Geographia do Ceará /

MISSING IMAGE

Material Information

Title:
Geographia do Ceará /
Physical Description:
348, ii p. : ; 22 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Studart, Guilherme, 1856-1938
Publisher:
Typ. Minerva
Place of Publication:
Ceará
Publication Date:

Subjects

Subjects / Keywords:
Ceará (Brazil : State)   ( lcsh )
Genre:
non-fiction   ( marcgt )

Notes

Statement of Responsibility:
pelo Barão de Studart.

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 05517399
Classification:
lcc - F2556 .S92
System ID:
AA00000248:00001

Full Text




LATIM AMERICAN COLiPPTinM
Giftof RaJph Delia Cava
Ueograpbia do Cear
PELO
Baro U Studart
HISTORIO O
Reconhecida pela Coroa Portuguesa a necessidade de garantir-se na posse das terras Americanas no s pelas vantagens e lucros, que dellas lhe poderiam advir, como pelo receio da influencia extrangeira crescente dia a dia, foi resolvida a partilha do Brasil em pores, de tamanho varivel, concedidas a vassallos de servios ou de que se podesse esperar o avano da cultura do paiz e de sua colonisao.
Uma dessas Capitanias, que assim se chamavam as terras doadas, a que ia da Angra dos Negros na altura de dous graus, extrema septentrional da Capitania pertencente a Joo de Barros e Ayres da Cunha, at o Rio da Cruz, que est na altura de dois graus e um tero, coube a Antnio Cardoso de Barros, caval-Ieiro fidalgo. Era a menor de todas as doaes e nem delfa faz menso andavo na sua Historia da Fro-
Estc trabalho, obra de poucos dias, foi escripto a pedido da Sociedade de Ueoyraphia do Rio de Janeiro para figurar no Livro a ser editado por ella em eonimenioraco do (."Centenrio da Independncia do Brasil. Sae agora reproduzido com ampliao e emendado.


4
vincia Santa Cruz, que de 1576, coino tambm no a menciona Frei Vicente do Salvador na sua Historia, concluda em 1627. Da obra de Frei Vicente em 1918 veio a lume nova edio, enriquecida de preciosas annotaes por Capistrano de Abreu.
Do Rio da Cruz, que o actual Camocim, ao Cabo de todos os Santos, a leste do Rio Maranho, iam as 75 legoas concedidas a Fernando Alvares de Andrade. Donde se conclue que o actual Cear occupa terras de tres Capitanias.
Habilitaram Antnio Cardoso obteno da merc servios prestados no Reino e em Airica.
Era Antnio Cardoso irmo de Francisco de Barros, escudeiro fidalgo, que foi a ndia em 1535, e filho de Joo de Barros e casou com Guiomar Dias Botafogo, filha de Andr Dias Botafogo. Outros dizem que casara em Tanger com Francisca de Aguiar, filha de Affonso Mendes Aguiar, de quem houve Joo de Barros Cardoso, Maria de Barros, que foi mulher de D. Jorge de Mello, e Christovam de Barros, cuja vida se prende de perto historia da Bahia e Rio de Janeiro. Duvida-se da filiao legitima de Christovam de Barros em vista de um Doe. existente na Bibl. Nac. do Rio de Janeiro, apesar da affirmao de Avellar Portocarrero no seu Livro das famlias nobres, anno de 1719.
Tem a data de 19 de Novembro de 1535 (L. 21 das Doaes de D. Joo III fl. 187 v.) a Carta da sua Doao. Foi escripta em vora e, que eu saiba, ainda no teve publicidade. O mesmo j no acontece com o Foral, de 20 de Nov." do mesmo anno e tambm de vora (L." 22 de D. Joo III fl. 108), porquanto j est conhecido, podendo ser consultado pag. 11 do 2." vol. dos meus Documentos para a Historia do Brasil, e na Revista do Instituto, vol. 23.
A doao de Cardoso de Barros no foi aproveitada, quero dizer, esse donatrio dc uma boa poro do actual Cear no assignalou por si ou por propostos a posse delia com algum estabelecimento. No obs-


5
tante diz Varnhagen pag. 201 de sua Historia ed. 3.a, que segundo certos indcios de runas de pedra e cal encontradas depois em Tutoia ahi pretendeu Cardoso de Barros estabelecer uma colnia, que se viu obrigado a desamparar e mais adiante, pag. 270, nenhuma noticia escripta nos ficou do que Cardoso de Barros chegaria a emprehender para colonisar e aproveitar a capitania que requerer, temos, porem, por mais que provvel, segundo dissemos, que resultado de seus esforos seriam as ruinas de pedra e cal que logo entrada do porto de Camocim se viam ainda em 1614. O segundo dissemos de Varnhagen significa que ao escrever.Tutoya pag. 201 queria dizer Camocim. E' inacceitavel, porem, a hypothese aventada, quando elle o prprio a confessar a falta absoluta de noticia escripta quanto ao estabelecimento da colnia e construces das quaes ainda havia ruinas em 1614. O nico dos velhos escriptores a se referir a ruinas de pedra e cal na entrada de Camocim Diogo de Campos Moreno na Jornada do Maranho, mas no as attribuiu a Antnio Cardoso, limitando-se a dizer como que em algum tempo houvesse sido povoada de gente de Europa.
Penso, e dessa crena no me affastarei emquanto ao surgir documento que a invalide, que o donatrio e os de sua famlia jamais vieram ao Cear. J no se poder dizer o mesmo de Joo de Barros, a cuja capitania vieram duas expedies, em 1534 e 1554, a ultima dellas sendo dirigida pelos filhos.
A 30 de Janeiro de 1537 foi-lhe conferido por 3 annos o cargo de tanadar-mor da ilha de Baaim, que entraria a exercer logo que se desse a vaga de Lopo de Almeida (L." 24 de D.Joo III fls. 28 v.), mas por motivo, que ignoro, tambm no saiu a assumir o dito cargo.
Mallogrado o aproveitamento da Capitania doada e no havendo elle se empossado da tanadaria-mr de Baaim, El Rei enviou-o ao Brasil despachado como Pro-vedor-mor da Fazenda da Bahia com o ordenado de


6
2001 (L.J 55 de D. Joo III fls. 119 v) e a merc de em caso de fallecimento serem aproveitados seus servios a bem de um de seus filhos ou genros (21 de Janeiro de 1549; L." 70 fls 109 e 109 v). Mais tarde por despacho de 25 de Setembro de 1577 obteve seu filho, Cristovam de Barros, o mesmo cargo de Provedor-mor da Fazenda (L.u 38 de D. Sebastio fls. 155 v).
O Regimento dado a Antnio Cardoso como Provedor-mor da Fazenda, passado em Almeirim a 17 de Dezembro de 1548, cujo original guarda a Bibliotheca Publica de vora, est publicado na Rev. do Ins. Hist. e Qeog. Brasileiro, pag. 172, vol. 18.
A 21 de Junho do dito anno (1549) passou o provedor-mor o traslado de um foral de sua capitania que tem nestas partes, porque manda a Rodrigo de Argolo Provedor nesta Capitania da Cidade de S. Salvador para por em arrecadao todos os direitos e pensoens que pertenam ao Capito para El Rey Nosso Senhor, e bem assim tudo o que pertence ao dito senhor por bem de dito Foral e que se registrassem no Livro do Registro dos Foraes de Alfndega, assim se l no L.8 l. de Provises Reaes da Bahia a fls. 380 v.
Esse documento, publicado por Capistrano dc Abreu, o egrgio Mestre, numa de suas annotaes Historia de Varnhagen, faz-me suspeitar que Antnio Cardoso em 1549 alienou os seus direitos a bem da coroa, lh'os transferiu, e que a doao reverteu a governo por desistncia do donatrio, venda ou outro qualquer motivo, inferindo eu isso da phrase para por em arrecadao para El-Rey Nosso Senhor todolos direitos e .pensoens que pertenam ao Capito (isto , o dono da Capitania, Antnio Cardoso).
Para no corroborar minha suspeita ha o silencio da tradio oral e escripta a respeito, mas tambm nenhum documento attesta que herdeiros de A. Cardoso gosassem da doao, pleiteassem por acaso sua posse, effectivassein-na; quasi todos os chronistas quando se referem s terras, que caram dentro dos limites da doao, falam como se nunca houveram sido doadas.


7
Antnio Cardoso no teria sido o nico a assim fazer; por aquelles tempos mesmo e de terras situadas no Norte houve desistncias por parte dos Donatrios Obteve (Luiz de Mello da Silva) a graa dey.as (terras) como titulo de Capitania, que j se achava vaga por desistir da sua Povoao o seu primeiro Donatrio Joo de Barros depois do naufrgio de Aires da Cunha, diz Berredo nos seus Annaes Histricos.
Vinha assim Antnio Cardoso collaborar com Thom de Souza escolhido governador geral do Brasil com residncia na Bahia para d'ahi se dar favor e ajuda s outras povoaes e se ministrar justia e prover nas cousas que cumprem a meu servio, e aos negcios da minha fazenda e ao bem das partes, como reza a C. R de 7 de janeiro de 1549. Eram seus companheiros na administrao, com o posto de Capito-mor da costa Pero de Ooes,. a quem tambm no sorrira a fortuna na donatria de Campos, e no governo e di-reco das almas um grupo de jesutas sob a chefia do celebre P.e Manoel da Nobrega.
A' partida da frota, pOi signal que demorada, o que movia receios de futuros contratempos, se refere Fernando Alvares de Andrade em carta de 24 de Janeiro de 1549 a El-Rei.
Chegada a armada a Bahia a 28 de Maro e desembarcado da nau Salvador, fez elle os estabelecimentos e tomou as disposies e as medidas, que seu cargo requeria. Seguindo em Junho para Pernambuco, onde entrou em attrictos com Duarte Coelho e Jeronimo de Albuquerque, esteve occupado com assumptos de minas de ouro.
Terminados os tres annos de governo com o ac-crescimo de mais um anno e meio com que o rei o brindou, a contra gosto, certo, do beneficiado, Thom de Souza deixou o Brasil entregando a administrao a D. Duarte da Costa, nomeado em Maro de 1553. Falleceu 26 annos depois (28 de Janeiro de 1579), deixando do seu casamento com D.;L Catharina da Costa, filha do Senhor de Panas, uma filha de


8
nome Helena, que casou com Diogo Lopes de Lima, Senhor de Castro Daire, e falleceu sem descendncia.
O governo de Duarte da Costa foi perturbado por graves desavenas e luctas com as principaes auc-toridades, entre as quaes o 1." bispo D. Pero Fernandes, sexagenrio, de costumes austeros, censor.dos vcios e moral derrancada de grande numero de moradores, o filho do governador inclusive. Ao lado dos op-posicionistas formou tambm Antnio Cardoso, cujos ordenados elle suspendera e a quem substitura na pro-vedoria pelo Dr. Pedro Borges, o Ouvidor de ento (15 de Nov. de 1554).
Canado e profundamente ferido por successivos actos de desrespeito e opposio, Pero Fernandes abandonou a Bahia embarcando-se para Portugal na nau N.a S.a da Ajuda. Iam em sua companhia o Provedor-mor, vrios sacerdotes, muitos dos principaes moradores e delegados da Cmara, munidos d documentos para representar contra o governador.
Sorte miserrima, porem, aguardava os viajantes, o navio naufragou nos baixos chamados de Dom Rodrigo quasi foz do rio Coruripe e um pouco mais alem foram os nufragos trucidados e devorados pelos selvagens Caets (16 de Junho de 1556), como se l em Gabriel Soares, P. l.a Cap. 18 e Frei Vicente do Salvador, Liv. 3. Cap. 3.
Si Antnio Cardoso no emprehendeu a colonisa-o das terras doadas, tambm no o fizeram os outros quinhoados com terras hoje cearenses. O esquecimento da metrpole ficou a envolver esta parte da colnia at o anno de 1603.
Reunidos a 21 de Janeiro desse anno nas pousadas de Diogo Botelho, ento Governador Geral do Brasil, a convite seu, Manoel Mascarenhas Homem, capito-mr da Capitania de Pernambuco, Feciano Coelho de Carvalho, ex capito-mr da de Parahyba, o Des.or Gaspar de Figueiredo, o sargento-mr do Estado Diogo de Campos Moreno e o capito Joo Barboza, pro-poz-lhes o governador que se fizesse uma jornada ao


9
Maranho e que por terra se mandasse encarregado d'ella Pero Coelho de Souza, homem nobre e fidalgo, casado, soldado velho que se achara em muitas /ornadas extranjeiras, que para isso se tinha offerecido sem despeza alguma do governo. Com a proposta concordaram as pessoas presentes com excepo de Manoel Mascarenhas. Pero Coelho era natural dos Aores e morador na Parahyba.
Obtida a patente de capito-mr, e munido do respectivo regimento, com a data de 21 de Janeiro, em que positivamente se o encarregava de descobrir por terra o porto de Jaguaribe, tolher o commercio dos extrangeiros, descobrir minas e offerecer pazes ao gen-tio, mandou Pero Coelho trs barcos com mantimentos, plvora e munies para o rio Jaguaribe, e partiu-se da Parahyba por terra com sessenta e cinco soldados, entre os quaes como lingua-mr Manoel de Miranda, Martim Soares Moreno, ento com cerca de 17 annos, Simo Nunes Corra, Joo Cide, Joo Vaz Tataperica e o lingua Cangatan.
Acompanharam-no tambm duzentos ndios fre-cheiros, cujos principaes eram Mandiocapuba, Batatan, Caragatin e Caraquinguira.
Com a gente de mar ia o francs Tuimirim, muito conhecedor da costa e tambm bom lingua.
Caminhando por jornadas, chegaram os expedicionrios ao rio Jaguaribe j ahi encontrando os barcos de mantimentos, e proseguiram em direco a Camocim. Nestes trabalhos e fadigas foi gasto o segundo semestre de 1603.
A 19 de Janeiro de 1604 Pero Coelho partiu para a serra de Ibiapaba, sendo preciso sustentar lucta com os indios do Diabo Grande e Mel Redondo, aos quaes auxiliavam franceses de que era chefe Mambille, e mulatos e creoulos da Bahia. Destroados os indios, celebradas as pazes, ao intentar Pero Coelho a marcha para o Maranho revoltaram-se os soldados, o que r> forou a retirar-se ao Cear, onde deixou Simo Nu-


10
nes com quarenta e cinco soldados, e regressou Parahyba a buscar a famlia.
Nova Luzitania chamou elle a terra de que se apossara e Nova Lisboa a povoao, que fundou, lista demorava margem direita do rio Cear.
O nome lhe foi dado do de outro Cear no Rio Qrande do Norte, donde tinham vindo os Potyguaras, companheiros de Pero Coelho.
Em 105 Pero Coelho regressou com a mulher, D.a Thomazia, e os filhos povoao do Cear e por no haverem chegado os soecorros promettidos pelo Governador Geral, mas desencaminhados por Joo S.oro-inenho, retirou-se para o rio Jaguaribe. De seu lado desanimados de todo, Simo Nunes e seus soldados fugiram para o Rio Grande abandonando o capito-mr.
Este tenta, ento, volver casa. A travessia da caravana de que faziam parte os cinco filhos do capito-mr, dos quaes o primognito com dezoito annos, todos a morrerem de fome e de sede, um verdadeiro poema de dores. Depois de perderem vrios companheiros, entre os quaes o filho mais velho do capito-mr, chegaram os expedicionrios esquelticos, loucos de fome, sendo acolhidos pelo vigrio do Rio Grande. Eis a Secca a fustigar o Cear desde seus primordios.
Do Rio Grande seguiu Pero Coelho para a Parahyba e de l para Madrid e Lisboa, onde morreu depois de passar longos annos a requerer, inutilmente, a paga dos seus servios.
Dois annos depois os Jesutas Francisco Pinto e Luiz Figueira, de ordem do Provincial Ferno Cardim, embarcaram-se no Recife para a catechese dos indios do Cear e do Maranho, em um barco, que ia carregar no Jaguaribe. Foi isso a 20 de Janeiro de 1607, dia de S. Sebastio.
Acompanharam-n'os cerca de sessenta indios, potyguaras, tabajaras e tupinambs.
Antes d'essa misso o padre Francisco Pinto esti-vera j por duas vezes entre os indios do Jaguaribe, sendo que numa d'ellas completara com elles as pazes


11
propostas em 1597 por Manoel Masearenjias e os padres Diogo Nunes e Gaspar de Sain Peres.
Ardendo em zelo pela converso dos indios da Ibia-paba, realizada a qual teriam de proseguir para o Maranho, ali se detiveram at 17 de Outubro quando deixaram a serra. A doze lguas da aldeia do Diabo Grande estacaram por condescender com a vontade dos indios de Mandiar, que queriam descanar e desfazer uma roa de milho. D'ahi a poucas lguas dominavam os Tocarijs, indios de m fama, aos quaes j por duas vezes tinham sido mandados recados e presentes, mas sem resultado.
Ainda uma tentativa- foi experimentada e partiu para elles terceiro recado. Os Tocarijs receberam os presentes, mataram os emissrios, queimando-os ainda vivos, como era de seu brbaro costume, excepto um rapaz, que pouparam para lhes servir de guia do caminho at as pousadas dos padres.
A demora dos emissrios, a desconfiana de seus assassinios traziam a todos em sobresalto. Logo as suspeitas se transformaram em crudelissima certeza ao ouvirem de um escravo fugitivo que se combinavam por propostas dos Tocarijs todas as tabas dos tapuyas e que em breve tempo accommetteriam os christos.
A ida de seguirem para o Maranho foi ento de todo abandonada e trataram de se encaminhar para a costa afim de poupar a tantas victimas destinadas ao sacrifcio, e da extrema resoluo tomada mandaram avisos ao Provincial e ao Governador.
Era tarde. Mal sahia o ndio com as cartas em di-recq ao mar e os selvagens a irromperem e a ac-commetterem de todos os lados. Era pela manh do dia 11 de Janeiro de 1608.
O P.c Pinto, todo brandura e caridade, sahiu a contei-os e a apaziguar-lhes a sanha. E os indios christos a implorar que poupassem o Padre que era um santo. Nada detinha o mpeto dos brbaros. Choviam as flexas. Na lucta cahiram prostrados dois dos de-


12
fensores do P.e, e este logo aps com o craiieo despedaado por golpes redobrados. Um tomou-o por um brao, outro pelo outro brao e, assim em forma de cruz, terceiro lhe esmigalhou a cabea. Tal era a fria carniceira que se lhe quebraram as maxillas e os olhos saltaram-lhe das orbitas. Grandes ladres que eram, despiram-lhe a roupeta e conduziram-na cottisigo.
Como coincidncia deixo consignado que tres mezes antes um cometa de larga cauda apparecera sobre a Ibiapaba durando por dias, phenomeno que atemorisou os indios, os quaes na sua ignorncia diziam que o ceu se queimava e ia cair sobre elles.
O P. Figueira deveu a vida * circumstancia de se achar um pouco affastado e ao aviso que lhe trans-mittiu um menino da comitiva gritando: Padre, foge que te querem matar. O que elle executou presto.
Saciada a sede de sangue, retiraram-se os Tocarijs entre alaridos e gritos descompassados, depois de haverem roubado todos os trastes, o altar porttil, os ornamentos, ferramenta e tudo o mais que ficou ao alcance de sua torpe cobia. Arrebataram tambm dois meninos e duas mocinhas.
Alguns daquelles objec.tos, como rede, a casula, a estola, o frontal e os breviarios, elles deixaram no caminho por amedrontados com os dizeres de uma das moas captivas. .
Livre dos inimigos e acompanhado de alguns dos seus indios, que todos espavoridos se tinham embrenhado pelas selvas, correu o P.e Figueira ao logar do sacrificio e entre lagrimas limpou o cadver do seu caro mestre e companheiro todo coberto de sangue e terra, e mettendo-o numa rede, transportou-o para o sop da serra e sepultou-o dentro do matto no logar Ubajara, collocando de cada lado da sepultura um dos ndios, que haviam succumbido.
Um desses hericos defensores do P.e chamava-s Antnio Carabpocu; do nome do outro, infelizmente, no reza a tradio.


13
Alis o P.e R. Galanti na sua Hist. do Brasil, que optima e, pois, muito para se consultar, e o Desembargador Paulino Nogueira no seu interessantissimo estudo sob a epigraphe O Padre Francisco Pinto ou a Primeira Catecheze de ndios no Cear, 1887, do como mortos 5 indios, dos quaes um se chamava Pedro e era potiguar, outro Antnio, tupinatnb, e o terceiro, tobajara, tinha o appellido de Iguassu-mirim. O P.e Luiz Figueira, porem, so se refere a dois e teve sua razo para fazel-o como testemunha, triste testemunha, do crime nefando. Sua verso, por conseguinte, a que se deve acceitar, sem que duvida faa.
Como o cedro desar-raigado pelo tufo, assim cahiu o grande missionrio aos golpes daquelles mesmos a 'quem fora levar o Evangelho da boa nova e dar a beber na taa da regenerao .physica e moral. Tinha 56 annos de edade e 39 de Companhia, quasi todos empregados na converso dos pobres Brazis, que foram sua constante preoccupao.
Elesban de Guilhermy (Menologe de la Compagnie de Jesus) o d como filiado Companhia aos 15 annos e trucidado aos 55.
Foram as ultimas palavras do athleta de Christo : Veni, Domine, veni, veni. Vinde, Senhor, vinde, vinde. Phrase bemdita. Palavras a quadrar perfeitamente nos lbios daquelle para quem a palma do martyrio era um goso, a dita por excellencia.
Realizara-se uma prophecia do grande Anchieta a respeito de Francisco Pinto.
Certo dia, no anno de 1582, estava elle na enfermaria do Collegio da Bahia, prostrado por enfermidade reputada mortal, quando o veneravel Anchieta, indo fazer-lhe as despedidas por ter de partir para Pernambuco, annunciou-lhe que grandes e penosos trabalhos ainda lhe restavam nesta vida, que tomasse as roupas, erguesse-se do leito, e fosse dar graas a Peus, e o P.e Pinto assim o fez e vio-se sarado de todo.
Esse factp vem citado em todos os chronistas da Ordem. Um delles o narra por esta forma :


14
.Foi tambm pasmosa a sade que alcanou (o P.e Anchieta) ao Santo Martyr Frcisco Pinto, e a profecia, com que predisse seus muitos trabalhos. Este padre estava tanto nas ultimas, que tinha o enfermeiro preparado o necessrio para ser ungido. Entretanto o Padre Provincial ao visitar, lhe deu hum abrao, e disse : Vossa Reverencia queria ir ao Ceo a mos lavadas ? Pois nam h de ser assim : Longa tibi restat via ; tem muito que passar primeiro, nam ha de morrer morte folgada, antes delia ha de padecer muitos trabalhos, fazer a Deus muitos servios, salvar muitas almas : levante-se Vossa Reverencia, va ao coro datas graas ao Santssimo Sacramento, que elle he servido conceder-lhe a sade ; e ao enfermeiro disse : irmo, dai-lhe seu vestido, e nam torne o Padre mais enfermaria.
E' do Vol. 2., Pag. '274 da Imagem da virtude em o Noviciado da Companhia de Jesus no Real Col-legio de Jesus de Coimbra pelo P.e Antnio Franco.
Muitos e pesados trabalhos teve realmente que supportar o herico Amanayara antes de succumbir aos golpes dos ferozes Tapuyas da Serra !
Cumprira-se o vaticinio e infelizmente para o Brasil !
O P.e Vieira descreve o assalto dos Tocarijs como tendo sido na occasio em que Francisco Pinto estava ao p do altar para celebrar o santo sacrifcio da missa. E estando, diz elle, ao p do altar, sem lhe poderem valer os poucos indios christos, que o assistido com frechas' e partazanas que uzavo de paos mui agudos e pezados lhe deram trez feridas mortaes pelos peitos e pela cabea, e no mesmo altar, onde estava para offerecer a Deus o sacrifcio do corpo e sangue de seu Filho, offereceu e consagrou o de seu prprio corpo e sangue, comeando aquella aco sacerdotal e consummando-a o sacrifcio. O facto, porem, succe-deu quando o P.e estava entregue s suas oraes. Rezava as horas menores.
O pau de juc com que o trucidaram levou-o Fi-


15
gueira para o Collegio da Bahia, mas perdeu-se com muitas outras preciosas relquias por occasio de tomarem os Hollandses a cidade.
A morte do P.c Pinto vem descripta por Cludio de Abbeville no capitulo de sua obra sob o titulo Historia de uma certa personagem descendente do ceo.
E' uma lastimvel confuso dos successos occorri-dos na expedio de Pero Coelho e na subsequente dos dois Padres jesutas.
Berredo (102, liv. 2.u) qualifica as informaes do singelo religioso francs como fbula da barbaridade dos tapuyas ou como fructo da malicia dos Franceses de Montbille.
No se precisa ser arguto para descobrir os crassos erros do P.c Cludio, tendo-se em vista que Jeropary o mesmo Diabo Grande, aluado dos Franceses, adversrio de Pero Coelho, e dedicado aos jesutas.
Que Cludio d'Abbeville escrevesse aquillo, explica-se em parte; era um capuchinho e Francs; mas o que causa estranheza que Varnhagen, que tantas chronicas compulsou, desse credito de boa mente narrao mendaz do capuchinho para consignar na sua Historia do Brasil que o P.c Pinto falleceu deixando-o cahir os indios da rede em que o levavam em um tu-jugal e no lhe acudiram quando frechado no pescoo foi acabado de matar com uma pua de taquara.
E Varnhagen accrescenta que ha engano em attri-buir essa morte como succedida no mez de Janeiro de 1608 !
Divulgada a noticia da catastrophe, o Diabo Grande fez celebrar exquias com grandes prantos e ajun-tando-se com os mais ndios na casa da aldeia, que habitaram os Padres e ao p da cruz erguida no terreiro ahi repetiram suas scenas de d e sentimento, tingind-se e tisnando-se e deixando crescer o cabello alguns delles.
Quatro annos depois, pelo muito amor e grande conceito em que o tinham, determinaram os indios do Jaguaribe ir Serra buscar os ossos do seu Amanayara.


