Almas de lama e de aço

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Material Information

Title:
Almas de lama e de aço Lampeão e outros cangaceiros
Physical Description:
124 p., 3 leaves of plates : ; 20 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Barroso, Gustavo, 1888-1959
Publisher:
Companhia Melhoramentos de S. Paulo
Place of Publication:
São Paulo
Publication Date:

Subjects

Subjects / Keywords:
Brigands and robbers -- Brazil   ( lcsh )
Genre:
non-fiction   ( marcgt )

Notes

Statement of Responsibility:
Gustavo Barrozo (João do Norte).

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 03254572
System ID:
AA00000262:00001

Full Text
(Lampeo e outros cangaceiros)
POR
GUSTAVO BARROZO
(Joo do Norte)
Da Academia Brasileira de Letras
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Editora-Proprietria COMPANHIA MELHORAMENTOS DE S. PAULO
(Weiszflog Irmos incorporada) S. PAULO CAYEIRAS RI


ALMAS DE LAMA E DE AO


GUSTAVO BARROZO
(Joo do Norte)
Da Academia Brasileira
ALMAS DE LAMA E DE AO
(Lampeo e outros cangaceiros)
EDITORA-PROPRIETARIA COMP, MELHORAMENTOS DE S. PAULO
(Weiszflog Irmos incorporada) S. PAULO CAYEIRAS RIO


a Edvard Carmelo




Pr a mde se v difunto.
num perciso adoece: quarq intriga bastante pra se mata e morre.
i^ruerendo tange comboio, int sou bom comboieiro: querendo faz sapato, int sou bom sapateiro; querendo and no cangao, int sou bom cangaceiro, que isso de mata gente o servio mais maneiro....
(Do folk-lore nordestino).




ALMAS DE LAMA E DE AO
A energia barbara do homem do serto nordestino, precisando manifestar-se por injunco da prpria fora e no achando como, naquelle meio atrasado e pobre, vae naturalmente perder-se no crime. Eis ahi a primeira causa do banditismo que continuamente assola aquellas paragens.
Essa these a mesma que Stendhal e Taine applicaram Itlia do seu tempo, cheia, no dizer de Alfieri, que tocara no assumpto em primeiro logar, de ardentes espirites a que somente faltavam os meios para serem heres ao invs de bandidos. Alis, re-flectindo bem, o cangaceiro nordestino , na maioria dos casos, um simples here abortado, ou s avessas.
Lendo-se as notas de viagem de Taine e de Stendhal, sente-se perfeitamente quanto, antes da unificao levada a cabo sob a gide piemontsa e pouco tempo depois delia, quando o Papa ainda governava
o phenomeno do banditismo


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ALMAS DE LAMA E DE AO
a Romanha, a vida do camponio se parecia, do ponto de vista da selvatiqueza de sentimentos e da barbrie de costumes com a dos nossos sertanejos.
AUi, os aldees se esfaqueavam por questes sem importncia. De cada familia, em tres irmos um fora assassinado e dois estavam nas gals, ou vice-versa. A' menor contrariedade, os homens reentra-vam nas ferocidades primitivas. As guerras entre famlias continuavam como na Corsega, ou na idade-mdia. Faziam-se tocaias contra os inimigos e apunhalavam-se os adversrios pelas costas. E Taine con-clue suas observaes com estas palavras: Julgam poder entrar a qualquer momento na orbita do direito de guerra e fazer uso delle amplamente.
Occorre o mesmo phenomeno nos sertes cearenses, pernambucanos, parahibanos, etc. Alli, os habitantes puxam a faca por ninharias e at a enterram no buxo dos outros sem motivo. Conta-se que um criminoso, perseguido pelo clamor publico, ainda com a arma na mo, passou rente a um negociante inof-fensivo, que tomava fresco porta da casa, e metteu-Ihe a lamina nas tripas, dizendo, sarcasticamente:
Guarde ahi que j volto!...
As famlias exercem vinganas terrveis umas contra as outras e suas inimizades no se abrandam com o tempo. Perpetuam-se, legadas de avs a netos. O indivduo, barbarizado pelo meio brbaro, adora as emoes fortes. As canes hericas dos violeiros guardam a memria dos altos feitos do cangao, glori-


O PHENOMENO DO BANDITISMO
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ficam os vencedores das lutas contra a policia e cram no serto um panache de nova espcie.
Nossos governos ainda no olharam como deviam para a questo do cangaceirismo. Os governichos esta-doaes, entregues a intelligencias estadoaes, a homens incultos, politiqueiros, pretenciosos ou vis, na maioria, no tm olhos capazes de encarar o phenomeno sob o seu verdadeiro aspecto. Alguns, fracos ou maus, ajudam-no a propagar-se, porque se apoiam nos prote-ctores de cangaceiros, os chefes polticos do serto. O Brasil j vio o prprio governo federal incitar dos bastidores a famosa revoluo do Joaseiro, que levou as hordas do padre Cicero, do Cariri capital do Cear, determinando uma interveno a posteriori do poder central. Dos polticos cearenses da aggremiao partidria que isso interessava no momento fui o nico que se manifestou contra esse crime (1). Fiz parte do governo que succedeu a essa interveno como Secretario do Interior, convidado pelo presidente Ben-jamin Barroso, alheio por sua vez ao movimento se-dicioso.
Certas administraes fortes e bem intencionadas, mas de pouco saber, entendem que a represso policial d cabo dos cangaceiros e illudem-se com os bons resultados apparentes e passageiros. Castigam alguns potentados locaes que os protegem. Destrem seus ncleos. Perseguem seus bandos. Mettem na cova ou na cadeia seus chefes. E no serto tranquillo, durante algum tempo, no se ouve mais falar num


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nico bandoleiro. Parece que a raa se acabou para sempre. Nada menos verdadeiro. Esfriada aquella ac-o enrgica ou violenta, que dura pouco em razo da prpria violncia, o cangaceiro reapparece.
Desde o periodo colonial do capito-mr Joo Carlos de Oyenhausen e Grevenburgo, que os prendia pessoalmente e os remettia a ferros para o Limoeiro de Lisboa, no poro dos barcos, que o serto atravessa pocas de pleno banditismo, em que os Antonios Silvinos e os Lampees do leis, e de calma superficial como a do governo de que participei.
Entretanto, essa rotatividade de eras mansas e agitadas no fez no correr dos sculos diminuir a extenso e intensidade das manifestaes notrias do phenomeno. So as mesmas hoje que hontem, com Jesuino Brilhante, e outrra, com os Montes e Feitosas, guelfos e gibelinos duma poltica pessoal e primitiva. Leia-se o depoimento de Henry Koster, no comeo do sculo XIX, manusem-se outros documentos mais antigos e mais modernos: verificar-se- que tenho inteira razo.
Sendo o banditismo o resultado de uma energia barbara e sem direco, no pde ser vencido por outra energia barbara e tambm sem direco. As policias lanadas contra os cangaceiros so geralmente peores do que elles e taes violncias praticam que o sertanejo pacifico contra ellas se revolta e prefere acoutar os criminosos que a desafiam.
E' necessrio e urgente dar trabalho organizado


O PHENOMENO DO BANDITISMO
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s populaes do interior nordestino, dar-lhes onde, como e em que empregar suas energias. Para isso, sane-se o serto, captem-se as guas fugidias e irriguem-se as terras ferazes que a scca torna inteis. O problema , antes de tudo, talvez, de natureza econmica. Dm-se-lhes communicaes, transportes, ins-truco e justia. Somente um conjuncto de medidas dessa ordem acabar de vez com os cangaceiros, pro-ductos de uma causalidade complexa que unicamente uma serie complexa de providencias poder extinguir.
A ba distribuio da justia uma das princi-paes dellas. Em oitenta por cento dos casos, o bandido comeou sua criminosa carreira por vindicta. E esta s prolifera onde o homem sabe que no conta com a aco do policial e do magistrado.
0 que acabou na Itlia com aquelles sentimentos brbaros que geravam tantos bandidos nas pocas de Alfieri, de Taine e de Stendhal, no foram os ca-rabineiros reaes, porem a lavoura desenvolvida, as vias de communicao fceis, as escolas abundantes e efficientes, a industria e, pairando acima de tudo, a honestidade da administrao e a seriedade da justia.


d. sebastio no nordeste
A historia do mysticismo sertanejo ainda est para ser devidamente feita com as verdadeiras propores do seu desenvolvimento no tempo e no espao. Euclydes da Cunha pz deante de nossos olhos, em paginas ,eternas, o caso isolado de Canudos, estudando nelle o homem em funco do meio, porm unicamente no momento histrico preciso, sem averiguao mais profunda das raizes do phenomeno. Este repete-se, mutatis mutanis, pelos sculos em fora, desde as priscas eras dos primeiros povoamentos dos sertes speros at os nossos dias.
0 que acontece hoje no Joaseiro do padre Ccero, por exemplo, necessariamente se filia ao que outrra se passou nessas regies centraes do Nordeste: exploses de mysticismo, ncleos de fanatismo rude geradores de ociosidades perniciosas e de tartufismos grosseiros, alguns dos quaes se tm prolongado atravs da politicagem estadoal at o ambiente da poltica federal. 0 caso do sr. Floro Bartho-lomeu demasiado caracterstico e recente para que seja esquecido.


D. SEBASTIO NO NORDESTE
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Tambm o grande escriptor ingls Cunnighame Graham, que estudou a personalidade de Antnio Conselheiro no seu bello livro A Brazilian Mystic no teve elementos necessrios para abordar a parte histrica desse problema sociolgico, que , sem duvida, das mais, sino a mais importante para sua completa elucidao.
Remontando ao passado das populaes sertanejas do Nordeste, encontram-se factos os mais interessantes, pelos quaes se verifica como entre aquel-la "pobre gente e naquella terra batida de sccas, a misria e a ignorncia, de mos dadas, tm conseguido effeitos terrveis e sobretudo contagiosos. Entre elles, o mais ttrico e, ao mesmo tempo, mais curioso foi o acontecido em 1838 no logar Pedra Bonita, perto de Pageh de Flores, em Pernambuco.
Delle perfunctoriamente se occupou, em meados do sculo passado, na imprensa cearense, o conselheiro Tristo de Alencar Araripe. Felizmente, porem, teve depois o seu historiador, que nol-o deixou descripto com todos os pormenores e at acompanhado de excel-lente desenho do local. Foi este o sr. Antnio Attico de Sousa Leite e o seu pequeno livro se intitula: Fanatismo Religioso Memria sobre o reino encantado na comarca de Villa Bella.
Que era ,esse Reino Encantado ? Vamos vl-o, resumindo o imais possvel o livrinho do referido autor. Pageh de Flores logar de sobejo conhecido pela
2 O. Barkzo Almas do lama e de ao.


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sua anarchia. Dalli saem grandes cangaceiros e at s facas compridas que usam se d o nome de pageh. Em 1835, era talvez peor do que hoje, no se respeitava rei nem roque, o bacamarte funccionava como lei e os grupos rivaes diariamente combatiam na via publica. De accordo com o bispo de Olinda, para terminar aquelle estado de coisas, o governo provincial mandou como vigrio interino o padre Corra de Albuquerque, velho missionrio, que conseguio paz entre aquellas perigosas ovelhas...
Mal essa paz se firmava, em 1836, surgia no termo de Villa Bella o primeiro broto dum arbusto de fanatismo sertanejo, que havia de se tornar arvore copada custa de muito sangue. O mameluco Joo Antnio dos Santos, digno de hombrear com o Conselheiro e com o padre Cicero, embora muito mais selvagem e cruel do que esses centralizadores de energias matutas, comeou a mostrar secretamente aos incultos habitantes da regio duas pedrinhas claras e luminosas, que affirmava serem diamantes tirados duma mina descoberta por elle em virtude de mysteriosa revelao. Possua esse velhaco indivduo um antigo pliego de cordel sebastianista, no qual se contava em versos grosseiros que o rei desapparecido em Alcacer-Quibir resuscitaria no dia em que um tal Joo se casasse com uma tal Maria, desencantando o seu soberano e fazendo feliz o seu povo.
0 manhoso mameluco aproveitou habilmente os dizeres do folheto que lia aos incautos. Chamava-se Joo e casou logo com uma rapariga chamada Ma-


D. SEBASTIO NO NORDESTE
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ria, obtendo de vrios fazendeiros da redondeza dinheiro e gado por emprstimo, para lhes pagar pelo dobro o pelo triplo, quando o reino de D. Sebastio se desencantasse...
Lentamente se foi espalhando a historia urdida pelo esperto mestio. Primeiramente, acreditaram nella seu pae, irmos, tios e primos; depois, os criadores e moradores do termo; por fim, as gentes das ribeiras mais distantes. Uns acceitavam a coisa por mera ignorncia ou simplicidade, outros por avidez, seduzidos pela promessa ,da mina de diamantes, e alguns porque viam no movimento ensanchas de''.satisfazer instinctos, vinganas, apetites e ambies.
Perto de Villa Bella, existia, como que de propsito, um scenario apropriado tragdia que se ia desenrolar.
Do slo spero do serto surgem alli duas altas agulhas de pedra, afeioadas pela mo da natureza, similhando dois minaretes, de mais de trinta metros de altura. Uma dellas, coberta de mica falhante, recebeu o nome de Pedra Bonita. Entre as duas, um corredor arejado e claro. Ao p duma, larga alfurja formada por tres grandes lages que se apoiam no colossal menhir. Depois, um amontoado de rochas com um terrao em cima. Do outro lado, uma lage baixa, lembrando um altar. Mais distante, vasta caverna de capacidade para duzentas pessoas. Em volta, cato-lezeiros gementes e cardeiros de toda a espcie.
Esse o logar que Joo Ferreira escolheu para


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pregar aos povos do Pageh uma nova seita: a da ressurreio de D. Sebastio e conseqente desencan-tamento do reino que jazia invisivel e onde faiscavam jazidas de brilhantes, incendiando as imaginaes. As duas agulhas de granito eram as torres da cathe-dral do tal reino. A pedra chata foi escolhida para altar. A caverna grande, denominada Casa Santa, serviria para abrigar os fanticos ou escondl-os. A pequena seria o santurio e o terrao, o plpito do pregador e o throno do rei.
Comeou a reunir-se gente em redor de Joo Ferreira. Havia indivduos nervosos, impressionveis, exaltados e outros espertalhes. Alguns vieram de motu prprio e alguns induzidos, convidados, arrastados. Dia a dia augmentava o auditrio das praticas do mameluco, que, do alto do terrao, com uma coroa de cip na cabea, dizia, que o reino de D. Sebastio se desencantaria em breve para felicidade de quantos o acompanhassem, nelle tivessem f e em tudo lhe obedecessem. Geralmente, finda a predica, se realizavam os casamentos, somente podendo o noivo receber a noiva depois que ella tivesse passado a noite com o rei... Era um direito feudal reeditado nos sertes... A cerimonia das bodas no podia ser mais simples: em presena das testemunhas, a noiva apertava com os seus lbios os do noivo, emquanto um tal Manoel Vieira, que se alcunhava Frei Simo e fazia officio de celebrante, pronunciava palavras inin-telligiveis.
Em lembrana talvez de sua ascendncia iudi-


