Seccas do Ceará /

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Material Information

Title:
Seccas do Ceará /
Alternate title:
Secas do Ceará
Physical Description:
283 p. 20 cm. : ;
Language:
Portuguese
Creator:
Teófilo, Rodolfo
Publisher:
Louis C. Cholowieçki
Place of Publication:
Ceará
Publication Date:

Subjects

Subjects / Keywords:
Droughts -- Brazil -- Ceará (State)   ( lcsh )
Ceará (Brazil : State)   ( lcsh )
Genre:
non-fiction   ( marcgt )

Notes

Statement of Responsibility:
Rodolpho Theophilo.

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 23223984
Classification:
lcc - HC188.C4 T4 1901
ddc - 330.981
System ID:
AA00000247:00001

Full Text


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LATIN AMERICAN COLLECTION UNIVERSITY OF FLORIDA Giftof
Ralph Della Caua ^mM


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(segunda metade do seculo Xix)
Yf 0 Car i'oi mais infeliz as aguas que lhe couberam. Nem um rio perenne corta o seu


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extenso territorio. A configuragao do solo, com grande declive para o mar, d prompto escoa-mento as aguas na estago invernosa.
Nesta epocha qualquer regato parece um rio, e as correntes de maior curso e leito, como o Jaguaribe, assumem proporcoes de ros na vega veis. As aguas, porm, baixam logo que ces-sam as chuvas, e em meio do verao aquellas cor-rentes caudaes, que se vo perder no ocano, e que, se por meio de barragens fossem retidas, fertilisariam a trra numa extensao de mu tos mil kilmetros, ficam reduzidas a tenues fios, que o sol de Dezembro acaba por cortar deixando apenas no profundo leito do rio pogos esparsos e escassos, que servem de bebedouros ao homem e a seus rebanhos.
A repetigao frequente da secca nestes ltimos vinte annos nao anniquilou o Cear, devido energa de seus habitantes.
Durante aquelle periodo o flagello tem qualro vezes se reprodusido, nos annos de 1877 a 1879, 1888 a 1889, 1898 e 1900. Fomos testemunha ocular de todas essas seccas.
A primeira que durou tres longos annos, nos apanhou despercibidos a fruir os gozos de seis lustros de paz e de abastanga; estavamos desacautelados porque os novos desconheciam completamente o flagello e nos velhos, contem-


II
poraneos da ultima calamidade de 1845, o tempe- havia sendo destruido, pelo nemos amortecido de toda a lembranca das scenas dolorosas daquella epocha.
Prospero e feliz viva o Cear com as suas finanzas em da, seu commercio engrandecido, suaindustria pastonl largamente desenvolvida, sua agricultura florescendo, quando entrou o fatal anuo de 1877 sera prodomos que lhe an-nunciassem a nefasta vinda.
Declarado o flagello, que quasi a totalidade da populaoao desconhecia, o pnico foi geral o indescriptivel. Homens e bestas viram-se em. breves dias sem alimentaco e, allucinados ar-rojaram-se pelas estradas em busca de soccorro.
O serto pareca incendiado A trra estava combusta e as arvores, qu se erguiam, nao ti-nham urna folha que fizesse sombra e abrigasse nolla as caravanas de famintos que, em tristissi-rao xodo, desciam em demanda das cidades martimas. Os abastados, os ricos fazendeiros colhidos desurpreza pelo flagello, semmeios de escapar no domicilio e temendo para o futuro a travessia, calcara as alpercatas e de maca s costas se encorporam com a familia turbamulta dos retirantes e com elles participam de toilas as vexagSes no longo caminho de tao ingrato Calvai'io. Quantas vezes assistimos a


12 seccas do ceara'
entrada em Fortaleza das levas dos proscriptos da fome e quantas vezes nao se nos con-frangeo a alma quando no meio daquella onda maltrapilha. e suja descobriamos os rostos de mulheres brancas, de cranlas loiras, atiradas quelle meio, nao por falta de recursos pecuniarios, mas pelo imprevisto do accidente "que os alcancou!
No mais deploravel estado de abatimento phy-sico e moral chegavam os infelizes retirantes s cidades martimas. Raro era o que nao aprssentava na infiltrago dos membros inferiores, no edema das faces, indicios do envenena ment pela mucuna e outras plantas silvestres, de cuja fcula se alimentavam.
FoiemAbril.de 1877, bem nos recordamos, que entraram em Fortaleza as primeiras victimas da fome. A caridade particular as soccor-reu e ellas foram se abrigar sombra dos ca-jueiros nos suburbios dacidade. Mezes depois nao havia urna arvore dos arrabaldes que nao estivesse occupada por urna e, s vezes, mais familias.
O presidente da provincia, Desembargador Caetano Estellita Cavbante Pessoa, magistrado honesto, mas de espirito pouco preparado para agir do prompto contra um flagello que chegava de cliofre e era quasi desconhecido da


i a
geraco presente, deixou-se levar somente pelas miserias que seus olhos viam, ouviu de preferencia p coraco e firmado na lei abriu crditos e iniciou o soccorro directo aos famintos.
Este acto, que, deveria ser approvado pelo governo geral, foi discutido no parlamento, que ento funccionava e ahi peza-nos dizer, a representoslo do Cear desviou-se da norma do de-ver a ponto de um de seus mais augustos mem-bros, oSnr. Jos de Alencar, em longo discurso, negar a existencia da secca allegando queem suam provincia natal os inpernos comecavam as e\es em Jnnho.
Esta affirmacao feita por to grande vulto poltico era urna falsidade, que passou sem um protesto em ambas as casas do parlamento, por as-simexigirem os interesses da poltica, sendo de desastrosos effeitos para o Cear.
0 presidente da provincia flagellada viu-se em posico embarazosa ante a attitude dos representantes do povo cearense na cmara e no senado.
Negar a existencia da secca, quando a industria pastoril, calculada em mais dequarenta mil contos de ris,estava totalmente anniquilada por falta de invern, quando a populacao sertaneja em tristissimo xodo enchia as estradas em demanda da Fortaleza, nao sendo por supina


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ignorancia, seria um acto de calculada e fria crueldade.
0 administrador da provincia, que via as proporcoes atterradoras que tomava o flagello dia a dia, que tinha o seu palacio cercado do manha a noite de retirantes, magros e trapi-lhos, que sabia que a corrente da emigraco engrossava sempre, nao podia continuar a ser delegado de um governo, que punha em duvida tamanha e crudelissima verdade, a secca.
A este magistrado honesto e bem intencionado succedeu um grande do Imperio o Conselhoiro Joao Jos Ferreirade Aguiar, espirito culto,mas infelizmente envelhecido, cloente e sem nenhum conhecimento das necessidade's do Cear.
0 seu governo foi urna serie continua de erros e de desatinos.
Prevenido com os abuzos que se davam na distribuicao dos soccorros directos, como medida repressiva restringiu quanto lhe fui possivel a racao do faminto,suspendeuaconstruccao de abarracamentos em Fortaleza, egualmente a re-messa de vveres para o serto, dizendo que quem qui^esse comer viesse para a capital.
Os actos suspendendo os soccorros para o interior e sustando o levantamiento de barracas, ambos na mesma data, e quando a secca conti-


_F^TmEOPmLO___15_
nuava a devastar toda a provincia, foram de effeito tal que nao precisamos discutil-os.
Estas medidas nao tardaram a dar os mais perniciosos fructos.
A populago sertaneja que ia se deixando ficar no interior da provincia, mantida pela assisten-cia publica, urna vez que lhe faltou o soccorro, deslocou-se em busca da Fortaleza.
Um mez depois de tao fatal medida a populagao adventicia da capital elevava-se a cem mil almas e talvez cincoenta mil sem abrigo de ordem alguma.
Foi ento que o Governo conheceu seu grande erro, mas nao tratou de corrigil-o, ao contrario, recalcitrou, fechando de todo os celeiros aos retirantes e abrindo de todo os portos emigraco.
Esta populagao faminta, na qual se contavam talvez vinte mil homens validos, recebeu a sen-tenga de morrer de fome ou de se expatriar e nao se revoltou, acovardada chorou mais esta dura provagao e espalhou-se pelas ras da cidade a esmolar a caridade publica.
Por fatalidade os seus males nao deviam parar ahi.
Urna chuva pesada e extempornea cahiu e os cincoenta mil infelizes que tinham por abrigo o esqueleto de pequeas arvores nos suburbios da


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Fortaleza, a recuperara em cheio nos corpos mumificados e vestidos apenas de f arrapos.
Das depois d'esse banho maldicto, terrivel morbus se desenvolveu entre oll.es, gerado talvez pela fermentago das iminunclicie3de%uS|r-pos, de seus trapos e de suas habitaQoes/%m.a febrede mo carcter, que os mdicos classifica-ram de biliosa, e que os matava as vezesbem poucas horas, os disimav de um modo assom-broso. Em to precarias condicoes de salu brida-de, creadas pelo governo com seus" actos suspen-dendo os soccorros para o interior e a.construc-go de abarracamentos em Fortaleza, estavamo's quando urna medida, anda mais desastrada em materia dehygiene publica foi tomadaaremo-gao dos retirantes desabrigados para os predios pblicos e particulares desoccupados sitios no corago da cidade.
Dias depois de acto to nefasto a febre maligna entrava em quasi todas as habitagoes da capital, al ento respeitadas pela distancia em que se achavam dos focos da epidemia e por suas melhores condigoes de hygiene.
Foi este periodo um dos mais luctuosos da historia das seccas do Cear.
A sociedade cearense foi ceifada em seus mais distinclos membros. Rarissima foi a familia que nao chorou a perda de um prente.


II
JfsM orria o anno de 1878 e a secca continua va rp^ a sua obra de devastago.
A situago poltica havia mudado, ee-dendo os conservadores o governo aos liberaes, O Cear com o novo ministerio teve como administrador um illustre fllho, o Dr. Jos Julio de Albuquerque Barros,depois Barao de Sobral. J Por sou talento e saber era de esperar dsse me-lhor oriontago ao servigo de soccorros pblicos, levantando os bros e o animo da populago fla-gellada, j to abatidos pela degradago da es-mola.
Assim aconteceu. Devido a seus esforgos pe-rante o governo imperial fo encampada e prolongada a Estrada de Ferro de Baturit e mandada construir a Estrada de Ferro de Sobral^ A assistencia publica tomou outra feigo.


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seccas do ceara*
Foram iniciadas obras na capital e nos pontos mais populosos do interior, recebendo o retirante necessario soccorro, que retribua com trabalho.
Por mais solicito que fosse o administrador, por melhor que fosse a sua orientago,foi o anno de 1878 o mais terrivel dos annos calamitosos que o Cear tem tido. Basta dizer que febro biliosa, que tantas mortes fez, succedeu a varila que chegou em Fortaleza sem se annunciar.
Veio do Aracaty e entrou nos abarracamen-tos dos retirantes a baria vento da capital, atacando logo s centenas. Quando a terrivel molestia poude ser reconhecida haviam, nao centenas de enfermos, porm milhares dissimina-dos pela populago adventicia da capital.
O governo pretendeu arcar contra a peste, creando lazaretos, cuidando activamente da vac-cinago e revaccinagao do povo, mas nada disso retardava o desenvolvimento do terrivel morbus.
Para se avaliar da intensidade da epidemia basta dizer que chegaram a morrer de bexiga, em uin s dia, 10 de Dezembro, n'uma populago de pouco mais de cem mil almas, mil e quatro pessas! !
Quando a peste attingiu ao seu mais elevado grao de virulencia, a Fortaleza aprensentava um aspecto de sombra desolago.


r. theophilo
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Agora j nao era smente entre os retirantes que a varila fazia victimas,porm na classe me-lhor favorecida da fortuna e melhor agasalhada. Estas victimas entretanto eram em pequeo numero, gracas ao poder miraculoso da vaccina.
Temos sobejas rasoes e o testemunho de innmeros factos para assim nos pronunciarmos em favor da vaccinagao.
Entre outros basta lembrar o da Escola de Aprendizes Marinheiros, que tinha mais de cem alumnos e onde nao se deu um s caso de varila,embora passassem na frente d'aquelle esta-belecimentoos cadveres dos bexigosos em grande numero e completamente expostos. Brbaro, indecente e altamente pernicioso a saude publica era o modo porque eram condusidos os corpos dos famintos, victimas da varila. Bem poucos eram os que tinham por esquife a rede immunda e rota. A maioria segua para a valla assim : amarra vara o cadver, amorfcalhado apenas nos trapos que lhe serviam em vida, em um longo pao e levavam-no cova.
Na citada epidemia de varila, tal vez a mais mortfera que registra a historia desta peste, e a que assistimos toda.aimmunidade da vaccina sa-lientou-se de tal maneira que os individuos mais obstinados por ndole e ignorancia a tal meio


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prophylactico acabaram por entregar os bracos vaccinago afim de seren preservados !
A morte de algumas pessoas vaccinadas e mesmo a de algumas que j haviam tido bexi-gas, urna e duas vezes, trazia o esperito dos que se suppunham immunes em desconCianea ,e perturbaba o.
A varila, pode-se dizer, matouemquanto em-controu individuos nao perservados pela vacci-na.EUa 'evestiuasformasmaisgravesefoi assim que a forma hemorrhagica tornou-se commum e temida pela sua incurabilidade. Nao tivemos conhecimento de um nico caso do cura.
O terror que infund u na populago foi enorme e mais augmentou quando o proprio palacio do governo loi invadido pelo mortfero morbus sahindo por suas portas urna victima, o cadver da mulher do presidente da provincia.
As maif. alarmantes e aterradoras noticias circularam e chegaram Corte.
Dizia-se ento que a peste negra havia se desenvolvido no Cear.
O governo geral enviou urna commissao de mdicos para tratar da bubnica, mas quando ella chegou apenas encontrou os destrogos dei-xados pela varila. Fortaleza tinha ento o aspecto desolador de urna cidade das depois de um grande mortecinio.