16
Mais os decidiu a isso grande secca, que ento laborava. Chegados ao logar que lhes indicara Figueira, cavaram a sepultura, exhumaram os ossos e vieram collocal-os com a precisa reverencia na Egreja de sua aldeia.
Tamanha era a estima em que tinham aquelle precioso deposito que nem o Padre Figueira poude trans-porta!-os para Pernambuco nem o chefe Camaro para suas terras do Rio Grande.
Tentou havel-os, mas de balde tambm, em 1614, o P.e Manoel Gomes e por suspeitarem que o Vigrio Balthazar Corra os levava comsigo para Pernambuco sahiram-lhe ao encalo e o deixaram proseguir na viagem somente depois de bem verificado que nada levava do que pertencera ao Amanayara. Esse interessante episdio vem relatado por mido em carta de Manoel Gomes por mim encontrada na Bibliotheca Nacional de Lisboa.
Pois si os indios graas quellas relquias alcanavam de Deus a chuva ou o sol, segundo a necessidade que tinham as suas sementeiras !
Qual o logar para onde os indios do Jaguaribe trouxeram os ossos de Francisco Pinto ?
Cndido Mendes opina por Cruz das Almas, depois por Paupina (Mecejana), finalmente por Paran-gnba (Arronches); Araripe por Paupina-; Paulino Nogueira por Parangaba. Penso que foi a aldeia existente mesmo nas visinhanas do fortim portugus junto ao rio Cear, at porque taes aldeias de Paupina e Parangaba no existiam ainda.
A opinio de Cruz das Almas no tem por si argumento algum nem o testemunho de um s auetor.
Para a preferencia dada a Paupina estribou-se Araripe no. dizer o Padre Manoel Gomes,, companheiro dc Jeronymo de Albuquerque na expedio de 1614, que desembarcara no porto do Cear e, ajoelhando, en-commendara-se ao bem aventurado Padre Pinto que estava enterrado a 3 legoas dc distancia dalli. Realmente Manoel Gomes diz isto cm uma sua carta que


17
vem publicada pag. 78 da Historia de Jos de Moraes e o repete em outra de 2 de Julho de 1621.
Mas" aquellas 3 legoas porque no sero contadas do porto de Mocuripe ?
A expedio de Mathias Beck, da qual me occu-parei mais adeante ao tratar dos Hollandses no Cear, condusindo ao todo 298 pessoas, ancorou na bahia de Mucuriba, sitio mais prximo e capaz para ancora-douro; foi em Mucuripe que a expedio de Caldeira Castello Branco lanou ferro; o Regimento dado por Gaspar de Sousa a Jeronymo de Albuquerque vedou a entrada da armada sob seu commando no porto do Cear por difficultoso e arriscado; para crer, portanto, que a armada em que vinha Manoel Gomes, grossa armada como elle a chama, descansara em sua rota, e por um dia, na bahia de Mocuripe. Ora de Mocuripe aldeia dos indios junto ao forte faziam as 3 legoas segundo, bem entendido, os clculos de ento, como se v da Jornada do Maranho, do Dirio de Beck e dos Roteiros e Regimentos de Pilotos.
E' preciso ter em considerao que os dois jesutas no estiveram no Rio Cear na ida para Ibiapaba e to somente o P.e Figueira n sua volta quando ento fundou a aldeia de S. Loureno, e que, portanto, os al-deiamentos em Caucaia, Parangaba e Paupina no so do tempo delles.
Entre os indios se assignalou Camaro pela muita venerao memria do Padre Pinto. Elles se conheciam do tempo das misses e da catechese nas aldeias do Rio Grande.
Sabendo esse chefe Potiguar que os do Jaguaribe tinham em seu poder os ossos do Padre, partiu a visi-tal-os acompanhado de muitos dos seus. Chegado ao logar onde estavam os ossos, abraou-os e beijou-os com grandes mostras de venerao, ordenou o apiran ou sapiro, que um pranto geral, por espao de tres dias, fez construir uma egreja maior e mais decente para onde transportou os ossos, que foram con-dusidos em procisso num caixo coberto de um pan-


18
no azul, e ordenou que todas as manhs os indios al-deiados fossem dar ao morto o Teandecoema ou bons dias.
Acabadas as cerimonias suggeridas por sentimentos de uma piedosa amisade, voltou com os seus ao Rio Grande depois de muitas demonstraes de agradecimentos aos do Jaguaribe por terem ido buscar Serra aquelles restos preciosos e os tratarem com tamanho respeito.
E com esse procedimento do grande Potiguar mais se afervoraram os indios de Jaguaribe em seu amor aos ossos do Padre, e tanto que diante delles celebravam os casamentos ou ratificavam os celebrados sem parocho.
Alguns auctores se enganaram suppondo que o Camaro foi quem transportou os ossos da Serra ; no ha tal ; j de l tinham sido trazidos quando elle foi tributar-lhes os respeitos e as homenagens, que j .referi.
Sobre a vida e a morte de Francisco Pinto tirou o Vigrio do Rio Grande um summario de testemunhas, assim indios como Portugueses.
Triste e acabrunhado tomou o P.e Figueira a di-reco do mar e no para a Serra de novo,-como pensa Jos de Moraes, e foi abrigar-se proteco de Cobra Azul depois de uma caminhada de 17 dias. Aguardava alli que chegassem os tabajaras da Ibiapaba como lhe haviam promettido. Era o Cobra Azul grande feiticeiro, arrogante e sem vislumbres de sentimentos bons. Mais de uma vez esteve a contrariar e hostilizar o hospeds. Muito outro era o filho delle, optimo rapaz, o qual com vrios indios de sua aldeia veio acompanhando o P.c em sua atribulada viagem at o Cear.
. A recepo, que lhes fizeram na aldeia junto ao rio Cear, foi bem festiva : caminhos feitos; musicas ; uma bonita casinha de piudoba. Ahi o Padre Figueira reuniu a todos que andavam dispersos, forneceu-lhes algumas ferramentas que haviam escapado aos tapuyas,


19
traou-lhes as casas, levantou uma formosa cruz d edro, e como o levantamento da cruz cahiu em dia jUe S. Loureno deu aldeia assim formada o nome desse santo.
Da aldeia do Cear ou S. Loureno, onde um dos principaes era Lagartixa Espalmada e por signal que muito resingueiro e atrevido, sahiu o Padre a 19 de Agosto de 1608, e estando aposentado a legoa e meia de distancia recebeu um escripto do Padre Gaspar de So Peres dizendo que o aguardava em um barco de Jeronymo de Albuquerque, que elle havia fretado sua custa para conduzil-o ao Rio Grande. Por causa dos ventos deteve-se ahi o barco 17 dias, mas fez-se vela afinal dia de N.a S.a do Nascimento indo a seu bordo os Padres e os indios da Ibiapaba, por no con-tl-os a todos. Os indios do Jaguaribe seguiram a p. Uns e outros eram ao todo 160.
Chegados ao Rio Grande foram cordialmente acolhidos por Jeronymo de Albuquerque, tenente Antnio Ferreira e os Padres Domingos Monteiro e Diogo Nunes.
Diz a Jornada do Maranho, e com ella Berredo, ter sido Diogo de Campos quem facilitou a vinda do Padre Figueira, por fornecer a Gaspar de So Peres o barco, que o foi buscar. Diogo de Campos em todas as paginas do seu livro revela-se hbil em fazer falarem os factos de modo a elle occupar o 1. plano em desproveito de Jeronymo de Albuquerque. A verdade, porm, inilludivel; no a elle, certo, e o confessa o prprio Padre Figueira, mas ao Padre Gaspar dc So Peres em primeiro logar, e ao capito-mr do Rio Grande se deveu o acto de caridade que tanto capti-vou a alma do esforado missionrio e o conservou para futuras faanhas num apostolado frtil de assig-nalados successos, e cujo epilogo se representou sobre as taboas desconjuntadas de um navio em naufrgio e entre as dansas macabras dos antropophagos Aruans. .
Estava findo o longo c movimentado drama da


20
Ibiapaba para que se apparelhara a Companhia de Jesus na pessoa de dois dos seus membros mais valentes e caridosos.
Rica e prompta era aquella regio em presentear com desventuras a quem ousava enfrentar-lhe os mys terios e prescrutar-lhe os enigmas. Pero Coelho mal poude chegar ao Rio Grande, donde se partiu para a Parahyba e de l para Madrid e Lisboa onde falleceu pobre e esquecido; Francisco Pinto recebeu morte af-frontosa em paga de seus servios de sublime heroici-dade ; Luiz Figueira tornou a Pernambuco, succum-bido e alquebrado, vida afanosa de missionrio e protector dos indios at que a tragdia de 1 de Julho de 1643 o arrebatou para sempre.
Longos annos se passaro antes que sobre aquella Serra raie de novo o sol da civilisao ; s cerca de 50 annos decorridos a Companhia de Jesus ainda uma vez ir convidar as tabas dos tabajaras ao banquete da religio e vida da sociedade. Ser a epocha dos trabalhos dos Pedrosa e dos Antnio Ribeiro, ser a occasio dos assignalados servios desse grande phi-lantropo, poltico e mestre da lingua que se chamou Antnio Vieira.
Foras activas, providenciaes ho de apressar a marcha evolutiva dos seus pobres moradores, mas cilas vo dormitar por algum tempo ; mais tarde voz potente de outros obreiros tomaro seu curso e se rea-lisaro as obras, que lhes reservava a mysteriosa offi-citia do progresso sob as vistas imprescrutaveis do Soberano dos mundos.
A 20 de Janeiro de 1612 chega ao Cear Martim Soares Moreno trazendo em sua companhia seis homens c um clrigo e constroe um fortim e uma igreja os quaes tomaram a invocao dc S. Sebastio. Havia sido, corno se viu, um dos companheiros de Pero Coelho em 1603, e actualmenle era tenente do Rio Grande. Freqentava ha annos com proveito os indios do Jaguaribe c visinhauas, commerciando com elles c fa


21
zendo tratos e amisades. Um dos chefes, Jacana, o tratava por filho.
Com a chegada e estabelecimento de Martim Soares ficou garantida a situao dos Portuguzes no Cear. Elle era homem talhado para tal commettimen-to; em nenhum outro recairia melhor a escolha de Diogo de Menezes. Alem de lhe assegurar facilidades o ascendente, que havia adquirido sobre os indios do Jaguaribe e visinhanas pela amisade que lhes mostrava, perfeito conhecimento da lingua e proteco que merecia ao principal Jacana, crescera em conceito e confiana ajudando-os contra corsrios franceses, que aportaram ao Jaguaribe e l encontraram o desbarato e a morte.
Esse feito dos indios auxiliados por Martim Soares aconteceu em 1611 e, pois, anterior tambm sua ida Bahia com o filho de Jacana a fazer pedi-torios, e volta j negoceado de todas as cousas necessrias. V-se isso da Relao do Seara por elle escripta e da correspondncia official de Diogo de Menezes para o Reino a 1 de Maro de 1612.
Naquella data o governador geral ignorava ainda os resultados da misso de que encarregara Martim Soares, mas j a 12 de Dezembro escrevia-lhe dizendo ter tido aviso de que Gaspar' de Sousa, que ia suc-ceder-lhe, trazia ordens d'El-Rei para emprehender a conquista do Maranho de accordo com seus pareceres; dizia tambm na mesma occasio approvar que Martim Soares tivesse dado nascente povoao o nome do santo do dia em que chegara (S. Sebastio) em quanto a el nombre de Ia poblazion que me dezis pusiste dei dia que tomastes tierra me pareze muy bien y ese se le pude quedar.
O portador dessa carta foi o sargento Almeida, a quem Diogo de Menezes fez voltar de outra feita con-fiando-lhe mosquetes e plvora e autorizando-o a receber em Pernambuco os soldos da guarnio do Cear, inclusive os de Martim Soares e do padre vigrio.
No mappa hollands de Mathias Beck (28 de Abril dc 1649) figura ainda o velho forle S. Bastio.


22
Assenhoreados os Franceses do Maranho, partiu do Recife a 1. de Junho de 1613 uma armada sob o mando de Jeronymo de Albuquerque, destinada a des-alojal-os.
Chefiaram a expedio Francesa, que se apossara do Maranho em 1612, Daniel de la Touche, senhor de La Ravardire e Francisco de Razilly. Essa expedio, em que vinha um grupo de frades capuchinhos, entre os quaes Yves d'Evreux e Claude d'Abbeville, esteve na enseada de Mocuripe, Jericoacoara e Camocim.
Em 1614 um caravelo de Franceses sob o mando de Du Prat e com destino ao Maranho tentou render os fortins do Cear e Jericoacoara, mas foi repellido com grave perda, salientando-se na defesa do !.o padre Bal-thazar Joo Correia e do 2." Manoel de Sousa d'Ea.
A' armada de Jeronymo d'Albuquerque foi se reunir em Camocim Martim Soares, ficando em seu logar no commando do presidio do Cear Estevam de Campos. De Camocim destacou-o Jeronymo de Albuquerque afim de reconhecer a ilha do Maranho e obter noticias dos Franceses. Acompanharam-no 26 soldados e alguns indios. Depois de 18 dias de investigaes e trabalhos, sentindo-se descoberto e perseguido pelos inimigos, Martim Soares tratou de regressar, mas foi forado pelos ventos e correntesas a arribar ilha da Trindade, depois Cumana e afinal a S. Domingos, cujo governador Dom Diogo Qomez de Sandoval fl-o transportar em Dezembro para a Europa, pagando-sc ao mestre do navio, que o conduziu, a quantia de 213 ducados.
De volta da Europa, fez em 1615 parte da expedio de Alexandre de Moura, que logo no comeo do anno seguinte nomeou-o capito das terras do Cum ; grave doena, porem, impediu-o de continuar no posto e embarcou-se num barco velho e mal apparelhado e mais uma vez foi dar ilha de S. Domingos batido por forte tempestade. Em S. Domingos o governador, o mesmo omez de Sandoval, nomeou-o cabo dos navios, que saiam para a Europa, mas outro temporal separou-u


23
do grasso da armada e foi elle aprisionado aps renhido combate pelo pirata Henry, de Havre de race. Depois de dez mezes de rigorosa priso, da qual logrou sahir por esforos do embaixador de Espanha em Frana, o Duque de Montelion, entrou em Portugal.
Em 1619 Martim Soares, por tantos servios e lances de vida, obteve merc da capitania do Cear por 10 annos (Carta Patente de 26 de Maio) com o ordenado de 400 cruzados. Dois annos depois, por Carta Regia: de 13 de Junho, as capitanias do Cear, Maranho e Par foram separadas do Estado do Brasil para constiturem o Estado do Maranho, do qual em 1623 foi nomeado capito general e governador Francisco Coelho de Carvalho, que tomou posse em comeo de Agosto de 1626. A elle se deve a reedificao do forte do Cear.
O novo Estado, que se installou a 3 de Novembro de 1624, estendia-se do rio Oyapoc ou de Vicente Pin-son at o cabo de So Roque onde principiava o Estado do Brasil; mais tarde no governo de D. Joo V o limite sul ficou sendo a Ibiapaba. A incluso do Cear entre as capitanias do governo de Francisco Coelho de Carvalho teve o protesto de Martim Soares Moreno. Justificava-o elle, e at com a prpria experincia, pelas difficuldades maiores da navegao do Maranho para o Cear por respeito das guas e ventos correrem sempre em contrario, e pelas difficuldades das viagens por terra devido aos terrenos a atravessar e opposio dos selvagens inimigos em numero infinito. Por Patente Regia de 25 de Fevereiro de 1652 foi ex-tincto o Estado do Maranho, passando as capitanias do Maranho e Par a ser administradas por capites-mores, mas foi de novo restaurado a 25 de Agosto de 1654.
Apezar de nomeado em 1619, somente a' 23 de Setembro de 1621 aportou Martim Soares ao Cear, sendo muito bem recebido pelos indios.
Trouxe para a nova capitania cava lios, vaccas, canna de assucar, varias sementes. Veio acompanhado


24
'de muitos parentes e outros povoadores casados para povoarem a terra, diz Severim de Faria.
Substituiu-o em 1631 no governo seu sobrinho Domingos da Veiga, nomeado por Carta Regia de 19 de Julho de 1630 e chegado ao Cear a 6 de Janeiro de 1631.
Martim Soares foi pr seu valor e experincia ao servio da ptria contra os Hollandses, senhores de Pernambuco, chegando ao Arraial do Bom Jesus com seus soldados e indios em princpios de funho de 1631.
Andava accesa a lucta entre os soldados dos Felip-pes e os habitantes das Provncias Unidas no mais no solo Europeu, regado por torrentes de sangue generoso, mas nas longnquas regies coloniaes.
Expirara a tregoa de doze annos, que o patriotismo Batavo extorquira pertincia Hespanhola e na qual to pouco consultados haviam sido os interesses Portugueses.
Os Vandales e os Duchs cresciam em numero e suas informaes, mixto de dios e de sede de fortuna, apoiavam e estimulavam os planos dos Usselincx e outros pregoeiros de hostilidades contra a rica colnia de Portugal na America.
D'ahi o plano da creao dessa celebre Companhia Occidental que, como a experincia promettia, tentava encher de oiro os cofres dos interessados e estender no novo mundo a influencia poltica e commercial dos vassallos de Guilherme o Taciturno, como o fizera uma outra nas regies do Oriente.
Surtira effeito o plano delineado, e a 3 de Janeiro de 1631, a nova Companhia viu garantidos por uma patente em devida forma seus sonhos de monoplio commercial por 24 annos na America e na frica.
No faltaram-lhe os precisos capites. Succederam-se as expedies. Os Willekens, os Heyns. os Loncqs, os Jans-sen Patersassignalaramsua passagem pela Bahia,Pernambuco e outras tantas paragens pelos pingues carregamentos que apresavam, pelas perdas irreparveis, que


25
davam ao commercio Portugus no Rrazil rara vez efl-tremeiados de ligeiros iusuccessos.
Eis o que ao autor das Memrias Dirias da guerra do Brazil mereceu a ida do fundador do Cear para Pernambuco:
iNos princpios de Junho chegou ao Real, com soccorro do Cear, o capito Martim Soares Moreno, do habito de Santiago (depois mestre de campo) que foi o primeiro que por el-rei esteve naquella fraca praa, e por sua ordem vinha agora servir na guerra de Pernambuco, trazendo alguns indios e poucos soldados.
Cear uma mui pequena povoao (e a primeira onde comea o governo do Maranho) com um reducto, com duas peas de ferro, mais para conter na obedincia os indios, dos quaes ha muitos ali, do que para outro effeito; porque s para isto se conservava aquelle posto sem importncia a outro qualquer respeito, por no ter porto estando junto ao mar, e nem a terra ser de proveito algum. Fica em 3 e 1/3 da linha para o sul, entre o Maranho e o Rio Grande.
A guarnio que Martim Soares tinha era de 40 soldados, dos quaes a maior parte ficou com seu sobrinho Domingos da Veiga Cabral, a cujo cargo ficava aquelle posto, conforme a ordem de el-rei de que o mesmo sobrinho foi portador. No s era o tio homem de valor, mas de grande utilidade, por ser optimo interprete dos indios; e por isso o general o approveitou sempre nos dois predicados.
Logo que chegou, aggregando-se-lhe mais alguma gente, tomou o porto que chamam de Nossa Senhora da Victoria, ao p do rio Capibaribe, pela parte que divide a ilha de Santo Antnio, e em frente de dous dos quatro reductos que nella havia levantado o inimigo.
A 29 de Agosto do dito anno (1631), Martim Soares correspondia com um bello feito de armas confiana nelle depositada pelo chefe Mathias de Albuquerque. Eis como o descreve o j citado autor das Memrias Dirias.
Em 29 foi o capito Martim Soares encarregado


26
de com a gente-de seu quartel, e particularmente com os ndios qe trouxe do Cear, acoinmetter um dos quatro reductos, que o inimigo havia feito na ilha de Santo Antnio. Passou Martim Soares, e investiu, um cm tanta bizarria que entrando-o degolou 12 e trouxe prisioneiro o sargento, que o guardava com mais 40 homens; os outros o desampararo, ater rorisa dos de veros indios, cujo aspecto nos primeiros annos lhes era terri-vel; e estes do Cear, por menos domesticados e tra-taveis, mais servio para este effeito que para outro qualquer.
D'ahi em diante a sorte de Martim Soares condul-o a assistir aos factos mais ou menos notveis dessa bel-lissima epopea da historia Brasileira em que todas as. raas se irmanaram, incendidas pelo patriotismo, obra santa da libertao do solo calcado pelo estrangeiro. Foi elle quem dirigiu o ataque de 1 de Maro de 1634 contra a praa do Recife, foi elle o organizador da defesa no Cunha, e em Mossurepe, foi elle o companheiro de Andr Vidal nessa expedio, que a mandado do governador Antnio Telles vinha empre-hender para obrigarem os sublevados de Pernambuco e os seus auxiliares a depor as armas como a hypo-crisia dictava nas cartas escriptas aos membros do Conselho HoIIands, e as necessidades do tracto com um inimigo cupido e traioeiro estavam a aconselhar, foi elle o encarregado de investir a fortaleza do Pontal, e mais tarde de conduzir a Bahia alguns troos dos soldados nos quaes havia penetrado a indisciplina e era para receiar alguma desero.
J ento os achaques e a velhice punham peias ao ardor do valente lidador. Era preciso o repouso para uma vida to trabalhada e to cheia de incidentes e de transes.
Em 1648, no posto d Mestre de Campo, trocou o peso e as agruras de vida militar pelo descanso na sua terra da Europa, quando se lhe deu por substituto Ni-colau Aranha Pacheco. Militou, portanto, no Brasil durante 46 annos. Seu companheiro Vidal de Negreiros,


27
ficou a bater-se com os Hollandses, mas este era Brasileiro.
Por insinuaes e instncias do genlio, do qual se utilizavam para tremendas vinganas, sobretudo em Pernambuco e Rio Grande, salientando-se nisto osjaii-duis, intentaram os Hollandses alargar os seus domnios avanando para o Cear, onde esperavam lucrar demasiado com o. mbar gris e o sal aqui existentes em grande quantidade; e neste sentido sahirair. de Recife a 14 de Outubro- de 1637 o major Jorge Gartsman e o capito liendrick I luss com 126 homens, Realizavam-se assim as promessas de Maurcio de Nassau Assembla dos XIX, feitas havia dois m-zes. A 25 e i. 26 de Outubro do-se a chegada de Gartsman, o assalto do forte de So Sebastio, ento sob o commando de Bartholomeu de Britto, a tomada do forte e o aprisionamento da pequena guarnio. Entre os naturaes, que auxiliaram os assaltantes, figuram os chefes Algodo e Koygava,
Assume o commando do forte o tenente Hendrick Van Ham, mais. tarde substitujdo por Gedion Morris de Jonge, j com largo conhecimento do Par e Maranho, o qual para esse fim safwu de Pernambuco a 23 de Novembro de 1640, e em cuja administrao foram descobertas as salinas dos rios Ivipanin ou Opauema, Meyritupe ou Marituba e Vararoeury e junto de Com-ineni (Camocim). Na ultima trabalhou Jacob Cryniz. O descobridor da salina de Meyritupe foi Albert Smient, autor de um Relatrio sobre as salinas situadas na costa noroeste do Brasil.
Gartsman deixando o Cear seguiu por terra com destino ao Rio Grande do Norte e levou em sua companhia 34 soldados, 50 indios e 18 prisioneiros, que pertenciam ao forte ou Castello de S. Sebastio, e no mesmo dk, 11 de Novembro de 1637, voltou a Pernambuco por mar seu companheiro de victoria, Hendrick Huss.
Gartsman ainda prestou servios ao Brasil Hollands, pois v-se de cartas escriptas pelo Conselho Superior


