O secular problema do nordeste

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Material Information

Title:
O secular problema do nordeste
Physical Description:
3 p. l., 5 163 p. : illus., plates. ; 24 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Albano, Ildefonso, 1885-1957
Albano, Ildefonso, 1885-1957
Museum of the American Indian, Heye Foundation
Huntington Free Library
Publisher:
Imprensa nacional
Place of Publication:
Rio de Janeiro
Publication Date:
Edition:
2. ed., discurso pronunciado na Camara dos deputados em 15 de outubro de 1917 ...

Subjects

Subjects / Keywords:
Droughts   ( lcsh )
Water-supply -- Brazil   ( lcsh )
Ceará (Brazil : State)   ( lcsh )
Genre:
non-fiction   ( marcgt )

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 85769492
System ID:
AA00000252:00001

Full Text




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DISCURSO PRONUICIAI
-CAMARA DOS DEP W,
EM 15 DE OUTUBA4


Ndo 6 possivel que esse problema economico-social, o maistgravd-o
e mais relevant do Brazil, continue preterido por tantos outros de
somenos importancia, que passam a ser considerados problems de
maxima urgencia para a vida da Nacao, unicamente pelorvalor que Ihes
emprestam ser~ ogados influentes.e poderosos.


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1
i.:












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Quando em conversa corn meus colleges da C -
mara dos Deputados, representantes dos prosper
Estados brazileiros, sobre o flagello da secca, q
impede nossa evoluSgo e retarda nosso progress,
tenho notado que muitos ndo fazem uma id6a exacta
daquella calamidade.
Neste discurso., que 6 antes um relatorio, feito
sem pretens6es a literature e eloquencia, procu'rei,
estribado conscienciosamente na verdade, exp6r com
clareza os soffrimentos e martyrios de meus conter-
raneos, os prejuizos a nossa expansao causados pela
secca, adduzindo para isso provas irrefutaveis e tes-
temunhos insuspeitos.
Si, assim fazendo, consegui dar aos homes de
responsabilidade do Paiz o quadro verdadeiro da
triste situagn o do Ceard, si destas minhas palavras
advier algum beneficio para meu Estado natal,
dar-me-hei por sobejamente redompensado.
Si, entretanto, este meu trabalho for condem-
nado a trapa, A poeira e ao esquecimento, restar-
me-ha a satisfagio de um ever cumprido, unico
move das acc(es do home recto.


Ildefonso Albano.












0 SECULAR PROBLEMA DO NORDESTE











DISCURSO

PRONUNCIADO


na Camara dos Deputados a 15 de outubro de 1917

0 Sr. Ildefonso Albano--Sr. President, quem, porven-
tura, com olhar pesquizador e animo imparcial langar as
vistas para as condicges dos various Estados da Unido Brazileira,
nota'r sem grande difficuldade que alguns marcham desas-
sombradamente na larga send do progress, no meio da far-
tura e prosperidade dc seus habitantes, em busca das mais
nobres conquistas da humanidade, emquanto outros, retarda-
tarios do progress, jazem cm uma apathia desesperadora, se
debatendo na miscria e no atraso, cor todas as suas fontes de
riqueza estioladas, em franca decomposicgo economic. Nestes
estdo comprehendidos os Estados do nordeste brasileiro, su-
jeitos ao flagello da secca, que periodicamente os assola, ma-
tando, deslocando suas popula6des, dizimando seus rebanhos,
anniquilando sua lavoura e commercio e embaragando sua
evolugoo.
0 Estado do Cear.d, sempre o mais attingido por essa ca-
lamidade, tem sido testemunha de numerosas lutas titanicas
e formidaveis entire a natureza e seus destemidos filhos.
(Muito bem.)
Jd no comeco do seculo XVII, quando abria os olhos para
a civilizacio, o Ceard soffria os effeitos da secca. Rezam as
chronicas antigas que em 1603 Pero Coelho de Souza, home
nobre, morador na 'Praiva do Estado do Brazil, com Diogo de
Campos Moreno, 80 brancos e 800 indios, marchou ate o Jagua-









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ribe, de onde no Siart ajuntou a si todos aquelles indios mor-
dores, foi ate a seraj de Buapava e teve grandes recontros oom
os Tabajares de Mel Redondo, e deu-lhe Deus grandes victorias.
Por falta de provimento e soccorro, voltou ao Jaguaribe, onde
fun~lou uma povoado cor o nome de Nova Lisboa. De volta
para Pernambuco, se veiu deixando tudo miseramente a pd
corn sua mulher e filhos pequenos, parte dos quaes pere-
ceram de fome.
Dahi para cA se teem succedido corn cruel periodioidade
os tetricos phenomenon, que expulsaram do Ceard o primeiro
civilizado, depois de Ihe arrebatar os innocentes filhinhos,
cujos nomes encimam a lista funebre das victims da secca,
list long e interminavel, que ainda estd por encerrar.


0 Ceard soffre de secca e o Maranhao nio

0 Ceard soffre da secca, isto 6, das consequencias da es-
cassez de chuvas, devido d sua configuragco topographica e
cc.nstituigAo geologica: o solo, de pequena espessura, assenta
sobre a rocha crystallina, que 6 toda sensivelmente inclinada
para o mar; as aguas pluviaes, cahidas no territorio cearense,
rapidamente se escoam, deixando o leito dos rios completa-
mente secco; por essa -razdo os nossos rios correm s6mente
na 6poca das chuvas, durante tres ou quatro m6zes do anno.
0 \Maranhdo, cuja posigdo geographica 6 quasi a mesma
que a do Ceard e que por isso deveria tambem sentir as con-
sequencias da escassez de chuvas, nada soffre, porque o seu
territorio 6 pouco ondulado, 6 quasi horizontal; as aguas plu-
.viaes, infiltrando-se, encharcam o solo e alimentam durante
o anno inteiro os rios, cujos cursos si~o vagarosos pelo motive
jA exposto. As terras se manteem corn mais humidade, a ve-
getao~o 6 maior e mais exuberante do que no Geard; ha.por-
tanto no ar mais vapor d'agua, o qual na 6poca opportuna se
resolve em chuvas sempre mais copiosas, do que no Estado
visinho. Nos annos de chuva -escassa, como o de 1915, no iMa-
ranhAo tambem chove menos do que nos annos regulars; o
seguinte quadro das chuvas cahidas nesses ultimos annos de-
monstra isso claramente:












CEARA' .1910 1911 1912 1913 1914 1915 1916



Aracaty.................... 1.216,7 926,7 1.604,2 1.777,2 1.255,3 248,2 994,5
Guaramiranga................ 1.929,2 2.015,0 2.065,0 909,7 1.601,1
Porangaba .................. 2.466,8 2.057,5 1.538,7 521,0 1.339,1
Quixeramobim............... 1.101,6 547,1 918,4 969,8 910,2 208,8 876,7
Quixada .................... 1.053,4 1.221,8 1.015,1 223,8 1.106,8

M6dia em millimetros. 1.594,4 1.608,2 1.356,8 422,3 1.201,5



MARANHAO 1912 1913 1914 1915 1916



Barra do Corda...................................... 1.290,3 997,4 669,1 1.028,1
Carolina ................ ............ ....... ... 1.303,4 1.181,5 1.294,6
Grajahi .................... ..................... -- 1.015,6 534,8 1.541,9
Imperatriz...........................................- 1.130,1 1.225,4 1.500,8
Sao Luiz .................................... ....... 2.376,8 2.084,5 1.541,1 1.086, 2.464,6
Sao Bento........................................... 2.193,0 1.912,2 1.370,0 2.141,9
Turyassdi........................................... 3.247,4 2.713,7 2.067,5 1.140,5 2.307,8

M6dia em millimetros ......................... 1 .423,9 1.029,6 1.754,2









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Mas, long de soffrer com isso, o Maranhao tira vantagens, pois
suas terras, ainda humedecidas, cor o auxilio de uma prccipitacao
aquosa, por pequena que seja, produzem melhor e com mais abun-
dancia, do que nos annos de inverno copioso.
Si, entretanto, o Ceard, opezar de sua posigo geogra-
phica, tivesse a configuragdo topographical e a constituicio
geologica do Maranhao, nao soffreria das consequencias da
escassez de chuvas, nao seria, como 6, flagellado pela secca.
No estado actual da sciencia nao nos 6 dado conhecer a
causa dessa periodic escassez de chuvas, que so prende cer-
tamente a phenomenon extra-lerrestrcs.

Regimen das chuvas nos tropicos

Sabemos que nos tropicos as chuvas seguem a march
apparent do sol. Os antigos imaginavam que a zona tro-
pical, por elles chamada torrida, fosse completamente secca,
desert e inhabitavel por causa da sua proximidado ao sol,
que Ihe deita os raios perpendicularmente. Entretanto, da-se
justamente o contrario: a regiio tropical, que estiver mais
proxima do sol, 6 a mais molhada, pois a approximanao
daquelle astro de uma determinada regiio produz ahi chuvas,
quo suspended, quando o sol della se afasta.
A sciencia nos ensina que ao long do equador ther-
mico, que 6 a linha de maior calor na terra, ha uma zona
chamada de calmas relatives comprehendida entre as duas
zonas dos fortes ventos alizeos. Nessa zona, quando ndo
reina complete paralysaVo, os ventos sopram corn diminuta
velocidade. Ahi 6 intensa a aspiragdo de vapores, que a certa
altura se condensam e se precipitam sobre a terra em fortes
pancadas de agua. Essa zona das calmas, banhada copiosa-
inente por chuvas torrenciae3, se desloca para os hemis-
pherios norte e sul, conforme a posieio do sol.
Assim, o mez de dezembro, quando o sol estf mais pro-
ximo do tropico do Capricornio, 6 a 6poca de maior calor e
de chuvas no sul do Brazil. A region terrestre situada perto
dos 16 e 30' de latitude sul, comprehendendo o sul da
Bahia e de Goyaz, o norte do Espirilo Santo e de Minas e o
centro de Matto Grosso, se approxima do sol em fins de ja-
neiro; o mesmo succede em fins de fevereiro corn a faixa









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terrestre situada aos 80 de latitude sul, em que estao com-
prehen'didos Pornambuco, o norte da Bahia, do Goyaz, do
Matto Grosso, sul do Piauhy e do Maranhao; simultaneAMent6
so vae deslocando para o norte a zona das calmas o chuvas
lorrenciaes.
Chuva no Piauhy 6 signal de proximo invcrno no Ceard.
E' uma observacao popular muito exacta, que se baseia em
um facto scientific, pois a zona das calmas, extendendo-se
em direcoo ao norte, passa no sul do Piauhy em fins de fe-
vereiro e percorre o Ceard em marco, mez mais chuvoso neste
Estado. Do abril cm deanto diminue a chuva ate suspender
completamento nos mezcs chamados do secca, em que o he-
mispherio norte passa a gosar a bencfica influencia solar.
No mez de outubro ha no Ceard pequenas chuvas, chamadas
essas precipitagbes sao causadas pela volta da zona das cal-
mas em direcco ao sul, mas sito sempre menos copiosas do
que as chuvas de marco, porque em margo a terra estd mais
proxima do sol do que em outubro.
Assim, dentro dos 365 dias do anno, o sol distribue de
sul a norte o.de norte a sul o precioso liquid indispensavel
A vida dos homiens, animaes e vegetaes.
Mas estes phenomenon ndo se repetem com precisdo ma-
thematica, pois alguns annos sao de chuva excessive, outros
de pouca precipitaQgo em todo globo; ha epocas de inundag6es
no heminpherio norte e secca no hemispheric sul, e vice-
versa.
Fomes, seccas e inundag5es mundiaes
A Biblia descreve o Diluvio Universal, a i'nundagao mais
antiga, de que temos noticia, da qual mesmo entire os indige-
nas de nosso continent havia tradiggo. Ha duvidas sobre a
dpoca exacta de sua occurrencia, mas segundo a opinido de
varies autores, esta calamidade se deu entire os annos 3246 e
2104 a. C.
A Sagrada Escriptura registra tambem varias seccas oc-
corridas na Palestina, entire ellas uma no tempo de Abrahdo,
outra no tempo de Isaao, a secoa de sete annos, que comecou
em 1706 a. C. e attingiu o Egypto, Palestina e as regi6es
visinhas.









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Em 1760 a. C. houve uma inundagco na Attica (Grecia),
lue era conhecida por Thessalia ((Grecia) foi inundada.
Entre os annos 5'03 e 443 a. C., durante o reino do im-
perador Jei-chund, a India foi visitada por uma prolongada
secca.
Em 322 a. C. a cidade de Epheso na Asia Menor foi
destruida por uma inundago, send mais tarde reedificada
em ponto mais elevado.
Roma soffreu fome nos annos 493 e 436 a. C. e de inun-
dag6es em 241, 54 e 27 a. C.; no anno 138 a. C. houve uma
secca mundial.
Poderia citar ainda innumeros exemplos de fomes, seccas
e inundacges durant.e a era christ!i; limitar-me-hei, entre-
tanto, a enumerar, no quadro que segue, as fomes, seccas e
inundac6es mundiaes do seculo XVII at6 nossos dias. 6poca.
em que o Ceara figure nesta < 1600 Grande secca na Russia.
1601-1603 Fome na Irlanda.
1602 Secca parcial na Inglaterra.
1603 Secca no Ceard.
1606-1607 InundaGao na Inglaterra.
1607-1608 Escassez de chuvas na Inglaterra.
1608 InundaGo na Franca.
1610 Escassez de chuvas na Inglaterra e fome na Al-
lemanha.
1611 Inundacgo na Inglaterra.
1612 Escassez de chuvas na Inglaterra.
1613 Inundacges na Franca, Allemanha e outros paizes.
1614 Secca no Ceara e inundacao na Inglaterra.,
1616 Escassez de chuvas na Inglaterra.
1617 InundacIo na Catalunha.
1619-1620 Inundacio na Allemanha.
1623 Inundacses na Austria, Hungria e outros paizes.
1626 Escassoz e depois excess de chuvas na Ingla-
terra.
1627 Inundag6es na Austria e Italia.
1629 Inundac6es no Mexico.
1630 Inundaeoes na Escossia e fome na Inglaterra.









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1631 Secca na India e toda Asia.
1633 Inunda~io na Irlanda.
1635-1638 Escassez de chuvas na Inglaterra
1637 Inundaego na Hollanda.
1639 Inundagdo na Inglaterra.
1640 Inundagio na Allemanha.
1642-1643 Escassez de chuvas na Inglaterra.
1643 Inundacio na Austria.
1644 Inundaco na Hespanha e na Hollanda.
1646 Inundaodo na Hollanda.
1647-1649 Inundaego na Inglaterra.
1649 Fome na Escossia.
1651-1654 Escassez de chuvas na Inglaterra.
1655 Inundaego na Inglaterra.
1656 Inundageo e fome na Italia.
1657 Escassez de chuvas na Inglaterra e fome na
Italia.
1658 Inundaeio na Inglaterra.
1660-1661 Inundacio na Inglaterra.
1661 Grande secca na India (Punjab).
1665 Inundageo na Inglaterra.
1666 Inundaego na Inglaterra e depois escassez de
chuvas.
1669 Grande escassez de chuvas n'a Inglaterra.
1670 InundaFio na Inglaterra.
1678 Inundacio na Inglaterra e depois escassez de
chuvas.
1680 Inundaedo na Irlanda.
1680-1681 Escassez de chuvas na Inglaterra.
1682 InundaeCo na Inglaterra.
1684 Escassez de chuvas na Inglaterra.
1686 Inundacdo na Inglaterra.
1686-1689 Grande secca na Italia.
1687 Inundagoo na Irlanda.
1690 Fome na Italia e Irlanda.
1691 Escassez de chuvas na Italia.
1692 Secca no Ceard.
1693 Fome terrivel na Franca.
1693-1694 Escassez de chuvas na Italia.









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1694-1699 Fome na Escossia e na Inglaterra.
1699 Escassez de chuvas na Inglaterra.
1700. Fome na Inglaterra.
1703 Secca na India (Sind).
1704-1705 Grande escassez de chuvas na Inglaterra.
1705 Inundaeges na Irlanda e todo continent europeu.
1707 InundaCoes na Inglaterra.
1709 Fome na Escossia e Inglaterra e terrivel na
Franga.
1711 Inundagio na America do Norte e fume na
Austria.
1716 Escassez de chuvas na Inglaterra.
1717 Inundag6es na Hollanda e Allemanha.
1720 Inundagoo na Inglaterra.
1721 Secca no Ceard e inundagio na Italia.
1722 Inundac.o na Inglaterra.
1723 Inundaco na Hespanha e escassez de chuvas na
Inglaterra.
1723-1727 Grande seeca no Ceard.
1724 InundaCoo na Italia.
1726 InundaQces em toda Europa.
1727-1729 Fome na Irlanda.
1729 Inundacoes na Inglaterra e Irlanda.
1730 InundaQdo no Chile.
1732 Inundagio no Ceara.
1733 Secca na India (provincias do noroeste).
1734 Inundac o na Inglaterra.
1736-1737 Secca no Ceard.
1738 Penuria no Ceara.
1739 Secca na India (Delhi) e fome na Franga.
1739-1740 Fome na Irlanda.
1740 InundaoSes na Inglaterra e Irlanda.
1740-1741 Fome na Inglaterra.
1741 Inundacio no CearA e fome na Escossia.
1742 Inundago na Irlanda.
1743 Inundagio no Geard.
1744-1746 Secca no Ceard.
1745 Inundacoo na Irlanda.
1745-1752 Secca na India (Sind).









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1748 Inundagio no Ceara e fome na Inglaterra.
1752 Inundacgo em Galles.
1753 Inundaogo na Irlanda, Allemanha e Hollanda,
1754 Secca no Geard e inundaooes na Inglaterra, Es-
cossia, Allemanha e Hollanda.
1756 Inundag6es em toda Europa.
1760 Secca no GearA.
1761 Inundag6es na Inglaterra, Irlanda. e sul da Eu-
ropa.
1762 Inundae5es na Inglaterra, Irlanda, Hespanha e
India.
1763 Inundag6es em toda Europa.
1764 Inundagao na Irlanda.
1765 Inundaaio em toda Europa e fome na Irlanda.
1766 Fome na Escossia.
1767 Inundacgo em toda GrA-Bretanha.
1768 Inundacao na India (Behar, Bengal).
1769-1770 Grande secca em toda India.
1770 Inundacio na India (Bengal) e fome na Bohe-
mia, Russia e Polonia.
1770-1771 Inundacao na Hollanda.
1771 Inundagdo na Inglaterra e fome na Italia.
1772 Secca no Ceard.
1773 Inundae6es na Irlanda, Italia e India.
1774 Inundagio na Inglaterra.
1775 Inundagao na Hollanda e secca nas ilhas do Cabo
Verde.
1775-1776 Inundagoes na Inglaterra.
1776 Inundaoges no Ceara e na Fr-ana.
1777 Inundaqges na Inglaterra e na Irlanda.
1777-1778 Grande secca no Ceard.
1782 Inundag5es no Ceara e na Inglaterra.
1782-1784 Secca India (Sind).
1783-1784 Secca na India (Punjab).
1784 Inundag6es na Inglaterra e India.
1785 InundagCes na Inglaterra e Allemanha.
1786-1787 Inundao6es na Inglaterra.
1787 Inundao6es na Franca e na Irlanda.
1787-1788 Inindac5es na India (Behar e Punjab).









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1788 Inundac6es no Ceara, India, Inglaterra e Es-
cossia.
1789 Inundao6es no Ceard c Inglaterra e fome na
Franca.
1790-1792 Grande secca na India.
1790-1793 Grande secca no Ceara.
1791 Inundac6es em Cuba, Inglaterra e Italia.
1792 InundaCges na Inglaterra.
1795 Inundag5es e fome na Inglaterra.
1797 Inundagdo no Ceard.
1800 Inundacges em S. Domingos e na China, escassez
de ohuvas na Inglaterra.
1801 InundaC6es na Allemanha e Hollanda, fome em
toda Inglaterra.
1802 Inundag6es na Inglaterra, Irlanda e todo sul da
Europa.
1802-1804 Grande secoa em toda India.
1804 Secca no Ceara.
1804-1807 Seecc parcial na India.
1805 Inundacio no Cear4.
1807 Inundacio na Irlanda.
1808 Inundapco na Inglaterra.
1809-1810 Secca no Ceard.
1810 Inundacio na Inglaterra.
1811 InundacSes na Austria, Hungria, Inglaterra e Al-
lemanha.
1812 Fome na Inglaterra.
1812-1813 Secca na India (Sind).
1812-1814 Secca na India (Madras).
1813 Inundacoes na Austria, IIungria, Polonia, Alloma-
nha e America do Norte.
1813-1814 Secca na India (Agra).
1814 Inundao6es na Irlanda e India (Bengal).
1816 InundaC6es na Inglaterra, Allemanha e inundacoes
e fome na Irlanda.
1816-1817 Secca no Cear-a.
1818 Inundag es na Inglaterra e Irlanda.
1819 Inundag6es no Ceard, Irlanda e Inglaterra e secca
na India (Allahabad).









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1820-1822 Secca na India (Sind).
1821 InundacSes na Inglaterra e Irlanda.
1822 Inundac5es na Inglaterra, Italia, Cuba, inunda-
g6es e fome na Irlanda.
1824 Inundac6es na. Irlanda, Russia e secca na India
(Delhi).
1824-1825 Grande secca no Cear6 e secca na India (Delhi,
Madras, Hindostio), inundac6es na Russia e Ir-
landa.
1825 Inundacges na Dinamarca e Hollanda.
1825-1826 Secca ua India (provincias do noroeste).
1826 Chuva excessive nc Ceard.
1827 Chuva escassa no Ceard e inundagao na Italia.
1827-1828 Secca na India (Hindostao).
1828-1829 Inundag6es na Irlanda.
1829 Inundacoes na Escossia e Allemanha.
1830 Secca no Ceard e inundac6es na Austria e Alle-
manha.
1831 Fome e inundagco na Irlanda.
1831-1832 Penuria na India.
1832 Inundacoes no Ceard e na India (Hindostao).
1832-1834 Grande secca na India (provincia do noroeste .
1833 Penuria no Ceara e inundapco na China e India
(Calcutta).
1833-1835 Grande secca na India (Madras, Guntoor).
1834 Inundaefo na Hespanha.
1837 Inundacges na Inglaterra.
1837-1838 Secca na India (provincias do noroeste).
1838-1839 Secca na India (Bombaim).
1840 Terrivel inundacao na Franca.
1841 Inundacao na Inglaterra e Franga.
1842 Inundag6es no Ceard e Irlanda.
1844 InundaC6es na Irlanda.
1844-1845 Grande secca no CearA.
1845 Inundacao.na China *e fome na Irlanda.
1846 Inundacao na Franga e fome na Belgica.
1846-1847 Grande fome na Irlanda.
1847 Fame na Franga.
1848 Inundac6es na Escossia.