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Para se avaliar de suas tristezas basta dizer que quasi metade de seus habitantes a morte havia ceifado no curto espaco de um anno. A sua populaco fixa com a retirante se eleva va a 124 mil almas em 1878. Pois bem, de Janeiro a Dezembro daquelle anno morreram de varila, febres, dysenteria, beriberi e outras molestias 57.780 pessoas !...
Quem visitasse a nossa cidade receberia urna impressao bastante desagradavel
A classe melhor favorecida da fortuna tra-java luto, vivia sucumbida, de portas fechadas.
Os retirantes, que enchiam as ras, estavam monstruosamente disformes pelas bexigas. Raro era o que, alm do rosto esburacado, o nariz comido, nao apresentava aos transuentes, melhor vestidos, para lhes inspirar piedade os raera-bros cobertos de nojentas ulcuras! Isso ainda nao era tudo. A mucuna, essa leguminosa histrica, que d aos famintos a fcula de suas ra:.zes impregnada de acido tnico, havia lhes deteriorado a saude talvez para o resto da vida.
O excesso de tanino, de to selvagem comida, havia cortido as mucosas do apparelho digestivo as repetidas refeicoes e d'ahi as innmeras alteragoes que se observavam' na saude dos retirantes.
As dysenterias, as diarheas to frequente-


seccas no ceara'
mente notadas entre os faminlps tinham por causa primordial o uso que haviam feito damucun.
A hemeralopia, como consoquencia immediata do despauperamento do organismo, grassava em larga escala. Como entristeca ver esses doentes ficarem cegos todos os das logo que o sol se punha!..
Recolhido ao ocaso o astro elles tambom se recolhiam as chocas at que de novo viesse a luz solar lhes alumiar as retias
Na Corte, sob a presidencia do Conde:, d'Eu, reuniram-se na Escola Polytechnica as smmj-dadesscientiflcas do paiz para estuchar as caulas' das seccase rmedial-as. Este congresso, entretanto apezar de tomarem parte n'elle o conse-IheiroBeaurepaire Rohan, Baraode Capanema, Senador Viriato de Medeiros (cearense) enge-nheiro Andr Reboucas e outros illustres brazi-leiros, nada resolveu que se aproveitasse, sendo de resultados negativos.
A maioria desses nossos sabios conheciam mais a fauna, a flora e a geologia da Europa do jque as do Brazil. E tanto isso verdade, que Ipropozeram as mais estrambticas medidas, como a arborisaco do Cear com oabacateiro, i a construcQo de cisternas nos sertoes, a remes- sa de alambiques para a distillacao d'agua do


mar e outras eguaes extravagancias que seria enfado-nlio relatar.
O Sr. Baro de Capanema, que conhece todo o interior do Cear, pois por aqui andoucomo membro da commisso sci entifica em 1860, nao foi mais feliz e nem mais rasoavel as propostas que apresentou. Pediu as cisternas e extra-nhou que o pequeo lavrador cearense fosse to imprevidente, nao guardando na despensa o pao para os.annos seceos, attenta a fertili-dade do sol."Escudou a sua censura formal em exemplos, nao encontrados em nossa trra, mas /no estrangeiro onde mostrou a previdencia de G-udula, que de trabalhador de mina passou a millionario. Descobriu ainda que as seccas podiam ser previstas com um anno de antecedencia, o que seria urna felicidade, se assim fosse, em virtude de sua coincidencia com a mnima de manchas solares. Este eou-tros erros na apreciaco dos factos levaram o nosso sabio a deduccoes de urna falsidade pasmosa.
Sobre-manchas do sol e seccas j nos oceu-pmos em longo artigo onde provmos que nunca existiu tal coincidencia e se assim fosse nada melhor seria, porque as mnimas das manchas tm um periodo certo, que o de onze annos. Se assim fosse, repetimos, esta-


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vamos prevenidos que teriamos urna secca de onze em onze annos.
Umfacto muito recente ainda um argumento contra a pretendida influencia das manchas do sol pobre a meteorologa do Cear.
O anno de 1898 foi socco, o de 1899 de invern t&o copioso como nao ha noticia, o de 1900 completamente secco e o de 1901 de bom invern. Ora se o numero de manchas solares influisse na quantidade da chuva que annualente cahe na trra cearense, augmentando-a oudiminuindo-ana razo directa de seu numero, e se esse numero cresce e decresce gradualmente, como explicar dois annos de secca tendo de permeio umanno de invern rigoroso ? Ou taes manchas nao influem as estacoes, o que certo, ou o movimento das manchas solares nao segu urna marcha regular.
A causa das seccas, nos parece, j o distemos h vinte annos, s e nicamente a di-reccjao das corren tes aereas.
Temos observado que soprando vento de leste, Ies-sueste ou sueste nao chove absolutamente no Cear. E tanto assim queaquelles ventos que reinam de Agosto em di ante cessam de todo na approximacao do invern. Temos ento calmara ou correntes de nordeste ou norte.


III
AXNode 1879 fo secco, mas comparado ~T?>T com os antecedentes fo muitissimo me-
w
nos calamitoso, porque alm de melhor estado sanitario, os retirantes achavam-se todos collocados nos servigos pblicos.
Havia atum certo contentamento na popula-cao, na abastada mesmo, em consequencia de um comego de adaptagao ao meio ou ao goso de certo bem estar d'essa epochamais bonangosa comparada com os sombros dias de 1877 e 1878.
Reinava urna certa despreoccupago em todas as classes.
0 presidente da provincia, apezar de sua recente viuvez, divertia-se, azia recepgoes e dava semanalmente saraus.
Eram grandes, entretanto, as despesas do Bra-
A SECCA. 2


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zil com a alimentago de cerca de trezentos mil | i'amintos. E' verdade que o soccorro directo, a ; esmola, havia sido inteiramonte desprezado e o retirante trabalhava por mdico salario as obras do governo que se tinham iniciado, obras de grande utilidade e importancia, como o pro-longamento da Estrada de Ferro de Baturit, construcco de alguns acudes, etc.
A poltica que tem sido em nosso paiz, em lodos os tempos um tropego gesto dos negocios pblicos, nao tardou em se immiscuir nos do Cear. i As sommas despendidas com a salvagao dos ; cearenses accossados pela secca foram sobejo motivo para em ambas as casas do parlamento, se levantaren! graves accusagoes ao Cear e ao seu administrador.
Um dos membros do senado, o Sr. Silveira da Motta nao respeitando a sua posigo, nem guardando decoro sua velhice, nos langou o labo de ladro e pcdiu a suspensao da assis-tencia publica, urna vez quedo porto da Fortaleza e dos demais da provincia sahiam diariamente carrcgamentos de rinha para serem vendidos em outros mercados. Esta accusgo to injusta quanto perversa, pesa-nos confessar, passou sem protesto O nico representante que a esse tempo tinhamos no Senado, o Dr. Domin-


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gos Jos Nogueira Jaguaribe, depois visconde de Jaguaribe, era de poltica adversa ao governo, deixou por isso a calumnia triumphante, antepondo assim aos mais sagrados deveres de representante de um povo honesto e altivo os interesses pequeninos do grupo poltico a que estava filiado.
Esta accusacao, contra a qual protestamos e tivemos a 'elicidade de desmentir formalmente com documentos que publicamos em nosso livro Historia da Secca do Cear, produziu os seus nefastos efleitos.
O ministro da fazenda, to leviano como o senador que havia denunciado aexportago de fa-rinha no Cear, por abuzo de poder, suspen-deu ossoccorros pblicos s victimas da secca.
Este acto arbitrario foi sustado pelo Imperador que dsse ao seu ministro : O Brazil anda nao est em condicoes de deixar morrer de fome urna provincia !
O decreto foi trancado e continuou a ser prestada a assistoncia publica.
A sec^a que-comecou com o an-no do S77 continuou at o meiado de Margo de 18S0. O periodo de privagoes j estava se tornando por ciernis longo e os sacrificios pecuniarios da Nagao quasi excediam as suas forgas.
Todos viviam amis mortalespectativa. Os


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olhos nao deixavam de investigar o- espaco e no entanto nem um nimbo percebiam a toldar a transparencia de to azulino co.
Passaram-se os mezes de Janeiro e Fevereiro sem urna promessa, sem um indicio de invern prximo. Os ventos de leste e sueste sopra-vam dia e noite, abatendo mais o animo dos que acreditavam estar muito perto a extincgo da secca.
Entrou Margo e a primeira decada foi toda de apprehensoes e de desalentos.
O mesmo vento a remoinhar pelos esqueletos das arvores, o mesmo fulvo sol a arrancar scirP-tiagOes de incendio das faces argnteas das micas incrustadas no combusto solo. Alio vento amainou, os vapores que eram tangidos pela impetuosidade das correntes foram-se es-pessando e velando a tela azul do firmamento com um tenue veo de tristeza. As malacaxetas j nao espelhavam feridae. pela luz nem gemiam os esqueletos das arvores sacudidos pela ventana.
Quatro das depois d'essa queda brusca dos elementos, que haviam seccado as fontes e esterilizado os campos, raiava a aurora da re-dempgo para o Cear.
Anda nos lembramos de to auspicioso dia, o 14 de Margo de 1880.
O invern chegou sem precursoras bategas


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d'agua. Ao alvorecer d'aquelle memoravel dia, a abobada celeste pareca incendiada com o fogo da electricidade, o trovo bombardeava o espa-co e a chuva cahia pesada e copiosa sobre a trra, secca e gretada, como urna esponja, desde as bellas praias da .Fortaleza at q extremo da provincia, o ubrrimo valle do Cariry.
Os cem mil infelizes, que a secca havia expatriado, uniam as suas vozes n'um unisono'bra-do de alegra e saudavam o bemfasejo invern, a aurora de seu.dia redemptor.
Nos abarracamentos o contentamento era gral.
Todos se preparavam para regressar ao torro do herco.
Que saudades do serto a chuva lhes havia despertado Nao icariam agarradoras praias da Fortaleza, emquanto lhes dessem raco, em-bora de carne do sul ardida e farinha com bolor, como haviam affirmado os seus delatores no senado, os que haviam os taxado de ladroes.
Nao foi preciso que o governo mandasse que i voltassem; elles mesmos se apresentavam aos I commissarios dos abarracamentos e instavam para que lhes dessem meios de regressarem emquanto podiam semear a trra.
Voltavam lo encorajados, com a alma alentada de tanta esperanca que consola va vel-os par-j


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seccas do ceara'
tirem. Mal sabiam que emigraran! mais cedo ou mais tarde e que para o cearense a estrada ingrata do Calvario nunca ser obstruida. E sel-o-ha em um futuro muito remoto quando os poderes pblicos tiverem nocs dos seus deveras, forem patriotas. >
As aguas retidas em grandes massas nos diversos reservatorios que a natureza se encar-regou.deconstruir, ensinando assim ao liomem da trra das seccas o que deveria fazer para se remir de to grande flagello, e devidamente aproveitadas nos trabalhos da irrigaco, faro do Cear um dos Estados mais ricos do Brazil.


