A secca de 1915

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Material Information

Title:
A secca de 1915
Physical Description:
156 p. : ; 19 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Theophilo, Rodolpho Marcos, 1853-1932
Publisher:
Impr. Ingleza
Place of Publication:
Rio de Janeiro
Publication Date:

Subjects

Subjects / Keywords:
Droughts -- Brazil -- Ceará (State)   ( lcsh )
Seca -- Ceará   ( larpcal )
Genre:
bibliography   ( marcgt )
non-fiction   ( marcgt )

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Includes bio-bibliography of the author.

Record Information

Source Institution:
University of Florida
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Resource Identifier:
oclc - 12202745
Classification:
lcc - HC188.C3 T34
System ID:
AA00000255:00001

Full Text

Ti









R. THEOPHILO
DO INSTITUTE HISTORIC GEOGRAPHIC BRASILEIRO



A SECCA




1915









IMPRENSA INGLEZA
Rua Camerino, 61-65 Rio de Janeiro
1922





LATIN AMERICAN COLLECTION
UNIVERSITY OF FLORIDA
Gift of
Ralph Della Cav



BIBLIOGRAPHIA


Rodolpho Marcos Theophilo
Rodolpho Marcos Theophilo., filho legiti-
mo do Dr. Marcos Jos6 Theophilo, medico, e
D. Antonia Josephina Sarmento Theophilo,
nasceu no Ceard, no dia 6 de maio de 1853.
Baptisou-se no dia 1 de outubro do mesmo
anno, na igreja do Rosario, em Fortaleza. Fez
o curso de humanidades no "Atheneu Cea-
rense", onde se matriculou em 1865.
Em 1864, perdeu seu pai, ficando em ex-
trema pobreza. Esteve no "Atheneu Cearen-
se", tres annos, de onde sahiu para se em-
pregar no comrmercio, na casa de seus paren-
tes Albano & Irmdo, ndo continuando os seus
estudos a falta de recursos.
No primeiro anno de collegio, correram
as despezas por conta de seu tio e padrinho,
Jose Antonio da Costa e Silva. Findo o anno
lectivo e tendo Rodolpho Theophilo feito gran-
de progress, obtendo approvagdo com dis-
tinccao em primeiras lettras, quizeram os seus





II BIBLIOG(RAPHIA
~~VV1'AIV/X VX V\ XVVI MVW IWAA'IAA V VtVVW VW W'V.AA WA IAV","

parents que deixasse o collegio e se empre-
gasse no commercio. A isto se oppoz o di-
rector do "Atheneu", allegando as optimas
aptid6es da crianca e se offerecendo para
tel-a no collegio, independent de qualquer
retribuigao.
Rodolpho continuou no "Atheneu" at6 de-
zembro de 1867, de onde sahiu para o com-
mercio. Ahi esteve ate novembro de 1872 a
soffrer todas as contrariedades em um ramo
de actividade humana para o qual elle nao
tinha vocacgo. Nesse tempo o caixeiro nao
era mais do que um criado de servir. Quao
grandes foram as suas revoltas contra as hu-
milhag6es que Ihe reservara a sorte. 0 cai-
xeiro era um escravo. Nem ao menos tinha
o direito de agremiago. E tanto que se lem-
braram de organisar uma sociedade caixeiral
de beneficencia e os patroes nao consentiram
que levassem a effeito; e a id6a morreu ao
nascer.
Rodolpho revoltava-se contra o jugo, mas
o que fazer? Comprehendeu que s6 o livro
podia libertal-o e nao perdia tempo. A's 8 ho-
ras da noite, quando o commercio se fechava,
16 ia a uma aula nocturna de preparatorios,
no collegio dos Drs. Arcelino Queiroz e
Praxedes. Preparava-se para cursar uma das
nossas academias, mas como, si nao tinha re-
cursos? A esse tempo, nem os exames de pre-
paratorios se podiam aqui fazer. Eram feitos
s6mente onde havia academia.





R. THEOPHILO ]]I


A profissdo que mais apetecia era a de
medico. Seu pai e um avo o haviam sido.
Esse curso era long e talvez nao pudesse
vencel-o. Assim, contentou-se corn o curso de
pharmacia. Mesmo assim, corn que meios sa-
hiria para uma terra estranha? Estava prom-
pto para seguir, mas faltava-lhe o essencial.
Cinco annos no commercio nao lhe deram
para economies; os ordenados foram pessi-
mos. 0 pequeno saldo que tinha na casa mal
lhe daria para a passage ate o Recife, onde
pretendia fazer os preparatorios.
Estava sem esperanga de ir estudar, quan-
do appareceu o seu bom anjo na pessoa de
seu grande e devotado amigo Henrique Gon-
calves da Justa.
Trabalhava a Assembl6a Provincial e Jus-
ta obteve desta uma subvencgo de quinhen-
tos mil r6is annuaes para Rodolpho Theophilo
estudar pharmacia, emprestimo que deveria
pagar depois de formado. 0 emprestimo s6
teria logar depois de matriculado no curso
de pharmacia.
Rodolpho embarcou para Recife em no-
vembro de 1872, onde tinha de permanecer
atW marco do anno seguinte, afim de fazer os
preparatorios.
Os recursos de que dispunha nao davam
para sua manutencgo naquella capital ate
marco. Assim procurou obter uma collocagao
que lhe d6sse meios de viver alli. Obteve-a
no Hospital Militar, sendo nomeado amanu-





IV BIBLIOGRAPHIA


ense, logar que occupou at6 seguir para Ba-
hia. Concluidos os preparatorios para o curso
de pharmacia, embarcou para Bahia, em cuja
Faculdade de Medicina se matriculou.
No segundo anno do curso, a assembl6a,
por esquecimento, deixou de consignar no or-
camento verba para as mezadas de Rodolpho,
que se achava no Cear6, passando as ferias.
A mezada de quarenta mil r6is mensaes, que
Ihe dava o Ceara, era insufficient para sua
manutencgo; como continuaria elle o curso,
privado della?
Abandonar os estudos no meio do cami-
nho ndo era para aquelle espirito forte.
Rodolpho regressou A Bahia. Ahi che-
gando procurou a sua republican" na rua dos
Barris. Encontrou os tres companheiros que
havia deixado, cada qual corn melhor saude
e mais pobre.
Receberam-no corn o maior affect. Con-
tou-lhes ent6o Rodolpho a sua situac6o. Esta
nada influira no espirito daquelles mogos para
deixarem de dar ao college, que voltava mais
pobre do que f6ra, um logar A mesa delles.
No correr da conversa sobre os aconte-
cimentos que se tinham dado na ausencia de
Rodolpho, fallaram em um concurso para
dous logares de alumnos pensionistas A phar-
macia do Hospital Militar, logares estes que
deviam ser occupados por alumnos do segun-
do anno do curso de pharmacia.





R. THEOPHILO V


Aquella nova foi um clardo que illumi-
nou o caminho em que seguia Rodolpho.
Indagou dos colleges si elles nao se ha-
viam inscripto para o concurso. Responde-
ram,-lhe que nao, que eram muitos os candi-
datos para dous logares e cada qual corn mais
proteccao.
Rodolpho Ihes exprobou a fraqueza, admi-
rando-se de que desprezassem aquelle meio
de melhorar as financas delles.
O concurso estava marcado para dahi a
15 dias e as inscripg5es se fechavam no dia
seguinte, conforme o edital publicado na im-
prensa.
Rodolpho neste mesmo dia foi a delega-
cia do cirurgido-m6r do exercito para inscre-
ver-se.
O delegado o recebeu bastante aborreci-
do, perguntando se queria ir a concurso toda
a Academia, que jA se achavam inscriptos
seis estudantes para dous logares. Emfim que
Rodolpho voltasse no dia seguinte corn cer-
tiddo de ser alumno do segundo anno do
curso de pharmacia, para ser inspeccionado de
saude.
Inscripto, entrou em concurso dahi a 15
dias, obtendo ser approvado corn distincco,
tal a excellencia de sua prova escripta. Um
mez depois do concurso era nomeado pelo
ministry da guerra alumno pensionista da
pharmacia do Hospital Militar da Bahia, corn
um ordenado de 800$000 annuaes, logar que





V 1 BIBIIOGRAPHIA


exerceu ate o dia 20 de dezembro de 1875,_
dia em que recebeu o diploma de pharma-
ceutico.
Nao tendo querido entrar para o corpo
de saude do exercito, como fez seu college
de hospital, pharmaceutico Norberto da Silva
Ferraz, que morreu no posto de coronel, vol-
tou ao Ceara em 1876.
Estando bastante enfraquecido, resolve
passar uma temporada em Pacatuba, villa no
campo, para se fortalecer. Ahi esteve com
uma pequena pharmacia at6 comego de 1877,
vindo para Fortaleza, onde abriu uma phar-
macia na rua Major Facundo, antiga rua da
Palma, n. 80, pharmacia que passou a Gon-
zaga e depois a Affonso Pontes.
0 anno de 1877 iniciou a grande secca,
que se prolongou atW comego de 1880. Neste
long period de afflicc6es, Rodolpho Theo-
philo prestou a sua terra os melhores servi-
cos.
Acabada a secca do Ceard recolhia os or-
phdos do terrivel flagello na Colonia Christi-
na, para educal-os. Para auxiliar o governor
em suas despezas, Rodolpho Theophilo of-
fereceu 6quelle orphelinato, de mais de cem
orphdos, medicamentos durante um anno.
Nesta dadiva s6mente pagava ao Cear6 a pe-
quena somma que este Ihe adeantara para es-
tudar.
Depois da secca appareceu uma piraga de
cobra cascavel no sertdo.





R. THEOPHILO VII


A esse tempo o Dr. Lacerda publicava
observag6es feitas corn o permanganato de
potassa contra o veneno ophidico.
No interior do Ceara contavam-se por
dezenas de victims daquelle ophidio. Rodol-
pho Theophilo nao ficou indifferent ao novo
flagello que seguiu ao da secca. Obteve uma
cobra de cascavel e, depois de repetidas ex-
periencias, chegou ao conhecimento de que o
permanganato de potassio nao 6 antidote do
ophidio, mas, applicado logo ap6s a inocu-
lacdo deste, o neutralisa, isto em animaes que
nao sejam pequenos, como preds,.etc. Em pe-
quenos roedores o insuccesso era complete.
Cobaias pr6viamente injectadas corn solucao
de permanganato de potassio eram picadas e
morriam minutes depois.
0 permanganato nao era um antidoto do
veneno ophidico, mas, applicado em seguida
A inoculacdo da pegonha da cobra, salva o
animal da morte. Nesse tempo nada se co-
nhecia melhor: as experiencias de Calmette
nao estavam feitas, nem tampouco o serum
de Brasil. Em falta de outro meio de salva-
cao para os infelizes sertanejos, Rodolpho
Theophilo distribuiu aos 85 municipios, tan-
tos eram os do CearA naquelle tempo, appa-
relhos de Pravaz, corn solugdo de permanga-
nato de potassio e -um directorio,, ensinando
a applicago do medicamento, etc., etc.
Tempos depois, de todos os municipios
chegava communicacgo de vidas salvas corn





VIII BIBLIOGRAPHIA


o remedio que Rodolpho Theophilo exponta-
nea e generosamente offerecera aos seus pa-
tricios do interior da provincia.
Rodolpho Theophilo casara-se em 24 de
maio de 1879 com D. Raymunda Cabral de
Mello, filha do agricultor portuguez Antonio
Cabral de Mello e de D. Henriqueta Hermina
Cabral, tambem portugueza.
Em 1883 publicou elle o seu primeiro li-
vro "Historia da Secca do Ceara" 1877
a 1880. Um volume de mais de 500 paginas,
illustrado com gravuras de famintos e plants
por elles usadas, para escapar A fome. Este
livro foi muito bem recebido e deu-lhe entra-
da no Instituto Historico e Geographico Bra-
sileiro, do Rio de Janeiro, a mais antiga so-
ciedade de lettras do Brasil.
No Ceara iniciava-se a campanha contra
o element servil. Em dias de 1882, na praga
Jos6 de Alencar, conversavam em um hotel,.
tomando cerveja, Pedro Arthur de Vascon-
cellos e Soares Carneviva, empregados do
commercio, quando passou uma leva de es-
cravos em rumo do porto.
Ia embarcar. Pedro Arthur protestou con-
tra aquella deshumanidade, aquelle crime em
pleno seculo XIX, o commercio de care hu-
mana. Esta infamia, dizia elle, devia acabar.
Na noite desse dia, Pedro Arthur, em uma
reunido da sociedade de empregado's do com-
mercio "Perseveranca e Porvir", mostrou a
sua indignagco contra a venda de homes e.





