O padre Cicero e a população do nordeste (elementos de defesa, historia, "folklore" e propaganda)

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Material Information

Title:
O padre Cicero e a população do nordeste (elementos de defesa, historia, "folklore" e propaganda)
Physical Description:
204 p. : illus., ports. ; 23 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Silva, Simoens da
Publisher:
Imprensa nacional
Place of Publication:
Rio de Janeiro
Publication Date:

Subjects

Subjects / Keywords:
Juazeiro do Norte (ce) -- Historia
Brazil   ( lcsh )
Genre:
non-fiction   ( marcgt )

Notes

General Note:
At head of title: Simoens da Silva.

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 12857799
lccn - 31013271
Classification:
lcc - F2509 .S59
ddc - 918.1
System ID:
AA00000261:00001

Full Text


3^$
5 sgbp


Simoens da silva


simoens da silva
^ooo=:oot(n|ooo=.ooo^
0 PADRE CCERO
E A
POPULAO do NORDESTE
(ElHMtox 4e Mm. hKfria." UlkUrr" r prtpuranda
RIO DE IANEIHO IMPRENSA NACIONAL 1927






ndice geral
Fronlispicio............... 1
Nota Explicativa............ 5
Dedicatria................ 7
Advertncia.............. 9
Prefacio do Dr. Rocha Pombo...... 11
Carta do Literato Arajo Bivar...... 17
O Padre Cicero e a Populao do Nordeste 19 (Qmhm e Mm, Mtm "Mlore t Propaganda)
ndice do Addendum.......... 125
Addendum............... 127
ndice das iilustraes....... 199




O Padre Ccero e a Populao do Nordeste
CONFERNCIA PUBLICA ILLUSTRADA, realizada em duas partes, na Cidade do Rio de Janeiro: a primeira, no Theatro Joo Caetano, (ex-So Pedro Alcntara) e a segunda, no Club Gymnastico Portuguez, em defesa desse venerando Sacerdote Brasileiro e dessa grande parte da populao do paiz, comprehendendo mais: elementos de historia, folklore sertanejo e propaganda do que respeita ao Brasil, sob os auspicios moraes das instituies nordestinas, com sede no Districto Federal da Republica: Centro Pernambucano e Centro Alagoano acompanhada de um Addendum de
informaes officiaes- # *
por
Antnio Carlos Simoens da Silva




= DEDICATRIA =
Ao bom e respeitvel Sacerdote catholico brasileiro
PADRE CCERO ROMO BAPTISTA
A' patritica, operosa e hospitaleira
POPULAO DO NORDESTE BRASILEIRO
Em tesfimunho de gratido e admirao
DEDICA
a presente obra, como preito de sincera homenagem
O AUTOR




ADVERTNCIA
Solicitando do leitor a devida indulgncia para as falta*, por ventura, commettidas, no presente trabalho, que rene as duas partes, em que foi dividida, para melhor exposio, a conferncia publica: O Padre Cicero e a Populao Antnio Carlos Simoens da Silva.




PREFACIO
Ha mais de uns dez annos que conheo de longe, e nada menos de uns seis que tenho a fortuna de admirar, mui* de perto, a figura singular do homem, a quem dedico esta* linhas.
la-se. portanto, em relao ao Dr. Sitnoens da Silva o contrario do que se diz que comnium a respeito de certa* famas, que diminuem medida que se nos appro-xiiiiam: a d*e*te homem augmenta com a presena.
Ha uns sete ou oito annos andamos, ns dons, a emnlar de ufanias em excurso de alma pelos Estados do norte. S no me recordo da ordem em que iamos: no sei qual de ns andava adiante do outro. Bem me apercebi, no emtant. das noticias que delle ia eu tendo, e tenho rivas as impresses que recebia e que me puzeram afinal bem nitidamente na imaginao o tvpo do homem, como si j o conhecesse.
E quando, de volta, aqui no Rio nos encontrmos pela primeira vez. no me surprehendi sino da minha nenhuma sorprcsa. e o Pr. Simoens da Silva correspondia perfeita mente ao que tinha eu imaginado; e o nosso encontro foi como o de dous velhos amigos. As impresses que eu trazia, aceentuarnm-se. Junto delle que eu senti melhor ainda a alma enthnsiasta, o fulgor em que se accende este bello exemplar de latino-americano, incendido at paixo pelas coisa* do seu paiz e pelos destinos do continente.
Xa verdade, no conheo ningum que. com mais vehe-mencia. estremea a sua ptria, nem peito em cujo intimo se agite, com mais fervor, o sentimento de justia, principalmente com os pequenos e os opprimidos. Pode dizer-se mesmo que este homem tem vivido, at hoje, de todos os


cxnltnmcntos I corao, procura de nobres causas a mie se dedique, no se achando, nunca, sem um ideal li-icaute, ruiiui si o seu ouraro precisasse cie uulrir-se rou-tiiinaiiieiile do cilm sagrado, sem > i|tial a vida no leiu mais razo de ser.
No se passa no pniz um grande suecesso. no se faz uma 1'ommemorno, no se celebra uma festa cvica, no se institue causa que entenda com futuro do Brasil nas qnaes no tome parte > Ir. Sinioens da Silva.
K oireumstnnrin notvel, e muito para nioan-cer neste tempo toma sempre parte por sua proprin conta, espontaneamente, nhncgndaiiuite. sem medir * foro, sem |sies. sem calcular proveitos, |m>. o tmico fruto pie busca na vida pnrece tpie s a alegria de ser brasileiro.
Ser til. no s sua ptria, orno civilizao americana o seu grande moto de aco. Kntre os povo co^irmos do continente 6 ran qu*> |>erra elle ensejou de ir falar pelo Brasil, e dar a todos os mais francos testi-mnnhos de alma solidaria, deixando, quasi sempre, que outros nos representem |>r misses apparatosas. em-quanto elle nos representa jiela palavra eloqente, pela cultura. |>elo desnssombro e alacridade com que proclama a nossa cansa, fazendo-se em toda parte um pr'>go vivo da sua terra e da sua gente.
* St *
No |M>deria eu deixar de preceder destas linhas o que desejo dizer a propsito do presente trabalho sobre: "o padre Ccero e a populao do nordeste". Kntendo qne era preciso que o leitor soubesse primeiro alguma coisa de mais particular a respeito do homem cujo depoimento ha de avaliar-se pelo valor moral e cvico do depoente.
Ainda no houve, tnlvez, no Brasil, tuna vida que tenha suscitado mais rija controvrsia (pie a do padre Ccero Rmno ISnptista. No so ajKMius os (toliticns que a discutem e do sentenas contradictotins. A prpria auto-


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r idade coclcsiastioa chegou a entrar no dissdio e. pelo que parece, com grande desfavor para o velhinho octogenrio, que se fez. ha mais de eineoenta annos. o centro da ordem civil em grande |K>ro do famoso serto cearense.
Conhecendo, ha uns 25 annos e dc visu. as populaes ilo nordeste, qniz o Dr. Simoens da Silva habilitar-se, por si prprio, a julgar a figura do padre Cicero. Tendo ido. ha uns tres annos. a Juazeiro; ali com elle conviveu e estu-doulhe longamente a vida e todos os caracteriscos da personalidade.
<> resultado de taes esforos apresenta-nos o Dr. Simoens da Silva, em resumo, neste trabalho.
Entrara o padre Cicero na cidade sertaneja por 1872. Datam desta epoea as mudanas que se foram operando ali, em tinia vida local.
Comeou o padre Cicero construindo uma grande egreja para servir de matriz: a de X. S. das Dores, padroeira da parochia. Construiu, em seguida, vrios asylos, orphanntos. e grande numero de collegios, onde recolhia crianas dos distrietos vizinhos.
Desde esse tempo constituiu-se aquelle homem o estimulo moral, o socorro, o amparo de todas as populaes da vasta zona do Cariry. Xo ha um desvalido em qualquer sitio daqtiella regio, no ha um desesperado da vida, que no encontre consolao e remdio na casa do jmdre, que ( como a tenda commum de quantos padecem. E' elle ali como um patriarcha. solicito pelo. bem de toda aquella gente, e scrvindo-lhe de lei e modelo.
Mas o padre Cicero no s isso. Ha uma face de seu caracter talvez inteiramente desconhecida: a sua alta conscincia de religioso. Para dar uma ida dos sentimentos libernes e do espirito de tolerncia que lhe completam e sobredoiram as grandes virtudes humanas, cita o Dr. Simoens da Silva este caso: "Quando houve o inicio do massacre de judeus na Rssia, S. Revma., do serto cearense, dirigiu uma mensagem ao Centro Israelita de Paris, acon-selhando-oa intervir, itniuediatameute, no theatro de aco


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de tantas barbaridades, orientando o eotnn devia proceder : e to efficnz foi esse seu acertado aclo a bem da humanidade, que o resultado nAo fe/. e*|M>rnr; coroado foi do melhor xito, recebendo S. Kevma., tempos depois, congratulaes, agradecimentos e toda sorte de homenagens dos que no mais existiriam, se mio fosse i sna benfica, enrgica e prompta interveno em favor dos mesmos".
Desde que entron em Jonzeiro. tem sido o padre Cicero objecto de contradies, de intrigas e nleivc*. havendo padecido, durante mais de meio sculo, ns maiores virissitudc* e as mais caprichosas alternativas do eonvioio e da gloria. A tudo parece elle indifferente. Dns nffrotitns e dns cal um n ia consola se com a estima dos humildes.
E' preciso que st; fixe. de uma vez. este bello typo de condtictor moral. S se sabendo o que a sociedade e o que a vida uaqnelles sertes do norte que se pde avaliar a grandeza deste homem. Xinguem at agora melhor que o Dr. Simoens da Silva desenhou, singelamente, o que tem de excepcional nqueltn famlia desgarrada dos grandes ncleos.
Xno conheo, em todo o pniz, gente para mais supportar as intempries da vida do que essa dos Estados do nordeste.
S visto o que a mesma tem snpportado. nn Amaznia, para a extraco da nossa gomma elstica: immersa, muitas vezes, em zonas alagndias at o peito, mordida por insectos e reptis venenosos e at por certas espcies iohthyologicas, tremendo sob a debilitante aco do impaludismo, e debaixo de todos esses flagellos, no cessa de trabalhar a liem do sen pniz natal, fazendo-o prosperar sempre, e, depois de terminada a respectiva safra, volta satisfeita s pingas onde viu a luz do dia pela vez primeira.' O que essa ln>a fraco de brasileiros tem feito em prol da ptria por todo o paiz conhecido; mas s o sen sangue, derramado nas luctas da independncia, e, de 1865 a 1870, nos prolongados combates do sul, depois na


ir,
cnuqnKln do Acre* e do Amap, e o seu amor ao torro natal, que jamais o deixa aeephalo, preferindo agentar todos os horrores das seoeas e inundaes peridicas, do que dalli emigrar de vez, a collocam em logar de grande destaque perante a nao. 1'ossue essa phalange de compatriotas nossos, ainda bastante desconhecida em certos (huiIos do paiz. verdadeiros dotes moraes, como no se encontram vulgarmente eu outros pontos do Globo. Por exemplo: a sua honestidade a toda prova, do que, a cada passo, est dando as mais seguras e sinceras demonstraes: o seu arraizado patriotismo, sendo ella a que maior numero de defensores da ptria offereee s nossas corporaes armadas, conforme prova, afinal com os re-pcotivos dados estatsticos; o seu caracter verdadeiramente hospitaleiro, de tal forma procedendo para com os que a visitam, de a todos encantar, j tendo chegado aos diversos paizes estrangeiros communicaes exactas desse modo de tratar dos filhos do Brasil, que a ella se referem com esjtecial carinho e grandes recordaes, os estrangeiros que daqui regressam s suas ptrias; a sua granoe operosidade, trabalhando, mesmo enferma e sem conforto de espcie alguma, em certas localidades, de sol a sol. e sem se reliellar contra o exguo salrio que, de ordinrio, receln*: e a sua mais que provada coragem para enfrentar qualquer situao, desde que veja da mesma, provirem resultados sua terra natal.
K. <' essa |Ma e operosa gente patrcia acoimada pela celebre classe dos despeitados, dos ociosos e dos invejosos, de: indolente. bandida, facnora e cangaceira, sendo o Ikhii do padre Cicero, seu chefe! K' esse um dos melhores argumentos para demonstrar como muitos brasileiros des conhecem a sua ptria, os seus irmos que mais distante vivem, os hbitos e costumes de sua terra e o que ns temos de bom e nico no mundo.
Cuida, em seguida, o Dr. Simoens da Silva de destruir, com argumentos e factos, todas essas mentiras quj, fora de repetidas, vo passando como verdade.


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Hematu o seu trabalho com o elugiu ihu|uelle sangre que , incontcstavelmcnte, grande reserva de fora, com que o Brasil futuro ha de contar.
Ahi est. nas suas linhas geraes. a bella obra de reparao, emprehendida tslo louvavelnieiite, e com tanta conscincia, realizada jhIo l>r. Simovus da Silva.
Tfoch Pombo.


CARTA II ESCIIPTII ABADIO BIVAR Al ADTII
Arajo 'Bivar ao Salve.
Por intermdio do Heitor Telles, recebi os convites que V. Ex. tne enviou para a audio da conferncia, to desejada para mim.
A' hora aprazada estava eu j a postos na minha cadeira, ansioso por ouvir a palavra fluente e autorizada do conferencista. que ia prender um auditrio culto com a riqueza de um assumpto ainda, at hoje, no tratado em palestra publica e literria.
A natureza do iema. j de si, rido, perderia a fora do encanto, se no fosse delineado na linguagem opulenta rhythmada com que V. Ex. sabe revestir a iuoia. dando ilie uuances e maleahilidaue, elegncia e graa.
Dispondo de muita cultura e o mais concreto poder de observao, no seria de esperar menos da frma com que V. Ex. sottlie collocar no mais alto relevo os motivos da encantadora conferncia.
Numa das partes onde a sua palestra foi mais interessante, foi naquella onde, com uma fina e discreta ironia criticou a preponderncia do estraugeirismo, j to infiltrado entre ns, atacando, de uma frma doce e macia a tendncia que o nosso povo tem em preferir e em mesclar-se em cottsas de povos de outras terras, deixando de parte objectos e assumptos que os mais exigentes estrangeiros no se envergonhariam delles se utilisar.
Na vida interna do Nordeste, entrara como um sbio bandeirante, para arrancar e expor publicamente cousas
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que o povo d<> itio desconhece, quusi por eompleto, entre cilas, > p.nl.T de virtude e operosidade daquelle velhinho sacerdote, com dez Int r Por todos os motivos, considero-me feliz, em ter assis tido sua conferncia e, por essa razo, bypotheco a V. Kx os meus mais iucondicionnes applausos e admirao pelo seu talento e cultura literria.
Disponha V. Ex. do seu humilde antigo e admirador. Arajo Birar.
Reconheo a firma retro de Arajo Hivar. Rio, 21 de Junho de l!>25. Km testemunho da verdade. Eduardo Carneiro dr. Mendona, Tabellio.


O PADRE GIGERO E A POPULAO DO NORDESTE
Zlesestot de deeu, Mitora. "folxlore" e propaganda)
Meus Ilm-stres Compatriotas:
Se venho a tribuna apenas para. narrando factos que bem conheo, juntar os meu? protestos de solidariedade aos daquolles qu< u%m, por todos os meios dignos o enrgicos, saindo defender, sem rebuos e sem artificio, o Padre Cicero Romo Haplisfa. que por si s, constitue verdadeiro padro de gloria do paiz a que pertence, e a honesta e patritica populao do Nordeste, to operosa quo ordeira, sempre prompta aos maiores sacrifcios em prol do seu torro natal, supportando. com abnegao e herosmo, dignos dos mais acendrados encomios. as tremendas difficuldades, s quaes em certos annos. aquella extensa regio brasileira sujeita os seus milhes de habitantes que. corajosamente, afinal, depois dos muitos soffrimontos. conseguem superal-as.
Digo. com toda convico: ai dessa grande parte do paiz, desses l.llO.fifG kilomelros quadrados, se no fosse o espirito de constncia, o patriotismo e a coragem dos nordestinos !
E. assim endn. e triste conhecer-se que Pastor e Ovelhas da natureza dos citados sejam constantemente victimas da mais cruis injustias, de tantas ingralides e das peiores aleivnias. partidas todas de homens das mesmas crenas religiosas o. poinr do que isso. conterrneos seus. filhos da mesma Ptria. Nunca ouvi. de um s estrangeiro domiciliado no paiz ou de passagem pelo Nordeste, uma s phrase contra 8. Revma. nem contra o povo daquella regio; procedem as aceusaes, sempre, dos prprios brasileiros, no de todos, felizmente, mas, apenas, da celebre classe dos despeitados, daqnelles aos quaes fazem "sombra" esse respeitvel sacerdote patrcio c essa abnegada phalange de patriotas, a toda prova.
A propsito, devo dizer que no conheo cousa mais inlerossanle entre ns. do que o modo. positivamente opposto, de sc apreciar aquillo a que appellidamos de "sombra".


Onde existem arvores frondosas, todo viandante, pousa, descansa, refresca-se e goza do bem-estar que a "sombra" das mesmas offerece, fazendo as Cmaras Municipiaes. hoje em dia. o plantio c o rcplantio desse indispensvel elemento de proleco ao homem e nos demais animaes.
Entretanto, para a malfadada classe dos despeitados, para os nullos. com apparcncia de celebridades, os homens de valor real. os patriotas abnegados, os cidados probos, os que trabalham por um ideal, seja elle qual fr, mas sempre de profcuos resultados a Ptria no lem cotao, no merecem os seus applausos, e. feridos pela "sombra" que estes lhes fazem, injuriam-nos e. oceultamente. apontam-nos no descrdito publico.
K' esse. taxativamente, o roso vertente, o que #e p3sa entro o Padre Cicero. a Populao do Nordeste o os invejosos e maus brasileiros. Para bem cararl*ral-o. foasta n que, com os mesmo, quotidianamente c passa, para que possa ser, sobre ellcs feito o juuo que merecem.
Se vo ao exterior do paiz, em viagem de recreio ou em misses officiaes, quando regream Ptria, no falam mais o seu idioma, utilizando-se somente do rancez. inglez. castelhano e outros, e, peior do que isso. entre os prprios membros de famlia, entre irmos, cnjuges e paes e filhos: nos sales, s declamam, recitom ou cantam tudo o que c estrangeiro, nos respectivo? idiomas, nunca no seu vernculo, nem de autores brasileiros, dando a triste prova de si. de desconhecerem os nossos primorosos compositores e ignorarem as bellezas e obras primas que possumos; quando conversam wm um compatriota qualquer, no tiram os olhos dos seus trajes, como que a indagar, pelo modo de vestir do mesmo, se se encontra elle em condies fie prestar-lhes, ou no, algum servio ou auxilio, resultando do detalhado exame que fazem a maior ou menor alleno que ao mesmo dispensam: nas horas de lazer, quer em casa, quer nos vehiculos em que se fazem transportar, lem. de preferencia, romances, contos e poesias de origem e idioma estrangeiros, esquecendo-se do que existe no idioma portuguez e dos nossos memorveis escriptore?. como. por exemplo, o poeta Tohias Barreto, natural do Estado de Sergipe; o romancista Jos, de Alencar, cuja ca*a de seu nascimento em Macejana. no Cear, a photographia junla reproduz, e tantos outros; quando baptisam os seus filhos, escolhem para nomes dos mesmos, appellidos inglczos. francezes, americanos do norte c al orientaes. desprezando os que possumos em o nosso vernculo e, mesmo os da lngua geral Tupy-Guarany, alguns dos quaes lindos; bom. superior, in-


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igualavel. todo ou qualquer produclo importado do estrangeiro, embora inferior similar nacional, havendo tirado os nossos industriaes grande proveito disso, at bem pouco tempo, porque, conhecendo a fraqueza dos seus patrcios, col-locavam nos artigos, que rnanufacluravam, etiquetas estran-
Can em que nasceu Jos de Alencar. Mecejana.
geiras. o que felizmente j no se d mais, porque prohibem tal abuso leis recentemente promulgadas: nunca a mulher brasileira hei Ia. nem encantos tem. dotes esses que s cabem estrangeira, at mesmo as aves de arribao. tocadas, como rebutalho. dos paiz.es europeus, cheias de faltas e no exerccio do? mais hediondos vcios, encontrando, ao desembarcarem no Brasil, o mais perfeito e completo paraso terrestre, porque aqui tm cilas a cotao que cm nenhum outro ponto do globo conseguiriam; em qualquer preleco ou publicao que, por ventura, faam, jamais citam as nossas notabilidades scientificas ou artsticas, s mencionando as dos outros paizes, que, por no serem brasileiras e pela difficuldade que offe-recem pronuncia os seus arrevesados nomes, so por elles reputados superiores s nossas, e. portanto, "summidades", "profissionaes infalliveis"; um cataclysma de qualquer paiz, afflige-lhes por tal frma, o corao, impressiona-lhes tanto o espirito, que se acham no dever, desde logo, de colher, entre os seus prprios concidados, recursos para auxilio s victimas do mesmo, publicando, j se v, nos jornaes dirios os nomes dos grandes prolectores, esquecendo-se muitas vezes dos brasileiros, em circumstancias idnticas, como, por exemplo: por occasio de inundaes ou seccas, comu essas phantaslicas do Nordeste, em que o Padre Cicero. elle s, se


revela n pae ife loila a populao ilo r.artry e dos romeiro* de outros Estados, alii de estada, pela real e efficicntc pro teco que S. Revnia. proporciona a todo* o necessitados.
Dahi meus illustres Ouvintes, do trabalho, surdina, desses maus brasileiros e inrcia de outros. de\e.se al-Iribuit o ni. lermos at a presente data o "theatro nacional", que. at os ndio* Esquim-W, no Alaska e na Oroenlandia. sua moda. <> tm. prestigiando os seus companheiros de tribu nos differentes papeis que representam, para manterem a instituio entre elles.
Entre nos s tm valor os artistas estrangeiros e as produres de qualquer origem. n'eno brailera.
No novidade lembrar que o non primeiro produclo, o caf. continua, em muita* praas estrangeira de consumo, a ostentar outro rotulo, que no o l>rai!eiro. e a >--a hor-raeba. unira no mundo, quer peta sua qualidade, quer pela sua abundncia, extrahtda. em na totalidade, por homens d" Nordeste, por essa brava gente, que na poca da safra, emigra para a Amaznia, supportando. no* seringaes. o que nenhuma nutra agentaria, voltando depoi com o* provento do seu lalM>r ao torro natal, o qual jamais despreza, permanece mia-- sem rotao, quando a das ndias tnglcza*. de !odo inferior nossa, alcana preos com pensadores '
Por que motivo, em vez de calnmniarcm e injuriarem a esse illusire varo que. ha mai de meio sculo, vem pretando. rom uma constncia de verdadeiro apololo. o melhores servios Ptria e humanidade e. pela mesma frma, de di.*-Ira'arem a essa valorosa gente, palricia nosa. que. por na coragem e ojierosidade. a unira a exlrahir-nos ee grande produclo brasileiro, a valioa gomma elstica e que no deixa acephala essa grande parle do paiz. no promovem, todos elles reunidos, os meios de fazer a precisa, racional e pro-ducliva propasanda dns nossos grande produclos. afim de que olilenham os mesmos o que tanto precisam ?
Disso no se lembram elle. occupando-se de cousas mesquinhas e imprprias de gente que se preza, de falar do prximo, de seus prprios irmos, com a cohardia. to peculiar a essa classe social, de occultar-se sempre dos que ofrende. constituindo, verdadeiramente, uma espcie de grupo, que seria appelliilado "Do forlr ronlrn o humilde", ao mesmo lempo: "Do puillnnimf* junto do grndo". como bem os reputou o culto folklorista patrcio Sylvio Romro, saudoso nordestino, filho do Estado de Sergipe, que repudiava a qualquer desses indivduos, como pssimos elementos sociacs.