28
aos directores da Companhia em Maro de 1640 que fora encarregado de vigiar as costas do Rio Grande e fora batido' e preso no Potengi pelas foras de Luiz Barbalho. Depois da derrota final e capitulao dos Hollandses embarcou- para Martinica, onde morreu decorrido pouco tempo. Pierre Moreau diz que provada a cumplicidade de Gartsman no assassinato de Ja-cob Raby, foi elle expulso do exercito (1647) e enviado para a Hollanda como um indivduo deshonrado.
No f de importncia o domnio dos Hollandses no Cear; a crescente oppresso exercida por elles sobre os indios, e principalmente a falta de pagamento aos que trabalhavam nas salinas, provocaram uma revolta e conseqente morticnio dos oppressores.
Aproveitado pelos indios ensejo opportuno, em Janeiro de 1644 foi assaltada a guarnio, parte da qual andava disseminada em diversos servios, e trucidada juntamente com o commandante Gedion Morris e o mestre de equipagem Emor de Bont.
Ignorantes do que se passava em terra, os com-rnandantes dos hiates Hasewint e Brack, de viagem do Maranho para Pernanibuco,^ demandaram o porto do Cear afim de tomar agua e refrescos e desembarcaram com alguns de seus officiaes. Das treze pessoas vindas terra, apenas trs conseguiram voltar a bordo atirando-se ao mar. Os demais morreram s mos dos revoltados.
No podendo resistir s investidas de Antnio Teixeira, os Hollandses tiveram tambm que abandonar o Maranho deixando nas margens desertas de Camocim os tapuyas do Cear, que tinham convidado e attrahido a si. Estes, offendidos da ingratido e guiados por Ticuna, assaltaram os fortes Hollandses do Camocim e Jeriquaquara, matando-lhes as guarnies. Foi isso em Fevereiro de 1644.
No estava, porm, terminado o domnio HoIIan-ds no Cear; pela segunda vez, em 1649, elles se as-senhorearam da capitania, para o que sairam de Re-


29
cife a 18 cie Maro 3 hyates e 2 barcos trazendo a seu bordo 298 pessoas.
E' desse tempo a fundao do forte de Shoonen-borch sobre o monte Marajaitiba por Mathias Beck, o chefe da expedio, conhecido por suas exploraes de minerao em que se empenhou iliusoria e improfi-quamente at a rendio da praa do. Recife e a queda do domnio Hollands no Brasil.
O local de preferencia escolhido para a explorao da prata foi o monte Itarema (Taquara), nas im-mediaes de Maranguape, onde, segundo a tradio, andara com igual fito Martim Soares Moreno, sendo os servios executados sob as vistas dos profissionaes Carel Helbach e Hans Simplesel, um e outro de nacionalidade Allem. Os Hollandses fizeram trabalhos de minerao tambm em Upuapaba, para os lados de Camoci ou Cameresibi.
Chegada ao Cear a noticia da capitulao de 27 de Janeiro de 1654, Mathias Beck retirou-se para a ilha de Barbados.
Era natural que a oecupao da Capitania de Pernambuco e suas annexas desse causa ao povoamento, embora fraco, do interior do Cear por fugitivos intolerncia e sanha do extrangeiro, que entrariam a praticar a lavoura e a estabelecer fazendas de gado; isso, todavia, no aconteceu, podendo-se affirmar que o povoamento do Cear, que comeou pelo litoral e suas immediaes, extendeu-se ao interior s quando muito avanado o sculo 17, sendo preferidas as terras das margens dos rios e sempre com o protesto armado das tribus indgenas, por isso barbara e desapiedadamente tratadas. Sabe-se, por exemplo, que Joo de Mello de Gusmo, capito-mor empossado a 14 de Dezembro de 1663 foi o primeiro povoador propriamente dito que veio com a famlia ao Cear. Gente branca no Cear era a infantaria do presidio ou algum missionrio na sua faina do bem. Ao povoamento da Ribeira do Jaguaribe, empreza a que est intimamente ligado o nome de Theodosio de Gracisman (1683) seguiu-se a da Ri-


30
beira; do Ic, iniciada j nos primeiros dias do sculo 18.
Coube a lvaro de Azevedo Barreto, um dos he-roes de Guararapes, continuar a serie dos governadores do Cear interrompida pela occupao extran-geira. Nomeado a 4 de maio de 1654, foi empossado a 20 do dito ms. Sua nomeao por Francisco Barreto teve approvao regia a 23 de Novembro. Com elle vieram 4 companhias de soldados e mais 2 de indios e pretos, e como capello das foras o P.e Pedro de Moraes, mui pratico na lingua dos indios. Em companhia de lvaro. Barreto esteve no Cear perto de dois annos Valentim Tavares, Pernambucano, que se notabilisou contra os Hollandses e annos depois obteve patente de capito-mor do Rio Grande na vaga de 21 de Janeiro de 1662.
Em 1657 lvaro de Azevedo Barreto voltou ao Reino. Era ento Capito da Companhia de Cavallos de couraas por nomeao de Francisco Barreto, datada de 22 de Maro.
No citado anno de 1654 foi comeada a construc-o da ermida da Fortalsa de N.a S.a da Assumpo.
De novo os filhos de St." gnacio de Loyola intentam a conquista pacifica dos indios cearenses, para o que sahiram d Maranho a 26 de Junho de 1656 por ordem do celebre Antnio Vieira para a misso dos Tabajaras da Ibiapaba os padres Antnio Ribeiro e Pedro de Pedrosa. Este foi o Portugus que primeiro penetrou no serto dos indios Tacnhapes, navegando o rio dos Juruinas na capitania do Par, e quem abriu por terra caminho para a communicao entre Maranho e Cear.
Na serra de Ibiapaba esteve tambm em 1670 o prprio Antnio Vieira, que de sua estada e impresses legou-nos admirvel e apreciada noticia.
Esses missionrios prestaram relevantes servios na pregao do Evangelho e apaziguamento dos indios, erttre os quaes Simo Tagoaibuna.


31
Pedro de Pedrosa, natural de Coiinbro, termo de Leiria, entrara para a Ordem de Jesus em 1632 e servira de missionrio e como visitador da Misso do Maranho desde 1656 at 1684; Antnio Ribeiro, que foi grande conhecedor da lingua dos indgenas, nasceu em S. Paulo, filiou-se Ordem em 1637, foi algum tempo superior da Casa de Porto Seguro, e estava em 1684 na misso do Maranho donde foi expellido com os companheiros.
Algumas dezenas de annos depois a ordem de Jesus se estabelecia no Cear sobre os mais slidos fundamentos com i fundao do Hospcio da Ibiapaba, onde fulgiram as virtudes de Rogrio anisio e de tantos outros sepultados vivos nas prises do Estado quando da perseguio Pombalina, e com a do Hospcio de Aquiraz quatro annos mais tarde, devidos um e outro ao gnio do insjgne P.eJoo Quedes.
A ereco do Hospcio de Aquiraz teve inicio em 1725, e para esse fim vieram com o citado superior Manoel Baptista como operrio, Felix Capelli como mestre de meninos e Manoel da Luz, encarregado dos servios da casa. A' Egreja propriamente dita deu-se comeo s em 1748, sendo a pedra fundamental collo-cada no mez de Julho, dia de S. Ignacio de Loyola. O P.c Joo Quedes no logrou a ventura de ver a Egreja que sonhara e para a qual tantas fadigas e esforos empregara, pois veio a fallecer ali de Fevereiro dc 1743, sendo sepultado na portaria do Hospicio.
Garantiu a existncia da nova creao religiosa do Cear a rainha D. Marianna d'Austria, que esteve no governo durante a enfermidade de D. Joo V, ordenando o pagamento de 60 escudos a cada religioso assistente no Hospicio. Foi isso em 1749. Era ento Superior o P.c Manoel Pinheiro e Provincial o P.e Simo Marques.
A situao creada pela oecupao Hollandsa para a qual se fazia necessria a tomada urgente de severas medidas de remodelao c de governo, forou a


32
expedio de ordens para que o Cear fosse supprido por Pernambuco quanto aos soccorros de que carecesse, emquanto o Maranho por'falta de cabedaes no pudesse fornecel-os. Essa praxe foi continuada at 1799, apezar das representaes em contrario de governadores do Maranho. Assim o determinaram pa-receres do Conselho Ultramarino e Actos Regios de Julho de 1656. At mesmo de Pernambuco veio a nomeao de Antnio Fernandes Monxica para capito-mr do Cear (1659), em substituio a Domingos de S Barboza, o immediato successor de lvaro de Azevedo.
Pode-se, portanto, datar de 1656 a separao do Cear do Maranho e sua passagem jurisdico de Pernambuco, comquanto no haja acto official determinando positivamente que assim se fizesse.
E' esta a relao dos capites-mores e governadores do Cear no sculo XVII: Martim Soares Moreno, o fundador (1612); Estevam de Campos (1613); Manoel de Britto Freire (1614); Domingos Lopes Lobo (1617); Martim Soares Moreno (1619) ; Domingos da Veiga, sobrinho de Martim Soares (1630); Antnio Barboza da Silva, que no assumiu (1635); Bartholo-meu de .Britto (1637); Francisco Pereira da Cunha (1641); Andr Roiz, em substituio (1643); Diogo Coelho de Albuquerque, neto de Jeronymo de Albuquerque e Cavalleiro de Christo por servios prestados em Pernambuco, Maranho e Cear (1645); lvaro de Azevedo Barreto (1654); Domingos de S Barbosa (1655); Antnio Fernandes Monxica (1659); Joo de Mello de Gusmo, o povoador propriamente dito que primeiro veio com a.familia'ao Cear, onde havia apenas a infantaria do presidio (1660); Diogo Coelho de Albuquerque (1661); Joo de Mello de Gusmo, a cuja posse a 14 de Dezembro assistiu seu antecessor (1663); Joo Tavares de Almeida, que se batera com galhardia na restaurao da Bahia e Pernambuco (1666); Jorge Corra da Silva, em servio do TPaiz desde 1645 (1670); Joo Tavares de Almeida (1673); Bento Cor-


33
ra de Figueiredo (1674); Sebastio de S, natural de Olinda, um dos valentes dos Guararapes, o doador das sesmarias de terras disputadas injustamente ao Cear pelo Rio Grande do Norte (1678); Bento de Macedo dc Faria, que servira em guerras desde 1645 a 1664, sendo um heroe das batalhas dos Guararapes (1681); de novo Sebastio de S (1684); Thomaz Cabral de Olival, que servira na ndia e no Reino (1687); Pedro Lelou (1693), que teve de interromper o governo pelos distrbios, que appareceram e processos em que foi envolvido; Ferno Carrilho, o heroe da guerra dos Palmares, por nomeao de Pernambuco, em cujo governo, de 2 annos, foram vencidos os Payacs, Ics e Carates e situados os Anasss e os Jaguaribaras (1694); Joo de Freitas da Cunha (1696); de novo Ferno Carrilho, de continuo occupado na reduco do gentio, que vivia pelo Jaguaribe e no Ass (1699); Jorge de Barros Leite, tenente general da gente miliciana assistente no serto da Bahia, ex-capito-mr de. Sergipe (1699); Francisco Gil Ribeiro, por nomeao de Pernambuco (1699).
No capitulo II encontram-se resumidas biographias de todos esses capites-mores.
No tempo de Francisco Gil Ribeiro acontecimento de superior importncia teve logar no Cear : com o raiar do sculo XVIII iniciou-se para elle a vida do municpio. *
Na administrao dos negcios da capitania at ento exercitada pelos capites mores, de nomeao tri-ennal, entrou agora a collaborar tambm o voto do povo.
Havendo sido ordenada por Carta Regia de 13 de Fevereiro de 1699 a fundao de uma villa na capitania, na forma que se mandou praticar coin muitas terras do serto da Bahia, diz a C. R. a D. Fernando de Mascarenhas de Lancastre, reuniram-se. os principaes moradores a 25 de Janeiro de 1700 no logar [goape e procederam eleio dc juizes c vereadores, saindo por juizes ordinrios Manoel da Costa Barros c Chris-


34
tqvam Soares de Carvalho, vereadores Joo da Costa de Aguiar, Antnio da Costa Peixoto e Antnio Dias Freire a procurador Joo de Paiva Aguiar, os quaes foram empossados a 16 de Julho.
Segundo determinao do governo de Pernambuco 'ficou sendo sede da villa novamente creada o local junto Fortaleza de N.a S.:' da Assumpo debaixo das armas d'El-rei com a denominao de Villa S. Jos de Ribamar. Por sobrevirem reclamaes ebm referencia ao local da villa, transferiu-se sua sd para a barra do rio Cear m 1701, e mais tarde em 1706 para junto da Fortaleza e segunda vez para a barra do rio Cear.
A tantas e to repetidas mudanas accresceu Uma nova, mas agora para um terceiro logar: Aquiraz. Disso tratou Ordem Regia de 30 de Janeiro de 1711, a que se deu cumprimento a 27 de Junho de 1713. Estando ausente o capito-mr d ento, que era Francisco Duarte de Vasconcellos, presidiu o acto da transferencia o capito da Fortaleza Antnio Vieira da Silva, que assumira o governo.
A mudana da sede teve -a opposio do Vigrio Joo de Mattos Forte e mais moradores.
Em virtude dos progressos e desenvolvimento da Fortaleza e por via das reclamaes dos seus moradores foi julgada precisa a creao de uma nova villa, e ento baixou a Ordem de 11 de Maro de 1725 determinando que alem da villa existente em Aquiraz se creasse uma outra em Fortaleza. Esta, a de Fortaleza, teve inaugurao a 13 de Abril de 1726, sendo eleitos juises ordinrios e vereadores da Cmara Antnio Gomes Clemente de Azevedo, Jorge da Silva, Pedro Moraes e Sousa e Joo da Fonseca Machado.
E' esta Acta da installao da nova Villa :
Manoel Francez, Capito-mr da Capitania do Cear Grande, a cujo cargo est o governo delia, por S. Magestade que Deus Guarde etc, etc.
Por quanto S. Magestade que Deus Guarde me manda por sua real ordem que haja uma nova villa


35
rTesta Fortaleza de N. Senhora cTAssumpo no Cear Grande para augmento desta capitania e defensa da dita real ordem, fundo e creio esta villa em nome d'El-Rei Nosso Senhor, para que nomeio Vossas Mercs por juiz e mais officiaes do Senado da Cmara, para que como bons e fieis vassallos administrem justia aos moradores d'esta villa e cuidem em seu augmento e do bem commum, guardando em tudo as ordens e fiel vas-salagem do dito Senhor, agradecendo-Ihe a merc de os honrar com esta merc, como tambm em nome do dito Senhor lhe consigno por termo da dita villa por extremado riacho da Piracabura t a serra da Ibiapaba e todo o territrio da parte da fortaleza, ficando a outra maior parte para a villa do Aquiraz, para que se conserve e augmente conforme S. Magestade manda; e para que conste a todo tempo, esta se registre nos livros da secretaria e nos das cmaras de ditas villas e se ponha nas partes mais publicas para que venha a noticia de todos.
Fortaleza de N. Senhora d'Assumpo, treze de Abril de mil e setecentos e vinte e seis annos.rrO secretario Simo Gonalves de Souza o escrevi.Manoel Francez.
No primeiro quartel do sculo XVIII realisou-se outro acontecimento de capital importncia para a vida administrativa e judiciaria do Cear. Quero referir-me creao da Ouvidoria.
Os negcios e interesses da justia no Cear eram decididos pelos Ouvidores de Pernambuco e Parahyba, o que despeitava queixas e reclamaes.
O Conselho de Ultramar havendo em 172U-21 representado a EI-Rei a convenincia de se crear Ouvidoria no Cear, uma proviso em data de 7 de Janeiro de 1723 resolveu que se creasse Ouvidoria, des-annexando-a da Parahyba.
Outra Ordem Regia, ainda de 7 de janeiro, determinou que Ouvidoria fosse addida uma Provedoria. At ento a Provedoria era a do Rio Grande do Norte.


36
O primeiro Ouvidor escolhido para o Cear foi Jos Mendes Machado, cuja nomeao traz a data de 3 de Abril de 1723.-Empossado em Setembro, andou em correio pela Ribeira do Acarac e passou-se em fins de Maio de 1724 para a dos Ics e Cariris, onde se fez parcial dos Feitosas contra os Montes. As luc-tas entre estas duas famlias ficaram celebres na historia da capitania. O espirito hostil e combativo do Ouvidor moveu o povo a um levante, que o obrigou a fugir para a Bahia.
Succedeu-lhe Antnio de Loureiro Medeiros, nomeado a 21 de Novembro de 1728 e empossado a 5 de Junho de 1729. E' d'elle a proposta a El-rei para a suppresso de uma das duas villas existentes na Capitania, e creao de villas nas Ribeiras do Jaguaribe, Ic e Acarac.
Foi terceiro Ouvidor Pedro Cardoso de Novaes que antes d findo o tempo de seu antecessor se a-pressou em vir para o Cear a assumir o cargo, com o que no se conformou Loureiro, resultando d'ahi serias perturbaes da ordem publica.
Havendo se retirado Loureiro na noite de 3 de Junho de 1732 para a Ribeira do Acarac, conduzindo comsigo todos os cartrios dos escrives e os livros da Cmara, fazenda, defuntos e ausentes, no dia seguinte assumiu Novaes Pereira o exercicio pleno do cargo.
Proviso Regia de 31 de Maro de 1735 nomeou o quarto Ouvidor do Cear que foi Victorino Pinto da Costa Mendona. Foi elle o installador da villa do Ic, que teve por primeiro capito-mor Bento da Silva c Oliveira, chamado o Mouro.
A Victorino Pinto substituram Thomaz'da Silva Pereira, nomeado por proviso de 1739 e Manoel Jos de Faria pela de 11 de Outubro de 1742. A villa dt Sta Cruz do Aracaty, creada pela resoluo Regia de 11 de Abril de 1747, foi installada por Faria a 10 de Fevereiro de 1748, realizando-se a posse da primeira Cmara a 3 de Maro.


37
Foi stimo Ouvidor Alexandre de Proena Lemos, nomeado a 17 de Maio de 1747, que andou a investigar as minas de S. Jos dos Cariris em 1752-53.
Seguem-se como Ouvidores do Cear em ordem de nomeao: Victorino Soares Barbosa (1755), que inaugurou a 14 d'Abril de 1764 a Real Villa de Montemor o Novo d'America; Joo da Costa Carneiro e S (1769), que erigiu a povoao de Caiara em villa com a denominao de Villa Distincta e Real de Sobral; Jos da Costa Dias e Barros (1776.), que com a retirada do governador Borges da Fonseca para Pernambuco, de conformidade com o disposto no Alvar de 12 de Dez. dc 1770, fez parte do governo interino ido de 3 de Novembro de 1781 a 9 de Maio seguinte, quando assumiu a administrao Azevedo de Montaury ; Andr Ferreira de Almeida Guimares (1781), hostil a Montaury; Manoel de Magalhes Pinto e Avellar de Bar-bedo (1785), a quem coube installar a 13 de Junho de 1789 a villa de Campo Maior de Quixeramobim, at ento pertencente a Aquiraz; Jos Victorino da Silveira, nomeado a 4 de Novembro de 1792 e empossado a 16 de Novembro de 1793; Manoel Leocadio Ra-demaker (1800), que installou a 6 de Agosto de 1801 a villa de So Bernardo das Russas e empossou a 17 de Julho do mesmo anno a Cmara do Aracaty do terreno que vem a ser todo aquelle que decorre desde a parte oriental do rio Jaguaribe at o Mossor, extrema da capitania do Cear, removido da Parahiba para o Cear por C- R. de 4 de Novembro de 1800; Gregorio Jos da Silva Coutinho, empossado em 1801, que fez parte da Junta successora de. Bernardo Manoel de Vas-concellos;. Luiz Manoel de Moura Cabral (1802), de valiosos servios no processo de Manoel Martins Chaves; Francisco Affonso Ferreira (1806), membro da Junta administradora da capitania por motivo da retirada de Joo Carlos Augusto de Oeynhauscn ; Manoel Antnio Galvo (1809), suspenso do cargo per arbitrariedades praticadas ; e Joo Antnio Rodrigues de Carvalho (1814), que erigiu em villa a Povoao da Bar-


38
ra do Jardim a 3 de Janeiro de 1816, segundo Alvar expedido a 30 de Agosto de 1814.
Rodrigues de Carvalho, natural da Bahia c formado pela Universidade de Coimbra, foi o ultimo Ouvidor com jurisdico sobre toda capitania, pois um Alvar de 27 de Junho de 1816 creou a nova comarca do Crato de que foi primeiro Ouvidor Jos Raymun-do do Pao de Porbem Barbosa, empossado a 17 de Dezembro de 1817. Ficaram comprehendidas no dis-tricto da nova comarca as villas de S. Joo do Prncipe, Campo Maior de Quixeramobim, Ic, Santo Antnio de Jardim e a povoao de S. Vicente Ferrer das Lavras da Mangabeira, ento elevada categoria de villa com a denominao de Villa de So Vicente das Lavras.
Esse Joo Antnio Rodrigues de Carvalho, chefe e mentor do movimento republicano de 17 no Cear, foi o primeiro presidente da Provncia de Sta. Catha-rina por Carta Imperial de 25 de Novembro de 1823 e acabou como ministro do Supremo Tribunal de Justia e senador pelo Cear.
Nenhum dos nossos Ouvidores foi parar numa fortaleza por seus desmandos ou por arbitrariedades com-mettidas contra o povo, como succedeu a Manoel Monteiro, Ouvidor do Rio de Janeiro, e alis alguns delles mereceram exemplar castigo a darmos credito s representaes daqui idas para o Reino; em compensao tambm nenhum logrou alcanar, como Sebastio Cardoso, a distinco de retrato, cousa que depois se tornou to barata, mascarando-se vezes innumeras com o nome de apreo e gratido publica o sentir de meia dzia de subalternos ou de amigos do homenageado.
Da lista dos Governadores do Cear no sculo XVIII, da qual foram os primeiros Gabriel da Silva do Lago (1704) contra quem se deu o levante de Garro da Cmara, o Cap/10 Carlos Ferreira (1708), Francisco Duarte de Vasconcellos (1710), filho do Mestre de Campo Andr Duarte de Vasconcelos, que governou Angola, em cuja administrao os Ouvidores da Parahyba


39
comearam a fazer a correio do Cear e Manoel da Fonseca Jayme (1713), que assumiu o governo s em 1715, o que deu logar a que exercessem-o os Commandantes da fortaleza Antnio Vieira da Silva e Plcido de Azevedo Falco, merecem incontestvel-mente especial meno os da segunda metade do sculo, a saber : Quaresma Dourado, Homem de Magalhes, Borges da Fonseca, Azevedo de Montaury e F e Torres.
Luis Quaresma Dourado, nomeado a 21 de Janeiro de 1751 em substituio a Pedro de Moraes Magalhes, teve o seu tempo preoccupado sobretudo com os descobrimentos e explorao das minas da Capitania, nomeadamente as de S. Jos dos Cariris, de valor to apregoado por Jeronymo de Paz e negado pelo Ouvidor Proena Lemos.
Joo Balthazar de Quevedo Homem de Magalhes, successor de Francisco de Miranda Henriques, notabi-lisou-se por suas luctas e contendas com pessoas importantes da Capitania, entre as quaes o Ouvidor Soares Barbosa, mas nem as luctas que travou nem as rivalidades entre Fortaleza e Aquiraz constituem os factos capites de sua administrao e sim a perseguio movida em seu tempo aos Jesuitas do Cear, e a ereco em Villas das antigas Aldeas por elles administradas. O executor das ordens Pombalinas contra esses benemritos da civilisao do Brasil foi Bernardo Coelho da Gama e Casco.
A primeira alda ento elevada categoria de villa foi a da Ibiapaba, que recebeu o titulo de Villa Viosa Real ; seguiram-se-lhe as de Caucaya, Parangaba, Paupina com os titulos de Villa Nova de Soure, Villa Nova de Arronches e Villa Nova de Messejana.
As datas das respectivas ereces foram : para Viosa o dia 7 de Julho, Soure o dia 15 de Outubro, Arronches o dia 25 de Outubro de 1759, Messejana o dia 1." de Janeiro de 1760. A aldea do Payac por no ter o numero de casaes exigidos pelo Directorio


