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Ibiapina;
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 Material Information
Title: Ibiapina; um apostolo do Nordeste
Physical Description: ix, 319, ii p. : illus., ports. ; 22 cm.
Language: Portuguese
Creator: Mariz, Celso
Publisher: A. União Editôra
Place of Publication: João Pessôa
Publication Date: 1942
 Subjects
Subjects / Keywords: Church history -- Brazil, Northeast   ( lcsh )
Church history -- Paraíba (Brazil : State)   ( lcsh )
Genre: bibliography   ( marcgt )
non-fiction   ( marcgt )
 Notes
Bibliography: Bibliography: p. 317-319.
 Record Information
Source Institution: University of Florida
Rights Management: All rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier: oclc - 23705191
Classification: lcc - BX1466 .M37
System ID: AA00000258:00001

Full Text
CELSO MARIZ
(Da Academia Paraibana de Letras)
IBIAPIMA
UM APSTOLO DO NORDESTE
Publicaes A UNI AO Editora


jTB IA P I N A
UM APSTOLO DO NORDESTE
PADRE Ibiapina foi um grande esprito que iluminou os sertes numa poca semi-brbara e remota ao nosso hinterland. Viveu e lutou em meio hostil e spero, pregando a palavra santa dos Evangelhos e civilizando populaes desamparadas, isoladas e carentes do tudo. Nada objetivou que no represente hoje uma tarefa sobrehuma-na realizada custa de sacrifcios e dificuldades sem conta. Orava e se multiplicava em trabalhos, certamente tendo a convico exata de que, se vivemos na terra para a rdua conquista do reino de Deus, nem jpor isso mesmo devemos esquecer as boas obras que so, em verdade, uma das muitas maneiras de servir a Nosso Senhor.
Era um tipo de evangelizador maneira daqueles grandes jesutas que deram ao Brasil, nos primordios da nossa formao, o melhor que hoje possumos do nosso patrimnio religioso e cultural. A memria de Ibiapina, entretanto, quasi d Celso Mariz escreveu agora um livro sobre Ibiapina. A nistoria da Paraba tem nesse escritor claro c elegante um dos seus investigadores ipais seguros e aprofundados. Ade-/mais, sobrepujou a atmosfera de chumbo, de inrcia que se cerra sobre o nosso reduzido ambiente intelectual. E nos vem dando, com o correr dos anos, uma srie dc trabalhos essenciais e honestos sobre o nosso passado. Tambm no o seduziu nem o dominou uma aposentadoria cmoda no mundo das nossas letras provincianas, mesmo em face do que j conseguiu realizar sem fugir, daqui para a atrao multitudinria dos grandes centro*. O. N, Q,




CELSO MARIZ
(Da Academia Paraibana de Letras)
IBIAPINA
UM APSTOLO DO NORDESTE
Publicaes A UNIO Editora


19 4 2
COMPOSTO E IMPRESSO NAS OFICINAS DA IMPRENSA OFICIAL, JOO PESSOA, PARABA


INSTVAMOS a terminar este trabalho quando a guerra ueiu bater s portas da Amrica. O Brasil assumiu logo a posio lgica, correspondente aos maiores sentimentos, simpatias e convenincias de sen povo.
lira natural que os espritos entre ns, j tomados de curiosidades e receios, e sob a presso de certos efeitos econmicos, se deixassem absorver mais profundamente das preocupaes do conflito.
Quasi suspendemos a pena, considerando o momento pouco propcio a sensaes de natureza to diversa. Pondermos, entretanto, que o interesse pela existncia de um padre, de um artista, de um. trabalhador de qualquer feio, que represente uma poca, um aspecto, uma parcela do nosso pensamento na a-tualidade ou no passado, sempre uma afirmao re-temperadora de afeto nacionalista. No fica intruso numa hora de atitude, preparao e defesa coletiva, quando, alm dos elementos imdiatos para a luta possvel, temos de recorrer a todas as foras da nossa formao moral e de carter.
No que o nosso trabalho pretendesse influir nesse animo remoto, humilde que se apresenta na sua origem autoral, simples no objeto de sua evocao e reduzido em seu publico de amisade e de favor. Mas enfim, no ha gota dgua perdida na composio das nuissas. um assunto brasileiro a refletir a resistncia de nossos temas em meio da tempestade-
* *
A vida do padre Ibiapina merecia um olhar mais competente. De algum que pudesse examinar-


IV
lhe a fundo a formao c vr o contedo filosfico e social da obra que le imaginou e empreendeu.
Eslamos certo que o tcnico dessa ordem dv. estudos consideraria defrontar-se com uma individualidade singular e uma ao por vrios aspectos superior.
Os que at hoje se impressionaram com a figura do apstolo, apenas lhe traam biografias ligeiras, iluminadas com a relao de suas fundaes de caridade.
Nenhum se props explicar a base de sua tendncia mstica, o espirito ou o complexo que ditou sua carreira, os efeitos que a sua obra deveria produzir.
Por nossa parte, no vamos alm desse sim-plismo expositivo. Falecia-nos autoridade para um escro de natureza cientifica, demandando o conhecimento das mais remotas origens c dos mais ntimos fatores da organizao fsica e moral de Ibiapina, de criana a homem. Sangue, alimentao, paizagem. hbitos domsticos, primeiras leituras.
Para a prpria impresso simples que tentamos, faltaram certos elementos. No obtivemos, por exemplo, apezar de porfiados empenhos, um senso da sua capacidade afetiva na juventude nem no seu ltimo perodo de secular. Mesmo sobre o seu noivado s sabemos que um dia se desfs um tanto espetacularmente. No podemos resumir com segurana a parte que esse fato influiu no seu sistema nervoso e em seus desesperos espirituais. Isto no deixaria de ser importante no estudo de uma vocao que se decidiu pelo sacerdcio-
Os nossos elementos so, entretanto, at hoje os mais numerosos e largamente espostos, os que lhe desenham com intensidade maior as vrias situaes da existncia- Embora o nosso plano se orientasse desde o principio para o seu tempo de missionrio e mais propriamente para o relevo de educador. Embora tenhamos despresado na esparsa bibliografia, muito detalhe, nome, logar, episdio, milagre, que considermos pouco preciosos ao esclarecimento de sua carreira.
Sobre o perodo da vida sacerdotal, trazemos


V
1'nlo um esboo mais completo e nitido, tomado de seus traos na Paraba, onde o apstolo trabalhou e ande morreu.
Tambm trazemos em maior quantidade amostras da produo intelectual de Ibiapina, de uma intelectualidade de feio despreocupada, sem esse cuidado usual dos homens de espirito nas comunicaes com o grande publico. Avultam, realmente, nessa demonstrao, cartas, hinos infantis, registro de livros privados e improvisos para auditrios do interior.
Uma boa exposio da vida de Ibiapina, alm ile lhe reerguer devidamente a personalidade, seria um subsidio oportuno para fixar-se a influncia do padre em nossa alma popular.
O levantamento que se tem feito da obra dos iesuitas nos primrdios de nossa civilizao, deveria ser "tentado sobre o padre cm geral. Sobre o padre rotineiro dos bispados nacionais, que assim teria examinada a sua parcela na composio psicolgica do brasileiro.
De certo que os ltimos tempos apresentariam fortes diferenas.
Mas apesar do afluxo de circunstancias que podero estar diminuindo o prestigio do padre, desviando classes ou elementos de seu contado e submisso, a influncia dele no deixaria de realar. Era curioso e justo determinar-lhe o concurso at hoje, vr em que logares, em que pocas, em que pontos do espirito se ter constatado a sua predominncia. Eicaria definido um papel de grande arvore cm nossa paizagem social. O padre em tantas das nossas maiores relaes desde que benzeu a cruz num ilho da nossa costa. O padre nas aldeias e vilas que foram centralizando a jurisdio dos primitivos engenhos, minas e fazendas. Batisando os netos do indio, com suguins c papagaios gritando em cima das capelas. Rompendo noites a cavalo para confessar o cangaceiro moribundo. Dando harmonia aox burgos no Iri-


VI
nado de seus sinos- Cativando as almas na emoo de suas prdicas.
Pouco se dava ao povo que muitos fossem misturando docemente o servio de Deus com interesses da matria, como amealhar dinheiro, entrar nos partidos polticos e ter filhos.
Dinheiro nunca, de fato, juntaram como usu-
rrios.
Na poltica, se muitos remoeram a trana vulgar de suas aldeias, outros levaram uma representao condigna para as lutas da defesa da constituio livre da ptria.
Ter filhos foi dos fenmenos interessantes da vida de padres e vigrios do sculo passado. Como se sabe, a castidade absoluta um distintivo do sacerdote, o sacrifcio de diferena e engrandecimento ditado pela Igreja que faz dessa virtude exigncia capital da ordenao. Por esse lado tivemos mais de um perodo de relaxamento do clero, apezar da reao de bispos virtuosos e bravos.
Ibiapina apareceu numa dessas fases criticas, fulgindo seu exemplo como um heroisnw a mais no meio avassalado por tantas^ falhas e perjrios de snu classe.
O clero de .hoje, provindo do rigoroso estudo de vocaes do seminrio moderno, no vive a oferecer excees s regras morais c de costumes que lhe so impostas. Na Paraba, depois da criao da Diocese, sob o bculo forte de D. Adanto e a orientao mais branda, mas igualmente zelosa de D- Moiss e dos sufragmos do interior, s dois padres constituram famlia, ambos castigados com a suspenso de ordens. Destes, um desapareceu trucidado cm conflito poltico, dizem que aps uma prece pungente de absolvio a Deus. O outro voltou ao aprisen. arrependido antes de envelhecer.
Bem diverso do que ocorria com tantos dos colegas de outrra. Vigrios ativos c padres avulsos povoavam gordamente o slo, sem qualquer embarao ou cerimnia, alm do ralhar espaado e longnquo dos bispos e da critica intil dos maons. No era ter um filhinho perdido no anonimato dos bastardos- Era constituir familias enormes, crea-las


VII
dentro de casa, a mulher aparecendo na sala de visi-lasr os meninos chamando padrinho. Sabemos de vrios que assim se comportavam, no se diria sem o reparo intimo, mas sem a sublevao do escrpulo catlico nem dos preconceitos sociais, parados ambos diante de uma invencvel fora tradicional. Alguns subifam a culminancias intelectuais e publicas, como os padres Martiniano de Alencar e Thomaz Pompeu, senadores, Lindolfo Corra, deputado federal, c vrios outros. Nestes casos, a inteligncia, os altos servios, o brilho das posies, vieram concorrer no realce e no perdo.
Mas tambm humildes vigrios do interior, capeles e pregadores modestos, padre Amorim, padre lirmino, padre Calisto Nobrega, padre Torres, padre Bento, padre Pinto, que Deus os perdoe a todos, pouco perderam por suas facilidades naquele terreno moral. O padre Magalhes, em S. Joo do Cariri, atingia a semeerimonia de ir para a igreja acompanhado das filhas, as quais educava, desse modo, com perfeita dignidade paterna sem perder a dignidade religiosa. O vigrio Marques, em Souza, criou e educou os filhos numa paz consagrada, em igualdade de condies com s melhores famlias do logar. Dois fizeram cursos cientficos e alcanaram destacadas situaes na clinica, no foro e na poltica. Um deles foi o bondoso c popular mdico dr. Silva Mariz, representante do Estado, em trs legislaturas, na Cmara da Republica. Este dilatou como chefe da famlia o prestigio do velho que fora, com os Liberais do Imprio, chefe local, deputado c presidente da Assemblia da Provncia. As filhas, todas de certa distino, casaram-se com homens dos de maior relevo na sociedade em que viviam, um fazendeiro, um comerciante, um terceiro, professor e advogado, e nutro, o dr. Fausto Meira, mdico e poltico da ilustre estirpe dos Meira de Vasconcelos.
A descendncia brilhante dos padres prolficos do Cear, de Martiniano de Alencar, pai do grande romancista, ao humilde proco Jos Bem-lao.qua, pai do grande jurisconsulto, justificaria a


VII
indulgncia para toda a srie de escorrgos dos seus pais c avs. Deus no pde ter sido insensvel s vantagens indiretas dessas vitrias da Tentao.
No quizemos fazer com o pargrafo acima, um pitoresco depreciativo. Bem pelo contrrio, frizar que mesmo sobre desvios e faltas as mais graves para o carter sacerdotal, os padres gosaram sempre do acatamento da massa brasileira c sobre, ela vm influindo at hoje com um poder de quasi divindade. De fato, ao lado dos casos discordantes da disciplina e da moral, se alinha uma grande srie de exemplos de edificao. Vidas gastas em ministrios legtimos de trabalho, de renuncia, de consolao desinteressada dos sofrimentos alheias.
Esses mesmos nelhos procos desabusados. quanto a virtudes eclesisticas, eram. de comum bonssimos por dez outras qualidades, estimulando no seu rebanho s a pratica do que ensinavam, nunca a dos erros em que incidiam. E dos que se apresentaram perfeitos em seu complexo sacerdotal e social, todos se devem inscrever como benemritos, ministros que foram dentro c fora dos templos, professores, filantropos, juizes de paz entre os pobres, compadres generosos de meio mundo, com uma feio de pac perante as massas.
Entre esses padres do povo, vm os missionrios errantes, dos quais Ibiapina, avaliando por um tirocinio mais longo e por uma ao mais pura, original e brilhante, , sem dvida o maior no Nordeste. Antes dele no temos vista nenhum que se lhe parea. No nos consta, depois, outro com to ardente e exclusivista vocao de apstolo e educador.
No pensamos ter colhido o mximo sobre a vida e a obra do padre Mestre-
Como j foi dito, nem todas as fontes a que recorremos se abriram fartas ao nosso apelo. Outras que poderiam talvez render, no estavam ao nosso alcance no momento. Jogamos com o que foi possvel reunir e compor em poucos meses.
uma contribuio, no uma obra cheia so-


IX
bre o apstolo- No um livro escrito para servir nem explorar uma parcialidade. uma pgina de forte simpatia sobre a figura de um sacerdote que se impe a crentes c descrentes pela sinceridade da f e pela expresso de trabalhador.
*
* *
Sentimos o dever de fixar aqui os nosos agradecimentos a todos que foram elemento de cooperao e de deciso na feitura deste livro. Ao governo do Estado, nas pessoas do Interventor Ruy Carneiro e do Secretrio do Interior dr. Samuel Duarte, os quais, fomentando a pesquiza histrica, e movidos por antiga amizade e fraternidade de imprensa, ampararam amplamente o trabalho do autor e sua publicao. A Jos de Borba e Vasconcelos, companheiro velho do nosso afeto, que nos remeteu preciosos subsdios e nos articulou com os melhores elementos de informao do Cear, especialmente com Hugo Vicior, secretrio do Instituto de Histria daquele Estado, to solicito r bondoso na ateno aos nossos pedidos. A Mario Melo, o abalisado conhecedor dos fastos da vida regional em todas as pocas, a quem recorremos com impertinncia sobre vrios pontos d presente estudo relacionados com a crnica de Pernambuco. Ao pessoal da Imprensa Oficial e Unio Editora desta cidade, de seu diretor atual, Ascendino Leite, ao ltimo operrio, os quais dilatam para mais de vinte anos o ambiente de solidariedade e de trabalho, que tem sido o maior apoio dos nossos frgeis mas esfor. ados cometimentos intelectuais.
Grande numero de amigos a quem devemos informaes e estmulos, de Fortaleza, desta cidade onde escrevemos, de Campina Grande e de outros logares da Paraba, teramos de relacionar aqui, se fosse exigido esmiuar os objetos da nossa gratido. Cada um que nos favoreceu com o menor passo, tenha certeza do nosso intimo reconhecimento. Esperamos consolida-lo ainda mais pela simpatia e generosidade com que de certo nos iro lr.
Joo Pessoa (Paraba), Abril, 1942.
CELSO MARIZ