IV
^Y1 ove annos foi o periodo de repouso entre a secca que terminou em Marco de 1880 w X e a que comegou em 1888.
O Cear em to curto espacode tempo com invernos que nao foram copiosos, apenas creadores, progrediu admiravelmente. A trra descansada produziu de urna maneira assombrosa. O pequeo numero de rezesque escapou augmentado com algumas importadas do Piauhy em breve encheu os campos outra vez. Ana-tureza estava, pode-se dizer, n'uma ancia febricitante de procrear. Foram innmeros os casos de vaccas com partos de dois filhos. '
Em tudo via-se a pujanga dos reinos vivos.
As arvores que se haviam conservado despidas durante tres longos annos agora se vestiam, com urna opulencia nunca vista. As plantas


^32_SEO^AS^jJ^^_
forrageiras, o capim cobriam totalmente os campos e cresciam ora do coromum. 0 gado em pouco tempo engordou de um modo incrivel. As vaccas davam tanto leite, como nao havia exemplo, diziam os fazendeiros.
Os seres se reproduziam de um modo nunca visto. A natureza dir-se-hia tinha pressa de encher os claros abortos pela secca.
Ao lado dos animaes uteis, se desenvolvan! parece que anda com mais vigor e rapidez os nocivos.
Assim em breves das a cobra de cascavel, esta lemivel serpente que mata em poucas horas o maior vvente, infestou o sertao inteiro. Para se- fazer urna idea da quantidade destes reptis, basta dizer que no arnanho de um rogado de um hectare matavam-se cem cobras de casca vel e mais.
Por toda a parte a vida borbulhava assim. as aguas dos rios, lagas e ipueiras, antes de findo o primeiro invern, j lrvilhavam cardumes de peixes, que pareciam cahidos do co com as chuvas.
A convalescenga do Cear como se v, foi rpida.
A sua populago quasi duplicou no espago de nove annos J Oque se observa va com relagao a multiplicago da especie nos brutos, observa-


__R. THBOPHILO ___3JL~
va tambem com relago ao homem. Mulhe-res com filhos gemeos em 1880 foram sem conta.
A estatistica de nascimentos e bitos d'aquel-le auno e dos subsequontes est ahi para provar que a cifra dos nascimentos era muito superior a dos bitos.
A medida que iamos convalescendo do grande mal que nos prostou iamos nos esquecendo d'elle.
Em comeco de 1888 j ninguem falava mais om secca; os mais timoratos esperavam que ella vollasse, porm depois de urna tregua de 30 annos como a de 1845 a 1877.
Os particulares viviam assim despreocupados. E o governo geral, que tinha o restricto dever de procurar melhorar as condigoes d'este pedago do Imperio, sujeito a to tremendas calamidades, nao cogitou mais sequer de medidas que de futuro attenuassem os desas 'osos effeitos das sec-cns. As obras do grande reservatorio do Quixad ostiveram por vezes parausadas a falta de crditos e se nao foram do vez abandonadas, deve-se ao Imperador.
Estavamos nessa criminosa despreoccupaco quando declarou-so aTsecca de S88. O flagello fo>. parcial. Em muitos pontos da provincia, mormente as serras as chuvas deram para crear


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seccas do ceara'
legumes, cereaes e mandioca, e em quasi todo serto pastagem para os gados.
Accresce que a par da pouca intensidade da secca, o governo geral veio immediatamente em soccorro dos famintos, solicitude esta quesera digna de encomios se ignorassemos o que a moveu. Era presidente do Cear um paulista, o Dr. Antonio Caio da Silva Prado, homem de grande talento, variada cultura, tendo o poder de assimilaco to desenvolvido que por si s bastara para fazel-o um ser privilegiado. Este espirito com semelhantes attributos, com pen-dor especial para administraco, tinha as vezes leviandades e caprichos de creanga. Estes eclipses de seu esclarecido entendimento, entretanto, nao prejudicavam o interesse que li-gava a salvaco publica. Delegado de um governo, que n'elle deposita va inteira confianga e irmo do ministro da agricultura, aga sem receios de que fossem reprovados os seus actos.
Sem aquelles defeitos apontados, com um pouco mais de sensatez e de circumspecgo, te-riamos tido nesse presidente o mais perfeito dos administradores. Tendo nocoes de todos os ramos de conhecimentos, mas sem profundesa em nenhum, possuindo grande cabedal de in-formagoes adqueridas em viagens a diversos paizes da Europa, nao lhe foi difficil depois de


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um ligeiro estudo saber quaes os melhoramen-tos de que mais nescessitava o Cear. Decidiu-se pela acudagem e deu comeco a diversas bar-ragens em alguns pontos da provincia. Fez prosiguirem com acudamento as obras do re-servatorio do Quixad e se a morte nao o surpre-hende em meio da tarefa, estamos certos, o Cear icaria dotado com bons elementos de resistencia aos" flagellos das seccas.
Morreu em toda pujanoa da vida e em caminho da celebridade, de urna febre que o levou em po ucos das e que os mdicos classificaram de amarella, mas que falta-nos competencia para acceitar ou regeitar o diagnostico urna vez que se nao fez o exame bacteriolgico.
Depois d'este te ve o Cear mais dois go vernos antes da proclamaco da repblica. Ambos ephemeros e nada deixaram de sua passagem que attestassem boa orientaco em materia de administraco publica.
Foram o senador Henrique Francisco d'Avila e, o coronel Moraes Jardim. 0 primeiro era um amigo devotado do Cear, homem intel-ligente, porm de genio violento, tinha ainda contra si vir administrar urna trra, que nao conhecia, e em urna epocha toda anormal.
O segundo nao tinha tambem noco alguma da calamidade que nos assolava e antes de um


36 SECCAS DO CEARA^_____
completo naufragio foi deposto pela revolucao que proclamou a repblica.
Esta encontrou o servico de soccorros mais ou menos organisado.
A noticia da mudanca de forma de governo chegou ao Cear, como em quasi toda parte, inesperadamente. Na vespera do acontecimento na provincia inteira talvez nao se contassem tres republicanos. Dois dias depois d proclamagao da repblica dava-se justamente o contrario, era dificil encontrar tres monarchistas. To rpida mutaco de ideas, de principios, a | nenhuma resistencia mudanga de forma de go-, verno, operada sem derramamento de sangue,. I e de que tanto se falou de um modo elogioso para ndole e carcter do povo brazileiro, foi par, nos urna pagina por demais negra, porque revelava smente o atrazo ou demencia da presente geracao.
Amanh, se houvor restaurago, o que nem acreditamos nem tao pouco desejamos, por que absolutamente nao facemos queslo de forma e sim de bons governos, desapparecero da noite para o dia os republicanos, ficando,fagamos jus-tig, a mocidade das escolas, mas nao em sua totalidade.
O cearense mais do que nenhum outro brazileiro deviaser grato a D. Pedro 2., basta lem-


r. theophilo^_^ _
brar a solicitude paternal com que nos acuda em tempos de fome, basta dizer que, por fanfur-rice ou nao, quando os seus ministros quizeram suspender os soccorros pblicos, elle lhes dis-se: guando nao houver mais dinheiro nos cofres da Naco para a salvacao dos faminlos do Cear empenharei as joias da corda.
Faziamos n'essa epocha parte da populagao da Fortaleza, onde se achava grande numero de retirantes soccorridos pelo governo e d'essa multidao que se dizia fantica pelorei, nao se ouviu sequer um protesto contra a forca armada que depunha e desterra va o monarcha. Pelo contrario os que tinham certa cultura e occupa- j vam algum emprego na distribuicao de soccor- ros se apresentavam ao governo provisorio a| se inscrever no livro das adhesoes Repblica, j
Foi nesse periodo agudo de agitacao, em que cada um quera fazer js a maiores recompensas que um exaltado bramindo de colera, investiu contra o retrato do Imperador, tela do tamanho natural, collocada no salao do palacio do governo, e laucando sobre o soberano decahido as mais infamantes injurias crivou-Lhe o peito de punhaladas.
Era o periodo que atravessavamos muito precisamente egual ao que se observa as enxurradas, quando os rios descem com as pri-


38 seccas do ceara'
meiras aguas levando tona todo o lixo das mar-gens, o qual fica dias e dias a turvar a limpidez da corrente, at Fermentar do todo e se depositar na vasa como lama que , quando se organisou o governo provisorio do Cear.
Cada qual allegava mais ser vicos causa democrtica em pouco mais de quarenta e oito horas.
Aflnal os soldados acclamaram um soldado governadorem nome doexercito, armada o po-vo; e este estupefacto assistiu a acclamago e sancionou-a com o seu silencio.
0 governador coronel Luiz Antonio Ferraz, chamou para seus secretarios sete cidados, que compozeram o ministerio com tantas pastas quanias eram as do decahido imperio.
Negocios da Fazenda : cidado Joo CorJeiro.
Da guerra : major reformado Manoel Bezerra de Albuquerque Jnior.
Interior: Joo Lopes Ferreira Filho.
Justica: Tenente Alexandre Jos Barbosa Lima.
Exterior: Joakim de Oliveira Catunda.
Marinha: 2. Tenente da armada Jos Tho-maz Lobato de Castro.
Agricultura, Gommercio e Obras Publicas : Jos Freir Bezerril Fontenelle.


:.o 39
Por imitaco, o Ico, cidade sertaneja acclamou um governador e organisou tambem ministerio.
Nao entramos na apreciagao das fardas que se representaram ento, apenas trataremos da influencia que teve a repblica nos soccorros s victimas da secca,
A pastada fazenda coube ao Sr. Joo Cordeiro, um dos tres republicanos que tinha o Cear no tempo da monarchia, homem intelligente, sem cultura, porm, com grande pratica de servico publico em tempos de secca, por ter servido, como auxiliar durante quasi toda a calamidade
Este cidado com reaes servicos causa publica naquelle periodo e com grande somma de experiencia deu mais ou menos boa direc 0 chefe do governo provisorio no Cear era um militar honesto, bondoso, mas ignorante, pois nao tinha curso das nossas escolas militares. A sua proverbial prudencia e bondade de-vemos a falta de desatinos to communs em epo-chas de revolucoes. A elle devemos nao ter sido levantada a forca na praca publica, pois entre os seus secretarios havia homens crueis e sanguinarios.
de 1877 a 1879.


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seccas do ceara'
O anno de 1890 veio remir o povo da miseria. O invern cahiu cedo e, si a secca contina, talvez bssemos abandonados aos nossos proprios recursos, porque o governo republicano, em materia de assistencia publica dava a entender qual seria sua norma de conducta : urna vez reconhe-cida a autonoma dos Estados, que se salvassem como podessem em tempos de calamidade.
Felizmente Deus se compadeceu de nos e a ten a regada pela chuva em breve deu abundantes f'ructos.
De volta a seus domicilios a populago que a secca havia deslocado, o Cearentrouom franco periodo de abastanza.
As industrias agrcola e pastoril prosperavam e todos acreditavamos ser bem longo o periodo de paz e de tranquillidade.


V
secca parcial de 1898 declarou-se ines-
X ~\ nada fez para attenuar os effeitos de futuras seccas no periodo de 1880 a 1838, o governo da Repblica nao fez mais do que imital-o de 1890 a 1898.
Nem um s trabalho foi portanto iniciado de i y 1880 a 1898. I Foram dezoito annos de compL ta indifferenqa dos poderes pblicos a regio condemnada a taes flagellos peridicos, indifTerenga esta tanto mais criminosa, quanto havia completa certeza de que a calamidade voltaria.
A secca de 1898, por felicidade nossa, foi parcial. Alguns municipios foram respeitados
peradamente. So o governo do Imperio
A SECCA
3


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SECCAS DO CEARA'
mormente os do sul do Estado. A sua pouca extensao nao deixou entretanto de reduzir a extrema mizeria alguns milhares de familias.
0 xodo dos que haviam ficado sem pao pelo aniquilamento de sus industrias, se encami-nhou para a. Fortaleza, ponto obrigado nos maos tempos, as dolorosas perigrinagoes da fome.
0 presidente do Estado Dr. Antonio Pinto Nogueira Accioy recebeu os emigrantes, pesa nos dizer, com a maior indierenc;a !..
Os cofres pblicos nao ostavam osgotados. cpmohoje; havia numerario sufficiente para oc-correr as despezas com a alimentaco destes in-felizes, que no mais lastimoso estado enchiam as ras da capital esmolando a caridade publica.
Essa indifferenca, esse temor de iniciar a as-sistencia publica, s denotava fraqueza do administrador. E' verdade que logo que fosse aberto o primeiro crdito pela verbasoccorros pblicoslogo que o governo dsse a pri-meira esmola, nao ficariam no interior os individuos, que com algum sacrificio atraves-sariam a crise nem os de todo desvalidos.
Era preciso da parte do governo urna energa quasi sobre humana em tao melindrosa quadra.
Foi por se achar baldo d'ella,foi teniendo as


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exigencias de amigos polticos que o governo do Estado, parece-nos, deixou a Deus e ao teinpo a soluco dodifficil problema da assistencia publica.
Funccionava o parlamento e ainda urna vez pesava sobre o Cear a lalta.de patriotismo dos seus representantes.
A nossa rcpresejitacao,que havia soguido para o Rio sob a bandoira de um partido, dividiu-se em dois grupos, um contra' e outro a favor do governo do Estado. Dessa dissenco resultaram males que relectiram directamente sobre a po-pulaco faminta. 0 grupo dos opposicionistas na Cmara clamava por soccorro s victimas da secca, sustenta va os direitos dos esfonioados garantidos pela Constituioo da Repblica, ac-cusava a attitude passiva do presidente do Estado, tudo isso, digamos a verdade, nao por patriotismo, porhumanidade.mascom o fim nico deferir, de malestar o administrador do Cear.
Os que apoiavam o governo ncgavain o flagello ; quando muito concdiam a existencia de um anno escasso,cujos effeitoso Estado possuia elementos para attenuar.
Os poderes pblicos da Unio sempre propensos a negar a assistencia publica ao or le, rospondiam aos nossos represestantes que o pre-


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sidente do Cear nao havia solicitado o auxilio da Unido, que a maioria dos deputaos e todos os senadores cearenses eram unnimes em deca rar que o Cear tinha elementos para attenuar os effetos da pequea secca que o assolava.
Isso dizia-se em ambas as casas do parlamento, isso afflrmava-se pela imprensa, e no entan-to nos que assistimos a alludida secca, podemos dizer que bem duras foram as privacoes por que passaram nessa epocha os retirantes que se alo jaram em Fortaleza.
De Julho em diante as arvores dos suburbio* se encheram de famintos, completamente trapi-lhos e de todo ao desamparo. Pela manha essa massa de desventurados deixava os pousos e der-ramava-se pelas ras da cidade a pedir esmolas.
Acossados por toda a casta de soffrimentos, alimentados insufflcientemente, pois a caridade publica esgotava-se, acabariam por succumbir de inanico ou de molestias, em consequencia della, na Capital do Estado, so o govornador do Para, homem bem orientado, nao viesse em seu soccorro conduzindo-os para aquella ubrrima e pouco povoada trra.
Bemdiziamos a mao que nos levava os elementos de prosporidade, de progresso, porque permanecendo elles aqui, teriamos para vergo-


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nha nossa de vel-os aniquilarem-se de fome, e assim o governo do Estado visinho poupava-nos o desgosto de somolhante espectculo e aprovei-tava no engrandecimiento de sua trra o colono cearense, militas vezes superior ao colono es-trangeiro.
Sabe Deus com que pezar dizemos essas verdades, a revolta que sentimos ainda hoje escre-vendo-as.
Quando a noticia do nosso abandono espalhou-se, chegaram do sul e norte agentes de diversos Estados a proverem-se no viveiro cearense da gente que melhor lhes aprovesse.
Uns queriain homens para lavrarem as suas longinquas e incultas trras, outros soldados para as suas tropas.
Eramos um povo desherdado e sem dono.
O chefe de nosso Estado nao se apercebia d'este escarneo.
Para tornar patente sua reprovaco emigra- j gao mandou executar aleiqueobrigavaoagen-j ciador de emigrantes ao pagamento do imposto de um cont e quinientos mil ris. Deixou de haver o agenciador de emigrantes para haver o comprador de cearenses. Os cofres pblicos comegaram a rcceber o dinheiro dquolle imposto illegal e ignominioso.