40
foi elevada a Lugar com a denominao de Moute-mr o Novo da America.
A 24 de Janeiro de 1765 a populao da villa de N. S.:l da Assumpo de Fortalsa era sobresaltada com a noticia da morte de Homem de Magalhes. A intriga e a bisbilhotice entraram a explorar o facto, alis a morte fora natural e no o fructo de um crime.
Para substituir o governador fallecido veio ao Cear o pernambucano Ant. Jos Victoriano Borges da Fonseca, empossado perante a Cmara de Aquiraz a 25 de Abril de 1765. No seu tempo se deram a creao da freguezia de Almofala (1766), a elevao da aldea dos indios Jucs villa com o nome de Arneiroz (1767), da povoao de. Caiara villa com o nome de Villa Dis-tincta e Real de Sobral (a 5 de Julho de 1773) e a de Curuahu villa com p nome de Granja (1776), a ins-tallao (1778) da freguezia de N.a S.a da Penha de Frana na aidea do Miranda, hoje Crato, creada em Maro de 1762, e a creao a 20 de Junho de 1780 do novo Curato da villa de Santa Cruz do Aracaty.
Borges da Fonseca, que o autor da mui justamente celebre Nobiliarchia Pernambucana, apesar das provas de confiana que lhe quiz dar o governo da Metrpole, apezar do aviso de 3 de Junho de 1780 transferiu-se para o Recife em Novembro de 1781, havendo entregue a administrao a um governo interino, composto do Ouvidor Dias e Barros, Commandante do forte de N.!l S.a da Assumpo Jos Pereira da Costa e o vereador mais velho Joo de Andrade Fa-leiros. Esse governo interino protraiu-se at 9 de Maio de 1782, quando entrou a administrar Joo Baptista de Azevedo Coutinho de Montaury, despachado por Patente Regia de 19 de Maio de 1781.
Foi em seu tempo que o Ouvidor Manoel Leoca-dio Rademaker deu cmara do Aracaty posse judicial, como pertencentes ao Cear, das terras que vo at ao Pau Infincado, extrema com o Rio Grande do Norte. So conhecidas as divergncias havidas entre esse governador e os Ouvidores Andr Ferreira e Avel-


41
lar de Barbedo e igualmente com o Escrivo da Fa-senda Real de ento, Francisco Bento Maria Targine, o futuro Visconde de S. Loureno,
Avellar de Barbedo foi o installador da villa de Campo Maior de Quixeramobim aos 13 de Junho de 1789. Essa villa foi creida por proposta delle em carta de 10 de Janeiro e por approvao do Capito-gene-ral Dom Thomaz Jos de Mello em carta de 20 de Fevereiro de 1789, tudo de accordo com a Ordem Regia de 22 de Julho de 1766.
Poucos Ouvidores conheceram como elle o Cear; nas suas correies teve ensejos de fazer, segundo ins-truces recebidas de Lisboa, estudos de mineralogia e botnica, sobretudo na serra de Ibiapaba, onde encontrou enorme abundncia de metaes e plantas raras, que expedidas para o Reino foram confiadas ao estudo do Dr. Vandelli; chegou mesmo a escrever sobre aquella Serra uma memria da qual, todavia, no se conhece o original nem copia. Nesse particular prestou relevantes servios Capitania mais de que Avellar de Barbedo o prprio Montaury.
Sobre o assumpto leia-se o capitulo VII do meu livro Notas para a historia do Cear.
Nomeado por Decreto de 26 de Novembro de 1788 e C. R. de 12 de Janeiro de 1789, aportava a 4 de Novembro colnia Luis da Motta Feo e Torres e recebia a 9 o cargo das mos do governo interino, que ficara a succeder a Azevedo de Montaury. Serviram-lhe de secretrios Jos de Faria e Diogo da Silveira Velloso.
Este teve o infortnio de governar em epocha de grande desolao e misria. Como em annos anteriores, como devia acontecer muitas vezes depois e a bem pouco infelizmente, a capitania extor cia-se sob o aoite de tremenda secca, nunca vista, diz o governador em sua informao de 10 de Outubro de 1792. E para accrescimo a tantos males sobreveio, tornando mais lu-tuosos aquelles annos, como irm gmea da fome, a peste da variola, que devastou muitos pontos, Aracaty,


42
por exemplo, onde foi enorme o desfalque das vidas. Outra enfermidade fez assignalada sua administrao, as febres palustres, que em 1791 assaltaram os moradores da Ribeira do Acarac e Villa de Sobral, e para cujo tratamento veio ao Cear uma commisso medica, chefiada por Joo Lopes Cardoso Machado.
Luis da Motta Feo e Torres, que deixou a capita-dia em 1799, ficando a dirigil-a uma junta composta do Ouvidor Jos Victorino da Silveira, sargento-mr Jos de Barros Rego e o vereador Joo Pedro Dantas Corra, foi o ultimo capito-mr e governador do Cear com dependncia de Pernambuco. A 28 de Agosto de 1796 o Prncipe Regente deu-lhe successor na pessoa do C.el Francisco Ignacio de Cid Mello e Castro, mas este no veio tomar posse.
Havendo partido de Recife para o Reino com a famlia na charrua Santo Antnio Polyphemo, que fazia parte do comboio sob o commando de Manoel de Jesus Tavares, terrvel tempestade sobreveio a 7 de Maro de 1800 na altura dos Aores, sossobrando a charrua a 12 e escapando Feo e Torres mesma triste sorte de Joo Alves de Mello, ex-Ouvidor de Angola, e de tantos outros, graas ao soccorro prestado pelo navio Trajano, provi-dencialmente apparecido no local do sinistro. Perdeu elle tudo quanto possua e por esse motivo deu-lhe o Governo uma tena annual de 300$000. J anteriormente, por occasio do terramoto de 1 de Novembro de 1755, o incndio devorara-lhe todas as propriedades, que tinha em Lisboa.
Entre os nufragos figurou uma cearense, D.a Anna Xavier da Soledade, que fora em companhia do governador e que falleceu a 24 de Junho de 1861 no convento de Santa Cruz, de Villa Viosa, onde professara.
Cedendo s suggestes dos que propunham e queriam a separao do Cear da immediata subordinao a Pernambuco, dentre os quaes devem ser citados


43
Borges da Fonseca e Azevedo de Montaury, resolveu a metrpole por Carta Regia de 17 de Janeiro de 1799 dar-lhe governo independente e para inicial-o escolheu o Chefe de esquadra Bernardo Manoel de Vascon-cellos.
A Carta Regia, que separou o Cear da subordinao a Pernambuco, concebida nos seguintes termos :
R.mo Bispo de Pernambuco, do Meu Conselho e mais Governadores Interinos da Capitania de Pernambuco. Eu A Rainha vos envio m. saudar. Sen-dome presentes os incoveuientes que se seguem, tan-to ao Meu Real Ser.vio, como ao bem dos povos da inteira dependncia e subordinao em que os Governadores das capitanias do Siar e da Parahyba se acho do Governador e Capito General da capitania de Pernambuco, que pela distancia em que resi-de no pode dar com a devida promptido as provi-dencias necessrias para a melhor economia interior daquellas capitanias, principalmente depois que ellas tm augmentado em populao, cultura e commercio ; Sou servida separar as ditas capitanias do Siar e Pa-rahyba da subordinao imediata do Governo Geral de Pernambuco em tudo o que diz respeito a proposta de Officiaes Militares, nomeaes interinas de officios e outros actos do Governo, ficando porem os governadores das ditas duas capitanias obrigados a executar as ordens dos Governadores de Pernambuco no que fr necessrio para a defena interior e exterior das tres capitanias e para a Policia interior das mesmas: Igualmente determino que do Siar e da Parahyba se possa fazer um commercio directo com o Reino, para o que se estabelecero em tempo e lo-gar conveniente as bases de Arrecadao, que forem precisas e se daro as outras providencias, que a ex

44
neiro de mil setecentos, noventa e nove. Prncipe Para o Bispo de Pernambuco e mais Governadores Interinos da Mesma capitania. D. Antnio Pereira de Lacerda e Castro.
Embarcando-se no comboy sob o commando de Paulo Jos da Silva Gama, Bernardo Manoel de Vas-concellos deixou Lisboa a 23 de Maio e a 25 de Setembro desembarcava no porto de Mocoripe, mais adequado e seguro para as embarcaes do que o de Pernambuco, apenas se construir sobre os paredes de num molhe comessado pela natureza a cortina, que em-barasse alguma ressaca do mar nas mars cheias durante a estao dos Ventos Nordestes pois que o Morro denominado de Mocoripe abriga a enceada dos ventos sues, que so os mais terrveis e os que reinam quasi sempre nesta Costa, escreveu elle em seu carnet de viagem.
A misso incumbida a Bernardo Manoel de Vascon-cellos no era de pequena monta, cabendo-lhe organizar mltiplos servios, corollarios da Carta Regia de 17 de Janeiro. Para execuo desses servios teve o bom senso de cercar-se de pessoas, que possuam o preparo preciso ou que por conhecerem os homens e os interesses da colnia estavam nas condies de melhor oriental-o, como foram Mariz Sarmento, Targine, Sylva Feij, naturalista, que muito se occupou das cousas cearenses.
A mais importante creao foi incontestavelmente a da Junta da Real Fazenda, estabelecida a 24 de Janeiro e installada a 1 de Outubro de 1799, para a qual foram nomeados Manoel Leocadio Rademaker, Francisco Bento Maria Targine e Joaquim Ignacio Lopes de Andrade como Juiz dos Feitos, Escrivo e Contador, respectivamente. A Provedoria do Cear desap-pareceu com essa creao. A receita da Real Fazenda foi de 29:3751879 no 1. anno (1800) e a despesa de 40:I33$440.
Outros servios ainda foram por elle levados a ef-


45
feito, por exemplo o estabelecimento de casas para ins-peco do algodo em Fortaleza, Aracaty e Itapag (Acarahu), o assentamento de baterias no porto de Mocuripe, a creao do Corpo de Milicianos, a construc-o de laboratrios chimicos em Fortaleza e na mina de Tajacioca e a reedificao das villas de indios (Arronches, Soure e Messejana).
Entre as suas propostas ao governo da metrpole figura a da navegao directa entre Cear e Lisboa. Uma outra merece registrar-se e a esta igualmente deu lhe razo o futuro : tendo elle aventado a ida de constituir-se o Cear em Capitania General, figura entre os territrios, que segundo o seu plano deviam ser-lhe aunexados, o districto dos Caratius que he contra toda boa razo que seja do Piauhy.
Em seu tempo a povoao de Santo Antnio do Ouvidor foi elevada Villa de S. Bernardo do Governador (S. Bernardo das Russas), sendo installada a 6 de Agosto de 1801,
A esse governador, fallecido de diabetis a 8 de Novembro de 1802 depois de haver servido ao paiz, por mais de 52 annos a comear de soldado no Regimento do Conde Lippe at o elevado posto de Chefe de esquadra effectivo, seguiram-se um governo interino (Ouvidor Silva Coutinho, Capito Jos Henriques Pereira e Antnio Martins Ribeiro, o vereador mais velho); Joo Carlos Augusto de Oeynhausen (de 13 de Novembro de 1803 a 14 de Fevereiro de 1807), descendente dos Tavoras pelo lado materno, o futuro Marquez de Aracaty e Senador pelo Cear na organizao do Senado Brasileiro; um novo Governo Interino (Ouvidor Francisco Affonso Ferreira, 1. Tenente Francisco Xavier torres e o Vigrio Jos Pereira de Castro).
Nomeado por Dec. de 14 de Novembro de 1802, chegou Joo Carlos Capitania ali de Novembro do anno seguinte e tomou posse a 13. Sahira de Lisboa a 7 de Agosto, e aps uma viagem de 59 dias


46
aportara a Recife, onde estacionou um ms a espera de embarcao. De Recife a Mocoripe levou 5 dias.
A' sua energia e a seu tacto deveu-se a priso em S. Pedro de Ibiapina do celebre potentado Manoel Martins Chaves, Coronel do Regimento de Ca-vallaria de Villa Nova d'ffl-Ri, que foi morrer nas prises do Limoeiro, Lisboa, a 27 de Maro de 1808.
No seu tempo foi introduzido no Cear o emprego da vaccina.
Do Cear foi para o governo de Matto Grosso, de que tomou posse a 18 de Novembro de 1807, e nelle se conservou por 11 annos, 1 ms e 21 dias. Foi tambm Capito-General de S. Paulo de 1819 a 1821, sendo deposto a 23 de Junho desse ultimo anno com a creao do Governo Provisrio, que, alis, o ac-clamou presidente. Tomou parte na Bernarda de Francisco Ignacio.
Accompanhou ao 1." Imperador depois do Sete de Abril, o que motivou a perda da curul senatorial. Fal-leceu victimado por febres a 28 de Maio de 1838 em Moambique, para onde fora despachado Governador e Capito-General por C. R. de 22 de Dezembro de 1836. Uma resoluo das Cortes em 1836 permittira que elle readquirisse a nacionalidade Portuguesa.
O 3." governador independente, Luiz Barba Alardo de Menezes, Fidalgo da Casa Real, Cavalleiro de Chris-to e Tenente do Regimento de Cavallaria de Castello Branco, tomou posse da administrao a 21 de Junho de 1808. Foi incontestavelmente um dos governadores a quem mais deveu o Cear. Mereceram-lhe particular atteno os interesses do commercio, que agora iam avultar com a abertura dos Portos Brasileiros s naes extrangeiras facultada pela Carta Regia de 28 de Janeiro de 1808, que tanto recommenda o patriotismo e a habilidade de Silva Lisboa. Nesse sentido auxiliaram-o poderosamente vrios negociantes dinheirosos, como Antnio Jos Moreira Gomes, a quem muito deveu o desenvolvimento do plantio do algodo no Cear, e Loureno da Costa Dourado, de quem foi scio


47
Domingos Jos Martins, natural do Espirito Santo, mais tarde figura proeminente da revoluo de 1817 em Pernambuco.
Outro titulo a recommendar u governo de Barba Alardo foi o patrocnio, que deu aos trabalhos de cermica ; por seu incentivo e com seu favor chegou-se a fabricar aqui em 1809 loua vidrada, reputada igual da Bahia.
Por ordens suas o Capito de Fragata Francisco Antnio Marques Oiraldes fez sondagens e observaes no porto de Fortaleza. No seu tempo procedeu-se ao 1." lanamento da dcima urbana em Fortaleza (22 de Dezembro de 1808), sendo avaliados 159 prdios, que produziram de dcima 236$599, e fez-se o recen-seamento da Capitania, que apurou a existncia de 125.878 habitantes.
A 31 de Maio de 1811 recebeu Barba Alardo com-municao official de haver sido por Carta Regia de 25 de Abril transferido para o governo de Matto Grosso, mas doente teve de ir adiando a partida para o seu novo posto e teve assim de fazer pessoalmente entrega da administrao do Cear ao successor, Manoel Ignacio de Sampaio.
Chegado ao Rio de Janeiro em Outubro de 1812, ahi ficou por ter sido nomeado Conselheiro da Fazenda, deixando assim de ir para Matto Grosso. Na Corte no esqueceu o Cear, antes fel-o mais conhe cido j confeccionando uma Carta Topographica da Capitania, por elle offerecida ao Prncipe Regente c mandada reproduzir pelo Conde das Galveas, j escrevendo uma interessante Memria sobre sua historia, limites, populao, accidentes geographicos etc.
Manoel Ignacio 3e Sampaio, que lhe succedeu, foi o administrador mais intelligente e enrgico que contou a Colnia. Nomeado por Patente Regia de 7 de Maio de 1811, assumiu o governo a 19 de Maro do anno seguinte. Transferido para Goyaz, entregou a 12 de Janeiro de 1820 o governo do Cear a uma Junta composta do Juiz de Fora e Ouvidor Adriano Jos Leal


48
vereador Joaquim Lopes de Abreu e o militar Francisco Xavier Torres, Junta que governou at a chegada de Francisco Alberto Rubim.
For seus servios em Cear e Goyaz teve a merc de um lugar ordinrio de Conselheiro de Capa e Espada no Conselho Ultramarino.
Ao governador Sampaio e ao architecto Silva Pau-let, seu mais intelligente e esforado auxiliar, devem-se a reconstruco da fortaleza de N.a S.a d'Assumpo, o augmento do antigo edifcio da Thesouraria de Fazenda, a construco do mercado publico e de outros edifcios, a abertura e alinhamento de varias ruas de Fortaleza sob o plano, que a faz to apreciada, e em sua administrao comeou a funccionar a Repartio do Correio, foram estabelecidas alfndegas provisrias em Aracaty, Sobral e Granja, e installou-se a alfndega de Fortaleza, creada por Alvar de 24 de Junho de 1810.
Por Alvar de 27 de Junho de 1816 foi creada a nova Comarca do Crato, comprehendendo no seu dis-tricto as villas de Ic, S. Joo do Prncipe, Campo Maior de Quixeramobim, Santo Antnio do Jardim e S. Vicente das Lavras, da qual foi 1. Ouvidor Jos Raymundo do Pao de Porbem Barbosa, empossado a 1.7 de Dezembro de 1817. Ordenou o mesmo Alvar que a villa de Fortaleza passasse a ser cabea da Comarca do Cear em vez de Aquiraz, fossem annexadas ao Juizado de Fora de Fortaleza as villas de Aquiraz, Arronches, Messejana e Soure, ficando supprimidos nellas os logares de Juizes Ordinrios, se creassem logares de juizes de Fora, Civil, Crime e Orphos em Aracaty e Sobral, ficando annexa a aquelle a villa de S. Bernardo e a Sobral as Villas' de Granja, Viosa e Villa Nova d'El-Rei, finalmente que fosse erigida em villa a povoao de S. Vicente Ferrer das Lavras de Mangabeira.
Homem culto, introduziu Sampaio em Fortaleza o uso dos Outeiros e saraus literrios e fez-se crear da pleiade dos que em Fortaleza cultivavam a poesia e a


49
oratria. Foram seus amigos e coliaboradores, salien-tando-se nos certamens literrios, os poetas Jos Pacheco Spinosa, P.e Lino Jos Gonalves de Oliveira, Manoel Correia Leal, Pedro Jos da Costa Barros, Pe. Antnio Castro e Silva.
O acontecimento, todavia, que poz mais em relevo o governo de Sampaio foi o fracasso do movimento republicano de 1817, que se extendendo de Pernambuco tentou attrahir a si o Cear. Preparou os nimos para esse movimento o prprio Ouvidor de ento, o ba-hiano Joo Antnio Rodrigues de Carvalho, e de Pernambuco veio pregal-o e fazel-o explodir o diacono Jos Mar-tiniano de Alencar, que para isso se transportou ao Crato, sede da sua famlia e onde sua influencia manifestava-se incontestvel. A vigilncia e energia de Sampaio, porem, refrearam o movimento e impediram que elle se generalisasse. Alis a priso a 30 de Maro de 1817 do Ouvidor Carvalho, que foi remettido para Lisboa, no arrefeceu o ardor dos conjurados, que tendo a frente Alencar, Tristo Gonalves, seu irmo, e Ignacio Tavares Gondim, a 3 de Maio sublevaram a villa do Crato e proclamaram a Republica. No estava, todavia, com aquella agitao a alma do povo, o movimento era obra to somente de uma famlia, a Alencar, por isso e sobretudo por faltar-lhe o apoio de Jos Pereira Filgueiras, o mais prestigioso chefe poltico da Capitania, teve de ruir por terra o movimento oito dias depois de iniciado, sendo presos os chefes. Sampaio no sacrificou victimas, a victoria do poder constitudo no se manchou no Cear com o sangue dos adversrios, bello exemplo, que Pernambuco no adoptou.
Os irmos Alencares foram remettidos a 12 para Ic e do Ic para Fortaleza. Vinham algemados. Acompanhou-os uma escolta, que do Ic para c era com-mandada pelo Capito Manoel da Cunha Freire Pe-drosa. Chegados a Fortaleza, recebeu-os o estreito ca-labouo do quartel de 1." linha, situado entre a fortaleza e a cadeia do crime. O Vigrio P.c Miguel Car-


50
Ios e D.a Barbara, que se haviam retirado para um sitio nos arrabaldes do Crato, d'ahi passaram-se occul-tamente para suas fazendas no termo do Rio do Peixe, onde os houveram mo a 13 de Junho tropas idas de Ic. D.a Barbara e seus filhos nunca estiveram em mas-morra subterrnea no interior da fortaleza, como quer perpetuar uma placa ali collocada. E' isso um invento do amor ao mysterioso e da sympathia, que gera nas almas o valor infeliz.
Em carta de 20 de Abril dizia Sampaio ao Conde da Barca que emquanto fosse vivo as Quinas Portuguesas haviam de sempre flamular sobre a costa do Cear; Sampaio manteve a palavra, cumpriu o prometti-do : jamais as auras Cearenses beijaram o pavilho branco e azul da Republica.
Os Reus de Inconfidncia, em numero de 25, seguiram por mar para Pernambuco sob a vigilncia de Jos Firmino da Silva, e os respectivos processos foram levados por Antnio Ignacio de Torres Bandeira, que fez delles entrega ao Presidente da Alada a 27 de Julho de 1818.
Transferidos de Recife para Bahia em cujas prises, onde j desde 16 de Abril jaziam o Ouvidor Carvalho e Alves Pontes e desde 27 de Agosto Mathias Jos Pacheco, deram entrada a 9 de Outubro de 1818. Jos Martiniano e seus companheiros tiveram a ventura de encontrar os nimos menos excitados e menos sedentos de vingana, e, como irrompesse a desharmo-nia entre Luiz do Rego e o Presidente da Alada Bernardo Teixeira, veio do Rio de Janeiro ordem para se concjuir de prompto a Devassa e para se entregar Relao da Bahia os presos no innocentes, em cujo numero foram includos.
A Relao da Bahia tendo julgado nulla a monstruosa Devassa em Agosto de 1821, raiou para os pobres martyres o sol da liberdade.
Muitos mezes no eram decorridos, e os acontecimentos davam razo aos sonhadores de uma ptria livre, unida e prospera, e sino todos, porque o des-


51
potismo frreo a alguns fez eternamente mudos no fundo dos crceres, na bocca dos fusis ou s mos do carrasco ignbil, a mor parte delles saudava com o sol do 7 de Setembro na plancie do Ypiranga a aurora de uma nova existncia para a terra Brasileira.
D.a Barbara, includa no perdo de 6 de Fevereiro de 1818 por Aviso de 2 de Outubro de 1820, fora solta por mandado de 17 de Novembro, corno tambm foram postos em liberdade o P.c Carlos Jos e Leonel Pereira de Alencar por Aviso Regio de 2 de Dezembro de 1820, mandado executar a l7porofficio do Conde de Palma ao Dez.or Bernardo Teixeira.
A dois dos implicados no aproveitou mais o perdo, Geraldo Henriques de Mira e Jos Francisco da Silva, de appellido o Petisco ; libertara-os a morte, a este na cadeia da Bahia a 5 de Novembro de 1817 e a aquelle na priso de Fortaleza a 22 do mesmo ms e anno.
Os estudiosos da historia ptria comprazem-se em denominar a Revoluo Pernambucana um acontecimento imprevisto ; inesperado rompimento dil-a o Chefe de Diviso Rodrigo Jos Ferreira Lobo na sua Proclamao de 25 de Abril. No qualificarei assim um movimento poltico e social que vinha ha annos pre-occupando os espritos, que trazia de ha muito interessados os homens de maior illustrao e influencia na Capitania; chamal-o-ei antes extemporneo, precoce, antecipado, ainda no de todo amadurecido. Mas o qualificativo de imprevisto, de inesperado assenta bem e com toda razo no movimento de que o Cariri foi theatro. S o ardor juvenil de Alencar poderia ma-chinal-o e suppor que se lhe reservava o triumpho quando todos os elementos se accordavam em negar-lhe uma efficaz collaborao.
Em Recife havia a ferver o odio entre os militares Europeus c Brasileiros, odio que afinal explodiu devido s prfidas medidas tomadas contra os nacionaes e s apostroplies insolentes c insultuosas usadas por altas patentes da tropa contra officiaes cheios dc patriotismo


52
e pundonor, havia academias onde se discutiam e ensinavam as doutrinas dos Encyclopedistas e clubs e con-venticulos onde se tramava contra o Rei, havia crebros possantes e almas dispostas a todo sacrificio, e tudo isso faltava nos Carirys, terra de habitantes ingnuos, sem instruco, sem aspiraes polticas, sem conscien cia do seu valor prprio, regio onde havia absoluta carncia do mais rudimentar elemento para a effectiva-o de actos de tamanha responsabilidade, onde a alma do povo nem de leve vibrava ida de ser necessria e util a mudana do regimen, onde no se comprehendia o que fosse soberania popular. Soberania popular nos Carirys nos comeos do sculo dezenove Numa palavra o movimento de 17 no Cear foi obra de uma famlia, no interessou as diversas classes sociaes, no foi producto da opinio publica.
Dahi seu rpido destroo dadas as circumstancias em que foi elaborado, dahi o nenhum apoio, que encontrou dentro e fora da Capitania.
Movimento operado em taes condies, sem prvio preparo, sem programma, sem causa econmica para explical-o, sem tropas cuja dedicao estivesse garantida e sem chefes na altura da situao, teria de fracassar fatalmente, succumbir em curto praso de tempo ; planta sem razes, no podia vingar.
ria, entretanto, no movimento Cratense uma cir-cumstancia digna de registro, uma face muito para ser applaudida e admirada :. a Revoluo se fez e se concluiu no Cear por modo incruento, muito differente-inente, portanto, do que occorreu em Pernambuco, onde ella se iniciou sobre os cadveres do Brigadeiro Manoel Joaquim e do Ajudante Alexandre Thomaz e teve a noite do seu triste occaso banhada em ondas de sangue, derramado em combates e refregas e mais tarde pela mo do verdugo.
Isso honra e glorifica os revolucionrios cearenses como tambm a Sampaio, pintado, alis, e injustamente como sanguinrio em todos os escriptos dos seus an-tagonistas.


