O Crato de meu tempo /

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Material Information

Title:
O Crato de meu tempo /
Series Title:
Coleção Alagadiço novo
Physical Description:
126 p. : ; 23 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Menezes Neto, Paulo Elpídio de
Publisher:
Imprensa Universitaria do Ceará
Place of Publication:
Fortaleza
Publication Date:

Subjects

Subjects / Keywords:
Crato (Ceará, Brazil)   ( lcsh )
Genre:
non-fiction   ( marcgt )

Notes

Statement of Responsibility:
Paulo Elpídio de Menezes.

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 15541165
Classification:
lcc - F2651.C7 M45 1960
System ID:
AA00000260:00001

Full Text
PAULO ELPDIO DE MENEZES
O
CRATO DE
MEU TEMPO
1960


Paulo Elfdio de Menezes nasceu a 26 e fevereiro e 1879, no Crato, serto do Cariri, onde decorreu sua infncia. Embora descendente e um dos cls familiais que partilhavam o domnio da regio, decidiu migrar, pobre e rfo, mal atingiu a adolescncia, para Quixa, onde casaria. Desde muito cedo, enfrentou a luta pela vida sem transigncias que subal-ternizam, e sempre imbudo do vigoroso sentimento e sua independncia moral. Daquele ano remoto at os dias correntes, sua vida uma lio e esforo honesto e igniae combativa: formou-se em Direito, exerceu por mais e quarenta anos o cargo e Procuraor Fiscal




O CRATO DE MEU TEMPO




minha querida Oda, companheira de sessenta anos Aos meus filhos Moacir, Jandira, Djacir e Paulo (os dois primeiros falecidos em tenra idade)




PREFCIO
"O Crato de meu Tempo" Indica o ttulo que um livro de memrias, no no gnero de alguns em que os autores, mui preocupados com seu prprio nome e a fama, s^^ueja_t^n> ou por convenincia ou por vaiaa| s contam ou s inventam o que possa recomend-los ao conceito dos contemporneos ou ao culto, nem sempre justo, da posteridade.
Paulo Elpdio de Menezes bem poderia dizer, de suas "memrias", o que eu, em subttulo, disse de Retalhos do Passado episdios que vivi e fatos que testemunhei em que o autobigrafo como que hse desvanec4 ouse absorve no cronista que evoca do^mei ambiente, que as sombras do tempo distante envolvem e ofuscam, uma paisagem que parece morta ou que murchou, mas que, dentro de si, sobrevive e persiste viva, exuberante, colorida e multiforme.
O primeiro quadro, que se desenha no fundo de passado que comea no ano de 1886, o panorama da antiga cidade, encravada no vale do Cariri, com asJjuas^ ruas, travessas e becsf a igreja matriz e a cadeia^ "pesado edifcio... com o andar trreo escuro e clfo deb ^Y\jtA

sempre, suspensas ou terminadas por entre cacetadas e tiroteios, u ^tvw^-jV Hr*A
Segue-se uma viso retrospectiva da vida urbana e suas diverses: festas de igreja, cavalhadas, bumba-meu--boi, congos, preciosa contribuio folclrica sobre costumes e tradies que se foram ou em declnio, ou que ainda perduram e resistem ao sacrlega e demolidora do progresso; mgico encanto que eram dos nossos avs, de nossos pais, e o foram de nossa meninice e juventude. Entre as festas de igreja sobressai o Natal, e, entre as suas lapinhas, o prespio do Padre Flix, com as mesmas figuras: o menino Jesus, Maria e Jos, os Reis Magos, a estrela no alto, alumiando a manjedoura; animais mansos e feras, no menos tranqilas e contritas, arrodeiam o bero; e mais este pitoresco enxerto na lenda e tradio crists: uma caixa de msica anunciando o nascimento do Menino-Deus, logo repetida, em versos, por doze pastorinhas, que se acompanham com os seus maracs; alas que se abrem aos ndios que vm tambm adorar o divino garotinho. E as pastorinhas ou ciganinhas, surpresas com a presena daqueles "filhos das selvas, enfeitados de penas, cocares e armados de arco e flechas", a interrog--los cantando:
Quem so vocs?
> Caboclos da aldeia, respondem tambm cantando.
Para onde vo?
Vamos a Belm.
Ver o que?
A Jesus, nosso bem.
Rompem, ento, as Pastorinhas:
Oh, que noite to alegre
Que convida os caboclos
A visitar o Deus-Menino.
Oh, que bela e feliz noite...


Singela cano que ainda enternece a alma de dois incrus; flor de poesia e saudade que o cronista colheu e fez cair sobre o rochedo em que se fecha o nosso empedernido atesmo...
Com o mesmo colorido e riqueza de detalhes, recorda outras diverses religiosas e profanas: So Joo e Sbado de Aleluia; a ongda, liberdade festiva de um dia, para escravos de todo o ano; a contradana, em que figuravam doze pares do sexo masculino (porque, em pblico, os dois no se podiam juntar), seis dos quais fazendo de damas, "trazendo bonitos e enfeitados vestidos com faixa de seda azul". .Tambm havia teatro, que, pelo mesmo motivo dito acima, s podia ser representado por Vares. Conta o cronista que, com 14 anos de idade, fz o papel de Maria, em um drama patritico. Eu, com a mesma idade, no Tau, fiz, em uma comdia, o papel de moa namoradeiraT^ um fracasso que acabou em tremenda vaia dos espectadores.
Paulo Elpdio no podia esquecer, como eu no esqueci, a "feira" do Crato, na poca, a mais famosa do Cear, pelo seu volume de gente e de mercado; ou qual a descrevi, em Retalhos do Passado "enchendo diversas ruas, com os cereais, as frutas, os produtos manufaturados de cermica, de metal, de madeira, de couro, distribudos, segundo a sua natureza ou espcie, em pontos previamente determinados pela Intendncia Municipal. Um perfeito sistema de diviso do trabalho no comrcio". E tambm no podia deixar de registrar como, muitas vezes, acabavam as feiras do Crato e tambm as de Inhamuns, com mesjas, sures^, malas, arreios, chapus--de-couro, tudo em'lfratt$liioi, enquanto lampejavam facas e faces reluzentes e se chocavam e estalavam, secos e duros, cacetes de juc. ^
Depoimento de real interesse para os bigrafos do Padre Ccero so as suas impresses sobre o velho tm- 1 turgo nordestino, desde quando era obscuro e pauprrimo ou muito antes de o canonizarem, em vida, milhares de
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fanticos, ainda depois de morto, convertido o seu tmulo em oratrio de culto perene! Comea por um perfil talvez indito, omitido e ignorado na literatura, j copiosa, que lhe divulga a fama de ter sido o maior condutor de turbs devotas, em todo o Brasil: taciturno e to distradaque^ sua genitora, para que substitusse a batina j"a imprestvel ^ e as botas rotas e cambadas, tinha, enquanto le dormia, de colocar as novas debaixo da rede. "Desp^rehmdo^H* desinteressado, nada recebia em paga dos sacramentos, prestados aos que a le recorriam, dentro pu fora da sua parquia. Comia muito e tudo faltava no lar d sua velha me, com a qual morava. Verdade que somente uma vez por dia o almoo".
Vim conhec-lo em 1902, e assim o retratei em Retalhos do Passado (1949):
"Depois de mais de quarenta anos, penso poder, mentalmente, esboar num rpido desenho retrospectivo as linhas esculturais em que se deveria talhar a sua verdadeira esttua (que no a de Juazeiro). Foi quando o surpreendi, aps a missa, ainda paramentado, conversando em p, meio recostado ao altar, com um grupo humilde de romeiros. Todo le estava ali, individualmente, caracterstico, esculpindo o seu prprio retrato, modelo na singeleza de gestos, na familiaridade ch com que os acolhia; na pacincia, na solicitude, no carinho com que ia respondendo a tudo quanto desejavam saber: casos escabro-^ sos ou simples escrpulos de conscincia; coisas as mais pueris sobre religio, lavoura, criao, transaes comerciais de xito incerto; profecia de bons e maus tempos, alveitariaj medicina, com o seu chernoviz de ervas e oraes fortes para todas as enfermidades e doenas, desde a cura da paralisia e da maleita, at a reza mais eficaz para expelir o tapuru das bicheiras ou para levantar espi-nhelas cadas.
Um paj autntico, reeditando uma pgina remota de histria da civilizao, quando o sacerdote era, ao mesmo tempo, naturalista, astrlogo e curandeiro.
LO


Padre Ccero e Juazeiro, os seus "milagres" que eram iguais a milhares, falsos, imaginrios, de outras "cidades santas", com aquela onda de romeiros, que transformara um pequeno burgo em imensa babilnia de fanticos, no h dvida que foram para Paulo Elpdio, na sua meninice, o maior episdio que le viveu, e, na minha adolescncia, o fato mais sensacional que testemunhei, ou desde quando atravessei Inhamuns, parando em Tau, multides de sertanejos, vencendo, a p, centenas de quilmetros, a caminho da Lourdes nordestina.
Da por diante o livro vai marcando o ritmo do destino de raa ou instinto migratrio do cearense, que o conduziu do Crato a Quixad, de Quixad a Maranguape, onde exercia a profisso de barbeiro, recordando le o seguinte episdio, ocorrido em 1907:
"Entra no meu salo um fregus, alm dos muitos que o freqentavam. Estatura regular, um pouco magro, basta cabeleira negra, bigode preto, deixando salientar uma dentadura invejvel. Vestia um terno de casimira escura, um tanto surrado. Com ar insinuante, senta-se na poltrona e levanta a vista. No alto da parede uma litografia sem moldura, expressivamente colorida. Era um mapa da Amrica do Sul, reclamo da cerveja Antrtica. Nele gravado a figura de um frade, de rosto vermelho e gorduroso, dentes alvos e afiados, encravados no Brasil. A mo direita, polpuda e rolia, estendida em direo a um copo de espumante cerveja. O rapaz abriu-se. Chamava-se Joaquim Pimenta. Era o sacristo, o cobrador de feira e aprendiz de alfaiate, de Tau, que emigrara e encontrava, na cidade natal de Capistrano de Abreu, outro emigrante, aquele que, alm de amigo, iria tornar-se, hoje, o seu mais antigo correligionrio de credo, de princpios, de ideais.
Mas, ainda foi o instinto migratrio ou "destino de raa", que nos unira pelo corao e pelo crebro, que nos separou e nos fz, a le, para no deixar viva a excelsa companheira e os filhos na orfandade, buscar, em terras
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amaznicas, paz e segurana; a mim, para que no viesse a ter, talvez, sorte igual, buscar em terra pernambucana o ar que, na minha, no era aquele, tonif icante e puro, que sopravam as ondas dos "verdes mares bravios"...
* *
Quarenta anos depois, o nosso encontro em Fortaleza. O antigo barbeiro, com um diploma de curso jurdico, sem relatar, aqui, a carreira de homem pblico, em postos de administrao, que desempenhou com zelo extremo, com proficincia indiscutvel e probidade inatacvel. E, com o maior servio que podia prestar Ptria e Humanidade, dando ao Brasil um grande filho Djacir Menezes. Matria prima da natureza que a arte de um Miguel ngelo paterno modelou em obra de formao moral e intelectual; estofo de pensador e mestre em que se tornou.
Quarenta anos depois! le e Oda; eu e Lili; companheiras que nunca faltuaram, nas horas atribuladas, em dedicao e carinho nos momentos de perigo, em coragem e destemor. Dois rosrios de estrelas em dois destinos que ali, de novo, se encontravam.
JOAQUIM PIMENTA
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RAZO DE "O CRATO DO MEU TEMPO"
Pedro de Menezes Maia, filho de minha irm, Or-mecinda de Menezes Maia, casada com Horcio Colares Maia, neto de Salustiano Pereira Maia e bisneto de Jos Francisco Pereira Maia, varo bblico que deixou setenta e quatro filhos. Basta salientar que, em uma casa de famlia onde havia seis moas e uma pretinha, somente escapou Joaquina Vicncia Romana, me do sacerdote Ccero Romo Batista. Desfrutando certa influncia poltica, elegeu-se deputado provincial em 1838; era irmo de minha av materna, Joaquina Maia Pedroso. Se outro valor no houvesse tido, no seria lcito se lhe negar o de grande incrementador do povoamento da ex-Colnia do Sacramento. Saiu-me da cabea esse trecho, talvez paulificante, de genealogia de famlia, para justificar por que Pedro Maia me remete tudo que se publica no Crato. E, dentre essas publicaes, me veio "A Provncia", revista destinada comemorao do centenrio da fundao da cidade do Crato, acompanhada de um convite para assistir aos festejos programados. Aps ligeira apresentao, trouxe "A Provncia", sob o ttulo "Homenagem Pstuma s Figuras Representativas da Vila do Crato, quando Passou Categoria de Cidade 1853", uma pgina contendo os nomes das pessoas de


maior destaque na poca. Verifiquei, ento, que dos nomes que apresentava a relao constavam os de Joaquim Pedroso Bembm, Leandro Bezerra de Menezes, pertencentes minha famlia, e outros que conheci pessoalmente, como sejam Joaquim Secundo Chaves, Miguel Bezerra Frazo, Felismino Peixoto, Pedro Jos Gonalves, Benedito Garrido, Joaquim Gomes de Matos, Raimundo Gomes de Matos e ainda outros. Foram estes os motivos a razo que me levou a escrever "O Crato do meu Tempo". Contar tudo que vi e ouvi, em casa de minha me, viva, desde que me entendi, at 1896, quando deixei a terra onde nasci.
* *
No se magoem os escritores cearenses. Inclusive os que escrevem com pena alheia; exclusive os que produzem obras de real valor nas letras ptrias. "O Crato de meu Tempo" no lhes faz competncia; no lhes diminui o mrito. So crnicas currente calamo. O seu autor teve inteno, apenas, de ajustar o vocbulo sua exata acepo, com termos mais adequados que exprimissem os fatos por le narrados. No recorreu a historiadores sobre o assunto. Cita trs jornalistas Jlio Ibiapina, Joo Brgido e Hermenegildo Firmeza.
* *
A escola d "Seu" Penha (Professor pblico, Manuel da Penha de Carvalho Brito) ficava na sada da Praa da Matriz, do lado que d para o Pimenta. Na frente, um banco de areia, onde a meninada, solta das aulas s duas horas da tarde, trocava caixozada de oriza, (*) nas costas
( ) leo perfumado, vindo da Frana, acondicionado em caixas de pinho, as quais se prestavam para conduzir os objetos de que careciam os estudantes.
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uns dos outros, saltando de um toco que tinha na ponta da calada. Isso, a, pelo ano da graa de 1886. Na mesma praa, no quarteiro oposto, se encontrava o pesado edifcio da Cadeia, com o andar trreo escuro e cheio de presos. Em cima, no segundo andar, a "sala-livre". Nela s realizavam os julgamentos dos sentenciados, as sesses da Cmara Municipal e tambm as eleies.
Naquela poca, quase sempre, havia cacete e tiro, quando os sditos de Sua Majestade, o Imperador, se defrontavam, nos lugares designados para votao. Quer fosse nas igrejas, quer nas sedes das reparties pblicas. Os fatos de que passo a me ocupar ocorreram em um desses dias perigosos. Os grados de cima, mandaram vir de Paje de Flores os afamados cangaceiros "birs", que, com os seus chapus-de-couro, seus cachos de cabelo na testa, foram mandados postar-se em frente Cadeia. Os midos no se aproximariam. Franco Mucunz, um dos partidrios enrags dos sementes de fumo, avana na direo da larga entrada da escada que d acesso sala, onde esto colocadas as urnas eleitorais. Manuel Sidrim de Castro Juc, senhor da situao dominante, vai ao seu encontro. Agarram-se pelos babados. Os birs apontam os bacamartes. No disparam. Receiam atirar no bolo. O Coronel Sidrim desmaia nos braos do adversrio que o deita no cho... Estava morto. Alarma e confuso. Franco se safa inclume...
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RUAS, TRAVESSAS E BECOS DO CRATO
De nascente ao poente Boa Vista, Rua da Vala, Rua do Fogo, Rua Grande, Formosa, Laranjeira e Pedra Lavrada. Pelos quintais desta ltima, corria o Rio Gran-jeiro, que nasce nas quebradas da Serra do Araripe, rega os stios "Bebida Nova" e "Lameiro", descendo pelo Sossego, onde toma o nome de Rio das Piabas.
Travessas Califrnia e So Vicente. Becos Escuro, de Seu Candeia e o de Seu Felismino Peixoto, acima da casa de Seu Secundo (Farmacutico Joaquim Secundo Chaves), na entrada do Pimenta. Do lado esquerdo da Matriz, havia uma abertura estreita que dava passagem para o rio, alargando-se ao transpor a Rua da Laranjeira. Da at a Pedra Lavrada, demoravam pequenas habitaes, feitas de barro e cobertas de palha. Bairros Ma-tinha e Pimenta, ao sul; Cruz e Fundo da Maca, ao norte; Barro Vermelho, ao nascente; Seminrio e Matana, ao poente.
Em maio, na animada festa da Padroeira, Nossa Senhora da Penha, a msica de couro, que se compunha de dois pfanos, uma caixa e um zabumba, tocava dia e noite, durante os trinta e um dias dos festejos religiosos.