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Nos que fomos os primeiros a libertar os nos-sos escravos, eramos vendidos agora aos fazen-deiros dosul equem sabe, seem seus extensos caezaes onde iamos substituir os captivos que libertamos, nao encontraramos o latego do fei-tor.dtronco.a gargalheira como punico do nosso mais glorioso feitoaextinccaoda escravid.io.
A lei de 13 de Maio de 1885 abolndo o elemento servil no Imperio foi urna consequenoia fatal da libertario dos captivos da villa doAcarape, (cidade da Redempgo) em 1." de Janeiro de 1883. Livre de escravos o Cear, este pedaco da patria brazileira, o movimento abolicionista accelerou-se e dois anuos depois era decretada a oxtincg'io da escravatura no Brazil.
O mercado de gado humano estove aberto em quanto durou a fome, pois compradores nunca faltariam. Raro era o vapor que nao conduzia grande numero de cearenses.
Os compradores levavam para a milicia a flor dos nossos homens.
Elles tinham um tanto por cabeca. Com que gana alistavam os nossos caboclos no vos e fortes, lembrando-se que feriam de gratiicaco do Estado que os commissionava,por praca,a quan-tiadecem mil ris, afora as despezas de viagem.
Por felicidade nossa, o auno de 1899 foi de copioso invern. Os poucos retirantes que deixa-


r. theophilo___ jZ.
ram de emigrar o estavam em Fortaleza, logo que cahiram as primearas chuvas, voltaram aos seus domicilios. Esse anno teria sido relativamente abundante se houvesse samantes boas e em quantidade precisa. O Estado distribuiu com os lavradores pobres urna sementeira de pessi-ma qualidade.cujo resultado foi a falta do colhei-ta em epocha to propicia pelo seu invern.
Vimos rogados plantados com taes sementes e fazia lastima vel-os. Tanto trabalho perdido O milho antes da liaste ter attingido a altura de um metro florascia, e a espiga nao vingava um jgro O arroz por velho e chocho nao nasceu e o feijo, mulalinho, nao produzindo bem seno as serras, vegetou mal o poucas vagens deu.
Taes sementes que custaram ao Estado cerca de oitenta contos do ris, nao produziram oi-tenta patacas!
O que havia muito no Cear era agua. As chuvas haviam dado mais de dois mil e quinhen-tos millimetros. Nao havia no serto um deposito que nao estivesse transbordando. Na capital a agua subiu a urna altura nunca vista.
As cisternas que em 1898 descerara a urna profundidade de quarenta a cincoenta palmos, agora estavam flor da trra.
A agua soberbava por toda parte; os quin-


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taes estavam alagados havendo em alguns, ver-dadeiros lagos de mais de um metro de fundura.
No BouleArard do Duque de Caxias corra um riacho onde a meninada se diverta pescando piabas e caras.
Esse desperdicio da natureza em um. invern que dara dois, faria falta mais adeante, dizia-mos nos, quando vamos a trra nao poder mais beber a agua que cahia do co.


Os pequeos lavradores esperaram em seus domicilios pela confirmago da secca no equino-cio de Margo.
Confirmada ella, reproduziram-se nos cami-nhos do ser to as dolorosas scenas dos calamitosos tempos idos.
As chuvas cahidas no Estado foram insignificantes, em quantidade inferior s de 1877, o anno mais secco do Cear. A industria pastoril nao se aniquilou, gragas abundancia d'agua retida no subsolo, ainda do grande invern de 1899,' pois as seccas o que concorre poderosamente para o acabamento do gado a


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sede. Havendo aguadas francas, o criador com algum trabalho, deilando rama aos animaos consegue sal val-os.
Nada causa peior impressao aos retirantes as estradas do interior do que os cadveres mumiflcados d >s animaes.
Nao ha penna que descreva o horror d'esse espectculo da fome.
Imagine-se urna trra, nua de verdura, como urna soll'atara, gretada, arborisada de negros esqueletos, sem um zumbido de insecto, sem um gorgeio de ave, tendo por cpula um co de um azul tao puro, como nao ha em regiao alguma do globo, e ter-se-ha a tela onde se desenham as angustiosas scenas da fome.
No azulino espaco, o sol, como um globo de prata fundida, em s ntilacoes que offuscam, dardeja sobre a trra, que tornou combusta, o calor de seus raios, que se irradiam e tudo ciuei-mam visinhanga do solo.
Este quadro, de tao tristonha perspectiva, que os olhos bacos do retirante, contemplando-o, marejam lagrimas, tem aindatons mais dolentes e mais sombros. 0 rido e queimado solo onde se arrima urna floresta de esqueletos,que o vento sacode com suas rajadas infrenes arrancando da ramaria secca um gemer fundo e longo, urna


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melopea de urna cadencia grandemente fnebre, nao punge e commove tanto a alma dos famin-tos, como os animaes mumiflcados, que se en-contram a cada passo. Estas pobres victimas da fome abandonadas pelos donos que tambein fugiram intimados pelo instincto da conservaco, vagavam pelos campos ns, pelas varzeas sem forragem, correndo atraz da follia mora que o vento desarticulava do secco ramo, sugavam dos bebedouros a ultima gotta d'agua, at a lama ptrida da vaza, e quando das fontes nada havia mais do que saibro endurecido o gretado, e sombra da lloresta morta nao cahia se quer 'urna f ilha, entao se entregavam a morte.
Em seu delirio famlico o instincto da c >n-servacio nao >e embota va.
lam-se inanindo aos poucos, gastando com as despezas da vida as poucas reservas do organismo, mas nao se deixavam ficar no mesmo sitio, caminhavam, caminhavam sempre, na esperanca de um fragmento de planta e assim cada vez mais se esfraqueciAm, mais se gas-tavam. 0 seu caminhar, entretanto nao teria fim. Completamente exhautos paravam para rcsfolcgar aquella atmosphera abrasada.
Os membros lassos e doidos mal podiam com o corpo embora smente ossos e pellangas.


52 seccas do ceara'
A noite vinha e as pobres rezes que tanto ne-cessitavam descangar, nao se deitavam para dormir, porque o instincto lhes dizia que vol-tando o sol tinham do continuar a jornada e urna vez deitadas nao teriam torcas para se erguer. Assim procuravam o encost de um annoso tronco, e amparadas nelle descanga-vam os msculos doentes de fadiga e inanigo.
Pela manh quando a luz descia das alturas para allumiar as grandes miserias deste pedago da trra flagellada pela secca, rara era a arvore desoccupada.
A maioria arrimava agora os animaes mor-tos, perfeitas mumias, de p, alguns com a cabega erguida para o co, como se no auge de sua dor, de sua agona, tivessem feito urna supplica a Deus ou exclamado urna blasphe-mia. O estado de inanigo d'elles era tal que desapparecida a carne, as visceras pareca te-rem seccado em suas entranhas.
A mumificago dos corpos que a fome e a sede haviam comegado,o sol do ser tao com urna temperatura de 60 C. acabava em poucas horas, mirrando anda mais-aquellas esquelticas figuras, reduzindo-as a verdadeiros surroes, cheios de ossos com forma bovina ou cavallar.
Nao era raro encontrar duas e tres mumias encostadas ao mesmo tronco, dando ao viandan-


r. theophilo 53
te que passa por to ingratos caminhos, a prova mais eloquente da enormidade do flagello. Que emblema representara com mais eloquencia e verdade a fome do que o esqueleto de urna arvore e encostado ao tronco o cadver mumi-ficado de urna rez, com a cabeca erguida para oco?
Os retirantes depois de atravessarem to desoladoras paragens chegavam a Fortaleza, onde suppunham o termo da jornada, onde acredita-vam encontrar a assistencia publica garantida pela Constituicao.
Como se enganava esta pobre gente ... Outros eram os tempos. 0 Cear, que havia prosperado muito nos ltimos oito annos, tinha tido porm mos governos e tanto isso urna verdade que os cofres achavam-se esgotados e nem urna obra de utilidade publica havia sido feita.
O governo de-^e tempo havia recebido de seu antecessor um saldo de mais de dois mil contos do ris, devido a impostos anticonstitucionaes, como os de estatistica.
Esse presidente que accumulou to grande reserva nos cofres pblicos foi o Coronel Jos Freir Bizerril Fontenolle.
Homemde reconhocida probidade teriasido um excellente administrador se outras fossem as suas aptidoes.


54 seccas do ceara'
Levado ao governo por um accidente tao com-muin as, revolugoes,sem praticade administra-cao, entendeu que o bom governo era aquel le que enchia o erario, embora lancando sobre o povo pesados tributos.
De baixo de certo ponto de vista a sua admi-nistraco foi moralisada; cedia um pouco s exigencias da poltica a que pertencia, mas nao a ponto de desrespeitar a loi e de por a disposicao dos correligionarios polit;cos os dinheiros pblicos.
Um dos maiores erros ou o maior crime do seu governo foi o arrombamento dos lagos do Cauhype e doCat. Ess"> crime de lesahumani-dade, praticado na trra das seccas, bastara por si so para a sua condemnacao. O que de algum modo pode anda attenual-o a influencia que sobre o seu espirito exerceu o Sr. Dr. Thomaz Ponipeu de Souza Brazil, que pela imprensa em repetidos artgos propaiava a inutilidade dos lagos do Cauhype e tambem o perigo saude publica.
Fossem esteris os terrenos servidos pelos lagos, fossein aquellas aguas focos de paludismo anda assim na trra das seccas ninguein tem o direito de destruir um manancial por pequenu que seja, quanto mais aquelles que as-sumiam as porporgoes de verdadeiros lagos.


Fossem conservados osreservatorios.que a agronoma por sua vez se encarregaria de tornar ubrrimos os seus 'terrenos esteris. Quanto ao paludismo affirmamos que sempre houve casos de febres intermittentes n'aqulla regio como em toda costa do norte do Cear. Nao oxistem mais os lagos e noentanto as febres continuam.
Accresce que no tempo em que se don seme-lhante catastrophe, que ainda annos depois re-lombrando nos sentimos revoltados, o thesouro do Estado regorgitava de dinheiro e a quantia podida pelos donos dos terrenos invadidos pelas aguas ora inferior a quarenta contos de res.
O governo nao teve animo de tirar dos cofres aquella importancia e consentiu que a onxada do ignorante e imprevidente sertanejo abrisse os grandes reservatorios feitos pela natureza e que valiam muitos mil contos de ris.
A vaidade desse governo querendo entregar ao seu successor o maior saldo po>sivel, o tempo se encarregar de mostrar como foi nefasta ao Cear. Dominado por to extravagante dcsejo esquoceu completamente que governava urna trra sugeita seccas e nao cuidou de mandar fazersequer um agude, pelo contrario des-truiu os que a natureza havia em to boa hora construido.


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As obras que deixou de seu governo foram a construcoao de duas escolas, o edificio do Ly-ceu Cearense, Bibiliotheca e Quartol do Batalhao de Seguranca,
O governo do Coronel Bizerril foi mora-lisado. Se nao foi melhor pelo lado econmico foi devido a um de seus validos, um individuo extico, que tomou parte na revoluco que depoz o General Clarindo e levou ao poder o Sr. Coronel Fontenelle. Foi elle um dos fructos mais perfeitos e sasonadosda revoluco. Homom pequeo physica e moralmente, governou o Cear, de rebenque em punho, gragas ao apoio que lhe presta va um grupo de cadetes desordeiros da extincta Escola Militar. Tornou-se urna potencia. Foi deputado ostadoal e se nao chogou at o parlamento brazileiro, foi porque o lixo das enxurradas nao se conserva perenne toldando a transparencia das aguas em que boia. Para se avahar do grao de aviltamento a que haviamos chegado, citamos este facto estavamos na Secretaria do Interior quando entra o referido individuo de rebenque em punho, e interpella a um dos empregados sobre urnas contas das obras publicas, que lhe constou nao estarem processadas por fraudulentas. O pobre empregado deu mil satis-


r. teophilho
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facoes, mas o tenente vooiferava, ameacava cos e trra e nos para nao nos acabarmos de vergonha deante de tao deprimente scena, sahi-mos rogando a Deus por melhores e mais felizes tempos.
A SECCA


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VII

secca de 1900 vcio encontrar o Dr. Antonio Pinto Nogueira Accioly no ultimo semestre de seu governo.
Fazia lastima adesolacao de todo o Estado as-solado pela secca e ainda mais a penuria dos cofres pblicos.
A administraco que ia lindar havia encontrado grande saldo no thesouro. Outro homem com outros conhecimentos e melhor senso administrativo teria se compenetrado das necessidades do Cear ao assumir o governo, e teria empre-gado as reservas existentes no erario em obras queviessem no futuro attenuar os effeitosdas seccas,como aconstruegaodeagudos. Dessa medida altamente ahia e patritica nem ao menos cogitou.


