes noctiva-gos. Liberato e Geraldo lastimavam tantas passadas perdidas!...
Colhidas informaes precisas e seguras na fazenda que os aoitara, ouvido o prprio que levara a ordem do Grande Capito para os sicarios, era intil ficarem alli, e resolveram regressar.
Comtudo, Liberato no se abatera demais ; estava affazendo o espirito aos contratempos; Geraldo, porm, desolara.
Ao chegarem ao Teixeira, dissolveram a tropa que se entregou faina das fazendas, e Geraldo dizendo adeus familia, abandonou aquella terra, para logar ignorado, no mais apparecendo a menor noticia do seu paradeiro.
Geraldo no tinha nervos para ficar.
Era-lhe duplamente amargo expcr-se sanlia de inimigos que fruiam prazer satnico, espezinhando victimas indefesas.
Era mais um a augmentar no catalogo dos desapparecidos.
Confrangia-lhe a alma separar-se dos seus, da casa onde nascera e se fizera homem, dos campos onde exercera a vaqueirice prpria, do roado onde labutra de sol a sol, da serra, cujo panorama o embevecia desde creana, do ar que lhe forticara os nervos e retemperara-lhe o caracter.


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Fosse aquella a sua reao pacifica. Manifesta, como era, a impotncia de sua familia, para que ficar onde a fora era o nico e legitimo direito compativel ao meio?
Estava-lhe esclarecida a razo da estadia dos Guabirabas, alli. Elles no voltariam, visto a misso que lhes confiaram j estar cumprida.
E assim dobrava-se mais uma pagina da vida daquella gente soffredora, mas resignada, por maior que lhe fosse a provao.


VIII
Era insegura a situao de Liberato. Sua familia, agora no ostracismo, amargava as conseqncias da brandura com que os Conservadores tratavam os Liberaes, quando estes estavam de baixo.
Era o reverso da medalha.
Os Liberaes traduziam por fraqueza a passividade dos Conservadores...
Liberato demittido do cargo, e desprestigiado, comprehendendo sua posio esquerda, tratou, quanto antes, de se pr a salvo de qualquer bote dos Terrveis.
Desceu a Serra, serra que elle tanto amara, que servira de bero a si e a seus paes e cujas brizas frescas e salutares tanto bem faziam ao seu organismo. Seguiu o curso do rio da Cruz atravessou o serto de Pinhras quente e abafado como fornalha, e foi se localizar ao p da Sera do Tronco, na fazenda d'um amigo de sua familia, Ber-nardino Soares.


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Alli foi acolhido de todo o corao e com toda a franqueza d'alma do vaqueiro Flo-roncio da Silva que, pela vida adiante, foi talvez o seu melhor amigo.
Corria o mez de Junho, e os sertanejos preparavam-se para as festas de S. Joo.
No obstante todas as casas ostentarem sua'fogueiraexpresso genuinamente popular do grande respeito ao Santo Baptista, resqucio talvez, do culto do fogo de que faliam Fustel de Coulange e outros,evitando assim que o diabo, por escarneo sambe-asse nos terreiros de christosas fazendas esmeravam-se nas sumptuosidades dos festejos, e esforavam-se para reunir ao claro daquellas pyras votivas, toda a vizinhana que viesse com a sua vivacidade transbor-dante de almas simples, encher a noite de vicia e de alegria.
O fazendeiro, amo de Florencio, estava alli, com sua familia aonde o havia chamado a ferra dos garrotes e a partilha que n'a-quelle anno se effectuava, um pouco mais tarde. Fora um anno de ba parico, como se costumava dizer. E d'ahi o maior contentamento invadindo a todos fazendeiros e vaqueiros!...
Bernardino Soares e sua familia eram como hospedes em sua prpria fazenda, pois o vaqueiro Florencio que possua, j de seu,
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algumas dzias de cabeas de gado e ani-maes, sabia cercar os amos de tamanho cuidado e amizade que elles se sentiam melhor, no se envolvendo, absolutamente, n a boa ordem e admirvel direco cVaquelle auxiliar intelligente, trabalhador e honesto. O encontro de Liberato com o velho Bernar-dino deu ensanchas a Florencio verificar a intensidade do acatamento e respeito, nas relaes desses dois sertanejos, e d'ahi o redo-bramento de attenes para com o moo tei-xeirense que o destino, fina fora, atirava para a vida do cangao.
Florencio caprichara n'aquelle anno para que a apartao se realizasse com o compa-recimento de todos os vaqueiros da ribeira, e elle prprio fora ao Sabugy e Me d'Agua, convidar os afamados menestris Ugolino e Romano, para cantarem na funco que devia durar oito dias, terminando no dia de So Pedro.
Depois da noite de S. Joo, em que moas fizeram advinhaes para saber se casavam logo, e os rapazes mostraram o arrojo de sua bravura, saltando a fogueira cre-pitante; fogueira feita, propositalmente, de rijos toros, e de sete a oito palmos de altura; da peleja dos cantadores e do samba que se prolongou por dois dias, teve comeo a pega do gado para a grande apartao.


