Libertação do Ceará

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Material Information

Title:
Libertação do Ceará queda da Oligarchia Accioly
Physical Description:
418 p. : ports. ; 19 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Theophilo, Rodolpho Marcos, 1853-1932
Publisher:
Typographia da "A Editora Limitada,"
Place of Publication:
Lisboa
Publication Date:

Subjects

Subjects / Keywords:
History -- Ceará (Brazil : State)   ( lcsh )
Genre:
non-fiction   ( marcgt )

Notes

Statement of Responsibility:
por Rodolpho Theophilo.

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23223978
Classification:
lcc - F2556 .T44
System ID:
AA00000250:00001

Full Text
















































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LIBERTACAO DO CEARA






Rodolpho Theophilo
111



Libertacao do Ceara

(Queda da Oligarchia Accioly)


LISBOA
Typographia cA Editora Limitada*
Largo do Conde Bardo, 50
1914


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LIBERTACAO DO CEARA

(Queda da Oligarchia Accioly)






I



Governava o Ceard, pela segunda vez, o Sr.
Dr. Antonio Pinto Nogueira Accioly, quando o
povo, exasperado cor as suas violencias, pegou
em armas e fel-o renunciar.
A sua primeira administracqo de 1896 a 1900
foi um desastre financeiro.
O seu antecessor Dr. Bizerril Fontenelle, cuja
administracao em beneficios ao Estado foi comple-
tamente nulla, havia deixado nos cofres publicos
cerca de dois mil contos de reis, que foram mais
tarde delapidados pelo governor do Sr. Accioly.
O Dr. Bizerril foi um arrecadador honest das
rendas do Estado, rendas provenientes de impos-
tos anti-constitucionaes como os de estatistica.
A sua unica preoccupaqco era deixar o governor
ficando os cofres recheados. E fel-o guardando
como um usurario o seu thezouro.
A arte de governor 6 muito difficil, e ao Sr. Bi-








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zerril faltavam as qualidades essenciaes a um bom
administrator.
Nao basta somente ser honest para bem diri-
gir os destinos de ur povo; sdo necessarios ou-
tros muitos predicados que o Sr. Bizerril nao tinha.
A prova inconcussa d'isto 6 que, administrando
a terra das seccas nao fez uma aguada, um aqude,
uma barrage, pelo contrario, consentiu arrombar
as grandes lagoas da Barra Nova, para nao in-
demnisar aos donos dos terrenos occupados pelas
aguas, indemnisagao esta que orcava em quarenta
contos de reis.
O seu governor, entretanto, foi moralisado.
Pertencendo a political do Sr. Nogueira Accioly,
chefe supremo do partido, satisfazia-lhe as vonta-
des, uma vez que estas nao trouxessem augmento
de despezas, nao Ihe desfalcassem o erario.
Assumido o governor o Sr. Nogueira Accioly,
encontrou o Estado nas mais lisonjeiras condiqces
financeiras.
Devido a estaces mais ou menos regulars tudo
prosperava.
O commercio, artes, industries, agriculture, iam
bem. O interior do Estado continuava em sua vida
calma e laboriosa.
Muito se esperava do bom senso do Sr. Accioly,
um home velho; de suas luzes, nao, pois era
bem conhecida a sua falta de cultural. Em breve a
desillusao foi complete: elle nio tinha senso pra-







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tico, e, al6m d'isto, era deshonesto. Elle devia co-
nhecer as necessidades de sua terra, havia enve-
Ihecido n'ella, assistido durante meio seculo a todas
as suas desgracas, a todas as suas glorias. Nao as
devia ignorar, e nao as ignorava. Aquellas cente-
nas de contos acumuladas no Thezouro o impres-
sionaram, mas impressionaram para o mal.
Outro home melhor orientado, culto e honest,
teria encontrado naquella reserve sagrada, um meio
de fazer grandes melhoramentos ligando a elles o
seu nome e portanto se immortalisando. Nao o fez.
A aqudagem, que se impunha como media ina-
diavel de salvamento contra os effeitos das seccas,
nao cuidou della.
E por ironia, quem sabe, antes de cuidar de re-
ter agua que cahia do ceo, comprou materials para
construir pontes.
A compra de materials para pontes, feita no
estrangeiro, foi um peculato. A imprensa se occupou
largamente deste escandalo, ficando provado pelas
certid6es da Alfandega e Secretaria da Fazenda,
publicadas pelo Coronel Agapito Jorge dos Santos,
que os materials para seis pontes custaram pouco
mais de noventa contos de reis e dos cofres pu-
blicos sahiram para o pagamento destes cerca de
oitocentos contos de reis.
O saldo deixado nos cofres pelo Sr. Bizerril
devia desaparecer, nao em obras de servidao pu-
blica, mas em esbanjamentos.








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Assim o Sr. Accioly lembrou-se de fazer um te-
legrapho para o interior do Estado, cor um unico
fim, dar dinheiro aos seus parents. Esta obra sem
utilidade pratica no moment fez-se sem concur-
rencia public, a qual simularam para maior escan-
dalo da administracqo.
0 escandalo desta obra nao esta somente no
elevado custo della, no preco do material, cobran-
do-se por um isolador de louca, que custa dois
francos, a importancia de seis mil reis, mas nos de-
feitos de construcAo.
Ella nio foi feita por um s6 empreiteiro, porem
por diversos. Trechos houve em que antes de ser
aberto o trafego cahiam os postes, ficando inter-
rompida a linha.
Empreiteiro houve que levou o seu despudor a
aproveitar como postes as carnaubeiras por onde
passava o fio.
Foi gasta nesse telegrapho a somma de oitocen-
tos contos de reis, e o governor entendeu mais eco-
nomico entregal-o, fazer delle present ao governor
da Unido do que trafegal-o depois de grandes re-
paros.
Trechos havia que era precise fazer de novo.
Uma prova cabal de que esta linha telegraphica
nao foi mandada construir como um melhoramento
basta dizer que o governor quiz mandar fazer uma
linha para o Aracaty, localidade esta que jA se
achava ligada a esta capital, pela linha telegraphica








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da Uniao, e nao fez porque o governor da republican
a isto se oppoz.
A primeira administracao do Sr. Accioly, foi
como se ve, um desastre financeiro.
Ao terminal-a, cogitou de seu successor, que de-
veria ser uma creature sua para encampar todos
os seus maos actos. S6 um filho poderia encobrir
os seus crimes. Sondou o animo do president da
republican, e nao achando apoio sujeitou-se a accei-
tar como successor, muito contra a vontade, o
Dr. Pedro Augusto Borges, imposto pelo ministry
Joaquim Murtinho.
O Sr. Pedro Borges trouxe ordens terminantes
do Rio de desbancar o Sr. Nogueira Accioly, mal
visto do governor da Uniao pelos esbanjamentos
dos dinheiros do Estado.
O Sr. Pedro Borges assumiu o governor e teve
nas maos as provas da deshonestidade do seu an-
tecessor.
Passando o governor ao Sr. Pedro Borges, disse
o Sr. Accioly em mensagem a Assemblea Estadoal
deixar um saldo de mais de mil contos de reis.
Dado um balance no Thezouro verificou-se ser
o saldo de mil e tantos contos, ficticio.
0 dinheiro que havia em caixa mal daria para o
pagamento das contas processadas. 0 Sr. Pedro
Borges viu-se numa situaA.o embaracosa, num di-
lema que o inquietava,
Acceitando como verdadeiro o saldo compro-








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mettia a sua honestidade. Assim em mensagem
a Assembl6a disse sem reserves, o estado finan-
ceiro do Ceara; falou na compra do material para
as pontes, compra esta que ignorava o public por
nao ter vindo A luz da publicidade.
Provada a deshonestidade do Sr. Accioly, pos-
suindo o Dr. Pedro Borges o celebre document
das pontes, esperava-se que elle rompesse a cada
moment.
No proprio partido do Sr. Accioly, um grande
grupo aguardava ordens para se p6rem em oppo-
sicAo. Diversos chefes politicos do interior haviam
conferenciado com o Dr. Pedro Borges e accorda-
ram separarem-se do Sr. Nogueira Accioly.
Entre elles o de Baturit6, que chegou a montar
uma typographia e ficou aguardando as ordens do
chefe do Estado.
O Sr. Accioly servindo-se da astucia, sua arma
predilecta durante a vida inteira, enfermou e foi
chamado como medico o Dr. Borges. A esse tempo
nao existia nos tratados de pathologia a entidade
morbida- traumatismo moral- e se existisse nao
era enfermidade para os nervous e para a moral do
Sr. Accioly.
0 Dr. Borges era um espirito frivolo, amando
os perfumes e as cores claras, enamorado de si
mesmo, genio estouvado, incapaz de observer at-
tentamente cousa alguma: era home da primeira
impressAo. A cabeceira do seu antecessor conhe-







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ceu que elle havia sido chamado para um conci-
liabulo, para dar os seus cuidados como president,
como chefe do Estado e nao como medico.
Dizem que o Sr. Accioly nessa longa conferen-
cia mostrou ao Dr. Borges o que era a vida pelo
lado pratico, a inconveniencia de um rompimento
cor elle, elle que havia sido seu leal amigo. Pe-
diu-lhe que se nao separasse delle, que deixando o
governor seria eleito senador e assim a vida Ihe
correria folgada e tranquilla. O Dr. Pedro Borges
accedeu, embellezado cor o canto da sereia e para
sellar aquelle pacto entregou-lhe o celebre do-
cumento das pontes.
A correr desse dia o president do Estado mu-
dou completamente de genio. Quando por acaso
alguem Ihe perguntava quando era o rompimento
elle se enfurecia e justificava a sua mudanca de
ideas a lealdade que devia ao Dr. Nogueira Accioly,
que o havia feito president do Estado.
O chefe de Baturit6, cancado de esperar pela or-
dem, veio a palacio indagar a causa da demora.
Antes tivesse ficado em sua casa, pois foi grande
a sua decepcio quando o Dr. Pedro Borges disse-
Ihe simplesmente muito aborrecido, que ficava o
dito por nao dito.
Por esses prodromos va-se que independencia
teria de agora por diante o president do Estado,
uma vez que este proprio declarava que era go-
verno pela vontade do Sr. Accioly e nao pela von-








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tade do povo. Assim foi distribuindo justica e fa-
zendo political de commum acordo com seu chefe.
Havia assumido o governor em pessimas condi-
C6es: os cofres estavam vazios e a secca de 1900,
o anno mais escasso de chuvas que o Ceard ter
tido, assolava todo o Estado. Um administrator
emerito nada teria feito, quanto mais o Dr. Pedro
Borges em quem falleciam as aptid6es para bem
governor num period difficil e normal. A sua
administrailo, entretanto foi honest.
Contrahiu um emprestimo interno, pequeno e
verdade, para occorrer as despezas com o funccio-
nalismo, emprestimo que pagou antes de deixar o
governor.
A sua administraiAo teria sido regular attentas
as condi6es em que recebeu o Ceard, se ndo fos-
sem dois actos seus que a macularam. Um delles
a supressAo de 90 escolas primaries para crear
uma Faculdade Livre de Direito, absurdo este exi-
gido pelo Sr. Nogueira Accioly, para fazer bacha-
reis a dois filhos seus, genro, muitos parents e o
Sr. Gracho Cardoso.
Nessa extinl.o de cadeiras entraram muitas,
cuja matricula e frequencia eram superiores As que
a lei exige.
A escola primaria de Pajussara por exemplo, foi
supprimida tendo 63 creancas matriculadas e uma
frequencia de 45 alumnos.
Embalde reclamaram os pais de familiar das loca-








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lidades, onde a instrucao havia desaparecido; mas
o governor sustentou o seu acto.
Que importava ao Sr. Accioly que centenas de
creancas pobres ficassem sem aprender a ler, se
assim era precise para que seus filhos fossem dou-
tores? O outro facto foi a carnificina de 3 de Ja-
neiro. O caso foi assim. Os catraeiros do porto de
Fortaleza fizeram greve por causa do alistamento
dos homes do mar, que fazia o Capitao do Porto,
alistamento que daria em resultado a designacio
do alguns para o service da armada.
Chegando um dos navios do Lloyd, elles se re-
cusaram a fazer o service de embarque e desem-
barque. 0 Capitao do Porto intimou-os a irem para
o trabalho e elles desobedeceram. Desrespeitada,
aquella autoridade pediu providencias ao Presidente
do Estado e este sem mais reflexio mandou que
o batalhdo de policia descesse ao porto corn as
armas embaladas, e ao mando do Sr. Commandante
Coronel Cabral da Silveira. Affirmam que o Sr.
Dr. Pedro Borges recommendou ao Sr. Coronel
Cabral da Silveira que se houvesse cor a maxima
prudencia.
Desceu a forca e encontrou os catraeiros em at-
titude hostile e numerosa massa de curiosos que
assistia o movimento. O galpAo da Recebedoria
do Estado achava-se cheio de gente inerme.
Os catraeiros logo que avistaram a forca rom-
peram nos maiores insultos e houve um delles que








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chegou em frente do Commandante e disse-lhe os
maiores improperios. O Sr. Cabral da Silveira nio
reagiu, mas o ajudante de ordens do Presidente do
Estado, moco de genio violent, nao se conteve e
assumindo o commando deu ordem para atacar os
grevistas. Os soldados, quasi todos matadores, as-
sassinos, mandados vir do sul do Estado durante
o primeiro governor do Sr. Accioly, de nada mais
precisaram para carregarem sobre o povo matando
a torto e a direito.
Ninguem mais os conteve.
Eram surdos a voz do commando. A custo aquie-
taram as feras, ficando mortas sete pessOas, e fe-
ridas mais de quarenta. E' precise notar que nao
foi morto nenhum grevista como tambem nem um
soldado. As victims foram as pessoas que curio-
sas assistiam a greve.
Para se avaliar a perversidade dos soldados, basta
dizer que os que escapavam mortalmente feridos
pelas crudelissimas balas de Comblain, os scelera-
dos acabavam de matar a arma branca. Este re-
quinte de maldade ficou provado nos exames me-
dico-legaes feitos nos cadaveres das pessOas assas-
sinadas.
O president do Estado ao saber do facto ficou
em extrema exaltacgo nervosa.
A media a tomar seria recolher o batalh.o e
prender o Commandante, responsavel moral pela
carnificina.