R. THEOPHILO IX


mulheres e propoz que fosse creada uma so-
ciedade corn o fim de abolir o element ser-
vil. Esta id6a no moment era uma utonia.
Partir do Ceara, um Estado pequeno, pobre,
sem representacgo, o grito de morte ao ca-
ptiveiro era o cumulo da audacia. A mocida-
de cearense nao pensou nisto e fundou a So-
ciedade Cearense Libertadora.
A lucta travou-se. 0 governor, por sua vez,
poz-se em campo para sustentar aquella ins-
tituigeo, que embora fosse uma n6doa de la-
ma no pavilhAo national, devia ser garantida
como propriedade que era.
Rodolpho Theophilo nao podia ser indif-
ferente ao movimento libertador e alistou-se
nas hostes que combatiam a escraviddo.
A generosa idea espalhou-se pelo Ceard
inteiro. A causa tornou-se de todos. A victo-
ria seria certa. 0 governor agia, mas agia sem
enthusiasm. Os libertadores combatiam o
element servil por todos os modos. Foram
heroes, foram abnegados.
A Rodolpho Theophilo coube a tarefa de
promover a emancipacio dos escravos em Pa-
catuba, onde a political local estava estorvan-
do o movimento. Para la seguiu corn sua mu-
Iher, que ,to abolicionista quanto elle, havia
tambem se alistado em uma sociedade de se-
nhoras libertadoras.
No aia 10 de Janeiro de 1883 recebia o
captiveiro no Ceara o primeiro golpe corn a
libertacAo do municipio do Acarape. Aquelle





A BIBLIOGRAPHIA


pedago de patria nio tinha mais um home
escravo!
Seguiu-se a liberta co de Pacatuba, no
dia 2 de fevereiro de 1883, depois de uma
lucta de mais de um mez, lucta que Rodol-
pho Theophilo teve de sustentar corn muita
coragem e gastando parte de suas economies.
Para compensal-os de tanto trabalho, de tan-
tos aborrecimentos, receberam elle e sua mu-
lher, no dia da emancipacdo da Villa, as maio-
res provas de estima e reconhecimento.
No dia 24 de maio de 1883, Fortaleza li-
bertava os seus escravos entire risos e flores;
A alegria enchia todos os lares. A alma do
cearense vibrava de contentamento. A' noite
a mais pobre choupana das areas illuminou
a sua humilde fachada.
A Cearense libertadora marchava de vi-
ctoria em victoria.
Joao Cordeiro, Jos6 do Amaral, Frederi-
co Borges, Isac Amaral, Joao Carlos Jata-
hy, Francisco do Nascimento, Antonio Be-
zerra, Siqueira Mano, Alfredo Salgado, Jose
Albano Filho e outros chegaram cobertos de
louros ao termo da sua jornada no dia 25 de
marco de 1884, dia em que disseram a patria:
Pela vontade soberana do povo acabou-se o
element servil no CearA!
Finda a campanha da aboligdo, voltou
Rodolpho Theophilo ao labor litterario.
S. M. o imperador o havia condecorado
corn o Officialato da Rosa, em recompensa





P. THROPHILO XI


dos services por elle prestados A humanida-
de, como se nao estivesse elle bem recom-
pensado pela consciencia da pratica do bem.
Em 1888 publicava Rodolpho a "Mono-
graphia da Mucuna", esta plant celebre que
ajuda a matar a fome das grandes seccas. A
variedade que os famintos usavam nAo era
conhecida. Rodolpho Theophilo estudou-a e
classificou-a de "Mucuna Glabra" R. T.
Este trabalho foi muito bem recebido pe-
la imprensa do Rio e despertou tanto interesse
que foi publicado no "Diario Official" e o-mi-
nistro da Agricultura pediu a fecula da mu-
cund, tal como os famintos a usavam, para
mandar examinal-a. 0 exame foi confiado ao
professor Michler, que chegou ao conheci-
mento de que as desordens organicas produ-
zidas pela fecula da mucund eram devidas
ao acido gallico contido nella.
0 sr. CaminhoA em sessdo da Imperial
Academia de Medicina, occupou-se largamen-
te da "Monographia da Mucund",pedindo que
se requisitassem ao president do CearA
exemplares da plant para serem estudados".
Em 1890 publicava Rodolpho Theophilo
o seu primeiro romance a "Fome", episodios
da terrivel secca de 1877.
Este livro, que o seu autor considerava
defeituoso pelas divagac6es scientificas, foi
bem recebido e tanto que Medeiros e Albu-
querque referindo-se a elle, assim se expri-
me: "Mas onde nos seus livros vale mais a





All BIBLIOGRAPHIA


pena ler-se uma descripcqo dessa calamidade-
6 no romance a "Fome". Este romance tern o
mesmo nome de uma obra celebre de um cer-
to escriptor scandinavo, Knut Hanson. Si, po-
r6m, 6 mais incorrect e, por assim dizer, tu-
multuoso, tern a superioridade de ser mais
verdadeiro. Knut Hanson, talvez, nunca ti-
vesse de facto sentido sentido ao menos de
um modo intenso, por dias, mezes e annos, o
que elle pretendia descrever. A Rodolpho
Theophilo ndo faltaram, infelizmente, os mo-
delos. Por isso o seu livro 6 vivido. Sente-se
que 6 verdadeiro. E' a fome de um povo in-
teiro, a fome com todo o seu cortejo de mise-
rias".
Clovis Bevilaqua, apreciando a "Fome",
assim terminal o seu juizo: "Para dizer tudo
em poucas palavras: 6 a epop6a lugubre, a
pavorosa tragedia da secca levanta-se do li-
vro de Rodolpho Theophilo, esbraseada, lutu-
lenta, andrajosa, revolvendo a vasa immun-
da dos mdos instinctos recalcados pela civi-
lizaqgo, enlameando a d6r no esterquilinio da
crapula, rindo mephistophelicamente em face
do desespero, mas de long em long illumi-
nada por um acto nobre, por um character de-
fina tempera, por um rasgo de philantropia.
Qual foi na realidade, tal estA no livro".
Ainda em 1890, publicava Rodolpho
Theophilo um livro didactico "Sciencias
Naturaes, em contos" que foi adoptado pa-
ra uso das escolas no Ceard e tempos depois.





R. THEOPHILO XIII


era unanimemente approvado pelo Conselho
Superior de Instruccdo Publica de S. Paulo e
mandado adoptar em suas escolas.
O professor Ayres de Albuquerque Ga-
ma, depois de uma longa apreciago sobre
aquelle livro, assim terminal o seu artigo: "0
autor conclue o seu trabalho com cinco capi-
tulos, de XX a XXIV, descrevendo detida-
mente tres funce6es da vida animal, nutri-
cao, circulagio e respirago, concluindo estas
nog6es physiologicas com descripg6es e por-
menores, curiosissimos do orgdo visual e da
respective funccao de relacdo, que exerce".
Neste meismo anno publicou Rodolpho
Theophilo outro livro didactico Botanica
elementary. Este compendio foi adoptado na
Escola Normal, sendo mais tarde ampliado
pelo dr. Garcia Redondo e adoptado na Esco-
la Polytechnica de S. Paulo.
O movimento litterario accentuava-se
fundando-se a "Padaria Espiritual", da qual
Rodolpho Theophilo foi padeiro-m6r, presi-
dente. Esta sociedade, incontestavelmente,
prestou grandes services As lettras patrias. Ti-
nha uma revista "0 Pdo" que publica-
va os escriptos de seus associados. Esta agre-
miacdo contava bellos talents, como Antonio
Salles, Arthur Theophilo, Sabino Baptista,
Antonio Bezerra, Lopes Filho, Waldemiro
Cavalcante, Jos6 Carlos Junior, Cabral de
Alencar, Antonio de Castro e outros.





XIV BIBLIOGRAPHIC
1A'V1 WVWl/1/ XA1 Wl VVV,"N1"AAA'WVV1A1 N"1 AA I.WAAAAl/VlV V1,

Em 1895 publicou Rodolpho Theophilo o
segundo romance "Os Brilhantes" que
foi muito bem recebido pela critical.
Diversos escriptores se occuparam delle
corn os juizos os mais lisonjeiros.
Pedro de Queiroz, apreciando o livro
diz: "Rodolpho Theophilo nao tem a geniali-
dade creadora, a poderosa psychologia dos
mestres, a inconfundibilidade que particulari-
za o grande artist, na natureza vibratil, se-
nhor da technical do officio, alliando a capa-
cidade de brilhante intellectual a impressio-
nabilidade do artist, na sua retina moral re-
trata bellissimas paizagens, desenha a nota
caracteristica a um quadro e a golfa no li-
vro.
Rodolpho Theophilo nao se altera dean-
te de um acto de crueza. Descreve-o tranquil-
lamente, as vezes com colorido vivo, quente,
como as entranhas das victims do sacrificio
dos antigos".
Araripe Junior, em estudo sobre "Os
Brilhantes" publicado na "Provincia do Pa-
ra", diz isto: "Nao se p6de dizer que a Ro-
dolpho Theophilo escapassem as situag6es in-
dispensaveis a boa march da historic de
Jesuino Brilhante. Ao contrario disso o es-
queleto do romance 6 complete e nada Ihe
falta no que diz respeito ao conflict indis-
pensavel ao desenvolvimento da sanha e da
queda do assassino".





R. THEOPHILO XV


Jos6 Verissimo, occupando-se deste li-
vro, escreve: "Do que tern curioso e interes-
sante a vida cearense que o sr. Rodolpho
Theophilo parece conhecer tdo bem e que
pinta com tanto sentiment e verdade, mes-
mo com intensidade, como em certas paginas
dos "Brilhantes".
Valentim de Magalhdes publicou na
"Noticia" um estudo sobre os "Brilhantes",
na qual diz isto: Rodolpho Theophilo tern
accentuada e robusta vocaco para o roman-
ce, genero de que nao temos abundancia. Sa-
b3 preparar e conduzir a intriga, distribuir e
destacar os episodios principles, desenhar e
fazer viver os seus typos, communicar ao lei-
tor a impressed do meio e da emoco das si-
tuacoes. E' um romancista emfim".
Arthur Azevedo, apreciando os "Bri-
Ihantes", diz:
"Poucas vezes se tera visto uma voca-
cao de romancista rebentar com tanta impe-
tuosidade e florejar com tanta exhuberancia.
Nas quatrocentas e tantas paginas d'"Os
Brilhantes" o leitor encontrard situacoes ha-
bilmente preparadas, caracteres e persona-
gens bem definidos e bem contornados, des-
cripc6es muito suggestivas, dialogos susten-
tados com talent e com interesse dramatic
intenso, que se nao desmente desde o primei-
ro at6 o ultimo capitulo. Demais o livro 6
nosso, muito nosso: passa-se nos sert6es do





X VI BIBLIOGRAPHIA


norte e nao soffreu a influencia de nenhum
romance estrangeiro".
Garcia Redondo, apreciando "Os Bri-
lhantes", escreve:
"'Os Brilhantes", romance editado pela
"Padaria Espiritual", que tantos e tao bons
livros nos tern dado, faz honra a esta littera-
tura do norte, que reapparece pujante de ta-
lento e originalidade ap6s a proclamacdo da
Republica. Conhecedor profundo de sua ter-
ra natal, Rodolpho Theophilo descreve-nos as
ridentes paysagens do Ceara e faz-nos convi-
ver com o seu povo, cuja linguagem 6 tao di-
versa da nossa pela sua technical especial e
typical. Ler este livro 6 viver durante algu-
mas horas num meio estranho, que nos seduz
e encanta pelas suas maravilhas na natureza
e pelo aspect inteiramente novo do home
e de seus habitos.
Rodolpho Theophilo, como narrador, tem
o condo de prender o leitor, obrigando-o a
ler os seus livros de um folego, sem descango,
tao seductores sAo elles".
Em 1897 publicava Rodolpho Theophilo
o seu terceiro romance "Maria Ritta", que
mereceu da critical os mesmos applausos que
"Os Brilhantes".
Coelho Netto, apreciando este livro, as-
sim se manifesta:
"Li de um folego o novo romance de Ro-
dolpho Theophilo, o infatigavel padeiro-m6r
da Padaria Espiritual do Ceara, "Maria Rit-





R. THEOPHILO XVII


ta" 6 o titulo. A accao do romance remonta-
se aos velhos tempos do CearA colonial.
Rodolpho Theophilo 6 um escrupuloso
observador e disso jA deu provas sobejas na
"Fome" e nos "Brilhantes". Conhecendo
profundamente o sertdo, os seus livros t6m
.um encanto novo, ddo, por vezes, uma im-
pressdo do maravilhoso, principalmente aos
que nunca tendo passado a fronteira da cida-
de, nada conhecem dessa vida forte que le-
vam os homes simples em plena natureza
corn o seu gado e com Deus, felizes na singe-
leza dos campos verdes ou na grandiosa ma-
gestade das florestas virgens".
Theotonio Freire assim se exprime sobre
"Maria Ritta":
"Rodolpho Theophilo, o operoso home
de lettras cearenses, autor da "Fome", d'"Os
Brilhantes" e outras obras, publicou ultima-
mente o seu terceiro romance "Maria Ritta",
um estudo da sociedade cearense no tempo
colonial. Rodolpho Theophilo nao 6 um Zola,
nem Daudet, nem D'Annunzio, mas tambem
nao 6 ahi qualquer escriptor da estatura de
Montepin e le reste.
0 mopo romancista tem talent e boa
vontade. 0 que noto nelle 6 uma qualidade
de observador que nao analysa; apanha o
facto e mostra-o sem desdobral-o, sem pers-
crutal-o em um rigoroso estudo que faca re-
saltar as cousas e os acontecimentos, os ho-
mens e as paix6es, animadas, verdadeiras.





XVIII BIBLIOGRAPHIA
4VV1VVV1AV1VWVVV v,1AAH'VVi AVl4lV^ LVVl l'\'iAT1AA1'WLA

Tern a intuigdo e mais do que isto o conhe-
cimento exacto daquillo sobre que escreve,.
mas falta a sua obra o sopro vivificador de
um espirito superior presidindo a sua elabo-
raco".
Medeiros e Albuquerque assim conclue a
sua minuciosa apreciacdo sobre "Maria Rit-
ta".
"Para concluir: "Maria Ritta" 6 um dos
raros "specimens" do romance national, re-
almente national. Tern uma accao bem tra-
vada, interessante, cortada de episodios com-
movedores. Quem o tomar para ler ndo se
deter um moment sem attenceo antes de
chegar ao desfecho.
Rodolpho Theophilo se quizer trabalhar
um pouco occupar6 dentro em breve na nos-
sa literature um logar que bem poucos Ihe
disputardo".
Arthunio Vieira, em long artigo sobre
"Maria Ritta" publicado no journal "Pard",
de Belem, diz:
"Entretanto de parte alguns senses, que
belleza encerra "Maria Ritta"! Quanta ver-
dade vag na descripcAo da farinhada! Que
vividas c8res revestem as paysagens e como
estruge sobre as cabegas do Joaquim e da
Maria a tempestade que encheu o Aracaty-
Assu' Corn que purezas de linhas, corn que.
finura de colorido Rodolpho Theophilo des-
creve o amanhecer do sertdo!"