Padre Ibiapina (Fotografia obtida no Cear)




IBIAPINA, UM APSTOLO DO NORDESTE
O ADVENTO DO APSTOLO
JP"OI na segunda metade do sculo XIX que apareceu o padre Jos Antnio Maria Ibiapina.
le deve ser classificado como uma das maiores figuras apostolares do Brasil. Foi de certo a maior que at hoje lutou no Nordeste por um ideal de trabalho e de f. Duplicando o seu apostolado pela religio e pela educao. Predicando s massas e fundando colgios. Avivando a crena ao sertanejo para afasta-lo do bacamarte e da superstio. Criando rfos pobres para redimi-lo.s da ignorncia e da misria em bem de uma sociedade crist.
Medimos-lhe as propores pelo raio e intensidade de sua ao, pelo espao de tempo em que ela se desenvolveu, o objetivo religioso e social que a enchia e embelezava.
As antigas provncias de Pernambuco, Paraba, Rio G. do Norte, Cear e Piau, fo-


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CELSO MARIZ
ram o teatro dessa edificao. Do que doutrinou com o verbo de missionrio, poderoso pela exaltao, clarividncia e tenacidade, e do que levou a efeito, no terreno prtico, pelo conforto e instruo das populaes do interior daquele tempo. Porque Ibiapina no se limitou ao uso do plpito, a doutrinar a religio catlica, pedindo uma crena mais ardente e praticada. No se cingiu a atacar a negligncia, a ociosidade, a imoralidade e o crime. A bater os dissdios, o dio e o vicio. A descobrir os pecados, a batisar e a casar.
le conseguiu organizar, com amplitude e beleza, uma obra de assistncia e educao, a fim de curar o operrio e preparar para fins domsticos a mulher pobre dos sertes.
le tinha, desde que se ordenou, eleito o nome de Maria, da me de Jesus, objeto de inspirao e de culto. Por isso, ou pela observao que em suas peregrinaes pde fazer do estado da famlia sertaneja em suas classes desprotegidas, inclinou para a mulher o seu devotamento moral. Querendo-a por tudo recatada, instruda e defendida para o bom viver, fez por esse pensamento quanto eslava ao alcance de suas foras, durante quasi trinta anos de apostolado. 0 recato da mulher foi o tema predileto de sua predica. E


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de certa altura em diante meteu mo.s construo de edifcios denominados Casas de Caridade, onde recolheu rfs do povo em nmero da milhares.
Esprito ao mesmo tempo doutrinador, realizador e previdente, procurou levantar os recursos possveis para garantir a estabilidade desse esforo de propaganda e educao.
Com igual sentimento, procurou esclarecer, animar, diminuir dificuldades ao sertanejo que precisasse curar o seu doente, enterrar o seu morto, fazer a orao da sua cren a, cambiar o seu produto.
Da as capelas, templos maiores, hospitais, audes e cemitrios, outros tantos cen tros que logo se desenvolviam para culto e relaes dos vivas e dos mortos. Da as 22 Casas de Caridade, abrigo de moas e meninas pobres, de to bela influncia na instruo feminina do interior nordestino, ao tempo de sua florescncia.
Ibiapina no fugiu aos caracteres de seu tempo e nem podia fugir de intransigncias ligadas sua condio de sacerdote. Mas dentro dos processos que utilisou no plpito e na escola, que alis nunca assumiram extremos de dureza e fanatismo, aparecem claros que, se no so de um gnio, realam o Apstolo de


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coerncia e o educador de vocao e de plano, Por sobre quaisquer defeitos, fceis de enxergar hoje quando a luz dos ltimos sistemas renova a Pedagogia e ilumina as prprias bases da f, le foi um semeador extraordinrio, um construtor de inteligncia e de rara energia, produtividade e abnegao.
No coloquemos o culo de modo a aproxima-lo de agora. Vejamo-lo ao longe, no cenrio em cujo ngulo se projetou a sua figura.
Realmente, no s a parte educativa, si-no toda a obra religiosa e social de Ibiapina, deve ser apreciada dentro da poca em que le a realizou. Com os elementos humanos, as idias e os recursos de ento. Dentro, pois, das possibilidades mentais, do estado moral e econmico dos sertes, nas dcadas de seu apostolado.


INFNCIA E JUVENTUDE A FORMATURA EM DIREITO
A personalidade de Ibiapina se veiu formando e definindo com serena coerncia desde a infncia. Filho de casal pobre, cedo ter .sentido o influxo da vida de restries e incertezas de seus pais. Apezar de pertencerem estes a boas famlias cearenses, domiciliadas em Sobral, no tiveram nunca uma existncia segura e desafogada. Casado contra a opinio do.s seus maiores, o pai de Ibiapina, logo aps construir o lar, teve de sair de sua cidade para um logarjo menor do munici-pio. A passou a viver, primeiro de pequenas iniciativas agrcolas e logo depois do magistrio primrio. Nem uma nem outra profisso, no sistema rotineiro e nas propores que pudera adotar o esforado sertanejo, era de molde a garantir-lhe famlia um nivel melhorado de vida. Francisco Miguel Pereira e sua mulher Terza de Jesus foram ento residir em Ic.


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No que tivessem sido infelizes em Ibiapina, a vilta serrana de seu primeiro viver de casados. (1) Antes, foi grande neles a poesia e recordao desse lugar, para o que teriam concorrido as venturas do amor que os ligara sobre preconceitos e protestos dos seus maiores De fato, j o pai de Ibiapina fora destinado ao sacerdcio, quando nas vsperas de partir rumo do seminrio de Olinda fugiu tom Terza, para o casamento. Doce maneira de homenagear o paraso acolhedor da vi-lota de S. Pedro de Ibiapina foi apor o nome desse stio ao patronmico dos filhos que da em diante nasceram. Jos, o terceiro, que veiu luz na fazenda Morro do Jaibra, Sobral, a 5 de agosto de 1806, foi o primeiro a compr-se com o sobrenome simptico (1-A).
Na cidade do Ic, Francisco Miguel passou a exercer um ofcio de tabelio e o menino Jos Antnio Pereira Ibiapina, seu nome secular, encetou os estudos primrios. Moreno, de crescimento inferior, constituio de aparncia frgil, "Pereirinha", antonom-sia que logo inspirou na escola, era, entretanto, de inteligncia lcida e vivaz. Seu progresso nas lies assim o indicou.
Pereirinha ficou em Ic at 1819, quando o velho foi removido para o Cralo.


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As condies dessa cidade no eram ao tempo favorveis ao ensino. Pereirinha a teve apenas aulas e exerccios de religio, tomados com o padre Jos Manuel Felipe Gonalves que acreditou descobrir no aluno a vocao sacerdotal de seu futuro. S no ano seguinte foi mandado para Jardim, onde aprendeu latim com um daqueles velhos professores do tempo, to versado na lingua mater. Era este o mestre Joaquim Teotnio Sobreira de Melo.
A demora dos pais de Jos Ibiapina em ('raio se prolongou at 1823. Nesse ano o rapaz seguiu os velhos para Fortaleza, vindo pouco depois para Olinda, destinado ao Seminrio e ao sacerdcio.
No lhe foram propcios os fados nesse delicado passo da vida. 0 seminrio no lhe sorriu desta vez. Diz um dos bigrafos de Ibiapina que o nivel moral do estabelecimento era ao tempo imprprio para a formao do carter sacerdotal. Um escritor tonsura-do, o padre Carlos Coelho, considera que esse afastamento de Ibiapina foi devido feio laicista e quasi irreligiosa do seminrio sob a influncia das idias da Revoluo Francesa, o que teria decepcionado o estudante sertanejo.


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Realmente a fundao de Azeredo Coi-tinho no perdera o espirito mixto em que o ensino teolgico marchava de cambulhada com as idias cartezianas e o racionalismo poltico de 89. E' verdade, porem, que Ibiapina voltou a freqentar o Seminrio dois anos depois, mas ento aquela influncia ou fora sendo tolerada ou se diluir a providncias do Bispado.
Por aquele, ou por outros motivos, Ibiapina no demorou internado e foi acolher-se ao convento da Madre Deus.
A se achava le quando acontecimentos polticos lhe vieram perturbar a calma de esprito e os estudos.
As diversas referncias que temos lido sobre a mudana de Francisco Miguel Pereira do Crato para Fortaleza no motivam essa resoluo. No sabemos se na Capital le continuou a viver do ofcio pblico que lhe vinha sendo profisso havia anos. 0 caso que o pai de Ibiapina, contrrio revoluo de 1817, tendo concorrido para o contra golpe de Filgueiras, abraou ardentemente a de 1824, adotando por acento nativista o apelido brasileiro que j dera ao filho. Talvez se explique por que a exploso do primeiro movimento no Cear se deu na zona onde le era escri-


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vo pblico e as autoridades tiveram de fazer a reao.
Alis essa diferena de atitudes ante o fenmeno da independncia nacional no foi rara entre patriotas aqui no Norte. Muitos dos antigos republicanos ficaram ao lado de Pedro I em 1824. Basta dizer que Paes Barreto foi sustentaculo da doutrinao democrtica e do desfecho de 1817 e foi justamente o presidente nomeado para assumir o governo de Pernambuco contra as aspiraes de Paes de Andrade. Tambm oposto a este se achavam, naquela provncia, Pedroso e os Suassuna, outros salientes adeptos do sonho de 17. Na Paraba, Estevain Carneiro, governador e soldado dessa Repblica, foi o comandante das tropas de combate ao presidente Ffelix Antnio que se levantara em Areia pela Confederao do Equador. O invz se dava com outros patriotas. Francisco Miguel Pereira foi um dos confederados cearenses que em maio de 1825 acompanharam o padre Moror na imolao dos fusilamentos.
0 Presidente Pedro Jos da Costa Bar-ros, no zelo do subalterno que precisa exagerar dedicao, escreveu ao ministro do Imprio, em ofcio de 26-12-1824, sobre Francisco Miguel e seu filho Alexandre: "dois mons-


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tros que deveriam ter mil vidas para, em perda delas, satisfazerem e espiarem seus horrveis delictos de todo gnero".
0 filho mais velho de Francisco Miguel Pereira, assim comtemplado, teve sentena de degredo perptuo, acabando em morte trgica no presdio de Fernando de Noronha (2).
0 rapazinho Ibiapina deixa ento o silncio da Madre Deus para cuidar da famlia enlutada no Cear. A esta vinha agora cm ajuda, na fraternidade nova dos sonhos liberais, o revolucionrio Martiniano de Alencar que Francisco Miguel Pereira combatera e quasi ajudara a perseguir em 1817.
Martiniano e outros amigos levantam recursos para a emigrao dos filhos do revolucionrio sacrificado.
Por este tempo j havia desaparecido, vtima de um prematuro parto, a mo de Ibiapina.
Com este vem viver em Recife seus irmos menores, duas mocinhas e um menino.
A insiste le na sua aspirao do sacerdcio, voltando a estudar no Seminrio, habitando o convento de S. Bento.
No conseguimos datas certas de todos esses passos, nem notcia dos meios que o rapaz obtinha para sustentao da famlia que chamara sua responsabilidade. Um padre de


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nome Joo de Deus, do convento da Madre Deus, havia pedido na hora da morte, ao bispo d. Toms de Noronha, para facilitar a ordenao de Ibiapina. Alberto Amaral diz que le contou para bacharelar-se com o concurso de um digno coestadano e colega, Manuel Teixeira Peixoto. Esse concurso parece ter sido de ordem moral e financeira, consistindo em auxilios diretos, hospedagem e os possveis trabalhos em que pudesse empregar a le Ibiapina e aos irmos. O prprio Ibiapina, enumerando na velhice as desditas de sua juventude, escreveu: "Minhas irms abandonadas em casa de parentes..." (3).
Instalado o Curso Jurdico em 1828, logo se matriculou Jos Antnio Pereira Ibiapina, nome com que vem na primeira turma de bacharis de Olinda, em 1832 (4).
Provando estudos e capacidade no estgio acadmico e amparado por influncias do instante, foi-lhe fcil obter a nomeao de lente substituto (5) e j no ano seguinte ensinava Direito Natural no curso ainda instalado no Convento de S. Bento. De vrias figuras de futuro e projeo na poltica nacional foi companheiro durante o ciclo acadmico, ocorren-do-nos aqui, Eusbio de Queiroz, Nunes .Machado e Figueira de Melo, este ltimo tambm cearense.


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Zacarias de Ges, Joo Felicio Vander-ley (depois Baro de Cotegipe) e outros que mais tarde se fizeram notveis, passaram pelas lies do novel professor em 33.
No fim deste ltimo ano vai o bacharel Jos Pereira Ibiapina despachado juiz de direito e chefe da polcia de Quixeramobim. Ao moo cearense acompanhava uma reputao de alta dignidade moral e intelectual. Tanto que foi eleito deputado Assemblia da nao, candidato mais votado, para a legislatura 1834-37. Desde o princpio se fez acatar pelos pares. H notcia de que recusou ento a presidncia de uma provncia. Seu nome chegou mesmo a ser lembrado numa das recomposies ministeriais da poca. Era o tempo da Regncia, em que os liberais moderados, a que era filiado no Cear, dominavam com o 7 de Abril e o governo de Feij.
Nessa altura, outro golpe veiu abalar os sentimentos de Ibiapina. Regressando Provncia que representava, ao encerrar-se a sesso de 1834, levava le o intento de casar-se, noivo que era da jovem Carolina Clarence de Alencar, sobrinha do ento presidente da provncia, o padre Martiniano de Alencar
Carolina era filha de Tristo Gonalves de Alencar Araripe, o chefe confederado de 1824.