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Este acto de energia nio era para o espirito do
Dr. Pedro Borges. Encampou o feito dos seus sol-
dados, para nao desmoralisal-os, no dizer delle.
O povo exasperado com o acontecimento, e acre-
ditando ser o Dr. Pedro Borges, o home de ur
grande e bondoso coracio, tal era a sua fama, foi
em grande massa a palacio pedir justice, levando
o cadaver de uma das victims, o portuguez Ade-
lino, moco empregado no commercio.
O prestito estacionou na praca da casa do go-
verno e o povo em grandes brados pediu justice.
Esperavam que o medico dos pobres assomasse
A janella e Ihes falasse cor amor, lamentasse
aquella desgraca, para a qual elle nio havia con-
corrido, e promettesse punir os criminosos. Pensa-
vam assim porque nao sabiam que o Dr. Pedro
Borges havia por fraqueza, encampado o acto dos
matadores.
Assim a decepcao foi enorme. Quando appareceu
a figure sympathica do velho president, o povo
cor respeito pediu justice mostrando-lhe o cada-
ver de Adelino.
O Dr. Pedro Borges num desvairamento que se
nao explica senio pelo mrdo, olhou a multidao e
disse-lhe: retirem-se, senao mando debandal-os a
pata de cavallo.
Aquelles mil homes, pois nio era menor o nu-
mero que formava o prestito, ouviram a ameaca e
nao houve uma voz que se erguesse para protes-








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tar contra a insolencia do governor, quanto mais
um braco que se levantasse para apedrejal-o. Hu-
milhado na sua soberania, retirou-se tragando em
silencio aquella affronta.
A indignacao era geral. As ruas ficaram deser-
tas; os cafes e o commercio tudo fechado. O povo
dirigiu-se a casa do Coronel Jolo Brigido dos San-
tos, ate entdo da political do Sr. Accioly, um de
seus maiores amigos, e braco direito de sua political.
O Coronel Joao Brigido acolheu cor benovolen-
cia a todos e poz-se contra o governor.
Eu estava fora da capital em 3 de Janeiro.
No dia 4, ignorando completamente o que se ha-
via passado vim a Fortaleza.
Encontrei a cidade morta. Raros eram os tran-
seuntes. Para escarnecer das victims da forca pu-
blica, um piquete da cavallaria, armado de mosque-
toes, percorria em desfilada as ruas da cidade em
todos os sentidos.
Inteirado do que tinha havido, nao sei o que
mais me revoltou, se a perversidade dos soldados,
ou se a covardia do povo que se deixou matar e
nao matou.
Regressei a fazenda envergonhado de pertencer
a esta geracao de poltrbes. Perguntava a mim
mesmo onde estavam os descendentes dos patrio-
tas do 17 e 24?
Assim interrogava e mal sabia eu que poucos
annos depois eu seria testemunha nesta mesma

























y'.


Coronel Marcos Franco Rabello
Engenheiro military


";r







17

cidade de Fortaleza, do feito mais heroico de um
povo, conquistando a sua liberdade cor tamanha
bravura e magnanimidade que chegou a escrever a
pagina mais bonita da historic political do Brazil.
As victims do 3 de Janeiro haviam ficado sem
vinganca, os seus matadores sem punigCo, mas do
sangue dellas gerara-se n'alma popular a semente
da revoluqco, semente que germinaria mais tarde
fatalmente.
A semente germinou, cresceu e fructificou em 24
de Janeiro de 1912.
Durante as poucas horas em que estive em For-
taleza note que o povo estava exasperado, que de
vez em quando rugia furioso mas depois se acal-
mava.
Seria a falta de um chefe, de um cabeca, de ar-
mas, que o impedia de reagir e depor o governor
que o mandava matar na praca public? Ndo, as
revolug es explode sem chefes, estes e as armas
se encontram na occasiao.
O que faltava na actualidade era o moment
psychologico, era a faisca, que determinaria a ex-
plosao, faisca gerada das perseguicSes do governor,
de suas violencias. As hostilidades do povo con-
staram de discursos violentos, boletins contra o go-
verno, romaria ao cemiterio em visit aos assas-
sinados.
No Rio a noticia deste facto produziu geral indi-
gnacao. O governor deu ordem para embarcar im-








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mediatamente do Recife para aqui um contingent
da forca federal afim de center a policia sanguina-
ria do Ceara.
O Sr. Nogueira Accioly, a esse tempo, senador,
e no Rio, sabendo da ordem do embarque dos sol-
dados do exercito, correu ao Cattete a dizer ao
Sr. President da Republica, que o Ceara estava
em complete paz, que apenas tinha havido uma
arruaga sem importancia e portanto nao havia ne-
cessidade de tropa federal.
Acreditando em suas palavras o Sr. President
da Republica deu contra-ordem e a forca, que no
Recife ja estava no Caes da Lingueta, voltou para
o quartel.
O Sr. Accioly tinha horror ao exercito. Elle nao
admitia que no CearA estacionasse uma forca fede-
ral. O quartel, grande edificio cor muitas accomo-
dacoes, conservava-se fechado porque o Sr. Accioly
nao suportava as calgas vermelhas. Mal sabia elle
que esse seu odio ao exercito Ihe seria fatal.
Deus escreve certo por linhas tortas. Accusava-
mos o governor federal por nao mandar tropa para
center a policia do Sr. Accioly e mal sabiamos
n6s que isto era providencial, que um batalhao do
exercito em Fortaleza o Sr. Accioly n.o seria de-
posto e se o fosse seria depois de uma luta muito
mais sanguinolenta.
O Dr. Pedro Borges concluiu o governor sem dei-
xar melhoramentos, por6m, tambem sem deixar







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dividas. Pelo lado economic atW fez muito, atten-
tas as pessimas condi 6es do Estado. Succedeu-o
no governor o Sr. Nogueira Accioly; como ficara
combinado, occuparia este logar, emquanto o Sr.
Dr. Pedro Borges iria para o Senado em logar
delle Accioly.
Estas immoralissimas transaces davam-se em
todos os Estados onde havia oligarchia.




















No dia 12 de Julho de 1904 assumiu o governor
do CearA, pela segunda vez, o Sr. Dr. Antonio
Pinto Nogueira Accioly.
O seu governor foi iniciado cor sangue.
O capit.o Antonio Clementino de Oliveira, ge-
rente do Jornal do Ceara, folha que fazia opposicAo
a administraqao, ao sahir de sua residencia pela
manha, foi agredido de emboscada por soldados
de policia, que o esbordoaram at6 deixal-o por
morto, sem sentidos, dentro de um lago de sangue.
Antonio Clementino havia sido condemnado A
morte pela familiar do Sr. Nogueira Accioly, por
constar a esta que Clementino havia dito que se
achasse quem tomasse conta de sua familiar, assas-
sinaria Accioly para livrar o Ceara de tao grande
monstro.
Chamado A policia sustentou corn uma ingenui-
dade infantil o que havia dito.
Nada mais foi precise para que fosse decretada
a sua morte.








22

Clementino havia soffrido perseguicoes medo-
nhas no interior do Estado, por parte dos amigos
politicos do Sr. Accioly.
A ultima luta que teve foi em Senador Pompeu;
entraram-lhe em casa e o espancaram, faltando
pouco para matal-o.
Sem garantias no sertao, pensou que se mudando
para a capital do Estado estivesse a salvo das per-
seguicbes. Grande foi o seu engano.
Cahido sem dar accord de si no meio da rua,
foi preso e levado para a S. Casa de Misericor-
dia e posto em custodia por ordem da autoridade
policial. Da victim haviam feito reo e tanto que
nao mandaram fazer corpo de delicto sendo graves
os ferimentos.
O estado do ferido era melindroso; mas negaram-
Ihe ate os cuidados da familiar.
Quando a mulher de Clementino foi pedir pelo
amor de Deus que deixassem-na pelo menos ver o
marido, ja que nao Ihe era permittido prestar a
elle os seus serviCos, responderam-lhe que elle es-
tava incommunicavel, que s6 podia ser visto pelo
medico.
Sequestrado assim esteve a victim, como se
fosse reo de grande delicto, muitos dias, mais para
morrer do que para viver; quando o seu organismo
de uma resistencia incrivel triumphou e entrou em
convalecenca.
Os seus amigos indignados com a series de vio-







23

lencias que se estavam comettendo, requereram
habeas-corpus ao Tribunal da Rela.ao de Fortaleza
em favor de Clementino.
Todos pensavam que a political ou antes o
Sr. Accioly nao dominasse at6 a conciencia dos ve-
Ihos desembargadores, mas enganaram-se.
A ordem foi negada apenas contra dois votos, os
dos Srs. Desembargadores Joaquim Olympio de
Paiva e Manoel de Souza Garcia.
Esta sessao da RelaCdo foi assistida por grande
numero de pessoas e para que o escandalo fosse
maior, ficasse bem provada a subserviencia daquel-
les velhos juizes, um delles disse que naquelle caso
negaria Negar liberdade a um cidaddo que a forCa pu-
blica, sem motivo de ordem alguma, espancou ate
deixar por morto, e depois vendo que ao desgra-
ado ainda restava um sopro de vida, arquejava,
arrasta e recolhe a um carcere, incommunicavel, e
sem duvida o requinte do desrespeito a lei, a mais
clamorosa violencia ao direito, praticada por ho-
mens encarregados de distribuir justiha cor os
seus concidadaos.
Negada a liberdade a Clementino, appellaram
para o Supremo Tribunal Federal; Este concedeu-a
immediatamente.
Chegando a ordem, foi depois de poucos dias
intimado o Presidente do Estado, por se achar fora
o Juiz Seccional, a por em liberdade o preso.








24

O Sr. Nogueira Accioly relutou em cumprir a
ordem do Supremo Tribunal, mas do Rio Ihe dis-
seram que tal nao fizesse.
A esse tempo j. Clementino havia sido retirado
da S..Casa, onde estivera guardado dia e noite
e recolhido A cadeia public, mettido na enxovia,
embora fosse capitAo da Guarda Nacional.
A retirada de Clementino da S. Casa foi de-
vido A visit que aquelle estabelecimento de cari-
dade fazia o Nuncio D. Julio Tonti a passeio em
Fortaleza.
O Nuncio, pensavam os detentores de Clemen-
tino, vendo ali um enfermo, e tlo enfermo que
nao se podia erguer do leito, guardado por sol-
dados, perguntaria a historic daquelle grande sce-
lerado.
Assim levaram-no e recolheram-no ao carcere
cor os criminosos de morte.
A ordem de habeas-corpus do Tribunal nao res-
tituiu a liberdade a Clementino; este foi tirado da
cadeia public para ficar interdicto em sua residen-
cia.
Soldados de policia postados nas immediac6es
da casa, cor ordem de matar Clementino caso elle
sahisse A rua, faziam sentinella noite e dia.
Sequestrado assim esteve ate o dia em que che-
gou do Rio o Coronel Joao Brigido.
Ao desembarque deste foi grande numero de
amigos.















L ,.'


Cominendador Antonio Pinto Nogueira Accioly
Bacharel cm direito








25

Regressando do porto o prestito, passou em
frente a casa de Clementino e este aproveitando a
occasiio sahiu e encorporou-se A procissao se-
guindo de braco corn o Major do exercito Philadel-
pho Ferreira Lima.
Em casa do Sr. Brigido continuou Clementino
sequestrado, pois os soldados Ihe faziam guard
corn ordem de matal-o caso sahisse elle. Assim es-
teve por muito tempo ate que poude illudir a vigi-
lanca das sentinellas, e sahiu disfarcado para em-
barcar para o Amazonas. Esteve alguns annos na-
quelle Estado; porem a idea de vingar-se do
Sr. Accioly nao o deixava.
Clementino fora do Estado, cessou o medo do
Sr. Accioly, cujo segundo governor, pelos prodromos,
devia ser peior do que o primeiro.
O seu primeiro acto foi mandar a Assemblea do
Estado augmentar para trinta contos de reis os
seus honorarios.
A Assemblea, que era composta a terca parte de
filhos, genros e parents, votou e elle sanccionou
aquella immoralidade.
O facto torna-se mais escandaloso porquanto o
Sr. Nogueira Accioly ao assumir a primeira vez o
governor do Estado mandou augmentar os seus ho-
norarios de dezoito para vinte e quatro contos de
reis por anno.
Merecendo toda a forca do governor federal pelo
apoio que prestavam a este os dez deputados do








26

Ceara e os tres senadores, fez-se dictador do seu
Estado em pleno regimen republican.
Concentrava em si os poderes executive, legis-
lativo e judiciario.
Creou leis para manietar a magistratura, tirou a
autonomia dos municipios tirando-lhes os impostos
do dizimo e acabou por fazer a nomeacqo dos in-
tendentes municipaes, quando este cargo era ele-
ctivo.
A sua forca estava, sobretudo, na representaclo
na Camara e Senado.
Emquanto elle dispozesse de treze votos para
transaces corn o Presidente da Republica ou corn
os blocos que o sustentavam, seria o dictador do
Ceara.
Era portanto precise tirar os direitos politicos de
todo aquelle cidaddo que nao fosse seu correligio-
nario. E assim o fez.
! Pela lei Rosa e Silva, que adoptou o voto cumu-
lativo, as minorias se fariam fatalmente representar.
Comecou o alistamento eleitoral. O partido op-
posicionista comecou a alistar muita gente.
O Sr. Accioly tendo sciencia disto ordenou as
autoridades, que nio dessem attestado de residen-
cia a individuo que nio fosse governista.
A lei mandava que o attestado de residencia
fosse passado pelas autoridades judiciaes ou po-
liciaes. Que estas nao conhecendo a pess6a decla-
rariam isto na petigao, podendo o alistando apre-