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gena, preparava o mameluco um vinho encantado, composto de jurema e manac, que dava s noivas que ia dispensar e a todos quantos queria que fossem tomados de enthusiasmo ou que soffressem perturbaes similhantes s dos txicos modernos. Deste modo, os pobres sertanejos viam os thesouros de D. Sebastio.
Assim se passou o tempo at 1838. Ento, um dia, aps ter dado vinho a todo o seu povo, o rei Joo Ferreira declarou que D. Sebastio estava zangado com os seus fieis, que eram incrdulos, falsos e fracos. Perguntaram os assistentes qual o meio de dissipar o aborrecimento de D. Sebastio. E foi-lhes respondido pelo monstro que os fanatizara ser necessrio lavar a Pedra Bonita com sangue de gente. Um velho correu da multido e, delirante, offereceu o pescoo faca de Manoel Vieira, que o degolou. De ento por deante, se sacrificavam diariamente, s dezenas, naquelle altar de pedra de que falmos, homens, mulheres e criancinhas!
Com o sangue das victimas se untavam as grandes pedras.
Seria inacreditvel isso, si os documentos co-vos no o provassem de modo inilludivel.
Alguns indivduos e sobretudo meninos fugidos do Reino Encantado contaram, horrorizados, o que l se passava ao commissario de policia Manoel Pereira da Cunha, coronel commandante superior da


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Guarda Nacional de vrios municpios prximos. Fazendeiro rico, homem de grande corao, de muito dinheiro e vasta influencia, reunio seus clientes e os de sua famlia, convidou visinhos e amigos, e marchou contra a Pedra Bonita frente de numerosa tropa irregular.
Emquanto tomava essas providencias, davam-se alguns acontecimentos notveis entre os fanticos. O pardo Joo Pil precipitava-se, com dois netos nos braos, do alto do terrao como duma rocha Tarpeia. Jos Vieira matava, a golpes de faco, na Pedra dos Sacrifcios, um filhinho de dez annos, que, de joelhos, lhe bradava Meu pae, voc que dizia que me queria tanto bem! Uma viuva immolava, para ser rainha, dois filhos pequeninos dos quatro que trouxera, escapando os outros dois por terem fugido apavorados. Isabel, irm do rei, era victimada grvida. E, ao fim do terceiro dia de carnagem, conseguia-se lavar as bases das pedras com o sangue de trinta crianas, doze homens, doze mulheres e quatorze ces!!! Mas Pedro Antnio, irmo do rei, annunciou que D. Sebastio lhe apparecra e reclamara que se matasse o soberano. Ento, o mameluco Joo foi morto e Pedro proclamado seu successor.
Foi a esse que os expedicionrios encontraram chefiando a matla de fanticos. Depois de rpida luta, foram destroados e dispersados, mu grado o destemor de que deram provas e os seus gritos de Viva D. Sebastio! Morreram desesseis sectrios de Pedro Antnio, inclusive tres mulheres. Elle prprio


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pereceu. Perderam a vida dois irmos do commis-sario de policia e tres dos seus homens. Aos prisioneiros, que eram muitos, Manoel Pereira no consen-tio que se fizesse mal e levou-os para as villas prximas, onde lhes deu destino conveniente, entregando os chefetes e os menores s autoridades e arranjando trabalho para ;OS adultos. Emfim, o missionrio Corra, do Pageh, foi Pedra Bonita, onde arengou aos vivos e deu sepultura aos mortos, erigindo naquelle mbito que pertencera ao demnio o symbolo sagrado da cruz.
De tudo ha documentos officiaes: partes, relatrios, officios, bem como os processos dos principaes chefes aprisionados, que foram submettidos a jury.
Conta a lenda que o cadver do rei Joo Ferreira continuou com o diabo no couro. Tal qual o Ras-putine do livro do prncipe Yussupof. Dava berros, roncava, mexia os braos, as pernas, a boca, a barriga. Para que se aquietasse, foi necessrio amarral-o a umas arvores, arrancar-lhe as tripas e vasar-lhe os miolos. O facto que nesse estado o encontrou e desenhou o padre Corra.
Eis ahi, resumidissima, a historia dos prodgios causados por D. Sebasto no nosso serto nordestino. E' um documento que servir para a historia do mysticismo sertanejo. Depois de meditar sobre elle, com-prehenderemos melhor o meio que cerca as figuras do Conselheiro e do padre Cicero, e essas prprias figuras.


coronelismo e cangaceirismo
A proteco a cangaceiros foi sempre praticada em grande escala pelos chefes polticos do interior do Nordeste, muito especialmente do Cear; e essa uma das razes por que os governos fracos tiveram de se submetter ao cangaceirismo e por que os governos fortes nunca puderam de todo acabar com elle.
As tentativas para esse effeito vm de muito longe, dos tempos coloniaes. J os governadores portugueses como Joo Carlos Oyenhausen e Grevenburg, que morreu marquez do Aracaty, e Luis da Motta Fo e Torres, no Cear, Amaro Joaquim, citado por Henry Koster, na Parahyba, e outros fizeram esforos para acabar com a praga sem que nada conseguissem. Isto mostra aos estudiosos que no prendendo e matando os cangaceiros meros effeitos que se por fim ao banditismo, sim combatendo suas causas. Naturalmente, durante os perodos de perseguio, os bandidos rareiam, acabando mesmo por desapparecer. Ao menor coxilo das autoridades, entretanto, surgiro de novo. E' necessrio apagar os fer-mentos que lhes do origem. E, infelizmente, esse


CORONELISMO E CANG ACEIRISMO
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problema complexo ainda no foi compreendido pelos estadistas do Nordeste...
Esquecendo que o banditismo somente morrer quando houver nos sertes justia, respeito autoridade, vias fceis de communicao, instruco, educao e trabalho organizado, elles nunca saram do circulo vicioso das perseguies aos bandidos em Estados isolados ou por accordo entre vrios Estados, sino uma vez e essa para deixar traado um dos mais curiosos documentos da vida poltica brasileira.
Foi em 1911. Alastrra-se o cangaceirismo pelu interior do Cear de maneira espantosa, apesar de no haver lutas polticas de grande vulto, pois todo o Estado modorrava sob a direco do velho commenda-dor Antnio Pinto Nogueira Accioly. Jos Dantas pe-rambulra durante uns quatro annos pelas ribeiras do Banabui, do Quixeramobim, do Salgado e do Ja-guaribe. Tres annos antes, vindo a cavallo da fazenda Cruxat para a estao de Jo, onde devia tomar o trem, encontrei-o e falei com elle, ao luar, vista da serra Azul. Aurora fora incendiada. E a rivalidade entre os chefes polticos do Cariri accendia aqui e alli pequeninas e ferocissimas guerras de clan.
Urgia acabar com aquillo. Recorreu-se ao poder centralizador do padre Cicero, e houve o seguinte:
Acta da sesso politica realizada na villa do Joaseiro do Padre Cicero, tudo como abaixo se v et coetera. Aos quatro dias do mez de outubro de mil novecentos e onze, nesta villa do Joaseiro do Padre


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Cicero, municpio do mesmo nome, comarca do Cra-to, no Pao da Cmara Municipal compareceram uma hora da tarde os seguintes chefes polticos: Coronel Antnio Joaquim de SanfAnna, chefe do municipio de Misso Velha; coronel Antnio Luis Alves Pequeno, chefe do municipio do Crato; reverendo Padre Cicero Romo Baptista, chefe do municipio do Joaseiro; coronel Pedro Silvino de Alencar, chefe do municipio do Araripe; coronel Romo Pereira Filgueira Sampaio, chefe do municipio do Jardim; coronel Roque Pereira de Alencar, chefe do municipio de SanfAnna do Cariry; coronel Antnio Mendes Bezerra, chefe do municipio do Assar; coronel Antnio Corra Lima, chefe do municipio de Vrzea Alegre; coronel Raymundo Bento de Souza Ballco, chefe do municipio de Campos Salles; reverendo padre Augusto Barbosa de Menezes, chefe do municipio de So Pedro do Crato; coronel Cndido Ribeiro Campos, chefe do municipio de Aurora; coronel Domingos Leite Furtado, chefe do municipio de Milagres, representado pelos illustres cidados coronel Manoel Furtado de Figueiredo e major Jos Ignacio de Souza; coronel Raymundo Cardoso dos Santos, chefe do municipio de Porteiras, representado pelo reverendo Padre Cicero Romo Baptista; coronel Gustavo Augusto de Lima, chefe do municipio de Lavras, representado por seu ifilho major Joo Augusto de Lima; coronel Joo Raymundo de Macedo, chefe do municipio de Barbalha, representado por seu filho major Jos Raymundo de Macedo e pelo juiz de direito daquella


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comarca doutor Amulpho Lins e Silva; coronel Joaquim Fernandes de Oliveira, chefe do municipio de Quixar, representado pelo illustre major Jos Alves Pimentel; e o coronei Manoel Ignacio de Lucena, chefe do municipio de Brejo dos Santos, representado pelo coronel Antnio Joaquim de SanfAnna. A convite deste, que, assumindo a presidncia da magna sesso, logo deixou-a, occupou-a o reverendo Padre Cicero Romo Baptista, para em seu nome declarar o motivo que aqui os reunia. Occupaa a presidncia pelo reverendo Padre Cicero Romo Baptista, fora chamado para seu secretario o major Pedro da Costa Nogueira, tabellio e escrivo da cidade de Milagres, que fambem se achava presente. Declarou o presidente que, acceitando a honrosa incumbncia confiada pelo seu presado e prestigioso amigo coronel Antnio Joaquim de SanfAnna, chefe de Misso Velha, e, traduzindo os sentimentos altamente patriticos do egrgio chefe poltico excellentissimo senhor doutor Antnio Pinto Nogueira Accioly, que sentia d'alma a discrdia existente entre alguns chefes polticos desta zona, propunha que, para desapparecer, por completo, essa hostilidade pessoal, e estabelecer-se definitivamente uma solidariedade politica entre todos, a bem da segurana do partido, os adversrios se reconciliassem, e ao mesmo tempo lavrassem todos um pacto de harmonia politica, Disse mais, para que ficasse gravado este grande feito na conscincia de todos e ,de cada um de per si, apresentava e sub-


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mettia discusso e approvao subsequente os seguintes artigos de f poltica:
Art. l. Nenhum chefe dispensar proteco a criminosos do seu municipio nem dar apoio aos dos municpios vizinhos; devendo, pelo contrario, ajudar na captura destes, de accordo com a moral e o direito.
Art. 2. Nenhum chefe hostilizar outro chefe seja qual fr a hypothese.
Art. 3. Havendo, em qualquer dos municpios, reaces ou mesmo tentativas contra o chefe official-mente reconhecido com o fim de depl-o ou de des-prestigial-o, nenhum dos chefes dos outros municpios intervir, nem consentir que os seus amigos intervenham, ajudando directa ou indirectamente aos autores da reaco.
Art. 4. Em casos taes, s podero intervir por ordem do governo, para manter o chefe e nunca para o depor.
Art. 5. Toda e qualquer desintelligencia entre os chefes presentes ser resolvida amigavelmente por um accordo; mas nunca por um accordo de tal ordem que o seu resultado seja a deposio, perda da autoridade ou da autonomia de um delles.
Art. 6. E, nessa hypothese, quando no puderem resolver, pelo facto da igualdade em votos de duas opinies, ouvir-se- o chefe supremo do partido, cuja ordem e deciso sero religiosamente obedecidas.
Art. 7. Cada chefe, a bem da ordem e da moral poltica, terminar, por completo, a proteco


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a cangaceiros, no podendo protegl-os nem consentir que os seus muncipes sob que pretexto fr os protejam, dando-lhes guarida ou apoio.
Art. 8. Manterem todos os chefes aqui presentes inquebrantavei solidariedade, no s pessoal como politica, de modo que haja harmonia de vistas entre todos, sendo, em qualquer emergncia, um por todos e todos por um, salvo em caso de desvio da disciplina partidria, quando algum dos chefes entenda de collocar-se contra a opinio e ordem do chefe do partido, o excellentissimo doutor Antnio Pinto Nogueira Accioly. Nesta ultima hypothese, cumpre ouvirem e executar as ordens de S. Ex. e secun-dal-o nos seus esforos para manter intacta a disciplina partidria.
Art. 9. Manterem todos os chefes incondicional solidariedade poltica com o excellentissimo senhor doutor Antnio Pinto Nogueira Accioly, nosso honrado chefe, e, como polticos disciplinados, obedecerem incondicionalmente suas ordens e determinaes.
Submettidos a votos, foram todos os referidos artigos approvados, propondo, unanimemente, todos que ficasse logo em vigor desde esta occasio (sic). Depois de approvados, o Padre Cicero, levantando-se, declarou que, sendo de alto alcance o facto estabelecido, propunha que fosse lavrado no livro de Actas desta municipalidade todo o occorrido, para ser por todos os chefes presentes assignado, e que se extra-hisse uma copia da referida acta para ser registrada nos Livros das municipalidades vizinhas, bem como


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para ser remettida ao excellentissimo senhor presidente do Estado, que dever ficar sciente de todas as resolues tomadas, o que foi feito por approvao de todos e por todos assignado. Eu, Pedro da Costa Nogueira, secretario, o escrevi. Padre Cicero Romo Baptista, Presidente; Antnio Luis Alves Pequeno, Antnio Joaquim de SanfAnna, Pedro Silvino de Alencar, Romo Pereira Filgueira Sampaio, Roque Pereira de Alencar, Antnio Mendes Bezerra, Antnio Corra Lima, Raymundo Bento de Sousa Ballco, Padre Augusto Barbosa de Menezes, Cndido Ribeiro Campos, Manoel Furtado de Figueiredo, Jos Ignacio de Souza, Joo Augusto Lima, Arnulpho Lins e Silva, Jos Raymundo de Macedo, Jos Alves Pimentcl. Est conforme ao original, ao qual me reporto e dou f. Villa do Joaseiro do Padre Cicero, em 23 de outubro de 1911. O Secretario: Pedro da Costa Nogueira.
Eis a famosa acta do Joaseiro, painel admirvel da politica sertaneja, nella melhor retratada do que num livro de estudo profundo: a sabujice, o incondicionalis-mo, os apoios de cheick a cheick, de cacique a cacique e de senhor feudal a senhor feudal, a proteco ao cangaceiro, guarda-costas e arma de terror. Tudo, emfim. Publicou-a o rgo official cearense do tempo, na primeira pagina, a A Republica, de Fortaleza, de 8 de novembro do mesmo anno, declarando-a de incontestvel valor e alcance poltico. E' longa e ma-ante, mas deve ficar registrada para no futuro os


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socilogos tirarem delia proveitosas illaes. Parece pilhria.
No merece maiores commentarios que os gry-phos que lhe puzemos de espao a espao. Alguns marcam nomes e carecem de explicao: assignalam a designao da capital do cangao, Joaseiro do Padre Cicero; o coronel SanfAnna, pae do secretario do Interior do governo Moreira da Rocha, doutor Ju-vencio SanfAnna; o padre Cicero, presidindo j a reunio de todos os coronis da zona dos cangaceiros; Pedro Silvino de Alencar, futuro here da revoluo jaguna de 1914, comparsa de Floro Bartholo-meu e commandante da policia na interveno federal do ento coronel Setembrino de Carvalho; outro sacerdote, o reverendo Augusto Barbosa; o coronel Gustavo Lima, potentado famanaz, que devia morrer assassinado por uma reaco; e um Juiz de Direito!!!
Esse notvel documento dos costumes polticos e da organizao social duma poca, no Cear, ensina-nos claramente que, no serto, o cangaceiro existe em funco do coronel e o coronel domina em funco do cangaceiro. Combata-se o coronelismo e se estar trabalhando para a extinco do canga-ceirismo.
oio


padre pedro
Na spera vida dos sertes de Nordeste, em que o melhor das energias dos habitantes, pela falta inconsciente dos governos, se vae perder no banditismo ou na emigrao, pois que o abandono em que vivem completo, o sacerdote exerce funces que saem muitas vezes fora dos limites traados pelos deveres religiosos.
Nessa sociedade rudimentar, retardada, o padre quasi sempre um centralizador de foras, de ideaes, de inclinaes. A justia est nas mos dos poderosos. A fora vence o direito. No ha assistncia de servios pblicos, no ha instruco e no ha prophy-laxia. Agricultura e commercio arrastam-se atrazados, acabrunhados pelos impostos excessivos. A poltica serve somente para perseguies pessoaes, ajudada pela policia. E o bacamarte erige-se em defensor, em vingador e em justiceiro. Ora, nessas condies da vida, a nica coisa que ainda fala alma rude e atribulada dos sertanejos a religio, embora deformada pelo fanatismo resultante da ignorncia.
Desta sorte, o vigrio da freguezia representa a autoridade mais estvel e, espiritualmente, mais for-


O HORTO JOASEIRO Paredes da grande igreja mandada levantar pelo Padre Cicero e at hoje ainda no concluda.