- 16 -


1850 Inundag6es na Irlanda, Belgica e Egypto.
1851 Inundagces na Irlanda.
1852 Inundag6es na Inglaterra, Franca, Belgica, Alle-
manha e Suissa.
1853 Inundag5es em Galles e na Irlanda.
1853-1854 Grande penuria na India (Madras).
1855 Inundagdo na Allemanha.
1856 InundaG6es na Franca e India.
1860-1861 Secca na India (Punjab).
1861 Secca no Canada e inundacao na Hollanda.
1861-1862 Penuria na India (Bombaim).
1862 Secca na Africa do Sul.
1863 Inundacao na Australia.
1864 Inundacgo na Franca.
M865-1866 Secca na India (Orissa, Madras, Behar, etc.).
1866 Inundag6es no Ceara, Franca e Inglaterra.
1868 Inundac6es na America do Norte.
1868-1870 Secca na India (prov. do noroeste, Delhi,
Meerut, etc.).
1869 Inundagbes na Irlanda o Italia.
1870 Inundac6es na Italia.
1871 Inundagoes na Inglaterra e India.
1871-1872 Grande secca na Persia.
1872 Inundag6es no Ceara, India, Italia e Inglaterra.
1873 Inundagdo no Ceara e secca na India (Behar.
Bengal).
1873-1874 Secca na India (Bengal).
1874 InundaQ6es na Inglaterra e America do Norte,
secca na India (Bengal).
1874-1875 Secca na Asia Menor.
1874-1876 Chuva excessive no Ceard.
1875 InundaeGes na Inglaterra, Franca, Hollanda, Alle-
manha, Italia, Hungria, Suissa, America do Norte,
India e ilha de S. Vicente.
1876 Inundag6es na Grd Bretanha, Franca, Hespanha.
Portugal, China, Turquia, India (Bengal) e secca
em parties da India.


1877


Grandes seccas na India (Madras, Mysore, Bom-
baim), America do Norte (California), Africa do
Sul, inundagdo na Inglatorra.








- 17 -


1877-1878 Grandes seccas no norte da Africa, na China e na
Australia.
1877-1879 Grande secca no CearA.
1878 Grande secca na Africa do Sul, calor excessive
na America do Norte, inundaq6es na Inglaterra,
FranGa, Hungria, Italia, Hespanha, America do
Norte (California), China, India (Casemira, Coy-
ldo) e Australia.
1880 Chuvas exces'vas no Ceard e Inglaterra.
1882 Inundacges na Inglaterra, Escossia, Franca, Hun-
gria, Italia, Alleinanha, Austria e Mississipi.
1883 Inundagdo na India.
1884 Inundac6es na America do Norte e Hespanha.
1886 Inundac6es na America do Norte e India.
1887 Grandes inundac6es na America do Norte e na
China, secca na Asia Menor.
1888 Secca no Ceard e inundacGes na Allemanha, In-
glaterra, Franca, Suissa, America do Norte, Me-
xico e China.
1889 Secca no Ceard e na India, inundac6es na Ingla-
terra e America do Norte.
1890 Chuva excessive no Ceard, inundaoSes na Ingla-
terra, Europa Central, Franca, Dinamarca, Mis-
sissipi, Venezuela, China, Queensland e Nova
Galles do Sul, secca no Japio.
1891 Secca no Ceara, India e Russia, inundac6es na
Inglaterra, Franca, Allemanha, Italia, Hespanha,
America do Norte e China.
1892 InundagCes na Inglaterra, Italia, Hespanha, Mis-
sissipi e Venezuela, secca na India, Russia, Ame-
rica do iNorte e Nova Galles do Sul.
1893 Inundag6es na Italia, Hespanha, Hungria, Ruma-
nia, Casemira, Queensland e Nova Galles do Sul;
secca na Franca e em parties da Italia e Hes-
panha.
1894 Inundacoes no Ceara, America do Norte, Ingla-
torra, Franea. Hungria e India.
1895 Chuva excessive no Ceard, inundac6es na Ingla-
terra, Franga e Hungria.









- 18 -


1896 Chuva excessive no Ceard, inundagees na Ingla-
terra, Franca, Suissa, Italia, Grecia, Agores, Me-
sopotamia, Queensland e sul da Australia, secca
na India.
4d897 Chuva excessive no Ceard, inundagSes no Missis-
sipi, Inglaterra, Hespanha e Allemanha, secca na
India e Nova Galles do Sul.
1898 Secca no Ceard e na India, inundaGio na China.
1899 Chuvas excessivas no Ceard, inundagoes na Ame-
rica do Norte, Argentina. Hungria e Hespanha,
secca na India e na Russia.
1900 Secca no Ceard e na India, inundac6es na Ingla-
terra e no Japao.
1901 Secca na India e America do Norte, inundagSes no
Canada, Italia, Hespanha e Japao; chuvas escas-
sas na Inglaterra.
1902 Chuvas escassas no Ceard, inundao5es na Ingla-
terra e India, secca na Russia, sul da Australia e
Nova Galles do Sul.
1903 Chuvas escassas no Ceard, inundao6es na America
do Norte, Mississipi, Canada, Inglaterra, Russia,
Italia e India.
1904 Chuvas escassas no CearA e inundagSes na Ame-
rica do Norte e Philippinas.
1905 Inundacoes na Inglaterra, Irlanda, Mississipi e
Africa do Sul, secca na Russia e na India.
1907 Secca no Ceard.
1915 Secca no Ceard.
1917 Inundagio no Ceard.

Ha curiosas coincidencias das seccas do Ceard de 1744-46,
1790-93, 1804, 1824-25, 1827, 1888-89, 1891, 1898 e 1900 com
as seccas da India do 1745-52, 1790-92, 1804-07, 1824-25,
1827-28, 1889, 1891, 1898 e 1900, mas por outro lado ha mui-
tas e notaveis anomalias. Os annos de 1877 a 1879 foram de
secca peneralizada em todo globe, pois a esoassez de chuvas
foi assignalada em todos os continents terrestres.










- 19 -


0 inverno e o estio

As principles riquezas do Coard sdo a industrial pastoral
e a agriculture.
Durante o estio de seis mezes, julho a dezembro, estd
suspense a vegetaCio, a semente, em lethargia profunda, jaz
no seio da terra; a alimentagdo escasseia e o agrioultor se vB
*obrigado a recorrer ao credit.
O gado faminto procura corn voracidade o capim resequi-
do, que aqui e ali ainda cobre a terra combusta.
Em janeiro, quando deve comegar o inverno, e curioso
v6r-se a sofroguiddo com que o sertanejo fita a abobada
celeste a lobrigar si vemn chuva; 6 caracteristico o cuidado
com que somma os millimetros do chuva cahida. Tudo denota
a anciedade com ,que 6 esperadi a agua, da qual depend a
vida e felicidade dos cearenses.
Cor as primeiras pancadas de agua, as arvores se re-
vestem de novas folhas, a rama brota por toda a parte, co-
brindo o sertdo de ricas pastagens de panasco, mimoso e mi-
lhd; o gado devora cor avidez a verde forragem c em breve
so reanima e recupera a gordura e as forcas. 0 lavrador
lanca a terra as sementes de algoddo, milho, feijao e mandioca.
Na terra e nos ares ha vida e animacao. Renasce a natureza...
Dahi a mezes o sertanejo faz a colheita, paga satisfeito suas
dividas e corn sua familiar gosa os fructos de sou labor.
Ap6s annos de trabalho insano consegue o pobre cearense
adquirir uma nesga de terra e levantar sua modest chou-
pana de taipa, coberta de palha; nolla estabelece o seu lar,
abencoado corn vigosos rebnntos. Em redor vicejam muitas
arvores fructiferas, ,plantadas nos annos de fartura por suas
maos calosas. 0 gallinheiro 6 uma das preoccupag6es da
esposa querida; um pequeno curral cor meia duzia de cabe-
gas de gado represent a sua eonomia de annos.
Assim,.entre -o inverno e o estio, entire a fartura e a es-
cassez, vive o sertanejo, ate que uma secca venha transtornar
a paz e a prosperidade de seu lar.









- 20 -


A secca

0 mez de dezembro foi sec.o, em janeiro cahiram chu-
viscos, fevereiro nenhuma esperanca trouxe; mas o serta-
nejo inquieto, olhos fiLos no horizonte em direcgdo do Pi-
auh;y, ainda nao desanimou...
Uma nuvem siquer nIo quebra a monotonia azul do fir-
mamento; nenhum relampago, precursor da chuva bemfazeja,
illumina o quadrante sul. As lavouras nao medraram, o gado
tristonho e magro busca ancioso o que comer.
Vem marco. 0 mesmo sol abrazador deita seus ra.os dar-
dejantes sobre a natureza morta.
No dia 19, festa de S. Jos6, nao chove, iAlea jacta estl.
Estd declarada a secca... E today esta zona, outr'ora
exuberante de vida e fartura, se transform em um scenario
vasto de miserias indescriptiveis. 0 cearense vac alravossar
os mesmos dias de provac6es e does, tantas vezes vividos
pelos seus antepass'ados. Comcea a luta entire o homernm e a
natureza, luta terrivel e desigual, em que os mais firmes ba-
queiam e os mais fortes sdo vencidos. A natureza, impiedosa.
e insaciavel, sempre triumphant, implanta a desgraga onde
existia a abastanea, trazendo o desespero e a more.
Pequenas chuvas cahidas em various pontos do Estado
mal deram para fazer correr alguns fios de agua polo leito
dos rios.
Mas, emquanto tem forgas, o cearense resisted e trabalha.
0 gado 6 tratado com especiaes cuidados; o joazeiro, a unica
arvore que se conserve verde durante a secca, e despojada
de seus galhos para a salvaedo dos animals; ao som do facto
acorrem as rezes, tropegas e famintas. Uma ou outra, mais
depauperada, cahe para ndo mais se levantar; levam-lhe uma
solucao de chl.orureto de sodio, alimento, agua e sobre ella
constr6em uma barraca de palha para livral-a dos raios so-
lares. Apezar de todos os cuidados, vdo todas, enfraquecidas
e magras, cahindo victims das epizootias, que durante as
seccas se propagam com rapidez espantosa.
Desapparecem assim fazendas inteiras... E o razendeiro,
outr'ora abastado e independent, e obrigado a teira> e emigrar.


















































































0 que a socca leixou de 500 caboeas do gado ( pag. 2L ).


__ _


I)
1.
I









- 21 -


Tenho aqui uma photographia impressionante, que obtive
na Inspectoria Veterinaria do Ceard. O veterinario dessa re-
Iartigdo, Domingos Vanzelotti, em seu relatorio apresentado
ao inspector, assim descreve esta scena:
Sr. JoAo Pinheiro de Souza, situada a estrada de IrauGuba
A villa de S. Francisco, distant cerca de 1 112 legua;
outr'ora era povoada esta fazenda por 500 cabegas bovinas.
Em janeiro, por6m, irromperam os ixodes e os gados, ja de-
finhados pela secca, comegaram a morrer; o proprietarlo,
apavorado corn o crescent prejuizo, encurralou tudo que
ainda Ihe restava, e iniciou um tratamento com forragens, e
baldadamente procurou expurgar os terriveis parasitas com
lavagens diversas, em seu modo de ver uteis; nada conseguiu;
diariamente ao sahirem do curral para ,o campo, em que per-
maneciam durante as horas de maior sol, as rezes iam ca-
hindo As dezenas em frente ao pateo da casa, que demora
junto ao curral, e nao se levantavam mais. Em abri-l o pre-
juizo era total.
Aproveitamos o resto dos arcabougos, que ainda n5o ti-
nham sido retirados do local do morticinio, para a photogra-
phia; esta 6 exactamente o natural, sem a minima alte-
ragdo; as cinco rezes, que nella se veem, sdo as unicas sobre-
viventes da catastrophe.,
Casos como esse slo muito communs. Essa fazenda re-
presentava o trabalho honrado, a economic de cinco, 10 ou
15 annos; ameacado de tudo perder, o fazendeiro durante quatro
mezes mantem uma tremenda luta plara salvar os seus ha-
veres; gasta seu ultimo recurso e tudo perde. Reduzido a ex-
trema miseria, endividado, sem meios de sustentar a familiar,
oste infeliz 6 muitas vezes levado a um acto de desespeno.
Nas proximid'ades dos acudes e lag6as, nos pocos do leito
dos rios os sertanejos ainda trabalham. As margens sao se-
meadas de arroz, e, A media que a agua recda, as plants sao
transferidas mais para dentro das lagoas. Mas, devido A
extrema aridez do ar, dA-so a rapid evaporagao das aguas e
as lagoas seccam por complete, pondo em risco toda a co-
Iheita.








- 22 -


Ainda na secca de 1915, isso se deu nas progimidades de
S. Matheus. A lag6a da Motuca seccou em setembro e os agri-
cultores, na imminencia de perder o fructo de seus esforgos,
recdrreram a um negociante de S. Matheus, Sr. Francisco
de Hollanda Montenegro, que contractor a irrigago do
arrozal cor agua dos pogos do rio Jaguaribe, distant cerca
do 400 metros da lag6a. Para 1l transportaram um motor a
lenha, montado em rodas, pesando 8.000 kilos, e uma bomba
de 1.200 kilos de peso. A bomba, collocada a cerca de cinco
metros acima do nivel do pooo, elevava a agua a 12 metros
por um cano de oito pollegadas e alincentava um rego, pelo
qual escoava a agua at6 a lag6a. Assim, apezar da secca, sal-
varanm a safra do arroz, que montou a 800 quartas, 25.600
litros, no valor de 16 contos de rdis.
Por este e outros innumeros exemplos, que poderia re-
ferir, se ve que o cearense nao se deixa immolar paciente-
mento como um cordeiro. Elle reage, peleja e se entrega
s6mente quando de todo extenuado. Morre lutando.
Por esse combat de dilatadas 6ras contra a natureza,
tirocinio secular de soffriirento e reacio, o sertanejo do
n6rdeste brazileiro adquiriu a rija e extraordinaria resis-
tencia que Ihe valeu ser cognominado nacionalidade .
Em outros pontos do Estado, onde por falta de lagoas e
acudes se esgotaram todos os recursos, jd os urubis repas-
tam na carnica, que err.pesta o ambiente.

A miseria e o exodo
A miseria ja bateu d porta do sertanejo: os viveres est~o
acabados, a cacimba jd seccou, o pequeno rebanho morreu;
o credit da venda foi cortado, a mulher e as creangas defi-
nham dia a dia. Os filhinhos pedem pdo e agua e o pae tern
s6rnente lagrimas para Ihes dar. Aggravam-se os soffri-
mentos, recrudescem as torturas, ao ponto de se ver ameagado
de rrorrer corn today a familiar em negra e intoleravel miseria.
Nesse transe amargurado, quando tudo o abandonou,
monos a esperanca em Deus, o cearense, alma de spartano,
heroico desbravador do Amazonas, renega a hora, em que ahi
nasceu, execrando a maldita terra madrasta, que recusa o









- 23 -


pdo a seus filhos. Entrega seu lar aos ratos e morcegos e,
desalentado, mas oom esperanga de melhores dias, inicia, em
companhia de seus velhos paes, da mulher e filhinhos, uma
nova phase de seu martyrio no caminho sangrento, inaugu-
rado por Pero Coelho de Souza, palmilhado por todas as ge-
rag6es cearenses e que para o future serd ainda muitas vezes
percorrido por bandos de famintos brazileiros, que por des-
graga sua tenham de nascer nesse desprezado pedago da Pa-
tria.
Ao long da estrada toscas cruzes, carcomidas pelo tempo,
relembram a more de infolizes retirantes das seccas passadas,
more miseravel, mas bemdita, que ds libertou de tantos
soffrimentos e infortunios. Pelo caminho drido e intermi-
navel os retirantes se alimentam da came apodrecida de rezes
mortas, da raiz venenosa da mucuna e de outras plants sil-
vestres. Os mais fracos e doentes vdo cahindo pela estrada e
morrem estorcendo-se nos esgares da fome.

Abrigados nos audes publicos
Os primeiros chegados se installam perto dos aQudes pu-
blicos e ahi se entregam d agriculture.
O agude Acarahii-mirim, cor a capacidade de 60 milh6es
de metros cubicos de agua, situado no municipio de Santa
Anna do Acarahd, abrigou muitos retirantes na secca passada.
A esse respeito o relatorio de 1915 da Inspectoria de Obras
contra as Seccas diz o seguinte:
((Durante a secca de 1915, este agude prestou grandes
beneficios nao s6mente as populao6es das suas circumvizi-
nhangas, mas, tambem, aos retirantes que, em elevado nu-
mero, se refugiaram nas suas immediag5es e aos quaes
foram distribuidos, em lotes de 40 metros, os sous terrenos de
vasante para cultivos.diversos, vindo a proposito notar que,
no fim do anno, existiam alli para mais do 200 families, vi-
vendo do product das cultures de arroz, milho, feijao, ba-
tatas, melancias, melees, etc.
AAccresce que as aguas do aqude, onde se dessendentavam
para mais de 5.000 cabegas de gado, s6o abundantes em pei-
xes, tanto que a pesca se fazia alli em toda a bacia do acude,
calculando-se em 2.000 a media de peixes pescados diaria-









- .21 -


mente. Do product da pesca uma parte era aproveitada para
o sustento dos habitantes dos terrenos do agude e outra ven-
dida pelos retirantes em Massape, localidade vizinha ao agude.
<< Nas vasantes desse reservatorio cultivou-se canna, de que
se vendiam diariamente, durante os ultimos mezes do anno,
cerca de 2100 cargas, nos mercados vizinhos de Massape, Santa
Anna e Sobral, A razdo de 5$ cada uma.
pim, que serviram para alimentar perto de 3.000 animaes,
ou seja a maior parte do gado dos criadores vizinhos do
agude e, ainda, abastecer *o mercado de-Massape.
xaram 3,72 metros.
O outro acude public 6 o do Quixadd, o maior reser-
vatorio do Ceara. Sua capacidade 6 de 125.000.000 de metros
cubicos, mas no comego de 1915 havia nelle s6mente 50.558.550
metros cubicos de agua.
Os terrenos a *sua margem foram divididos em lotes de
40 metros de largura por 80 de fundo, sendo 30 metros de
acude a dentro e 50 metros. da linha de agua para f6ra.
Havia ao todo 559 lotes, occupados por igual numero de fa-
milias, ao todo 3.973 pessoas. A pesca nas aguas do agude
foi tambem um important recurso para os famintos: o re-
latorio da I. O. c. S. calcula a m6dia de peixes apanhados
diariamente em 2.700, sendo parte consumida pelos pes-
cadores e o restante, depois de salgado, vendido para a re-
dondeza em cargas e por via feriea, tendo a exportacao mensal
pela estrada de ferro attingido a elevada cifra de 2.120 kilos,
SAdmittindo-se o peso de 300 grammas por peixe, diz o
'mesmo relatorio, p6de avaliar-se approximadamente que o
agude forneceu 295.000 kilogrammas, durante o anno de 1915,
os quaes, distribuidos pelas 4.000 pessoas ribeirinhas, deram
para cada uma 76 kilogrammas.
Na bacia irrigada foram localizados mais 1.665 retirantes,
havendo o acude fornecido agua para a irrigagco de 600 he-
ctares de terra, pertencentes a 120 proprietarios.
Ha projects para a oonstrucgo de canaes para a irri-
gagao de 1.300 hectares de terra, mas at6 hoje foram abertos
s6mente os canaes para 600 hectares.









- 25 -


E' um facto indiscutivel que o local do agude do Qui-
xadd foi mal escolhido. a bacia hydrographica 6 pequena em
comparagdo corn a bacia hydraulica, advindo dahi a proba-
bilidade de nunca encher o acude; al6m disso as terras irri-
gaveis, muito salitrosas, sao das peiores do Ceard.
Entretanto, o aQude prestou inestimaveis servings na secca,
abrigando contra a fome e a sdde 5.638 pessoas e 5.000 ani-
maes, na bacia de irrigag. o e na bacia hydraulica.
O acude de Aracahu-mirim nio ter rede de irrigacdo e
por isso os retirantes se installaram s6mente nas niargens do
mesmo.

Soccorridos pelas obras em construcAo

Outros retirantes so empregaram: 1) nos aqudos cm construc-
;ao pela verba orqamentaria da Inspectoria de Obras contra a Secca;
2) nas obras de soccorro (aQudes e ostradas de rodagem) executadas
pelas verbas extraordinarias de 55.000 contos para soccorro dos flagel-
lados, a 3) no servico do prolongamento da Rede de Viagao Cearenso.
Vejamos agora quantos famintos foram soccorridos por esses
serviqos.
1) A I. 0. c. S. continuou a construcqao dos seguintes aqudos:

Au191 Possoal
Aude Operarios e material
Acarape do Meio..................... 478 252:5385134
Tucunduba........................... 1.000 93:30,$365
Salao...................... ........... 700 46:94:1602

2.178 392:782$101
2) 0 total de credits abertos at6 hoje por conta das verbas de
soccorro aos flagellados foi do 11.500:0003, send para o Ceari :
Em 1915........................................ .550:000000
Em 1916.................................... 1.020:000$000
Em 191 ........................................ 860:0005000

3.430:000S900
At6 hoje foram gastos no Ceara :
Em 1915 (tres mezes) ........................... 669:436$879
Em 1916........................... ......... ..... 2.039:901$401
Em 1917....................................... 251:523S380

2.960:861$660









- 26 -


As obras do sccorro mandadas construir no Ceara e iniciadas enm
outubro de 1915 foram as seguintes:


Agudes de terra:
Caio Prado.......... ......................
Parasinho ......................................
Patos ..........................................
Guayuba .......................................
Volame ........................................
Riacho do Sangue...............................
Bah ........................................
Varzea da Volta ................................
Mulung6....................................
Estradas de rodagem:
Sobral-Meruoca .............................
Baturit6-Guaramiranga........................
Quixadd-R. do Sangue..........................

Total...........................


Dospezas:
Operarios .................... .
Pessoal technico......... ......
Material................... ......

Total. .........


1915
363:4390962
38:251$547
267:745$370


1915 1916
Operarios
499 177
309 227
807 585
588 77
308 176
1.403 1.037
203
-- 147
203


505
883
203

3.011 4.441

1916
1.580:525$372
214:391$030
244:0849090


669:4368962 2.030:001$401


3) Ao mesmo tempo o Governo mandou, cor o dinheiro deposi-
tado no Banco do Brazil para este fim, que entio se elevava a r6is
7.271:381$736, prolongar a Rede de Viacao Cearenso, cujo contract
de arrendamento e construccao cor a South American Rlwy. Con-
struction Co. Limited f6ra annullado.
Os trabalhos do prolongamento da Estrada de Ferro de BaturitB
foram iniciados a 24 de novembro de 1915 e da Estrada de Ferro de
Sobral a 15 de dezombro, send o seguinte o numero de trabalhadores
dos referidos services e as despezas feitas:
1915 1916
Operarios
Estrada de ferro:
Baturitd ................................ 3.000 2.700
Sobral ................................. 1.289 1.022

4.289 3.722









- 27 -


Baturitd:
M material ...................
Pessoal ...................
Sobral:
Material .................
Pessoal .............. ......