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Quando Ibiapina aportou a Fortaleza, a primeira nova recebida foi a da fuga e prximo casamento de Carolina com um primo-por quem se dicidira.
Reassumiu o exerccio de juiz de Quixe-ramobim em Dezembro. Dificuldades surgiram sua judicatura. ntegro, frentico, viu-se desavindo com o Executivo. Pouco tardou a demitir-se.
Escrevem que muitos aborrecimentos; teve ele na funo de magistrado. 0 maior, o que lhe chocou os princpios de independncia e de justia, foi a absolvio de um criminoso de crime brbaro, absolvio unanime num juri acionado por poderosos locais. Assim diz Alberto Amaral, baseado talvez em tradies orais ou inspirado em crnica cearense Outro diz que a decepo foi pelo inqurito que nunca descobriu o autor do crime horrendo, o assassinato a frio de preso-retirado da cadeia. Um crime de caractersticas sombrias, cujo processo passa em suas mos resulta impune no tumulto das providncias e na inanidade das provas, levando o prprio juiz de direito a amparar o criminoso, inculpado diante de autos nulos. Noutro captulo veremos o mvel exato de seu desapontamento.
A um esprito de seu nivel mental no>


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seria fcil o exercicio escorreito de qualquer autoridade no meio sertanejo daqueles tempos .
(1) Ibiapina quer dizer terra tosquiada. ibc e api-no , segundo Alencar, nas notas de Iracema. (Eitora Record, 1938, pag. 162). Ou terra limpa, pela definio de Stu-dart (Rev. do Inst. do Cear, vol. 38). Zona muito agrcola, a 87 metrcs acima do mar. quizerarr.l chnru-la em tempo Terra da Promisso. E' municpio desde 1R78 e fregmzia desfie 1883, e hoje conta no territrio cerca de 90 engenhos de rapadura e para mais de 100 aparelhos rsticos de fazer farinha de mandioca. Tambm a cultivam caf, cereais, e criam gado. A populao ser de 16.000 habitantes. A cidade mesmo ter pouco trjais de mil. Quando o futuro missionrio a nasceu no tinha categoria pblica, era um agregado peaueno e transitrio. No ano cia Independncia alrda se compunha de 16 a 20 casas de taipa, em torno da capela tambm de taipa, com um S. Pedro de barro no nicho pobre. (Pedro Ferreira. Dicionrio da Ibia-paba, 1935, pag. 64).
(1-A) Assentamento do batismo de Ibiapina: "Jos. filho legitimo de Francisco Miguel Pereira e The-reza Maria de Jesus, naturaes e moradores nest3 frejruezia de Sobral, nasceu a 5 de Agosto de 1S0S. e foi baptisalo nesta fazenda do Olho d'Agua a 25 do mesrrrj mez e ?nno pelo Rvd. Pe. Antnio Mendes de Mesquita: padrinhos Joaquim Jos de Souza e sua me Thereza Maria d'Assumpo: e para constar, mandei fazer este pssento, em que me assigno. O vigrio Jo? Gonalves de Medeiros".
(2) As autoridades de ento fizeram constar o suicdio de Raymundo que se teria atirado ao mar de um rochedo da Ilha. Outra verso do tempo era o assassinato do joven cearense, de-"bruado numa rocha quando dois soldados o empurraram no abismo. Era esta a que Ibiapina aceitava. Tal o disse um dia ao padre Jos Thomaz de Albuquerque e este informou mais tarde ao seu conterrneo dr. Paulino Nogueira. Atribuiu-se o desfecho a cimes do comandante da ilha sinistra, Joo Bloem. alemo naturalisado, que fora vogai da Comisso Militar julgadora de Raymundo em Fortaleza. Moo e belo. Raymundo teria merecido no degredo a compaixo e ternura, da mulher de Joo Binem, o que parece foi fatal ao seu destino. (Rev. do Inst. do Cear, torno II 1888,pag.l67 nota.).
Alguns dos inrr.os de Ibiapina morreram em pequenos. Seis outros sobreviveram aos pais. Raymundo Alexandre, o mais velho, este cedo desaparecido em Fernando Noronha. Francisca Ibiapina do Corao de Maria morreu viva, em Sobral. Joo Carlos Pereira Ibiapina. bacharel de 1837. foi lente de Filosofia do Liceu do Cear e morreu cego como juiz de dl-


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reito da comarca de Prncipe Imperial. Rita Tereza de Jesus e Maria Jos Ibiapina casaram-se em Pernambuco onde viveram. Ana Ibiapina residiu na Casa de Caridade de Gravata de Jaburu, talvez fazendo parte da comunidade do irmo. Nos ltimos anos vivia ali, sem qualquer hbito ou traje religioso, morando numa casinha situada ao lado da Matriz.
A Irm Aninha morreu em 1912, ano em que tambm se fecharia a Caridade. Morreu velhinha, com idade superior de 90 anos, caducando. Tipo fsico e maneirar, diferentes d? irmo padre, alva, coradinha, olhos vivos, conversadeira, comunicativa. Em seus imomentos de demncia se declarava "noiva de um bacharel, advogado", manifestaes do subconsiente. da pcca de vida do Recife.
D. Aninha viveu trruito tempo acompanhada pela preta Lul, adotiva de Ibiapina quando deixou a vida secular. Embora no tendo sido escrava, Lul tratava d. Aninha de Sinh-ra Moa.
O Missionrio renunciara aos pequenos bens que possua em favor das irms. Esta de Gravata de Jaburu ficara com aes da Companhia de Beberibe (de abastecimento dgua ao Recife), sendo seu procurador o negociante Manuel Martins da Cunha.
(3) Ms. do Arquivo de Santa F.
(4) Eis, a cpia de sua carta de bacharel, cujo original se acha no Instituto Arqueolgico, Histrico e Geogrfico de Pernambuco :
"Academia de Sciencias Sociaes e Jurdicas em nome da Congregao.
Eu Manoel Ignacio de Carvalho, exercendo as funoens de Director da Academia de Sciencias Sociaes e Jurdicas da Cidade de Olinda: Tendo presente o termo de aptido no gro de Bacharel Formado obtido pelo Sr. Jos Antnio Pereira Ibiapina, filho de Francisco Miguel Pereira Ibiapina, nascido na viUa de Sobral Provncia do Cear a 5 de Agosto de 1806 e de lhe haver sido conferido o dito gro pelo Presidente e Lente, que o examinaro, e approvaro plenamente. E em conseqncia da Autoridale que me dada pelos Estatutos que regem esta Academia e do que n'elles me ordenado: Dou por esta presente ao dito Sr. Jos Antnio Pereira Ibiapina a carta de Bacharel Formado em Sciencias Sociaes e Jurdicas, para que com ella goze de todos os direitos e prerogativas attribuidas pelas Leis do Imprio. Olinda, 9 de Outubro de 1832. O Presidente do acto Antnio Jos Coelho. O Diretor da Academia Jurdica Dr. Manuel Ignacio de Carvalho."
(5) Decreto da Regncia de 1 de Fev. de 1833.




COMO JUIZ E CHEFE DE POLCIA
Nas funes de juiz de direito em Quixe-ramobim o dr. Ibiapina no era s o julgador. Era um instrutor das leis, observador e crtico de costumes pblicos, com um programa definido contra o crime e os criminosos de toda espcie, que infestavam o serto. Logo no ofcio de comunicao de posse (24-12-1834), o juiz solicitava ao Presidente da Provncia as medidas gerais necessrias ao bom desempenho do cargo. "Aproveito esta mesma ocasio para pedir a V. Exc.a fora com que possa punir os criminosos. V. Exc.a sabe bem avaliar o estado das cousas nesta comarca; providenciar, portanto, a tal respeito, emquanto eu no circulo de minhas atribuies emprego todo o meu cuidado para que de uma vez o crime deixe de zombar das leis." (6).
A 30 de Dezembro Ibiapina comunicava sua ida aos termos de Maria Pereira e S. Joo do Prncipe. Neste ltimo distrito ocorriam continuados crimes, oito assassnios nos lti-


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mos dois meses. O Juiz reclamava fora para acompanh-lo e para guardar as prises, reclamava a criao de juntas de paz e de coleto-ras fiscais para que a falta de selo no retardasse o andamento dos feitos. O presidente a tudo respondia, atendendo ou sugerindo medidas que atenuasem as difculdades, tambm revelando interesse pela justia e pela ordem no interior.
Agora, num relatrio de 30 de Janeiro de 1835, Ibiapina d conta ao Presidente do que fez nos vrios julgados da comarca. "Uma parte detalhada do que por aqui se fez, do que convm fazer e da causa dos males deste serto," denomina le a sobredita comunicao E trata dos embaraos da diviso do termo, da falta de alojamento para os servios judicirios, da falta de prises. Falou do interesse dos jurados em conhecer as leis e punir os crimes, nas lies que deu explicando partes do Cdigo do Processo Criminal, com admirao, alegria e agrado de todos. "Aproveitei-me destas disposies para infundir-lhes horror ao crime e interess-los na punio deles; e creio ter conseguido a primeira pela mudana que se experimentou ento na linguagem, e a segunda V. Exc." julgar pelas sentenas pelos jurados proferidas e que junto remeto."


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No dia da abertura do juri era Maria Pereira, Ibiapina fez festa, exaltou a Constituio, plantou com os jurados uma arvore que se denominou Liberdade, cantando-se o hino nacional, entre vivas Carta e ao princpio que aquela planta simbolisava. O juiz explorou nobremente essa atmosfera, reunindo as pessoas influentes do lugar, realizando conciliaes, falando contra as intrigas, as vinganas e a impunidade.
Ibiapina passou a pintar ao Presidente os efeitos do protecionismo de potentados locais a criminosos temveis, salientando a situao do termo de Tau. Em seguida enumera outros trabalhos de instruo aos juizes de Paz, de reunio da Junta Policial e de outras providncias interessantes boa ordem e tranqilidade das populaes. O animo de combater o crime era to forte que abriu subscrio popular para a construo de uma cadeia. Antes disso, chegou a permitir a adoo de um tronco, ignominioso sistema que le prprio no justificou sem escrpulo: "no obstante saber eu que como priso inconstitucional; porm, dando-lhe outra aplicao no contra a Constituio; por isso assim se fez. S servir para a segurana dos presos por uma noite ou algumas horas, emquanto se apresentar a fora para conduzir o criminoso


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para cadeia segura; isto a Constituio no probe. Como a falta de priso aqui uma das causas da impunidade, promovi uma subscrio para a obra, a qual j est muito adiantada".
No se esqueceu de requisitar ao Presidente uma escola e falar vrias vezes em educao como base de qualquer reforma.
Ibiapina, porm, termina o documento com um tpico chocante para o Presidente. 0 comandante do destacamento de Quixeramo-bim havia negado ao juiz 16 praas que este requisitara, e o juiz, ento, escreveu: "Requisitei de novo ao oficial, fundado nos ofcios de V. Exc." e agora vejo pela resposta que V. Exc* deu contra ordem".
Esta contrariedade e outras disposies em minha comarca, onde sou chefe de policia, sem ser ouvido, poderiam desgostar-me; mas so pequenas coisas, de que no fao caso, e desaparecem vista do bem de meu pas. Aqui no o poder executivo que antipatisa com o judicirio, porque este nada tem obrado em contrrio qule; so indisposies de homem a homem, que s me podem ofender, porque elas ofendem ao meu pas." (7)
V-se que o magistrado se abespinhava com o Presidente, parecendo que vinha de antes o desafinamento de nimos. Num dos of-


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cios de Alencar, este fazia vr, respondendo s picantes exigncias do juiz, que em vez de ir a Tau, Ibiapina melhor serviria ao pas partindo logo para os trabalhos da Assemblia Nacional. Era evidente que as relaes se azedavam.
Ibiapina foi a Tau, onde encontrou um triste quadro de mandonismo e criminalidade, e sobre essa viagem de correio judiciria, em 8 de marco oficiou ao Presidente: "Todavia depois de me terem resistido desde 6 de Fevereiro instalei a custa de todo sacrifcio os jurados no dia 18. Achei-me s contra todos: e como a negativa da fora, que pedi a V. Exc", lhes pareceu desunio entre mim e V. Exc." mesmo, e a isto acresce a declarao que fiz, de resistir tambm a qualquer ordem legal, e neste caso eslava uma de V. Exc.a contra Joo Rodrigues do Nascimento, aproveitaram-se disso e de minha falta de tropa, para s fazerem o que quizessem.
Assim mesmo trabalhei todo o tempo que ali estive contra as idias gastas, e s por me faltar o tempo deixei de concluir a tarefa que tinha comeado." (8)
V-se que Ibiapina era um adepto convicto do sistema liberal, ageitado no Brasil sob a influncia das idias francesas e do regime parlamentarista da Inglaterra.


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(6) O presidente era o padre Martiniano "Pico certo de haver Vmce. tomado posse do logar de juiz de direito desta comarca, como me participou em officio de 14 do corrente.
Quanto ao que pede para a punio dos criminosos, cumpre-me dizer que nessa Villa tem um destacamento de 1." linha, s destinado a auxiliar as autoridades, e nesta data oflicio ao teu comandante para a anuir s requisies de Vmce., com a mesma promptido com que obedeceria ss ordens desta Presidncia, e si apparecer grupos de accinorosos armados que essa fora (que alis pode ser augmentada com gxiardas nicionaes) se julgue pouca, eu a farei reforar; ficando Vmce. certo que tendo encetado a tarefa de pr em ao todos os meios legaes para fazer cessar a impunidade que ia levando a nossa bella Provncia a um abysmo de males e atrocidades, s desejo que as autoridades judiciarias me ajudem nesta to necessria em-preza, e pelo conseguinte farei pr disposio d'aquelles que, como Vmce., se mostrarem desejoscs de punir os criminosos, toda a fora publica que r necessria para o prompto desempenho de suas funces.
Deus guarde a Vmce. Palcio do Governo do Cear, 21 de Dezembro de 1834. Jos Martiniano de Alencar Sr. Jos Antnio Pereira de Ibiapina, Juiz de Direito da Comarca da Villa de Quixeramobim. "
(7) O presidente responde nestes termos:
"Despresando a ultima parte do seu officio de 30 de Janeiro prximo passado, em que Vmce. escreve palavras inconsideradas que, alem de atacarem minha pessoa, so em extremo offensivas do decoro devido autoridade de que me'acho revestido, cumpre-me to somente louvar-lhe todo o mais contexto do seu referido officio, donde respira o maior zelo, energia e habilidade profissional, com que Vmce. tem desempenhado o importante cargo que lhe foi confiado, no podendo deixar de significar-lhe o meu prazer quando li as diligencias por Vmce. feitas para infundir no animo dos povos ainda no preparados o amor s instituies livres que possumos.
Sinto que no se podesse utilisar da fora em sua ida para o Inhamum, mas posso asseverar-lhe que o Comandante no lestacamento no lhe a podia conceder, a vista de ordens at imperiaes de que se acha incumbido por esta Presidncia para executar fora da Comarca de Vmce., nus se V.rrice. me tivesse prevenido em tempo eu teria de certo providenciado, para que uma fora o acompanhasse 10 Inhamum, onde at no supunha que fosse, visto o pouco tempo que lhe resta para seguir Assembla Geral. Caso porem Vmce. no v este anno ao Rio de Janeiro (no que talvez faria maior servio sua Ptria; e queira ter effectivamente comsigo uma fora que coadjuve seus actos em qualquer parte, avise-me que eu immediatamente mandarei pr e inteiramente sua disposio um destacamento.
No entretanto, desejando em tuao mostrar-lne o conceito


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que fao de Vmce., e o quanto desejo habilital-o com a fora necessria ao bom desempenho das funces de seu emprego, incluso remeto-lhe e coxi sllo volante este officio para usar delle se assim o julgar conveniente. Deus guarde a Vmce. Palcio do Governo do Cear, 21 de Fevereiro de 1835. Jos Martiniano de Alencar. Sr. Jos Antnio Pereira Ibiapina, Juiz de Direito da Comarca da Villa de Quixeramobim."
(8) Ibiapina comeara este ofcio persuadindo ao Presidente que "as idias do sculo XIX no penetraram ainda a primeira camada de homens daquele logir". Acrescentava que estes homens s faziam o que queriam, adotada a lei do mais forte, e o que eles queriam era "quasi sempre a execuo de antigos prejuzos, que no podem casar com o ncsso sistema liberal ."