PADRE PEDRO
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te. Esse poder de centralizao pde ser habilmente desenvolvido. Dahi a extenso a que chegou, em varias localidades do Cariri, no Cear, com o padre Pinto e o padre Cicero.
Esses homens so fatalmente necessrios ao serto. Num meio dominado pela anarchia, qualquer desses padres representa uma base, um poder central, uma influencia at certo ponto moderadora, uma autoridade moral onde no ha nenhuma. E, si fanati-zam, si exploram, a culpa no cabe populao sertaneja, que carece de escolas, de hygiene, de agua, de vias de communicao; porm aos governos esta-doaes e ao seu supremo mentor o governo geral ou federal.
Entretanto, muitas vezes o padre levado de roldo pela anarchia circumdante e torna-se de um momento para outro cangaceiro ou chefe de cangaceiros. So innumeros os exemplos na sangrenta historia dos sertes nordestinos.
Um dos mais interessantes o do celebre padre Pedro, que deixou fama imperecivel em Pernambuco, no comeo do sculo passado. Fala delle Henry Kos-ter no seu curioso livro de viagens.
Residia a mais ou menos vinte lguas do Recife. Nesse tempo, 1809 a 1815, essas vinte lguas representavam, em relao civilizao littoraneana do Brasil, duzentas de hoje. O caso do padre Pedro passou-se a vinte lguas duma capitai martima. Actual-mente, factos idnticos occorrem, quando muito, a duzentas. A differena para um sculo no grande.
il G. Barrozo Almas de lama e de ao.


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ALMAS DE LAMA E DE AO
A casa do sacerdote elevava-se, como quasi todas as da sua espcie no serto, no alto dum comoro, tendo longa e larga vista sobre as plancies circumjacen-tes, cobertas de catingas ralas, de capoeiras, de car-rasces e de carnahubes. Seu proprietrio era o chefe incontestado da redondeza. Acolhia na sua fazenda todos os perseguidos. Direito feudal de asylo. Foi assim que Roma nasceu, que Palmares e Canudos se formaram e que o Joaseiro do Cariry se transformou em Joaseiro do Padre Cicero com a densa populao que hoje tem.
Padre Pedro acolhia todos os que o procuravam, menos os ladres. Esse trao no raro no banditismo daquellas regies, antes pelo contrario commum e pinta o fundo honesto da alma dos obscuros heres do cangao. 0 cangaceiro sempre assassino e raramente ladro. Porque commette o primeiro crime para defender-se ou vingar-se, pois a justia official no existe e, quando existe, est to desmoralizada pelos exemplos anteriores de arbitrariedades e infmias que ningum acredita mais nella.
Cercavam ti CclScl do padre Pedro matos espi-nhentos, vrzeas desertas onde se cruzavam e recru-zavam veredas torcicollosas, formando verdadeiro la-byrintho; e, consoante o expressivo falar sertanejo, cada estaca da cerca dos curres era um homem armado.
Accusado perante o governador colonial do Recife de dar guarida a criminosos e chamado por elle,


PADRE PEDRO
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veio capital defender-se. Trouxe como escolta uma dzia de seus melhores cabras. Deixou-os de trabuco em punho porta do pao governamental e subio as escadas sosinho, ordenando-lhes no deixassem subir ningum depois delle.
Apresentou-se autoridade respeitosamente, de chapo na mo. O representante de D. Joo VI queixou-se do seu procedimento fora da lei, lamentando que um ministro de Jesus Christo se fizesse acolhedor de facnoras. Respondeu com altivez:
O senhor conhece o serto e sua vida to bem como eu. No tenho culpa dessa vida ser barbara como . No a fiz. Encontrei-a e vivo de accordo com o logar onde o destino me pz. E' intil mandar chamar-me para conversar sobre esse assumpto.
Deu as costas ao governador e saio sobranceiro. Juntou-se ao seu grupo armado e partio para a fazenda, onde, em redor da casa, corriam os seus ces de gado, molossos ferozes, que valiam, affirmava a voz do povo, outros tantos cangaceiros. E continuou sua vida barbara, mandando atrelar bolandeira e ao engenho de canna, como muares, os officiaes de justia que caam na asneira de vir cital-o e os comman-dantes dos destacamentos que vinham sitial-o e que desbaratava.
E ha mais de um sculo, infelizmente, energias dessa ordem, caracteres assim fortes e audazes, energias e caracteres que produziram os heres das bandeiras bahianas, da guerra hollandsa, das lutas do


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Equador, dos balaios e dos quebra-kilos se perdem no nosso serto por simples culpa dos governos que os no tm sabido aproveitar, encaminhando-os para o bem e salvando-os do mal.
Quando se lembram delles para armal-os e usal-os em criminosas aventuras polticas...
ofo


um cangaceiro colonial
A luta entre os Montes e Feitosas, no serto cearense, similhante s guerras que se faziam na Itlia medieval Montecchi e Capuletti, ou na Argentina, ha quasi cem annos, Ocampos e Davilas, durou longo tempo. Comeada quando o Brasil ainda dormitava entre os braos sugadores da metrpole, somente se acabou muitos annos depois de constituda a nao.
Os Feitosas, segundo nos conta Koster, no seu interessantssimo livro, tinham attingido a tal poderio pela sua riqueza em gados e fazendas, no interior rio Cear e do Piauhy, que entendiam no obedecer a lei alguma e se tinham constitudo, fendalmente, em senhores de alta e baixa justia.
Seu chefe ostensivo, ahi por 1808, era o coronel Manoel Martins, que dominava Villa Nova e matara, segundo o affirma Joo Brigido, o juiz ordinrio Barbosa. Southey aponta-o como coronel das Ordenanas, espcie de cavallaria da Guarda Nacional da poca, no termo ou comarca onde residia.
Foi por esse tempo governar o Cear um rapaz de menos de vinte annos, mas em quem j amadurece-


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ra esse espirito de coragem calma, de tolerncia e de justia que o apangio dos homens de Estado de nascena e jamais florio naquelles que se julgam estadistas e s a ironia do destino guia s supremas magistraturas. Era um fidalgo portugus de origem hol-landsa ou germnica, que se dizia ser afilhado de D. Maria I. Chamava-se Joo Carlos de Oyenhausen e Grevenburgo, servio a Portugal e ao Brasil, figu-gurou nas lutas da Independncia e recebeu do primeiro imperante o titulo de marquez do Aracaty. Governou o Cear e S. Paulo, foi capito-general de Matto Grosso e, de volta ao servio portugus, morreu administrando a colnia de Moambique.
Esse adolescente 'trazia difficil misso do governo lusitano. Devia prender o potentado sertanejo Manoel Martins, contra o qual at ento tinham sido improficuos todos os esforos das autoridades locaes.
Henry Koster, que esteve em Fortaleza durante o governo de Luis Barba Alardo de Menezes, imme-diato successor ,de Oyenhausen e Grevenburgo, colli-gio da tradio oral, ainda muito fresca, o que sobre elle narrou. Koster seguira do Aracaty para a capital munido de cartas de recommendao, segundo confessa, do meu tio-av Fidelis Barrozo, intitulado pela sua altura Pau da Cruz, de quem fora hospede na-quella cidade. Essas cartas permittiram que freqentasse as melhores rodas da sede do governo, sendo o seu testemunho de alta valia. Foi do seu livro que Southey tirou todas as notas sobre os Feitosas que


UM CANGACEIRO COLONIAL
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esto no sexto volume de sua Historia do Brasil.
Vendo que pela fora seria impossvel apoderar-se do chefe dos Feitosas, Joo Carlos recorreu as-tucia. Mandou dizer a Manoel Martins que ia visi-tal-o e desejava passar em revista a sua companhia de Ordenanas. Esta compunha-se de mais de cem homens bem armados, assassinos e desertores asy-lados no solar feudal sertanejo, onde s se negava agasalho aos ladres e violadores de mulheres.
No dia marcado, o governador apresentou-se em casa do coronel, acompanhado somente por uma dzia de homens. Passou a gente da Ordenana em revista e fatigou-a em exercidos durante muitas horas, ao sol ardente do serto. Quando os cavalleiros receberam ordem de debandar, estavam exhaustos.
Caa a noite. Joo Carlos de Oyenhausen e Grevenburgo penetrou com seus companheiros na casa do grande cangaceiro, como hospede. De sbito, porm, arrancou a pistola do cinto, pl-a ao peito do outro e deu-lhe voz de priso em nome d'El Rei. Seus officiaes e ordenanas surpreendiam e amarravam as restantes pessoas da casa: servos e parentes. Ningum pde dar alarme. Si pronunciassem uma palavra, seriam mortos.
O governador e sua escolta, levando os presos ajoujados, montaram mais que depressa a cavallo e galoparam a noite inteira para a costa. Ao amanhecer, avistaram o mar. Um navio, ancorado naquel-las paragens de propsito e com grande antecedncia, balouava-se flor das vagas verdes.


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Puzeram Manoel Martins numa jangada e esta o levou para bordo. Mal encostava ao navio, appare-ciam as Ordenanas sertanejas, reunidas pelos parentes e amigos do chefe prisioneiro que conseguiram escapar priso, noite, desconfiando do que se passava, ou no encontraram de manh cedo o coronel e seus hospedes na casa vasia. Chegavam tarde. Sof-frearam os cavallos resfolegantes e suarentos na espuma das ondas, brandiram os bacamartes inteis, apertaram nervosamente os punhos dos terados e das facas. O terral soprava fresco e as velas brancas diminuam no azul do co.
Chegando a Lisboa, Manoel Martins foi mettido no Limoeiro. 0 cangaceiro cearense, acostumado canicula terrvel das vrzeas e liberdade immensa dos carnahubes e das catingas, homem que se crera a cavallo a perseguir gado e gente, em vaqueijadas e em pugnas medonhas, comeou a apodrecer numa masmorra do outro lado do Atlntico, to longe do seu torro natal.
Ningum sabe como acabou seus dias. Tanto Koster como Southey no nos contam com segurana o fim do potentado sertanejo, limitam-se a repetir duas verses que correram a seu respeito: para uns, morrera de misria physica e moral no lobrego Limoeiro; para outros, os franceses de Junot, quando tomaram Lisboa, o puzeram em liberdade.
0 certo que nunca mais voltou terra que o vira nascer. Porem a luta entre sua famlia e a dos


UM CANGACEIRO COLONIAL
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Montes proseguio .quasi sem trguas ainda por espao de meio sculo.
O estratagema pouco honroso de Oyenhausen acabara com um dos effeitos ou productos do cangacei-rismo, no removera nenhuma de suas causas e, em-quanto estas duraram, a guerra de clan continuou.
do


os caxeados, avs do cangaceiros
Em Fortaleza, capital do Cear, a rua de Baixo que j se chamou Conde d'Eu e Senna Madureira e hoje no sei mais que nome tem, acompanha o curso do riacho Pageh e talvez a mais antiga da cidade. Ainda ha um anno, quando a vi pela ultima vez, sua edificao, entre o palcio do governo e a s, conservava o aspecto colonial e, junto do mercado de farinha, existia alto muro com dois largos portes de madeira. Si por acaso elles se abriam, avistavam-se duas rampas empedradas que davam accesso a um terrao sobre o qual se erguia um casaro quadrado, de biqueira. Fora, no sculo XVIII, o pao dos ca-pites-mres ou governadores do Cear grande.
No anno da Graa de 1782, residio alli o tenente-coronel de infantaria portuguesa Joo Baptista de Azevedo Coutinho de Montaury, que veio mais tarde, com D. Joo VI, para o Brasil, no alto posto de marechal. Como a maioria dos officiaes superiores da poca, era um sargento e resolvia despoicamente todos os casos submettidos ao seu rude julgamento, mesmo os que estavam fora de sua alada.