27

sentar attestados de tres negociantes ou proprie-
tarios.
A junta do alistamento compunha-se, em sua
maioria, de partidarios do Sr. Accioly.
Era presidida por ur dos Juizes de Direito de
Fortaleza, mas porisso nao se segue que a Jus-
tica estivesse bem amparada.
A magistratura no Ceard, cor rarissimas exce-
pces, era uma dependencia de palacio. Apresen-
tava-se o cidadao a junta eleitoral, cor um attes-
tado de autoridade judiciaria, juiz substitute, juiz
de direito, ou desembargador, nao era acceito por-
que a junta havia resolvido s6 acceitar attestado
das autoridades policies. O alistando reclamava
citando lei e elles respondiam com uma desfagatez,
que irritava, terem resolvido assim proceder.
Haviam resolvido assim proceder, isto 6 nao
acceitarem os attestados das autoridades judicia-
rias, porque algumas destas nao se submetteram
a ordem do governor.
A autoridade policial por sua vez, nao declarava
na peti ao nao conhecer o peticionario para impe-
dir que este apresentasse attestados de negocian-
tes ou proprietarios.
Eu mesmo tive a prova deste immoralissimo
procedimento do governor do Estado quando me
quiz alistar eleitor.
Havia deixado para me apresentar nas ultimas
sess6es pensando que sendo eu lente do Lyceu do








28

Ceara e conhecendo o Delegado de Policla de For-
taleza ha cerca de trinta annos, nos frequentando,
esta autoridade nio me negasse attestado de resi-
dencia.
Entreguei-lhe a peticAo e o meu pobre amigo
disse-me que eu o punha n'um grande aperto, que
s6 tinha ordem de dar attestado a pess6as reco-
nhecidas governistas.
Pedi-lhe que declarasse que nao me conhecia.
Respondeu-me que isto seria uma infamia, e que
nem mesmo esta infamia tinha liberdade de fazer.
Tive pena do home quando elle me disse que
os infelizes, que acompanhavam o Sr. Nogueira
Accioly nao tinham a liberdade nem de conciencia.
Pedi a peticao e elle disse-me que eu por favor
fizesse outra pondo data atrasada, data anterior a
ordem do governor de nao dar attestado a pessia
que n.o fosse governista.
Para todo o Estado o Sr. Accioly expediu as
mesmas ordens, as quaes em algumas localidades
chegaram quando ja se haviam qualificado grande
numero de eleitores.
Ao Sr. Accioly, em material de tricas political, nin-
guem egualava.
O legislator quando fez a ultima reform eleito-
ral nao pensou que houvesse homes como o pre-
sidente do Ceara, que commettia toda a sorte de
violencias comtanto que fossem supprimidos os
direitos politicos a seus adversaries.








29

A opposicgo tendo feito grande numero de elei-
tores, ordenou o Sr. Accioly aos seus amigos que
recorressem dos alistados para a junta de recusas
de Fortaleza. Mas recorrer como se tinham os elei-
tores qualificados satisfeito .s exigencias da lei?
O Sr. Accioly, que era de uma fertilidade espan-
tosa em bandalheiras, ensinou o process: suppri-
mir um dos documents apresentados pelo alis-
tando. Assim o cidadao Pedro recorria do cidadao
Paulo por se ter alistado eleitor sem provar a sua
maioridade ou residencia.
A Junta sciente da fraude, mas tendo de julgar
pela prova, procurava o attestado de maioridade
de Paulo e nao o encontrando o eliminava.
Assim foram eliminados quatro mil e tantos
eleitores que faziam opposicao ao governor do
Sr. Accioly.
E pode haver lei b6a com semelhantes executo-
res?
Pela fraude conseguiu o Sr. Nogueira Accioly
fazer um eleitorado tres vezes maior que o da
opposicgo. Conseguido isto seria o governador per-
petuo do CearA, se eternisaria no poder.
Comecou a governor fora da lei.
Ordenou para todo o Estado que se nao proce-
desse mais ao alistamento eleitoral, e nas locali-
dades em que se fazia, para salvar um pouco as
apparencias, era pelos processes da capital.
Uma series de circumstancias todas imprevistas








30

vieram augmentar o poder do Sr. Accioly, ou antes
consolidar o seu dominio absolute no Ceard.
Foi assim que assumindo o governor da Naqco
o Sr. Conselheiro Affonso Penna quiz de algum
modo humanisar o Sr. Accioly, fazer cor que elle
concedesse alguma liberdade aos seus subditos.
Elle fez que nao percebia as intencqes do Sr. Pre-
sidente da Republica e appellou para o tempo,
como costumava fazer quando se via em situacao
embaracosa. O imprevisto o tinha valido muitas
vezes.
Affonso Penna enfraquecido e sustentado por um
bloco, que acabou corn elle, precisava dos treze
votos do Accioly na Camara e Senado.
O president do Ceara, presentindo isto, de hu-
milde que estava ficou altivo e para tirar proveito
do moment apresentou candidate a uma cadeira
vaga no Senado, onde ja tinha um genro Dr. Fran-
cisco Sa, seu filho Thomaz Accioly.
Esta mesma candidatura jA havia sido apresen-
tada, mas o Sr. Affonso Penna a fizera retirar.
Agora elle a acceitaria ou entAo os seus represen-
tantes se poriam em opposigco.
O Sr. Affonso Penna cedeu a forca das circum-
stancias.
Estas e outras decepqces minaram-lhe a existen-
cia e quando o suppunham bom, o Chefe da Naqao
morria de traumatismo moral.
Era mais uma victim da nefanda political dos








31

governadores inaugurada pelo Sr. Campos Salles,
political nefasta A NaqCo e que se nao tiver fim
acabarA esphacelando o Brazil.
Morrendo o Sr. Affonso Penna, assumiu o governor
da Republica o vice-presidente, por uma ironia do
destiny, o Sr. Nilo Peganha. Para occupar a pasta
da industrial e viacqo foi chamado o Sr. Dr. Fran-
cisco Sa.
Com um genro no ministerio e este amigo in-
timo do Presidente da Republica o mando do
Sr. Accioly tocou ao apogeo. Qualquer pretencao
delle no Rio era satisfeita immediatamente.
O Sr. Nilo Pecanha, quando o felicitava, cha-
mava-lhe meu querido amigo !...
Gosando de t.o grande prestigio e corn o seu
espirito apoucado, deixou-se obcecar pelo poder e
acreditava se eternisar no governor, passando este
por sua morte aos filhos. S6 assim se explicam as
violencias que commettia e o nenhum caso que
fazia dos direitos de seus governados.
Aos seus proprios amigos politicos tratava corn
a maxima indifferenca nao Ihes consultando em
cousa alguma.
N.o falo daquelles que tiravam proventos da
political de arroxo que fazia, mas de alguns homes
de fortune que o acompanhavam.
O Sr. Accioly ensoberbeceu-se a tal ponto que
nao fazia caso de pessoa alguma.
Nao confiava em ninguem.








32

Uma feita um de seus mais antigos correligio-
narios, chefe politico de grande prestigio do inte-
rior do Estado, deu-lhe a entender que elle devia
ouvir aos amigos nas questbes political. 0 Sr. Ac-
cioly fechou a cara e responded: tenho-me dado
sempre mal quando consult a amigos.
Nao ouvia pessoa alguma al6m dos filhos e do
Sr. Gracho Cardoso, que era uma creaqco sua, um
home que elle elevara de praca de pret a repre-
sentante da NacAo. Neste elle confiava, e podia
confiar porque elle era um servidor incondicional.
Se assim nao fosse seria um monstro de ingrati-
dao. O Sr. Accioly havia feito delle seu commensal
e jornalista, escrevendo nas paginas da Republica
artigos insultuosos contra os adversaries do seu
protector.
A sua penna ganhou fama.
Aquelle home estava talhado para grandes cou-
sas. Era precise, entretanto, que elle tivesse um
titulo, porque o Brazil ainda sera por muitos annos
a terra dos doutores.
Jubilado na Escola Militar, onde estivera, falta-
vam-lhe alguns preparatorios para matricula na
Faculdade de Direito, preparatorios em que elle ha-
via sido reprovado na Escola Militar. Isto nao era
razao para que se deixasse de matricular.
Fizeram-se bancas especiaes, e o Sr. Gracho Car-
doso foi examinado e approvado. Eu era professor
do Lyceu nesse tempo, mas nao tomei parte nesse






















.i


Coronel Antonio Frederico de Carvalho Motta







33

escandalo. Com os preparatorios feitos foi ao Rio
fazer exames na Faculdade Livre de Direito. LA
esteve e de la voltou corn exames incompletos do
primeiro anno.
Uma Academia se faria no CearA que o diplo-
masse. Antes de fazel-a era necessario incluir o
Sr. Gracho no orcamento e elle foi nomeado pro-
fessor de grego do Lyceu e nomeado por concurso,
uma das farcas mais ridiculas a que tenho assistido.
Imagine-se que no corpo docente do Lyceu nao
havia um s6 professor que soubesse aquella disci-
plina, a exceppco do Conego Urbano da Silva
Monte, que se educara em Roma e sabia, como elle
proprio dizia, o a. b. c. do grego. Avalie-se que
exame fez o Sr. Gracho Cardoso.
Foi approvado, e poderia deixar de ser, elle o
primeiro valido do Sr. Nogueira Accioly? Fez-se a
Academia de Direito e o Sr. Gracho fez-se doutor.
Bacharel em Direito em uma semana foi logo na
outra nomeado lente cathedratico de Direito Cons-
titucional e tempos depois doutor de borla e capello,
por mera cavillag9o do corpo docente daquella
Faculdade.
Estava o Sr. Gracho preparado para galgar as
mais elevadas posicbes.
Foi entao nomeado Secretario da Fazenda, onde
esteve ate que foi nomeado deputado geral, e ao
mesmo tempo nomeado logo 1.0 vice-presidente do
Estado.








34

Assim foi a vertiginosa carreira do Sr. Gracho
Cardoso que tdo saliente papel ter representado
na political do Ceara.
Homem trabalhador, de iniciativa, intelligence,
chegando ao Rio adaptou-se logo aquelle meio e
se iniciou em todas as patifarias.
Na Camara a despeito de terem IA muitos depu-
tados chronicos desde a Constituinte, fez-se leader
da bancada cearense, o que nao deixou de enciu-
mar os antigos servidores do Sr. Accioly. No Rio
era corn quem o Sr. Accioly se entendia.
Certos negocios um pouco escabrosos s6 con-
fiava a elle. Os elogios, as mensagens ao governor
do Ceara feitas pela imprensa do Rio eram compra-
dos pelo Sr. Gracho.
O celebre recebimento dos cofres da Naqco da
quantia de onze contos de reis, para o Sr. Accioly,
como senador, durante uma sessao do Senado,
quando elle estava president do CearA, foi obra do
Sr. Gracho.
Este estellionato, denunciado ao poder judiciario
e magistralmente tratado pelo grande cearense
Dr. Jos6 Getulio da Frota Pessoa, nio foi punido
porque os patrons do Sr. Accioly descobriram
immunidades para elle como president do Es-
tado.
A Assembl6a do Ceara era composta de filhos,
genros, parents, e amigos incondicionaes do
Sr. Accioly. JA se ve que semelhante Assemblea













35

jamais daria licenca para processar por crime de
furto seu parent e chefe.
A recusa daquella corporaqco, a licenca pedida
pela justica do Rio era prova mais cabal da culpa-
bilidade do Presidente do Estado.
Se estava innocent, se nao havia recebido dos
cofres da Nacgo subsidies como Senador em um
semestre quando ja era president do Ceard, que o
processassem, a verdade seria proclamada e elle
considerado como uma victim de inimigos figa-
daes.















III




O constant pesadelo do Sr. Accioly era o go-
verno do Estado passar a um estranho.
Elle era muito precavido e tanto que quando
mandou que o elegessem president do Ceara,
mandou eleger tambem primeiro vice-presidente
seu filho Jos6 Accioly. Caso elle adoecesse ou mor-
resse, aquelle seu filho, que era tambem Secreta-
rio do Interior, assumiria o governor.
A falta de escrupulos do Sr. Accioly em se tra-
tando dos dinheiros publicos era de tal ordem e a
submissAo do poder legislative tamanha, que indo
elle ao Rio operar-se de uma catarata, mandou a
sua Assemblea conceder-lhe licenca por tempo in-
determinado, cor todos os vencimentos e correndo
todas as despezas da viagem, sem precisar quan-
tia; por conta do Estado.
Embarcou e pelo Rio esteve recebendo banque-
tes do Presidente da Republica e at6 hoje nao se
sabe quanto custou ao Ceara a sua viagem.
No ultimo anno do segundo quatrienio de seu








38

governor tinha fatalmente de apresentar um candi-
dato ao seu logar. Este candidate nao podia e nem
devia ser outro senao um de seus filhos ou entAo
o Sr. Gracho Cardoso. O sr. Gracho nao podia por-
que n.o era cearense e a Constituicgo dizia s6 po-
der ser Presidente do Ceard um cearense nato.
Consultou para o Rio se nao podiam deixar-lhe
fazer seu filho Jos6 Accioly Presidente do Estado.
Responderam lembrando alguns nomes de cea-
renses, mas estes nao Ihe serviam.
Nao se havia esquecido dos primeiros dias de
governor do Sr. Pedro Borges e as amarguras por
que passou.
Funccionava a sua Assembl6a e elle mandou que
a Constituicao fosse reformada, permittindo o Pre-
sidente do Estado a se reeleger e tirando as in-
compatibilidades do Sr. Gracho Cardoso, que po-
deria de agora em diante ser president do CearA
embora tivesse nascido em Sergipe, uma vez que
era representante do Ceara.
A mesma Assemblea, quando estava prestes
encerrar as suas sess6es, aclamou o Sr. Accioly
President do Ceard no future quatrienio e 1l foi
incorporada a palacio levar a nova como se ella
fosse pelo seu chefe ignorada.
O Sr. Accioly fingiu a maior surpreza e pediu
que o dispensassem de tao grande sacrificio.
Instaram e elle final accedeu somente, no dizer
delle, por amor do povo.