1915

366:177$111
148:007$737


13:230$976
24:069$778

551:485$602


Despezas
1916

164:751$533
1.277:794$1774


65:748$776
525:620$916

2.033:915$999


SRecapitulando o numero de retirantes, que obtlyeram
soccorro nas, obras em construogco e abrigo nos agudes pu-
blicos ji construidos, temos:
Retirantes soccorridos pelas obras em construcgdo, to-
mando-se por base sete pessoas de familiar por operario:
Operarios Retirantes


1. Pela Inspectoria de Obras contra as
Seccas:
A contar de 1 de janeiro de 1915..........
A contar de novembro de 1915............
2. Pela verba extraordinaria de soccor-
ros:
A contar de 1 de outubro de 1915..........
3. Pela RIde de Viaqgo Cearense:
A contar de 24 de novembro e 15 de de-
zem bro de 1915 ......................


478 3.346
1.700 11.900



3.911 27.377



4.289 30.023
10.378 72.646


Retirantes abrigados pelos aQudes:
Quixadi e Acarahti-mirim......................... 7.039
79.684
Os infelizes, que nao conseguem trabalho nem abrigo, con-
tinuam sua via dolorosa.
Ap6s percorrer leguas de caminhos pedregosos, expostos
aos raios do sol abrazador, chegam ao ponto terminal da es-
trada de ferro, onde encontram milhares de irmaos de infor-
tunio.
Pelas ruas da cidade vagam esqueleticas figures esmo-
lando; nos arredores, debaixo das arvores armaram suas r4des









- 28 -


outras victims do terrivel flagello. Andrajosos e mirrados,
parecendo antes mortos, fugidos de suas tumbas, causa d6
vol-os: aqui, 6 um velho honrado, antigo fazendeiro abastado,
de boa estirpe, que, rodeado de sua familiar, se prepare para
morrer; seus gemidos cruciantes indicam a sua proxima agonia;
vae descansar das miserias soffridas, deixando no mundo, na
mais extrema pobreza, entregues a sorte cruel, as suas filhas
moeas. Ali, 6 uma criancinha que more, coberta de nojentas
moscas; al6m, uma pobre mde abandon os filhos para nao
vl-os morrer de fome nos seus braGos. Passa aqui uma louca,
que a tantos infortunios nao poude resistir. Ali, prevalecendo-
se da fome e miseria de uma infeliz menina, um monstro de
f6rma humana a seduz nor uns miseraveis nickeis.
0 SR. MOREIRA DA ROCIHA-E' a fiel descripgdo do exodo
dos retirantes.
0 'SR. ILDEFONSO ALBANO-E' um quadro contristador de
infamias e does, presenciado eem um paiz opulento como o
nosso, onde colonos estrangeiros teem sua vida e bem star
garantidos, mas os brasileiros morrem de fome !
Esta photographia represent o povo agglomerado na es-
tagdo do Iguatd, ponto terminal da estra'da de ferro, por oo-
casiho da chegada all de um trem de excuraso. Um redactor
da Folha do Povo, assim descreve esse espectaculo:
< excursdo entrou na cidade do Iguat6. Massa compact de re-
tirantes se apinhava na gare e suas immediag6es. Nas suas
physionomias liam-se, ao primeiro golpe de vista, todos os
dolorosos transes por 'que teem passado. Homens, mulheres,
mocinhas e criangas, todos apresentavam o mesmo estado de
penuria e inanicqlo. Esta legilo de desgracados avangava de
mSos supplies para todos n6s, arraneando-nos, com as ul-
timas moedas, de que nos haviamos premunido, as phrases
mais sinceras de nossa commiseragco.
possuir milh6es para ir depositando naquellas maos mirradas
pela fome I
< Registramos aqui, como actos dignos de elogios, a lem-
branga da administragdo da Brazil N. Eastern Railways, en-
viando pelo seu distincto empregado Sr. Maciel a quantia de






















VIA, 'T
F"$YT.


Famintos agglomerados na estaqio de Iguatu ( pag. 28).


__









- 29 -


500$ e a Associac.o Commercial, dando a seu representante,
nosso illustre companheiro Antonio Fiuza, a importanoia de
300$ para distribuirem pelos pobres retirantes.
cilmente os dous esmoleres podiam se desempenhar ;da ca-
ridosa missio. As pobreg victims da miseria avangavam para
o ponto de distribuigco em um impeto, que s6mente a fome
produz. Atropellavam-se, cahiam, bradavam, procurando cada
um chegar primeiro, cor o receio bem fundado de que as
esmolas se acabassem antes de chegar a sua vez.
Foi nessa occasiio que uma pobre mulher teve uma
prolongada syncope, sabendo-se depois que fazia ji tres dias
que ella nao comia.


Rodolpho Theophilo e a variola

Na secca de 1915 s6 nao nos foi dado assistir d irrupgo
da variola, at6 entdo a tetrica e field companheira da fome,
que reduzia os famintos a ulceras de pis para entao matal-os.
Este beneficio incalculavel devemos unicamente ao beneme-
rito cearense Rodolpho Theophilo, que ha 17 annos, com rara
tenacidade e invejavel paciencia, vencendo immensas diffi-
euldades e'triumphando dos embaragos creados por. governor
impatrioticos,. tern preparado vaccina a sua custa, distribuin-
do-a gratuitamente para todo o Estado e vaccinando gratui-
tamente em Fortaleza.
0 SR. MfOREIRA DA ROCHA--E' um cearense benemerito.
(Apoiados.)
O SR. ILDEFONSO ALBANO--Esta campanha 6 tanto mais
meritoria, quando se sabe da prevengdo que o povo ignorant
ter pela vaccina e quando vemos que aqui no Rio de Janeiro,
a capital saneada e civilizada do paiz, a Saude Publica, cor
o fim de combater a variola, manda affixar em todas as es-
quinas enormes cartazes convidando o povo a se fazer vac-
cinar.
A respeito daquelle bcnemerito cearense, a quem o Es-
tado deve esse beneficio, que jamais podera pagar o Dr. Nor-
berto Bachmann escreveu o seguinte em sua these, intitulada









- 30 -


YVariola e Estreptococco defendida na Faculdade do Rio
em 4 de abril de 1910:
saltam os grandes e bons; um home s6, de encontro as for-
midaveis barreiras da ignorancia do povo e da rotina dos
governantes, pedindo, exhortando, convencendo, inabalavel em
sua fE de scientista-e de crente, conseguiu eliminar das plagas
cearenses o mal cruelmente assassino. ,Ndo ha mais variola
no *Ceard; e nesta terra formosissima e boa, Esparta de an-
tanho revivescida, terra de fortes, terra de heroes, nunca se
olvide o nome puro de Rodolpho Theophilo, o mais benemerito
de seus filhos.
<(Ao lidimo representante desta raoa vigorosa, nobre e
pertinaz, ao grande trabalhador, ao scientist proficiente, ouja
vida sem jaGa 6 exemplo acrysolado do valor da virtude e
do saber, neste meu pequeno trabalho, saudo reverente. Mos-
trem-se-lhe gratos os filhos do sul, si os do norte ndo o
sabem ser bastante.
intenierato cearense, volvamos ate-ao Rio de Janeiro. Na Ca-
pital dessa cultissima nagco brazileira, os obituaries dos ul-
timos 45 annos (1865-1909), registram 32.597 fallecidos, .em
11 epidemias .de variola, que se succederam neste espago de
tempo, e dresses nada menos do que 9.046 (nove 'mil e qua-
renta e seis) corresporidem a ultima epidemia de 190!8-1909.>


0 campo de concentrago ) em Fortaleza

Do Iguati seguem os retirantes para Fortaleza pela es-
trada de ferro em carrots de passageiros, de mercadorias ou
de animals.
Na capital airida nao firida o martyrio desses infelizes
brazileiros.
Na seoca de 1916 foram elles, em numero que attingiu
35.000, encurralados em um grande cercado as portas da ci-
dade. Viviam debaixo de cajueiros sem folhas, expostos ao
sol e d chuva, em complete promiscuidade; recebiam diaria-
mente uma miseravel raodo de comida e satisfaziam as suas
necessidades <. (Nesse ambiente de immundicie ir-


























-U- -I


, -


Viuva Euclides Maria da Penha antes e depois da morto
de seu filho Francisco ( pag. 31).









- 31 -


rompeu uma terrivel epidemia de paratypho, fazendo innu-
meras victims entire os retirantes e habitantes de Fortaleza.
Nesse curral de gado humano se repetiram as mesmas
lancinantes scenas de miserias do Iguatt:
Talvez seja eu acoimado de exagerado e accusado de car-
regar nas cbres das descripgoes, que venho fazendo. Nada mais
natural, do que pensarem assim, pois, quem nunca teve a in-
felicidade de corihecer de perto os deploraveis supplicios *que
soffrem os meus desventurados patricios, quando acossados
pela fome, iquem do Brazil conhece sdmente o Rio e os Estados
mais ricos e prosperos, corn suas estao6es regulars e seus
rio.s perennes, nao poderd fazer idea do que seja uma secca.


Photographias de retirantes

Quero mostrar 6 Camara algumas photographias apa-
nhadas por mim em Fortaleza, nos mezes de marco e abril
oe 1916, quando, jd finda a secca, quasi todos os flagellados
haviam regressado para o interior do Estado.
A primeira photographia, apanhada no mercado, a 25 de
marco, represent a viuva Euclydes M:aria da Penha e seus
tres filhos, naturaes do Riacho da Sella, term do Arraial
onde se entregavam d agriculture em terreno de sua pro-
priedade. .Com a more de seu marido Quirino Jo .de Salles,
em consequencia da secca, a viuva abandonou sua terra e veiu
com os filhos, a pe, peroorrendo 90 kilometros, at6 Fortaleza,
onde se achavam ha cerca de oito mezes. Notei que o. pequeno
Francisco, sentado a direita de sua mde, estava tio magro e
desfeito, ,que resolvi ir a sua barraca apanhar uma photographia
melhor. La chegando, a 3 de abril, fui informado de que havia
morrido de diarrhea a 31 de margo; e que o menino menor es-
tava recolhido ao Instituto de iProteoGdo a Infancia. Nessa
occasido apanhei a segunda photographia da viuva Euclydes
Maria da Penha com seu filho maior; a pobre mulher se
queixava de uma forte dor de cabeca e de uma fraqueza e
desanimo. extremes.
A seguinte photographia, apanhada a 25 de marco, no
mercado de Fortaleza, represent Maria Silvana, natural do
Bahl, com seu filhinho, uma verdadeira mumia. A infeliz
nulher chorava e escondia o rosto.









- 32 -


Esta photographia, apanhada a 27 de mareo, 6 da pequena
Maria, de cinco annos de idade, corn sua mde Maria Fran-
cisca, casada cor Jos6 Pereira, ique ha cinco annos se achava
no Amazonas, sem dar noticias de si. Entregavam-se a agri-
cultura em Lagoinha, a sete leguas de Lavras. Cor a secca
e a miseria abandonaram suas terras e andaram a p6 80 ki-
lometros, at4 Iguatd e- dahi pela estrada de ferro at6 For-
taleza.
Esta outra photographia represent a pequena Anna, filha
de Raymundo Pinheiro do Nascimento e sua mulher Antonia
Nascimento, agricultores em S. Jos6 de Piranha, na Parahyba.
E', como se v6, um pequeno cadaver ambulante.
A seguinte photographia 6 de Salustiano Alves Bezerra,
sua mulher, cinco filhos, cunhada *e sogro Antonio Moreira,
velho encanecido na luta honrada e laboriosa. Sdo naturaes de
Pedra Branca, onde se dedicavam a agriculture. Quando a
seoca apertou, deixaram sua terra e percorreram a p6 cerca
de 240 kilom6tros, tendo levado na travessia uns quatro me-
zes. Em Baturit6 morreram dous meninos, em.c.esequencia
da anasarca e, cor se ve dessa photographia, um firceiro esta
cor o mal adeantado, e uma menina, cor a pelle sobre os
ossos, em breve serd victimada pela mesma molestia.
Esta ultima photographia represent uma mulher martyr,
Umbelina do Nascimento, segturando ao collo sua filhinha
Maria Celeste, doente de diarrhea. Esta mulher, seu marido Vi-
cente Lopes Ferreira, 11 filhos e um genro eram agricultores'
no Pacoty, na serra de Baturit6. Em virtude da seca venderam
suas terras por 80$ e vieram para Fortaleza a p6. Ahi morreram
de diarrhea o marido della, dous filhos, uma filha e um neto
e, como se estd vendo pela photographia, -estava prestes a'
succumbir a pequena :Maria Celeste, que cor sua physionomia
de dor e seu corpo disfornie 6 a figure do Ceard, depois de
uma secca, alquebrado e reduzido a um feixe de ossos. Infeliz
crianca innocent, tiveste esse triste destiny, porque nasceste
no iCeard !
0 IS. Josi AUGUSTO -E' de cortar o coraaoo a exposigco
destes factos. (Apoiados.)
O SR. ILDEFONSO ALBANO Estas photographias, apanhadas
em marco e abril de 1916, jd depois do inverno de 1916 iniciado,
















S 1-


Anna, 5 annos do idade (pag. 32).


I


Maria, 5 annos do idade (pag. 32).


Maria Silvana (pag. 31).








- 33 -


dispensam quaesquer explicag6es ou. commentaries, pois sao
provas eloquentes e insophismaveis da miseria e soffrimento
dos cearenses em tempo de secca.
Infelizmente nao me foi. possivel obter photographias
apanhadas no auge da secca, que seriam ainda mais horrorosas
e tristes.


Testemunho insuspeito

Ainda em testemunho das minhas affirmaeges citarei o
Dr. Ernesto Antonio iLassance Cunha, natural do Rio Grande
do Sul, engenheiro distinct, que, em commission na Estrada
de Ferro de Baturit6 durante longos annos, assistiu as seccas
de 1877-79 e 1888 e viu de perto o soffrimento do Ceard. Este
illustre engenheiro, a quem nosso Estado muito deve, escreveu
em 1900, no Correio do Povo, de Porto Alegre, various ar-
tigos sobre as seccas do Ceard. Seu testemunho, absolutamente
insuspeito, e por isso muito valioso. So delle os seguintes
trechos:
<< Que 6 o exodo, a viagem dos longinquos sert6es para o
littoral durante uma secca?
timento moral e a sua perversdo! E' o caminhar entire duas
laminas de ferro em braza o sol, idando ao ambiente uma
temperature superior a 400, e o solo impedernido, concen-
frando-a e reflectindo-a! E' o constant espectaculo de esque-
letos em march e o da morte do home e do irracionall E' o
atravessar uma atmosphere fartamente impregnada do cheiro
nauseabundo- do cadaver em putrefacodo, orchestrada cor as
notas funebres e tetricas ,dos prantos e gemidos do viajor.
E' o esLalar dos labios do recem-nascido, lutando para
sugar alimento ,do seio atrophiado da mulher-mEe e o solugar
desesperado desta por nao poder fonnecel-o!
< o largo e variado banquet de carnes podres, para furtar ao
corvo sua repugnante presa.
< E' a miseria indefesa e torturada sem treguas por tudo
aquillo uque p6de ultrapassar a imaginagdo do genio mais feroz
e cruel !









- 34 -


rante cearense!
<:Passemos a descrever como 6 feita a viagem. 0 abas-
tado de hontem enceta a viagem a cavallo, para continual-a a
pd, desde o moment em que o animal cae extenuado ou
morto. 0 proletario faz a pd toda a viagem, vencendo distancias
de dezenas de leguas.
S<0 abastado leva como bagagem a roupa do corpo e a
(sacco de couro .de ovelha) pendida as costas, guar-
dando a r6de e o alimento. 0 hombro serve de apoio ao borddo
em que traz dependurada a borracha (sacco de couro curtido
para conduzir. agua).
< Sua alimentagdo 6 a care de vacca ou cabra, secca ao
sol e pilada, corn farinha de mandioca e rapadura. A bagagem
do proletario a sua vestimenta composta de camisa e ceroula
de algoddozinho, alperoatas e chap6o de couro. Nada carrega
comsigo, porque todo seu possuido abandonou antes de partir.
Quando o corpo pede descango, atira-se ao s6lo quente.
< Quando senate fome, alimenta-se cor raizes toxicas, como
a da mucun>>, do .e, si estes
faltam, come a came ja putrefacta de -qualquer boi que en-
contra morto!
beber agua. Ahi cava um buraco e is vezes ter a fortune de
encontrar algumas gottas d'agua salgada. As alimentagces ci-
tadas, que usam abastados e proletarios, produzem: nos pri-
meiros, pela insufficiencia de elements nutritivos, um depau-
peramen'to geral do physico, daado-lhes o aspect de verda-
deiros esqueletos; nos segundos a ingestdo da substancia toxic
da mucund produz grande diarrhea e uma infiltracEo geral
no corpo, dando a este, principalmente ao abdomen, proporo5es
:as mais exaggeradas.
Algumas turmas de retirantes deparam as vezes cor
'uma grande felicidade, qual a do encontro corn um bando de
avoantes , pequenas pombas, do tamanho da r6la.
< Por occas'io das seocas ellas emigram em bandos de
muitos milhares, produzindo, quando voam, geralmente em
pequena altura, um zumbido extraordinario.
SRepentinamente pousam no campo, onde muito pouco














I..,
Aq.


>-7


Salustiano Alves Bczcrra e sua familiar ( pag. 32 ).


-+bh ~


-4i;









- 35 -


se demoram,.sendo nessa occasido facillima a caga de centenas,
mesmo a pedra. Quando retomam o vOo, o campo fica alastrado
de ovos.
< O retirante seoca ao sol o product da cagada e assim
tem alimento por alguns dias.
eaminho a quem a morte ou o exgottamento de forgas impede
seguir jornada ti'o triste e lutuosa.
< Apesar de doentes e extenuados pela fadiga, suas marchas
sLo acceleradas. PAram s6mente o tempo precise para se ali-
mentarem, iquando teem comn que, e para poucas horas de
somno. Assim 6 precise, para poderem alcangar o primeiro
povoado, onde talvez possam refazer as forgas para. prose-
guirem na viagem.>
As cidades na proximidade da capital, nas quaes se de-
moram os retirantes para reanimar o organismo, o Dr. Las-
sance Cunha descreve do seguinte modo:
privilegiado que tenhaes vosso estomago. Ella 6 constituida:
pelos gazes exhalados das dejecg6es intestinaes e renaes de
milhares de pessoas em sua maior parte enfermas, cimentando
o s6lo; pelos de dezenas de cadaveres de homes e animaes
mal sepultados ou insepultos por muitas horas; pelo fumo
desprendido de vasos cosendo alimentos impossiveis; final-
mente, e talvez peior que tudo isso, pelo cheiro nauseabundo
e peculiar ao retirante e que 6- intoleravel a dez metros de
distancia. Collocae todas essas podrid6es sob a influencia dos
raios solares e sentireis alguma cousa mais nojenta e repu-
gnante, que as exhalagbcs da cloaca mais immunda.
< o ambiente em .que estio mergulhados.
nado; tende, por6m, paciencia; 6 precise que olheis para a
rua, afim de verdes commo a natureza ter mais saber inventive
que o home, no sentido de descobrir crueldades para torturar
a humanirdade. Principiae olhando para o conjuncto do quadro,
para depois examinardes os grupos.









- 36 -


< 0 que v6des? Dez, quinze, vinte mil pessoas, de ambos
os sexos, de todas as idades e hontem de todas as condigoes
sociaes. Uns vestidos, outros .quasi vestidos, muitos cobrindo
a nudez com uma tanga e ainda muitos, principalmente as
criangas, completamente nis. A poeira argamassada com as
secreg6es da pelle, empasta-lhes o corpo e os cabellos des-
grenhados, dando-lhes aspects .os mais nojentos. Parte dess'
povo estd reduzido pela fome a verdadeiros esqueletos e aptos
a servirem com vantagem em estudos osteologicos; outros
formam antithese complete cor seus corpos exaggeradamente
deformados pela anazarca. 0 mais robusto andando livre-
mente ou servindo ide board~ o A velhice depauperada pela mi-
seria e pela fome. Al-guns arrastando-se com difficuldade,
outros arrastados, por jd, ndo terem os membros inferiores a
energia precisa para carregar-lhes o tronco do corpo. Muitos
deitados pela molestia e nao pequeno numero de cadaveres,
tendo estes o s6lo para ega, o ambiente para camera ardente,
os raios do sol e das -estrellas para brandies.
< As arvores desfolhadas serve ide abrigo > as families e
a pequena area limitada pelos galhos desempenha os papeis
de salio, refeitorio, dormitorio e latrina.
< Os solteiros teem aposentos mais vastos: qualquer ponto
da rua 6 commoda habitagdo para a necessidade -do moment.
ambos. os sexos, geralmente cegos, que em c6ro plangente
pedem esmola em nome de Deus; mais adeante, um outro
grupo, de joelhos em torno do moribundo e que de vozes lu-
gubres e ritual pedem ao Omnipotente que a alma do infeliz
tenha logar na mansdo celeste. Aqui, est~io assentados grupos
de dous ou tres.individucs, tendo ao lado um sacco de farinha,
estilhagos de care velha (xarque) e um pote de mel, .que
gritam desabridamente apregoando a mercadoria exposta d
venda. Alli, individuos esparsos offerecendo em altas vozes
ao mercado os restos de sua fortune, um cordio de ouro, um
amuleto, um brinco, uma ipea de roupa, retalhos de uma r6de
ou o proprio chap6o de couro.
vadores, que ao som de uma viola duellam-se, tendo para
armas as trovas alegres de uma canodo popular do sertdo.




























I I


wr '~i
f


Maria Umbelina e sua filhinha Maria Celesto ( pag. 32 ).









- 37 -


Pouco al6m escuta-se o gemido do enfermo e o gemido do
faminto. Repentinamente ha como que um turbilhio que abafa
a todas essas vozes, que no mesmo palco cantam, em c6ros dis-
tinctos, a pobresa, a agonia, a more, a alegria, a avareza, a
miseria e a Id6r physical: 6 a algazarra produzida pela garga-
lhada estridente, com entonaqOes roubadas As feras da mi-
seria animada em muitos-vaiando sob qualquer pretexto a
mesma miseria encarnada em um s6.
< Com a descripgdo que acabamos dde fazer, podiamos nos
dispensar de descrever o moral dessas infelizes creatures,
naturalmente e em absolute abatido e deprimido pelo aban-
dono do lar, pela perda dos meios de subsistencia, pela morte
de pessoas caras e pelos horriveis soffrimentos do corpo. A de-
ducco 6 facillima. Cor effeito, o que esperar da vida obri-
gatoria e commum de milhares de pessoas, sem distincao de
classes, nem dde costumes, em estado quasi de nudez e nivelados
pela miseria?
cQue sorte p6de aguardar a orphandade da donzella e a
viuvez premature, ambas desamparadas e pedindo um pao
para ndo morrer de fome, quando 6 certo que existem no
mundo fdras disfarcadas em homes e por conseguinte mais
ferozes que ellas? Nao queremos proseguir em tal assumpto;
respeitemos e tenhamos compaixdo dos que sLo martyrizados
pela fonme de mdos dadas cor a peste. Lamentemos a sorte
do retirante cearense.
e soffrimentos descriptos, a arrastar-se para as cidades do
littoral, affluindo a maior parte para Fortaleza em busca do
soccorro public, garantido pela Constituigao e fornecido pela
caridade particular.
< Nao nos deteremos em descripobes minuciosas sobre o
que se passa nesses centros populosos. A synthese 6 infeliz-
mente a seguinte: todos os soffrimentos physics e moraes
jiA descriptos, apenas modificados pela rapgo dada como es-
mola ou como salario.
< Isto nao os salva, minora-lhes pouco os soffrimentos.
<
partilha dos soffrimentos.