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Foi ahi que o prprio Liberato ouviu Ugolino celebrar o seu feito na morte de Cyrino Guabiraba, descrevendo o triste drama do Teixeira.
Depois de afinadas as violas, travado o primeiro encontro entre os dois grandes ados, notando Ugolino a presena de Liberato, com prvia licena do companheiro, surprehendeu o auditrio com a descripo da tragdia, cantando-a n'aquella sua toada que ainda hoje muitos sertanejos relembram.
Romano emborcou a viola para escutar attento a melopa daquelle baio e a cadncia rytlimica do verso, onde Ugolino no trastejava e nada deixava a desejar.
Mesmo no dizer caracterisco de Romano era Ugolino o nico poeta que encontrara, capaz de apanhar o cisco que elle juntasse e, sem deixar falha. Julgamento esse que muito valia ao poeta, cioso do seu prestigio, ante o collega que empunhava o sce-ptro de rei dos cantadores.
Ugolino cantou:
OS GUABIRABAS
Preste-me agora atteno Essa companhia inteira; Vou contar uma desgraa Que succedeu no Teixeira.


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Delegado Liberato Foi prender um Guabiraba, Por causa dessa priso Quasi que a Villa se acaba.
Notificou uma tropa, Pz-se n'um ponto terrvel Que Cyrino Guabiraba Ia passar, 'infallivel.
O signal que elle indicou: Quando Cyrino passasse,. Bem no meio do piquete, De detraz se assobiasse.
E assim a tropa fez, Quando Cyrino passou Chegando no meio delia, De detraz se assobiou.
Seu Cyrino quando ouve Daquelle assobio, a voz, Pega da rdea do freio Vira o cavallo veloz.
E diz tropa formada Como um batalho na guerra: Ainda se enganam commigo Os cachimbos dessa terra!...
Dizendo essas palavras, Como quem vai proferindo, Z do Carmo e Seu Soares Por detraz lhe vo sahindo.


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Quando elle viu Z do Carmo E o moo Manoel Soares, Pesejou ser passarinho Para voar pelos ares...
Desse cerco de repente Cyrino se escapoliu, Pregou a espora no cavallo Que esta do p sahiu!
Na carreira em que elle vae, A.ssim veloz, de repente, Sahem Manoel e Joaquim, Dois cabras na sua frente.
Joaquim pega na rdea Com a pistola na mo E vae faliando de rijo:
Cyrino no faa aco!
Como afoito Guabiraba Mal lhe poude responder Arreda, cachimbo, arreda Se tu no queres morrer.
Manoel Soares que viu
A dextreza de Cyrino
Foi dizendo p'ra o Joaquim:
Guarda da bala menino!
Joaquim, com essas vozes De repente se abaixou, Mas o tiro de Cyrino No seu hombro se cravou.


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Saltou ahi Seu Soares P'ra tomar-lhe o clavinote, Elle deu-lhe uma pancada Que quasi lhe custa a morte.
Com a pancada Seu Soares Cahiu que nem tat-bola, Cyrino puchou do quarto P'ra disparar a pistola.
Como j demastreado
A Seu Soares errou,
Fez rebolo da pistola
Que nunca jamais se achou.
Some-te para o diabo Que s serves p'ra o seu samba, Para brigar com cachimbo, Cyrino no faz mutamba.
Com todo esse barulho O cavallo se assustou E em quatro saltos que deu As rdeas d'elle tomou.
E na carreira em que ia, Foi saltar um socavo, E desse salto que deu Botou Cyrino no cho.
Agora vae a tua alma Prestar conta l no Limbo; Morreste cabra damnado, Aqui na mo dos cachimbo1.