A secca parcial de 1898 foi o que ja dissemos, urna epocha de soffrimentos e humilhages para todos nos.
A calamidade de 1900 foi peior ainda porque foi total, se estendeu a todo o Estado tornando esteris at as proprias sorras. A agua cahida na estagao do invern foi insignificante. Em Fortaleza, por exemplo, onde a media das chuvas em annos normaos de mil e quinhentos milli-metros, apenas registrou o pluvimetro pouco mais de duzentos.
O presidente do Estado estava de todo manieta-do, em situagaopor demais critica,que alias elle "havia croado. Ao assumir o governo de sua trra nao cuiclou de beneficial-a, entregou-se exclusivamente a consolidar o partido de que era chefe, a augmental-o e a satisfazer as exigencias dos amigos antigos e ainda mais as dos novos, que nao se contentavam com pouco.
Um chefe de partido nao deve ser nunca administrador do Estado em que reside. Muito sabia seria a lei que isto prohibisse.
Aqui, como alhures essa accumulago tem dado pessimos resultados, haja vista o que se deu na Bahia. Entre nos foi urna calamidade.
Os cofres pblicos achavam-se esgotados. 0


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saldo de mais de dois mil contos e todas as rendas do Estado durante os quatro annos dessa administracao haviam sido gastos e os nicos melhoramentos que ficaram de resulta-des completamente millos, foram um telegrapho parao interior e materiaespara algumas pontes.
Essas- obras sem utilidade quasi nenhuma as quaes se gastoii em pura perda mais de mil e duzentos contos, foram mandadas exeou-tar para satisfazer as exigencias de amigos do governo. Queremos crer que o presidente do Estado cedeu bem a contra gosto aos pedidos de correligionarios pouco escrupulosos concorren-do assim para o maior desastre financeiro que se poda dar em urna administracao.
Os que nos lerem e nao conhecerem o Cear, as suas condigoes e necessidades, ho de nos taxar de atrasado, de retrogado por condemnar-mosum melhoramento como o telegrapho. Assim parece, mas assim nao . A zona cortada pelo nosso telegrapho serto, cuja principal industria a pastoril, sem grande necessidado de ser ligada a Fortaleza pelo fio elctrico urna vez que a Estrada do Ferro de Baturit j che-ga ao coracodo Estado.
Urna das provas mais convincentes que temos de que a referida obra nao foi executada por


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assim exigirem as necessidad.es publicas como um melhoramento til a populago sertaneja, que pretendeu-se ligar pelo telegraphoa Fortaleza ao Aracaty e se tal nao se fez porque o governo da Uniao a isso se oppoz em vista de j se acharem ligados as duas cidades pelo telegrapho nacional.
Se fosse smente por amor de estreitar as re-lacoes com os habitantes do interior nem se cogitara em construir um telegrapho para o Aracaty
Deve-se tudo isso a gana dos empreiteiros; queriam assentar ios,pouco se importando com o servico que prestariam s localidades em que tocassem.
Feito o telegrapho no qual se gastara cerca de oitocentos contos, o governo do Estado em poucos mezes viu a sua inutilidade. Os rendi-mentos nao davam para o pagamento da quinta parte do custeio.
A pessima construcgo de alguns trechos cujos postes poucos dias depois de aberto o tra-fego j pediam reforma, provava que nao se tra-tava de simples conservago mas de serios reparos.
As finangas que j eram pessimas mais se aggravariam agora com as despezas do trafego


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e conservago da linha telegraphica. Era preciso acabar com esta fonte de despeza, o o governo da trra das seccas, o governo de um povo que de tempos em tempos morre de fome as estradas, que implora da Unio a assistencia publica, o mesmo que langa mo do saldo dos cofres pblicos para a construcgo de urna obra sem utilidade e depois vai ao poder federal e roga que a acceite como graciosa dadiva.
O presente grego, nos custouas reservas do nosso erario, reservas que nos serve-riam agora para nos livrar de esmolarmos a caJ ridade de nossos irmos do norte e sul, para nos livrar das humilhagoes porque nos fez pas-sar o Sr. Presidente da Repblica. At certo ponto o Sr. Campos Salles tem razo de negarnos os soccorros garantidos pela Constituigo. O governo que d presentes de mil contos rico, nao precisa de esmolas. Devoria ser assim se o povo fosse rosponsavel pelos actos do homem que o govenia.
Essa entidado poliica representa quanto muito a vontade de um grupo que vive a custa de seus favores.


VIII
-V- secca assolava o Estado intciro. O xodo rft&r para Fortaleza cada vez mais se avolu-mava e o governo nada fazia em prol dos desventurados retirantes. Por grande favor osdeixava embarcarem, isso quando as arvores dos suburbios da capital j nao podiam mais abrigal-os e a caridade publica estava quasi esgo-tada. Antes, quando a cidade nao tinha sido de todo invadida por grande massa de populacao adventicia, quedevexacoes, quanto impedimento punha o governo sahida dessa desgranada gente!
Nem a soccorria e nem a deixava sahir Isso to absurdo que parece urna mentira e no en-tanto urna verdade inconcussa. Fomos teste-munha dessa violaco s leis do paiz. Quantas


64 seccas do ceara'
vezes nos dirigimos as autoridades policiaes a pedir misericordia para esses desgragados retirantes que se acabayam de fome, rogando-lhes a graga de consentir que sahissem para outro Estado. Foi nessas repitidas visitas ao Sr. Secretario da Justiga e a seus delegados que mais nos convencemos de que entre nos a lei letra morta e tudo a vontade de quem governa. Esta falta de equidade dos poderes pblicos imped ido com as mais vexatorias e illegaes exigencias a locomogao do homem do povo, do pe-no-cho, em quanto nao punham obstculo de or-dem alguma ao cearense mais bem nascido, de melhor posigao d umaperfeita idea do respeito prestado pelo poder executivo s leis e con-stituigo.
Agora j nao era smente um imposto de um cont e quinhentos mil rs. cobrado do agencia-dor de pessoal, era cousa peior, mais illegal anda, mais vexatoria e fargantea exigencia de urna folha corrida, sem a qual o retirante nao poda sahir do Cear. Essa medida extremamente vexatoria e inconstitucional s tin'.ia um fin dardinheiroaganhar a um escrivao em Fortaleza. 0 que provava a folha corrida passada na capital sobre um individuo que resida no interior?


R. THEOPHILO
Tudo isso era urna tarca, mas que desgraciadamente nao foi urna nica vez que acabu em tragedia. Sabemos de um pobre retirante que desengaado de obter dinheiro para pagar a fo-lha corrida e portanto de sahir do Cear, onde j custava seamanter com a familia suicidou-se inforcando-se.
as tristissimas condigocs em que nos acha-vamos valeu-nos a emigrago.
0 presidente do Para, o Sr. Dr. Paes de Car- v valho tinha um agente especial encarregado em .Fortaleza do servigo de emigrago. Quanto nos custava assistir essa expatriago forgada de nossos irmos Como nos envergonhava presenciar na praga publica a distribuigo de ragoes aos cearenses por conta do governo d'aquelle Estado.
At para premunil-os da varila vinha vaccina que era aqui inoculada !
Os poderes pblicos de nossa trra, eremos, tambem partilhavam de nossas tristezas e de nosso aviltamento. Devia-lhes doer muito, como doia em nos a feira de gado humano, onde cada v agente disputava as melhores pegas. A sua inaego aecusada de inepcia, de indifferenga nao era mais do que abatimento moral em conse-quencia dos actos que os collocaram em situago


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to diicil. A consciencia havia de accusal-os de suafraqueza quando sacrificaram o bem publico para satisfazer a exigencias de mos cea-renses, de falsos amigos.


IX
-*yj^ra essa precisamente a nossa situago Ij^s quando "a 12 de Julho assumiu aadmi-\A>A nistrago do Cear o Sr. Dr. Pedro Augusto Borges. Homem intelligente e de corago bondoso,muito estimado da populago de Fortaleza, onde clnico, ha vinte e muitos annos, se bem que sem pratica de servigo publico, a sua ascenso ao governo foi enthusiasticamente sau-dada por amigos e adversarios polticos.
Os primeiros actos de seu governo revelaram urna independencia de carcter desconhecida da poltica da trra. Foram a nomeago de seus secretarios, que recahiu em funccionarios qual mais competente e mais honesto; porm quasi sem credo poltico, e a publicago do ba-lancete do thesouro estadual demonstrando o nosso pessimo estado flnaiiceiro, isso em com-


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pleto desaccordo do que dose dias antes havia afflrmado em sua mensagem ao congressoo seu antecessor.
Quanto mais dias se passavam mais cruenta se torna va a devastacao da secca.
0 novo presidente em pouco tempo reconhe-ceu quao falsa era a sua posico. Nao basta-vam a caridade publica, que pareca inesgosta-vel, os soccorros que nos enviavam de quasi todos os Estados, para matar a fome de mimares de retirantes arranchados nos suburbios de Fortaleza. Estavamos completamente sitiados por urna columna de famintos trapilhos. Edificava a honestidade dessa pobre gente. Por maiores que fossem as suas necessidades, a sua fome,se conservavam firmes em seusprincipios, mantinham a puresa de seus costumes, e por maior que fosse a sua miseria nao lancavam mao dos bens alheios para minoral-a. Os ser-vigos e a dedicagao das diversas associagoes do caridade e das lojas magonicas grandemente at-tenuavam os soffrimentos dos retirantes. Os seus recursos entretanto enfraqueciam e chegariam a se exhaurir em breves tempos. Foi prevendo essa epocha terrivel que o presidente do Estado dirigiu em 26 de Julho essa longa e detalhada missiva ao Governo da Uniao :


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Illm. Exm. Sr. Dr. Manoel Ferraz de Campos Salles,M. D. Presidente da Repblica*
Tendo assumido o governo do Estado, como j tive a honra de communicar a V. Exc., jul-go ser meu primeiro dever assegurar a V. Exc.a, antes de tudo, o meu mais sincero apoio e firme solidariedade com o seu governo, procurando concorrer, na medida das minhas forcas, para a realisaco dos elevados intuitos e nobres designios do programma que V. Exc. adoptou e tem mantido na alta aclministraco publica, em bem de nossa Patria e da Repblica.
Outro imperioso dever que as circumstan-cias do momento me impoem, levar a co-nhecimento de V. Exc. a situago em que se achao Estado, no tocante secca que o assola, assumpto este momentoso, qae a todos preoc-cupa, e envolve a mais grave responsabilida-de que pesa sobre a minha administragao.
Pelas informagdes que tenho colhido desde o meu regresso ao Estado, das pessoas mais criteriosas e que me inspiram confianga, e pelos factos que se esto passando n'esta capital, nao se pode contestar a existencia da secca, calamidade que peridicamente flagella o Cear.