- 38 -


< porque o commercio, por via maritima, abastece-se de ge-
neros alimenticios; porem uma populagdo adventicia de muitos
milhares de pessoas nas condigoes descriptas, mal alimentadas,
pessimamente abrigadas das intemperies, doentes, sem nogao
dos principios da mais elementary hygiene: entupindo as ruas
e pragas, sao desgraCadamente portadoras fieis da peste, cara-
cterizada por febres de differen'tes species, predominando a
biliosa, pela diarrhea, variola hemorrhagic e outras, tendo
origem microbiana em materials fermentaveis, notadamente nos
escrementos humans.

estado moral da populagdo de ,Fortaleza e o que estava re-
servado para cada individuo ou familiar no dia de amanha.

SA tristeza, o panioo, o terror, actuando como deprimentes
no moral, unido a falta ,de recursos, pelo desbarato que soffreu
a 'ortuna particular, impedia a populango da capital .a tomar
a unica resolugdo salvadora: a fuga immediate por via mari-
tima. Era, pois, uma cidade bloqueada. Era a miseria blo-
queando a miseria, a fomne e a peste.
< Nao precisamos dizer mais nada sobre tao triste assumpto.
Cada linha que escrevemos, a penna nos treme, e por dous
motives: martyrizar a imaginagao relembrando tragedia tRo
dolorosa, e a idea de ique nosso caro Ceai~ esti outra vez
convertido em palco para uma nova representagao. Muito re-
ceiamos que a nossa singela descripoao seja taxada de exagerada
e damos raza,o a quem assim o julgar. Quem vive er clima
tao regular e ameno quanto o sul do Brazil, cujo s6lo, por
sua constituigdo geologica e por ser irrigado perennemente,
ter qualidades e proporq6es para servir de celleiro a grande,
parte do mundo, difficilmente poderd admittir e tomar come
veridicas nossas descripg6es.
< estavam -em exposiao temos uma prova material para
convencer e demonstrar, quao long da cruel realidade estdao
os nossos escriptos.D














/11


IL2' eiv.-


1. Retirantes esmolando nas ruas de Fortaleza.
2. Rotirantes reccbendo passagens para emigrar.
3 Embarque do retirantes ( pag. 39 ).


(


!AN









- 39 -


Essa fiel descripgdo do exodo dos flagellados mostra ique
o Dr. Lassance Cunha viu de perto e sentiu corn os cearenses
a desgraga soffrida ,durante as seccas, ficando-lhe della uma
impressao tlo nitida, que annos depois nos ,poude expor aquelle
espectaculo de miserias e infamias em cores to vivas.
Como muito bem rdiz o illustre engenheiro, seus escriptos
estdo long da verdade, pois ninguem 6 capaz .de-exprimir em
palavras as agruras atrozes, -os infames soffrimentos da alma
desses infelizes entes humans, brazileiros de nascimento, acos-
tumados a uma vida de trabalho honrado, relative bem-estar
e prosperidade, que de repente se v6em na mais profunda des-
graga, arrastando suas esqualidas e maceradas figures de pere-
grinos da fome pelos mirrados sert6es cearenses, passando dias
de provaeges e amarguras e assistindo ao descambar, ao anni-
quilamento physico e moral dos entes queridos, percebendo que,
dia a dia, a miseria e o vicio se infiltram em seu meio, minando
continue e surdamente o seu lar honrado. Fibra de heroes,
querem reagir comr energia, mas, finalmente, deante de tantos
revezes e tamanhas angustias, esquecidos dos homes e como
que abandonados de Deus, se entregam desvairados a um indif-
ferentismo morbido e impassivel.
Essas tragedies formidaveis,que se teem desenrolado nos
sert6es do nord6ste, debaixo 'da sombra hospitaleira do auri-
verde pendcIo patrio, pennas nao descrevem, phrases ndo con-
seguem pintar.

Emigrantes

Mas... a esses parias aviltados resta ainda uma esperanga:
S. Paulo, Minas, MaranhAo, Pard, Amazonas, o Eldorado, a
patria dos rios, a terra da agua eterna e do ouro negro.
Com empenho conseguem passages pelos vapores do
Lloyd, arrumam suas trouxas e, rumo feito para o desconhecido,
mas cheios de esperaneas e illus6es, 16 se vdo os cearenses,
desterrados do Ceard.
A tripulagdo dos vapores geralmente recebe mal esse bando
de flagellados, magros e andrajosos, verdadeiras mumias am-
bulantes, que lhe veem dar immense trabalho e empestar o
navio. A's vezes o vapor levanta ferro, sem levar as miseras
trouxas daquelles infelizes, -dividindo frequentemente as fa-









-- :40 -


milias, conduzindo. uma parte e deixando o resto desamparado
no Ceari.
A bordo continia o martyrio: amontoados no immundo
convez, em complete promiscuidade, ali passam o dia, ali
vomitani, ali dormexn. Os mais felizes vio morrendo durante
a viagem e diariamente sio langados na agua os cadaveres
minrados desses desprotegidos da sorte.
Os que cor vida chegavam ao Rio de Janeiro, em estado
de verdadeira lastima, como o public carioca teve oocasiao
de ver, eram hospedados .na ilha das Flores, de onde sahiam
para as fazendas de S. Paulo, Minas e Estado do Rio.
Cheios de novos alentos e com esperangas de melhores dias,
seguiam para seus destinos. La encontravam clima, comida,
system de trabalho, tudo, emfim, different de sua terra
natal. Difficilmente se adaptavam is novas circumstancias e,
corn a nostalgia, as saudades e as noticias de bom inverno,
vinha a vontade dde tornar ao Ceara.
O SR. THOMAZ RODRIGUES -E' bem conhesido o apego do
cearense a sua terra.
O SR. ILDEFONSO ALBANO -A Noite de 20 de janeiro
de 1916 publicou esta photographic, que me foi gentilmente
cedida pela redacCoo daquelle brilhante vespertino, repre-
sentando uma familiar de retirantes cearenses, encontrada nas
ruas desta Capital, a cujo respeito diz o seguinte:
< Os dolorosos quadros da miseria repetem-se a cada pass.
< Ainda hoje presencidmos um caso verdadeiramente triste.
necroterio, amontoadas todas a um canto, estavam trese pessoas,
onze das quaes criancas, sendo a mais velha de 15 annos de
idade. Tinham as vestes rotas, os rostos pallidos, os cabellos
em desalinho, offerecendo um conjuncto penalizador.
- typo de cearense, que deixa perceber atravez de sua phy-
sionomia tostada e rude os dolorosos transes por que ter
passado.
< Que fazem aqui? > interrogimos.
Nem mesmo eu sei, sedihor.>
< Ndo teem casa para onde ir?
<< Oh! si tivesse.. >









a


Um retiranto o snt I'amilia nas ruas do Rio do Janoiro ( pag. 40 ).


i


*I ~~


" ~`5.~L









- 41 -


tristeza, contando-nos -depois a seguinte historic:
< Ha quatro mezes elle, que se chama Antonio Arlindo da
Silva, corn sua mulher, doze filhos e sua velha mae, acossado
pela secca abandonou o Ceard, seu torrdo natal. Chegando aqui,
cor mais 1:8 families, foi contratado para trabalhar na fazenda
do Sr. Eduardo de Andrade, na estagao de Pedro iCarmo, no
Estado do Rio. Elle e seus filho's -entregaram-se ao trabalho de
apanhar caf6, durante mais de dous mezes. Dinheiro, porem, nao
reoebiam; a comida tambem era muito escassa. As suas vestes,
j~ velhas, tornaram-se inteiramente r6tas. Uma sua filha de
dous annos, Fideralina, uma noite veiu a fallecer de inanieoo.
Dous dias depois, do mesmo mal vinha a fallecer sua velha mae.
< A sua situagdo era insustentavel. Resolveu, entdo, vir
para aqui. Ha 20 ,dias partiu a pd com 11 filhos e 'sua mulher,
chegando aqui 15 dias depois, tendo no trajecto soffrido por
various dias os horrors da fome. Depois de vagar pela cidade,
foi ter d estago Genbral, onde um guard o conduziu para o
barracdo do Necroterio. Hoje, por6m, nao o quizeram mais ali
e expulsaram-no.>
< Penalizados, retirdmo-nos, procurando o agent da Central,
que nos disse have telephonado para o Povoamento do S61o,
narrando que ali se achava aquella familiar; si at6 d noite esta
reparticgo nao tomasse providencia, entregal-a-hia a policia. >
Factos penosos como esse, ique eu acabo de referir, hdo
de se ter reproduzido as dezenas, sem que delles se tenham
occupado os jornaes. Mui-tos flagellados em identicas condig6es
obtiveram do Ministerio ida Agricultura passagens para sua
repatriagao.
:Nao foram mais felizes os cearenses, que desembarcaram
no Maranhho. Recebidos gentilmente pelo Governador daquelle
Estado, quq tudo Ihes facilitou, foram internados para di-
versos pontos.
Paira a villa de Pinheiro foi uma leva de flagellados.
Para 1 foi tambem em dezembro de 1915 o Sr. Victor No-
gueira de Abreu, meu conhecido, agrioultor em Cannafistula,
no Ceard, que comsigo levou 20 families compostas de 130
pessoas. La chegando em janeiro de 1916, comprou a D. Ale-
xandrina Durand, no logar Cantagallo, ddistante de Pinheiro









- .42 -


Iquatro leguas, um terrenio de uma legua de frente por duas
de fund pela quantia de 300$000. Ahi mandou fazer abar-
racamentos para o pessoal e, no intuito de plantar um rocado,
apesar da pesada chuva, iniciou a derrubada da floresta, que
era composta ,de enormes arvores de 50 e 60 palmos de altura,
paparahubas, pdos d'arco, massarandubas, andirobas, piquys,
palmeiras, etc.
Dentro de pouco tempo morreram de febres e sarampo
perto de 40 pessoas, outras abandonaram o service, de sqrte
que em junho restavam. s6mente cinco families. Nessa con-
tingencia o Sr. Victor Nogueira, tambem doente de sez6es,
se viu obrigado a abandonar tudo e odar o terreno em paga-
mento de 1:500$, que havia pedido emprestado para o sustento
do pessoal. Voltou depois para sua terra, doente, tendo perdido
seu tempo e dinheiro, mas dando gracas a Deus por ter escapado
corn vida.
Uma entrevista do Sr. Lindolpho Barbosa Lima, conce-
dida ao Correio do Ceard em 14 de agosto de 1916, confirm
essa narrative. 0 entrevistado, chegado havia pouco do M'a-
ranhdo, disse que a colonia do Pinheiro chegara a contar
800 cearenses, mas que ji estava reduzida a menos de 300, tendo
muitos se retirado doentes e outros em busca de ganhos.
<
o local muito insalubre, se encarregou de odizimar a colonia
o impaludismo, auxiliado pelo sararmpo.

< absolute de recursos, sendo de notar !que querem voltar.>
Sabendo disso o illustre Presidente do Ceard, Dr. JoIo
Thom6 mandou elle offerecer passagens aos cearenses, que
quizessem voltar. Assim, foram repatriados muitos infelizes,
que a secca havia expulso de seus lares.


Amazonas, o Eldorado

Mas o Estado, que mais attrae o emigrante cearense, que
exerce sobre elle uma fascinaqio mysteriosa, 6 o Amazonas;
para l se odirige a maior parte dos que sdo desterrados pela
secca.









- 43 -


dDa sorte dos infelizes, que em 1915 buscaram aquellas
regimes, da-nos uma id6a o seguinte artigo do Correio do Ceardc
de 21 de setembro de 1916:
<<.Plela mala ,do ultimo vapor, vindo do norte do paiz, re-
cebemos uma carta, narrando-nos as funds agruras por que
passam nas insalubres paragons do interior do Amazonas, .os
pobres cearenses que, fugindo aos horrores ,da secca, foram
lI encontrar, porventura, mais cruciantes padecimentos.
< mente emocionante c grave um cearense que sabe sentir com
toda a alma a desgraca irremediavel de seus desafortunados
patricios.
< DA-nos informag6es de que para o rio IAripuana seguiu
uma leva de 180 emigrantes, e lh se tem sepultado todo este
grande numero de brazileiros desherdados, estando os que
sobrevivem fatalmente condemnados a sorte da quasi totali-
dade, que ji falleceu de impaludismo, pela razio de que nao
possuem reoursos para emprehenderem uma retirada de tdo
remotas paragens.
SComo as victims do Aripuand, muitos emigrantes teem
succumbido nos seringaes distantes, abandonados a miseria, a
insalubridade, a absolute falta de conforto..
< 0 Jornal do Commercio, de Mandos, conta-nos em seu nu-
mero do dia 11 do corrente umas scenas verdadeiramente dan-
tescas, das quaes sdo protagonistas algumas families cearenses,
abandonadas nas selvas do interior daquelle Estado.
SE' o caso de 50 pessoas, contractadas pela firma Moura
Brazil & Comp., de Mandos, para serem localizadas em se-
ringaes do interior, as quakes padeceram toda sorte de an-
megaram no serviCo de extraccdo da borracha.
< Homens, mulheres e oriangas foram transportados para
o igarap6 , onde construiram abarracamento e co-
megaram no serviGo de .extracCio da borracha.
As embarcag6es, que os haviam conduzido, regressaram
e aquelles seringueiros improvizados ficaram naquellas agras
paragons, distantes dos centros de abastecimento, sem o recurso
de uma simples canal
Escasseavam os viveres das suas parcas provis6es. O
tempo passava e ninguem Ihes apparecia.









- 44 -


< NIo Ihes bastavam os alimentos arrancados a matta f ra,
intrincada, impenetravel.
No dispunham de i'nstrumentos sindo os utensilios para
o fabric da borracha; nao estavam affeitos is condig6es do
meio hostile; seus organismos nao podiam resistir, pois, aos
accessos palustres e enfermidades que nao podiam combater,
porquanto nao Ihes tinha sido fornecido medicamento de ordem
alguma.
< A acco da *fome era concluida pelo assalto das molestias.
< To-do o desespero, em que se encontravam, abafava-se
no silenoio daquelles sitios ermos, desolados, impiedosos.
tino, que os enclausurara naquelle d6dalo inextricavel.
<< Assim, aquelle punhado de infelizes se foi extinguindo
aos pouoos, em uma agonia vagarosa e sinistra.
< tetrica aventura indescriptivel.
< Vinte e muitas pessoas jd haviam fallecido, quando final,
depois de tres mezes de crueis padecimentos, um dos socios
da firma Moura Brazil & Comp. se abalangou a visitar os aban-
donados das selvas.
< No primeiro abarracamento a que tocou constatou os
effeitos desoladores de *sua inqualificavel imprevidencia.
SOs isobreviventes foram transportados de l1 para outro
igarap6, salvo dous enfermos, cujo estado era deploravel e
Que ficaram s6sinhos, no meio da matta, aguardando a more
inevitavel.
< Como estes factos, .outros da mesma mnatureza se teem
realizado nas solid6es vastissimas e doentias das mattas do
Amazonas e do Pard, onde os flagellados eram atirados nas
colonies, ao idesamparo.
<<0 aos emigrantes, no Amazonas.
SSua acgeo, porem, nao se estendeu al6m da capital do
Estado, ficando nullo o seu trabalho, em virtude da md dis-
tribuigco desses infelizes, cuja sorte ficou d merc dos mer-
cenarios deshumanos e seringueiros gatunos.









- 45 -


< Tudo isso e o resultado da falta de patriotism brazi-
leiro, por isso que, s6 mesmo neste paiz, se abandon uma po-
pulagao faminta aos azares do destiny; sem o menor conforto,
nas praias dos portos onde tocam os navios enoarregados de
despovoar a zona alcanQada pelo triste flagello.
< tantos filhos, que o tufdo da desgraga arrojou f6ra do ninhol >
A corrente immigratoria do Amazonas 6 alimentada por
tres fontes: ha os miseraveis flagellados, homes, mulheres
e criancas, que, abatidos pela fome, abandonam o Ceard e
embarcam para 16 com passagens dadas pelo Governo; ha os
individuos, que, por falta de occupagdo em sua terra natal
ou em busca de aventuras e riquezas, procuram espontanea-
mente o norte. A terceira corrente 6 promovida pelos agen-
ciadores; sdo seringueiros cearenses, <, que voltam
d terra natal com o fim de contractor bragos para o Amazonas.
Sao sempre Ihomens insinuantes, conversadores, bem vestidos,
com correntao de ouro e annel de brilhante; discorrem com
verbosidade sobre a vida facil -do Amazonas, o clima ameno e
salubre, a grandeza das florestas, a fertilidade do solo e a
riqueza piscosa das aguas; contam histories de onga, distri-
buem dinheiro a mancheias e com engodos. e mentiras attrahem
para as paragens inhospitas do Rio-mar os homes e rapazes
mais fortes e robustos do Ceard, a nata de nossa populago
rural.
As families. destes ficam no Geard, onde uma vez por outra
recebeim auxilios pecuniarios, ate ohegar a noticia do desappa-
recimento do ente querido, victim de um beri-beri gallopante,
afogado num rio ou assassinado por um inimigo. 'Outros suc-
cumbem, sem que os parents tenham aviso de sua more.
Outros nunca dio noticia de si, e a mde carinhosa, a esposa
adorada, os innocentes orphdosinhos, entire esperangas e deses-
peros, choram a derradeira despedida de seu unico arrimo para
regi6es incognitas, e nos seus ouvidos echoam sinistramente
as palavras do velho relogio de Longfellow: < For ever, never.
Never, for ever >
NAo ha familiar cearense, que ndo tenha algum parent no
Amazonas, vivo ou morto.









- 46 -


Opinido de Euclydes da Cunha

Nao posso me furtar ao desejo de ler alguns trechos im-
pressionantes do vibrant escriptor Euclydes da Cunha sobre
o emigrante cearense, escravizado no Amazonas:
< V6de esta conta de venda de um home:
No proprio dia em que parte do Ceara, o seringueiro
principia a dever: deve a passage de pr6a at6 o Pard (35$
e o dinheiro que recebeu para preparar-se (150$000). Depois
vem a importancia do transport, num gaiola > qualquer, de
Bel6m ao barracao longinquo a que se destina, e que 6 na
media, de 150$000. Additem-se cerca de 800$ para os seguintes
utensilios invariaveis: um boido de furo, uma bacia, mil tigel-
linhas, uma machadinha de ferro, um machado, um tercado,
um pratos, duas colheres, duas chicaras, duas panellas, uma
cafeteira, dous carreteis de linha e um agulheiro. Nada mais.
Ahi temos o nosso home no < senhoril, antes de
seguir para a barraca no centro, que o patrdo Ihe designard.
Ainda 6 um < brabo > isto 6, ainda ndo aprendeu o < corte > da
encalGado de um comboio levando-lhe a bagagem e viveres,
rigorosamente marcados, que Ihe bastem para tres mezes:
tres de farinha d'agua, um sacco de feijao, outro
poqueno de sal, 20 kilos de arroz, 30 de xarque, 21 de caf6,
30 de assucar, seis latas de banha, oito libras de fumo e 20
grammas de quinino. Tudo isto Ihe custa cerca dde 750$000.
Ainda nao deu um talho de maohadinha, ainda 6 um < brabo >
canhestro, de quem chasqueia o tem o compromisso s6rio de 2:090$000.
<'Admittamos agora uma serie de condic6es favoraveis,
que jamais concorrem: a) quue seja solteiro; b) que chegue
a barraca em maio, quando comeCa o c6rte>; c) que nao
adoega e seja conduzido ao barracoo, subordinado a uma des-
peza de 10$ diaries; d) que nada compare al6m daquelles vi-
veres e que seja sobrio, tenaz, incorruptivel; um stoico
firmemente lancado no caminho da fortune arrostando uma
cpnitencia dolorosa e longa. Vamos al6m admittamos que,









- 47 -


mau grado sua inexperiencia, consiga tirar logo 350 kilos de
borracha fina e 100! de sernamby por anno, que 6 difficil, ao
menos no Puris.
< Pois bem, ultimada a safra, este tenaz, este stoico, este
individuo raro alli ainda deve. O patrao 6, conforme o con-
tracto mais geral, quem Ihe diz o prego da fazenda e Ihe es-
criptura as contas. Os 350 kilos remunerados hoje a 5$ ren-
dem-lhe 1:750$; os 100 de sernamby, a 2$500, 250$0,00. To-
tal: 2:000$000.
guinte j5 6 >: conhece os segredos do serving e p6de
tirar de 600 a 700 kilos. Mas considere-se que permaneceu
inactive durante todo o period da enchente, de novembro a
maio sete mezes em *que a simple subsistencia Ihe acar-
rota um excess superior ao duplo do que trouxe em vive-
res, ou seja, em numerous redondos, 1:500$ admittindo-se
ainda que nio precise renovar uma s6 peca de ferramenta
ou de roupa e.que nao teve a mais passageira enfermidade.
E' evident que, mesmo neste caso especialissimo, raro 6 o
seringueiro capaz de emancipar-se pela fortune.
<< gora vede o quadro real. Aquelle typo de lutador 6
exceptional. '0 home de ordinario leva para aquelles logares
a imprevidencia caracteristica de nossa raga; muitas vezes
carrega a familiar, que Ihe multiplica os encargos, e quasi sem-
ore adoece, merce da incontinencia generalizada.