OS CAXEADOS, AVS DOS CANGACEIROS
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Os antigos cangaceiros do Nordeste tinham o habito, que se prolongou at bem pouco tempo, de usar como distinctivo profissional, signal de valentia e fereza, uma longa melena sobre a testa, que, frisada naturalmente pela mestiagem, se enrolava, formando uma trunfa ou topete. E dahi talvez venham as expresses ter topete e ser topetuo, indicadoras de audcia.
Quando o possuidor da mexa estava de chapo cabea, ningum a via; porem, logo que o tirava ou o derreava para traz, ella apparecia. E nenhuma pessoa se atrevia a tirar o menor paluxio para as bandas dum desses typos. Nesse tempo, no se chamavam jagunos nem cangaceiros os cabras fama-nazes e os bandidos: eram os caxeados.
Em fins do sculo XVIII, elles enchiam o Cear. Invadiam mesmo o littoral. Coutinho de Montaury, que residira algum tempo na villa do Aquiraz, a qual ainda disputava villa do Forte, hoje Fortaleza, a hegemonia administrativa e social, tinha profunda oge-risa aos caxeados e fazia-lhes guerra de morte.
Na tal residncia da rua de Baixo, debruava-se pela manh no muro que dava para a via publica e punha-se a observar a gente que ia para a antiga Praa do Conselho, depois, da S. Mal dava com um cabra de chapo descido para a nuca e caxo bam-boleando no meio da testa, gritava aos soldados da guarda:
Pegai


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Quatro ou cinco milicianos seguravam o valento e traziam-no presena temivel do dspota. Com um safano, o cabo de esquadra atirava-lhe o chapo de couro ou de casco de peba ao cho. O caxo fluctuava livre. E o capito-mr ordenava:
Sargento, corte a trunfa deste no sei que diga! O inferior arrancava o amolado chilfarote da
bainha e decepava o attributo capillar do famanaz. Os soldados desarmavam-no e soltavam-no. Montaury bradava :
V embora, cabra! E, cuidado! no deixe crescer outra trunfa!
Depois de umas seis ou oito dessas execues, nenhum caxeado quiz mais passar, ostentando topete, pelas immediaes d do governador. Como precisassem ir Praa, escondiam cuidadosamente sob o chapo a gaforinha implicante. O capito-mr notou que os caxos tinham desapparecido. Raramente acontecia poder decepar a trunfa dum cabra chegado de fora e ignorante do odio official quelle sym-bolo de bravura. Estavam roubando o melhor prazer que frua no seu posto de tyrannete colonial duma capitania pobre e distante. Deu o cavaco e, certo de que os caxos continuavam a vicejar occultos, mandou fazer um servio de espionagem.
Poucos dias mais e foi informado que a cabroei-ra passava diariamente pela sua casa de trunfa escondida no chapo. Ento, na manh seguinte, gritou do alto do muro ao primeiro cabra suspeito que se dirigia feira:


OS CAXEADOS, AVS DOS CANGACEIROS
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Pare ahi!
0 homem estacou respeitoso, intimidado. E elle, uelif luo:
Por que no tira o chapo para dar bom dia ou pedir a beno ao capito-mr, representante de El Rei Nosso Senhor?
O cearense descobriu-se e o caxo esvoaou sobre a testa brunida pelo sol. O governador bradou guarda de milicianos:
Pega!
E ao sargento:
Corte-lhe a trunfa!
Desde esse dia at deixar o governo da capitania e recolher-se a Lisboa, Montaury obrigou todos os homens de cor, que pela manh se dirigiam ao mercado, tanto no Aquiraz como em Fortaleza, conforme residisse numa ou na outra villa, a se desbarre-tarem deante do pao do governo, estivesse elle, ou no, debruado sobre o muro, ou na janella. E o sargento decepava de um golpe de terado os topetes cangaceires.
Foi, assim, o tenente-coronel portugus, no Cear, um verdadeiro Gessler, embora com um fim mais nobre o de extirpar um mal da sociedade. Infelizmente, seu espirito de vo curto no attingia as razes sociolgicas daquelles caxos. Somente via os effeitos. No meditava sobre as causas. Pensava acabar com os primeiros sem extirpar as segundas. Os modernos governadores do Nordeste, em matria de


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combate ao cangaceirismo, no esto mais adean-tados.
Eriando-se de raiva contra os caxos dos sertanejos e praieiros valentes, o sargento luso obedecia ao instincto burgus de receio ante todo e qualquer symbolo de orgulho, liberdade e desordem. Peladan traa essa psychologia, admiravelmente, num pequeno perodo do romance La Lieorne: En face de Vllure bohme, le bourgeois prouve un plaisir; il se croit brav par les longs cheveux comme les Bour-bons e Naples estimaient 1'tre par les longues barbes; et ne pouvant mner le chevelu chez le barbier entre eux gendarmes comme ces sinistres roitlets m-naient le barbn, ils hrissent de malveillance.
Uma anecdota sobre Montaury, narrada por Joo Brigido, serve para terminar o retrato desse figuro dos nossos bons velhos tempos. Queixou-se-lhe um caminheiro que certo negociante se negava a pagar-lhe uma viagem ao serto do Piahuy, que fizera por sua conta. Chamado presena do capito-mr, disse o ultimo que o outro fora a uma cobrana e, no a tendo effectuado, elle nada lhe devia. Retrucou o queixoso que se no responsabilizara e nem se podia ter responsabilizado pelo xito. Montaury concluio, dirigindo-se ao negociante.
Pague e pague j!
Mas eu no trouxe dinheiro commigo, sr. governador...


OS CAXEADOS, AVS DOS CANGACEIROS
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O dspota abrio uma gaveta e tirou a quantia necessria.
Aqui tem o dinheiro, disse. Eu lh'o empresto. Mau humorado, o commerciante deu as moedas
ao caminheiro com estas palavras:
Tome l pelo amor de Deus! Cumprimentou o capito-mr e ia retirar-se, quan-
este falou, de mansinho:
Ento, vae embora sem pagar ao homem?
Eu j paguei!
No. Voc deu aquelle dinheiro pelo amor de Deus. Empresto-lhe outra vez a mesma quantia. Pague ao homem.
O negociante voltou-se para o caminheiro:
Tome l o seu pagamento.
E saio, vendendo azeite s canadas. Em chegando casa, mandou logo reembolsar o senhor governador. E que o no fizesse, commenta Joo Brigido.
Montaury, sem duvida, era um bruto, mas tinha o sentimento da justia e o amor da ordem. E' o que se concle ,de sua chronica ainda hoje guardada na tradio oral do Cear.
Desde o seu tempo, os administradores daquel-las paragens procuram combater os caxeados, os jagunos, os cangaceiros, sem resultados apreciveis. Porque perdem o tempo em decepar caxos, que so frutos, deixando intactas todas as raizes da arvore do mal: injustia, insegurana, falta de trabalho organizado, coronelismo, politiqueira.


OBRAS DE GUSTAVO BARROZO
1 Terra de Sol Natureza e costumes do Norte B. de Aguila Porto 1912 e 1913 Livraria Alves Rio 1928
3.a edio.
2 A Balata Monographia Publicao official Rio 1913
Esgotada.
J 3 Praias e Vrzeas Contos do littoral e do serto Livraria
Alves Rio 1915 Esgotado. -J 4 Heroes e Bandidos Os cangaceiros do Nordeste Livraria
Alves Rio 1917 Esgotado, las e Palavras Artigos e chronicas Leite Ribeiro
Rio 1917 Esgotado.
6 Tradies Militares Conferncia Publicao official Rio 1918 Esgotado.
7 Tratado de Paz Traduco Leite Ribeiro Rio 1919
Esgotado.
8 A Ronda dos Sculos Contos Leite Ribeiro Rio 1920 2.a edio Esgotado.
9 Fausto (de Goethe) Traduco Garnier Paris 192U
4. milheiro.
10 Lies de Moral (de Jahrac) Adaptao Garnier Paris 1920 9. milheiro.
11 Vocabulrio das Crianas (de Fournier) Traduco Garnier Paris 1920 7. milheiro.
12 Casa de Maribondos Anecdotario cearense Monteiro Lobato So Paulo 1921 Esgotado.
13 Mosquita Muerta Novella La Novela Semanal Buenos \ Aires 1921 Esgotada.
~\14 Ao som da viola Folk-lore nordestino Leite Ribeiro Rio 1921 3. milheiro.
15 Corao da Europa Geographia e historia Castilho Rio 1922 Esgotado.
16 Mula sem Cabea Novellas Monteiro Lobato So Paulo 1922 Esgotada.
17 Pergaminhos Contos medievaes Illustraes a cores de Corra Dias Briguiet Paris 1922 Edio de luxo
Tiragem limitada a 225 exemplares numerados.


G OBRAS DU GUSTAVO BARROZO
18 Uniformes do Exercito (1722 a 1922) Historia Illustra-es a cores de J. Washt Rodrigues Publicao official commemorativa do Centenrio Ferroud Paris 1922 Esgotada.
19 Antes do Bolchevismo Novella Jornal do Brasil Rio 1923 Esgotada.
20 Intelligencia das Coisas Ensaios Annuario do Brasil Rio 1923 2. milheiro.
21 Alma Sertaneja Contos Costallat e Miccolis Rio 1923 3. milheiro.
^22 O Serto e o mundo Folk-lore comparado Leite Ribeiro Rio 1923 3. milheiro.
23 Discurso de Recepo Annuario do Brasil Rio 1924 Esgotado.
24 Mapirunga Novella Traduco inglesa de Cunnighame Graham Heinemann Londres 1924 Esgotada.
25 En el tiempo de los Zares Novella La Novela Semanal \ Buenos Aires 1924 Esgotada.
i 26 Livro dos Milagres Contos Livraria Alves Rio 1924
2.3' edio.
27 Comdias e Provrbios (de Musset) Traduco Garnier
Paris 1924 3. milheiro.
28 O Annel das Maravilhas Conto para crianas Figuras do' autor Pimenta de Mello Rio 1924 3. milheiro.
29 Catalogo Geral do Museu Histrico Nacional Archeologia e historia Publicao official Rio 1924.
30 Ramo de Oliveira Conferncia da Paz e viagens Annuario do Brasil Rio 1925 Esgotado.
31 Tio do Inferno Romance brbaro Miccolis Rio 1926 Esgotado.
b, 32 Atravs dos Folk-lores Folk-Lore comparado Cia. Melhoramentos de So Paulo So Paulo 1927.
33 Aplogos Orientaes Adaptao para meninos idem 1928.
34 A Guerra do Lopez Contos e episdios da campanha do Paraguai Cia. Editora Nacional So Paulo 1928 3. edio 13. milheiro.
35 A Guerra do Flores Contos e episdios da campanha do Uruguai (1864) idem 2.a edio.
36 A Guerra do Rosas Contos e episdios da campanha do Uruguai e Argentina (1851-2), idem 6. milheiro.
37 A Guerra do Vido Contos e episdios da campanha do Uruguai e Argentina (1825-1827), idem.
38 Almas de Lama e de' Ao Lampeo e outros Cangaceiros
Cia. Melhoramentos de So Paulo So Paulo 1930.


os cabras do quixeramobim
Perto davilla do Teixeira, no alto serto da Parabi-ba, residia em meados do sculo passado um velho fazendeiro chamado Bernardo de Carvalho, pae de muitos filhos, todos elles valentaos e briguentos, sobretudo um, que era mesmo cangaceiro de profisso, o Antnio Thomaz. No seu curioso livro 0 Cear, Joo Brigido dedica-lhe algumas paginas e diz, sem duvida por engano ou m informao, que era do Pianc e exercia seu mister no sul da minha terra, no Jardim.
Todos os que hoje em dia lm consecutivamente nos jornaes noticias das incurses e excurses de Lampeo nos sertes de Nordeste facilmente compreendem que esse Antnio Thomaz devia andar de longada e de arrancada por aqui e por alli, de maneira a facilmente occorrer que fosse de logar bem diverso daquelle de que realmente era.
Possua Antnio Thomaz alguns acostados ;de confiana, na maioria seus escravos. Ainda no foi feita a historia da escravido no nosso paiz. Quando a fizerem, um dos captulos mais interessantes ser o da applicao do escravo nos mais inesperados offi-


OS CABRAS 1)0 QUIXERAMOBIM
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cios. Houve capites de navios de vela que os tripulavam com seus negros e houve bandidos cujos companheiros eram seus servos.
Decerto numa de suas arrancadas pelo sul do Cear, fugio um dos negros de Antnio Thomaz. Dizem que no Ic tentou raptar uma moa, ou a raptou. Perseguido, rumou em direco a Quixeramobim. No caminho dessa villa, o encontrou um rapaz da mesma. Julgou-o negro fugido e prendeu-o, o que era nesse tempo dever elementar de quem suspeitasse de qualquer escravo e, ao mesmo tempo, negocio, porque sempre se recebia uma ba gratificao.
Leiamos o que Joo Brigido diz a respeito: Bem amarrado o fugitivo a um esteio da casa do engenho (no sitio Tanques), alli mesmo o incauto capito-de-campo se tinha posto a dormir. Alta noite, o preso abrio ns corda e, antes de se pr novamente em fuga, matou o seu conductor com a sua mesma faca.
Puzeram-se-lhe no encalo os irmos e parentes do morto. De novo o agarraram. Deram-lhe uma surra de arrancar couro e cabello. Trouxeram-no para
0 Quixeramobim e metteram-no no tronco. De toda essa historia ha um relato, de certos pontos de vista mais completo e fiel que o de Joo Brigido, num folheto de cordel ha poucos annos publicado na Para-hyba por pessoa sabedora da vida nordestina, intitulado A Familia terrivel e referente s lutas de clan no municipio parahybano do Teixeira.
1 G. Barrozo Almas do lama e do ao.


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ALMAS D15 LAMA E DE AO
Havia dias j que estava preso o negro de Antnio Thomaz, quando este entra ostensivamente com o seu squito pelas ruas da villa a dentro, Trazia cartas de apresentao e empenho1 dos chefes polticos do Jardim e outros povoados para as autoridades locaes. Vede bem que as entradas e sadas livres de Lampeo nas cidades sertanejas no so novidade, mas plagio do passado. Apesar dos dez sequazes que o seguiam e das cartas, a gente do Quixeramobim recusou-se ter-minantemente a entregar o criminoso.
Diz Joo Brigido que o bandido parahybano subornou a guarda da cadeia. Diz o folheto citado que elle a forou e tomou o preso, passando sobre cadveres. O facto que o levou comsgo. Devia ter ganho distancia e logo procurado alcanar as fronteiras da Parahyba; mas, fanfarro e blasonador, entendeu de fazer pouco caso dos cabras da terra. Limitou-se a transpor o rio e passou a noite inteira, na outra margem, luz de fogueiras, no pateo duma casa suspeita, tocando viola, bebendo caxaa, dansando o cateret e o bahiano, sambando emfim. Pela madrugada, mandou sellar os cavallos. Partiram.
Montado, brandindo a longa faca, Antnio Thomaz bravateou:
Venham, cabras do Quixeramobim, tomar o preso. Eu tenho .uma sovla para fazer um rosrio das orelhas dos que tiverem a audcia de vir atraz de mim!
Na primeira encruzilhada, mandou que todos pa-


OS CABRAS DO QUIXERAMOBIM
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rassem, fez o negro que libertara despir as ceroulas encardidas que vestia, e disse:
No quero que os cabras do Quixeramobim, si me perseguirem, errem o caminho. Vou deixar-lhes aqui um signal de pouco caso...
E ordenou que um dos asseclas estendesse aquel-la pea de roupa num galho rasteiro de arbusto, com os fundilhos voltados para a villa, por escarneo.
Foi o que o perdeu.
A gente do Quixeramobim no tinha medo de caretas e a psychologia de suas vindictas se poderia definir com estes versos antigos duma cano herica sertaneja:
Minha cunhada, no chore que vou vingar meu irmo. Si foi homem que o matou, vou acabar-lhe a gerao, no hei de deixar em p nem um menino pago!
Com o sol alto, Antnio Thomaz arranchou-se numa casa beira da estrada. Emquanto todos repousavam, o tal negro ficou de sentinella. De repente, ouve tropl de cavallos, v a poeirada que levantam e grita para dentro da casa:
Meu senhor, os cabras do Quixeramobim!
Corre a malta s armas e recebe a tiros os perseguidores. Eram os parentes do rapaz que o escravo matara, as autoridades da villa e alguns soldados.