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Esses mesmos homens, quando possuidores de alguma parcella de poder, por mais diminuta e transitria que seja, arrogam-se rnais valorosos e importantes que oulrem, com ousado e petulante procedimento para com aquelles que lenham por inferiores a si e portando-se totalmente ao contrario deanle de qualquer entidade, por menor que lhe seja o poder ou prestigio, logo que a repute "e categoria superior sua. mormente se possuir a mesma gales; rojando-se-lhe ao ps. com tanta humildade, como costumam fazer certos carnvoros domsticos, de todos bem conhecidos, e que, hoje em dia. servem, em nossas capites, de elemento de luxo e dislraco a* At os nosos meios burocrticos j foram por esses indivduos invadidos! Em algumas reparties publicas, na sala de espera do director ou de outra qualquer autoridade de Estado, os concorrentes s audincias, que esperam horas esquecidas, s vezes agglomerados de p. pelo grande numero para as cadeiras de descanso, vem constantemente os contnuos e alguns officiaes de gabinete, de certo sem ordem para assim proceder de seus chefes, atlenderem, de preferencia, aquelles que so portadores de nomes estrangeiros e, com franqueza devr, dizer, quanto mais difficil forem os mesmos de ser pronunciados, mais acatamento merecem, causando certo desprazer a homens de elevada dislineo ou de determinada collocao no paiz. o serem preteridos, por indivduos que. tanto podem ser respeitveis, por todos os ttulos de que disponham, como meros valdevinos. mas que. por no serem brasileiros, lhes passam frente. Para essa malfadada classe, qualquer profissional estrangeiro pode agir livremente no paiz e o brasileiro, em regra geral, supporta dissabores, alguns dos quaes. de no pequena monta, deixando muitas vezes de conseguir o que de direito lhe cabe.
S o faclo do indivduo A. B. ou C. ser filho da nao tal ou qual. cujo pavilho indique, embora, s vezes apparen-lemente. poder, fortuna e mais elementos de importncia, basta para que os homens da alludida classe o bajulem e tudo facilitem, negando as menores cousas, e at as de pleno direito, a patrcios seus. em igualdade de circumstancias.
Repito-vos esse o caso do Padre Cicero e da Populao do Nordeste.
E isso affirmo. porque depois de muito investigar, sondando aos que junto de mim chegavam dos vrios Estados do Nordeste: Piauhy, Cear. Rio Grande do Norte. Parahyba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e sertes da Bahia, especialmente da regio do Cariry e da cidade do Joazeiro, nada con-segtii que provasse as malvolas aceusaes S. Revma. e a


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essa boa e operosa populao de nossa Ptria, composta do 10.37l.58i indivduos, em regra geral, constituda quasi que exclusivamente de brasileiros, segundo o nosso prprio Recensea-mento de Setembro de 1920. que a reputa a de maior densidade, genuinamente nacional, por ktlometro quadrado do nosso territrio.
Ao contrario, todos me asseveraram ser S. Revma. o bom e prestimoso homem que , c a gente do Nordeste, o grande elemenlo. de que tem sempre se utilizado o paiz e. com o qual. pde. em qualquer emergncia, contar a todo momento. Convenci-nie de que de faclo S. Revma. e todo* os seus milhes de Ovelhas trem uma grande falta, pela qual esto a pagar peceado, a todo instante, e a qual rifra-so em uma so palavra, serem, como so, todos: "brasileiros". E.
depois de haver visitado o Nordeste, a regio do Ca-
Wriry e me hospedado na Gi-^^j&jftk dade >K> Joa/eiro, em Junho de 1922. privando por vrios dias com S. Revma.. em companhia de quem me pholo-graplmi e, com aquellas in-findas legies de romeiros, e. bem assim, ter ouvido, em Outubro de 1914. a bordo do vapor Ynuhnn. quando viajava para os Estados Unidos da America, em misso do nosso Governo Federal, a bella conferncia, em idioma inglez. de um Sacerdote, que viveu longo tempo entre ns, cercado do maior respeito e carinho das nossas autoridades c do prprio povo, e que nos elevava s pontas da lua, mais me convenci de que positivamente, o Padre Cicero e a Populao do Nordeste lem essa macula, dahi o serem maus, no terem valor e estarem eivados de todos os defeitos e vicios. somente por serem filhos da nossa cara Ptria. E' triste ter de chegar-se a tal concluso I
Para que possais melhor ajuizar dos elementos de que me utilizo, para tirar a supra citada illao, vos referirei, em
Padre Ccero e Dr. Slmocos da Sthra na* ruas de joaielro


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traos geraes, o que disse o alludido Sacerdote americano, naquHIa oceasio.
O Bispo Brown. respeitvel Sacerdote da egreja protes- s lanle americana e sua dis-tmeta famlia, eram passageiros de t" classe desse va-ltr. da Companhia Ingleza de Navegao "Lamport and Holl". do llio para New York.
No programma da soir* de uma segunda-feira. 7* dia de viagem, constava uma conferncia sobre o Brasil, por esse Sacerdote. No esperei por quem quer que fosse; hora aprazada me achava junto da mesa do conferencista e garanto, dou parabns a mim mesmo, por assim ter procedido, pelo prazer e encanto que essa conferncia me proporcionou. Pan Ckero com 0 ^ SInioens da Siin
Expoz o Bispo Brown. em em sua residncia,
termos claros e precisos, o que
eram: o Brasil, tecendo-lhe os maiores elogios, sua hospitaleira populao, a liberdade nunca visla do seu slo. e, para elle. a primeira regio do globo para criao pastoril, como tulo explico detalhadamente cm uma das minhas "Cartas Mattorosscnses". j publicadas. Ao terminar a sua instru-ctiva preleco. de grande p salutar propaganda para o nosso paiz, disse, textualmente, esse culto e sincero estrangeiro, que deixava de ser nosso hospede, que: "levava do Brasil, do Estado do Rio Grande do Sul, onde vivera 23 annos consecutivos e de onde eram naluraes vrios de seus filhos, as melhores impresses c a mais grata recordao, no s de todos como de tudo, inclusive do respeito que as autoridades do paiz e o povo brasileiro sempre lhe tributaram".
Como vedes, pela prpria palavra, de um Sacerdote estrangeiro, que fica confirmado o meu raciocnio a respeito do seu collega eatholico, nosso preclaro compatriota, que prefere viver arredado do convvio do mundo exterior, das honrosas e mesureiras ceremonias. que reputa de transitrias e nem sempre leaes e sinceras, para dedicar-se, como faz ha 52 annos ininterruptos, de corpo e alma, aos seus milhes de Ovelhas,


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das quaes. sem excepo de uma so. gosa da bella e subl;me reciprocidade, tio rara ca encontrar-se alhures.
Para evitar o 'Irstis unas, tetlis nuUus", trago outro valioso depoimento para confirmao do que concluo.
Em 1916. de visita Califrnia, ainda em misso of-ficial do Brasil, tive a suprema ventura de ser recebido e, por um dia hospedado pelo Professor John Casper Branner. Presidente EmTitu da "Lilie Stanford Fniversily" de Paio Alto.
Esse velho engenheiro, notvel profesor. emfim. um sbio mundial, possuindo mais de 20.000 volumes obre n Brasil, falando admiravelmente Item o portngue*. disse-me. primeiramente: que tinha duas ptrias, uma. de nascimento, o maior paiz. ao norte do continente e outra, de corao, o maior do continente, ao sul.
Esteve no Brasil 10 annos p no admitte pau no mundo, mais rico. mais hospitaleiro e de mais respeito.
C.tou certos factos extraordinrios com elle passados no Brasil, inclusive o de uma mulher diante no serto mineiro, a quem nunca vira. no lhe querer absolutamente vender ovos que: 'smrntr os daria dados' textual como finalmente fez, no s para pIIp. como para os dois camaradas com quem viajava, bordando aquplla summidade americana, mil e um conceitos, lodo admirveis e de uma gentileza, digo de passagem, embora justa, para rnmnosoo. toda prova.
Por ocrasio do seu fallecimenlo. publiquei detalhadamente rertos factos da vida desse grande e inrero amigo do Brasil, que por nimia gentileza do Sr. Senador Alfredo Ells fazem parte, desde aquella data. dos Annars do Senado Federal.
E' com prazer que vejo o Brasil, por eu governo e por seu povo. a receber constantemente preitos de homenagem e gratido pelo agasalho e respeito que dispensa ao elemento estrangeiro, que o visita ou nelle fixa residncia; tudo corroborando para bem impressionar o mundo sobre a nosa Ptria: divergindo tudo isso. muitssimo do que alguns paizes latinos da Europa, at bem pouco tempo, publicavam a seu respeito, reputando-o um paiz de selvagens, habitado por anthrnpophagos e representado sempre por um ndio n. de arco e flecha s mos.
Esses dons depoimentos no merecem conleslan. ma-xim, encarando-se o grande facto de pertencer o collega estrangeiro do Padre Cicero. ao cullo proleslanle. tendo do mesmo exerccio durante 23 annos. quasi um quarlo de sculo, sem o menor tropeo, num paiz. como o nosso, onde,


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a despeito da liberdade de cultos, constante da nossa Constituio, s imiiera o catholicismo.
Mesmo assim, cm ba hora o digo, foi o Bispo Brown sempre acatado e respeitado, num meio, que no era, propriamente, o seu.
Aproveitando da opporlnnidade, devo communicar-vos, que a justa e merecida fama, por toda parte corrente, sobre a hospitalidade brasileira, tem Ioda razo de ser, porm com a esincta observao da mxima: "O $eu no teu dono".
A quem cabem, positivamente, todos esses louvores, populao indgena do paiz e nunca aos nossos antepassados, em regra geral, todos estrangeiros e, em quasi sua totalidade europos.
As grandes naes "Tupy" e "Guarany"" que Uaxmavam essa regio do continente americano na poca do seu descobrimento, isso . em 1500. receberam, com grandes manifestaes de carinho e com a cortezia que lhe* era possvel ler. a Cabral e a Ioda sua luzida gente, offerecendo-lhes armas de guerra, artefaetos de plumas. fructas, cocos, pssaros, peas de caa. de pesca e at mulheres para esposas, sem a correspondncia a taes attenes dos conquistadores, o mesmo que se passou, com maior gravidade, por toda America 11 espanhola, a mando de Pizarro, de Cortez. e outros.
Em certos pontos do Brasil e em quasi toda Republica do Paraguay. contina-se. ainda hoje em dia. a observar esse iralamento das Iribus descendentes dessas duas extinetas naes que. muito amorosas entre si, tudo fazem por bem receber e hospedar os seus visitantes. Conseguintemente, sendo a populao do Nordeste a mais genuinamente brasileira, ella cabem, de certo, esses louvores e no censuras, ultrajes e offensivos epithelos.
Por outro lado. essas duas grandes naes, com os seus prprios idiomas, o abaenhenaa e o nheengat, que to grande nomenclatura de localidades, rios. serras, animaes. arvores, plantas medicinaes, fructas. etc, deram ao nosso diecionario de termos brasilicos. no hostilizavam os seus prprios irmos de tribu. nem nos ensinaram a injuriar e a calumniar a quem quer que fosse.
Em taes ciroumslancias. para lastimar que, aquelles que apprcnderam a maneira gentil de receber e hospedar, por lal frma, os forasteiros; assim se revelando, at hoje, quatro sculos depois, no houvessem lambem procurado imitar essa nobre qualidade dos habitantes pre-cabralinos do paiz, para com os seus. a bem da generalidade da populao brasileira.


Entre ns. infelizmente, duas cucas j formaram, verdadeiras instituies; refiro-me "bajulao" e ao "me disseram".
Da bajulao, desse torpe vicio de adular aos que esto de cima. ao< pretenso* dominadores, no me oecuparoi. por desnecessrio, que se torna, explicar o que seja. cousa lo sedia. quo nojenta, como essa, com a aggrav.mtp rtrcum-stancia de hostilidades ao< que cabem ao que. transitoriamente, se acham sem colloeao de destaque, inclusive s prprias autoridades do paiz. que. emquanto governam, so uns anjos, pasmando a ser tudo que de num haja. desde o momento que no se encontram mais investidos do competentes poderes.
Porm, o tal "me disseram", bem merece umas tantas nhrasps explicativas, cheias de repulsa e combate.
E' vulgar, ouvir-se. at de indivduos que no sao crianas e de certa imputabilidade, quando querem se rp-ferir a algum, de quem tenham, por qualquer motivo, inveja ou com quem antipatluzem. uma phrae calomntadora e injuriosa, de momento, por elle* creada contra o mesmo, precedida sempre do "me diseram".
E peior db que isso. aquelle que a ouve. reputa, desde logo. a pobre vietima. como culpada da falta ou do crime, que to malvola, cobarde e falsamente lhe foi attnbmda: passando a outros a mesma phantastira imputao. sem procurar inteirar-se da veracidade do que ouvira, e assim prejudicando a reputao, em regra geral, de innoconfe* e boas pessoas que, sem saberem porque, ignorando o que por ventura haja, para se defender, vo se vendo isoladas e malquislas. de um momento para o outro.
E' esse o caso preciso do Padre Cicero e da Populao do Nordeste.
Declaro-vos que j tenho ouvido contra 8. Revma. e contra esses dez milhes e meio. no minimo hoje em dia. de patrcios nossos, por dezenas de vezes, pelo menos, essas phrases injuriosas de: Padre herege. feiticeiro, curaadriro e fanticos, cangaceiros, jecas, indolenles, fascinoras. etc, que. pela minha prompta e enrgica repulsa, me responde cada um dos taes "mal intencionados phonographos" ou "mal educados papagaios": "estou repetindo o que "me disseram".
Insisto, para vr se consigo ouvir os nomes de to perversos calumniadores. e nunca consegui sabel-os.
E a injuria, a calumnia. sob o deslestavcl manto do anonymato. da cobarde e da soez perversidade.
Todos esses indivduos desconhecem de certo os princpios da boa e s moral, os preceitos religiosos, as regras


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da *an(a egreja -alholica; desconhecendo tambm esse notvel Sacerdote brasileiro, o seu trabalho incessavel e de lodo salutar, para com a grande Populao do Nordeste, durante mais de meio sculo; as virtudes desse venerando ancio, uma fora real em cerca da metade do paiz. com seus teis reflexos em vrios dos demais Estados restantes; o sacrifcio de um verdadeiro patriota, como S. Revma., pelo seu torro natal e pelos seus conterrneos, emfim, um respeitvel representante de Deus para com a humanidade e, bem assim, desconhecem, tambm, as mesmas levianas e ruins figuras, o que sejam o serto brasileiro, a rica regio do Nordeste, os encantos, por alli existentes, a bondade, a franqueza, a hospitalidade da populao dessa zona do paiz. a sua constante operosidade, o seu abnegado e, por demais, enraizado patriotismo, o verdadeiro respeito famlia, a honradez nas suas trancacese a dedicao aos santos da sua devoo, etc.
Posso vos affirmar que, si essa incorrecta classe de patrcios nossos viajasse pelo Brasil, conhecesse melhor a phan Ias tira regio terrquea que lemos por Ptria, cumprisse o seu dever patritico de, anles de qualquer paiz, o seu em primeiro logar. empregando aqui o que gasta no estrangeiro, teria, como se verifica na Allemanha, com os seus sbios dez mandamentos por certo, muito cooperado para o nosso engran-decmenln; faria outro juizo da sua terra natal, e daquilio que lhe pertence, e no iria perder o seu precioso tempo em falar mal do prximo, procurando desacreditar os seus prprios compatriotas, para tal, inventando o que bem lhe apraz ou utilizando-se da errnea e nociva pratica de reproduzir, augmentando sempre, o que, de ruim e imprprio, ouvira dizer, de tal indivduo ou de qual faco social.
Felizmente para ns. a populao do Brasil, excluda a classe que combato, to superior a taes hbitos, que muito se parece a forte e homognea raa anglo-saxonia, por sua vez e por principio, superior a costumes da ordem dos ora repellidos. e para o que basla observar-se o que responde um inglez ou um allemo a qualquer intrigante, que o procure, para calumniar ou injuriar a um dos seus conhecidos ou amigos, dizendo o que lhe apraz. acompanhado, por exemplo, da celebre phrase "me disseram".
A resposta, em taes casos, simples e terminante. Consta apenas do seguinte: "Continuarei a estimar e respei-lar a pessoa de quem me fala. emquanto ella proceder, como at agora; desprezando-a. porm, desde o dia em que proceda do modo que acaba o Senhor de expor"; no mais prestando alleno ao repulsivo delator.


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assim, tenho a plena convico, far toda gente s, do boa orientao e que lenha com o que se oecupar, em bem da Ptria.
Conhecendo, como de facto conheo, uma grande parte do Occidenle do nosso planeta e o Brasil, com excepo apenas do Estado de (ioyaz. tendo percorrido varias regies do Nordeste ern 1899. 191*. 1918 e 1922. sempre em viagens de estudos e tendo estado em Junho desse ultimo anno na regio do Cariry. puro serto cearense, quando tive a fortuna de visitar e conhecer o Padre Cicero Romio Baptista. na grande e progressiva cidade do Joazelro. aronselho a todos, qu- me do o prazer de attender, sempre de nreferenrla. a uma viagem ao estrangeiro, uma excurso demorada, ou. quando no. mesmo rpida, pelo Interior do nosso pau. desse colossal conjunto de 8.511.189 kilometros qiadrados, com as mais flagrantes diversidade* de climas, appropriado a mal* vasta polycullnra. dispondo da ma! variadas e ricas matrias primas para toda sorte de industrias, riqussimo em elementos dos trs reinos naluraes. haja vista a quantidade e a diversidade de pedras preciosas e a enormidade de metaes. desde a platina e o ouro at o ferro p o cobre; senhor e possuidor de frondosas p interminveis florestas, repletas das mais valiosa madeiras de lei p de Ioda sorte de plantas medicinaes 'sem mais falar das ricas p abundantes hrrea e rubiarra da preciada herva-malte. o celpbrp llrr ou o ch americano tomado, hoje em dia. em alguns paizes do Oripntp. como bebida de luxo".; dos extensissimos p pmeraldino campos, nas regies rias trs grande* bacias do Amazonas. S. Francisco e Praia: da j grande, sadia p prolifera criao pastoril; da enorme, p ainda um lanto por ronhprpr. fauna ichthyologica. dos muitos e vrios rios. lagos p audes; do phantasfico numero de representante mnlticores p sonoros da pncanladora ornilhologia; da formidvel e. por demais, importante fora hydraulica natural, que conheo e cuja* principaes quedas. "Paulo Affonso". "Ouayra" e "guass". que visitei em 1911 e 192o. assombram o mundo, collocando o paiz em condies superiores aos demais rio nnivprso; p, fornecedor da mais saudvel, farta e reconslituinte alimentao, composta dos mais variados e saborosos produclo*. da caa. pe*ca. criao domestica, gados varcum. lanigero e snino. ria notvel abundncia de deliciosas fruelas e apreciado cocos nativos e cultivados, e da lavoura de cereaes. legumes e demais vegelaes. tudo isso circumdado pelos sur-prehendentes e bellissimos panoramas, que jamais vi alhures, c pela espontnea, sincera e desinteressada hospitalidade da nossa genle. principalmente do sertanejo, desse


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sublime elemento brasileiro, nico em lodo orbe, no qual vibra ludo o que ha de nacional, puro, genuno e simples, onde a alma brasileira existe sem macula de espcie alguma, quer no Nordeste, quer nos demais ponlos do paiz, conservando a essncia dos seus bons costumes; essa adorao pela famlia, esse respeito palavra que d. e esse espirito de amor Cairia, dignos de todo louvor. E, no tocante cultura intelle-ctual, nas prprias capites dos Estados do Nordeste existem Faculdades de Medicina, Direito, Polylechnica. Escolas Normaes e Domesticas, Institutos Histricos e Gcographicos, um grande numero de outras Instituies de Scicncias, Artes e Letras e, de qualquer dellas. os homens de elevada cultura esto sempre oecupando logares da maior relevncia ern todo o paiz e, at, na nossa representao official no estrangeiro.
Quem dr execuo ao programnia. que ora trao, se fr ao Nordeste, iniciando j a sua rela. quando chegar ao Joa-zero e tiver a fortuna, que tive, de encontrar ainda vivo, in-legro como se acha, esse illustre patriota e acatado Sacerdote brasileiro, o llevmo. Padre Cicero Romo Baplista. que precisamente no dia 24 de maro prximo passado completou 80 annos de idade, venerado e idolatrado, como , por uma populao obediente, operosa e honesta, de mais de 10 milhes e meio de brasileiros, como demonstrar qualquer reeenseamento feito agora. ver. convencer-se-ha de que S. Rvma. e a Populao do Nordeste so dos melhores elementos que o paiz possue e, dignos Iodos, dos mais justos e merecidos encomios.
Se aqui estou, em defesa desse digno Sacerdote patrcio e dessa poderosa nhalange brasileira para cumprir o grato dever de conscincia, que o conhecimento que tenho, tanto de S. Revma. como desses milhes de conterrneos seus. ou melhor nossos, espontaneamente me obriga, afim de que a verdade iriumphe. ao menos, na Capital da Republica, nessa maravilhosa cidade do Rio de Janeiro, para mim, a mais linda do mundo, at hoje: illuminada por 13.796 lmpadas electricas, das quaes apenas 3.500 so incandescentes, sendo as demais, cm numero de 10.296. de arcos voltaicos, com a fora lolal de 1.658.200 velas (II; dispondo de 28 reservatrios de agna potvel, de primeirssima ordem. que. em 1904, aqui examinada pelos sbios allemes R. O. Neumann e Moritz Otlo. physica, chimica e bacteriologicamente, foi reconhecida pauprrima em micro-organismos pathogenicos, e de goslo magnfico: em synlhese: esplendida e das mais puras: o que lem sido ampla e cabalmente confirmado pelas
Ml Addendum: Inspecloria Geral de Illuminao Publica. Ministrio da Viaco.


rigorosas analyses posteriormente feitas, inclusive pela de 19IC. da Directoria Federal de Sade Publica; distribuda annualmente aos seus habitantes numa mdia diria de 230 litros per capito, ou seja num total de 275.913.133 litro*, como se verificou no anno passado de 1923 (2); com uma arborizaro luxuriante, constante de 23.000 arvore*, plantada* no mais rigoroso alinhamento em 290 rua*, numa extenso de 207 kilometros. e de 33 jardins de frondosa vegetao c praas arborisadas, cobrindo uma rea de I.I50.0OO metros quadrados (3); pavimentada pelos novos calamentos de asphallo e bituminnso. na extenso de 1.106.854 metros quadrados, tornando-se uma das melhores do mundo nesse senldo (4); com um trafego j da maior importncia, em todo* o* seu* distrteto* e subrbios, s d tememos de transporte de passageiros, accusando, das quatro estradas de ferro que a servem. Central do Brasil, Leopoldina. Auxiliar e Rio dOuro. entre subrbios, interior e expressos de pequeno percurso. 430 tren* dirios, com um total de 3.423 carros (5> (6) (7':: entre automveis em numero de 5.7(56. auto-omnibus. no de 58 e carros de traco animal no de 16. num total de 5.988 carros que se movimentam isoladamente "8 ; e das seis companhia* de bondes, Light. Jardim Botnico. Carioca. Campo Grande. Suburbana e Ilha do Governador, num total dirio de 930 carros >9); sem esquecer ainda a navegao quotidiana para as Ilhas do Districto, Governador e Paquet. com quatro barcas e Ires lanchas, num total de 30 viagens, e. entre esta Capital e Nirtheroy, com oito barcas e 141 viagens dirias 10 ; localidade do paiz essa. por todos os-senlidos e circumslancias. bem
(2) Addendum: Inspecoria de guas e Esgotos. Ministrio da Viao.
3 Addendum: Inspectoria de Maltas, Jardins, Caa c Pesca. Prefeitura do Districto Federal.
(4) Addendum : Directoria Geral de Obras e Viao. Prefeitura do Districto Federal.
5) Addendum: Estrada de Ferro Central do Brasil. Sec-o de Estatstica. Ministrio da Viao.
(6"i Addendum: Inspectoria Federal das Estradas. Ministrio da Viao.
(7) Addendum : Inspectoria de guas e Esgotos. Ministrio da Viao.
(8i Addendum: Inspectoria de Vehiculos do Dislriclo Federal (Repartio de Policia Ministrio da Justia.
(9) Addendum: Directoria Geral de Obras e Viao. Prefeitura do Districto Federal.
(101 Addendum: Superintendncia Geral da Compannia Cantareira e Viao Fluminense.