DEIXANDO A MAGISTRATURA E O PARLAMENTO
Este Joo Rodrigues do Nascimento, de S. Joo do Prncipe, foi o vingador do assassinato de seu filho Jos Rodrigues.
0 criminoso Pedro Vieira estava nta cadeia pronunciado pela justia. Joo Rodrigues, que era juiz de Paz, teve o cinismo de requisitar o preso. Sendo-lhe negada a entrega, fez-se acompanhar de um genro e vrios capangas, assaltou a priso e arrancando da Pedro Vieira, o espotejou friamente na rua.
Isto se deu em Dezembro de 1834. Mais tarde Joo Rodrigues e seus comparsas foram absolvidos pelo jri presidido por Ibiapina. Ora, o juiz era um inimigo do crime, mas tambm um escravo da lei que garantia as decises do tribunal popular. 0 juri reconhecera nulidades substanciais no processo, no podia o magistrado manter preso quem no momento no tinha nota de culpa.
0 presidente Alencar, interessado em


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bater o crime no serto, considerando Joo Rodrigues do Nascimento um potentado fa-cinoroso, deu ordens diretas contra le. Isso exasperou Ibiapina, por intermdio ou ao mando de quem devia correr qualquer providncia. Por isso, no capricho de autoridade briosa, sustando talvez um sentimento desfavorvel a Joo Rodrigues, desobedeceu ordem do Executivo. Sendo Joo Rodrigues jurado, chamou-o na sesso seguinte a conselho. Foi o rompimento com Alencar. Este submeteu a conduta do juiz Assemblia, onde o caso se tornou rumoroso. Ibiapina esteve a pique de ser arrastado a um tribunal de exceo. Mas as coisas pararam, os adversrios de Alencar o acusaram de prepotente por invadir a esfera da justia, o juiz deputado seguiu para a Corte e no fim da sesso de 35 pediu e teve exonerao da magistratura.
No foi, assim, somente por dificuldades de aplicar a lei num distrito onde no era simples demolir o domnio dos potentados, que Ibiapina abandonou sua comarca. Foram choques com o chefe do governo e da situao, que lhe fizeram o terreno fugitivo para exercer autoridade no Cear.
Sob essas impresses, esses desencantos e despeitos, no custou no Rio a simpatisar o elemento que se erguia em oposio ao go-


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vrno geral, do qual o presidente de sua provncia era um agente imediato. Colocou-se na Cmara ao lado dos que analisavam os fatos da administrao, atacavam os ministros, consideravam pretas as coisas do pas. Colocou-se ao lado de Bernardo Pereira de Vasconcelos.
Xu era um deputado inativo. Em princpios de Julho de 1835 apresenta um aditivo de projeto reduzindo de trs quartas partes a moeda de cobre em circulao. Ainda neste ms, outro projeto criando uma cadeira de economia poltica no Par, com a obrigao do lente explicar a Constituio.
Propunha por vezes suas medidas em termos curtos, francos, sino rspidos. Em sesso de Agosto, aps discutir-se um requerimento do deputado Ramiro sobre ameaas de desordem na Baa, Ibiapina se manifesta. Acha que se colige de tudo "o triste estado em que est o pas", considerando melhor convidar-se o senado para exame dos males em perspectiva E entregou Mesa esta indicao:
"Que se convide a outra cmara para que em assemblia geral se trate de remediar a crtica posio em que se acha o Brasil Pao da Cmara, 27 de Agosto de 1835 Ibiapina".
Comprende-se que as comisses, onde o


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governo tinha maioria, iam desviando esses golpes.
Em 1836, por motivo de um roubo ocorrido no Tesouro nacional, houve talas no parlamento. 0 ministro da.Fazenda era Manuel do Nascimento Castro e Silva, deputado alen-carista do Cear, o qual alis j informara Cmara sobre o caso e as providencias tomadas.
0 fato de ser o ministro um conhecido da poltica dominante naquela Provncia j inspirava a Ibiapina uma suspeita, uma antipatia particular. A 16 de Julho le aparece:
"Indico que se dirija uma mensagem ao trono com o fim de ser substitudo o atual ministro da Fazenda por quem possa desfazer a crise financeira que ameaa esmagar o Brasil".
A comisso de constituio desviou o assunto. Mas em sesso de setembro Castro e Silva, falando sobre um requerimento de Vasconcelos, no projeto de reforma do meio circulante, declara "pouco decorosa a oposio que se h feito ao Ministro da Fazenda numa conjuntura como esta. Cumpria primeiro que o ministro desse conta da casa que administra para ento fazer-se esse requerimento, para fazer-se uma mensagem ao tro-


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no, requerimento que nas circunstancias a-tuais no decoroso."
Ibiapina, vendo-se alvejado, desafogou-se numa reao nervosa e violenta. Este resumo d uma idia do que eram o seu temperamento e os seus modos na mocidade:
"O sr. Ministro da Fazenda disse que era indecoroso a um membro da oposio indicar uma mensagem ao trono para ser le demitido nas circunstancias atuais, em que ningum queria entrar para o tesouro, depois de roubado .
"Indecorosa -entende o orador ser essa linguagem do Sr. Ministro! Declara que apresentou essa indicao porque, sendo do seu dever velar nos interesses do pas, conheceu que o mais grave mal que nos ameaa a desordem no sistema financeiro, e que a crise que ameaa o Brasil crescer, no obstante qualquer medida til, uma vez que o chefe dessa repartio seja uma pessoa to inabil, to incapaz como o atual Ministro da Fazenda. Convencido disso, propoz aquela medida, para aventurar esse meio de salvao pblica; e ainda por isso que vota pela urgncia que se discute, posto que nenhum resultado feliz espere conseguir.
"Mas S. Exc. disse que era indecorosa a indicao da mensagem; permita a cmara


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diz o orador, que em minha defesa use dos meios mais favoritos, de que sempre se serve S. Exc. quando nesta casa se defende das justas e pesadas arguies que lhe fazem seus adversrios.
"Indecoroso foi S. Exc. pedir ao atual Presidente da minha Provncia que o nomeasse inspetor da Alfndega, e isto, sr. Presidente, para que se lhe no tirasse o po para a bca! Ser isto decente, ser isto deco-roso ?
"Indecoroso foi que o Sr. Ministro demitisse e removesse empregados que contavam anos de servios, alm de uma capacidade profissional conhecida, e sem nenhum crime, para em seu lugar arranjar seus irmos e parentes !
"Indecoroso que o Sr. Ministro, depois do roubo do tesouro, nenhuma providncia lenha dado sobre os empregados do mesmo tesouro, e que todas as outras acerca do papel em circulao tenham sido marcadas com o cunho do desacato, trazendo em conseqncia o tropeo ao comrcio, dificuldade mesmo nas transaes domsticas, o clamor pblico em uma palavra.
"Indecoroso, emfim, que o Sr. Ministro, a despeito de precedentes to desfavorveis ao seu conceito, ainda se assente entre os


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representantes da nao. Mas ao Sr. Ministro nada capaz de lhe fazer a face vermelha.
"O Sr Presidente chama o orador ordem.
"O Sr. Ibiapina: Eu poderia falar, mas emfim calo-me, porque sei obedecer" (9).
Este "calo-me porque sei obedecer" era bem do homem que mais tarde, num ministrio praticado com orientao autnoma, saberia mandar.
O temperamento e as maneiras podem modificar-se com o tempo, a alimentao, o sistema de vida, as idias, pois tudo isso atua no organismo alterando a base fsica das manifestaes morais. Um dos bigrafos de maior simpatia por Ibiapina, aludindo a seu gnio impetuoso, acrescentou: "defeito de que s quasi no ltimo quartel da vida conseguiu curar-se radicalmante". (10)
O gnio impetuoso era afinal a marca de uma energia. Uma vez domado para uma ao de sentido prtico, se representaria em produo forte, igual ao carter donde dima-nava.
O deputado Pereira Ibiapina, trabalhou calmo, talvez sem maior entusiasmo, na sesso de 1837, a ltima de sua legislatura.
Na tribuna do plenrio s apareceu duas


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vezes, apresentando e defendendo um projeto sobre substituies nos cursos jurdicos de Olinda e S. Paulo.
(9) Anais (sesso de 2-9-1836).
(10) Paulino Nogueira, artigo citado, pag. 190.


EM PROCURA DE UM DESTINO
Ibiapina tambm no voltou Assemblia Nacional no perodo seguinte. J ento dominavam outros elementos. Formara-se o Partido Conservador nas transformaes que se deram aps o to Adicional. Dada a sua ltima atitude, no lhe podia ser infenso o gabinete 19 de Setembro, o primeiro nomeado pelo regente Olinda. Entretanto, sumiu-se da poltica. Afastado da famlia junto qual se malograra ao mesmo tempo sua primeira aliana pblica e seu sonho de namorado, deslocou-se o eixo de sua vida no Cear.
Findo o mandato de deputado, onde nenhum encanto o prendeu, abandonada a carreira da magistratura, na qual lhe bastaram aquelas decepes, desfeito seu noivado com a filha de Tristo, Ibiapina veiu viver em Recife.
Nesse meio de maiores possibilidades de trabalho e de cultura vinha le iniciar outra fase de vida, entregando-se advogaria. Sabe-


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se que abriu escritrio num sobrado praa do Carmo, anunciando-se para o foro da Capital e do interior. A tradio de que logo de principio foi alcanando sucesso por competncia, probidade e brilho. Vai a Areia a servio de demorada ao comercial. No apanhmos a data desse seu primeiro passo na provncia da Paraba. Mas a 18 de maro de 1838 le j aparecia perante o juri daquela cidade patrocinado um homem que matara por motivo de honra.
Na pea de defesa a proferida colhe-se uma expresso decisiva sobre o estado de esprito que se vinha formando em Ibiapina.
0 ru havia morto seu sogro, pegado em flagrante de relao amorosa com a prpria filha recencasada. Apesar da razo do delito, vista dos sentimentos da nossa sociedade, sobretudo naquele tempo e meio, o criminoso no encontrou proteo, amparo, nem defesa em ningum. S pelo acaso da presena de Ibiapina em Areia, teve patrono perante o tribunal de julgamento.
0 advogado, salientando com palavras incisivas esse abandono e desventura, exclama: "E afinal recai to rdua tarefa em quem? Em um homem sem habilidade, novel na prtica do foro, desconhecido no lugar, e at, (direi tudo) infeliz tambm!"


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Essa declarao nos parece como um grande grito de dr da bela alma de Ibiapina. le vinha lutando na vida com a dignidade e altivez de uma forte tempera, mas dentro de um poo de descontentamento, que cada dia se aprofundava. "Direi tudo", proferiu le em 1838, na passagem em que se ia declarar infeliz. le mesmo descobre o complexo de tristeza e amargura que, atuando sobre a natureza j de si emotiva e como talhada para um mister, o conduziria de vez ao sacerdcio.
Continuando a viver em Recife por toda a dcada de 1840 a 50, Ibiapina consolidava sua reputao intelectual e moral, por uma conduta parte. Trabalhando e estudando, solteiro, retrado das elegncias da cidade, sempre em relaes com altos clrigos e elementos leigos da igreja e do catolicismo de Pernambuco.
No escro biogrfico atribudo ao um douto de Misso Velha, e escrito no mximo em 1863, diz o autor: "Retirou-se, pois, do mundo no ano de 1850 e procurou a solido que sua alma desejava com tanto empenho". E mais adiante: "Estudando, pois, e aprofun-dando-se nas virtudes da humildade e pobr-sa voluntria, cultivando os exerccios de piedade, ruborando-se com a freqncia dos sacramentos, passou trs anos na solido".


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O gnio de Ibiapina se ia fechando desse modo ao mundo da existncia comum. Do escritrio para a casa, para poucas prosas ntimas, para as igrejas, tornando-se cada dia mais grave, insatisfeito e exquisito, comam mesmo sobre le os rumores de religiosidade ul-tramontana, de irascibilidade e de maluquei-ra. A' vista de seus conhecidos e crentes, porm, o que se dava era uma santificao a olhos ns. Quando em 1853 um amigo lhe sugeriu decidir-se pelo presbiterato, le mesmo declarou que tal j era seu desejo. "Eu no me achava com coragem de abrir-me com ningum, porque ento que diriam que estava maluco".
A inclinao de Ibiapina para o sacerdcio vem, assim, desde a adolescncia, desde o lar, desde os primeiros contactos com professores, padres e ambientes de igreja. Foi perturbado em seu desgnio logo ao internar-se no seminrio de Olinda por condies deste no momento, precariedade interna, fraqueza ou desvirtuamento de finalidade pedaggica e moral do instituto. Abalou-se ainda com o contratempo da desgraa que caiu sobre sua famlia no Cear e as obrigaes que vieram de uma assistncia imediata a irmos mais moos. "Meu Pai fuzilado pela poltica; meu Irmo desterrado em Fernando, onde morreu


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desgraadamente..." (11) Desviou-se em seguida com a novidade dos cursos jurdicos no pas, atraindo naturalmente as inteligncias nobres, sobretudo nos centros onde aqueles estudos se estabeleceram. 0 magistrio, a ao pblica que iniciou como parlamentar como juiz poderiam ter entretido noutros rumos esse esprito lutador. 0 casamento deveria consolidar uma situao. O trabalho movimentado do foro, seu campo de estudos, suas rivalidades, seus interesses, dariam por si ss para alegrar uma inteligncia e encher plenamente uma vida. Ao contrrio, tudo conspirou para um regresso ao ideal primitivo. Ou porque os acasos se juntaram nesse sentido uniforme. Ou porque o temperamento de ibiapina, suas taras nervosas, suas tendncias psicolgicas e mentais viessem dando aos incidentes e deles viessem colhendo uma cr peculiar e a emoo lgica conseqente. As decepes de um parlamento, o suborno, covardia ou ignorncia de um juri de aldeia, o a-bandono de uma noiva, por mais bela e querida, no influem igualmente sobre todos os homens.
0 ltimo grande desgosto de Ibiapina, comprovando sua receptividade particular, sua mentalidade, sua pureza, seu desencanto crescente, foi a perda, em 1850, de uma ques-


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to cvel de cujo direito estava convicto at medula. Casos semelhantes sucedem, em circunstancias assim intensas, e se repetem mesmo, com todos os advogados de longo tiroc-nio. Com Ibiapina, porm, a reao foi singular: devolveu os honorrios, distribuiu os livros jurdicos, abandonou a profisso.
Outros, sob a calma de filosofia humana e realista, porfiariam em sua luta. Porfiariam sob as convenincias diveras da vida, os estmulos do interesse e as prprias vises e esperanas da justia.
Em Ibiapina reagiam outro organismo, outros pesos d'alma, outra formao espiritual .
S outro destino o conformaria com a existncia.


IBIAPINA ADVOGADO
De Ibiapina, como advogado, no so muitas as provas diretas. Mas so diversos e idneos os testemunhos consolidando a fama que le deixou em Recife.
Amrico de Freitas Magalhes e Paulino Nogueira, bacharis e magistrados, ambos da relao de Fortaleza, o primeiro contemporneo de Ibiapina em Recife, o segundo, alm de desembargador da Justia, presidente do Instituto do Cear, atestaram em vrias passagens sua competncia jurdica e exaltao de patrono tanto no eivei como no crime.
O dr. Serfico Nbrega, que foi um bom esprito da Paraba, velho advogado, vice-presidente do Estado, seu representante por mais de uma legislatura na Cmara Federal, escreveu em carta ao padre Carlos Coelho, quando este publicou sua brilhante conferncia sobre o Apstolo: "le exerceu advocacia na Provncia da Paraba, como bem alude, na Comarca de Areia, Campina Grande e So Joo


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do Cariri. Nos cartrios deste ltimo Termo encontrei arrazoados dele. A le veio de Areia requerer a demarcao da propriedade "Mucuit", ento de um rico fazendeiro do Cear. Tive de completar esse servio materializando, por outras linhas, os limites dessa propriedade. Os seus servios de jurista feitos em 1848, so admiravelmente l>em deduzidos."
Do Dirio de Pernambuco, edio de 5 de Agosto de 1878, de artigo em que se saudava o aniversrio natalcio do sacerdote, recortamos alguns tpicos expressivos:
"Fora da poltica, Ibiapina retirou-se logo do Cear, voltando para Pernambuco, onde entregou-se exclusivamente vida do foro.
"Durante muitos anos foi le considerado, seno o primeiro, com certeza um dos mais notveis advogados do Recife, j pelos seus conhecimentos como civilista, j pela fa-cundia e aptido que revelava na tribuna criminal. Neste gnero deixou le mais de um trabalho notvel; os moos o tomavam por modelo, porque de fato havia em seu estilo alguma coisa de original, e a frase era lmpida e correta.
"Afinal parece que tambm as lutas forenses o desgostaram, levando-o a certo desprendimento das relaes sociais e induzindo-


