O Ceara no começo do seculo XX

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Material Information

Title:
O Ceara no começo do seculo XX
Physical Description:
799 p. : tables (part. fold.) ;
Language:
Portuguese
Creator:
Sousa Brazil, Thomaz Pompêo de, 1852-
Publisher:
Typo-Lithographia a Vapor
Place of Publication:
Fortaleza
Publication Date:

Subjects

Subjects / Keywords:
Climate -- Ceará (Brazil : State)   ( lcsh )
Climate -- Brazil   ( lcsh )
Genre:
non-fiction   ( marcgt )

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 16652899
Classification:
lcc - QC988.B7 S72
System ID:
AA00000246:00001

Full Text





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0 CEARA

NO

COMEQO DO SECULO XX

POR

THOMAZ POMPEO DE SOUSA BRASIL

President da Acadeipia Coarense e Instituto do Cearif; vice dire-
ctor de Faculdade Livre de Direito do CearA, lento do
oconomia political na mesma faeuldade, lente em
disponibilidade da Escola Militar do Ceari,
lente aposentado do Lyeeu do Ceairi,
socio do Inutituto historico da
Bahia, etc.






S',- .4 ICAN COLLECTION

OF FLORIDA
S'Gift of

Ralph Della C --




FORTALEZA
TY'PO-LITHlOGRAPHIA A VAPOn
Rua Bariio do Rio Branco--68
1909
















PREFAC.IO

Proponho-me, nas paginas 'que se vao l1r, expOr as con-
diq6es physical, economics e moraes do Estado do Ceara,
baseado em -estudos pessoaes e informagoes escrupulosamente
recolhidas no proposito de apurar a verdade.
A forma que dei a este trabalho 6, porventura. nova, mas
as investigaqges concernentes ao modelado do s61o nos seus li-
neamentos geraes-aspecto e physionomia propria-datam de
longos annos e foram feitas por uma series de observadores sa-
gazes, cautos e veridicos.
0 resultado dessas investiga96es, condensado at6 1862 no
extenso e consciencioso Ensaio Estatistico da Provincia do Ceard,
do Senador Thomaz Pomp6o de Sou.a Brasil, publicado na-
quelle anno, precisava ser ampliado, completado, post em dia
pelas que se Ihe seguiram.
Uma vista synthetic, mostrando a interdependencia dos
differences phenomenon physics, conjugados em acq&o recipro-
ca, tal como-o territorio, suas modalidades, accidents e as-
pectos, o clima e a sua influencia immediate sobre a physiono-
mia da paisagem, e recursps vegetativos da terra, isto 6-o con-
juncto da vida physical peculiar a regiao cearense, exigia a
refundiqao on o retoque dos trabalhos anteriores.
Nesses ultimos quarenta annos o numero daquelles inves-
tigadores augmentou consideravelmente, e grande parte dos
seus trabalhos foi dado a publicidade nas revistas do Instituto
do CearA, e da Academia Cearense.
Contorno maritime, ourela arenosa de dunas, taboleiros













VI

outros tardios, ja pela brevidade corn que escrevi este trabalho,
concluido desde Junho do anuno find, na esperanga de ser
present a exposigao do Rio de Janeiro.
E' um mero ensaio, material um tanto informe, qile mais
tarde, poderg servir de alicerce a um edificio util ao CearA.
Tal como estA, represent apenas os bons desejos que me ani-
maram de prestar minguado serviqo a minha terra natal, mos-
trando-a tal qual 6, on viri, a ser proximamente, mediante o es-
forgo human, e a aceao methodica dos poderes publicos.

TH. PoMPto

Fortaleza, Dezembro de 1909.