Os regulamentos leonino

a Addicionae a isto o desastroso contract uni-lateral, que
Ihe impbe o patrol. Os < regulamentos>> dos seringaes s0o a
este proposito dolorosamente cxpressivos. Lendo.os, ve-se o
renascer de um feudalismo acalcanhado e bronco. 0 patr5o
inflexivel decreta, em um emperramento grammatical es-
tupendo, cousas assombrosas.
< Por exemplo: a pesada multa de 100$ commina-se a
estes crimes abominaveis: a) ferior ao gume do machado,; b) (levantar o tampo da ma-
deira na occasion de ser cortada; c) < sangrar cor macha-
dinhas de cabo maior de quatro palmps >. Al1m disto o tra-









- 4I8 -


balhador s6 p6de comprar no armazem do barracio, < nao
podendo comprar a qualquer outro, sob pena de passar pela
multa de 50 % sobre a importancia comprada >.
< E arpeiem-se de aspas estes dizeres brutos. Ante elles e
quasi harmoniosa a gagueira terrivel de Caliban.
E' natural que ao fim de alguns annos o < freguez > es-
teja irremediavelmente perdido. A sua divida avulta amea-
gadoramente: 3, 4, 5, 10 contos, ds vezes, que nao pagard
nunca. Queda, entao, na morbida impassibilidade de um
fellah desprotegido, dobrando toda a cerviz a servidio com-
pleta. 0 < regulamento 6 impiedoso: < Qualquer freguez ou
< aviado >, nao poderd retirar-se sem que liquid todas as suas
transacc.5es commerciaes... Fugir? Nem cuida em tal.
Aterra-o o desmarcado da distancia a percorrer. Buscar outro
barracao? Ha entire os patr6es accordo de n5o acceitarem
uns os empregados dos outros, antes de saldadas as dividas, e
ainda ha pouco tempo houve no Acre uma reunido para sys-
tematisar essa allianqa, creando-se pesadas multas aos patroes
recalcibrantes.
< Agora, dizei-me, que resta no fim de um quinquennio do
aventuroso sertanejo que demand aquellas paragons, fer-
retoado da ancia de riquezas?
< Nao o ligam siquer a terra. Um artigo do famoso. < re-
gulamento torna-o eterno hospede dentro da propria casa.
Citemol-o com todo o brutesco de sua expressed imbecil e
feroz: nesta propriedade perderd totalmente o direito uma vez que
retire-se >.
pequenas barracas. 0 viajante procura-as e mal descobre,
entire as soror6cas, a estreitissima trilha que conduz a vi-
venda, melo afogada no matto. E' que o morador nao des-
pende o mais ligeiro esforgo em melhorar o sitio de onde
p6de ser expedido, em uma hora, sem direito a reclamadao
mais breve.
Esta resenha comportaria alguns exemplos bem dolo-
rosos. Fora inutil apontal-os. Della resalta impressionado-
ramente a urgencia de medidas que salvem a soci-edade
obscura e abandonada: uma lei do trabalho que nobilite o es-









- 49 -


forgo do home, uma justice austera que Ihe cerceie os
desmandos, e uma f6rma qualquer do < quo o
consorcie definitivamente a terra.>
Fallando ainda sobre a Amazonia, diz o illustre Ihomem
de lettras:
< Ndo a cultivam, aformoseando-a: domam-na. 0 cearense, o
parahybano, os sertanejos nortistas, em geral, alli estacionam,
cumprindo, sem o saberem, ura das maiores emprezas destes
tempos. Estdo amansando o desert. E as suas almas simples,
a um tempo ingenuas e heroicas, disciplinadas pelos revezes,
garantem-lhes, mais que os organismos robustos, o triumph
na campanha formidavel.
<< recem-vindo do sul chega em pleno desdobrar-se da-
quella azafama tumultuaria, e, de ordinario, succumbe. As-
sombram-no, do mesmo lance, a face desconhecida da paiza-
gem e o quadro daquella sooiedade de caboolos titanicos que
alli estao construindo um lerritorio.,.
Mais adeante ainda diz Euclydes da Cunha:
malia sobre a qual nunca 6 demasiado insistir: 6 o home
que trabalha para escravizar-se.
< Emquanto o colono italiano se desloca de Genova a mais
remota fazenda de S. Paulo, paternalmente assistido pelos
nossos poderes publicos, o cearense effectua, a sua custa e
de todo em todo desamparado, uma viagem mais difficil, em
que os adeantamentos feitos pelos contractadores insaciaveis,
incados de parcellas fantasticas e de pregos inauditos, os
transformam as mais das vezes em devedor para sempre in-
solvente.
< A sua actividade, dcsde o primeiro golpe de macladi-
nha, constringe-se para logo em um circulo vicioso inatura-
vel: o debater-se exhaustive para saldar uma divida que se
avoluma, ameagadoramente, .acompanhando-lhe os esforGos e
as fadigas para saldal-a.
< racio da seringa, neste ponto peior que a do caucho, imp6e
o isolamento. Ha um laivo siberiano naquelle trabalho. Dos-
toievski sombrearia as suas paginas mais lugubres corn esta
4








- 50 -


tortura: a do home constrangido a calcar durante a vida
inteira a mesma < estrada >, de que 6 elle o unico transeunte;
trilha obscurecida, estreitissima e circulante, que o leva, in-
termittentemente e desesperadamente, ao mesmo ponto de
partida. Nesta empreza. de Sisypho, a rolar em vez de um
bloco o seu proprio corpo partindo, chegando e partindo
- nas voltas contristadoras de um circulo demoniaco, no seu
eterho giro de encarcerado em urma prisao sem muros, ag-
gravada por um officio rudimentar que elle apprende em
uma hora para exercel-o toda a vida, automaticamente, por
simples movimentos reflexes si nfo o enrija uma solida
estructura moral, vdo-se-lhe, com a intelligencia, atrophiada,
todas as esperancas e as illus6es ingenuas, e a tonificante
alacridade que o arrebataram iquelle lance, a ventura, em
busca da fortuna.
< Parallelamente, a decadencia organic.
<(A alimentagio, que 6 a base mais firm da hygiene. tro-
pical, nao Ihe a fornece, durante largos annos, a mais rudi-
mentar cultural. Constitue-se, ao revez de todos preceitos,
adstricta aos fornecimentos escassos de todas as conservas
suspeitas e nocivas. com o derivative aleatorio das cagadas.
< Sobre tudo isto, o abandon. 0 seringueiro 6 obrigato-
riamente, profissionalmente,. um solitario.
< maior das arvores de borracha permitted a abertura de 16
estradas em uma legua quadrada, toda esta Area capaz de
sustentar, de accordo com a unidade agricola corrente, cin-
coenta families de pequenos lavradores, requer a actividade
,de oito. homes apenas, que 16 se espalham e raramente se
veem. Calcule-se um seringal m6dio, de 200 estradas: ter
cerca de 15 leguas quadradas; e este latifundio, que se po-
voaria 6 larga cor 3.000 habitantes activos, comporta ape-
nas a populagdo invisivel de 100 trabalhadores, exagerada-
n ente disperses.
< lular do home na amplitude difogada da terra.>

Nos tempos aureos do Amazonas

Outr'ora, quando a borracha alcanGava preCos elevados,
-quando o seringueiro recebia, come affirma Euclydes da









- 5.1 -


Cunha, pela borracha que colhia 5$ o kilo, os cearenses con-
seguiam por vezes liquidar seu debito e tirar algum saldo,
Entdo desciam para o Estado natal corn o fim de tratar de
snua saude, sempre profundamente abalada.
Ao chegar em Mandos, recebiam em dinheiro o saldo a
que tinham direito. Afastados havia annos do convivio dos
homes, vivendo sem ver dinheiro, long do bem-estar e
prazeres, viam-se assim de repente cor alguns contos de
reis no bolso, em uma cidade modern e alegre: ndo re-.
sistiam as tentac5es e, esquecendo os sacrificios, com que
ganharam aquelle dinheiro, pondo de lado a lembranca da
familiar, inadvertidos das molestias, que lhes corroiam o or-
ganismo, se entregavam a uma vida de orgias e facilmente
se deixavam explorer; gastavam assim em poucos dias nos
prostibulos de Mandos o que haviam ganho em annos de
trabalho insane e paciente. Volviam entgo novamente ao
seringal a recomegar o trabalho martyrizante e escravizanto
.do seringueiro, enterrados vivos no < Inferno Verde >.
Outros, mais sensatos, voltavam ao Ccard, onde, a par de
suas figures pallidas e cadavericas, cxhibiam seus correntues
de ouro e anneis de brilhante. Depois de pequena demora
'no seio da familiar, buscavam novamente o Rio-mar, iman
poderoso e irresistivel. Outros, mais felizes, traziam o suffi-
ciente para viver com independencia no Ceard, mas vinham
sempre atacados de impaludismo, que os inutilizava para toda
a vida.
Naquella 6poca o valor da borracha < fina Pard > em Ma-
-nos era o seguinte:

1903.................. .......................... 6$376
1904................ ............................. 7$532
S905......................... ............ ................... 6$676
1906..... ................ . .. ......... ......6$438
1907....... ............... ...................... 6$176
1908 ............. ...................... .... ... 5$614
1909 .................... .............. .......... 8$922
-1910............ .... ......... ............ 11$202
911 ............. ............ ................ ... 6$180
1912 .............................................. 5$840









- 52 -


0 prego m6dio dos 10 annos foi de 7$095 o kilo em Ma-
ndos e os seringueiros recebiam, no alto Amazonas; confprme
affirma Euclydes da Cunha, 55 por kilo de borracha fresca.
que colhiam.

A baixa da borracha

Dahi para ca, o valor desse product tem baixado, para
os seguintes pregos m6dios annuaes:
1913...................... ....................... 4$38G
1914.............................................. 3$681
1915 .................. ....................... 4$209
1916........................................... 5$117
1917 (sete mezes) ............................ ... 5$051
0 preoo mddio deste period baixou para 4$489 o kilo;
o seringueiro recobe agora talvez 3$ por kilo de borracha
fresca apanhada.
Si naquelles tempos o < levava a vida descripta
por Euclydes da Cunha, cor extrema difficuldade se desem-
baracando do scu credor, agora, que, emquanto tudo s6be de
preOo, seus ganhos diminuem, e que elle fica reduzido A
condigdo de verdadeiro escravo, sem poder nunca -se li-
bertar.
A emigragio coarense para o Amazonas tem sido e con-
tinia a ser desastrosissima para o CearA. Em primeiro lo-
gar, contribute poderosamente para a dissolucao dos lagos de
familiar, base da sociedade; eri segundo logar, tem-nos cau-
sado e continfa a causar prejuizo de numerosos bracos
sadios, nosso principal factor de riqueza, emquanto flea no
Estado o element feminine, de menor valor economic, au-
gmentado muitas vezes o numero de indigentes. Em ter-
ceiro logar, 4 grande, a mortandade entire os .emigrados, que,
quando doentes, voltam ao Ceard, onde contribuem para mul-
tiplicar o numero de invalidos; em quarto logar, o cearense,
que emigra para o Amazonas, desce na escala social, pas-
sando do typo que se dedica ao cultivo da terra, para o
typo primitive da floresta. Segundo Demolins, as condigoes
mesologicas do Amazonas reduzem o home ao ultimo gra&
de desorganizaGco social, a que p6de chegar a humanidade.









- 53 -


Mesmo os milhares de contos, que nos bons- tempos da
prosporidade amazonense entravam para o CearA, long es-
tavam de compensar o pesado tribute de milhares de preciosas
vidas ceare'nses, que por 1I se perdiam; que diremos hoje,
-quando a emigraeao continmia e, devido a baixa da borracha,
ndo vem mais dinheiro?
-Essa constant drcnagem humana para o Amazonas 6-nos,
portanto, extremamente prejudicial, tanto sob o ponto de
vista economic, como social e moral.


A secca de 1915

Ao contrario de seccas anteriorcs, a de 1915 despcrtou
pelas victims do trisle flagello geraes sympathies em todo o
Brazil e at6 alum de nossas fronteiras.
0 arcebispo de Fortaloza, D. Manoel da Silva Gomes.
justamente cognominado pelo Deputado paulista Alfredo Pu-
jol, A Caridade itinerantoc,~ embarcou em junho daquelle
anno para aqui cor o fim de angariar soccorros para seus
diocesanos, cruelmente provados pelo terrivel flagello, que
promettia anniquilar o Ceara. S. Ex. aqui conferenciou
cor o Exmo. Sr. President da Republica, reforoando a accao
da bancada cearense, e seguiu ainda em sua missao de car
ridade atd S. Paulo e Minas.

Uruguay, S. Paulo e outros Estados

A visinha Republica do Uruguay, em um gesto louvavel
e desinteressado de fraternal caridade e sympathia, enviou
aos flagellados do Ceara 8.000 pesos.
0 important orgRo de imprensa < 0 Estado de S. Paulo ,
de propriedade do Dr. Julio de Mesquita, organizou uma sub-
scripcdo entire todas as classes sociaes, que attinglu a elevada
somma de 300 contos. Foi esta a maior dadiva enviada aos
flagellados de 1915.
A Assembl6a do Estado de S. Paulo, por proposta do
Deputado Joio Sampaio, illustre leader da maioria, appro-
vou sem discussio a concessao de um credit de 100. condos
para o mesmo flm.









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Minas Geracs, por proposta do Deputado Nelson de
Senna, Rio. Grande do Sul e o Conselho Municipal da Capital
Federal concederam cada um 50-coantos; o (,Diario Allemdo,
do S. Paulo angariou cerca de 15 contos entire os seus as-
signantes; a colonia hespanhola do S. Paulo mandou cerca
de 10 contos; as municipalidades de S. Paulo, Santos e outras
enviaram igualmente soccorros.
Aqui, no Amazonas, em Minas Geraes, no Rio Grande do Sul,
no Pard e varies outros Estados commiss6es de senhores o
senhoritas fizeram subscripoies, bandos precatorios, festas e
concertos corn fim de angariar auxilios para os famintos.:
No Amazonas a sociedade cRenascenca do Coard) e no Park
a colonia cearense prestaram relevantes services aos famin-
tos e emigrados.


A ac9do de D. Manoel

D. Manoel, corn sua viagem providencial, conseguiu an-
gariar para o CearA a clevada quantia de 573:032$430, que
S. Ex. distribuiu escrupulosamcnte corn muita equidade e
justica, tendo feito publicar todos os balaocetes parciaes no
((Correio do CearA, em diversas datas e os balancetes geraes
nos numerous de 6, 7, 8 e 12 de julho de 1916.
Na distribuigdo desses soccorros D. Manoel foi poderosa-
mente auxiliado pelo clero da capital e do interior, polas
irmds suporioras do Collegio da I. Conceiio e da Santa
Casa, pelas senhoras de caridade, reitor do seminario, pela
Sociedado de S. Vicente de Paulo, presidida polo illustre
bario de Studart, e muitas outras aggremiag6es e pessoas da
alta sociedade fortalexiense. Todos foram incansaveis du-
rante os mezes em que Fortaleza esteve assediada pelos in-
felizes famintos.
O SR. OSORIO DE PAIVA E OUTnR0 Sas. DEPUTADOS -- Muito
bem.
0 SR. ILDEFONSO ALBANO--As esmolas eram distribuidas
nos domicilios dos famintos, no Collegio da I. ConceiFgo,
em dias determinados e diariamente no Palacio Archiepis-
copal.
















d


SOO0Oor0n


Distribuicio ciaria do esmolas no Palacio Archiepiscopal ( pag. -
Dist'ibuic 'o diaria do osmolas no Palacio Archiepiscopal ( pag. 5, ).


, -y,









- 55 -


E' de justiga citar o nome da Associaoio Commercial, a
qual organizou entire seus socios uma subscripgao para a
compra de somentes, que foram distribuidas gratuitamente
entire os agricultores do interior.
0 SR. MonEInA DA ROCIIA--A Associac~o estA sempro a
frente das boas causes. (Apoiados.)


Cartas dos vigarios durante a secca de 1915

0 SR. ILDEFONSO ALBANO -- Foi incalculavel o bom que
produziu em todo o Estado o dinheiro enviado aos vigarios
pelo Exmo. Sr. Arcobispo. Que o digam os seguintes excer-
ptos de nartas, dirigidas ao monsenhor Mello, vigario geral
do Arcebispado:
Cor data de 16 de jullio de 1915 escrcve- do Boa Viagem
o vigario padre J. C. de Queiroz Lima:
ia vendo em apuros: esgotados os restos de miniha prca eco-
nomia, extinotas minhas ultimas provis6os e sern recella
actualmente para as despezas ordinarias, estava quasi na
dura contingencia do nao powder mais soccorrer a tanta mi-
seria que me bate a porta quotidianamente.,
Com data de 22 de julho de 1015, o vigario padre Fran-
cisco de Hollanda Cavalcanti, vigarin de Tamboril, agrade-
condo a remessa de 4008, diz:
desta parochia.n
A 28 do mesmo mez, o padre M. Carlos escrove de In-
dependoncia, agradecendo a remessa de 600$000:
< a esta pobreza que more 6 fome aqui nos sertles. Grande
numero do families afflue 6s distribuig6es, pois continuum a
soffrer a secca e a fome, que assolam toda esta zona do norte
do Estado, de um mode horrivel e de fazer compaixdo.
0 vigario de Camocim, padre J. Augusto da Silva, cor
data de 25 de julho de 1915, diz o seguinte:
((Agradeco de coragcL a remossa de 500$, tio generosa-
mente feita, cor a qual diminui por instantes a fome de al-
guns infelizes, cujo numero augmenta todos .os dias.)









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Com data de 23 de agosto de 1915, frei Cyrillo, vigario de
Canind6, pede mais socoorros, accrescen.tando:
terA visto o avultado numero de 15.000 e mais pessoas, a
que se deu esmola, alem de 165 families, que foram soccor-
ridas, regulando cada uma seis pessoas cm mddia. Sou per-
seguido de dia e de noite e o peior 6 que nao tenho cor que
satisfazer a tanta indigencia e soffrimentos.>
O vigario de Ipueiras, padre J. de Lima Ferreira, em
data de 26 de agosto de 1915, agradecendo a remessa de 300$,
escreve:
Os famintos aqui se acham em extrema miseria. Muitos
estdo quasi completamente n6s. Ipueiras sempre foi um mu-
nicipio pobre; demais acha-se alojada aqui uma gr':nde
porcio de emigrantes de outras freguezias."
A 31 do mesmo mez, escreve o padre M. Carlos, de Cra-
theis:
,Nao avalia V. Revma. o bem que teem feito as esmolas.
Tenho distribuido d pobreza, que estd morrendo a fome. A'
nossa porta teem affluido, de um modo extraordinario, fa-
mintos, alguns quasi nis.>
0 vigario de Sant'Anna do Cariry, padre Emilio Cabral,
com data de 12 de outubro de 1915, escreve:
povo, a morrer de fome. A minha porta esta sempre cheia de
pedintes esfawrrapados, magros o sujos, que ji nao podem
quasi fallar. A caridade particular estd esgotada. Daqui atd
haver legumes cor as chuvas do inverno vindouro fnagine
comn vae ser doloroso o estado dessa pobre gente.,
Cor data de 5 de ,outubro de 1915, escreve o padre J.
de Lima Ferreira, coadjutor de Ipueiras:
< gario tinha gasto o ultimo vintem e ja estava deendo os
cabellos da cabeca. Felizmente V. Revma. me autorizou a
gastar dinheiro do patrimonio no servigo do cemniterio. Aca-
bando-se este servigo, nao haverd aqui absolutmrronte meio
algum de salvar o povo.>
0 vigario de Jaguaribe-merim, padre Raymundo Bezerra,
cor data de 2 de outubro de 1915, escreve:









- 57 -


nha froguezia na maior e mais complete miseria, por falta
absolute de recurso. E' uma situaGao tristissima ver o povo
morrer do fome.>
0 padre Joaquim Rosa, vigario de Maranguape, distance
da capital poucas leguas, cor data de 15 de outubro de 1915,
escreve:
parochianos de um modo aterrador. Agglomcram-se de todbs
os pontos emigrantes quasi mis, esqueleticos, pedindo pell
amor de Deus um serving ou ama esmola, quce fazcm tantos
dias que ou nio como>. Iniciei um service no comiterio da
Matriz; de manhA 5 noite minha porta vive cheia de possoas
pedindo service >. Nao Ihes resta mais
recurso no matto, nem esperanca de service public e sahem.
comn em romaria, pelas ruas pedindo esmolas. Si ainda hou-
ver dinheiro, mande-me algum, que nSo posso abandonar
es'tes pobres miscraveis, que nao desojo ver cahircm de fome
4 nossa porta. Mando, seja quanto for, pois ha urgenle neces-
sidade.>
De S. Francisco de Uruburetama escreve cor data de 26
de outubro de 1915 o vigario padre Cat5o Sampaio:
< sul, agradecendo sua magnanima caridade para com os info-
lizes cearenses. Encontrei meu povo no auge da fome. NMo
posso nem precise descrever o sou triste e laslimavcl cstado.
Parece-me que a esperanca era a unica forca que o trazia
de p6 e agora, desilludido, clama recurso; pede soccorro a
quem nSo o pdde soccorrer. Vejo-me cercado dia e noite de
necessitados scm podor dar allivio a todos. Avalie o que posso
eu fazer cor aquella importancia. Fomos inventar uma ponte
sobre o leito do rio e o numero de operarios 6 tal, que liqui-
dard a pequena importancia em tres ou quatro dias, send
mais homens para o pretendido trabalho do que o numero de
pdos precisos. Quando chegou o engenheiro encarrogado do
agude dos Patos, 12 leguas daqui, jd vinha cor uma espantosa
multidao de operarios, que de Sobral o acompanhava, do
f6rma que estd difficil a colloca5do para os nossos. Amanh6
irei 1h, ver si 6 possivel qualquer arranjo para um certo nu-









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mero de meus parochianos, jd quo nao Lemos esperanga de.
collocar a todos. Mande-me qualquer cousa da importancia,
que foi ultimamente enviada para o Sr. Arccbispo.,
Com data de 4 de novembro de 1915, o padre M. Carlos,
vigario de Independencia, avisa que ja dispoz do dinheiro re-
cebido e diz:
< Contindo a presenciar horrores, families inteiras lioram
pelas ruas, pedindo nao deixarem seus filhinhos morrer de
fome. E' lamentavel. Secca a mais horrorosa que se possa
imaginar.,
O padre Manoel Feitosa, vigario do Arraial, cor data de
14 de novembro de 1915, escreve:
reio, porque a fome aqui 6 tamanha, que nao se p6de mais
supporter a affluencia de pedintes. Entram-nos pela casa a
dentro e obrigam-nos, nio pela forca, mas pela supplica, a
dividir corn elles as refeiC6es. E' um quadro desolador o que
cada dia tcmos debaixo da vista aqui. Os famintos parecem
verdadeiras mumias ambulantes. Os paes para nao ver os
fllhos morrerem de fome, os dao a quem os queira. Causa d6
cste espectaculo. Os prim-eiros 500$ para nada chegaram; rogo
portanto a V. Revma. enviar a nova remessa o mais urgen-
temente possivel.,
Cor data de 14 de novembro de 1915, escreve frei Cy-
rillo, vigario de Canind6:
((Quanta alegria me trouxe a esmola de 1:500$000. Nao
p6de imaginary a .desolaiao que reina aqui. A noticia do ser-
vico do acude ((Salao> espalhou-sc por toda freguezia e todos
os dias chegam grupos do homes para se empregar; mas o
serving do Governo s6 comeCard depois de uma ou duas se-
rranas. Imagine V. Revma. a desolaqio dessa pobre gente,
sem casa, sem dinheiro, sem comida. Todos correm no con-
vento e pedem servico no ,emitorio, que nao comporta este
povo todo. Neste service teem trabalhado rrais do 100 pes-
sna's diariamente. Em dous dias as mulheres transportaram
mais de 50.000 tijo!os; era um verdadeiro formigueiro hu-
mano. Deus pagar6 com grande generosidade esta esmola,
que alimentou e alimentary ainda por duas semanas tantas
pessoas famintas. Estas esmolas teem evitado os roubos









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Quando n5o havia os trabalhos do cemiterio, os famrintos,
por falta de recursos, roubavam gado, ovelhas e cabras, mas,
depois de comegado o servigo, desappareceram os roubos. Eu
Ihe agradeoo do intimo do meu cora'gdo e commigo todo este
povo infeliz. Encoi.mende-me a Deus para me dar paciencia
nosta quadra tdo horrivel.>
0 vigario de Pentecoste, padre Aureliano Mattos, eym
data de 21 de novembro de 1915, agradece a remessa de 600$,
e diz:
mintos, do tal modo que, corr as difficuldades em que me
acho, pela escassez de rendimento desta pobre freguezia, ser-
me-ha impossivel continuar aqui, sem algum soccorro, que
venha dahi. Cada dia que so passa, o thermometro da fome
mrarea mais um grdo.>
Com data de 6 de dezembro de 1915 o padre Zacharias
Ramalho, vigario de Russas, agradecendo a remessa de r6is
1:000$, diz:
lanche de retirantes, que mendigam is portas, quotidiana-
mente, e a caridade public comeea a cangar. As alimentacoes
silvestres estao acabadas, nao ha mais palmito nas varzeas e
a pouca macambyra que existed 6 arrancada na chapada do
Apody, corm quatro leguas e mais de distancia desta cidade.
E' immensa, indiscriptivel a miseria deste municipio !i)
Com data de 8 de dezembro de 1915 escreve o vigario de
Pacoty, padre Antonio Tabosa Braga:
A situaeao aqui aggrava-se dia a dia, j6 more gente de
fome, na serra.
De Arraial escreve, corn data de 10 de dezembro de 1915,
o vigario padre Manoel Feitosa:
'0 portador informarA a V. Revma. o estado de mise-
rabilidade a que se acha reduzida a populac o daqui; j se
deram varies casos de morte fome. Estou cansado de ver
tanta miseria, sem poder dar remedio.>
As cartas dos primeiros mezes de 1916 nao sdo mais ani-
madoras. Cor data de 13 de janeiro escreve D. Lucas Heuser
O. S. B., agradecendo a remessa de 500$000:
< Os pobres flagellados ji comeGam a morrer de inani5do.