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o a abraar o estado eclesistico, carter em que se tem entregado prtica, missionando freqentemente entre as populaes do interior de Pernambuco, Paraba, Rio Grande do Norte e Cear, onde, graas ao influxo e iniciativa de sua palavra autorizada, criaram-se esses estabelecimentos de caridade de que tanto se tem falado ultimamente.
"Como homem pblico e privado, o dr. Ibiapina de uma vida sem mcula e h tradies de mais de um to de beneficncia por le praticado em outros tempos. E' da que lhe vem a venerao e espcie de culto que lhe votam as populaes por onde passa".
Na Paraba, j se viu que advogou o dr. Ibiapina, demorando em Areia e aparecendo no foro de Pilar, de S. Joo do Carir e talvez de outras comarcas.
Sua pea muito conhecida a defesa do Juri de Areia, em 18 de Maro de 1838, de cujas cpias consta em nota a absolvio do acusado. A verso existente deve ter sido resumo do prprio autor, pois de divulgao antiga, jamais contestada. Conhecemo-la de antes de 1900, dando-se que ento nos informou um velho advogado do Carir, nosso Padrinho, dr. Felix Daltro, conhec-la em folheto havia muitos anos.
Deduzimos da ser de publicao anterior


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morte de Ibiapina. Vem mesmo, nalgumas impresses, seu nome como assinatura.
Eis a pea proferida por Ibiapina:
"To desgraado, senhores, nunca vi algum!! Todos os homens tm um Pai, Me, irmo, um parente, um amigo, ao menos um protetor, que a favor de sua sorte figure, pedindo, alegando razes que o defendem; a este infeliz, porm, ningum protege! Desconhece o pai, nunca viu a me e quem ser parente dele, perseguido e desgraado?
"E' uma ovelha desgarrada que em rebanho estranho vive; s lhe faz companhia, s o procura a desventura !! Alguns conheo a quem a mesma desventura recomenda, chamando em seu favor a compaixo; mas deste infeliz, apenas se diz: Ru de morte; idia horrorosa, pensamento ingrato! Todos dele fogem; e em lugar de encontrar um corao piedoso, encontra repulsas e acusaes; procura-se um Advogado, que de sua defesa se encarregue; negam-se todos, os mais hbeis fogem, e afinal, recai to rdua tarefa em quem? Em um homem sem habilidade, novel na prtica do Foro, sem uso de eloqncia Judiciria, desconhecido no lugar, e at (direi tudo) tambm infeliz; e que de mais tem por opositor ao ilustre Promotor, armado com todas as armas de Cato, suma habilidade e muita reputao.
"O que que se quer, Senhores, n'alluvio de tantos reveses ao Ro? Que morra le? Ceder fora do destino!! A^.-.im, malaventurado homem, o que te resta ?
"A minha fraca voz, ela mesmo pde teus males agravar; e ento, como aquela alma sensvel podes dizer: o dos omnes, nttendite, et videtc si est dolor si-cut dolor meus!! (12)
Matou!... Certo que nada mais pde obter ura acusador contra o acusado; porm notai bem, Senhores, matou em circunstncias tais nas quais colocado qualquer um no obraria diferente do Ru.
"Vs ides ver; le no tanto desputar seus direitos, como tem de reclamar os de vossa piedade e clemncia.


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"Em a noite do dia 16 de Agosto de 1837.. Cum subit illius tristssima noctis imago; Cum repeto noc-tem, qua tota mihi mala fuere; labitur ex oculis tunc quoque gutta meis! (13)
Nessa noite funestissima para este infeliz, vinha le de seu roado canado das fatigas do dia, e cheio de prazer pela consoladora idia de abraar a esposa, que tanto mais cara lhe era quando apenas havia dois meses que se tinha casado, e que quela hora costumava estar na porta de sua cabana espera die para dos hombros lhe tirar o peso; quando ao chegar casa, carregado de milho, feijo e batatas, no a vio porta; entra e que quadro se lhe no apresenta!!
"Perdoa, homem infeliz, que ainda eu aqui venha renovar a tua dr acerba! A mulher em adultrio com o prprio Pae!
"Em clera abrrzado, possuido de furor, perdendo o uso da razo, e so vendo diante de si um ultraje superior a todos os inales da vida; destonhe-cendo a lei, e cego a toda reflexo, disparou uma espingarda no adltero, e tirou a vida qule mons'iro! Esqueceu-me, senhor, to violenta expresso para com o morto, perdoai-me; eu digo parce sepultis.
"Casado ha pouco tempo, possuido de idas de amor na idade de 18 anos, amando extremamente sua mulher, e enconlrando-a em adultrio, quando pensava abraa-la inocentemente; adulterando, e com a-qule em quem depositara a maior confiana, seu Sogro, o Pai da adultera... o que eu faria, no sei, Senhores, talvez tendo igual desventura, fosse errar pelos desertos da Arbia, onde no visse quem dos meus males sorrisse; mas vs colocai-vos em idntica posio do Ru! Respondei, se igual sorte vos perseguisse: o que farieis, Senhores ?
"Ah! quando ha sangue frio, julgamos os homens que obram em momento desgraado, sempre os consideramos desarrasoados, injustos, e criminosos, como se quando tais atos se praticam, estivessem os autores deles com a balana na mo, pesando prudncia, razo e justia, inclinando sempre a concha do sofrimento a favor da Lei. Julgando assim, Senhores, sempre se injusto. E' mister se voltar as vistas ao momento do ato, calcular a razo em que esiado se


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achava, que vontade, que liberdade ento havia: porque todos vs sabeis, que sem razo, vontade e liberdade, no ha imputao, no ha culpabilidade, no tem lugar acusao, penas se no devem sofrer.
"Em verdade vos digo, ijenhores, no. estado em que este infeliz se achou, .nenhuma destas bases houve, e cada um de vs pode julgar, se a poderia haver.
"Lede o processo; vs j o ouvistes, e o que eu narro, narro todas as testemunhas.
"O Ilustrado Melo Freire, e com le os mais aba-lisados criminalistas consideram a raiva violenta, breve furor; e o que no caso em questo houve, sc no breve furor!'?
"Ora os atos praticados em breve furor sc no imputam: por tanto certo o Ru no pde sofrer pena, falla-lhe a base da imputao.
"Em Roma, Roma que em Leis domina o mundo ainda, o marido ultrajado tinha direito de matar o adltero encontrado no ato criminoso.
"Em Frana, em Inglaterra, a mesma legislao at pouco tempo imperava; em Portugal, cuja legislaro foi nossa at 1830, e cujas idias estiveram gravadas por mais de dois sculos no animo dos Brasileiros, e ainda esto, porque se no podem facilmente apagar as impresses da primeira idade, c portanto temos gravada; em Portugal, digo o marido ofendido tinha o direito de matar o adulterando; quereis vr a legislao?
"Ouvi-me, por bondade.
"Ord. L. 5 T. 38 in princ. Achando o homem casado sua mulher em adultrio, licitamente poder matar assim a ela, como o adltero; 1. E em no somente poder o marido matar sua mulher e o adltero, que achar com ela em adultrio, mais ainda os pde licitamente matar, sendo certo que cies cometeram adultrio.
"Ora, Senhores, se todos os povos civilisados tm considerado o adultrio to grave atestado contra a moralidade das famlias, interesses os mais srios da Sociedade, e tanto, que tm depositado na mo do marido o direito de vingar a maior das injurias, para conter uns e evitar oulros; porque entre ns,


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que tambm entramos na lista das Naes cultas, tendo herdado de Portugal as idias de sua Legislao, seus costumes e usos, onde o marido tem direito de matar o adltero, e a pouco tempo o mesmo direito tnhamos; entre ns, digo, porque razo ha-de q Ilustre Promotor exigir to rigorosa pena ao R. quando rircunstancias as mais atenuantes conco-rem a favor d'le?
"Perde-me o Ilustre Promotor; ha grande desproporo nas penas de seu Cdigo penal. S. s. exige pena de morte para aquele, que mata o adltero, encontrado adulterando com a prpria filha; que pena marcar para aquele, que mui de propsito vai esperar seu semelhante inerme, e por paga, que se embosca dias, e afinal mata um homem honesto, pai de famlia e cidado virtuoso? O Ilustre Promotor bem sabe que para agravar os crimes e penas, deve provar circunstancias agravantes: portanto rogo-lhe me oua com bondade que com o Ru injusto, faltando com o respeito lei, e entendendo-a odiosamente em matria criminal. E' exagerado, elevando o crime, e tanto que pede a morte do Ru, concorrendo as mais favorveis circunstancias para atenuar o delito.
"Senhores, nos pases, onde o casamento dis-soluvel, o abandonar a mulher adultera livra o marido ofendido da infmia; mas em o nosso Pas, onde o casamento indissolvel, os costumes tm sancionado esta mxima que infame o homem, cuja mulher adultera, e le... eu no digo o resto: todos vs sabeis. Nem vos admireis; isto o que acontece a respeito d'quelas cousas, que a legislao aprova ou determina, quando os costumes condenam, e vice-versa; acontece assim todas as vezes que as leis se no baseam nos costumes e caracter dos povos.
"Na Inglaterra, a lei que probe o duelo, no podendo isentar da infmia o que rejeita o desafio, no impede que o ofendido ocorra a le, embora sofra a pena, porque a honra superior tudo nos Pases onde a opinio pblica superior s molas saciais-Estamos inteiramente neste caso, e como tendo diante de ns tudo o que a razo aprova e a equidade aconselha, quer o Ilustre Promotor, que crimes nascidos em grande parte da poderoza influncia dos.


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costumes e opinio dominante, sejam punidos de morte sem distinguir aquele que obra com suma maldade daquele que foi forado pelas circunstncias, o que obra sangue frio do que perde o uso da razo, dominado de breve furor?
"E por um ato, que todo o homem de honra; talvez mesmo o Ilustre Promotor colocado em idntica circunstancia... mas eu no devo sondar o corao de algum!
"Digo somente. Senhores, que se alguma vez pde o Juiz fazer graa, quando as Leis punem e a concincia perdoai
"Quem ha ahi que em concincia no julgue este desgraado isento de imputao!
"Sois Juizes de concincia, atendei bem para o que agora a este desgraado acontece!
"Mas j nenhuma considerao pde valer a este miservel perseguido e abandonado! O Ilustre Promotor o acusa de morte, e s razes no cede; a idade do acusado, as paixes que o dominaram no momento desgraado; a gravidade da ofensa, que recebera, com o adultrio de sua mulher dele muito amada; de pouco casado; o abuso da confiana do sogro, o adltero; desvalimento total, em que se acha, sem Pais, sem mulher, sem ptria, nem da compaixo favorecido; quasi n, como se est vendo, nada, nada dobra os princpios fortes do Ilustre Promotor, pois bem, cumpra-se sua vontade; sua vontade aqui lei; seus decretos so soberanos!
"Obedece, infeliz, tua dura sorte, beija a mo que te condena.
"O Ilustre Promotor mui cruelmente trata o Ru e eu devo lembrar-lhe que os R. so homens, que ainda cobertos dos mais negros crimes, teem o direito a serem tratados como homens: mister que o Ilustre Promotor no pense, que por vestirmos um casaca, termos estudado em uma Academia, e nela sermos graduados; recebendo hoje cortejo dos que nos cercam, e mesmo estima de alguns amigos, que estejamos isentos d'uma fatalidade que nos ponha no lugar de rus.
"Eu no, no penso assim. E estar S. Senhoria isemto que o dado volvel da sorte o precipite do mais


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elevado cume da ventura mergulhando-o no baratro mais profundo de amarguras!?
"Reflita sobre isso um pouco o Ilustre Promotor, para no maltratar a um homem, j bastante maltratado da sorte, chamando-o: monstro, perverso, ps infernais, etc. etc.
"Alm de que, perde-me o Ilustre Promotor, suas maneiras para com o R. ferem a dignidade do lugar que S. S. ocupa! Quer o Ilustre Promotor a vida do ru: lire-a, mas com a lei, e no por violncia.
Ah! Infeliz, chegado o momento terrvel, parece-me ouvir tocar o sino fatal da morte e nem um remdio nos resta!
"Dize ao mundo um adeus, e a Deus te entrega; despede-te desses lugares, j que no tens mulher, parente, amigo, ou protetor, nem ao menos uma alma sensvel, que de ti se compadea! Diz o ltimo adeus a esses campos, testemunhas de teus trabalhos e teatros de tuas desgraas, onde a vida passaste s de trabalhos e amarguras carregado. Juizes, julgai; mas lembraivos, que tendes uma mulher, e que, da catstrofe de que este infeliz foi vitima, ningum est isento.
"V ao menos, homem abandonado, que no sou Insensvel a teus males, e que milhas lgrimas correm com dr profunda! Adeus, infeliz, agradece aos teus Juizes qualquer que seja a sentena que te derem, e se te condenarem, levanta os olhos aos Cus, e cheio de resignao, pede a Deus que lhes perdoe".
(12) Vs todos, ouvi e vede se h dr assim, semelhante minha dr!
(13) Da traduo de um entendido, ocorre-nos esta idia-, bo expresso livre: Como se me afigura triste a imagem daquela ncite Como ao relembr-la e = tod^s os males que resultaram dela, os meus olhos rebentam em lgrimas!




PASSANDO AO SACERDCIO
A passagem de Ibiapina do sculo para a vida sacerdotal se deu de modo curioso e repentino. Num certo sentido, ela se vinha processando de muito tempo. Pelos primeiros estudos. Pela ateno e renovao contnua do esprito catlico e da prtica dos chamados sacramentos. Pela preparao adquirida em Latim, em Filosofia, em Teologia e demais especialidades e disciplinas de padre. Pelos desgostos e desenganos que lhe tomaram a alma atravs da mocidade e na plenitude da madu-reza. Pelo isolamento, meditao, raiva das impurezas e misrias sociais e humanas, e quasi ascetismo dos ltimos trs anos. Para padre s mesmo faltavam as vestes. At certos tons e modismos da linguagem evanglica costumava usar em seus discursos de advogado. Naquele que proferiu, ainda moo, no jri de Areia, em 1838, dirigindo-se ao corpo de jurados, exclamou na frmula evanglica: "Em verdade vos digo, senhores"...