No havia clubes danantes. E ai daquele que espiasse as brincadeiras das casas alheias. Se uma senhora ou senhorita saa rua em corpo, sem ser embrulhada em xale ou fichu, comentava-se como um escndalo, uma afronta ao decoro da sociedade. No entanto, sentavam-se nas soleiras das portas das suas habitaes, fumando e cuspindo com a maior naturalidade.
Dezembro, porm, era o ms de maior animao do "Crato de meu Tempo". A cavalhada constitua um dos esportes preferidos pelos cratenses. A ela concorriam os rapazes e casados de destaque social. A Rua Grande, desde a sada da Praa da Matriz ao Fundo da Maca, enfeitava-se com arcos de palmeira, onde se passava uma corda. No centro, uma argola ao alcance do cavaleiro, que devia tir-la na ponta da lana, em passagem rpida, em corrida vertiginosa. Os que acertavam levavam o prmio de sua percia s suas noivas, namoradas ou senhoras, que lhes amarravam no brao e na lana fitas largas, de seda, oferecendo-lhes ainda lindos buqus de flores nturais.
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NOITE DE FESTA
Logo depois do meio-dia, comeava a cabroeira a passar pela porta l de casa, de camisa fina, de abertura engomada, colarinho duro, afogando a ponta da orelha, pano solto para esconder a faca que trazia metida na cintura. Na cabea o chapu-de-couro, enfeitado com bolo-tas de algodo, abas grossas e largas. Muitos acompanhados por mulher e filhos. Em geral, as serranas se distin-guiam com os seus vestidos de chita encarnada, novos, porque, assim, evitariam os belisces do galo. Tratava--se dos trabalhadores dos engenhos e stios das encostas da Serra do Araripe, desde o Cafund, Lameiro, Bebida Nova, Cinzeiro, Misericrdia e Fbrica. Os que moravam nas margens do Brejo, onde as guas do Batateira (Itaitera?) se espalham reunidas s do rio Granjeiro, indo at Pau-Sco, prximo Serra-do-Catol, onde o Padre Ccero construiu a Igreja a que deu a designao de horto, entrava/no Crato pela Matana e pela Cruz, dois arrabaldes bastante povoados. Tambm vinham pelo Barro Vermelho os que moravam do lado de Barbalha. Essas entradas para o Crato, no dia 24 de dezembro, se transformavam em verdadeiros caminhos de formiga-de--roa, quando se dirigem a um roado de legumes novos.
s quatro horas da tarde, ouvia-se o ronco da feira


que, comeando do Fundo da Maca, subia pela Rua Grande, morrendo no Largo de So Vicente. Expandindo-se pela Travessa da Califrnia, invadia parte das ruas da Boa Vista, da Vala, do Fogo, Laranjeira, Formosa e Pedra Lavrada. Entrava de noite adentro. Ao badalar do sino, chamando para a Missa do Galo, o movimento esmorecia. O barulho decrescia. O povo rumava em direo Praa da Matriz. Deixavam de abandonar a feira apenas as pessoas que guardavam os montes de frutas de toda qualidade, as gamelas de massa de buriti, as rumas de rapadura, os tabuleiros, as mesas de jogo, as panelas de arroz de galinha, as bandejas de manus e de doce seco, os potes de alua, que se vendia por toda parte e era oferecido nas casas de famlia. Em diversos lares se erguiam lapinhas. Mas prespio do Padre Flix primava sobre todos. Levantado no Orfanato por le institudo, ali se encontrava, deitado no bero, o Menino Jesus, vigiado por Maria e Jos. Os trs Reis do Oriente, ajoelhados, e a estrela, pairando no alto, alumiava a manjedoura, como que satisfeita de haver ensinado aos possuidores de tanta riqueza o caminho do lugar onde acabava de nascer o futuro reformador da religio judaica...
Em torno, mais distante, e em atitude contemplativa, a tradicional vaca, o carneiro, o tigre, o leo e mais alguns animais ferozes. O galo conservava-se ainda de bico aberto, anunciando que Jesus tinha nascido. A divina criana estava colocada numa caixa-de-msica que, depois da corda, tocava "J nasceu o Menino Deus"... E, simultaneamente, descruzava as pequenas mos, abria os olhos, voltando depois mesma posio. Esses movimentos se repetiam, numa espcie de sstole e distole. Doze Pastorinhas, divididas em duas alas, cantavam os versos iniciados pela caixa-de-msica, acompanhando com os seus maracs. certa altura, abriam alas, para a entrada dos ndios, que tambm vinham render homenagem
ao Redentor da Humanidade____ As ciganinhas, como
que surpresas com a visita dos filhos das selvas, enfeita-
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dos de penas, cocares e armados de arco e flecha, entoam cnticos de interrogao
"Quem so vocs?"
"Caboclos da aldeia",
Respondem, tambm cantando:
"Para onde vo?"
"Vamos a Belm"
"Ver o que?"
"A Jesus, nosso bem".
Rompem, ento, as Pastorinhas: "Oh, que noite to alegre, que convida os Caboclos a visitarem o Deus Menino; oh, que bela e feliz noite!"
A casa de minha me, viva, ficava parede-e-meia com o Orfanato do Padre Flix. Eu tinha, talvez, uns oito anos de idade. Depois de ouvir a Missa do Galo, me levavam para a rede. Pegando no sono, eu ouvia, quase abafada pela zoada do povo, a vozinha tremida e afinada da Pastorinha destinada a pedir em benefcio da casa onde se amparavam as meninas que tinham a mesma sorte que a Ciganinha:
"D esmola, d esmola, Nem que seja de um vintm, Que no cu achars A lapinha de Belm."
Era assim o Crato de 1887 que, com tanta honestidade e f, comemorava a noite do nascimento de um dos maiores filsofos idealistas da Humanidade.
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O BOI
Depois dos setenta, comecei a lembrar-me de tudo que vi e ouvi, quando menino. Agora, o boi, a burri-nha, o caga-pra-ti, o babau e os dois vaqueiros (os caretas), o dono do boi e o tocador de harmnica que, muito embora o seu instrumento no desse a escala completa para os tons menores, mexia com a alma da gente, mais do que os acordees atuais. o boi que danava nas frentes das casas de famlia, durante o ms do Natal que, com tanta rapidez, passava para os meninos.
O boi era contratado por dez mil ris, para as oito horas da noite, enquanto a meninada estava acordada. Toda a vizinhana era convidada para assistir ao divertimento a que se dava tanto valor. A animao no se descreve. O boi trazia um grande acompanhamento. O grupo de que se compunha estacionava a certa distncia. As caladas se enchiam de cadeiras. O da harmnica, na frente. Os vaqueiros, encaretados, avanavam e, com voz gutural, rouca e encatarroada, perguntavam por meu amo. Referiam-se ao dono da casa, a quem eles queriam vender um boi.
Realizado o entendimento, voltavam os vaqueiros trazendo a burrinha. Com ela entravam pela abertura do crculo que fazia o povo. O "cabra" executava, com pe-


rcia, uma espcie de rancheira, tocada pela harmnica, montado num cavalo de pau, coberto com u'a manta e com as rdeas retesadas. Ligeiramente olhado, dava a impresso de um centauro. Sacudia aos assistentes um leno branco, que lhe era devolvido com um ou dois do-bres (*).
Retirada a burrinha, diziam pilhrias engraadas e diligenciavam abrir mais a roda dos assistentes, ameaando a molequeira com os seus jucs de rlho nas pontas.
Traziam, depois, o caga-pra-ti: um homem, com uma roda na cabea, envolvida em um pano branco que descia at a citnura, onde se prendia a uma saia rendada e aberta por um balo amplo.
Girava ao som de um pinicado da harmnica, dando pulinhos em meio do baio, danando com agilidade e percia. Ainda apresentavam a ema, no mencionada em comeo. Dava uma entrada solene, com passos caden-ciados, ao som de uma msica apropriada a seu andar pa-chola. Ao recolher o elegante pernalta, j se ouvia o aboiar dos vaqueiros. Momentos de grande ansiedade... O boi entraria em cena. Arcos de cip grosso ornavam o esqueleto do animal. A cabea e o rabo, entanto, pertenciam, realmente, ossada de algum bovino, comido pelos urubus. Um lenol, comprido e largo, encobria o "cabra" que, dentro, curvado, executava todos os rico-chtes exigidos ao rei do brinquedo.
No comeo, ao soar de uma valsa branda e plangente, o boi rendia homenagem ao dono da casa e sua famlia, baixando, a cabea, em mesuras respeitosas. Depois, a todos que o rodeavam. No entanto, aos poucos ia embra-vecendo, chegando a dar nos caretas, espalhando a multido, ameaada de levar chifrada.
Tal atitude agressiva induzia os vaqueiros a abat-lo com forte pancada no cachao. Aps a violncia, os ma-
( ) Moeda de cobre do valor de 40 ris.
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tadores sentiam-se tristes, arrependidos do ato praticado. Para ressuscit-lo, o nico remdio era um clister... Chega, ento, a hora da meninada correr. Porque eles constituam a droga receitada para levantar o morto, dar-lhe novamente vida. A molequeira fugia em debandada. Mas nem todos escapavam. E os alcanados eram metidos no cu do boi, fato que constitua uma desfeita (*). O ltimo a aparecer era o babau, atrevido e deslavado. Uma queixada de cavalo, com uma corda para lhe dar movimento. Corria atrs do povo. Queria morder todo mundo. Batia o chocalho amarrado no rabo de palha de carnaba. O desempenho desssa misso era confiado a um cabra forte e bem exercitado em corridas de cavalo-de-pau. Assim terminava essa funo, que tanto empolgava naquela poca:
"Zabelinha come milho, Come palha de arroz, Arrenego da burrinha, Que no pode com ns dois."
) Durante muito tempo, a expresso cdeb significava confuso, arruaa, baderna e parece originar-se da cena que se descreve acima.
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OS CONGOS
Eles eram, pelos portugueses e espanhis, arrancados de sua terra natal, a dente de cachorro, e vendidos nas colnias das duas Amricas. Traziam de sua ptria os costumes e os deuses. Transformados em escravos, os africanos trabalhavam para os senhores, a troco de duras chicotadas, sem falar de outros castigos desumanos, que lhes eram aplicados. Mas, entre os seus senhores, havia os de sentimentos, puramente cristos, muito embora em nmero resumido. Consentiam que, no ms do nascir mento de Jesus, gozassem de relativa liberdade. Os negros traziam vinculado na alma os costumes do seu-reino. Natural, portanto, que procurassem fazer reviver, na folga do Natal, a corte de seu pas: O rei, o prncipe, o secretrio e as anganas (damas que divertiam o rei) e o exrcito que invade o reino e sai vencedor.
* *
So nove horas da noite, no Crato de meu tempo. Ao p da calada de uma das principais famlias, vem-se duas cadeiras juntas. Em cima, toda moblia est ocupada pelas pessoas da casa e inmeros convidados. Na rua, o povo se aglomera. Aproxima-se o momento, espe-


rado com impacincia... Ouve-se, ao longe, em coro de vozes grossas e finas:
"Oh, pretinhas do Congo, para onde vo? Vamos ver o rosrio, para festejar."
Vem na frente do cordo o secretrio: saiote encarnado, meias at o joelho, sapato grosseiro, mas de entrada baixa; nas orelhas, argolas douradas. Em seguida, as anganas: dez pretos novos, alguns quase meninos, vestidos de saias curtas com balo, meias e sapatos de entrada baixa; nas cabeas, uma coroa dourada. Formam duas filas. Por ltimo, o rei e o prncipe. O primeiro traz sobre os ombros amplo manto azul, com estrelas de ouro; cala branca, comprido cajado e coroa dourada; o segundo, tambm de cala branca, capa encarnada, ornada de estrelas de prata. Ambos armados de espada, presas a um cinto prateado. Por ltimo, o exrcito inimigo, fardado de branco, quepes vermelhos; os soldados de sabre na cintura. O do tambor vem na frente, ruflando a caixa. O general, ao lado, de espada em punho. Essa "fora", ao aproximar-se, faz alto a certa distncia. Enquanto isso, a Corte toma chegada: O rei e o prncipe, na vanguarda. Em seguida, o Secretrio, frente das anganas que cantam, sem interromper a marcha:
"Arredai, arredai, deixai passar
Nosso rei, nosso rei Dom Cariongo,
Mais a sua, mais a sua Divindade,
Para seu trono, para seu trono de Maria."
Assentados no trono, o rei e o prncipe, comeam os divertimentos da Corte. O secretrio balana o marac, demoradamente em meios s anganas, que se dividem em duas alas, de frente uma para outra. Sem parar os mara-cs, o secretrio inicia os cnticos:
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Ou... lr, lr! Ou... lr, lr, respondem as anganas: Maracumb, maracumb, maracumb ou ri-bamba i.
Quando a Corte chega ao auge da alegria, surpreendida pela tropa inimiga. A um de fundo, o general na frente de espada desembainhada, em movimento envolvente, a fora canta com arrogncia:
"Cubra-se tudo de luto, Rainha corte o cabelo, Que o reino dos africanos Vai ficar prisioneiro."
O comandante pra no porto do palcio e bate palmas. De sbito, cessam as cantigas. O secretrio comu-. nica ao monarca, explicando, rapidamente, que a Corte se encontra cercada: "Manda que entre: se vem de paz, paz. Se vem de guerra guerra. Que, dentro do meu reinado, tem gente como terra!..." Entra o embaixador, com passos cadenciados, debaixo da seguinte interrogao, entoada: "Quem te mandou, bravo guerreiro, embaixador de trs estrelas?" "Quem me mandou foi meu monarca ajoelhar em vossos ps". Ao curvar-se, de joelho, ouve-se a gargalhada do rei, que exclama: "Um homem de boa estatura, vem beijar na minha p!" O emissrio levanta-se, enfurecido, desembainha a espada. O prncipe saca da durindana e salta em sua frente. Cruzam-se os gldios. O herdeiro da coroa vai empurrando o general para a sada, ambos a passos lentos e cadenciados. A Corte canta:
"Morra este embaixador, que embaixada nos veio dar. Ora morra!"
Imediatamente, o combate rompe. Ao tinir das espadas:
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"Fogo, mais fogo, vamos combater, Que esta batalha havemos de vencer!"
Vencidos todos pela fora inimiga, fica somente o prncipe, em verdadeiro duelo com o general. O pai anima-o aos gritos de "Duro com le, miasifia!"
O prncipe vencido. Os soldados o cercam. Vai ser morto. Despede-se do pai e de todos os da corte, com um adeus, adeus, adeus, dirigido a cada um de seus vassalos, de per si. A emoo com que canta o seu adeus leva gua aos olhos de alguns dos assistentes.
* *
o trmino da representao... Da h pouco, ouve-se ao longe:
"Oh, pretinhas de Congo, para onde vo? Vamos ver o rosrio, para festejar..."
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A CONTRADANA
A contradana fazia parte dos divertimentos do Natal.
Constituia-a um conjunto de doze pares. Como no se admitia homens misturados com mulheres, as damas eram representadas por seis rapazes trajando bonitos e enfeitados vestidos, com faixas de seda azul. Mediante prvio aviso, danavam nas casas de famlia. Ensaiados com muitos dias de antecedncia, executavam com percia lanceiros tocados pela orquestra que acompanhava o cordo. O cavalheiro do par marcante, de apito boca, dava os sinais necessrios ao movimento da dana.
Tambm nos dramas, os homens desempenhavam os papis que deviam ser feitos por mulheres. Com quatorze anos, o autor destas crnicas foi solicitado para fazer o papel de Maria, no drama "7 de Setembro". E aceitou.
* *
Na cidade de Dona Brbara de Alencar, no se queria ateu. Nem como visitante. Rodrigues Jnior tentou chegar at ali, para fazer propaganda de sua candidatura ao Congresso Nacional e no conseguiu, devido animosidade despertada na populao pelos polticos seus adver-