R. THEOPHILO XIX


Na critical que Arthur Theophilo faz de
"Maria Ritta" la-se o seguinte:
"0 romance do sr. Rodolpho Theophilo,
como disse, inicia corn brilhantismo a propa-
ganda do nacionalismo.
Ha no livro scenas que sio nossas do nos-
so povo, como a farinhada, o pombal, a
corrida do vaqueiro e at6 mesmo o defuma-
dor. No conjuncto, o romance tern vida, buli-
cio, movimentacdo coordenada e forte, e, du-
rante a narracao, descobrem-se creatures que
estamos acostumados a ver diariamente vi-
vendo, agindo, movendo-se emfim no enge-
nhoso enredo do livro, numa feliz e natural
disposicdo. 0 estylo do autor mesmo, descu-
rando sob o ponto de vista do purissimo
classic, 6 um bello specimen da nossa lin-
guagem, do nosso argot, que o autor nao es-
tudou, por certo, mas que sabe transportar
para o papel, corn habilidade de mestre, sem
parti pris, naturalmente. No romance do es-
criptor cearense nao ha artificio; a narracao
corre espontaneamente, cheia de intense ins-
piragdo, cortada de peripecias locaes, sugges-
tiva e attrahente, a ponto de arrastar ate A
ultima pagina, irresistivelmente, a curiosida-
de do leitor".
Clovis Bevilaqua assim se exprime sobre
"Maria Ritta":
E' um livro cearense, pelos costumes
que descreve, pelas id6as que Ihe tecem o
trama, pelos aspects da natureza que refle-





XX


BIBLIOGRAPHIA


cte. Portanto, 6 um livro genuinamente brasi-
leiro, seja dito para o elogio de quem o es-
creveu. Infelizmente se Ihe p6dem apontar
defeitos... e eu os nao quizera ver, e muito
menos apontar no livro de Rodolpho Theophi-
lo, livro que se conclude ter sido trabalhado
corn amor e com muito estudo. Mas, preoccu-
pando-se extremamente corn os quadros, com
os detalhes da enscenacao, onde se mostra
um frio observador, o romancista cearense
esqueceu-se de dar maior vida a accao, que
corre um tanto feia e morosa".
Eduardo Prado publicou na "Revista
Moderna", que se public em Paris sob a
direcgao de Ega de Queiroz e M. Botelho,
uma apreciagao sobre "Maria Ritta", em que
se 1I:
"Si o sr. Rodolpho Theophilo conseguis-
se esquecer o que tem lido e s6 contasse es-
pontaneamente e corn singeleza o que tao
bem sabe ver no sertdo, o seu livro teria uma
belleza propria e original, um tanto ingenua
e rude, mas 6 tao bello o quadro e tao estra-
nhos sao os personagens que poderia caber
ao autor, entire os brasileiros, o logar que en-
tre os norte-americanos tem Bret Harte".
Em 1898 publicava Rodolpho Theophilo
a sua novella "ViolaAo" considerada
a sua obra prima.
0 grande Fialho de Almeida referindo-
se a ella diz uma das melhores novellas
escriptas em lingua portugueza.





R. THEOPHILO XXI


Medeiros e Albuquerque a julga as-
sim:
"Violacdo 6 um conto de poucas pagi-
nas. Tern a assignal-o o nome de Rodolpho
Theophilo, o escriptor da "Fome", de "Ma-
ria Ritta", d'"Os Brilhantes". Ha na descri-
pgao dessa tristee scena de bruteza humana"
os caracteristicos de sua imaginagco, volta-
da de preferencia as scenas horriveis e vio-
lentas. Horriveis e violentas, mas bem escri-
ptas, num estylo aspero por6m vibrant, que
nos da a sensacdo de cousas reaes, de cousas
vistas, sentidas, vividas. E' um bello conto".
Herculano da Fonseca escreve na "Mala
da Europa", revista que se public em Lis-
boa, o seguinte:
"NAo 6 um trabalho de folego este, mas
podia sel-o si, em vez do conto que este vo-
lume encerra, fosse um romance para que
em muitos pontos se nos afigura esbocado
desde o comeco o seu entrecho.
0 tom de narrative simples em que por
fim, resolve preferentemente retocal-o -
que 6 evidence isso restringe-1he muito o,
merito com que no trago psychologico das fi-
guras se deixa levar do louvavel empenho de
as pormenorizar inteiramente sem o recurso
do dialogo. Comtudo a originalidade do as-
sumpto que envolve um symbolismo em que
os personagens surgem representando um su-
premo ideal da Arte compensa em grande
parte a inapropriacdo da forma empregada:









e a linguagem correct e simples que delica-
damente borda das subtilezas do entrecho,
essa entdo dA-nos a media exacta da con-
sciencia esthetica do escriptor, que sabe uti-
lizar commedidamente a belleza plastic de
seu idioma".
Pedro de Queiroz, apreciando a "Viola-
cao", escreve:
"0 intelligence novellista conta o seu
caso de psycopatia, mas sem cuidar de suas
raizes, que nao cavou. As scenas cruas da
natureza e do mundo social sao o ambiente
onde o autor da "Violacdo" respira a longos
haustos. Na sua palheta tem pouco relevo
as scenas de inspiracgo suave, serena, riso-
nha. Predominam as paysagens carregadas,
os quadros tristes. E' elle o maguado pintor
dos paineis das seccas".
Em 1899 publicava o "Paroara", roman-
ce que foi muito bem recebido.
Farias Brito, o philosophy da "Finalida-
de do Mundo", fazendo um estudo sobre "0
Paroara", assim conclue:
"E' talvez o livro mais tragico e expres-
sivo de Rodolpho Theophilo; mas tambem
por isso mesmo o mais verdadeiro e emocio-
nante. Ali reflecte-se inteiramente a alma do
romancista. Alguma cousa de seu character
ficou impressa no livro. Dahi a originalidade
do mesmo, sendo que de todos os romances
nacionaes sao os de Rodolpho Theophilo os
que menos obedecem a qualquer suggested


XXII


BIBLTOGR APTTTA





R. THEOPHILO XXIII


extranha; e, de todos os romances de Rodol-
pho Theophilo, 6 o mais original e complete.
Tambem Rodolpho Theophilo 6 o typo unico
no meio em que vive.
Ninguem mais accessivel a amizade;
ninguem mais brando e bondoso. De uma vez
vi-o dev6ras irritado porque alguem ria-se de
uma louca. Entendia elle que nao havia ia-
zao para galhofa, sinao para compaixao e
respeito. Corn os amigos nao 6 s6mente ami-
go, 6 pae ou irmao. Soffre por qualquer cou-
sa mais do que qualquer outro. Triste sem-
pre, parece que tern a alma como que invaria-
velmente voltada para dentro de si mesmo.
S6 o olhar reflect alguma cousa do que se
passa la dentro. Corn qualidades que o tornam
a creature mais sociavel do mundo, parece,
entretanto, que um quer que seja de extra-
nho o isola. Nas festas procurae-o sempre num
canto a esconder-se, arrastado como um reclu-
so pela tortura do proprio pensamento. Nas
reunites, em sua propria casa, deixa que tu-
do corra por conta de sua magnanima espo-
sa, feliz por ter encontrado quem tao bem
sabe comprehendel-o e complefl-o. Quanto a
si nao rompe com o que chama meus habi-
tos mas que nao 6 senao o poder de tempe-
ramento. Continua a meditar nos seus ideaes
predilectos e mesmo quando fala ou Ihe falam,
ha uma especie de desdobramento de sua per-
sonalidade: responded a todos, discute corn to-





XXIV BIBLIOGRAP1-IA


dos e parece que em tudo toma parte; mas, de
facto, continfla de todo extranho ao que se
passa, isolado no seu ideal. Magro, dispeptico,
parece que o corpo 6 alli apenas uma sombra
do corpo e em verdade ha s6mente alma e sen-
timento. Tal 6 o autor d'"O Paroara", o mais
original de todos os romancistas brasileiros. 0
character e genio mesmo do autor, que se refle-
ctem na originalidade do livro".
A critical indigena havia se occupado lar-
gamente da individualidade litteraria de Ro-
dolpho Theophilo, quando Oliveira Lima, nos-
so ministry na Belgica, traduziu para o fran-
cez algumas paginas d'"O Paroara" e as publi-
cou na "Revue d'Europe et Am6rique".
As paginas publicadas eram as mais in-
tensas do livro. Nellas estavam photographa-
-das scenas da vida amazonica e da vida cea-
rense.
Andr6 Beaunier, lendo-as, achou-as inte-
ressantes e publicou no "Figaro" as impres-
s6es que Ihe deixaram a leitura dellas. Eis al-
guns topicos de sua apreciagao:
"- Un romancier br6silien M. Olivei-
ra Lima, dans la "Revue d'Europe et Am6ri-
que r6v6le un romancier br6silien don't 1'oeu-
vre semble fort singuli6re et attrayante. M.
Rodolpho Theophilo.
M. Oliveira Lima note d'ailleurs qu'elle
n'est pas raffin6e: elle vaut par un charme
original.





R. THEOPHILO XXV
VAV"VVAVVA VVVV VAVIVVIVVVVWV V VVVVVVMVVV'%,

Ces paysages sont empruntees a un ro-
man qui s'appelle "0 Paroara". Le "Pa-
roara" c'est le cearense qui est all en Ama-
zonie et qui revient dans son pays natal, riche,,
mais la rate engorgee le teint jaune, le
corps grelottant, les jambes fl6chisantes".
Les deux existences qui doit successive-
ment mener ce colon, M. Rodolpho Theo-
philo les a mises en contrast avec beaucoup
d'6clat.
Pour representer la vie au Ceard, voici,
1A-bas, la messe de minuit, Noel en plein 6t6::
L'autcl sur lequel on allait ctlebrcr le saint sa-
crifice avait 6t6 placid en dehors do l'eglise, facc au
porche, etc. etc.
M. Oliveira Lima, note que M. Rodolpho
Theophilo n'est pas un ecrivain trcs attentif: le
style est souvent incorrect et les descriptions no sont
pas d'un artiste.
Elles sont extr6mement belles, pourtant
si 1'on juge par les passages qu'on cite et-
bien que la traduction semble imparfaite.
Cette page-ci n'est elle pas strange et ad-
mirable?
Nous sommes dans un coin de 1'Amazo-
nie: Pedro das Marrecas et Jacy avaient ren-
contr6 une grande ile form6e par la crue et
qui regorgeait de gibier. C'6tait une veritable
arche de No6, etc., etc.
Apr6s cela, souhaitons que bient6t on
nous donne la traduction complete du "Paroa--
ra".





XXVI B'BLIOGRAPHIA


Em 1901 publicou Rodolpho Theophilo
o seu livro "Seccas do Ceara" Segunda
Metade do Seculo XIX. Este livro foi bem aco-
Ihido, como os que o precederam.
Antonio Salles diz sobre este livro o se-
guinte:
"Temos o seu recent livro "Seccas do
Ceara" em que o autor estuda estes phe-
nomenos na segunda metade do seculo XIX,
especialmente as ultimas seccas de 1888, 1889
e 1900. E' um livro de observacgo e de critical
aos actos dos poderes publicos corn relacgo ao
flagello". Este livro de verdades, em que era
condemnada a indifferenca criminosa do
actual president do Ceara, commendador No-
gueira Accioly, ante o flagello que victimava
a populacgo do Estado, fez este president
inimigo de Rodolpho Theophilo, a quem mo-
veu perseguig6es.
Em 1900 estava Rodolpho Theophilo a
passeio na capital da Bahia, quando o CearA
era assolado por uma secca e corn ella uma
epidemia de variola que fazia grande estrago
ndo s6 em Fortaleza como no sertdo.
As noticias que recebia de sua terra eram
as mais desoladoras possiveis. A peste fazia
mais victims do que a fome. A capital tinha
ares de cidade morta. Os bexigosos apodre-
ciam em redes armadas nas arvores das pra-
cas. Rodolpho Theophilo sentiu deveras a des-
grapa que pesava sobre o Ceara. Testemunha
ocular da secca de 1877 e da grande epidemic





R. THEOPHILO. XXVII


de variola de 1878, que chegou a matar em um
s6 dia de dezembro, em Fortaleza, "mil e
quatro pessoas", tremeu pela sorte de seus pa-
tricios, e lastimou a incuria delles, depois da-
quella tremenda lig~o, deixarem que de novo
a variola os victimasse.
Rodolpho Theophilo nao comprehendia
como depois do recurso da vaccina animal
uma populacdo fosse accommettida de vario-
Ia. Assim resolve assistir no Instituto Vacci-
nico de S. Salvador a algumas sess6es de vac-
cinacao e, habilitado que fosse, regressar ao
Ceara e dar combat a variola.
Munido dos instruments necessarios e
de vitellos torinos, regressou a Fortaleza, on-
de chegou a 6 de dezembro de 1900. A cidade
estava empestada de bexiga, as noticias que ti-
nha recebido nao eram exaggeradas. Montou
o seu modesto vaccinogenio e no dia 1 de ja-
neiro de 1901 fazia a primeira sessdo de vac-
cinacdo, vaccinando nesta occasido centenas
de pessoas.
Comegou entdo a sua labuta diaria, per-
severante para extinguir a variola.
Vendo que a populagdo ignorante nao vi-
nha para ser preservada, decidiu-se a fazer vi-
sitas domiciliarias e foi pelos suburbios, de pa-
Ihoga em palhoga, catechisando, pagando os
maisrebeldes e assim, depois de uma lucta que
descreve em seus livros sobre o assumpto, con-
seguiu exterminar a variola de Fortaleza.