53
O governador do Cear no foi o tyranno descn-pto na Proclamao aos Cearenses, Povo Brioso.
Explicam-se trechos e conceitos desse documento to somente pelo odio, que acato e comprehendo, despertado contra o nico dos governadores que op-poz barreira intransponvel s novas idas ; mas fora reconhecer que occupando um logar de confiana do Rei, e seu papel sendo zelar por todos os meios pelo deposito de que estava encarregado e intacto en-tregal-o, no teve Sampaio as mos manchadas de sangue ; elle nunca ordenou nem propoz a creao de commisses militares ; si no revelou-se frouxo e inepto como Caetano Pinto, que, apesar da denuncia formal feita a 1 de Maro por Cruz Ferreira e Manoel de Carvalho Medeiros, alcunha de bebedeiras e rapasiadas as demonstraes mais claras e seguras da revoluo em movimento, encurrala-se, timido, no recinto de urna fortaleza, capitula e foge, no foi tambm um Conde dos Arcos, que manda espingardear homens como si fossem lobos e faz fuzilar o infeliz emissrio P.c Roma com requintes de mafvadez para angariar o favor do Rei, suspeitoso de sua fidelidade, e a quem mais tarde por suas traas chegou at a amedrontar.
Isto o que nos ensina a verdade dos factos, em que pese aos sentimentaes.
Sampaio, filiado aos liberaes, tomou parte nas luctas de D. Pedro e D. Miguel e acabou feito 1." Visconde de Lanada, titulo que passou a um dos filhos.
Tem a data de 23 de Dezembro de 1819 a Carta Patente nomeando Francisco Alberto Rubim. Serviu-lhe de secretario Feliciano Jos da Silva Cara-pinima, uma das victimas do movimento de 1824.
Sua posse teve logar a. 13 de Julho de 1820, e Io go em Abril de 182.1 comearam as inquietaes suscitadas pelo momento poltico em que se encontravam a metrpole e a colnia.
No dia 14 desse ms a tropa de linha, tendo fren te o commandante Jeronymo Delgado Esteves, occupou pela madrugada com um parque de artilharia a praa do


54
palcio e fez exigncias a Rubim. O governador cedeu s exigncias. Mais tarde cerca-lhe as attribuies a creao de um Conselho Consultivo, medida que, entretanto, foi mal recebida do povo. Desenrolam-se em Crato e Ic srios acontecimentos de ordem publica deante dos quaes Rubim se sente timorato e impotente, e antes do fim do anno elle deposto e. ins-tallado uin Governo Provisrio sob a presidncia de Francisco Xavier Torres (3 de Novembro).
Cerrou-se com Rubim a serie dos Governadores.
Havendo um Decreto de 29 de Setembro estabelecido nas Capitanias Juntas Governativas, para isso a 15 de Janeiro de 1822 procedeu-se em Fortaleza respectiva eleio, ficando eleitos Porbem Barbosa, Jos de Castro Silva, Francisco Gonalves Ferreira de Magalhes, Mariauo Gomes e Jos de Agrella Jardim.
Contra essa Junta por sua vez rebellou-se a 16 de Outubro o Collegio Eleitoral reunido na Casa do Conselho do Ic, e foi organizado novo governo francamente nacional, falando e tudo resolvendo em nome de S. M. o Prncipe Regente e Defensor Perpetuo do Brasil. Obrigados pelas foras, que do Ic vieram sobre Fortaleza, demittiram-se Porbem Barbosa e os companheiros. Desse movimento, que era o triumpho dos nacionalistas sobre o poderoso elemento europeu, foram alma Jos Pereira Filgueiras e Tristo Gonalves, o agitador de 17, os mesmos que no anno seguinte tomaram a si a tarefa da Independncia do Piauhy e Maranho. S a 17 de Novembro chegou Fortaleza a noticia da acclamao de D. Pedro como Imperador.
Serenados os nimos, a 24 de Novembro foi jurada em Fortaleza a Independncia e a 29 de Dezembro sahiram das urnas os nomes dos que tinham de representar a Provncia nas Cortes do Imprio e foram : Costa Barros, Alencar, Xavier Sobreira, Rodrigues dc Carvalho, Jos Mariano, Pe. M. Ribeiro Bcssa de Hol-landa Cavalcanti e Pe. Antnio Manoel de Sousa.
Sciente dos acontecimentos que sc desenrolaram em Parnahyba, declarada a 19 de Outubro dc 1822


55
liberta do jugo Portugus graas aos manejos patriticos do Dr. Joo Cndido de Deus e Silva e do Cel. Simplicio Dias da Silva, Cunha Fidi, commandante das tropas Portuguesas com sede em Oeiras, seguiu para ali a pr um freio agitao e a capturar os principaes implicados nella, mas no encontrou Joo Cndido, que este e demais patriotas se haviam passado para o Cear, j independente.
Ausente Fidi, insurge-se Oeiras, cujo pronunciamento se acclamava victorioso a 24 de Janeiro de 1823. Regressa Fidi, entra em Piracuruca, tambm insurgida, marcha para Campo Maior em cujas imme-diaes, no logar Oenipapo, destroa as foras de Alexandre Nery, Torres e Bernardo Antnio, as quaes sem disciplina nem tactica, sem armas nem munies, ainda assim se bateram por mais de tres horas. Foices e machados no poderiam resistir a boceas de fogo e a munies em larga cpia. Aos Portugueses custou a victoria cerca de cem baixas e a perda de grande parte da sua bagagem de guerra.
Por alastrar-se em todo o Piauhy o incndio da revolta, Fidi deixou Campo Orande, acampou em Estanhado, hoje Unio, atravessou o Parnahyba e foi 'se fazer forte em Caxias, onde entrou a 17 de Abril.
O Cear, j gozando de liberdade, apressou-se em assegural-a s Provncias, suas vizinhas, que Ih'a pediam, e assentou ento a Junta Provisria que partisse para o Piauhy uma expedio sob o commando do governador das armas Jos Pereira Filgueiras, o capito-mr dos Aracatys, e do 1. vogai do governo Tristo Gonalves, a illustre victima sacrificada mais tarde em Santa Rosa.
No podia ter melhores chefes o exercito libertador e pacificador.
Dos crditos de Filgueiras perante o Governo Imperial um attestado a Carta de 16 de Abril de 1823 em que se lhe confia a misso de libertar a escravizada Provncia do Maranho. A Carta foi encontral-o


56
j empenhado nessa tarefa patritica. Do valor.de Tristo Gonalves falam alto os acontecimentos de 17 e 24.
A Portaria da Junta do Governo, delegando aos dois chefes todos os poderes, civis e militares, traz a data de 24 de Maro e no mesmo dia poz-se em marcha a expedio, marcando-se a villa do Crato para ponto de reunio das foras que fossem sendo organizadas nos vrios pontos da Provncia. A 30 estava a expedio em Aquiraz, a 4 de Abril em Aracaty, a 20 em Ic, a 27 em Lavras, a 5 de Maio no Crato onde como em Aracaty e Ic, em reunio das pessoas mais importantes a palavra ardente de Tristo Gonalves conseguiu obter donativos para as despezas da cam panha.
A 27 de Maio partiram os expedicionrios para Vrzea da Vacca, ponto de concentrao das foras, e formado o exercito libertador com cerca de 6000 homens tomou em comeo de Junho caminho de Caxias.
Durante o decurso desse tempo foi preciso que Filgueiras e Tristo lanassem mo de medidas de rigor para intimidar e inutilizar conluios e faces, que intentavam enfraquecer e annular a aco dos ptrio tas, mormente em Crato, Lavras e Jardim.
Chegado a Caxias, o exercito pl-a em apertado cerco. Fidi no podia resistir. De accordo com elle, que deixara a chefia das foras, e com os Camaristas, o commandante geral Luiz Manoel de Mesquita pro-poz a cessao das hostilidades e a nomeao de emissrios para resolverem acerca da entrega da villa. Foi isso a 28 de Julho, dia em que a nau de Lord Co-chrane aportava a S. Luiz. Nenhuma influencia, portanto, teve a chegada do celebre Almirante sobre a capitulao de Caxias.
Impostos artigos rigorosos para a rendio dentro do prazo de seis horas, aos quaes quiz fugir, de balde, o commandante Portugus, capitulou Caxias a 1 de Agosto entrando nella no mesmo dia as foras sitiantes. Aps ruidosas festas nos dias 2 e 3, teve logar a 6 a eleio de uma nova Cmara e a 7 com grande


57
solemnidade procedeu-sc ao Juramento da Independncia e de Fidelidade ao Imperador D. Pedro 1.
Escreveu Pereira da Silva na sua Historia da Fundao do Imprio que as localidades do Maranho iam se libertando a medida que lhes iam chegando as noticias da rendio da Capital; no isso verdade; quando Cochrane apresentou-se no porto de S. Luiz todo o Maranho estava em poder dos independentes, excepto a Capital e Alcntara.
Despedidas as tropas, depois de pagos os soldos com as contribuies impostas aos habitantes de So Luiz e Caxias segundo o assentado na Conveno, serenados os nimos e j de todo brasileiro aquelle trecho do paiz, volveram os dois heroes ao Cear entre os hosannas e bnos da Ptria agradecida.
A um e outro daria o destino em futuro bem prximo largo quinho de lances sangrentos e de oppro-brios immerecidos com remate em S. Rosa e S. Romo.
Entre os prisioneiros, que a 5 de Novembro entraram em Oeiras estava Joo Jos da Cunha Fidi, que foi recolhido ao Estado Maior do 1." Batalho de Linha e depois de trs meses de deteno seguiu por terra para a Bahia. Chegado a Bahia a 9 de Abril, foi recolhido ao Forte do Mar, donde foi retirado a 5 do ms seguinte para dar entrada na fortaleza de Villega-gnon no Rio de Janeiro.
Tornado o Brasil independente, foi creada a administrao provincial pela Lei de 20 de Outubro de 1823 com um Presidente, de nomeao Imperial, e um Conselho chamado do Governo. Em 1824 com a nova Constituio foram' creados os Conselhos Geraes de Provncia.
A 14 de Abril de 1824 chegou a Fortaleza Pedro Jos da Costa Barros, 1 .u Presidente do Cear, nomeado por Carta Imperial de 25 de Novembro de 1823. Vinha encontrar a Provncia agitada, os nimos exaltados por motivo da dissoluo da Cmara e outhorga de uma Constituio, que no satisfazia as aspiraes e desejos da Nao, mesmo to exaltados que j a 9


58
de Janeiro o povo de Quixeramobim declarava decada a Dyuastia e proclamada a Republica.
Accordaram, diz a acta da respectiva sesso, que visto a horrorosa perfdia de D. Pedro 1 Imperador do Brasil banindo fora armada as Cortes convocadas no Rio de Janeiro contra mil protestos firmados pela sua prpria mo elle deixava e a sua Dinastia de ser o supremo Chefe da Nao e que cessando a Dinastia de Bragana de ser o l.0 Chefe da Nao protes to firmar uma Republica estvel e liberal, que defenda os seus direitos com excluso de outra qualquer famlia.
Entre os nomes dos primeiros signatrios da Acta se encontra o do P.e Gonalo Moror. Comeara elle a subir os degraus do patibulo. A aquellas deliberaes dos Quixeramobinenses referem-se Constando na sua Historia do Brasil e Frei Caneca no Typhis Pernambucano .
At mesmo o governo Provisrio se dirigira ao Imperador a 31 de Maro matufestando-lhe o indisivel desprazer com que o Cear recebera a noticia da dissoluo da Constituinte. A representao terminava pedindo a liberdade do deputado Cypriauo Jos Barata e de outros Brasileiros ento presos.
Difficil, conseguintemente, se antolhava a Costa Barros o desempenho de sua misso no Cear.
Era bem de ver que frente de qualquer movimento na Provncia haviam de avultar as figuras de Pereira Filgueiras e Tristo Gonalves, cuja valia crescera entre o povo pelos triumphos, que haviam colhido na campanha contra Fidi, campanha que, segundo ficou dito, assegurara a Independncia nas provncias do Maranho e Piauhy. A 29 do citado mez de Abril era deposto o Presidente por Filgueiras em reunio do povo nos Paos da Cmara e escolhido Tristo Gonalves para substituil-o. Tres dias antes j se havia dado a priso e deportao das pessoas mais gradas de Fortaleza, entre as quaes o Ouvidor Marcellino de Britto, o capito-mr Joaquim Jos Barbosa e os sar-


59
geutos-mores Joo Facundo de Castro Menezes, )ero-nymo Delgado Esteves e Jos Narciso Xavier Torres.
Referindo-se a esses acontecimentos diz Caldeira Brnut, o futuro Marquez de Barbacena, em' carta a Telles da Silva, Marquez de Rezende : Um sertanejo Filgueiras, que no sabe ler mas tem pacto com o Diabo em conseqncia que no lhe entra chumbo, uniu-se a Carvalho e mandou o presidente para o Rio.
Em tal situao dos espritos tudo conspirava para uma formal revolta contra o governo do Rio de Janeiro e seus delegados na Provncia. Para servir de velculo reaco j havia o Dirio do Governo do Cear, surgido a 1. de Abril e a cuja frente se col-locou o Pe. Qonalo Moror. Chegara pela escuna de guerra Maria Zeferina o material typographico para esse jornal, que foi o primeiro que o Cear teve. Re-mettera-o de Pernambuco Paes de Andrade.
S trs annos e meio depois de publicado o Dirio do Governo do Cear foi que surgiu no Rio de Janeiro o Jornal do Commercio (1." de Outubro de 1827), o mais importante representante da Imprensa na America do Sul.
Mais que qualquer outra Provincia Nortista era o Cear theatro de effrvescencia, muito concorrendo para ella a chegada dos emissrios Diogo Gomes e Alves Pontes, as reclamaes de Tristo Gonalves e seus decretos 'privando os Europeus dos cargos civis e militares, a repulsa da Constituio pelas Cmaras de Quixeramobim e Ic, a entrada em Fortaleza do brigue Inglez Helen, carregado de armas e munies, nenhum terreno, pois, se achava em condies melhores para germinar e fructificar o movimento./ .
A 2 de Julho Raes de Andrade proclama' em Recife a Confederao do Equador, constituda pelas seis Provncias: Pernambuco, Alagoas, Parahyba, Rio Grande, Cear e Piauhy; a 26. de Agosto o Cear' declara-se abertamente pela Republica em reunio de 405 eleitores, com assistncia das Cmaras de Fortaleza, A-quiraz e Messejana e procuradores das demais Cama-


60
ras. Presidiu a memorvel sesso Tristo Gonalves, secretariado pelo Pe. Moror.'
De existncia um pouco mais longa que a de 1817, a revolta de 1824 no logrou ir alem de 18 de Outubro. Tristo Gonalves, enthusiasta e crente na vic-toria da caUsa que esposara, havia partido para Aracaty a dar combate aos adversrios e ficara a substi-tuil-o no governo Jos Felix de Azevedo e S, mas este, escravo do medo, sob as ameaas de Lord Cochrane, que se apresentara deante da cidade a 17 de Outubro, entregou-se-lhe sem um protesto e fez a contra-revol-ta. Por toda parte reergue-se agora a bandeira Imperial, a populao logra acalmar-se mais um pouco com a segurana da amnistia garantida pelo Almirante mesmo aos chefes, aos mais implicados no movimento, ex-ceptuado Tristo Gonalves.
O animo de Tristo Gonalves, todavia, no comporta traies nem pactos com os adversrios e tenta elle ento a sorte das armas; no lhe sorriu a fortuna e a 31 de Outubro em S. Rosa, abandonado dos seus, batido e trucidado. Commandavam as foras impe-rialistas Manoel Antnio de Amorim e Jos Leo da Cunha.
A 14 de Setembro Jos Felix assim comeava uma Proclamao : Cearenses! Boatos aterradores vos tem posto em desconfiana a respeito da ida do Exm." Presidente do Governo, o immortal Araripe, a villa do Aracaty, cuja digresso foi unicamente para pacificar espritos inquietos e allucinados pelos inimigos da ba ordem e igualmente para dar as providencias de cautelas no caso de invaso de inimigos e a 18 de Janeiro seguinte, antes de decorridos, portanto, 4 mezes, na petio de Venceslau Alves de Almeida, que requeria a paga de haver morto Tristo Gonalves, lanava este despacho: Si o supplicante matou a Tristo por espirito de patriotismo, deve estar muito satisfeito por ter livrado a ptria daquelle monstro, si o matou pela paga, exija-a de quem a prometteo.
Esses dous documentos, attestadores das ruins pai-


61
xes daquella epocha de iucta fratricida, pertencem ao pequeno numero dos escapos ao fogo em que todos deveriam ser consumidos segundo Portaria de 14 de Novembro de 24 firmada por Jos Felix. Para castigo dos animas fracos e desleaes, de que elle um exemplo, foram guardados para vcredictum da posteridade resqucios da nodoa que o espirito de vertigem derramou na fidelidade dos Cearenses, no ficaram em silencio os desvarios de cabeas esquentadas, de todo no se apagou a tristissima luz daquelles tempos luctuosos.
O outro chefe, Jos Pereira Filgueiras, que havia seguido com quasi toda tropa de l.a linha para o interior da Provncia, depois de vrios encontros com as tropas legaes, sobretudo no Rio do Peixe e em Misso Velha, tendo a noticia da morte de Tristo rendeu-se ao Capito Reinaldo de Arajo. Preso, teve de seguir para o Rio de Janeiro e em caminho falleceu, victimado por febre typhica, na villa de S. Romo, provncia de Minas Qeraes.
A 17 de Dezembro Jos Felix fazia entrega do governo da Provncia a Costa Barros, chegado de Pernambuco no dia anterior.
Estava concludo o drama sombrio, outro no menos doloroso ia agora iniciar-se, o da vingana fria e meditada dos tribunaes militares.
Por Decreto de 5 de Outubro ficara extensiva ao Cear a Commisso Militar destinada a julgar summa-riamente as pessoas implicadas na Republica do Equador, creada por Dec. de 26 e C. I. de 27 de Julho. Para o Cear compoz-se esse tribunal de sangue de Conrado Jacob de Niemeyer, presidente, Moraes Mayer, relator, Queiroz Carreira, Cabral de Teive, Sabino Monteiro e Joo Bloem, vogaes, nomeados a 16 de Dezembro^ ,;r ........
Entre os monstros, como da phrase do odiento Costa Barros, sobre os quaes ia se fazer o julgamento, figuravam o P.e Oonalo Moror, Joo de Andrade Pessoa Anta, Francisco Miguel Pereira Ibiapina, Feli-ciano Jos da Silva Carapinima e Luis Ignacio de A-


62
zevedo por alcunha Bolo. No eram cearenses Ca-rapinima e Bolo; aquelle nascera em Minas Qeraes e este na Bahia.
Estavam todos cinco prejulgados. Tinha de ouvir-lhes de perto o estertor da agonia Jos Felix, de novo na administrao da Provncia, que Costa Barros deixara por ter sido removido para a do Maranho.
A 22 de Abril de 1825 deu-se comeo aos trabalhos da Commisso Militar e a 30 eram executados o P.e Moror e Pessoa Anta e a 7, 16 e 28 de Maio suecessi vmente Ibiapina, Bolo e Carapinima. Tirou-lhes a vida o fusil da soldadesca pr no haver preso de justia que servisse de carrasco. A Commisso hvia-os coudemnado pena vil do enforcamento !
O cho do Campo da Plvora, hoje Praa dos Martyres, em Fortaleza, ensopou-se no sangue generoso dos cinco patriotas. De nada lhes valera a am-nistia concedida por Cochrane; o Aviso de 22 de Fevereiro dissera clara e positivamente : Esto dadas todas as ordens para serem julgados e castigados os reos da abominvel revoluo sem que possa valer-lhes o perdo offerecido pelo Sr. almirante, que' para isso no estava auctorisado nem o podia estar quando a causa ultrajada era toda nacional.
As sentenas de morte proferidas contra Frei Alexandre da Purificao, Antnio Bezerra de Souza e Menezes e Jos Ferreira de Menezes foram commuta-das em degredo.
Bem arredio, pois, da verdade andou Carlos Sei-dler, pelo menos quanto ao Cear, affirmando que a Confederao do Equador foi insignificante movimento revolucionrio, que mal chegou a se pronunciar. Protestam contra a assero a acta da grande reunio de 26 de Agosto, o sacrifcio de Santa Rosa, os quadros trgicos do Campo da Plvora.
Conrado J. de Niemeyer, nascido em Lisboa em 1788, veio a fallecer no Rio de Janeiro a 14 de Fevereiro de 1862.
A Jos Felix substituiu no governo a 4 de Feve-


63
reiro de 1826 Antnio de Salles Nunes Berford. Exonerado a 17 de Setembro de 1828, passou a administrao a 2 de Janeiro de 1829 ao Vice-presidente Ccl Jos Antnio Machado.
No seu tempo foram escolhidos os quatro Senadores com que o Cear devia concorrer para a organizao do Senado Brasileiro, a saber: Pedro Jos da Costa Barros, Joo Carlos Augusto de Oeynhausen, Joo Antnio Rodrigues de Carvalho e o P.e Domingos da Moita Teixeira, vigrio de Ic e irmo do celebre Juiz Bernardo Teixeira. Este ultimo renunciou o logar antes de tomar assento, o que deu ensejo escolha do Conde, depois Marquez de Lages, apezar de ser o menos votado da lista. A renuncia foi acceita pelo Senado a 20 de Setembro de 1827.
A Nunes Berford suecedeu na presidncia Manoel Joaquim Pereira da Silva, nomeado por C. I. de 29 de Fevereiro de 1829, em cuja administrao se deram pronunciamentos Columnistas em que estiveram envolvidos Moraes Mayer, sanguinrio juiz da Commisso Militar c depois Ouvidor da Comarca do Crato, e Alberto Pa-troni, de muitos servios causa do Brasil na quadra da Independncia, celebre pela sua muita erudio e grande talento aluados a pouco bom senso, e foi installado o Conselho Geral da Provncia, cujo orgam na Imprensa, Dirio do Conselho Geral da Provncia do Cear, appareceu a 19 de Dezembro de 1829, e a Pereira da Silva Jos Mariano de Albuquerque Cavalcanti, nomeado porC. I.de29 de Agosto de 1831, em cuja administrao teve logar a execuo do Cdigo do Processo, foi montada a Alfndega, creada a Thesouraria, depois The-souro Provincial, melhorado o servio dos correios e finalmente convertida a Junta da Fazenda em Thesouraria geral.
< A ceremonia da installao do 1. Conselho Geral da Provncia, creado em virtude do Decreto de 26 de Maro dc 1824, teve logar a 1 de Dezembro dc 1829, estando a ella presentes onze conselheiros, com o com-parecimento do presidente.Pereira da Silva. Continuou