srios, dizendo que se tratava de um homem sem Deus e que no acreditava na virgindade de Nossa Senhora...
Quando se queria arrancar dos baixios um angico secular para servir de mastro bandeira das novenas de qualquer santo, o seu peso no consentia ser conduzido nos ombros da cabroeira, sem que um padre no se trepasse no gigantesco lenho... No meu tempo, o sacerdote que levava a efeito essa misso sui generis era o Padre Flix de Moura. No entanto, havia sacerdotes cangaceiros e alguns que vestiam bem talhado terno de linho branco, exibindo bengala de casto de ouro. Exemplo: o padre Manuel Antnio, Vigrio de Barbalha, que, muitas vezes, vi entrar na Matriz, deitar em cima da mesa da sacristia a garrucha, punhal e cartucheira, paramentar--se, subir ao altar-mor e dizer a sua missa. O padre Car-car, que passava na porta l de casa, paisana, com sua bonita bengala de cabea de ouro, tirava o palet na sacristia, tomava batina e roquete, e ia ao altar, onde se desincumbia de sua obrigao diria...
* *
Passado o Natal, a cidade voltava sua tranqilidade habitual. O comrcio se retraa, esperando o iniciar das chuvas. Os agricultores pobres sofriam certa restrio nos seus crditos. Somente com a segurana do inverno, a situao se normalizava. Mas o ms de fevereiro no transcorria, sem a brincadeira irreverente do entrudo, que substitua os bailes de mscaras realizados nas grandes metrpoles. Para evitar diverses tendentes licen-ciosidade, o padre trazia o olho sempre bem arregalado. As ruas se enchiam de meninos e empregadas domsticas com bacias de laranjinha, feitas de cera colorida ao derreter com anilina de cores variadas. A frma em que eram feitas semelhava banda de uma laranja, dividida ao centro. Uma bola de cedro, torneada, serrada depois ao centro, transformava-se em duas frmas. Um prego de
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tamanho regular servia de cabo, no qual se pegava para meter a frma na cera derretida. A qualidade do extrato, aplicado na gua com que eram cheias, determinava-lhes o preo. Desde quarenta a duzentos ris. No entusiasmo do combate, no entanto, potes e jarras entravam no jogo, com os seus contedos, levando farta munio aos que se digladiavam. Quanto mais limpa e custosa fosse a indumentria, maior banho recebia a pessoa que a envergava.
meia-noite em ponto, soavam as badaladas plan-gentes do sino das almas, anunciando que tudo devia cessar com a entrada da Quaresma... O silncio invadia os coraes, com rapidez fulminante.
* *
Ao amanhecer do dia seguinte, os santos se achavam envolvidos em crepe. O alegre repicar dos sinos era substitudo pelo bater seco das argolas de ferro nas tbuas das matracas...
Memento quia pulvis es... Verdade simples e bem dita, que se desprendia da boca dos padres, ao traar na testa dos fiis uma cruz de cinza, aps a missa da primeira quarta-feira da Quaresma. Se houvesse ameaa de seca, as procisses se tornavam freqentes, realizadas noite, com lanternas de papel; a dos penitentes, mais tarde, quando a cidade j dormia, envolta na escurido. O grosso vozerio enchia o espao, acompanhado do tinir das disciplinas. Eram homens que se aoitavam, com esse instrumento cortante, usado na Idade Mdia. Trs lminas de ao, engastadas em uma plaqueta de metal, na ponta de um forte cordo. Nus da cintura para cima, as camisas amarradas na cabea, recitavam, em cantocho: "Senhor Deus, pela Sagrada Paixo e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, misericrdia."
Nas procisses, para obter chuva, o mulherio deixava escapar pela boca o seguinte bendito de splica:
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"Meu Deus, meu Senhor, De ns tenha d, Que a seca grande, Est tudo em p.
Est tudo em p, Por nossos pecados, Por eles serem grandes, Somos castigados.
Somos castigados, Com grande rigor, Que h de ser de ns, Sem vosso favor.
Sem vosso favor, Morremos fome, Na casa do pobre, Nela se no come."
No fim dos interminveis quarenta dias, vinha a Semana Santa: Sermo da Montanha, Horto, ltima Ceia, Priso do Judeu de Nazar, Julgamento, Pilatos, Caminho do Glgota, Crucificao, Ressurreio. Tudo isso, recitado, em cantocho, pelos padres, no idioma dos romanos. Como ningum entendia, ou talvez pelo accho na Igreja, aquilo se tornava infindvel.
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SBADO DE ALELUIA JUDAS
A cidade despertava silenciosa, mas com estranho e pinturesco aspecto. Do Pimenta ao Fundo da Maca, Praa da Matriz, Rua Grande afora, transformao completa: Galhos de mangueira, de abacateiros, de fruta--po, de laranjeira, canas e bananeiras foram furtados dos stios, durante a noite, e enterrados, formando a quinta do infeliz tesoureiro da Comunho Crist.
Na frente do Cruzeiro, uma alta e frondosa carrapa-teira. Mas, enquanto no badalassem os sinos, o povo, que enchia o templo, o patamar e grande parte da Praa da Matriz, conservava-se quieto e calado, no maior respeito. Ao terminar, porm, os ltimos acordes da orquestra, que acompanhava as vozes do "Aleluia", o cu se cobria de fumaa dos foguetes e das bombas de grosso calibre. Chegava o momento esperado com ansiedade: a apario do comboio, do extravagante prstito. Enfim, l vem le, entrando pela estrada do Pimenta. Na frente, o cavaleiro, que conduzia, na lua da sela, um boneco do tamanho de um homem, trajando cala e palet pretos, bem calado e de cartola. Representava o execrado discpulo do filsofo da Galilia. Seguia-o enorme cortejo. No coice do comboio, vestida de preto, uma velha, escanchada no meio da carga de um jumento, chorando. Era a me


do Iscariote, do discpulo que no resistiu ao Sanhedrin, com a oferta dos trinta dinheiros pela entrega do Mestre.
Debaixo da carrapateira estacionava o traidor, com todo o seu acompanhamento. A corda lhe era passada ao pescoo; o boneco pendurado em um dos galhos da falsa figueira.
Judas havia escrito o seu testamento, disposies que desejava fossem cumpridas depois de sua morte. Lembro--me da leitura de um que comeava assim:
"Eu, Judas Iscariote De Siqueira Cavalcante, Natural de Pernambuco, Caboclo muito chibante."
(Era uma aluso ao Dr. Siqueira Cavalcante, juiz de direito da Comarca).
Seguia-se a leitura da partilha dos bens deixados aos seus amigos.
Aps o suicdio por enforcamento, a cabea em fran-galhos pela exploso das bombas que a enchiam, o corpo do inditoso discpulo de Jesus era arrastado pelas ruas e bairros da cidade, onde a molequeira triunfante satisfazia ou supunha satisfazer os desejos de vingana dos padres e da populao entusisticamente catlica. Minha terra, naquilo que dizia respeito religio, encontrava-se recuada aos tempos de Felipe II, rei de Espanha. Chegava ao exagero de, em meio do mulherio das igrejas, salientarem-se as que, com medo de pecar, em vez de faco, diziam fa-bicho-feio. Acreditavam que o prncipe das trevas as rondava, espreita do momento propcio para arrebat-las e conduzi-las s profundezas do inferno...
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A TROPA DE LINHA
Maria Imaculada, Vs sois advogada, Dos pecadores,
Que a todos encheis de graa Com a vossa feliz grandeza, Vs sois do Cu princesa E do Esprito Santo Esposa.
Santa Maria, me de Deus, Rogai a Deus por ns, Tende misericrdia, Senhora Tende misericrdia de ns.
O grosso vozerio da soldadesca terminava, quando soavam as badaladas do velho relgio trepado na torre da Matriz. Era o tero, obrigatoriamente, cantado pelas praas e assistido pelos oficiais da Tropa de Linha, composta de cinqenta homens, aquartelada no casaro amarelo do canto da praa, onde se inicia a Rua do Fogo-Cadeia. Dois compartimentos: no trreo se acomodavam os presos em promiscuidade. A gente sentia a catinga que exalava, quando se aproximava das grades; no outro, em cima, que chamavam sala livre, funcionava o jri. Na


frente, do lado da Praa, se erguia um frondoso p de nogueira selvagem, conhecido por p de anis, em cuja sombra botaram uma grande pedra de face superior plana, com um buraco, onde as praas pisavam caco de prato para arear os botes das fardas, copos e bainha das espadas dos oficiais. Ao lado do norte, um largo e comprido vo que diziam ser o Corpo da Guarda. Essa fora foi mandada para o Cariri por causa de um barulho que houve na cadeia. Manuel Viriato, depois de matar muita gente, como diziam, prenderam-no e remeteram-no para o Crato. No julgamento, sentenciaram-no a trinta anos de priso. Rapaz de famlia, contando de vinte a vinte e um anos de idade. Cochichou com os companheiros, recebeu com a comida algumas garruchas e, um dia, ao amanhecer, quando o carcereiro entrou com dois soldados para a faxina costumeira, le o matou, juntamente com o guarda que o acompanhava. O resto da guarnio ficou fora.
O sentinela, cabo Marreco, batendo com o faco nos dedos dos detentos que procuravam tirar o ferrlho metido por fora, salvou a situao, evitando que a penitenciria imunda ficasse desocupada.
No meio da confuso do momento, ningum se lembrou de tomar, incontinenti, a providncia de romper o soalho e, por cima, despejar cal, o que se realizou, embora um pouco tarde, mas que ps termo final resistncia dos detentos.
* *
Dias depois, ao espiar por trs das grades, vi Neco Viriato com os ps presos a um tronco, as mos algemadas e o pescoo preso a uma corrente que pendia do tecto.
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AS SEGUNDAS-FEIRAS DO CRATO DO MEU TEMPO
A feira corria animadssima. A Travessa da Califrnia, nos cruzamentos com as Ruas da Vala, do Fogo, Grande, Formosa e Pedra Lavrada, completamente cheia. Estendiam-se no cho todos os produtos da frtil regio, sem falar de outros artigos que, mui naturalmente, ali eram expostos.
A tropa, espalhada pelo meio do povo, manda os cabras passar o pano e vai lhes tomando as facas e os cacetes. Aqueles que resistem vo presos debaixo de faco at a cadeia. Vestidos de camisa e ceroula de algodo grosso, tecido nos teares da terra, ceroula de fundo curto com um s boto, passando o pano (metendo a camisa por dentro da ceroula), adquiriam uma aparncia ridcula, provocando vaia da garotada. Da o motivo das brigas, resistncia e matana de soldados a facadas.
Pedro Cassaco foi pegado e tentou resistir ao mandado de passar o pano. Meteram-lhe o faco. Dentre os que o aoitavam destacou-se o Carnaba, soldado forte, alto e corpulento, que lhe segurou pelo topete, formado pelos cachos de cabelo que lhe caam na testa. Ao gritar-lhe: faa lombo, cabra, acrescentava: agenta o peso do Carnaba!


NO VOLTA INTEIRADA
NO VOLTA INTEIRADA era o que, diariamente, se ouvia da boca dos moradores dos stios das redondezas.
As feiras se despovoavam. Famlias que nelas se abasteciam, porque, nas segundas-feiras, tudo era mais barato, sentiam a sua economia desfalcar-se.
As brigas continuavam, nas tardes de fim de feira.
* *
Pedro Cassaco havia guardado bem a feio e tamanho do soldado que, ao largar-lhe o rabo-de-galo nas costas, dizia "agenta o peso do Carnaba" e ainda para mais humilh-lo agarrou nos cachos de cabelo, que lhe desciam na testa, por baixo do chapu-de-couro. Certificou-se bem de que se tratava do cabo Carnaba. Da por diante no deixou mais de espreit-lo, cautelosamente, escondendo-se para no ser visto.
Observou, atentamente, os gestos e os modos de seu algoz.
Os cantos da cidade por onde le passeava. Desceu um dia do Brejo, no cavalo que trabalhava no engenho de Chico Maia, escanchado entre os cambitos. Carregava


cana. Ao passar pela Matana, comprou um bezerro tirado do bucho da vaca, morta para o aougue. Entrou pelo Fundo da Maca, saindo no Mercado de carne, situado no comeo da Rua Formosa. Apeou-se no porto. Entrou. esquerda, estava o Carnaba, de costa, na banca de Cesrio Carniceiro. Cassaco trazia o bezerro nos braos. Botou-o no cho. Tirou a faca que havia colocado na bunda do vitelo; aprumou-se e bateu no ombro de Carnaba: "Vire-se de frente! No mato homem traio!" Enterrou-lhe a faca no peito esquerdo. Carnaba ainda puxou o faco at o meio da bainha. Caiu, sem dar uma palavra. Pedro Cassaco saiu como um gato; montou-se no castanho escuro e sumiu-se dos olhos da tropa, que dele nunca mais teve notcia ...
Nos fins das feiras havia sempre barulho. Notada-mente nas sadas das estradas do Lameiro, da Barbalha, do Juazeiro e do Brejo. Bairros do Pimenta, Barro Vermelho, Cruz e Matana. No havia tiros. Os soldados no tinham armas de fogo, curtas. Os cabras brigavam de cacete de juc e faca, fabricada admirvelmente pelos ferreiros do Cariri. De modo que a gente podia olhar de perto os rolos. No sei se propositado. Mas, em uma segunda-feira, os moradores da Serra, da Barbalha, do Juazeiro e do Brejo, abriram quatro frentes. A solda-desca corria, em confuso, sem atinar a qual delas atender. Na sada do Lameiro, as praas apanharam e tiveram, muitas delas, as fardas rasgadas a faca. No recuo, passavam pela porta l de casa com os uniformes em tira. Dessa tropa, seguramente, uns cinco ou seis dos homens que a compunham, ficaram enterrados nos torres vermelhos do Cemitrio do Crato: "No voltou inteirada..."
* *
Um jovem louro, de nome Saturnino, alferes, boliu com uma preta da cozinha do Cel. Antnio Lus Alves Pe-
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queno. Foi obrigado, pela Justia, a reparar o mal com o casamento. Tinha eu uns seis anos de idade. Entrei na Igreja, de camisa, e assisti o enlace matrimonial do oficial mais moo daquela unidade do Exrcito Nacional, ali destacada.
Alm do grande acompanhamento onde se constatava a presena de todos os seus camaradas, o templo catlico se encontrava completamente cheio de curiosos. A oficialidade em uniforme de gala, concorreu para dar maior brilho solenidade...
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A ESCOLA DO PADRE FLDX
A molequeira alastrava-se por todos os cantos da cidade.
No meio dela, muitos meninos mimosos, espadachins, a que, hoje, chamam de play-boy. A Praa da Matriz era o lugar preferido para campo de ao. As famlias tinham por costume sentar-se, noite, nas soleiras das portas de entrada de suas residncias. Mas ia-se tornando insuportvel a algazarra e as malcriaes dessa meninada desenfreada e sem compostura.
O Padre Flix fundou uma escola, aproveitando os sales do Seminrio, que se encontrava, temporariamente, fechado. Nada se pagava para aprender a ler. Logo ao abrir-se, o educandrio se entopiu de alunos de todo o tamanho, feitio e cr. No era exigido uniforme, nem calado aos reconhecidamente pobres. Qualquer carta de ABC ou livro, servia. Contanto que estivessem de acordo com o grau de entendimento do aluno.
Com sete anos incompletos, minha me levou-me para a Escola do Padre Flix. Esse sacerdote, pela sua capacidade organizadora, vinha de muito se recomendando como benfeitor do povo do Cariri. J havia fundado um Instituto destinado ao amparo de rfs e meninas pobres. Encontrava-se localizado entre minha casa


e a Matriz. Entre esta e o Orfanato, havia uma passagem estreita, que adiante, se alargando, ia desembocar no rio. Todas as manhs, formavam as meninas, de duas em duas, para a missa e comunho. Talvez mais de cem. Um acontecimento, entanto, veio inquietar bastante os defensores da moral da populao cratense. Um certo Joo Pedro, descontrolou-se com uma mulata da casa de uma famlia. No esconderijo combinado, dentro do mata-pasto dos quintais abertos, algum ouviu sair um "Ai, "Seu" Joo Pedro", em voz baixa e espremida... "... Voc disse que no doa..." Tal histria caiu no gosto da canalha. Apareceu logo um poeta que a contou em versos; um msico deu-lhe a solfa. Proibida por imoral, a mundia da rua contentava-se em assovi-la.
Amaro do Dr. Siqueira, moleque taludo e atrevido, aluno da Escola do Seminrio, foi visto assobiando o "Ai, "Seu" Joo Pedro..." Nove horas da manh, comeam as aulas, quando o Padre Flix entrou. Baixo, forte, de cabea e rosto arredondados, cabelos negros, testa fugidia, sobrolhos fechados. sua apario a gente sentia os intestinos esfriarem. Dois decuries agarram o cabrocha. O Padre Flix meteu-lhe a palmatria. O moleque j no gritava mais. Soltava uns urros esquisitos...
* *
Quando cheguei em casa, minha me, vendo o meu estado de abatimento e desnimo, com receio de que eu no ficasse sofrendo do juzo, tirou-me da Escola do "Pai Flix" e botou-me na de "Seu" Penha, que tambm nada se pagava. Mas morreu pouco depois. Por isso, quando cheguei a Quixad, em 1896, mal soletrava a "Cidade do Rio", de Jos da Patrocnio, que me emprestava o bom amigo Francisco Marinho. Essa folha foi realmente a minha carta de ABC.
* *
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Alcancei o Seminrio do Crato apenas com a frente construda, virada para a cidade. Ao centro, a Igreja, com fundo avanado para o poente. Conservo desse templo recordaes misturadas com saudade e tristeza. Minha me contraiu tuberculose e ia l todas as manhs pagar a promessa que fz a So Jos, para lhe restituir a sade perdida. J bastante cansada, parava, de instante a instante, na subida da ladeira. O Esposo da Me de Deus, no entanto, no lhe atendeu. Ou, talvez, devido distncia e altura em que mora, no tenha ouvido a splica de uma criatura que tanto amor e tanta f lhe dedicava. Porque poderes lhe no faltavam para determinar a extino do bacilo de Koch que, com furor, roa o pulmo de minha querida me, contando apenas trinta e seis anos de idade...
Enquanto ela rezava, eu e Ester, minha irm pequena, depois de um momento, tambm ajoelhados, saamos a correr pelo matagal em torno, a procurar jurubeba para seu fgado, aproveitando o tempo na caada aos ninhos de passarinhos.
Poucos padres assistiam por ali. Os sales das aulas, desertos, ouvindo-se o zinir do vento nas vidraas e o chil-rear das andorinhas nos extensos beirais do edifcio.
Em certa manh, um dos padres, saindo do lado direito das aulas, ia cortando a nave em direo esquerda, quando foi assaltado por uma beata de xale (eram assim chamadas as mulheres mais agarradas com as sacristias). Essas entidades costumavam tocaiar os sacerdotes nas suas passagens para o outro grupo de salas, com o fim de fazerem consultas sobre pecados. No dia a que fao referncia, o assaltado foi o padre Joaquim Sother de Alencar, cujas virtudes nunca foram desmentidas. No lhe foi possvel evitar o ataque. Uma das tais segurou-se com le. Na diligncia, para escapar-se-lhe dos braos, o ministro de Cristo soltou um berro alarmante, ao mesmo tempo que pronunciou as significantes palavras: "Mulher! Padre homem!"
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Esse fato foi comentado, muito embora boca pequenina.
A sociedade, o meio em que nasci, movia-se acionado por uma entrosagem de complicaes religiosas. Tudo girava e se desenvolvia sob o bafejo do padre. No seria, portanto, estranhvel queles que conheceram o Crato do meu Tempo, aparecer, quase sempre, em minhas publicaes, essa personagem que tanto respeito e acatamento, merece ao povo da regio onde assentou a antiga Colnia do Sacramento.
* *
Um dia em que eu entrava em casa, trazendo umas pitombas amarradas na fralda da camisa, vi um caixo--de-defunto, aberto na sala da acanhada habitao, que ficava ao lado sul da Igreja Matriz.
Estava dentro um corpo magro, com o rosto que parecia de cera. Nariz afilado e bem feito. Trs meninas choravam em torno do cadver. Era minha me, que tinha morrido de tuberculose pulmonar, contando apenas trinta e poucos anos de idade, viva, com uma pequena renda de um sitiozinho que lhe ficara por morte do meu pai.
Deixei cair as pitombas e pus-me a chorar tambm. Minhas trs irms tinham, uma dezesseis, outra, quatorze e a mais moa, onze anos. Eu, tinha oito anos incompletos. O ninho iria se desmanchar.
Serei suspeito para falar sobre as virtudes daquela que me lanou no mundo; mas, minha me era de uma bondade extrema.
Naquele tempo, cortar o cabelo era enterrar-se em vida, para todos os divertimentos. Ela trazia o seu cortado. Vivia para os filhos. No tinham inventado, ainda, o Dia das Mes. Mas, tambm, no havia os clubes, onde fossem tomar usque, jogar e fumar, deixando o lar entregue s empregadas, noites a fio. Os sacerdotes do Crato
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advertiam s mes de que seriam dispensadas, at da missa aos domingos, se no tivessem uma pessoa de confiana a quem entregar os filhos. Primeiro a obrigao, depois, a devoo. Era isso que aconselhavam em suas pregaes.
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O POO DA ESCADA
Acima do Crato, nas encostas da Serra do Araripe, encontram-se as nascentes dos rios Grangeiro e Batateira. Essas duas correntes, que nunca secaram, vo se reunir no Buriti; refrescam as terras escuras dos brejos do Cariri. Venho me referir ao primeiro, que me foi muito familiar na meninice. Em sua sada vem regando diversos stios, distribudo em levadas. Uma dessas levadas, correndo em bicas, de madeira, aciona os degraus da roda do engenho-d'gua de "Seu" Nelson (Nelson da Franca Alencar), no Lameiro.
Ao cortar a estrada, j prximo ao Crato, no stio Sossego, tomava o nome de Rio das Piabas, onde havia uma cerca de pedra que diziam ter servido de trincheira nos encontros dos cabras de Pinto Madeira com as foras que defendiam a cidade. Em seguida, coleava pelos fundos da Casa de Caridade, refrescando os imbuzeiros do quintal da casa de Felismino Peixoto, homem irascivo, que dava carreira nos meninos, pegados de surpresa, tirando os doces frutos.
Logo adiante, por debaixo dos altos e sombrios ing-zeiros, entre as pedras, um pequeno poo, onde os homens se banhavam, nus, vontade. Corria, encostado aos talhados vermelhos e altos, resultantes de um corte brusco