No interior do Estado a variola grassava
em algumas localidades. Rodolpho Theophilo
levou ate la a vaccina, creando commiss6es
vaccinadoras em todos os municipios, as quaes
fornecia vaccina, conseguindo dentro de um
anno que a variola se acabasse por complete
no Ceard.
Foi neste period de trabalho ingente e
de sacrificios que o governor do Sr. Nogueira
Accioly moveu contra a propaganda de vacci-
nagdo que Rodolpho Theophilo fazia desinte-
ressadamente sem onus de especie alguma
para o Estado e para os particulares a maior
perseguigdo.
Rodolpho Theophilo resistiu, submetten-
do a exame clinic e bacteriologico a vaccina
que preparava... Por ordem do Dr. Oswaldo
Cruz foi examinada e considerada a "melhor
que era possivel". Venceu assim, esmagando
o governor que o perseguia.
Em 1905 Rodolpho Theophilo publicou
o seu livro "Variola e Vaccinacgo no Cea-
ra" minucioso relatorio do que havia feito
at6 aquella data, desde que foi inaugurado o
seu vaccinogenio.
A imprensa de todo o Brasil recebeu este
livro como um document de grande valor.
0 "Paiz", important orgdo da imprensa
do Rio de Janeiro, assim comegou o seu edito-
rial de 22 de janeiro de 1915:
"0 Sr. Rodolpho Theophilo e vantajosa-
mente conhecido nas lettras brasileiras. Mais


XXVIII


BIBLIOGRAPHI&





R. THEOPHILO XXIX


de um romance de costumes do norte, cuida-
dosamente estudados, deram-lhe notoriedade
no circulo dos que se preoccupam com as bel-
las lettras.
Nenhum dos seus livros, por6m, Ihe darA
o triumph moral que Ihe vale o que agora nos
chega as mdos: 6 uma pequena brochure de
cerca de 250 paginas, impressa em papel com-
mum, de distribuicdo gratuita, que se intitula
- "Variola e Vaccinacao no Ceara".-
0 Dr. Norberto Bachmann, em sua these
apresentada a Academia de Medicina do Rio
de Janeiro Variola e Estreptococco de-
pois de citar diversas observances, a Rodolpho
Theophilo assim se exprime :
"Nas grandes calamidades se apuram os
caracteres e resaltam os grandes e bons; um
home s6 de encontro As formidaveis barrei-
ras da ignorancia do povo e da rotina dos go-
vernantes, pedindo, exhortando, convencen-
do, inabalavel em sua f6 de scientist e de
crente, conseguiu eliminar das plagas cearen-
ses o mal cruelmente assassino.
Ndo ha mais variola no CearA; e, nesta
terra formosissima e boa, Sparta de antanho
revivencida, terra de fortes, terra de her6es,
nunca se olvide o nome puro de Rodolpho
Theophilo o mais benemerito de seus filhos.
Ao lidimo representante desta raga vigorosa,
nobre e pertinaz, ao grande trabalhador, ao
scientist proficiente, cuja vida sem jaca 6





XXX BIBLIOGRAPHIA


exemplo acrysolado do valor, da virtude e do
saber, neste meu trabalho saudo reverente.
Mostrem-se-lhe gratos os filhos do sul, si os
do norte nao o sabem ser bastante".
A Phenix Caixeiral, important associa-
cdo de empregados do commercio de Fortale-
za, conferiu a Rodolpho Theophilo o titulo de
socio benemerito e collocou no seu salao de
honra o retrato delle. A proposta foi assigna-
da por centenas de socios e do te6r seguinte:
"Os abaixo assignados, socios effectivos
da Phenix Caixeiral:
Considerando que a obra de vaccinaqdo
iniciada pelo cidadao Rodolpho Theophilo
condensa favors da mais alta relevancia pres-
tada ao Ceari;
considerando que, devido aos esforcos
tdo s6mente do preclaro cearense, nao temos
no moment actual nos dominios territoriaes
do Estado a invasdo do pestifero morbus;
considerando que a Phenix Caixeiral, tem
participado indirectamente, mas em larga es-
cala, nas pessoas dos seus associados, dos in-
estimaveis services do magnanimo cidadao;
considerando ainda que o illustre Sr. Ro-
dolpho Theophilo, na pratica de sua grande
obra, nenhuma remunerado recebeu, quer do
governor, quer dos seus conterraneos; '
considerando, finalmente, que por actos
de tanta relevancia se tornou um bemfeitor da
humanidade, a Phenix Caixeiral resolve, com
grande satisfacdo de sua alma, conferir o ti-





R. THEOPHILO XXXI


tulo de socio benemerito ao Illmo. Sr. Rodol-
pho Marcos Theophilo, de 58 annos de idade,
filho legitimo de Dr. Marcos Jos6 Theophilo,
casado, pharmaceutico, resident nesta capi-
tal. Fortaleza, 21 de outubro de 1908".
0 Centro Artistico Cearense, pelas mes-
mas raz6es conferiu tambem a Rodolpho
Theophilo o titulo de socio benemerito.
Ambas as associag6es levaram ao novo
confrade os diplomas em ricas molduras.
Em 1910, publicou Rodolpho Theophilo o
segundo-livro "Variola e Vaccinacdo no
Ceara" minucioso relatorio de quatro annos
de trabalho.
Neste document conta elle todas as per-
seguic6es que soffreu do president do Ceara,
que acabou demittindo-o de professor vitalicio
do Lyceu cearense. Este livro foi muito bem
recebido pela imprensa brasileira, fazendo
uma verdadeira apotheose ao seu autor.
De 1910 a 1913 publicou Rodolpho Theo-
philo o "Condurui", livro de contos; "Memo-
rias de um engrossador"; "Homens e cousas do
meu tempo"; "Lyra Rustica" e "Telesias".
Todos estes livros foram bem recebidos.
Sobre o "Condurfi", escreveu D. Maria
Clara da Cunha Santos:
"Ha muito tempo que nao deparo com
leitura tAo amena e suggestive. E' um livro ge-
nuinamente national em 117 paginas de agra-
dabilissima leitura, nao ha nem gallicismos





XXXII BIBLIOGRAPHIA


nem referencias a vida dos povos de al6m mar.
Quem conhece os sert6es do Brasil encontra
nas deliciosas descripg6es do escriptor cearen-
se paizagens conhecidas e horizontes muito-
familiares a quem tem viajado por estes cami-
nhos agr6stes".
Osorio Duque Estrada, fallando das "Me-
morias de um engrossador", diz:
"E' um livro interessantissimo e cuja lei-
tura se recommend na present hora de bai-
xeza e de miserias moraes inominaveis, de que
algumas paginas deste volume sAo a psycholo-
gia fiel e perfeita. Para dizer o que vale o no-
vo trabalho de Rodolpho Theophilo nAo e pre-
ciso perder muito tempo em analyse e com-
mentarios; basta citar um trecho eloquente de
sua obra forte de observagdo e de verdade,
quadro vivido e flagrante em que se h6o de
ver admiravelmente retratadas as principles
figures do triste e repugnante moment que
atravessamos".
Raymundo MagalhAes, fazendo aprecia-
cao da "Lyra Rustica", assim se exprime:
"Por uma nova feiqgo apresenta-se-nos o
insigne home de- lettras, o Sr. Rodolpho
Theophilo.
N'"A Fome", no "Paroara", no "Condu-
rfi" e em todas as suas demais obras, sempre
a mesma penna arrebatadora e forte se deno-
ta, num estylo peculiar e caracteristico, que
indica desde logo, o romancista de esc61l e de





4..i THEOPHILO XXXIII
A V~ VVVM/ AVILVV ^ VlA^/VVVVV V iIV V i / V vvvv1A ^ 1 VVVi

eleicao. Ainda nao.houvera manejado o verso,
nao porque deixasse de ser poeta, pois em seus
romances se aspira aqui e al6m o perfume de-
licioso da poesia.
Agora apparece Rodolpho Theophilo corn
um livro de versos a "Lyra Rustica", que le-
mos de um folego, como quem com side en-
contra uma taca de fino phalerno.
rEm tudo o mesmo espirito e o mesmo es-
tylo ,todo sen. As descripg6es sao ahi magis-
tralmente feitas com o sabor da linguagem lo-
cal, de acc6rdo com o assumpto que elle de-
senvolve, ao qual da colorido proprio, incon-
fundivel"
O mesmo Sr. Raymundo Magalhdes noti-
ciando o apparecimento das "Telesias", diz
isto:
"Sabido que o Sr. Rodolpho Theophilo 6
um romancista jA encanecido, com quarenta
annos.de ininterrupto labor intellectual, afigu-
rar-se-ia inconcebivel desproposito annunciar
o recentissimo apparecimento de seu ultimo
livro "Telesias", uma encantadora colleceio
de inspirados versos.
O autor 6 um poeta de ha quarenta an-
nos, que nao vem disputar aos do present
nem glorias nem renome.
Quem o ler e nao Ihe faltar criterio ha
de collocal-o no seu tempo entire os seus pa-
res. E, si isto fizer, estabelecendo um paral-
lelo entire elle e os demais, notard corn cer-










XXXIV


R. THEOPHILO


teza que Rodolpho Theophilo ndo e de modo
algum inferior aos seus contemporaneos. 0
seu grande defeito foi apparecer demasiado
tarde, mas 1I diz o brocardo que antes tar-
de do que nunca".
Rodolpho Theophilo tern no prelo o livro
-"LibertagAo do Ceara. Queda da oligarchia
Accioly" e a entrar para o prelo mais qua-
tro livros, que sdo: "Curso Elementar de His-
toria Natural". "Retalhos", "Sedigao do Joa-
zeiro", "Crimes do governor da Republica" e
"Secca de 1915".

("Tribuna", 19, 20, 23, de Julho de 1917
- Rio de Janeiro).










A SECCA DE 1915


I

O Ceara 6 uma terra condemnada mais
pela tyrannia dos governor do que pela incle-
mencia da natureza.
A secca 6 o seu mal congenito. De tem-
pos em tempos, ataca-o, fere-o de morte.
Em Marco de 1915 a secca estava decla-
rada; o president do Estado communicou o
facto ao president da Republica, dizendo
tambem a impossibilidade em que se achava
de arcar contra o flagello, soccorrendo a po-
pulagdo indigente, e s6 em Julho 6 que o go-
verno da Unido attended ao pedido do governor
do Ceard, enviando um insignificant soccorro.
O Ceard esta condemnado, nao por Ihe
faltarem elements de defeza contra as sec-
cas, mas pela indifferenga dos poderes pu-
blicos.
Se a natureza nos legou o terrivel phe-
nomeno climaterico, deixou escripto na confi-
guragdo do solo o que deviamos fazer para
nos remirmos da calamidade.





2 SECCAS DO OEARA


0 mal que nos atormenta nao & daquel-
les que o esforco human nao possa remediar.
A natureza dotou o cearense de resis-
tencia organic assombrosa, para que pudesse
enfrentar as seccas.
Deixou em todo o Estado, de norte a sul,
de leste a oeste, excellentes locaes para gran-
des reservatorios, alguns como o dos Or6s, no
qual, uma vez feita a barragem, teriamos um
lago de muitos milh6es de metros cubicos e
com capacidade de irrigar uma area de deze-
nas de leguas, toda ella uberrima, corn uma
camada de humus de grande espessura.
Imitemos a Hollanda, que disputou ao
mar uma parte de seu territorio. Ella lutou
corn as aguas; lutemos n6s para captivar a
agua que cae do c6o.
Sobre o Cear6 pesa maldicgo maior do
que as seccas: 6 a inepcia e mi vontade
dos homes que dirigem a Nacgo e a falta de
patriotism de n6s cearenses. Nao amamos a
nossa terra como a deviamos amar. Sacrifica-
mos bem o public aos interesses da politica-
gem. Isso vem de long. Em 1877 Fortaleza
estava cheia de retirantes, e o president da
Provincia, Desembargador Estellita, pedia
soccorros ao Governo Geral. Funccionava 0
parlamnnto, e umn de nossos representantes,
Jos6 de Alencar, corn o grande prestigio de
seu nome, affirmava a Nacdo que havia exag-
gero nas noticias transm'ittidas pelo governor





R. THEOPHILO 3


do Ceara sobre a secca, pois os invernos em
sua terra comeeavam as vezes em Junho.
Esta affirmagAo, proferida por tao emi-
nente brasileiro, nos fez muito mal.
Naquelle tempo n6s tinhamos como che-
fe da Nacao um home culto, honest e bom,
Com este grande brasileiro dirigindo os nos-
sos destinos, nAo nos livrAmos de um minis-
tro acabar a secca por um decreto e suspen,
der os soccorros publicos.
D. Pedro 20, tendo conhecimento do fa-
cto, mandou o seu ministry cassar a ordem e
continuar a soccorrer os famintos.
0 chefe da Nacao procedia assim naquel-
le tempo, por6m os presidents da Republica
nio tem a energia precisa para fazer os seus
ministros cumprir o seu dever, tanto que, ago-
ra, o ministry da Fazenda protela a remessa
de dinheiro para as obras contra as seccas e
ndo e chamado A ordem.
A politicagem tem sido nefasta ao Ceara
em todas as seccas a que tenho assistido.
Em 1878, quando em Fortaleza morriam
de variola mil pessoas por dia, um nosso re-
presentante no Senado, o Sr. Jaguaribe, de-
clarava que os variolosos morriam a mingua,
que s6 tinhamos um miseravel lazareto, que
os medicos se recusavam a prestar seus ser.
vigos temendo to contagio. Nunca se disse
maior inverdade, nem se fez tao grande injus-
tiga. Eu, que assist 6 secca de 1877 do co.





4 SECCAS DO CEARA


mego ao fim, que visitei os lazaretos de vario-
losos, posso affirmar que a classes medical e o
clero se prestaram corn rara abnegacgo.
Era medico do Lazareto da Lag6a Funda
o Dr. Pedro Borges, que levou a dedicagao
at4 a imprudencia. Basta dizer que, tendo
uma filha pequenina que nao era vaccinada,
ainda assim nao deixava de ir ao Lazareto to-
dos os dias. Nao immunizava a creanga por-
que a vaccina que recebiamos nao merecia
confianga e se acreditava, naquelle tempo, ser
a vaccinacdo contra indicada durante as epi-
dernias.
A politicagem nos fez muito mal...
Quando o ministry acabou a secca por
um decreto, os que apoiavam o ministerio jus-
tificaram o acto illegal e impatriotico, alle-
gando os estellionatos praticados pelos com-
missarios, que destribuiam os soccorros.
0 Sr. Silveira da Motta, para dar uma
idea dos furtos, affirmou levianamente que o
Ceard j. nao precisava de soccorros, pois es-
tava exportando farinha para Pernambuco.
0 Sr. senador Teixeira Junior confirmou
a assergo de seu college, e o nosso repre-
sentante senador Jaguaribe, em vez de pro-
testar contra a calumnia atirada a sua terra,
confirmou-a corn esta grande inverdade:
"n'o posso deixar de acreditar, desde que o
affirmam, que o Ceara export farinha. A
serra da Meruoca pode, nao obstante o fla-





R. THEOPHILO 5
VW1 .I/1,WVIW VVWVW WWWWVWVVt. VV1

gello, produzir farinha e exportal-a para
Pernambuco".
Esta e outras calumnias, tive a felicidade
de deixal-as esmagadas corn documents da
Alfandega de Fortaleza e de todas as Mesas
de Rendas do Ceara, publicados no meu livro
- Historia da Secca do Ceara, nos quaes
ficou provado que durante a secca nao sahiu
uma saca de farinha pelos portos da provin-
cia.
Estes factos, convem relembral-os, para
que os coevos ndo os pratiquem e os poste-
ros os conheqam.

