Sertão a dentro;

MISSING IMAGE

Material Information

Title:
Sertão a dentro; alguns dias com o Padre Cicero
Physical Description:
157 p. : illus., ports. ; 19 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Costa Andrade, L
Publisher:
Typ. Coelho
Place of Publication:
Rio de Janeiro
Publication Date:

Subjects

Subjects / Keywords:
Description and travel -- Brazil, Northeast   ( lcsh )
Genre:
non-fiction   ( marcgt )

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 05203844
Classification:
lcc - F2537 .C63
System ID:
AA00000251:00001

Full Text


e /4








L. COSTA ANDRADE


SERTAO A DENTRO


(Alguns dias corn o Padre Cicero)



LAT'N AMERICAN COLLE-T'
UNIVEr T- OF FLORIDA
\ if of
Ralph'Della Cava

yp. COELHO --
15 e 17, Rua Pedro I, 15 e 17
110 E JANIEII1O -
1922











































L. COSTA ANDRADE



















A Sua Excia.


Homenagem do


AUTOR.



















Ao Exmo. Sr.


Coni a admiragdo do


AUTHOR.

















SERTAO A DENTRO

(Alguns dias cor o Padre Cicero)





















lnteloquio




0 offercciimento deste livro aos dois grades brasilei-
ros Drs. Epitacio Pcss6a e Arthur Bernardes -.
nao tern a significacio que a muitos occorrcrd, conhe-
ccndo-o. Elle tern um alcance m ui different, rcspon-
dendo, como julgamos, a unm fir patriotic, qual o d;
unir no mesmo interesse por aquellas terras de sol, a at-
tenva5o dos dois reputados estadistas um, quasi a dei-
xar, oauro quasi a assumir as redeas da governa~io.
Em verdade, fallando-se hoje do nordestc, temn-s:.
forgosamnente de lembrar o actual president. 0 nom':
do Dr. Epitacio Pcss6a estd ligado cis cousas do scptcn-
trido brasileiro, desque, vencendo a inercia habitual do.
nossos homnens de governor, planejou c p6z por obra a
empreza colossal dos trabalhos contra a scca, levandno






- 14 -


oao Ceard as scgurancas de n.m future melhor, e fazen-
do-se mais entrado na gratid4o daquelles coraCgoes bra-
sileiros, a cuja felicidade veiu occorrer. Elle foi, incon-
testavelmente, o primeiro governor republican que to-
.mou a serio a soluicao do secular problema, ligando-se,
pelo esforco, ao reinado magnanimo do segundo impe-
rador, o unico administrator de quern se contain no
Ceard beneficios verdadeiros, corn a conclusiso das pri-
meiras agudagens alli executadas. 0 brilhante estadista,
ora, fronte dos nossos destinos, foi o governor republi-
cano que retomou o fio dcssa tradipdo de trabalho, que
o segundo imperio nos herddra, encacrando de frente a
debellagao daquelle mal periodic, que assola e devas-
la as regi5es nordestinas, cor particularidade as terras
*do Ceard, ondo, intercadentemcntc, a vida como que se
suspended no rythmo intercurrente das seccas, e.a fome,
*a misseria rspalmnam as longas azas de luto.
E' natural, portanto, que dc hoje por diante, o
nome do Dr. Epitacio Pess6a esteja ligado a tudo
quanto se referir (s cousas do nordeste e ainda mais na-
tural para o autor deste livro de impresses, que teve
opportunidade de ver e verificar, corn os scus proprios
-olhos, o encetanmento das obras colossaes que alli se estio
'hcecuztado, e que pela magnitude, pela extensdo e irm-
porte, e, principalmente, pelo alto alcance patriotic,
despcrtam nito so a admiraQito, mas a commovida grati:
dito dc todos os verdadeiros brasileiros.
Como elle proprio o disse: "o Brasil s6 serd gran-





- 15 -


*dc, no dia em que o sul umio tiver de envergonhar-se do
narte, e cm que nio morrer mais de fome o brasileiro.
Prender o iome do Dr. Arthur Bernardes 4 conii-
nua~io das obras iniciadas 6 fazcr do bomr patriotism.
Todo esforgo, herculeo esforgo, que se cmprcgou
min vencer difficuldades e decretar o ataque dquelles
grades emprehendimenlos, resultaria inutil, si por
unia qualqilcr impossibilidadc, fossem suspensos os scr-
vigos. A quanlia j4 avultada que a nag~o alli despen-
deu, promovendo as medidas preliminaries necessarias (i
installagio dos trabalhos, tornar-se-ia improductiva, fi-
cando scm recompensa o sacrificio que se nos imp6z ds
finanas, para rcalisar a obra, sobro humanitarian, na-
cionalisa., e que visa, como parece, a valorisacdo cco-
nomica daquellas vastas regi5es ondc, periodicamente,
se faz o desert, e onde, de futuro, a ag daglem, a irri-
gaclo, levarlio a certeza da prospcridade c da abastanga.
A contin.uagio das obras se impoc, como um deve."
a que so nio p6de mais forrar todo brasileiro, em cujas
miaos v4 parar a responsabilidadc dos dcstinos do paiz,
0 author obedcceu, assim, is suggcsties do seu pa-
Iriotismo, quando no fronlispicio desle opusculo entre-
laCou. nunm mosmo offerecimento, o nom.e do Dr. Epita-
cio Pess6a ao do Dr. Arthur Bernardes. Livro de f6,
livro de sio gnacionalismo, ino ierd feito excess 4 co-
nhecida modestia dos dois !irlol d, brasileiros, offere-
ccndo-lhes o resultado das impresses que colheu sobrr
... trccho da terra brasileira, que mais est( a reclamar
o inleresse e a alicn io dos homes do gover.no.






- 16 -


I Devo ainda algumas palavras sobre a razao de me,
haver, espontaneamente, encarregado da defesa do un,
-nome, que o despeito e a calumnia nio temn paupado.
Quero referir-mne 6 pessoa do venerando Padro Ci-
cero, unma encarna~io bellissima do character, das virtu-
des e da f6 ardcnte do brasileiro.
0 illustre sacerdote bem merece, de todo o paiz, 0.
just acatamento de que gosa em toda a regiio do nor-
deste. E' um padre dedicado, unm organisador notave',.
que, corn o se exemplo, o seu esforgo, o sei vibrant,
patriotism, ter conseguido levar a termo uma
grande acC.io civilisadora, que vae desde a pacifi-
cag~io progressive dos instincts das rudes populag5es
sertanejas ao impulsionamento economic da sua Zonaa
de influencia, interessando a todos na tarefa da prod.u
cpgo agricola. Demais disto, ndo me poderia furtar ao.
registo da decidida contribuiaifo que elle tern empresta-
do ao servigo das seccas.
Sem o seu apoio indefesso, sua assistencia perma-
nente, estariam a lutar os encarregados daquellc servi-
go corn as mais arduas difficuldades. Sem o seu con-
sentimento, o seu incitamento patriotic, naio se conse-
gwiria a absolute disposi5io do brago humano, que ora
ali se constata, tdo necessaria d field execupdo do pro-
gramma a executar-se.
Estard, assim, explicado o motivo de me occupar
tao longamente deste grande sacerdote, que, ao demais,
9 merecedor da admriragfao incondicional dos homes dr
b6a vontade.