da Serra da Misericrdia. Mais embaixo, o banheiro das mulheres, oculto pelas saias-de-cunh, unha-de-gato e outros arbustos de folhagem densa.
O caminho do banheiro dos homens passava perto. Mas ai daquele que fosse pegado olhando as banhistas, por entre a espessa folhagem das moitas fechadas. Continuando o seu curso, o Rio-das-Piabas banhava os fundos dos quintais da Rua da Pedra-Lavrada, at a sua passagem por baixo da ponte do Seminrio. O Crato tomava banho, das cinco s oito horas da manh, quando as lavan-deiras iam chegando para tomar conta das pedras, onde batiam roupa. Ao meio-dia, j ningum se entendia mais, com a falaria e os batecuns dos panos nas pedras, realizados por centenas de braos. Durante a semana, as guas diminuam. Eram desviadas para regar os stios. Aos sbados, subiam soldados e abriam as represas. O lugar do banheiro dos homens se chamava Poo-da-Escada.
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O BICHO MAME
O Brasil ainda era governado por um Imperador. A mais importante cidade da regio caririense, no havia sido entregue Guarda-Local, criada pela cmara do famigerado Cel. Jos Belm de Figueiredo, composta de cangaceiros e criminosos. frente dos partidos polticos, que, alternativamente, subiam e desciam, se encontravam homens de educao completa, como Juvenal de Alcntara Pedroso e Antnio Lus Alves Pequeno, Manuel Leandro Ferreira de Menezes, Antnio Roque de Menezes, Lus Bacurau, Otoniel Maia, Joaquim Secundo Chaves, Raimundo de Alcntara, Franco Mucunz e tantos outros, sendo que os dois primeiros ocupavam lugar de comando, respectivamente, dos partidos mido e grado. Ali destacavam soldados da Fora da Provncia, comandados por um oficial, que nada fazia sem ouvir o chefe supremo do partido que se encontrava no poder.
natural alguma falha ou engano de datas, nas histrias que venho contando, de uma poca to afastada de que nada tenho escrito.
O pequeno semanrio "A Vanguarda" circulava aos domingos.
Gorgonha, casado com a Professora Maric Brgido, constitua um dos seus colaboradores. Morava parede-e-


-meia minha casa, perto da Matriz. A escola em que ensinava sua consorte, funcionava na prpria residncia do casal.
No podero calcular ao certo, os que, atualmente, dirigem jornais na terra que fuzilou Pinto Madeira, o quanto de avanada a linguagem da minscula publicao. Como eram honestos, atrevidos e desassombrados, os seus redatores! Inteligncias fulgurantes, que sabiam distinguir e separar os interesses da Ptria dos da Religio.
Mas... o Bicho Mame continuava a aparecer, noite, no Poo-da-Escada. O fantasma espalmava as mos de fogo, num rosto incandescente. O peito arque-jante, coberto de chamas azuladas. Ao abrir da boca, salientava-se-lhe a dentua. Era o momento em que deixava escapar um gemido plangente: Mame... mame...
Na escurido da noite de sexta-feira, dia reverenciado pelo Catolicismo, porque atribui que nele morreu Jesus Cristo, o Bicho-Mame aparecia. Tinha conscincia do efeito da sua marmota.
As sextas-feiras so destinadas bruxaria, macumba, aos lobisomens, s burras-de-padre. meia-noite dessa clebre data, os cabras que querem tocar viola com perfeio, ou alcanar outra qualquer superioridade entre os semelhantes, acreditam que somente conseguiro mediante um pacto com o diabo.
Conheci, no stio "Fbrica", de Jlio Lima Verde, Jos Duro, afamado tocador de viola, que ensinava o modo de como se obteria o privilgio por le alcanado: Procura-se uma encruzilhada de um caminho mal-assom-brado. Para l dirige-se meia-noite. Chegando-se, vira-se a camisa pelo avesso, reza-se o Credo, tambm s avessas, trs vezes. Invoca-se o Satanaz e espera-se...
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Naquela noite, o "fantasma" do Poo-da-Escada fazia correr os curiosos que, em bandos, at ali chegavam. Duas praas, fardadas de pano-fino ingls, esgueiravam-se pelo lado oposto, entre as unhas-de-gato, raspando-se ao p da ribanceira. Agachadas, aproximaram-se do local desejado. Eis que, de sbito, uma claridade azulada lhes fere a retina. Avanam de um salto e agarram-se com o bicho, que, no momento, incandescia. Era voz corrente que se tratava de uma alma penada, que carecia de missas e oraes, para alcanar a bem-aventurana.
No dia seguinte, estava descoberto o motivo do assombro causado pelo Bicho-mame. Um negro muscu-loso confessava o processo empregado para conseguir "virar" bicho: Comprava fsforo do gs (essa qualidade de fsforo, que nunca mais vi, era trazida pelos comerciantes que compravam na praa de Recife), tirava as cabeas e passava nas mos, no busto e no rosto. No momento azado, esfregava as mos nos lugares onde havia distribudo a droga, espalmava as mos e, em voz cava e plangente dizia: mame... mame... A sua maqueta banhada em luz azulada, esbatia-se em um fundo negro determinado pela escurido da noite, naquele lugar som-breado pelas altas ingzeiras que cobriam o rio.
* *
noite e pela manh, muito cedo, comeava a gua do pequeno gange a abastecer os lares dos pobres e dos ricos. Os que no tinham empregados e nem a conduziam pessoalmente, compravam o pote a vintm, a dois e at a trs, conforme o tamanho do vaso em que era levada. Dois presos com uma corrente amarrada do pescoo de um para o outro, com os potes na cabea, dois soldados
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atrs, abasteciam a cadeia, de onde se desprendia um fedor insuportvel.
Nas noites em que no havia lua, a escurido dificultava um pouco esse afazer imprescindvel; mas, mesmo assim, o carregamento dgua no era interrompido, no diminua. Enquanto a gente caminhava nas ruas desprovidas de calamento, a luz esmorecida das candeias de azeite de mamona, ia, muito embora precariamente, auxiliando. Porque o Crato, nos cantos das salas de suas habitaes, conservava, noite, um prato de barro com um bico, onde se encontrava um pavio de algodo, dentro de leo de carrapato (mamona).
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O LAMEIRO DE "SEU" NELSON
Manuel do Monte Alencar construiu, no stio Lameiro, que lhe ficara por morte de seus pais, uma roda com degraus, em forma de uma dentadura. Uma escada circular, que recebe a levada que desce das escarpas da Serra do Araripe. As guas capturadas por meio de uma bica, seguem na direo da cumieira da grande casa, onde se encontra o Engenho D'gua. A gigantesca volante, colocada em posio vertical, encravada num eixo que, quando em movimento, aciona a entrosagem das trs moendas de ferro, destinadas a extrair a garapa dos pedaos de cana. As guas que se despejam nos degraus da roda, escapam por um canal de alvenaria, construdo por baixo da fornalha. Continuando a sua marcha, dividem--se em pequenos regos, entre as touceiras dos canaviais. A produo da engenhosa mquina, naquele tempo, era de dezoito a vinte cargas de rapaduras por dia, arroxeadas e com espelho. O seu doce reconhecido como o melhor da regio. Manuel do Monte Alencar no se dedicou somente ao plantio de cana. Em redor de sua morada, havia quantidade de ps de erva-doce, canela, pimenta--do-reino e pitanga. Na frente, vioso jamboeiro e alto ingzeiro. Em seguida, um partido de anans, abacatei-ros, mangueiras e demais fruteiras nativas.


Com sua morte, passou o Lameiro a pertencer viva Laurentina Lima Verde e filhos: Honor do Monte Lima e Rubens do Monte Lima.
Vieram os anos de 1876, 1877 e 1878. O primeiro, de poucas chuvas; no segundo, no caiu uma gota d'gua; chuvas escassas, no terceiro.
A famlia de Manuel do Monte Alencar vendeu as terras do stio a Nelson de Alencar, com todas as benfeitorias e pertences, pela quantia de trs contos e quinhentos mil ris (3.500$000), na grande seca 1877, retirando-se para Fortaleza.
* *
Quando me entendi, j "Seu" Nelson era dono do Lameiro. A sua histria bem conhecida. Os atos de benemerncia por le praticados, se encontram vivos na memria dos que o conheceram, de perto e de longe. Quando dava a sua palavra, em promessa ou em qualquer negcio, todos a recebiam como tendo em mos o mais seguro documento. O porto do Lameiro e as portas da casa de "Seu" Nelson nunca se fecharam s famlias cratenses e nem a qualquer que o procurasse. Os viajantes que visitavam o Cariri, dali no se retiravam sem conhecer o stio Lameiro e seu proprietrio. Atrs da casa, o banheiro, entre as pedras da levada, cercado de palha de coqueiro com uma bica despejando cristalino lquido. A aguardente que oferecia aos visitantes, de vinte anos, tinha o sabor do velho e apreciado Conhaque Macieira. A sua rigidez de conduta, o modo austero com que se portava no cumprimento de sua palavra, dava, primeira vista, certa impresso de contraste com o seu modo lhano e cavalheiresco, de receber as inmeras visitas que lhe eram feitas, diariamente. Desnecessrio se faz esclarecer que os hspedes de "Seu" Nelson no despendiam um real com o conforto que lhes era proporcionado, fidalgamente. De 1881 a 1887, vez por outra, passa-
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va eu, com minha me viva e trs irms menores, semanas em casa de minha av materna, Joaquina Pedroso Maia, que morava em sua propriedade, defronte da casa de "Seu" Nelson. Os stios eram divididos pela estrada que vinha do Crato e se dirigia Cascata, na Bebida-Nova. O lar de "Seu" Nelson, naquele tempo, tinha a alegria que, mais tarde, perdeu para sempre: sua dedicada consorte e dois filhos Aderson e Sinhzinha. Deixando a terra onde nasci, em 1896, ali estive, muito depois, quando o trem entrou no Cariri, pela primeira vez, acompanhado de minha famlia. No Lameiro, encontramos um velho cego, entregue aos cuidados de certo preto de toda sua confiana. Compreendi que se tratava de um velho negro, guarda fiel e dedicado ao extremo. Apresentei-me: Sou filho de Bela, que foi casada com Vicente Ferreira de Menezes; ela, Oda de Lima Menezes, filha de Honor do Monte Lima e neta de Manuel do Monte, seu primo, que por motivos que no vem ao caso explicar, retirou de seu nome o Alencar.
Nelson disse ao seu guarda: V com essa gente no engenho, bote uma carga num animal e deixe-a levar o que quiser. Sem nenhum queixume, nos exps o seu estado. No quero mais viver, acrescentou. Para que? Com que fim? Procuramos convenc-lo do contrrio, alimentando o seu esprito com palavras amigas. Certifi-camo-nos, no entanto, de que a sua resoluo era inabalvel. Assentava na sua constituio psquica. Sem conhecer Lucrcio, deixou escapar da boca, por outros termos, a frase bem dita do filsofo-poeta: Post mortem nihil est.
* *
Pouco tempo depois, vim a saber que Nelson realizou a sua maior aspirao. Num instante em que o seu vigia se descuidou, passou o punho da rede no pescoo e libertou-se da escurido em que vivia, que lhe pareceu sem fim...
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A FESTA DA PALMATRIA
Meia dzia de bancos estreitos, u'a mesa, um tinteiro e u'a palmatria. s nove horas, a chegada dos meninos. Momentos aps, a entrada do mestre. Todos de p. Silncio absoluto. Alguns que foram surpreendidos brincando ou agarrados, empalidecem.
Fulano e fulano, passem para c! Ajoelhem-se. Se brigando, meia dzia de bolos em cada um. As leituras das lies, em voz alta. Quando os sons iam esmorecendo, a palmatria batia com fora na mesa: Estudem, meninos!
Aos sbados, a cantoria troava. Desde o dois^e-um--trs, at uma pataca, trezentos e vinte; dois cruzados, oitocentos ris. De longe, se percebiam as escolas, porque as lies eram cantadas. Sbado, a uma hora da tarde, o argumento. Grande roda, braos cruzados, professor no centro nove patacas? Se a resposta no sasse imediatamente: "Adiante, adiante." No raro toda roda apanhava. Um, dois bolos, cada um.
* *
A escola do Padre Flix de Moura, ficava na Rua da Laranjeira, adiante do beco de "Seu" Candeia. Alunos