II

0 Dr. Jos6 Julio de Albuquerque Barros,
depois Bardo de Sobral, governor o Ceara de
Margo de 1878 ate acabar-se a secca. Homem
de grande talent, culto, muito trabalhador e
honest, corn grande amor a sua terra, pres-
tou-lhe os mais assignalados servigos e sof-
freu tambem grandes desgostos, vendo-se ac-
cusado injustamente pelos seus adversaries
politicos, no Senado.
Depois do Desembargador Estellita, pre-
sidiu ao Ceara o Conselheiro Aguiar, home
de idade avangada, doente, cuja administra-
go foi md. Assumiu o governor muito preve-
nido corn os ladr5es dos soccorros, que via em
todos os cantos e por isso commetteu os maio-






6 SECCAS DO CEARA


res erros. Ao Conselheiro Aguiar succedeu
o vice-presidente Nogueira Accioly, cujo go-
verno foi ephemero, porem malefico. A ca-
lamidade estava no seu period agudo, era
grande a miseria, mas. .isto ndo impediu que
Accioly demittisse os funccionarios publicos
que eram seus adversaries politicos.
Desde esse tempo, Accioly se revelou. o
mais intolerante, o mais vingativo dos politi-
queiros.
A' secca de 1877 seguiu-se a de 1888 a
1889.
Nesse interregno nada se fez que no fu-
turo attenuasse o effeito da calamidade.
Governo e particulares esqueceram de-
pressa os horrores do flagello. Esqueceram
que o Ceari esta sempre entire uma secca que
vai e outra que vem em caminho.
0 gpverno geral, declarada a secca, ini-
ciou os soccorros publicos. Continuaram as
obras do aqude do Quixad6, obras estas fei-
tas por iniciativa do Imperador.
Funecionava o Parlamento, e o Senador
Avila, home de talent e devotado amigo
do.Ceard, fez ver em vibrant discurso o que
eram as seccas e os meios de Ihes attenuar
os effeitos. Nesse bello discurso relembrou os
horrores da secca de 1877.
A esse tempo a nossa representacgo no
Ceard estava complete. Quando todos espera-
vam que os senadores secundassem as affir-





R. THEOPHILO 7 .,


mag6es do Senador pelo Rio Grande do Sul,
ajudassem-o a pedir soccorros para os seus
irmAos, victims da secca, tal ndo aconteceu!
Foi uma decepcgo tremenda.
Quando o Senador Avila rememorou os
transes de supreme angustia, que os retirantes
affrontaram na travessia do sertdo a Fortale-
za, lances que as pennas dos Poes e dos Sha-
kespears sendo pintariam ao vivo, os nossos
representantes no Senado o apartearam, ta-
-chando aquellas dolorosas verdades de ficdo,
de romance !
O Senador Avila descreveu o delirio fa-
lociico, a loucura da fome, o caso do pai que
matou o filho em Quixadd para comer e, de-
pois louco, furioso, morreu moments depois
em horridas convulsoes.
Este facto medonho, porem veridico,
contestou-o o Senador Castro Carneiro assim:
- "Isso e um romance, nunca ouvi falar em
semelhante coisa".
Governava o Ceara o Dr. Antonio Caio
da Silva Prado, o qual gozava da maior con-
fianga do Governo Geral, pois tinha um ir-
indo no ministerio.
0 Dr. Caio era um home de grande ta-
lento, variada cultural, porem superficial, as-
:similando com incrivel rapidez as ideas que
Mhe acudiam ao cerebro. Esse espirito, com se-
melhantes attributes, corn um pendor espe.
,cial para administrar, tinha As vezes capri-






8 SECCAS DO CEARA


chos e leviandades de creanga. Esses eclipses
de seu esclarecido entendimento nao prejudi-
cavam o interesse que elle ligava A salvagao
public.
Assumindo o governor, cercou-se de al-
guns intellectuaes e tambem de alguns pan-
degos para distrahil-o e suavizar a nostalgia
que sentia das grandes capitaes.
Assim, nao admira que fizesse uma vez
por outra uma creangada. Uma dellas foi a
nomeagao da celebre commission de soccorros
publicos para Sobral, composta de um hol-
landez, que se dizia engenheiro, por alcunha
Breguedofe, emerito bebedor de cerveja; de
Manol C6co, um bohemio, o iniciador dos ca-
fes no Ceard, tendo sido o proprietario do
actual Cafe Java; de Raymundo Correa Li-
ma, cognominado Raymundinho das Lavras.
Este acto leviano foi uma represalia a
opposigao, que havia censurado pela impren-
sa uma nomeacgo de soccorros, cujos indivi-
duos nao julgava idoneos.
Caio Prado nao tratou de saber se a cen-
sura tinha cabimento e responded aos seus
adversaries politicos nomeando a commission
Breguedofe.
Sem os defeitos apontados, com mais
sensatez e circumspecqao, teria tido o Ceard
nesse president um perfeito administrator.





R. THEOPHTLO 9


A elle succedeu o Senador Avila, grande
amnigo do Ceara, cujo governor foi ephemero
e sem interesse.
Ao Senador Avila succedeu o Cel. Mo-
raes Jardim, que nao teve tempo de mostrar
as suas aptid6es porque a Republica o sur-
prehendeu no inicio de seu governor.
Na mudanga do governor houve um ecly-
pse da consciencia na alma national.
As classes armadas em nome do povo
derribaram o throno e desterraram o monar-
cha. 0 povo assistiu boquiaberto ao aconte-
cimento sem tomar parte nelle.
No Ceard onde o Imperador se nao efa,
devia ser muito querido, nenhuma voz se le-
vantou para protestar contra o modo por que
foi feita a Republica. Adheriram todos; logo
nos primeiros moments organizaram minis-
terio e esqueceram a secca que nos flagela-
va. Felizmente isso se deu em Novembro de
1889 e logo em Janeiro de 1890 comegava o
inverno. Se a secca continfia com a Republica
sem Constituicgo, tudo ainda desorganizado,
ter-nos-iamos acabado de fome.
Tivemos uma tregua de oito annos. Tudo
ia bemn, tinhamos recuperado o perdido,
quando nos chega a secca parcial de 1898.
Governava a Republica o Dr. Prudente
de Moraes e o Ceara .o Dr. Antonio Pinto Nb-
gueira Accioly.






10 SECCAS DO CEARA


A bancada cearense havia sido eleita,
ou melhor nomeada, pelo president do Esta-
do, o qual escolhia os representantes na Ca-
mara e no Senado, nao pela sua competencia,
mas pela sua passividade.
0 Dr. Accioly queria homes incondicio-
naes, que Ihe obedecessem cegamente. Dessa
vez, nao sei porque, enganou-se. A bancada
jA no ultimo anno de legislature scindiu-se.
Quatro deputados puzeram-se em opposicgo
ao governor do Ceara. Era a maldigio eterna
que pesava sobre o nosso infeliz Estado. A
secca de 1898 assolava uma parte do Ceara
e o exodo se fazia para Fortaleza. Alguns
mil famintos esmolavam a caridade public
pelas ruas da capital.
Na Camara os nossos representantes que
estavam em opposicao ao Governo do Estado
pediam soccorros para os famintos. Os que
se conservavam firmes ao lado do Sr. Accio-
ly diziam, corn grande cynismo, que o Esta-
do estava apparelhado para soccorrer os fla-
gelados; que nao precisava do auxilio da
Unido.
Esta affirmacgo, que nao era verdadeira,
nos fez muito mal.
Alguns mil retirantes mendigavam em
Fortaleza e o governor do Estado nao Ihes
prestava assistencia de especie alguma. Se
nao fosse a caridade public, os soccorros que
nos enviavam do norte e sul da Republica e






R1. THEOPHILO 1 1


a emigragdo para o Para, promovida pelo
president daquelle Estado, teria morrido
muita gente de fome.
:A miseria em Fortaleza era grande; po-
re6r a maibria da bancada cearense na Ca-
mara continuava a affirmar corn o maior cy-
nismo que o governor do Ceara estava appa-
relhado para enfrentar o flagelo. E' preciso
de quando em vez rememorar esses factos,
para vergonha de seus autores.
A populagao de Fortaleza assistia revol-
tada a indifferenca do Governo, que se nao
doia de ver aqui um agent do governor de
outro Estado soccorrendo os retirantes, pro-
vendo-os de tudo, immunizando-os contra a
variola e depois embarcando-os para o ParA!
De alguns Estados do sul havia agents
aqui alliciando soldados para as suas milicias
ou trabalhadores para as suas lavouras!
0 governor do Estdo nao sentia tanta hu-
milhagao.
Accusado por tdo grande falta, procurou
remedial-a fechando os portos a emigraqAo
,pela cobranga do imposto de um conto e qui-
nhentos mil r6is de cada agenciador de emi-
grantes. Este imposto absurdo e illegal nada
adeantou. Era um imposto de sangue. Era o
mesmo que o imposto de gado bovino, pelo
qual o Estado cobrava um tanto por cabega,
quando sahia para f6ra do Ceard. 0 agencia-
dor de retirantes escolhia a flor dos nossos





12 SECCAS DO CEARA


homes, porque tinha de cada individuo no-
vo e forte cem mil r6is do Estado que o com-
missionava.
Que Ihe importava a elle pagar ao CearA
o imposto de um conto e quinhentos mil r6is,
se os seus lucros dariam para essa despeza,
sobrando-lhe grande quantia?
Essa media nao tendo dado resultado,
o Sr. Accioly, que tinha grande pendor por
tudo que era f6ra da lei, da justiga, do direi-
to, inventou uma folha corrida, passada em
Fortaleza, sem a qual o retirante nao podia
sahir do Estado. Essa media, al6m de esta-
pafurdia, era irrisoria. 0 que poderia dizer a
justice de Fortaleza de um individuo cujo
domicilio era em outra comarca? 0 imposto,
alem de p6r entraves a eihigracAo, era uma
fonte de renda para o escrivAo Raimundo
Peixoto, compare e amigo incondicional do
Sr. Accidly, que assim Ihe remunerava os ser-
vicos, services esses que o Presidente do Cea-
ri tinha em grande conta. Raimundo Peixo-
to tinha no journal official, "Republica", uma
secgao em que escrevia com humorismo soez
uns bilhetinhos descortezes aos adversaries
de seu compare president.
Felizmente o anno de 1899 veio acabar
corn essa miseria moral e tambem com as
miserias materials.
Acabou-se a celebre e jAmais esquecida
folha corrida, que custava vinte mil reis!





R. THEOPHILO 13


Ominosos tempos esses!
Al6m da fome com o seu. acompanha-
mento de torturas, a violencia dos poderes
publicos!...
O .inverno de 1899 comegou no fim do
anno secco de 1898. Foi o inverno mais copio-
so que o Ceard teve; em Fortaleza o pluvio-
metro elevou-se a altura de 2.500 millis.
A esse anno de inverno phenomenal se-
guiu-se a secca de 1900, o anno mais secco
do Ceard atW hoje. Cada vez me convengo
mais de que o Ceara 6 uma terra normal sob
todos os pontos de vista.
O home 6 different dos outros ho-
mens, os animaes tambem e at6 as plants.
A secca de 1900 nao foi de effeitos mais
desastrados, porque o Estado inteiro regorgi-
tava d'agua. 0 inverno de 1899 nao s6 foi co-
pioso, mas long, prolongando-se at6 Setem-
bro. Este inverno, o maior que regista o
pluviometro em Fortaleza, veio confirmar
mais uma vez a minha opinido acerca da ne-
nhuma influencia das manchas do sol sobre
as seccas do Ceara e os grandes invernos. Se
as manchas do sol influissem sobre as esta-
6es, nao teriamos um inverno copioso pre-
cedido e seguido de annos de secca.
Se as manchas do sol augmentam grada-
tivamente dentro do period certo de onze
annos, se os grandes invernos coincidem corn
o maximo de manchas solares e as seccas





14 SECCAS DO CEARA


com o minimo de manchas, como se explica
um.anno de inverno copiosissimo, como o de
1899, intercalado entire dois annos de secca,
1898 e 1900 ? !
Em julho de 1900 assumiu o governor do
Estado o Dr. Pedro Augusto Borges, rece-
bendo-o das mros do Dr. Antonio Pinto No-
gueira Accioly, que deixava o Estado com-
pletamente arruinado.
O Dr. Pedro Borges, na impossibilidade
de soccorrer os famintos, valeu-se do Gover-
no Federal, do president da Republica, o Sr.
Dr. Campos Salles. Comecoi entdo a luta de
todos os tempos: o Ceara a pedir pdo e o
governor central a protelar por todos os meios
a assistencia public, expressamente garanti-
da pela Constituicdo da Republica.
Campos Salles foi o primeiro president
que governor corn seccas. Mostrou logo o
seu pensar sobre soccorros publicos.
Depois de repetidas reclamag6es do Go-
verno do Estado e da representacdo cearense,
consentiu na abertura de um credit de dez
mil contos para a assistencia aos famintos.
Antes de votado o credit, mandou uma men-
sagem ao Congresso pedindo que a verba
fosse exclusivamente para passagens aos re-
tirantes para f6ra do Ceara!...
0 Sr. Joaquim Catunda, nosso represen-
tante no Senado, influenciado pelo "Centro
Cearense" do Rio, quebrou o seul modus viL







R. THEOPHILO 15


vendi e fez um energico protest contra a
mensagem do Sr. Campos Salles, conseguindo
que fosse votado o credit sem aquella clau-
sula.
Sanccionada a lei, comecou o period das
protelac6es. Primeiro que a ordem do Con-
gresso satisfizesse a todas as exigencias dos
Regulamentos e vencesse a mi vontade dos
empregados das Repartic6es, acabar-se-ia o
anno e a fome mataria milhares de cearen-
ses.
Do credit de dez mil contos, apenas fo-
ram gastos com o CearA, pela verba soc-
corros publicos, a qu.antia de oitocentos
contos. Logo que cahiram as primeiras chu-
vas, em fins de Dezembro de 1900, o Gover-
no Federal suspended a assistencia aos fla-
gelados, como se a agua cahida do c6o fos-
se sufficient para alimentar essa infeliz gen-
te. As obras que se estavam fazendo ficaram
paradas, muito embora a nAo conclusao del-
las trouxesse prejuizos para a Nagdo.
Acabada a secca de 1900, voltou tudo ao
statu quo. Governo e particulares esquece-
ram depressa que o Ceara esti sempre en-
tre uma secca que vai e outra que vem e
nao tomaram providencias contra os effeitos
da future calamidade.













CAPITULO III


A secca de 1915 chegou sem prodromos,
que lhe annunciassem a vinda.
0 moment para uma calamidade de pro-
porg6es aterradoras era o melhor possivel.
O Ceara estava mortalmente ferido pela
sedigdo do Joazeiro, pelas "solidaristicas" e
pela guerra da Europa.
A sedigdo do Joazeiro, esta tristissima
pagina da historic political do Brasil, havia
rebentado no interior do Estado e chegado is
portas de Fortaleza, tudo destruindo.
Por onde a horda dos barbaros protegi-
dos pelo governor do Marechal Hermes pas-
sou, tudo ficou devastado! Desde o Crato at6
Fortaleza, em uma extensAo de mais de cem
leguas, tudo foi saqueado, os celeiros rouba-
dos, e o que nAo puderam conduzir queima-
ram !
Franco Rabello, ou antes o Ceard, paga-
va o grande crime de nao ter apresentado o
nome de Pinheiro Machado para president
da Republica.