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diversa daquella. tm que esse venerado Pastor do catholi-cismo e essas suas innumeras Ovelhas residem, e tanto vm cooperando: um. para o bem da humanidade c. outros, para o enprandecimenio e defesa da Palna.
Esses milhes de patrcios nossos, a no ser nas capites e cm uma ou outra das demais cidades, viajam em geral a p, lguas e lguas, sob a acco causlicante do sol do serto, sem gosar da sombra de arvores, porque so alli rarissimas, sup-porlanto sdc, muitas vezes, sem o bem-estar dos banhos, sorvendo ondas terrveis de poeira, sem oulra illuminao que a das estrcllas c. alguns dias por mez. do luar. sobre um slo desigual e escaldante no vero, picados por mosquitos, carrapalo-;. barbeiros, vespas e cobras, sem medico e phar-maca. varias vezes, (remendo sob a debilitanle aco do im-paludismo. em ler o que comer em certos Irccbos das prolongadas viagens, a que so obrigados a fazer, e, com um herosmo a ioda prova, sem se maldizerem da sorte, jamais pensando em emigrar das plagas onde nasceram e onde pretendem acabar os dias.
Este um dos mais importantes argumentos contra a referida malfadada classe de indivduos, que, como bem diz o rifo no quente, d rir-se da gente", vivendo em capites como o Hio de Janeiro. S. Paulo c outras, com toda conforto, sem passar por privaes, no trepida em desfazer, maltratar e ultrajar aquelles a quem no conhece e que nunca lhe fizeram mal. nem a menor offensa. sequer.
Mais uma vez sobresae o valor dessa populao, genuinamente nacional, que outra cousa no faz, durante toda sua vida. que Irabalhar c defender o paiz. emquanlo a celebre classe dos maldizcntes, procede de modo completamente op-posto. fugindo ao cumprimento sempre dos mais sagrados de-veres, para comsigo mesmo, para com o prximo e para com a Ptria.
E assim me manifesto, porque estou cumprindo o meu fJever. defendendo os innocentes e aceusando os culpados, sem auferir o menor resultado pecunirio, com a presente conferncia, que espontnea e livremente me propuz fazer, o mesmo que acontece com as arcas da Nao, das quaes no recebo um s real, embora seja funecionario publico ha 13 annos. sob a classificao do honorrio; e porque, antes de ser carioca, sou brasileiro, acho que toda localidade, qualquer regio do paiz minha Palria. se acha em idnticas circumslancias para ser defendida contra qualquer ultraje, provenha elle donde fr, e que o meu ideal, como acredito ser o de Iodos vs, que o Brasil continue sempre unido, e que os seus filhos obedeam sua sbia constituio, que no
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d privilgios a uns em detrimenlo de outros o que. mais do que tudo, observem a melhor orientao possvel para o bem de todos, o progrosso da Ptria e a pai do Continente.
Assim. pois. como no defender a um Sacerdote catholico, um illustre e cullo ancio brasileiro e a essa pleinde do compatriotas, dos mais devotados e dos mais genuinamente nacionaes e. conseguinlemente, tudo o que respeita a essa regio do paiz. parle integrante da minha Ptria ?
A oceasio opportunissima para citar os grandps dotes, quer de S. Revma, quer desse* IO.371.5B4 habitantes, conhecidos por nordestinos, iniciando, como ora fao. pelos de S. Revma.
Esse preclaro brasileiro, que precisamente conta agora 80 annos de idade, installou-se nessa localidade do serto cearense, no anno de 1872. quando alti apenas existiam duas casas, indo S. Revma.. com sua Genitora e Irms, residir numa. e noutra um modesto agricuUor.
Desde essa poca, sempre vestindo a sua batina simples de padro. alli vive, na mais abnegada e desinteressada dedicao ao culto catholico. reconstruindo o templo local, conver-tendo-o de capella em egreja Matriz, e propriamente, fundando a cidade de Joazeiro. empregando toda sua actividade em bem da humanidade e da Ptria.
Ha 52 annos, portanto, que S. Revma. trabalha sem cessar, em horas de lazer, sem luxo de espcie alguma, sem fazer pedidos a quem quer que seja e, mais do que tudo, sem se lastimar da fadiga que experimenta e sem falar dos que tanto o maltratam, ou. melhor, sem se incommodar com clles.
No admitte vinganas, reputa-as contra os dogmas da religio chrisl.
Uma das suas sabias divisas, : Chrlslo. o prximo e a Ptria.
Dahi no se afastando uma s linha.
Accusado rias mais torpes villanias. como chefe de bandidos, cangaceiros, facnoras, ele., para consecuo de suas ambies polticas, de herege. de inlroductnr de fanatismo no Nordeste, supporta tudo, sem perder o seu precioso tempo em responder ao anonymato. como sempre fez o saudoso estadista Dr. Joaquim Murtinho. grande philosopho c sbio profundo das matrias que professava.
A sua defesa, no tocante a qualquer dessas esdrxulas aceusaes, facilima, evidencia-se por si mesmo.
Por exemplo: Que ambies polticas poder ter um padre, na avanada edade de 80 annos ?
Amparado por uma operosa populao, como a do Nordeste, qual ampara, por sua vez, sem ter mais uma s pessoa


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d- famlia, pois rpm sua Genitora e Irms falleceram e, como Sacerdote catholico. cclibalario. virtuoso como . sem um desvio praticado, o que justia seja feita, reconhecido pelos seus prprios desaffeioados; por conseqncia sem descendemos, para qupm e para que fim. manter ambies polticas?
E essas arcusaes affeclam gravemente a referida Populao do Nnrdesle. que pde servir de exemplo e modelo s de outras regies do Globo, como provarei.
Tudo isso fruclo da rnaledicencia e da falta de conhecimento do seu prprio paiz natal e dos seus longnquos compatriotas.
A aocusao de "herege" dever ler sido feita somente por aquelle. que o . porquanto, no haver, entre ns, um homem de hom senso, que repute como tal um padre, mormente calholicn. e com a edade desse notvel brasileiro, que nunca despiu a sua batina, com a Iabuta constante de mais de meio sculo, em favor da humanidade e da Ptria.
K a Qual o homem, a sociedade ou a populao que pde abrigar em sua conscincia, no seu inlimo. a imposio deste ou daquelle vicio ?
Adquiri-o por prpria, livre e espontnea vontade.
Consejminiemenle. caso houvesse fanatismo no Nordeste, nunca ao culto e correefo Padre Cicero seria o mesmo devido e. sim. aquelles que o tivessem adquirido e o praticassem.
E. sendo assim, attenta a cifra da populao do Brasil, que respeita e venera a esse velho Sacerdote de sua terra, de um tero precisamente da recenseada. em 1920. as nossas estatstica* j teriam com o assumpto se oecupado e o mundo exterior classificado a nossa Ptria de um paiz de fanticos.
A gente que permanece, assim, agrupada, na cidade do Joazeire, nn Serlo do Cear, constituda de romeiros de todos os pontos do Brasil, com especialidade do Nordeste.
Romeiros Nn-sa Senhora das Dores, que appellidam "Virgem Me das Dores", e no ao Padre Cicero.
A confuso propositadamente feita, para causar o mal que desejam a esse vulto, veneravel, por qualquer dos prismas, em que seja apreciado.
S. Revma. levantou a grande Malriz. que alli existe, sob a invocao da Padroeira. Virgem Santssima das Dores, de extraordinria devoo em todo o paiz e, especialmente, no Nordeste e sempre alli residente e defendendo os preceitos da


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religio, que professa, e o direito das Innumeras Ovelha, fieis mesma, amparando levas e levas de patrcios nossos necessitados, mormente nas tremendas pocas das s-Vcas, sem distinguir, para fal. categorias soctaes. dos que o procuram; justa c merectdamenle ficou sendo, para toda aquclla regio.
Egrcja de N. S. da Dores. Mabit da Parwbia de joaieiro.
o verdad.-iro protector, o Sacerdote predilectn e. para muitos, tido na categoria de "idolo", ron.n fora. por exemplo, Na-poleo, para o povo francei;.
Em qualquer cidade do Brasil e mesmo do mundo exterior, flar-se-ia isso. quanto mais nos pontos mais recndito* do paiz.
E?a gente, em constante peregrinao ao Joaiteiro. alli chega em grupos, alguns fios quaes bastante grande.
Ao entrar na cidade, seja a hora em que fr.. solta uma certa quantidade de foguetes do ar. como aviso da sua presena alli. Tanto de dia como de noite, chega srente das redondezas, da regio do Cariry. dos demais Estados vizinhos ou longnquos e. at. de certos pontos do ex'erior do Brasil, munida de girandolas. muitas das quaes adquiridas no Crato, em Barbalha e. ate. alli mesmo.
Bastante interessantes, para um Inurhlr. um esludioso ou pintor de nossos hbitos e costumes, so e.a leva. e*sa ondas de criaturas humanas, deslocadas, muitas vezeg, de pontos bem distantes dalli: com suas redes nu trouxas, umas, e, apenas com offcrendas. resultantes rio promessas feitas, outras, c, assim por deanle. acampadas, estas, gratuitamente, em certas casas d.i -idade, para tal fim destinadas, e aquellas, nessa ou naquella rua. debaixo das arvores, fazendo hora para despedirem-se do Padre Cicero. por j haverem cumprido o seu dever para com a Me das Dores.


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Quer em frente residncia do Padre Cicero, no centro mais commercial e habitado, quer no interior da egreja, quer em outro qualquer ponto da cidade, mantem-se toda essa gente na melhor harmonia possvel, para no causar o menor desgosto ao bom do "Meu Padrinho", como geralmente , por toda aquella regilo. o venerando ancio conhecido.
E por que no ser assim ?
Pois que grande parte dos sertanejos nordestinos, de meio sculo a esta parte, foi baplisada por S. Revma,, ou, quando nio, o tem tomado para padrinho; conseguinlemenle, toda essa gente, filhos da referida zona do paiz chamando-o por essa
Chupo de romeiro da Senhora das Dores do joazelro de volta do templo a espera do Padre Ccero para rexbxem sua beoam.
forma, foi habituando os filhos, netos, sobrinhos, aggre-gados e mais pessoas com que vivem, tambm a chamarem-no assim, repetindo o tratamento que* os seus Maiores ou protectores, lhe vm dispensando ha longos annos.
Dahi no causar a menor estranheza tal modo de tratar, mormente ao cidado iIlustre do paiz, que soe ser esse verdadeiro apstolo do Christianismo.
Nas ruas, so vistos diariamente grandes grupos-de romeiros, homens, mulheres e crianas, indo ou voltando do tem pio da cidade, ou aguardando o momento appropriado de ser recebidos pelo seu proteclor, pelo Padre Circo ou M Padim, como costumam pronunciar o seu nome, ou o tratamento que lhe do os mais ignorantes.
Vem-se, pelos passeios, s sole iras das por (as, sobre o prprio calamento das ruas, junto s sargetas, de ordina-


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rio, debaixo das poucas arvores por alli existentes, muitas vesss tambm aos troncos das mesmas encostados, velhos e moos, enfermos, aleijados, ou perfeitamente sadios, sertanejos todos, de ambos os sexos, com uma pacincia, digna de admirao, esperando a hora da sua entrada no grande salo trreo, de cujo extremo, aos fundos, sobre um estrado, para o qual d acresso nma pequena escada de ires degros, S. Revma. deita-lbes a sua bencam, em nome de Deus e da Virgem das Dores; d-lbes os seus, mais que moralizadores, conselhos, concitando-os pratica das boas sees, ao trabalho honesto (cujo frueto bem conhecem \ a defesa da Ptria, a dedicarem, sempre diariamente, uns momentos de adorao a Christo e a Virgem das Dores, Me de Deus e a. por todos os meios, evitarem a pratica de crimes, impedindo, sempre que puderem, que ou trem os pratiquem; e, finalmente, os attcnde nos pedidos de auxlios, que sua pessoa continuamente faxem.
Num dos primeiros dias do mex de Junho de 1022, presenciei uma dessas benans solennes, que esse respeitvel Sacerdote deu a uma grande leva de romeiros, nesse amplo prdio, que mandou construir ao lado de sua residncia, propositadamente para tal fim, desde que se viu privado das orderi. a que tem direito.
Bastante comprido, largo e alto, com a apparencia, no seu interior, de uma espaosa nave das existentes nas nossas egrejas, d entrada ao povo, pelas portas que abrem para rua e, a S. Revma., por uma outra lateral e aos fundos da sua residncia.
Eram 5 horas da tarde, quando 8. Revma. com um dos seus secretrios, levando-me em sua companhia, deu entrada no logar, que para si reservou, aos fundos desse salo, separado, apenas, por uma pequena grade, do resto da supposta nave.
Em seguida, foram abertas as portas que do para rua, verificando-se, embora vida e apressadamente, a entrada dos romeiros que, alli fora, aguardavam esse momento, porm, com toda ordem e sem o vcxerio, que, em outras localidades e occasiOes semelhantes, estamos acostumados a ouvir.
Depois de lodo salo repleto e no mais completo silencio, todos os homens descobertos, as mulheres de pannos pela cabea e as crianas aos braos dos paes, galgou os degros do estrado o venerando e venerado Padre Cicero, ouvindo-se nesse instante como que um sussurro de toda aquella multido, que devo confessar, no sei se foi de saudao ao idolatrado representante da egreja calholica, ou uma inlerjeico


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de admirao, de encanto, porque o vissem muitos dos alli presentes, pela vez primeira.
O facto alli assim se passou e eu o presenciei, mas, alheio como era ao meio, e esquecendo-me de pedir sobre o mesmo, posteriormente, explicao, continuo ignorando a significao de tal manifestao.
Uma vez, no alto desse estrado, de p, em posio so-braneeira e, com um olhar meigo e captivante, para toda aquella gente, benzeu-se S. Revma., no que foi por todos Imitado e, em seguida, com o seu brao levantado, falou:
"Meus filhos, aqui estou, digam o que querem de mim, pois desejo saber do que necessitam, para poder satisfa-zer-lhes."
Respondem muitos, quasi que ao mesmo tempo: "Queremos viajar, e precisamos de sua benam, Mo Padim r
Pergunta o Padre Cicero: "Para onde vo e do que precisam f"
Respondem dous, um prximo da grade, que separa a multido do Sacerdote, e outro, bem no centro do salo, quasi que, repelindo o segundo o que dissera o primeiro:
"P'ra o Estado da Vmhyba. p'ra obras dos aude, porm perdamos de um auxiliosinho do SittMn.
"Est bem responde o Padre vou mandar dar-lhes j o auxilio pedido", falando, em seguida e em tom baixo, ao seu secretario, que logo tomou nota da ordem recebida, continuando S. Revma. a falar-lhes:
"Inteirado das necessidades do todos vocs e da vontade de que lhes deite a minha benam. vou satisfaxer-lhes em tudo, mas, antes, quero que todos me jurem aqui: que tero sempre o melhor comportamento possvel; que sabero honrar o logar, em que nasceram e em que vivem; que continuaro firmes santa religio calholica e apostlica, adorando, acima de tudo, Nosso Senhor Jesus Christo e a Santssima Virgem, Me das Dores; que iro trabalhar para no passarem misrias, principalmente em logar que ainda no conhecem, e, no serem pesados ao prximo, c. prestem bem attenco, isso para mim questo capital, questo de honra no commetterem crimes de morte, de roubo, de offensas physicas (ferimentos) e de desrespeito mulher e s filhas do prximo; e, isso repito, exijo de todos vocs, quer dos que, nesse terreno, estejam innocentes, quer dos que hajam j praticado qualquer desses dei ic tos, mas que, devidamente arrependidos, estejam de firme propsito de no repetir a pratica de to reprovveis aclos, ouviram?
Esto dispostos a jurar o que lhes proponho ?"


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No preciso, meus illustres Ouvinte*, esclarecer-vos mais a respeito, j deveis advinbar qual o modo de proceder de toda aquella gente, humilde e crente, na mais extensiva expressfio dessas palavras.
De todos os pontos do salo, vi braos e cabeas levantarem-se, como que de gente despertada de uma somnolencia. pois todos os romeiros ouviam o grande Sacerdote de cabea baixa, afigurando-se-me a momento solenne da missa, na oceasiao da elevaro da hstia, c. conjuuctamcnte, ouvi: "juro", "juramos*. Sim, mo Padim, etc.
Toda essa gente assim respondia e conservava os olhos fitos em S. Revma. e as boceas semi-abertas, como que numa situao ainda de duvida, se teria ou no a benam e a permisso do seu grande Protector, para poder dirigir-se ao logar, a que pretendia destinar-se.
Ouvido o juramento de todos os romeiros em sua presena, deitou, ento, a sua benam, concedendo a devida permisso, nos termos seguintes:
"Dou a todos vocs licena para irem trabalhar nas obras dos audes do Estado da Parahyba e. em nome de Deus e da Virgem Me das Dores, abeno a todos, esperando que sejam muito felizes."
Em seguida, comeou a retirada d aquella massa de gente, na melhor harmonia, mantendo tal respeito, que se tornou digno, no meu modo de vr, de imitao, em algumas das egrejas calholicas, das mais movimentadas e populosas cidades do paiz.
Nesse momento ainda fez S. Revma. um gesto coma sua protectora mo. para Iodos aquelles romeiros e lhes repeliu: "Qualquer de vocs, que se lembrar de quebrar o juramento aqui feito, fica desde logo sem a minha benam; reliro-a im-med ia lamente. ~
Como que por encanto, todos pararam e repeliram que cumpririam risca o prometlido.
Depois de o salo vazio, S. Revma. deu uma volta pelo mesmo, mostrando-me achar-se todo elle limpo e sem a menor depredao, o que era bem digno de louvor, por alli entrarem milhares e milhares de romeiros por semana.
Agora, de novo vos pergunto:
Que tal a populao do Nordeste e suas cercanias, s constituda de cangaceiros, de assassinos, de indivduos perversos?
E como classificar o modo de agir desse Sacerdote brasileiro?
Tm razo os que o reputam de mu homem, de instigador de facnoras para revoltas, e inlroduclor do fanatismo no Nordeste?


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Vou. com prazer, agora referir-me a alguns dos muitos feitos desse exemplar padre sertanejo, a favor da indigencia, da orphandade e da inslruco publica daquella enorme regio do Brasil interior, onde reside.
Da* 82 escolas, daquella localidade, muitas foram as fundadas por S. Revma., com dinheiro seu e bolos dos romeiros do Joazeiro.
No alto da Serra do Horlo, iniciou a construccao de uma grande capella, chamada "do Corao de Jesus", cuja continuao das obras foi suslada ha cerca de 28 annos, por ordem de um dos chefes da egreja da localidade, sob pretexto, que no me assiste o direito de indagaes, nem de commentarios,
Grand: prdio construdo pe!orPadre Ccero, na Sem do Horto.
esquecendo-se, no emtanto, a mesma autoridade ecclesiastica de mandar fechar tambm a Matriz de Joazeiro, que foi por S. Revma. construda, ha cerca de meio sculo, e, para a qual convergem, todos os romeiros, em peregrinao por aquella regio.
Contguo a essa capella, construiu, com dinheiro seu e auxilio braal dos romeiros do Joazeiro, um bom e espaoso prdio, para nelle installar um convento e collegio de religiosos.
Por sua vez, foi-lhe tambm prohibido o aproveitamento do alludido prdio, continuando o mesmo fechado at.hoje, com a flagrante perda desse outro beneficio referida localidade do serto do Cear.
De conversa com o Padre Cicero, me fez S. Revma. eciente de que, em no remoto futuro, iria offerecer esse prdio, no alto da referida serra, Congregao dos Tra-pistas, para alli a mesma Se installar.