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Foi um seu amigo, cooprovinciano e colega, o dr. Amrico de Freitas Magalhes, que lhe arrancou um dia a deciso. Foi sua residncia, na rua Santa Rita, sugeri-la, a pedido do cnego Loureno de S e de outros figures do clero, entre estes o secretrio do bispado, padre Gama. (14) Todos estavam vendo a gravitao e quizeram apress-la. No foi, porm, sem receio e cerimnia, apesar de ntimo e freqentador de Ibiapina, que o dr. Amrico Magalhes resolveu abord-lo. "Tal era o respeito que me inspirava e a todos que com le tratavam, que me sentia acanhado de tocar-lhe sobre semelhante assunto, mesmo porque notava uma certa irascibilidade, e ento respondia a estes respeitveis sacerdotes que eles, pelas suas posies e predicados, estavam mais habilitados de que eu a este fim". So palavras daquele intermedirio, mais tarde dirigidas a um bigralo.
Foi numa visita que lhe fez num domingo tarde, em 12 de Julho, que o dr. Amrico atirou a lana:
Como est, doutor Ibiapina? perguntou, antes de sentar-se.
Como quem chegou h pouco da Penha.
Ibiapina voltava de fazer o seu segundo exerccio de igreja, naquele dia. 0 amigo to-


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mou-se de resoluo e avanou sbito: "0 sr. nesta vida assim... porque no se ordena? No melhor?" E ter havido uma pausa um tanto incomoda. Ento Ibiapina rompeu as ltimas barreiras da alma e proferiu impetuoso:
"Sr. Amrico, o sr. foi mandado hoje aqui pela 'Providncia. Saiba que meu esprito h muito luta com essa idia e esse o meu maior desejo". E acrescentou seus escrpulos de se abrir com algum e de passar como doido ao juso dos faladores, resto do que os padres chamam respeito humano, expresso na frase textual de seus lbios, que citmos em perodo anterior.
A mesmo Ibiapina autorizou o amigo a comunicar o seu desejo ao bispo que era d. Joo Perdigo. Mas impoz uma condio absoluta: no se sujeitava a exame.
Tinha concincia de seu preparo intelectual e moral para se investir imediatamente no sacerdcio. Era de muito conhecedor, podia se dizer profundo, das matrias essenciais. Um doutrinador e praticante da religio. Um asceta emfim, que pela f e pelo cilcio purificara a alma to bem ou melhor que os outros que j andavam de batina, com as ordens necessrias, ministrando nos templos. Destes, alguns, s tinham na cabea a cra,


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sem o correspondente psquico e intelectual no interior.
0 bispo, impugnou, a princpio, a condio. 0 dr. Amrico no insistiu de pronto, recorrendo na manh seguinte ao padre Gama. Ento vieram juntos a d. Joo, a quem o secretrio fez sentir o poder do prelado para deferir a vontade do bacharel, as convenincias que envolviam o caso, as vantagens da conquista para a Igreja, dados os servios que era justo esperar de um esprito piedoso e provecto como o dr. Ibiapina.
D. Joo, que no deixara de exultar com a perspectiva de um auxiliar de tal renome, cedeu. (15) Determinaram-se as providncias indispensveis. No sbado seguinte Ibiapina tomaria as ordens menores e no domingo, 19, seria subdiacono. Sendo-lhe comunicada a deciso do Bispo, diz o dr. Amrico; nas suas referidas informaes de 1888 ao dr. Paulino Nogueira, "no se pode avaliar como le a recebeu e de que prazer ficou possudo! H cou-sas que se vm mas no se podem descrever!"
O amigo se encarregou de adquirir as novas peas que Ibiapina ia vestir e foi busc-lo a carro, no dia aprazado para as primeiras ordens. No palcio episcopal o postulante subiu para a torre norte em que habitava o dr. Amrico. Este lhe abriu a tonsura e ofereceu-lhe


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os hbitos clericais. Achavam-se presentes dois outros amigos, os drs. Carlos Perdigo, redator da Gazeta Jurdica, e Jos Pedro Wer-neck Ribeiro de Aguiar, mais tarde do corpo diplomtico brasileiro. At a o caso se passara em segredo. A apresentao de Ibiapina na capela episcopal causou grande surpresa e sensao.
Depois de receber o presbiterato no domingo seguinte, 26 de Julho, Ibiapina foi fazer os seus exerccios espirituais no Convento da Penha. O padre Vicente Pereira da Silva Guimares, mestre de cerimnia do Slio, verificou que o novel sacerdote estava preparado para dizer missa. Celebrou a primeira no dia 29, na igreja da Madre Deus. Trocou o sobrenome de Pereira pelo de Maria, em homenagem Me de Jesus, que ia ser o culto e inspirao de seu apostolado.
Ibiapina ia completar 47 anos quando se ordenou. Trabalharia mais trinta na nova etapa que se lhe abriu com a ordenao. Nomeado Vigrio geral e providor do Bispado, professor de Eloqncia do Seminrio de Olinda, cedo conseguiu dispensa desses cargos realmente distintos e de confiana do chefe eclesistico. Preferiu a vida mais livre e mais penosa, que considerava de maiores horizontes


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espirituais e sociais, de missionrio. At a mi-tra de bispo, que consta lhe haver sido ento destinada, recusou.
Estava obstinado no pensamento de viajar, doutrinar, curar, educar e construir para o povo semi-abandonado dos sertes.
(14) O dr. Freitas Magalhes era mais moo que Ibiapina. Este havia sido correspondente daquele quando estudante, formando-se da uma amisade que se prolongou por toda a vida. Naquele ano de 53 justamente, o dr. Freitas Magalhes havia feito a Ibiapina o presente de um Fios Santorum.
O cnego Loureno Correia de S era uma das mais distintas influncias clercais do momento, em Pernambuco. Fora visitador da provncia eclesistica e era ento vigrio da freguesia de S. Jos, em Recife.
(15) D. Joo conhecia de perto a Ibiapina. Antes de ir morar no Recife, possuia este um sitiosinho em Caxang, onde o bispo passava dias na ba prosa de pessoas que se entendem e irmanam. O sitio, vendeu-o Ibiapina, quando quiz fazer a mudana, a um colega da Paraba, o padre Damio Pires. Ordenado, Ibiapina desfez-se completamente do pouco que possuia inclusive seus livros de literatura, que j no guardava os de direito, Ter renunciado a tudo em favor de duas irms com quem ento morava, uma das quais se casou, ou j estaria viva, indo a outra recolher, anos depois, Casa de Caridade de Gravaa de Jaburu.


OS PRIMEIROS PASSOS DO MISSIONRIO
De algumas notcias sobre Ibiapina resultam dvidas quanto ao incio exato de suas viagens missionrias e da obra de instruo e caridade que o imortalizaria.
Irinu Pinto d a presena do apstolo na Paraba em 1856, ano da primeira irrupo do clera nesta provncia. Ibiapina teria fundado um cemitrio para pestosos. Esse campo santo que batisou de Soledade, teve mais tarde uma capela anexa e em torno algumas casas, incio da povoao que a atual cidade daquele nome, no planalto do Carir. Sessenta quilmetros a oeste de Campina Grande.
Irineu sabia perquirir o passado. Mas o pesquizador no declara no registo, como costumava fazer em suas notas, a fonte de colheita. Pde se dar que recolheu de boa f uma tradio incerta. No encontrmos qualquer referncia a servios do missionrio naquele ano de infaustos dias, nos ofcios e relatrios do vice-presidente Flvio Freire e do presiden-


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te Silva Pinto que ento estiveram no governo da provncia. E estas referncias, em comunicados ao ministro do Imprio, foram abundantes sobre mdicos, autoridades e particulares que se destacaram por qualquer ao de combate e de caridade durante a horrvel epidemia O nico eclesitico citado nos documentos o carmelita frei Erico de SanfAna Rique, alis atacado do mal quando no servio de assistncia aos doentes.
As demais notcias e biografias de Ibiapina, as do nosso conhecimento, s aludem a construes suas a comear de 1860. Referi-mo-nos aqui a construes no sentido material, embora vizassem estas abrigar instituies destinadas mais nobre filantropia e instruo.
E' justo lembrarmos neste captulo que na dcada comeada em 60 Ibiapina se ter cruzado nos caminhos com outro sacerdote, sino de igual talento e poder mstico, mas tambm um esforado pregador e construtor de igrejas, cruzeiros e cemitrios. Era o padre Hermenegildo Herculano Vieira da Cunha.
Anteriormente aos dois s nos ocorre de missionrios no serto da Paraba Frei Caetano de Messina, em 1843, padre Manuel Jos Fernandes, em 1848 e o capuchinho Frei Se-


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rafim da Catania, entre 1849 e 1853, todos em perlustraes ligeiras.
Frei Serafim abriu misses na capital e em Cabedelo em 1849 e 52, esteve em vrias freguezias do interior e em 1853 penetrou at o Pianc, onde fez pregaes e construiu um bom cemitrio, que a crnica diz ter sido o primeiro assim em toda a provncia.
Um cemitrio naquele tempo era obra sobremodo notvel e piedosa. 0 grande presidente Beaurepaire-Rohan, no governo da Paraba em 1858, ainda reparava o abandono desses sagrados recintos. "Freguezias h na provncia nas quais ainda se fazem as inhu-maes nas igrejas; outras em que consiste os cemitrios em uma certa extenso de terreno sem cerco algum. E' de lamentar que os habitantes no procurem, uns com os seus di-nheiros, outros com os seus servios gratuitos de alguns dias, edificar essas habitaes das geraes que acabam. No s o sentimento de religio para com os mortos como tambm o interesse da salubridade pblica os deveriam aconselhar neste empenho". Assim falava, em sua mensagem daquele ano, aludindo ainda a necropoles que serviam de pasto aos animais, o engenheiro e administrador, que nunca deixava de ligar aos sentimentos a sua viso prtica dos fatos.


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Os missionrios consideravam cruel profanao estarem os restos dos mortos expostos e pisados, tanto mais no sendo dos ricos, que estes naturalmente eram levados a des-canar no cho ou na lousa das igrejas.
Quanto a Ibiapina, s nos parece que le iniciou obras na Paraiba em 1862. A le no se refere ainda Rohan, o administrador que tudo via e tudo de belo e til distinguiu em sua inesquecvel mensagem de 1858. Tambm o Imperador Pedro II que passou na provncia em 1859, no deixaria sem impresso realizaes como as de Ibiapina. E uma palavra, uma ddiva, um estmulo de cooperao, no aparece sobre qualquer uma delas nas reportagens locais da presena do monarca.
O presidente Francisco de Arajo Lima, no governo da Paraiba em 1862, quando irrompeu nesta provncia o segundo clera, p que alude ao padre Mestre Jos Antnio Pereira de Ibiapina prestando cidade de Areia e vila de Alaga Nova "os relevantes servios de estabelecer em cada uma dessas localidades a expensas dos particulares uma casa de caridade em favor dos indivduos acometidos da epidemia reinante. Cabe-me a satisfao de levar ao conhecimento de v. exc. to louvvel e honroso procedimento do virtuoso sacerdote."


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Ainda no eram as grandes Casas institudas para abrigo e educao de meninas pobres. Eram hospitais de emergncia em face da multido de atacados do mal contagiante, que apavorava o povo mais do que a bexiga. Nesses edifcios de Areia e Alaga Nova, remodelados depois da peste, se instalaram com carter definitivo as Caridades locais.
Arajo Lima salienta noutro documento dirigido ao ministro do Imprio os servios de abnegados auxiliares, mdicos, autoridades, senhores de engenho e sacerdotes. Alude aos vigrios de Campina-Grande, padre Ca-listo Nbrega, e de Areia, padre Jos Genuno de Holanda Chacon. Rende preito emocionado ao vigrio e ao coadjutor da freguezia de Taip, padres Jernimo Cavalcante de Albuquerque e Graciano Gomes de S Leito que sucumbiram na lula de tratamento e conforto espiritual aos colricos. "Possudos de
sua sublime misso na terra de provaes em que vivemos, esses prestimosos sacerdotes levaram o conforto aos aflitos. No Co que a ptria dos justos recebam eles o prmio que lhes dispensar o Sr supremo". E o presidente, depois de assim recomendar considerao de Deus o sacrifcio dos dois mrtires, repete louvores a Ibiapina pelos feitos de caridade em Areia e Alaga Nova.


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Irinu Pinto tambm afirma a presena de Ibiapina em 1860, em Batalho (hoje Ta-pero), onde teria construdo um cemitrio, o mesmo que at 1905 se via numa praa da pequena cidade. Era grande, com uma capela ao centro, todo murado de tijolo.
Luiz da Cmara Cascudo, numa das interessantes Actas Diurnas que escreve numa folha de Natal (16) tambm afirma a visita do missionrio ao R. Grande cio Norte em 1860, quando fundou uma Casa de Caridade "em Santa Luzia de Mossor". O mesmo assegura o sr. Aluizio Alves, outro estudioso da vida de Ibiapina, em delicada carta de informao com que.atendeu a um pedido nosso. Acrescenta o sr. Aluizio que o Padre-Mcstre j a voltava do Cear.
Bem pde ter sido em 1860 o incio das viagens de maior penetrao de Ibiapina nos sertes.
No registro da Casa de Caridade de Santa F, publicado em 1915 pelo monsenhor Jos Paulino Duarte, encontramos: "J tinha o nosso missionrio apostlico feito at 1860 grandes conquistas em favor da religio, do Estado, da moral e dos bons costumes, da paz e da harmonia da sociedade."
Parece referir-se ai o trabalho do pregador, correndo com a palavra ardente a avivar


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a f e exigir a prtica da religio pelas recompensas de Deus no Co e na Terra. Discursos, confisses, casamentos, harmonia dos homens com os vrios mandamentos da igreja.
Esse registro da Caridade de Santa F, casa que foi a pupila dos olhos do Mestre e ao da qual eles se fecharam, pde ressentir-se de exageros e milagres, mas no caberia nele paixo e mentira sobre lugares e datas (16). O registro constitudo de duas ou mais partes, uma das quais atribuda a um professor de Misso Velha, um discurso deste numa das recepes feitas ali ao missionrio. As outras, a comear donde o estilo de todo se diferencia, de onde o empolado da linguagem e as expresses de latin desaparecem, atribuem aos beatos, que vrios houve na comunidade (17). Ou, de preferncia, s Superioras e irms mais hbeis e previdentes, tanto na guarda dos fatos como das lendas e milagres crea-dos para o Mestre. At da autoria deste evidente uma pgina sobre a seca de 1877 e outras menores includas na publicao do monsenhor Duarte.
Santa F continua: "J tinha obrado grandes converses e chamado muitas almas para Deus. Mas a caridade para com os infelizes estava muito aqum do que desejava o seu caridoso corao. le tinha entrado no


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mago da nossa sociedade; tinha visto em todas as suas faces, em toda sua hediondez, a misria em que se debatem as classes menos favorecidas da fortuna."
. E passa da em diante a tratar da "nova empreza", do incio das Casas de Caridade, comeando-se a relao pala de Sobral.
Aluizio Alves d a presena de Ibiapina de 19 a 26 de Agosto de 1862 em Angicos, onde deixou construdos um aude e o cemitrio que serviu at 1900 (18).
Outro bigrafo do padre-mestre assegura a chegada deste a Fortaleza em princpios desse ms, no mesmo ano. Mas deixemos de vez essas nugas de datas, as quais, por um dia ou um ms, no importam, no alteram nem o plano prprio nem a viso que se possa ter da obra moral e material de Ibiapina. Vamos que logo aps a tarefa de doutrinao e caridade levada a cabo no ms de maro de 62, em Areia e Alaga Nova, tarefa que estendeu a Alaga Grande, onde deixou um cemitrio, o missionrio partisse para os sertes, visando o Cear. Havia tempo de fundar de passagem Casas de Caridade em Santa Luzia (Paraba), Angicos e Ass (R. G. do Norte), deixar servios em andamento, e achar-se em Fortaleza em Agosto. A de Santa Luzia do Sabug foi instalada prontamente em dois prdios ane-


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xos j existentes na cidade e adaptados ao fim, doao dos fazendeiros Manuel Maximiano e Cassiano Emdio da Nbrega.
As construes de Ibiapina, maiores que fossem, se concluam ou podiam ser inauguradas em poucos dias ou em poucos meses. le trabalhava com a multido em festa de f e glria pelas realizaes. Em Barbalha, fez uma Casa de Caridade em um ms apenas. Na povoao de Caldas, na mesma freguezia, iniciou e terminou um aude numa semana. Em desoito dias levantou uma capela em Goianinha, tendo cooperado nos servios de carregamento de pedras e madeiras e no levantamento de paredes e tetos, cerca de 12.000 pessoas.
Sua fora aliciadora dava esses prodgios de execuo de trabalho.
(16) "A Repblica", edio de 9-6-194.0.
(17) Coligindo-lhe e pubcando-lhe as notas, advertiu, judiciosamente, o monsenhor Jos Faulino Duarte:
"Por no diminuir o interrsse hiswrico dessas narrativas, julguei dever conservar-lhes a integridade, ainda no que se refere a fatos reputados prodigiosos. Protesto, porm, no lhe atribuir mais que autoridade humana, conformando-me em tudo com as determinaes da Santa Igreja sobre essa matria". (O Padre Ibiapina, prefcio).
Do que constite a Coletnea de Monsenhor Duarte, na qual consta haver sido ajudado pelo padre Leo Fernandes, saiu antes um trecho na Revista do Inst. Arqueoltico e Geogrfico Pernambucano, vol. XVI, de 1941. pags. 50 a 62. Ha na publicao uns truncamentos e a reviso muito irqperfeita. Trata-se de um manuscrito oferecido pelo padre Heliodro Pires que era ento 2. secretrio do Instituto. O padre Heliodro


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autor de interessante trabalho sobre outro grande sacerdote, o Padre Rolim, fundador do colgio de Cajazeiras em 1843.
A publicao da Revista comea por uma declarao de coautoria do Irmo Antnio e seu oferecimento do trabalho a uma Irm de Ibiapina, nestes termos:
"Historia em rezumo da vida e morte, do limo. e Revmt/. Padre Mestre e Doutor Jos Antnio de Mana Ibiapina, comeada no Cariry Novo, e terminada por mim abaixo assinado, em Santa F da Parahyba do Norte, no dia 10 de Maro de 1883.
Antnio Modesto de Maria Ibiapina.
A Illma. e Exma. Snra. D. Anna Maria de S. Jos, offe-reo esta Bibliografia de seo illustre Irmo Padre Jos Antnio de Maria Ibiapina. Bezerros, 31 de Julho de 1883."
Foi esta publicao da Rev. do Instituto Pernambucano aproveitada pelos escritores cearenses. Pedro Ferreira em seu "Dicionrio Histrico e Geogrfico da Ibiapaba., publicado em 1S35, e, transcrevendo deste, Monsenhor Vicente Martins pag. 183 dos "Homens e Vultos de Sobral", 1941.
(18) Angicos Biblioteca de Histria Norte-Riograndense, ags. 77 e 78. Irmos Pongetti Rio, 1940.