64
a funccionar at 1834, quando desappareceu ex-vi do Acto Addicional.
Segundo o Art. l. do dito Acto substituram aos Conselhos as Assemblas Legislativas Provinciaes, sendo a do Cear insta liada a 7 de Abril de 1835. A Mesa effedtiva da l.a Assembla foi constituda pelo Ca-pito-mor Joaquim Jos Barbosa, presidente, Joo Fa-cundo, vice-presidente, P.e Carlos Augusto Peixoto de Alencar, secretario, e Jos de Castro e Silva Jnior, supplertte. Em homenagem a esse acontecimento o Pu-blicador Cearense passou a chamar-se Correio d'As-sembla.
Acontecimento de importncia assignalou tambm o governo de Jos Mariano, a campanha de Joaquim Pinto Madeira, iniciada a 14 de Dezembro de 1831.
Victoriosa a sedio militar de 7 de Abril de 1831, principiaram a apparecer movimentos no interior da Provncia, logo depois transformados em completa re-bellio. A frente do movimento collocaram-se Pinto Madeira e Antnio Manoel de Souza, o benze-cacete, vigrio de Jardim. Pinto Madeira era desde muito tempo a figura saliente da sociedade secreta Columua do Throno.
Depois de muitos encontros, com sorte varia, entre os quaes o combate de 4 de Abril de 1832, o mais sanguiholento que o Cear viu, Pinto Madeira e o P.e Antnio Manoel entregaram-se (12 de Outubro) com cerca de 1000 partidrios em Correntinho ao Brigadeiro Pedro Labatut, vindo Provncia com uma fora expedicionria por ordem' da Regncia.
Conseguido esse brilhante resultado, sem ter derramado uma s gotta de sangue o illustre militar em Abril de 1833 embarcou com seus companheiros para Pernambuco no brigue Irmo Segundo.
Labatut era natural de Marseille, Frana, e esteve presente grande batalha de Waterloo.
Depois de longa serie de terriveis provaes e martyrios, depois de haver vagado de cada em ca-da, desde Pernambuco at Maranho, Pinto Madeira


65
foi remettido para o Crato, antro dos seus mais ferrenhos inimigos, e submettido a julgamento pelo jury foi condemnado morte, esquecidas todas as formalidades legaes, e fusilado.
O vigrio Antnio Manoel, tendo ficado enfermo no Maranho, s em 1836 veio para o Cear e no anno seguinte submettido ao jury foi absolvido.
O assassinato jurdico de Pinto Madeira teve logar j quando Alencar governava a Provncia.
A Jos Mariano, eleito deputado, succedeu Ignacio Corra de Vasconcellos, natural de Santo, Amaro na Bahia, e que fora commandante das armas no Maranho em 1831 e no Par em 1833. Este passou a administrao a 6 de Outubro de 1834 ao Senador Jos Martinia-no de Alencar, nomeado a 23 de Agosto, embarcou se para o Rio de Janeiro a 19 de Outubro,
Na administrao Alencar foi installada a l.a As-sembla Provincial, construdas diversas obras de interesse publico, creado um banco e iniciada a infroduc-o de colonos extrangeiros.
O 8.0, 9.'J e 10. presidentes foram Manoel Felizardo de Souza e Mello, mais tarde encarregado da pasta da Agricultura por occasio da sua creao a 28 de Julho de 1860, Joo Antnio de Miranda e Francisco de Souza Martins, nomeados por Cartas Imperiaes de 16 de Outubro de 1837, 20 de Dezembro de 1838 e 18 de Dezembro de 1839, respectivamente. Foram tres administraes occupadas meramente na montagem da politica conservadora em perseguies aos adversrios.
Tendo sido Souza Martins exonerado por Dec. de 5 de Agosto de 1840, e deixado o Cear em demanda de Oeiras, Piauhy, para tomar conta de sua vara de direito, assumiu o governo o vice-presidente Joo Fa-cundo de Castro Menezes como representante do governo da Maioridade. Foi um dos seus acts fazer publicar o Vinte Tres de Julho como recordao da data da subida dos liberaes ao poder.
A posse do presidente effectivo, Senador Alencar,


66
effectuou-se a 2U de Outubro de 1840. Sendo de curta durao a victoria dos liberaes, teve elle de acompanhar a sorte do ministrio da Maioridade, de que era delegado na Provncia.
Um dos/seus servios causa publica constituiu cm haver esmagado as revoltas apparecidas em algumas localidades, nomeadamente em Sobral.
Com a subida do gabinete Villela Barbosa e a exonerao de Alencar, a 6 de Abril assumiu de novo a administrao o Major Joo Facundo de Castro Menezes. A 9 de Maio deu-se a posse do representante do credo poltico victorioso, o Brigadeiro Jos Joaquim Coelho, portugus naturalizado, mais tarde Baro da Victoria. Serviu-lhe de mentor Anselmo Francisco P.e-retti, de quem muito se oecupou o Senador Costa Ferreira. Em seu governo foi barbara e traioeiramente assassinado na noite de 8 de Dezembro de 1841 o Major Joo Facundo, o chefe do partido liberal da Provncia, seguindo-se a esse crime a mais atroz perseguio aos membros da famlia do morto e seus correligionrios.
Em continuao a Coelho vieram administrar a Provncia : o Brigadeiro Jos Maria Bitancourt, nomeado a 12 de Janeiro de 1843, que sanecionou a Lei n. 304 de 15 de Julho de 1844 creando um Lyceu em Fortaleza; C.el Ignacio Corra de Vasconcellos, falle-cido na Bahia, donde era filho,'a 14'de Dezembro dc 1859, que presidiu a installao a 19 de Outubro de 1845 do Lyceu Cearense e teve nesse mesmo armo de enfrentar as difficuldades oriundas de uma secca em que, morreram a fome centenas de pessoas ; Casimiro Jos de Moraes Sarmento, que foi deputado geral pelo Rio Grande do,Norte, em cujo tempo iniciou-se em Fortaleza a illuminao publica servida por lampees akerosene e procedeu-se beno do Cemitrio; mandado construir no morro Croata ; Fausto Augusto de Aguiar, nomeado por C. I. de 5 de Abril de 1858; Ignacio Francisco Silveira da Motta, mais tarde agraciado com o titulo de Baro dc Villa Franca por ser-


67
vios prestados lavoura ; Joaquim Marcos de Almeida Rego, de bons servios na epidemia de febre ama-rella, que assaltou vrias localidades da Provncia ; Joaquim Villela de Castro Tavares, exonerado por C. I. de 12 de Janeiro de 1854, e P.c Vicente Pires da Motta, em cuja administrao foram concludas as obras da S Cathedral de Fortaleza, construdos o palcio do Governo e o quartel da Ia linha, melhorada a egreja do Rosrio e concluda a de S. Bernardo em Fortaleza.
Ainda no tempo do P.e Pires d Motta foi expedida por Pio IX a Bulla Pro animarum salute, de 6 de Junho de 1854, 'approvando a creao do Bispado do Cear, desmembrado do de Pernambuco.
Succederam a Pires da Motta : Francisco Xavier Paes Barreto, Ministro do Extrangeiro em 1864 e poucos dias depois senador por Pernambuco, sua provncia natal; Joo Silveira de Sousa em cujo tempo veio ao Cear a Commisso Scientifica, da qual faziam parte os Freire Allemo, Capanema, Lagos e Gonalves Dias ; Antnio Marcellino Nunes Conalves (Visconde de S. Luiz do Maranho em 1888), o installador da Santa Casa de Misericrdia de Fortaleza ; Manoel Antnio Duarte de Azevedo, que foi Ministro da Justia e da Marinha, e no actual regimen Presidente do Senado Paulista ; Jos Bento da Cunha Figueredo J.or; Lafayette Rodrigues Pereira, o iucentivador dos bata talhes de hericos voluntrios, que foram ao Para-guay desaggravar a honra nacional; Francisco Ignacio Marcondes Homem de Mello, o futuro Baro Homem de Mello, o conhecido geographo; Joo de Souza Mello e Alvim, nomeado por C. I. de 22 de Setembro de 1866, que, eleito deputado geral por sua Provncia (S. Catharina) entregou o governo ao vice-presidente Dr. Sebastio Gonalves da Silva, e Pedro Leo Velloso, nomeado a 29 de Setembro de 1867, que em 1878 foi escolhido Senador pela Bahia, em 1881 administrou pela segunda vez o Cear e em 1882 occupou a pasta do Imprio no Ministrio Paranagu.
Com a asceno do partido conservador! vieram


68
administrar o Cear Diogo Velho Cavalcanti de Albuquerque, Parahybano, que foi mais tarde Visconde de Cavalcanti (27 de Agosto de 1868); Joo Antnio de Arajo Freitas Henriques (26 de Julho de 1869); Jos Fernandes da Costa Pereira (20 de Janeiro de 1871); o Baro de Taquary, Jos Antnio de Calasans Rodrigues (29 de Junho de 1871); Joo Wilkens de Mattos, Baro de Mauraiu (12 de Janeiro de 1872), em cujo tempo teve logar a inaugurao dos trabalhos d Estrada de Ferro de Baturit ; Francisco de Assis Oliveira Maciel (7 de Dezembro de 1872); Francisco Teixeira de S (13 de Novembro de 1873), em cujo tempo ins-lallou-se o Tribunal da Relao do districto, creado pelo Dec. n. 2342 de 6 de Agosto de 1873 ; Heraclito de Alencastro Pereira da Graa (23 de Outubro de 1874); Francisco de Farias Lemos (22 de Maro de 1876); Caetano Estellita Cavalcante Pessoa (10 de Janeiro de 1877) e Joo Jos Ferreira de Aguiar (23 de Novembro de 1877), a quem coube enfrentar o inicio da maior das seccas que tem affligido o Cear.
O Dr. Jos Jlio de Albuquerque Barros, que foi tambm presidente do Rio Grande do Sul e mereceu ser galardoado com o titulo de Baro de Sobral, foi o primeiro da serie dos presidentes liberaes. Seus servios na secca de 1878-79 esto acima de todo o elogio. Governou de 8 de Maro de 1878 a 2 de Julho de 1880, quando o substituiu Andr Augusto de Padua Fleury, em cuja administrao foi executada a Lei Saraiva para o pleito eleitoral e se inaugurou o telegra-pho no Cear.
Exonerado Andr Fleury por C. I. de 26 de Fevereiro de 1881, tomou posse do cargo a 1 de Abril Pedro Leo Veloso, sendo em seu tempo, a 30 de Agosto, que os jangadeiros fecharam o porto de 'Fortaleza saida de escravos. Esse ms de Agosto de 1881 assiguala ainda outros factos notveis na historia do abolicionismo : a 5 o presidente Leo Velloso mandou executar a Lei n. 1937, que sujeitava taxa de um conto de reis todo escravo entrado na Provncia, e


69
a 10 o deputado Jlio Csar da Fonseca F." indicou Assembla Provincial que se representasse aos poderes geraes sobre a necessidade da abolio immediata, definitiva e radical da escravatura como meio de desenvolver o espirito do progresso, satisfazendo o direito, a justia e a mais legitima aspirao do paiz e conciliando os interesses das raas pelo regimen do traba lho livre.
A campanha anti-escravagista, em que com tamanho brilho e efficacia collaborou a mulher Cearense e tanto se salientaram as associaes Libertadora Cearense e Centro Abolicionista, teve seu termino glorioso- a 25 de Maro de 1884, j na administrao Saty-ro Dias.
A Leo Velloso suecederam Sancho de Barros Pimentel (22 de Maro de 1882); Domingos Antnio Rayol, Baro de Quajar (12 de Dezembro de 1882), que governou tambm Alagoas e So Paulo e em cuja administrao se deu a redempo dos escravos de Acarape(10 de Janeiro de 1883), o primeiro municpio do Brasil, que se libertou de tal mancha; Satyro dz Oliveira Dias (21 de Agosto de 1883), que anteriormente fora presidente do Amazonas e Rio rande do Norte e teve a ventura de ver realizada na sua administrao a 25 de Maro de 1884 a total libertao dos escravos da Provncia; Carlos Honorio Benedicto Ottoni (12 de Julho de 1884), em cujo tempo foram inauguradas as Obras do Porto de Fortaleza, mandado construir em virtude do contracto celebrado a 5 de Maio de 1883 com Toblas Lauriano Figueira de Mello e Ricardo Lange; Sinval Odorico de Moura, natural de Caxias no Maranho (19 de Fevereiro de 1885); Mi guel Calmon du Pin e Almeida (1 de Outubro de 1885), fallecido a 30 de Dezembro de 1886 como presidente do Rio Grande do Sul; Joaquim da Costa Barradas (9 de Abril dc 188), que no actual regimen o.c-cupou ura dos logares do Supremo Tribunal de Justia; Enas de Arajo Torreo, modelo dc honestidade (21 de Setembro de 1886); Antnio Caio da Silva


70
Prado, intelligencia lcida, tempera combativa (21 de Abril de 1888); Henrique Francisco de vila (10 de Julho de 1889) e Jeronymo Rodrigues de Moraes Jardim (11 de Outubro de 1889). A Carta Imperial de nomeao do Coronel Moraes Jardim, a ultima. para o Cear, traz a data de 11 de Setembro.
A 16 de Novembro a officialidade do 11." Batalho, o corpo docente e alumnos da Escola Militar e ofiiciaes da Armada havendo adherido ao movimento revolucionrio rebentado no Rio de Janeiro no dia anterior, Moraes Jardim convida para uma reunio em palcio os offieiaes de mar e terra, chefes polticos, chefes das diversas reparties, expe-lhes os acontecimentos, que esto se desenrolando no Rio de Janeiro, manifesta a gravidade delles, e sendo convidado para adherir ao movimento pede um praso para reflectir, Um grupo de moos, precedidos de uma bandeira vermelha, arranca as placas das duas ruas Conde d'Eu e D. Pedro, substituindo o nome do prncipe pelo de Senna Madureira. Faz-se no Passeio Publico um me-eting popular e ahi ficam assentadas a deposio do presidente e a sua substituio no governo pelo Tenente-coronel commandante do 11." Batalho, Luiz Antnio Ferraz. E' invadido o palcio da presidncia e o Major Manoel Bezerra declara a destituio do presidente com as seguintes palavras: Coronel Jardim, o povo e a tropa de mar e terra, reunidos na praa publica, acabam de acclamar governador do Estado Livre do Cear o cidado Coronel Luiz Antnio Ferraz. O Coronel Moraes Jardim sobe a uma cadeira e commovido at as lagrimas declara ceder coaco.
No regimen republicano tem administrado o Cear os seguintes presidentes:
1. Tenente-coronel Luiz Antnio Ferraz- 1889-1891.
Acceita pelas foras armadas a 16 de Novembro de 889 a forma de governo republicano, foi o Coronel Ferraz proclamado chefe do Poder Executivo no


71
Estado do Cear e empossando-se do cargo nomeou para auxilial-o uma commisso composta de Joo Cordeiro, Manoel Bezerra de Albuquerque, Joo Lopes Ferreira Filho, Joaquim Catunda, Jos Freire Bizerril Fontenelle, Alexandre Jos Barbosa Lima e Jos Tho-maz Lobato de Castro. A 1 de Dezembro declarou-se em exerccio por nomeao do Governo Federal.
Serviu-lhe de Chefe de Policia o Dr. Custodio Alves dos Santos at 25 de Janeiro de 1890 quando julgado sem effeito o Decreto, que o nomeara, assumiu o logar o Dr. Jos Carlos da Costa Ribeiro Jnior.
Atacado de grave enfermidade, embarcou para Pernambuco a 11 de Janeiro de 1891, assumindo a 22 a administrao o Major Benjamin Liberato Barroso, nomeado Vice-governador por Decreto de 10 de Janeiro, e ali falleceu a 22 do dito ms.
Em seu tempo procedeu-se a um reeenseamento da populao do Estado, o qual apurou 805.687 habs. sendo 394.909 homens e 410.778 mulheres, o que prova quo defeituoso foi. O reeenseamento de 1872 dera 721.686 habs. sendo 365.849 homens e 355.839 mulheres.
O Coronel Luiz Antnio Ferraz nasceu no Rio de Janeiro em 1833, assentou praa a 1 de Fevereiro de 1849 e fez a Campanha do Uruguay, tomando parte nos combates de Tonelero e Monte Caseros, e do Paraguay.
2.General Jos Clarindo de Queiroz. 1891-
1892.
Nomeado por Decreto de 4 de Abril de 1891, recebeu o governo a 28 das mos do Coronel Felicia-no Benjamin, nomeado naquella mesma data (4 de Abril) vice-governador. A 7 de Maio o Congresso Constituinte Cearense confirmou-o no cargo, esco lhend na mesma oceasio para vice-governador o Major Benjamin Liberato Barroso. Esse Congresso exten-deu seus trabalhos at 16 de Junho, data em que promulgou a primitiva Constituio do Estado. Pelo artigo,!, "das suas disposies transitrias deixou de


72
funccionar a Constituinte para a 1." de Outubro comear a Cmara dos Deputados suas sesses ordinrias.
A's 5 horas da tarde de 16 de Fevereiro de 1892 a Escola Militar e parte das foras federaes promo^ veram a deposio de Jos Clarindo, que depois de alguma resistncia se rendeu pela manh seguinte, e ento passou o governo ao Chefe da Quarnio e Commandante interino da Escola Jos Freire Bizerril Fontenelle, e este por sua vez a 18 ao Major Benjamin Liberato Barroso.
Havendo o Congresso a 12 de Julho eleito 1. Vice-presidente o Dr. Antnio Pinto Nogueira Ac-cioly, o Major Benjamin Liberato fez-lhe entrega da administrao.
Jos Clarindo nasceu em Fortaleza a 22 de Janeiro de 1841 e falleceu no Rio de Janeiro a 28 de Dezembro de 1893.
3. Tenente-coronel Jos Freire Bizerril Fontenelle. 1892-1896.
Assumiu o governo a 27 de Agosto de 1892 e entregou-o ao seu successor Dr. Antnio Pinto Nogueira Accioly a 12 de Julho de 1896.
Em seu tempo a Repartio da Alfndega principiou a funccionar (1 de Abril de 1893) no novo edifcio, construdo pela Cear Harbour Corporation e inaugurado a 15 de Julho de 1891, installou-se a Caixa Filial do Banco de Pernambuco (26 de Julho de
1893) e foi inaugurado na sua sede actual Praa dos Voluntrios o Lyceu do Cear (15 de Maro de
1894) .
5."Dr. Antnio Pinto Nogueira Accioly. 1896 1900.
Assumiu o governo a 12 de Julho de 1896 e entregou-o a 12 de Julho de 1900 ao seu successor Dr. Pedro Augusto Borges. Voltou a governar o Cear quatro annos depois.
Em seu tempo foi assentada a pedra fundamental do novo templo do Collegio da Immaculada Conceio, Egreja do Pequeno Grande, Praa Figueira de


73
Mello (27 de Novembro de 1896), inaugurou-se o Mercado Publico de Fortaleza Praa Jos de Alencar (18 de Abril de 1897), iniciado a 5 de Fevereiro de 1896 e foi fundado na Serra de S. Estevo, Qui-xad, por D. Qerardo Van Caloen, vice-gera! da Congregao Benedictina Brasileira, o Mosteiro de Santa Cruz (14 de Setembro de 1899), cuja primitiva capel-linha, de 10 metros de comprimento e 6 de largura, comeou a se fazer a 3 de Julho de 1900.
5. "-Dr. Pedro Augusto Borges. 1900-1904. Assumiu a administrao a 12 de julho de 1900 e
transmittiu-a ao seu successor Dr. Antnio Pinto Nogueira Accioly a 12 de Julho de 1904.
Era Tenente-coronel do Corpo de Sade e tinha assento na Cmara dos Deputados Federaes quando foi chamado presidncia.
Em seu tempo o Conselheiro Lafayette R. Pereira deu em favor do Cear o Laudo decisivo na Questo Grossos (24 de Setembro de 1902), contra o qual se rebellou o Rio Grande do Norte apezar do que fora accordado e estipulado a 20 de Maro pelos Representantes Federaes do Cear e Rio Grande, foi iniciada a construco da actual ponte em frente Alfndega segundo os planos do engenheiro Srgio Saboya (18 de Dezembro de 1902), a qual entrou em trafego a 26 de Maio de 1906, e installou-se a Academia de Direito do Cear (1 d Maro de 1903), avocada ao Estado pela Lei n. 717 de 8 de Agosto.
6. Dr. Antnio Pinto Nogueira Accioly. 1904-1908.
Assumiu o governo a 12 de Julho de 1904 e, por visar sua reeleio, a 10 de Maro de 1908 a tinha entregue ao Vice-presidente Coronel Tiburcio Gonalves de Paula.
Em seu tempo fundou-se em Fortaleza o Azylo de Mendicidade (10 de Setembro de 1905), teve logar a beno da Egreja de N. S. do Carmo e sua entrega ao culto (25 de Maro de 1906) e aportou a Fortaleza o vapor Maranho trazendo a seu 1 bordo o Dr. Affonso


74
Penna, presidente eleito da Republica, vindo em sua companhia vrios representantes da imprensa sulista (15 de Junho de 1906).
7. "Dr. Antnio Pinto Nogueira Accioly. 1908-1912.
Reeleito Presidente para o quatriennio de 1908 a 1912, assumiu a presidncia a 12 de Julho de 1908.
Deante de um movimento popular, iniciado a 22 de Janeiro de 1912, renunciou o cargo a 24 e no dia seguinte embarcou com a familia para o Rio de Janeiro. Assumiu ento o governo o Vice-presidente Coronel Antnio Frederico de Carvalho Motta. Havendo deixado a administrao o Coronel Carvalho Motta a 12 de Julho, assumiu-a por sua vez o Presidente da Assembla do Estado Coronel Belisario Ccero Alexandrino.
O Dr. Nogueira Accioly falleceu no Rio de Janeiro a 14 de Abril de 1921.
8. Coronel Marcos Franco Rabello. 1912-1914-Tomou posse a 14 de Julho de 1912. Havendo o Governo da Republica decretado a 9 de Maro de 1914 o estado de sitio para o Cear e cinco dias depois nomeado como Interventor o Coronel Fernando Setem-brino de Carvalho, assumiu este a 15 a administrao, seguindo o Coronel Franco Rabello a 24 para o Rio de Janeiro, onde reassumiu seu logar de professar da Escola Militar.
Serviram de Secretrios com o Presidente Franco Rabello o Desembargador Joaquim Olympio de Paiva, Dr. Frota Pessoa e Joaquim Costa Souza, e cora o Interventor Coronel Setembrino os Drs. Jos Lino da Justa, Herminio Barroso e Desembargador Joo Firmi-no Dantas Ribeiro.
9. -Coronel Kenjamin Liberatc Barroso. 1914-1916.
Coube-lhe completar o perodo presidencial. Tomou posse a 24 de Junho de 1914. Dois dias depois partiu para o. Rio-de Janeiro o Coronel Fernando Se-


75
tembrino de Carvalho, concludos seus trabalhos de Interventor.
Deixou o governo a 12 de Julho de 1916. Serviram-lhe de Secretrios os Drs. Jos de Borba Vascon-cellos (Justia), Dr. Herminio Barroso (Fazenda) e Dr. Gustavo Dodt Barroso (Interior). Havendo se retirado para o Rio de janeiro o Dr. Gustavo Barroso, passou para a Secretaria do Interior o Dr. Herminio Barroso e foi nomeado para a da Fazenda o Dr. Edgard Borges.
10.-Dr. joo Thom de Saboya e Silva. 1916-1920.
Assumiu o governo a 12 de Julho de 1916 e a 13 nomeou para os cargos de Secretrios dos Negcios do Interior e Justia e dos da Fazenda o Dr. Jos Saboya de Albuquerque e Coronel Antnio Fiza Pequeno. Havendo o Dr. Jos Saboya se exonerado do cargo e voltado ao seu Jogar de Juiz de Direito de Sobral, substituiu-o a 3 de Janeiro de 1919 o Desembargador Jos Moreira da Rocha. A 5 de Setembro de 1916 assumiu o cargo de Chefe de Policia do Estado, restaurado pela Lei n. 1343 de 26 de Agosto, o Dr. Jos Eduardo Torres Cmara. O Dr. Joo Thom representa ..hoje o Cear no Senado em substituio ao Dr. Pedro Augusto Borges, cujo mandato terminara.
11/'-Dr. Justiniano de Setpa- 1920-1923.
Assumiu o governo a 12 de Julho de 1920. Escolheu para Secretrios o Desembargador Cludio Ide-burque (Justia), substitudo pelo Dr. Leiria de Andrade, e o Dr. Manoel Theopho Gaspar de Oliveira (Fazenda). O acto mais "importante de sua administrao a Reforma da Constituio do Estado, .promulgada a 4 de Novembro de 1921, sendo seus pontos capites : arevogao do artigo que.permittia a reeleio do Presidente do Estado; a eleio dos prefeitos munici-paes, pelo povo excepto da Capital; revogao do artigo 149 que permittia a alterao da Constituio jpelas leis ordinar4as;-.a -escolha do procurador geral do Estado fofa do seio do Tribunal da Relao; a prohibio da demisso de funccionarios sem prvio processo admi-