- 17 -


E' uim ministry de Deus na altura, das virtues r -
queridas, c ao mesmo iempo, urn grande brasileiro, tii
grande cidadco, sob cuja influencia sc tern levado a tor-
'to unma dilatada tarefa, naqielles afastados re'cantos
da gleba brasileira.
Ndo precisava refcrir-meo ausencia de velleidades
littcrarias, que acaso me possuissemi, no escrcver eslic I;-
vro. A cathegoria dos assumpios que adrede escol7i, e,
a natureza dos fins a que me propuz, excluem, de ant-:.
nmio, qualquer pretcnsto, menos acccitavel, dc conqui.-
lar f6ros de escriptor e litterato. Foi muilo men or o
nmen escopo, e muito maior. Foi menor, porque a solid,'
rrpulac/o littcraria. nio podia aspirar qutcm, felizimen-
te, lem a exacta noo qo da suae pcquencz. Mas foi scm,
duvida maior o fito que e commetti, que *nio o d:
acquisii.o do unma gloria litteraria; possictclmeni rrd-
leidosa, mas inmtil.
Quiz fazer obra de patriotism, concorrendo para /
o conhecimento de vasto trecho do paiz, ondo se expect,
nesl'hora umd hercuilea empreza de preparacilo prla o 0
fuluro; escrevedo este licro, attend aos reclamos dC
mien nacionalismo, do verdadeiro nacionalismo, daquel- I
eI que so define por um mewo menos palaivoso c maic
efficient. Ni7o vcjam, pois, os homes de letrcas. nas
despretenciosas paginas que vdo a segiuir, outro i.lluito
aldm do de prostar a minha contribuigiro, modcsla man
dedicada, a grandeza da patria, que todos devemlos .s-
trmoecer cm filhos.










s.SERTAu A DENTRO


0. :emplo do florto, no Juazeiro, mandado construir
pelo padre Cicero Ronmao Baptista


~_~"7~"-~-p"~-~-.nx~.i~.T-~-----~
~-1~,.-
""' ..,.
: '''














NOTfA5 PE UIAGEM



















Quixada




A vida di;splielntetl de F'oraleza .comec-ava a
fatigar-me o Cspirito, habituado a vetigein do:,
dias febris da iin -trjope brasileira, quando re-
solvi penetrar o sertio arese c encuj oo solo a -
c(leienicia das seecas toriiou co111o clue lendario.
() ieu ingresso nas "terras de.sol" foi para
mila IIMta r'eve'lawto sensational da aluna Ibasi-
leira, contemplada na sua nudez Imais Ierifeita,
Ia sna valentia mais noobre, no sen earnecter mais
hello
A primeira cidade, onde estacionei, foi Qui-
xad(l,, dle uIlna att.uCoz ma gnifica, rel)rilianite de
luz. circnmdadt a de mnoitainhin poiitoneauda s, (OltL





- 24


o aspect eolinuInii a todos os logarejos da zona
c'aleinada dos sertdcs.
Levara-min a Quixadti o combolio da. ledc
Central da Ba'turitc, que vni por aquelles mun.
dos prolonganlldo as parallelas do seus canlinhos4
e levando no contacto dos mais al'astados rinecoe.s
osL bneliieios do sua faina civilisadora.
Muito ldeve a Baturit6 ao son incansavel si-
perintiendente, o illustre Sr. Dr. Couto Fern:an-
des, euja preoccupaiao 6 de bem servir o pov,,
ceareise, trabalhiando pelo adeantanmnto do imn-
aortanto servig(o de viacnfo, qne constitute hiojo
luna dlas mais justas garantias do progress lno-
sorteos (do ('earli, notadamelnite na zona do C(a-
riry.
TFm Quixadai, onde me demiorei algulns dias,
live ensejo de ausenltar a alma do sen povo, ,r(-
1nrosa, aollhedora, magnanima.
() character do homem, alli, nuo desmente o
de todo o sertanejo: onoirg'io, altivo, imperiosoe
ionesto, se bein que do apparencia evidentemen-
to contraria a estas qualidades fnndamenitaes doi
stui com'ploeieo moral. Dir-se-i'a q'ue o fillho de
Quixadui temn a mesma (onstituicQAo de sua terra,
i'arta de giranito, I onlhiscosa, altanoira, e, assim,
'orte e resistente ...
I ospedon-ne o Hotel de QuixadA, d ) pro-
priedadc do Sr. Jose6 Roisendo, qiue, aleh' d'est.






- 25 -


-de poelcial, o que naturalmenite constituia nmia
.garantia contra os arremessos dos hospedes. .
"veilhacos''"!
Tres dias depois de clicgado, fui distinguidu
coin urn convite do Sr. Dr. Jo.s6 Pinheiro, chefe
de uma commissiio federal, corn s6de alli, para
visitar o IHorto Florestal e, em seguida, o Aiude
Cedro, distant da. cidade cerea do tres kilome-
tros. 0 Agude Cedro 6 nina obra de proporg6ec
gigantescas, executada nos nultimos annos do ini
period de D. Pedro II.
( seu valor e incontestavel, merecendo, por
isso, menlqio especial.
0 problema das soccas do Nordeste nio so-
via tido na conta do insolnvel, se os poderes pu-
blicos nao oo encarassem tantas vezes como urn
meio facil do aquinhoar a afilladagem po-
litica. ...
Foi, pois, com0 muita justice que o distinct
home de lcttras, Sr. Dr. Jos6 Lino da Justa,
ex-deputado federal, emn conferen'cia realisada
em Fortaleza, proclamou esta grande verdade:
"o 'COarii s6 temr conhecido, at lhoje, dois chefes
de Ilstado: D. Pedro If e Epitacio Pessoa".
DIeixando Quixada, comi estas intpressoes,
prosegui minha excursio, indo ao encontro di
nTOVOS aspects, de novas almas de dnovas terras.




















5enador Pompeu




IIuni r'l al')orisa(da, unia igreja, nt1111 inenl :
c a estaiao da via-forren, que e, alias, unia dal.
imais importaiints da Baturite -- onstituecnt i
!idadde de Seniidor lPompeu.
As iota.s enr'iosas dcfl se atfastado nuclo,
Certanejo resIIICue-sc em11 dois aspectos: o m0ovi
mncto nointrao, devido ai e(iegada de dois trends,
proedeinte ntm de Forttaleza o o trouo de Auro-
ra, o a sossao cinemn(i ;,IglI'Laplii.a do Casino, acoil-
panhada ]polo -ehlro" dC 111i pinho inimitavel...
Ha a1inda dois hotels, disputadissimos Il pelo.
viajantes, (iqando clihegan a Senador Poinpou,
recebendo a inplf ssi.io de que penetramul urn
grande imcio, peloU a(otovrehimiento da lnnltidi)o,








-- 28 -

,cue ninguem mais v6 i mannhai do outro dia,
jqando. a cidade parece reponsar toda el'la, como
,de vigilias bohemias.
A' tardinlia, o povo coluo que vai desper-
.tando...
E entaio, a nota chic da interessaute cidade
,-earense 6 o jogo de gamino, 1 porta das viven.
das, dos estabelocimenmtos coinmerciaes, do bar-
heiro palrador, onde se dispute em partidas re-
nhidas o "record" desejado...
Sio families da maior distinceaio local, que
se empenham assim no hiteressante esporte, como
as linda-s cariocas fazem o sen incomparavel
.nhic do Alvear...




SERTAO A DENTRO,


Um aspect da grande fabric de oleos de Iguati


IV



















IguatO



Cidacld do aspect interessante, Iguati re-
sente-se cl falta de iniciativa dos poderes inu-
nici.paes, nmo apresentaudo por isso mellhoramen.
tos, que nmeresiam menugAo, resultando, apenas.
sen attractive da moldura de poeticas lag6as, em
cunjas margens so estende copioso arrozal.
Ci-ommercialmente movimentada, Iguatfi pro-
duz comr abundancia o algodaio nosso 'ouro
branTco", o mesino que 6 a sua principal riqueza.
Como estabelocimento industrial digno do
refi;encia, existe alli uma grande fabric do
oleos vegetaes, de propriedade de Viriato Traja-
no ledoiros, q(iue muiito tern concorrido para 0
adeantamento da ind'istria local.
Cheguei a Ignatfi, procedente de Quixad:i,





- 32 -


n'um dia de soT ardente, impressiolnado-me logo-
a estacgo, que 6 ampla e movimentada, deno-
tando a primeira vista que, a despeito do ar do
decadencia da cidade, estampado .nos aspects.
de sua edificag6o, 6 intense alli a febre do tra-
balho.
Miunicipio de prosper lavoura, o do Iguatfi
possue um campo de experimentaqiio agricola,
mantido a expenses do proprietario da fabric
de oleos, o qual visitei a convite do gerente, o il-
lustre Dr. Octavio Peres, fino cavalheiro e es-
clarecido industrial.
0 campo experimental de Iguati n utna des-
sas iniciativas louva'bilissimas, a que muito deve
o poder public.
Observei cor particular intere'sse e satisfa
qdo o adeantamento *da cultural rational alli pra-
ticada, de resultados iunegavelmente admiraveis.
Como im todas as cidades do interior brasi
leiro, a lpercentagem do analphabetismo eon
rguatfi 6 um facto impressionante.
Onde, por6m, o clamor deste achaque naoio-
nal nmais me chamou a atteng~io, foi em Lavras e
Aurora, dois liberes rinc5es da gleba brasi-
leira, cuja instrucego vive infelizmente descura-
da, como coisa inutil.
Testcmunhei no muni'cipio -de Lavras um fa-
cto que clama aos ceos, pelo inacreditavel do su:r
monstruosidade.