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Ainda hontem confessed quatro pessoas, das quacs hoje morreu
uma, uni verdadeiro es:lucleto. Faz chorar ver essa pobre
gentle. Deus misereatur nostri >
Com data de 19 do janeiro do 1916 escreve o padre J.
Juvencio de Andrade, vigario de Crathetis:
<0 estado de miseria do pobre povo aqui tern so aggra-
vado ultimamente, devido 5 affluencia dos flagellados para o
servigo da estrada de forro. Muitissimo teem valido os re-
cursos, que tenho recebido por vosso intenmedio.>
0 padre Miguel Xavier, vigario de Pereiro, agradocendo
em data de 24 de janeiro de 1916 a remessa de 400$, diz:
<
exhaust c a fome devora a pobreza de um modo assustador.,
Com data de 4 de fevereiro de 1916 o padre Zacharias
Ramalho, vigario de Russas, agradcco a remossa do 500$ e
escreve:
tribui com os famintos daqui e cor as lovas de retirantes,
que diariamente transitam por esta cidade. Foi muita cousa,
serviu-nos muito, mas durou muito pouco o de novo vejo-me
ccrcado dresses desherdados da sorte, scm ter alma para ver
tanta infelicidade e sem ter um vintem para dar Emquanto
houve < comida brava >, a pobreza ia disfarcando a sua miseria,
agora, por'6m, estt tudo acabado; os terrenos estao litteral-
mente desvastados, nos carnaubaes nao ha mais palmitos, quo
foram todos devorados por uma terrivol praga de lagartas,
e um ou outro, que existed, os proprietaries, porque estao pre-
cisando, nto consentern tirar, resultando por vezes desta
prohibicto lutas e ferimentos em plena varzea entire famintos
que roubam na extrema necessidade, e proprietaries, que nio
teem mais para dar.>>
0 padre Jose Barbosa de ,Magalhios, vigario de Coitd,
cor data de 6 de feveriro de 1916 escreve:
< Comecou o inverno, mas a miseria continda de um modo
pavoroso, aggravando-se cada vez mais a nossa situacgo. Toda
semente, que distribui, perdeu-se, devorada pola lagarta o
agora nos achamos semn recursos, contando certamento cor
uma grande miseria, presenciando quadros dolorosos, de fazer
cortar coracio. Ja nio posso mais ver tanto horror, scm podor









- 6,1 -


mais dar nem siquer uma esmolinha. 0 clamor 6 grande e
nada pysso fazer.
Cor data de 8 de fevereiro de 1916 escreve u padre J.
Augusto da Silva, vigario de Camocim:
E diminuir a enorme multiddo estacionada nesta cidade.>.
Em data de 16 de fevereiro de 1916 o padre Raymundo
Bczerca, vigario de Jaguaribe-mirim, accusa a recepcao de
400$ o a.crescenla:
< diversas pessoas caliidas de fome, resolvi soccorrel-as e em-
pregar o rest do dinheiro em sementes. 0 povo nao p6de
mais cosistir e nesses dias morrerdo muitos de fome.n
Corn data de 21 de fevereiro de 1916 o vigario de Pe-
reiro, padre Miguel Xav;er, agradecendo a rcmessa de 800$,
diz:
< mensa ocnda de famintos e andrajosos cm uma confusaio cs-
pantosa insupportavel. Vivo com o animo completamente
abatido pelas sce;'as commoventes e inevitaveis, que pre-
sencio diariamente nesta terra madrasta."
0 padre Antonio Tabosa Braga, vigario de Paco.y, em 18
de mar,.o de 1916, diz:
<<0 valioso auxilio tem-me servido muito. '0 povo est6 se
acabando; aqui, donos do sitios estlo passando fome tremenda.
De domingo (12) atd hoje (18) confessed quarenta e um mo-
ribundos. Reina tromenda miseria em todas as casas. Em
cada uma casa nao ha cor que fazer um caldo, e arqueja uma
creancinba ao lado do pae moribundo, quando nao mais de
um'a. Noste mez ji confessei 77 doentes. As creancas esflo se
acaband,.. At6 quando ird a fome em nossa terra? Morrer
de fonroe... Quo horror! Pobres dos meus patricios! sDeus
super olrlnia!)
Com data de 12 de marco de 1916 o padre J. Augusto da
Silva, vigario de Camocim, agradece a remessa de 600$ e
escreve:
e outros terdo igual sorte.n









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0 vigario de Boberibe, padre Saraiva Ledo, cm data du
8, de maio de 1916, agradecendo a remossa de 500$, escrevc',
( infeliz povo, magro, sujo e rasgado. A populacdo estd so ali
mentando de melancia, pois a farinha ruim estd a 400 rdis o
litro. Tom sido grande o numero de obilos nesses quatrm
mezes aqui, por causa do uma especie de cholerina, quo ap.
pareceu. Nesta parochial occorrem annualmente uns 80 obioWs
s, s6 nesses quatro mozes ja se deram mais de 100.>
Esses escriptos, aldm de comprovarem a applicac5o es..
crupulosa dada aos dinheiros arrecadados pelo Exmo.
Sr. Arcebispo, pintam, em sua linguagom franca e singela, as
miserias e angustias soffridas polo coarenses durante a secca
passada e confirmam tudo quanto eu venho dizendo a esse
respeito.
0 Sn. JosE AUGUSTO E que 6, infelizmonte, a repro-
ducgdo do que se observe em todo o nordeste duranto as
seccas.
0 SR. JUVENAL LAMARTINE-E' a triste verdade. (Apoiados.)
0 SR. THOMAZ RODRIGUES Obra de patriotism c de
humanidade 6 dar remedio a semelhante situaCgo. (Muito
'hem.)
0 SR. ILDEFONSO ALBANO Dentre os varies Deputados
,que da tribune da Camara defenderam os flagellados do nor-
deste, nio posso deixar de mencionar o nome do illustrado
orador Dr. Barbosa Lima, que em memoravel discurso propoz
o augment da verba de soccorros aos fragellados, accrescen-
tando assim mais esse motive de gratiddo aos la.os de sym-
paLhia que o Ceara ja tem por S. Ex. (Apoiados.)

Wenceslau Braz

Quero por ulLimo referir-me ao benemerito Presidente da
Republica Dr. Wenceslau Braz Pereira Gomes, cujo nome e pro-
nunciado por todos os cearenses com respeito e gratidao, pois
S. E:., apezar da melindrosa situag o do paiz, mandou con-
struir varias obras do importancia no nordeste brazileiro com
o fim de dar trabalho aos retirantes.
A actual gera'ao cearense nao esquecerd os beneficios
prestados a nosso Estado em um moment de temores e af-









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flicces por esse illustre estadista o sua caridosa Esposa, o
saberd tornar conhecido dos vindouros e nome benemerito de
Wenceslau Braz, assim como ainda hoje 6 relembrado o nome
.do magnanimo D. Pedro II, o grande protector dos cearenses.
err. 1877. Digo-o de coracAo o tenho a certeza plena, que
assim fallando, exprimo o pensamento de todos os cearenses.
(Apoiados.)
0 SR. JUVENAL LAMARTINE De todos os habitantes do nordoste.
0 Sn. ILDEFONSO ALBANO Nessa sua attitude humanitarian e pa.
triotica foi S. Ex. acompanhado pelo sen digno Ministro da Viaqto,
Dr. Augusto Tavares de Lyra, e pelo honrado leader da Camara,
Dr. Antonio Carlos R. Andrada, que sempre se mostraram soli-
citos e incansaveis em promover os soccorros aos retirantes.
(Apoiados.)

A importa go de cereaes

A crises passou, doixando o Ceara profundamonte abalado, sua
populaQao errante e arruinada e sua vida em complete desorganizacto.
A lavoura, durante a secca, nada produziu c o Estado foi obrigado
a importer todos os cereals necessarios A vida do seus habitantes.
Duranto os cinco annos de 1910 a 1914 foram importados, s6mente
pelo porto do Forialeza, os seguintos cereaes:

Anno Arroz Farinha Milho Feijao
Saccas
1910.................... 5.952 28.872 3.547 2.743
1911...... .............. 8.273 5.232 8.541 3.184
1912.................... 16.416 22.816 8.874 8.643
1913.................... 12.674 25.011 5.522 4.372
1914.................... 3.732 4.677 2.253 1.889
M6dia annual do cinco
annos............... 0.400 17.321 5.747 4.166

A importacao de cereaes no anno da socca foi a seguinto:
Anno Arroz Farinha Milho Feijao
Saccas
1915.................... 100.436 265.443 102.251 128.041
Para sabermos o que foi importado em virtude da secca, prc-
cisamos deduzir dosses totaes a m6dia da importaq5o em epocas
normacs.









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Assim toromos:
Arroz Farinha Milho Feijao
Saccas
91.027 248.122 96.504 123.875

Estas cifras representam s6monte a importagao polo porto de
Fortaleza, faltando-mo dados sobre a importacao dos portos de Camo-
cim e Aracaty.
Canmcim, estaiao initial de uma estrada de forro do 335 kilome-
tros do comprimento, 6 o intermediario natural para a importaq;o e
oxportacdo do todos os generos roquoridos e produzidos por todo o
norte do Estado; Aracaty 6 o entroposto commercial da important
zona do Jaguarib. .
Podcmos pois sem exagero calcular os corcacs importados por
aquelles dous ports cm 30 o/o das cifras acima.

Assin tcremos:

1915 Arroz Farinba Milho Fcijao
Saccas
Fortaleza ............... 91.027 248.122 06.501 123.875
Camocim e Aracaty 30 %. 27.308 74.436 28.931 37.162

118.335 322.558 124.455 161.037

0 Sn. MORElRA DA ROCHA Sao algarismos cloquentes.
0 Sn. ILDEFONSO ALBANO-Mas as consequencias da secca so fizc-
ram scntir ainda em 1916, cuja safra foi pequena e tardia devido ao
sobrcsalto, cm quo ficara o povo, e devido aos grande estragos cau-
sados a lavoura pelas pragas de ratos a lagartas, quo apparoceram
em abundancia. Foi precise novamonte recorrer A importalao de
cereals, que so elovou cm 1916 As soguintes cifras:

1916 Arroz Farinha Milho Feijao
Saccas
Primeiro scmostrco....... 16.242 144.902 44.351 6.774
Segundo semostre........ 7.536 53.668 16.136 7.181
23.778 198.570 60.487 13.955
Menos m6iia annual..... 9.409 17.321 5.747 4.166
14.369 181.249 54.740 9.789
Camocim Aracaty 30%... 4.310 54.384 16.422 2.935
18.679 235.633 71.162 12.725









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Recapitulando, temos ;

Importaqgo de cereaes em 1915


118.335 saccas de arroz...............
322.558 saccas de farinha...............
124.455 saccas de milho...............
161.037 saccas de feijao..............

Total....................... ...


25S000
165000
12 000
305000


Importaqao de cereaes em 1916


18.679 saccas de arroz ................
235.633 saccas de farinha .............
71.162 saccas de milho...............
12.725 saccas de feijao...............

Total.....: .......................


25S000
16000
12000
305000


2.958:375$000
5.160:9285000
1.493:4605000
4.831:1105000

14.443:873$000



466:975000
3.770:128S000
853:944/000
381:750S000,

5.472:797S000


A exportagao do Estado do Ceara nos annos de 1907, 1908, 4909,
1910 e 1912 elevou-se is seguintes quantias :

1907 ........................................ .036:638$107
1908.......................................... 2.204:659531
1909........................................ 18.860:320S806
1910........................................... 19.492:1095392
1912................... ....................... .. 20.544:8248549

Total ................................... 82.438:552385

Media annual dos cinco annos, 16.427:710$477.
0 Ceara 6, pois, um Estado, cuja exportagao se eleva em media
a 16.427:710,477 e que para a manutengno de seus habitantes foi
obrigado a importer em 1915 cereaes no valor de 14.443:8735 e em
9116 no valor do 5.472:797$000.
E' evidence o desequilibrio, quo este3 factor causaram a nossa
economic.
Si computassemos as entradas de outros generous, como xarque,
farinha de trigo, assucar, etc., pelos portos do Estado, si avaliassemos
os cereaes e generous entrados pelas fronteiras, o contrast seria ainda
mais penalizador ; chegariamos talvez a evidencia de que o valor dos
generos de primeira necessidade, importados no anno da secca foi su-
perior ao valor de toda a exportaglo do Estado.









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Mortandade do gado

Muito mais impressionantes foram os estragos causados pola secca
A industrial pastoril do CearA.
As numerosas manadas, que pastavam nos sertoes coarenses, re-
presentavam o trabalho de annos, capitaes acumulados cor paciencia
e oconomia, eram uma das principles riquezas do Estado.
Nos annos de 1907, 1908, 1909, 1910 e 1912 a exportagao de cou-
ros de boi pelos portos de Fortaleza, Camocim o Aracaty foi a se-
guinte:
Couros Espichados Salgados Sola Total
1907.................... 1.302 50.444 17.845 69.591
1908.................... 7.008 52.311 13.043 72.362
1909.................... 17.945 67.012 16.825 101.782
910.................... 10.424 65.504 16.008 91.936
1912.................... 32.433 77.838 7.750 118.021
(Nao foi possivel obter a exportagao do 1911, 1913 e 1914).
A media annual foi de 93.738 couros.
Em 1915, em virtude da grande mortandade de gado causada
pela secca, a exportacao elevou-se as seguintos cirras:
Couros Espichados Salgados Sola Tota 1
1915.................... 478.383 90.821 24.055 593.259
Mas como muitos animaes morrom no matt, sem quo os vaquei-
ros o saibam e sem que os couros sejam aproveitados, podemos accros-
contar 30 % ao numero acima para terms uma idea approximada do
gado morto e abatido no anno de 1915; teremos assim 771.236 rezes.
Deduzindo desse total a media de couros exportados, annualmente, em
6pocas normaes, restam-nns 680.498, numero de rezes bovinas mor-
tas no anno de 1915 em consequencia da secca.
A exportasao de pelles do cabra, de carneiro e polles cortidas
pelos ports de Fortaleza, Camocim e Aracaly nos annos de 1907,
1908, 1909, 1910 e 1912 foi a seguinte:
Pelles de cabra carneiro curtidas total
1907................... 548,845 169.201 615 718.661
1908.................... 800.884 293.512 3.205 1.097.601
1909.................... 1.010.312 330.880 1.341.192
1910.....,.............. 689.458 212.258 1.034 902.750
1912.................... 794.554 569.763 256 1.364.573
sondo a m6dia annual de 1.084.955 pelles.









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Em 1015 a exportagio clevou-so As segiintes cifras:

Pelles de cabra carnoiro curtidas total
9115................... 2.386.868 431.884 1.246 2.819.908

Si a esta cifra accresccntarmos 25 0/o das pelles nao aproveitadas,
deduzindo-lhe a m6dia de pelles exportadas em annos normaes, te-
romos o total de 2.440.042 cabepas de gado caprino e ovino, mortas
em consequencia da secca de 1915.
Faltam-nos dados tao positives, quanto estes, para avaliar a mor-
tandade do gado cavallar, asinino, muar e suino. Entretanto, pelas
informaqOes prestadas pelos fazendeiros do interior, podemos calcular
som receio de exagero, um prejuizo de 50 0/o em media para o caval-
lar e suino e 40 % paro gado asinino e muar, Assim teremos:

Existencia Prejuizo
Cabegas antes com a seca
da socca corn a secca

Cavallar........................... 421.230 50 % 210.615
Suino............................. 486.030 50 / 243.015
Asinino o muar................... 280.670 40 0/ 112.268

Recapitulando temos no quadro scguinte a somma total dos pre-
juizos causados A pecuaria pola secca de 1015:

680.498 bovinos.................. 70S000 47.634:860$000
2.440.042 capr. e ovinos........... 75000 17.080:204$000
210.615 cavallares............... 703000 14.743:050$000
243.015 suinos................... 25S000 6.075:3758000
112.268 asininos o muares....... 803000 8.981:440$000

94.517:029$000

0 SR. TuonAz RODRIGUES A obscrvaqao de V. Ex. cresce de
importancia no moment actual, em que tanto interesse vae despor-
tando a pecuaria.
O Sn. ILDEFONSO ALBANO Os rebanhos cearenses ficaram tLo
reduzidos, que o governor do Estado dispcnsou os dizimos do anno
passado. Quixeramobim, o municipio criador de maior importancia,
cujo dizimo se elevava annualmcnte a 15:000$ ou 17:000$, em 1916 nao
teria rendido 3:0003000.









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A mortalidade da populaggo

A mortalidade da populaao tambem augmentou assustadora-
mente em todo o Estado, em consequencia da secca.
A fome fez numorosas victims, perturbaqoes intestinaes cau-
sadas por onvenonamentos, diarrh6as, paratyphos e outras molestias
do apparelho digestive causaram milhares de mortes, principalmente
entree as crcanqas.

Em Fortaleza o obituario entrc os rotirantes foi o seguinte;
1301 Mortes
Julho........................................... ........... 4
Agosto... ............................................... 45
Setembro......................... ........... .......... 72
Outubro.................................. ............ 158
Novembro........................ ....................... 317
Dezembro............................ ....... ......... 717

1916
Janeiro ......................... .................... 491
Fevereiro ................................................... 340
Marb o ......................... ........................ 410
Abril......... ....... ................................ 153
M aio.................... ................................ 43
Junho........... ... .......................... .... ... 6

Total................................... 2.756

0 numero de mortes se elevava A propor ao quo augmentava o
numero de retirantes na capital. Avalia-se em 35.000 o numero
dresses em dezombro, mez em que morreram 717.
Podemos, pois, calcular em 20 0/o o fallecimento mensal de reti-
rantes em Fortaleza.
Em fevereiro o numero de mortes baixou, porque muitos retiran-
tes haviam seguido para os campos; devido a enorme praga de ratos
e lagartas, que devoraram as sementes plantadas e as plantinhas nas-
cidas, muitos voltaram a Fortaleza, facto este, que elevou a mortan-
dade em marqo; do abril em deante diminuiu novamente a proporqao
que os flagellados abandonavam a capital.
Mas sem pagar seu tribute, Fortaleza nio podia hospedar aquelle
grande numero de flagellados, famintos, doentes e sem hygione. A









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mortandade da populaao da cidade elevou-se em 1915 a 1.822 e em
1916 a 2.702.
1915 1916
Habitantes.................................... 1.822 2.702
Retirantes ............................... ...... 1.313 1.443

Total....................... 3.135 4.145

0 cocfficionte de mortalidade por 1.000 habitantes, que em 1913
foi de 19,63 c em 1914 de 18,74, elevou-se em 1915 a 33.35 e em 1916
a 46,69.
O Sn. MOREIRA DA ROCHA -- Foram tristes dias para aquella ca-
pital.
0 Sn. ILDEFoNSO ALBANO 0 obituario de todo o Estado em 6po-
cas normaes 6 de cerca de 12.700 per anno. Em consoquencia da
secca elevou-se o numero de mortes em muitas localidades a cinco
vezes o normal; nas cidades menos attingidas apenas duplicou. Si to-
marmos a meJia, toremos urn total de 38.100 mortes, send 12.700
por causes normaes e 25.400 cm consequencia da secca.
As pessoas, que adquiriram doengas chronicas e incuraveis, inu-
tilizadas e alienadas, cujo numero sempre augmenta nas calamidades,
foram cerca de 5.000.
A natalidade de todo o Estado, que era de 48.000 por anno, ca-
hiu em 1915 por causa da secca.
Ignora-se o numero de retirantes que sahiram pelas fronteiras
para os Estados vizinhos; pelos portos de Fortaleza e Camocim emi-
graram de 28 de junho de 1915 a abril de 1916:
Possoas
Para o norte................................. .. ... 30.802
Para o sul ............................................ 8.511

39.313

A populacao do Estado 6 avaliada em 1.200.000 habitantos, dos
quaes, no minimo, 800.000 vivem da agriculture e industrial pastoril;
dresses foram cerca de 400.000 attingidos directamcnte pela secca e,
sem recursos, obrigados a abandonar suas terras.
JA vimos que nas obras executadas pelo Governo Federal obtive-
ram soccorro 72.646 retirantes; A margem dos aqudes publicos so
abrigaram 7.038; o numero de omigrados foi de 39.313; si calcular-
mos em 100.000 o numero dos que tenham obtido soccorro corn tra-
balho dos particulars, teremos um total de 218.997 pessoas.