Igreja de S. Joo e Caridade de Acara


PROSSEGUINDO NAS FUNDAES
Chegando a Fortaleza naquele fim de Agosto ou dias iniciais de Setembro de 1862, Ibiapina foi ter com o bispo d. Luiz que ento se achava em Soure. A proferiu sua primeira predica no Cear, tendo por tema a honestidade e o recato na mulher, um dos bordes de sua doutrinao, em toda a vida. De Soure, tocando e discursando nos povoados de Imperatriz (depois Itapipoca) e S. Jos, Ibiapina dirigiu-se para Sobral, gleba de seu nascimento, onde foi recebido solenemente. Na cidade natal fundou uma Casa de Caridade que, iniciada a 27 de Setembro, no fim de Novembro teve sua inaugurao (19). Em Fevereiro de 1863 instalava outra Casa, em vasto prdio de 15 janelas de frente, em SanfAna de Acara.
Depois destas misses e fundaes, Ibiapina vem a Olinda. Seu bigrafo de 1888, o desembargador Paulino Nogueira, ento 3." anista de direito e que tomara com o mesmo


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destino o mesmo navio, confessa sua emoo quando soube da presena de Ibiapina a bordo. O nome do apstolo j infundia esse respeito e admirao dos que se afastam do comum pela fora de qualquer virtude real. O futuro historiador cearense s uma vez con-segiu pr os olhos nas faces do cooprovincia-no e, por esse encontro, dele traou 25 anos depois, o pequeno retrato infra: "Ibiapina era feio, mas no antiptico, antes cheio de doura que lhe atraa irresistvel simpatia e respeito" .
0 valor de seu nome j estava firmado no Nordeste; casos de exaltao pelas suas ordens j se tinham verificado, tendo mesmo um deles merecido a desaprovao do bispo de Fortaleza, o que mais espalhava a fama daquela santa influncia. (20).
Vamos prosseguir no resumo de sua ao atravs dos sertes, culminante na construo das Casas de Caridade, ou somente Caridade como o povo ficava chamando cada estabelecimento. No Apndice damos a integra dos Estatutos, do Regimento Interno e de uma Advertncia s Superioras, redigidos todos pelo prprio Ibiapina para orientao e governo de suas nobres instituies.
Os interessados no estudo desses fatos


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do nosso passado podero vr por a os intuitos da fundao do padre-mestre e ajuizar os efeitos de instruo e cultura moral que le visava produzir, justamente na camada social menos protegida do interior brasileiro. Desse interior e dessa parte do Brasil que estava ao alcance da alta palavra, da vontade e da ao enrgica do pregador.
(19) Os bulos arrecadados por Ibiapina, em Sobral, logo .subiram a 2:000$000. soma de vulto, para o tempo, como importncia inicial da obra a construir. Com esse dinheiro foi adquirido o prdio onde se instalou o orfanato, na rua chamada de Santo Antnio, hoje Padre Fialho. Essa primeira fundao de Ibiapina, concluda em Novembro de 1862, foi acrescida mais tarde, em 1864, de uma sala de aulas e um pavimento para hospital.
E' o que informa o sr. Alberto Amaral, homem de constante comrcio e viagens n zona onde operou o apstolo, por cuja figura se tomou de grande curiosidade e admirao. O sr. Amaral, tambm sobralense, escreveu emi 1932 em nmero do Distamar-Boletim que edita em Recife, rgo de propaganda de sua casa distribuidora de material de automveis. Devemos uma cpia desse trabalho a remessa do nosso amigo e conterrneo dr. Jos de Borba Vasconcelos, ha muito residente e radicado no Cear, o qual por sua vez a obteve por favor de D. Jos Tupinamb da Frota, Bispo de Sobral.
(20) Em Outubro de 1862, a convite do Reverendo Vigrio Francisco Xavier Nogueira veiu pregar misses, nesta Fregue-zia, o Reverendo Doutor Jos Antnio de Maria Ibiapina trazendo como seu cooperador o Reverendo Jos Tota|az de Albuquerque. Destas misses resultaram muitos frutos espirituais, e, durante esse perodo, edificou o referido Padre Ibiapina o cruzeiro, que est colocado em frente da Matriz, e a casa de caridade contgua Igreja de S. Joo Batista, cuja instalao teve lugar a 2 de Fevereiro de 1863, com muita afluncia de povo e excitao religiosa. Durante a pregao da palavra Divina, fez o referido Missionrio a inovao da aplicao do Santssimo nome de Maria a todos os fis. Desta exigncia resultou abuso, como costuma acontecer em tempo de Misses, emi que se exalta o espirito religioso, e parece querer-se ganhar em um dia o que as paixes e inclinaes carnais fizeram perder em muitos anos.
No primeiro de janeiro de 1863, chegando a esta Fregue-


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zia o Excelentssimo e Reverendissimo Sr. Don Luiz Antnio dos Santos, Bispo desta Diocese, para cumprir os deveres do seu alto ministrio, e encontrando esta nova devoo de nomes, no se dignou aprova-la pelos fundamentos, de que a verdadeira e slida virtude no consiste em formar e usar as superficiais que depressa se extinguem medida que vai abaixando o calor religioso; mas sim em privar-se cada um de seus prazeres e gsos, praticar jejuns e obras de caridade para oferecer no fim do dia nossa Me e advogada perante seu Divino Filho, nosso Redentor e Salvador.
Era mais para se extranhar o abuso, que surgiu desta devoo, porque os fiis excitados pelo desejo de aquiescer a vontade do Reverendo Missionrio, e com o fim de provar religiosa abnegao, no se lhe davam mais de conservar seus nomes patronmicos e familiares, pelos quais eram conhecidos, mas, despresados estes, colocavam adiante de seu primeiro nome o de Maria, ficando, assim, sem sinal caracterstico de sua identidade, e opondo, tambm, grandes dificuldades s autoridades para verificao de sucessos, em que tais inovaes permeassem!
Foi nos assuntos e registros paroquiais, onde se reconheceu mais a inconvenincia desta devoo, pois que cerca de trezentos lanamentos de batismos ficaram inutilizados, por se no poder conhecer as pessoas, cujos nomes representavam as paternidades ou filiaes.
Nestas circunstancias, uma providencia prudente por parte da Autoridade Eclesistica era de verdadeiro interesse e reclamada a bem do servio pblico espiritual. Convinha, pois, opor um extorvo a esta inovao, e S. Excelncia Reverendissima dominado das (melhores intenes, desejando somente purificar a verdadeira devoo Maria Santssima dessas excrecen-cias, que nada adiantam em matria de religio, no fundo e na base, resolveu em sua sabedoria deixar registrado no Livro respectivo um provimento, em que proibiu semelhante devoo, e. bem assim, os hbitos de freiras que tambm ero permitidos pelo Missionrio, sem autorizao superior e contra as prescries cannicas.
Esta providencia do Exmo. e Revmo. Senhor Bispo, no foi bem aceita, e os aderentes da inovao dos nomes de Maria riam antes, neste ato, uma violao do respeito devido ao Reverendo Missionrio. (Do Livro Tombo, da freguezia de Acara).


A EXPANSO DA OBRA
Aps as primeiras fundaes em Paraba, R. Grande do Norte e Cear, como foi descrito em captulos anteriores, Ibiapina veiu por mar a Recife, naquele maro de 1863.
Mas no demorou muito tempo nesta cidade.
No pegmos um roteiro seguro de seus passos no resto do ano, mas certo que subiu a Borborema e desceu em seguida para os sertes baixos do Piranhas. Ainda em 1863 pregou em Catol do Rocha. Uma correspondncia, datada de 30 de Junho de 64, dessa antiga vila hoje cidade, na qual se censuram costumes alegres e ociosos, remata nestes termos: "Os pais de famlia j postergaram as doutrinas do eminente padre-mestre Ibiapina que com grande honra e aproveitamento aqui evangelizou o ano passado". (21).
Em 1864 s se registou a fundao de uma Caridade, em Acar, fundao precria, que durou poucos anos.


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Entretanto, le no ia dormir. Chega a ser fastidiosa a enumerao de seus trabalhos daquele ltimo ano em diante atravs das cinco provncias.
Em Fevereiro de 1865 inaugurava Ibiapina a Casa de Caridade de Misso Velha, estabelecimento grande, com uma roda de expostos e pavilhes para hospital. Em seguida prega em vrias outras vilas e aldeias do Cear, faz volta pelo R. Grande do Norte, visita as primitivas fundaes de Ass e Santa Luzia, inicia e quasi termina a igreja Matriz de Flores (22) e chega em Fevereiro de 1866 a Alaga Nova (hoje Laranjeiras). Da vai a Areia, onde prega e declara prxima a inaugurao da Caridade de Santa F, nas terras doadas pelo major Antnio Jos da Cunha e sua senhora dona Cndida.
Depois de Santa F viajou ele em misses, fundando, ainda em 66, a Caridade de Poci-nhos e a de Pombas (hoje Parari), nos municpios de Campina Grande e S. Joo do Carir. E no mesmo estilo de pregar e apelar para o povo, trabalhando frente de massas hipi-notisadas, prosseguiu em reformas, servios de conservao, melhoramentos e construes novas. No raro, em meio destas volvia a ou-


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tros pontos diversos, a fiscalizar, amparar, reerguer as fundaes anteriores.
Em 1868, Ibiapina deixa em Barbalha uma igreja, um cemitrio e uma cacimba dgua para o povo. Vai ao Crato e funda uma Caridade. Volta a Barbalha em 1869 e realiza construes diversas: uma Caridade na cida de, uma capela e um aude em Caldas, capela em Goianinha e obras outras em Porteiras. Ainda neste ltimo ano, no Cear, grande Caridade em Milagres, com anexos para hospital e asilo de invlidos; igrejas nos povoados de S. Bento e Brejo do Cuit; aude no logar Serra da Mosinha.
Vindo Paraba, construiu a Caridade de Cajazeiras, em terreno cedido por outro grande predestinado, o padre Ro-lim, e instalou a de Souza em prdio doado pelo vigrio Marques Guimares. 0 padre-mestre demorou muitos dias, talvez meses, em Cajazeiras, onde combateu intrigas polticas e hbitos de dissoluo da famlia, tendo casado 60 pares que viviam matrimonialmente sem a sano religiosa. Ibiapina saiu de Cajazeiras a 9 de Outubro de 1870, seguindo para misses em Barra de Ju e Souza.
Ainda em 1871, atravessando por terra o Cear, chegou ao Piau, no ms de Maio.


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Tocando primeiro em Carnaibinha, nome de que alvitrou a substituio por Pio IX (hoje Patrocnio), a levantou uma capela, ainda existente. Partiu, a seguir, para Picos, onde edificou um templo, ento o maior da provncia, e um cemitrio (23). Foi a Jaics, onde iniciou uma igreja que posteriores desavenas do povo com o vigrio Claro Mendes no permitiram se erguesse, ficando, porm, da passagem do apstolo a construo de um cemitrio .
Ainda vivo em Picos o velho sacristo Joo Leopoldo, que testemunhou aquelas misses e hoje, aos 80 de idade, nos pde enviar algumas reminiscncias.
Das vilas piauianas seguiu rumo de Ou-ricur, Baixa-Verde e Flores. Em Pernambuco Ibiapina construra, em 1860, sua primeira Casa de Caridade, em Gravata de Jaburu, e em 1868 comeara outra em Bezerros, cuja concluso ficou a cargo do vigrio local, padre Trajano. Esta s em 1870 veiu a ser inaugurada. (24).
De 1871 a 1873, indo e vindo por ali, reiniciou as fundaes educativas e de assistncia: Caridade e hospital em Baixa-Verde, (Janeiro de 71), igreja e cemitrio em So Gon-alo, igreja e cemitrio em Flores (Dezem-


Caridade de Pocinhos


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bro), igreja e aude em Santa Cruz, aude e cemitrio em Mata-Virgem. Por outros povoados, reparos de templos, caminhos, cemitrios, servios parciais que provia deixando sinais de si por onde passava. Em todo lugar, onde no erguia um templo, deixava melhorado o existente; ao par da palavra, uma obra material para fins de religio ou uso til dos pobres. Foi assim na realidade, maior que hoje poderia aparecer, o acervo de suas realizaes. Sessenta anos apagaram muito dos rastros bemfazejos.
Em 1872, ms de Julho, fazia um aude em Soledade, e a 15 de Agosto instalava a casa de Caridade de Cabaceiras. (25).
Em 1873 construa um aude em Arara, Paraba, outro em Gravata, Pernambuco.
Pelas datas de sua presena em cada servio, pois le se achava em pessoa levantando os recursos assistindo a execuo deles, v-se o regime de viagem contnua a que se submetia .
Ibiapina era incanavel. A cavalo, sob a chuva ou o sol de fogo, as vestes quentes, a alimentao seca do interior de ento, le andava para um lado e para outro, estava ao norte e ia ao sul, trilhava o mesmo caminho para traz, e retrocedia ao ponto de regresso.