- 33 -


Umna vez que aqui me occupei deste momen-
toso problema national, nfo resisto a necessida-
de que tenho e sinto de relatal-o.
Existe em Lavras uma escola, onde apeina
se ensina ao aluumo rabiscar o nome, sern outra
preoccupaQfo, a'lm desta, que Ihe facility a ga.-
ratuja, corn que faz nos dias de eleigho, um simi-
le de assignatura.
Siio maleficios esses da politicalha, cujos ele-
mentos nao pleiteiam junto ao governor, que aju-
daram a subir, desvivtuando os mais elevados
principios da moral repu~blicana, uma escola pu-
blica effective, mas subvencionam um professor'
para o preparo do Jeca Tatfi eleitoral...
Iguattf nfo attingiu ainda esta "perfeigfio",
imas a percentage de analphabetos convence-
nos de que o meio alli est6 propicio A fructifica-
giio desses maos exemplos, que ao governor cabi:a
reprimir em nome da moral political.
Deixei IguatMi, runmando para TIaxras.









S SERTIO A DENTRO


Fabrica de oleos de Iguatd. Um aspect das
suas installa9oes




















LaVras




Oidade feia, decadence. Lavras 6 muito acci-
dentada, tendo mesmo um aspect topographico
desagradavel i primeira vista.
A despeito de ter um grande movimento
prospera economicamente, devido ao extremado
partidarismo politico que, entire outros flagellos,
prepa'ra exclusivamente o individuo para garatu-
jar a assignatura, conform atraz referi e no sen--
tido de augmentar a,ssim o numero de eleitores
inconscientes.
Cheguei a Lavras num dia de canicula abra-
sadora.





- 38 -


0 ceo limpido, azul, scm uma nuvem e o sol.
impiedoso, caustieante...
Foi corn um'a emolAo muito grande que oo
me lem'brei de aspects identicos em lhoras mais.
angustiosas, quando todo sertAo arde como uma
fornallla e a vida se vai lentamente opprimindo
e o exodo fatal, 'a emigraiio inevitavel se reali-
sam, entire as does mais cruciantes e a perspecti-
va da maior desola9go.
Infelizmente 6 Lavras o municipio onde a po-
li'tica estendeu, corn maiores consequencias, os.
sous tentaculos c a .sua voracidade sobre todas as
energies locaes.
Chegou a tal ponto a paixao politico-partida-
ria em Lavras que, dos municipios cearenses por
mim peicorridos, 6 este o em que a familiar so
acha mais desorganisada, dividida e quasi .sempre
empenhada numa lucta interminavel de competi-
q6es, de que resultam verdadeiras hecatomb)es.
Deus se apiede de La.vras e os governos da
RepuMica e do Estado lancom suas vistas para o
infortunio d'aquelle povo, perseguiido pelos dois
maiores cataclysmos nacionaes: a politiquice o as
seccas...
Para tirar a impressao desoladora que me fi-
cou de Lavras, unna nota comic.
A' hospodaria, onde me alojara, levava-me as
refeigse.s, que en pedia a nm dos hoteis da locali-





- 39 -


dade, um rapazola lavronse, muito sympathico,
um tanto desconfi'ado coino 'todo sertanojo, mas
de visivel intelligencia e b6a conduct.
Certo dia, como de costume, levou-me o al-
mogo.
Eu me tinha servido, por6m, de urma suc-
culenta merenda, na companhia de alguns amigos
que alli me davam um dedo de prosa jovial, e, re-
cusando por esse motivo o almoco, disse para o
Benedicto:
"'Serve-te A vontade, rapaz."
0 gury, cerimonioso, tambem recusou. Insis-
ti, attribuindo ao acanhamento de sua parte, a
recusa peremptoria. Tornei a offerecer-lhe o clei-
roso quitute:
Come! Come!
NAo seu mogo., n6o quero...
Aquella vergonha ia me irritando, a mim,
que me apiedara d'elle. A' minha insistencia, po-
rem, o Benedicto, arregalando os olhos e assu-
mindo uns ares superiores, replicon-me com a
mais solemne das convic ges:
Ora sen dout8, niho quero, jA disse. Eu te-
nho nojo... eu bem sei como isso 4 feito...
TABLEAU! Era o proprio Benedicto, credo
do hotel, que autorizadamente assim falava...









-.. S.ERTAO A DENTRO


Um pequeno trecho do boqueirfo do Or6s, onde vae ser cons-
truido um dos maiores aqudes que se conhecem,
approveitando as aguas do Jaguaribe



















Aurora




Pequena villa de aspecto monotono, com to--
pogTraplhia accidentada e edificadio pauperrima,.
mas comn possibilidades de progress, agora de-
pois da passage da via-ferrea de Baturit6.
Antiquissimo log'arejo, Aurora como que vai.
resurgindo do atrazo a que o relegaram os podo.
res publicos, tomando impulses novos, adeantan-
do a sna lavourn, incrementando o sen commer-
cio.
Infolizmlento a in'strucgo 6 deficientissimna.
Praza a Deus que, com a renovaqio de suar
vida, esse mal so atenfie, encaminhando seus dos--
tinos para future mais alvihareiro.
Fui encontrar na matriz local, que visitei na-
companhlia do Reovmo. Padre Vicente Bezerra --





- 44 -


nmn hello espirito e um grande corai:ao que dirigi
corn zelo os negocios do sna parohia -, authen-
ticas preciosidades.
Possue a igreja imagelis e mn grande sino
-que foram offcrecidos pelo magnaninio limpera-
dlor Pedro II para o modesto tempo de Aurorn.
Clonta-se, a proposito, que, para solicitar de
N. M. a mercer dresses regios e piedosos presents,
martin do Ceara umna lva de ocaboclos, venecndo,
em]a jangada, sabe Deus ai custa de qnantos sncrifi-
cios, a penosa travessia.
Premiando o arrojo desses novos handeiran-
tes, que afrontavam assim today sorte de intempe--
ries para servir ai causa de sua consoladora reli-
gifio, o grande monarclha attendeu-lhes os rogos,
mandando que fossem gravados no sino, que ha-
veria de chamar os fieis aurorenses as doces pra-
ticas (hristis, os hraz5es de. sua realeza.
1). Pedro II ainda lies inandou dar verda-
deiros mimos do arte, deli'cadas alfaias capricho-
.samente modeladas, lindos castigaes, que consti-
.tuem preciosas reliquias, de que o modesto tern
plo de Aurora 6 um privilegiado escrinio.

*
*

A' frente do ulna futurosa emupreza miue-
ralurgica, desenvolve intelligence e focuida acti-
vidade, o Sr. Conde Adolpho Van den Brule, de







- 45 -


origem ftranceza, em companhia de quem visited
a mina Zaira, a nove kilometros da s6de do muni-
cipio.
negtundo in'formao5es, que mle preston esseo
fino cavalheiro, 6 aquella propriedade una fonte
riquissima de cobre e de carvito do pedra, jai ten-
do o esfor'ado industrial realisado experiencias,
que foram coroadas do mais complete exito.
E', como se v6, anspiciosissima essa iniciati-
va, de que, alias, o nosso paiz precisa para An')
continuar assim possuidor do fatbulosas riquezas
inexploradas e, o que 6 mais, ignoradas.
Praza aosi c6os que a tenacidade do Sr. Con-
de Adolpho so allie i b6a vontade dos capitalistas-
cearenses e dos poderes publicos, de modo que
seja attingido o exito desejado, -merce do qual se
promoverio subsequentemente a prosperidade e a.
riqueza de Aurora, como do CearAi.