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Na confuso cio barulho Que o cavallo arranco Foi p'ro outro Guabiraba, O primeiro portado.
Quando elle viu o cavallo Sellado, enfreiado e solto Foi dizendo:companheiros, Meu mano foi preso ou morto.
Elles foram perguntando: E ns que vamos fazer ? Vamos logo para a rua, Vamos matar ou morrer.
Saltou o Manoel Rodrigues Atacando a cartucheira: Entra hoje o colla novo L na Villa do Teixeira.
Entra a peste do sarampo! Entra raio abrasador! Entra peste cie bexiga! Entra os cabra matador.
Ahi montaram a cavallo Cingindo espaclages, E partiram para a villa-Ferozes como lees!
J estavam de caminho, Bem no meio da estrada encontraram uma mulher chorando, era a cunhada.


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Quando ella viu aos cabras, Com o choro sem mudana Foi dizendo:Meu cunhado, Eu s lhe peo a vingana!
Elle ahi oi respondendo:
Minha comadre e cunhada, Allimpe a sua lagrima
Que ella ser consolada.
No destino em que ns vamos No vejo quem nos resista; Hoje ns tem de acabar Toda a raa dos Baptista.
Encontram Antnio Tavare E na estrada foi sangrado, Esse, coitado, morreu Como um carneiro, calado.
Descendo de rua abaixo Para o aude da Nao, Encontram o Padre Vicente Com uma imagem na mo.
O padre ahi foi pedindo Pela vida de Delphiao Pois, elle estava innocente Nessa morte de Cyrino.
Delphino est innocente na morte do seu irmo, Pois, ante desse piquete Elle pediu demisso.


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Padre, voc v embora, V guardar este Senhor; Ns no deixa de matar Emquanto ns vivo fr!...
Disse o Padre Vicente,
Com Christo ao meio da rua:
Senhor Manoel Rodrigues, Triste teno esta sua!!
Palavras no eram ditas, Delphino tinha chegado, No afindar da conversa De balas foi trespassado
Manoel Rodrigues, eu peo; Deixe eu me confessar,
Seja mais assocegado No seu modo de matar!
Seu Juiz Municipal, Hoje aqui no tem descarte, A resposta quem lhe d Agora meu bacamarte.
Voc no, no se confessa, Quem lhe diz isso sou eu, Voc hoje h de morrer Como Cyrino morreu!
Para findar a historia, Para encurtar a razo; Sem culpa morreu Delphino E Tavares do Salo.
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|.em que fosse notado, Liberato se afastara, indo collocar-se ao p d'uma janella, no copiar, de onde tudo ouvia sem que fosse visto.
Uma onda do lugubres e vivas recordaes envolvia-o e dominava-o, acabrunha-d oram ente.
Quasi todos os convivas, alli reunidos, conheciam a pagina negra em suas minu-dencias e pormenores, e intimamente, Liberato sentia pesar-lhe na conscincia a responsabilidade da sua fraqueza no evitando a tragdia sanguinolenta.
A descripo, a toada plangente e a re-constituio do drama lhe penetravam a fundo os meandros da alma, gelando-lhe os nervos, n'uma como que paralysao de todas as energias.
Uma vontade de chorar, uma saudade incomprehendida, turbava-lhe o crebro e sufocava-lhe a garganta reduzindo-o a um fardo que, impellido pelo destino, rolasse pelo despenhadeiro ngreme da vida!...
Mergulhado nesse scismar a que a musica rude dos troveiros o levara, absorto no desenrolar das scenas que em sua cabea se reproduziam inconscientemente, Liberato parecia no ouvir nem ver quem delle se ap-proxhnava.


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Foi nesse como transe, nesses minutos de amargura intensa, indefinivel, que sentiu o choque de extranhos sentimentos, terando armas dentro de si.
Interessantes caprichos esses do amor que sabe tirar proveito das opportunidades!
Maria Rosa, gentil o linda filha do fazendeiro notara a transfigurao de Liberato e sentira-se, inconscientemente, presa cie irresistvel attraco.
Era outra luta interior.
Emquanto ella queria forar o ouvido narrao do cantador, a vista indomvel acompanhava os movimentos do moo que se esquivava quellas rememoraes.
-O corao impelliu-a, e ella affrontando o cdigo dos costumes sertanejos d'aquella poca, chegou janella onde se acostara Liberato, para o despertar, dizendo uma banalidade qualquer com a garganta oppressa e o crebro em desalinho.
Ferido pelo aguilho d'aquella voz tmida e meiga, Liberato estremeceu e arranjou qualquer desculpa, emquanto lia nos olhos de Maria Rosa e dava-lhe a lr nos seus, todo um mundo de explicaes que a impotncia da lingua jamais daria satisfatoriamente.
As palavras alli dialogadas, no interessam ao narrador, so apenas notadas por