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ALMAS DE LAMA E DE AO
Os cangaceiros entrincheiram-se na habitao e num cercado de pau a pique que a ladeava. Os cabras cercam-nos por todos os lados. TL comea uma luta feroz!
Escreve Joo Brigido: 0 negro, o senhor e os guarda-costas eram uns bravos, alem disto estavam no perodo de superexcitao que succede a uma noite de aguardente. Os cabras do Quixeramobim, porem, no .lhes cediam em ardimento. 0 folheto de cordel usa esta simples expresso: Selvagens contra selvagens I
As armas de fogo nesse tempo, 1843, bacamartes, trabucos e lacambxes de pederneira, no permittiam continuado tiroteio, de maneira que esses brbaros dentro de poucos minutos vieram s mos, de facas em punho. Na misturada, foi morto o negro que occa-sionra todos esses percalos. Uma coronhada rebentou-lhe a caixa craneana e os miolos vasaram pelo cho. Mais dois sequazes tombaram mortos. Os restantes, feridos ou no, fugiram em debandada. 0 insolente Antnio Thomaz fez js a sua reputao. Combateu como uma fera e no se entregou.
Esfaqueado, gotejando sangue, elle recuava, fazendo sempre frente aos que o assaltavam, procurando alcanar uma das paredes da casa, afim de ter as costas defendidas, quando o subdelegado do Quixeramobim lhe gritou:
Entregue-se! Largue as armas!
Fez que sim com a cabea e deixou cair das mos o bca-de-sino. Um dos cabras approximou-se; porem elle apanhou a arma dum salto e com ella


OS CABRAS DO QUIXERAMOBIM
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desfechou to terrvel pancada na cabea do inimigo que o derrubou morto. Antnio Thomaz conseguio dar ainda alguns passos e foi encostar-se a um dos caval-los de sua gente, que estava amarrado a uma forquilha do rancho. Alli todos os cercaram e o crivaram de facadas. Elle morreu de p, encostado ao animal!
Terminou dessa maneira aquella luta de onas. Os cadveres ficaram entregues aos urubus. E os cabras regressaram ao Quixeramobim, victoriosos, trazendo em duas redes um morto e um ferido, mas tambm carregados com a matalotagem, as armas e tudo quanto possuam os inimigos. Antnio Thomaz levava algumas malas de pregaria doirada, cheias de fazendas e dinheiro, producto de suas rapinagens e de sua prpria fortuna pessoal. Os cabras da villa indemnizaram-se com esse legitimo botim da affron-ta dos fundilhos da ceroula...
Assim se matava e se morria ha meio sculo, escreveu Joo Brigido em 1899. Acreditaes que o serto mudou? Parece-me que no ou que muito pouco. 0 que se passa no Nordeste, actualmente, em matria de banditismo, ensina-me que alli ainda se mata e se morre assim. E triste que at hoje tanta energia se v perder no crime, por mera culpa dos governos que se no resolvem a encarar pelo seu verdadeiro prisma o importante problema do banditismo, aproveitando para o bem! a fora rude, barbara, mas espontnea e sincera, dessas almas primitivas.


policiaes e cangaceiros
Rpido estudo do banditismo na regio nordestina demonstra que uma das melhores fabricas de cangaceiros so as policias estadoaes, na maioria compostas de egressos do crime, nas fileiras, e de homens broncos, cruis ou adstricos s politiquices locaes, nos commandos.
O sertanejo detesta o policial. V nelle o seu maior inimigo. Appellida-o caximbo, macaco, pito,ma-ta-caxorro. Emquanto o bandido, muitas vezes de fundo romntico, quixotesco, saqueia o rico e distribue o que tem com o pobre, o soldado de policia persegue o pobre e ajuda o rico, o chefo das villas e cidades, nas suas vinganas e tyrannias. Alm disso, como mercenrio, falta-lhe mesmo a coragem, o dendo cangaceiral que as canes popularizam e a alma do povo compreende e admira commovida.
Numa gesta parahybana, pela boca de Antnio Silvino o cantor matuto aponta a falta de justia dos sertes e as barbaridades policiaes duas das maiores fabricas de cangaceiros:


POLICIAES E CANGACEIROS
B
No bacamarte eu achei leis que decidem questo, que fazem melhor processo do que qualquer escrivo...
Meu pae fez diversas mortes, porem no era bandido: matava em defesa prpria, quando se via aggredido, pois nunca guardou desfeita e morreu por atrevido.
No tiroteio, os soldados seis cangaceiros mataram e pegaram nove s mos, que tambm assassinaram: como se sangram animaes, elles aos homens sangraram I
Eis abi o bacamarte substituindo a justia, o amor prprio medieval levando ao crime e os processos odiosos das policias accendendo as fogueiras dos dios inextinguiveis.
A crueldade policial no Nordeste velhssima. Koster j nos conta que, em 1819 mais ou menos, uma autoridade matuta mandava buscar as cabeas dos indivduos que devia prender! O professor Ximenes de Arago narra 'nas suas Memrias que um tal Andrade, juiz na Uruburetama, Cear, em 1824, fusilava pessoalmente os presos. Para os quebra-kilos aprisionados, havia os colletes de couro molhado que se


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ALMAS DE LAMA E DE AO
lhes cosiam por cima dos braos. Isto em meados do ultimo sculo. Ao sol, aquella camisa de fora en-gilhava-se, encolhia;se, (tolhia a respirao. Os homens deixavam-se cair sem flego. Tangiam-nos a pu e a rlho 1
Liberato Nobrega, delegado de policia do Teixeira, na Parahyba, acabou sendo terrvel cangaceiro. Um dos celebres bandoleiros parahybanos do grupo dos Guabirabas, Joo, morreu apunhalado pelos policias que o capturaram. Em 1873, perecia com as armas na mo o celebrado cangaceiro Jos Brilhante, perseguindo uma quadrilha de ladres de ca-vallo, cujo chefe era o delegado de policia do logar!
Em 1877, a policia parahybana atacou a fazenda do pae de Jesuino Brilhante, para servir a fins politicos, matou-lhe a tiro o irmo Lcio Alves, deu uma surra de coronha de espingarda na mulher do mesmo, invadio a casa, damnificou os moveis, roubou o que pde e levou o velho e outro filho presos, maltratando-os at os atirar na cadeia da cidade de Pombal.
Em mil oitocentos e oitenta e tantos, Athayde, delegado de policia no interior do Piauhi, mandava aoitar pelos soldados do destacamento a panno de sabre, deante da casa da namorada deste, um rapaz que lhe cara no desagrado.
Foi um subdelegado de policia quem assassinou, em Janeiro de 1896, Baptisto, pae de Antnio Sil-


POLICIAS E CANGACEIROS
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vino. Como o governo no punio esse homicida, o filho recorreu ao bacamarte e se fez cangaceiro.
Quando Secretario de Estado, no Cear, vi de perto um hatalho de policia constitudo por quatrocentos jagunos da peor espcie, que matavam pessoas pacificas nas ruas daquella capital, como o velho negociante Jos Arthur de Vasconcellos, batalho que o governo de que eu fazia parte teve de dissolver, porque era uma vergonha e uma ameaa constante ordem publica.
No ha muitos annos, na luta entre Carvalhos e Pereiras, no serto pernambucano, um official de policia, partidrio dos primeiros, surpreendeu na estrada de Belmonte o joven Sebastio Pereira, rapaz morigerado, e obrigou-o, cercando-o de carabinas e baionetas, a engolir tres cigarros accsos. Antes, depredara fazendas e villas, e surrara outros Pereiras. Sebastio, para vingar-se da affronta, matou-o de tocaia e tornou-se um cangaceiro terrvel.
Sob o titulo Estar em vigor a pena de morte, o jornal de Fortaleza O Progresso publicava o seguinte editorial no seu numero de 3 de Julho de 1927:
Todos ns j sabemos que a policia em vez de manter a ordem nos nossos sertes, que esto entregues aos scelerados que roubam, saqueiam e incendeiam os bens dos nossos desventurados patrcios os sertanejos, em vez de agir dentro da esphera do Direito e da Justia; pelo contrario, usa da vio-


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ALMAS DF. LAMA E DE AO
lencia, e assim contribue de um modo assombroso para a instabilidade da ordem.
Para evidenciarmos o que acabamos de proferir, passamos a historiar o horrvel crime commettido pelo destacamento policial de Tauh:
Ha menos de dois mezes atraz, um grupo de facnoras, tendo sua frente o terrvel bandido Antnio Gerimun, atacou inopinadamente a residncia do coronel Joaquim Solano.
A herica policia seguio no encalo dos famigerados, matando dois homens dos que obedeciam ao tal Gerimun.
Animados por este successo, os nossos policiaes revestidos com a couraa da barbaridade e convencidos dos seus deveres partiram para Arneiroz, de onde trouxeram um individuo, que se chamava Asa-Branca (por infelicidade tinha nome de pssaro).
O valente cabo Joaquim Maria foi o chefe da canoa, que alm de maltratar o criminoso que levava em sua companhia (Asa-Branca), manchou de sangue a farda da nossa Policia.
Retirado o bandido da infecta cadeia de Arneiroz, rumaram em direco ao Tauh. Depois duma longa caminhada cheia de trabalhos penosos, porque a cada passo que davam esbofeteavam a pobre victima, chegaram afinal Barra do Piri, onde se arrancharam.
Ahi, em logar de minorar, ou melhor, diminuir os seus padecimentos, pelo contrario, os augmentaram.
Os valorosos soldados que mantm a ordem


P0L1CIAES E CANGACEIROS
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naquella infeliz regio levaram as suas violncias ao extremo. Tiraram-lhe os olhos e em seguida obrigaram-no a caminhar.
Os nossos mantenedores da ordem riam e troavam deante daquelle acto que acabavam de praticar.
E para diminurem os seus padecimentos e o seu crime restava apenas uni'meio era assassinal-o, e foi o que fizeram.
Poucos dias depois, os incumbidos de capturar o referido bandoleiro chegavam quella localidade e depositavam no cemitrio os restos mortaes da infeliz presa.
Entretanto, esses que perpetraram to horroroso crime, talvez que ainda l estejam scientes e conscientes que desempenharam do melhor modo e com o mais sacrosanto patriotismo a misso que lhes fora imposta, e esto promptos a repetil-a, si preciso fr.
Agora, sim, podemos exclamar que a policia o verdadeiro terror dos sertes!
E' dantesco! Um pobre homem, de olhos vasados, aos tropeos pelo caminho spero, e a malta soez e feroz a gargalhar em torno!
Parece at que estamos assistindo a uma das scenas selvagens das conquistas assyrias, ou das invases turanianas de Attila, de Gengis-Khan e de Tamerlo!
E isso se passa num paiz civilizado!


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ALMAS DE LAMA E DE AO
Jesuino Brilhante obrigava os seductores a se casarem com suas victimas, fazia alta e baixa justia a seu modo, e distribua viveres aos famintos, nas sccas. E' o que reza a tradio. Dizem que Lam-peo enche de dinheiro o cofre das igrejas e d esmolas aos pobres que encontra.
0 contrario corre mundo a respeito das policias. A da Parahyba entrou na cidade cearense do Limoeiro, que Lampeo respeitou e onde seu bando pagou honestamente tudo quanto adquirio, arrombou casas commerciaes e violentou mulheres. A do Cear in-vadio terras do Piauhy, prendeu innocentes, deu pasto a vinganas de potentados e surrou cidados pacficos.
Um artigo de fundo do O Cear de 21 de Junho de 1927 dizia:
...Os nossos conterrneos do serto tm mais receio dos defensores da ordem do que dos prprios bandidos. ~ '""
Lampeo penetrou pelo sul do Estado, demorou-se alguns dias no Cariry e no nos consta que tenha feito o menor mal populao, a no ser o susto.
O mesmo no se deu com as policias alagoana e pernambucana, que, durante sua estadia no sul do Estado, praticaram violncias de que s egressos das penitencirias seriam capazes.
Em Limoeiro, a famlia lampeonica no fez mal a ningum. Deu vivas ao sr. presidente do Estado, distribuio esmolas para a Igreja, comprou a dinhei-


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ro nas casas commerciaes, no desrespeitou as famlias, no fez violncias.
Ao passo que assim se portaram homens fora da lei, as foras policiaes da Parahyba, em vez de perseguirem os bandidos, pernoitaram na cidade, ameaando e espancando a populao civil.
oio


cangaceiros de farda
As policias nos Estados do Brasil sotudo, menos policias. Organizadas por officiaes do Exercito escolhidos pelas convenincias polticas do momento, apresentam aos olhos do observador imparcial grandes defeitos, porque so verdadeiras unidades de infantaria de linha, sem nenhuma especializao, embora seja outro o seu destino.
Nos Estados do Nordeste brasileiro flagellados pelo banditismo, os batalhes de policia chamam-se de Segurana. Policia termo considerado um tanto pejorativo. Elles tm o mesmo numero de compa-panhias e de praas que os do Exercito, obedecem aos mesmos regulamentos de servio, vestem quasi o mesmo uniforme, so considerados sua reserva e tornam-se inteis ou prejudiciaes para a misso que deviam cumprir.
Esses arremedos de batalhes do Exercito, recrutados geralmente entre os peores elementos da sociedade, do guarnio na capital, formam em parada, so revistados no dia sete de Setembro pelo governador, usam grandes galas espaventosas, for-


CANGACEIROS DE FARDA
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necem capangas disfarados para surrar jornalistas, empastelam typographias e, na hora do perigo, derretem-se como por encanto. Conheci uma faustosa policia dessa natureza, a do presidente Nogueira Accioly, que o deixou sosinho no dia em que o povo de Fortaleza se revoltou. Nunca houvera guarda pretoria-na mais ;apavorante, nem commandante mais enthu-siasmado. Evaporaram-se aos primeiros tiros de duas dzias de rapazes do commercio e estudantes...
At hoje no tiveram os Estados nordestinos um homem de governo que os livrasse do nus financeiro e moral dessas caricaturas de tropa de linha. Esses apparelhos militares policiaes custam milhares de contos e so nocivos. De que foras precisa um presidente nordestino? Examinemos a questo com intelligencia. O policiamento de sua capital deve ser feito pela guarda-civil. Alis, esta existe em muitas sedes de governo. Uma companhia de estabelecimento, bem disciplinada, constituida de veteranos de ba conducta, bastante para a guarda dos edifcios pblicos, as guardas de honra e outros servios de guar-nio. Um pequeno esquadro de cavallaria basta s rondas e escoltas. E, em logar dos taes Batalhes de Segurana, algumas companhias volantes no interior, de infantaria montada^^rganizadas simijhan-temente guarda rural, to famosa, do Canad, e ao regimento sertanejo de S. Paulo. Homens do serto, escolhidos a dedo, bem pagos, vestidos maneira do serto, montados, armados, equipados e exercitados


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sertaneja. Eis ahi a nica tropa capaz de combater e vencer o cangaceiro.
Talvez um dia essa ida medre na cabea dum dos administradores daquellas terras e, assim, termine a vergonha de haver policias peores que os bandidos, provocando revolta almas enrgicas que descambam para o crime. A aco violenta, injusta e brutal da policia tem de ser sociologicamente computada entre as causas principaes do cangaceirismo. Provemos com factos. Abramos o 0 Cear de 9 de Agosto de 1929:
Espancado por nove soldados de polici-a, enlouqueceu Granja 7 Meu marido foi barbaramente espancado por nove soldados de policia, ficando muito doente. Depois de tamanha atrocidade, permaneceu trinta e seis horas na cadeia. Dois dias aps ao espancamento, ficou louco. Chamado o medico, dr. Ja-come de Oliveira, este attribuiu a perturbao mental a fortes pancadas vibradas no craneo. Pedi providencias ao dr. chefe de policia, de quem espero aco enrgica. Rosa Pereira de Lima.
Amanh, os filhos ou parentes dessa victima matam o responsvel directo por esse espancamento, que no ioi punido. Persegue-os a justia. Elles amon-tam-se e tornam-se bandidos. Quem os gerou? A policia.
Outra locai da mesma folha:




CANGACEIROS DE FARDA
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Verificou-se, sabbado ultimo estpida scena de sangue, que teve por theatro a pittoresca villa de Gua-ramiranga e da qual foi victima o trabalhador de nome Joo Branco da Silva, com 28 annos de idade, casado, empregado no sitio do dr. Hlio Caracas, naquella localidade.
Achava-se Joo Branco um pouco alcoolizado, em certa bodega do povoado, acompanhado de um collega de trabalho, quando, apeando-se do cavallo em que vinha montado, entrou inopinadamente no estabelecimento o sargento de policia Tito, conhecido alli por militar desordeiro e de caracter atrabilirio.
Joo Branco, nesse momento, encontrava-se com o juizo completamente transtornado pelos vapores alcolicos.
Ao pedido do amigo para que no mais bebesse, puxou violentamente a faca que trazia no cinto e a cravou com fora no balco, vergando-a at quebral-a em dois pedaos.
Nesse nterim, appareceu o sargento Tito, que brutalmente agarrou a Joo Branco pelo brao, em-quanto, dando-lhe voz de priso, lhe encostava no hombro direito o revlver e disparava.
Attingido pelo projectil, o desditoso operrio conseguiu desprender-se das mos do militar refugian-do-se, em seguida., na residncia do merceeiro, prxima bodega.
Raivoso por no ter satisfeito a sede de sangue que caracteriza os assassinos, o miliciano foi procura da sua victima, penetrando na residncia do mer-
5 G. Barrozo Almas de lama e de ao.