18 SECCAS DO CEARA


A onda exterminadora atemorizou de tal
modo a popul'ago dos logares em que pas-
sou, que esta abandonou as casas e fugiu
aterrada, deixando A discricao dos bandidos
os seus haveres.
Cidades importantes como Crato, Barba-
lha, Jardirh, Igu~atu', Quixeramobim, Quixa-
da, Baturit6, Pacatuba, Maranguape, foram
saqpeadas pelos barbaros, armados para fins
politicos pelo Marechal Hermes ao mando
de Pinheiro Machado.
Quando esta desgraca passou pelo Ceara
era precisamente no tempo de se plantarem
os rocados, de se fazerem as sementeiras. Os
lavradores abandonaram os campos e as se-
mentes que haviam germinado morreram a
mingua de monda.
0 anno seria de penuria. Por cumulo de
perversidade os malfeitores se apossaram
das armas de caca, que achavam, como tam-
bem dos objects de valor. Os gados que os
malvados encontravam nos campos matavam
para se alimentarem e os cavallos eram apre-
hendidos para montaria.
Em um percurso de mais de cem leguas
tudo ficou arrasado, destruido, como se um
incendio tivesse lavrado naquellas paragens,
exceptuando as casas dos amigos dos sedi-
ciosos.
Nas innumeras acq6es de indemnisaqao
que foram propostas contra o governor da





R. THEOPHILO 19


UniAo como mandante da sedigAo do Joazei-
ro, at6 hoje nao appareceu uma s6 de adver-
sario politico ao governor de Franco Rabello.
Ou as propriedades dos adversaries do
governor do Estado foram por ordem superior
respeitadas ou os inimigos do poder consti-
tuido nao tinham o que perder.
A esta calamidade seguiu-se outra, de
ordem different, por6m de effeitos tamnbem
maleficos: foram -as sociedades mutuarias
fundadas em Fortaleza e depois em diversos
pontos do Estado.
Estas associacoes, as primeiras no gene-
ro que aqui appareceram, foram uma arma-
dilha na qual cahiram os tolos e os de m6 f6.
Os estellionatarios que as crearam recebiam
uma quantia e no fim de trinta dias paga-
vam a quantia recebida, porem decuplada.
Quem recolhia quatro mil reis recebia qua-
renta mil r6is.
A insania do jogo dominou a populagAo
da cidade. Houve um verdadeiro contagio.
Perderam o juizo.
Rarissimos foram os que escaparam ao
contagio do vicio. Pessoas respeitaveis, de
moral sA, jogavam. .Ninguem reflectia no
absurdo dos juros, decuplando em 30 dias a
quantia depositada. Os que pensaram no
caso e fizeram entradas, estavam de ma f6,
sabiam que os que viessem por ultimo seriam
logrados.












20 SECCAS DO CEARA


Com o success da primeira "solidaristi-
ca", fundaram-se outras, offerecendo maio-
res vantagens. Estabeleceu-se a concorrencia.
Da capital espalhou-se a praga das mutua-
rias ao interior do Estado. Surgiram estas ar-
madilhas em quasi todas as localidades, atW
no Joazeiro, sob o patrocinio do santo Padre
Cicero.
O jogo chegou ao delirio. Alguns negoci-
antes se arruinaram. 0 estellionato ndo at-
tingiu a milhares de contos, porque os depo-
sitos da Caixa Economica, cerca de dez mil
contos, nao puderam ser retirados, em vista
do mao estado financeiro da Nagao.
0 crime que se estava commettendo no
Ceard era mutuo. Tao estellioi.atario era o
banqueiro coma o que jogava. Ambos esta-
vam de mA f&.








CAPITULO IV


Quando o governor do Estado percebeu
o grande perigo que nos ameagava, mandou
fechar as "solidaristicas". A grita foi geral.
Queriam recuperar o prejuizo, que subia a
dezenas de contos de r6is. A media foi tar-
dia, porem aproveitou.
A esta calamidade, para acabar de esbo-
car a mortecor do quadro da secca, seguiu-se
a guerra da Europa.
NAo era o jagunco do Padre Cicero,
bronco e matador, de trabuco ao hombro e fa-
cho na mno, assassinando e incendiando, que
vinha retrogradar muitos seculos a civiliza-
do, mas o home culto da Europa.
Esta guerra foi uma desillusio para os
que acreditam que a cultural do espirito des-
troe no home os seus mAos instinctos.
Para mim, a besta humana 6 a mesma
das primeiras edades da terra, quando an-
dava nia e era antropophaga. Ella matava o
seu semelhante para comer e hoje mata s6
para destruir. As atrocidades commettidas
pelos povos mais cultos do mundo deixam o
espirito de quem media sobre ellas em um
mortificante desconforto.
Para que abrir escolas, cultivar a intelli-
gencia humana, se o cultivo intellectual do






22 SECCAS DO CEARA


home o aproveita, nao para o bem, mas co-
mo um factor poderoso do mal?
Comparem-se os crimes do passado com
os do present. 0 home modern mata com
mais arte, rouba com mais astucia e corrom-
pe com mais elegancia.
A estatistica do crime sobe, em vez de
descer.
A conflagracgo europ6a pretend arras-
tar o mundo inteiro.
N6s j:i sentimos os seus funestos effei-
tos, e praza aos Ceos nao sejamos obrigados
a entrar na chacina humana.
A guerra aggravou mais o nosso estado
ja bastante critic, pela sedicdo do Joazeiro e
pelas "solidaristicas". Os products que im-
portavamos subiram assombrosamente de
prego e os que exportavamos ficaram muito
tempo sem livre sahida.
Eram precisamente estas as condicges
do CearA, quando chegou a secca de 1915.
0 inverno de 1914 havia sido regular.
Depois do equinocio de Setembro, notou-se a
falta das infaliveis chuvas de cajui. 0 Piauhy
estava tambem secco.
Passaram-se os mezes de Outubro., No-
vembro e Dezembro, e o inverno, que sempre
vem do Piauhy pelo sul do Ceara e comega
naquelles mezes, nao tinha apparecido.
A apprehensdo de secca era geral.






R. THEOPHILO 23


0 mis de Janeiro de -915 acabou-se, e
apenas, em Fortaleza, o pluviometro reco-
lheu quatro millimetros !
Entrou Fevereiro com b6as promessas
de inverno. Para desfazer a md impressed
deixada por Janeiro, elle logo no primeiro
dia trouxe-nos uma forte trovoada e chuvas
copiosas, que elevaram o pluviometro A al-
tura de 75 mills. na capital.
Esta chuva foi geral, chegou ao alto ser-
tao.
Todos acreditavam que o inverno estava
comegado.
Continuaram as chuvas at6 o dia 18,
como se ve das observances em seguida, e
suspenderam.
Fevereiro
Dias Mills:
1 75
2 12
3 6
4 21
5 2
7 1
8 7
9 2
10 2
11 66
12 1
18 12

207













CAPITULO V


Depois deste Fevereiro normal, pois nos
annos bons ha sempre os se-as celebres ve-
ranicos, entrou Marco corn um ceu de secca,
corn muito vento de Leste, sem promessa de
chuvas proximas.
Passou-se a primeira decade, e as chu-
vas ndo voltaram.
Appellou. se para o equinocio, a derradei-
ra esperanga. Passou-se a segunda decade e
com ella o equinocio, e apenas choviscos bor-
rifaram a terra.
Acabou-se Margo e apenas o pluviometro
recolheu, em seus 31 dias, 50 mills. menos
que em todos os annos de secca, a excepgao
de 1900.
Estava lavrada a sentenga que condem-
nava o Ceard a um ou mais annos de miseria.
Passado o equinocio, o Presidente do Es-
tado declarou a secca officialmente e pediu
ao Governo da UniAo promptas providencias.
Comegou entAo a eterna campanha do
Ceara flagelado com indifferenga do Gover-
no Central.





26 SECCAS DO CEARA


Se no tempo do Imperio, com um home
da estatua moral de D. Pedro 2., e minis-
tros como Sinimbfi, Ouro Preto, Saraiva, Rio
Branco e outros, n6s padecemos tanto, ima-
gine-se agora, com um PandiA Calogeras e
outros sem valor intrinseco, enthronados pe-
la politicagem !
0 Chefe da Nacdo negava-se a attender
de prompto ao pedido de soccorro, que, den-
tro da lei, fazia o Presidente do CearA, alle-
gando nao ter credit nem verbas para tal
despesa. A negative nao era procedente, por-
quanto a Constituiqgo da Republica precei-
tda a assistencia public em caso de calami-
dade.
Fosse o governor, na crise de uma innun-
dac6o, de um incendio, de um terremoto, es-
perar que se reunisse o Congresso e Ihe disse
credits para soccorrer as victims daquellas
calamidades, e seria a morte a assistencia ga-
rantida pela lei.
Em Maio abriu-se o Congresso, e a nossa
representa~go, caso unico, uniu-se em uma s6
vontade, em um s6 pensamento e deu com-
bate A procrastinacao dos poderes publicos,
conseguindo o credit de dez mil contos de
reis para as victimas-da secca do nordeste do
Brasil.
Em Julho o Presidente -da Republica,
para. se ver livre dos repetidos telegrammas
do Dr Benjamin Barroso, pedindo soccorro,








R. THEOPHILO 27


enviou 50 contos de reis, nao do credit vota-
do, pois este havia sido aberto, mas percorria
os longos caminhos das exigencias dos regu-
lamentos.
Depois ainda seria retardada a remessa
para o Ceard pelo Sr. Calogeras, que era
nosso desaffecto, nato e gratuito. Este minis-
tro nao perdia occasido de mostrar quanto
desejava ver o Ceard anniquilado pela fome
e pelo despovoamento. Foram tantas as suas
picardias, que o Presidente do Estado, indi-
gnado, passou um telegramma ao Presidente
da Republica queixando-se delle e fazendo
algumas all'us6es a denuncias trazidas pela
imprensa do Rio e que muito desabonavam
a honestidade do referido ministry da Fa-
zenda.













CAPITULO VI


A primeira leva de retirantes chegou a
Fortaleza, vindo de Iguatu, pela Estrada de
Ferro de Baturit6.
O trem que a trouxe chegou ao escure-
cer.
O Dr. Benjamin Barroso foi recebel-a.
Compunha-se de cento e tantas pessoas. Nao
havendo onde agasalhar essa gente, foi man-
dada abrigar-se no Passeio Publico. 0 local
escolhido ndo podia ser mais inconvenient.
Estava na frente de um hotel e ao lado de
um hospital. Accresce que o vento, soprando
do mar, varria o hotel e as casas do lado do
Norte e, soprando de leste, o hospital da Mi-
sericordia.
Na manhA do dia seguinte fui visitar o
improvisado abarracamento. Todas as arvo-
res estavam occupadas, de quasi todas pen-
diam redes sujas, que exhalavam um fartum
de immundicie.
Pensei encontrar aquellas figures tdo
minhas conhecidas nas seccas passadas, es-
queleticas, repellentes; mas enganei-me.





30 SECCAS DO CEARA


Os retirantes estavam gordos. fortes e
rosados.
As creancas, rubicundas, bem mostra-
vam ter vindo dos ares puros e sadios do ser-
tao. Palestrei corn elles algum tempo sobre
a sua estada em Iguatfi, a viagem, a fome no
sertao, e fiquei convencido de que aquella
gente era preguigosa e havia corrido antes
de enfrentar o flagelo. Dois tergos eram dos
Estados limitrophes, principalmente da Pa-
rahyba.
A secca de 1915 ndo tinha a intensidade
das a que assist na ultima metade do seculo
XIX. Isso est~ cabalmente provado com a me-
nor deslocago da populago sertaneja e
corn a menor importago de generous alimen-
ticios. Nas serras e no litoral, o inverno, em-
bora de pouco mais de 700 mills., deu para
crear algum milho, feijdo e mandi-oca.
Os sertanejos que emigraram foram jus-
tamente os mais fracos.
Os fortes ficaram em seus domicilios,
alimentando-se de raizes silvestrds, esperan-
do pelo future inverno.
No dia seguinte ao da minha visita ao
Passeio Publico, fui visitar o Presidente do
Estado.
Encontrei-o apprehensivo com a secca.
Procurei levantar-lhe o animo, dizendo-
tIh que nao tinhamos uma secca e sim um
repiquete de secca.





It. THBEOPHILO 31


Nessa occasido elle esbogava a plant de
um abarracamento que ia mandar constrair
para os retirantes. Pedi licenga para' discor-
dar da sua opiniao. Agglomerar os retirantes
era matal-os. Relatei-lhe os exemplos de
1877, 1888, 1900, sendo este o mais frisante.
Em 1900, disse-lhe, nao tivemos, podZ-se
dizer, assistencia public.
Comemos das esmolas que nos deram os
nossos irmdos do norte e sul.
O Governo do Estado deixou os retiran-
tes abrigar-se onde bem entenderam, e es-
tes se agasalharam nao s6 sob as arvores dos
suburbios como tambem nas das pracas e ruas
d,. Fortaleza.
Findou-se o flagelo e nao appareceu
uma s6 epidemia, A excepgao da variol. a
companheira inseparavel da secca.
O Dr. Benjamin Barroso nao quiz tomar
o exemplo de 1900, allegando que assim nao
poderia fiscalizar a distribuigdo dos soccor-
ros e velar pela honra das families que a
secca expatriava.
A sua virtuosa esposa secundava o pen-
sar delle, muito interessada e muito commo-
vida pela sorte das infelizes mogas que a sec-
ca fizera abandonar o lar. Discutidos os
pr6s e os contras do abarracamento, f.cou re-
solvido que os retirantes seriam recolhidos a
uma grande Area arborizada e cercada nos












32 SECCAS DO CEARA


suburbios da capital. Manifestei-me contra
essa resolugdo.
Esse abarracamento, mesmo ao ar livre,
se empestaria e empestaria a cidade no fim
de alguns meses.