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SECCAS DO CEARA'
Nao tendo havido absolutamente invern (apenas ligeiros aguaceiros) na estacao de Janeiro a Junho, perdida toda esperanca de co-lheita de cereaes e legumes, nao havendo deposito d'agua no leito dos ros, seceos ou pequeos agudos, cujo volumo das aguas desap-pareceu com a evaporaco, despidos os campos das pastagens para sustento da creagao do gado, que definha e morra, aniquilando a principal industria do Estado, esgotadas todas as reservas da provisao destinada alimenta-gao humana, mrmente das classes que vivem da pequea cultura, destruidos os recursos naturaes e fructos silvestres que, na regiao sertaneja, brotain do solo e servem como soc-corroo de occasiao aos desvalidos, falhande em summa tudo iss, o flagello da secca nao pode achar-se mais caracterisado, ameagando o Estado com perdas rreparaveis.
A prova mais cabal da phase aguda que a calamidade vae tocando, est na emigraga0 sempre crescente e ruinosa, que se tem produ-zido, porque ninguem abandona o seu lar 6 expoe sua familia a longas e penosas jornadas, em busca de um refugio desconhecido, senao na ultima extremidade.
J tem seguido para a regiao do Amazonas


R. THEOPHILO
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avultadissimo numero de cearenses, e j se aocumula n'esta capital urna populago adventicia calculada em 12 mil pessas, todas, pela sua indigencia, implorando a caridade publica, sem alojamento, abrigadas sob as arvores, dentro e nos arredores da cidade, abandonadas de todo cuidado hygienico, com graves pe-rigo para a saude publica.
Dia a dia entram caravanas de retirantes, em busca de soccorros junto'ao governo, ou de passagem para fra de Estado.
Urge, portante, acudir com providencias a tao melindrosa e extrema situaco.
Seos recurros do Estado me habilitassem a adoptar promptas medidas, organisando um servico completo de assistencia publica, certo, estara eu agindo sem demora, no cumprrnen-to do meu dever.
Mas a verdade que os recursos que me b-ram legados no thesouro do Estado, apenas chegam para attender as suas despezas ordinarias, sem espaco para as extraordinarias e quaesquer outras que exigem as providencias sobro soccorros pblicos, em favor de numerosa classe de necessitados e na proporco da crise que inevitavelmente ha de aggravar-se.
0 balancete junto, que submetto a illustra-


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SECCAS DO CEARA'
da apreciago de V. Exc., accusa presentemente o saldo de 450:011 $279-, sendo em dinheiro 78:011$279-, e apolices 327:000$000, conforme demonstrara suas respectivas discriminacoes.
Esse saldo est sujeito ao pagamento da divida j processada na importancia de.......-.
149:3318158.
A isto accresce outra divida menor, em via de processo que, com aquella, pretendo liquidar para evitar ao Estado grande accumula-co de dbitos.
As fontes mais productivas da receita tendera a diminuir como effeito da crise, pelo que, neste segundo semestre do exercicio flnancciro, as despezas decretadas, no orcamento vigente, tero de ser feitas inevitavelmente com o auxilio do saldo ora existente, como supprment deficiencia que ha de occorrer na arreca-daco da receita.
Devo fazer economas; meu pensamento est de accordo com essa indeclinavel neces-sidade. N'este sentido j tenho feito alguma cousa nos poucos dias de minha administra-cao, reduzmdo quanto possivel aquellas despezas que me parecem adiaveis.
Mas, s no futuro orcamento se poder es-tabelecer um plano mais largo de economas,


R. THEOPHILO
de sore que, no estado do orgamento, ecora os cortes restrictos na actualidade, os recursos do Estado nao do margem sufflciente para soccorrer a populago desvalida que avulta diariamente.
Sendo as seccas que devastam o Cear determinadas por causas meteorolgicas, incer-tas e variaveis, nao est as forgas do homem imped l-as, mas smente neuti'alisar seus perniciosos efleitos.
Os que, com reconhecida competencia, tm feito estudo sobre a materia, hao exposto as diflerentes medidas que julgam mais acertadas e convenientes para debellar o flagello.
Mas, afastando quaesquer considerages sobre divergencia de opinioes, sao ideas vencedorasa construcgo de grandes reservato -rios d'agua e de estradas de ferro.
A construcgo de grandes agudes, com suf-fi cente capacidade para a irrigagao de terrenos, medida .por si mesmo justificada, quando a. falta d'agua, na quadra das seccas, tem sido o factor mais poderoso dos prejui-zos que ellas produzem.
Pelo que diz respeito s estradas, bem de ver que, diminuindo distancias e facilitando
A SECCA S


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communicagoes, prstamo relevantes servidos ao Estado, as quadras climatricas, como a actual, concorrendo para que nao se deslo-quem as populagoes do interior, que assim poderao aguardar nos logares de sua residencia os soccorros que lhes tenham de ser prestados pelo poder publico.
Na secca de 1877 a 1879, de funestissi-mas consecpiencias, o governo decrctou o pro longamento da Estrada de Ferro de Baturit e aconstrucgo da de Sobral, como meio do assistencia publica, retribuindo em servidos remuneradores, em epocha to calamitosa. *
Posteriormente, como medida de futuro, do accordo comas ideas e planos do engenheiro J. J. Revy, iniciou-se a construccao do grande acude de Quixad, escolhido entre os tres indicados por aquello engenheiro, como reservatorios necessarios a um systema de mcios adequados a minorar os terriveis effei-tos das seccas.
<( O systema foi iniciado, mas parou no agudo de Quixad, alias nao concluido, mas que tanta utilidade vae prestando aos habitantes do lugar onde elle se acha situado.
Entretanto, sem adoptar-se um plano de servigos estaveis levados execugo com per-


severanga, com a deoretago de verbas possi-veis nos orgamentos annuaes para seu custeio at completa r-se o conjuncto das medidas tendentes a neutralisar os effeitos da calamidade, em qualquer tempo ou periodo em quo ella ve-nha a renovar-se, ter-se- apenas atacado o mal, quando surge, para abandonal-o, quando cessa, sem se cuidar do futuro.
No meu humilde conceito, temsidoesse o grande erro dos que, por si mesmo ou pelo in-fluxo do seu prestigio, tm tido as responsabilidades do governo no Cear, as epochas ante-iores em que as seccas o tm assolado.
Pens que tempo de resgatar esse erro, que estamos deplorando, e sinto profundamente nao ter recursos para remedial-o por conta do Estado.
A Uniopoderfazel-o, na medida de suas Torgas prestando-nos efficaz auxilio em to dif-ficil emergencia. ._
A construcgo do grande reservatorio do Boqueiro deLavras, j pereitamente estudado, com despezas orgadas, medida que se me augura inadiavel.
Segundo os estudos e trabalhos feitos pelo illustrado engenheiro Revy, esse grande agude comportar um deposito d'agua em quantidade


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tfio enorme, que resistir as mais longas seccas, podendo-se irrigar com ella urna extensa e fertilissima rea agrcola, que abrange todo vale de Jaguaribe, n'uma distancia de '257 kilmetros, beneficiando cerca de 200 mil habitantes.
c< O prolongamiento da Estrada de Ferro de Baturit at o ubrrimo valle do Cariry, que igualmente tende a servir urna extensa zona ser-taneja, outra medida que, na actualidade, se impoe, como meio de transporte fcil execu-co das providencias que forem decretadas pelo governo, afim de combater possiveis calamidades.
O que essencial. seja-me licito repetir, a organisaco de um plano de servicos, cuja execuco nao seja interrompida ou suspensa, mas perseveran temente continuada, afim de dotar o Cear com os meios indispensaveis e adequados a affrontar os males que as seccas lhe reservem no futuro.
Bem comprehendendo que o governo da Unio nao poder fazer tudo de urna vez, e indicando as medidas que me parecem mais proprias e deeffeitos mais benficos, deixo a alta sabe-dora do governo resolver o mais conveniente.
Jtive occasio de dizer a V. Exc. que,sejam quaes forem as medidas adoptadas pelo elevado


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criterio dogo Averno federal, nao me preoccupo, nem me preoccuparei com minha autoridade para sua execugo ou fiscalisagao, deixando toda direccao Uniao, porque a tudo anteponho a lei suprema da salvaco do Estado que me coube a honra de dirigir.
< Emquanto nao sao decretadas as medidas, cuja execugo depende de tempo, e que nao pdem remediar com urgencia a situacao penosa da populago adventicia que se accumula na capital, a providencia que pode ser tomada, no momento, facilitar a sua sahida, promo.vendo activamente a emigragao para o Amazonas e Para.
N'este sentido o benemrito governador do Para tem j aprestado valioso concurso, e a elle dirigi-me solicitando a continuagao de tao relevante servigo.
Mas, ante o estado em que encontrei esta capital, para onde tm afiuido e continuarao a convergir os habitantes do interior em luta com a miseria, muitocarego de auxilio do governo daUnio, providenciando por sua conta sobre a concessao de passagens nos vapores do Lloyd Brasileiro, ouem quaesquer outros que fizerem escala por este porto em direcgao ao Para e Amazonas. Essas passagens poderao ser requisita-


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das directamente pela Delegada Fiscal d'esta Estado, mediante o processo mais conveniente e arrobamiento dasdespezas com embarque.
Da parte do meu governo todo concurso queseja necessario para boa execuco desse serviro, ser immediatamente prestado.
Essa medida julgo instante e inadiavel, e, sendo realisada com apossivel brevidade, pode-r conj urar asifunestas consequencias da situa-co arflictiva em que jseacha crescido numero de habitantes do interior d Estado, estacionados nesta capital.
Para nao tomar mais o precioso lempo de V. Exc. em assumpto que, pala sua gravidad3 e importancia, nao me permittiu ser mais conciso, ponho termo a est exposico, tendo a mais plena confianca as providencias que solicito do governo da Unio, sem asquaes nada pode-rei emprehender de proficuo, no cumprimento do meu dever, para debellar a calamidade que assoberba o Estado confiado a minha direcgo.
Permitta-me V. Exc. que reitere o offereci-r.ienlo dosmaus fracos servicos a mais significativa oxpresso do grande aproe a e distincta considorac.io com que me assigno.
O Sr. Dr. Podro Borges, tinha quasi certeza de que o poder federal tomara em considera-


gao as suas informagoes e socorrera o Cear, pois antes de assumir o governo havia conferenciado largamente com o Sr. Dr. Campos Salles e o Sr. Dr. Joaquina Murtinho, que lhe promet-teram todo o apoio e auxilio. As suas promes-sas, entretanto s se cumpririam depois d'elle empossado do poder, como se o soccorro a fa-mintosfosse cousaque se pudesse adiar! Esta condigao um tanto extravagante, redundou ao divulgar-se em desprestigio administrago que ia indar. Os menos crdulos viam nessa pro-crastiago da assistencia publica nao urna pro-.vade falta de conflanga ao governo do Estado, mas um plano cujo fim era se verem livres das exigencias do Dr. Pedro Borges, fazendo-o vol-tar para o Cear onde una vez de posse da administrago nao lhes seria difficil negar o pro-mettido soccorro allegando as ms condigoes fl-nanceiras do paiz ou outra. cousa qualquer.
As circumstanciadas informagoes sobre a sec-sa e seus desastrados effeitos, que todos espera-vam fossem re spondida < com o soccorro prompto, tiveramdo governo da Unio, como resposta um silencio tumular .. Malogravam-se as es-perangas de auxilio e os mais crdulos j come-gavam a se desiIludir das promessas do Sr.Dr. Campos Salles.


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A situago do Cear ia se tornando cada vez peior. A emigrago do interior do Estad i para a Fortaleza augmentava todos os dias.
A caridade particular por maior que fosse j nao podia alimentar a populaco esfomeada que vagav pelas ras da capital de manha noite.
Em to precarias conclicoes todos clamava-mos por soccorro.
O governo do Estado, a imprensa, o com-mercio, todas as classes emfim una voce pediam aoSr. Presidente da Repblica o cumprimento da lei bsica que garante-nos a assistencia publica em tempos de calamidade. Clamavamos, mas clamavamos no deserto Os nossos grandes infortunios nao arrancavam do poder federal urna palavra de conforto, sequer o alent de urna esperanga, quanto mais o obulo de sua compaixo !...
Nao eramos de todo um povo abandonado discrigo da fome, porque os nossos irmos do sul e norte nao eram indifferentes a nossa des-graga. Por quasi todos os vapores, que toca-vam" no Cear, nos enviavam algum pao e palavras de consolo,
Recebiamos as suas esmolas to espontaneas,


r. theophilo
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dadas de to boa vontade c sempre acompa- | nhadas de expressoes bondosas ; mas nos sen-liamos humilhados porque aquello soccorro \ embora fraternal, era sempre urna esmola.


X
SSl s infortunios jeram grandes quando no-; ameacou urna calamidade que nos acabara de matar.' Essa nova o enor-missima desgrana era a peste bubnica.
Foi em dias de Agosto dei.ois do apparec-mento de ratos mortos no armazem de cereaes importados do Rio de Janeiro, sito a ra For-moza e pertencente a Papi Jnior Vieira & C., que um espirito leviano, irreflectido, sem pensar as fataes consequencias de seu acto, an-nunciou pelo telegrapho capital federal que a Fortaleza havia sido invadida pela peste bu-bonica Os poderes pblicos daquelle centro, tao levianos, tao irreflectidos, como o seu informante, nao indagaram sobre a veracidade de um facto tao importante. Imagine-se o pnico


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da nossa populago, que viva exclusivamente dos vveres importados, que alimentava cerca de dez mil retirantes, que recebia diariamente do interior levas e levas de famintos, que o nico recurso que tinha para attenuar os effeitos da calamidade era a emigraco quando se yiu com o seu porto bloqueado !
A noticia do apparecimento da peste bubnica no Cear traria fatalmente o fechamento do nosso porto. Espera vamos que o governo da Unio melhor orientado, mais reflectido nao conse rtisse em to vexatoria e absurda medida, quando passamos pela horrivel decepcb de ver o vapor Olinda do Lloyd Brazileiro, passar em Fortaleza sem communicar com a trra, e isso por urna simples ordem da Agencia do Rio de Janeiro. Estava portanto decretado o nosso acabamento.
O governo federal sciente de nossas neces-sidades, de nossa falta de pao, consentindo no fechamento do nosso porto, quando toda nossa alimentago vinhade fra, tinha ipso-facto nos condemnado morte.
Seria possvel que nos tratassem com se-melhante deshumanidade ?
Por ventura estara a nossa capital empes-tada ?