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ceeiro, a despeito dos rogos deste, que queria evitar qualquer abalo moral sua mulher, que se achava de resguardo.
Surdo aos pedidos, o violento militar arrastou a Joo Branco de dentro do quarto onde o mesmo estava escondido, trazendo-o, desse modo, para fra.
Neste momento no obedeo nem mesmo aos meus superiores, foram as palavras do sargento ao ser-lhe pedida pela segunda vez a vida do operrio pelo commerciante.
Sabendo, porm, que o trabalhador era empregado do dr. Hlio Caracas, o furibundo militar largou a sua presa, deixando-a retirar-se para a casa dos seus patres.
0 ferido foi transportado, domingo, em automvel, para Baturit, onde lhe foram facultados os primeiros curativos.
A bala alojou-se na regio thoraxica, no tendo sido ainda extraida.
Joo Branco foi recolhido, ante-hontem, Santa para ser procedida esta operao.
A policia no tomou conhecimento do facto.
Guaramiranga no uma localidade perdida no fundo dos sertes; mas a prmceza da serra de Baturit, a Petropolis de Fortaleza, com estrada de ferro prxima e estrada de rodagem, distando da capital mais ou menos cem kilometros. O facto, eloqentssimo, no carece commentarios. Os resultados dessas violncias so outras violncias. No futuro, esse tru-


CANGACEIROS DE FARDA
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culento inferior poder ser assassinado por vingana, como ha muito pouco tempo foi morto porta de sua casa, noite, dentro de Fortaleza, um tenente de policia costumeiro a mandar espancar, desfeitear e prender.
E' ainda o referido jornal que, noticiando o passamento do ;chefe poltico sertanejo Isaias Arruda, nos d esta pagina viva do cangao no Cear:
Pesavam-lhe, como ningum ignora entre ns, terrveis accusaes de chefe de cangao, de protector de Lampeo e seu scio, de incendiario da ponte do rio Salgado, de vrios assassinatos por elle mandados praticar friamente, na sua maior parte, para a occul-tao de hediondos delictos.
Isaias morou no Cedro e Aurora em cujas localidades, com os seus irmos, abrio varias lutas com os destacamentos locaes.
Elle e os seus eram tidos como valentes e, por isso mesmo, temidos.
Ha seis annos mudou-se para Misso Velha.
Assumindo o governo o desembargador Moreira e precisando desbancar o partido democrata, comeou por alli a tarefa, com a deposio, mo armada, do coronel Manoel Dantas de Arajo, chefe do mesmo partido, empresa essa que foi confiada a Isaias Arruda, pelo ento chefe de policia, dr. Jos Pires de Carvalho e pelos dois filhos do presidente.
Essa combinao se deu, em 1925, na prpria villa de Misso Velha quando se inaugurava a estao


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da estrada de ferro e quando o coronel deposto recebia, com festas, o presidente do Estado e luzida comitiva qe ento, foi ao Joaseiro e Crato.
Dada a deposio, o coronel Dantas tentou reconquistar seu posto e, ento, teve com armas nas mos, para sua defesa, os seus amigos, de Ingazeiras e Aurora, os Paulinos.
Estes, homens valentes, brancos, eram uns quinze, que formavam uma espcie de guarda para a defesa dos seus interesses, naquelle pedao do nosso serto onde ainda no raiou o sol da justia e onde sempre imperou o direito do mais forte.
Isaias, que com elles mantinha relaes de amizade, dada aquella attitude ao lado do coronel Dantas, passou a hostilizal-os, contando para isso no s com os seus cangaceiros como, francamente, com a fora publica.
Invadindo Ingazeiras certa vez frente de bandidos e soldados conquistou-a, roubou-lhe as mercadorias de quatro lojas e ateou fogo nas suas casas, naquelle povoado.
Numa emboscada, posteriormente, dirigida por Jos Gonalves, delegado de policia de Misso Velha, foi assassinado Joo Paulino, o chefe do bando.
Depois seguiram-se os assassinatos de outros Paulinos e de tres moradores seus.
Continuando a tremenda perseguio, os Paulinos restantes, com as suas famlias, mudaram-se para a Parahyba, onde, em Princeza, se sentiram garanti-


CANGACEIROS DE FARDA
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dos sob a proteco do deputado estadual coronel Jos Pereira.
Dois desses, passado algum tempo, vieram da Parahyba Fortaleza.
Vieram pedir garantias ao governo para reverem os seus haveres, propriedades e gados em Aurora e Ingazeiras.
0 governo no lhes prestou a devida atteno, tendo elles ainda sido presos aqui pelo tenente Manoel Gonalves de Arajo, ento inspector de vehiculos e cunhado de Isaias.
No obstante isso, esses dois Paulinos conseguiram ir sua terra, s escondidas, e l verificaram que nada mais possuam.
Tudo que lhes pertencia, os gados, moveis, etc, haviam sido roubados!
As casas, os curraes, os cercados, haviam sido devorados pelo fogo.
Naquellas paragens ningum ha que desconhea estes factos.
Agora eis que Antnio e Francisco Paulino cortaram a Isaias Arruda, o fim da sua existncia.
Os exemplos mostram que os bandidos sertanejos quasi sempre procuram fazer com suas mos a justia que lhes negaram magistrados, policias e governos. De mim sei que, na maioria dos casos, prefiro os cangaceiros sem farda aos cangaceiros de farda. Aquelles so muitas vezes almas de ao. Estes raramente no so almas somente de lama.


cangaceiros coronis e generaes
Deixei o Cear, onde nasci, com vinte e um annos de idade e vim para o Sul, fazer a minha vida. Voltei terra natal com vinte e cinco annos, como Secretario de Estado do Interior, no governo do general Benjamin Barrozo, que, ento, se ia iniciar. Encontrei Fortaleza em lamentvel situao. O odio poltico invadira o seio das prprias famlias. Uma re-JJ voluo matuta, Tramada no Rio de Janeiro e execu-tadapelo fanatismo inconsciente do Joaseiro, derrubara o governo vil do sr. Franco Rabello. A interveno federal fora o corollario da anarchia e procedera a novas eleies. Um batalho de policia, constitudo pura e simplesmente de cangaceiros e fanticos do Cariry, de jagunos do sr. Floro Bartholomeu, espalhava o pavor na capital do Estado, tanto entre a gente mida como entre os prprios grados da poltica local. Era aquillo uma terrvel ameaa a quem quer que entendesse de pr a machina administrativa nos trilhos.
0 governo que ia comear, mau grado ser recebido pelo rabellismo deposto com o maior des-


CANGACEIROS CORONIS E GENERAES
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agrado, tinha propsitos de seriedade e de paz, que demonstrou com o tempo e os factos. A popularidade posterior do general Benjamin Barrozo no Cear a justa recompensa de sua honestidade, ponderao e energia. O chefe do Estado vivera longos annos afastado das lutas politicas e o seu Secretario do Interior fora, como j ficou dito no comeo deste livro, dos politicos conservadores no Rio de Janeiro, quando se decidio o movimento do Joaseiro, o nico que terminantemente se oppuzera a esse crime.
No dia da chegada do novo Presidente, se deu a sua posse e, noite, o interventor federal, general Setembrino de Carvalho, offereceu-lhe uma recepo no palcio do governo. Compareci festa. Havia muita gente e muita curiosidade. Por occasio dos discursos, estava a uma das sacadas que do para a praa general Tiburcio, em companhia dum collega dos bancos escolares. Entrmos na sala. Toda a gente se empilhara em volta das figuras principaes da reunio, de modo que tivemos de ficar mesmo na ultima fila e de nos resignarmos a nada vr.
Lembro-me de tudo como si fosse hoje. Perto de ns, um sujeito baixote, barrigudinho, de cara alvar e bigodinho escuro, com um todo de aougueiro, fardado de coronel de policia, dava mostras de impacincia, procurava abrir caminho, afim de passar, e bufava por nada conseguir.
Num vo das janellas, existia um consolo antigo, de tampo de mrmore, com dois jarros de velha


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porcelana em cima. 0 nosso homem deitou-lhe os olhos e no resistio. Agaloado, de botas e esporas, trepou numa cadeira e desta se passou para o consolo. As esporas deram com um dos vasos no cho, onde se espatifou com ruido. E elle, encarapitado alli, nem se inquietou com aquillo e muito menos com o escndalo provocado pelo seu acto de absoluta falta de educao, entre as pessoas prximas.
Quem ? indaguei do meu companheiro. E elle:
O coronel Pedro Silvino de Alencar, comman-dante do segundo corpo de policia, do batalho de jagunos.
O nome no me era estranho. Eu o vira assignan-do a famosa acta do Joaseiro. Estava em presena do preposto do cangao na fora publica do Estado e havia outros prepostos do mesmo cangao na As-sembla Estadoal, nas municipalidades, e haveria mais tarde no prprio executivo e na representao federal.
Pouco tempo depois, a situao politica no Estado encrespava-se devido a certas exigncias desse mesmo cangao fantasiado de legalidade. O batalho ameaador de Pedro Silvino arreganhava os dentes. Felizmente, o governo de que eu fazia parte no morria de caretas. O general Benjamin Barrozo chamou ao telephone o coronel cangaceiro, disse-lhe meia dzia de verdades e demittio-o. No mesmo dia, um decreto dissolvia o famigerado segundo corpo. Assim,


CANGACEIROS CORONIS E GENERAES
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murchou naquella poca a flor das aspiraes cangaceiras...
Pedro Silvino de Alencar voltou ao Joaseiro, ao regao delicioso do fanatismo, sem galo nenhum nos punhos, mas sempre conservando aquelle bello espirito de trepar com esporas em consolos de mrmore...
Suas relaes com o general Floro Bartholomeu permittiram que fosse um dos seus committentes na organizao das foras lampeonicas e jagunas que apregoavam combater os revolucionrios, em 1926. Dizem que ganhou dinheiro nessa industria; porem que a sua ambio herdar do padre Cicero. Todavia, antes que chegue esse momento solenne de venturas sem par, vae se contentando em ser o empresrio do celebre negocio do matadouro modelo do Joaseiro e com outras coisinhas mais...
Estas so da seguinte natureza, segundo apregoam os jornaes do prprio Nordeste:
Ha um mez mais ou menos, um grupo de doze cangaceiros, chefiado por Antnio de Sousa e um filho, que residem em S. Pedro do Cariry, deixou o sul do Cear, atravessou o serto' e entrou no territrio bahiano. Alli, atacou de surpresa duas fazendas, trucidou os fazendeiros, homens pacficos e honrados, e roubou-lhes cerca de setenta contos de ris.
Por felicidade, acudio ao local um destacamento da policia bahiana, que dispersou a tiro a matla covarde e aprisionou dois de seus componentes, os


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guaes confessaram que o crime fora premeditado e seu fim era somente roubar o dinheiro dos fazendeiros; que, dos dez cangaceiros fugidos, cinco eram do coronel Pedro Silvino de Alencar e cinco do Sr. Manoel Alexandre, de SanfAnna do Cariry; e que os seus chefes lhes tinham dado aquella incumbncia.
Eis ahi o que a politicagem nos sertes nordestinos, me da cangaceiragem, que a melhor industria daquellas regies, industria rendosissima, protegida pela mais segura impunidade, que eleva seus industriaes, muitas vezes, s mais altas posies nos Estados e na Federao. Assim se ganham os gales de coronel, immunidades de parlamentar, dinheiro e at estrellas de general. Mas, coitados! no sentem que, aos olhos da gente honesta, bem educada e culta, elles, nessas posies, esto sempre como Pedro Silvino, naquella noite, symbolicamente trepados de esporas sobre o mrmore dum consolo, numa sala de recepo...
oio


o pae de antnio silvino
O pae do celebre cangaceiro Antnio Silvino foi um cangaceiro no menos celebre nos sertes de Nordeste, mestio claro, forte e valente, Pedro Rufino Baptista. de Almeida, appellidado o Baptisto, devido alta estatura e ao avantajado corpo. Tinha atraz de si vasta ascendncia de criminosos e lutadores. No entrou para o cangao por si s ou por motivos que to somente lhe dissessem respeito. Obe-deceu s inclinaes da raa, e da famlia, aos Impulsos do sangue e aos exemplos da parentla.
Foram seus parentes o famigerado coronel Xico Miguel, temeroso chefe de patulas criminosas, irmo da no menos celebre Dona Carlota, mandante de assassinios, autora de represlias terriveis, mulher de cabellinho na venta, que, por fim, presa, julgada e condemnada a gals perptuas pelos juizes da mo-narchia, acabou miseravelmente seus dias no presidio de Fernando de Noronha.
Como tios segundos, dera-lhe o destino dois grandes e curiosos typos de cangaceiros: o baro de Pa-


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geh e Jos Antnio do Sacco dos Bois. O primeiro foi um puro exemplar do senhor feudal sertanejo; o segundo, homem primitivo, pundonoroso e valente, cangaceirizou-se impellido pelas circumstancias do meio. Revoltado contra injustias e perseguies, pz o serto em polvorosa e teve no seu encalo um batalho do exercito! Apesar disso, escapolio-se e alcanou o Recife, onde embarcou para a Corte. Obteve uma audincia do Imperador, contou-lhe as attri-bulaes de sua vida e do velho Pedro II recebeu indulto pleno, com o qual regressou ao lar.
Em grau mais afastado embora, tambm foram parentes do Baptisto os chefes de cangaceiros Manoel Ferreira Grande e o coronel Manoel Ignacio, protector de Silvino Ayres, mestre de Antnio Silvino.
Seria difficil ao Baptisto escapar aos espectros ibsenianos de sua ancestralidade.
Desde mocinho, sempre demonstrou intranquil-lidade de espirito. No podia demorar muito tempo num logar.
Era um insatisfeito. Viajava constantemente e mudava de meio de vida de quando em quando. Onde esteve mais tempo foi, como agregado, na fazenda da familia Ayres, sua parenta.
Em Campos Compridos, no valle das Espinha-ras, foi vaqueiro dum particular qualquer. Depois, varou, sem destino, o serto immenso, perambulando por todo o sul do Cear, da chapada do Apody serra da Joanninha. Na zona dos Inhamuns, onde ainda