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481.003 famintos

Ficaram, pois, 181.003 cearenses, mais do 20.COO por municipio,
sem occupaq.o e sem meio de vida, vagando pelo Estado, esmolando,
curtindo fome e soffrendo as maiores miserias.
Vimos tambom que, em consoquencia da secca, entraram no
CearA durante o anno de 1915 cereaes no valor de 14.443:8738 e quo
as perdas causadas 5 industrial pastoril montaram a 94.517:029$000.
Os prejudicados nao foram unicamente os agricultores e fazen-
deiros; estes facts causaram uma perturbaqao geral na vida eco-
nomica do Estado, A qual ninguem escapou.
A populaq A agricola, reduzida 5 nmiseria, nao pagou suas dividas
aos negociantes do interior; estes, por sua vez, devedores do com-
mercio de Fortaleza, nao puderam solver seus compromissos, cm
vista dos prejuizos soffridos com a insolvencia dos agricultores e fa-
zendeiros; si procuraram vender uma casa ou propriedade agricola,
nao acharam preqo em virtude da crise; si recorreram A fazenda
de gado, pouco ou nada encontraram, pois a secca ji o havia
dizimado.
Nestas condiqOes perdeu o commercio de Fortaleza muitos contos
de r6is. Os capitalistas, proprietarios, emfim todas as classes sao, do
um modo ou de outro, attingidas pola secca. Os menos prejudicados,
alm de obrigados a assistir diariamonto aos dolorosos quadros de
miseria a porta de sua residencia, tiveram do augmentar a verba
de esmolas, emprestimos e soccorros. A vida encareceu extraordina-
mente; a farinha de mandioca, base da alimentaaio do pobre, que
no interior do Estado custa 2S a quart em 6pocas normaes, passou
a ser vendida durante a secca a 25$ a quarta ; o custo dos demais
generous de primeira necessidade subiu na mesma ou maior pro-
porcro.
Quanto aos effeitos moraes exercidos pela secca sobre a popula-
qao, nao me e dado descrevel-os; os que me ouvom saberao avaliar
a quo grAo de miserias, dissolunao de costumes, perversoes e degra-
daqoes de toda sorte foram lovados esses infelizes, visitados por ta-
manha e tao triste calamidade, com suas terras barbaramente devas-
tadas, seus campos cobertos de ossadas, os lares em abandon, cre-
anqas innocentes immoladas, e elles, os cearenses, errantos, em
mulambos, povo sem patria, arrastando seu infortunio por todo o
Brazil, e xpostos ao escarneo, desprezo e vilipendio.









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0 SR. OSORIO DE PAIVA E' facil avaliar a miseria a que ficam
reduzidos esses infelizes. (Muito bem.)
0 SR. JUVENAL LAMARTINE. E' facil de avaliar tambem o resul-
tado deploravel para o future da nossa raca. (Apoiados.)


A crise passou

0 SR. ILDEFONSO ALBANo-A cruise passou, por6m o mal ficou I
0 Ceara renasce, os sertanejos voltam ao trabalho, recomegamos
a accumular bens, ate que surja uma nova secca para convulsionar a
nossa vida e tudo novamente anniquilar.
Assim foi nos seculos XVII e XVIII, assim ter sido no seculo XIX,
assim. 6 no seculo XX e assim serA para o future, at6 que
o Governo tenha vontade de resolver esse problema da secca e
o encare cor coragem e patriotism, dando-lhe soluqao definitive.
At6 hoje temos combatido as crises, que sao passageiras, cor
palliativos, quando deveriamos combater as seccas, que sao periodicas,
por um trabalho continue e ininterrupto.
Nao vejo, em todo Brasil, problema de tanta relevancia, quanto
este; de maior, nao ha, nem p6de haver, pois este diz directamente
cor a vida do element genuinamente brazileiro.

As opinioes a respeito das seccas

As opiniBes acerca do flagello da secca, da acqao do Governo Cen
tral deante desse phenomenon e dos moios de combatel-o, sao extrema
mente variadas.
A maior part dos critics julga sem conhccimento de causa, ou-
tros fallam cor mA vontade e de mA f6.
Alguns, de passage pelo Ceara, olham para as enormes dunas
de areia, que se avistam ao long de nossas praias, e exclamam: ,Esta
terra 6 um desorto; digam-me si naquelle areial p6de nascer alguma
cousa) I Outros, que desembarcam e vOem os jardins publicos de For-
taleza verdes e floridos, algum movimento no mercado, voltam para
bordo dizendo que no CearA nIo ha secca; ha chuva, riqueza e bem
star. Alguns lamentam nossa sorte, sympathizam cor a nossa causa
e verberam o indifferentismo dos poderes publicos.
Outros, ciosos do bom nome do Brazil no estrangeiro,.
nos censuram por fallarmos em secca. Em uma viagom a meu Es-









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tado natal um passageiro, cor quom eu me entretinha sobre esse
assumpto. disse-mo:
((Voc6, como brazileiro, nem deve fallar sobre seccas e essas pho-
tographias, que sao um tremendo libello contra os governor, voc6
deve inutilizar, pois a sua publicaqao muito vira prejudicar a propa-
ganda, quo se vem fazendo do Brazil como paiz prospero, rico e adean-
tado, que ter gasto quantias elevadas em embellezamentos e melho-
ramentos materials. A secca 6 um cancro, que nos envergonha
e que ha muito deveria ter sido extirpado; mas, ja que nao o
foi, voc6, como brazileiro, tern obrigacao do encobrir essas nossas
misorias).
Respondi-lhe: ((Como legitimo representante do Ceari tenho o
devor de consciencia de pugnar pdlos interesses de meus patricios e
como brazileiro sou obrigado a chamar a atteneao do governor para
este problema national, que estA pedindo immediate soluqao. Si, assim
fazendo, prejudice A fama, que o Brazil tem adquirido no estrangeiro,
a mim nao cabe a culpa, e sim aos proprios Governos, que, em vez de
se preoccuparem cor o bem-estar dos brazileiros e o progress do paiz,
teem procurado antes dourar a pilula e crear cm torno do Brazil um
renome immerecido e ficticio. Quando fallo sobre as seccas de minha
terra, as infamias e vergonhas, a que estao sujoitos os meus patricios,
minha intenqao nao 4 censurar os Governos passados. 0 meu intuito
principal, unico, direi, 6 chamar a attencao dos Governos futures para
esta chaga national e mostrar a meus colleges, representautcs dos ricos
e prosperos Estados brazileiros, qual a verdadeira e triste situaFdo do
Ceara. Nao tenho a falsa noao do patriotism, que procura encobrir
as faltas do paiz ; pelo contrario, estou convencido do estar cumprindo
um ever de patriotism mostrando-as aos nossos dirigentes, para que
possam ser sanadas.
Si assim eu nao procedesse, seria taxado, -e cor razao, de co-
varde e nao cumpridor do meus deveres.,
O Sn. MOnEIRA DA ROCHA V. Ex. disse muito bem. (Apoiados.)
0 Sn. ILDEFONSO ALBANO Outros, cor sorriso sarcastico, chegam
a dizer :
cIsso do secca 6 cousa inventada pelos Estados do norte, quando
querem sangrar a Naqao,.
Prefiro nao dar a resposta merecida a esses individuos, que, por
escarneo ou outro sentiment monos digno, nos emprestam takes con-
ceitos.









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O abandon do nordeste

Ha outros ainda que querem resolver esse problema polo com-
pleto abandon do nord6stc e a emigragao em massa de suas popula-
Oses para colonizar o sul do Brazil.
0 Journal do Commercio de 17 do marqo de 1916 public um artigo
scm assignatura, intitulado A volta aos campos, que corn enthusiasm
o energia combat a construccao de aqudes e proga aquella soluqao.
Eis alguns trechos do artigo do illustre anonymo :
"Suspendamos, pois, esta lucta ingloria, inutil, louca cor que os
nossos mirrados bragos pretendem armazonar nos sertoes do Ceara
agua sufficient para desalterar o sol tropical e deixar ainda sobras
para a bocca do home.
Nao enterremos mais um vintem nesse desert americano quasi
tao branco, como as areas do Sahara, pelas alvas ossadas que ja o
cobrem. Si das primeiras vezes que o terrivel flagello da secca aqoitou
as nossas provincias do norte tinhamos o direito de nos queixar da
natureza, agora ji nao o temos.
uA periodicidade das seccas daquellas regiocs ja nao esti per
demonstrar; persistir em conservar all uma opulagao 6 um crime
identico ao que so commotteria na Suissa reedificando uma aldoia em
logar provadamente escolhido pelas avalanches para suas cor-
rerias.
(Feliz o paiz cm quo aos males que affligem os homes do norte
offerece remedio a propria terra do sul.
c(S. Paulo, Minas, Rio de Janeiro lutam corn a falta de bracos e
com a carostia do trabalho rural para a exploragao das suas ri-
quezas.
((Para fornocer os bracos do que necessita o sul, nao 6 de certo
sufficient a regiao assolada do norte, justificadas cstao as des-
pezas feitas e quo se farao para installar o colono ouropeu nas nossas
terras. Mas esse contingent de homes que nos p6de vir do Ceara,
alliviando aquelle Estado de uma populacao quo elle nao consogue
nutiir, nao deve ser desprezado como boa immigraqao quo sera para
os Estados do sul. 0 exodo dos reservistas italianos para as fileiras do
exercito da civilizaqao mais opportuna torna ainda a emigraqao dos
cearenses para o sul.
((Ha, pois, uma solugao para o problema das seccas do norte, que
de um s6 golpe cura dous males, o,entretanto, os politicos brazileiros









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passam ao lado della, para ir buscar em complicadas e custosas obras
de engenharia o remedio que umas simples viagens em paquetes do
Lloyd forneceriam.
((Que venham os flagellados do Ceara para S. Paulo, Minas e Rio
de Janeiro, come vae do sua casa para a do um paronto o enfermo
que nao tem rocnrsos e necessita mudar do areas.
"Deixemos as regi6es precarias do Ceara, como rescrva do terras
para quando o nosso paiz tiver seus 500 milhoes de habitantcs. Demos
as terras fecundas e as fartas aguas do sul aos famintos e sedentos do
norte.
((0 gesto 6 caridoso como os que mais o sejam, e sua projecqao no fu-
ture dilatada e bemfazeja come a sombra de uma pyramid no desert.
a Aos intermediaries dos infelizes ceareuses flagellados quo nao se
contentam corn esse soccorro actual, eficaz e definitive, lombramos
que meroce desconfianga o pobre que pode esmola e recusa um pao; e
recordemos tambem que 6 eternamente applicavel o process que usou
Salomao para descobrir a verdadeira mac de uma crianga em litigio.)
As id6as aqui expressas nao sao uma opiniao isolada; ellas teem
nfelizmento muitos e influontes adeptos e por isso precisam ser com-
batidas corn nergia. (Muitos apoiados.)
Ha brazileiros para os quaes o Brazil se resume na capital do
paiz, S. Paulo, Minas e Rio de Janeiro ; o horizonte visual dosses pa-
tricios chega s6mente at6 a Europa; o Ceara, come bem disse o nosso
illustre home de lettras Antonio Salles, flea tao long I
E' evidentemente um dresses braziloiros o illustre escriptor da-
quellas linhas, que, imbuido do bairrismo estreito, chega a chamar
uma loucura a prctoncao de ((armazenar nos sertoes do Ceara agua
sufficient para desalterar o sol tropical o deixar ainda as sobras para
a bocca do homem.

A irrigaglo na antiguidade
Bern mostra o illustre patricio que desconhcc o valor da irriga-
cao, pratica antiquissima, ji aloptada polos chinezes muito antes da
era christa. A inscripgao de IIammurabi, um dos maiores reis da
Babylonia, inscripcao quo data do anno 2200 antes de Christo, diz o
seguinto a rospeito da irrigacao da Mesopotamia, antiga Chald6a,
cujos vostigios ainda hoje oxistom:
,Construi o canal de lammurabi, bonoficio para as populaqoes
de Shumir e Accad. Distribui as aguas por canacs lateraes polas









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planicies do desert. Fiz a agua correr nos canaes seccos e della dei ao
povo um abastecimento ininterrupto... Transformei as planicics do
deserto cm terras bem irrigadas. Dei-lhes fertilidade e fartura e
dollars fiz a mansao da felicidade.,
A irrigagao do Egypto data de remotas 6ras e a Biblia refere quo
no tempo de Jos6 do Egypto todas as naoes li foram comprar
trigo.
A Africa Romana, que, no dizer de Sallustio, soffria do caelo ter-
raque penuria aquarum e onde, conform Spartiano, uma vcz deixou
de cover durante cinco annos seguidos, foi transformada pelos Ro-
manos com a irrigacao, a ponto de se tornar o celleiro do Roma.
A esto respeito escreve Gaston Boissier no seu interessanto livro
l'Afrique Romaine:
,Penso emfim que, por falta de outra prova, esses grades tra-
balhos hydraulicos emprehondidos polos Romanos, dos quacs restam
ruinas tao admiraveis, sao a demonstraGao mais clara quo o paiz de-
via sor naquclle tempo tao secco, quanto hoje o vemos: um povo, que
enxergava long, nao teria tido tanto trabalho, nom gasto lanto di-
nhoiro para arranjar agua, si do c6o tivcsse cahido bastante para as
suas necessidades.
(Foram essas obras maravilhosas que em parte suppriram o que
a natureza havia negado A Africa.
((Os rios africanos sao apenas ravinas; depois.de uma tempes-
tade extravasam e devastam o paiz; em seguida ficam quasi seccos e
As vezes desapparccem na areia. Para reter essas aguas passageiras
e impedir que se perdessem no mar sem provoito, os Romanos con-
struiam diques e immensos reservatorios. Ainda existem muitas dossas
obras, pelas quaes podemos admirar a competencia dos ongenheiros,
quo as construiram. A agua assim represada nesses grandes aqudes,
descia das alturas para a planicie, onde pequenos canaes a conduziam
atrav6s dos campos. A distribuigao era feita com muita precisao e de
acc6rdo com a lei; cada proprietario tinha dircito & agua durante um
certo numero de boras, come ainda hoje so faz nos oasis,.
Per isso chegou a Africa Romana a ser o colleiro de Roma; Ju-
venal em versos pedia que fossem tratados com consideragao os lavra
dores africanos, que trabalhavam para o sustento dos Romanos, que
assim podiam se entregar sem preoccupaqOes as festas e ao circo.
Annona, a deusa do abastecimento de Roma, foi objocto de um
culto especial e a Africa foi cognominada a (Alma da Rcpublica,.









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0 Sn. ELIAS MIAnTINs-Excmplo digno de imitaqgo.
0 Sn. ILDEFONSO ALBANo-As importantcs obras do irrigaqio,
construidas pelos mouros na Espanha, ainda hoje prestam relevantos
servios a uma grande zona arida no sul daquelle paiz.

A irrigaglo nos tempos modernos
Na 6poca modern teem sido grandiosas as conquistas da irriga-
cao em todas as parties do mundo: ao norte da Italia, na Argentina,
no Per6, no Mexico, no Canada, na Africa do Sul, na Australia ha
enormes tractos de terras irrigadas.
Qs numerosos reservatorios construidos na India, irrigando cerca
do 6.000.030 hectares de terra, muito teem contribuido para o
augment da produccao agricola, garantindo ao mesmo tempo a vida
de milhoes do indigenas.
A riqueza do Egypto 6 o algodao, cuja produ3=ao annual era de
7.500.000; cor uma despeza de 4.030.000 em obras de irrigai.o
a producqao foi elovada a 15.000.030. Posteriormento teem sido
emprchendidas obras de maior vulto, como seja a clevagao da parode
do reservatorio do Assouan, quo p3rmittira urn augment considera-
vel na irrigacao.
0 que os americanos teem feito na America do Norte 6 prodi-
gioso, vordadeiramente gigantesco. Falle por mim IIcnrique Sommler,
autor de important obra sobre agriculture tropical:
(HIa muitos annos, em dia de sol estival, estavamos em um
dos mais altos cumes da part meridional da Serra Neva-
da, olhando para o6ste, para a California, e voltAmo-nos de-
pois para o lovante, onde os montes da Nevada, cor mati-
zes azulados, limitavam o horizonte. Nao so avistava um s6 ponto,
onde o olhar pudesse regosijar cor a verdura, e involuhtariamente
nos vieram aos labios as palavras : Deserto Deserto triste e inutil !
Eternamente os homes fugirao de ti !
(Quem hoje subir Aquelle cume, cm que nos achavamos entao, nao
vera mais um desert desolador. Vera oasis risonhos, laranjaes,
jardins em floor que embellezam a paizagem e cada anno mais e mais
so multiplicam, at6 que em future proximo todo o terreno estara
transformado em campos ferteis e pomares.
(Agora cultivam alfafa, que, corn o auxilio da irrigac&o artificial,
di por anno oito colheitas e a mesma superficie, que outr'ora apenas
nutria uma ovelha, hoje alimenta, cor toda fartura, vinte.









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Isso no seri um triumph magnifico da energia e do espirito empre-
hendedor dos homes ?
< Azteques indicavam, quando os conquistadores hespanh6es, rudes e
grosseiros, perguntavam pela fonto de seus thesouros. Cortez mesmo
sahiu para procural-o, e embora regressasse desenganado, o seu
exemplo foi, todavia, imitado por ousados aventureiros, at6 quo des-
cobriram a regiao procurada. Comtudo os hespanh6es nunca puderam
manter-se em Cibola, nao obstante sua ambiqao e ganancia de prata,
a intrepidez e coragem em soffrer privacqes. Duas palavras os justi-
ficam: desert e indios. Desertos alcalinos, poeirentos, queimados
pelo sol; terra montanhosa, solitaria, nda, sem agua, o os apaches,
indios nomads e sanguisedentos.
<(Quando atravessimos pela primeira vez o paiz, ja tinham conse-
guido algunma cousa, todavia nao hesitamos nem ur moment em
negar qualquer future a Arizona: aqui homes brancos nunca esta-
belecerao civilizagao persistent, fundando-a na agriculture, pensa-
vamos n6s. Nas margens de dous ou tres rios, que ha e que seccam
durante a estaqao calmosa, poderia, porventura, realizar-se, por meio
de irrigagto artificial, uma cultural limitada do solo ? Pouco distant
dellos a natureza apresentava o verdadeiro character do desert : cada
plant estava armada de espinhos, Cada animal de garras. Com
a area solta brincava o vento ; os olhos doloridos fechavam-se
ante o reflexo do sol batendo na area e nas parades das rochas
nuas.
( prophecia. Uma ferro-via, que ligava dous oceanos, ji atravessava o
paiz, os indios eram mansos, mineiros ousados fundaram cidades, em
seguida vioram pastores e depois agricultores. Procuraram a agua
que faltava e a acharam no seio da terra; debellaram a falta das
chuvas pela construcqao de acudes e ropresas nos rios. Verificamos
que Arizona, corn seus pecegos e uvas magnificas, rivalizava vantajo-
samente cor a California e, onde esperavamos ver um desert eter-
no, ondulavam searas de trigo dourado.
<(Perguntamos si esses exemplos nao dIo direito a concluir que
os homes podem extinguir qualquer desert ? A duvida e pusillani-
midade podem arriar bandeira perante as razoes que aqui apresen-
tamos. Energia e actividade so os primeiros requisitos absolutamente
indispensaveis para dominar o desert.









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((Vimos transformar-se ante nossos olhos tantos desertos em cam-
pos florescentes, vimos tantos homes, que si melhor pensavam, mais
energicamonte agiam, vencerem e dominaram ondas de aroia e ter-
renos rochosos, que aprendemos a nos inclinar perante o facto, en-
toando o hymno do novo evangelho: Nao ha desert I
((Nao No sentido vulgar da palavra, nao ha desert. Digam
o que quizerem a superstigao e a ignorancia. Neste mundo, creado
por Deus, nao ha logar condemnado A eterna esterilidade. Qualquer
ponto da terra p6de ser utilizado, si nao o for, a culpa 6 da myopia
humana.n
E dessa myopia, concluo eu, certamento, nao soffrem os ameri-
canos, que, em 15 annos, conquistaram mais de um milhao de he-
ctares de desert para a agriculture.
0 illustre author do artigo Volta aos Campos mostra complete
ignorancia do que seja o Ceara, chamando-o de desert americano e
e suas terras regimes precarias.
0 Sn. MOREInA DA ROCHA E' muita ignorancia.
O Sn. ILDEFONSO ALBANO 0 valle do Cariry, por exemplo, 6 um
valle fertilissimo. E' todo cercado de montanhas e as aguas plu-
viaes, que ahi cahem, teem de passar todas por uma estreita garganta
na serra do Boqueirao, ao norte de Lavras, que forma assim uma
grande barrage submersa. Nesse valle, que nunca foi adubado
pelos agricultores, se plant canna de assucar, desde sua introducqao
no Brazil. E' a zona agricola mais fertil e mais rica do Ceara.
Al6m disso temos campos magnificos para nosso gado, que for-
nece um couro excellent, muito estimado nos mercados consumi-
dores, onde alcanga sempre cotaqao superior aos outros couros;
temos terras fertilissimas para a agriculture, onde, se plantando um,
colhem-se duzentos ; temos braqos fortes e sadios para o trabalho e
temos agua. S6 nos faltam os reservatorios, que retenham essa
agua para irrigar as nossas lavouras em caso de secca.
Nos annos chuvosos cahem milhoes de metros cubicos d'agua, que
se escoam pelas ravinas em carreira vertiginosa, causando por vezes
desastrosas inundagoes, e se perdem no mar; nos annos seccos em
vao se procura uma gotta daquelle precioso liquid.
No Ceara ha innumeros boqueiries, logares indicados pela natu-
reza para oppormos barreiras aos rios caudalosos, cujas aguas pre-
ciosas reprosadas serao a salvaco do Coara contra as soccas e contra
as inundaq0es.









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0 valle do Jaguaribe

Milhares de hectares do terras feracissimas jazem incultas a
margem do Jaguaribe, aguardando unicamento a irrigarao para tudo
produzir.
Em annos regulars os Estados do Ceari, Rio Grande do Norte e
Parahyba produzem 50 % do algodao consumido no Brazil. E sao
justamente estes tres Estados que possuem, na opiniao de um enten-
dido, as melhores terras, o mclhor clima o a melhor gente para a
cultural algodoeira.
Cor a emigraqao em massa dosses Estados onde iriamos buscar a
material prima para a nossa industrial fabril? Os demais Estados bra-
zileiros nao produzem algodao em tao grande quantidade, nem de
qualidade tao boa quanto aquelles.