SERTIO A DENTRO


Um aspect do rio Jaguaribe








-f-3- -' 2-7fl -J- ------ -- i------ =-- r-- -'ir--









Missao Uelha




Como o nome indica, Missio-Velha, send
por assim dizer o hunibral de toda a grande o
prospera zona agricola do Cariry, 6 talvez o mais
antigo daquelles logarejos.
De penoso aocesso, feito o percurso no costa-
do de alimarias, o longinquo logarejo cearense 6
luma cidade, que dsfa'llece aos poucos, lentamen-
te, como que afastada do mundo e ignorada da ci-
vilisag~o.
Ponto obrigatorio de passage para o via-
jante, que, vencendo os rigores da canicula, em
demand do Cariry, alli faz o pouso de descanso,
Missio-Velha apresenta, apenas, este aspect do
hospedaria, onde apeiam os cavalleiros fatigados





- 50 -


da jornada, e, ,sacundindo o p6 da viagem, refri-
geram-se A sombra de um tecto hospitaleiro.
Corn a passage proxima da Batu-
ritM, tomarh outro adeantamento o munici-
pio, sendo essa a espectativa anciosa de todos os
seus habitantes, menos fatquelles que, por falta
alsoluta de educagio, v&em no caminho de ferro
uma invenqdo do "Capa Verde". (1)
Se alguma coisa clhama-nos a attengco alli, 6
a matriz local, como, alias, acontece em todo o in-
terioir ceanense, onde o espirito religioso exerce
um poder de suggested verdadeiramente notavel.
Trabalhada por obscuros artifices do proprio
logarejo, 6 de causar pasmo o esmero que se nota
na sua construcgio e sua recent remodelacqo,
em que se fez emprego exclusive de material in-
digena.


(1) 0 demonlo.





o000000oo 0 o0ooo 00o00 ooo0oo0o oooo
& Soo oo oo 0oo
0 0 0 0 0 0 0
0 0 0 0 0 0 0 0 0 0
0 00 00 00 00 V










Barballha




A cidade descansa numa pequena elevagio,
-presentando, a primeira vista, aspects novos,
-que dao a idea de que, apesar de ser Barbalha
uma antiga cidade, vai entrando em florescencia.
Ha, alli, cousas verdadeiramente notaveis,
que surprelhendem a quem vem de transpor Mis-
isio-Velha, Aurora e outros logares, desilludindo-
se completamente, corn o atrazo observado, a fal-
ta de instruc;5io primaria absolute, a ignorancia
de todo surto civilisador a ponto de impressio-
nar o viajanto e incutir-lhe a presumpC.~ o de quoe
pisa outra terra, condemnada pelos homes c es-
quecida dos poderes publicos, sem uma iniciati-
va de trabalho e de adiantamento.





- 52 -


Barbalha, nio. Comegam alli a expandir-so
um outro espirito, uma outra vida, nma nova
actuag~o. E, para se fazer uma id6a do que affir-
mo sem exaggero, basta registrar a existencia de
um Gabinete de Lpitura, cor 33 annos de funda-
g -o a mesma idade da Rep-nblica...
Existe ainda unma Liga contra o Analphabe-
tismo, a unica do Estado e dirigida por uma se-
nhorinha com a dedicagdo de uma abnegada ser-
vidora de sua terra.
Barbalha 6, pois, uma cidade que progride.
Oommoveu-me sinceramente a visit, que fiz
a unma escola noc'turna, mantida a expenses de um:
grupo de cidadaos barbalhenses, que tollabora
vam assim, independentemente, nos traba'hos da
Liga e na obra de patriotism desta.
Fui encontrar, com a alma jubilosa, mais do
60 creangas das mais pobres da localidade, entre-
gues ao estudo, Idurante as primeiras horas da
noite, todas satisfeitas e felizes, na exhuberancia.
de sna vida em fl6r, sem attentar na falta de cal-
gado on no remendo da camiseta de algoddo...
Convidado a vel-as de perto, senti-me arreba-
tado por aquelle eloquente e isuggestivo exemplo.
de amor ao estudo, tendo entio, ouvido muitas
dentre ellas sobre assumptos civicos, que uma.
ignoravam e outras diziam conhccer, sorrindo A
f6 do men patriotism.
Sobre a nossa bandeira, falei-Thes longamen-





53 -


te incutindo-lfhes no animo, o respeito e o cari-
nlho que Ihe devemos, amando-a com os extremes
de bons filhos deste nosso immenso e glorioso
Brasil.
A' bandeira national, grande na expressao
de suas cores e maior ainda na 'significag~o moral
de sen symbolismo, alli, naquelle meio, onde
tantas esperangas magnificas 'desabrochavam e de
onde nho se pode saber quantos grandes homes
irAo sahir para collaborar no alevantamento do
nome national, rendi as homenagens do meu pa-
triotismo, tendo sentido que, commigo, vibra-
vam aquellas almas em botio, com esse mesmo
sentimentt, nunca desmentido, do brasileiro nor-
tista.
O meio intellectual conta corn bons elements,
1devendo aqui destacar o Dr. Manoel Florencio,
um bello espirito barbalhense, muito amigo de
sua terra, cuja prosperidade incansavelment3
propugna.
Barbalha ter um commercio progressista,
mesmo notavelmente desenvolvido. Uma das coi-
sas que impressionam tambem lisonjeiramente o
espirito do visitante, 6 o trabalho d'arte de uma
das igrejas, a de construccio mais recent -
cobra de artifices barbalhenses, alli mesmo resi-
-dentes.
Sobresae o altar-m6r, que 6 um priorr de
.obra d'arte, sendo para admirar que se possa exe-











54 -

cutar alli tro precioso trabalho, em que a mio
d'aquelles ig'norados artists se esmeron, dando -
impressdo de que foram mestres consumados oa
sous execntores. 5






SERTAO A DENTRO


A grande usina geradora de tbria e luz, da
cilade de orato



















Crato



Cheguei ao Crato numa tarde de domingo,
tendo para logo a agradavel impressio de que pi-
sava o solo da metropole do sertfio cearense. Des-
cansando nmn b'aixio ao p6 da magestosa serra do
Araripe, qun parece defendel-a, Cra'to 6, por as-
sim dizer, umra pequena Capital daquelles longin-
quos mundos, tio ingratamente esquecidos dos
poderes publicos.
Sente-se- uma renovagio de vida flagrant
nessa bella cidade, aonde chegam amortecidos os
eehos da civilisacio, sem, comtudo, paralisar-lhe
os surtos de progress, morc6 do powder de inicia-
tiva de sens filhos e da boa vontade corn que ellc,
trabalham o cngrandecimento de sua terra, sob
os alentos patrioticos de querel-a afortunada.