O PAE DE ANTNIO SILVINO
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resoava a fama das tropelias dos Montes e Feitosas, enamorou-se duma moa. Ento, fazendo-lhe a corte, que foi bem acceita, aquietou-se alli um pouco.
Casou. Chamava-se a esposa Balbina de Moraes e contava, na ascendncia como o marido, os maiores lutadores do serto: pelo lado materno, os Alen-cares, magna pars nas rebeldias politicas do Cariry, os Moraes, que participaram de todas as convulses intestinas do Cear, os Feitosas, que combateram os Montes durante meio sculo, e os Brilhantes da Parahyba, cujo vulto principal fora o famoso Jesuino; pelo lado paterno, o caudilho Pinto Madeira, here duma revoluo matuta fusilado no Ic, e outro Moraes, um eme trouxe as ribeiras dos arredores em tal desassocego e por to longo tempo que a esse perodo se chamou a guerra do Moraes.
Ora, de tal unio, provinda de tal ancestralidade, no de estranhar nascesse um filho como Antnio Silvino.
Casado, Baptisto regressou a Pernambuco e fixou residncia em Pageh de Flores, na fazenda paterna, dedicando-se de corpo e alma aos trabalhos e cuidados da lavoura e criao. Si as condies do meio no lhe despertassem os instinctos guerreiros e criminosos adormecidos no fundo de sua psych, talvez que, com elles profundamente sopitados, conseguisse envelhecer e morrer honesto e calmo. Porem quasi nunca a vida do serto permitte isso.
Sua situao econmica e seu trato natural, affa-


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vel e fino em relao ao da rude gente do logar, deram-lhe clientes e protegidos, bem como certo prestigio social. Lia alguma coisa e era muito intelli-gente: improvisou-se rbula. Conseguio alguns trium-phos nos foros da visinhana e logo.o fizeram sub-de-legado de policia. No serto, do criminoso autoridade e desta quelle a distancia nenhuma. Eis porque se pde affirmar que, assumindo o posto que o governo lhe confiou, deu o pae de Antnio Silvino o primeiro passo para o crime.
0 exerccio da funco policial trouxe-lhe rancoroso inimigo na pessoa dum fazendeiro visinho, conhecido protector de maus elementos, que o sub-delegado impedio de praticar abusos, conforme costumava, fiado nos seus asseclas. Quando o Baptisto deixou o cargo, elle gabou-se publicamente de pretender desfeiteal-o.
Certo dia, aborrecido de ouvir repetir o que o outro dizia contra elle, tudo augmentado pelos intrigantes, resolveu definitivamente tirar a teima. Foi feira na villa prxima, Agua Branca, montado no seu melhor cavallo, vestido de branco, com um bacamarte que no mentia fogo a tiracollo.
Pelo caminho, encontrando feirantes e conhecidos, com elles emparelhava o cavallo, conversava e pi-lheriava, sem ao menos de leve alludir ao inimigo e s suas bravatas. Assim, chegou ao povoado.
Em frente praa da feira, ficava o hotel. Apeou-se e entrou. Na sala principal, cujas portas


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abriam para a rua, havia uma grande mesa coberta por alva toalha, rodeada de cadeiras, sobre a qual se achavam, espalhadas em volta de velho bule de loua grossa, varias chicaras sujas de caf. Sentou-se a uma das pontas da mesa, de frente para a praa do mercado. Alguns companheiros de viagem aban-caram-se por perto.
A hoteleira trouxe nova loua e caf quente. Ao servil-o, disse-lhe ao ouvido, tremula:
Seu Baptista, tome cuidado! Anda aqui, desde hontem, um cabra do Cabrob. Dizem que para o senhor...
Elle no respondeu uma palavra, no fez um gesto e somente ageitou melhor o bacamarte sobre os joelhos. Ao levar, porem, a chicara de caf boca, vio um homem armado sair da casa fronteira ao hotel, no outro lado da praa, e dirigir-se para este.
Ficou immovel, a chicara encostada aos lbios, sorvendo o liquido devagarinho, sem perder de vista o desconhecido, que se approximava. Emfim, assomou a uma das portas, examinou rapidamente a sala e apontou ao Baptisto a espingarda que trazia. O ameaado deixou cair ao cho a chicara de caf e abaixou-se repentinamente. A bala do cangaceiro tocou-lhe de leve os cabellos. Ergueu-se dum pulo, bacamarte em pontaria, dando-lhe ao gatilho. Um estampido e 'densa fumaceira que encheu a sala. Quando o fumo se desfez, vio-se o cabra rebolcando-se agonizante no barro da rua.
Calmo, o Baptisto mostrava aos circumstantes


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as calas brancas ennodoadas de caf e dizia-lhes, sorrindo:
Cabra ordinrio, estragou-me a roupa e fez-me quebrar a chicara...
A faanha de Agua Branca correu de boca em boca e tornou-o um valento de fama.
Durante dez annos, o bandido Joo do Bomfim trouxera em vexames os sertes parahybanos e pernambucanos, perseguindo entre outras pessoas os membros da familia Ayres. Escapava de todas as tocaias que lhe armavam e zombava de todas as ameaas que lhe faziam.
Baptisto, a pedido dos parentes, resolveu acabar com elle. A' frente dos irmos Ayres e Gadelhas, cercou-o na fazenda Jatob, ao p da serra do Teixeira. O bandoleiro tinha em sua companhia um filho rapazinho. Ambos defendram-se ferozmente. Durante a noite, o pequeno, embora ferido, conseguio fugir. Pela manh, Baptisto e seus companheiros encontraram Joo do Bomfim encostado a uma parede, a arma nas garras enclavinhadas, morto, pre-gueado de balas!
O serto o paiz das intrigas^ Meio e raa pro-duzem-fs em demasia. E so, na maioria dos casos, as causas dos crimes e das lutas de familia. Elias atolaram de todo o pae de Antnio Silvino no can-
acelrisno.
Tendo discutido com o dr. Chaves, que possua


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uma fazenda encostada sua, por causa do assentamento dum bebedouro para o gado, encarregaram-se as intrigas de envenenar essa pequena e naturalissima divergncia entre visinhos, numa regio onde as terras so mal determinadas, havendo sempre duvidas quanto sua posse e limites. A politica tambm se intrometteu no caso e mais azedou os nimos. Ademais, o bebedouro era imprescindvel necessidade para o Baptisto, pois no serto resequido as boas guas so difficeis. Si o seu gado no pudesse beber no logar que escolhera, somente encontraria aguada dalli a duas lguas! Insistio, portanto, em manter o bebedouro. 0 dr. Chaves mandou desmanchal-o pelos seus moradores. Declarou-se a guerra.
Comearam, ento, os elementos polticos adversos a perseguil-o, accusando-o de mortes perpetradas aqui e alli, aps a do cangaceiro do Cabrob e a de Joo do Bomfim: uma nos Carirys Novos, outra no Baixo Moxot e outra no Po de Assucar, Alagoas. No se sabe bem si tudo isso era verdade ou no passava de mera calumnia.
A' questo com o Chaves veio juntar-se outra com os Ramos.
Baptisto tinha tres filhos rapazes, fortes e valentes: Francisco, Zeferino e Manoel Baptista de Mo-raes^ que se tornou o maior cangaceiro dos ltimos tempos sob o nome de guerra de Antnio Silvino. Este era quem melhor o ajudava nas labutas da fazenda, embora gostasse muito de dansar em sam-
G G, Barrozo Almas de lama c de ao.


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bas e de cantar desafio. Numa dessas festas, teve de repellir os versos provocantes que lhe dirigia, ao som da viola, Desiderio Ramos, filho de Jos Ramos, desaffecto de seu pae por ter sido um dos des-manchadores do bebedouro a mandado do dr. Chaves.
Por influencia deste, Ramos e seus filhos, Desiderio e Joaquim, puzeram varias emboscadas contra o Baptisto, que escapava sempre inclume, zombando delles. Porm, um dia, na feira de Afogados de Ingazeira, conseguiram cercal-o. Travou-se horrenda luta, na qual morreram o Baptisto e Deusde-dit Chaves, irmo do doutor.
A familia do pae de Antnio Silvino moveu processo contra os Ramos, que, aconselhados pelo dr. Chaves, se entregaram priso. O jury, bem trabalhado pela poltica, absolveu-os. O advogado da familia Baptista appellou da sentena e os presos, para esperarem novo julgamento, foram transferidos para a penitenciaria do Recife. Em Janeiro de 1897, tornaram ao serto. Iam responder ao segundo jury. Em caminho, a escolta, subornada pelos Chaves, deixou-os fugir.
Manoel Baptista de Moraes metamorphoseou-se no grande bandido Antnio Silvino para vingar seu pae. E vingou-o.
oio


o mestre de antnio silvino
Manoel Baptista de Moraes, famoso nos annaes do crime como Antnio Silvino, tomou esse pseudo-nymo em homenagem a Silvino Ayres, seu mestre na profisso que abraou.
Silvino Ayres Cavalcanti de Albuquerque, de nome illustre, filho do coronel Ildefonso Ayres, nasceu na fazenda Antonica, ao p da serra do Teixeira, alto serto parahybano, na era de sessenta e tantos, como soem dizer os matutos, e guerreou a familia Dantas, tendo tido Antnio Silvino s suas ordens nessas primeiras lutas. No foi, como bandido, caso nico, nem mesmo o primeiro caso na sua familia. Antes de marchar para as lutas terrveis de sua ensangentada vida, seu irmo mais moo, rapaz vivo e denodado, de nome Pompeu, se tornara cangaceiro.
Com licena do pae, Pompeu assentara praa na tropa de linha, como primeiro cadete, pois o posto paterno, na guarda nacional do Imprio, lhe dava essa prerogativa. Entre os annos de 1882 e 1884, o


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governo enviou a Campina Grande, logar perigoso do interior da Parahyba, um! destacamento de seis praas sob seu commando. O cadete era estroina e jogador, peralta, como se diz no serto. Em peraltices e pe-raltadas, gastou os fundos do destacamento confiados sua guarda, ahi uns trezentos mil ris, dinheiro naquellas priscas eras. Commettido o desfalque, re-ceiou, apesar de protegido pela influencia da familia, a aco da justia cova, talvez mais vendada que a de hoje, porem menos vendida. S lhe restava o recurso de desertar e assim fez, conseguindo levar comsigo, de taes lbias usou, os seis soldados do destacamento.
Refugiou-se na fazenda onde nascera, a Antonica. Mas de que viver? Da rapina, que no queria trabalhar. Ao primitivo grupo de desertores, fram-se reunindo os desoccupados, os perseguidos e os perversos da redondeza. Dentro em pouco, a populao daquella zona vivia em perpetuo receio. Elles despojavam os viajantes e os comboios nas estradas, assaltavam fazendas e povoados, exigiam pedgios, resgates e tributos dos negociantes ricos.
As reclamaes constantes obrigaram o governo provincial a agir. Foi enviado a Patos, com ordens severas contra os bandoleiros, o alferes do exercito Agnello, frente de vinte soldados. Nos ltimos dias de Dezembro, plena fora cercou a fazenda
Antonica. onde os bandidos estavam entrincheirados. Depois de muitas horas de tiroteio, foi as-
1 saltada a arma branca. Morreram alguns defensores


O MESTRE DE A.NTOMIO SILVINO 85
do refugio. Outros foram presos. Pompeu conseguio fugir, varando carrasces e catingas, sem armas, la-nhado de espinhos, roupas em tiras.
Em petio de misria, alcanou a chapada da serra do Teixeira e seguio pela estrada que levava famigerada terra da familia Dantas, Immaculada. No logar Tauh, encontrou o chefe dos Dantas, o afa-mado Delmiro, o poderoso Ded. Eram amigos de infncia, mas suas famlias ento se odiavam. Todavia, o potentado sertanejo, vendo-o naquelle estado, teve pena e perguntou-lhe:
Que isso, Pompeu? De ps no cho, sem um cavallo para montar e sem uma arma para se defender!
Venho fugido, retrucou o cangaceiro, e preciso esconder-me seja onde fr.
Monte na garupa do meu burro e, emquanto Delmiro Dantas, viver, nada lhe acontecer de mal.
A inimizade apagra-se ante o espirito de solidariedade innato nos bandoleiros. Primeiramente, Pompeu descanou na fazenda Santo Agostinho, de propriedade do Ded. Depois, demandou o sul da provncia. Homisiou-se, por fim, no Pageh, dc onde arribou para Petrolina, nas proximidades do S. Francisco, indo residir com o ex-cadete Francisco Cabral, seu velho amigo. Os perseguidores, entretanto, no lhe davam descano. Vinham-lhe no rasto. Eternamente desconfiado, elle abandonou certa noite, de repente, hospitaleira, que poucas horas mais
tarde foi sitiada, assaltada e saqueada por uma tropa.


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Pompeu atravessou o rio S. Francisco e foi morar margem direita, no Remanso. Desde essa data, nunca mais se souberam noticias delle.
Silvino Ayres foi o grande inimigo dos Dantas, e da fazenda Antonica fazia guerra de morte gente da Immaculada. Aps vrios episdios, vendo os Dantas que elle tinha verdadeiramente coragem, simularam esquecl-o. Foi quando se mudou para um sitio que possua junto ao morro do Jabre, na regio do Teixeira, entregando-se de todo calma vida de criador e plantador. Raramente saa daquelle ere-miterio para as feiras na villa ou para visitar uns parentes prximos no Pageh de Flores.
Ningum nem mesmo os cantadores ambulantes e os trovistas dos sambas falava mais de seus antigos feitos e vinte annos lentamente passaram sobre a primeira poca, to agitada, da sua vida. Mas o odio dos Dantas no arrefecera e esperava unicamente uma occasio propicia para se manifestar.
Dantas e Ayres copiavam mais uma vez, naquel-les selvticos rinces, as lutas de familia to com-muns e prprias das sociedades primitivas, as mesmas que se verificam na Itlia antiga, na Corsega, na Esccia, onde os Gowrie chegaram a querer seqestrar um rei, na Serra Morena, na Albnia, nas aldeias persas pintadas por Gobineau, nas dissen-ses riojanas descriptas por Sarmiento, e no Far-Wcst, como nos ensinam as pelliculas cinematogra-phicas americanas.