39

Estava agora aparelhado para continuar o seu
poder discricionario por mais quatro annos. Se
morresse dentro deste period, o Sr. Gracho assu-
miria o governor e faria president do Estado o
Sr. Jos6 Accioly. Assim estava constituida a dym-
nastia dos Acciolys em pleno regimen republican.
Completamente obcecado pelo mando e sem o
menor respeito aos direitos de seus concidadSos,
continuou corn mais largueza as suas tropelias
administrativas.
N'uma ancia de bem collocar os filhos, vivia, e
nao havia para este fim violencia que Ihe fosse
interdicta.
A familiar, entretanto, jd estava toda muito bern
collocada e todos, que eram pauperrimos antes do
governor Accioly, estavam abastados, como provam
os palacetes que edificaram, fazendo assim alarde
de sua deshonestidade com grande menospreso da
opiniao public. Todos os filhos do Sr. Accioly ti-
nham empregos vitalicios e mais de um.
O Sr. Antonio Accioly Filho, que era procurador
fiscal do Estado, foi nomeado professor da Facul-
dade de Direito. Na mesma data em que foi no-
meado foi considerado em service public, rece-
bendo os vencimentos como professor da Academia.
O pai o afastava da cathedra, porque conhecia a
sua incompetencia.
A questao primordial eram os vencimentos de
professor, e elle os tinha.








40

Este moco era um enfermo. Bastava ver o seu
physico para se ficar convencido disto. Moralmente
era um desequilibrado. S6 por um desequilibrio se
admitted os seus actos para enriquecer. Foi meu
discipulo no Lyceu e posso julgal-o.
Advogado, deixou no f6ro d'esta capital tristis-
sima memorial.
Os desmandistas procuravam-no de preferencia,
porque elle dispunha dos juizes, salvo raras exce-
pcoes.
Na advocacia administrative ganhou muito di-
nheiro e chegou ate a influir no tribunal do jury.
Os escandalos foram tantos que a Relacio de
Fortaleza, acabou fazendo justica e elle perdendo
as causes que advogava.
Desapparecida esta fonte de receita fez-se nego-
ciante, industrial, creador, agricultor; mas sempre
um desastrado em todos aquelles ramos de activi-
dade humana.
Em breve viu-se na necessidade de hypothecaros
seus bens para poder movimentar os seus negocios.
Um pouco compromettido agambarcou tudo que
o municipio tinha que pudesse Ihe dar lucros. Con-
tratou a limpeza public por cincoenta e quatro
contos; arrematou os impostos dos mercados de
fructas, hortalices, de caixas de miudezas, emfim
ficou de posse do mercado public, a excepcao dos
talhos de care verde, que pertenciam a outros
membros de sua familiar.











































Desembargador Joaquimn Olympio de Paiva








41

Fez-se empreiteiro de empedramento das ruas,
concertador de calcamentos, tudo isto, jA se v6
em nome de terceiro sem figurar a pess6a delle.
Dos dinheiros sahidos dos cofres municipaes o
que mais indignaqco causou ao public foi o que
se deu a membros da familiar Accioly pelo celebre
forno de cremar lixo.
Este estellionato legalisado pelo poder municipal
dd uma perfeita idea da submissao de nossos
homes.
Este forno que deve ser conservado como me-
moria dessa desgracada epocha, custou noventa
contos de reis, dinheiro que a Camara nao tinha e
pediu emprestado para adquiril-o.
O escandalo da compra do forno nao esta no
custo delle tres vezes mais do valor, por6m na
imprestabilidade do mesmo. Recebido do vendedor
por uma commissio de vereadores da Camara Mu-
nicipal, como satisfazendo as exigencias do con-
tracto, foi inaugurado. Verificou-se depois que o
forno s6 queimava palhas seccas, ou papel, isto
mesmo cor grande despendio de combustivel.
Abandonaram-no por imprestavel no fim de poucos
dias ficando entretanto percebendo vencimentos
uma turma de empregados do referido forno.
Um home do povo passando um dia por perto
do forno parou e disse: quando isto ird para o
lixo?
0 ultimo quatrienio de governor do Sr. Accioly








42

foi de uma prodigalidade pasmosa de esbanjamen-
tos. Parecia uma despedida, um testamento.
E se elle adivinhasse a revolucqo, a queda, entao
nao deixaria pedra sobre pedra. A Secretaria da
Fazenda teria ardido e corn ella os archives publi-
cos para desaparecerem para sempre as provas dos
seus peculatos.
O Ceara progredia, nao influenciado pelo seu
administrator, mas devido a alguns annos de es-
taces regulars e sobretudo A grande alta da bor-
racha no Amazonas, que derramou rios de dinheiro
no Estado. Em 1910 quando a borracha chegou a
dar 16$000 por kilo entraram para aqui cerca de
trinta mil contos! Houve uma verdadeira plethora
de dinheiro. Essa grande somma parece fabula e
no entanto nio 6. Os bancos as casas capitalistas
e o correio estao ahi para provar essa inundacgo
de numerario.
Em Fortaleza tudo se valorisou. As casas subi-
ram de preco e o commercio teve grandes lu-
cros.
Os paroaras tudo compravam sem regatear o
preco.
Essa movimentacgo do commercio em Fortaleza
fez-me lembrar a alta do algod.o em 1868 durante
a guerra civil dos Estados Unidos. No Ceara cor-
reram entao rios de dinheiro nao vindo da Ama-
zonia, pois nesse tempo o cearense nao sabia o
caminho daquella opulenta e insalubre terra.








43

Aquella estrada da morte foi aberta posterior-
mente, em 1877. Fugiram por ella naquelle desgra-
ado tempo para escapar da fome. E nunca mais
se fechou.
Hoje seguem os ambiciosos que vio tentar for-
tuna, os que se incompatibilisaram com os pode-
res publicos do Ceard.
0 elevado prego do algodAo fascinou o povo e
pode-se dizer que as mattas do Ceard foram todas
derribadas e em logar dellas surgiu um s6 algo-
doal.
Foi uma devastateo, cujas consequencias funes-
tas se sentem e se farao sentir por muitos annos
ainda.
O progress material de Fortaleza data daquelle
tempo.
As poucas fortunes que existem hoje se origina-
ram quasi todas daquella epocha.
O cearense e perdulario e imprevidente por in-
dole.
Empregado do commercio naquelle tempo fui
testemunha do desamor que elle:tem ao dinheiro.
Chegava o matuto corn o seu comboio de la (algo-
dao em pluma.)
Entregava-o e tambem uma nota de mercadorias
para ser aviada. Pedia que fizessem o pagamento
em papel moeda e nao em ouro, por ser mais dif-
ficil de conduzir. Uma libra esterlina valia 8$890.
0 Cambio chegou a 27.








44

Feito o pagamento do algodao o matuto pedia a
factura das mercadorias, e sem conferil-a, sem exa-
minar os precos, pagava.
O paroara nao chega a fazer tanto; 6 prodigo
mas sempre desconfiado que o querem enganar.
A alta da borracha havia agora inundado de
ouro o Ceard como outr'ora a alta do algodao.
Foi nessa epocha de prosperidade que o Sr. No-
gueira Accioly teve a infeliz idea de arruinar o
Ceard por longos annos.
O Estado nada devia e se grande saldo nao tinha
nos cofres publicos, se melhoramentos de utilidade
public nao se haviam feito, 6 porque os dinheiros
publicos eram esbanjados escandalosamente, como
se provard um dia quando tivermos um governor
que made proceder vistoria nos livros da Secre-
taria da Fazenda.
O Sr. Accioly criminosamente onerava o Estado
de uma grande divida e ao mesmo tempo diminuia
as suas fontes de receita. A cessao de Grossos ao
Rio Grande do Norte e uma prova do seu desgo-
verno, quicg de sua deshonestidade.
Na administracao do Sr. Pedro Borges tentaram
os nossos visinhos se apoderarem de Grossos,
mas o president protestou, e fez seguir o seu
Batalhao de Seguranca para fazer respeitarem os
nossos direitos ali. Esta hespanholada surtiu o
effeito desejado. Do Rio mandaram que voltasse o
Batalhao, que o caso de Grossos seria decidido








45

nio pelas armas, mas por arbitragem. O Batalhio
voltou do Aracaty e a questao ficou de pedra em
cima at6 que viesse um governor que entregasse
um pedaco do nosso territorio ao nosso confi-
nante.
O Sr. Accioly devia fechar o seu governor de cri-
mes corn chave de ouro. Assim o fez contrahindo
um emprestimo cor banqueiros francezes de quinze
milh6es de francos.
O public nada soube das condices em que foi
feito o emprestimo, e cousa singular, nas proprias
reparticies publicas nada constava.
Soube-se apenas que o emprestimo de quinze
milhoes de francos era destinado a abastecer
d'agua Fortaleza e fazer uma rfde de exgotos.
Poucos serdo os actos de um governor que me-
recam maior condemnacgo.
Onerar o Estado, graval-o de uma divida enorme,'
hypothecar parte de suas rendas por meio seculo,
um Estado sujeito a seccas, que de um anno para
outro fica em penuria, somente para dotar a quarta
parte da populac.o da capital de melhoramentos
adiaveis, 6 o cumulo da falta de senso.
No CearA a agua foi sempre a questao magna.
O problema resolvido 6 captivar a que cahe ou
ir buscar a que estA no seio da terra.
O Estado, sabem todos, contrahiu um empres-
timo para fazer os referidos melhoramentos, mas
o que ninguem sabe, fora daqui, 6 que o Estado








46


nio tem um manancial de onde se derive agua ne-
cessaria aquellas obras.
0 manancial com que conta o Estado 6 o acude
do Acarape, obra federal, em construcqio ainda.
Quantas cousas imprevistas, podem succeder
que adiem por dez e mais annos a conclusio da-
quella obra? Isso sem falar na quantidade e qua-
lidade d'agua, dependendo esta do terreno em que
repousar o manancial e de um anno de pouca chuva
tAo commun do Ceard.
O que se nao comprehend e como haja governor
que tome dinheiro emprestado, a juros modicos
embora, para abastecer d'agua uma cidade e dotal-a
de uma rede de exgotos, sem ter o element pri-
mordial, a agua.
O future quando esclarecer este ponto da admi-
nistracAo do Ceard dird que a causa nao foi o bem
public, mas o interesse desordenado de uma fami-
lia que em mA hora tomou conta dos destinos do
Ceard.
Aguada e exgoto seriam bons se o Estado ti-
vesse recursos para fazel-os. Estes melhoramentos
nao eram de necessidade urgente.
Outros havia que preferiam dquelles.
Alem disto o Ceara nao 6 somente Fortaleza.
Onerar-se o Estado cor uma divida enorme so-
mente para o bem estar de uma parte da popula-
cgo da capital, 6 clamorosa injustica. Fortaleza e
uma cidade corn uma populagao de sessenta mil








47

almas. Mais de metade dessa gente mora nos su-
burbios da cidade, na parte nao calcada.
Agua e esgoto, nio aproveitando aos moradores
das areas, serviriam somente para umas vinte e
cinco mil pess6as, quando muito.
O melhoramento mais urgente da nossa capital
6 o seu saneamento. Fortaleza 6 uma cidade insa-
lubre e sera emquanto os seus focos de miasmas
nao forem suprimidos. O paludismo aqui grassa
endemicamente, sob suas diversas modalidades.
Canalise-se o riacho do Pajeht, aterre-se o Parque
da Liberdade, de-se escoamento as aguas pluviaes,
lutem-se as caixas d'agua da cidade e os anopheles
e stegomyas, nao achando onde procrear, se extin-
guirdo fatalmente. A molestia devida ao envenena-
mento do solo pelas materials fecaes 6 o typho e
n6s nao o temos. O que grassa aqui esporadica-
mente 6 uma febre chamada-paratyphica: esta
eu a conheco ha quarenta annos. Expurgar de mos-
quitos Fortaleza cor as suas aguas estagnadas 6
uma utopia. Quando o inverno attinge a 1.600 mill.,
os quintaes de parte da cidade ficam cobertos d'ague
at6 meado do verao.
Admittindo mesmo que aquelles melhoramentos
se'impozessem como media de salvacgo public
cumpria ao governor fazel-os por garantia de juros
a companhias estrangeiras.
Isso nao se tentou porque assim seria mais diffi-
cil um peculato.