- 58 -


Povo communicative e bom; a fibra do serta-
nejo, leal, acolhedor, generoso, alli tern a sua de-
monstracio mais evidence.
Mal eu tinha chegado ao Crato, sorvido. em
haustos o ar puro do son esplendido sertio, e ji.
me sentia como no meio de velhas amizades, don-
de ha muito vivesse afastado, tornando entfao
para revive affects esqueeidos ou lembrancas
que ji iaam morrendo..
Testeinmnhei dois dias depois de ehegado um
auspicioso aeontecimento local: a inauguraiio de
umra formosa praca, capriohosamente ajardinada,
obra do Coronel Antonio Luiz Alves, prefeito do.
Crato o uma das notaveis figures da terra. Nio
faltaiam fi essa festa ,de inauguracho da praca 3
de Maio, as main's eloquentes mostras do regosijo
popular, nella tomnando part o escol da soeiedade
cratense, que fraternisava assim corm todas as
classes, num movimento genuinamente demo-
ri'atico.
Ajuizei ignalmente nessa occasiao do adian-
talnento intellectual dessa pittoresca cidade. ser-
rana; encravada em pleno sertio, aonde fui ouvir
a voz de tribunes fogosos, de oradores brilhan-
tes, inlterpretando oom exac'tiddo psychological os
sentiments populares da grande massa craten-
se, digna continuadora das valorosas tradiees
de D. Barbara e Martiniano de Alencar....
Participando, em toda sua plenitude, da ex-





- 59 -


pansdo congratulatoria do regosijo geral, tive a
satisfacfo do juntar a minha voz A daquella mul-
fiddo, ihypotie-'mtlado-1he o men apreco e a minha
estima.
Em paga, sensibilisou-m-e o- gsto magnani-
mo do illustre jornalista e tribune, Loyola Alen-
car, considerando-me "cidadAo cratense".
Acolhido assim, a cidade do Crato passava a
interessar-me como a minha propria terra, as mi-
nhas Alag6as; de que tenho tantas e tio grandcs
saudades...
Desenvolvido, como ji vimos, nas suas rela-
gses socines, constituindo tambem mn meio intel-
lectual adeantado o Crato nio 6 menos prospe-
ro no que respeita A sua vida commercial e agri-
.cola.
Rico, quer numa, quer noutra dessas espe-
cialidades, que concorrem para o sen engrandeci-
mento material, o Crato ter importantes estabe-
lecimentos de commercio, sendo as suas princi-
paes produces agricolas a canna de assucar e
o algodho.
*
Demos agora, ", vol d'oiseau", uma noticia
ligeira do que 6 o Crato "urbs".
Do edifica dio modest, mas elegant, a en-
cantadora cidade do ,Cariry denuncia, a primeira
vista, que se encaminha para futurosos destinos,
os quaes nio estarao muito long, desde que a





- 60 -


RWde Ferrea da Baturit6, penetrando-1ihe o ser-
tao, Ihe love os effeitos salutares de sua acgo ci-
vilisadora.
Destacam-se no 'Crato a igreja matriz, que 6
incontestavelmente um bello temple, o edificio
dlo Seminario, situado no Alto do Grangeiro e
que, gracas a intelligencia e a dedicacho verda-
deiramente apostolica, do illustre e magnanimo
prelado D. Quintino Rodrigues, 6 un estabeleci-
mento modelar; o predio da Associagho dos Em-
pregados no Commercio, dois bons Casinos e bel-
los jardins publicos, almn de .serem todos os lo-
-gradouros cuidadosamente arborisados.
Illuminada a luz electric, Crato deve essay;
valiosa. iniciativa aos esforgos de um operoso e
intelligence industrial alagoano, o Sr. Dr. Au-
-dalio Costa, facu-ttativo de merecimento, clinic
alli e um dos mais aiffeieoados A progressista ci:
-dade cearense.
A Empreza "Forea e Luz" 6, sem duvida
nenhuma, uma das coisas notaveis do distant e
prospero municipio sertanejo.
Desenvolvendo o gosto pelos esportes, Cra-
to tem duas adeantadas sociedades desse genero,
-que alli pra'ticam .infelizmente o "foot-ball", coi-
sa incompativel com o meio e o individuo e s6
exercitado porque 6 inherente ao espirito nacio.
nal este habit Idoentio das imitag~es.
Aoquiescendo a um gentil convite, realisei






-= SERTAO A DENTRO


Uina rua do Crato, vendo-se ao fundo a serra
famosa do Aruripe








- 63 -


no Casino uma conferencia em iprol da creagdo
de urna escola para o operariado, olbjectivo que
five o prazer de ver con.cretisado poucos dias.de-
pois, entire as mais exultantes manifestag6es de
regosijo popular.
Devo assignalar .o concurso prestado A.mi-
nha obscura iniciativa pela imprensa local, que
se compoe de dois interessantes hebdomadarios.
A' "Gazeta do Cariry", especialmente, devo
o exito da concurrencia a nininha pa'lestra, feita,
alis, como acima ficou dito, em beneficio de
uma causa, que consultava de perto, intimamen-
te, aos magnos interesses vitaes do povo craten
se. Se uma imrpressi-o desagradavel me ficou do
Crato,'nublando .aquellas outras t5o saves, quan-
to deliciosas, -que me encheram todo o coracao,
foi ,sem duvida essa, que supera, em flagello, o
*das seocas: o trachoma.
Nao teri~o os poderes publicos um remedio
efficient para enfernidade tio desoladora? O
governor deve assistencia iquello povo, e o corn-
bate a esso mal que o alflige, imp5e-se como uma
-obrigacAo urgente, inadiavel!

*

0 gosto iplas arts em todo o Cariry 6 nota-
vel, merecendo especialmente a ourivesaria, os
euidados main's caprichosos.





- 64 -


Sdo para causar viva admiratio os traba-
lhos que artifices perfeitos executam corn profi-
ciencia, modelando o'bras de realce incontestavel.
Mimos d'arte, que as montras das casas de
joia do Rio apresentam, verdadeiramente precio;
sos, alli se vdo encontrar, executados, 6 bem ver-
dade, sem os mesmos elements de riqueza, mas
de um ;capricho 'de confeccio surprehendente...
E dizer-se que essas preciosidades sdo traba-
lhadas em modestas, modestissimas officinas!...
Como revelagdo do arte musical, tenho na
memorial un encontro occorrido, certa noite, en-
tre mim e um obscuro sertanejo, que, 6s horai
mortas, carpindo, talvez, saudades da sua
hem-amada, communicava a tosco instrumento--
fe rude pifaho as suas grandes maguas inte

E entio o que eu ouvi, a ponto de penetrar-
mre o eoragc.o e propagar-se Thi dentro em ondas
de um perfume exquisite, como se.aquella harmo-
nia florisse e desabrochasse trescalante, nunca
mais me sahiu da memorial, e 6 ainda a mais doce
e a mais evocative das lembrangas do Crato...







SERTAO A DENTR(


Rua Saio Pedro. no .Inazeiro


r



















Juazeiro



A minha entrada na Jerusal6m cearense oc-
correu num dia de alleluia para o povo de toda a
vasta e fertil zona do Cariry.
Havia o rumor. de uma grande festa. Toda
a gente. endhendo a cidade, que tinha. o aspect
de .nn formigueiro human, parecia radiante, es-
tamppndo nas physionomias uma grande e
>ommovida felicidade interior.
A multidfo constituia-se da populagAo da-
quUlas redondezas, uns nos seus costumes de ro-
coeros, outros menos aldeaos, mas todos oom o,
ineffayel pittoresco das povoag5es centraes.
A impressao mais forte, por6m, me vinha da
alegria communicativa que se espelhava no roto,





- 68 -


de today aquella gente, parecendo que occorrdra.
alli o advento de uma grande o celebrada victo
ria.
N;o contive o mou interests e indaguei, diri-
gindo-me a um velho sertanejo:
Que significa isso
E o polbre home rustico, meio pasmo da mi-
nha ignorancia:
"Pois nao sabe que hoje "intera" annos
men padrinho "Cirgo"?l
A esse tempo, estrujiam no ar roj6es e mais-
rojoes.
Uma banda de music percorria as ruas, em-
quanto o povo se acotovelava para ouvir-lhe os
a;ccordes.
0 padre Cicero era, entio, o prefeito da cida-
(dl. Aquella manifestagio se fazia, no emtanto,
menos ao politico do que ao abnegado levita, ma-
gnanimo e pie.doso. Tornou-se jAi uma tradiiio
aquela festa de todos os annos.
Quiz tamnbem, hospede de sua generosa ter-
ra, levar-'lhe as minhas saudag6es. E fui, a custo.
vcncendo a passage no seio da multidio.
Record a attitude de uma velhinha que, na-
expontaneidade de sua affeigio, conduzia ao be-
nemerito sacerdote um -ramilihete de floreo natn-
raes.
Como Ihe fosse difficil a apiproximaciAo aw-
padre Cicero, que estava; cercado por centenas de-






SERTAO A DENTRO,


A casa do Horto que o padre Cicero fez construir na colina do
mesmo nome para ahi installar um educandario








- 71 -


pessoas, ella, a meu lado, inquieta e querendo
render tanmbem a sua homenagem, tomou a reso
lucgo de fazel-a mesmo de lone, apertando ner-
vosamente jubilosa entire as maos enrugadas as
flores de seu affect, e, num impulso irresistivel.
arremessou-as sobre a cabeca veneranda do bom
velhinho, que lh'as agradeceu com um sorriso de
indizivel ternura. Comprehendi, entho, que
o povo idolitra verdadeiramente aquelle saoer-
dote.