O melhor algodao do mundo

Cor a irrigaq8o do valle do Jaguaribe teremos annualmente duas
safras e poderemos produzir algodao superior ao sea-island e ao
egypcio, cujo cultivo torn merocido dos governor americano e egypcio
todo amparo e protecqao.
O algodao sea-island, product de longos annos de adaptacao,
estudos laboriosos e paciente trabalho de selecqco, 6 hoje o melhor a
mais aprociado algodIo do mundo; sua cultural, feita de acc6rdo
corn todos os preceitos scientificos, 6 dispendiosa e sua producqao pe-
quena. 0 comprimento de sua fibra 6 no maximo de 45mm, em m6dia
de 40mm.
0 algodio, produzido no Egypto cor auxilio da irrigaQgo e
oriundo de sementes do sea-island, 6 o molhor algodao depois desto;
sua fibra attinge 38mm o tom em m6dia 35mm.
O melhor algodao exhibido na Conferencia Algodooira de 1916
foi o chloc6n e media 46mm.
Tenho aqui, Sr. President, uma fibra do algodao modindo 55mm.
proveniente do valle do Jaguaribe e encontrada em um lote de algodao
vindo do Aracaty polo Sr. Cunha Vasco, gerente da Fabrica Confianqa,
que forneceu esta amostra ao Dr. Trajano de Medeiros.
O SR. JosE AUGvsTo E' realmente notavol.
O Sn. JUVENAL LAMARTINE E fibra rosistente.
O SR. ILDEFONSO ALBANO Este facto extraordinario, por si s6, 6
uma prova incontcstavel da excellencia daquella zona para o cultivo









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do algo J1, digo mais, da supcrioridade daquolla a qualquer outra do
mundo, pois apezar de nossos processes rotineiros de cultural e desca-
roeadores improprios, apezar de nao praticarmos a selecqdo das
somentes, conseguimos, apenas corn o auxilio da natureza e sem
esforco, o quo os amoricanos, cor prolongados estudos de muitos
annos, aporfceioados processes culturacs e beneficiamento cuidadoso,
nRo conseguiram c talvez nunca consoguirao.
E ha brazilciros quc querem seja abandonada essa terra, aben-
qoada pola Providencia corn tamanha riqucza, quo n6s nZo tcmos
sabido apreciar, nom aproveitar.
Exportamos a c6ra do carnauba, do exclusive producqao do nor-
(6sto brazilciro, artigo muito procurado para fins industries.
Toinos a nossa historic, cheia de feitos gloriosos, quo nos enno-
brccnm, nossos grandos homcns, quo cm (odos os ramos da actividade
humana toem hoirado o CcarA, conquistamos cntro as unidades
brazileiras um logar de dostaque, quo nao podemos nom quoremos
porder.
Si as terriveis calamidades das seccas nao conseguem nos anni-
quilar, como quercm decretar o desapparocimento do coarense para
incorporal-o anonymo ao public de S. Paulo, Minas ou Rio de
Janeiro?
Essa id6a, pois, de decretar o abandon dos Estados flagcllados
pola sccca 6 urma id6a infeliz, iniqua, impatriotica a anti-economica,
fructo do bairrismo estroito do illustre autor daquellas linhas o de
outros partidarios egoistas dossa idea, que procuram favorecer a sua
zona natal em detrimento do uma part do Brazil, que nao conhecem.

Immigragdo estrangeira

Ainda para beneficiary sua regiao, o illustre incognito, autor do
referido artigo, diz que (para fornecer os bragos do que necessita o
sul, nao 6 de corto sufficient a regiao assolada do norte, justificadas
cstao as despezas feitas e que se farao para installar o colono euro-
pou nas nossas terras),.
Ora, como sabomos, a Europa toma tanto interesse pelos seus
subditos, a ponto de zolar polo bem star mesmo daquellos, que emi-
gram, fazendo several exigencias aos paizes, quo se propbom a rece-
bol-os como colonos.
0 Brazil tom promovido a introducoio de colonos europeus, cer-
cando-os de todas as garantias. Essa corrente foi iniciada por








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D. Joao VI, corn o decreto de 16 de maio de 1818, polo qual foram
introduzidas 100 families suissas do cantao de Friburgo para a
fundacao do nucleo colonial de Nova Friburgo.
Dahi para ci, sempre debaixo de leis paterraes, se tem desenvol-
vido, cor maior ou menor intcnsidade, a corrente omigratoria para
nosso paiz.
Abster-me-hei do fallar sobre abuses havidos na introducQao
de vagabundos, gatunos e criminosos de peiores especios sob a capa
de colonos.
Mas para a Camara podor comparar a tristo situacao do colony
cearonse no Amazonas corn a situagao privilogiada do colono estran-
geiro, you respigar alguns artigos do regulamento do Povoamento
do Solo, baseado nas exigencias foitas pelos paizes curopeus e appro-
vado pelo decreto n. 9.081, de 3 do novembro de 1911.
Em consequencia da guerra uma disposicao do orcamento de 1915
suspended a introduciao de colonos, mas os artigos, que nao dizom
directamente respeito A introducqao de immigrants, cstao om vigor.
Pelo art. 50 o Governo fornecia gratuitamonto aos immigrants
passagens at6 o porto de desembarque, hospedagom em grandes casas
hygienicas, alimentaGao sadia e, em caso de doenga, medicos o phar-
macia, omquanto ella durasse. De acc6rdo cor o art. 32 a passage
at6 o nucleo colonial era tambom paga polo Governo.
0 art. 43 descrove o nucleo colonial nos seguiutes termos: ((Nu-
cleo colonial 6 a rouniao de lotes, medidos o demarcados, de terras
oscolhidas, forteis o apropriadas a agriculture on a industrial agro-pc-
cuaria, em boas condicocs de salubridade, coin agua potavel suffl-
ciente para os diversos misteres da populatQo, contcndo cada um del-
les a area precise para o desenvolvimento do trabalho do adquirente,
servidos por viaeao capaz do permittir transport commodo o facial,
em favoravel situacao oconomica e preparados para oestabelecimento
do immigrants como seus proprietaries.),
Do acc6rdo corn o art. 54 deve haver em cada nucloo uma ou
mais escolas agricolas primaries, um campo de demonstracao para
cultures e pequenas officinas de forro e madeira para os alumnos do
curso agricola.
As casas eram construidas nos lots ruraes (art. 66) em boas
condigOes hygienicas e os torrenos preparados para as primeiras cul-
turas; pelos arts. 67 e 79 os lotes e as casas eram vendidos a di-
nheiro ou a prazo de cinco a oito annos, em prestaGOos annuaes a
contar do primeiro dia do tercoiro anno do estabelecimento do co-










lono, sondo as prcstaqcos, em caso do nao pagamento, accrescidas do
juros de 3 % triess por cento) ao anno.
0 preoo dos lots (art. 01) variam do 8$ a 20, o hectare para os
colonos, quo tonham familiar, podendo as casas (art. 91) ser vendidas
por prcqo abaixo do custo.
Si um immigrant, quo tiver pago polo menos tres prestaqoes,
fallocor (art. 82) doixando viuva o filhos, as demais prestacqes sao
disponsadas em favor destes on (art. 3:i) podom estes vender a outrem
o direito sobro o loto e obtor sua repatriaqa.o por conta da Uniao.
celo art. 56, os colonos teom om caso de molostia medicamentos
e dicta gratuitam:nto no primeiro anno, c assistencia medical gratuita
omquanto o nucleo nao f6r omancipado.
0 art. 78 manda quo os nucloos tonham armazom de generos
do primnira nocossidado para a "garantia do abastocimcnto da po-
pulac(o a prccos mnodicosn.
Aos chamados immnigrantes espontancos, quo slo os quo veom ao
Brazil A sua custa, o Govorno oforece tambom todos estos favors o
(art. 12) lhos restituo, dcntro de dous annos de sua chogada, o di-
nhoiro do suas passages para o Brazil.
Ainda nao vimos tudo: o Govorno, como born pae de familiar,
dota as filhas, que fazom bom casamento.
Vou lor este interessante art. 74 na integra :
v Ao inimmigranto ostrangoiro, quo, sendo agricultor o contando
monos do dous annos de entrada no paiz, contrahir casamonto corn
brazilcira ou filha de braziloiro nato, ou ao agricultor national que
so casar corn ostrangoira chogala no paiz a mcnos do dous annos
como immigrants, sora concorlido um lote do torras con titulo pro-
visorio, que so substituirA por um dofinitivo do propriedade, sem
onus algum para o casual, si cste tiver, duranto o primeiro anno,
a contar da data do titulo provisorio, convivido cm boa har-
imonia e desonvolvido a cultural e o aproveitamonto regular do loto. .
Esto privilegio de receber dote do Govorno 6 gosado nas
mnonarchias unicamento polos principos e princozas.
Para so avaliar a injustiqa, de qu o cearonse 6 victim, basta
comparar estas providencias paternaes, tomadas polo Governo para
:os colonos estrangoiros, corn os regulamentos leoninos, a que estao
sujoitos os colonizadores no Amazonas, e con as miserias soffridas
por estes brazileiros durante as seccas.
O Sn. MOnEIRA DA ROCHA E' de facto um contrast doloroso.
(Apoiados.)


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O Sn. ILDEFONSO ALBANO 0 Governo monarchico dospondeu coin
a immigrayqo cerca do 80.000 contos c o republican mais de 32.000.


( Alma de colono >

Ainda quo um certo numoro de colonos so adapto A nossa vida e
adopted do coraqao a segunda patria, muitos volamn para a terra
natal e muitos outros, quo aqui ficam, conservam a sua ((alma do
colono) o teem sou pensamento constantomento voltado para a patria
do borgo; remeltem todos os annus para a Europa milharcs do contos
do r6is o do nosso Paiz quorcm s6mnnto a cxcelloncia do nosso clima.
a garantia do nossas lois paternaes e as riquczas do nosso solo.
Esta situaqao de privilogio, do quo gosa o colono estrangeiro, nao
tern razao do ser. Emquanto a Na(do nao pudor garantir a subsistcncia
do sua populayio, olla nio tom o dircito do introduzir colonos estran-
geiros em sou torritorio.
Antes do tudo doveria o Governo da Unirto construir as obras do
irrigaqao no nord6sto braziloiro, dividir as torras irrigadas cm lots,
vendendo-os a brazilcicos nas condiioes cm quo sao os lots dos
nuclcos codidos aos immigrants.
As economics dostes nossos patricios nao irao para a Europa,
ficarIo no paiz, augmentando a riqueza patria.
Nos moments perigosos a Patria cuntarA sompro corn a lcaldade
incondional oo patriotism nunca desmcntido do Ceara a Estados
visinhos. (Muito bem.)
Nao 6 possivel quo os nossos dirigentos considered o dosenvolvi-
mento economic do sul de mais vantagom ao Paiz, quo a garantia da
vida dos braziloiros. (Muilo bem.)
Emquanto nao estiver resolvido este problemna primordial.de sal-
vaQao public, emnquanto nao podermos dizer quo o nord6ste brazi-
loiroconseguiu sua indepondencia economic, produzindo, quer corn
chuva, quor cor secca, o sulncionte para o sustento do sous
habitantes, a immigraqao estrangoira 6 uma affront aos Estados,
sujoitos A socca, cujas populaQoos cmpobrecidas vivom condomnadas
a uma existencia torturante.

Nio pedimos esmolas I

0 illustre author daquelle artigo, uem um gesto caridoso, como os
quo mais o sejam, offoreco aos famintos e sodentos do norto as terras








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focundas o as fartas aguas do sul o aos intermediaries dos infolizes
coaronses flagellados, qne uno se contentam corn esse soccorro actual,
eflicaz o definitive, lembra que merece desconfiana o pobre que
pede esmola e rccusa um pao.,
No Nao pedimos esmola! Queremos simplesmente ser tratados
como brazileiros I (Muito bem.)
As seccas nos onvergonham e nos aviltam, obrigando-nos a viver
do maos estiradas implorando a caridade e expondo-nos a critics in-
justas o cruci.
Qucromos nos libertar dessa triste situacao, queremos rescrva-
torios para as nossas terras, para que, livres das seccas e das inun-
Socs, possamos, polo trabalho honrado garantir nossa vida e bem-
cstar. (Muito bem.)
Sabomos que a cidade de Campinas, a bella (Princeza do 06ste,,
foi ontro 1889 o 1897 visitada por terrivcis epidomias do febre ama-
rolla; o porto do Santos era igualmonte um f6co desse terrivel
morlus, quo muitas vezes dizimava as tripolaq6cs dos navios ali an-
corados; a Baixada Fluminense foi um immense encharcado, que por
toda a rcdondcza espalhava o impaludismo e a more; na capital do
paiz campeava outr'ora livremcnto a stegomya, transmittindo a febre
amarella, espantalho dos viajantos estrangeiros e do corpo diplo-
matico.
Entrotanto, nunca se aconsolhou a fugida do Campinas e de San-
tos, a cmigracao da Baixada Fluminonso, nem o abandon do Rio de
Janeiro.
A mnuiicipalidade de Campinas emprehendou importantos melho-
ramentos hygionicos. Santos, saneado por uma commissao do govorno
paulista, 6 hoje um porlo abordado som recoios; a Baixada Flumi-
nense foi drenada e a counquista dos magnificos torrenos agricolas,
hojo cobertos, a perder de vista, de extensos arrosaes, ahi estao para
attostar o tino administrative do illustre Dr. Nilo Peqanha, executor
daqucllo ilnportanto melhoramento; o Rio de Janeiro passou por uma
complota transformation, tornando-se uma cidade modern e sauda-
vol, relembrando para sompre a acqao benomerita de Rodrigues
Alvcs, Lauro Milller, Oswaldo Cruz e Pcreira Passes. (Apoiados
geraes.)
Por quo razao, pois, devcrA o Ceara scr abandonado ?
Nao I 0 Ceara 6 dos cearonses e 6 no Ceara que devem elles ficar I
(Apoiados da bancada cearense.)








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Valiosas opini6es sobre o valle do Jaguaribe

0 ongenheiro ingloz P. 0' Moara, quando deixou a empreza do
porto do Fortaleza, percorreu todo valle do Jaguaribe de Lavras at6
Aracaty; a impressao, que ihe ficou dessas terras foi tao boa, que
tovo a id6a do organizer cm Londros uma empreza cor capitals in-
glezes para construir o grande resorvatorio de Lavras o irrigar todo o
valle do Jaguaribe.
0 son relatorio sobro este assumpto diz o seguinte:
<(Cerca de 10 milhas rio acima, na sua margom direita, ha uma
cidade de bom tamanho denominada Aracaty, situada na oxtromnidade
inferior das ricas e extensas planicies alluviacs do valle do Jaguaribe,
que se estendom polo interior em uma distancia de cerca de 80 mi-
lhas em ambas as margins do rio, cor uma largura m6dia do quasi
4 1/2 milhas e tao raza qun, em toda distancia referida de Aracaty, a
terra apenas so oleva a 50 metros acima do nivel do mar.,)
((E' evident que, si houvesso um bom e regular supprimento do
agua ao long deste valle, cm nivois apropriados A irrigacao, podor-
se-hia convertcl-o. rapidamente em um centro de producqao muito
important e proveitoso, que teria a sou favor grandos vantagens,
takes como um solo rico, um bom clima, uma grande populacao labo-
riosa e pequena distancia de um convenient porto do sahida.
Infelizmento o engenheiro O'Meara nao poude levar a effeito sui
id6a, porque foi surprehendido pela more.
A cxcellencia das terras alluviaes das margins do Jaguaribe 6
rcconhocida o apregoada por todos os scientists, que as conhegam,
scja clle Revy, Crandall ou Arrojado Lisboa.
0 Sn. JUVENAL LAMARTINE Sobre isso nao ha mais duvida.
O Sn. ILDEFONSO ALDANO Ila dias o illustre Dr. Alberto L6f-
gron, scientist abalizado e acatado, disse-me textualmonto: ((Eu nao
conheqo em todo o Brazil terra quo possa rivalizar em fortilidade
cor grande part do valle do Jaguaribe. Si ha mais de um Nilo, este
6 o sogundo, quo nada trn a invojar do seu college do Egypto.,)

0 capital despendido seri reproductive

0 capital exigido para a construcqio dos grandos aqudes daquolle
valle corn as rospectivas r6des de irrigacao cstara garantido polas
proprias obras. Como na Hespanha, podemos dizer que no Ceara a
agua vale mais do que a terra. Irrigadas polos aqudes, as margens








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do Jaguaribe produzirdo safras excepcionalmonto abundantes. A
rcnda da taxa do agua darA francamente para o custoio das obras
hydraul 'cas, pagamcnto dos juros e amortizaGao. 0 capital, que a
Naco gastar ser L um cal)ital productive e voltari totalmonte aos
col'fcs publicos, trazcndo ainda maiores bencficios, como scjam o
augmrnto da prcducco national c a garantia de vida e prosperi-
dado, quer cor chuva, qucr corn secca, da decima part da populaqAo
do Brazil.
Si para a conslrucqao dc portos o estradas de forro, saneamento
Scnembllezamento do Iio o valorizacao de products agricolas temos
lain;ado cinprcstimos, emittido papol-mocda o gasto sommas eleva-
das, 6 um dcver sagrado da Uniao salvar da more c da socca aquelles
infclizes brazilciros.
E' um problema do tamanho vulto, quo s6 p6do sor ciprohen-
dido polo Governo Federal, pois um orqaamento do tres a quatro mil
contos, como o do CcarA, nao o comporta.
O Sn. Osonlo DE I'AIVA Domais, trata-so do um problema na-
cional, c nao regional. (Apoiados.)

Project Eloy de Souza

0 Sn. ILDEFONSO ALBANO-Ila uim project tondento a resolver este
problema, apresentado A considoraQao da Camara a 30 de agosto do
1911 polo cntato Deputado Eloy do Souza, hoje digno Senador pelo.
Rio Grande do Norte. Este excellent project, moldado na legislaqao
ostrangcira sobro irrigaqao, si fosse approvado, viria resolver o ma-
gno problema do nord6ste. Infolizmente nao merecou a attoncaoda
Camara, pois foi rcmettido a alguma Commibsao desta Casa e esta
som duvida csquecido o entregue A traga e A poeira.
O Sn. TnomAZ RODRIGUEs -Conhcgo este project que 6 realmcnte.
valioso. (Apoiado.)
0 Sn.lLDEFON-O ALBANo-A Nagao, si nto quizer construir as obras
do irriga;5to, podera conceder vantagens a algiium ompreza que so
propouha a constr uil-as.
Dizom quo os ccarcnses sao indolentes...
Si porvcntura o sao no Ceara, 6 porque sabom que na lucta i n-
gloria contra a naturcza sahem sompro vencidos; cortos de quo,
mais cedo ou mais tardo, vira uma secca tudo anniquilar, convoncem-
so da inutilidade de seus esforqos e naturalmente se entrogam ao des-
animo o A indoloncia.








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Entretanto, em um meio different, no Amazonas, onde a na-
tureza nao 6 madrasta, esses indolentes sao os indomitos bandeirantes,
os incansaveis pioneiros a dcsbravar as florestas virgons o terras in-
salubres daquelle longinquo pedago da Patria.
0 SR. MOREIMA DA RocnA-Vanguarda de nossa frontoira septon-
trional.
Superioridade do trabalhador national
0 Sn. ILDEFONSO ALBANO 0 relatorio do Sr. J. Papatorra LI-
mongi sobro o Trabalhador Nacional, monumental trabalho do
roparagao i nossa, por n6s mosmos, tao calumniada rata, che-
gou A honrosa conclusao do quo o nosso trabalhador rural, corn direc-
gao bom orientada, 6 superior ao europen pola resistencia, pela
fidelidado aos compromissos, pela capacidade do aprouder e polo es-
pirito do ordom.
Penso quo a superioridade dos europBus oxiste s6mente na educa-
q o, quo suas patrias Ihes doram e continuam a dar o que n6s nto
temos sabido ministrar ao nosso home do campo.
Mudemos as condiqCes do CearA, garantiido a vida dos cearonses
contra os effeitos da secca, fornocendo-lhes na irrigacao os moios de
salvar sua vida e suas economies. Du-so-lhos educaGao para quo saiam
do semi-barbarismo, cm que vivem,e saibam molhor dirigir suas activi-
dades, para que tenham ambiQao e convicQao do sou valor.. Voremos
entao o indolente, o infeliz paria, que periodicamonte veem arrastar
sua miseria polo Brazil, se transformar, na propria terra natal,em arro-
toador dos campos e productor le algoi1ao superior; sera o cidadao
braziloiro, conscio de sous diroitos, trabalhando para o progress e
grandoza da Patria. (Muito bern.)
Conclusao
Procurei, Sr. President, mostrar o que 6 a secca, que em cyclos
indeterminados, mas infalliveis, que a historic registrar, assola o Ceara
o os Estados visinhos do nord6ste braziloiro, obrigando-nos a rcco-
megar constantemente a nossa vida o embaracando o nosso evoluir,
Apontoi os incalculavois prejuizos sociaes dolla decorrentos,trazen-
do ao conhecimento da Camara as avultadas perdas de vidas humans,
causadas pela secca, os elevados damnos materials inflingidos pelo
flagello. Procurei demonstrar os inconvenientes da emigraqao cea-
rense. Assignalei os meios do remediar todos esses males, garantindo a
vida e a prosperidade de 2.500.000 habitantes do nord6ste brazileiro,
contribuindo para a riqueza e o engrandecimento de nossa Patria.








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Agora, Sr. President, resta-mo s6monte pedir aos homes de
responsabilidade do Paiz sua urgent attengao para esta questao, a
qual interessa & decima part da populacao patria.
Nao 6 possivel quo esse problema economico-social, o mais grave
e mais relevant do Brazil, continue preterido por tantos outros de
somenos importancia, quo passam a ser considerados problems de
maxima urgoncia para a vida da Nacao, unicamente pelo valor
quo Iles cmprcstam sous advogados influentes e poderosos. ( Muitos
apoiados.)
Dizia Barbro do Viouzac : < Os infolizes s5o as potencias da terra;
ellos toem o diroito do fallar como senhores aos governor que os
aban donami.
Nao quorcmos fallar como sonhores. Come reprosotntane do
Estado do Ceara, cm defesa do direito da vida dos meus patricios,
quo teom sido um jogueto das inclemencias, venho pedir, implorar,
appellando para o patriotism, para o sentiment do humanidade e
justia da Camara dos Deputados.
Lombrom-so mous honrados colleges de que as seccas teem cau-
sado a morto a grand numero do brazileiros a que nas soccas futuras
morrorao ainda milhares de patricios nossos.
Si a tristo responsabilidade dossas mortes cabe em part a n6s
come representantes da Nacao, cujo dover primordial 6 a defosa da
vida do nossos patricios, livremo-nos das rcsponsabilidades futuras,
dando ao problema das scocas uma soluoao immediate e definitive.
(Muito bemn.)

O centenario da Independencia

Vamos cm breve complotar o centenario de nossa Independen-
cia. O Brazil todo se prepare para festejar cor pompa excepcional
o dia 7 de setembro de 1922.
O Ceara, come muito bem disse o chronista das seccas, Rodolpho
Theophilo, vive sempre entire uma secca, que se foi, e outra, que ji
vem. Vivomos cm urna constant inquietaqao, em uma excessive ten-
sao de espirito, sempre ameaQados da calamidade, acorrentados ao
secular flagello, que embaraga nosso progress e impede nossa indo-
pondencia.
Quando a 7 de setembro do 1922 todo o Brazil estiver no parque
do Ypiranga, festojando essa gloriosa data e as memoraveis palavras
de Pedro I: destine, esteja o Ceara mais uma vez em luta contra uma calamitosa