PARTE PHYSICAL


POSIQAO ASTRONOMICA.-Nao accordam os autores
sobre a posigao astronomica do CearA. 0 Senador Pompeu, na
Estatistica do Geard, dA 20 45'--7u 11' de latitude meridional,
e 20 30'-6o 40 de longitude oriental do meridiano do Rio de
Janeiro.
Do as cartas de
LAT. MERID. LONG. ORIENT. DO RIO
Paulet 20 45'-70 40' 10 18'-60 131
Conrado Compp.) 3 5 -7 19' 20 30'-60 26'
." (geral). 20 451-70 11' 20 30'-6 24'
Theberge 20 45'-70 351 10 55'-60 7'
Villiers 20 H8'-80 24' 00 6'-50 48'
H. de Mello 20 48'-70 47' 1 471-50 50'

LIMITES.-E' limitado ao N. e a NE. pelo Atlantico; a
L. pelo Rio Grande do Norte (1) : ao S. pela Parahyba e Per-
nambuco, e a 0. pelo Piauhy (2) por umna linha que, partindo
da barra do Timonha, situada a 20 54' 46" de latitude meri-
dional e 20 8' 7" de longitude oriental do 1Rio de Janeiro, se-

(1) Ha contestacoes entire o Ceara e o Rio Grande do Norte
relativamente aos limits dos dous Estados na parte da fregue-
zia do Pereiro que extrema corn a do PAu-Ferro : bem como
a da posse de Grossos, a margem do rio Mossor6.
(2) Os limits corn o Piauhy pela serra de Ibiapaba nao
estao bern demareados. A lei n? 3.012 de 22 Outubro de 1880.
que annexou ao Ceard o termo de Cratheuis tragou a linha di-
visoria, aliAs pouco precise.






6

gue pelo rio S. Joao da Praia acima atA a barra do riacho, que
vai para Santa Rosa, e dahi em rumo direito A serra de Santa
Rita at6 o pico da serra Cocal, termo do Piauhy, continuando
pela Serra Grande ou de Ibiapaba at6 a dos Cariris Novos,
onde o solo deprime-se para, coin o nome de Serra do Araripe,
JA a SO., limitar-se corn Pernambuco.
DIMENSOES.-O litoral 6 bastante desenvolvido: mede
cerca de 700 kilom., desde a foz do Mossor6 A do Timonha.
Deste ponto, pela Serra Grande. alW a parte mais meridional
(70 1') cerca de 1100 kilom., e dahi at6 Mossor6 600 kilom.
SUPERFICIE.-Variam as avaliagoes. 0 Senador Pompeu
di-lhe 4681 legnas quadradas, o'naturalista Silva Feij6 6 a 7000
leguas quadr., Millet, no Dicc. Geogr. do Brazil, 4600, corres-
pondente a 200736 kilom. quadrados: o Dr. Jos6 Joaquim de
Oliveira 3625, tomando por base a carta chorographica de Con-
rado equivalente a 111,940 kil. quad.), Villiers 3704, o Dr. Vi-
riato de Medeiros 5475, o calculo da carta geral 104.250
kilom. quadr. Depois destas avaliaqces o CearA adquerio o vas-
to territorio de Crathefis, que anteriormente pertencia ao Pi-
auhy. E' provavel que a superficie actual do CearA exceda de
120,000 kilom. quadrados.

CONFIGURAQAO DO SOLO

A configuraqao do Ceara 6 a de um triangrlo agudo, de
lados desiguaes, tendo por vertice o Jardim ao S., e por lados
as linhas montanhosas on de elevacoes que deste ponto vao ter
ao Mossor6 a L., e ao Timonha a 0. A cordilheira circular,
que o envolve, ergue-se, na orla occidental da Serra Grande, em
forma de muralha, de penoso acceso at6 o boqueirio do Poty,
proseguindo. para o sul corn mediocre elevaqao at6 as ver-
tentes dos BastiSes, onde a serra baixa consideravelmente para
tornar a erguer-se corn o nome do Araripe, ao S. No Jardim
morrem os contrafortes do Araripe, que se deprime para dei-
xar passar o riacho dos Porcos, sub-affluente do Jaguaribe.
Pela margem direita do Rio Salgado as serras do CamarA e Pe-
reiro apertam a bacia do Jaguaribe, cujo declive rapido e
alcantilado envia apenas alguns pequenos tributaries ao gran-
de rio. 0 solo 6 geralmente accidentado a S. L. e 0., descen-
do gradualmente para o litoral en. forma de taboleiros mais






7

on menos exiensos, alternados por serrotes seceos e graniti-
cos. No planalto, limitado pelas serras do Araripe e Gran-
de, a altura acima do nivel do mar 6 de 430 metros no-Crato:
612 em Brejo Seeo, 500 no Tauh6. A deseida para o literal
faz--se, a principio, rapidamente, de sorte quie a 100 kilome-
tros do Crato, no rio Jaguaribe, a differenga nivelar 6 de 200
metros, de 300 no rio Basti6es a 50 kilometros do Brejo Secco,
e depois mais docemente, desde o Jaguaribe ao literal, con-
servando o solo certa horisontalidade, corn declives que va-
riam apenas de 40 a 50 metros por espago de 200 kilom. A orla
maritima, bem que baixa, nfto 6 pantanosa, nem completa-
mente alagadica, salvo na embocadura de alguns rios, como
a do Jaguaribe, Chor6, Ceari, Curh, Acarahf, etc.