A minha approximaago nito se fez cori a dif-
ficuldade que apparentava.
A qualidade de hospede dava-me creden-
ciaes para veneer as aperturas da multidio, pe-
rante a qual eu era tido na conta de amigo do
padre, e, portanto, um alvo de todas as sua.
deferencias e atteng5es.
0. hospede, em qualquer dos logarejos do
nosso "hinterland", 6 uma pessoa sagrada; o
sentimento da hospitalidade 6 innato no coraqio
sertanejo.
A minha primeira impressAo de contact
A dogura de sua fala, a pureza de suns id6as
tocaram-me, commoveram-me.
Feitos os cumprimentos & S. Revma., torne
dizendo para os meus bot5es:





- 72 -


A mutltidao tem u'm just motive para es
e- devotamento: a irresistivel bondade do squ
idolo.


Juiazeiro 6 uma linda cidade. De situagao to-
,pographica admiravel, 6 hoje um centro de covi
mercio riotavel, cori.nma densidade de popuila~
qao sensivel. Bons logradouros publicos, prags
arborisadas, construcsIes modernas, a bella cida-
de cearense nao 6 o quo della se propala .ca por
f6ra. Os maldizentes, pretendendo atacar ao que
dlles chamam de "fanatismo do sertanejo", der
ramam o fel de seu despeito contra a .cidade e o
seu prcfeito, como se tudo alli nuio prosperasse, e,
tanto. -a idade como o seu governador, curassern
apenas de. assumptos religiosos.
E' uma inverdade.. Juazejro prospera, e, sO
por unia supertic. o da ignoraneia popular, vuem-
se alli improvisadas, de nima hora para o.utra,
centenas de casebres, que viio abrigar uma popi,
lafio adventicia, niio cabe it eidade, nern ao pa
dr6 Cicero, nenhuma culpa.
() desenvolvimento de Juazeiro opera-se a
olhos vistos. As lphotographias inserts nestas
paginas duo uina id6a .do que affirmo.
0 espirito de religiio de seu povo se tem, em
verdade, excessos, niio concorre, entretanto, para
impe(lir o son progrosso material.






SERTAO A DENTRO


igreja Matriz N. S. das Dores, no Juazeiro. cujo relogio
tbi feito na propria localidade








- 75 -


0 gosto pelas artes, como no Crato, 6 no Jua-
zeiro muito apreciavel.
Um relogio, que existe, na Matriz, foi feito
alli por artifices joazeirenses.
Para o magestoso temple do Horto, que fica
sit.nudo na serra do mesmo nome, foi feito outro
relogio obra exclusivamente trahbalhada por
curiosos do logar.
Estabelecimentos commerciaes bem afregue-
zados, officinas de artes em toda a cidade, des
perta aarttenqfio o movimento geral em prol do
adiantamento do povo de Juazeiro.
Visitando-se a cidade, comprehende-se a ne-
cessidade que ter o governor de aproveitar o g's-
to pelo ensino professional dos nossos patricios. o
que seria, incontestavelnente, uma cogitaqio de
grande alcance patriotic.
Alli, como em quasi toda a zona do Carity,
todas as artes merecem especial attenqdo do ser-
taiiejo.
Dever-se-ia attentar igualmente neste facto,
pois, ninguem ignora que, para qualquer con.tru-
feG chamar o artifice extrangeiro, por isso que os na-
cionaes ficam esquecidos, quando nio ignorados.
Destaco ainda em Juazeiro uma adiantada
sociedade dramatic, que ter regular bibliothe
oa, al6m de uma interessante secego de curiosidn-
des uma espeiei de museum em formagio.







Muito ja so tem dito dos "'miiagres~" do pa
dre Cicero. Nos sert6es de Pernambuco, AIagoa
e Parahyba, especialmente, oontagm-se coisas ver
d&. .e-lramente assoltbrosas.
E das mais longinquas parageni trahlsmi
grami families inteiras para ouvir o "padrinho
Cicero" e receber-'he a bencao salvadora.
Este facto incofmmoda seriamente ao vene
rando sacerdote, iux procura apagar do espirito
de seus fieis esta suggestio supersticiosP, pro-
Ourando convencel-os de que unm simples padre,
ignal a todos os outros...
E' debalde. Diariamente procura-o una me-
dia de duzentas pessoas, todas sequiosis de vA--o
e ouvil-o.
Levam-ine os romeiros pecuenos presented,
piedosas .iembrangas de .sua terra distant, que
is vezes, abandonam para sempre.
O padre recebe-os, mas torna a dal-os
Iem seguida, ao primeiro que so despede, esmioain-
do o obulo da partida...
Clhegam-lbe quotidiananente para mais do
trqsentas cartas!
Ajudam-no a lel-as quatro amigos, :ses "se-
pretarios", os quaes se occupam principalipento
deste encargo.
Ahl o pittoresco dessa correspondencial,
S{. de um que escrevera ao Da'dre Oicerc.


- 76 -






-.-..--- SERTAO A DENTRO


Avenida Floro Bartlholomen, no Juazeiro




SSERTAO A DENTRO


I-.


I 'I '1


Rua Slo Pedro. no Juazeiro


IV






S-ERTAO ADENTRO


Igreja Matriz N. S. das Dores, no Juazeiro, cujo relogio
foi feito na propria localidade


-S





- 80 --


6io e o enrinho com que delle se occupam os ro-
meiros dos mais afastados logarejos, s'o coisas
impressionantes. Dedicados a elie com a coguei-
ra da mais profunda confianga na sua forna ces-
piritual, sao capazes os sertanejos que o pru-
curam e constituem a. grande maioria, do todos
os sacrificios.
Occorre-me referir um cas.o, que confirm i~
asserto.
Em palestra corn o padre, manifest -
Ihe o desejo de possuir um couro de onqa, quo de-
sejaria trazer para o Rio.
S. Revma. prometteu satisfazer-me, ia pri
-meira opportunidade.
Mais logo. Seria facil...
Um caboclo cearense, por6m, que nos ouvia
attentamente, comprehendendo que o illnstre sa-
cerdote estava disposto a satisfazer-me, num rna
somo de resolu.-io e de earagem,. promptificLa-se
a conseguir-me o couro bastando, apenas, lqu
o scu "padrinho" o quizesse...
Era bastante iue elle o quizessel
( querido sacerdote, no tom de bondadeo
enrinho, que Ihe 6 peculiar, ponderou que era t-
merario o comm~ttimento, mas o ca-boclo insisting
veneendo os receios do padre. E, una se-
mana depois, o valente eatador, conduzindo a
pole, ainda fresca, de nma bella onga, vencida





-- SEI'TA( A)DENTRO






,.. .. ;. ', .
o







rno Juazeiro
1~4r gls7P3~








- 83 -


nos seus dominios pela indomita coragem do bra-
vo cearense, entrava-me de portas a dentro, corn
o present do sen querido padrinho...

*

A minha partida daquella cidade tinha de ser
marcada para proximo dia.
MiIhas occupages no Rio, interesses a tra-
tar, chamavam-me A metropole.
Eu estava, no emtanto, tao affeigoado aquel-
la boa gente, de cuja hospitalidade, franca e ge-
uerosa, guard as maiores sandades, que retarded;
a partida.
Entrei, entao, a observer a sociedade.
E fui ver corn que pureza de sentiments,
cor que elevaq.ho de moral, a sociedade juazel-
rense se constitute, formando, por nssim dizer,
uma grande familiar unida e cohesa.
0 sertao 6 para o carioca, espeeklinente, um
reducto de fanatics e de canga.cei, o-. E s6 isso.
Entrctanto, posso assegura.r que 1 Ai nessas
terras madrastas, onde o sol abrasa periodica-
mente c tala, e devasta como um .cataclysmo in-
nominavel, que a familiar instituiqio prima-
cial da humanidade conserve ainda a sua bel-
leza moral, o caracter immaculado de sua organi-
;saei.o antiga.