de dez a dezesseis anos, enchiam a sala. Uns quatro decuries. O sacerdote tinha pouca altura, olhos faiscan-tes, pupila e sobrolhos negros, espessos e unidos. Na mesa, as escritas, sua espera para julgamento. Uma hora antes de encerrar-se o estudo das lies, surgia, de repente, o padre. Todos os alunos de p, com os braos cruzados. Os mais tmidos, plidos e de beios trmulos. Sentado junto mesa, o sacerdote examinava os erros das escritas, apontados, por um trao pelos seus auxiliares. Aplicava, ento, os bolos merecidos, em cada um dos condenados.
Um dia, chamou para castigar Alfredo Gonalves, rapaz de seus dezesseis a dezoito anos, fisicamente forte e de nimo resistente. O moo recusa-se a entregar a mo. O Diretor do Colgio avana, enfurecido. Alfredo agarra-se com o Reverendo, toma a palmatria e sacode-a longe, nos fundos dos quintais das casas da outra rua, que ficavam na frente. A frula, feita de pau-d'arco, voou, indo enganchar-se nos ramos de uma alta e frondosa ta-marineira. Ningum a encontrou, no momento.
* *
A festa da palmatria constitua um dos acontecimentos notveis. A luta de Alfredo com o Padre Flix se deu muito prximo ao ms de dezembro. Conseguin-temente, perto das frias. O costume, a tradio, permitiam que o instrumento do castigo fosse raptado nessa fase do ano letivo e escondido por um aluno. A palmatria foi, depois, encontrada, e, ocultamente guardada. No esconderijo, preparam-na para os festejos tradicionais. Ao abrirem-se as escolas, com foguetes e msica, desfila pelas ruas a esquisita e imponente procisso. A Santa, tesa, com movimentos cadenciados, at fazia lembrar, comparando mal, as esttuas dos Santos, que passeavam nas ruas do Crato, no dia primeiro do ano. A charola vinha enfeitada de pafinhos de papel e fitas multicores.
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A sua entrada solene na sala das aulas, era saudada com vivas, foguetes e msica.
* *
Esses fatos foram por mim presenciados, com oito anos de idade. Morava em casa de uma velha tia, vizinha escola do Padre Flix de Moura.
* *
Ao escurecer daquele dia, certo Frade aparecia em uma tribuna, improvisada no vasto patamar da Igreja de Nossa Senhora da Penha a Matriz. Tratava-se das Santas Misses. Para o segundo plano, a gente descia alguns degraus. No centro deste, se erguia um cruzeiro do tamanho, talvez do em que foi crucificado o Nazareno. Estava assentado no topo de um calvrio de alvenaria, com degraus, que ofereciam lugares para depositar flores e moedas. O templo se encontrava em conserto. Em frente, perto de um castanheiro, um grande e fundo barreiro, onde tiravam barro para os servios. Verdadeira multido ali acorria, a fim de ouvir a palavra do Missionrio, j de muito recomendado pelos milagres que fazia. A cidade, naturalmente, no tinha a populao atual. Mas, na sua redondeza, engenhos de pau e de ferro, se alastravam. E, para se movimentarem, precisavam os seus donos de muitos homens, em geral casados e com famlias que moravam nos stios.
Naquele lusco-fusco, que na minha memria surge com tanta nitidez, o santo pregador discorria sobre assuntos do Velho Testamento.
Enfurecia-se, eloqentemente, contra aqueles que desobedeciam a Deus. Abordava, no momento, com admirvel verve, os trechos do Apocalipse, em que So Joo fala de um monstro, uma besta que, do Cu, ameaa aca^ bar com o mundo. De sbito, a multido, em arrancada desordenada, abandona o orador, sem lhe atender aos gritos. E no houve mais quem a detivesse. Em poucos minutos, a Praa ficou deserta e em completo silncio...
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* *
Um vendedor de fruta desceu para o Fundo-da-Maca, em uma besta, com carga de malas e um poldro solto, atrs. O animalzinho se perdeu da me, e, de repente, apareceu no meio do mulherio, rinchando, desesperada-mente...
* *
Ao amanhecer do dia seguinte, o barreiro se encontrava entulhado de chichelos...
* *
Meu pai morreu em junho de 1879, quatro meses depois do meu nascimento; minha me, em fevereiro de 1888. Eu fui parar na casa de Aristides Ferreira de Menezes, irmo de meu pai, que morava no lugar Porteiras, em um stio de sua propriedade, a trs quilmetros, mais ou menos, da vila de Juazeiro. No ano seguinte, fizeram a Repblica. Com dez anos de idade, era natural que a mim desinteressassem os acontecimentos polticos, desenrolados no Crato, por fora do novo regime de Governo em que entrava a Nao.
As matas, que se erguiam nas terras da frente do stio, e os canaviais que vicejavam no brejo, proporcionavam, a mim e aos doze primos, filhos de meu tio Aristides, uma vida de brincadeiras sadias e atraentes.
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SO JOO
O metedor de cana do engenho, Joo Flix, fz a cantadeira e meteu-a no couco traseiro do pesado eixo de pau-d'arco. Mimoso e Lavrador, na guia, chifres unidos por uma correia, fizeram finca-p e a canga rangiu--Jhes nos grossos pescoos. As outras juntas de boi pegaram certo. As pesadas rodas do carro, feitas de brana e pequizeiro, rolaram em direo mata. Ao cair do sol, j se ouvia, bem longe ainda, o canto produzido pela cunha de canafstula. Matias vem na frente dos bois o guia. Joo Flix com a vara de ferro, um pouco atrs. O possante condutor de lenha para o engenho, vem agora carregado de toros de angico, praba e tinguizeiro. A casa de meu tio Aristides, "Seu" Ares, distanciava-se, por um grande parque, do caminho que orlava a floresta.
Era noite de So Joo 23 de junho, de 1889. Os rolos eram despejados no terreiro e arrumados entre quatro estacas de pau-ferro. A fogueira dava, mais ou menos, pelo pescoo dos cabras. Da bagaceira eram trazidos feixos de bagao, a fim de melhor pegar fogo. A meninada, corria e pulava em roda, ansiosa por ver chegar a noite. Batatas doces e jerimuns caboclos aguardavam a hora de ser assados. Os fogos encomendados enchiam o canto da sala. Busca-ps, pistolas, traques, foguetes de lgrimas, u'a moa-de-fogo e o painel do tau-


maturgo, para ver se So Joo acordava. Porque Deus costumava faz-lo adormecer em sono profundo, desde a vspera do seu dia:
Se o Senhor So Joo soubesse, Quando era o seu dia, Descia dos cus Terra, Com prazer e alegria.
E ainda uma ronqueira estrondava.
Quando as labaredas subiam faiscando e a claridade se derramava a grande distncia, a casa de "Seu" Ares se encontrva cheia de moradores e convidados. Na sala, tocava uma harmnica. Danavam quadrilha, polca, mazurca, tango, valsa e chotes. Os foguetes subiam. Os busca-ps davam carreira na meninada alegre.
De instante a instante, saa um par a se tomar por compadre. Um seguia direita, outro esquerda. A fogueira ao centro. No encontro, apertavam-se as mos direitas, dizendo: "So Pedro disse, So Joo assinou, que ns havamos de ser compadres, que So Joo mandou. Viva So Joo, viva ns, compadre!"
Puxavam-se brasas, abanavam-se. Matias vinha, tirava as alpergatas, e caminhava por sobre a esteira de fogo. Uma bacia cheia d'gua, na claridade santa, indicava os que no viveriam at o ano seguinte...
No viam o rosto.
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Aristides Ferreira de Menezes pertencia a uma das principais famlias do Cariri. Foi deputado provincial nos ltimos anos da Monarquia. O seu stio Porteiras possua engenho de ferro, a fim de vencer as canas do seu vasto plantio. As matas das terras fronteirias, ao tempo, eram ricas de frutos silvestres. No havia ainda se propalado, na regio dos arrozais, os milagres que, para aquela zona frtil, atraram tanta gente do interior do Brasil.
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O BEATO PALMEIRA
Atravessei o brejo e subi a Serra do Catol. De l trouxe uma pedra de face plana (quix) e armei-a nos capes de mato que ficavam entre as canas. Com uma isca de mandioca e o rato ou pre estava achatado.
Era uma serra sem gua, pedregosa, mas, naquele tempo, cresciam nela cedro, aroeira, pau-d'arco e outras madeiras nativas. O padre Ccero escolheu um lugar naqueles ermos e comeou a construo de uma igreja quadrada a que deu o nome de Horto. Os alicerces j subiam altura de um metro, mais ou menos, acima do solo. Contava eu uns onze anos de idade.
Dentre os cabras desordeiros, do Crato e do Juazeiro, destacava-se o Palmeira. No maneiro-pau, era dos primeiros. Ao chegar em um samba a briga era certa. O juc na sua mo, igualava-se durindana dos cavaleiros andantes da Idade Mdia.
Mas um dia, um destacamento policial cercou-o numa festa. Cruzaram-se os rabos-de-galo com o juc. Deu trabalho... No entanto, como os soldados eram numerosos, o afamado manejador do cacete foi preso. E o faco cantou nos seus lombos at a cadeia, onde a surra continuou. Caiu sem sentidos...
Meses depois, surge nas ruas de Juazeiro, um mulato