CAPITULO VII


Ha cerca de quarenta annos, tivemos a
grande secca de 1877, que foi uma verdadeira
hecatombe. 0 governor nesse interregno nao
cogitou de um meio. de premunir os brasilei-
ros do nordeste contra os effeitos das seccas.
Nem ao menos tratou de organizer um plano
de soccorro, c.uja base essencial seria impe-
dir por todos os meios a deslocacao da po-
pula~go sertaneja em tempos de fome; a fixa-
gdo della em seus domicilios, dando-lhe tra-&
balho e nunca esmola. Se em algumas zonas
fosse impossivel fixar os habitantes, vindo elles
ter a Fortaleza, nao Ihes dar passage para
f6ra do Estado, nem agglomeral-os em nucle-
os, abarracal-os.
A providencia a tomar seria espalhar os
retirantes ao long da Estrada de Ferro de
Baturit6, onde construiram as suas choupa-
nas uma long da outra e o governor os man-
daria alimentar. Para que nao ficassem ina-
ctivos, seriam empregados em servigos na vi-
zinhanga de suas moradas. Nao faltaria em
que fosse aproveitada a actividade delles.






34 SECCAS DO CEARA


Bastavam os reparos das estradas de ro-
dagem, que correm parallelas 6 Estrada de
Ferro, as quaes se acham em pessimas condi-
g6es.
Os retirantes estiveram no Passeio Pu-
blico atW se preparar no Alagadipo o future
abarracamento, o qual tomou, nao sei por-
que, o nome de Campo de Concentraco e o
povo baptizou de curral. 0 retirante perdeu
o seu antigo e expressive nome e comecou a
chamar-se flagelado. Cousas do tempo e da
mod a.
Em todas as seccas chamou-se ao serta-
nejo que emigra retirante e n6o flagelado.
Flagelados somos todos n6s durante a cala-
midade.
Muitos cearenses n io soffrem privacao
de especie alguma, mas ficam sujeitos, como
os retirantes, as molestias que se desenvol-
vem durante as seccas.
Nao sera um flagelo ter-se a porta cheia
de famintos, de manh 6a noite, pedindo es-
mola pelo amor de Deus?
Haverd nada que mais afflija a quem
tern coracio do que aquella triste e pungente
supplica, feita em voz sumida pela fome,
corn a physionomia decomposta pelo rictus da
miseria?
Quanto nos confrange a alma ver ho-
mens validos, novos, a esmolar a caridade





It. THEOPHILO 35


public, porque nao encontram trabalho de
especie alguma!
Estes desgragados, que a esmola avilta,
que a incuria do Governo da Republica deixa
esmolar, seria melhor que se revoltassem e
pela forga fizessem valer os seus direitos, em-
bora fossem esmagados pelo poder public.
Caminham fatalmente para a morte.
Devem reagir emquanto podem, antes que
a fome Ihes immobilize os bragos.
A esmola nunca, antes o furto. 0 direito
de conservacio 6 o mais sagrado dos direitos
naturaes.
Abandonados A more pelos poderes pu-
blicos, implorem, dos particulares que sao a-
bastados, um pouco de pao, dando-lhes o tra-
balho.
Suppliquem incessantemente. Quando se
convencerem de que sao baldados os pedidos,
quando ja nao supportarem a fome. quan-
do a mulher e os filhos estiverem prestes a
cahir de inani9go, 6 chegado o moment su-
premo do Se va te ipsum.
Para salvar a vida, todos os meios sao li-
citos.
NAo havia mais duvida sobre a secca.
Alguns espiritos optimistas, animados de
um sentiment doentio, appellavam para
Abril. Este mez entrou corn umas negacas mui-
to parecidas com as da nossa gente. Choveu
mais do que em Margo; alguns troves ri-










36 SECCAS DO CEARA


bombaram em Fortaleza, mas isso ndo influiu
para minorar os effeitos do flagelo.
Chegou Maio, corn as suas manhAs lumi-
nosas e frescas.
Veio Junho, o derradeiro mez da esta-
go invernosa. No litoral os campos eram ver-
des, por6m um verde de folha prestes a se
estiolar. No sertao a poucas arvores o inver-
no tinha vestido. Os acudes tinham a agua
velha e os rios tinham os leitos entupidos de
folhas seccas.
Entrava o verAo, e a terra estava quasi
tdo secca como em comego de Janeiro.










CAPITULO VIII


A primeira visit que fiz ao Campo de
Concentra qo me deu a certeza de que em
breves dias teriamos ahi um Campo Santo.
Em um quadrilatero de 500 metros de
face estavam encurralados cerca de sete mil
retirantes. Percorri todos os departamentos
daquelle deposit de series humans. Abriga-
vam-se a sombra de velhos cajueiros. Via-se
aqui e ali uma ou outra barraquinha coberta
de esteira ou de estopa, mas tdo miseravel
era a coberta que ndo impedia que a atra-
vessassem os raios do sol.
A cozinha era tambem ao tempo. Em al-
gumas duzias de latas, que haviam sido de
kerosene, ferviam em trempes de pedra gran-
des nacos de care de boi, misturados a ma-
xixes, quiabos e tomatoes, que subiam e des-
ciam ao sabor da fervura. Achei exquisitas as
verduras e mais ainda os tomatoes.
Pendia de um galho de cajueiro um quar-
to de boi. Pude entdo avaliar a pessima qua-
lidade da care, s6 digna dos urubfis. Infor-
maram-me que aquella era b6a, comparada a





38 SECCAS DO CEARA


outras que mandara o fornecedor. Disse-me
pess8a idonea que as rezes que morriam, de-
magras ou do mal, eram mandadas para o
Campo de Concentracgo.
A care que se vendia no mercado pu-
blico era de pessima qualidade. 0 gado que
descia do sertao era magro e doente. Epizoo-
tias de todo o genero grassavam.
Os gados se acabavam mais de doenga
que de fome. Appareceram molestias desco-
nhecidas.
Uma das que mais ceifaram os rebanhos
foi o mal do chifre. E'ssa epizootia era mor-
tal. A molestia comegava pela supuracgo do
sabugo dos chifres que acabavam apodrecen-
do, infeccionando o organismo.
Tinhamos uma Inspectoria de Veterina-
ria corn sede em Fortaleza, "esta grande fa-
zenda de crear", e os gados no sertao se aca-
bavam de peste. A pecuaria quasi se anniqui-
lou.
Para se avaliar como o sertao estava
cheio de gado, basta dizer que exportimos no
period da secca de 1915 um milhdo e meio
de pelles. Nessa cifra ndo estdo incluidas as
pelles que sahiram pelos outros portos do Es-
tado, pelas fronteiras, nem as das rezes que fo-
ram encontradas mortas, meio putrefactas.
Isso nao 6 tudo. Pensava-se que, findo o fla-
gelo, nao houvesse gado sequer para semente,
quanto mais para o consumo.O Ceard 6 como a





R. THEOPHILO 39

Phenix da Mythologia: vive a resurgir das su-
as proprias cinzas; e a herva de Jerich6 dos
sert6es combustos da terra das seccas.
Quem assistiu a secca de 1877, a secca-
typo, que durou tres annos, que tragou em
sua voragem desde o proletario sertanejo ate
o rico fazendeiro; que, anniquilou os gados,-
e viu a resurrei~go desta terra, o seu renasci-
mento tres annos depois, ndo pode admittir
que haja secca que a acabe.
Em meio do inverno de 1916 o gado que
descia para o abastecimento da capital era
superior ao consume.
0 Ceard 6 uma terra incomprehensivel.
E' por isso que o povo diz:-"aqui ou e oito
ou oitenta".
E' uma verdade. Quem viu a falta d'agua
em 1915 e v6 o excess d'agua em 1917, con-
firma o dizer do povo.
No sul os destemperos de nossa natureza
t6m feito desconfiar de nossas palavras, de
nossa sinceridade, e levar-nos na troqa.
Hontem, n6s pediamos soccorro porque
estavamos torrados por uma sececa; hoje, pe-
dimos soccorro porque estamos encharcados
pela inundacgo.
Visitei a pharmacia, ou antes, o deposit
de medicamentos manipulados. Havia reme-
dios de urgencia e tambem especialidades
pharmaceuticals, panaceasas.
Conversei com alguns retirantes sobre a
vida delles ali e me disseram ser regular.













CAPITULO IX


Uma coisa que muito devia interessar a
:saude daquella populagdo era o local em que
se depositavam as materials fecaes. Fui vel-o.
Ficava a sotavento do abarracamento, no fun-
do do cercado, ao poente, a pequena area
coberta de pequenos arbustos, onde os fa-
mintos, numa promiscuidade de bestas, defe-
cavam, ficando as fezes expostas as moscas.
Aquelle attentado a sA hygiene nao podia
deixar de ter consequencias desastradas.
Visitei as aguadas. Eram as mesmas de
Fortaleza, buracos a flor da terra, ao tempo.
A Inspectoria de Obras Contra as Sec-
cas 6 um mytho.
Figura "nos orgamentos com grandes
.sommas e, na hora de dar combat ao flage-
lo, onde estava, que nao vinha fazer um pogo
profundo no abarracamento dos retirantes,
diminuindo os factors de destruicgo daquel-
la gente?
0 seu director, em vez de residir na ter-
ra da secca, mora no Rio, installado em um,
palacio, fruindo avultados vencimentos e go-






42 SECCAS DO CEATR


zando os prazeres da Capital da Republica,
O que se tern gasto com a Inspectoria das
Obras Contra as Seccas, corn os palacetes em
que funccionam no Rio e nos Estados, daria
para a construccgo do grande agude dos
Or6s.
A vida em promiscuidade no abarraca-
mento, sem os mais rudimentares preceitos
de hygiene, havia de ser fatal aquella gente.
A agglomeraqao de pess6as mal asseiadas 6 um
attentado a saude public.
A secca de 1877 nos mostrou que reunir
retirantes e agglomeral-os 6 matal-os. A secca
de 1900 provou que a populacgo faminta,
ainda que sem abrigo, mas disseminada em
grande area goza b6a saude. Nem a peste
bubonica, que grassava entdo, a atacou.
Admirei que os retirantes estivessem ain-
da gordos e corn muito b6a c6r.
Deviam isso a D. Pedro 2.0, a quem se
deve a construcco da Estrada de Ferro de
Baturit6, a qual pertencia a uma, Empreza e
depois o Governo Geral, na secca de 1877, a
encampou, porque o Imperador assim o quiz.
D. Pedro 2.o viu long.
Elle encurtou aos futures retirantes oi-
tenta leguas da estrada da fome.
Sabem o que sao oitenta leguas de jor-
nada, com fome e sede, sob um sol que cal-
cina e sobre um solo que escalda, tendo como











R. THEOPHILO 43


alimento raizes venenosas e como bebida uma
mistura de saes calcareos e ferricos?
E' o caminho de um calvario cujas an-
gustias ndo ha penna que descreva nem a men-
te que possa imaginar.
Os nossos irmdos do sul nao conhecem o
martyrologio de seus irmaos do nordeste.













CAPITULO X


0 grande Euclydes da Cunha horrorizou-
se vendo a secca atrav6s de uns versos de
Guerra Junqueiro, que nao teve modglo e
nem a viu. Quanto mais se elle visse a fome
em suas diversas e medonhas modalidades!
O que diria se visse um pai no delirio
famelico matar o filho para comer; uma des-
gragada mai, s6 ossos e pelangas, morta e
resupina no meio da estrada, no seio uma
creancinha esqueletica procurando sugar al-
gumas gotas de leite do cadaver; um reti-
rante animalizado, mettido numa gruta, ali-
mentando-se da carniga humana que encon-
trava nos caminhos; uma creanca encontra-
da em uma casa abandonada a beira do ca-
minho, fechada na camarinha, cahida de
fome e chupada de morcegos, que Ihe co-
briam o corpo como um lengol negro; um
desgra4ado retirante estirado na estrada,
no marasmo da fome, sem forgas para mo-
ver um musculo, cercado de urubfis vorazes
e famintos, que nao esperam a morte da
victim, mas a apressam vasando-lhes os






46 SECCAS DO CEARA
1VA^WWV11 VV1il44VVlVVVWAAAV1 A4VWA14,lV

olhos com o bico adunco, como um espinho a
enterrar-se-lhe na pupila dilatada e negra
(a luz apaga-se, e o banquet dos corvos co-
mega); Joaquim Punar6, um negro hedion-
do, feroz como uma hyena, em Canind6, no
delirio da fome, comendo uma creanga com
mel de abelhas ? !
Estas scenas macabras, impossiveis de
descrever ao vivo, o Imperador, o nosso gran-
de amigo, diminuiu-as com as estradas de
ferro. E' por isso que os retirantes que che-
gam A Fortaleza estdo nutridos. Aquelles or-
ganismos, mormente os das creangas, haviam
de pagar pesado tribute A absolute falta de
hygiene em que viviam. 0 Governo do Esta-
do errou agglomerando-os, mas errou sem in-
tencao de errar.
A sua ideia era sA, era louvavel. 0 seu
fim era inipedir o furto e a prostituigo, co-
mo se taes crimes pudessem ser impedidos
durante as calamidades. A miseria nAo tem
honra, e o brasileiro, salvo rarissimas exce-
pgqes, nao consider furto tirar o dinheiro
da NaA0o.
Na secca de 1877, a secca-typo, eu pre-
cisava conhecer de visu um abarracamento
de retirantes, precisava models para o ro-
mance A FOME -, que publiquei depois.
Estudei detidamente a calamidade e a
psychologia do faminto. A observa~go dos






R. THEOPHILO 47


phenomenon me convenceu de que a miseria
tudo dilue de bom na alma humana.
Ha excep6es, mas estas sao rarissimas.
As scenas que descrevo na "Fome" sao co-
pias fieis do original. Medeiros de Albuquer-
que, lendo-as, escreveu: Nos seus livros onde
vale a pena ler uma descripgco dessa calami-
dade e no romance a Fome. Esse romance
tern o mesmo nome de uma obra celebre de
um escriptor escandinavo, Knut Hanson. Se
porrm 4 mais incorrect e por assim dizer
tumultuoso, tern a superioridade de ser mais
verdadeiro. A Rodolpho Theophilo,; infeliz-
mente, nio faltaram models. Por isso o seu
livro 6 vivido. Sente-se que 6 verdadeiro.
Os retirantes que se achavam ali no
Campo de Concentracdo nao pareciam reti-
rantes. Que difference das mumias de -- -- --
1877 _. -- .- 0 meu espirito deante delles
nao se commoveu. Nao vi um trago de mi-
seria organic naquelles corpos. As crean-
cas estavam fortes, e que pena tive dellas !
A sua sadde nao duraria muito. lam cami-
nho da morte, que nao tardaria.
Fortaleza 6 um matadouro de creangas
que vivem com certo conforto, em melhores
condiges de hygiene, quanto mais de peque-
ninos vivendo naquelle monturo !