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Galgava a serra do Araripe e logo descia ao Piranhas. Quebrava da para Baixa-Vrde e subia de novo ao Cear. Varava ento pelo R. G. do Norte para os brejos da Paraba. Da voltava a frente para o Carir Velho ou arriscava um salto a Pernambuco. Marchava rumo de Triunfo a oeste, ou corria ao norte a salvar de apertos as casas de Caridade de Santa Luzia do Sabug e Ass. E sempre aproveitando o tempo e os itinerrios combinados ou forados, para vr, sondar os costumes, verificar as diferenas, doutrinando, ensinando, curando, erguendo de passagem novos audes, la-tadas, capelas, cemitrios. Batisando, casando, harmonizando, aconselhando o trabalho e a bondade, amando, ralhando, civilizando. (26).
(21) "Jornal da Paraba", n. 238. de 25-8-1964.
(22) Cnego Francisco Severiano, Diocese da Paraiba, pag. 174 Tip. "A Imprensa", 1906.
(23) "Neste ano (1871) construiu o ilustrado e virtuoso missionrio brasileiro Padre Dr. Jos Antnio de Maria Ibiapina uma espaosa e elegante igreja na povoao de Picos, com um cemitrio ao lado, graas ao generoso concurso da populao da localidade e um. auxilio do governo apenas de 2:000$000, que achava-se em poder de uma comisso nomeada pelo mesmo governo, afim de tratar da construo da dita igreja. Reconhecendo a Assemblia Legislativa Provincial o relevantissimo servio prestado por aquele venerando sacerdote, encarregou ao presidente da Provricia de transmitir-lhe, em nome da mesma, os seus sinceros agradecimentos, de cuja misso se desempenhou a presidncia". Pereira da Costa Cronologia Histrica do Estado do Piau. Pernambuco, 1909, pg. 331.
(24) O jornal "Pedro II" que se editava em Fortaleza


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publicou na edio de 11 de novembro de 1870 a seguinte notcia :
"O Revd. Ibiapina O Jornal do Recife noticiou que o Revd. Padre Dr. Jos Antnio Maria Ibiapina, secundado pelo vigrio Trajano de Figueirdo Lima, tinha fundado na povoao de Bezerros um asilo destinado aos rfos desvalidos.
A inaugurao teve lugar no dia 11 de setembro ltimo.
O custo do edifcio, bastante espaoso, com suficientes acomodaes, orado em cerca de 50:0005000.
Achavam-se j recolhidas ao asilo 25 rfs.
No dia da inaugurao, dirigindo-se o Rvd. Ibiapina ao povo que o cerrava, pediu que cada um desse uma esmola, conforme os seus recursos, para a casa de caridade. Imediatamente ram recebidos 415$000 e 72 cabeas de gado foram prometidas e inscritos os nomess dos doadores r>wa a creao de uma fazenda, que sirva de patrimnio ao asilo".
(25) Em viagem de cura pelo interior, naquele ano, o ento inspetor do Tesouro da Paraba, Manuel Odorico Cavalcanti de Albuquerque, chefe macon na Capital, escreveu de Cabaceiras- sua esposa, a seguinte carta :
"Cabaceiras. em 7 de novembro de 1873.
Minha chara Catarina
Muito estimo que a presente a v encontrar com todos os nossos no gso de perfeita sade e que V. j esteja no todo restabelecida.
Acho-me nesta villa em caza de Genuno, e tenho gostado muito do lugar: serto. tem banhos e bebe-se agoa se no muito fina. porem soffrivel. Muito agrado por oarte da famlia de Genuino. Ainda no vi m.a com.e que se aoha na fazenda e chega amanh.
Acho-me completamente restabelecido, gosando uma perfeita sade, graas a Deus.
Em Campina recebi muitos obsquios; os Maons dalli dram-me um if?nter. Aoui ha muito jesuitismo; os macns aqui so excommuneados. Existe uma caza para educao de meninas pobres; vistei-a e achei-a de um gosto sofrvel. As moas daqui s vivem atracadas a um chals e assim vo a Egreja. Muita reza e devoo, e no meio de tudo isto muita hypocrisia; v-se um homem no meio da missa com os braos abertos e um grande rosrio pendente em uma das mos.
A casa de educao por charidade para as orphans foi edificada e creada pelo av de m.a com. e mu.<* de Genuino amonrada c protrgida pelo Pe. Ibiapina que tem jesuitizado esta terra.
Que bom ar aqui se respira, os dias so mui quentes, as noites, porem, so frescas e bellas no ha humidades.
Emim. gracss ao Senhor do Bcmfim estou restabelecido, no sinto enc.ommodo algum: eu tinha inchao em todo o corpo, no dizia a V. para no veixa-la, e sem tomar remdio algum estou bom.
Sinto mts. saudades, quando me lembro de V. e de m.as filhas, chora.
No dia 10 parto p.a o S. Joo e de l p.a Alaga do Monteiro.
Recomende-me em suas oraes a Deus, o mesmo faam


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Tia Chiq.a e Amalia. Adeus, abenoe as m.^ filhas e conte sempre com o affecto de
Seu Pr.0 e marido do corao M. Odorico.
(Do arquivo de Veiga Jnior, secretrio do Inst. Histrico da Paraba)
(26) "A sua palavra eletrisava os coraes e, confirmada por uma vida sem mancha, reformou abusos e fortaleceu, na P, populaes inteiras.
Ainda hoje, custa entender cci.no pde promover tantos e tamanhcs frutos de converso coletiva, s expli:ave!s por especial assistncia divina.
Pregava diariamente e confessava levas de penitentes, muitas vezes ssinho, sem que se lhe abatesse o vigor do esprito.
Missionou assim os Estados de Psmambuco, Cear, R. G. do Norte e Paraiba.
Chegado a uma localidade, costumava apear-se no patamar de un^a igreja e dali. ato continuo, dirigia a palavra ao povo, que se adensava ao p do plpito s notiem da sua aproximao". Padre Azarias Sobreira, O primeiro bispo do Crato, 1938, pag 83 ABC Editora Rio.


OS DOIS GRANDES DOADORES
Aquela casa de Santa F, instalada a 1. de maio de 1866, nas terras doadas pelo major Anlonio Jos da Cunha e sua senhora, foi, como j dissemos, a menina dos olhos d Ibiapina. Junto dela teve o apstolo no resto da vida seu poiso favorito e emfim a sua morte edificante.
As propriedades de Santa F e Salga-dinho, com a casa grande da primeira fazenda e outras de taipa que a j havia, 2 vacas paridas, 5 garrtas, novilhotas, foram entregues ao missionrio desde 1858, sob condio de fundar-se um hospital de caridade naquele lugar "ou em outro qualquer deste Imprio", conforme escritura. (27). O Padre Mestre fundou logo diversos noutras partes mais habitadas e carentes do Brasil, mas foi fundar ali mesmo, oito anos depois, o de sua maior ateno, o posto central de luta de toda a Comunidade Ibiapina.
Antnio Jos da Cunha, era senhor do en-


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C LSO M A RIZ
genho Poes, no municpio de Areia. Casado em terceiras nupeias com d. Cndida Americana Hermogenes de Miranda Cunha, o major foi residir por ltimo em Arara, onde possuia vastas propriedades, incluindo as terras de Santa F. A primitiva Caridade, esta de 1866, instalou-se ainda na casa grande da fazenda doada, qual se foram acrescendo capela, cemitrio, casa de farinha, casa residencial do Padre-Mestre e outros cmodos.
Dona Cndida entregou-se com ardor ao servio religioso, sobretudo ao daquela instituio de Ibiapina. Sem propriamente receber o manto de beata, visto sua condio de casada, era quasi beata, passando dias seguidos na Casa de Caridade, sua diretora de fato desde a fundao. Ao marido no repugnava sob o aspecto moral aquele apego, homem tambm religioso que era, e dignos, como se sabiam, d. Cndida e seus convivas de Santa
F. Mesmo na hiptese de qualquer divergncia ou impresso de excesso, nunca houve estremecimento pblico entre os esposos. Dona Cndida realmente dividia-se entre sua casa em Arara e a Casa de Caridade de Santa F, fazendo predominar por esta o seu tempo e interesse. Por Ibiapina era to grande o seu devotamento e respeito que, no obstante a


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advertncia do apstolo, o servia mesa de joelhos ou nessa postura humilde comeava a cerimnia. E' tradio que colhemos entre velhos parentes e conhecidos da ilustre senhora, em Piles.
Nada havia que extranhar nessa conduta mstica, reconhecimento do esprito puro e da vida edificante do apstolo, feito por quem o seguiu e ajudou durante muitos anos. Tudo simples ao devoto fazer com o objeto de sua devoo. Jaquelina, a romana exaltada por S. Francisco de Assis, abraando-se aos restos deste, "cem vezes beijou as chagas das mos e dos ps do morto". (28).
No levantamos hiptese sem a existncia de um rumor. 0 major Cunha apoiava os sentimentos e a ao caritativa da esposa, tanto que assinou de gosto a doao da propriedade Santa F para patrimnio da Caridade (29). Mas aquele fanatismo e abandono deixava sua velhice solitria e isso lhe trazia uma ntima amargura. Achava Ibiapina um sacerdote virtuoso, mas no um santo. "E' santo, santo, mas quando monta a cavalo, chega a espora".
Tambm foi esta imprecao meio inocente e meio senil o mais que chegou o seu despeito a assacar sobre o amigo.


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CELSO 31A RIZ
O major Cunha morreu em 1881 com 94 anos de idade. Devia ser trinta e tantos mais velho que a esposa. Acha-se enterrado na igreja da Piedade de Arara com esses dizeres sobre a lousa : "Aqui jaz os restos mortais do Major Antnio Jos da Cunha. Nasceu em 1787, morreu a 29 de Outubro de 1881. P. N. A. M.".
Estas maisculas finais querem dizer Padre Nosso Ave Maria.
Antnio Jos da Cunha descobrira e explorava uma jazida de pedra calcrea em Arara. Por esse motivo e por interesse de criao de gados numa zona prpria, por ali demorava e quiz residir. Foi'mesmo em Santa F a sua primeira morada fora de Poes. O cruzeiro ainda existente no adro da Caridade foi construo do major, a pedido da esposa. Esta s cedeu transferir-se para aqueles ermos secos da caatinga tendo ali um smbolo sagrado, que afugentasse as onas1 cobras e mais bichos venenosos do mato. Doada Santa F, o major passou-se de vez para Arara que se fizera povoado com as misses de Ibiapina e sua construo da igreja da Piedade.
Morrendo o marido em 1881, d. Cndida, que no tivera filhos, radicou-se em sua misso de Santa-F, a cuja posse fez entrega de


Igreja da Piedade, em Arara


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todos os bens e onde se internou com todos os votos da irmandade.
Anos depois da morte de Ibiapina, j velha, pobre e cega, d. Cndida voltou ao vilarejo de Arara. Era ento socorrida por seus sobrinhos Francisco Xavier da Cunha, senhor do engenho S. Francisco, Virginio Jos da Cunha, .comerciante no povoado, e Segismun-do Guedes Pereira, este ltimo seu afilhado de batismo.
Em 1904 ainda a viu o Monsenhor Odilon Coutinho, professor do Liceu Paraibano, vigrio geral da Paraba, e irmo do primeiro Arcebispo de Macei, D. Santino. D. Cndida se consumia velhinha sobre uma cama de varas, forrada com esteira de periper e tendo para cobertura um lenol de algodo grosso, de tecido local. Um catre triste de perfeita misria para quem fora rica, nobre, cheia de luxo, de vontade e de prstimos. Para quem fora de fato grande e tudo soubera renunciar em benefcio dos humildes. Per-guntando-lhe aquele sacerdote si se sentia bem, respondeu "sim, visto ser aquela a vontade de Deus". No estado de conformao a que se afizera, achava nada lhe faltar, que os parentes e as famlias de Arara a supriam do


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necessrio, quando de fato davam to pouco a quem tanto merecia !
D. Cndida era filha do antigo capito-mr de Areia, Francisco Xavier de Miranda Henriques.
Em Poes a vida era alegre e afidalga-da. Casa muito procurada pelo acolhimento pessoal, excelentes comidas, bons cavalos. A senhora do major Cunha trajava ao melhor gosto do meio. Alis, na antecedncia das festas de Areia, ia fazer seus vestidos de seda em Recife. Teve, pois, um mrito particular a sua voluntria deciso pela humildade.
Nos ltimos dias da ilustre senhora, a Caridade reclamou-lhe o tratamento e assim foi morrer em 1905 sombra de Santa F, onde se enterrou em cova rasa, junto ao tmulo do mestre.
(27) A escritura de doao das terras de Santa P foi certificada em 1883 nestes termos :
'Jos Lopes Pessoa da Costa, Serventurio Vitalcio do Ofcio de primeiro Tabelio pblico de Notas. Escrivo de rfos, Rssiduos e Capelas do Termo da Cidade de Bananeiras, Comarca deste nome, da Provncia da Paraba do Norte, por Sua Ma-gestade o Imperador o Senhor Dom Pedro Segundo que Deus Guarde.
Certifico que por parte da irm Superiora da casa de Caridade de Santa F deste Termo, me foi requerido que em vista dos Livros de Notas do meu Cartrio lhe desse por Certido verbo adverbum o tar de uma escritura de doao feita pelo Major Antnio Jos da Cunha e sua mulher, de upnta propriedade de terras no lugar Santa F em dias do ms de agosto de mil oitocen-tos e cincoenta e oito cuja doao foi feita para um Hospital de Caridade, pelo que passando eu Tabelio a rever os livros de Notas de meu Cartrio, em um deles que servio no referido mil


IBIAPINA
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oitocentos e cincoenta e oito a folhas cento e dezenove e verso a folha cento e vinte achei a escritura requerida e cujo teor da rajaneira e frma seguinte : Escritura de doao que fazem o Major Antnio Jos da Cunha e sua mulher dona Cndida Americana Hermogenes de Miranda Cunha de uma propriedade de terras no lugar Santa P e Salgadinho, uma morada de casa de pedra e cal e mais uma rua de casas anexas de pedra e cal e todas as mais bamfeitorias existentes em dito sitio para patrimnio desse Hospital de Caridade. Saibam quantos esta escritura de doao virem que sendo no ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil oitocentos e cincoenta e oito, aos vinte.e cinco de Agosto do dito ano neste sitio Santa P Termo da vila de Bananeiras da terceira Comarca da Provncia da Paraba do Norte em casa de morada do Major Antnio Jos da Cunha, onde eu Tabelio vim e tendo a comparecido os doadores o Major Antnio Jos da Cunha" e sua mulher dona Cndida Americana Hermogenes de Miranda Cunha, brancos moradores neste dito sitio Santa F e de mim conhecidos, digo mim/ tabelio reconhecidos pelos prprios de que se tratam e dou f: que por eles doadores me foi dito perante as testemunhas abaixo assinadas e declaradas que eles so legtimos senhores e possuidores de um sitio de terras neste lugar Santa F e Salgadinho que houveram por ttulo de compra aos herdeiros do finado Francisco Taveira da Conceio, env cujo sitio eles doadores edificaram uma morada de casa de pedra e cal e mais uma rua de casas de taipa anexa mesma casa de pedra e cal e mais outras casas e de tudo com as mais bemfeitorias existentes no (mesmo sitio fazem eles doadores pura e irrevogvel doao deste dia para sempre para patrimnio de um Hospital de Caridade, cuja doao fazem no valor de trs contos e duzentos anai ris; e mais vinte vacas paridas a quarenta mil ris cada uma e cinco garrtas e cinco novilhotas a vinte mil ris cada uma para o mesmo estabelecimento de Caridade; declaram os doadores que fazendo esta doao de livre e espontnea vontade se obrigo a fazer firme e valiosa em todo e qualquer tempo e que contra ella no viro em tempo algum e sendo que queiro oppor contra a validade delia so contentes que no sejo ouvidos em Juzo e nem fora delle e cazo mesmo seus herdeiros queiro se oppor contra a validade da presente so da mesma frma contentes que no sejo attendidos em Juizo: declaram os doadores que elles renunciaro todas as leis e previlegios que a favor delles posso existir porque de nada pretendem/ uzar seno ter e manter esta escritura de doao como nella se contm disse a doadora que ella renunciar o previlegio Meira. Declaram mais que a presente doao ter o seu devido effeito se o estabelecimento de Caridade for fundado neste lugar ou em outro qualquer deste Imprio pelo Reverendo Padre Mestre Doutor Jos Antnio Pereira Ibiapina e se no for fundado por elle no ter effeito algum ficando desde ja todos os bem doados entregues ao dito Reverendo Padre Mestre como legitimo administrador do estabelecimento de Caridade a quem transferiro os doadores todo o domnio, direito e ao, podendo de tudo tomar posse por si ou por autoridades de Justia e eu Tabellio como pessoa pblica aceitei esta es-criptura na forma nella declarada, E logo pelo doador me foi apresentada a verba do sello do theor seguinte : Numero dois.