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E se o estivesse quat o dever do governo da Unio, se nao vir immediatamente em nosso soccorro, como preceita o nosso pacto federal ?
Essa interdiccao que nos poria fora inteira-mente da communho brazileira, nao era porque grassasse entre nos a peste bubnica. Gras-sou ella em S. Paulo, grassa ainda hoje na capital federal e nao foram cortadas as com-municagoes daquelles centros; porem pela nenhuma importancia em que sao tidos os pobres e pequeos Estados pelo governo federal, como provaremos mais adiante.
A molestia, que se tinha desenvolvido no Cear aps o appareciment de ratos mortos e da qual nos occuparemos detalhadamente havia sido, nos parece, importada do Rio de Janeiro com os carregamentos de vi veres,'que para ca vieram.
Os poderes pblicos federaes que nao im-pedem que um navio subvencionado pela Na-co deixe de entrar em nosso porto, por urna simples noticia de peste, sao os mesmos, que mezes antes, quando o nosso governo recusava receber gneros de portos infeccionados, orde-navam seu delegado neste Estado o desembarque de taes mercadorias!
Est ainda na memoria de todos a nossa re-


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pugnancia. em receber vveres de portos infectados.
0 governo do Estado ao declarar-se a peste bubnica no Rio, exemplo do governo do Para, quiz impedir o desembarque de gene-ros daquella procedencia, allegando a falta absoluta de meios de disiufecco aqui; porem os poderes federaos nao se conformaram com as razoes apresentadas e imposeram o desembarque das mercadorias em quarentena.
O Cear submetteu-se; mas o Para resisliu e o seu governador decretou quarentenas,omou medidas que bem lhe aprouveram sem dar sa-tisfagoes ao governo da Unio.
Eram, como se. v, tristissimas as nossascon-digoes. Foram bem angustiosos os nossos dias durante aquella epocha. O espirito publico achava-se sobremodo abatido. E nao era para menos o pnico que o avassAlava. A molestia que havia se desenvolvido depois do ap-parecimento de ratos mortos em diversos ar-mazens de vveres importados da capital federal, era urna molestia completamente desconhe-da no Cear. Nos por exemplo, que fomos tes-temunha de todas as seccas nessa ultima meta-d de seculo, e seccas tremendas como a de


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SECCAS DO CEARA
1877 a 1880, nunca vimos urna enfermidade se-quer parecida com essa que alguns chamam peste bubnica, officialmente no registro civil adente infecciosa e na giria popular febre de carogo.
Peste bubnica u febre de carogo em. pour eos.dias tezmuitas victimas em diversos pontos da cidade, mormente no bairro do Outeiro, onde ainda grassava com muito pouca inten-sidade verdade, mezes depois de seu appare-cimento
A sua symptomatologia era esta com muito poucas variantes: febre em alto grao thermico, cephalgia intensa, delirio, ,adenites inguinaes, cervicaes, axillares e por fim a morte depois de tres, quatro e cinco dias de todo esse cortejo de sorimentos.
Em muitos doentes a morte chegava antes da inflamago completa dos ganglios. Raro era o enfermo que nao morria antes dos buboes entrarem em suppuracao.
Urna das primeiras victimas foi um caixeiro dos Snrs. Castro Silva & Irmao. Este mogo de 18 annos de edade, sadio, bem constituido ao abrir um dia pela] manh o estabe-lecimento commercial onde era empregado


ru Major Facundo n.' 71, encontrara um rato que acabava de morrer. Este facto pouco o sur-prehendeo, visto como j haviam apparecido ratos morios as casas parede em meio sua loja. O caso embora nao fosse nico, comtudo nao era multo commum a morte deratazaas sem se ter anteriormente feito ceva com alimentos envenenados. O inexperiente moco exa-minou o cadver do rato por algum tempo e quando se certiflcou de que elle nao tinha leso alguma apparente, tomou-o pela cauda e o ati-rou ra.
Apenas cinco dias eram passados depois deste facto, quando o proprietario do estabelecimento sentindo umfortem.au cheiro que vinha dos fundos da casa mandou o referido mogo, que at ento se conservava de perfeita saude, procurar a causa de tamanha fedentina. Nao lhe foi cus-toso econtral-a um rato apodrecia mettido em'uma Tachadura da parede de um dos oi-tes. Com o. fim de removel-o levou o caixeiro urna, hora ou mais aesgaravatar o esconderijo, que guardava o cadver da ratazana Convencido de que nao poda retiral-o e bebedo da fe-dentina, que augmenta va com as espetade-las as carnes podres d i rato, deixou o servico e veio communicar o occorrido ao patro. Nao


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seccas do ceara'
sendo possivel a retirada do corpo, foi a fenda completamente fechada com argamassa de cal.
At a tarde desse dia o mogo nada sentio. A noite, porem, quando se recolheo a casa teve um forte calefrio, acompanhado de dor de ca-bega violenta e febre alta.
Um ataque de influen\a, que grassav ento, pensaram os que cercavam o doente e lhe de-ram um suador.. Pela manha a febre era de 40 graos acompanhada de anxiedade e um des-asocego que o enfermo nao encontrava logar no leito.
Chamado o medico, veriflcou a existencia de dois bubes ainda pouco desenvolvidos na virilha direita.
Receitou um purgativo e um tpico. Jtsta medicago nada influio na marcha da molestia, que continuou accelerada. No segundo dia de doenga manifestou-se delirio e tamanho des-asocego que o enfermo nao estava parado um instante. Esse estado aggravou-se cada vez mais vindo a fallecer o doonte precisamente tres dias depois da invaso do mal.
Verificado o bito que teve logar s oito horas da noite, o cadver foi guardado por muitas pes-soas at s nove horas da manh do dia seguin-te, sendo levado em carro fechado para o cemi-



terio de S. Joo Bautista, sem acompanhamento de ordem alguma, por assim haver ordenado a auctoridade sanitaria.
Como se v, ^eram por demais criticas as condicoes do Cear. O desconheeido morbus, que nos visitava, alm das victimas, que ia fa-zendo, quando nao troiixesse o fechamento do nosso porto, traria fatalmente o retrahimento do commerci j e a absoluta suspenso da emigrago, nico recurso que tinhamos em to desgraciada quadra.
O que ser ? Era a phrase que se ouvia pronunciar por mdicos e leigos. Peste bubnica ou febre de enroc ia matando aos poucos em diversos pontos da capital. O seu desenvolvimiento muito lento prova que a molestia era pouco contagiosa, e tanto -assim que rara foi a casa em que foram atacadas duas e mais possoas. Se por um lado esse pouco contagio levava a cror que nao se tratava de urna doenca semelhante a que reinava no Rio de Janeiro com o nome de peste bubnica, razoes havia para tambem se acreditar que era e entre outras o apparecimen-to de ratos mortos as habitacoes todas as vezes que a molestia tinha de atacar algum de seus moradores.
E' preciso notar que entre os retirantes, que
a secca 6


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em numero superior a dez mil viviam nos suburbios de Fortaleza, expostos a luz vivissima do sol, nao houve um s caso de molestia sus-peita, facto este, nos parece, de grande valor na queisto do diagnostico para o reconhecimento daquella individualidade mrbida.
Todos pensavam que a bubnica, que tao bem vive na immundicie, chegando aos alojamentos dos famintos faria urna devastacao. E' verdade que l encontrara ella urna esterqueira nos pro-prios corpos eroupas dos retirantes, mas em compensaco estes viviam ao sol numa temperatura secca de trinta e tantos graos cent, e nos ranchos nao havia ratos e nem pulgas.
Essa mortal espectativa em que vivamos nao poda continuar.
O governo do Estado via-se na mais dura collisao. Com os cofres esgotados, a secca, a fome e por cumulo de desgraca urna molestia desconhecida, que alm das victimas que ia fazendo teria como consequertcia ine-vitavel a suspensao de nossas relacoes com os mercados do Brazil e do estrangeiro em urna epocha em que urna secca tremenda assolava todo o nosso territorio. Baldo de recursos de toda especie, sem dispor de elementos para reconhe-cero morbusquegrassava, cumprio o seu dever levando o facto ao conhecimento do governo da


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Unio, de quem soliciti ai o devido auxili, depois de ouvida a opiniao da classe medica, que reuni em palacio. Na mesma occasiao por um rasgo de lealdade communicou ao providente do Para, o Snr. Dr. Paes de Carvalho, com toda minudencia e verdade, o apparecimento da molestia suspeita, as condicoes precarias do Estado e a falta absoluta de elementos nao s para o re-conhecimento da entidademrbida, quo seapre-sentava, como para enfrental-a,caso fosse mes-mo a terrivel peste negra.
O Sr. Dr. Paes de Carvalho, correspondeo do j modo mais digno e generoso a lealdade do presidente do Cear, nos enviando urna commis-so de profissionaes aflm.de estudar o mal quo nos visitava pela primeira vez. Alm da presteza com que acudi ao appello do nosso governo, em longa e amistosa missiva, poz a disposico do Cear os recursos nocessarios, caso fosse confirmada aqu a peste bubnica. O Sr. Dr. Paes de Carvalho nao podia ser mais\ cavalheiro para com o Sr. Dr. Pedro Borges, que leal e franco nao lheoccultou o perigo que nos ameacava, fosse embora suspensa a emigracao para o Para, o nico recurso que tinham mimares de famintos para nao se acabarem do fome.
A commissao veio no vapor Belem da com-panhia Paraense, que tocou em nosso porto no


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dia 4 de Setembro, noite somente emquanto ella deserabarcava, e zarpou logo, evitando assim o contagio. Compunha-se ella dos Srs. Dr. Francisco da Silva Miranda, ajudante do Inspector Geral do Servico Sanitario do Para, e do chimico italiano Giussepe Dimartim.
A populaco de Fortaleza recebeu os enviados do Sr. Dr. Paes de Carvalho, como recebem-se os primeiros raios do sol depois de urna noite cortada de insomnias e pesadelos.
O pnico era geral.
A propria classe medica cheia de duvidas e apprehensoes, sem dispor de recursos de ordem alguma para enfrentar com tao cruel inimigo, sem umagotta de soro de Yersin, sem a vaccina preventiva de Hiffikine e outros agentes im-munisadores e prophylatios, estava abatida e desalentada. Raro foi o medico que ntrenos nao seapavorou. Assim todos confiavam e espera vam que a commissao recemvinda dissesse a ultima palavra sobre a molestia que nos as-saltava.
A commisso installou-se em um salao do palacete da Cmara Municipal e deu comeco aos
seus trabalhos.
Para melhor se avahar do que fez e do valor de suas pesquizas scientificas, publicamos o seu relatorio, sem data, que foi apresentado ao go-


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yerno do Para, algum tempo depois de sua chegada aqui.
Illm.0 e Exm. Sr. Dr. Jos Paes de Carvalho Dgm. Governador do Estado do Para. Tendo sido commissionado por V. Ex." para vir a esta Capital estudar a molestia que, segundo telegrammas d'aqui expedidos, se manifestava com todos os caracteres da peste levantina, cumpre-nos passar s maos de V. Ex." o resultado das nossas investigacoes.
Chegando na noite de 4 do mez findo. no dia seguinte pela manha installamos o nosso laboratorio em urna das salas do Pago Municipal, gentilmente cedido pelo illustre senhor Intendente.
No dia 6, em cimpanhia do Exm. Sr. Dr. Presidente do Estado e Dr.s Inspectores de hy-giene e da sade do porto visitamos dois doentes da molestia suspeita, isolados em seus domicilios ; um ra da Conceig, ie nome Emy-gdio, de 12 annos de idade, com seis dias de molestia, apresentando urna adenite crural es-querda nao suppurada, e outro ra Leopoldina, de nome B. L. de 15 annos de idade, sexo feminino, acamada havia oito dias, apresentando urna adenite crural esquerda emcomego de suppuragao. A temperatura do primeiro era


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de 33, 8 e de 3o o numero das pulsagoes, e da 2.a de 39, 1 a temperatura, e de 10 i as pulsagoes.
Em ambos os doentes eram acoentuados os phenomenos typhicos, e os seas mdicos assis-tentes afirmaram-nos que a pyrexia -obedeca o typo remitiente.
Com urna seringa de Roux, estorilisada, retiramos do tecido gaogliooar e das circumvisi-nhangas, umapequeaa porgaode serosidadedo primeiro caso e com ella preparamos quatro placas coloridas, das quaes duas com i'uschina e as duas utras com azul de methy lena.
Examinadas ao microscpico as prepara oes, nao foram encontrados os bacillos de Kitasato-Yersin.
De parte da serosidade extrahida, Asemos culturas em caldo alcalino peptouisado, preparado, segundo a formula de Yersin,modicada por Kolle.
Procedemos tambem a semeaduras em gelo-se glycerinada.
Ainda para o exame directo nos servimos do sangue da polpa do ndex, extrahido por picada, e o resultado foi absolutamente negativo.
Com. relagao a doente B. L. da ra Leopoldina, foram jeitas asmesmas investigagoes, que cleram resultado igualmente negativo.
De um outro doente morador ra Santa


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Theresa, 16 annos de idade, apresentaudo mais ou menos os mesmos symptomas que os precedentes, extrahimos pelos mesmos processos, urna pequea quantidde de serosidade, de que, parte servio para a preparacao das placas e parte foi misturada a caldo de cultura.
Mais urna, vez o exame bactereologico directo nao revelou a existencia do bacillo pathogeno da peste.
Tendo procedido com rigoroso cuidado a todas as pesquisas aconselhadas pelos illustres bactereologist-as que se tem occupado do as-sumpto, taes como Yersin (ann. Inst. Pasteur, 25 de Janeiro de 1871 e Kitasato (The bacillus of bubonic plague- Lancet-18941. II); Simond (ann. Inst. Pasteur25 de Outubro de 1898); Hankin (Idem25 de Novembro de 1898); Yersim, Cal-niette e Borrel (idem 25 de Julho de 1895; Bour-ges (Monographia clnica n. 20 de 8 de Novem-bra de 1899), Terni (Revista da Sociedade de Medicida e cirurgia do Rio de Janeiro ns. 5 e 6 1900,), e nao tendo encontrado o coccobacillo, podemos inteiramente excluir o diagnostico do morbus levantino.
Servio ainda para confirmar a nao existencia dessa entidade nosologica, o facto de ter a molestia se manifestado em pessoas residentes em pontos differentes da cidade e que nao ti-


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veram contacto entre si, e nao se ter dado a transmisso do mal aos habitantes do mesmo predio.
Foi-nos tambem referido por pessoas fidedignas, que pracedeu o apparecimento dos primemos casos grande mortandade de ratos, cujos cadveres foram tocados por pessoas do povo sem as precisas precaucoes ; nao constando, entretanto, que urna s deltas tivesse sido infeccionada.
Continuando as nossas investigacoes, ti vemos occasiao de examinar tres casos, que, alem de deporem pela nao existencia da peste, le-varam-nos a acreditar que a molestia reinante, longe de ser importada, tinha origem no proprio meio.
Vejamos :
a) F. J. 21 annos de idade, sexo masculino, 95 dias de molestia apresentava duas adenites, urna cervical e o'utra crural esquerdas, estando esta suppurada. Encontramos em preparacoes directas, alem dos microbios fia suppuraco o colicommunis" e um. bacillo muito semelhante ao d'Ebertli, afora os corpos esphericos de La-veran verificados as feitas com o sangue tirado da polpa do indicador; marcando othermome-tro na occasiao, posto na axilla, a temperatura de 39, 5.