LITORA L

Extende-se da foz do rio Mossor6 ao Timonha. por cerca
de 700.000 metros. E' geralment6 arenoso, formado de medoes
de areia, que se move e desloeam conforme os ventos rei-
nantes. Essas dunas apparecem ao norte do rio Mossor6, onde
se erguem de alguns metros acima do nivel do mar, at6 a
barra do Jaguaribe, cujo canal de navegaqao muda de fundo,
aterra-se em alguns logares .a acqAo das areas movedigas. Ao
norte do Jaguaribe, e por alguns kilometros, a costa abate-
se, alaga-se nas mars de aguas vivas, que destroem os comoros
de area, ou levam-.u'os mais para o norte, oude se erguem a
grandes alturas (60 a 80 metros) em forma de monticulos,.cujas
bases sao, as mais das vezes, banhadas por essas mars. Em
alguns sitios, como na orla costeira entire Cascavel e Aqui-
raz, e ao norte da Fortaleza, no Cauhipe, etc., as barras
de alguns rios estao obstruidas, formando laguna, mais on me-
nos profundas, como as do Catui, as Capangas, a do Cauhipe,
etc. A nol'deste do Estado, em face ao rio Acarahi, os como-
ros de area foram em parte carreados pela corrente, deposi-
tados no mar, do qual emerge em baixios extensos, propicios
a pesca. A baixada intermediaria, entire as dunas e a praia, 6
completamente esteril. alagadiga, impropria para cultural agri-
cola: nella estilo as salinas. A que se extended para o centro,
a'enosa, do outro lado destas, se intromette as vezes por al-
guns kilometros pelas terras argilosas que formam os valleys,






8

outras seguem o curso das correntes, acompanhando a horison-
talidade do solo. Nellas medram as planta90es de algod&o,
milho, feijao, canna de assucar e de muitas arrores fructiferas.
Banhada pelos ventos humidos do litoral, formada de argila
e silica, na sua maior parte, presta-se admiravelhnente a estas
cultures, com especialidade a do algodao, chamado herbaceo,
especin de longa sUla on sea island da Georgia (E. Unidos).
0 Dr. Katzel (1) descreve o litoral nos seguintes terms:
'-A regiao das "praias" na contextura de sua paizagem,
pelo menos na part central dos 700 kilometros, mais ou menos,
que formam o Actiun atlantico do CearA, differ nao pouco
das costas dos Estados que demoram mais no norte, pois a
guarniafto de mangues ou fallece de todo du estA mui parca-
mente desenvolvida.
'-A costa 6 geralmente aberta, o terreno e a arrebentaqao
tao f6rte, que particularmente nas vasantes, mesmo pequenos
b6tes nao p6dem atracar, e pessoas e fr6tes tmr de ser carre-
gados para terra.
"Porto soffrivel nAo possue infelizmente. (2) AO long
da costa estira-se um paredao de dunas, que as vezes alcanua
A altura de 10 metros. Pelo lado do mar defronta este pare-
dao uma praia esteril e arenosa que attinge largura conside-
ravel nas barras de rios. Nellas, particularmente nas cercanias
de Aracaty, no rio Jaguaribe, existem salinas, nas quaes sem
trabalho, graqas A evaporagao natural, se produz quantidade de
sal de cozinha. Tambem as dunas em sua part interior, at6
onde a mar6 alcanqa, nao tern vegetaq&o. Os comoros de area
que o vento ajunta no terrago interior. apparecem, entretan-
to, nas planicies mais extensas, raiadas de gramma resistente,
moitas e troncos de cactus. A superticie do paredao de du-
nas o a trechos algo humosa, e aqui p6de haver at6 pobres
roqas. As propriedades mais frizantes, pordm, das praias sao
esterilidade e monotonia. Bern diverso 6 o aspect das baixas


(1) Frid. Katzer no Globus de Brunschweig, Julho de 1902.
(2) 0 illustre geologo austriaco, labor em erro por desco-
nhecer o porto de Camocim, um dos melhores da costa septen-
trional do Brasil.