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E' o caso de dizer-vos:
Quanto crime praticado por esse bomeml
Lembrar-se de fazer capellas. conventos e eollegios de religiosos na cidade de sua residncia, empregando as espor-tulas recebidas e muito dinheiro seu. nesses commetlimentos.
Quanto delicio!!!
De certo, no parece tal modo de proceder passtvel de rigoroso castigo?
Por menos do que isso, nos tempos da inquisio, perdiam os autores de taes aclos a vida, soffrcndo previamente grandes martvrios. como o que se passava aqui. nos velhos tempos coloniaes, com quem praticasse certas aces de grande altrusmo, de progresso para este extraordinrio pais ou se conservasse fiel a qualquer ida nova. que se sujeitaria s mesmas penas, deixando, afinal, a rabeca fincada em uma longa vara, na praa publica, a oscillar aos ventos.
Mas. meus illustres Senhores, 8. Revma. tem tido a ousadia de commetter mais delir tos. todos da mesma ordem, com o que ainda muito se satisfaz e. cada vez mais, alegra e contenta o povo. que tanto o venera.
S. Revma. fundou o bello c grande "Orpbanato Jesus, Maria Jos" num prdio de largas dimenses, que para tal
Orpbaaato Jatas, Maria, Jot.
fim construiu nessa j grande cidade sertaneja, onde se acham recolhidas muitas dezenas de meninas d es vai idas, sob a di-reco da beata Joanna Tertulina de Jesus.
Esse orphanato feminino, no norte do paiz, em local ldad2 de romarias, faz perfeitamente lembrar outro, por mim ha annos passados visitado, dividido em duas scces, uma para cada sexo, existente no sul, na linda e' alta serra da Piedade, lambem centro de romarias, no Municpio de Caelh, do populoso e prospero Estado de Minas Geraes, sob a direcfio, respectivamente, do velho e bondoso monsenhor Domingos


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Pinheiro e de sua cariutiva e abnegada irm, que s vivem para instruir e educar crianas desvalidas.
Pois bem, caso no bastem estes aclos por S. Revma. praticados, ainda vrios outros poderiam ser citados, como, por exemplo: um oulro orphanato. este masculino, num dos seus stios, alm da cidade do Crato, na Serra do Araripe; a conslruco do Seminrio, logo depois de 1870, nessa mesma cidade; a hospedagem gratuita dispensada constantemente a centenas e centenas de pobres romeiros, de visita cidade do Joazeiro; as esmolas quotidianamente dadas a muitos necessitados, alli residentes ou de passagem por aquella regio; outros grandes aclos de puro altrusmo e pbilanthropia, que continuamente pratica e, mais do que isso, o perdo que sempre concede aM> seus delatores, no permillindo que, contra os mesmos, se opere a menor represlia, e, estou bem certo, de que S. Revma. se sentiria muito mais magoado com o conhecimento de qualquer aco m, feita a um s que fosse desses seus ingratos palricios. alguns dos quaes, que jamais deveriam proceder por semelhante frma, pelas circumstancias que os cercam, do que com o que sabe a cada passo, proferirem elle* contra a sua calma, correcta e vencranda personalidade.
Podereis, perfeitamente, comprebender que, se esse nosso pnvlaro compatriota esse notvel Sacerdote brasileiro, quisesse libertar-se dos seus desaffeclos, mormente daquelles que vivem na regio onde S. Revma. reside, facillimo lhe seria, pois que, a qualquer dos seus muitos amigos que manifestasse o incommodo que o indivduo A. ou B. lhe estava causando, fosse elle de alta ou de modesta categoria, imme-diatamente seria satisfeito nos seus desejos e teria o mesmo que mudar de residncia ou de modo de agir, sob pena de ser acremente desfeiteado.
E. mais ainda, sendo alli, na hypolhese, um foco de cangaceiros e fanticos. S. Revma. tornar-se-hia o eliminador de quem bem quizesse ou entendesse, facto de que jamais foi aceusado; ao contrario disso, o mesmo Sacerdote, verdadeiramente, o melhor guarda e protector daquelles seus calumniadores.
O Padre Cicero . na extenso da palavra um Sacerdote, um verdadeiro Ministro de Deus, um homem de grande cultura inlellectual e de uma moral irreprehensivel, e que (em levado toda sua longa vioa a pregar o bem, a dar bons conselhos humanidade, a realar os bons actos e a reprovar os mos. a obedecer, at as mais absurdas ordens, de autoridades, que mais o deviam acatar e respeitar, s para no incorrer em faltas, perante a santa egreja calholica. no desmerecer do conceito das suas innumeras Ovelhas e, como S. Revma. sempre diz: "para estar bem constantemente com


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a sua prpria conscincia", e. como prova disso, est o que se passou, quando foi 8. Revma. a Roma. em 1898. a chamado do Vaticano, por queixa da prpria regilo, onde vive c s beneficies faz, como extraordinrio Sacerdote catholico e nosso bom compatriota que .
L chegado, foi recebido com grandes aUene* pelo Cardeal Secretario do Pana Leo XIII, declarando S. Revma. ao mesmo e. mais larde. S. Santidade, que: "no Ib ac-cusando a conscincia de falta alguma commetlida. tambm no precisava constituir advogado no processo a instaurar-se. pois que de nada tinha que produzir defesa".
Depois de demorado julgamento, foi S. Revma. absolvido pelo Santo Officio. que o declarou nnocente e sem haver incorrido em falta alguma sendo, em seguida, nomeado Ca-pello da Egreja de S. Cario, grande demonstrao essa do valor reconhecido em S. Revma.. que continuou a gosar sempre da alta considerao que lhe foi dispensada, ate o seu regresso ao Brasil.
Ainda, teve permisso de S. Santidade, por bulla papal, como uma attenco especial, para celebrar em oratrio privado, altendendo, assim, aos desejos, de ento, de sua velha Genilora.
Resultou dessa vicloria do Padre Cicero. receber golpe de morte, apagar-se de vez, a trisle lenda, que pretendiam os seus delatores crear. de excommunho imposta a 8. Rvma.
Um homem dessa ordem, parece-me, s merece acatamento, respeito e venerao de Iodos que delle se acercam, com elle privam e delle tm verdadeiras informaes.
E a prova do que allego est na continua romaria a essa longnqua cidade do serto cearense, de fieis em devoo a Virgem das Dores, dali i no se retirando os mesmos sem saudarem esse velho e bom Sacerdote e delle obterem a benam e os imprescindveis conselhos.
Qualquer de vs que for ao Joazeiro. ver a egreja Matriz, sempre repleta de fieis ao christianismo e. na ma. onde 8. Revma. se achar, no momento, ou em frente a sua casa, grupos de muitas dezenas desses romeiros, para no dizer logo, em certas oceasies, centenas delles.
No dia 2 de junho de 1922. numa das varias vezes que diariamente vo a esse templo. Vender graas a Deus e Me das Dores, regulava ser uma hora da tarde, contei 288 mulheres, todas de manto cabea e chinellos nas pontas dos ps. no deixando de haver, ainda, algumas outras, descalas; todas ajoelhadas, de rosrios s mos, rezando o tero.
Poucos homens alli se achavam, porm, esses mesmos, tambm de joelhos, a rezar, dous dos quaes eram puros lypos


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indgenas, talvez alguns dos "Mendona", do Amarello em Baixa-Verde. (Estado do Rio Grande do Norte), celebres, por formarem, entre si. uma espcie de tribu, admiravelmcnte bem dirigida.
Uma cousa muito bem me impressionou, e, estou certo, encantar a quem l for, que foi, ver esse templo, com tanta gente, no mais completo silencio, e de tal ordem, que permiti ia ouvir-se o zumbido das moscas.
Em outra ocacsiio, no dia 4, dos mesmos mez e anno, dia de domingo, s 8 1|2 horas da manha, havia no mesmo templo, mil e poucas pessoas, inclusive o Padre Cicero, estando sempre em maioria, as do sexo feminino, no mais perfeito e rigoroso silencio, todos, inclusive S. Revma., a rezarem milagrosa Santa da sua eterna devoo, a Padroeira do logar.
E, j ha vrios annos, que se encontra esse respeitvel Padre catholico, nosso illuslre patrcio, esse verdadeiro dolo de muitas centenas de milhar de habitantes, para no dizer logo, de alguns milhes de brasileiros, de uma regio, que abrange mais de um tero dos Estados da Unio, privado das suas respectivas ordens religiosas, pela suspenso, que lhe foi imposta, pelas autoridades ecclesiasticas do Cariry!
Martyrio esse, contra o qual outro qualquer se teria ha muito, revoltado; no embuto, S. Revma., como verdadeiro Sacerdote catholico, de princpios os mais rigorosos, supporta calmo, tolerante e com a maior philosophia imaginvel inclusive, os constantes abusos que contra a sua illibada pessoa commcttem os seus gratuitos desafieioados.
Pergunto-vos: E' ou no, esse homem, deveras superior, digno de todo nosso respeito e credor de nossa admirao, merecedor de prompta reparao por parte de quem de direito contra aquelles que tanto e tanto o tm feito soffrer?
E que alegria e sincero bem-estar no ir fruir toda essa grande populao do Nordeste, com a rehabilitao desse illuslre varo, ao qual rende a mais justa e merecida homenagem?
Para dar-vos a conhecer, com mais, preciso, da invejvel fora de vontade e da contnua actividade desse grande proteclor da humanidade, nessa regio da nossa Ptria, basta o seguinte facto. por mim alli presenciado, na. noite de 3, desse mesmo mez de junho:
S. Revma. deita-se muito tarde e levanta-se, de ordinrio, bem cedo, sempre na faina de attender a quem o procure e de no deixar cousa alguma atrasada para o dia seguinte. Nesse ponto, S. Revma. perde de facto, por momentos, os foros de cidado brasileiro, fica sem as faltas, de que o


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aceusam, visto como no participa da outra nossa instituio", a dO "amanha".
Assim, nessa noite, eram precisamente 10 horas, quando consegui falar S. Revma., afim de despedir-me e agradecer-lhe as aUenoSes, que me havia dispensado, hypolhecan-do-lbe o meu eterno reconhecimento e a minha sincera admirao pelas suas grandes virtudes.
Depois do tradicional abrao brasileiro, que lio grata impresso causa a todo mundo, disse-me 8. Revma., como que, a desculpar-se pela demora de vir sala. onde o esperava, com alguns romeiros, de varias categorias sociaes: "estava acabando de assignar as cartas, em resposta, s que hoolem recebi, por intermdio da velha Cururlpe, para, ainda boje, mesmo, entregal-as a essa portadora, e que sio em numero de 111".
Depois de attender 's demais pesosas que o esperavam, levou-me.' em sua companhia, para o seu gabinete de trabalho e alli vi. de facto, essa enormidade de cartas, todas com data de 3 de junho de 1922. deixando-me vr S Revma. uma deltas, a esmo, para dar-me conta, como eram todas as demais.
Nessa missiva, embora escripta com rapidez, porm com ralligraphia clara e bem intelligive!, por um dos seus secretrios, iam: sua benam, o agradecimento de uma orferta, que o destinatrio lhe fizera, a copia de uma receita medica e um conselho sobre determinado assumplo.
Muitas das outras, que vi de relance, em vez ne agradecimento era a remessa de certas quantias, para altender aos pedidos de auxlios, que lhe foram feitos.
Analysando o contedo dessas cartas, de certo conven-cer-se- immedi ata mente o seu investigador do grande auxilio que as mesmas prestam aos seus innumeros destinatrios e do grande alcance que ellas em si encerram para a manuteno da ordem e do progresso, naquella grande zona do paiz.
Assim, a "benam", todos vos sabeis o que ella , calculando, de ante mo, do valor que a mesma tem para os respectivos fieis, maxim no meio em que pedida e dada.
"Agradecimento" ou "remessa de auxilies", lambem, no carece de maior explicao, se bem que os offerecidos 8. Revma. so espontneos e os remeti idos por 8. Revma. so gralmonle cm atteno aos pedidos que recebe.
"Receita medica", sem ser 8. Revma. um esculapio, um clinico, a principio, causa cerla estupefaco, a quem isso ouve, mas que, raciocinando, reflectindo melhor e conhecendo do meio em que vive 8. Revma., onde todos curam, todos ensinam, usam e conhecem mezinhas. fomenlaes, infuses.


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chs, etc., etc., j no se preoccupar com o assumpto, maxim cabendo que. junto de S. Revma., ha muitos annos, reside um medico de real valor e da maior solicitude, mormente para com toda aquella gente, que em si vota, para representante dessa extensa regio do Estado do Cear, na Cmara Federal, que o Dr. Flor o Bartholomeu.
Esse medico a receitar, junto do seu velho e particular amigo. Padre Cicero, ha muitos annos, necessariamente instruiu S. Revma. no que deveria fazer, mormente, quando elle estivesse ausente dessa localidade, deixando-lhe os indispensveis elementos de consulta para tal fim, cumprindo S. Revma., inlelligente, zeloso e prudente como , risca, todas as recomtnendaes que o mesmo culto profissional lhe fizera.
Por ah vereis que o Padre Cicero no se converteu em curandeiro. nem aspira ser tido na categoria de medico, para toda aquella gente; limita-se apenas a enviar cpias de re-eeituario medico, para enfermidades passageiras, aos seus consulenles, na maioria dos casos, remdios cazeiros, que sempre sfio bem applicados.
Resta agora tratar, a penas, do "conselho", constante das referidas cartas:
Do que constar esse "conselho" que, em regra geral, toda carta possue como fecho?
Nada mais, nada menos que um parecer judicioso e prudente de um culto e intelligente ancio, senhor de grande e sadia pratica das noas sees da vida normal, opinando sempre para o bem, para que o destinatrio da sua missiva, evite os desmandos sociaes, no pratique actos imprprios e mostrando, finalmente, como deva o mesmo proceder acerca do assumpto, que tanto lhe preoecupa o espirito.
E. assim, meus illustres Ouvintes, so todas as respostas desse santo varo, s innumeras e constantes cartas que, de toda parte do Nordeste e at de mais longe, recebe.
E preciso que vos faa saber que, cavalheiros e famlias, de alto destaque social, so autores de muitas deltas, como, por exemplo: a do venerando pae do Senador Luiz Vanna. que foi Governador do Estado da Bahia, que de sua fazenda, s margens do Rio S. Francisco, em 1908, mandara a S. Revma., com certa importncia em dinheiro, pedindo-lhe a sua benam para si e su familia.
Um outro assumpto, que merece explicao, o referente s medalhas de chumbo, com a effigie de S. Revma., umas, e com imagem da Virgem das Dores, outras, constan-do-mo havel-as j reunindo nos seus "verso e reverso", a Santa e o Padre.


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De facto. cilas existem, tanto assim que eu possuo uma. com a effigie de S. Revma.. comprada num ourives das Alagoas, qtie faz parte da minha secco de nuraismalica, no "Museu Simoens da Silva", desta Capital; mal feita, obra de carregao, material de reclamo para commercio e nada mais.
Como bem explica o Dr. Pioro, em sua obra ultimamente publicada, foram ellas feitas, umas, em Fortaleza, e outras, no Recife, para allrahir a freguesia do povo do Nordeste, para os productos pbarmaceuticos, portadores das mesmas.
Que culpa, porventura, cabe a S. Revma. aqui em baixo, na Terra, e a Santa Virgem das Dores, IA em cima, no co, da inteno de esses industriaes. para melhor poderem com-merciar os seus preparados, se terem lembrado da effigie de um padre, ainda vivo. da imagem de uma anliquisstma santa, para que uns singelos discos de metal inferior, tivessem, maior ou menor, curso, por diversos pontos dos Estados, comprchendidos nessa zona do paiz?
Pergunto-vos: Qualquer padre, por menos criterioso a escrupuloso que fosse, iria benzer uma medalha com retraio de algum vivente?
E. na hvpothese, o Padre Cicero, com o seu correclo modo de proceder e de espirito to superior e elevado, praticaria semelhante acto. maxim sendo sua a effigie dessas diminutas placas de metal barato?
Continuando a argumentar: Como fazer S. Revma., que em tal assumpto, foi apanhado de sorpreza. para que o bom povo do Nordeste no comprasse c no usasse esse enfeite, essa pequenina placa acinzentada, uma vez que o mesmo viu nella o retrato do seu padrinho como o chama?
O que ha a respeito uma grande confuso. Essa sup-posta medalha no tem. para quem a usa. a menor ida de religio ou de fanatismo, e. sim, a carinhosa acolhida de uma lembrana, de uma recordao desse grande proteclor de todo Nordeste, desse brasileiro democrata, bom na extenso da palavra, de senlimentos puros, de extraordinrio altrusmo, de grande saber e de uma energia de vontade, incontestvel .
Que culpa tem S. Revma. de tudo isso?
S. Revma. benzeu uma s dellas? ,
Ningum o affirma. Ao contrario, para evitar esses mos juizos, tem esse bom Padre arrecadado muitas dellas, convencendo aos portadores das mesmas de que essas medalhi-nhas no tm a menor significao nem importncia de espcie alguma e constantemente attendido nesse seu bondoso e inlelligente pedido.
E ahi est tudo o que, a respeito, existe.


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Ouvi, quer no Joazeiro, Grato. Barbaiha e Misso Velha quer em viagem por vrios pontos do Nordeste, que, prohi-bidos o romeiros d Santa Virgem das Dores do Joazeiro de usarem as taes medalbinhas, obedecem s ordens recebidas, todos, sem excepo de um, porm as conservam em casa, em logar de destaque, como succede at em reparties publicas estaduaes e federaes, onde o retrato de S. Revma., de vrios tamanhos, se acha collocado no melhor local das paredes das salas dos respectivos chefes, isso em qualquer das cidades daquella regio, como tive opportuni-dade de verificar, por mais de uma vez.
Prova esse apreo, ou essa verdadeira homenagem, no ter S. Revma. o homem mau e perverso, que pretendem fazer crer ao paiz, os seus invejosos calumnadores.
Felizmente, S. Revma. tem tido respeitveis amigos, na prprio classe a que pertence, como por exemplo: O saudoso Monsenhor Doclor Antnio Fernandes da Silva Tavora, que foi Vigrio do Crato e, depois do Alto Puros, onde publicou em 1915, uma criteriosa serie de artigos, mais tarde, tran-scriplos por Virglio Brigido no "Unitrio", de Fortaleza, repulando-o' um puro, em toda linha; alm do que um homem de tradio j feita, o que data desde seus tempos col-legiaes e a sua popularidade no foi ttingida, at hoje, por qualquer outro no paiz.
Tenho o grato prazer de communicar a seiecia assistncia que S. Revma. foi collega, no coUegio do Padre Rollim, em Cajazeiras, no'Estado da Parahyba, em 1865, de 8. E. o Sr. Cardeal D. Joaquim Arco Verde (11) e do sbio patrcio Dr. Capistrano de Abreu, no Seminrio de Fortaleza, em 1866 (12), asseverando-me pessoalmente ambas essas insuspeitas entidades ter sido S. Revma. um bom companheiro, com o qual mantiverem sempre as melhores relaes.
K. por minha vez, devo affirmar a todos vs que, pelo que tenho observado, continua a ser venerado por milhes de brasileiros esse respeitvel Sacerdote catholico, nosso il-luslre compatriota, cujos aclos altruisticos, de extraordinria abnegao, sempre em favor do prximo, em mais de meio sculo, continuamente praticados, j calaram fundo em todo paiz, com especialidade nos Estados do norte e do centro.
Faclos ha, como os seguintes, que bem provam o supra allegado.
(11) Addendum: Telegramma de S. Ex. Revma. Dom Moyscs, Bispo de Cajazeiras, Estado da Parahyba.
(12) Addendum: Carla do Professor Dr. Capistrano de Abreu.
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Assim:
1*) Um pobre homem, enfermo desde tenra idade, de nome Jos da Cruz, filho do serto de Pernambuco, devido a um forte ataque de meningite, depois de haver percorrido varias Estados da Unio, sem achar quem delle se condoesse, chego*, ao Joazeiro e, abi, esse illustre Sacerdote, direcla e indiretamente, tem-no protegido, por certa frma que no pensa o mesmo, jamais, em deixar essa cidade.
E' o mesmo conhecido, por todo Nordeste, por Beato na Cruz, a quem conheci, na feira de Joazeiro, em 1922, alto, velho, com um gorro e casaco pretos e cale esbranquicada, alpercatas, muitos rosrios e benlinhos. um pau i mo, enfeitado de farrapos, a titulo de bandeiras, cheio de cruzes, da cabea aos ps. e um eameirinho. que conduz, por uma corda fina, por todo logar em que vae esmolar.
2*) Um rapaz, bem disposto s luetas da vida. no fim do anno de 1921. chegou ao Joazeiro bastante extenuado pela extensissima viagem, que fez do logar do seu domicilio, no sul do Estado de Goyaz, de onde sahiu muitos meses antes, para ir pedir providencias ao Padre Cicero. a quem conhecia pelos benefcios por elle feitos humanidade, para um caso de familia. Navegou- o Tocantinsinho e o Maranho, entrando depois no Tocantins, cujas guas singrou no seu Estado natal at a cidade de Carolina, j no do Maranho; dal li, entre outros pontos de pouca importncia, viajou pelo Rio Balsas, desembocando, muitas lguas abaixo, no extenso Par-nahyba, navegando-o de Benedicto Leite, no Estado do Maranho, cidade de Amaranle, no do Piauhy. de onde, contornando cachoeiras e passando certas privaes, por um dos seus affluenlcs. entrou no Rio Poty, e. atravessando por elle o mesmo Estado em quasi toda sua largura, peneirou no do Cear at cidade de Cralhus. da qual marchou para o Rio Jaguaribe, que percorreu at cidade de Ic e dal li a p, at Joazeiro.
Depois de solicitamente recebido por esse prestalivo Sacerdote, o infortunado agricultor goyano expoz-lhe toda a sua desventura, que se cifrava no seguinte: Por questes antigas, entre elle e um seu ex-vizinho, quando menos esperava, foi a sua casa assaltada por vrios cangaceiros, todos armados e com indescriptivel audcia, cmquanto, uns o impediam de movimentar-se, outros, em numero de quatro, carregavam, para logar longnquo e desconhecido, a sua ba e fiel esposa, que, aos grilos de protestos e debatendo-se contra elles, desappareceu de suas vistas at aquelle momento.
Pedia, pois, rogava mesmo, a S. Revma. tivesse com-miseraco da sua situao e fizesse voltar, o mais breve pos-


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givel, sua pobre mulher para casa, "no estado em que ella, por ventura, se achasse".
Nesse mesmo dia, o Padre Cicero escreveu uma carinhosa caria ao seu amigo de longos annos, Frei Gil, da Ordem Dominicana, encarregado da Catechese de ndios no Araguaya, no Estado de Goyaz, homem de grande energia de aceito e senhor de um bom corao, solicitando-lhe, com muito interesse, toda protecco para a justa causa do portador da mesma; entregando-a ao desassocegado rapaz, que, depois de beijar-lhe as mos, em signal de gratido e de receber de S. Revma. um novo plano de viagem para voltar, com grande economia de despesas e de tempo de percurso, se despediu e foi deitar-se para aguardar, descansando, o alvorecer do dia immediato para iniciar a sua morosa viagem de represso.
Em Maio de 1022, do anno seguinte, um mez antes precisamente da minha chegada ao Joazeiro, recebeu S. Revma. um telegramma, do longnquo Estado, cheio de termos de admirao e gratido, do referido rapaz, com a communica-co de que foram coroadas de todo xito, as diligencias postas em pratica por Frei GIL para obteno de sua mulher, que, naquella oceasio, presenciava i transmisso daquelle despacho telegraphico.
Pergunto-vos: Parece ou no, um verdadeiro milagre, um facto destes, principalmente, para homens de pouca cultura intellectual como o referido ?
3*) Um outro seu conhecido antigo e, ento, residente na cidade do Cod, i margem esquerda do Rio Itapicur, no Estado do Maranho, desejando casar-se e no querendo os pes da sua noiva consentir no enlace matrimonial, foi ao Joazeiro solicitar os' bons officios do grande protector da famlia nordestina, sendo immediatamente attendido, por haver escriplo logo o bom do Padre Ccero uma attenciosa carta ao seu collega e amigo, Vigrio do Cod, na qual incluiu a quantia necessria para os actos, religioso e civil, supplkando-lhe amparasse as boas intenes do portador da mesma, obtivesse, em seu -nome, a permisso dos paes da moa e ultimasse, quanto antes, esse casamento.
Alguns annos depois, recebeu S. Revma.. em signal de gratido, no Joazeiro, a vista do casal para cuja constituio tanto cooperara, acompanhado de alguns filhos e competentes criadas.
E' ou no outro aclo digno dos maiores louvores esse do preelaro e bondoso Sacerdote ?
4*) Uma Senhora, ignoro se do Jardim ou de Barbalha, precisando de oito quartas de farinha de mandioca, mandou