magro e plido, rosto emoldurado por um cabelo negro e ligeiramente crespo. Passos lentos, camisolo preto de algodo grosso, tingido com tinta de lama, feita pelas tintureiras da terra. Na cintura, uma corda de fio, alva, com um crucifixo pendurado na ponta. Uma cruz preta, mais ou menos do seu tamanho, pesava-lhe sobre o ombro direito. Trazia a barba crescida. De repente, espalhou-se o boato da converso do Palmeira ...
Perdidos os sentidos, na priso, diziam que sua alma desceu aos infernos. Lcifer mostrou-lhe, bem de perto, as cenas de suplcios cruciantes, por que passavam os que morriam em pecado mortal. Espetos quentes, vermelhos como brasa, para serem metidos em certos lugares das almas... Caldeires de chumbo derretido para serem ,cvX despejados, guela adentro, daqueles que levantaram falso testemunho.
Ainda encontrava-me no Crato, quando o Sumo Pontfice condenou a construo do Horto, templo catlico a ser erigido na Serra do Catol.
Dentre os inmeros desordeiros que se converteram a troco de rabo-de-galo, o beato Palmeira foi o que conseguiu maior conceito. A le foi confiada a guarda do templo, depois dos servios parados. Todos os dias, o austero e taciturno beato sumia-se com uma de suas nove companheiras, por entre os cardos e juremais da montanha a orar e fazer penitncias. Satanaz, no entanto, fiel cumpridor das ordens de Jeov, no careceu do auxlio da serpente... Sem ela, o Santo devorou o "fruto proibido" ... E, diziam que, das nove companheiras que compunham a guarda do templo in fieri, nem uma escapou. Cumpriu-se, rigorosamente, o conhecido preceito bblico: Crescei e multiplicai-vos...
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O padre Ccero, naquela poca, aparentava ter uns quarenta e poucos anos de idade. Nas suas idas ao Crato dormia, algumas vezes, em casa de meu tio Aristides, nas Porteiras que, como eu disse acima, ficava a uns trs quilmetros de Juazeiro. Taciturno e distrado ao extremo, uma noite voltou da Cruz-dos-Altos, meio do caminho, porque a burra em que montava voltou-se para o Juazeiro, no momento em que se apeou, para satifazer, sem dvida, a alguma imposio fisiolgica.
Tia Quino (assim chamvamos, eu e minhas irms, por ser ela prima de nossa me), genitora do padre Ccero, comprava, com sacrifcio, um par de botas, com presilha e borracha nos canos, e uma batina, quando esta j estava imprestvel, e aquelas, rotas e cambadas. No entanto, para le vestir uma e calar as outras, colocava noite, a batina nova no lugar da velha e as botinas, debaixo da rede, onde o sacerdote dormia.
Desprendido e desinteressado, nada recebia em paga dos sacramentos, prestados aos que a le recorriam, dentro ou fora de sua Parquia. Comia muito e tudo faltava no lar de sua velha me, com a qual morava. Verdade que somente uma vez por dia o almoo.
Tia Quino procurou um meio de sair de tantas dificuldades encarregou um rapaz de sua inteira confiana de andar com o padre, nas suas desobrigas, pedindo esmola para ela, que estava passando fome, com o filho. A medida foi providencial; a casa se abasteceu de tudo. At quantias, no pequenas, em dinheiro, lhe mandavam. A bondade de seu filho, o modo de se conduzir, atraram, com rapidez, as vistas dos habitantes de todo o Cariri. De modo que, nos fins de 1888 a 1889, fama de sua bondade e de suas virtudes, vinha se juntando a de Santidade. Contavam que fazia milagres. De grande nmero de beatas, que recebiam a comunho por le ministrada, diariamente, algumas j se encontravam na graa de Deus... Dentre elas, uma se distinguia Maria de Arajo. Morena, plida e franzina, muito olhada pelas
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outras. O padre Gcero vinha de algum tempo, surpreendido com o que se passava. Ao depositar a hstia na lngua de Maria de Arajo, a partcula nadava em sangue. Os murmrios em torno do milagre, eram insistentes e incessantes. Mas o padre Ccero, de quem era difcil, nesse tempo, arrancar-se uma palavra, nada dizia. O Coadjutor do Crato, Francisco Rodrigues Monteiro, vai um domingo a Juazeiro e, na falta ocasional do confessor da beata, d a comunho a Maria de Arajo. O fenmeno se repete diante de seus olhos. De bucho furado, como propalavam, o reverendo no se agentou. Subindo ao plpito para o sermo conventual, declarou, em alta voz, a manifestao do milagre O sangue de Jesus, disse le, estava sendo derramado no Juazeiro.
Nunca me era dado assistir u'a missa, at o fim, naquela vila privilegiada. O sacrifcio comeava s nove da manh e terminava s trs da tarde, quase sempre. Ningum ousaria acordar o padre Ccero, quando ajoelhado pegava no sono, com as mos postas e a testa cada na mesa do altar. Eu, cansado de esperar, descia para a feira, animadssima.
Um domingo, depois de acabada a missa, vi o povo correndo na direo da casa do Cura de Juazeiro. Corri tambm, no mesmo sentido. Pelo caminho ouvi dizer que a beata estava com o ataque. Chegando casa de minha tia Quino, que ficava na Praa ao lado esquerdo da Igreja, ainda pude entrar na sala. Sentindo, porm, que me ia faltando o flego, imprensado entre as saias do mulherio, procurei sair para a rua, o que, a custo, consegui. Mas minha irm Euclides, que ali se encontrava hospedada, bem de perto, viu o milagre Maria de Arajo, tesa, estirada numa rede, com os braos abertos, as mos espalmadas, a boca cerrada, as bochechas tufadas, os olhos virados para cima, os ps por cima um do outro. Nas palmas das mos e na testa, transpareciam raios de sangue. Era o xtase, que lhe transportava a alma ao Cu, lugar onde ia tambm o seu Pastor, quando dormia
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no altar. Esses acontecimentos foram acolhidos no Crato, como sendo uma ddiva, concedida por Deus ao povo do Cariri. O padre Monteiro, muito querido pelo povo, foi o proclamador da boa nova. Acreditou, sinceramente, nas santas revelaes. Era tratado por Pai Monteiro, entre as beatas do Crato.
A notcia desses fatos que venho narrando, correu pelos sertes adentro, com rapidez inacreditvel. O resultado no se fz esperar. De toda parte do interior do Brasil chegavam peregrinos a Juazeiro. Os foguetes anunciavam as suas entradas na Terra Prometida. O comrcio desenvolvia-se como conseqncia lgica do aumento sensvel da populao. Os fogueteiros, os que vendiam santos, rosrios, oraes, medalhas, cadaros e retratos de Maria de Arajo e do padre Ccero, iam enriquecendo. Cadaro era a mercadoria mais vendvel, que deixava mais lucro e de maior procura. Porque o sangue que saa da boca da beata era apanhado em uns panos em forma de guardanapos e depositado junto ao sacrrio, dentro de uma caixa de madeira. Os cadaros vendidos aos peregrinos (romeiros ou jagunos) tinham o poder de curar as doenas da alma e do corpo. Eram pedaos do comprimento de uma das faces da urna, onde se guardavam os paninhos ensangentados. As medalhas eram de Nossa Senhora das Dores, padroeira do Juazeiro. No tive ocasio de ver as que foram cunhadas na Europa com as efgies do padre Ccero e de Maria de Arajo e que, mais tarde, foram substituindo, com vantagem, as de Nossa Senhora das Dores. Os artigos de maior importncia esgotavam-se, rapidamente, nos estabelecimentos locais. No se fizeram esperar os comerciantes improvisados, seduzidos pelo lucro fcil e rpido. Diariamente iam e vinham ao Crato e Barbalha, onde se abasteciam de santos, rosrio, cadaro, medalha e demais mercadorias desse gnero. Lembro-me de um rapaz que corria a p, de Juazeiro a Crato e foi encontrado morto, de repente, na estrada. Trazia em um cinto de fio de algodo, amar-
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rado por baixo da ceroula, quinze contos de ris. Era, naquele tempo, uma fortuna. Nada devia ao comrcio, nem a ningum.
Como era natural, Meca do fanatismo no acorria somente gente ignorante ou sertanejos, em sua maioria analfabetos. Juazeiro era tambm visitado por letrados ou semi-letrados, curiosos, interesseiros e, ainda, pelos bem intencionados. No caso dos ltimos, podem ser includos os facultativos, Drs. Madeira e Ildefonso Correia Lima que deixaram em mos do Proco de Juazeiro um atestado afirmando se tratar de um fenmeno sobrenatural, o sangue desprendido da boca da beata, por ocasio de receber a Eucaristia, se bem que a sua redao fosse um pouco sutil. Desse documento, ocupou-se o Dr. Raimundo Gomes de Matos, filho do Crato, professor catedrtico da Faculdade de Direito do Estado, em conferncia realizada na Casa de Juvenal Galeno e ouvida por grande nmero de pessoas.
Encontrava-se, no Crato, um destacamento policial do Estado, comandado por um certo capito Niccio. Uma noite, pelas vinte horas, mais ou menos, o silncio habitual foi quebrado, pelo estalar de uma cometa na estrada, j bem perto da casa de meu tio Aristides.
"Vem oficial," disseram.
No tardou a que se ouvisse, na calada, o tinir das esporas de um Alferes, de nome Raimundo Guilherme, j apresentado no Crato a meu tio Aristides. Recebido, amvelmente, entrou e sentou-se em uma rede, que tinha armada na sala. Alto, moreno e elegante, de um garbo invejvel, entrou logo no assunto de sua misso. Na farda de pano fino, ingls, brilhavam metais dourados, salien-tando-se duas listas encarnadas em cada perna das calas. Encostei-me na parede, debaixo do punho da rede. Os soldados que o acompanhavam, talvez uns quarenta, encheram a calada.
Em balanos moderados, a ponta do rebenque tocando no cho, disse o oficial: "Aristides, eu vou
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acabar com aquilo." Referia-se ao fanatismo de Juazeiro.
Da a uma semana, mais ou menos, em sua volta, sentado na mesma rede, mostrando-se impressionado com o que vira, murmurou: "Aristides, aquilo realmente um milagre." No sei ao certo se foi ouvido em confisso pelo padre Ccero. Mas corria o boato de que o oficial se havia convertido.
* *
Voltei ao Crato em 1890 ou 1891. No me possvel precisar as datas dessas histrias que venho contando. Desnecesrio se faz afirmar que nenhuma nota escrita tenho sobre estas coisas. Venho me orientando pelo ano em que nasci 1879. As narrativas, no tm por fundamento leituras de livros ou monografias sobre a vida do padre Ccero ou de Maria de Arajo.
As comunicaes entre Crato e Juazeiro, aumentavam consideravelmente.
A notcia de que o Vaticano mandou suspender o padre Ccero de suas funes sacerdotais, em sua freguesia, trouxe profunda consternao. Era a certeza de que o sangue que afluia boca de Maria de Arajo, por ocasio de receber a hstia consagrada, no aparecia por determinaes do Altssimo, como todos acreditavam. Por tal motivo houve uma aparente ciso no seio dos catlicos. Porque a psicologia dessa diviso no escapou, mesmo a um inexperiente observador. Intimamente, a crena nos milagres continuou. Mas o Papa permitiu ao padre Ccero celebrar missa, contanto que fosse fora de Juazeiro. O resignado sacerdote vinha, ento, aos domingos, dizer a missa conventual no Saquinho, cuja capela dista do Crato uns dois quilmetros e meio. Em um desses dias, reservados ao descanso, fui a Juazeiro. Passando pelo Saquinho, encontrei o Padre frente de uma considervel procisso. Mas sem santo. Era a missa domingueira. Em Juazeiro, encontrei um sacerdote dizendo missa por
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ordem do Bispo. A vila, no entanto, dava a impreso de que se encontrava sem viva alma. O enviado da Santa S, celebrou ouvindo as moscas voarem, no espaoso templo de Nossa Senhora das Dores. Ao passar pelo padre Ccero, encontrei gente at chegar em Juazeiro. Verifiquei que fui o nico, talvez, naquela manh, a viajar em sentido contrrio, isto em direo Meca Caririense. E quase todos que encontrei na caminhada, dirigiam-me a seguinte pergunta:
"Meu padrim vai a?" ao que eu respondia "Vai."
* *
Na concluso desse meu depoimento, feito com fidelidade minha conscincia, contarei que sorte aguardava a infeliz vtima do exagero religioso, de acordo com o que se afirmava no crato, una voce.
* *
Uma vez, ao entrar na casa do Vigrio do Crato, padre Antnio Alexandrino de Alencar, vinha saindo de dentro uma mulher em adiantado estado de gravidez. Impressionou-me os gritos do padre. E, ainda mais, a atitude da mulher. Ela dava murro com a mo direita, na palma da esquerda, e gritava, ainda mais alto que o Vigrio: "Acredito, acredito, acredito! Se quiser me confessar, me confesse, seno quiser, no me confesse!"
A repetio desses fatos era freqente. A rigorosa execuo dada s determinaes emanadas da alta administrao da Igreja Romana, contra o padre Ccero, vinha produzindo efeitos negativos. A estima e a f que aquele povo tinha (e ainda conserva), nas virtudes e merecimentos divinos de seu Pastor, assentavam em alicerces mais seguros e profundos que supunha o chefe supremo da Igreja Catlica. A aplicao da pena a le imposta
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por que no dizer? levava o dio alma de seus paro-quianos, calando mal em toda a populao do Cariri.
Mas os seus colegas, embora reconhecedores da dura verdade entre a popularidade e a perda da confiana do Bispo, deram cumprimento s ordens recebidas. Mais uma vez o interesse vencedor em disputa com a convico ntima e o caso de Pilatos se repete na Histria, Muta-tis mutandis. A punio, entanto, foi se tornando severa. Estendeu-se a vinte ou trinta lguas de distncia. Somente do lado de l dessa linha circnferencial, em torno de Juazeiro, seria permitido ao padre Ccero, exercer os seus misteres sacerdotais. A obedincia foi pronta. Mas o valor do castigado tinha as suas razes agarradas na sua conduta irrepreensvel, nas suas virtudes, por todos reconhecidas.
A Igreja compreendeu, ou deve ter compreendido, que em todo territrio nacional, no existia lugar onde esconder o prestgio do filho da velha Quino. Tambm Maria de Arajo foi cruelmente castigada. Entregaram-'yvU -JJfe ao Vigrio de Barbalha que, segundo afirmavam no Crato, aplicava-lhe, diariamente, uma dzia de bolos de palmatria. O padre Manuel Antnio, de quem falei acima, confiava mais na garrucha, cartucheira e punhal que trazia na cintura, do que no poder de Deus, na hiptese de ser atacado por outros cangaceiros, nos caminhos tortuosos e cheios de ladeiras das serras da regio.
* *
O Crato no desmentiu o seu tradicional esprito religioso. Conforme ficou dito, recebeu o milagre como uma compensao, concedida por Deus ao povo do Cariri. As caminhadas ao Juazeiro se realizavam contnuas e diariamente. E todos voltavam contritos, fazendo referncias respeitosas ao padre Ccero e a Maria de Arajo. Tambm eu, para que ocultar? pedi a Santa Maria de Arajo que melhorasse a minha vida de filho sm pai e
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sem me, uma noite em que minha rede se rasgou e eu passei o resto do escuro a dormir no cho. Entrementes, havia aportado quela cidade, procedente de Milagres, Jos Belm de Figueiredo. Aboletou-se na Praa da Matriz, em uma casa adiante da em que eu morava. Gente pobre, sem bondade, como se dizia, facilmente relacionou-se com o hospitaleiro povo de minha terra. Em pouco tempo, j a meninada, noite, se reunia sentada nas lajes da calada de "Seu" Belm; esperava com ansiedade, Calambange, que contava bonitas histrias de Trancoso. Era da casa do Dr. Siqueira Cavalcante, ento juiz de Direito da Comarca. Eu me tornei logo, freqentador assduo da apreciada roda. Ningum ousava perturbar o silncio com que eram ouvidas as narraes de Calambage. Havia respeito e ordem.
Jos Belm abriu sua casa de negcio na Rua Grande, onde se encontravam os estabelecimentos comerciais mais importantes da urbs. Seus patres eram os Senhores Boris Frres & Cia., firma exportadora e importadora, que dispunha de fortes capitais, estabelecida na Capital do Estado. Fazia grandes transaes, principalmente com o Governo, cujo chefe, ao tempo, era o Comendador Antnio Pinto Nogueira Acioly.
"Seu" Belm entrou cedo na poltica, com a procla-mao da Repblica. Levado pela mo dos judeus endinheirados, mais cedo ainda foi nomeado delegado de Polcia. No comeo, os seus atos foram moderados. Orientava-os o Dr. Francisco Marcai da Silveira Garcia, novo Juiz de Direito da Comarca, Magistrado culto, inteligente e bom, controlava a administrao, evitando desordens e perseguies aos adversrios polticos. Mas, por infelicidade dos cratenses, o Dr. Garcia morreu, poucos meses depois de sua chegada Comarca, vitimado por uma febre violenta. Tinha sido transferido do Termo de So Mateus para a Comarca do Crato, em virtude de sua promoo a Juiz de Direito. Assim diziam. At a proclamao da Repblica, o basto de comando da poltica de minha
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terra, era, alternativamente, entregue aos seus filhos. De acordo com o partido que subia.
Lembro-me de um dia, em que Antnio Lus Alves Pequeno, o moo, lia para meu tio Manuel Leandro Ferreira de Menezes, segurando-a com as mos trmula de emoo, uma carta em que lhe comunicavam a subida do partido grado, do qual era chefe. Caa, assim, o partido mido do qual era chefe o Cel. Juvenal de Alcntara Pe-droso, que, por longos anos, esteve frente dos negcios polticos da terra que lhe serve de bero e a que to bons servios prestou.
A perda do Dr. Garcia levou o Crato ao regime do terror. Assim, eu o encontrei, em 1891, quando voltei das Porteiras. Os freios do Cel. Jos Belm foram cortados, deixando-o livre na chefia suprema da poltica. A Intendncia lhe foi entregue. Um de seus primeiros atos foi criar uma guarda local. Para comand-la, nomeou um indivduo de nome Jesuno Antnio Maria, vindo de Porteiras de Fora, onde fora absolvido de oito crimes de morte. Era o que eu ouvia dizer, em cochichos. Deu--Ihe o posto de tenente. Assentaram praa quinze homens, valentes, escolhidos, de preferncia os que j haviam matado algum Um tal de Newton foi escolhido para o lugar de Cabo. por haver praticado maior nmero de proezas como cangaceiro profissional. Eram essas feras humanas que compunham a guarnio da cidade. Mas, alm dos dezesseis, figurava a msica, como reserva da fora local, que, cegamente, obedecia s ordens do "coronel" Belm. De dia, andavam armados de garrucha, car-tucheira e punhal; noite, conduziam mais um bacamarte. Trajavam moda da polcia da Capital; mas de blusa desabotoada, chapu-de-couro de abas estreitas e alpercatas. Severamente deram-lhes ordens de prender quem fosse encontrado depois de nove horas da noite. quele que se arriscasse a contrariar a ordem, poderia ser preso. E, conforme o conceito em que era tido pelos amigos do chefe, receberia liberdade no outro dia. Ou,
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se adversrio poltico, poderia levar uma grande surra na cadeia. As ruas no tinham iluminao nem calamento. Buraco e escurido, principalmente nas travessas e becos, em que no havia casa, como no de D. Brbara (chamado Beco Escuro) e o de So Vicente.
Os rapazes pobres do Crato aprendiam ofcio, e, em grande maioria, dedicavam-se msica.
A vida ali cada dia se tornava mais asfixiante e insuportvel para os que no rendiam homenagem ao Coronel Belm. Ainda mais para os correligionrios do coronel Antnio Lus. Os espancamentos eram freqentes. A fim de afastar dvidas sobre o que venho afirmando, citarei casos concretos, apelando para o testemunho de alguns conterrneos que, daquele tempo, ainda vivem: O professor pblico, Manuel da Penha de Carvalho Brito, apanhou de faco em um domingo, tarde, quando as ruas se encontravam cheias de gente carregando material para construo de um reparo que se realizava na Matriz. Atribuiram-lhe a autoria de um artigo, publicado em certo jornal de Fortaleza, no qual Belm era apontado como o Ferrabrs do romance Carlos Magno; Otoniel Maia, Se-nhor-de-engenho e membro de uma das principais famlias do Cariri; Joo Carvalho, arrancado da sala de jantar de sua casa, em manga de camisa, levado debaixo de rabo--de-galo at cadeia, onde continuaram a surr-lo, j sem voz para gritar; a viva de Mestre Aires, alfaiate, que, em vida, gozou do melhor conceito entre as famlias craten-ses. A sua porta foi aberta a troco de coronhadas de bacamarte, meia-noite. A surra foi dada na cama, onde se encontrava dormindo. Aos que comentassem esses acontecimentos terrorficos, eram aplicados os mesmos castigos. Nessa pesada atmosfera, deixei o Crato, no ano da graa de Nosso Senhor Jesus Cristo, de 1896, aps ter sido preso, numa serenata, acompanhado de dezesseis rapazes, amos em procura do Poo-da-Escada, e j nos encontrvamos no fim da rua da Pedra-Lavrada, na embocadura do rio. No sofri o que sofreram os meus companheiros
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porque o Cabo Newton, que comandava os soldados, olhando bem de perto de meu rosto, disse para a escolta: "Este sobrinho do coronel Aristides, vamos deix-lo na casa do tio." Os outros, foram conduzidos cadeia.
*
Em 1904, eu me encontrava em Belm do Par, quando recebi uma carta de minha irm Ester, na qual, dentre outras coisas, dizia: "Augusto Bacurau cercou o Crato com gente armada e foi apertando o cerco, at chegar casa do Belm, de onde le saiu abraado com a imagem do Senhor, implorando que o no matassem. Passou, assim, pela minha porta, descendo, em sentido contrrio, mas trilhando os mesmos passos de Joo, quando foi conduzido, apanhando de faco. Meu marido perdeu o juzo; mas o Belm pagou o mal que fz a tanta gente."
* *
Aos domingos, tarde, chupava-se cana crioula nas rodas das caladas. Doces, finas, eram roladas com casca. Vinham dos stios e eram expostas venda nas quitandas e em algumas casas de famlias pobres. Em feixinhos, amarrados com embira de bananeira. Custavam de dois a trs vintns.
Os passeios realizavam-se no Barro Vermelho e no Seminrio.
No obstante o clima de opresso e espionagem posto em prtica pelos aduladores do dspota, a gente no deixava de sair, noite, depois de nove horas Quando a patrulha passava, seguia-se-lhe as pegadas, e assim percorria-se as ruas e chegava-se onde desejava.
O que caracterizava os costumes, na cidade cariri-ense, era o esforo dos sacerdotes, no sentido de controlar a conduta de seus habitantes. Mas... onde Jeov assenta a sua tenda, permite ao Demnio desenvolver tambm a
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sua ao, muito embora com poderes limitados. De modo que, j naquele tempo, havia por ali, adeptos do nudismo. E o mais interessante que encontravam certo apoio no seio dos sicrios do Coronel Belm. De modo que o ambiente lhes favorecia. Sondaram, ao que parece, o tenente Jesuino e promoveram um baile, na Rua-da-Vala; todos os convivas se despiram, completamente. S danava quem estivesse nu. A festa se realizou com xito. O Crato amanheceu escandalizado. Corria que somente o preto tocador da harmnica, teve vergonha e se encolheu num canto, acossado, de costa para a luz mortia da candeia.
* *
L, no alto das fraldas da Serra da Misericrdia, onde estava uma Igreja, no centro do quarteiro, destinada ordenao dos rapazes, abriram-se os cursos, e, de novo, se encheram de estudantes. O Seminrio, que se havia fechado h tempos, comeou a funcionar...
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ZUZA DA BOTICA
As noites de junho, no Crato, so frias; os luares es-verdeados. Neste ms, j todos os engenhos esto moendo. Quer de pau, quer de ferro. Com exceo do de "Seu" Nelson, no Lameiro, acionado por gua que, captada em bica, despeja-se na roda que movimenta as moendas e o de Joo Gomes de Matos, movido a vapor, no stio Passagem; todos os demais so puxados a boi. Assim acontecia no ano de 1895.
Contava eu uns dezesseis anos de idade, fase da vida ideal para piqueniques, serenatas e festinhas onde haja danas. A cidade caririense, a maior e a mais adiantada daquela regio, contava com duas bandas de msica, e em seu seio uma rapaziada estudiosa e inclinada s artes e s letras; socieddes dramticas, jornais de pequeno formato, etc. O maior comrcio era feito com a praa do Recife. Das casas de bilhares merece salientar a de Valdivino Pantaleo, mulato prosador e pedante, que mandou escrever no alto da fachada: "Restaurant Bilhard de la Pa-trie". Ficava na Rua-do-Fogo, entre a Praa da Matriz e o Largo de So Vicente. Quem descesse pela Rua Grande, em direo ao Fundo-da-Maca, encontrava, no primeiro quarteiro, direita, o Teatro; na esquina do Largo de So Vicente, a Botica do Garrido; mais adiante, a de Se-


cundo; l, embaixo, no cruzamento com a Travessa da Califrnia, a "Farmcia Central", onde trabalhava um rapazinho conhecido por Zuza da Botica (Jos Alves de Figueiredo), mais ou menos de minha idade. Esse estabelecimento de remdios tinha o aspecto de uma drogaria: frente para as duas grandes artrias: Califrnia e Rua Grande. Um dstico de letras gigantescas se estendia no alto de toda a fachada. Zuza dormia na botica.
Quando, noite, todos se acomodavam em casa, eu abria a janela da fugida; esperava a passagem da ronda, a fim de escapar, sem perd-la de vista. Ia procura do companheiro inesquecvel. le andava com a chave da botica. Certa noite, resolvemos fazer um passeio mais longo. Entramos para o brejo, pelo stio Buriti, de Egdio de Macedo. Deixamos a estrada, depois que passamos pela frente do Cemitrio do Clera. Havia me encontrado com Zuza no Beco-de-So-Vicente. Dali seguimos at a Drogaria. Ao chegarmos le abriu uma das portas. Entramos. Tirou da prateleira uma garrafa de lcool, fz baixar o grau e misturou com mel de jandara. Bebemos, assim, meladinha. Encorajados, fomos visitar alguns engenhos. O primeiro, foi o de Cazuza de Macedo: monto de cana em torno das moendas. Os cambiteiros, o rnetedor de cana, o tangedor de boi e o foguista, dormindo nas tipias (redes pequenas, ordinrias, sem varandas). Ia alta a madrugada; o luar empalidecendo por influncia do levantar da barra. Com um gesto de surpresa, Zuza pega-me no brao e diz-me, quase ao ouvido: "Vamos embora, seno o dia nos pega por aqui."
* *
No ocioso relembrar que os fatos de que me venho ocupando sobre o Crato de meu tempo ocorreram de 1892 a 1896, quando deixei a terra onde nasci.
Distando umas cem lguas do litoral, no seria es-
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tranhvel que tudo ali acontecesse com certo cunho de originalidade.
As notcias de qualquer natureza eram trazidas por um homem de maca s costas, com intervalo de oito ou quinze dias o Correio.
A rua onde morava o agente naquele tempo Jos Alexandre Batista, aflua grande nmero de pessoas por ocasio da chegada da mala, a fim de assistir a chamada da correspondncia, que era feita em voz alta. No havia telgrafo. Quando se anunciava a aproximao de um visitante ilustre mdico, poltico, militar ou membro do clero formava-se uma cavalgada numerosa para ir ao encontro da insigne personagem. s vezes sucedia pernoitar pelo caminho, quando o aviso no havia chegado com a devida exatido, dando motivo a sada antecipada da caravana de recepo. Consideravam-se honrados os que recebiam convites para essas empresas. No me esqueci, nunca* do que ocorreu em uma delas e que foi bastante comentado: A importncia do visitante mereceu o comparecimento do coronel Antnio Lus Alves Pequeno (o velho), que marchou na frente do prstito. Em dado momento, foi atirado fora da sela pelo animal que montava. Valdivino Pantaleo, de quem j me ocupei nestas crnicas, para ser agradvel ao importante chefe poltico, soltou um grito e, por gosto, caiu tambm do animal que o conduzia
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RAIMUNDO SIMPLCIO
Os cabras do Crato, moradores nos stios do p da Serra do Araripe e nas terras dos Senhores-de-Engenho, do Brejo, vestiam camisa e ceroula de algodo, tecido nos teares, movidos a ps. Usavam chapus de couro de abas largas, com barbicacho e belotas. No se separavam de uma faca de ponta, feita pelos ferreiros da regio; uma vergntea de juc maduro e bem assado. Aos domingos, camisa fina, de abertura, punhos e colarinho engomados bem duro. Alguns traziam, alm da "brejeira", um faco ou uma garrucha, com escorva de pedra de fogo no gatilho. Raimundo Simplcio morava nas Pedrinhas, adiante das Porteiras, stio que pertencia a Aristides Ferreira de Menezes, nas proximidades do Juazeiro.
Alto, moreno e delgado, Raimundo Simplcio se dis-tinguia no Maneiro-Pau. Era um cabra valente, ligeiro. No seu servio de cambiteiro, nunca levou bzio (o mete-dor de cana toca o bzio, quando vence as canas botadas no p do engenho pelos cambiteiros). Tinha famlia e procedia bem. Somente brigava, quando provocado. Na luta, transforma-se. Ningum o excedia, nos saltos de defesa. Quando despreocupado, vadiando, nos domingos, tinha o andar desengonado, pendendo para um e outro lado.