48

0 acodamento corn que foi feito o emprestimo,
o silencio absolute do governor sobre as condies
daquelle, a viagem de membros da familiar Accioly
a Paris, para tratar deste negocio, bem provam que
se tratava de encobrir a fraude em tal transacgo.
Todos os actos administrativos se faziam nas
trevas.
0 governor nem as certid6es de seus actos con-
cedia!
Todos os ramos de servigo public estavam
anarchisados.
O Sr. Accioly s6 uma cousa levava a serio, o seu
machinismo de fabricar actas falsas para mandar
representantes A Camara e Senado, pois sabia que
emquanto elle dispozesse de treze votos governa-
ria o Ceard como bem entendesse.
A lei Rosa e Silva garantindo a representacgo
das minorias, pelo voto cumulative veio amedron-
tar um pouco o Sr. Accioly. Sabia que opposicIo
podia eleger um deputado em cada district e tal-
vez tres, sendo dois no primeiro.
Do Rio Ihe haviam dito que a vontade do Presi-
dente da Republica era que fossem respeitados os
direitos das minorias, que a chapa apresentada de-
via deixar o tergo para opposicgo.
O Sr. Accioly conhecia muito bem o valor da
vontade do Presidente da Republica, comparado
cor o dos blocos, verdadeiros syndicates para mo-
nopolisar a political national.









































Coronel Joaquim Magalhles







49

Nao deu ouvidos ao que Ihe disseram e apresen-
tou chapa complete.
Correu a eleiqCo e foram eleitos os membros da
opposig9o Coronel Agapito Jorge dos Santos pelo
primeiro district, Dr. Virgilio Brigido pelo segundo.
Reunidas as juntas apuradoras expediram diplo-
mas aos dez candidates governistas. Outro proce-
dimento nao podiam ter uma vez que estas juntas
eram compostas dos presidents das cameras mu-
nicipaes do district, e estes homes cumpriam
cegamente o que o Sr. Accioly Ihes mandava fa-
zer.
Os candidates da opposigao, ou antes deputados
eleitos, conscious da validade de sua eleicao, muni-
ram-se de documents, e foram d Camara defen-
der os seus direitos. Discutiram e provaram A luz
da evidencia corn as actas que levaram, que esta-
vam eleitos cor grande maioria.
O bloco riu-se da ingenuidade delles. Nao se tra-
tava da validade da eleicao, do numero de votos
obtidos pelo candidate, mas dos compromissos,
dos conchavos feitos pelo Sr. Carlos Peixoto e Pi-
nheiro Machado, os directors da political national,
ou antes os chefes de todas estas patifarias.
Depurados os deputados da opposicao, voltou
o Coronel Agapito Jorge dos Santos ao Ceard.
Quando aqui chegou foi recebido no porto por uma
turma de soldados de policia disfargados, que o
vaiaram desde a praia ate a sua casa de residencia.








50

Estava a opposicgo morta de facto e de direito.
Sem representantes no Congresso e Senado o que
podia fazer?
Pensei que se dissolvesse o partido, que acabas-
sem corn os jornaes, mas enganei-me. Uniram-se
cada vez mais os que se batiam pela liberdade do
Ceara, fieis ao manifesto lancado pelo Dr. Walde-
miro Cavalcanti ainda no governor do Dr. Pedro
Borges.
O manifesto deste grande republican, deste ho-
mem de coraqco e de talent foi a faisca que pro-
duziu o incendio de 24 de Janeiro. Waldemiro Ca-
valcanti havia pertencido ao partido do Sr. Nogueira
Accioly e foi um seu grande auxiliar.
Desgostoso do seu governor e vendo que o Es-
tado se anarchisava por sua ma orientagAo, que os
seus mais dedicados amigos eram postos A mar-
gem, preferidos por homes que chegavam de ou-
tros Estados sem services ao partido e A causa pu-
blica, poz-se em opposicao ao seu antigo chefe
como se ve de seu Appello Patriotico, publicado
adeante. Waldemiro Cavalcanti era director da Es-
cola Normal. Este estabelecimento de instrucao
elle havia corn seu zilo, intelligencia e amOr ao
ensino, tirado do abandon em que se achava e
feito prosperar.
Logo que foi publicado o Appello Patriotico, foi
Waldemiro Cavalcanti demittido de Director da Es-
cola Normal, muito embora aquelle estabelecimento








51


de instrucio perdesse cor este acto do governor,
acto que revelava muita intolerancia.
O Dr. Pedro Borges era president do Estado e
demittiu Waldemiro Cavalcanti porque batia as
ideas, os actos do chefe politico governista do
Ceard. Este acto de civismo do grande republican
trouxe-lhe amargurados dias, foi o inicio de seus
grandes males.
O destiny parece collaborava cor o Sr. Accioly
em seus maleficios.
Waldemiro Cavalcanti viu-se sem recursos e, por
cumulo de infelicidade, foi acomettido de uma mo-
lestia cruel que de todo o impossibilitou de ganhar
a vida e de continuar a trabalhar pela libertacio
de sua terra. Vive hoje inutilisado, esquecido, sof-
frendo cor uma resignaglo evangelica a sua en-
fermidade.
O Ceara, no segundo reinado do Sr. Accioly re-
trogadava, voltava aos tempos idos, A epocha do
bacamarte, quando Alencar, cor sua energia mas-
cula acabou o banditismo.
Voltou o period da barbaria.
O roubo a mao armada, o incendio nas pro-
priedades e depois em villas, como a de Aurora,
eram communs.
O deputado Jamacard viu todas as suas proprie-
dades destruidas pelo fogo, saqueadas, seus gados
mortos, por um chefe politico do Sr. Accioly.
Embalde procurou justice.








52

0 incendio da villa da Aurora, onde dezenas de
casas foram saqueadas e depois incendiadas, as
igrejas profanadas, donzellas violadas, por uma
malta de bandidos ao mando dos amigos do Sr. Ac-
cioly, ficou impune, restando as victims de tao
horroroso crime a esperanca na justica fatal de um
dia depois do outro. O vigario de Aurora, quasi
louco, correu a Fortaleza e de joelhos nos p6s do
sr. Accioly pediu justiga. Este, na sua impassibili-
dade habitual, olhou o afflicto padre e disse com a
maior calma, sem uma palavra de reprovacao ao
crime, um lamento a tanta desgraca que manda-
ria apurar as responsabilidades. E as providencias
ficaram nisto.
Este monstruoso crime, uma das paginas mais
tristes do governor do Sr. Accioly, foi devido a des-
avencas dos chefes politicos governistas naquella
regiao.
A divisao de terras auriferas naquelle municipio,
entire os seus possuidores, foi a causa do mons-
truoso attentado.
Os donos dos terrenos mineiros requereram sua
divisao judicial, a excepcao de um Sr. Leite.
O chefe politico de Milagres pediu ao Sr. Accioly
para a audiencia judicial ser feita em Milagres e
nao em Aurora.
O Sr. Accioly mandou que a audiencia fosse feita
no sitio Taveira, termo de Milagres, que Leite nao
a perturbaria e nem a forca policial destacada em








53

Aurora sahiria desta villa. No dia da audiencia, an-
tes da justica ter chegado a fazenda Taveira, foi
esta assaltada por 40 pracas de policia destacadas
em Aurora e grande numero de cangaceiros. Ma-
taram os gados que encontraram, feriram grave-
mente um velho, e assassinaram uma creanca de
12 annos.
Assim desautorado, o chefe de Milagres telegra-
phou ao Sr. Accioly dizendo que elle retirasse a
forba de Aurora que elle queria destruil-a.
O Sr. Accioly obedeceu A intimaqao mandando
retirar a forca para Lavras, e ficou esperando a
perpetraq.o do crime mais hediondo de seu go-
verno.
0 sul do Estado tinha em armas um exercito de
cangaceiros. Cada chefe politico tinha o seu se-
quito composto de matadores mandados vir dos
visinhos estados de Parahyba e Pernambuco.
0 assassinate era cousa trivial, de que a justice
nao tomava conhecimento.
Nao eram raras as escaramucas entire os proprios
chefes governistas. Batiam-se pelo mando e no fim
da peleja o vencedor era o que o Sr. Accioly re-
conhecia como chefe.
O exemplo do Coronel Bel6m, o chefe de maior
prestigio do Crato, no seu tempo, vice-presidente
do Estado, emerito fazedor de actas de eleicqes
falsas, 6 um exemplo do que acima affirmei.
O Coronel Bel6m foi deposto, e mais ainda obri-








54

gado a se mudar de terra, arruinado, porque Ihe
haviam, pode-se dizer, confiscado os bens.
O Sr. Accioly viu o seu braco direito, no sul do
Estado, reduzido quasi A miseria e corn toda a in-
differenca disse: Requidscat in pace... Se pelo
lado material o CearA se anniquilava, pelo lado
moral havia descido A abjecc.o.
A imprensa era uma miseria. O journal official-
A Republican era um pasquim de grande format e
editado por conta do Estado. Nesta folha algumas
pennas mercenaries, como a de um senhor Carlos
Camara e outras, atassalhavam a reputacqo de
qualquer home de bem que fosse infenso ao go-
verno do Sr. Accioly. Fui muitas vezes insultado
por essa imprensa venal, e como document dei-
xei nas paginas de meu livro Variola e Vaccina-
cao no Ceara transcripts os torpes insultos a
mim dirigidos.
Como se nao fosse bastante um journal para dar
vasao ao odio desta gente tinham pasquins de
pequeno format para em uma linguagem porno-
graphica atacar a vida privada de seus adversa-
rios.
Entre outros pasquins cito 0 Tempo publi-
cado por membros da familiar Accioly, editado na
typographia Minerva, do Sr. Coronel Guedes de
Miranda, e tendo como director, figurando no fron-
tespicio, o nome do Sr. Arnulpho Pamplona, dire-
ctor da Secretaria da Assembl6a.








55

Guardo cor grande zilo urna collecAo desta fo-
lha como document historic de grande valor.
Este pasquim adoptou urn anonymato suigeneris;
escrevia verrinas contra os opposicionistas do go-
verno e as assignava corn o nome dos proprios
opposicionistas. A Republica fazia o mesmo e ate
nas suas colunas de honra, se 6 que naquella fo-
lha houvesse algum logar de honra.
Tive de ver corn grande tristeza, para meu es-
pirito, publicado no Tempo, urn romance pornogra-
phico contra o Dr. Waldemiro Cavalcanti, uma series
de calumnias mal urdidas, em que se tratava de
seu lar, de sua vida privada, e esta cousa vil, igno-
bil, era assignada corn o meu nome!!...
Tive d6 desta gente porque por este caminho s6
se podia ir ao abysmo.
O dia da reivindicacgo de nossos direitos viria
fatalmente, e ai dos oppressores!
A falta de garantias em Fortaleza chegou ao
auge.
O Coronel Agapito Jorge dos Santos, redactor
do Journal do CearM, foi muitas vezes seguido por
soldados disfarcados, escapando tres vezes mila-
grosamente de ser assassinado em plena rua e de
dia claro.
Esta ventura nAo teve o jornalista Americo
Fac6, moco de grande talent e condemnado pelo
Sr. Accioly por ter publicado uns versos contra
elle.








56

Uma noite Fac6 entrava na praqa do Marquez do
Herval, em companhia de seu amigo Junqueira
Guarany. Inesperadamente foi agredido pelas cos-
tas, recebendo uma cacetada na cabega que o der-
ribou. Os agressores eram quatro e s6 nao o ma-
taram porque Guarany, moqo de grande coragem,
sacou o estoque da bengala e poz-se na defensive
do amigo. Ao mesmo tempo as families que esta-
vam nas janellas, gritavam pedindo socorro. Aos
gritos destas accudiu o major Raymundo Guilherme,
ajudante de ordens do Presidente do Estado que
perto assistia uma festa intima em casa de seu
cunhado Antonio Valente.
Os agressores, logo que viram se aproximar o
major Raymundo Guilherme, fugiram a bom correr.
Este os perseguiu at6 os quartos do Sampaio,
onde entraram.
Foi ahi que o ajudante de ordens conheceu que
eram soldados de policia disfargados. Voltou para
a sua festa porque sabia que aquelles matadores
cumpriam ordens.
la o Sr. Accioly assim pelo caminho da violencia
creando grande numero de inimigos, espalhando
ventos para depois colher tempestades.
No exercito national elle tinha um sem numero
de desafectos, distinctos officials que elle havia
removido daqui, alguns ate doentes, somente por-
que nao o bajulavam. Que o diga o distinct Te-
nente J. Penha, este bello talent, as amarguras por














































Coronel Jose Faustino da Silva








57

que passou devido ao genio perverse do president
do Ceara.
A imprensa official tornou-se o pelourinho, um
poste de difamacao dos homes mais puros do
Ceard. At6 os cearenses que viviam fora daqui, mas
que nao aplaudiam o governor do Sr. Accioly, eram
atassalhados.
Haja vista o Sr. Dr. J. G. da Frota Pess6a.
Este puritano, uma gloria de sua terra, cujo ta-
lento, saber e virtudes, o fazem um ser digno de
toda veneraglo, foi insultado de um modo ignobil
pela folha do Sr. Accioly.
Antonio Salles, Gustavo Barrozo, Domingos
Olympio, de saudosa memorial, Belisario Tavora,
Solon Pinheiro, e muitos outros, todos homes de
valor e vivendo fora daqui, eram quasi diariamente
offendidos pela folha official.
O Sr. Accioly estava convencido de que jamais
cahiria e s6 assim se explica os odios que elle sem
necessidade procurava de seus conterraneos em
todos os Estados.
S6 grande obcecacAo faria procurar inimigos en-
tre homes cultos e de talent e que viviam na
imprensa do Rio, long do punhal de seus solda-
dos e de sua justice.
0 Sr. Accioly devia ter sentido o effeito desta
acumulacgo de odios, nao s6 aqui como pelos ou-
tros Estados por onde ia passando o seu cadaver
moral, depois de sua queda.





