- 84 -


0 espirito religioso do povo concorre para
isso.
E levantemos as m'os a Deus, dando-lhe
gragas, porque 6 ainda no sertio, "cerne da na-
cionalidade", como disse Alberto Rangel, que a
alma 'brasileira se resguarda contra o vendavai
cosmopolita dos desregramentos moraes.
Hozannas A familiar juazeirense!











0 LEUITft PO NORPE5TE









- .--- SERTAO A DENTRO


-,, .ui


4 4.
;1


!: t i


":' ^,- .,. ,.. *
t, .. _





















0 LeVita do Nordeste



O Padre Cicero Romio Baptista 6, no Esta-
do do CearA, um reputado sacerdote cheio das
virtudes de nm verdadeiro levita, tendo-se impoh-
to- venerafio das populagSes locaes, bem. coma
de todo o Nordeste, pelos mais acrisolados senti-
mentos giao e da Patria, naquella vasta porcao do Brasil.
A sua acqeo no Juazeiro data quasi de meio
seculo.
Foi o Padre Cicero, como 6 geralmente coQ
nhecido, a "alma mater" do desenvolvimonto e
do progress da bella cidade cearense.





- 90 -


Quando o benemerito sacerdote 1a chegou,.
Juazeiro era uma aldeia das mais obscuras.
O Padre, que desde os seus primeiros annos,
f6ra am predestinado servido por uma visio ex-
traordinaria dos omens e das cousas, viera para
a pequena e acanhada terra como que invested,
de uma grande missfio que Ihe confiaram os desi-
gnios providenciaes.
0 seu primeiro cuidado foi a construcqgio de
um temple para melhor poder servir a Deus e
cumprir a tarefa gloriosa que a sabedoria divina
Ihe confiAra. Ent'o, a custa embora de ingentes
esforcos e inauditos sacrificios, o Padre Cicero
emprehendeu a construccio da Matriz, obra que
foi levada a effeito e que 6 hoje um dos mais lin-
dos templos da cidade, sob a invocaq.Ao da Pa-
droeira, Nossa Senhora das Dores.
Pela sua intelligencia, sabedoria, rara ener-
gia e powder de organisacfio, o Padre Cicero creon
logo grande ft;ma no seio das popula,6es catholi-
eas do Ceara, tornando-se dentro de pouco tem-
po, o pastor por excellencia, das avultadas levas
de sertane;jos que, de todas as direcc6es, se der-
ramaram para o Juazeiro, em busca da sua pa-
lavra, quo em vida teve a sagragfio de im-
mortal, corn que o laurearam as multid5es
agradecidas o purificadas nas aras da f6 pelo mi-
nistro de Christo, que 6 hoje o doce e querido ve-
Ihinho, ungido dessa bondade apostolica de ).





- 91 -


Bosco, e daquella grandeza d'alma de Santxt
Agostinho on de Francisco de Assis.
O Padre Cicero granjeou logo uma popula-
ridade assombrosa, at6 hoje inattingida por ho-
mem algum no Brasil, e o seu nome correu de
bocca em bocca, atrav6s das montanhas e dos val-
les, rompendo distancias, iudo repercurtir desde
a acanhada vivenda do fazendeiro as populosas-
cidades desse feracissimo e lendario rincio da-
Patria Brasileira. Creou-se entlo a lenda enl
torno dessa miraculosa personalidade de sacer-
dote, dedicado aos sagrados Mysterios da Reli-
giao do Calvario. Era natural que assim fosse.
Senm lenda, -nao se fornariam as grandes nacio-
nalidades, nem se crearam jamais os homes nota-
veis. Evhemerio deu-lhe feicio nova e methodi-ca,.
e Gustavo Le Bon diz que sem lenda e tradigao,
impossivel so tornaria a vida dos grande vultoA
da historic e das nacionalidades respeitadas.
Assim Christo, Joio Baptista, Moys6s, Qaqui-
Mouni, Santo Agostinho, Francisco de Assis, Na-
poleho. Assimn Nobrega e Anchieta, este ultimi4
corn a sua poderosa faculdade do dominar; as
multidoes, c o outro, jesuita illustrado, serviddo
por uma intelligencia das mais brilhantes o pro
fnndas, so tornaram em sua lpoea, os venerando'
thaunaturgos dos nossos .maiores, dispondo do.
povo a sen talante, gracas ~i sua forca e espirito't
do direccao, sem encontrai' ohstaeulo. para atra-







vessar as mais anfractuosas e elevadas monta-
nuhas.
A lenda 6 o complement da celebridade dos
grades homes. Sem ella, a vida d'elles ndo to-
iria importancia, nem revesteria os fulgores cor
que illuminam a historic.
O Padre Cicero nao poude fugir ao domino
da lenda.
Em torno da sua personalidade, a lenda
creou f6ros. O levita do nordeste deixou de ser
im homem vulgar para se tornar um vulto de ex-
cepgho, dominador irresistivel, aplainando, atra-
v6s de sua jornada trabalhosa, difficuldades e
empecilhos, removendo embaragos, levando por
diante, victoriosa, a tarefa que tomou sobre os
hombros. Dahi o exito dos mais extraordinarios
emprehendimentos que ter realisado, em benefit
cio das populagies sertanejas da vasta region
Oparense.
Foi assim que o Padre Cicero, dentro de poti-
cos annos, transformou Juazeiro de pequenina e
rustica aldeia numa cidade adiantada, populosa
p commercial, salientando-se em today a zona do
Cariry pela sua vida movimentada e progressis-
ta, seu aspect de "urbs" civilisada e clta, suas
'mas amplas, seus vastos c bellos edificios, seui
templos catholicos, tudo levado a termo ao infln
ko poderoso e forte do amado sacerdote, que se
tornon a forca motor do todas as iniciativa-


- 92 -





- 93 -


fructuosas que elevaram Juazeiro A situagqfo d'-
invejavel florescimento, em que se encontra,
Pelo seu commercio desenvolvido e adian-
tado; pelas suas industries e suas artes, a ci-
dade chama a attengeio do viajante, que alli encons
tra logo toda a sorte de artefactos e products
tdo bem acabados que rivalisam com os. das mais
aperfeicoadas manufactures do paiz ou do ex-
trangeiro.
0 Padre tudo v6, observa, fiscalisa, estimu-
la, a exemplo do Padre IMalan, nos seus vastos-
aldeiamentos de Matto Grosso.
Ha sinos, instruments de corda e de sopro,
obras de talha e de ourivesaria, todos dignos de
figurar numa exposig~o, onde, pela sua belleza,.
alcancariam meng o de destaque.
Em tudo isso evidencia-se a alma illuminada
do Padre, pairando. nas suas inspiragSes, nas
suas ideas grandiosas, guiando aquelle. povo sim-
ples. e bom para os sagrados horizontes daquella
Chanaan, onde todos .se sentem redimidos pell,
trabalho de que usufruem a doce compensagdo de-
paz, que o bondoso levita implantou no coragio
de cada hhabitante da cidade, pela pratica da con-
soladora religiao, que o fez o mais accendrado-
aliostolo do bem em terras do Brasil. Dahi as
continues e gigantescas correntes de emigrantes
que derivam de todo o Norte, em demand d!>
Jumazeino, Terra da Promissao, onde todos se sep-