s segundas-feiras, costumava ir ao Crato, fazer suas compras, na feira. Acompanhava-o, quase sempre, um filho de uns doze anos.
Raimundo Simplcio, nesse dia, levava, numa embira, pendurado no dedo, um pedao de fgado, comprado no aougue. Ao passar pelo Cemitrio do Clera, viu, adiante j do Buriti, uma novena, cantada numa casa de palha.
Era no ms de maio "Vamos rezar a Nossa Senhora, meu filho." E, dizendo isto, aproximou-se com o menino do terreiro da choupana. Cabroeira, mulher e menino. Um altar e uma imagem da Virgem. O dono da casa, de camisolo de chita, livro aberto, tirava a novena. Ao pronunciar o exemplo, entrega o livro a uma devota e sai fora, para o terreiro. Raimundo Simplcio tinha metido o cacete na parede de palha a fim de sustentar o fatfo. O beato, caricaturado de sacerdote, tira-o da parede e faz uma prtica, escandalosa, quase gritando: "Que cabra sem-vergonha este que vem emporcalhar as paredes de uma casa religiosa?" Sacode o fgado l, na areia da estrada. Em seguida, entra e continua a sua misso. Raimundo Simplcio, ajoelhado, baixa a cabea. No quer aparecer como dono do fgado. Comea o Kirie Eleison. Simplcio levanta-se, com sutileza e vai apanhar o fgado:
"Meu filho, v, entregue isso sua me. Eu s saio daqui, quando me vingar desse ladro." Quando viu que o filho ia longe, levantou-se cautelosamente, tirou o juc da palha, agarrou o chapelo de couro na mo direita e entrou, agachado, at o p do altar. Rpido, endireitou-se "Surge o atleta, aprumado." D uma chapelada na cara do padre falsificado. Tumulto. culos quebrados, gritos
"Estou cego! Matem este cabra!" Raimundo Simplcio pula no terreiro, distribui cacetadas e foge.
* *
Ao chegar em casa, encontra o fgado cozinhado.
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Sem pestanejar, eu ouvia, no dia seguinte, Raimundo Simplcio contando essa histria aos camaradas que com le trabalhavam no engenho de meu tio Aristides, nas Porteiras. Nada mais bonito para mim naquele tempo do que um cabra valente.
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PEDRO DE COT
O Crato, como sabido, fica dentro de um buraco. Tem a Serra do Araripe, ao Sul; ao Nascente, os altos do Barro Vermelho; ao Poente, o Seminrio, que assenta no declive lento da Serra da Misericrdia. Somente pelo bairro da Cruz, lado W&, h sada sem ladeira, em direo a Juazeiro, onde as terras so planas, o brejo muito largo, banhado pelos rios Batateira e Grangeiro, cujas guas lhe trazem abundante adubo, desprendido pelas eroses da cordilheira do Araripe. Sem estrada de ferro, sem telgrafo, a urbs caririense, vivia em grande atraso com as novidades da poca. Um Correio tardo, representado por um homem de maca s costas, lhe trazia, de quinze em quinze dias ou de oito em oito dias, a correspondncia. Os filhos de famlias abastadas eram mandados estudar em Recife ou no Rio de Janeiro. Os destitudos de recursos, aprendiam nas escolas pblicas e particulares, existentes na terra; dedicavam-se msica e s artes. Dentre estes, muitos se distinguiam. Fundavam sociedades literrias, dramticas, etc. Quase toda aquela mocidade tocava violo, alm de outros instrumentos. Foi deste meio que saiu Pedro Feitosa, a quem chamavam Pedro de Cot, devido sua me ser muito baixinha. Era viva, quando a conheci, morando na Praa da Matriz, onde eu tambm


morava. Quando seu filho deixou a terra natal, j tocava diversos instrumentos da banda, especialmente clarinete, piston e requinta.
* *
Cheguei a Quixad, no ms de junho de 1896; fiquei numa pequena casa nos Dantas, arrabalde onde encontrei alguns conterrneos moos, tambm, como eu emigrados, devido a perseguies sofridas no Crato, onde imperava cruel e estpido, o poderio do coronel Jos Belm de Figueiredo. Era a entrada da cidade, para os comboeiros e os que vinham do Sul do Estado. A terra dos Papa-emas crescia com rapidez admirvel, em virtude dos servios do aude do Cedro, e da passagem da Estrada de Ferro de Baturit que, no obstante haver seguido em direo a Quixeramobim, os trens-horrio e mistos, ali pernoitavam, voltando a Fortaleza. Somente os que conduziam material chegavam at o fim da linha assentada. primeira noite do dia de minha chegada, na cidade estranha, fui, com alguns dos meus companheiros, ao sereno do clube de danas salo forrado de papel dourado, os cavalheiros trajando preto e as damas, em grande parte, branco. Na entrada, tocava a msica: Um trecho da Tra-viata, de Verdi. Umas quinze figuras, inclusive a pancadaria. No meio das estantes, um mulato baixo, grosso, de rosto redondo, cabea chata, pernas unidas at os joelhos, ps longes um do outro, um pouco calvo, levanta, na mo esquerda, uma batuta. Na direita, sustem uma requinta. Ora por outra, quando o seu ouvido achava que ia tudo bem, entrava com o seu instrumento, abandonando a marcata. Foi quando conheci o que era uma boa orquestra. Ainda hoje sinto a agradvel emoo que, naquele momento, me empolgou o esprito. Cada msico executava a sua parte, sem alterar nada do que nela estava grafado. No admitia floreados, como nas bandas de msica de minha terra, compostas por timos executores, mas sem uma regncia altura. No entanto, o Quixad tinha
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a sua msica dirigida pelo cratense Pedro de Cot, talvez o melhor professor que, na poca, o Cear possua. Aps, seguiu-se uma quadrilha, extrada da pera de Gaetano Donizetti Lcia de Lammermoor.
* *
Pedro Feitosa havia deixado a direo da banda da Polcia, porque lhe negaram o posto de alferes, a que se achava com direito. De fato, ningum melhor do que le tinha jus ao cargo. Isso por volta de 1895. Por esse motivo, Quixad, num gesto louvvel, acolheu o cratense de grande valor. Caprichoso, no mais aceitou os convites que lhe foram feitos com insistncia, para voltar ao Batalho do Estado, com o galo que desejou. Chamava-o para o posto, o coronel Cabral da Silveira, ento Comandante da Polcia. Permaneceu em Quixad, gozando da estima de todos. Cedo, no entanto, morria, bem moo ainda, vitimado por uma leso cardaca. Comps uma marcha fnebre, que foi executada pelos seus discpulos e por le inaugurada.
Como ficou dito, Pedro Feitosa abandonou a direo da msica da Polcia porque desejava a criao de um lugar de oficial, onde o colocassem como mestre da banda Com vencimentos de Primeiro Sargento, como percebia, no lhe era possvel se manter com a famlia (93$500, mensais). Sentindo a sua sade desaparecer, procurou Quixad, pela boa fama que tinha o clima da cidade sertaneja.
A sua chegada coincidiu com a aproximao dos festejos de Jesus, Maria e Jos, padroeiros da freguesia. Ofereceu-se-lhe, assim, oportunidade para demonstrar que era, realmente, um msico de valor. Comps u'a missa e uma novena que bastante agradaram. Para o Clube, diversas valsas, uma quadrilha, tangos, polcas e habaneras.
* *
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Vo bem longe o tempo e os fatos de que me venho ocupando.
Na fase da lua no meio do Cu, Quixad era uma terra encantadora. As rodas nas caladas iam at dez horas. Desfeitas, delas se desprendiam os rapazes que continuavam a cantar e a recitar, l fora, nas ruas. Naquela poca, somente cantavam os que eram dotados de cordas vocais privilegiadas. Dias por outros, msicos do Crato, ali de passagem, melhoravam consideravelmente a orquestra.
Naquele tempo, no se ouviam os sambas inspirados no bas-fond das grandes metrpoles, em que as namoradas abandonam o apartamento de seu Creuso, deixando--lhe saudade, pelas pontas de cigarro tintas de carmim e copos sujos de usque. Cantavam-se modinhas s criaturas amadas, adormecidas nos seus lares, bem distantes dos clubes de jogatina, onde hoje inmeras senhoras e senho-rinhas bebem, fumam, jogam e discutem banalidades. Os costumes eram outros. Nas serenatas de Fortaleza atual, canta-se a "Vaca Maiada", com batuques dissonantes, tamborim e chocalho. No ocioso, julgo, recordar algumas modinhas e poesias, cantadas e recitadas nas noites de luar claro e ligeiramente azulado, naquela terra, para mim nunca esquecida:
Quando s horas silentes da noite, Doce flauta descanta no ar, Quando as auras soluam baixinho, Sobre a praia que alveja o luar,
Solta o vate das cordas da lira Mil canes deleitosas de amor, Que se exalam nos puros fulgores, Do luar que enebria o cantor.
As estrofes acima so de Barbosa de Freitas, filho de Jardim, que, de passagem pelo Quixad, as escreveu, em
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cima de um balco, meia-noite, em uma bodega, no arrabalde dos Dantas. Tambm "Vem ver, oh, Virgem", era uma das modinhas muito queridas e bastante cantada em Quixad.
Eis uma de suas belas estrofes:
Vem ver, oh virgem, como surge a lua, De nuvens nua, pelos cus alm, No tardes virgem, meia-noite soa, Oh, corre, voa, vem, oh virgem, vem!
No tenho certeza de quem esta encantadora poesia. Penso, entretanto, ser de Thomaz Ribeiro, um dos poetas portugueses mais queridos no Brasil.
De "Recordaes", a Jder de Carvalho, vem a propsito transcrever o que se segue:
Terminado o movimento do caf, da coalhada e dos bilhares, no botequim de propriedade de Honor do Monte Lima, os apreciadores do pquer e do lu, formavam uma banca no interior do Caf. Sabia-se da existncia de partidos polticos nas vsperas de eleies. O clube danante, dava uma partida por ms. Salvo algumas festas, oferecidas a visitantes.
Nesta crnica, tenho por objeto falar de Tiago Moreira, coletor estadual e av de Jder de Carvalho, figura de relevo na sociedade quixadense. Indiferente religio; mas ningum melhor do que le cumpria os deveres de pai de famlia. Inteligente e espirituoso, quando ausente de uma roda, os seus ditos humorsticos eram lembrados. Ora provocando riso pela graa e elegncia, ora comentados como judiciosos.
Sentia-se que le era inteiramente liberto do medo, do terror de possuir uma alma para se enredar nas complicaes de outra vida. Os seus filhos, Miguel, Ritinha e Adlia, eram elementos de relevo, na sociedade quixadense. Nas festas religiosas, realizadas nos meses de maio e dezembro, da orquestra, constituda para cantar as no-
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venas e a missa do ltimo dia, faziam parte senhorinhas e senhoras da elite social da terra, dentre elas Dona Ma-roca Praxedes, executora do rgos, Wolitza, Fantina e Oda, filhas de Honor do Monte Lima. A primeira e a terceira, cantavam; a segunda executava o violino. O meu instrumento predileto era clarinete. litinha e Ad-lia Tiago eram assduas freqentadoras dos nossos ensaios. Ritinha tocava violino. No ms de dezembro, o "Seminrio de Fortaleza se fechava para as frias. Vrios seminaristas iam goz-las em Quixad. Muitos deles assistiam as novenas do coro; algumas vezes, apareciam nos ensaios. Pertenciam a diversos cursos. Entre os do ltimo ano, se encontrava Adolfo de Carvalho, que, mesmo de coroa aberta no perdia o aprumo de rapaz elegante. Alto, alvo, cabelos negros, olhos bem talhados e expressivos; inteligente e culto, bem cedo prendeu Ritinha nas malhas de seus olhares insinuantes. Soltou a batina. No resistiu cativante menina, meiga e portadora de predicados invejveis. Casaram, quando eu ainda me encontrava em Quixad, em 1898 ou 1899. No tenho bem certeza. Tambm ali me casei, no ano de 1900, tendo deixado a cidade to querida por mim. Da a minha ignorncia sobre a vida de lutas e obstculo de toda sorte que encontrou Jder de Carvalho, filho de Ritinha e Adolfo, criaturas que de perto conheci.
* *
Li apenas dois livros de Jder "O Doutor Geraldo" e a "Criana Vive". Algumas poesias soltas. Tarde, portanto, conheci o valor do escritor e poeta, e, mais ainda, de sua dificuldade de vencer na vida, no obstante dotado de inteligncia e cultura. Tambm sofri a grossura e as-pereza das mos dos que, por inveja, ambio ou mesmo ruindade, puxaram nas pernas d Jder, para no subir.
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Crato. Um domingo de maio de 1896. No patamar da Matriz, a msica acabava de tocar a valsa "Iracema", composio de Mestre Belinho. O povo carregava tijolo e pedra, para reconstruo da Igreja. Um grupo de rapazes novos do qual eu fazia parte, seguia de Rua Grande afora, acompanhando a gente que ia e vinha Cruz, lugar onde se encontrava o material destinado aos servios do templo catlico. Um pouco antes de chegar Praa de So Vicente, vi muitas pessoas correndo desordenadamente. O professor pblico Manuel da Penha de Carvalho Brito vinha apressado, esbaforido, camisa, palet e gravata em desordem, perseguido pelo tenente Jesuno. O mandatrio do Belm vinha de espada em punho, alcanando a sua vtima, de momento a momento, batendo-lhe nas costas, impiedosamente. Seguiam-lhe uns quinze cangaceiros fardados, adestrados na prtica dos espancamentos e agresses aos que no se conformavam com a situao poltica a que chegou o Crato. O frtil Municpio caririense vivia uma fase de terror. Ao amanhecer, baixinho, perguntavam uns aos outros: "Quem teria sido preso?" Do pequeno grupo, destacava-se Jos Moreira Facundo que, lamentando o fato, olha para todos ns, e, com aquela fala, mansa e corajosa, convida-nos a deixar o Crato: "No terra em que se viva mais," disse le, "Vamos embora. Por a deve haver liberdade". Com poucos dias, retirou-se com outros, sem destino. No ms seguinte, sa eu, depois de ter sido preso, em uma serenata. Escapei da cadeia, por causa do tio Aristides Ferreira de Menezes, que era amigo poltico do manda-chuva do Crato. Meus companheiros foram metidos na cadeia, e, alguns, surrados a rabo-de-galo. Isso aconteceu em um sbado; na tera-feira, retirei-me com dois amigos e um casal ameaado... Quixad era considerado, naquele tempo, a Sua cearense, porque quase todos os Municpios do Estado se encontravam entregues a Coronis cangaceiros, em sua maioria analfabetos. Ali, abracei o meu amigo e tambm, ali, fiquei. Trabalhvamos de dia; mas,
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nas noites de luar entregvamo-nos s serenatas, quase sempre auxiliados por msicos conterrneos, desterrados, como ns, por perseguies polticas.
Tanto eu como Jos Facundo desfrutamos a melhor considerao na terra dos Papa-emas. Em 1901, retirei--me de Quixad. No foi sem constrangimento que assim procedi. Mudei-me para Maranguape, onde o ganha po para mim se tornou mais fcil.
* *
Jos Facundo faleceu no dia 10 de agosto de 1956.
Ao segurar na aldraba do seu caixo, at colocar o corpo no carro fnebre, que demorava porta da casa na Rua General Sampaio, n. 1047, assistindo aos soluos de seus filhos e netos, o meu pensamento reviu todo esse passado.
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A SERRA DO ESTVO
Aquele que emigra do seu torro natal aos dezesseis anos de idade, deixando asfixiado os seus conterrneos, por falta de liberdade, situao imposta por uma poltica criminosa como a que dominava o Crato, em 1896; e detm-se em Quixad da mesma poca, onde os seus habitantes assemelham-se a uma s famlia trabalhando pela prosperidade coletiva, nunca mais esquecer esse rinco. le passar a ser o mais querido em todo o resto da vida. Foi o que aconteceu comigo. Ali fiquei. Ali, assisti a passagem do sculo, a entrada do ano de 1900, quando me casei, a 23 de setembro. O oficiante do meu enlace matrimonial foi Dom Macrio, frade Beneditino, que tinha vindo Quixad, com outros da mesma Ordem, com o fim de escolher o local onde devia ser construdo um edifcio destinado educao de menores, anexado a um templo catlico. Quixad j era uma cidade movimentada, de comrcio desenvolvido. Todo o serto, at os confins do Cariri, nela se abastecia. Virtualmente, podia ser considerada o ponto terminal da Estrada de Ferro de Baturit. De modo que, mesmo os que vinham a Fortaleza, no deixavam de demorar, um, dois ou mais dias na terras dos Queiroz e dos Barreira


Cravo. Porque Quixeramobim, no obstante ser o fim da linha frrea, nada valia como praa comercial. Alm do mais, o aude do Cedro, com os seus engenheiros e trabalhadores da construo, soltava pataces a torto e a direito. Assim acontecendo, a festa da passagem do sculo no podia deixar de se revestir de muita solenidade. Dom Mazulo, chefe da misso dos Beneditinos, com palavra fcil e admirvel eloqncia. Tiago Moreira, av do socilogo e jornalista, Jder de Carvalho, possua casa e terras na Serra do Estvo que, talvez pela fama que corria de ser um timo clima, desse motivo resoluo da Ordem dos Beneditinos de procur-la, para nele erigir o Mosteiro de So Bento.
De fato, aquela montanha verde, coberta de frondosas rvores, erguida na vasta plancie de um serto adusto, agradou os frades que traziam a incumbncia de escolher o local apropriado execuo do plano concebido. Subiram ao ponto mais elevado da colina e l fincaram uma cruz. Coincidiu que o marco sagrado acentou em parte das terras de propriedade de Tiago Moreira. Este, no entanto, era um cavalheiro de sentimento altrustico e desejoso de ver a Serra do Estvo desenvolver-se e progredir. De bom grado, fz doao de parte de sua propriedade para ereo do futuro educandrio catlico. Infelizmente ou felizmente, o Mosteiro de So Bento se encontra, atualmente, transformado em simples sanatrio destinado, de preferncia, cura de tuberculosos.
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EM MARANGUAPE
Em Maranguape tive meu primeiro encontro com Joaquim Pimenta, em 1907.
Entra em meu salo um fregus, alm dos muitos que o freqentavam. Estatura regular, um pouco magro, basta cabeleira negra, ligeiramente ondulada; bigode preto deixando salientar uma dentadura invejvel.
Vestia um terno de casimira escura, um tanto surrado. Com ar insinuante, senta-se na poltrona e levanta a vista. No alto da parede, uma litografia sem moldura, expressivamente colorida. Era um mapa da Amrica do Sul, reclame da cerveja Antrtica. Nele, gravada a figura de um frade, de rosto vermelho e gorduroso, dentes alvos e afiados, encravados no Brasil. A mo direita, polpuda e rolia, estendida em direo a um copo de espumante cerveja. O rapaz abriu-se. Chamava-se Joaquim Pimenta. Cursava a Faculdade de Direito, e vinha de fazer uma reportagem na Escola de Menores, entregue aos religiosos e anexada ao Convento de Canind. Informou que os meninos, ali recolhidos, eram surrados e trabalhavam mais do que permitiam as suas foras. Davam-lhes para comer gneros alimentcios de pssima qualidade. Pela manh, farinha molhada. Encontrou um correligionrio. O mais velho, segundo me disse em carta.


Tambm eu sofria do mesmo mal que ainda sofro. Impressiona-se com a misria humana; com os que arrastam uma existncia sacrificada pelos defeitos fsicos, adquiridos ou congnitos; os monstros teratolgicos, quase sempre com fundamento na degenerescncia hereditria. Tudo, enfim, que as religies, na impossibilidade de explicar as causas, escapam-se pela porta larga dos mistrios.
Aps a fundao da Loja Manica Lealdade II, na cidade de Capistrano, em 1912, fui eu um dos primeiros iniciados. Essa Instituio tem por finalidade, como por todos sabido, alm de praticar atos de beneficncia, ilustrar o esprito de seus associados, com leituras filosficas. Assim, o talentoso estudante de Direito, j me encontrava liberto de preconceitos que prendem o esprito e privam-no de tomar conhecimento da verdade dos fatos, confirmada pelas investigaes da inteligncia humana. De modo que, na tenda do fgaro, em vez de vitrinas com perfumaria, havia uma estante de livros: estudos de portugus, francs, ingls, sem mestre; Salamb, de Flau-bert; Catedral, de Blasco Ibanhez; A Morte de Don Juan e a Velhice do Padre Eterno, de Guerra Junqueiro; Cndido ou o Otimismo, de Voltaire; Verdade, Lourdes e Roma, de Emile Zola; quase todas as obras de Jos Maria Ea de Queiroz, enfim, a Bblia, por mim bastante apreciada, no somente no que toca lenda e poesia, tambm pelo que diz o Velho Testamento, em linguagem solta, imoral e irreverente.
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Em 1912, com o triunfo dos partidrios da candidatura do coronel Marcos Franco Rabelo, foram saqueados e destrudos a oficina e o templo manico, cujas colunas continuam abatidas.
Os trs mil cartuchos requisitados ao comrcio de Maranguape para ajudar na deposio do Comendador Nogueira Accioly foram disparados cintra o meu salo,
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onde sozinho me encontrava. Do primeiro grupo que transps o limiar das portas, caiu logo um dos atacantes, ferido por bala de Mauser, chegando a morrer minutos depois; dois mais que sairam furados pelos mesmos projteis, faleceram tempos depois...
No podia deixar de assim acontecer. Cento e sessenta homens, armados de rifles, atirando contra duas portas, com o fim de alvejar uma nica pessoa que ali se encontrava defendendo-se por trs das paredes. Ademais, um candeeiro que havia aceso, foi destrudo pelas balas. Tudo era escurido. Na aflio do momento, despertou em mim a alma do jaguno to bem retratada nos "Sertes", de Euclides da Cunha.
Nos altos do sobrado onde se encontrava a minha barbearia morava o Dr. Lus de Oliveira, com o seu gabinete dentrio. No atravancou as portas de sada para o seu quintal, como eu pedira, por tratar-se da habitao de sua famlia (sua senhora, D. Susana, tambm era formada em Odontologia). Verificando que a minha sada estava segura, dei dois tiros de despedida no salo e fugi, trepando-me pelos telhados, pulando dentro do quintal de um correligionrio e amigo de quem nunca mais esquecerei Joo Mota. A estas duas criaturas devo estar aindo hoje vivo: Joo Mota, morreu; o Dr. Lus de Oliveira conserva-se velho e forte. Ora por outra, nos encontramos nas ruas de Fortaleza. Nunca le se esquece de falar nestas coisas, mostrando-se satisfeito quando lhe chamo de segundo pai.
Mencionando esses fatos passados, ocorridos h quarenta e oito anos e meses, no devo esquecer o meu bom amigo Lus Vieira, diretor do Banco Unio. le promoveu uma subscrio em meu favor que rendeu 500 e 27$000.
Em 1910, o Comendador Antnio Pinto Nogueira Accioly mantinha-se no poder h longos anos. Ou se elegia presidente do Estado, ou mandava que os seus amigos polticos votassem em um cidado de sua inteira confiana
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para desempenho da funo governamental. E, assim, conservava-se sempre frente da administrao da coisa pblica. Com o andar dos tempos, entanto, a sua famlia cresceu, e, dentre os rebentos comearam a surgir os que ambicionavam participar da influncia do poder, nas localidades sertanejas. De tal maneira que o partido dominante cindiu-se em diversos municpios. Esse fato deu lugar a que, muitas vezes, um dos chefes obtinha nomeao de um amigo para certo cargo e o outro chefe era barrado na sua pretenso, ao mesmo lugar, para o seu recomendado, contrrio ao candidato indicado pelos filhos do velho Accioly. De sorte que se verificava a existncia de rd s cia mesma poltica, na mesma localidade. A oposio crescia; aumentava as suas hostes, consideravelmente. Ainda mais concorreu para o enfraquecimento da situao dominante, a interferncia de altas patentes da Polcia do Estado, cometendo agresses a adversrios de conceito firmado na sociedade e na Imprensa da terra. Essas ocorrncias trouxeram ao Governo forte descrdito na opinio pblica, j bastante trabalhada pela oposio. Barbara agresso sofrida por um dos redatores do "Unitrio", deu motivo a que Joo Brgido escrevesse em seu dirio notvel artigo, intitulado: "Assim como o fiz, saberei desmanch-lo" (referia-se ao Accioly).
Essa, a marcha dos acontecimentos polticos, quando assumiu a presidncia da Repblica o Marechal Hermes Rodrigues da Fonseca. O velho soldado no apresentou nenhuma plataforma ao povo brasileiro. No declarou o que iria fazer em seu governo. No entanto, propalava--se que derrubaria todos os governos oligrquicos, implantados nos Estados, sendo o do Cear um dos primeiros. No obstante ameaado, o velho Comendador foi vencido pela ambio de continuar com as rdeas do poder nas mos. No concordou em apresentar para o seguinte quadrinio, ao governo do Estado, um nome que, no obstante pertencer ao seu partido, acomodasse oposio. Apontou para sua chapa um ancio, Desembargador, que
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diziam no ter vontade prpria. Seria um instrumento dcil e brando nas mos do venerando poltico. Foi por isso que os chefes de seus adversrios, ouvindo ao seu orientador, Joo Brgido, por este lhes foi indicado o Coronel Marcos Franco Rabelo. Essa candidatura, logo divulgada, foi abraada pelo povo, com entusiasmo nunca visto, at ento.
Maranguape. Fins de 1911. Funda a oposio um "Tiro de Guerra", que toma o nmero 64. Homens, mulheres e crianas, gritam pelas ruas: "Viva o Coronel Marcos Franco Rabelo!" o In hoc signo vinces, a bandeira de salvao, erguida para derrubar o Governo do Dr. Antnio Pinto Nogueira Accioly, cujas razes esto enterradas no Estado h mais de vinte anos. Conclua-se que, naquela cidade, no existia um amigo da situao ameaado. No obstante a minha simpatia pelas idias dos que desejavam a queda da poltica dominante, motivos imperiosos me obrigaram a ser eleitor e a fazer parte da situao governista. O "Via Lctea", folha semanria dirigida por mim e por Eufrsio de Almeida, publicou, simultaneamente, duas notcias: uma, da festa realizada na casa do Coronel Joaquim Correia Sombra, e outra, que A<. efetuou-^e na residncia do comerciante Abel Ribeiro. Pertencia este ao partido da oposio; mas mantinha relaes de amizade com os dirigentes da faco acioliana. Combinei com Eufrsio que as notcias sairiam absolutamente iguais, a fim de evitar dvidas sobre a imparcialidade do semanrio. Sucedeu, no entanto, que, sendo o jornal impresso em Fortaleza, as notas foram remetidas sem prvio entendimento entre ns. A que redigi sobre a reunio danante, realizada na residncia do Sr. Abel Ribeiro, saiu minuciosa, devido ao bom tratamento com que fui recebido; a dos Rabelistas, dada por Eufrsio, um pouco lacnica. Foi o bastante para minha condenao. Fui apontado como inimigo dos rabelistas por Jos Cas-telar Sombra. As perseguies no se fizeram esperar. A sociedade, criada para instruir a mocidade, com fins pa-
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triticos, passou a ser instrumento de dio contra minha pessoa. Comandava-a um aspirante do Exrcito, alto, rosto comprido, ps grandes e nariz alevantado. Diziam pertencer famlia Tvora. O coronel Afro Tavares Campos, homem prudente, vendo que a minha situao era de insegurana, ofereceu-me o cargo de delegado de polcia, dizendo-me ser esse o meio de poder ficar em Maranguape. Aceitei. No cargo, no tardaram as tentativas de agresso, os arreganhos ridculos de valentes sem coragem. Inconsciente ou no, a corporao militarizada ia obedecendo, cegamente, s manobras dos rabelistas. Punha em prtica toda sorte de encenaes para me amedrontar e desmoralizar.
Chega-me, uma noite, em casa, o Coronel Afro e cientifica-me de que o Tiro 64 vai sair rua armado de rifle, a ttulo de fazer manobras militares. Perguntou--me se consentiria. Compreendi a pergunta e respondi que no. Imediatamente, depois de sua sada, dirigi-me Cadeia. No Corpo-da-Guarda, encontrei o sargento Monteiro, homem baixo, forte e resoluto. Comandava oito soldados. Eram todos do Cariri, alguns filhos do Crato. Mereciam minha confiana. Conheo bem os jagunos de minha terra. Tanto assim que Joo Brgido escreveu, um dia no "Unitrio": "O Sr. Accioly nomeia um barbeiro delegado de Polcia e manda-lhe as melhores navalhas do Batalho." O sargento puxou a gaveta da mesa em que estava escrevendo, cheia de cartuchos Mauser. Disse-me: "No quero isto pra comer." "Ento, d ordem aos seus soldados para se postarem na Praa da Intendncia, em linha, longe um do outro. O Tiro 64 vai sair armado a rifle e eu no quero consentir."
Tudo executado com rigorosa prontido. Segui com o Comandante da pequena guarnio e coloquei-me a uns cinqenta metros de distncia, na frente do quartel do Tiro, que era na mesma Praa. Eram mais ou menos oito horas da noite. Mandei que o sargento comunicasse ao aspirante, instrutor dos rapazes, a minha chegada e a
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minha resoluo. Em um instante, apareceu o militar, a cavalo, cometa ao lado. Com voz rouca, interrogou-me sobre a embaixada que lhe mandara. Afirmei-lhe a minha resoluo. Com nfase, advertiu-me do perigo que eu corria. Declarei-lhe que seria vencido. le contava com cento e sessenta homens e eu apenas com nove. Facilmente le podia esmagar aqueles policiais; mas a sua responsabilidade, como oficial do Exrcito, era grande. Voltou ao quartel.
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Momentos depois, a cometa tocou. O sargento disse--me: "O toque para guardar as armas, retirar e debandar. .."
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NOSSA SENHORA E MEU PUNHAL
Acabava eu de sair de um navio do Loide, em setembro de 1914. Vinha de Belm do Par. Na praia, esperava-me o meu compadre e amigo, Jos Afro Tavares Campos. Subi com le at Praa do Ferreira. Em frente ao edifcio do velho prdio assobradado, pertencente Prefeitura (atualmente, o Abrigo); le me perguntou se trazia dinheiro.
Eram trezentos mil ris toda minha fortuna. Pediu--me o cobre e botou na Solidarstica, dizendo que eu receberia uns trs contos, da h dois ou trs dias. Grande movimento. Notei que os empregados da empresa sui gene-ris, com certa dificuldade abriam as gavetas, recheadas de notas.
Emprestei-lhe o dinheiro. No podia crer em lucro to fcil e exagerado. De fato, le, em vez de receber o duplo ou mais, nada lhe voltou para a algibeira. Antes do fim da semana, a tal "Sociedade" arrebentou, sem deixar de haver um motim em torno de sua sede. Da, fui almoar no "Caf Iracema", no canto Norte da Praa do Ferreira, onde havia mais trs construes de madeira. No centro, uma avenida, um coreto para msica. Em torno, frades de cantaria, de cabeas redondas, tendo ao pescoo umas argolas, onde eram amarrados os cavalos


dos comboeiros, animais que traziam cargas e conduziam mercadoria. No "Caf Iracema", como vinha dizendo, sentei-me numa banca e pedi um bife com arroz e farofa. Vem um sargento de polcia e senta-se na mesma banca. Disse ao garo que queria comer. Sacou da cintura um punhal de mais de dois palmos de lmina, espetou-o com fora no meio da pequena mesa e, de sobrecenho fechado: "Nesta mesa, quem manda Nossa Senhora das Dores e meu punhal..."
Senti uns arrepios... Trazia comigo uma pistola Mauser, com bala na agulha. Mas, pensei na mulher e nos dois filhos, que havia deixado em Belm e de quem nunca me tinha separado. Era uma arma igual quela com que eu havia me defendido, no dia 24 de janeiro de 1912, nas vsperas de minha deportao. Aparentei calma e fiz que no via o espeto comprido de ao que ainda balanava, enfiado na mesa, e nem tampouco percebia a afronta.
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O inferior pertencia ao 2o Batalho de polcia, comandado por Pedro Silvino de Alencar. Compunha-se dos jagunos, escolhidos dentre os que mais se distinguiram nas escaramuas contra o Governo do Coronel Marcos Franco Rabelo. Os de maior confiana eram os que tinham vindo da terra de meu Padrinho e de Nossa Senhora das Dores, Padroeira da Meca do Fanatismo.
Poucos dias depois, o seu Comandante foi demitido pelo telefone, na Assemblia Legislativa, onde exercia o mandato de deputado. O Batalho foi metido em trem expresso e mandado para o interior. No fim da linha, fi desarmado. Deu essa ordem o Coronel Benjamin Liberato Barroso.
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JLIO DE MATOS IBIAPINA
Quando, em 1912, o Marechal Hermes da Fonseca mandou botar pra fora do Governo do Estado o Dr. Antnio Pinto Nogueira Accioly, fui considerado elemento indesejvel no Cear. Por isso os rabelistas, que se asse-nhorearam do poder, deportaram-me. ~ Mas, merc de Deus ou do Diabo, concederam-me liberdade de escolher o lugar que preferisse, dentro do territrio nacional. Escolhi Belm, onde tinha uma cunhada, casada com o engenheiro Jos Freire Sidrim. Para ali embarcaram-me com a famlia e as roupas do corpo. Porque, em Maranguape, haviam queimado^ tudo que eupossua. No ano d 1913, entanto, as coisas rvifaram. Pinheiro Machado, que, de muito vinha sendo, de fato, o gestor e dirigente da poltica nacional, por detrs dos presidentes da Repblica, deu mo forte ao padre Ccero Romo Batista, amigo tradicional da famlia Accioly. O sacerdote caririense, apoiado pelo general gacho, mandou que seus afilhados em seu nome e em nome de Nossa Senhora das Dores, viessem a Fortaleza e expulsassem Satans da cadeira de Palcio, onde estava assentado. O resto sabido.
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