As agressies pessoaes que soffriam os adversa-
rios do Sr. Accioly, eram mandadas fazer, nao por
este, mas pelos seus apaniguados. Depois de fei-
tas, mesmo sem sua sciencia, elle as encampava.
0 empastelamento da typographia do Unitario,
journal que fazia opposicgo ao governor, foi feito sem
acquiescencia do Sr. Accioly. Aquella selvageria
diziam fora obra do Sr. Carneiro da Cunha, fiscal
do Batalh.o de Seguranca de parceria corn o Im-
mediato da Companhia de Aprendizes de Marinhei-
ros, o Sr. Severino Maia.
O Sr. Accioly s6 soube do facto pela manhA e
o reprovou.
0 crime ficou impune porque a policia, embora
procedesse rigoroso inquerito, nao conseguiu saber
quaes foram os delinquentes ou se soube nao quiz
dizer.
O facto 6 que o Sr. Severino Maia, que ao che-
gar aqui se acamaradou cor a gente do Sr. Accioly,








60

depois do empastelamento do Unitario se afastou
della, diziam uns porque o Sr. Accioly exprobrou
o seu procedimento, outros porque pretendia o
Sr. Maia uma cadeira de deputado e nao Ihe foi
dada.
Fosse como fosse, o Sr. Severino pediu remocAo,
e deixou o Ceard, ja bastante arredio de palacio e
de sua gente.
Entre as figures political que acompanhavam o
governor e o serviam, uma das mais odiadas era o
Sr. Carneiro da Cunha.
O povo Ihe queria muito mal porque diziam ser
elle o mandante de todas as perversidades que fa-
ziam os soldados de policia.
Elle era um home mal encarado, como diz o
povo, e soffria de accessos de epilepsia, diziam uns,
porem outros affirmavam ser neurasthenia.
Doente de uma ou de outra molestia gosava de
muito ma fama; e na queda, nao mostrou a bravura
que ostentava quando senhor de centenas de ma-
tadores: foi um grande poltrAo.
Uma das cousas que mais provocou as iras do
povo contra o governor foi o monopolio das carnes
verdes.
A vida em Fortaleza 6 cara. O passadio 6 mAo.
Em uma terra onde a principal industrial 6 a pas-
toril, custar um kilogramma de care corn ossos de
600 a 800 reis, e um absurdo. Se essa care fosse
sempre boa, supportava-se, porem 6 pessima do








61

fim do verao a come;o de Marco, isto quando o
inverno cae logo no fim de Dezembro.
Para se avaliar a carestia dos generous alimenti-
cios em Fortaleza eis a media dos precos: peixe
de 1:200 a 2:000 por kilo; litro de feijao 400 reis;
dito de milho 200 reis; dito de farinha 200 reis;
came de porco kilo, 1:400 reis; um ovo 100 reis;
care do sul kilo 1:400 reis.
Alguns membros da familiar Accioly entenderam
tornar mais cara ainda a vida aqui e tomaram
conta dos talhos do mercado public. Para isto era
precise qne a Intendencia accedesse, mas esta era
um prolongamento de palacio e seu chefe um dos
mais antigos correligionarios do Sr. Accioly. Assim
estava tudo arranjado.
Tomaram conta do mercado por um arrenda-
mento de quatro annos, sem arrematacgo, sem
hasta public, pelo preco que bem entenderam de
accord corn o Sr. Intendente, home sexagenario,
que havia tido grande representagco e prestado
bons services a sua terra, porem hoje era um ven-
cido da vida.
O contract foi, como tudo que se fazia nesse
tempo, uma farca, na qual representavam como
contractantes os Srs. Antonio Diogo & C.a Os lu-
cros desta sociedade clandestine, immoralissima,
eram assim divididos: 48 por cento para Antonio
Diogo e a sua companhia que eram umas oito
figures talvez e 52 por cento para os membros








62

da familiar Accioly, representados por Jos6 Pinto
Coelho de Albuquerque, primo do Sr. Accioly.
Quando o Sr. Jose Pinto foi nomeado administra-
dor dos Correios de Fortaleza, sua mulher passou
a occupar o logar delle na sociedade, como consta
do annuncio por ella publicado no journal official
Republica.
0 mercado public no dominio dos Acciolys,
imagine-se as violencias que se praticaram.
Uma das que mais indignava a populacao desta
capital e que se repetia diariamente era a tomada
da came verde que entrava dos municipios visi-
nhos: Porangaba e Mecejana, para ser vendida em
Fortaleza.
0 syndicate tinha a sua disposicao os soldados
da Guarda Civica, que precisasse para tomar a
care e prender os vendedores.
Todas as madrugadas sahia uma patrulha a ca-
vallo, de camisa e calga, revolver e faca a cinta e
ia percorrer as estradas que desembocavam na ci-
dade.
Encontrava-me todos os dias, quando andava
no meu servigo de vaccinacgo pelos suburbios, com
estes salteadores, pagos pelos cofres publicos, em
desfilada pelas estradas dando caca aos vendedores
de care.
Quantas vezes me revoltei contra este attentado
aos direitos do cidadIo, As leis do paiz e tive dese-
jos de ser moco, forte e corajoso para prender um








63

destes bandidos e leval-o pelo gasnete a palacio e
mostrar ao Sr. Accioly como andava a forca pu-
blica pelas estradas a atacar os transeuntes que
levavam os seus generous a vender pelas ruas da
cidade. Esqueci esta phantasia. Levar um soldado
disfarcado ao Sr. Accioly, para que? Por ventura
ignoraria elle o facto?
Nao era s6 pelos suburbios que andavam estes
malfeitores. Passavam pelas ruas mais publicas da
cidade, para que os vissem e os temessem.
Perseguindo os pobres vendedores de care,
elles entravam em qualquer casa sem o menor res-
peito a familiar.
A minha residencia foi invadida uma vez por
um destes salteadores.
Gracas a Deus eu estava em casa, nio havia
sahido pela manhA como de costume a vaccinar
pelos suburbios porque tive neste dia de fazer a
vaccinacAo de um vitello.
Estava eu bem calmo e despreoccupado quando
ougo um tropel de uma pessoa que corria de casa
a dentro.
Saio ao seu encontro. Esbarrei-me cor uma mu-
Iher do povo perseguida por um home, tambem
d.o povo, que me vendo, jA estando dentro da sala
de entrada, estacou.
Cor um simples lance de vista comprehend de
que se tratava: a mulher era uma vendedora de
care e o home um soldado disfarcado.








64

Perguntei ao home quem elle era. Disse-me
ser um soldado da Guarda Civica e que andava to-
mando a care que entrava de Porangaba, por or-
dem do Sr. Commandante. Respondi-lhe que elle
nao podia ser um agent do poder public por
quanto nao trazia as suas insignias, que o trajo
delle era de salteador, atacando de revolver e pu-
nhal os transeuntes nos caminhos para roubar. Que
elle havia commettido um crime entrando em minha
casa sem o meu consentimento, crime este previsto
na Constituiiao. Que o azilo do cidadao era invio-
lavel e que eu podia tel-o repellido a bala.
O cabra era mal encarado e feio como um sapo.
Ouviu o que Ihe disse, mas nao entendeu, e,
quando acabei, respondeu-me que lhe mandasse
entregar a presa. Irritei-me e vendo no saguio,
perto do portao uma bacia e grande quantidade de
care pelo ch.o, mandei que se retirasse e condu-
zisse a came, do que me arrependi depois. O sol-
dado nao obedeceu.
Intimei-o de novo. Lancou-me um olhar feroz, e
apanhando a care, botou na bacia e a conduziu
resmungando.
Fui immediatamente ao quartel da Guarda Civica.
Encontrei o official de Estado e relatei-lhe o facto.
Repeti-lhe o que me havia dito o soldado e
acrescentei que nao podia acreditar que do quarter
sahissem soldados disfargados por ordem do seu
commandant.













































General Carlos Frederico de Mesquita







65

0 official mandou chamar o soldado A nossa
presence. Interrogou-o e elle desculpou-se.
Mandou recolhel-o ao xadrez por oito dias, penso
que por mera cortezia A minha pess6a, que a or-
dem de prisao seria relaxada logo que eu desse as
costas.
Os soldados tinham grande empenho em serem
tomadores de came.
Uma feita encontrei-me com ur delles nas areas.
Era um caboclo ainda novo, de b6a cara, e que me
pareceu nao ser ainda criminoso.
Perguntei-lhe se elle gostava de andar n'aquelle
service odioso, tomando o que era de seus irmaos,
homes tambem como elle, offendendo assim a lei
e consciencia delle.
Respondeu-me que achava isto muito mal feito,
que fazia porque era mandado e que as mais das
vezes fazia que nao via os vendedores de care.
Perguntei-lhe o que elles faziam da came que
tomavam. Respondeu-me que tiravam a que preci-
savam para comer cor suas families, e o resto le-
vavam para o Posto Policial, onde era ainda divi-
dido e alguma que sobrava mandavam para o Azilo
de Mendicidade.
.Perguntei-lhe se era vaccinado. Disse-me que
nao. Pedi que se vaccinasse. Accedeu. Vaccinei-o
e mandei-o embora na paz de Deus.
Este abuso inqualificavel do syndicate das carnes,
dispondo da forca public para matar a concurren-








66


cia que faziam os talhadores de Porangaba e ou-
tros municipios, indignava o povo tanto quanto a
capital entregue ao lixo pelo contractante da lim-
peza public.
Fortaleza, antes do ultimo governor do Sr. Ac-
cioly, era considerada uma cidade limpa e for-
mosa.
Os seus f6ros de saluberrima corriam mundo, e
isto attestam o grande numero de doentes de ou-
tros Estados, que procuravam a saude em seu
abencoado clima.
Foi isto em outros tempos quando os governor
tinham uma nogco clara e precisa de seus deveres
e responsabilidades.
Esta epocha desgracadamente passou e Fortaleza
tornou-se uma cidade immunda e insalubre.
O lixo enchia as coxias e de algumas casas cor-
riam aguas servidas, carregadas de detritos orga-
nicos, pelas sargetas, empestando a atmosphere.
Um destes corregos ficou celebre por tanto fala-
rem delle os jornaes da opposiAio e passou A his-
toria corn o nome de Riacho dos Porcos.
A imprensa podia clamar dia e noite contra este
attentado As posturas municipaes e A saude pu-
blica, mas o Riacho dos Porcos nascia da casa de
um amigo e aparentado do Sr. Accioly e portanto
que continuasse o seu curso pela rua do Barao do
Rio Branco, a mais bella rua da cidade, tanto que
seu nome primitive foi Formosa, e devia continuar








67

a ser Formosa, porque andar chrismando ruas e
grande tolice.
As ruas nIo se limpavam, estavam na maior im-
mundicie e o Sr. Intendente nao se atrevia a cha-
mar A ordem o arrematante por ser o preposto do
Sr. Antonio Accioly Filho. Este jA o havia insultado
dentro da propria Intendencia, por quest5es de di-
nheiro emprestado, negocio este que pouco abona
a honestidade do Sr. Accioly Filho.
Tivesse ou nao ras.o o arrematante da limpeza
public n.o devia nunca maltratar um velho, doente,
amigo devotado de seu pai, ha mais de quarenta
annos, e sobretudo dentro de uma reparticio pu-
blica, da qual elle era chefe.
Foi um escandalo, que se commentou algumas
horas, e depois foi de todo esquecido.
No Ceara, onde o vicio chegou a ter altares e a
virtude a ser moeda sem valor, seria precise um
escandalo medonho, um facto assombroso, para
arrancar vibraces da alma deste povo anesthesiado
pelo soffrimento.
As ruas nao se limpavam, havia tres mezes,
quando se soube o motive desta falta: o Sr. Ac-
cioly Filho, numa questao de dinheiro entire seus
irm.os e o Banco do Ceara, ficou a dever a estes
quantia superior a vinte contos. Nao podendo le-
vantar capitaes, deu em pagamento a quantia de
quatro contos e quinhentos mil reis por mez que
recebia da Intendencia para fazer a limpeza public,








68

e assim iria amortizando a divida, sem limpar a ci-
dade, para o que nao tinha dinheiro.
Este facto cahiu no domino public e irritou
mais os animos. A irritacgo, entretanto, nao passou
de rhetoric: artigos pela imprensa, e protests pe-
los cafes.
O Sr. Accioly nao lia absolutamente a imprensa
da opposigCo.
Mettido no seu palacio, cercado de sua familiar e
de seus engrossadores, ignorava por complete o
que se dizia delle e de seu governor.
Raras vezes sahia A rua, a carro, o qual era la-
deado por um piquete de cavallaria de lanca em
riste. Assim nao podia ver o lixo amontoado pelas
sargetas de todas as ruas e o Riacho dos Porcos
deslisando de rua Formosa abaixo.
PessOa da intimidade do Sr. Accioly me garantiu
que elle nao lia senAo os jornaes do Rio e cartas
political.
Extranhando isto me relatou este facto: Accioly
ignorou que estava sendo processado por crime
de estellionato pelo Dr. Frota Pess6a ate quando
foi pedida licenca A Assembl6a.
Ninguem Ihe havia dito nada. Quando elle or-
ganisou as commissbes, poz na de justica, seu filho
Bemjamim Accioly. Na Assembl6a substituiram o
nome de Bemjamim, visto a commissAo em que elle
estava ter de dar parecer sobre o pedido de licenca
para processar Accioly.