76
nistrativo, excepto quando em cargo de confiana; a prohibio de accumulaes remuneradas; a extinco dos cargos de segundo e terceiro vice-presidentes do Estado, aps o actual quatrinio; a prohibio de desan-nexao dos officios de serventurios de Justia.
Gravemente enfermo, deixou o Cear em demanda do Rio de Janeiro a 13 de Junho de 1923. Na vspera entrou no exerccio da Presidncia o 1." Vice-presidente Ildefonso Albano, que prestou o respectivo compromisso .perante o Superior Tribunal de Justia.
A 1 de Agosto falleceu na Casa de Sade do Dr. Poggi o presidente Serpa com grande magoa do paiz inteiro e mormente do Cear, onde todas as classes so-ciaes fizeram manifestaes eloqentes de merecido apreo sua memria.
Entre os actos, que recommendam a administrao do illustre filho de Aquiraz, salientam-se os referentes s finanas e instruco primaria no Estado.
O Vice-presidente Ildefonso Albano, hoje em pleno exerccio da Presidncia, se mostra viva e resolutamente empenhado em dotar o Cear de importantes melhoramentos em diversos ramos do servio publico.
F*ig:taras do Cear Colnia)
<&>-
Sculo XVII
lvaro de Azevedo Barreto.Filho de Andr Velho de Azevedo e irmo do P.e Constantino da Cunha de Azevedo, nasceu em Mono, Portugal. O autor dos Desagravos do Brasil e Glorias de Pernambuco sem razo o d por natural de Olinda e filho de Salvador de Azevedo.
Depois de ter servido na provncia do Minho, A^etn-tejo e Galiza, passou-s ao Brasil em Abril de 1648 e empenhou-se com particular valor na guerra contra os


77
Hollandses, aebando-se na campanha de Iguarassu, 2.a Batalha dos Guararapes, onde recebeu duas pelouradas, soccorro regio do Rio So Francisco, tomadas dos fortes do Rego, Altana em frente ao Recife e das Cinco Pontas.
O Castrioto Lusitano esqueceu-lhe o nome como os de outros heroes de Guararapes.
Por nomeao de Francisco Barreto em datai de 4 de Maio confirmada por Ordem Regia de 23 de Novembro de 1654 veio com 4 companhias, sendo 2 de indios e negros, na qualidade de Capito-mor para o Cear aonde se houve com muita prudncia assy no render dos olandezes como em reduzir varias naes do gentio da terra obedincia de V Mg.de fazendo despesa de sua fazenda em os conservar e ter sugei-tos, acodindo com 30 c.s de sua caza> na falta de sustento, para a Infantaria, reparando as ruinas daqle forte, at que com ordem se reeolheo a Pernambuco com muito trabalho, trazendo comsigo os ndios rebeldes por evitar ocazio de novas revoltas. (Parecer do C. Ult. 13-2-1659).
A lvaro de Azevedo deve-se a construco da Ermida da Fortaleza de N.a S.a d'Assumpo.
De volta a Portugal em 1658, achou-se no cerco de Badajoz servindo de Mestre de Campo d um 3.' de Auxiliares da comarca de Santarm, e no soccorro levado Praa de Elvas onde sendo lhe ordenado pio Conde de Cantanhede que com elle avansasse ao principal fortim do inimigo, o investio com a mayor rezoluo e valor que se pode considerar, arrancando, tanto que chegou ,a elle, com suas prprias mos, a estacada com que estava guarnecido, intupirido com ella o fosso, fazendo caminho aos que o seguio, e sendo o primeiro que arrumandolhe hua escada o entrou e se snhoreou dell, passando espada os enimi-gos, que achou; E tornandolhe duas bandeiras, qe entregou ao Conde de Cantanhede, por cuja ordem o guar-neeo com o seu tero, franqueando a passagem 30 socorro da praa, ET procedeu de sorte que teve mui-


78
ta parte na milagrosa victoria, que Deus foi servido dar s armas de Vmgd. (Doe. acima citado).
Por seus servios ptria foi Cavalleiro da Ordem de Ghristo e teve as nomeaes de Tenente de Mestre de Campo General e Mestre de Campo effec-tivo.
Amaro Fernandes de Abreu. Foi vigrio da Egreja Matriz de N.a S." d'Assumpo da povoao da Fortaleza do Cear e Vigrio da Vara no ultimo quartel do sculo 17. lim Alvar de 10 de Fevereiro de 1683 mareou-lhe o mantimento devido. Apezar de colado na dita Egreja, retirou-se para o Reino sem pedir licena nem fazer renuncia.
Andr Rodrigues.Serviu no Cear como soldado, cabo de tropas, sargento e alteres at a rendio da Praa aos Hollandses, passando-se ento a Pernambuco, onde tomou parte em varias refregas, foi aprisionado e atirado s ndias. Entrado em Hespanha, logrou chegar ao Reino e de l voltando, prestou servios na Bahia, sendo um dos .que fizeram a campanha do Rio Real, e no Maranho, para onde foi mandado pelo Governador do Brasil Antnio Telles com munies de soccorro. iPor esses servios mereceu ser nomeado Sargnto-mor effectivo do Cear, cargo que ja ha muito desempenhava, por Patentes e Resolues de 13 e 26 de Setembro e 24 de Dezembro de 1645 com direito suecesso como Capito-mor no caso de fallecer Diogo Coelho de Albuquerque. Para sueceder aos dous, isto , Diogo Coelho e SAndir Rodrigues, foi rnoraeado a 30 de Janeiro de 1646 Gonalo Luiz, soldado de 11 annos de servio, alguns delles em Pernambuco contra os Hollandses, com o titulo de Tenente do Capito-mor do Cear.
Andr Rodrigues era tio de Domingos Machado, soldado nas guerras de Bahia e Pernambuco desde 1637 at 1644 e mais tarde no Maranho, fronteiras do Alemtejo e campanha de Valena de Alcntara (1645-1646).
Antnio Barbosa da Silva. Nomeado Capito-mor


79
do Gear por C. R. de 26 de Julho e assentamento de 19 de Agosto de 1635. Nunca entrou no cargo. Natural de Lisboa e filho de Andr Barbosa.
Fez a campanha contra os Hollandses no Gear, Parahyba e Rio Grande, tendo embarcado do Reino em 1635 na armada em que veio o Mestre de Campo D. Luiz de Roxas, e assentado logo praa na Companhia do Capito Manoel Pavo. Serviu tambm ha Bahia e Pernambuco. Vindo em 1639 na Armada do Conde da Torre e havendo desembarcado na costa do Cear a fazer aguada, foi trucidado pelo gentio.
Deixou viuva, D.,a Vieencia da Costa e uma filha de nome Francisca da Silva.
Antnio Cardoso de Barros. Donatrio ete 40 legoas do Cear a comea? da Angra dos Negros at o Rio da Cruz, actual Camocim, por doao feita por D.Joo III a 19 de Novembro de 1535 e foral do dia seguinte. A doao no foi aproveitada.
Esse fidalgo, de muitos servios no Reino e em frica, tendo mais tarde acceitado um cargo de fazenda, o de Provedor-mor da Fazenda da Bahia, veio ao Brasil com Thom de Sousa, e annos depois por motivo de Iucta travada com Duarte da Costa, successor de Thom de Sousa, de regresso a Portugal em companhia do bispo Pedro Fernandes naufragou nos baixos chamados de Dom Rodrigo quasi foz do rio Coruripe e um pouco mais alm foi trucidado pelos in dios Caets. Isso occorreu a 16 de Junho de 1556.
Cardoso de Barros era filho de Joo de Barros e casou em Tanger, onde servia, com Guiomar Dias Botafogo. Outros do-n'o como casado com Francisca de Aguiar, filha de Affonso de Aguiar, de quem teve Joo de Barros Cardoso, Maria de Barros, que foi mulher de D.Jorge de Mello e Christovam de Barros, que foi Provedor-mor da Fazenda no Brasil por Despacho de 25 de Setembro de 1577. Era seu irmo Francisco de Barros e tio Bartholomeu de Paiva.
Antnio Fernandes Monxica. Foi Capito-mor do Cear. Contra elle queixou-se Dom Pedro de Mello,


80
governador do Maranho, por lhe desobedecer, no o reconhecendo por superior e sim ao governador de Pernambuco, Andr Vidal de Negreiros, que o nomeara. A questo foi levada ao governo de Lisboa e o Conselho de Ultramar opinou a 9 e foi decidido por Ordem Regia a 15 de julho de 1659 transmittida a Pedro de Mello que posto que a Capitania do Seara lhe subordinada e o vir a ser em tudo como do Maranho puder ser soccorrida, por de prezente o ser de Pernambuco por V Mg.d,: por consideraes de seu servio e a requerimento do governador seu antecessor o haver assi resoluto e mandado, convir por hora no innovar em couza alguma.
Foi Andr Vidal de Negreiros o governador de Maranho, que propoz a El Rei que o Cear fosse soc-corrido por Pernambuco, resolvendo EI Rei que assim fosse.
Antnio Martins Palha. Acompanhou a Dom Diogo Lobo no soccorro levado Bahia, tomou parte nas quatro batalhas navaes dadas aos Hollandses nos mares de Pernambuco, acompanhou o Mestre de Campo Luiz Barbalho at a Bahia achando-se em todos os encontros com o inimigo naquella jornada, e "de volta a Pernathbuco assistiu a tomada dos fortes de Serinhaem, Pontal de Nazareth, casa forte de Izabel Gonalves, forte do Rego, Recife, reducto das Cinco Pontas onde foi ferido.
Abandonado o Cear pelos de Hollanda, foi dos primeiros a virem tomar posse da Capitania e aqui esteve por dous annos, ajudando a comer carne de ca-vallo com a necessidade, diz elle num papel de 1683.
Antnio Mendes Lobato. Natural da Capitania de Alagoas e possuidor de vastas terras no Cariry e Riacho dos Porcos, que foi adquirindo desde 1714 quer por datas quer por compras.
De seu casamento com Antonia Ferreira da Silva deixou larga prole. Entre seus filhos se contam Antnio Mendes Lobato Lyra, que muito figurou nas luctas entre os Montes e Feitosas, o P.u Jos Lobato do Espi-


81
rito Santo, morador no sitio Caiara, riacho dos Porcos e o Ccl Joo Mendes Lobato, que morou e veio a fallecer no seu sitio Santo Antnio, depois Misso Nova.
Antnio Pereira.Prestou servios relevantes na Capitania de S. Vicente (1615), em Pernambuco (1618 a 1620) e no Cear durante 9 annos, tendo substitudo no commando da fortaleza a Martim Soares, que o mandou mais de uma vez a Bahia e Pernambuco em commisses de importncia. Alem de soldado valente e brioso, foi Almoxarife no Cear. Em 1630 saindo os Hollandses d porto de Salinas para accommet-ter o arraial dos Pernambucanos foi elle, que ento viera com soccorro do Cear, um dos que com Diogo Malheiros oppuseram resistncia ao inimigo. De volta ao Cear, onde chegou em Maro de 1631, frustrou o desembarque da gente de tres navios hollandses, que queriam se senhorear do porto.
Deixou viuva, D.a Isabel dos Santos, que viveu longo tempo na Bahia.
Antnio Ribeiro. (P.c) Jesuta. Nascido em S. Paulo e filiado Companhia em 1637. Grande conhecedor da lingua dos indgenas. Foi algum tempo Superior da Casa de Porto Seguro.
Enviado por Antnio Vieira, veio em 1656 com o P.c Pedro Barbosa de Pedrosa missionar os tabajaras da serra da Ibiapaba.
Em 1684 ainda estava na misso do Maranho, donde foi expellido com os companheiros.
Antnio Vieira (P.e).O celebre orador sacro, poltico e missionrio.
Nasceu em 1608 na cidade de Lisboa e ainda creana foi para a Bahia acompanhando o pae, Christovam Vieira Ravasco, nomeado para exercer ahi um cargo de administrao. Freqentou as aulas dos padres Jesutas, tendo por mestre, entre outros, a Ferno Cardim. E' incontestavelmente a individualidade mais saliente dentre os Jesutas de seu tempo em Portugal e Brasil. Notabilisou-se no plpito, nas lettras, na poli


82
tica quer no Brasil, quer em Portugal,- quer na cidade dos Papas. Suas viagens ao Maraj, serra: de Ibiapaba so conhecidas pelas luctas, que travou em favor da liberdade dos indios, pela tenacidade e zelo apostlico com que se houve e pelos resultados, que colheu na pregao da f catholica.
Essa grande figura do sculo XVII pertence-nos por mais de um titulo. Elle prprio disse-o : Pelo segundo nascimento devo ao Brasil as obrigaes de Ptria.
Falleceu a 18 de Julho de 1697. Sobreviveu-lh apenas dous dias seu irmo Bernardo Vieira Ravasco, o notvel Secretario do Estado do Brasil por nomeao de 17 de Fevereiro de 1646.
P.e Asceno Uago.Jesuita. Nasceu em S. Paulo em 1665, entrou para a Companhia de Jesus a 3 de [ulho de 1680 e professou dos quatro votos a 24 de Abril de 1706.
Foi Superior da Misso da Ibiapaba, trabalhando juntamente com elle o Padre Manoel: Pedroso.
Tendo partido para a Bahia, falleceu'em caminho a 19 de Maio de 1717. Conhecia perfeitamente a lingua Brasilica. Substituiu-o como Superior oP.c Francisco de Lima, natural da Madeira, onde viu a luz em 1676.
Francisco de Lima entrara para a Companhia a 20 de Outubro de 1694. Foi coadjuctor espiritual a 15 de Agosto de 1709.
Balthazar Joo Correia.Primeiro vigrio do Cear. Auctor de interessante carta a Frei Archangelo de Pembroch e mais capuchinhos, que vinham na nau de Du Prat, que tentou destruir o presidio m 1614. Essa carta, em latim, est publicada no 1. volume dos Documentos da Colleco Studart pp. 114-115.
Os soldados do presidio, enthusiasmados com as predicas e com o valor do P.e Balthazar Joo, repelli-ram com successo os assaltantes.
Bartholomeu de Britto. Era o Commandante do forte S. Sebastio quando da chegada dos hollandses sob a chefia de Jorge Oarstman, em Outubro de 1637


83
Assaltado o forte, que tinha uma dbil guarnio, foi tomado aps forte resistncia e aprisionados os seus defensores.
Belchior Pinto.Servira nas Capitanias de Pernambuco e Bahia desde 18 de Agosto de 1671 a 25 dc Maio de 1698, e auxiliara poderosamente o governo na guerra dos Palmares.
Em 1696 substituiu a Joo da Motta no posto de ajudante do numero do 3. de Zenobio Achioly de Vasconcellos e por nomeao de 22 de Dezembro de 1698 e Carta Patente de 5 de Janeiro de 1699 substituiu ao mesmo Joo da Mtotta como Capito e Cabo do novo presidio de Jaguaribe, mandado estabelecer por Caetano de Mello de Castro. Competiu com elle para este ultimo posto Carlos Ferreira.
Bdohior Vha. Companheiro de Martim Soares Moreno no presidio do Cear.
Acompanhou Jeronymo de Albuquerque em 1610 quando de ordem de Gaspar de Sousa foi descobrir o rio Camocim e ahi estabelecer um presidio de Portugueses para maior facilidade da tomada do Maranho. Indo com Martim Soares descobrir e sondar a barra do Maranho arribou s Antilhas, foi a Portugal e de novo veio ao Maranho sendo um dos que no sitio Guaxen-duba construram o forte de Santa Maria, bem em frente do acampamento dos Franceses.
Bento Corra de Figiieredo. Devido ao fallecimento de Joo Tavares de Almeida, foi mandado como Capito-mor do Cear pelo governador de Pernambuco Dom Pedro de Almeida, e aqui se houve com boa disposio e valor acodindo com todo o cuidado a de-fena daquella Praa fazendo quartis e estacadas, assistindo com grande trabalho a reedificao delia com sua pcsoa e despendendo muito de sua fasenda com ndios que trabalhavo, oprimindo ao gentio com guerras por emquietar aos ndios domsticos, destroindo aos Tapuyas Areurus, que desobecio, assistindo a cura dos doentes e feridos com sua fazenda, e procedendo em tudo com muita satisfao, como dizem


84
s seus assentamentos. Serviu no Alemtejo, tomou parte no sitio de Badajs, choque de S. Miguel, cerco de El-vas, foi para Angola em companhia de Andr Vidal de Negreiros, de cuja guarda foi capito, e de volta ao Brasil empenhou-se com grande valor na guerra dos Palmares.
Bento de Macedo de Faria. Capito-mor do Cear por nomeao de 29 de Maio e Carta Patente de 14 de Junho de 1681 por 3 annos, havendo competido com elle Joo Pinto da Fonseca, que havia servido no Tero da Armada Real e na Junta do Comercio, Ferno Carrilho, notvel na guerra dos Mocambos da capitania de Sergipe d'El-Rei, no descobrimento das.minas de Tabaiana e de Picaraa e na guerra dos Palmares, Bento Corra de Figueredo, que j estivera no governo da Capitania por provimento do governador de Pernambuco Dom Pedro de Almeida quando do fal-lecimento de Joo Tavares de Almeida, Joo Freire de Almeida que servira no Oriente e na Capitania do Par e Christovam de Gouvea de Miranda, que fora Capito e Sargento-mor da Ilha do Fogo, districto de Cabo Verde.
J estivera na administrao pro nterim do Cear substituindo Joo Tavares de Almeida. Apezar de exercer o cargo de Capito-mor fez-se negociante, vendendo a navios hollandses pau violeta e outras madeiras, gados e cavallos em troca de fazendas e gneros do Norte, o que lhe valeu severas queixas e denuncias de Joo do Rego Barros e do almoxarife Domingos Ferreira Pessoa.
Tomara parte saliente na guerra contra a Hollan-da, guerra da liberdade divina como a qualificava Joo Fernandes Vieira, o chefe dos restauradores, o que lhe valeu ser nomeado pelo dito Vieira a 9 de Agosto de 1645 Capito de uma Companhia de Infantaria, tendo-lhe dado posse o Sargento-mor Antnio Dias Cardoso. Tomou parte no ataque da Estncia do Marcos, Ilha de Itamarac, na campanha dc Goyan, combate de Igua-rass em que se empenharam 800 flamengos, nas duas


85
batalhas dos Guararapes, na jornada ao Rio de S. Francisco donde se retirou muito gado para sustento da infantaria, e do Rio Grande, e na recuperao das fortalezas de Recife.
Claes Adriassen Chiyt.De Akersloo, Hollanda.
Aportou a Mocoripe juntamente com Hendryk Hendryckssen Cop no anno de 1610.
Segundo seus informes a terra fornecia batatas, pau amarello, mbar, galinhas e faises.
Christovam Severim (Frei).Superior dos Religiosos da Provncia de Santo Antnio de Portugal e Custodio do Brasil, vindo com Francisco Coelho de Carvalho, nomeado para o governo do Maranho.
Chegou com os companheiros enseada de Mocuripe a 18 de Julho de 1624 e foi hospedado por Martim Soares. Depois de uma demora de 15 dias na povoao seguiu ao seu destino e l chegou a 9 de Agosto. Esteve de novo no Cear em 1626.
A Frei Christovam Severim ou de Lisboa, varo eminente em virtudes e lettras no dizer do P.e Domingos de Arajo, se deve a consolidao da sua Ordem no Maranho.
Depois de um governo de doze annos voltou a Portugal, sendo ento despachado para Bispo de Angola.
Era irmo do Chantre Manoel Severim de Faria.
Dainio Pires.Pertencia Companhia do Capito Francisco do Amaral de Andrade e veio para o Cear em 1691 como cabo de infantaria do presidio. Substituiu no posto ao alferes Francisco Garcia, mandado ir para Pernambuco por ordem de Felix Machado.
Daniel de Ia Touclie. Senhor de Ia Ravardirc. Companheiro de Razilly na expedio vinda de Frana ao Norte do Brasil em 1612 para conquista c coloni-sao do Maranho.
Essa armada, cm que vinha um grupo de frades capuchinhos, entre os quaes Yves d'Evrcux c Claude de Abbeville, aportou enseada de Mocuripe a 11 de Julho, no dia seguinte Ponta de Jericoacoara, onde


86
estiveram por 12 dias, a 24 ao Camocim e afinal a 26 na Bahia do Maranho.
No podendo prolongar a resistncia contra os portugueses de Alexandre de Moura, que fora encarregado de effectuar sua expulso, teve de se lhe entregar e foi levado como prisioneiro para Pernambuco em Janeiro de 1616 e de l para a Torre de Belm em Lisboa.
Diogo Coelho de Albuquerque.Capito-mor do Cear segundo Resoluo Regia de 26 de Maio e Carta Regia de 13 de Julho de 1645. Serviu na guerra de Pernambuco e em Maranho. Bom lingoa e muito estimado dos ndios. Vindo do Reino depois de prolongada demora, via Rio de Janeiro, a tomar posse do cargo trouxe comsigo algum soccorro, estando ento a Praa do Cear sem Capito, sem gente e de todo desmantellada. A caravella em que elle deveria vir logo aps a nomeao essa se perdera.
Governou de novo o Cear em 1660 e 1661.
Teve por paes Manoel Rodrigues Coelho, irmo do jesuta Diogo Coelho, e D.a Maria d'Albuquerque, irm de D." Brites de Albuquerque, que foi casada com o Capito-mor Thom Teixeira Ribeiro.
Borges da Fonseca diz que a me de Diogo Coelho chamava-se Joanna Fragoso de Albuquerque c era filha de lvaro Fragoso e de joanna de Albuquerque.
De uma carta de Francisco Pinheiro de Moraes, morador em Santos (S. Paulo) se v que Diogo Coelho era genro do Capito Clemente Nogueira da Silva. A carta, que de 5 de Dezembro de 1660, j se refere vinda desse Capito-mor para o Cear.
Foi Com.or da Ordem de Christo, Cavalleiro da Casa Real e Governador de Angola.
Diogo de Campos Moreno. Natural de Tanger. Soldado experimentado nas campanhas de Flandres e Frana.
Mais dc uma vez esteve no Cear sempre a servio, como por exemplo quando das expedies de Je-


87
ronymo de Albuquerque, de quem foi adjunto, e de Alexandre de Moura ao Maranho.
ti' elle o auctor da jornada do Maranho, e alguns lhe attribuem tambm a obra Rezo do Estado do Brasil.
As tregoas com os Franceses de La Ravardire, para,que concorreu consideravelmente, trouxeram-lhe grandes maguas e um certo descrdito.
Falleceu no governo de D. Luiz de Souza, occu-paudo ainda o posto de Sargento-mor.
Diogo Nunes (P.e).Da Ordem de Jesus. Nasceu em S. Vicente, diocese do Rio de Janeiro, em 1549, entrou para a Companhia em 1563 e fez a formatura em 1595. Realizou varias misses e entradas pelo i^o Grande, Jaguaribe e Cear, celebrando pazes com os indios, pazes confirmadas depois solemnemente feio P.e Francisco Pinto, o martyr dos Tocarijs da Ibiapaba. Foi o companheiro do P.e Manoel Gomes na expedio de Alexandre de Moura, que esteve no Cear em Outubro de 1615.
Falleceu em S. Domingos no anno de 1620.
Domingos da Veiga Cabral. Filho de Jeronymo da Veiga morador em Lisboa, onde exerceu vrios cargos, e fallecido na ndia, e sobrinho de Martim Soares Moreno a quem substituiu no governo do Cear por C. R. de 19 de Julho de 1630. Nomeao por 6 annos. O prprio Martim Soares deu-lhe posse.
Outra C. R. de 25 de Novembro do dito anuo fel-o Capito da Infantaria vinda do Reino para o Cear e Capito da caravella, que a transportou e qiie chegou a 6 de Janeiro de 1631.
Governou de novo o Cear substituindo-o Francisco Pereira da Cunha, que foi nomeado a 3 de Janeiro d 1641.
Domingo* Ferreira Chaves. Filho de Domingos Ferreira e natural do termo de Chaves.
Foi Capito da Companhia de Infantaria das Orde-nanas do Cear por nomeao de Thomaz Cabral de Olival, confirmada por Carta Patente de 8 de Abril de


88
1693, e ainda Sargento-mor da dita Infantaria na vaga de Estevam Velho de Moura por nomeao do Governador e Capito-geueral Caetano de Mello de Castro confirmada por Carta Patente de 1 de Setembro de 1696.
Nesse anno de 1696 acompanhou o Capito-mor Pedro Lelou Ribeira do Jaguaribe para a constru-co de um novo presidio alli.
Fizera parte da Armada Real, que em 1683 foi levar soccorro Praa de Mazgo e de duas Arma das da Junta do Commercio, que foram a Pernambuco.
Domingos Ferreira Chaves acabou os dias feito sacerdote e consagrado ao culto da Padroeira da er mida da Fortaleza de N.a S.a d'Assumpo.-Falleceu em 1752.
Domingos de S Barbosa.Succedeu a lvaro de Azevedo Barreto.
Veio ao Cear em 1655 e teve logo de enfrentar um levante dos indios sob a chefia do principal Algodo, os quaes estavam junto Fortaleza. Os indios abandonaram o sitio e transportaram-se para o Rio da Cruz ou Camussi, o que deu logar a que Andr Vidal de Negreiros mandasse construir ahi um forte com 4 peas, 20 soldados e um cabo para segurana da navegao da costa e defesa contra o gentio.
A patente de nomeao de Domingos de S Barbosa para Capito-mor do Cear datada de 13 de Setembro de 1655.
Domingos Ferreira Pessoa. Filho de Sebastio Ferreira e natural da freguezia de S. Antnio do Cabo, Pernambuco. Soldado arcabuseiro em Pernambuco e no Cear (1675-1689).
Tendo sido a esforos e iniciativa de Joo do Rego Barros introduzida no Cear a cobrana do dizimo de lavouras, gados e pescarias, foi elle encarregado desse servio pelo governador de Pernambuco com o titulo de almoxarife (1683).
Seu zelo de optimo exactor da fazenda fel-o cair no desagrado do Capito-mor Bento de Macedo Faria,