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b e c) De dois cadveres autopsiados no ce-miterio, um apresentava urna adenite axillar direita, e outro nenhuma manifestagao gan-glionar.
Examinados o sangue extrahido do bago e outros lquidos orgnicos de ambos os cadveres, foram encontrados os bacillos j citados.
As culturas realisadas com os productos que serviram, para 0 exame directo, germinaran!, dando colonias dos mesmos bacillos.
Nao satisfeitos com as investigagoes directas e de culturas, recorremos ao methodo experimental, injectando em um macaco vermelho 1 c. o. de solugo no caldo liquido extrahido do caso a), nada soffrendo o animal durante os dez dias em que esteve em observago ; fican-do deste modo mais urna vez confirmado o resultado das nossas pesquisas.
Excluido assim o diagnostico de peste, cum-pria-nos a elucidagao da origem do mal reinante : por isso empreendemos estudo no sentido de determinal-o, e admittindo como meio de transmisso de infecgoes alem dbs insectos, a agua, resolvemos proceder a analyses das que servem para o abastecimento desta Capital
De facto, as pesquisas de Ghantemesse e Wi-dal, de Brouardel.e seus discipulos, sobre o ba-


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cilio d'Eberth tm demonstrado que noventa vezes sobre cem, a agua, que deve ser inculpada d'uma das molestias mais frequontes e mais graves.
Em vista do objectivo restricto que nos trou-xe a esta capital, qual o diagnostico da peste bubnica, nao podemos fazer um estudo bacte-reologico completo das aguas, pelo que nos limitamos a comparar entre si a sua maior ou menor pureza, dedusida da velocidade da lique-facgao da gelatina, do desenvolvimento dasco-lonias e do seu numero.
Para esse flm nos servimos de tubos de ensaio, contendo cada um 10 o, c. de gelatina peptoni-sada, e a cada tubo addiccionamos urna gofcta d'agua tomada na respectiva fonte, representando exactamente 1/27 ce.
Misturada a agua gelatina, foram os tubos deixados em posicao inclinada.
Antes que as colonias se misturassem em vir-tude da liquefacgao.eram numeradas e examinadas ao microscopio em preparagoes coloridas, afim de se reconhecer a identidade dos microorganismos.
Em "alguns casos as culturas obtidas, em meio gelatinado, foram transportadas para caldo peptonisado e para a batata.


R. THEOPHILO
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O QUADRO seguinte demonstra o resultado das nossas investigacoes :
Procedencia
Tempo le lique-fac Bacillus mais caractersticos encontrados
Observa-eoes
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10
Mororo' (extr. iir ciliado;
Parque da Liberdade (centro da eidadej
Mororo' (oxtl. da cidade)
Mororo' (idem)
Cacimba do po-vo (extr. da cidade)
Agua da chava d'uma cisterna
Jacarecanga (e_:ir. da ci dade)
Bemfica (ext. d cidade)
Cacimba no centro da cidade)
Bamfica 'extr. da cidade)
Gelatina compl. liqui-| da depois de 24 h
Caldo turvo depois de| egual tempo.
Gelatina compl. liqtli da depois de 24 h.
Caldo forte, espuma
depois do 70 h. Gelatina liquida de
pois de 30 h. Caldo turvo depois
de 30 h. \Qelatina liquida de
pois de 48 ht Caldo tunjo depois
de 30 h. ^Gelatina liquida de
pois de 30 h. Caldo turvo depois
de 80 h.
Gelatina compl: fuso depois de -10 h.
Gelatina contendo de pois de 30 h.1,350 colo| nias cent, cubico.
Gelatina liquida de pois de 24 h.
Gelatina liquida de pois de -10 h.
Gelatina liquida de-po's de 24h__
Tetracoccu
Bacillu seme lhente ao ty phicus.
Bacillus violceas.
Bacillus putri dus.
Bacillus coli-communis
Bacillus gazn formans.
Bacillus gazo
formans. cli-communis\ Bacillus putri-|
dus. Bculos coli
communis.
Bacillus fluores' cens putridnsi
Cultura sobre batata completo desen-volvimento depois de 18 horas.
Sobre batata desenvolvi-mento typi-co do badilas violacens


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SECCAS DO CEARA'
Como se evidencia do referido quadro, adiase infeccionada a esteira d'agua subterrnea do permetro urbano, infeccao esta, que se pode explicar do seguinte modo:
Fortaleza est edificada em slo de areia solta permeavel, de modo que as aguas das chuvas, encontrando na superficie do slo grando quantidade de lixo espalhado em differentes pontos da cidade, acarretam comsigo innmeros germens patliogenos.
Quando a estaco invernosa abundante, lencol hydrico subterrneo eleva-s) tanto, que as aguas misturam-se com as fezes das cloacas, poluindo-se e acarretando na sua baixa todos os gcrmes que nellas pullulam.
Seja-nos permitfcido ainda observar que os casos espordicos de doenca desconhecida que se-deram nesta cidade, mu i tas vezes a grandes d: s tandas um do outro, sem que os doantes houvessem tido communicacao entre si, damonstro que nao no contacto pessoal que devenios procurar a transmisso do mal, mas n'um agente que se espalha em todas as direcgoese que reage ou nao sobre os organismos, segundo a receptividade mrbida de cada um.
As investigagoes bactereologicas, de mos dadas com a obsei'vago clnica e a mesologia, levam-nos, pois, a capitular o mal reinante


nestacapital de lymphadenite malrica. Parece-nos com efleito, que todos os elementos deste diagnostico derivariam muito naturalmente dos factos colhidos em nossas pesquizas, quer fi-quem elles limitados a bactereologia, quer ve-nhamdirectamente da.clnica. Na verdade, em muitas das preparagoes descrptas foi verificada a existencia dos corpsculos-esphericos de Laveran, ao lado de um mici'oorganismi que muito provavelmente o bacillo d'Eberth. Nem se diga que a observagao nao sancciona hoje o conceito da infiammagao dos lymphaticos obe-decendo ao elemento malrico, pois a clnica jcha fallado neste sentido com o dr. Claudio Costa e muitos outros mdicos brasileiros e estrangeiros. Alm disto, os estudos de Ray-naud, Besnier, etc., sobre alymphangite paldica, as investigagoss criteriosas de F. Besan-con et Labb (Etude sur le mode de raction et le role des ganglioiis lymphatiques dans les in-fections experimentales.Arch. de md. xpe-riment. Mal 189S.Labb-Etude du ganglion lymphatiquedans les infections aigues. -Th. de Paris de 1898. F. Besang Maladies de systmelymphatique. Vbl. 6." do tratado du medicina de Brouardel e Gilbert) e muitos outros sobre o papel dos lymphaticos as infec-coes agudas, estabelecern de modo indiscutivel


102 SECCAS DO CEARA'
a sua participaco no envennamento malrico. Por outro laclo, se nao fossem mais que suffi-cientes os dados trasidos pela experimentaco solucao do problema," nao viria a lgica nos interrogar com muito bons fundamentos sobre a anomala de poder o paludismo, como a clnica o demonstra, revistir no organismo as formas mais variadas, atacando de preferencia este ou aquelle orgao, tomando esta ou aquella feico, e nao lhe ser permitticlo dominar os lymphaticos, pruduzindo a sua inlammaco ? Por outro lado a therapeutica estabelecida nao vem esclarecer o problema e con verter os mais incrdulos ?
Para explicar a tumefaccao dos ganglios po-diamos nos valer dos preciosos elementos tra-zidos pathologia pelas investigacoes de Met-chenikoff, Charrin, etc.
Dizemos simplesmente que o ganglio inflam-ma-se para melhorprovera defezadoorganismo.
Ao terminar, exm. sr. dr. Governador, cum-pre-nos agradecer a prova de conanca com que v. exc. nos distingui, incumbindo-nos de to honrosa quo ardua misso.
Saude e fraternidade.Dr. Francisco da Silva Miranda, ajudante do Inspector Geral do Servico Sanitario do Para.


r. theophilo
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Como se v do presente relatorio depois do competente exame bacteriolgico a molestia sus-peitafoi classiflcada de limpho adenite malrica.
Falta-nos competencia 1 ara acceitar ou re-geitar este diagnostico. Entretanto occorre-nos perguntar como que sendo as aguas usadas em Fortaleza ha longos annos sempre. das mes-mas fontes s agora appareceo aquella molestia precedida da mortandade de ratos ?
Como que os retirantes, que estavam mais do que tod<. s, sujeios a contrahir aquella endemia por suas condicoes especiaes de vida, expost'.s a todos as intemperies sem pao e sem tecto, sem os preceitos da maisligeira hygiene, servindo-se da mesma agua que os demais habitantes de Fortaleza,, nao se deo entre elles um s caso de limpho-adenite malrica ?
Accresce que no bairro do Oiteiro, ra da Leopoldina onde moram a maioria dos ho-mens empregados no servido de carg 1 e descaga dos navios foi onde so doram os primeiros casos da molestia suspeita. e foi onde ella fez maior numero de victimas.
Fosse peste bubnica ou limpho-adenile-'nala-rica,o exame bacteriolgico negando a existencia daquelle morbus e affirmando a deste foi a nossa salvaco. A populago da Fortaleza cobrou animo e os entendidos nao se deram ao trabalho de



pensar no caso afim de saber se seria ou nao verdadeiro o exame bacteriolgico.
Urna grande'desgraca era a peste, porem, ou-tra desgraca muito maior ainda seria o fecha-mento do nosso porto. Assim logo que a conr misso proferiu o seu veredictum foi este trans-mittido pelo telegrapho ao governo da Unio e a todos os governos dos Estados do Brazil.
Os poderes pblicos acceitaram o diagnostico do Sr. Dr. Francisco Miranda e foram res-l,abelecidas as nossas relagoes com os demais Estados do Brazil e estrangeiro.
As auctoridades municipal e sanitaria de Fortaleza se pozeram em campo e trataram da limpoza da cidade e de sua desinfecQo.
As casas em que se davam casos de limpha-adenitc-malarica ficavam interdictas, de polica porta, at que seprocedesse ao competente sa-neamento. Embora em pratica estes preceitos de hygiene, em relaco a urna molestia que se di\ia palustre, ella ia fazendo victimas de preferencia no bairro do Oiteiro.
O intendente municipal,o Snr. Guilherme Ce-zar da Rocha, que to reaes e relevantes ser-vicos prestou na secca de 1877 a 1880, mostrou que ainda grande a sua actividade mental, pondo se a frente da campanha que se levan tou em favor do saneamento da capital.


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Este oavalheiro, cheio de servidos ao Cear em quem reconheceinos um pondor especial para administrar, se bem que com um temperamento violento, teria foito mais por sua trra, se o partido poltico a que est arregimentado o deixasse agir livremonte. Aos seus es Coreos devenios o mercado de Fortaleza,um dos memores do Brazil.
O mal, entretanto, nao era virulento, com > se dizia O seu microbio pareca attenuado pelo clima. A seceura de nossa atmosphera e a luz viva e intensa do sol do equador nao enfraquo-ceriam a sua reproduegao e o seu contagio ?
Nao havia raso, portante), para a peste bu-bonica assentar a sua t.enda entre nos. A topo-gi-aphia da cidade com suas ras largas e cortadas em ngulos rectos, bastante ventilada e grandemente illuminada, sem cortigos, dispondo seus habitantes de vivendas espagosas, era ainda um elemento de resistencia ao desenvol-vimento da peste negra.
Fortaleza entretanto vai perdendo todos os dias os foros de cidade salubrrima, de quo tao justamente gosara.
Antigamente era o nosso clima aconselhadi
a secca
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