48 SECCAS DO CEARA


Nos tempos normaes a mortalidade de
creangas 6 assombrosa, maxime em tempo
de secca. A alimentagio artificial 6 a prin-
pal causa de tdo grande obituario. A papa
mata mais meninos do que todas as molestias
juntas.










CAPITULO XI


O Governador do Estado, corn pena dos
pequeninos e a pedido de sua mulher, man-
dou fornecer leite is creangas do Campo. Antes
nao tivesse tomado esse alvitre. 0 leite que
se vende em Fortaleza 6 pessimo; basta di-
zer que 6 de vacca cuja alimentacgo consta
de residuo de carogo de algod6o e capim de
plant, uma forrageira muito pobre de sub-
stancias n-utritivas. Esse leite, puro, 6 m6u
para a safide; imagine-se baptizado, com agua
de qualquer charco, A vontade dos vendedo-
res. 0 leite e o principal factor do acabamen-
to das creancinhas.
Os retirantes de 1915 foram mais feli-
zes do que os de 1877. Naquelle tempo, a
jornada foi muito mais longa e muito mais
penosa.
Em 1877 o retirante, se queria comer,
trabalhava, como tambem a mulher, a filha
e o filho menor.
Nao tinham d6 do sexo fraco. Todos os
dias pela manha seguiam aquellas pobres
mulheres para a pedreira do Mocoripe, e de






50 SECCAS DO CEARA


1 voltavam, alto dia, trazendo uma pedra
para os calpamentos que se estavam fazen-
do. Aquellas infelizes, escaveiradas, tram-
becando de inanigao, faziam essa viagem de
duas leguas, quer estivessem gravidas ou as-
sistidas. Agora, os famintos eram tratados
corn mais caridade. As mulheres nao traba-
Ihavam.
Em uma das muitas visits que fiz ao
Campo de Concentragio para vaccinar os
retirantes, edificou-me a caridade da esposa
do President do Estado.
Admirou-me bastante a sua presence ali,
porquanto nas seccas a que assist, e nao fo-
ram poucas, nunca vi semelhantes figures
nos abarracamentos.
Por excepgdo, estava ali D. Maroquinhas
Barroso, cercada de famintos, a Ihes dfs-
tribuir roupa! Nao era a dadiva da vestimen-
ta que me impressionava, que eu admirava;
era o modo bondoso corn que aquella santa
mulher vestia, ella mesma, as creancinhas,
acariciando-as; a paciencia corn que suppor-
tava as exigencias daquella multiddo mal
educada e suja!
Daquella gente sahia um fart-um que em-
bebedava. D. Maroquinhas, mettida naquella
m6 de maltrapilhos, com grande fortaleza de
animo, nao demonstrava sentir o fedor que
exhalavam aquelles corpos mal asseiados,
misturado ao halito de centenas de creatures.






R. THEOPHILO 5 1


Sei o mal estar que produz passar algum
tempo em uma atmosphere em que, grande
numero de pess6as respira. Uma feita a po-
pulagdo de Fortaleza alarmou-se com um caso
de variola na rua Senador Pompeu. Pro-
curam-me e queriam ser vaccinados todos e a
um tempo.
Vi-me afogado em uma onda de c6rca de
quatrocentas pess6as. Trabalhei quatro horas.
Parei de cansado. Sentia um desfallecimento
aborrecido.
Ardiam-me as mucosas da bocca, das fos-
sas nasaes, do pharynge, queimadas pelo ha-
lito daquella multidao.
Como me senti pequeno deante daquella
mulher abnegada Percorri o abarracamen-
to, por4m me sentindo mal, tapando o nariz,
doudo por sahir daquella esterqueira humana.
Tenho a idiosyncrasia das multid6es. Por
isso e tambem temendo ser atacado pelos mi-
crobios maleficos que por ali pululavam, es-
tabeleci o meu posto de vaccinago em frente
ao portdo do abarracamento, A sombra de
um cajueiro. Ali estava menos sujeito ao con-
tagio das molestias. Se eu apanhasse uma do-
enga e della me acabasse, seria para mim
uma grande decepgoo!
Nao era morrer, era morrer no comeco-
de uma batalha, para a qual eu vinha reu-
nindo forgas hA dezesete annos, tantos fazem






52 SECCAS DO CEARA


que abri o vaccinogenio e prometti extermi-
nar a variola em Fortaleza.
O meu ideal era assistir a uma secca
sem variola. Morrendo, quem sabe se isso te-
ria acontecido ? Vi final realizado o meu
sonho.
A secca seguia o seu curso, deslocando
a populacao sertaneja. Cada trem que che-
gava de Iguati despejava em Fortaleza cen-
tenas de retirantes.
Naquella cidade viviam esmolando mi-
lhares de famintos. Iguatfi era o ponto obri-
gado da emigracgo, visto ser a estacgo que
demora no coracdo do Estado, o ponto ter-
minal, naquella epoca, da Estrada de Ferro
de Baturit6.
A noticia da distribuicgo de soccorros
na capital accelerou mais o 6xodo do interior
para Fortaleza.
0 cearense, pelo facto das repetidas sec-
cas, tern um pendor especial para esmolar.
Nao sei como um povo que cresceu pedindo
esmolas, tenha as vezes actos que o nobili-
tam, actos que o collocam ao nivel dos mais
dignos do mundo.
Em uma de minhas idas ao abarraca-
mento, encontrei uma mulher acompanhada
de sete filhos pequenos a caminho do campo.
Perguntei-lhe de onde vinha e porque ti-
nha deixado a sua terra.











R. THEOPHILO 53


Disse-me ser de Quixadh, que ia vivendo
la soffrivelmente, por6m Ihe haviam dito que
aqui o Governo dava muito comer a pobreza,
muita roupa, leite para as creangas, que de
noite accendiam uma luminaria no abarraca-
mento, ficando elle que nem o sol. Por isso
ella tinha vindo para melhorar de sorte.













CAPITULO XII


Tudo correu regularmente no Campo
at6 quasi o fim de 1915.
Os microbios pathogenos foram prolife-
rando naquella esterqueira humana, e a mor-
te comegou a sua tarefa pelas creancas.
A emigracao do sertio para o litoral en-
grossava todos os dias, e a de Fortaleza para
o norte e sul da Republica nio esbarrava.
Eu havia sido inimigo da emigracao e tdo
inimigo, que escrevi um livro-O Paruara
-,no qual combatia a emigracgo como uma
grande desgraca. Naquelle tempo eu era
ainda um crente e tinha a infantilidade de
pensar que poderiamos ter governor que to-
massem a serio o problema das seccas.
Mudei de pensar em vista dos factos.
As medidas tomadas pelo \Presid'ente
da Republica, atW agora, tem sido tardias e
incompletas.
Se em Marco, quando o Presidente do
Estado declarou a secca officialmente, o Go-
verno da Republica tivesse mandado pro-
longar as estradas de ferro, construir aqu-






56 SECCAS DO CEARA


des, estradas de rodagem, conservando as-
sim a populagdo domiciliada, os sertanejos
nao se teriam deslocado, ter-se-iam poupa-
do innumeras vidas e muito dinheiro a Na-
gao.
Se nas obras iniciadas fossem emprega-
dos todos os famintos que se apresentavam
pedindo scccorro, ter-se-ia evitado o 6xodo
e a morte pela fome.
A desidia corn que o Governo Federal
agia abrindo credits dava a entender que
elle nao acreditava muito na intimidade do
mal que flagelava o Ceara. Os credits, al6m
de insufficientes, chegavam sempre tarde,
tanto que de algumas obras por mais de uma
vez diminuiram o pessoal; outras foram sus-
pensas.
Houve engenheiro constructor que para
fazer o service se prolongar admittia uma
duzia de. operarios, como affirmou pela im-
prensa o integro juiz de direito de Granja,
Dr. Abner de Vascon.cellos.
0 ministry Calogeras, a exemplo do an-
tigo ministry Murtinho da secca de 1900, no
Governo de Campos Salles, ia pondo obsta-
culos a tudo que se prendia A assistencia pu-
blica no Ceara e s6 naio acabou a secca por
um decreto devido a solicitude da bancada
cearense, visto nao terms mais um home
como D. Pedro II para dizer: "Quando o
Thesouro nao tiver mais dinheiro para soc-





R. THEOPHILO 57


correr as victims da secca, eu empenharei
as joias da cor6a".
Registo esses factos censurando-os, mas
estou convencido de que os accusados nao
dardo a minima importancia a publicidade
de suas faltas. Cumpro o meu dever deixan-
do aos vindouros, ao menos como curiosida-
de, a noticia dessas miserias.
O trabalho que davam ao faminto era
reduzido.
No prolongamento da Estrada de "Ferro,
de Baturit6 o ministry deu ordem para redu-
zir o pessoal, despedindo trezentos opera-
rios. A bancada cearense interveio corn ener-
gia, e a ordem do ministry foi suspense. Des-
pedir operarios, quando Iguati, na visinhan-
ca do prolongamento, regorgitava de retiran-
tes e a populacdo daquella cidade, ji exhaus-
ta de recursos, os nao podia mais soccorrer
era uma perversidade.
A crise medonha que nos assoberba 6
devida ao Governo Federal, que nao cumpre
o seu dever. Elle a teria evitado se em tem-
po tivesse cumprido o que determine a Cons-
tituigdo da Republica. Se a primeira media
tomada fosse o prolongamento das Estradas
de Ferro de Baturit6 e Sobral, e nao o pro-
longamento de 10 ou de 20 kilometros, mas.
de toda a linha estudada, o Cear6 nao teria.
soffrido o que soffreu.










58 SECCAS DO CEARA


Fortaleza, Se tivessem mandado conti-
nuar os trabalhos da Estrada de Ferro de
Soure, nao teria tido uma populago adven-
ticia de cerca de vinte mil almas e nao teria
na cidade morrido tanta gente de fome e de
molestias. Morrer de fome nao 6 s6 ser pri-
vado o individuo do alimento por muitos
dias, 6 a creature levar semanas, mezes, pas-
sando mal, alimentando-se de migalhas, gas-
tando as reserves do organismo, enfraque-
cendo as resistencias delle, atW se inanir de
todo P morrer . .










CAPITULO XIII


Em Fortaleza, penso, nao morreu pes-
soa alguma de fome aguda; por6m de fome
chronic, um sem numero.
Na capital nao existe a miseria exage-
rada que noticiam os jornaes do Rio. Dizer
que em Fortalez'a raras sdo as pessoas que
.nao estao a morrer de fome 6 uma inverdade.
0 flagelo nio tem a proporgdo que Ihe
querem dar.
E' um ripiquete de secca, no qual as
chuvas foram tao bem distribuidas no littoral
durante a estacdo invernosa, que 509 mills.
deram para crear legumes, cereaes e man-
dioca.
A classes que mais soffre em Fortaleza e
a que nao se v&, 6 a pobreza envergonhada.
Estes vencidos da vida, alguns que foram
abastados, morrem de fome e nao sahem a
rua pedindo esmolas.
Toda a collectividade tem um certo nu-
mero de parasitas, que vivem das sobras de
suas mesas.






60 SECCAS DO CEARA
14/1/1/1/VA VV WW1/LVVV^/LIAAW1VVVVkA1/WWWWWL1VV

0 numero desses desclassificados au-
gmenta extraordinariamente durante as sec-
cas. 0 flagelo de 77 deixou-nos milhares de
invalidos que se reuniram A massa de mendi-
gos da nossa capital.
Nos tempos normaes, 6 mais abundante
o sobejo de nossas mesas, o qual nas seccas
6 minguado; e dahi a maior miseria dos que
vivem delle.
A' populacdo de Fortaleza nao faltou
servico.
Fizeram-se diversas obras com o dinhei-
ro que diversos Estados mandaram para os
retirantes.
Nao ficAmos tdo desamparados como em
1900.
Agora os nossos irmaos se apiedavam
mais de nossa desgraca.
Concorreu muito para isso a viagem
que o nosso virtuoso bispo D. Manuel da Sil-
va Gomes fez ao sul da Republica e a falta
de bragos com que lutavam os Estados do
Sul, por causa da guerra da Europa.
D. Manuel pintou com c6res vivas o es-
tado angustioso em que se achava o Ceara.
Ouviram-no, acreditaram em suas informa-
g6es e nos soccorreram largamente, especial-
mente S. Paulo, o mais rico de nossos irmaos.
Essas esmolas nos serviram muito, mas eram
esmolas que, embora dadas de uma a outra
collectividade, sempre humilham.








R. THEOPHILO 61


Quando os governor cumprirem os seus
deveres, dando-nos meios de resistencia con-
tra as seccas, nao precisaremos mais viver de
mdos estiradas .A caridade dos que sao mais
felizes do que n6s, aos quaes a natureza deu
melhores terras e melhores climas.
A lucta eterna que sustentamos contra
a inclemencia do ceo, nos enrijou o corpo,
nos deu tamanha resistencia organic, que
nao se encontra em habitante algum dos ou-
tros Estados da Republica. Qual o brasileiro
que, nao sendo cearense, trabalha um dia in-
teiro no campo, tendo tornado como alimen-
to, ao acordar, uma chicara de caf6 com al-
guns punhados de farinha de mandioca?
Qual o sulista que trabalha A chuva ho-
ras inteiras, sem abrigar-se?
A' tarde quando elle volta A c-,sa e que
vai almogar e jantar. E o que? Apenas feijao
e farinha de mandioca.
A care e s6mente para os domingos.













CAPITULO XIV


O povoamento do Amazonas s6 podia
ter sido feito, como foi, pelo caboclo cearen-
se, cujo organismo resistia as molestias
daquella insalubre regiao e cujo espirito, im-
pregnado de grossseiro fatalismo era indif-
ferente 6s constantes e numerosas perdas de
vida, porque estava convencido de que o
home tern fixa a data da sua morte.
Quando aqui se exproba a ida delles
para tdo mortifera terra, responded Tan-
to se more aqui como U1; chegando o dia, e
aqui ou ali.
O Sr. D. Manuel aproveitou muito bem
as esmolas que Ihe deram para os famintos.
Parte dellas foram applicadas em diversos
servigos na capital e parte em soccorrer os
que nao podiam trabalhar.
Da distribuigio aos invalidos se encar-
regou a director do Collegio da Immacula-
da ConceigAo, irma Gagn6, santa mulher,
que vive entire n6s ha meio seculo e que no
Ceara, dirigindo uma casa de educado,
prestou assim os melhores servigos.