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pedil-as ao Administrador do grande sitio do Padre Cicero, as fraldas da Serra do Araripe, no Municpio do Cralo. A poca j comeava a ser de escassez de gneros e essa Senhora linha, por dever, de prevenir-se, altendendo a grando numero de protegidos seus, receosa de alguma scca prolongada.
Porm, nSo tendo ainda recebido os juros dos seus ttulos, o que s se verificava semestralmente e, portanto, sem o numerrio preciso para, de promplo, pagar o que ia adquirir, escreveu um bilhetinho ao mesmo homem, declarando no mandar logo o dinheiro por nio o ter em casa na oc-casilo, mas que. dentro de uma quinzena, pouco mais ou menos, cumpriria o seu dever.
Note-se que era uma velha freguesa essa Senhora do referido sitio, ao qual nada devia, sendo a primeira vez, que se via forada a assim proceder.
Esse administrador, querendo fazer-se maU realista que o rei e, abusando da confiana do eminente Sacerdote, dono da referida propriedade, escreveu respeitvel Senhora exigindo delia a importncia tolal da compra adianladamente e, fazendo mais, assignando-se: Padre Cicero .
Por occasio da volta do seu empregado, portador da referida resposta, o qual deveria acompanhar os cargueiros com a encommenda que fizera, apenas recebeu a tal carta, que, desde logo, reputou falsa, por conhecer, de longa data, o modo de proceder e a indiscutvel corrcco do dono do sitio, no que afinal, no se enganou.
Coincidiu, dous ou trs dias depois de receber a dita carta, chegar-lhe o dinheiro que esperava c. ento, mandou o mesmo portador, com uma delicada carta sua, ao benemrito Sacerdote, no Joazeiro, dentro da qual iam: a tal, daquelle mau homem.e a quantia de 1608000, preo, na occasio, da mercadoria que precisava, razo de 201000 a quarta.
Ao ter conhecimento desse facto, S. Revma., muito contrariado, escreveu mesma Senhora uma atlenciosa missiva, na qual lhe supplicava muitos perdoes pelo occorrido, devolvia a importncia recebida; pedia licena para offerecer-Ihe a farinha, como uma lembrana e punha o referido sitio sua inteira disposio.
Incontinenli, mandou chamar um afilhado seu, investiu-o, daquella data em diante, dos poderes de administrador dessa sua propriedade, ordenando-lhe partisse dentro de 24 horas, para assumir o seu posto e, uma vez l chegado, entregasse


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ao demissionrio a importncia do mez a findar e, em seguida, o mandasse embora, em seu nome.
Uma cousa, porm, cfo mesmo homem exigia, antes de deixar o sitio: a immediata remessa da farinha, por si of-fereoida, A respeitvel Senhora (cujo nome ignoro, por no bavel-o annolado no momento, m que ouvi pronuncial-o).
Pergunto-vos: Quereis uma prova mais evidente, de maior correcao de procedimento desse illuslre e integro Sacerdote, nosso honrado compatriota ?
S. Revma., senhor, como ficou, do melhor elemento de prova contra esse homem, que,' abusando da confiana que de si grangeara, chegou ao ponto de at falsificar a sua prpria firma, necessitava de mais alguma cousa para inteirar-se da grave falta por elle commettida, e que no momento lhe era denunciada ?
E, S. Revma,, como fino cavalheiro e homem enrgico que <. deixou de cumprir o seu dever, tanto para com a dis-lincta Senhora, fregueza do seu sitio, como para com esse ingrato empregado seu ? Absolutamente no.
5") Num dos ltimos annos da monarchia, num domingo, i tarde, apresentou-se ao Padre Cicero um rapaz, que, sendo de boa famlia, exercia a profisso de vaqueiro, no interior do Estado de Pernambuco, de onde era natural, dizendo-lhe que raptara, em Villa Bella. uma moa, que trouxera intacta, at alli, filha de gente de alta posio na localidade e que, querendo com ella casar-se e, a tal se op-pondo a sua famlia, assim procedera, mas que, temendo ser assassinado, como era de costume em taes casos, vinha pedir a intercesso de S. Revma., afim de evitar a consecuo de tal barbaridade, conseguindo, afinal, unir-se quem tanto amava, pelos laos sagrados da Egreja.
Com effeto, no dia immediato, segunda-feira, alli chegaram Ires cangaceiros, vindos da zona do Pageh, com ter-minantes ordens, acredita-se, fosse do tio da moa, do Baro de Pageh, para salvaguardar a honra da familia, por tal frma, ultrajada, de matarem o tal raptor, onde fosse elle encontrado, excepto se estivesse no Joazeiro.
De passagem, devo dizer que esse brbaro modo de castigar o autor do rapto no Nordeste Brasileiro faz lembrar o congnere modo de proceder, ainda mais deshumano, praticado entre os Balkans, pelos filhos de Monlenegro, por exemplo: que, sentindo-se para sempre deshonrados, quando, de suas famlias, uma filha ou uma irm victima de tal abuso de confiana, no consentem no casamento d raptada com o raptor, matando a ambos, extrahindo, por inteiro, a pelle deste e forrando, com


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fila. o caixo mortuario daquella, tudo assim feito com a appropriada solenn idade, para salvaguardar dos preceitos de honra dos Seus e exemplo publico de reprimenda.
Conhecedor de iodo o oceorrido. o Padre Cicero mandou chamar esses homens, que logo se lhe apresentaram. Depois de convencer-se de tudo, disse-lhes: "Voltem j nara o Pageh e se encontrarem pelo caminho, em qualquer logar. esse rapaz a quem procuram, respeitem-no. como se fora a minha prpria pessoa, vou escrever jA uma carta a mie dessa moca, da qual ser portador o mesmo joven".
Prometteram todos Ires cumprir religiosamente aa ordens recebidas, oerecendo-se para acompanhal-o. caso assim entendesse S. Revma.. que agradeceu a gentileza da offerta. delia no se utilizando, partindo, logo, em seguida, os taes cangaceiros.
No dia immediato. seguia para Villa Bella. no Pageh. o assustado rapaz, com a sua sorte dependente do apreo que teria a carta, de que era portador.
Ao chegar ao terreiro da fazenda d alludida Senhora, viu vrios homens armados, que o deixaram passar, pois j eram sabedores do salvo-conducto que elle comsigo levava. Recebida a carta das mos de uma sua criada, A qual. por sua ordem, o rapaz a entregara, ficou desde logo sciente a sua destinatria do contedo da mesma.
S. Revma.. informava. A dita Senhora, estar em sua companhia s e intacta, a sua dilecta filha, e fazia-lhe sentir que se daria por muito feliz ver o mais breve possiveL toda a famlia no Joazeiro.
Com pouco menos de uma semana, isso se realizava, chegando referida cidade, a alludida fazendeira, seu irmo, Andrelino Pereira da Silva (Baro de Pageh) e demais membros da familia.
Depois de alguma reluetancia, terminaram accedendo aos desejos do eminente Sacerdote, vindo, por sua vez. o rapaz do Pageh e realizando-se o casamento na mesma cidade do Joazeiro; voltando todos depois para Villa Bella, onde, mais tarde, esse mesmo homem se tornou o suslenlaculo e o chefe de toda familia. pela Ma orientao de que era dotado.
6*) Um hospede de Joazeiro. em 1921, que alli se achava j ha uma semana para receber, de um commercianle dessa cidade, a importncia de uma letra pelo mesmo acceila, para pagamento de mercadorias adquiridas, no o conseguindo e sendo ainda pelo mesmo insultado por uma caria, a conselhos de amigos, procurou o Padre Cicero e expoz-lhe ludo o que se estava passando, communicando-lhc que linha de regressar


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i casa dos seus patres, com a devida urgncia, o que ia fazer bem triste, por nio baver desempenhado a sua misso.
S. Revma. tomou nota apenas do nome do devedor, dizendo ao cobrador que lhe reapparecesse, no dia seguinte tarde.
Immediatamente mandou um portador seu ao referido devedor para convidal-o a chegar sua casa, o mais breve possvel.
No dia seguinte, pela manh, apresentava-se ao Padre Cicero o tal homem, que, de cabea baixa, ouviu o que no esperava de S. Revma., que lhe disse, calma e energicamente, o seguinte:
"O que isso, meu filho,, pois ento Voc quer tornar-se uma excepco de todos os habitantes 'desta cidade, convertendo-se num mau homem que, tendo-se utilizado de mercadoria alheia, no a quer pagar, e ainda insulta a quem vem receber a respectiva importncia da venda?"
"Quem no paga o que compra ladro e quem no preza a sua palavra e, ainda mais, a sua firma, um indigno; oriente-se por outra frma, de boje por deante, e cumpra com o seu dever."
Esse mesmo indivduo to valente para. com o outro, pediu perdo a S. Revma. pelo incommodo e pelo desgosto que, impensadamente, lhe causara e prometteu naquelle mesmo dia cumprir o seu dever, do melhor modo que lhe fosse possvel, retirando-se pezaroso e sciente de voltar a tardinha.
De facto, ao anoitecer, devedor e cobrador se achavam em casa desse prectaro Sacerdote e o assumpto liquidou-se totalmente, retirando-se ambos com a devida benam de Sua Revma., que muito satisfeito ficou pelo bem que havia conseguido.
Soube mais, por um dos seus secretrios, que o devedor no tendo toda a quantia necessria ao cumprimento do seu dever, na occasio, tomara emprestada a que faltava de um amigo seu e sentiu-se muito feliz por haver terminado assim o seu compromisso.
Pergunto-vos: E1 ou no de um poder sobrenatural esse extraordinrio compatriota nosso, tudo fazendo exclusivamente para o bem, com a maior abnegao e toda sinceridade de princpios ?
Muitos outros casos, que conheo, poderiam ser narrados, porm para que mais do que acabaes de conhecer ?
O penltimo, de todos os que exponho agora, foi o nico trazido pelo Dr. Floro, no seu interessante livro, recentemente publicado, e j acima referido.


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Porventura, merece esse respeitvel e prestalivo Sacerdote catholico brasileiro o ingrato tratamento que alguns impensantes. ou almas malvolas. Ibe tm dispensado ?
Se, de facto, ba qualquer cousa de parecido com fanatismo no Nordeste Brasileiro e, especialmente, no Joazeiro -to Cear, por esse culto e venerando ancio, nlo para admirar, pelas razoes que. de sobra, todos tem para tal, e, muito menos, para ser censurado, porque fanatismo do mais genuno temos observado aqui, nesta Capital, e em muitas outras cidades adeantadas do paiz, especialmente por este ou aquelle poltico, verdade seja dita, emquanto exerce elle o manda" porque, depois, de nada mais vale. para a mesma classe dos interessados.
Quem poder negar, por exemplo: o fanatismo nessa Capital, c no sul do paiz. pelo grande Pinheiro Machado ? O qual no era um Padre Cicero. nem tio pouco estava servindo humanidade, ha mais de meio sculo.
Nlo deveis ignorar que aqui mesmo, nas nossas prprias famlias, paes ha que tm verdadeiro fanatismo (empreguemos o termo, desde que elle est em voga), por certo e determinado filho e isso porque ?
Em regra geral, pelo modo de proceder de destaque do mesmo, em confronto com os demais.
Cnseguintemente, se houvesse qualquer simile de fanatismo no Nordeste, e, repito, com especialidade, no Joaze;^ do Cear, por esse extraordinrio Padre, nada de extranhavel deveria transparecer s nossas vistas.
E* um direito sagrado do homem, e, por couseguinb. de um povo. dedicar-se, embevecer-se, mesmo, por aquelle que para ial tenha contribudo, e que o tenha amparado e salvado sempre, com a maior solicitude, das varias conjecturas da vida.
Sobre essa malvola e irrefleclida accusaio de fanatismo urdiu a historia de um celebre boi, parodiando a do *pls". da antigidade, que afinal deu em nada, por ler acontecido ao mesmo cousa bem differente do que esperavam os maldizem c de S. Revma.
Um novilho zeb, offerecido ao Padre Cicero. de tio lindo e manso que era, adquiriu certa admirao e estima de vrios vaqueiros, que com o mesmo lidavam.
Bastou isso para que o novilho se convertesse logo cm "boi" e, ficasse appellidado de "Apis", pelos desoecupados e ardilosos delatores do Padre.
Num bello dia, isso ha mais de vinte annos, quando mais apoquentavam o atribulado espirito do grande Sacerdote, o seu dedicado amigo e medico, Dr. Floro Barlholomeu. de ao-


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crdo com S. Revma., mandou vir o novilho para o Joazeiro e, em frente Cadeia, mandou abatel-o, enviando a carne do mesmo para o aougue.
Desde esse momento, nunca mais se falou do pretenso "Apis" do Joazeiro, terminando assim, de vez, mais essa perversa inveno.
Com o pretexto de fanatismo, muito se tem explorado a situao calma e feliz do Nordeste e a vida tranquilla do Joazeiro.
Dos decantados fanticos alli existentes, no tive noticias, conheci apenas dons desequilibrados das faculdades mentaes, vindos de outras localidades, que a cidade cuidadosamente hospeda, na prpria Cadeia Publica, onde foram internados, logo que alli chegaram. Uma pobre mulher branca, de nome "afaria Tubiba", que costumava ter fortes e repetidos' acces-sos. at fixar-se nessa cidade, por ter soffrido muitos dissabores antes de alli chegar, amparada por esse bom Padre, tomou-se, de certo tempo para c, completamente inoffensiva e, at, sendo, com toda razo, uma das mais' fervorosas defensoras de S. Revma., tudo fazendo e com a maior obedincia, desde que saiba serem suas as ordens que recebe.
Visitando eu a Cadeia Publica de Joazeiro, num dos primeiros dias do mez de Junho de 1922, alli a encontrei, tratando de uma pequena tapuia, que, fugida duma taba indgena dos confins do Nordeste, foi pegada muito alm de Cabrob, no prprio serto pernambucano, apresentando um ferimento na perna direita, resultante de uma dentada de co.
- Como a visse lavando a ferida dessa menor com um liquido, qualquer desinfectante, e pondo em seguida, sobre a mesma, p de quina, e amarrando o curativo assim feito com tiras de algodo, com manchas de sangue e puz. sujas e imprprias para o alludido fim, felicitei-a, primeiramente, pelo carinho com a dita cabocla e. no me contendo, observei-lhe, em seguida, ser melhor desprezar aquellas tiras, que no estavam em boas condies para o tratamento que fazia.
A tal Senhora "Maria Tubiba", parando de momento, o seu cuidadoso trabalho, e encarando-me resolutamente, disse: "Padre Cicero, meu Padrinho, me mandou tratar dessa cabocla do matlo, e me deu essa agua e esse p, com os quaes quasi se acha a mesma restabelecida (e veja aqui como j foi grande a ferida); mas elle no me mandou mudar as ataduras, nem me censurou em coisa alguma at aqui e, como Voc, que nada tem com as coisas desta terra, vem agora intromet-ter-se com ellas f
Com effeilo, ella tambm tinha razo, argumentou e defendeu-se com muita lgica.


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Calei-me. vi os dons guardas, que me acompanhavam, rirem, retirando-me daquelle compartimento para outro, onde estava um homem de er preta, de nome Jos Francisco, filho do Municpio de Ic. desse Estado, s margens do Rio Salgado, com a profisso de cozinheiro, muito estimado no referido logar. onde, at 1920, era um respeitvel cidado.
Porm, dessa data para c. mellendo-se em sesses secretas, das chamadas, de espiritismo, como por diversos pontos do Brasil, costumam fazer muitos filhos do pais, especialmente os analpbabetos, perdeu a razo. e. depois de commetter vrios actos de loucura por diversos logares, por onde esteve e passou, foi ter ao Joazeiro, pedindo, logo ao chegar, o prendessem, porque vinha com o "demnio no corpo". Depois de ser internado, foi ainda posto a ferros, pelos desmandos que praticou, de louco furioso.
Nos momentos lcidos, solto em iodos os compartimenlos da Cadeia, canta, pretende advinhar os autores de certos crimes, conversa bem e, at, cozinha para as praas da gnarnico.
So esses dons presos, se assim podem ser elles appellidados, os nicos que encontrei no Joazeiro.
Prova isso ser a referida cidade, a mais pacata e ordeira, dessa regio e talvez do paiz; no ser ella o centro de cangaceiros, como vulgarmente acoimada e, mais ainda, nlo serem fanticos e muito menos do respeitvel Sacerdote, os que por alli. nas condies dos referidos, porventura, se encontrem.
E a prova de que essa cidade assim calma. IranquHla de todo, sem a menor agitao, que se pde alli dormir com as janellas dds quartos abertas para a rua, como fiz, durante o tempo, em que estive na mesma hospedado.
Que contraste do que ai legam os maldizenles, pretendendo desmoralizar o povo e, conseguin tem ente, o logar, sem se lembrarem de que: "tanto um brasileiro em toda sua essncia, como outro legitima parte integrante de nossa Ptria Ia
Quem sabe se devoo synonymo de fanatismo ?
Pelo facto de todo homem ter a sua devoo, baseada neste ou naquelle elemento, por este ou por aquelle motivo, fica sujeito classificao de fantico ?
Esse assumpto "Devoo", se verifica em qualquer cidade das mais movimentadas do orbc, e, at, por todos os pontos do littoral, sempre em contado com o Mundo, e como no dar-se o mesmo no interior do Brasil, l no serto, em local que a vae quem tem estricta necessidade de o fazer ou, ento, s por curiosidade ou patriotismo de algum dos seus filhos, para, naquelle ambiente, to nosso, como difficil ser de compre-


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hendel-o aquelle que li no for, estudar os hbitos e costumes do paiz. tomando suas notas, para depois, em momento op-porluno, fazel-os publicamente conhecidos ?
Ha muita cousa que dizemos apenas por ouvir os outros dizerem, e. muito juizo que fazemos, ouvindo somente uma das partes interessadas, sem conhecer do que com as outras se passa, emiltindo opinio, prpria antes do maduro raciocnio, que deve presidir a todos os actos do homem na Terra.
Assim, pois, essas accusaes de: fanatismo no Nordeste, fanticos do Padre Cicero e do Joazeiro, scelerados por Sua Revma. fanalizados, bandidos, indolentes, faccinoras, etc., no passam de mera creao pbantaslica de espritos enfermos e, conseguintemente, de indivduos sem a precisa compostura para a lucta da vida, entre os seus semelhantes.
A respeito da devoo, no ao bom do Padre Cicero, mas N. S. das Dores. Padroeira do Joazeiro, conhecida de todos os romeiros por Santssima Me das Dores, vou narrar-vos um facto, bastante interessante, que tive opportunidade de apreciar e que, a principio, me intrigou, por alguns momentos, o espirito.
O quarto que occupei no hotel dessa cidade, installado num prdio assobradado, tinha tres janellas para rua e era de telha v, o nico da casa sem illuminao, onde os hospedes, temiam dormir, reputando-o "mal assombrado".
Por esse, para mim convidativo, motivo, que afinal nunca se aclarou e pelas suas bellas condies de collocao e de amplitude, escolhi-o desde o primeiro momento, e no mesmo permaneci at deixar Joazeiro. Cansado da viagem de muitas lguas a cavallo, s 8 horas da noite, deitei-me e, num s e reparador somno. me deixei ficar confortavelmente deitado e dominado por Morpheu, at que, s proximidades das 5 da manh, despertei-me e, extranhando o rudo systematico e regular que ouvia, levantei-me e, j com os alvores da manh, que raiava, procurei a causa dessa anormalidade, para quem, como eu, era um desconhecido da cidade e ignorava as suas peculiaridades.
C rudo no cessava e, em todo o salo, no descobri, em absoluto, a sua causa, dirigindo-me ento janella do centro que defrontava a minha cama, a perscrutar o ambiente exterior, resolvi afinal o grande probiema.
Nesse momento, notei uma immensidade ae vmios, em franco movimento, em quasi toda extenso da rua, que se deslocavam sempre na direco da direita para a esquerda conhecendo, afinal, que o ruido provinha dalli, daquella gente.
Comecei a observal-os e reconheci serem todos mulheres, de manto cabea e chinellinhas na ponta dos ps e


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que, com o andar, o arrastar das mesmas, produziam aquelle ruido, muito semelhante pela harmonia de compasso, ao lixar de madeira ou ao serrar por machina. nas respectivas offl-cinas.
Com uns dez minutos mais, descobri que todas se dirigiam Matriz, resa, que comea diariamente s 5 horas, dabi a razo de ser, do assumpto que tanto me intrigara.
Essas "devotas", para os maldizentes "fanticas", vio, por diversas vezes, diariamente, ao referido lemplo, durante o pouco tempo em que alli permanecem de romaria.
E isso no de admirar, porque se me depararam as mesmas pesosas, por diversas vetes, nos sanctuarios: da Congonhas do Campo, em Minas; da Apparecida. em So Paulo, e da Virgem de la Candelria, em Copacabana, s margens do Lago Titicaca, na Bolvia; durante as respectivas romarias, sem termos merecido, at boje, ao que me conste, nem eu, nem ellas, esse titulo, de "fanticos".
E uma cousa mais que justa para quem chega a qualquer desses sanctuarios, depois de longos percursos, em romarias, s vezes, por demais dispendiosas e faligantes, encontrar-se deante de ambientes como so, por excellencia: o de Congonhas do Campo, riqussimo e interessantssimo, por todos os motivos, e o da Viram de la Candelria, da maior importncia, por sua tradio e sua venerao.
E como toda a Populao do Nordeste venera a sua milagrosa Padroeira, segue-se dabi ser Ioda ella, para os laes maldizentes, composta de fanticos, aos quaes tambm appel-lidam de cangaceiros, facnoras e indolentes.
No vos posso garantir, ms creio que essa procurada egreja do Nordeste no se fecha, est aberta a toda hora, porque tambm a qualquer momento se ouve o estourar de foguetes, signal de chegada de grupos de romeiros, que logo se dirigem para ella, no sahindo dalli seno horas depois, indo, mais tarde, cumprimentar o democrata Sacerdote, padrinho de quasi todo o nordestino, como ha pouco vos referi.
E se assim me exprimo, por haver estado varias vezes nesse templo, observando o modo de proceder daquellas enormes levas de devotos da venerada Santa.
Das 5 da manh, do dia immedialo ao da minha chegada a essa cidade, s 11 e meia da noite, da vspera do da minha partida da mesma, varias vezes alli estive e sempre a encontrei oecupada pelos romeiros, no maior respeito possvel.
Por conseqncia, ignoro se nas demais cinco horas e meia as portas desse templo se fecham aos seus innumeros e cnstantes freqentadores.


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Nos dias de feira, no Joazeiro, quando maior numero de fieis aode Matriz, afim de adorar a Santa da sua constante devoo e, ao mesmo tempo, uma vez mais, ter o prazer de ver o venerando Sacerdote, que, diariamente se demora rezar, cerca de uma hora, na egreja, que alli construiu, com os obulos do povo do Nordeste, pouco depois da sua chegada A essa cidade, que, como j vos disse, data de 1872, o que fez precisamente no local da velha capella, edificada, no principio do sculo passado, pelo fazendeiro General Bezerra Monteiro e seu neto Padre Ribeiro da Silva, facto esse que poderei ? encontrar com todas as mincias no referido livro do Dr. Floro Barlbolomeu.
Esses nnumeros romeiros da Senhora das Dores, do Joazeiro do Cear, independente de suas ddivas, por promessas feitas, a Padroeira do logar e dos presentes ao fundador da cidade e constructor do templo de sua devoo, levam os versos, que fazem, para cantar pelo caminho, at entrada no Joazeiro, alguns dos quaes, o meu amigo Sr. Durval Santa Anna, um dos mais intelligentes nordestinos entre ns, estimado e correcto funccionario da E. F. Leopoldina, os lera textualmente por gentileza a mim feita.
Versos ia visita dos romeiros I
Avistando o Juazeiro. Os romeiros Vo chegando, Vendo altos e montes E a Igreja primeiro Agora quero contar Dizendo elles uns aos outros Seguindo alegres contentes Para quando ns \oUar Assim avizando as famlias Vo visitar Juazeiro.
II
Vem velhos em condies Com seus filhos e netinhos Naquelle? longes Caminhos Soffrendo uma preciso Escorado em um basto Subindo altos Oiteros No vs um Deus Verdadeiro Derramando as suas graas Chamando seu povo em massa Vo visitar Juazeiro.