69

Publicadas as commiss6es no journal Republica e
nao vendo Accioly o nome de seu filho Bemjamim,
chamou seu filho Jose, o leader d'aquella infeliz
Assembl6a, e perguntou-lhe por que razao haviam
alterado a nota dos nomes que elle havia dado
para as commissoes. Jose Accioly, muito contra-
riado, contou-lhe a historic do process.
Acredito que nao lesse o que se dizia delle, e se
o fazia devo declarar que sua alma estava de todo
obcecada pela cegueira do mando.
Nao devia ignorar, pois era negocio de familiar, a
questao de dinheiro entire seu filho Antonio e ir-
maos. As ruas nao se limparem e o dinheiro sahir
dos cofres da Intendencia para as maos do Sr. Jose
Accioly, me pareceu cousa tao fora de proposito
que interroguei a um dos membros da sociedade do
Syndicate das Carnes.
Entao este senhor me esclareceu dizendo que ha-
viam recebido ordem superior para nao pagarem o
aluguel do mercado a quem de direito, o thesoureiro
da Intendencia, mas a um commensal do Sr. Pre-
sidente do Estado. Que aquelle por sua vez daria
ao Sr. Antonio Accioly a quantia de quinhentos mil
reis e o resto, os quatro contos de reis, entregaria
ao Sr. Jose Accioly para amortisar a divida de seu
irmao Antonio.
Este e outros factos exasperavam o povo, que
se nao levantava, porque o Sr. Accioly estava para
deixar o governor e seria possivel, quasi certo que








70

o seu successor nao seria membro de sua familiar
nem amigo incondicional.
0 Sr. Marechal Hermes da Fonseca em sua pla-
taforma havia se manifestado contra as oligarchias
e garantido As opposicbes o terco da representacgo.
No entanto ellas continuavam a viver e a mere-
cer todo apoio do Governo da Uni.o. 0 Sr. Accioly,
por exemplo, obtinha tudo que queria em todos os
ministerios. Quando alguem no Rio pretendia al-
guma cousa para o Ceard o ministry dizia venha
por intermedio do Accioly.
Do Rio os amigos mandavam-lhe dizer que nao
tivesse receios, que elle estava segurissimo. E pa-
recia estar, porquanto tendo de se proceder d elei-
cgo para um senador e deputados, o Sr. Accioly,
desrespeitando a opiniao do Sr. Marechal Hermes,
apresentou chapa corn o nome de nove amigos seus,
deixando um que nas suas actas falsas daria a um
commensal do Sr. President da Republica.
Elle continuava a sua political de transagces.
Entre os candidates a deputagao estava um se-
nhor do sul, que apenas conhecia o Ceard nas car-
tas geographicas, mas que era candidate do Sr. Mi-
nistro do Interior e por este apresentado ao pre-
sidente do Ceard.
Assim como cahir a oligarchia do Sr. Accioly?
O povo ja comecava a descrer de uma era melhor.
O Sr. Pinheiro Machado, corn o seu P. R. C. sus-
tentava as oligarchias porque precisava dellas, ou










antes dos deputados e senadores para os seus ar-
ranjos politicos.
O povo ia descrendo e desesperando. A revolu-
c(o impunha-se como unica solucAo. Mas a revo-
luCgo cor que elements? O governor tinha mil ho-
mens em armas, cangaceiros em sua maioria e bem
armados. Para vencer esta milicia de matadores era
necessario egual numero de fuzis.
Sem armas, sem municqes e sem dinheiro, que
fazer?
Restava o recurso unico o assassinate. Este
recurso, justificavel para uma collectividade, que um
home cruel infelicitava negando todos seus direitos
e liberdades, felizmente nao foi levado a effeito, por-
que o proprio Sr. Accioly fez a revoluqio.
Estavamos em Dezembro de 1911 e o president
do Ceard ainda nao havia dito quem seria seu suc-
cessor. A eleicgo para aquelle cargo devia-se fazer
em 11 de Abril do anno seguinte e os mais intimos
amigos do governor ignoravam quem seria o future
administrator do Estado.
Dezembro j. ia em meio quando do Rio disseram
para o Sr. Accioly que apresentasse candidate A
presidencia immediatamente.
SEsta ordem diziam emanada do Chefe da Naqco,
por intermedio do Dr. Pedro Borges. O Sr. Accioly
ainda reluctou. Achava cedo; e elle sempre havia
jogado no imprevisto e ganho.
Havia estado algumas vezes num beco sem sa-








72

hida e appellava para o tempo e o tempo dava-lhe
liberdade.
Quantas vezes a morte nao collaborou corn elle
em situacqes difficilimas?
O dia de amanha podia s&r-lhe mais propicio.
Diziam-lhe que o Sr. Marechal Hermes da Fonseca
nao estava muito seguro e que de um moment
para outro podia deixar o poder pela renuncia ou
pela deposicAo.
Que press esta de conhecerem o future president
se quatro mezes ainda faltavam para eleicgo.
Disse para o Rio que ainda era cedo, e de 1 Ihe
responderam que apresentasse candidate, senao de
ia seria indicado um nome.
Esta ameaca desarmou o Sr. Accioly.
Tratou entao de mandar representar a farca cha-
mada Convencfo -.
No dia 16 convidava elle pelo seu journal official
o directorio de seu partido em todos os municipios
do Ceara para se fazer representar por si ou por
seus prepostos a convencgo que se tinha de reunir
em Fortaleza no dia 20 de Dezembro.
Este convite era de um cynismo que fazia arrepiar
a qualquer home que nao fosse de todo desbriado.
Maior ainda foi a desfacatez corn que quatro dias
depois publicavam o nome dos representantes dos
municipios de todo Estado a Convencgo, alguns
destes municipios a cem legoas e mais sem serem
servidos pela linha telegraphica.

















































Coronel Jose Freire Bezerril Fontenelle
Engenheiro military








73


Na vespera da reuniao da ConvencSo, em For-
taleza ndo se sabia quem era o candidate A future
presidencia, quando do Rio telegrapharam ao jor-
nal da opposicgo, o Unitario, dizendo que o
Sr. Accioly havia, por intermedio do Sr. Pinheiro
Machado, apresentado a approvacgo do Sr. Pre-
sidente da Republica o nome do Sr. Dezembar-
gador Domingos Carneiro para future governor do
CearA.
Esta noticia surprehendeu a todos, aos proprios
correligionarios politicos do Sr. Accioly. A' noite em
palacio falou-se nisto e o Sr. Accioly nada disse,
nem mesmo ao Dr. Antonio Augusto de Vascon-
cellos, a quem convidou, como orador do partido
e um de seus mais bellos talents, a fazer um
discurso na Convengco mostrando a solidariedade
do governor do Ceard corn o Sr. Marechal Hermes
da Fonseca.
Do Rio Ihe haviam dito ter o Sr. President da
Republica acceitado como seu successor o Sr. Do-
mingos Carneiro e era precise agora render um
grande preito de homenagem, de submissic ao
Sr. Marechal, que assim fechava os olhos A sua
eternisacao no poder.
Reuniu-se a Convencao no dia 20 A uma hora
da tarde na Intendencia Municipal. Os seus mem-
bros foram todos os parents do Sr. Accioly e
alguns de seus mais devotados servidores.
A' hora da eleicao foi apresentada a chapa, que








74

devia ser votada, chapa vinda de palacio e dizem
escripta pelo proprio punho do Sr. Accioly.
Organizou-se a meza com president e secreta-
rio e correu a farca, sendo feita a eleicAo por es-
crutinio secret.
Concluida fez-se a apuracqo, sendo eleitos can-
didatos a president do Estado no future quatrie-
nio o Sr. Dezembargador Jose Domingos Carneiro;
1.0 vice-presidente o Sr. Waldimiro Moreira; 2.0
vice-presidente o Sr. Lourenco Feitoza; 3.0 o
Sr. Padre Cicero RomAo Baptista.
Alem destes teve um voto para president o
Sr. Coronel Jose Freire Bizerril Fontenelle.
Este voto divergente fez escandalo.
A cedula foi immediatamente guardada para ser
examinada e descoberto o autor de tamanho acto
de indisciplina I
Um voto e logo a quem, ao Sr. Bizerril, em cujo
nome o Sr. Accioly nem queria ouvir falar, disseram
no proprio recinto da Convencgo.
Examinada a letra da cedula accordaram ser do
Sr. Dr. Eduardo Borges Mamede, jA um pouco sus-
peito para um dos Srs. Acciolys por causa de uma
conta de honorarios medicos. Foi uma calumnia a
independencia do Sr. Mamede. Quem deu o voto
ao Sr. Bizerril foi um negociante e figure saliente
na political, conforme a mim declarou.
Conhecido o resultado da eleigao a indignacao
foi geral.








75

Disseram do Rio que o Dr. Virgilio Brigido havia
se entendido cor o Sr. Marechal Hermes sobre a
candidatura do Sr. Domingos Carneiro e que aquelle
Ihe havia dito que a havia approvado por que Ihe
disseram ser o candidate um home de grandes
virtudes christas.
Entao o Dr. Brigido disse que era verdade ter o
Sr. Carneiro virtudes christas, mas nao as tinha
civicas; que elle continuaria a political do Sr. Ac-
cioly at6 o moment em que Ihe mandassem re-
nunciar para ser eleito em seu logar o Sr. Jose
Accioly, continuando assim a oligarchia. Lembrou
ao Sr. Marechal o facto da cadeira do Senado guar-
dada pelo Sr. Carneiro emquanto o Sr. Francisco
SA foi ministry.
Estas consideracbes actuaram no espirito do
Chefe da Naco e este autorisou ao Sr. Virgilio
Brigido a declarar que nao approvaria a escolha
do Sr. Domingos Carneiro.
As cousas neste pe o partido da opposiAio co-
mecou a trabalhar por um candidate de concilia-
cAo.
Acceitava o Sr. Bizerril Fontenelle, o Sr. Dr. Fre-
derico Borges ou qualquer outro amigo do Sr. Ac-
cioly; mas que nao fosse um servo incondicional
do actual governor.
Consultado o Sr. Bizerril declarou nao acceitar
em hypothese alguma o governor do Ceara. Pelo
seu lado o Sr. Accioly teimava em nao retirar a








76

candidatura do Sr. Carneiro, a unica que Ihe servia.
Ouvido sobre o Dr. Frederico Borges disse ser este
muito estouvado.
Tinha razao; penso que o Sr. Frederico nao se
sujeitaria a fazer o que o seu irmAo fez. Trium-
phando a chapa da Convencgo, estava o Ceard
fatalmente de todo perdido.
O Sr. Domingos Carneiro era um bom velho;
mas muito fraco. O Sr. Accioly abusava da fra-
queza e da senilidade de seu leal amigo, exigindo
delle actos que nao estavam de accord corn a sa
moral.
O seu governor, embora ephemero, seria somente
para legalisar os peculatos do Sr. Accioly, e depois
renunciar em favor do Sr. Jos6 Accioly.
O Sr. Waldimiro Moreira assumiria o governor
na qualidade de 1.0 vice-presidente; mas o Sr. Wal-
dimiro Moreira foi aquelle Secretario da Fazenda
que pagou as pontes aos Srs. Boris Freres e de-
pois foi aposentado, sem ser empregado public,
como secretario do Estado, que 6 funccionario em
commissAo sem direito A aposentadoria,
Quem estava assim ligado ao Sr. Accioly e rece-
bendo por vontade deste contra a lei ura pensao
vitalicia de quinhentos mil reis mensaes, e mais
uma cadeira na Camara dos Deputados, nao iria
arriscar-se a perder tudo isto oppondo-se A vontade
do Sr. Accioly.
O 2.0 vice-presidente era o Sr. Lourenco Feitoza,








77

morador no interior do Estado. Era um home in-
telligente, veteran da Guerra do Paraguay, per-
tencendo a uma das mais ricas e antigas families
do sertdo.
Dos trez vice-presidentes, era Feitoza o unico
que podia ter um pouquinho de autonomia, nao
sendo instrument cego como Tiburcio de Paula e
Belisario Cicero.
O 3.0 vice-presidente era o Padre Cicero Romio
Baptista, abastado agricultor, resident em Joazeiro,
e o home mais conhecido no Ceard e serties de
Alagoas, Bahia, Parahyba, Pernambuco, Rio Grande
do Norte. Padre Cicero ordenou-se no Seminario
de Fortaleza. Era reitor nesse tempo o Padre Pe-
dro Chevalier, home de muito saber, de raras
virtudes, e grande psychology.
Tendo concluido o curso, oppoz-se o Padre Che-
valier a ordenaqao do diacono Cicero ponderando
que aquelle moco era um enfermo. Na verdade pa-
recia s&r. Passava horas em estado contemplative,
esquecido de si mesmo, sem nocio do meio e do
tempo. Era excessivamente piedoso e cumpridor de
seus deveres.
Padre Chevalier levou ao conhecimento do Sr.
Bispo D. Luiz Antonio dos Santos o seu modo
de pensar sobre o future padre; mas D. Luiz, corn
aquella bondade que o caracterisava, disse ao
Reitor que isto nao era motive para deixar de or-
denar o diacono Cicero, que nao havia um s6 facto








78

que fosse contrario A sua ordenacgo e assim era
de opiniao que se Ihe dessem as ultimas ordens.
E Cicero Romao Baptista foi ordenado.
Os seus primeiros annos de clerigo foram edifi-
cantes de amor e de caridade. Ninguem amou mais
os pobres. Cor elles repartia as pequenas espor-
tulas, que Ihe davam, pois elle era pauperrimo.
Assim ia vivendo muito pobre, mas muito amado
de todos que o conheciam. Era um santo. A sua
fama corria de sertdo a fora e caravanas de romei-
ros comecaram a affluir de todos os pontos ao Joa-
zeiro para beijarem as maos do padre santo. Todos
sabendo que elle era muito pobre, Ihe traziam offe-
rendas. Assim ia vivendo quando um facto estu-
pendo deu-se em sua igreja: a hostia consagrada
transformou-se em sangue na bocca da beata Ma-
ria de Araujo. Este embuste, o espirito doente do
Padre Cicero o acceitou como uma verdade. A nova
espalhou-se e milhares de pessoas affluiam ao Joa-
zeiro para na primeira sexta-feira de cada mez
assistirem o milagre que se reproduzia na occasiao
da missa quando a beata commungava. Padre Ci-
cero, impressionado e crente no milagre, levou o
facto ao conhecimento do Sr. Bispo D. Joaquim
Jose Vieira, acompanhado de documents de pes-
s6as gradas, cultas, medicos ate.
Maria de Araujo a todos havia illudido como um
prestidigitador em suas magicas. Reunido um con-
cilio no palacio episcopal e discutido o facto, foi








79

este considerado um embuste, salientando-se na
discussion o Padre Pedro Chevalier, que via os seus
prognosticos realisados quanto A enfermidade psy-
chica do Padre Cicero.
Negado o milagre pelo poder competent, o Pa-
dre Cicero nao se conformou corn a decisao e a
farca continuou.
O Sr. Bispo impoz-lhe penas e o Padre em vez
de submeter-se, de acceitar o castigo imposto pelo
seu superior, desobedeceu e embarcou para Roma
afim de levar o facto a apreciacgo da Santa Se.
Esta viagem a terra dos papas, foi o escolho
onde naufragou a sua f6.
A Santa S6 approvou a decisao do Bispo do
Ceard, prohibindo Padre Cicero de exercer as suas
ordens no Joazeiro e de ahi residir.
O Padre, a cuja nevrose Roma havia dado mo-
dalidade diverse, voltou transformado.
Havia cuidado n'alma ate entio, uma cousa pro-
blematica e esquecido por complete o corpo e os
bens temporaes. A cOrte do papa cor os seus es-
plendores, a sua magnificencia convenceu-o de que
ser rico nao impedia de ir ao ceo e tanto que o
chefe da igreja o era.
Voltando ao Joazeiro, foi recebido por aquella
populagio de fanaticos, como se elle fosse um
Deus.
A sua ausencia Ihe havia dado mais popularidade,
se e que um home podia ser mais popular.