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marcarem o inicio dos sentimentos amorosos do jovem sertanejo.
Com o pensamento enleado no moo, triste, dizendo banalidades prprias do estado de espirito de ambos, Maria Rosa no notara que algum, afoito, a perseguia com olhares de fogo, olhares incendidos pf>las rubras chammas do cime, k Liberato, porm, aquillo no passava despercebido; ento tratou de chamar o seu seu realidade, mostrando-se homem.
Era Jos Maria, um rapazola. atrevido que a queria namorar!...
Ugolino parra a viola para depois de pequeno descano, continuar a peleja, e os danadors, aproveitando o momento, formaram um samba. Jos Maria serviu-se do ensejo e foi convidar Maria Rosa para seu par. Ella negou-se, e Liberato repelliu-o com um gesto.
Medem-se os olhares. Jos Maria com-prehendendo sua situao afasta-se.
Afasta-se roido de cimes, mas sem querer dal-os a conhecer.
Cae na roda, e danando desabalada-mente, soltando chalaas ruidosas, procurando chamar a atteno da moa, teve uma idia atrevida: pegou da viola de um dos cantadores, sapateou e tangendo-lhes as cordas n'um baio lento, cantou:


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Quando eu vim p'ra esta funco
Trouxe uma estrella de guia
Por saber que aqui estava
A prenda que eu mais queria...
A folha da laranjeira De noite parece prata, Tomar amores no #usta Separao quem mata!...
Menina diz a teu pae Que elle faa o que quizer; Inda ha de ser meu sgro E tu, a minha mulher!...
A moa esgueirou-se para o interior da
casa.
Todos, inconscientemente, bateram palmas, no maldando ferir os coraes de Liberato e de Maria Rosa.
A funco continuou. Liberato, desfarcando, entrou na sala de jantar onde o velho Bernardino conversava com Florencio, satisfeitos de "ver tanta alegria n'aquella gente simples,e tomou parte na conversao, respondendo algumas perguntas que ambos lhe faziam. Maria Rosa, entre outras raparigas, deitava-lhe olhares, namorados, e satisfeita por vl-o conversar com seu pae, fazia-se alegre, procurando dissipar o que lhe ia pelo intimo.


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Jos Maria notando que Maria Rosa no voltara, se fez de casa e foi sala de jantar, onde, dando em cheio com o olhar de Liberato, torceu-lhe o rosto e sahiu para o terreiro que o luar da noite branqueava.


IX
Deixa-te estar, cadello!...
Rugia entre dentes Jos Maria, pensando em mil planos para se vingar de Liberato. Havia de matal-o como a um co, na beira de qualquer estrada. Antes, quebral-o-ia de cacete. Ainda havia de ter a satisfao de vel-o no tronco, de cabea raspada, humilhado e enxovalhado como um despre-sivel, coberto de insultos e de infmias.
Lembrou-se dos Terrveis e deliberou ir-lhes offerecer o seu servio. Foi ao curral onde estava seu cavallo, sellou-o, montou-se e partiu.
Partiu dominado pelo cime, a cabea em fogo, os olhos crepitando dio, sob os impulsos da besta que rugia, endemoninhda, dentro em si.
Emquanto se afastava, ouvindo os ac-cordes melodiosos das violas que se perdiam, langorosamente, dentro da noite cheia de lua, sempre mais plangentes, sempre mais


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saudosos, accordes que penetravam fundo os roconditos da alma, Jos Maria revoltado cravava os acicates na montaria que, resfo-legando, avanava, pela estrada se distanciando da fazenda.
O baio ia cerrado, mas elle j no ouvia o sapateack) que enchendo a sala levantava nuvem de p, embaciando a luz branca dos candieiros de azeite de carrapato. A fogueira enorme esboroara-se, minada pelas chammas, desprendendo fagulhas ao cre-pitar dos toros verde e dando s paredes maior e mais ostensivos relevos; tal e qual o desmoronamento dos sonhos d'aquelle atrevido qe fugia.
Dois dias depois estava no casaro do velho Terrvel, na Villa das Feras.
Deus Nosso Senhor lhe d bons dias, seu Cadete.
Que anda fazendo to cedo por aqui, Z Maria?
Vim rua, comprar um pedacinho de panno; queria tambm ter uma conversa com o seu Capito.
Com o velho ?
Inhor sim, sim senho?'.
Pois, sente-se por ahi que elle j se. E L Canhotinho, o Cadete, filho do
velho Terrvel, foi avisal-o da preteno de Z Maria que, momentos depois, ha presena