III
Pobrezinho nfto conta historia Se bota ao caminho de espinho. Com mulher e filhinhos Vem comendo de esmola Pedindo a Nossa. Senhora Que o traga pmioneiro O maldicto atraioeiro Pergunta para onde vo Respondem estes Chriilo Vo visitar Juazeiro.
IV
Tem chegado muita Jenle De mais perto e mais distante Pedindo que se adiante Naquellas horas primeira Quem no quer ser penitente Nlo siga neste modelo Para ver nosso Cordeiro Por noi$ ser crucificado Sc arrependam dos ipeccado Vlo vizitar Juaeziro.
V
Vem romeros de Jacoa Vem doidos, vem malucos Vem jentes de Pernambuco Do Estado de Europa Tem muitos homens de fora Que arroja muito dinheiro Ath todos Estrangeiros Quando ver falar se anima. Vem donzellas. Vem meninas. Vlo vizitar Juazeiro.
Venos dos Porogrnoi de Joasoiro
I
Se no fr o que eu disser Da matriz do Juazeiro Com relao aos romeiro!* Em mim ningum tenha f Eu s digo aquillo une


Na razo do meu publicar Eu vi no ro deu passar Pela rua d'Amargura Em Sirna da Pedra Dera A cruz do monte Signal.
n
Eu nunca disse que no Antes dizer que sim Que o Anjo Serafim E' da Santa Redempo Quem for passa repreno Antes e quando chegar Nao quando passar Repare ao lado direito Que ser muito bem feito A cruz do monte Signal.
tn
No Horto tem um cruzeiro Todo escripto pela frente Que admira toda jente Aquelle Santo Madeiro Eu digo a todos companheiros Falo sem medo de errar Prenderam a Jesus foi l Veiu arrastado e soffrendo Quando passou foi dizendo E' a Cruz do Monte Signal
rv
A Virgem da Conceio
Botou um procurador
O nome que declarou
O padre Cicero Romo
Na santa Consagrao
E' bom de se apreciar
Quem vai no quer mais voltar
Porque vr nosso Pastor
Meu Padrinho foi quem botou
A Cruz de Monte Signal.


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V
Fis uma obra segura Porque eu estive reparando Antes eu fiquei pensando No puder da Virgem Pura Para nos reunir e salvar Morando naquellas alturas Chamando o seu pessoal Meu Padrinho de longe avista Abenoa a quem visita A Crus do monte Signal.
VI
O Pueta que fizer A obra deste madeiro Pasta diprea e ligeiro Que de Deus no perde a f O Divino So Jos Vem no dia visitar Tem a salvao para dar. A todos que tiverem crenas Na divina Providencia. E' a crus do monte Signal.
OS CONSELHOS DO PADRE CICERO DO JOAZEIRO
?alheia contando as ofcrts qao toa o 1 lo Mie ee rror dos rta*lrei da V.rgoa dos Eiro
I
Homem, minimo i mulher Todos mi presti atteno Nossa Senhora Dasdori Mi advirta o corao Quero notar os trabalho Do Padre Cicero Romo.
n
Com quarenta i quatro anno Que xegou no Joazeiro Edi ficou uma matriz Bufou na frenti um cruzeiro Setebrou a Santa missa A benoo seus romeiros.


III
Quando elle aqui segou S azou mal feituria Uns bebendo i otro jugando Dsli geito assim Vivia Cego di todos dois Olhos Que a Deus no conhecia.
IV
Depois delle collocado Tumou conta do lugar Dando muitos bons conselhos Di um modo particular A final assim tem cido Uma confisso gera.
v
Aqui meu Padrinho tem feito Ao povo da Salvao Mostrando a pura verdadi Com o prmio t lei na mo Tem xegado tanta gente Du sul Norte d. serto.
VI
Mandou collocar na frenti Uma Divina Santa Cruz No outro lado um sobrado Com as portas que nos conduz i uma raza di oraro Do corao di Jesus.
VII
Na frente do Patam
E" formado um terreiro.
A ondi o povo vae orar.
No p do santo cruzeiro.
A li est sagrado
A ondi ci interra os romeiro.
vm
Fez um formoso quadrado Com uma capella na frenti Collocou uma imagem


Di um modo di ferenti E' do Perpetuo socorro Mi di Deus Omnipotente.
IX
Fez caza di cnridadi bem feita Na Rua di So Jos L. bufou o Senhor morto Para nos omentar a f Collocou um outro altar Jezus, Maria, Jos.
X
Est fazendo um polaco Como a arca di No Virado para o nattente Para cima de Santa ce Ou um novo Jerusalm Ou a torre di Babel.
XI
Das obras di meu Padrinho
Esta a di mais grandeza
Peita altura que tem
/ todas Delicadesa
Quem vr s podi affirmd
Que Obra da natureza.
xn
No dia xm
Quem ajunta aquel povo E' nossa Mi Padrueira Sai a mu*ra reunida / na frenti uma bandeira Quando meu Padrinho pedi Um carrego di madeira.


XIV
Na hora que vo regando Aquelles fiel Chrto Meu Padrinho os arreeebi Com a maior talisfattao Levanla os olhos ao c A Iodos bota ateno.
XV
Elle fez um Hospital / Casa di caridadi J marcou um ccminario / ohra da Divindadi Est fazendo um sobrado No quadre da Liberdadi.
XVI
Aqui deixamos os trabalhos Do Padri Cicero Romao Tratamos sobri os puder Di sua santa Ritiaio Quando elle nos a bencoa l faz a consagrao.
xvn
Commera a fazer a fala Contando toda razo Conta di Jerusalm Conta do Rio di Jordo Conta do Baptisado Do Apstolo So Joo.
xvm
Conta do remo di Deus Conta do sagrado templo Unido com os seus romeiro Incinando os mandamento I conta a historia toda Do Velho Testamento.


G*
xrx
Viva a familia sagrada Viva, a cruz do Senhor Viva. a Hstia consagrada Viva quem a consagrou Viva, toda Divindadi Viva, a santa Verdadi Viva, nosso bom pastor.
XX
Viva Nossa Senhora Virgem MAe di Deus, Mie subcrana Viva Deus etlerno em pessoa Salvador da raa humana Viva, nosso santo Podri Viva, a santssima trindadi Viva, a Igreja Romana.
Toda essa versaihada foi por mim copiada, textualmente, dos caderninbos dos romeiros de junho de 1922.
Esse Padre e a gente que o venera so tio maus homens, tio ruins elementos, como propalam os seus impensantes delatores, mas no fazem com a mendicidade o que elles praticam para com ella, com a aggravanle circuinstancia de se terem por bons e caritaUvos, quando sio uns verdadeiros avaros, forretas e sovinas, para com a mesma desprotegida classe social; buscando, quando se resolvem dar uma simples esmola, a menor moeda que no bolso tenham, estando, no em tanto, sempre dispostos a assignar grossas quantias para banquetes, aos que no precisam.
Nunca vi, em parte alguma do Brasil e do Mundo, maior quantidade de pobres e cegos, em festas publicas, do que na regio do Cariry, Estado do Cear, devido tudo isso, em grande parte, enfermidade conhecida por "tracboma" e, por sua vez, tambm, pela protecco que aos mesmos dispensam, constantemente, o Padre Cicero e a Populao do Nordeste.
O tilintar das moedas nas cuias e bac Unhas dos pedintes provoca a compaixo de todo aquelle que o ouve.
Da feira de Barbalha do Joazeiro, trajccto que fiz a galope, num bom cavallo, em duas horas de viagem, vrios foram os cegos que encontrei pelo caminho, deixando uma por terminada para comparecer outra, a iniciar-se; vendo nesse percurso, trs delles a guiarem-se mutuamente, por logares de difficil passagem.


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E Iodos esses infelizes vivem, protegidos, como j expuz, pelo Padre Cicero e pela Populao do Nordeste, que no lhes negam seu obolo dirio!
Que trao patente do bom corao, de puros costumes, e de religio, desse verdadeiro Sacerdote brasileiro e dessa operosa, bemfazeja e honesta gente!
Tratando, propriamente, do Padre Cicero, devo commu-nicar-vos ser S. Revma. um bomem de altura mediana, bem erecto, mais para gordo que para magro, de pbysionomia serena, espirito perserutador, gestos meigos, voz suave, com inflexes fortes e enrgicas, quando se torna mister; em casa, sempre de cabea descoberta, e, na rua, com o seu cbapo enfiado at testa e alta bengala, na qual, por habito de longos annos, quasi sempre se apoia, de batina asseada, sapatos engraxados, barba feita e dentes e unhas sempre muito limpos.
So esses, em traos geraes, os caractersticos physicos do illus-tre Padre Cicero, do Joazeiro, como S. Revma. vulgarmente conhecido. Ningum precisa de buscar recommendaes para se lhe apresentar; bastante sau-dal-o, que recebe logo o cortez cumprimento de. boas vindas e a sua larga e protectora mo direita, em um forte aperto de fraternidade e amizade.
Depois de saber quem o hospede da cidade e de onde vem, seja elle brasileiro ou estrangeiro, catholico ou de qualquer outra religio, inicia a sua conversao, sempre instruetiva, attrahente e sem os excessos de susceptibili-
dades, por outros, muitas vezes Padre Cicero Romo Baptistt
observados.
Qualquer conversao, por mais empolgante, sobre as-sumptos de alta relevncia, histrica ou poltica, nunca o impede de attender as massas, que toda hora o procuram.
K vulgar ouvir de S. Revma. o homem culto que o visita quando presume lhe estar roubando, por demais, o seu precioso tempo, as seguintes phrases: "No v embora, por favor, a SenJior me encanta com a sua. conversao'' ou: "Deixe-se disso, deixe-me gozar desses bons momentos, em que posso trocar idas com um homem de letras, como o*


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Senhor, meu filho", ou. ainda: "Venha commigo, acompanhe-me, vou dar a benam a essa pobre gente, que me etpera, e depois iremos tomar caf juntos'.
E nesse diapasio so as demais phrases, sempre hospitaleiras, do hom e operoso Padre Cicero. infelixmenle ainda tio mal eomprehendido por vrios patrcios nossos, e, peor do que tudo, por quem Jamais devia desrespeital-o.
Muita luz J se tem feito sohre o elevado modo de proceder desse Ministro de Deus na Terra, porm me parece que, em muito breve, B. Revma. ter a merecida soluo dos po-deres competentes, fazendo-lbc a Justia, a que tem direito, por todos os motivos.
Vou referir-vos alguma cousa do que tive opportunidade de observar Junto de S. Revma.. durante algumas horas, apenas, dos dias em que permaneci na movimentada e, por cxcelleneia, ordeira cidade do Joazeiro. E isso nlo consegui acilmnte. porque como vos j disse, uma cousa difficil de acontecer ficar algum, a ss. com o Padre Cicero, por mais de uns momentos, tal o numero de romeiros que o procuram constantemente.
.Assim, vi S. Revma. despachar um consulenle e receber outro, incontinenti, ouvindo eu, com todo cuidado, o que mais me interessava e. annolando. nos meus cadernos de apontamentos, os motivos mais curiosos e dignos de registo, para um dia, a elles dar applicalo e. isso justamente o que, com grande prazer, ora fao. Dos innmeros concorrentes s taes audincias dirias, posso dizer mesmo, interminveis, de S. Revma, os seguintes, pela originalidade dos assumpto*. mais se me salientaram; por isso os cito, referiudo-me aos seus pedidos e s solues que obtiveram.
Um fazendeiro abastado, dc certa idade, j com diffi-culdade de visla, lendo de operar-se de calaraclas, procurou-o antes de submelter-se a essa interveno, para rogar-lhe. intercedesse por elle, junto milagrosa Padroeira do logar, para que viesse a colher bons resultados dessa tentativa de cura; ao que 8. Revma. respondeu: satisfazer, com a possvel brevidade, os desejos que lhe haviam sido manifestados; retirando-se o mesmo homem lodo ri sonho e esperanado de xito na operao, que ia tentar, ha mais de 60 lguas, distantes daquella cidade.
Uma senhorita, que apparentava ter 20 annos, na oc-casilo e que, quando criana, com um anno e pouco havia sido baplisada por S. Revma. tn articulo mortis, tendo


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agora se enamorado por um seu vizinho, no Municpio do Jardim, vinha isso participar ao seu Padrinho e pedir-lhe licena para com o mesmo rapaz casar-se.
8. Revma., quando acabou de ouvir a dita moa, perguntou-lhe com a calma e energia que presidem a todos os actos de sua vida: "O noivo bebe, joga, p de viola" (quero dizer: danador inveterado de samba)"?
Uma s dessas faltas allegadas, que o noivo tivesse e que a noiva no oceultaria do seu Padrinho de baplismo, por hy-potbese alguma, bastava para que fosse negada a devida licena e o casamento nlo se fizesse.
Ao que ella, a tmida mocinha, respondeu negativamente. Knto, 8. Revma. consentiu, com o carinho de um pae para uma filha, na unio conjugai de ambos, uma vez, porm que fossem observados todos os tramites legaes, no civil e as respectivas exigncias ecclesiasticas no religioso.
A propsito desse assumpto "Casamento", com muito interesse por tudo o que respeita ao Brasil, abro aqui um paren-thesis, para referir algo de grave que se passa em grande parle do seu territrio.
8. Revma., esse supposto chefe de cangaceiros, padre ignorante e mau, por isso privado de suas respectivas ordens, etc., etc., est sempre a promover a unio conjugai naquelle grande meio, onde todos os paes, outra cousa no almejam, que casar os seus filhos, para que continue a manter-se, intacta, a sagrada instituio da familia, determinando sempre esse respeitvel Sacerdote que todas as unies se faam com estricta observao das ceremonias religiosas e civis, no poucas vezes concorrendo do seu prprio bolso para abrevial-as, visto no disparem dos meios para as mesmas vrios dos seus muitos fieis.
Em quanto isso se passa pelos nossos sertes, por esse nordeste interior, i beira mar, numa das suas prprias capites, um collega de S. Revma. acatado, gozando de todas as suas prerogalivas, aconselhou c casou uma senhorita das minbas relaes com um cavalheiro, tambm de muito boa familia, s pelos laos religiosos, no anno de 1915. Acredito que, por haver se esquecido, no momento, das nossas leis em vigor, assim permanecendo ambos at 1918, quando por alli estive pela segunda vez, j encontrando a suppsta esposa, mie e prestes a dar luz, um segundo filho.
A parentes seus expuz o meu modo de vr a respeito, concordando todos com o que, sobre o facto, lhes aconselhei.
Mas, no s esse collega do notvel e patriota Padre Ccero, que assim procede, em detrimento da constituio da familia brasileira, dos princpios reguladores do direito civil entre as pessoas, incorrendo nos artigos do nosso Cdigo Pe-


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nal; um outro, este agora de nacionalidade italiana, com 70 annos de idade, quando o conheci, o mesmo fatia e ainda em peores condies, porm no no Nordeste, no prximo Estado de Minas Geraes, em Santa Rita do Ibitipea, algumas lguas, apenas, distante da Estao de "Joio Arras, da "E. P. C. B.". na Serra da Mantiqueira.
Ha 20 annos passados, aproveitando os metes das frias forenses, fazendo uma instruetiva excurso por essa regio mineira, parando alguns dias, aqum da interessante Serra de Ibitipea. na ViUa de Santa Rita. o Vigrio dessa localidade, um velho napolitano, de modos rsticos, e bastante alto, do plpito sagrado, dizia as suas Ovelhas, como claramente ouvi: "Casar s no religioso, porque no civil de nada vale, no casamento."
Tive mpetos de protestar contra tamanho erro, mas encontrava-me dentro de um templo o alli s o representante de Deus podia manifestar-se como impensadamente, no caso, fazia.
. Nesse mesmo dia tive conhecimento de que um homem de cor preta, pae de grande familia. j tinha tres filhas casadas pelo regimes, por esse padre imposto e que j contava com alguns netos de duas dellas.
Nlo me contendo, procurei-o, antes de retirar-me dalli e fiz-lhe ver o erro em que incorria, adoptando tal procedimento, aconselhando-o a casar, o mais breve possvel, no civil, essas suas filhas, para permiti ir a ellas a communhlo dos bens dos maridos e a legitima herana aos seus filhos.
E, raciocinando, ccmecei a antever outros perigos, da maior gravidade para essa boa e ingnua gente do interior do paiz, como, por exemplo, o que se segue:
Qualquer indivduo, mormente dos da ruim classe, nesta conferncia aceusada, solteiro ou casado, segue para o interior, para as regies sertanejas do paiz, em qualquer misso demorada e l se enamora de uma filha-familia, casando-se, afinal, com ella, pelo reglmen religioso, apenas.
Desfrucla-a a seu bello prazer, tem com ella filhos e. ao termo dos seus trabalhos profissionaes, volta ao seu ponto de partida, onde tem seu domicilio, desprezando-a com os rebentos da mesma nascidos.
Pergunto-vos: solteiro ou casado, que seja, esse mau indivduo acha-se passvel de punio, pelo crime de defloramento, desde que a sua viclima nlo seja miservel e hajam passado os seis metes legaes para sua prescriplo?
De certo que nlo.
Sendo o autor de tal dellcto, casado, soffre punio por crime de bigamia?
Certamente que nlo.


Volta ao seu lar, sem o baver, civilmente violado, em bypothese alguma.
E* um criminoso, e dos da peor espcie, perante Deus, e um indigno, perante a sociedade, que de taes fraudes teve conhecimento.
E a quem dever tudo isso a familia sertaneja brasileira? Ao Padre Cicero Romo Baplista, do Joazeiro, privado de suas ordens, ou aos que citei, gozando de todas as prerogativas, embora sem perversa inteno, como presumo?
Qual o verdadeiro Sacerdote catholico, qual o legitimo patriota brasileiro?
Da mesma tbeoria, desse notvel ancio, do Cear, relativamente ao magno assumpto, o seu collega, tambm nordestino, do serto da Bahia, o Padre Manoel Maria, muito estudioso, grande cultor da lingua geral e vigrio da Conceio do Ibitipea, bemquisto por todos os seus paroebianos e grande amigo, que foi, de S. Revma. D. Silverio Pimenta, o culto e saudoso Arcebispo de Marianna, meu particular amigo, a quem visitei varias vezes, em Minas.
Ao transpor essa alta serra mineira, na occasifto que, em sua casa de residncia, esse sympalhico Padre me hospedava, reprovou energicamente, elle mesmo, o procedimento do Vigrio de Santa Rita e declarou-me o seguinte, em presena de vrios amigos seus, alli na oceasio: "Quer da tribuna sagrada, quer fora da egreja, prego sempre a doutrina de que: "fJm casamento sem outro no preenche ot fins aspirados por qualauer cidado catholico, completando-se mutuamente um ao outro, com a realizao de ambos".
Meus IHuslrcs Ouvintes, ficaro sabendo, de boje em deante, que esse outro Sacerdote, de to alevantado espirito e r muito saber, esteve tambm ameaado, por vis intrigas, de perder as ordens; no soffrendo tal ultrage, devido ao espirito superior do referido Arcebispo de Marianna que, em pessoa, foi sede da sua parochia inteirar-se do que, a respeito havia, convencendo-se do contrario e da correco im-peccavcl do seu jurisdicionado para com todas as suas Ovelhas.
O que acabo de vos expor, com referencia ao magno assumpto, que observei, no s no serto do Nordeste, mas tambm no de Minas Geraes, vem confirmar, de modo irrefutvel, o que tiveram oceasio de verificar, em sua proveitosa viagem, pelos Estados nordestinos, Bahia Pernambuco e Piauhy e. bem assim, pelo de Goyaz, os illustres mdicos brasileiros Dr. Arthur Neiva e Dr. Belisario Penna, no anno de 1912, constante das Memrias do Instituto Oswaldo Cruz, de Man-guinhos, Anno de 1916. Tomo VIU. Fasciculo III. Paginas 168 e 169.


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Referindo-se esses abnegados cientistas As chamadas JiUtts de frades, pelo interior do Nordeste e Brasil Central, cujo domimo sobre as populaes sertanejas enorme, exprimem-se, do seguinte modo. como pode reis ver, textualmente, dos trechos publicados As ciladas paginas, 168. segunda columna. e 169. primeira:
"Passamos alguns dias depois de uma Mmmo se ter posto em marcha, no logar denominado "Peixe" Bahia: os frades demoram-se cerca de 12 dias e realizam centenas de casamentos, baptismos e c br Isto as. pois para o local onde se realiza a HUin ac-correm moradores de toda redondeza. A cabo de alguns dias, o dinheiro mido eseasseia e enllo os frades comeam a Irocal-o com agio.
Mas o peor mal a guerra encarniada e a cruzada que fazem, em nome da religio, contra o casamento civil, o qual ' fanalicamente rcpellidc pelos desgraados sertanejos, como quotidianamente verificamos."
"E tempo das autoridades intervirem e certamente o faro, com o patrocnio moral da egreja. porquanto o prprio Cardeal JA baixou uma bula aos seus vigrios a respeito dos deveres dos sacerdotes, em relao ao casamento civil e. necessrio, a bem do decoro da religio calholica. que cesse a ignomnia das -Missoei couunerciaes."
"Felizmente, para contraste consolador. existem os frades dominicanos, installados no Porto Nacional, estes sim. exercem o sacerdcio com toda dignidade e a sua aclo intelligenle, humanitria e civili-lizadora ha de, certamente, inscrever-se na historia da civilizao brasileira."
"Em todo o norte de Goyaz. at A Capital, o casamento civil prestigiado pelos dominicanos, os quaes determinam aos seus fieis, que legalizem ci-vilmcnle a unio catholica, por'elles realizada; as informaes a esse respeito so unanimes por parte dos moradores."