80

Milhares de romeiros chegavam todos os dias de
todos os pontos, a lhe darem as b6as vindas e
presents.
As suas mAos ate entao abertas aos necessita-
dos, fecharam-se. 0 dinheiro que Ihe traziam, en-
trava, mas nao sahia.
Tornou-se avaro. Comprou terras e fez-se agri-
cultor. Centenas de homes trabalhavam em suas
lavras. Extensos manicobaes cobriam hectares, e
hectares de terreno, mas nada Ihe fartava a cubica.
Estava rico, por6m desejava mandar a political
de todo Cariri e filiou-se no partido do Sr. Accioly.
Elle podia imp6r. Em um moment levantaria
um exercito de fanaticos de alguns mil homes e
teriamos um novo Canudos. O Sr. Accioly conhe-
cendo isto o acceitou de bracos abertos, e fel-o
candidate a 3.0 vice-presidente do Estado.
O Padre Cicero n.o consta que directamente fi-
zesse mal a pess6a alguma; mas indirecta e in-
conscientemente tornara-se um element prejudi-
cial a collectividade. A populaCgo que se deslocava,
que deixava os seus afazeres e emigrava para Joa-
zeiro, cor prejuizo de muitas vidas de creancas,
muitas por nao supportarem travessias de dezenas
de leguas, basta para condemnar o seu proceder.
Os bens da fortune o fizeram autoritario. Ja
nao era aquelle sacerdote manso e humilde de co-
racqo.
Uma feita um perseguido do governor da Parahy-











































Coronel Thomaz Cavalcanti de Albuquerque







81

ba, o Dr. Santa Cruz, velo ter ao Joazeiro e poz-
se sob sua protecao. Contou-lhe a sua historic, que
o padre acreditou e Ihe deu razao. Sem mais refle-
ctir telegraphou ao president da Parahyba acon-
selhando-o, em tom de ameaca, de indemnisar ao
Dr. Santa Cruz os prejuizos que Ihe havia dado a
forca public, e arbitrando a indemnisacgo em cen-
tenas de contos.
Este telegramma o destinatario o enviou ao Sr.
President da Republica, que mandou dar publici-
dade pelo Diario Official.
Cor estes candidates, o future governor do Ceara
seria o mesmo ou peior do que o do Sr. Accioly.
Peior porque este president continuaria a go-
vernar sem ser sob sua responsabilidade.
O povo que jA estava exasperado cor a publi-
cacgo da chapa, ficou furioso quando dias depois,
o Sr. Domingues Carneiro velo pela imprensa agra-
decer ao partido a confianca corn que o distingui-
ra, e dizer que continuaria a political de seu vene-
rando amigo Dr. Antonio Pinto Nogueira Accioly.
Isto ja era sabido; mas o povo achava que dizer
em public era um acinte, um menospreso A sua
soberania.
Comecou entao o movimento, inteiramente po-
pular, contra as candidaturas lancadas pela Con-
venco.
A praca do Ferreira era o ponto escolhido para
as reunites. Discutia-se o assumpto e todos eram
6








82

de opiniAo que o povo devia apresentar o seu can-
didato e sustental-o pelas armas. Notava-se nestas
reunites que os espiritos estavam levantados. Fa-
lavam sem rebuco, sem receio, sem medo da forca
public, que os ouvia de perto.
Dias antes ja havia circulado um boletim protes-
tando contra as violencias do Sr. Accioly, mandando
que nao fossem organisadas mezas eleitoraes no
interior onde elle nao tivesse maioria. 0 boletim
era em uma linguagem violent e agressiva. A este
boletim seguiu-se outro convidando o povo para
um meeting no dia 21 de Dezembro no Passeio Pu-
blico as 5 horas da tarde. A's 4 horas jA era difficil
o transit n'aquella Praga. Cerca de cinco mil pes-
sOas enchiam o Passeio e suas adjacencias.
A' hora marcada assumiu a tribune o tenente do
exercito Augusto Correia Lima, home valente,
patriota, intelligence, cor todas as qualidades de
um perfeito agitador.
Dizendo estar nelle encarnada a alma do povo
cearense, vinha protestar contra a escolha que o
oligarcha havia feito de seu successor.
Fez o historic do governor do Sr. Accioly cor
todos os seus erros e crimes. Concluiu dizendo que
o povo cearense aclamava como future president
o Coronel Marcos Franco Rabello.
Em seguida falou o Sr. Antonio Bezerra, home
de lettras, o grande libertador nos tempos aureos
da abolicAo da escravatura no CearA.








83


O que poderia dizer Antonio Bezerra, este espi-
rito democratic, do governor dictatorial do Sr.
Accioly ?
Cauterisou cor o ferro em brasa de sua palavra
energica e repassada de civismo a ulcera cancerosa
que ha vinte annos roia as entranhas desta des-
gracada gente,
Falou ainda o Sr. pharmaceutico R. de Andrade,
home culto, de grande talent e notavel publicis-
ta. A sua palavra ardente fez vibrar a alma da-
quella multidao.
Falou tambem o Tenente Bizerril.
Concluiu-se o meeting na melhor ordem, sendo
muito acclamados os Srs. Marechal Hermes, Menna
Barreto, Dantas Barreto, Franco Rabello e outros.
Dias antes do meeting, a noite nos cinemas, o
Sr. Jose Brazil e Jos6 Barbosa, haviam distribuido
grande quantidade de avulsos cor estas palavras
-Ecce homo-e apresentavam Franco Rabello
como candidate A presidencia do Ceara.
Estava lancada a semente da revolucAo.
O Sr. Accioly consentiu, bem contra a gosto,
esta manifestacAo hostile ao seu governor. Elle, o
senhor absolute desta terra, cor mil homes em
armas, deixar autopsial-o moralmente, na praca
public, sem ao menos fazer um susto a essa gente,
que elle acreditava correr corn alguns tiros de pol-
vora secca!...
Supportou o meeting porque o escolhido pelo








84


povo para falar por elle, para interpreter os seus
sentiments, era um official do exercito, de calgas
vermelhas, e a reuniao era feita ao lado do quartel
onde estavam recolhidos 150 soldados de calcas
vermelhas tambem e o commandant delles era um
military distinct, cumpridor de seus deveres.
Assim tolerava aquelle insulto, por6m jurava que
Correa Lima outro meeting nao faria e telegraphou
para o Rio exigindo o embarque daquelle official,
immediatamente, no vapor que passava no dia se-
guinte, por consideral-o um element perturbador
da ordem public. O Sr. Accioly valia ainda tudo,
e o seu pedido foi satisfeito.
Correa Lima effectivamente embarcou no dia se-
guinte, desterrado para Matto Grosso, diziam os
Acciolys, acompanhado por mais de seis mil pes-
sbas que o acclamavam em delirio.
Vi o desfilar do prestito, que acompanhou Cor-
rea Lima ao ponto do embarque, e o delirio da-
quella multid.o convenceu-me de que o povo estava
disposto a lutar.
Cor a retirada daquelle military o Sr. Accioly
suppoz suffocado o movimento.
Enganou-se, a evolucAo nao para. A onda que
tinha de tragal-o se avolumava, e cada vez mais se
aproximava delle. O povo ainda nao tinha firmado
de todo a sua escolha. Queria um cearense que
fosse honest, que nao delapidasse os dinheiros
publicos.








85

A esse tempo chegou do Rio o Dr. Thompson
Motta e vendo o movimento reaccionario disse que
em conversa com o General Dantas Barreto, seu
companheiro de viagem, este Ihe havia dito que o
Ceara tinha urn filho muito digno, muito distinct,
que seria um governor excelente, o Coronel Mar-
cos Franco Rabello.
Esta nova espalhou-se e o povo firmou imme-
diatamente a candidatura lembrada.
A' noite nos cinemas e nos cafes ella foi dis-
cutida.
A mocidade nao conhecia o Coronel Franco Ra-
bello.
Elle estava ausente do Ceard havia muitos an-
nos. Tinha sahido de sua terra bem amargurado,
corn a deposicgo de seu sogro, o general Jose Cla-
rindo, feita por ordem do Marechal Floriano Pei-
xoto.
Este acto do governor da Unigo, para o qual nunca
achei justificaco, foi consumado pela Escola Mili-
tar, sob a direcao do Major Manoel Bizerra.
JA fazem muitos annos e ainda nao me foi pos-
sivel saber a razao por que o general Clarindo dei-
xou-se depor tendo a seu favor um batalhao do
exercito, que o apoiava, mas que havia ido para a
visinha cidade de Maranguape estacionar conforme
ordem superior.
A razao do batalhao estar fora nada queria dizer,
porquanto Maranguape fica a vinte e poucos kilo-








86

metros de Fortaleza e viria em socorro do presi-
dente do Estado logo que fosse chamado.
O general Clarindo, se quizesse resistir, o teria
feito sem auxilio mesmo daquella forca do exer-
cito.
Cor o pequeno contingent de policia, que lhe
havia ficado fiel e com populares, tomaria de as-
salto as peas que bombardeavam o palacio e de-
bandaria os cadetes. Estes, embora alguns fossem
valentes, intrepidos mesmo, muitos eram nervosos,
como o cadete Jose Pompeu Pinto Accioly, que
nao tinha nervous para guerra, nao supportava o
cheiro da polvora. Tanto que logo no comeqo do
bombardeio teve um tremelique e foi levado para
sua residencia.
Seu pai o Dr. Nogueira Accioly, tambem soffria
do mesmo mal, tanto que sahindo naquella terrivel
noite, como pescador de aguas turvas, logo que
come;aram os tiros refugiou-se na primeira casa
aberta, que encontrou.
O general Clarindo, abandonado por quasi todos
os seus officials e soldados, rendeu-se e assumiu
o poder o Sr. Bizerril Fontenelle, indirectamente o
Sr. Nogueira Accioly, que se erguia das ruinas de
Clarindo, como mais tarde deveria se erguer de
suas ruinas Clarindo na pessoa de seu genro Mar-
cos Rabello.
E o destiny tem destes caprichos, destas iro-
nias.








87


Franco Rabello nio era portanto uma figure em
destaque na political do Ceara e no nosso meio.
Era um military culto, bom professor, vivendo para
sua familiar, para os seus livros, e de uma hones-
tidade, de uma pureza de costumes fora do corn-
mum.
Se sabia a arte de governor, de todas a mais
difficil, ninguem podia affirmar ou negar, nunca ti-
nha sido governor.
O povo do Ceard, naufrago num mar de angus-
tias, acceitou o seu nome como a primeira taboa
de salvacgo que Ihe fosse atirada. Que importava
que elle nao tivesse ate o moment services a sua
terra, se agora poderia prestal-os e relevantissi-
mos, se elle era um home intelligence, honest e
culto?
A sua candidatura tornou-se em breve a legitima
aspiracao do povo. Era um delirio, uma doenca.
Adoptaram logo uma divisa as cores nacionaes.
Fundaram-se em Fortaleza diversas associacges
de homes, de senhoras e de creancas.
Todas as noites na Praca do Ferreira, o logra-
douro public mais frequentado, reunia-se uma
parte da popula ao da cidade.
Discutiam entao sobre a political do Ceara e seu
future governor. Os vivas ao Coronel Franco Ra-
bello eram incessantes e 1 uma vez um morra ao
Accioly.
O embarque de Correa Lima nada arrefeceu o









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movimento em favor da candidatura de Franco Ra-
bello.
Em uma dessas noites de reunigo na Praca do
Ferreira, passou o Coronel Raymundo Borges, com-
mandante do Batalhao de Seguranca e genro do
Sr. Nogueira Accioly.
la em automovel e o povo deu-lhe uns assobios.
Na seguinte noite passou pela mesa prapa o
Sr. Josd Accioly, Secretario do Interior e o povo
vaiou-o.
Offendidos no seu amor proprio, elles as figures
mais importantes da political de seu pal e sogro,
juraram ensinar o povo a respeitar as autoridades,
a render homenagens ao poder public.
Assim devia s&r se este poder public fosse o
fiel executor da lei, nao exorbitasse de suas attri-
buicSes, nao se constituisse o maior algoz do povo,
esbanjando as rendas do Estado e vivendo de
peculatos.
O povo, como soberano que 6, havia Ihe reti-
rado a sua confianca, havia Ihe retirado o mandate.
A revolucio estava iniciada uma vez que o po-
der public era vaiado publicamente.






































Padre Cicero Romiio Baptista


t~'.~
















A Praca do Ferreira continuava a ser o ponto das
reunites populares.
Logo que o commercio se fechava, ao escurecer,
comecavam a se reunir nos cafes daquella praca os
habitantes de Fortaleza que procuravam divers6es.
Reunidos, a palestra versava fatalmente sobre o
assumpto predilecto o successor do Sr. Accioly.
De simples conversa passavam a discussion e desta
ao falamento. O orador subia a um banco e falava
as massas enaltecendo as qualidades de Franco
Rabello e fazendo allus6es bem ferinas ao governor.
No dia 29 de Dezembro elles notaram que alem
da patrulha da Guarda Civica, havia um piquete de
cavallaria postado em uma das faces da Praca.
Aquella ostentacgo de forca em nada os atemorisou.
Era contudo um caso extranho. O policiamento
da cidade era feito pela Guarda Civica, e que vi-
nha fazer aquella forca do Batalhao de Seguranga
ali ? Nao Ihe deram importancia e continuaram a fa-
zer discursos. Estas manifestac6es eram de ordina-