- 94 -


..em contents e felizes, sob a acgao social-eatho-
lica do Padre 'Cicero, que se eternisou no coragao
-do povo pelos seus gestos e actos magnanimous.
Todos os mezes, todos os dias, li chegam as
formidaveis caravanas, depois de longos percur-
sos, desde os confins dos serties de Alagoas as
paragens.adustas e longinquas do Piauhy. Veem
todos arrastados pelo poder das lendas, em que
envolveram miraculosamente a personalidade
preponderante do apostolo. Querem todos parti-
Ihar da paz bemdita e producente da redempgio,
do glorioso sacerdote. Li, nos confins do Jua
zeiro, elles pretendem viver como dentro do c6o,
abengoados por elle.
Dahi as emigra~Ses constantes e em mass
para aquellas paragens.
O Padre, por6m, nao chama ninguem
para a sua Clhanaan, nem aconselha. a ninguem
.que fique 1a.
0 que se observa em relag~o a Juazeiro, 6 o
resultado, sdo as consequencias do poder, do
prestigio de que 6 singularmente dotado o sacer-
diote, senhor de perto de um milhio de 4lmas em
toda a vast regiLo do Nordeste, onde creou f6-
ros de supremo guia das multid6es, pela sua sa-
hedoria e qualidades intrinsecas.
0 amado sacerdote, long de ser um fanati
sador, um energumeno, um demolidor, como no
verbo trovejante de Jo~o Baptista, 6 um sacer-







-dote de id6as cultas e suggestivas, um espirito
eminentemente constructor e evolucionista, scm-
pre em dia cor os modernos avancos da humani-
dade, quer dentro do seu ponto de vista religioso,
quer no ponto de vista das mais altas conquistaM
do espirito human.
As construccoes da Igreja do Horto e do col-
legio de orphaos que contiguo Ihe fica, numa bel-
la collina que domina a cidade, sao provas irre-
torquiveis do que acabamos de avancar.
Sao duas obras monumentaes, dignas de ad-
miracao, polo sen conjuncto.
Parece que o visitante se transport ao anti-
go Egypto, A Roma ou A Babylonia, cor os seus
templos, edificios e outras obras, que demons-
tram conceppes imponentes e sao o resultado
positive e real do engenho e da imaginag o do.
grandes espiritos que as planejaram.
A Igreja do Horto, ao contrario do exagero
-de certos observadores pouco estudiosos, nada
mais 6 do quo uma ,casa do orag6es "ad majorem
.Dei gloriam". Foi este, sem duvida, o pensamen-
to do Padre Cicero, ao tracar o plano de sua con-
strucc.o.
0 sacerdote de concepeocs tao altas, assim
pension e assim fez.
0 sou grande e vasto pensamento foi glorifi-
car Deus em terras cearenses, erguendo-lhe um
temple em forma de monument, cor proporq5es


- 95 -





- 96 -


assombrosas, como fizeram os autores da Oath6-
dral de Mil1o, da Cartuxa de Pavia, do Vati6a-
no, o maior palacio do mundo, e da Basilica de
Sdo Perdro, na qual se gastaram 250 milhSes do
liras.
Empreza pasmosa do Pontifice Ju'lio II, o
maravilhoso temple "surgiu sobre uma Igreja,
onde, em seculos anteriores, Carlos Magno rece-
beu das mios do Papa o diadema imperial e os.
Cesares da Gallia e da Germania vieram ser un:
gidos cor piedosas cerimonias, que augmenta-
vam o poder do Pontificado." 0 fim do pontifi-
ce artist foi immortalisar sua. memorial e giori-
ficar o poder. de Deus, na Cidade Eterna, corn
um templo em que ficaram gravadas as energ'ias
artisticas de Bramante, Juliano, Fra Giocondo,
Sangallo, Raphael e Miguel Angelo; o poder de
Deus, autor dos mundos, centro por excellenciA
de todas as forgas.creadoras, immutaveis, indes-
tructiveis e eternas, Deus se tornando o in-
spirador de seus grandes e verdadeiros ministros
na Terra, na concepgio maxima e maravil.hosa
desses monuments sagrados, nunca vencidos
pela accio do tempo, e quo se vdo tornando eni
testemunhas eloquentes dos esplendores e das
forgas immanentes do Supremo Autor do univer-
verso.
O sacerdote cearense, com a construct .:dA
'Tgreja do Horto,.poz por obra a mais -arrojada







concepego religiosa, realisando o desejo, o fim de
glorificar o poder de Deus num temple em que
podesse reunir today a immense e devotada fami-
lia catholica da regihio que Ilie obedece, unida e
solidaria, a directriz segura e poderosa, como (
mais prestigioso vulto dos tempos que correm, no
nordeste brasileiro.
Perante a grandeza daquelle temple, so
pode avaliar o espirito adiantado e progressista
do Padre 'Cicero, cujas foreas creadoras se irra-
diaram por toda a immense localidade onde se
encontra encravada a cidade de Juazeiro, au-
gmentando e modernisando-se a cada moment,
mudando smnpre de aspects para mais vida o
mais bellesa, gragas ao influx poderoso e forte
do sacerdote que nortein os destinos para um fu-
turo dos mais prosperos.
Aliais, o Padre Cicero est'a cumprindo a mis-
s ao que Deus Ihe destinou. Elle 4 bem um segui-
dor ,dos Nobrega, dos Anchieta, que encheram o
Brasil de villas, povoados, templos sumptuosos,
educandarios, concorrendo ao mesmo tempo para
o desenvolvimento do commercio e das indus-
trias ao tempo do Brasil-colonia.
Elle pertence kquella indomita legifo de
desbravadores dos sert5es e das florestas virgens
do Brasil, "matilha de Deus", na vigorosa ex-
press~o de Castro Alves, enfrentando "o cardo,
a serpe do sertiao maninho", e que, como no Ge-


- 97 -





- 98 -


nesis, crearamn Assumlpgao, no Paraguay, igua.
lando-a ai mais bella capital do mundo, segundo
os viajantes Regger c Longehamps, "s6 eoma dif.
fcrenga das ruas serem mais largas c dispostas
em lin'ha recta, indo terminar quasi todas em bel-
las pracas de nma regularidade symetrica.
Segundo ainda os citados viajantes, nos mais
cellos )poltos das povoauces, havia fabrics. moi-
AiLos e outros esta'belecimen'tos industries. "Du-
ranme o trabalho, musicos collocados junto de
cada officina, execntavam symplionias liarmonio-
sas, cujo rytlhmo, ligeiramente cadenciado, exci-
tava os indios ao sen labor, attenuando-iles o es--
forgo, diminuindo-lhes o cansago. Quando algumi
sc sentia inuito fatigado, era-lho permittido ir
descansar ai sombra de qualquer palmeira."
"Havia no Paraguay, ao que parece, igre-
ias que nao cediam em magnificencia i de iCto
Pedro, em Roma, inom il de S. Marcos, em \Ye-
Ineza. '
"Os Jesuitas tiveram sempre o cuidado de
instruir os selvagcns nos officios delicados de es-
culptores, pintores, douradores e ourives."
Assii, relativamente, no Juazeiro. Si o Pa-
dre (Cicero nio conseguni imprimir na sua eida-
de communal o luxo c a magnificenceia que os je-
suitas introduziiram no Paraguay, comtudo li se
observa um sopro constante de progress e
ademntamento em tudo, influxionado por elle, na





- 99 -


suli a (cao isolada, semi outros agents que sua
)araU envergadtira e suas energias raras, numa
region( assolada pelas seccas, c, o que 6 mais,
comp'letanentct abandonada pela iniciativa dos
govemnos.
Si n grande e padre no consegui ainda aca-
liar a Igreja do Horto, que serti, talvez, o maior u
STMiis hello tmiplo eatliolico do Norte, deve-o -o
Ibenemerito s.acerdote a circumstancias allieias
sua vontade e oseassez de recursos. ()bra de
rIcvancia praticariam as autoridades eelesiasti-
cas se o am])arasscom ia sua tarefa lherculca, re-
movnido iiaturacs difficuldades e offerecondo-
lhe1 recursos nmateriaes indispensavels, pois a
co(ntribuicio individual dos erentes do nordeste
nno 1asta para obra de tanianho vulto.
M\as ainda que ficasso em meio a constru-
e(:(i 0 do HIorto, nenm por isso ficariam diminui-
das a grandeza e a imponencia de sua. obra 11
Jualzeiro, onde o bondoso levita vae cada vez
mais fnlgindo c perpetnando-se na gratidiio dos
plersoM(nalidade veneranda o insigne redemptor
da ;vultada massa humatia, quue cobre o immen-
-o valle do 'ariry, o que delle fez o depositario
de sna f6 e de sna esperanea na conquista de
rnm cternidade magnifica, como nos postulados
do Evangoelho.