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Em. 1897, era sub-delegado do Teixeira lem-brae-vos, leitor, de certos sherifs das referidas fitas americanas Manoel Dantas Correia de Ges Jnior, inimigo figadal da familia Ayres. Essa autoridade somente pensava em fazer uma humilhao aos seus adversrios. Pretextando que Silvino e seus moradores eram ladres de cavallos, cercou as casas de tres agregados do sitio, pilhando-as, destruindo-lhes os cacaros e espancando a pobre gente.
Silvino Ayres, sentindo-se injuriado, procurou no Pageh o seu grande amigo coronel Manoel Ignacio e queixou-se do que lhe tinha sido feito. O velho e rude sertanejo deu-lhe homens e armas, bateu-lhe no hombro e exclamou:
Desaffronte-seL.
Ao bando juntou-se mais gente: amigos, affei-oados, aventureiros, parentla, Zeferino e Nzinho, filhos do Baptisto, irmos de Antnio Silvino, este, os manos Gadelhas, todos ansiosos pelas lutas.
Na. noite de 19 para 20 de Junho de 1897, frente de 23 homens, Silvino Ayres apoderava-se do Teixeira, arrombava a cadeia publica, soltava todos os presos, estragava a casa de moradia e a casa commercial do delegado, que conseguio fugir pelo telhado, como lagartixa, diziam os habitantes da localidade.
s oito horas da manh, sem terem podido agarrar o desaforado Manoel Dantas, os cangaceiros re-colhram-se ao Pageh.
Porem a semente de novas lutas estava plantada


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e ia germinar. Os Dantas voltaram ao Teixeira e comearam a perseguir todos quantos tinham manifestado qualquer sympathia pelo revide dos seus inimigos.
Emquanto isso, o grupo de Silvino Ayres pe-rambulava pelo planalto ao norte do rio S. Francisco, entre o valle do Moxot, a serra Negra e a da Baixa Verde, dominando, assim, todo o serto do Pageh de Flores, terra de cabras e de facas afama-das. Pelas fazendas dos mandes locaes, de um em um, de dois em dois, os cangaceiros, iam ficando esparsos, bem protegidos. E somente com sete homens Silvino demandou a serra do Surro, no municipio parahybano de Campina Grande. Ahi se acolheu casa dum concunhado, um tal Prisco, durante um anno.
No fim de 1898, voltando da villa do Mogeiro, Prisco topou na estrada o seu desaffecto Nco Mar-cello, que ia s e sem armas. 0 outro vinha alegre, acompanhado e armado. Provocou Marcello, que respondeu desaforadamente. O grupo descarregou-lhe as armas em cima, a queima-roupa, matando-o. Silvino vinha mais atraz e assistio quelle crime estpido e covarde. Ficou muito aborrecido. Abandonou o parente e foi residir no logar Samambaia.
J os Dantas moviam os seus amigos polticos nas capites da Parahyba e Pernambuco, cujos governos inundaram o serto de soldados. Silvino Ayres passou a viver no mato, como bicho. Uma noite, cercado por trinta praas, foi preso.


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Levado para a cidade da Parahyba, atiraram-no a um estreito cubculo da cadeia publica. Dizem que dentro do mesmo lanavam cal para asphyxial-o. Resistio e chefiou uma conspirao de presos, que foi descoberta antes de explodir.
Em 1906, no governo lvaro Machado, fez-se a reviso do processo de Silvino Ayres e elle, j bastante velho, foi restituido liberdade.
Os cangaceiros so heres abortados, muitas vezes. Como Napoleo lia, commentava e seguia os exemplos de Csar, Manoel Baptista de Moraes imitou o nome e a vida aventurosa de Silvino Ayres. As situaes so diversas, mas o phenomeno humano positivamente o mesmo.
ofo


capito virgolino ferreira, o lampeo
No faz muito tempo a imprensa brasileira com-mentou a entrada do cangaceiro Lampeo na cidade cearense do Joaseiro, onde foi recebido com todas as honras musica, repique de sinos e cortejo cvico, em que tomaram parte as autoridades locaes.
Chamado fala por um jornalista de Fortaleza, o padre Cicero, rei do serto, mansamente declarou que o caso no podia deixar de ser assim, porque Lampeo viera ao Joaseiro na ba f dos tratados. Floro Bartholomeu mandara chamal-o para se incorporar s guerrilhas que organizava contra os re-voltosos errantes. No seria, portanto, digno mandar prender dentro da cidade o homem que nella penetrara a convite. E foroso convir que, do ponto de vista da honra sertaneja, o padre tinha razo.
E' verdade que Lampeo foi alli com muito atrazo. Floro Bartholomeu j morrera e fora enterrado, quando elle chegou nova capital do Cariry. A culpa, porem, no foi sua e sim do meio em que vive. Naquelles rinces, no ha telephone, e as vias frreas e as linhas telegraphicas no prestam servios,


CAPITO VIRGOLINO FERREIRA O LAMPEO 91
quando existem, aos heres do cangao. Os recados so levados por portadores a p ou prprios a cavallo. Decerto, dessa maneira Floro Bartholomeu mandou dizer a Lampeo que viesse. Recado vae, recado vem por to primitivos meios de communicao, houve tempo para quem o mandara chamar adoecer e vir fallecer no Rio de Janeiro. Floro j partira para o outro lado da vida_e o padre, seu chefe, e amigo, entendeu que no podia nem devia mandar metter na cadeia quem se apresentava em confiana.
Si tudo isso desculpa, foroso confessar que no est mal arranjado. Na moral da sociedade sertaneja um acto pautado por essa regra perfeitamente lgico. O jornalista da cidade v tudo com outros I jolhos. Para ee~"o cangaceiro um facnora, um bandido torpe. Assim o faz a mentalidade do litto-ral. Para o sertanejo, no. Elle vive e pensa como ha dois sculos atraz. No seu modo de vr, um here, em primeiro logar pela sua valentia, pelo numero de mortes praticadas e pelos combates em que se cobrio de gloria; em segundo logar, um perseguido merecedor de sympathia, um revoltado contra os governos, dos quaes o matuto figadal inimigo, porque, na sua misria, no seu abandono, na sua ignorncia, s chegam ao alcance de sua compreenso as duas faces antipathicas dos poderes pblicos : a policia e o imposto.
Ainda uma vez preciso reconhecer que elle tem razo. Com effeito, paga seguidamente o imposto


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e no palpa directamente o resultado disso. No lhe do, sino parcimoniosamente ou como pretexto para roubalheiras, escolas, nem estradas, nem remdios, nem justia, nem audes. Suas relaes com o poder limitam-se a votar em quem mandam, a dar dinheiro e a ir para a cadeia. Lampeo surge aos olhos dessa gente como um symbolo triumphante da revolta popular contra o "mal compreendido principio_ de autoridade. Repete-se o phenomeno passado com todos os grandes cangaceiros: os Brilhantes, os Jos Antonios, Adolfo Meia-Noite, Liberato Nogueira ou Antnio Silvino.
A historia de outros povos ensina-nos a mesma coisa e, quando no ponto mais central do Rio de Janeiro, por causa de demandas forenses, ha tiroteios como os do Far-West e um serventurio da justia mata o amigo dum demandista como nas catingas do Nordeste fazem os cangaceiros, a gente compreende melhor os bandidos nordestinos e se prepara para justificar um pouco os Lampees...
E' necessrio olhar o serto e os acontecimentos do serto com olhos de sertanejo. 0 interior do Nordeste vive a vida do sculo XVIII, com uma nica differena, a das armas. Em logar dos trabucos e bacamartes, ha riffles Winchester e fusis Mauser; porem as almas no mudaram.
Em idntico estagio de sua evoluo, os outros povos, mesmo os mais civilizados, no eram superiores aos sertanejos. Em meados do sculo XVI,


CAPITO VRGOLINO FERREIRA
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na Inglaterra se procedia com os cangaceiros inglzes como os sertanejos procedem com os seus.
Hugo Latimer, capello de Henrique VIII, bispo de Worcester e pregador incansvel, narra, no seu livro Frutefull Sermons, o seguinte caso occorrido nas proximidades da capital inglesa:
Voltava eu para Londres, viajando a cavallo, quando cheguei a uma localidade onde fiz saber que pregaria no dia seguinte pela manh, por ser dia santificado e parecer-me que a predica era conveniente em tal data. A igreja ficava beira da estrada. Para ella me dirigi no dia seguinte, acompanhado de minha comitiva. Julgava encontrar o templo cheio de gente; mas, quando cheguei, a porta estava fechada a chave. Esperei talvez mais de meia hora at que emfim se achou a chave e algum da parochia veio a mim e disse: Hoje, senhor, estamos muito occupados e no podemos ouvil-o. E' o dia de Robin Hood. Toda a populao est no campo colhendo ramos e flores para a recepo delle. Faa o favor de no perturbal-a. Tive, portanto, de ser forado a dar livre passagem a Robin Hood, de ceder o logar a seus asseclas.
E o pregador accrescenta, indignado:
O caso no para rir. Antes para chorar e affligir-se muito, pois que se expulsa um. pregador sacro para receber com festas um bandido, um ladro de estrada!
Robin Hood foi o maior cangaceiro que jamais houve na Gran Bretanha, porem o povo via nelle,


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segundo o attesta o cyclo de lendas e canes a seu respeito, um rebellado contra a tyrannia dos nobres e da realeza, e festivamente o recebia nas povoaes das proximidades de Londres.
Como querer que outro seja o procedimento do sertanejo, que, moralmente, est ainda na mesma poca que o camponio ingls do sculo XVI? (3).
Lampeo uma victima do seu meio.
Numa de suas correrias pelo serto, a policia pernambucana matou o pae de Lampeo e deu em sua me tamanha surra que ella falleceu tres dias depois. Louco de indignao e raiva, sem ter para quem appellar, vendo impunes os ros fardados de tamanha brutalidade, Lampeo e um irmo tornaram-se cangaceiros. De accordo com o espirito duma cano sertaneja, procuraram no bacamarte as leis que decidissem a questo por falta de outras.
Nessa mesma diligencia, salvo engano, soldados dessa mesma policia encontraram na estrada um pobre sertanejo conduzindo uma burra. Deram-lhe muita pancada e tomaram-lhe a azmola. Elle foi tambm, naturalmente, procurar a lei, a sanco penal contra a violncia, a vingana, no bacamarte. E' Chumbinho, um dos mais famosos comparsas de Lampeo.
O tenente Germano, da citada policia, cercou a casa humilde duns matutos idosos sob o pretexto de procurar criminosos, porem de facto para servir a mesquinhas vinganas pessoaes da poltica do logar,


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e deu formidvel timda no dono da manso. 0 filho desse velho recorreu ao riffle para desforrar-se. E' Navieiro, outro companheiro de Lampeo.
A lista do bando do celebre cangaceiro muito curiosa. Os appellidos de seus companheiros lembram os dos chuans, dos heres do cyclo carlo-vingio, dos salteadores da Serra Morena e dos indgenas americanos. Alem de Antnio Ferreira, irmo de Lampeo, e de Sabino, cabra de confiana deste, e de Massilon, seu tenente, so: Maarico, negro moo, cometa da tropa, Tres-Ccos, Az de Oiro, Pae Velho, Cobra Verde, Serra do Mar, Bom-de-vras, Chum-binho, cujo verdadeiro nome Herminio Xavier da Silva, Tres-Pancadas, Rio Preto, Fortaleza, Moreno, Gato, Mormao, Beija-flor, Nevoeiro, Z Relmpago, Vereda, Quind, Z Tenente, Trovo, Marreca, Bem-tevi, Dois de Oiro, Jurema, Sabi, Pinga-fogo, Azulo segundo, para distinguir-se de outro Azulo afa-mado, Navieiro, Antnio Caboclo, Antnio Caxeado, Vinte e Dois, Lua Branca, Z Pretinho, Coqueiros, Mer-gulho e Jararaca, que foi preso e morreu de ferimentos recebidos na luta, em Mossor. No seu depoimento alli, este enumerou mais: Ezequiel, Virginio, Z Delfino, Manuel Antnio, Vicente Feliciano, Luis Sabino, Euclydes, Camillo, Antnio dos Santos e Luis Pedro.
A lenda encarrega-se de empretecer a fama do salteador. Ha mesmo escriptores que do curso


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historia de Lampeo botar brazas dentro das redes das criancinhas de peito, afim de gosar vendo-as assar. E' o cumulo da irreflexo! Eu no duvido que elle no pratique barbaridades, mas essa impossvel, porque as redes so de panno e as brazas, antes de lhe dar tempo de se divertir bastante com a tortura dos innocentes, queimariam esse panno, caindo no slo.
Essa historia inventada como aquella, que j figura at em romances histricos, dos Balaios maranhenses coserem um leito vivo nas entranhas dum homem vivo. Ora, qual o indivduo que resiste a uma abertura tal no ventre que d para nelle se metter um bcoro?
( Todo cangaceiro comea por ser um revoltado
e acaba sendo bandido. E' a regra geral. Por que no aproveital-o antes de sua queda? Os responsveis pelos destinos do Brasil tm sido sempre, por ignorncia ou descaso, mais criminosos do que elles, os prias do serto infeliz, mil vezes mais nobres na sua gandaia sangrenta do que os hypocritas de-fraudadores do errio, os magistrados corruptos, os politices sem conscincia e os civilizados que matam a tiros de revolver em plena Avenida Rio Branco homens desarmados ou que lhes do as costas, porque esto certos da impunidade.
Lampeo um pseudonymo de guerra (4).
Lampeo tinha um pivette, que acudia pelo nome de Oliveira, rapazinho de dezeseis annos, costumeiro




CAPITO VIRGOLINO FERREIRA O LAMPEO 1*7
a brigar como um homem. Franzino, de raa branca, descendia dessas familias de sangue puro que outrra povoaram os sertes de Nordeste, ciosas de se no mestiarem.
Oliveira servia com rara habilidade de espio ao bandoleiro. Observava os povoados que deviam ser atacados, no despertando desconfianas devido sua idade. Na hora da refrega, portava-se como um dos mais valentes.
O pae desse menor fora assassinado, por questes de terras ou de politica, a mando da familia Ferraz e de Quincas Godim, potentados dos sertes pernambucanos. O menino acompanhou Lampeo para ter ensancha de vingar seu pae, visto como o crime ficara impune. E' preciso reconhecer que o primeiro passo do criminoso precoce foi dado por um impulso de dignidade. Assim, so quasi todos. Posteriormente, a prpria vida do cangao se encarrega de polluir aquelles que a ella se entregam para satisfazer o seu pundonor medieval ou a sua sede de justia.
Lampeo ajudou logo de sada ao pequeno Oliveira. Foi ao Riacho do Navio, em Pernambuco, atacou a fazenda de Quincas Godim e matou-lhe mais de trezentas cabeas de gado.
O serto como a Corsega de antanho. No posse justia. Cada qual, para no ficar deshonrado, tem de fazl-a por suas prprias mos. Depois da vin-dicta, a catinga acolhe o sertanejo criminoso com a mesma generosidade com que o maquis ooculta o corso.
7 Gr. Bakkozo Almas e lama c c ao.


a gesta de lampeo
Quando a fama dum here-bandido dos sertes nordestinos transpe os limites daquella regio e se espalha por todo o paiz, apregoada na imprensa e na tribuna do Congresso, j emocionou profundamente as populaes locaes, cujos rhapsodos a cantaram em versos toscos, mas significativos. E'-um phenomeno idntico quelle que creou as gestas dos trovistas e menestreis da idade-media, com as necessrias differenas de meio e tempo.
O cangaceiro Lampeo, antes de ser falado pelas folhas e commentado pela oratria fofa dos senadores e deputados, foi celebrado em versos rudes e francos pelos cantadores sertanejos. Os pliegos de cordel encarregaram-se de trazer s cidades do lit-toral essa produco da musa popular.
Tres annos antes de sua celebridade chegar ao Rio de Janeiro, em 1923, uma typographia do Mundo Novo se encarregava de publicar a gesta anonyma, intitulada Historia do bandoleiro Lampeo, na qual figura, de accordo com os cnones do trovar sertanejo, o prprio here contando a sua historia: