<%BANNER%>
Os dramas dolorosos do nordéste
CITATION THUMBNAILS PAGE IMAGE ZOOMABLE
Full Citation
STANDARD VIEW MARC VIEW
Permanent Link: http://ufdc.ufl.edu/AA00000259/00001
 Material Information
Title: Os dramas dolorosos do nordéste a ̓luz crúa da verdade
Physical Description: 74 p. : ill., ports. ; 19 cm.
Language: Portuguese
Creator: Abreu, Pedro Vergne de
Publisher: Jornal do Commercio
Place of Publication: Rio de Janeiro
Publication Date: 1930
 Subjects
Subjects / Keywords: History -- Brazil -- 1889-1930   ( lcsh )
Genre: non-fiction   ( marcgt )
 Notes
Statement of Responsibility: Pedro Vergne de Abreu.
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 03624476
Classification: lcc - F2537 .A27
System ID: AA00000259:00001

Full Text
PEDRO VERGNE DE ABREU
OS DRAMAS DOLOROSOS
DO
NORDESTE
rv luz CRn on vERDnDn
RIO DE JANEIRO Typog. do Jornal no Commeticio Rodrigues & C.
1330


PEDRO VERGNE DE ABREU
OS DRAMAS DOLOROSOS
DO
NORDESTE
TV LUZ CRUA Dfi VERDADE
RIO DE JANEIRO Typog. do Jornal do Cokuwcio Rodrigues A C.


"Sunt lacrinux rerum et mentem mortalia tangunt."
"Mortae mUerla ha que o pensamento "Sacodem; to at lagrima do faeto."
(Da "ENEIDA", de Virglio ; frad. Coelho de Carvalho.)


Ao Leitor
... "Da veniam"...
Pela primeira vez, em minha j longa e sempre la-oriosa existncia, sou obrigado a expor venda um fru-cto mirrado das minhas lucubraes, affeito que estou e viciado desde minha mocidade acadmica a dar, ocrocer e distribuir gratuitamente quanto hei escrevinhado e publicado desde 1882: conferncias, trabalhos ou ensaios de critica, discursos, pareceres, relatrios c memrias... No, porque me houvesse convencido, bem tarde e o ms horas, de que "offerecido no tem preo"... e de que ningum agradece o que no encommendou... Jamais me penitenciarei de minha inveterada ingenuidade.
Mas, no caso presente, fallo ou escrevo em nome e em defesa de milhares de victimas angustiadas no seu desamparo, e cujos brados de dr no podem ficar esquecidos entre os papeis de refugo.
Exponho a venda este folheto, que uma serie de documentos humanos, vividos e amargurados; no somente


porque cada vez me conveno mais de que s compra livro quem o quer ler ; como porque o produeto liquido da venda destinado a fins de beneficncia, e a ser appli-cado subscripo por mim iniciada no Cip, em favor das familias de officiaes e soldados da Policia Bahiana, trucidados nas emboscadas de "Lampeo", e a qual deixei confiada ao patritico e denodado "Dirio de Noticias".
Rio, Setembro de 1930.
Verone de Abreu.
Rua de S. Clemente n. 474.


O MARTYRISADO DO "FUNDO"
Cel Joaquim Jos SanfAnna, octogenrio, vlctima de Lampeo


"Os dramas dolorosos do Nordeste"
Venho desobrigar-me do sagrado compromisso tomado com os meus patrcios, pobres c honrados sertanejos do nordeste, cujo admirvel herosmo me commoveo intensamente, nos 18 dias, em que recentemente convivi e com-munguei com a sua bondade, sem reflhos, sem limites. Raa de bravos e de estoicos! Vivendo annos seguidos no labor da terra e no amanho do seo gado, uma estao de ingrata estiagem basta para tudo consumir e devastar, deixando-lhes apenas a casa e o restolho das culturas perdidas: nem assim emigram, ou abandonam os lares rese-quidos, confiantes de que ser sufficiente uma orvalhada bemdita de inverno para reflorir em bnos e maravilhas a fecundidade da terra prdiga, que compensar em farturas os estragos da scca cphemera.
Os brasileiros de todos os centros de requintada cultura, que vivem no luxo e conforto da civilisao littora-nea, no podem ter uma ida da vida improba do sertanejo, ou do simples trabalhador rural, que solitrio e sem visinhos, lida dia e noite com o deserto c com a naturesa spera, sem outras communicaes com o resto do mun-


do, seno a que lhe vem da missa aos domingos, no arraial, ou da passagem semanal do estafeta do correio, que de viva voz acaso transmitte alguma noticia das cidades.
Ordeiros, pacientes, abnegados, tementes a Deos, lei e autoridade, no conheo gente mais util e laboriosa e que melhor merea a proteco do poder publico, que nada lhes d nem assegura, e que explora e aufere s lucros da sua industria e actividade.
Nos 16 annos de minha mocidade, em que representei um districto sertanejo da Bahia, no Congresso Estadoal, e depois no Nacional, consagrava semanas das minhas ferias parlamentares a visita dos meos remotos commit-tentes, e era com verdadeiro prazer que partilhava as suas festas e alegrias.
Nunca descobri naquella ba gente o minimo interesse venal: os votos que aos milhares me prodigalisavam, em seis eleies successivas, nunca me custaram um real, nem um favor pessoal, alm das poucas honrarias e nomeaes da Guarda Nacional, que legitimamente eram distribudas aos mais dignos.
O sertanejo do Nordeste afasta-se muito do typo com-mum dos nossos outros conterrneos do Sul, ou do Centro do Estado, pela lucta constante em que vive com toda a sorte de inclemencias e ingratides do Destino, accres-cendo que s a caatinga adusta e prfida, entremeada da vegetao mais hostil e torturante, concorre para sitiar o vivente no terreiro da sua cabana.
Pois um povo assim, j perseguido por tantas contra-riedades, que est aturando, ha mais de tres annos, a ca-


lamidade dc uma ronda feroz e sanguinria de malfeitores que, no periodicamente, como as sccas, mas todos os dias, dizima, destre, rouba, mata e atassalha, no s os gados e a fazenda, a criao e a lavoura, mas a honra t a innocencia dos scos lares modestos, a castidado do
suas filhas e mulheres____ Deos de infinita bondado! O
que fizeram, que torvo crime commetteram aquollas po-voaes do Nordeste para soffrerem a maldio desses forasteiros corvos, que em nuvem desceram um dia dos sor-tes do Gariry, no Cear, e da sombria e fatdica manpo do Padre Ciccro?!...
Virgolino Ferreira, o hediondo "Lampeo", mulo dos Pebronios lascivos e devassos, que em qualquer outro paiz j teria sido lynchado pelo povo em fria, uma creao espontnea do cangao de Joazeiro.
Protegido e aaimado pelo Padrinho, cujo nome a senha bradante das suas tocaias, chegou em dias tristes de recente passado, a ser arvorado em Capito honorrio do nosso denodado exercito e a ser armado, assoldado e municiado custa das nossas caixas militares... Terminada a campanha contra Luiz Carlos Prestes e finda a commis-so que a Virgolino confiaram o Padre Ciccro Romo I3a-ptista e seo scio Deputado Floro Bartholomeo, entendeo o contractado de continuar nas armas, e ento circumva-gou as suas faanhas no mais pelos antigos domnios dos Carirys c de Joazeiro; quiz conhecer o paiz e incur-sionou por Goyaz e Piauhy e pelos estados limitrophes do Cear.
As visitas do ex-Capito tornaram-se to freqentes e importunas que os governos dos Estados do Nordeste, al-


vejados pelo indesejvel flibusteiro, viram-se forados a convocar uma conferncia e formar uma liga defensiva para impedir a entrada do bandoleiro e do seo rancho nos respectivos territrios, rechassando-os fora de armas, "manu militari". Essa conferncia, realisada no Recife, o em que tomaram parte representantes ou os prprios Chefes das Policias Estadoaes do Nordeste, poz em pnico os protectores de "Lampeo" no Cear, entre os quaes, alm do famoso Padre Cicero Romo Baptista, figuravam outros Chefes Polticos de polpa e o prprio Io Vicc-Pre-sidente d'aquelle Estado.
Decentemente esses figures, que haviam assignado um "farrapo de papel", proscrevendo Virgolino Ferreira, no podiam continuar a mantel-o sob as azas de sua influencia e autoridade... Fizeram uma paz separada e pactuaram com "Lampeo" o seo afastamento do territrio Cearense, mediante grossas compensaes e vantagens, entre as quaes, certamente, discreta proteco distancia e a garantia do asylo em caso de desesperada derrota final. E assim "Lampeo" desceo dos seos antigos pagos para estabelecer e fixar domicilio no vasto rinco do Nordeste Bahiano.
E' sabido que uma litteratura mals e sem elevao pretendeo disfarar esse hediondo e torpe salteador, sem sombra de bravura innata (pois s acommette e peleja contra sertanejos inermes, velhos e mulheres sem defesa) em uma cathegoria de "heres e anormaes", empres-tando-lhe quasi a indomita virtude dos lendrios Rolando* e fobins... E' a inverso mais inslita da historia e


da psychologia; pois nunca um bravo se confundir com um covarde, que s se bate em emboscadas e tocaias, e no investe jamais a peito descoberto, contra foras mesmo inferiores. "Lampeo" um facinoroso gatuno de estradas, complicado de um sanguinrio e lobrego Febronio (o infame tarado que no Rio de Janeiro cevava a sua lu-bricidade em crianas at a paralysia e a morte!...) No ha, no consta em toda a srie infinita de crimes e atrocidades commeltidas por esse torpe degenerado, e pela c-fila infame de seos sequazes, um s trao de humanidade, de cavalheirismo, de desprendimento, de valentia: tudo mesquinho, tacanho, bestial e se resume em baixa extorso de dinheiros e de bens alheios, por mnimos que sejam.
Na Fazenda do "Fundo", o "here-bandido" (sic) requintou de crueldades e vilesas contra um veneravel ancio, coberto de cans alvissimas, octogenrio de aspecto imponente e de fidalga educao, com quem qualquer outro homem s teria o gesto de beijar-lhe as mos. Essa victima de "Lampeo", puro caucasiano, de tez alvis-sima, lembrou-me por tal forma a figura do Conde Lcon Tolstoi, que no me quedei, emquanto o ouvia, de reter na memria as paginas de suas immortacs creaes littcra-rias. E na fazenda do "Fundo", cm volta, do velho mnr-tyrisado, s havia na noute dc 30 de Julho deste anno mulheres e crianas, contra as quaes os miserveis Rolando* e Robins, de baixa extraco, mantinham apontados pu-nhaes e clavinotes!...
Esse martyr, Gel. Joaquim Jos dc SanTAnna, que teve as mos quasi amputadas e que deve seo restabelecimento interveno do distineto medico Dr. Bcnjamin


10
Salles, poder depor, como fez no Cip ante numerosas lestemunhas, que jamais pisou solo bahiano uma fera mais infame, sanguinria e torpissima do que esse covar-dissimo Cearense, afilhado e discipulo do famoso Padre Cicero Romo Baptista, ex-Deputado Federal de Joazeiro e Carirys.
Na alma dessa corja vil no ha seno escria de lama e lodo, sanie immunda e repugnante... para empestar os caminhos por onde passam e os lares que devastam.
Prometti aos meos conterrneos, no s do Nordeste Bahiano, mas de todas as cidades e da Capital daquelle generoso Estado, levantar, do alto desta Tribuna secularmente consagrada a todas as causas justas e liberaes, c da grande e nobre imprensa do Rio de Janeiro e de So Paulo, um grito de compaixo e de piedade pelos nossos desamparados irmos sertanejos, vergastados, opprimi-dos, vilipendiados e escurraados, por uma horda de infames hyenas, que no se cevam somente no sangue e no saque de bens e de cousas materiaes, mas na honra e na pudicicia das mulheres e das crianas sertanejas!...
O esto de indignao e de revolta pelo que eu vi, ouvi, e assisti nas circumvisinhanas do Cip, do Soure, do Amparo e do Tucano, dentro mesmo da culta e prospera cidade de Alagoinhas, (orla insignificante da extensa regio assolada e dominada sem peias, nem contraste, pelas columnas do hediondo "Lampeo" e dos seos satellites, "Coriscos" et reliqua) ; a onda de vertiginoso pnico que


11
invadia povoaes inteiras, lanando-as para fora dc suas casas, pelos mattos, s no pode commover coraes impe-dernidos e despojados de toda caridade christl...
Brasileiros de todos os Estados, imprecae ao Deos Todo Poderoso o termo de tantas angustias e de tanta dr, visto que os poderes da terra se confessam impotentes para dar cabo das feras humanas, desatreladas nas caatingas do Nordeste, contra mulheres e crianas innocentes!...
Deixei o arraial do Cip, no dia 12 do Agosto, confiante e tranquillo com os meios de resistncia e do defesa ali improvisados por alguns homens de ba vontade, com o concurso dos bravos soldados do destacamento policial e sob o commando do respectivo Sargento, (este sim, um here de verdade); mas ao passar no termo do Soure, tive meo automvel embargado logo na entrada da Villa pelo respeitvel e joven Vigrio, P<>. Antnio Gaitto, que frente de numerosos parochianos, invocava o meo apoio e commiserao, para que levasse ao Governo do Estado e do Paiz, os seos justos clamores. Para resistir s hordas de "Lampeo" e de "Corisco", havia apenas cinco ou seis soldados mal municiados; e o povo inteiro som armas, nem recursos, estava fechando e abandonando suas casas e negcios... No arraial do "Junco", florescente osis em meio das caatingas, os mesmos clamores c lagrimas in-contidas: A escola publica fechou-se deante do pnico geral e a professora foragio-se sem destino. Um negociante, com quem me communiquei emquanto fazia ligeiro re-pasto, e cujo armazm bem sortido era ndice de prosperidade, declarou-me seo propsito de tudo sacrificar e abandonar, para salvar a mulher e os filhos das infmias


_ -IO _
de "Lampeo". Desle arraial do "Junco" tive de transportar at Alagoinhas, por sentimento de caridade, 14 pessoas (mulheres e crianas) no meo automvel e no caminho de bagagem que me acompanhava: e o pnico dessa pobre gente era tamanho que fugiram com a roupa do corpo, sem uma trouxa, ou sacco qualquer, na precipitao de aproveitarem aquella conduco gratuita e inesperada! E esse era o espectaculo desenrolado em todo o serto Nordestino, naquelles dias de desespero e assombramento!
Sc isso no caracteristicamente uma "calamidade publica" generalizada, enquadrada no art. 5o da Constituio Federal, no sei que outra seja igual ou maior para justificar a interveno dos altos poderes da Nao.
Mas para muita gente que se entona de estadista, a calamidade publica s visvel e credora de atteno quando affecta cidades cultas e populosas, onde basta uma ameaa de febres ms ou epidemias para em alarido alarmar o mundo inteiro: o camponio Nordestino nas-ceo para gemer e soffrer todas as calamidades, sem remdio, nem soecorro...
Assim no pensavam, nos tempos de antanho, os governadores com quem mais intimamente convivi e cooperei na poltica do meo Estado; tres principalmente, legitimamente filhos do serto: os Drs. Jos Gonalves da Silva, Joaquim Manoel Rodrigues Lima e o Cons. Luiz Vianna para os quaes os habitantes do interland do Estado mereciam as mesmas consideraes e provimentos que os do littoral e das cidades adiantadas e cultas.
Deste ultimo recordarei um exemplo significativo, que vem a talho de foice.


13
Quando em Maro dc 1897 consumou-se em Canucos o trgico e completo destroo da expedio Moreira Gcsar e a brigada inteira dissolveo-se em pnico, fugindo os que tiveram a vida salva, abandonando pelas caatingas armas, patronas e peas inteiras de fardamento, c chegavam a Monte-Santo e Queimadas, como almas do outro mundo, sem voz, nem aspecto humano, o Coronel Souza Menezes, que ali ficara dirigindo os servios de rectaguar-da e hospitaes de sangue, aprestou uma locomotiva o dali partio aforradamente, sem parar, seno para tomar agua, estacando na Estao da "Calada", sem flego, nem calma, para narrar o que occorrera...
Vozes c boatos foram immediatamcntc espalhando pela cidade as mais apavorantes noticias... No Palcio da Victoria foi o Cons. Vianna sorprehcndido com a noticia do desastre e de que "os jagunos de Antnio Conselheiro desciam em tropel at a Capital"... Era uma tarde sombria e triste e poucos amigos rodeavam o Governador: Lembro-me, como se estivesse vendo e ouvindo: O Luiz Vianna levantou-se como impellido por invisvel mola e, maior no gesto e na estatura do que nunca parecco-me, disse para o mensageiro: "Que fiquem l, ou que venham at aqui, a situao no se modificar: Promelto levantar contra elles todas as foras do Estado e da Unio, e hei de vencel-os desta vez!"
Aos olhos daquelle grande poltico e administrador avisado, tanto valia a aggresso sua capital, como aos outros ncleos do Estado: "em nada se modificava o at-tentado"...


14
lias o que sobrepe-se no exame da temibilidade e perigo social da malta assoladora do Nordeste, que no se trata de criminosos vulgares, ros de policia, loca-lisados em uma restricta e determinada regio deste ou daquelle Estado: Lampeo desde 1926, com a sua hedionda mtula, percorre quatro ou cinco Estados differen-tes, saltcando de uma a outra fronteira, e s ultimamente tem se demorado, ora na Bahia, ora em Sergipe. Com as mclindraveis susceptibilidades da nossa federao, desde que cllc transpe as fronteiras do Estado limitrophe, cessa ahi instantaneamente a perseguio dos que vinham no seo encalo, e fica o bandido no goso de temporria inco-lumidadc. S, portanto, o Governo federal, com os seus privilgios soberanos poder levar avante e a termo uma campanha decisiva contra essa horda de salteadores.
No aceuso, nem censuro, os meos amigos dirigentes do Governo da Bahia, fao justia s suas intenes e ao seo patriotismo: Mas tive a franqueza de dizer-lhes pessoal e verbalmente: "Gesta tua non laudantur"...
No era de louvar o excesso de escrpulo e timidez em recorrer interveno federal, em um caso genuinamente de perigo e calamidade publica e social: No era tambm de louvar a excessiva parcimnia com que se estava custeando a deficientissima campanha contra "0 terror do Nordeste", a ponto de se gabarem os Secretrios do Estado "por no se terem at agora excedido as verbas 4o oramento ordinrio..."
A ordem e a segurana publica constituem a necessidade fundamental, primordial de um Estado: E' o velho brocardo: "alus populi, suprema ler".


15
E essa segurana da ordem to essencial que basta a mais longnqua ameaa, ou suspeita de perturbao para influir, abalar e periclitar o credito publico, e determinar graves oscillaes do seo thermometro , que a tabeli de cmbios estrangeiros.
Todos os sacrifcios feitos em bem da ordem publica, pelo restabelecimento e consolidao da segurana geral, da paz emfim "luta pax", so larga e immediatamen-te compensados com a melhoria e restaurao de todos os valores, com o augmento das rendas publicas e convalescena geral das foras econmicas da Nao.
Um povo, um Estado, pode fazer restricos temporrias, reduces mais ou menos demoradas com a sua instruco em todos os gros, com a sua apparelhagem industrial, com as suas obras de construco de estradas, portos e emprehendimentos teis ou sumptuarios: mas com o seo exercito e armada, com as suas engrenagens de defesa interna e externa, toda a reteno ou negaa um suicdio ou um crime de leso patriotismo.
Ora, Lampeo um inimigo da paz publica, um dos mais nefastos entraves progresso econmica de uma zona do Estado da Bahia, maior e talvez mais populosa que os dous Estados juntos de Sergipe e Alagoas. Toleral-o, a pretexto de economia, mantel-o em virulenta nocivida-de contra o povo inteiro do Nordeste.
Nos tempos hericos de Roma, quando mais accesas eram as hostilidades e perigos da concurrencia Carthagi-neza, um dos seos personagens mais videntes e sinceros
Cato, o Antigo, para avivar a vigilncia dos Cnsules,
no esquecia um momento o lemma que adoptou e com


lo-
que iniciava e terminava todas as suas cartas e mensagens, discursos e oraes: "Carthago deve ser destruidal Delenda Carthago"!
Brasileiros! em nome de milhares de compatriotas nossos, de muitas centenas de mulheres e crianas prostitudas e orphanadas, nos campos desertos do Nordeste, sem que lhes acuda um brado de soccorro e piedade, imitemos Gato, e exoremos todos os dias, at que Deos ou os homens nos desafoguem o corao: "Lampeo deve ser destruido!" MORTE A LAMPEO!
Rio, 7 de Setembro de 1930.
Pedro Vergne de Abreu.
(Ex-Deputado Federal pela Bahia e Professor de Direito da sua Faculdade). (*)
NOTA
Em um recente livro do Sr. Gustavo Barroso ( "Almas de Lama e de Ao"), l-se pagina 90, sob a epigra-phe "Capito Virgolino Ferreira, o Lampeo ":
"No faz muito tempo a imprensa brasileira com-mentou a entrada do cangaceiro Lampeo na cidade cearense do Joaseiro, onde foi recebido com todas as honras
() Bete capitulo foi gentilmente publicado na ntegra pelo "Jornal do Commercio" do mesmo dia 7, em sua secc&o editorial, honra inslgne cora que me distingue a sua illustre Direco ha mais de um quarto de sculo.


17
musica, repique de sinos e cortejo civico, em quo tomaram parte as autoridades locaes.
Chamado a fala, por um jornalista de Fortalesa, o Padre Cicero, rei do serto, mansamente declarou que o caso no podia deixar de ser assim, porque Lampeo viera ao Joaseiro na boa f dos tratados. Floro Bartholomeu mandara chamal-o para se incorporar s guerrilhas que organisava contra os revoltosos errantes.
No seria, portanto, digno mandar prender dentro da cidade o homem que nella penetrara a convite. E foroso convir que, do ponto de vista da honra sertaneja, o padre tinha razo.
E' verdade que Lampeo foi alli com muito atrazo. Floro Bartholomeu j morrera e fora enterrado, quando elle chegou nova capital do Cariry. A culpa, porm, no foi sua e sim do meio em que vive"......
O que faz reflectir, e d que pensar a ns outros, a simplicidade do Rei do Cangao Cearense: para Bua Reverendissima no ha meio termo: "ou metter em ferros, ou carregar em charla, com musica e foguetrio..."
"E viva o Padre CiceroI..."




ESTADO MAIOR DA DEFESA DO CIP'
Da esquerda para a direita:
Dr. Benjamin Salles, commandanle em Chefe. Dr. Petronlo Dantas, commandante dos pelotes civis. Dr. Achilles de Oliveira, commandante do peloto de ligao. Dr. Joo Dantas, ajudante do commandante em chefe. Sargento Caetano de Arajo, commandante dos pelotes militares .


O terror do Nordeste
0 depoimento de um bahiano illustre
Do eminente bahiano dr. Pedro Vergne de Abreu, ora no Cip, em goso de uma estao de guas, recebemos, para publicar, o seguinte artigo-telegraphico, que um sensacional depoimento sobre a situao do nordeste, em face do facinora Lampeo:
MCIPO', 2 Somente por cortezia e deferencia s autoridades superiores do Estado, deixei de communicar-vos os graves acontecimentos, que occorrem nesta rica zona do nordeste desde o dia 30 de julho, e que foram objecto de telegrammas reiterados e urgentes ao sr. Governador do Estado, ao sr. Secretario da Segurana Publica e ao senador Pedro Lago.
SEMEADOR DE INFMIAS
Cessam, porm, todas as condescendencias, ante o dever, que me imposto, de tudo informar, com a maior


20
franqueza e lealdade, denunciando aos dirigentes da Bahia e sua imprensa os crimes monstruosos e devastaes sem numero ,que esse torpe salteador e estuprador vem espalhando por onde passa, e isso impunemente, pois sae illeso e no soffreu at hoje um arranho!
UM AVISO TERRVEL
No dia 30 de julho, em que aqui se realiza a feira semanal, verdadeira exposio de todos os mais variados productos da grande e da pequena lavoura, rumorosa e farta colmeia de todas as maiores abundancias, que eu estava longe de imaginar, aqui recebemos, s 3 horas da tarde, uma carta autographa do intendente da Ribeira do Amparo, a trs lguas de distancia deste arraial, commu-nicando-nos a presena alli do famoso bandido, fazendo as suas costumadas ameaas e tropelias, e exigindo um tributo de guerra de dois contos de ris; e advertindo-nos mais o missivista que dalli elle se encaminhava para aqui e para Gannas, povoados equidistantes.
PREPARANDO A RESISTNCIA
Ns, o dr. Agenor Miranda, engenheiro constructor das linhas telegraphicas, o sr. Domingos Gastro, superintendente da Estao das guas, e outras pessoas gradas, aqui em uso dos banhos thermaes, resolvemos, de harmonia com o bravo sargento commandante do destacamento local, organizar forte resistncia e defesa do nosso


21
arraial, e, em poucas horas, tinhamos em armas 40 homens decididos, cada um com sua carabina ou rifle e cin-coenta cartuchos, e que, divididos em seis pelotes, guardaram e rondaram as entradas da povoao e a Estao do Telegrapho, velando a noite inteira sob as armas.
O infame bandido chegou a defrontar esta povoao, a dois kilometros, mas recuou, como sempre faz o miservel covardo, ao saber pelos seus esculcas que estava-mos resolutamente em p de guerra, bem armados e municiados, e que, alm dos pelotes, cada tabaro que possua uma velha garrucha ou escopeta estava prompto para combater.
Em vista disso, limitou-se a depredar e varejar a casa mais remota e isolada, do Sub-delegado de Policia local, e levou-lhe, em refm, um filho menor.
Depois de to desaforada incurso em povoaes que, modernamente, graas s estradas de ferro e de rodagem, distam da Capital da Bahia dez a doze horas de viagem, seria verdadeiro crime de leso-patriotismo, se no se movesse a policia do Estado, em perseguio dos bandoleiros, ha tantos annos aqui tolerados e insta 11 a dos!
PROVIDENCIAS INNOCUAS
Determinaram a perseguio, mas, com tanta parcimnia e ridcula imprevisd, que o bandoleiro recebeu numa emboscada o contingente de 15 praas, e dizimou quasi todas, matando o inditoso tenente que o acompanhou, um primeiro sargento e tres soldados, ferindo gra-


22
vemente outros cinco e saindo da refrega mais lampeiro, para mais arrojados commettimentos.
DEVER QUE SE IMPE
A' Bahia, sempre herica e briosa terra, assiste o dever de honra de limpar e expungir do seu slo sagrado esta infame "bandeira de ros", torpissimos e ignbeis que, devastando e nodoando lares e famlias, talando campos e fazendas, esto causando maior calamidade que uma successo de seccas e inundaes. Urge dominar e arcabuzar esta corja de feras que se mantm ha tantos annos, contra todas as leis humanas e divinas.
Por muito menos, em 1896, por causa de um paranico, tomado de mania religiosa, e que s se tornou malfico, quando o provocaram, roubando-lhe as madeiras que havia comprado ou contractado em Joazeiro, para a Igreja de Canudos; por muito menos, repito, por causa do infeliz Antnio Conselheiro, que a ningum matava, nem roubava, nem estuprava, mas tornara-se infenso ordem social, o cons." Luiz Vianna requisitou e obteve interveno federal, para, com seguro xito, extinguir aquel-le foco de rebeldia.
E' dolorosissimo que, no mesmo dia, em que a Bahia inteira recebia, na sua Capital, em galas e festas, a honrosa visita do benemrito Presidente eleito do Brasil, dr. Jlio Prestes, um miservel bandido, peor que quantos salteadores tm assolado nossos sertes, nestes ltimos 50 annos, nos escarrasse nas faces uma golfada de sangue dos nossos bravos e dignos soldados, que morreram e sou-


23
beram morrer, com honra. E nesses dias de luto e dr para os nossos irmos do nordeste, muitas almas ingnuas e supplices perguntam aos Gos de onde lhes ha de vir o soccorro: "se ha Governo neste paiz"!?
Amigo exaltado e cada vez mais cioso e apaixonado do meu Estado, da sua gente e das suas glorias e tradies, concito a sua nobre imprensa a se pr de p e, unanime, frente da vindicta publica, solenne, fragorosa e immediata, contra o famigerado Virgolino, que tanto sangue tem derramado em nossa terra maternal o tantos lares tem conspurcado, por toda a parte.
Pelo que tenho assistido de perto, e pelas informaes de coisas atrozes, que de tantos recebi, nesta viagem, tenho o dever de exhortar ao meu velho e sempre querido amigo senador Pedro Lago, "se por desventura persistir essa mancha ignbil e lutulenta na Bahia, por mais tres mezes e at o dia da sua posse, 8. Exa. s tem um artigo primordial do programma inaugural do seu Governo: "Guerra, guerra incessante, guerra de morte, at suppri-mir Lampeo e o seu nefasto bando". Saudaes cordiacs (a) Pedro Vergne de Abreu, inspector de Seguros, em commisso neste Estado."
(Do "Dirio de Noticias", da Bahia, n. 7.958, de 4-8-930.)




Os pelotes civis, com o seu commandante, Dr. Benjamln Sallou (o 1" de p esquerda)


Lampeo!
Falia, de novo, o Dr. Vergne de Abreu
CIPO', 5 Confirmo meu ultimo telegramma. As atrocidades e tropelias perpetradas covardemente por "Lampeo e seu rancho", no recente "raid" por esta zona, seriam sufficientes para levantar em toda a Bahia um s e unisono brado de horror e maldio. Resumirei, aqui, apenas, algumas, que me chegaram, de fontes absolutamente criteriosas e insuspeitas, abonadas por um respeitvel sacerdote.
Na fazenda "Fundo", a trs lguas deste balnerio, Lampeo maltratou o seu proprietrio ponta de punhal e tatuou-lhe nas costas uma cruz, e, depois de tudo roubar e destruir, aleijou, para sempre, o pobre velho, sec-cionando-lhe os tendes dos pulsos!
Mais adiante, no Tucano, matou ou castrou quatro pobres rapazes, deixando-os agonizantes, na estrada! E assim a sua rota marcada por atrocidades sem nome, devastando


26
tudo e destruindo o que no pde roubar e conduzir; e assim temos assistido, envolta em luto, em sangue e em infames violaes de virgens e mulheres, a passagem desse "Thugg", sem entranhas, pelos nossos sertes!
Tudo quanto resumo confirmado por officiaes da nossa briosa e herica policia, ineptamente conduzida ao matadouro, em pequenos pelotes de quinze homens. Esquecem que, no quadriennio do dr. Arthur Bernardes, o capito honorrio Virgolino, vulgo Lampeo, foi contra-ctado pelos seus protectores do Cear, para auxiliar as tropas legaes contra o revolucionrio Luiz Carlos Prestes, e, nessa occasio, forneceram-lhe fartamente armamento aperfeioado e munio de guerra, em copia tal, que ainda hoje com as armas do nosso brioso exercito que Lampeo tiroteia de emboscada a nossa policia.
Os nossos governantes devem recordar-se que Canudos destroou as tres primeiras expedies militares, dirigidas contra aquelle reducto, onde, a principio, no havia mais de cem combatentes validos. E a terceira foi uma brigada inteira, dos melhores elementos do nosso aguerrido exercito, commandada pelo bravo coronel Morefca Csar, coronel Tamarindo e outros brilhantes officiaes, que foram sacrificados e mortos na primeira arremettida.
Foi essa grande catastrophe que obrigou o Governo Federal a apparelhar um verdadeiro corpo de exercito, sob o commando do general Arthur Oscar, com o concurso da fina flor da nossa classe militar, de todas as graduaes, desde os generaes at a mocidade das escolas, auxiliados pela nossa sempre herica policia, sob o commando do saudoso major Salvador Pires, e por con-


27
tingentes da policia dc outros Estados, como do Par, to remoto.
E todos os bahiaaos devem estar lembrados desse anno terrvel de 1897, em que, durante mezes, o canho atroou sob os cos daquellas longnquas paragens do nordeste, consumindo muitas vidas preciosas, custando muito sangue e muito dinheiro Bahia e ao Brasil. Tambm a lio e o castigo foram tremendos, durssimos e sem d, nem piedade: em Canudos no ficou em p um s homem nem uma pedra, para memria do exicio final.
Contaram-me testemunhas das ultimas batalhas de outubro que, no fim de tudo, e quando as tropas sitiantes entraram no deserto Canudos, restavam vivos, apenas, dos raros jagunos combatentes, e enfurnados numa espcie de catacumba ou cisterna, uma dzia, mais ou menos, de figuras esqulidas, que no se quizeram render nem sair dalli. Houve ordem, que foi cumprida, para expellil-os a fogo e kerozene, mas nem assim elles se renderam, e ficaram todos calcinados. Uma verdadeira e implacvel tragdia eschyliana foi o scenario final de Canudos! E, por Deus eu juro... eu, que armei mais de trinta homens no meu districto de Mundo Novo contra aquella ja-gunada de Antnio Conselheiro: estive e estou convencido de que aquelles fanticos no eram ros de crimes oommuns... Comparados com os miserveis e feroaes bandoleiros do capito Virgolino, eram pombas sem fl.
No dia 7 do corrente, por nossa iniciativa e de algune amigos, ser aqui celebrada missa fnebre em suffragio s almas do denodado tenente Oeminiano dos Santos e de


28
seus hericos companheiros, mortos na traioeira emboscada de 1* do corrente, em Mandacaru,
Estamos tambm promovendo aqui uma subscripo publica em favor das viuvas e filhos dos nossos mallo-grados patrcios, victimas do dever, e o producto dos donativos levarei V. Ex., para que se digne, pelo seu conceituado "Dirio de Noticias" continuar essa obra de solidariedade e patriotismo, pois me consta que todos os desapparecidos deixaram familia numerosa e pobre.
A Bahia, sempre generosa, no pde esquecel-os. Saudaes affectuosas. (a) Pedro Vergne de Abreu."
(Do "Dirio de Noticias", da Bahia, n. 7.961, de 7-8-930.)


Destacamento policial do Cip, sob o commando do bravo Sargento Antnio Caetano de Arajo ( o que est sentado no primeiro plano, tendo cabea uma boina)


Carta do Prefeito da Ribeira do Amparo
Sargento Commandante CIP'.
Tive carta LAMPEO pedindo dois contos de ris, caso no mande noite estaria aqui, seguiu direco das Cannas, noticia certa o portador vaqueiro Dr. Joo Ja-curicy.
Veja se manda reforo urgente.
30|7|i930.
(Ass.) Vicente Christo.




Defesa do Cip
(RELATRIO DO SECRETARIO DR. ACHILLE8 S. DE
OLIVEIRA)
No dia 30 de julho, quarta-feira, as dezoito praas do destacamento e mais 20 paisanos, sendo cinco banhistas, se constituiram em defensores do Cip, formando seis pelotes. O Dr. Agenor Miranda tomou conta do Telegrapho e ahi permaneceu toda a noite providenciando e se com-municando com as outras estaes. As familias foram recolhidas ao "Radium Hotel", onde o Dr. Vergne de Abreu e o Sr. Domingos Castro animavam todos e providenciavam quanto extra-alimentao e conforto de todos.
Todo o trafego para outras localidades foi suspenso. Os pelotes (3) militares ficaram commandados pelo brioso sargento commandante do destacamento. Esses tres pelotes e mais um peloto civil, este commandado pelo Dr. Petronio Dantas, occuparam, entrincheirados, os quatro pontos cardeaes da villa. O quinto peloto civil, estaciona-


32
do no hotel, ficou sob o commando do Dr. Benjamin Sai-los, commandante chefe da defesa. E ficou commandan-do o peloto volante e de communicao inter-pelotes, sendo este peloto o maior para casos de soccorros, o Engenheiro Achilles Oliveira. Assim, todos permaneceram nas suas posies desde o anoitecer at o raiar do dia. Durante a noite o peloto volante fez varias excurses pelos taboleiros, quando prenderam varias pessoas suspeitas, inclusive ex-guias do famigerado Lampeo, o qual, cerca de 22 horas, chegou a passar por esta villa na distancia de um kilometro e, apesar do desejo de saqueal-a, desistiu de atacar e seguiu pela caatinga fora em virtude do conhecimento de sua defesa.
Todos os civis que no possuam armas receberam da Empresa "rifles" com cincoenta balas.
Nota Cip teve tambm a sua victima: Um dos nossos rondantes o paisano Jos Dantas, alta noite, ao saltar uma pequena valleta, caiu e feriu-se desastradamente com a prpria carabina, vindo a fallecer poucos dias depois.


Grupo dos defensores do Cip em descanso momentneo


Victimas de Lampeo nas localidades vizinhas ao arraial do Cip
(RESENHA DOS FACTOS OCCORRIDOS ENTRE 30 E 31 DE JULHO DE 1930)
Joaquim Jose' de Santana Fazendeiro, residente no municpio de Tucano, logar denominado "Fundo". Acha-se actualmente em Caldas do Cip, tratando dos ferimentos occasionados por Lampeo. Este velho lem 80 annos de idade. Foi bastante malhado pelo bandido. Apresenta innumeros ferimentos. Fundo dista do Cip 3 lguas.
Jose' Gonzaga Fazendeiro, residente no municpio de Itapicuru', logar denominado "Cannas".
Seriamente ferido em varias regies do corpo por punhal e chicote. Acha-se em estado melindroso. Homem de 00 annos de idade.
"Cannas" dista do Cip 3 lguas.
JoAo Naninha e mulher Roceiros, residentes no municpio de Amparo, no logar denominado Rio Secco.


34
Foram barbaramente espancados por Lampeo, estando ambos enfermos.
Rio Secco dista do Cip 1 lgua.
Stiro de Jose' da Ritta Roceiro, residente no municpio de Amparo, no logar denominado Rio Quente. Foi impicdosamente espancado por Lampeo, tendo vindo ao Cip tratar-se.
Dista Rio Quente 2 kilometros do Cip.
Venanqio Preto Roceiro, residente no logar denominado "Calumby". Foi do mesmo modo espancado. "Calumby" dista do Cip 1|2 lgua.
Porphirio de tal No foi espancado: Soffreu um roubo de Rs. 140$000.
E' pauprrimo e velho. Residncia: Rio Quente. Dista 2 kilometros do Cip.
Elpidio Jose' da Gama Este senhor sub-delegado do Cip, em cuja localidade estava de armas nas mos para repellir o bandido. A casa de sua residncia, retirada do Cip 1|2 lgua, foi assaltada pelo grupo sinistro, padecendo sua famlia os maiores horrores. Teve grande prejuzo. Um filho seu foi levado pelo bandoleiro, voltando para casa milagrosamente no dia seguinte. Reside em "Bury", municpio de Soure.
Joo Ferreira dos Santos Roceiro. No estava em casa, tendo soffrido uma filha deste senhor. Levaram desta moa as jias que possua.
Residncia no logar denominado "Tapera", municpio de Tucano.
Antnio Cezario Roceiro. Foi atacada sua casE, roubando-lhe os bandidos todas as economias.


35
Reside no municpio de Tucano, logar denominado "Brejo do Sitio".
Jose' Rabello Conhecido por Zez Amigo. Fazendeiro, residente em Cannas, municipio de Ribeira. Estava ausente. Soffreu innumeros prejuzos em sua fazenda, calculados em mais de Rs. 2:0001000. Cannas dista do Cip 3 lguas.
Chiqutnho de Janurio Roceiro, residente na fazenda "Brejo do Sitio", municipio de Tucano. Foi atacado e espancado.
Famlia Arlindo Dantas Foi atacada, entregando jias e dinheiro aos bandidos. Residncia no "Brejo do Silva", municipio de Tucano.
Existem outras pessoas espancadas e roubadas cujos nomes ignoramos.
Quasi todas as pessoas acima mencionadas forneceram animaes aos bandidos, tendo todas soffrido espancamentos, roubos, etc.
Em Cip, vrios civis pegaram em armas, tendo Pe-tronio Dantas Fontes, fazendeiro na regio, trazido seu pessoal da fazenda para defender seus amigos. No a primeira vez que Petronio pega em armas com o seu pessoal, auxiliando a policia e expondo a vida.
BREJO DO IRACUPA' ARRAIAL
Foi atacado pelo bandido, tendo soffrido espancamento: Pedro Porttil, cuja venda foi arrazada; Z Barra foi tambm espancado e outros. Brasilino Manoel dos Reis


foi roubado. Dahi por diante Lampeo proseguiu do mesmo modo, roubando, espancando e at matando.
Iracup pertence ao municipio de Tucano.
(Resumo de um inqurito rigorosamente feito e controlado por officiaes da policia estadoal e pelos Drs. Pe-tronio Dantas, Agenor Miranda e Conego J. Baptista da Silva Carneiro e sobre factos occorridos somente nas im-mediaes do Cip, entre 30 e 31 de Julho de 1030.)
Caldas do Cip, em 11 de agosto de 1930.


Coiumna volante do Tenente Abdlas, de passagem pelo Cip, em perseguio de Lampeo


"Outras faanhas de Lampeo"
A CHEGADA DOS SOLDADOS FERIDOS, HONTEM
Seriam pouco mais de duas horas da tarde de hontem, quando deu entrada na gare da Calada o trem que conduzia os feridos do combate de Tucano.
Eram elles os soldados Manoel Fernando Hora, pardo, de 25 annos de idade, que apresentava um ferimento penetrante no brao esquerdo; Manoel Arajo, do or preta, tambm com um ferimento penetrante no brao esquerdo, e Joo Anastcio, contractado, com tres ferimentos, sendo um na face lateral da coxa direita e outro no quadril do lado opposto.
Levados em automvel para o Hospital da Fora Publica, receberam alli os soecorros de que careciam, ficando em repouso em quartos particulares.
A DESCRIPAO DO COMBATE, FEITA PELO SOLDADO JOO ANASTCIO
Logo que foi divulgada a chegada dos feridos, rummos para o quartel dos Barris, cata de informes mais detalhados sobre o combate.


38
Os feridos j se encontravam nos seus leitos, cercados do medico daquelle estabelecimento e conversavam sobre a triste occorrencia, sem desprezar os mais insignificantes detalhes.
No momento em que chegvamos, falava o contra-ctado Joo Anastcio.
Foi mais ou menos a seguinte a sua narrativa: NA PISTA DOS BANDIDOS
Na quinta-feira passada, a fora aquartelada em Tucano era informada de que o grupo de Lampeo, num ef-fectivo de 16 homens, havia atacado a fazenda "Fundo", oausando-lhe estragos de grande monta.
Commandavam a fora de Tucano os tenentes Abdias e Geminiano Santos.
EM MARCHA PARA FUNDO
Conhecedor da zona, o tenente Abdias promptificou-se partir em perseguio do bando.
Vendo, porm, o interesse que mostrava o seu col-lega de armas, tenente Geminiano, preferiu ficar para dar instruco a um grupo de contractados.
Geminiano partiu, juntamente com o sargento Jos de Miranda Mattos e 15 praas.
Em Brejo do Iracup, distante cerca de tres lguas de Tucano, tiveram informaes do bando, que ia a poucos minutos de viagem da fora.


30
Dahi seguiram para Poo Redondo, onde chegaram s 7 horas da noite. Ento tiveram informaes de que os bandidos haviam acampado em Ba Vista.
O tenente Geminiano continuava a marcha, procurando descobrir entre as favelleiras e mandacarus o grupo sinistro. Chegaram, afinal, em Ba Vista. Os bandidos, porm, haviam entrado em outra estrada, perdendo os seus perseguidores os seus rastros.
A fora chegou Fazenda Mosquito, por volta de duas horas da madrugada. Ao amanhecer, teve noticia de que os bandoleiros estavam em sua rectaguarda.
Na fazenda Mandacaru, um vaqueiro informou que Lampeo no havia passado naquellas immediaes. E a fora avanava, chegando s 7 horas da manh na Lagoa dos Negros.
O PRIMEIRO TIRO
Sabendo Lampeo que a fora marchava na sua dianteira, apressou-se em tiroteal-a pela rectaguarda.
Os bandidos eram em numero de 16 e estavam todo* montados e bem armados.
A fora viajava normalmente, tambm montada, quando se ouviu um tiro na rectaguarda.
Era Lampeo.
O bandido chamava, assim, a atteno do seu commandante. Depois, afastando-se da estrada, o bando dividiu-se em dois, flanqueando a fora, que, a descoberto, deante de uma aggresso inopinada, mal teve tempo de aprestar as armas para a luta. Emquanto isso, Lam-


40
peo e os seus companheiros, de ccoras, entre os mandacarus e macambiras, faziam fogo contra a fora.
A PUSILARIA
Recrudescia o fogo. O commandante da fora, de p, como um bravo, respondia aos bandidos, fazendo funccio-nar o gatilho da sua arma. Outro tanto occorria com o sargento e o restante da fora, que se no deixavam dominar pelas balas assassinas do grupo fatdico.
Nesse nterim, caem os primeiros feridos, que foram os soldados Manoel Arajo e Manoel Fernandes.
Os bandidos gritavam pelo "Padre Cicero"! cantavam o samba "Eh! mulher rendeira" e atiravam sobre os soldados os mais terriveis improprios.
MORRE O TENENTE GEMINIANO
Attingido por uma bala, no auge da luta, cae morto o tenente Geminiano.
Os bandidos criam coragem e investem contra o contingente policial, dizendo:
J vi teu sangue, macaco, quero beber o rete!
MORRE O SARGENTO MIRANDA MATTOS
Outra bala fulmina o sargento Miranda Mattcs. Os bandidos continuam a atirar, pulando, enrolando-sc pelo cho, de ccoras, com uma destreza inacreditvel.


41
A RETIRADA
Vendo caidos os seus superiores e esgotada a muni o, recuaram os militares.
Investe o grupo contra os mortos e commette as maiores barbaridades.
Os animaes de ambos os lados, espavoridos, ingressam pelas caatingas, caindo, porm, dois delles morto
SEDENTOS DE SANGUE!
No satisfeitos, os bandoleiros cairam sobre as pobre* victimas e comearam o saque. Retiraram l:900f000 do bolso do tenente, uma pistola "Parabellum" e a farda Depois degolaram-no, vibrando-lhe tambm varias cuti ladas de faco.
Subtraram cerca de 2001000 do sargento e furaram-lhe os olhos. Apanharam os fusis e proseguiram a via gem do terror e da morte.
O ENTERRO DAS VICTIMAS
Tres horas depois, voltaram ao campo da lula os so breviventes.
Ainda sob a impresso da tragdia e soB a ameaa do uma nova investida, enterraram os seus pobres corr.pa nheiros, victimados to estupidamente pelas balas dos ii-carios


42
08 FERIMENTOS DOS MORTOS
O tenente Geminiano foi ferido em pleno peito, por uma bala de fusil.
O sargento recebeu uma bala na bocca e uma punha* lada no estmago.
Arnaldo Qlaudio, um dos soldados mortos, tinha um ferimento no peito. Argemiro, o outro morto, apresenta-Ta um ferimento na cabea.
(Do "Dirio de Noticias", da Bahia, n. 7.959, de 5 de agosto de 1930.;


A Igreja do Cip, onde a 7 de Agosto celebravam-se exquias na inteno do Tente. Qeminlano dos 8antos e dos seus commandados, mortos na emboscada de "Mandacaru", a 1-8-930


Um rol de misrias narrado ao "Dirio de
Noticias"
0 capito Virgolino, o celebro bandoleiro Lampeo, eontina no cartaz dos jornaes, avultando, nestes ltimos dias, os seus crimes horripilantes.
Hontem, esteve nesta redaco o sr. Joo Ramos Sobrinho, negociante em Pinho, no municipio do Campo do Britto, que nos trouxe o seu testemunho pessoal dai proezas do temivel bandido.
E, com a palavra disse-nos:
Venho de Campo do Britto, municipio sergipano, onde, no arraial de Pinho, era at ento sub-delegado. Destino-me a Ilhos porque temo ser assassinado por "Lampeo" e seus comparsas "Corisco" e "Antnio da Engracia", que me prometteram morte, pela perseguie que, como autoridade, movi contra elles.


44
PRIMEIRO ENCONTRO E TIROTEIO
Em Campo do Britto, a 22 de abril deste anno, eu vinha chegando de viagem, tarde, quando tive noticia de que "Lampeo" estava no arraial.
Voltei, incontinenti, ao encontro de uma fora, que havia ficado a trezentos metros, e, com ella ataquei o .grupo facinoroso, durando o fogo mais de uma hora, fugindo os bandoleiros pela caatinga.
DE NOVO EM SERGIPE
Ha cerca de 15 dias, tornou a apparecer no territrio sergipano o terrvel assassino, agora para vingar-se do coronel Jos Ribeiro, cujo irmo j foi morto por "Lampeo".
Jos Ribeiro, bahiano de nascimento e deputado esta-doal, o chefe politico do municipio de Campo do Britto e est preparado para enfrentar o bandido, mantendo, para isso, na sua Fazenda, alguns homens em armas.
EM DIRECAO DA FAZENDA "JACCA"
Quinze dias passados, seguramente, um grupo de empregados do coronel Jos Ribeiro passava pela estrada em direco Fazenda "Jacca", quando foi surprehendido pelo bando sinistro, havendo um cerrado tiroteio de meia hora, ao cabo do qual "Lampeo" fugiu, internando-se na caatinga, e deixando armas, munies e animaes.


4B
Desse encontro, saiu ferido um daquelles empregados, que foi medicado em Itabaiana.
O REFUGIO DA "SERRA NEGRA"
Parece que o logar preferido por "Lampeo", para descanso das suas tropelias, a "Serra Negra", nos limites de Bahia e Sergipe, diz-nos o nosso informante, que suppe ser esta a causa delle no ter caido morto e dea-apparecido, repentinamente, do theatro daquelle tiroteio.
UM "RAID" DO BANDIDO
Na sua ultima visita a Sergipe, "Lampeo" praticou os maiores desatinos, por Angico, Alagadio, Mucambo, Pedras Molles, Fazenda Santa Ritta, transportando-so depois para Barreiras, na Bahia, onde tentou matar o guarda da Collectoria, tendo inutilizado alguns documentos desta repartio.
Dahi, seguiu para "Lagoa Preta", onde o grupo da morte roubou e depredou i vontade, conduzindo haveres alheios.
POBRE MOA!
Em "Baixo do Garolino", depois de terem os facino ras roubado o que quizeram e bem entenderam, "Lampeo" desvirginou uma pobre moa, dentro da sua pobre oasa, sem attender & velhinha, me da victima, que batia na porta, implorando piedade para a sua infeliz filha.


46
A velha no foi attendida, e a mocinha soffreu o castigo uma vez, duas, tres, dezeseis vezes, tantos eram os miserveis .
No dia seguinte, fallecia, em conseqncia daquella barbaridade, a desgraada victima da sanha insacivel do grupo amaldioado.
Dahi, "Lampeo" seguiu com destino ignorado, tendo, ento, o encontro j conhecido com o tenente Geminiano dos Santos, o mallogrado official da nossa Fora Publica.
Nosso visitante, ahi, encerrou as suas informaes ao "Dirio de Noticias".
("Dirio de Noticias" da Bahia, n. 7966 de 13-8-930.)


Vista parcial do Cip, com o barraco de sua importante feira
semanal




Lampeo!
CLAMA TODO O ESTADO: "FIM PARA LAMPEO!"
Accentua-se em todo o Estado o clamor contra o grupo de Lampeo. So 18 homens a desafiar um Estado inteiro que possue recursos monetrios e uma policia militar. Esse desafio, que tem custado quasi uma centena de vidas e muitas de contos de ris, no pde continuar. Estamos todos exhaustos e envergonhados dos "raids" do grupo facnora. Ha um official, ou dois, que pretendem liquidar o grupo, custa de novas despesas. Assente que elles se compromettem a acabar com Lampeo, vivo ou morto, que mais se espera? Porventura, no tem gasto o Estado com essas campanhas frustradas, muitos contos de ris? O Governo dispe da policia. Pois que acerte com seus commandados o melhor processo de terminar com esse episdio e seja enrgico!
Como prova do clamor geral, que deve ter cHegado aos ouvidos dos responsveis pela dignidade do poder, abrimos espao hoje a uma representao da Associao


48
Commercial. E', por ella, o commercio que fala. Pelo povo, clamam todos os seus rgos de publicidade. Por que mais se espera?
A MISSA FNEBRE E OUTRAS NOTICIAS DE CIP'
Telegrapha-nos o dr. Vergne de Abreu: "CIPO', 7 Agradeo muito penhorado o honroso e distincto acolhimento que esse independente e conceituado vespertino dispensou s minhas ligeiras informaes.
A missa de requiem hoje aqui celebrada foi um acto muito tocante e solenne, ficando a capellinha local cheia de famlias e moradores do arraial e banhistas de passagem.
O celebrante mons. Baptista da Silva Carneiro pronunciou sentida orao antes de subir ao altar e, no fim da solennidade, distribuiu esmolas de 2$ a cada um dos 15 pobres que estiveram presentes, conforme resolveu a Commisso, em vista da formal renuncia feita pelo illus-tre celebrante aos seus honorrios.
Toda a fora aqui destacada compareceu incorporada e deu as tres descargas do estylo, e, no fim do acto, seu commandante pediu licena para agradecer as homenagens que rendamos aos bravos camaradas, victimados na emboscada de Mandacaru.
Falaram ainda, eloqentemente, o Engenheiro Agenor Miranda e o conego Silva Carneiro, aos quaes tive de responder em meu nome e da Commisso, em poucas e vibrantes palavras.


49
Devo descer no dia 13 do corrente e levar-vos-ei o producto da subscripo aqui iniciada, e que j vae coberta por muitas assignaturas. Saudaes afectuosas (Assig.) Pedro Vergne de Abreu."
A ASSOCIAO GOMMERCIAL DIRIGE-SE AO GOVERNADOR
Foi enviado, hontem, ao sr. Governador do Estado o seguinte officio-representao do commercio bahiano:
"Exmo. sr. cel. Frederico Augusto Rodrigues da Costa, m. d. governador interino do Estado:
A Associao Commercial da Bahia, interpretando o sentir do commercio desta praa e do interior, justamente alarmado com a permanncia do bandido Virgolino, vulgarmente conhecido por "Lampeo", e seu numeroso grupo, em territrio bahiano, vem renovar a V. Ex. o appello dos seus representados, no sentido de serem redobrados os esforos para a extineo desse grupo de malfeitores, ga-rantindo-se destarte o livre exerccio da actividade commercial na regio nordestina do Estado.
As medidas postas em pratica, at agora, para a eliJ minao da nefasta actuao desses bandoleiros no tm logrado a efficiencia desejada, e por isto cresce o pnico das populaes sertanejas, ante a constante insegurana de sua vida e haveres, reflectindo-se essa situao profundamente no seio do commercio desta capital, possudo da mais justa apprehenso pela sorte dos seus valores, a caminho da regio assolada, ou alli j existentes.


50
Em abril do anno corrente, esta Associao Commer-cial teve opportunidade de officiar ao Exmo. Sr. Dr. Secretario da Policia e Segurana Publica, patrocinando certas medidas de defesa reclamadas pelo commercio de Itiuba, havendo-nos S. Ex. respondido nestes termos: "Cumpre-me declarar que o sr. cel. Terencio Dourado, commandante geral dos contingentes policiaes ora em operaes no nordeste do Estado, tem plano traado para a defesa das localidades, que no pde ser modificado pela opinio individual de pessoas completamente alheias aos movimentos militares".
Agora que se patenteia a falta de xito do "plano traado", pelos repetidos golpes vibrados nas foras em operaes e pelas variadas incurses a diversas localidades sertanejas, achamos de bom alvitre reiterar a V. Ex. o clamor dos nossos consocios, que atravs do seu legitimo rgo de classe solicitam de V. Ex. a realizao de prom-ptas medidas para a extinco do malfadado bando que, ha tanto tempo, vem infelicitando o nosso Estado.
Aproveitamos o ensejo para mandar a V. Ex. os nossos protestos de muita considerao e apreo. (a) Al-mtr de Azevedo Gordilho, presidente."
(Do "Dirio de Noticias", da Bahia, n. 7.962, de 8 de agosto de 1930.)




APPENDICE




Appendice
A CAMPANHA DE CANUDOS (.Relatrio do Ministrio da Guerra de V Maio de 1808)
"Entre as innumeras difficuldades que assoberbaram este Ministrio no anno que se findou, sobrosahiram as creadas pela lutuosa guerra de Canudos, que assolou o interior do herico Estado da Bahia, trazendo sobreselta-da a alma republicana.
Embora com dolorosas e irreparveis perdas de preciosas vidas e immenso sacrifcio pecunirio, terminou-se essa fratricida luta. O termo, porm, dessa cruenta jornada, em que estiveram empenhados os mais caros interesses da Ptria no veio sem lances lamentveis.
A 4 de Maro do anno findo, chegava a esta Capital a desoladora noticia do anniquilamento completo da expedio dirigida pelo intrpido Coronel Moreira Csar.


54
Si grande foi a consternao pelo sacrifcio inaudito de tantas vidas preciosas, immoladas no altar da Ptria, para restabelecimento da lei conculcada e da ordem alterada, maior, foi a indignao geral ante o mallogro dessa expedio, empanando o brilho das armas republicanas.
Entretanto, ao receber to infausta quo desanimado-ra noticia, o Governo no vacillou um s instante nas providencias que lhe cumpria tomar, e, sem medir sacrifcios, tratou logo de apparelhar nova expedio, forte das tres armas, com os vastos recursos que a experincia aconselhava, e cujo commando foi confiado ao General de brigada Arthur Oscar de Andrade Guimares.
Essa expedio, segundo o plano estabelecido, marchou fraccionada em duas columnas, seguindo a comman-dada pelo General Cludio do Amaral Savaget, por Sergipe, com direco a Geremoabo, e a commandada pelo General Joo da Silva Barbosa, directamente de Queimadas para Monte-Santo; devendo, segundo o plano acertado, no mesmo dia e hora aprazada, se reunirem no theatro das operaes, para um assalto combinado cidadella de Canudos.
Effectivamente, vencendo obstculos de toda ordem e superando as maiores difficuldades, a columna commandada pelo denodado Savaget, depois do herico feito do Cocorob, no dia e hora marcada, se achava diante de Canudos, oecupando posio dominante a cidadella maldita; ao encetar, porm, a aco, em obedincia ordem que recebeu do general em chefe, teve de abandonar as vantagens da posio, para correr em soecorro da pri-


55
meira columna, que se achava em ms condies, pela falta de munio, para fazer frente ao inimigo, que se arrojava, contra nossa fora com uma impetuosidade e valor dignos verdadeiramente de melhor causa.
Quanto sacrifcio perdido, quanta vida preciosa inutilmente immolada nessa penosa travessia, nessa gloriosa jornada, em que no se sabe o que mais admirar c respeitar, si a resignao evanglica do soldado brasileiro para o sacrifcio, si a sua bravura indomita no momento do perigo!
Assim frustrado o plano combinado, collocadas nossas foras em condies desvantajosas, comearam a surgir as maiores difficuldades e estas assumiram tacs propores, alarmando o espirito publico, que, para remo-vel-as, entendeo o Governo fazer seguir para o theatro da aco o illustre Ministro da Guerra, o nunca asss pranteado Marechal Carlos Machado Bittencourt, que partio desta Capital a 3 de Agosto do anno findo.
Estabelecendo seo quartel-general em Monte-Sanlo, o inolvidavel marechal, com a actividade e a energia prprias do seo austero caracter, promoveo todos os recursos necessrios a accelerar as operaes de guerra, e to acer-tadamente prooedeo, to efficaz foi o seo concurso, que, pouco depois de sua chegada, fechava-se o sitio; a 1 de Outubro era levado o primeiro assalto aos pontos fortificados do inimigo e a 5 rendia-se a cidadella maldita de Canudos, hasteando-se ao som do hymno nacional, sobre os escombros do fanatismo impenitente, a bandeira estrel-lada da f republicana.


56
A narrao detalhada de todas as peripcias dessa cruenta campanha encontrareis no annexo sob a letra A.
Terminada a luta, o Governo no fez demorar as providencias que lhe cabia tomar, para a retirada das foras."
(Relatrio citado, do Marechal Joo Thomaz Cantua-ria, pags. 5 a 7).


Entre parenthesis...
No dia ii de Agosto, vspera da minha partida do Cip, alm do banquete que me foi offerecido no "Radium Hotel" , recebi uma manifestao popular, precedida de um jazz-band e seguida por quasi todo o povo do arraial; familias e pessoas gradas. Poram-me dirigidos os seguintes discursos:
"Ha homens que tm o condo natural de attrahir a si a venerao dos seus semelhantes. Uns pela sua intel-ligencia illuminada e pelo seu saber omnimodo. Outros pela sua graa pessoal, pelo seu caracter adamantino e pelos seus gestos humanitrios. Outros pela intransigncia dos seus princpios, pela sua coragem cvica, pelo seu amor ao Direito, Justia e a Verdade.
Privilegiado o homem destes dotes, deste conjuncto harmnico, rene em torno de si um cortejo de admiradores que cresce, medida que os seus actos, na vida social, vo se tornando notrios. Dentro de pouco, rompendo


58
fronteiras como um incndio voraz, comeam as fagu-lhas desta fama a abrasar os coraes e o homem impulsionado por esta fora imperiosa cede, por modesto que seja, aos impulsos da sua alma que acde pressurosa aos queixumes dos seus semelhantes.
Vede Christo. Simples e pobre. Honrado e bom. In-tclligencia a transbordar, de effluvios divinos. Que graa irradiava do seu ser! Que serenidade!
Apparecido em uma poca de compresso, em que a liberdade era um mytho, bastou pregar a igualdade dos homens para convulsionar a face do globo, para modificar os costumes e fazer ruir com a alavanca cyclopica da sua doutrina maravilhosa as instituies seculares. E muitos, muitos outros. Tudo pelo condo natural que tm de attrahir a si a venerao dos seus semelhantes, pelos seus actos, pelas suas acrisoladas virtudes.
Um espcime assim, como tentei descrever, simulacro dess'outro descripto, este alto funccionario que temos a honra e a felicidade de hospedar neste arraial. Chama-se Vergne de Abreu. Figura que empolga pela nobreza do seu caracter, pela coragem das suas attitudes, pela sua intelligencia illuminada, pela sua variadissima cultura e, sobretudo, pelos seus gestos humanitrios.
Nesta lucta de vida e morte que o scelerado mais celebre dos annaes do banditismo da nossa ptria empenha comnosco, pobres, inermes e desamparados habitantes do nordeste, uma voz, forte como o trovo, veloz como o raio, ergueu-se num protesto vehemente at as altas autoridades do nosso Estado, pelas columnas da nossa imprensa, pedindo garantias para as nossas vidas, para as nossas fa-


59
milias ameaadas pela fria vandalica deste novo Attila, para as nossas propriedades, onde com a enxada conseguimos o po para os nossos filhinhos, vencendo as iras da natureza madrasta. Esta voz forte como o trovo, veloz como o raio, nasceu das entranhas desta alma quo a divina providencia impelliu, em hora abenoada, at estas plagas.
E no se quedou ainda esta voz.
Prestes a partir, est a nos prometter uma interveno efficaz e salvadora. Bemdita alma! que Deus siga teus passos para a nossa felicidade e amanh quando, de novo, buscares estes sitios, encontrars o corao amigo o leal deste povo, rolando agradecido em tuas generosas mos.
De censura seriamos passvel se esquecssemos o auxilio generoso que nos vem prestando o Exmo. Sr. Dr. Agenor Miranda. No o esquecemos nem o dispensamos, estendendo at elle os nossos agradecimentos pelo muito que nos tem feito e pelo muito que ainda nos far nesta situao angustiosa que atravessamos.
(Ass.) Petronio Dantas Fontes.
Exmo. Sr. Dr. Vergne de Abreu:
Permitti que um dos vossos mais obscuros conterrneos, o, talvez, mais humilde dos que, n'um preito do admirao e de justia, vos homenageiam neste instante,


60
aos impulsos de profunda gratido, se associe, de todo corao, incondicionalmente, a essa to expressiva quanto inequvoca prova de apreo que se vos faz nas ultimas horas de vossa estadia nesta terra.
No sou orador, sempre o proclamo quando ouso falar em publico, e, por isso, no podendo nem querendo exprimir a pobreza de minhas idas seno por escripto, para no compromette-las, desvirtuando-lhes o verdadeiro intuito, num improviso que a minha diminuta capacidade oratria no comporta, venho, no ha muitos minutos, de traar, a "vol d'oiseau", as linhas que aqui vos leio, sem rhetorica nem vida, e que s mesmo a certeza que tenho da vossa e da benevolncia dos presentes, me animaria a escrever.
Elias, porm, reflectem mais o meu sentir, de referencia vossa personalidade por todos os ttulos respeitvel e, hoje, para ns os do serto indiscutivelmente benemrita, do que um desejo de exhibio, que no condiz com a minha indole nem com a minha norma de aco em tudo que diz respeito a homenagear o mrito dos que se impem por obras, feitos ou servios relevantes prestados communho de que so parte integrante.
Vs sois dos que se impem por esse modo, pondo a servio da conectividade, especialmente dos vossos conterrneos, a vossa intelligencia esclarecida e a nobreza do vosso corao.
O que acabaes de fazer, fazendo ecoar a vossa voz autorizada em prol do serto, suffocado, aniquillado, quando no pelas asperezas das grandes estiagens e pelo in-differentismo dos governos, pelo banditismo infrene que


61
se vem nelle eternizando, reduzindo-o a essa situao de misria em que o vemos desolado; o que acabaes de fazer uma affirmativa insophismavel desses predicados brilhantes que vos impelliram, num gesto raro do civismo e de coragem, retemperados pelo vosso amor terra do vosso bero, a dar o grito de alarma contra esse estado doloroso de cousas em que perece o serto!
Feliz, Exmo. Sr. Dr. Vergne de Abreu, feliz a hora em que pisaste o solo sertanejo da Bahia, pisando o solo do Cip. Todo elle vos infinitamente grato pela espontaneidade, pelo ardor, pelo desassombro com que, numa poca de egosmo e de medo ao mesmo tempo, em que ningum quer se sacrificar pela conectividade, vs alteaes a voz defendendo essa mesma conectividade, composta toda de irmos, pedindo para ella uma paz que se lhe tem procurado, seno negar, mas retardar, em prejuzo de toda uma populao por indole pacifica, laboriosa e ordeira, que tem na sua tranquillidade o maior de todos os bens e que, digamos a verdade, digna de melhor sorte, factor, que ella , pelo seu labor, pelo seu espirito de obedincia lei e pelo seu regionalismo, da riqueza econmica do Estado, da grandeza da Bahia.
Por comprehender isso mesmo, vs, que, alis, viveis fora do seu seio, mas que a amaes com carinho, no pu-destes conter o impulso de santa indignao, fazendo sentir aos poderes pblicos do Estado os soffrimentos e es-tertores do serto, pedindo para elle, com a energia e a franqueza dos que no tm medo, dos que no baixam a cerviz aos potentados, o remdio que urge applicar-lhe, para salva-lo da morte!


62
Nobre, digno de louvor o vosso gesto. Por causa delle, que ha de perdurar na memria dos sertanejos como um acto de benemerencia, aqui esto os que veraneiam nesta terra, e eu, que sou filho do serto, me sinto feliz tomando parte neste preito de homenagem, op-portuno e merecido.
Prestado na vspera de vossa partida, elle significa, alm de tudo, a grande saudade que deixaes na alma dos que aqui ficam.
E' grato partir assim, recebendo o adeus sincero dos amigos, confortado pelo bem que fez e pelas bnos do serto agradecido.
Caldas do Cip, 11 8 1030.
(Ass.) Pharm.* A. Baptista Xavier. (") (Secretario da Prefeitura de Alagoinhas).
() Contrariando meua hbitos de retrahida modstia, reproduzo osses discursos, a pedido dos meus amigos do Cip, e para dar uma mostra de sua excessiva generosidade, habitual e sincera em todo o nosso serto. Disse, com razo, ao meu velho amigo e contra-parente Coronel Frederico Costa, Interinamente e pela oitava vez no governo eventual da Bahia: "que o Governador que desse cabo de "Lampeo" teria uma estatua no Nordeste Bahiano e a gratido eterna daquelle povo".


Vista parcial do Balnerio do Cip, vendo-se no fundo o Rio
Itapicur


Caldas do Cip
Seja-me permittido encerrar esta "Narrativa de infortnios", descerrando por instantes e vol d'oiseau o panorama mais lindo e enternecedor que os meos olhos tem contemplado nestes ltimos annos, e de onde me foi infligido ver se desenrolar pequena distancia alguns crculos do Inferno Dantesco. Verdadeiro e inacreditvel contraste, porque o Cip um pequeno Edon: um pa-raizo thermal, como qualifiquei em todas as minhas cartas e telegrammas, d'ali expedidos.
Duas vezes visitei essa estncia hydro-mineral: a primeira, de Julho a Setembro de 1893, quando tudo ali era primitivo e jazia no mais completo abandono. Os banheiros, os mais toscos, cobertos de palha, eram usados pro-miscuamente pelos doentes das mais variadas molstias e procedncias; e ningum, por isso, usava a agua internamente. Ali chegando (em 1893), tive de mandar fazer um banheiro para meo uso exclusivo, ao qual alm do poo de immerso fiz adaptar uma bica para colher a


04
agua potvel. Nesta ultima viagem, encontrei um Cip transformado, com balnerios modernos, artisticamente feitos com ladrilhos e azulejos cermicos, e offerecendo aos banhistas o maior conforto e commodidade. O estabelecimento, alm dos dez banheiros e de uma grande piscina de natao, posse uma buvette construda com tal engenho e perfeio, que todos delia se utilisam sem tocar ou contaminar os dispositivos por onde a agua verte em abundncia extraordinria; tudo sem encanamentos, nem torneiras, nem a interveno de qualquer pessoa estranha, ou de qualquer mechanismo.
Nos banheiros, a mesma admirvel combinao: foram todos construdos sobre e immediatamente no ponto de emerso da agua thermal, captada com tal techni-ca e originalidade, que o banhista v a agua irromper do fundo da terra (o olho plutonico, como denominei na minha ignorncia leiga) em borbotes effervescentes, saturando o ambiente com abundantes emanaes radio-activas e com os seos riqussimos ses mineraes.
A captao foi executada com tal proficincia, -que no se empregou metal ou encanamento de espcie alguma: e o prprio banhista verifica a sua rigorosa e escru-pulosa factura, tentando embalde com a bengala, com n brao, ou qualquer outro meio attingir o leito de onde emerge a agua. Vem de tal profundidade a captao, que na minha phantasia figurava de "olho plutonico" o dispositivo de emerso dos banheiros. Em 18 dias pude apenas tomar 30 banhos, e colhi taes e to benficos resultados para minha sade geral, e em particular para umas dores arthriticas ou rheumaticas, que me sorpre-


06
henderam na Bahia, em conseqncia de um forte ataque de grippe, que, para o anno, pretendo requerer uma licena afim de poder demorar-me alli 45 dias, como fia em 1893.
Isso quanto s guas miraculosas, de cujas virtudes estou to convencido e testemunhei tantos casos de cura, que em 1902, quando visitei as famosas guas de VI-chy , na Frana, tive a ingnua franqueza de dizer ao j ento celebre hydrologista Dr. Durand-Fardel: "Muito bem, estou extasiado com as maravilhas de luxo o ci-vilisao, de arte e conforto, aqui conjugados magnifica-mente: mas "as guas no so melhores que as do nosso "Cip"... Foi um successo de hilaridade, porque nem os mdicos patrcios, que me ouviam, conheciam semelhante nome.
Realmente, a nica referencia que se encontrava ento sobre essas guas, era no clssico e popular Cherno-viz, mas com o nome de "guas do Itapicur". Ainda) que o "Cip" no fosse o que realmente, umas Ther-mas admirveis, riqussimas em radio-actividade e com um dbil de perto de 5 milhes de litros em 24 horas, o arraial desse nome de uma belleza e de um clima impressionantes e benficos para a cura de repouso aos extenuados da vida trepidante das cidades.
Gol locado em um planalto de pouco mais do 150 ms. de altitude, margem de um rio pittoresco c sinuoso que lhe volteia em torno, parecendo em certos pontos formar ilhas encantadas; cercado, por todos os lados do quadrante, de taboleiros planssimos e interminveis, o Cip goza de uma athmosphera purssima e lmpida e de encantos indescriptiveis a qualquer hora do dia.


68
No vi, nom mesmo em pleno oceano, poentes mais maravilhosos, de uma tonalidade to empolgante, sem embargo da intensa melancolia que nos impe, a todos os seres vivos, "a surdina do sol que morre lento"...
Todas as tardes, na hora triste da "Ave-Maria", eu ia, do ponto mais propicio do uRadium Hotel", me extasiar na-quella viso incomparavel, como em busca do "Rayon Vert", deslumbrar os olhos e a alma no espectaculo da-quella radiosa immerso do sol em um mar immenso de saphyra e ouro...
Em 1893, bem moo ainda, fiz a viagem ao Cip em quatro ou cinco dias, sem cansao algum: da capital a Alagoinhas e Estao do Timb (hoje "Esplanada") pela Estrada de Perro (ento "Bahia and S. Francisco Railway" e Timb Branch" sob excellente administrao ingleza). Do Timb ao Cip, viajei a cavallo com escalas apraziveis pelo arraial de Bom Jesus (hoje "Vil-la-Rica"), pela Villa do Itapicur (antiga Misso da Sade) e pelo bello Engenho "Camociat", do saudoso Baro de Geremoabo e hoje do seo digno filho Senador Dr. Joo da Gosta Pinto Dantas.
Agora, em 1930, fiz a viagem da Capital a Alagoinhas em trem um pouco mais demorado e lento, da "Chc-min de Fer E'st-Brsilien", e de Alagoinhas ao Cip em um confortvel uChevrolet" e por estrada de rodagem que, em cinco horas, me fatigou tanto quanto idntica viagem feita em Maro deste anno, de Therezopolis a Pe-tropolis, pela Serra dos rgos, com duas horas apenas.
Para um turista bem treinado e apressado, toda a viagem de S. Salvador ao Cip pde realisar-se em um


67
s dia, como muitas famlias fazem-n'a, tanto na ida, como na volta, almoando em Alagoinhas e indo jantar no Cip, com tempo ainda de tomar um regalado banho mineral na temperatura de 38* centgrados. NSo a fiz, nem a farei jamais, porque adoro a cidade de Alagoinhas, onde tenho velhos amigos e parentes, e por onde fui deputado muitos annos. E'-me gratssimo passar uma noute e muitas horas naquella linda, florescente e adiantada cidade, de clima amenissimo e secco, e hoje to bem arborisada e illuminada como Petropolis, no Estado do Rio.
A distancia da Capital da Bahia cidade de Alagoinhas, por estrada de ferro, de 123 kilometros (e 200 ou 300 metros), e de Alagoinhas ao "Cip", por estrada de rodagem, regula 164 kilometros.
A temperatura que observei no Cip, do dia 26 de Julho a 12 de Agosto, deste anno, foi de 15' a 16 , de mnima, e de 24* a 25 de mxima; tempo sempre limpo e secco, sem uma gotta de orvalho, e com uma viraao constante, mesmo nas horas de mais viva luminosidade do sol.
O Cip ainda me dar assumpto, e largo, para outros bosquejos e estudos. Por emquanto me limitarei a reproduzir o telegramma que, no meo justificado enthusiasmo e deslumbramento, enderecei ao seo benemrito reformador, meo joven patrcio Dr. Genesio Salles, ento no Rio de Janeiro, e o qual foi publicado em conceituado vespertino da Bahia ("A Tarde"):




O Inspector de Seguros regressou ao Rio
Depois de permanncia nesta Capital e do uzo do guas no Cip, voltou ao Rio o Dr. Vorgne de Abreu, inspector geral de Seguros.
De referencia quellas guas o illustro bahiano dirigiu o seguinte telegramma ao Dr. Genesio Salles:
"CALDAS DO CIP' A obra ingente que distincto amigo est realizando nesta maravilhosa estncia com apurado senso technico, muito gosto e arte, daquellas, que, cedo ou tarde, se integram no patrimnio da nao e gran-geiam para seus autores a gratido publica.
Esta joia, que conheci e apreciei, ha 37 annos, em estado inculto e primitivo, e que tem permanecido quasi um sculo em completo olvido, est merecendo de um patriota abnegado os primores de um engasto que ha de collocal-a entre as mais notveis do Brasil.
Deem-lho os nossos governantes boas estradas, e teremos no Cip, em futuro, no longnquo, o nosso "Vi-


70
chy", mas um Vichy mais formoso, de clima suavssimo e secco, s margens do pittoresco Itapicur, que nada tem a invejar ao rachitico Allier. Dou ao meu patricio os mais ardentes e sinceros parabns. Vergne de Abreu, Inspector de Seguros em commisso."


Panorama do Rio Itaplcur em frente ao Cip


Nota final
Tratando de guas mineraes to importantes e infelizmente pouco conhecidas, mesmo na Bahia, quanto mais no Brasil, penso ser util reproduzir aqui alguns esclareci-* mentos sobre seu valor crenotherapico e composio chi-mica, constantes alis de cxoellentes monographias e das "Theses de doutoramento" do Dr. Adriano Pondo (em 1923) e do Dr. Benjamin da Rocha Salles (1930).
Em 1894, j eleito deputado federal, mas ainda com assento no Congresso Estadoal da Bahia, occupei-mc longamente dessas guas mineraes em discurso proferido, na sesso da Cmara dos Deputados, no dia 2 de Maio da-quelle anno, e conclui por apresentar um projecto, autori-
sando o Governo do Estado a abrir os crditos e fazer as

despesas necessrias com os estudos e trabalhos iniciaea para o aproveitamento daquella incomparavel fonte de riqueza, ou para sua concesso e arrendamento a empresas particulares.


72-
Conhecidaa de longa data, quasi centenrias, com o nome de Me d'Agua do Cip, ou "guas do Itapicur", essas fontes estendem-se em uma longa faixa de mais de ii a 15 kilometros margem direita do Rio Itapicur, desde a villa desse nome, que teve nos primitivos tempos de sua fundao, como antigo a Ido iam en to de indios, o nome suggestivo de "Misso da Sade"; e ha mesmo um afluente desse Rio Itapicur, bastante mineralisado e hy-pothermal, denominado "Rio Quente". E\ porm, no Cip que as guas so mais abundantes, com uma vaso de perto de 5.000.000 de litros dirios (captados j esto 2.347.400 litros), mais elevadas e constantes no seu teor thermico 39." centig. no ponto de emerso e 38." tona dos banheiros (na grande piscina de natao no observei mais de 35.) e com uma radioactividade superior a todas as suas congneres no Brasil e na Europa.
Graas sua crescente fama foram mandadas examinar e estudar pelo Governo Provincial da Bahia, em 1843, por uma commisso de profissionaes competentes e reputados, mdicos e chimicos.
Naquelles remotos tempos do Imprio prestaram alguma atteno ao Cip e iniciaram a construco de uma grande casa para hospedagem de banhistas e para residncia de um medico director.
Tudo, porm, mais tarde foi sendo despresado e caindo em completo olvido e abandono. Quando ali estive em 1893, encontrei ainda de p a casa dos banhistas, espcie de caravansar de que todos em commum se aproveitavam, at para ir paulatinamente carregando janellas e portaes para fazer lenha...


73
Em concluso c para rematar com pareceres analisados, passo a transcrever da optima e notvel monogra-phia do Dr. Benjamin R. Salles, as seguintes informaes:
"Estudando a radioactividade das guas mineraes do Brasil, juntamente com a vaso de suas fontes, verificamos que as guas do Cip esto collocadas em primeira linha. A radioactividade destas , como j vimos, de 5.60 m.m.c. (millimicrocuries), sendo a vaso do suas fontes, que sempre a mesma, quer nas estaes chuvosas, quer nas secoas, excluindo as no captadas, de 2.347.400 litros d'agua em 24 horas. A estao brasileira collocada em segundo logar, sob o ponto de vista da vaso, Pervedouro, com 1.584.000 litros. A estao dc Gaxamb, possuindo algumas fontes dc poder radio-activo elevado, tem somente, por vaso diria, 118.320 litros d'agua.
A fonte mais radioactiva de Lambary, que a numero 3, tem pouco mais de 2 m.m.c. A fonte 15 do Novembro de Poos de Caldas, a mais radioactiva, no chega a possuir 2 m.m.c, tendo esta estao, por vaso 430.000 litros. A estao de Prata possue perto de 5 m.m.c, e a vaso de suas guas no attinge 3.000 litros.
Verificada assim a radioactividade, ao lado da formidvel vaso das fontes do Cip, vejamos qual a sua composio chimica.
Composio chimica, segundo a analyse praticada pelo Dr. A. Ponde:


74
"Nossas guas, diz o Dr. Benjamin Salles, so de reaco fracamente alcalina, e devem ser classificadas entre as bicarbonatadas-calcicas.
Resduo fixo a 180.* c, por litro..... ..... 1.6850
Residuo sulphatado ......................... 1.8125
Chloro e bromo (chloreto e brometo de prata),
por litro.............................. 3.9020
Silica, por litro.............................. 0.0102
Perro (peroxydo de ferro), por litro..... 0.00130
Clcio (oxydo de clcio) por litro............ 0.4950
Magnesio, por litro.................... ..... 0.05604
cido slphurico, por litro................... 0.00991
Ghloretos alcalinos, por litro____ ........... 0.3398
cido carbnico, por litro.................... 0.04289
Lithio, por litro ............................. 0.00005
Baryo (sulphato de baryo), por litro........ 0.00179
Manganez, por litro ......................... 0.00042
Exame bacteriolgico. As guas de Caldas do Cip, segundo os estudos do Dr. A. Ponde, contendo 4 colnias de germens por centmetro cbico, podem ser compre-hendidas no grupo das excessivamente puras de Miquel." ("guas Thermo-radioactivas do Cip, no Estado da Bahia", pags. 23 a 24; edio de 1930).
VinoNE de Abreu.


Agradecimento
No devo, ao terminar esta compilao dc factos n documentos sobre a calamitosa situao do Nordeste Bahiano, esquecer ou omittir os nomes dos distinctos amigos e conterrneos que, indirectamento, so tambm collabo-radores deste opusculo, e aos quaes renovo de publico a minha mais viva e sincera gratido:
Dr. Altamirando Requio e a Illustrada Rcdacoi do "Dirio de Noticias", benemrito vespertino que se publica na Bahia desde 1875:
Dr. Agenor Augusto de Miranda, notvel Engenheiro, Chefe da Construco das Linhas Telegraphicas Federaes, na Bahia, e que foi um dos mais cfficazes orientadores da defesa do Cip e das localidades vizinhas;
Dr. Achilles Seara de Oliveira, joven Engenheiro que, alm do seu relatrio, forneceu-me as photographias originaes sobre a Defesa do Cip.
Rio, Setembro de 1930.
V. de A.


SYNOP8E DAS GRAVURAS:
I O Martyrisado do "Fundo". II Estado-Malor da Defesa do Clp.
III Os pelotes civis.
IV Os pelotes militares.
V Grupo dos defensores do Clp. VI Columna do Tenente Abdias. VII A Igreja do Clp. VIIT Vista parcial do Cip. IX Outra vista do Cip. X O bandido Lampeo e a sua recua. XI Vista parcial do Balnerio do Clpo. XII Panorama do Rio Itapicur.