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Deixo de commerlar essa? importantes citaes, por desnecessrio que se torna, vista da realidade das mesmas e da respeitvel autoria que tm.
Continuando com o thema em exposio, cito mais:
Um romeiro, rapaz moo ainda, de cerca de 18 a 20 annos apresenta-se a S. Revma., trazendo consigo uma sympathica caboclinha, de 15 a 16 annos, presumveis, dessas nossas patrcias nortistas, que tm os dentes incisivos completamente ponludos, feitos, na maioria das vezes, a lima, e, em nutras, por falta desse utensilio, a faca e chave, dando esse costume de pretenso luxo feio nem differente A bocea humana, com grande prejuzo da esthetica, assemelhando-sp no impensado procedimento actual do Bello Sexo, drspoando-se das suas bastas o edosas cahelleiras.
Depois de terem ambos beijado as mos do idolatrado Sacerdote elle, sempre seguro mo delia, falou um tanto atrapalhado, algo temeroso e como que. buscando termos appropriados ao fim aque se dispunha, assim se exprimindo: 'Meu Padrinho, louvado seja Nosso Senhor Jesus Christo!" Ouvindo logo em resposta: "Para sempre seja louvado"!
"No v o Sinh que ns nos cozemos no municpio de Ilabaiana. na Parahyba, no principio deste anno (1922) e eu quero sabe se me ser sempre fiel essa bichinha." Assim continuava elle a tralar a sua prpria mulher, qual constantemente chamava por esse appellido vulgar, que tm todas as raparigas novas, todas as caboclinbas do Nordeste!
O Padre Cicero, embora muito afeito ao meio, em que vive. ha tantos annos. e j tendo ouvido perguntas, das mais extravagantes espcies, no deixou de tomar atitude de sor-preza, deanle de tamanha ingenuidade, respondendo bem ao p da letra ao seu zeloso e desconfiado afilhado: "Porque no, meu filho? Pois voc no a escolheu para sua mulher, no est com, ella casado, no lhe deu o seu nome e no a vae tratar bem toda vida, protegendo-a sempre? "Forosamente ser ella sempre fiel ao seu marido, honrando-o at morte; e eu os abenco, em nome de Deus e da Santa Virgem das Drcs, com a plena convico de que sero muito felizes, toda vida".
Ao despedirem-se, ella, com lagrimas nas faces, de alegria e gratido, e elle, j com ares de plena confiana na esposa e lodo satisfeito, ouviram, ainda, a seguinte phrase do popular Sacerdote do Nordeste: "Vo com Deus".
Pelo profundo respeito a esse illustre Sacerdote, pela f que lhe tm todos os romeiros do Joazeiro e pelo acerto com


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que costuma S. Revma. resolver todos os assumptos. que Ibe so submettidos, depois da opinio que emittiu e que acabais de conhecer, tanto ella cumpriria, dalli por deante, risca, se no os vinha cumprindo, at aquella oceasio, os seus sagrados devores de esposa, como elle jamais delia duvidaria e teria a menor suspeita sobre o seu comportamento conjugai.
ma mulher, ji de certa idade, com uma toalha de crochet a cabea, "salva" o seu Padrinho e depois, diz-lhe: "Venho de muito longe, estou andando ha 18 dias. sou l do serto de Pernambuco, mas venho mesmo assustada, quero que o Senhor me diga se o Sol vae encrisar de novo ?"
(Se ia haver outra crise do sol, outro eclipse.)
Com grande bonhomia, deixando a quem o observava ver a lastima que lhe ia nalma. por tanta ingenuidade, tocando as raias da ignorncia, disse S. Revma.: "Vi descansada, filha, que o Sol no encrisa mais. essas coisas que lhe disseram so historias mal contadas".
ma outra velha, conhecida por "si Maria", depois do louvar o Padre Cicero, participou-Ibe que: "O boi que ella linha para o transporte de suas mercadorias da roca i cidade fugiu". Pergunta-lhe o Sacerdote: "Que quer que eu lhe faca*'* Responde ella. em lermos de interrogao: "Para onde elle foi ?" Ouvindo, com muita resignao o seguinte, por esse bom e espirituoso homem contestado: "No sei, minha filba, no sou vaqueiro I Procure-o bem que, necessariamente, o encontrar, Deus a guiar".
Oous sertanejos cearenses, operrios em Aurora, ponto terminal, em 1923, da E. de F. fiaturil, indo a Joazeiro em romaria, com outros da mesma localidade, Santa Me das Dores, aproveitaram dessa oceasio para queixar-se ao Padre Cicero de um abuso commettido, ha uns tempos alraz, pelo Sr. Benjamin Franklin de Souza Paes, que "quiz fazel-os de camelee para comerem folhagens, custa de dinhiero".
Surpreso, S. Revma., com semelhante novidade, desconhecendo, portanto, o que havia a respeito, prometleu-lhes que ia inteirar-se do assumpto e depois lhes escreveria, mandando tomar-lhes os competentes nomes e endereos.
Com pouco mais de uma semana, sabia de tudo, esse paciente Sacerdote, respondendo, em seguida, aos taes pretensos cameleet de Aurora como entendeu mais conveniente.


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O faclo do teor seguinte: "0 querelado Benjamin Paes, sentindo falta de hervas e legumes no local em que estava, com sua familia, mandou plantar esses bellos elementos de nutrio, A beira do aude da mesma estrada de ferro, os quaes, em muito curto lapso de tempo, produziram em grande escala, todos de primeira qualidade, tal a uberdade do solo da regio do Cariry, mormente s proximidades do elemento "gua", to indispensvel ao Nordeste, e tal o valor do brao do bomem cearense, e como fossem muitos os pimentes, os xuchs, as couves e as alfaces, para o seu gasto particular, acreditando auxiliar a alimentao dos habitantes daquella localidade, ordenou aos deus encarregados dessa pequena cultura, feita nas horas vagas dos mesmos, que podiam vender alguns legumes e hortalias, dos que houvessem em maior poro, aos filhos do logar, da sua visi-nhana, pelo menor preo possvel, guardando para ambos o resultado desse pequeno negocio, a titulo de gratificao pelo trabalho que com a mesma tinham, embora tambm gozassem diariamente dos alludidos produetos para sua alimentao.
Tentaram, por varias vezes, os referidos homens cumprir as ordens recebidas, sem o menor resultado, porquanto apenas um nico freguez, conseguiram obter, e esse mesmo, no era dalli, era estrangeiro, um empreiteiro italiano, que, de todas as oceasies, que lhe appareciam to bons produetos vegetaes, comprava sempre grande quantidade delles e, mesmo assim, gastando somente, de cada vez, 400 ris; em-quanlo que todos os filhos do logar deixavam de compral-os havendo muitos que, os punham fdra de casa, dizendo-lhes que: "no eram cameUes (textual), para comer folhagem1'.
O que se d com muitos pontos do interior do Brasil, pela falta de cultura de hortalias, o mesmo que verifiquei no Paraguay, com solos de patente ferocidade, acontece, em muitos outros do Chile, Peru e Bolvia, pela aridez das suas respectivas regies, no permittindo acostumarem-se os habitantes locaes ao uso e consumo de vegeta es em sua alimentao, trazendo tal falta necessariamente, gravssimos prejuzos a economia orgnica.
Dabi, esses habitantes de Aurora, do Cear, desconhecerem a confortvel alimentao, offerecida pelos vegetaes e os seus salutares benefcios ao organismo humano.
Um vaqueiro, todo encourado, dos ps cabea, appro-xima-se do venerando Sacerdote e, meio curvado, atirando o chapo ao canto da sala, toma-lhe o costumado louvado, entrega ndo-lhe uma carta, da qual era portador.


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Apenas acabava S. Revma. de ll-a j o ingnuo do> bomem exigia a resposta, para partir logo para o seu Estado natal. (Piauby).
S. Revma.. muito calmo e acostumado com essa boa gente, disse-lhe: "Va egreja, rezar 4 Santa Virgem das Dores, descance at amanho, se ainda nao jantou, eu Ibe mando dar de comer, e, logo noite, Ibe darei a carta para Voc levar, respondendo esta", (a qual mostrava, meia aberta, junta ao respectivo envcloppe).
Uma mulber. muito chorosa, de S. Revma. approxima-se e pede-lhe. pelo amor de Deus. que baptise a sua filhinha, que traz nos braos e que est prestes a morrer. Esse bom Padre, na extenso da palavra, conversava commigo no momento, assumpto que muito nos interessava, questes de evoluo de raas, de certas cornados sociaes do Brasil, com especialidade do Norte e typicamente do Nordeste.
Apenas ouviu o al legado e ps os olhos na criancinha, interrompeu immcdiatamente a nossa agradvel conversao e. com o auxilio de uma velha que alli se achava e de um dos seus secretrios, satisfez aos desejos da referida romeira, para o que no recusou de cumprir a sacerdote! pratica de collocar a sua alva mo sobre a cabecinha dessa inno-cente. cheia de feridas, com sangue e puz a dessorarem, como fez, sem perda de tempo, assim permanecendo, emquanlo orava, banhando depois, com a sua prpria mo. na bacia, com a agua que lhe trouxeram, essa mesma parte do corpo da pequena enferma, fazendo delia, um ente Chrislo e aproveitando da opnortnnidnd. para uma limpeza de alta relevncia, em to pouco zelada criaturinha, findo o que, ensinou genitora da baptisanda como deveria manter a antisepsia da mesma, para exterminar aquelles parasitas, e, acalmando-lhe o desassocegado espirito, disse:
"Sua filhinha se salva, tenha f em Deus e na Santa Virgem das Dores, que o poder divino de ambos basta para tudo fazer".
S quem viu, quem presenciou o oceorrido, pde dizer-vos a mudana, por completo, operada naquella pobre mulber, que no sabia o que fazer, de afflicta que estava, ao transpor a'porta de entrada da sala de visitas do Padre Cicero, sahindo depois, toda risonba, a andar naturalmente, com toda calma e, at, com certo "donaire".
Am dessas passagens, por demais interessantes e dignas de encomios, so homens e mulheres, constantemente.


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a pedir a S. Revma. para benzer imagens, breves e velas, ou para que harmonize genros ou noras, com os prprios filhos ou outros membros da familia; e nordestinos daquellas cir-cumvisinhanas, de todas as idades, solicitando designao de emprego, exigindo de S. Revma. a competente ordem es-cripla, para os empreiteiros, que os devam receber, etc.
Finalmente, seus prprios camaradas, empregados em suas propriedades, a prestarem-lhe contas do que fazem com os seus bens. do modo mais singelo, verdadeiro e expressivo possvel, firmando o trao essencial do homem do Nordeste, que ahonradez.
Um desses camaradas, depois de aguardar, por algum tempo, um momento propicio para falar ao Padre Cicero, a 8. Revma. chegou-se, todo humilde e cerimonioso, pedindo-lhe, primeiramente, sua benam e, em seguida, permisso para expor-lbe um facto succedido no sitio, que elle administrava.
Salisfeilo nos referidos desejos, porm ainda muito con-trislado, participou ao seu patro e protector o desappareci-menlo de trs cabeas de gado do sitio, tendo-as procurado muito sem conseguir achal-as. ignorando, portanto, para onde teriam ido as mesmas, mas que, caso ordenasse S. Revma., continuaria a procurai-a? at encontral-as.
O venerando Sacerdote, calmo, a encarar serenamente o seu camarada, que no pestanejava. nem gaguejava, em tudo o que af firmava ler-se verificado, esperou que o mesmo terminasse a sua clara e verdadeira exposio, respondendo-lhe succintamenle: "Satisfaz-me a sua sincera explicao, no carece procurai-as mais, porque o "detapparecido", "desap-pareceu mesmo", e est acabado, v tranquillo, sempre com f em Deus e na Santa Virgem das Dores".
Se vos fosse eu narrar tudo o que presenciei e ouvi, com referencia a esse venerando Ministro de Deus na Terra e a-essn valorosa faco da populao- brasileira, daqui no sa-hiramos hoje, estou certo.
Depois do exposto, pergunto-vos: "O venerando Padre Cicero, o maior vulto de todo Nordeste, para'no dizer logo de todo Norte e Centro do Brasil, no tocante popularidade, respeitado e venerado como , iria permittir que algum fizesse profisso do Cangao, e, muito menos, consentir na sua permanncia junto de si, da egreja das Deres, sua prenda dilecta. e dos seus innumeros e constantes romeiros ?
Para vos provar a sua atitude a respeito, vou reproduzir, para vosso conhecimento, o que se passou, ha alguns


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annos atras, oom um terrvel cangaceiro, um verdadeiro monstro, que alli appareceu a S. Revma.
Ouvi isso. na prpria sala de visitas do Padre Cicero. em sua presena, a mim contado por um dos seus auxiliares de servio, emquanto S. Revma. attendia a duas Senhoras, que lhe foram pedir conselhos, para evitar desharmonias entre os seus respectivos maridos, por causa de diviso de terras.
Um trabalhador das cercanias do Joazeiro, bom homem, de toda honestidade, de nome Quintino, por questes de so-menos importncia, foi desfeiteado, por um tal "Senhosinbo", rapaz turbulento e de m catadura, de passagem pela regio do Cariry; reagindo em defesa prpria, matou o seu adversrio, sendo absolvido pelo Jury local, por unanimidade de votos.
O Irmo do morto, o terrvel cangaceiro "Z Pinheiro", jurou vingar a morte do "Senhosnho" e, em dado momento, com a sua quadrilha, cobardemente assassina aquelle homem, que se defendeu heroicamente at ao ultimo momento.
Mas o terrvel facnora nlo se achava ainda vingado; a morte causada ao outro, defendida como foi. nlo constituis, no seu brbaro modo de ver, castigo bastante faltava ainda alguma cousa de importncia, para completar o servio.
Cortou o lbio superior do cadver, deixando-o de dentes mostra, como que ainda a rir e a zombar de tio sacrilega e ruim figura, e depois de cuspir, sapatear, dar muilos murros e esfaquear todo corpo inanimado desse seu desaffe-cto. comeu, a fortes dentadas, o lbio com o respectivo bigode, que momentos antes, havia arrancado do mesmo, de mistura com aguardente num delrio louco.
Logo que comeou o combate contra aquelle bom homem, amigos seus foram, a toda pressa, pedir providencias na Cidade do Joazeiro, ao protector do logar, ao Padre Cicero, que promptamenle, attendeu ao chamado, dirigindo-se em pessoa e inconlinenti, para o sitio do seu compadre atacado.
L chegando, soube que os sequazes do "Z Pinheiro", a seu mando e. sob sua direclo, haviam conseguido o desejado fim. acabavam de matar o pobre agricultor, que com sua familia, tranquillamente. se achava em casa e que o terrvel facnora ainda alli se encontrava, commeltendo toda sorte de barbaridades e actos infernaes com o seu cadver.
Nlo esperou mais 8. Revma. um s instante, enca-minh ando-se immediatamente para o logar demandado.
Ao peneirar na dita casa, viu um dos mais lugubres e macabros quadros, jamais por algum presenciado no mundo: um homem, dando gargalhadas satnicas, todo sujo de sangue de chapo no alto da cabea, montado em qualquer cousa, sobre a qual parecia cavalgar, manlinba-se em movimenta-


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&o constante, muito preoccupado num trabalho, em que empregava ambas as mos.
Immediatamenle previu o Sacerdote, em parte, o que tudo aquillo era e que consistia em estar o facnora a ultrajar o cadver do seu desvenlurado compadre. Foi approxi-mando-se do cruel assassino, com justos e altos brados de repulsa pelo que julgava se estar passando, sem que o mesmo o presenlisse, lal era o delrio de que se achava elle possuido.
Porm, qual nlo foi a sua sorpresa, ao defrontar, a pouco mais de um metro e meio de distancia com aquelle tristssimo quadro que, por dever de amizade e dos preceitos religiosos, o alirahiu para aquelle logar ?
O grande malvado forcava puxar a lngua do morto, e j ia cortal-a para depois, como confessou, comel-a com a sua cachacinba.
Imaginae todos vos o horror e a repugnncia que invadiram o espirito desse carilativo Padre ?
Tomado da energia, que cm dados momentos, lhe 6 muito peculiar, bateu no chio com a sua grande bengala e, levantando os braos, logo em seguida, grilou, em altivo protesto de reprovao, contra o sacrilego delicio, que estava sendo perpetrado sua vista.
Foi ento, quando o endemoninbado monstro paralysando, como por encanto, todos os movimentos, retirando-se, j, de chapoo na mo, de sobre o cadver e atirando a faca por terra, a chorar e a morder-se de raiva, desappareceu, qual um relmpago, da presena do valente, enrgico e moralizado?, Sacerdote.
Pergunto-vos:
E' vulgar a coragem que esse representante do nosso clero demonstrou ler, ultrapassando as raias da temeridade, sempre em favor dos fracos, dos opprimidos, sem a menor ida de lucros ?
Conheccis algum outro homem, mormente padre, e, com a vanada edadc desse extraordinrio Sacerdote, que se dis-puzessc a tal commettimento, praticando um acto de tanta ousadia, de tanta audcia, emfim de tamanha imprudncia, apenas para o bem da humanidade, como o que vos acabo do referir ?
Dahi a sombra, que tanto incommoda aos que no procuram imitar o seu correcto modo d proceder, de verdadeiro Sacerdote Christo.
Um homem dessa ordem, possue lambem grande illus-IraAo dessas que, poucas vezes, se encontram m outros, nas suas ciivuinstncias.
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No meio cm que vive e age S. Revma.. sem hora* de lazer, a bem do povo do seu paiz, que elzmenle o adora, o venera mesmo, o que posso dizer-vos sem receio de errar, que a sua forca de vontade e a soa memria parecem, em t.jl idade, sobrena tornes: vl-o. |or exemplo, n discutir varias passagens da escriptura sagrada, da historia antiga, mdia ou contempornea, episdios dos tempos grecos-rumano*. po-litica internacional, as celebres questes do Oriente, etc com esplendido* dotes de oratria, com longas citaes em latim, matria de que foi professor por muitos annos. conversando num bello metal de voz, sempre attenciosn, infatigavel, es-moler, caritativo e de uni patriotismo a prova, caus-t
verdadeiro pasmo ao observador.
Para bem demonstrar o perfeito estado da mentalidade desse illustre varo brasileiro, no momento, com oitenta annos, dou-vos a conhecer a bcllisima carta que 8. Revma.
------r -----
Carta do Podre Cicero ao Dr. Slmoins de SI ra.
houve por bem dirigir-me. cm 17 de Maro do corrente anno, toda cila escripta por seu prprio punho, aqui inserta cm photographia c constante do respectivo Addcn-


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r/t Carta do Paire Ci rcro ao Dr. Simocns da Silva.
E a um brasileiro, como esse, venerado por todos os motivos, de espirito to abnegado e to patriota, que alcunham os seus desaffeclos gratuitos, de: "igtwranlo, padre do serto, chefe de cangaceiros, implantador do fanatismo no Nordeste" e outras quejandas qualificaes 1
Conceitos, como os cmitlidos nessas expressivas e sinceras cartas, de certo muito me desvanecem, tornando o seu autor cada vez maior credor do meu apreo e da minha cordial admirao.
E porque, assim, no ser 1
(13) Addendum: Carta do Padre Cicero, de 17 de Maro de 1924.
(14) Addendum: Carla ainda de S. Revma., recebida depois de ultimada esta, datada de 5 de Setembro de 1924.


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Homem esse que nlo cogita de vinganas, soffre caindo, nlo se queixa de quem quer que seja. segue a pura doutrina de Christo; de grande elevao de espirito, vivendo entre milhares de indivduos, em grande parle, analphabetos, conserva inlarta. a sua culla mentalidade: immutavel. o seu modo de raciocinar e perfeita a organizao da phrase, com certas divisas, como. por exemplo, a seguinte, que bastaria para im-mortalizal-o: "Fazer o bem a quem dee precise, tem vir qual seja o pedinle".
A propsito, muito me apraz contar-vos um dos grandes acios da vida desse notvel altrusta, desse Sacerdote patrcio, a bem da humanidade, verificado, no principio deste sculo, daqui para Europa.
"Quando os Judeus estavam sendo, ba tempos passados, massacrados no interior da Rssia, o Padre Cicero protestou com toda sua mentia, contra tal barbaridade, escrevendo do serto cearense, ao Centro Israelita de Pariz. para'que fizesse terminar esse tio reprovvel estado de cousas no levante da Europa, orientando-o de tal frma, para o desempenho dessa nobre misso, que o xito nlo se fez esperar, recebendo, tempos depois. S. Revma. mensagens de homenagem e de agradecimento daquelles que, como viclimas do despotismo, ento reinante entre as hordas slavas e outras do grande paiz. seriam inevitavelmente immolados, se nio fosse o humanitrio grilo de protesto desse hemdicto Padre catholico do Nordeste Brasileiro.
Como classificar um aclo. como esse, de tanta dedicao pela humanidade e pelo Mundo ?
E como ainda achar tempo S. Revma. para cSioUai -.-.. grandes casos mundiaes, que interessam ao homem, quer seja elle desse ou daquelle credo religioso, quer de uma ou de outra faco poltica ?
O procedimento desse eminente Brasileiro de lal ordem, a crear uma verdadeira escola para todo paiz, quando no seja para lodo continente, alliando-se a sua valiosa aclo ao que, hoje em dia, as sociedades de "Moos e Moas Cbrists", que se vo multiplicando por todos os paizes americanos, esto praticando, com reaes vantagens para o chrislianismo e para a humanidade, em geral.
Tem ainda o Padre Cicero uma outra qualidade, no meu vr. sublime, que a sua independncia de caracter, no se submette a tutelas polticas; venham ellas donde vierem, S. Revma. procede sempre de accordo com os bons princi-pois, a bem da humanidade e em prol da sua Ptria, que a mesma de todos ns.


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Assim, velho, com mais de 50 annos de reaes servios ao paiz. pois que. independente do que j conheceis, foi o 3' Vicc-Presidente do Estado do Cear, no Governo Accioly, I* Vice-Presidente, no inicio do Governo Franco Rabelio, recusando continuar nesse alio cargo, no Governo Benjamin Barroso, continua sendo o Prefeito de Joazeiro, datando a sua nomeao, pelo governo do Estado, do anno de 1911 e, rnr-is ainda, permanece no rduo e operoso cargo de Presidente da Junta de Alistamento Militar dessa regio do paiz. no qual tem prestado os mais relevantes servios Ptria: trabalhando toda vida em seus mltiplos afazeres sempre para o bem geral, extraordinariamente culto, pertencente a grande numero de instituies de sciencias e letra e a varias outras associaes civis e de beneficncia do naiz. mando a sua Pai ria. como poucos, s conheci um outro Brasileiro como S. Revma. e creio que o mesmo que lambem mnheoestes. que foi S. M. o Sr. D. Pedro II. o nHimo e sandoo Imperador do Brasil, que. por mais de meio sculo, lambem trabalhou ininterrupta e abnegadamente, elevando o nro paiz ao mais alto gro de respeito, no conceito das naes, fazendo-o progredir de anno a anno. completamente pacifista, essencialmente republicano, puro democrata o um verdadeiro patriota.
E ainda o Nordeste, pelo seu patritico Estado do Cear, que soube render uma justa homenagem a esse grande Brasi>iro desapparecido. porpetuando-o no bronze, na bella csialuta. que se acha em Fortaleza.
Mas. meus caros Ouvintes, ainda no e lufio. irffia-mc completar a defesa dessa ba gente, dessa Populao do Nordeste, cujos elementos para tal so tambm clarividentes e. efti pouco lempo. estaro todos expostos e, como acredito, lambem terminado o sacrifcio a que vos impuzestes em at-leno ao titulo da presente conferncia e aos illustres ac-cusados. muito homenageando, com isso, a quem vos dirige a palavra.
Quanto injuriada Populao do Nordeste, acabaes de vAr que. de modo algum, merece ella to errneo modo de ser interpretada: ao contrario disso, faz jus aos maiores en-comios e louvores, pelo seu valor physico, pela sua manifesta operosidade, pelo seu acendrado patriotismo e pelos muitos outros extraordinrios predicados moraes que possue.
Assim, as obras dos audes, das linhas frreas, das es-trrdas de rodagem, em oito Estados da Unio, a cultura e a colheita do algodo (do nosso ouro branco), do cacau, da canna de assucar, do fumo e de cereaes, bem como. a criao pastoril em Ioda essa caprichosa zona do paiz, a extraco e


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o preparo da nossa borracha, na Amaznia e. em grande parte, a defesa da Ptria, tudo feito pela gente do Nordeste, pelos suppostos cangaceiros ou fanticos do Padre Cicero,
Quanto desconhecimento da nossa terra, e dos nossos conterrneos, verdadeira ignorncia do que se passa no pais, persiste no doentio espirito dessa celeberrima faco de brasileiros que outra cousa nlo faz senio desacreditar os seus legtimos irmos, desmerccendo-se a si mesma, procurando reduzir o valor de tudo o que respeita ao Brasil e, finalmente, amesquinhando a sua prpria Ptria I
Meus illustres Ouvintes, o que vos acabo de referir, 4 filho do despeito, da inveja e, em grande parte, da ociosidade e da ignorncia.
A dedicao do nordestino ao progresso da sua Ptria uma cousa mais que provada, e tanto assim que nenhum de vos me contestar o que passo a expor; ludo affirmando, quer de conhecimento prprio, quer pelos competentes dados estatsticos officiaes. que consegui reunir, por especial gentileza das nossas corporaes armadas e das nossas reparties publicas civis, juntos todos em Addendum a esta, pelas respectivas autorizaes minislcriaes (15), (16), (17), (18), (19), (20), (21).
Porm, antes de tudo. os prprios facios da nossa historia, se incumbem, de modo incontestvel, de provar o extraordinrio patriotismo e as nobres qualidades evolucionistas desses brasileiros ou da gente do Nordeste, assim chamada.
, entre outros, so dignos de nota:
A Revoluo dos "Independentes" pernambucanos, para-hybanos e riograndenses do norte, com o filo da sagrada liberdade, determinou a estrondosa victoria dos mesmos, nas grandes Batalhas dos Guararapes, de 1649* a 1654, contra os bollandezes, que foram por elles expulsos, afinal, do solo brasileiro, e nas quaes tanto se salientou o grande hene
(15) Addendum: Gabinete do Minislro da Justia e Negcios Interiores.
(16) Addendum: Gabinete do Minislro da Guerra.
(17) Addendum: Gabinete do Minislro da Marinha.
(18) Addendum: Gabinete do Minislro da Agricultura, Industria e Commercio.
(19) Addendum: Gabinete do Ministro da Fazenda.
(20) Addendum: Gabinete do Minislro da Viao e Obras Publicas.
(21) Addendum: Gabinete do Prefeito do Districto Federal.