89
empenhado em negociatas com as equipagens de navios vindos de Hollanda para o resgate de pau violete e compra de gado e cavalgaduras, que eram condusi-dos para a uyanna. De ultimo teve de se recolher a Pernambuco, temeroso do Capito-mor.
Proviso Regia de 29 de Dezembro de 1689 deu-lhe a effectividade do cargo de almoxarife da Fazenda Real do Cear.
Domingos Lopes Lobo. Sobre esse Capito-mor do Cear conhece-se to somente um documentoo Regimento, que lhe deu o Governador e Capito Geral do Brasil Dom Luiz de Souza a 9 de Setembro de 117 e que comea com as palavras : Fao saber a vs Domingos Lopez Lobo que hora ymbio provido por Capp.am do Siar que pera saberdes, etc.
O Regimento, firmado em Olinda, reconimenda ao Capito-mor, officiaes e soldades que entretenham boas e amistosas relaes com o R.d0 Vigrio, que o Capito-mor empea todo e qualquer contacto dos Franceses e outros extrangeiros com a terra, facilite as communicaes com o Maranho, zele as armas e munies, fuja de se intrometter nas guerras que tragam os indios entre si, prohiba severamente os resgates etc.
FiSaiiisIau de Campos. Jesuta. Natural de S. Paulo e filho de Filippe de Campos, portugus, que chegando a S. Paulo e casando na famlia Pires foi o tronco dos Pires de Campos, desse Estado. Fez notveis misses em varias capitanias, entre as quaes o Cear.
Nasceu em 1649 e falleceu a 12 de Junho de 1734.
Ensinou philosophia no Collegio de Olinda e foi reitor do Collegio de Espirito Santo.
Em suas misses pela Bahia foi companheiro de jo Antnio Andreoni, o Andr Joo Antonil, auctor da curiosa obra libertas et opulentia Brasitiensis.
Estevam de Campos. Foi o substituto de Martim Soares Moreno no commando do presidio do Cear


90
quando este era 1613 partiu a reunir-se em Camocim com os expedicionrios de. Jeronymo de Albuquerque, que iam desalojar Franceses do Maranho.
Estevo Velho de Moura.Sargento-mot de Infantaria 'da Ordenana do Cear, provido pelo Governador de Pernambuco Joo da Cunha Sou toma ior e confirmado por Carta Patente de 20 de Dezembro de 1688. Substituiu-o Domingos Ferreira Ghaves.
Tratou de pazes com os indios do Rio Grande e bateu e obrigou a retirar-se um navio corsrio ingls, parte de cuja gente desembarcara no Cear e estava a fazer pilhagem de gado e do mais que lhe era necessrio.
Estevo Velho, que oi um dos principaes sesmei-ros do Cear, fundou o sitio Aquiraz e o vendeu a Manoel da Fonseca Leito. Um herdeiro deste, o Coronel Manoel Roiz de Souza, passou-o ao Coronel Joo de Barros Braga, que o doou ao Hospicio de N.* S.a do Bom Successo da villa por eseriptura de 14 de Maro de 1727.
Fernando Antnio Lobo de Albertiin. Provido pelo Governador Geral do Estado do Brasil D. Joo de Lencastre no posto de Capito da Companhia de Cavallos da Ribeira de Jaguaribe e confirmado nelle por P. R. de 21 de Janeiro de 1699. Vagara este Jogar por havel-o deixado Gregorio de Figueredo Barbai ho.
Servira por muitos annos na Capitania de Pernambuco e vindo para o Cear foi ajudante do presidio e fortaleza de N.:l S.a d'Assumpo, e na Ribeira do Jaguaribe concorreu para a construco do forte levantado para conter os Payacs e os combateu por varias vezes.
Ferno Carrilho. -Capito-mor do Cear em 1694 como substituto de Pedro Lelou, impedido por estar sob processo.
Foi em 1669 nomeado Capito da gente, que foi contra os mocambos de Jeremoabo e em 1670 Capito


yi
de ordenana ie cabo das tropas contra os mocambos de Sergipe ainda por provimento do Governador Alexandre de Souza Freire e por C. R. de 28 de Junho de 167V auxiliar de L>.-Rodrigo de Casell Branco no descobrimento das minas de prata de Tabayana. Acompanhou ao Capito Jorge Soares de Macedo em busca das minas, que se dizia haver nas serras de P.i-carassa. Provido em 1676 pelo governador D. Pedro de Almeida no posto de Capito-mor da guerra dos Palmares, fez nesse .anno e no seguinte tal destruio nos negros levantados que grangeou o nome de res-taurador daquellas capitanias.
Estando Pedro Lelou impedido de assumir o governo do Cear para que fora nomeado, veio Ferno Carrilho substituil-o em 1694 por ordem do Governador de Pernambuco. Em seu governo, que se ex-teudeu por mais de um anno, foram vencidos os ndias Pacajus ou Payacus, que infestavam as terras do Assu e a Ribeira do Jaguaribe, os Jcs e os Cara-tes. Outro servio seu foi fazer descer do serto grande numero de Anasss e situal-os em Parainirim, 8 legoas ao N. da Fortaleza, como situou tambm os Jaguaribaras a 7 legoas ao S. da Fortaleza e construiu casa e oratrio para o P.e Joo Leite de Aguiar, mandado para missionai-os pelo Bispo D. Mathias de Fi-gueredo.
Resoluo Regia de 7 de Julho, de accordo com o parecer de 6 de Maio de 1699, nomeou-o de novo Capito-mor do Cear deixando elle o governo por ter sido nomeado lugar-tenente do Governador do Maranho.
Fraiioisoo Aragilm.Principal dos indios do Cear.
Foi dos que enviaram emissrios ao Recife a fim de ratificar a amisade, proraettida quando do desba-' rato e expulso dos Hollandses. Por Ordem de 11 de Abril de 1661 foi-lhe enviado um vestido como demonstrao de agrado, na mesma occasio que a um filho de Joo Algodo.


92
P.e Francisco ile Lyra Foi superior da Misso da Ibiapaba.
Nascido na Ilha da Madeira em 1676, entrado ua Companhia de Jesus a 20 de Outubro de 1694, Coadjuc-tor Espiritual a 15 de Agosto de 1709. Foi seu companheiro em 1718 e 1719 o P.e Agostinho Corra, nascido em Braga em 1665, entrado a 14 de Junho de 1685, Coadjuctor Espiritual a 15 de Agosto de 1696, e em annos seguintes os P.es Manoel Pedroso, Joo Guedes, que Joi o fundador do Hospicio de Aquiraz, Manoel Baptista, Pedro da Silva e Rafael Gomes.
Francisco Coelho de Carvalho. Nomeado gover nador do Estado do Maranho, partiu de Pernambuco para o Cear a 13 de Julho de 1626 e aqui tomou posse do governo.
Depois de haver reedificado o forte do Cear, a 15 de Agosto seguiu para o Maranho, indo em sua companhia, entre outros, Manoel de Souza Dea e Frei Christovam de Lisboa.
Falleceu em Camet a 15 de Setembro de 1636,
Francisco Coelho de Lemos. Cirurgio militar vindo de Pernambuco para o Cear em 1691.
Aqui esteve durante cinco annos. Tinha de ordenado trinta reis dirios e uma ajuda de custo annual de vinte mil reis. Havendo duvidas quanto ajuda de custo, um Despacho Regio de 28 de Novembro de 1697 ordenou que se fizesse effectivo o pagamento por ser justo que pois esteve no meu servio assistindo a cura dos Soldados que servem de Prezidio nella se lhe d satisfao cabal ao que mereceo em todos os annos que esteve no dito Prezidio, e sirva de exem pio para que outros sua imitao se posso animar a hirem curar aquella infantaria e moradores, que assistem em to remota parte, e em que se considera poder ter poucos lucros, e assy o hey por recomendada a infallivel observncia desta Provizo.
Francisco de Miranda.Natural de Olinda e filho de Antnio de Miranda.


93
Serviu em Angola e Pernambuco durante mais de trinta annos (1671 n 1702).
Tenente da Fortaleza do Cear e Capito de Infantaria de Ordenana da Ribeira do Jaguaribe. Em 1699 foi..;o cabo de Infantaria que veio de muda para o Cear em companhia do Capito-mor Francisco Qil Ribeiro. Havendo este de fazer uma entrada pelo serto, ficou Francisco de Miranda encarregado do governo da; fortaleza durante sua .ausncia.
Francisco Dias dc Carvalho.Fazia parte da Companhia do Capito Antnio da Silva Barbosa, tero do Mestre de Campo Zeibio Achioly de V.asconcellos, com 23 annos de servio.
Foi elle que com o posto de Capito de Infantaria e por Ordem do Capito-mor Ferno Carrilho, datada de 26 de Junho de 1694, commandou a expedio contra os Paiacus, Jandoins, Ics e outros indios de corso, que infestavam as terras do Jaguaribe e Banabuyu.
Francisco ( Ribeiro.Veio governar a Capitania por mandado de D. Fernando Martins Mascare-nhas em Portaria de 30 de Junho de 1699. Era em Pernambuco Capito de Infantaria por Patente de 21 de Janeiro de 1698.
Acompanhou-o ao Cear, como cabo de infantaria de muda, Francisco de Miranda, natural de Olinda.
Francisco Pereira da Cunha, Capito-mor do Cear por C. R. de 26 de Outubro de 1637. Natural de,Villa Nova de Cerveira e filho de Domingos Fernandes Curvello. Pertenceu a 10 Armadas da Coroa, entre as quaes a da recuperao da Bahia e a de soccorro a La Rochelle, Frana. Assistiu tambm no Arraial de Pernamhuco. Uma segunda nomeao, esta j por D. Joo, para o governo do Cear por 4 annos e com o ordenado annual de 400 cruzados, como substituto de Domingos da Veiga, tem a data de 3 de Janeiro de 1641.
Francisco Pinto (P.e).Da Ordem de Jesus. Nasceu em 1552 em Angra, Ilha Terceira, entrou para o Collegio da Bahia em 1568ifoi Coadjutor e fez a formatura em 1588.


94
De ordem do Provncia! Ferno Cardim, era companhia do P.e Luis Figueira deixou a 20 de Janeiro de 1607, dia de S. Sebastio, a cidade de Recife, para a.eatechese dos indios do Cear. Acompanharam-o cerca de O indios. Depois de curta estadia no porto de Jaguaribe, que deixou a 2 de Fevereiro, seguiu sempre a p para a serra da Ibiapaba e na converso dos seivicolas yivia de todo absorvido com o companheiro, quando a 11 de Janeiro de 1608 foi cruelmente trucidado pelos Tocarijs.
Escapo da sanha dos brbaros, Luiz Figueira sepultou seus restos dentro do matto no logar Ubajara ao sop da serra; mais tarde foram elles transportados pelos indios de Jaguaribe para a capellinha da aldeia portuguesa junto ao Rio Cear.
Francisco Ribeiro dc Souza. Explorador e dono de terras do Bauabuyu. Era Capito dos auxiliares dos Moos Solteiros da Capitania por Patente de 18 de Outubro de 1709, confirmada ipor Sebastio de Castro Caldas. Em 1702 fez crua guerra ao gentio.
Francisco Xiineues Ac Arago (Dom). Capio-mor do Cear, nomeado a 6 de Abril de 1739.
Servira no Reino e no Estado do Maranho por 25 annos. Foi Capito-mor da Capitania de S. Luiz, desde 1722, tendo baixa a 5 de Junho de 1728; no seu governo concertou os baluartes de S. Cosmo e S. Damio, em que se gastavam de vez em quando considerveis quantias por terem sido feitos sem alicerces e estar a main a bater sempre nelles. indo ao Par construiu o arraial do rio Miarim.
(edeon Morris de tfonge.Commandante da guar-nio Holiandsa do Cear em substituio a Hendrick vau fiam, para o que partiu de Recife a 23 de Novembro de 1640. Estivera longo tempo no Maranho e Par.
A crescente oppresso aos indios e a falta de pagamento aos que trabalhavam nas salinas deram causa a um levante contra os Hollandses. Aproveitando o ensejo opportuno os indios assaltaram em Janeiro de


95
1644 a guaniio do forte do Cear, parte da qual andava disseminada em diversos servios, e trucidaram-na juntamente com Gedeon Morris e o mestre de equipa-gen* Emoc de Bont, cujos barcos foram saqueados c destroados.
Heiidryck rleiiurycksseii Gop. Commandante de um navio hollands, que em 1610 deu fundo em Mocuripe.
Da sua narrao de viagem se tem informao de que a tera fornecia batatas, pau amarei Io, mbar, gai-linhas e faises.
Era seu companheiro de aventuras Claes Adriaus-sem Cluyt.
Joo Algodo. Capito-mor dos ndios da aldeia de Parangaba. Mandou o filho a Pernambuco para ga-; rantir as pazes e amisade feitas por occasio da expulso dos Hollandses, o que lhe valeu ser distinguido por ordem de Francisco de Brito Freire com um vestido de dez mil reis como demonstrao de agrado. Igual donativo teve um seu parente, filho de D. Antnio Eelippe Camaro, que durante algum tempo morou na casa do citado governador. Foi isso em 1661.
Jacob Cochleo (P.c)Nascido em Philippeville, Ar-tois, Frana, em 1629, entrado para a Ordem de Jesus a 5 de Maro de 1649 em Tournay, fez a profisso dos 4 votos a 2 de Fevereiro de 1665.
Veio para a misso do Cear e aqui esteve de 1662 a 1673 ; daqui saiu a missionar os Quiriris. Em 1683 era Reitor do Collegio do Rio de Janeiro, cargo que deixou para oecupar o de Direetor dos jovens es-colasticos. Na Bahia notabilisou-se pelas converses, que operou entre Ingleses, Hollandses e Dinamarqueses. Falleceu em cheiro de santidade a 17 de Abril de 1710 no Rio Grande do Norte.
O P.e Luiz Macedo foi seu companheiro em 1670 no Cear. Esse padre pedido do Conde dc bidos forneceu em 1665 sementes c garfos dc cacau para inicio da cultura dessa planta tia Capitania da Ba>-hia, onde hoje representa uma das suas grandes riquezas.


96
Jeronymo d'Albm|iiei que.Mandado conquista c descobrimento das terras e Rio do Maranho por Gaspar de Souza, que lhe deu o preciso Regimento a 22 de Junho de 1614, esteve no Cear no dito anno. Acompanhou-o o Sargento-mor do Estado Diogo de Campos Moreno, tio de Martim Soares.
De ultimar a conquista foi encarregado Alexandre de Moura.
Falleceu a 11 de Fevereiro de 1618, sendo substitudo rio governo do Maranho pelo filho Antnio de Albuquerque, auxiliado por Diogo da Costa Machado e Bento Maciel Parente.
Joo Alvares da Eiicarnao (P.e) Um dos mais notveis missionrios vindos ao Cear. Pertencia Congregao de S. Phelippe Nery.
Nasceu em Tracunhem, Pernambuco, a 4 de Maro de 1634 e falleceu no seu Convento do Recife vic-timado por uma affeco cancerosa.
Era filho de Antnio Jorge Guerra e IsabH Ta-veira.
Diz delle em documento de 26 de Junho de 1698 o Bispo de Pernambuco : Grande servo de Deos, que por muito tempo continuou com o trabalho de doutrinar os Indio das ditas Aldeas (do Cear) e ainda ao presente continua.
.Joo Amaro Maciel Parente. Natural de S. Paulo e filho de Estevo R. Bayo Parente, natural de Beja e casado com Magdalena Fernandes Feij de Mdureira.
Celebrisou-se no Cear e' Rio Grande na campa nha contra os indios de que fora encaregado Mathias Cardoso (1689).
Era seu irmo Bento Maciei Parente.
Por Patente dc 10 de Abril de 1690 teve a nomeao de Capito-mor das companhias c tropas de Infantaria e indios.
Na sua F de Uficio se declara que afazendo jornada o dito Mestre dc Campo (Mathias Cardoso) do dito Seara pera o Rio grande dando escolta a tres mil cabeas de gado vacum, que se no podia tirar por es-


97
tar ainda enfestado do gentio, o deixar por cabo de toda a gente com todos os seus poderes pera a disposio do que fosse mais conveniente o que fes formando todo o Arrayal em que recebeo toda a gente fa-zeiidolhe contenuar as plantas e despendendo de sua fazenda 140 C. para fardar a infantaria e ultimamente chegando ao Rio grande o dito Mestre de Campo formado aly o arrayal fazer aly duas sahidas a campanha em que se gastaro sete mezes e por fogir os soldados por lhe faltarem soccorros necessrios o mandar retirar o dito Mestre de Campo e pondose em marcha com a pouca gente que tinha pello interior do 'Certo caminhar com grande risco de vida sem plvora nem baila em distancia de 150 legoas de campanha procedendo em tudo com satisfao.
Jau Bautista Syeiis.Natural de Amsterdam. Chegou a Mocoripe a 21 de Novembro de 1600.
Tendo partido de Texel a 28 de Agosto, avistou a 18 de Novembro a ilha de Fernando de Noronha.
Desembarcando tarde em Mocoripe com alguns companheiros condusiu para bordo seis indios, que obsequiados e com ddivas regressaram tetra.
Faziam parte desta expedio os marinheiros Cor-nelis e Andries e de Cayone, que morara por muito tempo entre os indios do Rio Grande e por cujas indicaes foi ella emprehendida. A 15 de Dezembro a expedio deixou o porto, seguindo a viagem traada.
Os gneros obtidos da terra foram aves, fio de algodo e pau amarello.
Joo Cavalcante dc Albnquerque.Filho de Chris tovam de Hollanda, natural da freguezia de S. Loureno, nasceu em 128.
Matriculou-se a 10 de Abril de 1040 como soldado da Companhia do Capito Cosmo do Rego Barros, do Tero de Joo Fernandes Vieira, e serviu com seis cruzados mcnsaes de soldo at 13 de Novembro dc 1052 quando passou a Alfcres do Capito Braz dc Barros, do mesmo Tero, vencendo 15 cruzados mensaes at 26 de Maio dc 1656, quando foi reformado.--A 26 dc Maio


98
de 1656 comeou a servir como Alteres reformado na Companhia do Capito Joo Soares de Albuquerque at 14 de Maio de 1667, dia em que foi provido em uma Companhia de Ordenana da freguezia de So Loureno, por Patente de Andr Vidal de Negreiros, e que serviu at 13 de Junho de 1672. A 10 de Outubro de 1674 foi nomeado Capito-mor da Freguezia de S. Loureno por Patente do Governador D. Pedro de Almeida e exerceu esse cargo at 16 de Maro de 1689.
Joo da (Josta Monteiro.Filho de Luiz Mendes c natural de Vaqueiros, termo de Santarm, Portugal.
Serviu no Cear desde 10 de Outubro de 697' at 14 de Maio de 1707 como soldado, Alferes, Infante, Tenente, Capito de Cavallos e Sargento-mor das Or-denanas.
Aqui cstaya quando os Paiaes se retiraram da ribeira do Jaguaribe onde eram aldeados, e se rebella-ram contra os moradores, conseguindo elle o apaziguamento e a volta dos indios para ar' misso, com o que teve principio a povoao daquella Ribeira e quando contra esses indios entraram em guerra os Jandoins, acudiu-lhes e os livrou do assalto intentado. Auxiliou a reedifcao do presidio do Jaguaribe e abriu sua custa uma estrada nas mattas do Aracaty, facilitando o caminho para Recife.
De ultimo foi provido c confirmado no posto de Coronel da Infantaria da Ordenana da Ribeira do Ja-gUaribe.
Joo.da Motta.Filho de Pedro da Motta c natural da Bahia.
Foi o 1. Capito e Cabo do Presidio da Ribeira do Jaguaribe, mandado situar por Caetano de Mello de Castro. A Patente Regia, qe o confirmou neste posto, tem a data de 9 de Setembro de 1696. Era ento Ajudante dc numero do 3. do Mestre de Campo Zenobio Achioly dc Vasconccllos, posto em que o substituiu Belchior Pinto, por nomeao de 8 de Novembro de 1696.
Facto de summa importncia na vida desse mito-


99
tar foi o papel, que representou na conspirao havida em Pernambuco em 1711 quando os Olfndnses qul-zeram senhorear-se das fortalezas de Recife para impedir a entrada do novo governador Felix Jos Machado caso no fossem perdoados do crime d motim em que haviam incorrido. O povo de Recife requereu ao Bispo, que ento exercia o governo, medidas enrgicas contra o esperado ataque, mas o Bispo longe disso se retirou para Olinda. Por haver morrido o Mestre de Campo Joo de Freitas da Cunha e estar ausente o Sargento-mor1 Manoel Pinto, foi Joo da Motta, como officia mais antigo, nomeado pelo Bispo para assumir o governo da praa de Recife e nessa qualidade sustou por seu valor e vigilncia a entrada dos sitiantes e proveu de mantimentos s moradores, devendo-se assim ao seu prestrtio e lealdade a conservao da praa at a chegada de Felix fos Machado a 6 de Outubro de 1711.
Servira sob as ordens do Capito Antnio Pinto na guerra emprehehdida contra o gehtio do Rio Grande do Norte, que havia morto vrios moradores, commandara o presidio do arraial d Ass, exercera o posto de Capito de infantaria da Ordenana da Viii das Alagoas e fizera nove entradas contra os negros dos Palmares.
A mandado do Governador de Pernambuco veio substituir a Jorge de Barros Leite n governo do Cear (1704) e por sua vez foi substitudo por Gabriel da Silva do Lago. Fez guerra aos Ics e Carathes, sendo cabo delia o Capito Pedro de Mendona.
Joo ff Freitas da Cunha.Substituiu a Pedro Lelou como Capito-mor do Cear. Com elle veio Va-lrio Correia Monteiro, filho de Francisco Roiz Monteiro e natural de Pernambuco, que serviu m Pernambuco e Maranho por tempo de 44 annos, 9 meses e 13 dias continuados de 16 de Dezembro de 1697 at 2 de Setembro de 1742, quando falleceu na cidade de S. Luiz.
Nasceu no logar Beberibe, junto a Olinda, sendo


100
seus paes Francisco Barbosa e D.a Maria dc Almeida, ambos nobres.
Soldado de muito valor, foi Mestre de Campo do Tero da guarnio de Recife.
Uma sua irm, D.a Joanna Paes Barbosa, que casou com Joo Pacheco Pereira, natural do Porto, foi sogra de Jos Fernandes da Silva, Capito-mor de oyanna. Delles descendem muitas familias Cearenses.
Joo de Mello de dusmo.Capito-mor do Cear por Parecer do Conselho em 13 de Outubro e Nomeao Regia de 18 de Novembro de 1660.
Embarcou da Ilha Terceira para o Maranho cm 1618, e para Pernambuco em 1624 em companhia dc Francisco Coelho de Carvalho. Tomou parte na defesa da Parahyba. Passando ao Maranho em 1627, foi Capito-mor de Ourup e Cum, acompanhou Pedro Teixeira no descobrimento do Rio das Amazonas, at.chegar cidade de Quito, jornada em que se gastaram 27 meses e com o Governador Feliciano Coelho de Carvalho desalojou os Ingleses do forte que tinham num dos braos do rio e tomou-lhes um navio. Indo da Ilha Terceira para Portugal em 1641 com avisos do Capito-mor Francisco de Ornellas da Cmara, foi tomado pelos Turcos e levado a Argel, e posto em liberdade, aprisionaram-no os Castelhanos.
Hestituido a Portugal, tornou a embarcar-se para o Maranho, em 1649, como Governador Luiz de Magalhes, e de volta com elle para a Europa, foi de novo aprisionado pelos Castelhanos e libertado.
Candidatos a Capito-mor do Cear competiram com elle Manoel Fernandes Pereira e Paulo Martins Garro. Este muito recommendado pelo P.c Antnio Vicente foi nomeado Capito-mor de Gurup na mesma data da nomeao de Joo de Mello.
Apezar de nomeado em 1660, s tomou posse do governo do Cear a 14 de Dezembro de 1663; deu-a pessoalmente Diogo Coelho de Albuquerque.
Conhecia bem a lngua, modo de proceder e governo dos indios.