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nordestino Andr Vidal de Negreiros parahyba.no de nascimenlo, mais tarde governador do Maranho, Pernambuco e Angola.
A Revoluo de 1710, appellidada "Guerra dos Mascates", no Recife, da qual os brasileiros dessa regio foram vencedores contra os oppressores estrangeiros, a bem da liberdade e da democracia.
A "Revoluo de 1817. cm Pernambuco, interessando as provncias de Alagoas, Parahyba e Rio Grande do Norte para consecuo da sempre sonhada independncia do Brasil, pelos seus abnegados filhos, com o ideal da implantao, j naquella poca, do regimen republicano no paiz.
A Revoluo de 1824 (a Confederao do Equador), realizada em Alagoas. Pernambuco, Parahyba Rio Grande do Norte e Cear, com o fim de. reagindo contra o absolutismo de D. Pedro I. que extinguiu o constitucionalismo no Brasi:, implantar aqui o regfmen republicano.
A Revoluo de 1837 (a "Sabinada"), que teve logar na lendria Bahia contra os desmandos de ento, para proclamar a republica at a maioridade de D. Pedro II.
Como fica exposto, e do vosso conhecimento, os combates aos invasores do nosso territrio e aos oppressores, dos nossos compatriotas dessas memorveis pocas, em sua maioria, foram sempre dados, com constantes e indiscutveis vietorias. para nossa Ptria, por essa valente, enrgica e de-nodada gente do Nordeste.
Visando sempre o grande ideal da liberdade, para o seu pau: natal, o notvel nordestino Jos da Silva Lisboa, mais tarde Baro c, depois, Visconde de Cayrvx, natural da Provncia da Bahia, induziu D. Joo VI, no prprio anno de 1808, da sua chegada ao Rio de Janeiro, a decretar a abertura dos portos do Brasil ao.commercio do mundo, no que foi logo satisfeito, iniciando-se, dessa dala para ca, o real progresso do paiz.
Na mesma gloriosa senda, outro filho do Nordeste, lambem bahiano, o grande e memorvel estadista Jos Maria da Silva Paranhos. Visconde do Rio Branco, em 1871, conseguiu a saneo para a lei do "Ventre Livre", de sua confeco, pela qual, desde essa poca, no mais nasceram escravos no Brasil.
Em 1884, uma* das mais progressivas provncias do Nordeste, o Cear, libertou todos os escravos existentes dentro dos seus limites, abrindo esse bello e humanitrio precedente no paiz e. por tal frma, indicando s demais da nao brasileira como procederem, daquella data em deante, o que logo se Verificou no Amazonas no mesmo anno, por iniciativa do


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seu Presidente, o cearense e grande abolicionista Theodureto Souto.
Em 1888, nela urea lei de 13 de maio, o Governo Imperial decretou a abolio geral no paiz. para a qual. em sym-palhiea. penosa e prolongada campanha, muito luctaram os nordestinos: Joaquim Nabueo e Joio Alfredo, de Pernambuco; Andr Rebolias, Sousa Dantas e Ruy Barbosa, da Bahia: Coelho Lisboa, da Parahyba; Theodureto Souto, do*Ceari; Cyro de Azevedo, de Sergipe, e tantos outros.
Basta ainda lembrar-vos que sio do Nordeste, alm dos j citados, os seguintes vultos, por todos os aspectos, em que possam ser apreciados, venerando, quer como cientistas e patriotas, quer como polticos e estadistas; quasi Iodos presidentes de provncia, ministros de Eslado. magistrados, diplomatas, senadores, deputados, alias palenles do Exercito e da Armada, tomando parte activa na Independncia, auxiliando a Regncia, luclando contra o predomnio colonial e. em sua maioria, titulares:
Assim, da Bahia: Jos Egydio Alvares de Almeida (Mar-ouez de Santo Amaro). Sianoci Vieira Tosla (Marques de Muritiba). Miguel Calmon du Pin e Almeida (Marquez de Abranles). Dr. Clemente Ferreira Frana (Marquez de Na-zareth). Jos da Cosia Carvalho (Marquez de Monte Alegre), Antnio Luiz Pereira da Cunha (Marquez de Inhambupe), Jos Joaquim Carneiro de Campos (Marquez de Caravellas). Luiz Jos de Carvalho e Mello (Visconde de Cachoeira). Francisco Gonalves Martins (Visconde de Sio Lonreno). Dr. Domingos Borges de Barros (Visconde da Pedra Branca), Joaquim Jos Pinheiro de Vasconccllos (Visconde de Monl-serrate), Jos Carlos Pereira de Almeida Torres (Visconde de Macah). Francisco G Acayaba de Monlezuma (Visconde de Jequitinhonha). Manoel Alves Branco (2* Visconde de Caravellas), Carlos Carneiro de Campos (3* Visconde de Caravellas). Felisberlo Caldeira Brant Pontes (Visconde de Bar-bacena), Joaquim Elysio Pereira Marinho (Visconde de Guaby), Joio Jos de Almeida Couto (Baro do Desterro}. Dr. Francisco Bonifcio de Abreu 'Baro de Villa da Barra). Francisco Xavier de Pinto Lima ;Baro de Pinto Lima), Franklin Amrico de Menezes Doria (Baro do Lorelo), ngelo Muinz da Silva Ferraz (Bario de Uruguayana), Joio Mauricio Wanderley (Bario de Cotegipe), Conselheiro Jos Antnio Saraiva, Zacarias de Ges e Vasconccllos, Antnio de Castro Alves, Dr. Manoel Viclorino Pereira, Constando Alves, Afranio Peixoto, Xavier Marques, Conselheiro Antnio


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Simocns da Silva, meu av paterno, e outros.
I> Sergipe: Rufino Enas Gustavo Galvo (Visconde de Maracaj). Joio Gomes de Mello (Baro de Maroim). Joo Ribeiro, Sylvio Romro, Laudeno Freire, etc.
De Alagoas: Dr. Joo Lins Vieira Cansano de Si-nimbti Visconde de Sinimh), Severiano Martins da Fonseca (Baro de Alagoas). Manoel Joaquim de Mendona Cas-tel!o Branco (Baro de Anadia). Francisco Ignacio Carvalho Moreira (Baro de Penedo), Goulart de Andrade etc.
De Pernambuco: Pedro de Arajo Lima (Marquei de Olinda). Francisco Paes Barreto (Marquei de Recife), Dr. Manoel do Monte Rodrigues de Arajo (Conde de Iraj), Francisco do Rego Barros (Conde da Boa Vista), Antnio Francisro de Paula e Holtanda Cavalcanti de Albuquerque (Visconde de Albuquerque), Bernardo Jos da Gama (Visconde de Govanna). Francisco de Paula Cavalcanti de Albuquerque (Visconde de Suassuna), Caetano Mario Lopes Gama fVisconde de Maranguape), Pedro Francisco de Paula Cavalcanti (Visconde de Camaragibe), Hermenegildo de Albuquerque Porto Carreiro (Baro do Forte de Coimbra), Domingos de Souza Leo (Baro de Villa Bella), Henrique Pereira de Lucena (Baro de Lucena), Victorino Jos Carneiro Monteiro (Baro de So Borja), Ignacio Joaquim de Souza Leo (Baro de Souza Leo), Dr. Jos Bernardo de Figueiredo (Baro de Alhandra), Joo Jos Ferreira de Aguiar (Baro de Catuama). Dr. Domingos Ribeiro dos Guimares Peixoto (Baro de Iguarassti), Dr. Antnio Peregrino Maciel Monteiro (Baro de Ilamarac Domingos Malaquias de Aguiar Pires Ferreira (Baro de Cimbres). Manoel de Oliveira Lima, Medeiros de Albuquerque, Antnio Austregesilo. Silva Ramos, Dantas Barreto D. Joaquim Arcoverde Cavalcanti de Albuquerque, primeiro Cardeal do Brasil e nico at hoje, et:.
Da Parahyba: Diogo Velho Cavalcanti de Albuquerque (Visconde de Cavalcanti), Silvino Elvidio Carneiro da Cunba (Baro de Abiahy), ele.
Do Rio Grande do Norte: Luiz Gonzaga de Brito Guerra (Baro de Asso). Felippe Nery de Carvalho e Silva (Baro da Serra Branca), Coronel Thomaz de Arajo Pereira, que foi o primeiro presidente da Provncia e antepassado das famlias Jos Augusto Bezerra e Juvenal Lamartine, etc.
Do Cear: Luiz Anlonio Vieira da Silva (Visconde de Vieira da Silva), Domingos Jos Nogueira Jaguaribe (Visconde de Jaguaribe). Jos Pereira da Graa (Baro de Ara-caty), Dr. Paulino Franklin do Amaral (Baro de Canind), Dr. Jos Jlio de Albuquerque Barros (Baro de Sobral), Dr. Guilherme Sludart (Baro de Studart), Senador Thomaz


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Pompeo dc Souza Brasil. General Antnio Tibureio de Souza. Clovis Bevilqua, Tristo de Alencar Araripe, ele.
Do Piauhy: Joio Lustosa da Cunha Paranagu (Marquez de Paranagu), Senador Francisco Jos Furtado, Marechal Gregorio Thaumalurgo de Azevedo, etc.
Finalmente, em 1889. foi proclamada a Republica no Brasil, por Manoel Deodoro da Fonseca, natural das Alagoas, pertencente a uma das mais illuslres e hericas familias nordestinas, que forneceu sete dos seus filho* para a defesa da Ptria, contra o celeberrimo lyranno do Paraguay. na zona do sul do paiz. onde todos brilharam, pelo denodo. coragem e bravura com que se bateram, dando com tal procedimento t grande prazer sua abnegada genitor. Dona Rosa Paullna da Fonseca, a Spartana Alagoana, que. antes de obter noticias dos filhos em combate, exigia sempre informaes sobre as victorias. mandando enfeitar a sua casa com flores e illuminar a fachada da mesma, quando eram cilas favorveis ao Brasil, recolhendo-se depois aos seus aposentos para chorar a morte dos seus caros rebentos, embora orgulhosa da aco pelos mesmos desempenhada.
Outro alagoano, o inesquecvel Floriano Peixoto, heroe da guerra do Paraguay e honrado Presidente da Republica, como Deodoro.
Recordados, embora em traos gera es, esses nossos honrosos factos histricos, em cerca de Ires sculos, todos praticados denodadamente peta valorosa Populao do Nordeste, geralmente ainda mal conhecida por outros pontos do paiz. v-se que a aspirao desses nossos inolvidnveis compatriotas foi sempre baseada na liberdade de aco. na independncia da Ptria, na abolio da escravido, na defesa do> territrio nacional, com o louvvel intuito, de todo democrtico, da implantao no Brasil mdo governo do poro pelo povo~.
Nessa regio extensissima. do serto da Rahia ao Estado do Paiuhy. comprehendida em oito Estados da Unio Brasileira com 1.190.666 kilomelros quadrados, onde maior natalidade se opera, e entre brasileiros, propriamente ditos.
A proliferao nessa zona do paiz uma cousa phanta -tica; em regra geral, so compostas as familias, dalli oriundas, de to, 12, 14, 20 c mais filhos, nascendo todos, relativamente, robustos e criando-se sem maiores cuidados.
Pela estatistica de 1 de setembro de 1920, possuia o Nordeste 10.371.584 habitantes, nessa poca, em regra geral, brasileiros e dos mais genuinos, dedicados apaixonadamente agricultura, criao pastoril, s industrias, s artes e of-ficios. e defesa da Ptria.


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Pela rea cultivada do Nordeste, que attinge a 33.075.S21 hectares, com 155.346 estabelecimentos ruraes de certa monta, bem se pde conhecer da capacidade de trabalho dos filhos dessa regio, os nicos que, abnegadamente, supporlam as verdadeiras inclemencias do tempo e toda sorte de difficuldades irremediveis, em certos veres, nas oc-rasies das suecas, propriamente ditas.
A criaro pastoril, comprebendendo os gados: bovino, eqino, asinino, suino, ovino e caprino, acha-se representada no mesmo recenseamenlo de 1920, num total de: 16.902.665 cabeas, a despeito da falta d'agua e de forragens, que, nas mesmas pocas, se faz sentir e, s vezes, com intensidade tal. de causar os mais profundos claros nesse grande elemento de vida local.
Pergunto-vos: Quem cultiva todos esses 33.075.521 hectares, quem trata desses 155.346 estabelecimentos ruraes e quem, finalmente, cuida dessa populao pecuria, do respeitvel numero de 16.902.665 representantes ?
E essa operosa e ordeira phalange de patrcios nossos, continuamente to injuriada e sempre desconhecida por aquelles que se dizem trabalhadores e honestos, mas que s vem o argueiro nos olhos dos .outros !
Pois bem, essa nossa gente at nas industrias, tem feito o que ningum no paiz ainda fez.
Por exemplo: durante muitos annos o Nordeste exportou, de ordinrio, para os Estados Unidos da America, milhes e milhes de couros de bode, tendo a habilidade de tirar dous de-cada caprino abatido, um dorsal, e outro ventral, e sendo, pelas praas consumidoras, importados como se fossem de dous animaes, os mesmos, assim exlrahidos de cada um.
IV do Nordeste a ba e procurada linha de coser,' d Fabrica da Pedra, do Estado das Alagoas, produzida por uma diminuta parcclla de fora hydraulica da cachoeira de Paulo Affonso, fundada por Delmiro Gouveia, operoso e intelligente nordestino, e por elle explorada at a sua morte, e to bom esse produclo brasileiro, que nas republicas do sul, do nosso continente o mais vendivel entre os congneres, por alli offerecidos.
A renda de linho, lo procurada e to valiosa, pelos seus desenhos, pela sua resistncia, pela sua belleza, toda feita pelas mos das honestas e operosas filhas do Nordeste, que executam os modelos mais difficeis e intrincados, a ellas apresentados pelos seus freguezes, parecendo incrvel taes obras primas provirem, como provm, geralmente, de entes modestos e analpliabetos, como os referidos.


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F. esse um outro trao caracterstico da populao do Nordeste, fazendo o que a de outras regies do pais nlo faz, demonstrando ser essa arte nacional genuinamente nordestina.
Essa industria da "renda do norte" chamada, muitissimo antiga no paiz e uma arte, de ordinrio, ensinada pelas velhas avs as jovens netas, visto suas filhas, mies. das mesmas, se acharem oceupadas sempre com os servios domsticos e com a criao dos filhos menores, no podendo mais se dedicar, com a devida atteno. a assumpto to primoroso.
A rstica e montona musica dns hilros nos almofades das rendeiras indica serem as execulantes da mesma velhas ou jovens caboclas, de ordinria descendentes direclas das tribus indgenas do paiz. oriundas das exllnctas naes Tupy e Guarany.
O mesmo delicado trabalho artstico, embora noutro gnero, feilo tambm neste lado do nosso continente, por velhas e jovens, que, sem serem brasileiras, sio. no em-tanto, descendentes da ultima dessas extinetas naes indgenas sul-americanas, como filhas que sio. da Republica do Pnraguay. eslando o prprio nome dessa renda, nandmly (leia de aranha), a indicar a sua origem.
Mais um ponto de contacto. esse entre os primitivos habitantes do Brasil e os nordestinos, tornando-os radicalmente
Pilha* do Nordeste bbrkaodo cbapeos de palha d* carnaba.
brasileiros, como guaranys so, por essncia, os filhos do Paraguay.
Os cbapeos de palha de carnaubeira so geralmente feitos com toda perfeio, pelas filhas do Nordeste, sempre


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na faina de auxiliar o* seus maridos, paes, filhos ou irmos, na lucia da vida e no serem pesadas a ningum, mantendo integra a sua honra, do que fazem principal questo.
Entregam-se a esse trabalho, junto das prprias palmeiras de carnaba ou em suas residncias, conservando-se irreprebensivehnente asseadas e enfeitando as pecas, que vo confeccionando, com motivos variados, onde entra sempre uma ou outra tira de palha diversa e de cores differentes.:
No prprio Joazeiro. do Cear, no logar denominado Brejo Queimado, formado pelas guas da Lagoa Timbaba, existe uma lama negra, da qual se utilizam as Religiosas dessa cidade, para tingir os tecidos, com que fazem as suas vestes.
Finalmente, o mais vulgar e procurado producto da regio, a rede, de tecido de algodo ou de fibra de coqueiro, com lindas e trabalhadas varandas, como no se encontra em outra parte do paiz, com tamanha abundncia, feita, geralmente, pelo sympalhico e bom elemento feminino dos respectivos Estados, c vendido em todas as suas feiras e mercados, por preos, que ji vo sendo compensadores.
E chamar-se a uma populao dessa ordem, irm de todos ns, de fantica, facnora e indolente!
S ignorncia do que'se passa no paiz e maus sentimentos podem determinar tal procedimento.
Outro ponto da maior relevncia a assombrosa ousadia, cm favor do progresso da Ptria, de toda essa gente, que no mede sacrifcios, nem resultados por auferir, chegando a proceder, para tal fim, lemerariamente.
Refiro-me extracco da nossa gomma elstica, da procurada "Hevea", desse rico producto, por ns appellidado borracha*\
Somente os nordestinos, dos quaes sobresahem, os cearenses, em levas continuas e enormes, Singram muitos dos igaraps da grande bacia amaznica, trabalhando dias a fio, immersos at o peito nas guas estagnadas, sob a perigosis-sima aco dos terrveis* mosquitos, por entre' as chamadas estradas de seringas, no grande e penoso labor da sangria das arvores e da colheita do ambicionado ltex, que, depois em terra, coagulam no fumo das cascas de cocos ou de certos gravetos.
A mortandade desses nossos operosos compatriotas grande, ficando muitos dos que escapam com enfermidades para o resto da vida, especialmente o "impaludismo"', cujo germen involuntariamente transportam no organismo para onde vo, inclusive, para o Nordeste, quando para alli regressam .


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Alm disso:
A quem cabe a gratido do paiz pelo dcsbravamenlo do Acre ?
Quem cimentou toda essa nossa regio, com centenas c centenas de cadveres seus ?
Quem iniciou o povoamento, propriamente dito, desse nosso territrio de 152.000 kitorneiros quadrados ?
Respondereis, sem hesitar, um s momento: A Populao do Nordeste.
Pois bem, a essa populao, de brasileiros, dos mau genunos e aterrados ao paiz, que os taes maldizentes, lambem brasileiros, infelizmente, mas que s cogitam de rigores de modas de trajar e de encontrar vicies nos outros, tanto se compra/em em desacreditar, com os deprimentes epitbetos, que conhecei*.
Vou referir-me. agora, com prazer, embora muito rapidamente, ao valor de toda essa gente, na categoria de "operaria", nas Obras contra as Sccas, por Iodos esses oito importantes Estados da Unio.
Aos ex-Presidentes da Republica. Dr. Delfim Moreira, mineiro, meu contemporneo dos tempos acadmicos, e Dr. Epitacio Pessoa, parahybano, nordestino portanto, deve essa grande regio do paiz no estar mais sujeita aos horrores a que at ha bem pouco tempo esteve entregue, por incria e verdadeiro desleixo dos nossos governos passados.
bem merecendo ainda dos governos futuros a devida allenio, para que se concluam os servios alli, j em grande parle, executados.
Essa regio, que. na aclua-lidade j conla com 901 audes e poos tubulares, quer pblicos, quer particulares e que, mais tarde, com os 69 a serem ultimados, ficar com um total de 1.060 grandes e pequenos depsitos dgua para todas as necessidades agrcolas, pecurias e domesticas, e para quaesquer emergncias de alguma poca dificil. a quem deve a conslruco de tudo isso ?
Quaes os braos que se fati-garam, de sol a sol, em taes servios?
A resposta somente uma, de toda incontestvel: Aos prprios filhos do Nordeste, cujos possantes e in-
NordjStlno trabalhando de
sol a oi.


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canfaveis braos de ao, teem executado maravilhas por toda aqucIJa regio. Ainda mais:
Os 200 kilomelros de estradas de ferro inaugurados por Ioda essa regio e os 3.829 kilomelros de estradas de rodagem e carroavels, permittfndo a franca sabida de toda produco local e o viajar-se, commodamnle, -de automvel, em qualquer momento, de Recife ao Estado do Piauhy, atravessando-se os da Parahyba e do Rio Grande do Norte, e galgando-se, suavemente, a alta serra de Ibiapaba no do Cear, construdos por ordem e dfreco da Inspectoria de Obras contra as Sccas, por quem foram executados ?
Cau das estradas de rodagem do Nordeste
Quem derramou o seu copioso suor em todas essas obras ?
Sempre e continuamente o nordestino, o operoso e humilde filho da regio que,- se no fora o seu prprio brao, jamais seria beneficiado.
A grande audagem brasileira, em conslruco, nessa interessante regio do paiz, que comprehende nos Estados: do Rio Grande do Norte, os de "Gargalheira" e "Parelbas", que contero 175 milhes de metros cbicos dgua; da Parahyba, os de "Piles", ^Piranhas" e "So Gonalp", que armazenaro 320 milhes, e do Ceara, os de "Acarap", "Pat" e "Peo de Paus", que reprezaro 738 milhes, o de "Qui-xaramobim", que ficar, elle s, com um bilho e, finalmente, o colossal de "rs",- que reunir o extraordinrio volume


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dgua de tres' bilhes e 300 ntilbes de metros cbicos, est toda nas mos do operariado nordestino. (22)
Devo dizer-vos que esse nosso ultimo aude, que o maior do mundo, por 50 milhes de metros cbicos que ter a mais, desbancou o que at agora era reputado o maior, denominado "Elepbant Butte". construdo no Estado de New-Mexico, na America do Norte, em zona muitissimo semelhante a essa nossa do Nordeste.
Boqneirlo do Jaersarlbe qae loraarl o cooasal Aaxie d* Oro* ao Estado do Cear
Outrosim. para verdes a importncia das obras, em execuo, por essa operosa gente, que no mede sacrifcios, nem conta horas de trabalho, tenho o prazer de communicar-vos que esse aude, de "Ors", chamado, ter maior volume dgua do que contm a nossa bella, extensa e apreciada bahin de Guanabara, cujo permetro ser menor do que o delle, ainda.
E quem manda e aconselha ao operariado do Nordeste a ir trabalhar, arregimentado e disciplinado, em todas essas obras 1
y; S. Revma. o Padre Cicero Romo Baplisla, esse velho Sacerdote brasileiro, todo encanecido, mas sempre progressista, protector de suas innumeras Ovelhas e, acima de tudo. patriota dos mais devotados.
(22) Addendum: Inspectoria Federal de Obras contra as Sccas. Ministrio da Viao e Obras Publicas.