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frescas que se segueni as praias, e o destas fazem ainda par-
to das tarrds de rios. Sao de dupla origem estas baixas.
"De facto, do lado interno do parediao das dunas, a plani-
cie 6 inundada em vastas extens6es por chuvas, e aqui, duran-
te a maior parte, as vezes durante o auno inteiro, conservam-
se lag8as on alagadi;os, eneantoados em terreno verdejante.
Existem aqui extensas plantaq6es, principalmente de canna e
fumb, legumes e fruetas, assim como grandes cajueiros, de
cujo fracto succulento se extrae o vinho apreciado. Ha aqui
vastas pastagens, cobertas de moitas e arvoredo, atrivessadas
de renques de palmeiras, animadas de consideraveis rebanhos
de gado. Esta baixada fresea avanqa com interrupg6es "ao Ion-
go de toda a costa e penetra para o interior 10 a 30 kilo-
metros".

VALLEYS

"De conformaqAo semelhante, por6m mais ferteis ainda.
sao as varzeas das barras de rios, particularmente no Jagua-
ribe.
"A rigor o CearA nao possue corrente constant que se
possa chamar rio; possue apenas valles numerosos que em tem-
po de chuva se enchem de agua, a no verAo se dissolvem em
tanques e pogos, e nao tardam a seccar de todo.
"Nos cursos inferiores e nas barras onde a agua do mar
represa a agua doce. 6 onde mais dura, como facilmente se com-
prehende, a humidade do solo. Aqui se acham tambem as mais
bellas plantaqoes de algod&o, fumo, canna, milho. etc.. e os
terrenos nao cultivados assignalam-se tambem pela roupagem
exhuberante.
"A trechos nessas varz3as verdejantes desenrolam-se qua-
dros de belleza arrebatadora, em que cabe parte saliente A
Carnafiba (Corypha ceryfera) que se levanta Aquem salteada,
al6m em carnaAbaes a perder de vista.
"Esta baixa palneira da leque, passa pela arvore mais
util do CearA e ha disposiq5es legaes para protegel-a.
"Al6m da preciosa c6ra que fornece. dA tambem tronco,
raizes, fructos e folhas, para empregos industriess. (1)

(1) F. Katzer- Obra citada.






10

"O engenheiro J. J. Revy. commissionado pelo governor
geral para estudar os locaes mais apropriados a construecao
de grandes a.udes, exprime-se nestes terms em relacao ao
valle do Jaguaribe : (1)
"Ao logo do curso deste important rio a formaqao geo-
logica varia frequentemente, e d& ao valle aspects mudaveis
e differences; assim, em algumas parties, as margens do rio
forniam por ceni ou mais kilom. desfiladeiro continue de col
linas rochosas, corn constantes elevaq5es e qu6das de super-
ficies de' terreno. e o canal do rio 6 cortado na rocha solida :
emquanto que em outros eeon kilom. as margens do rio sao
formadas de ricas planicies alluviaes coin espessas camadas
de deposits; os outeiros e montes retiraram-se a muitos kilom.
das margens e o canal do rio 6 cavado na area, sem vestigio
de rocha em parte alguma.
"As grandes planicies do valle estao situadas entire Araca-
ty e a cidade do Limoeiro, estendendo-se mesmo alem atW um
logar denominado Boqueirao do Cunriha, a 150 kilom. do Ara-
caty. Formam uma superficie ininterrupta de terreno corn a
largura de cerca de 10 kilometros em todo esto comprimento.
Em dois terqos, pelo menos. de suna area, sao tao lisas estas
planicies come a superficie de uma mesa. A terra 6 formada
pelo mais bello solo de alluviao corn a espessura media de 4
a 5 metros.
"Este deposit alluvial descanya sobre area limpa e gros-
sa, identica a do Canal de Jaguaribe, perto das ditas planicies.
Ha nesta parte do valle pelo menos 80.000 hectares de magni-
ficas terras plans, de riquissima qualidade, excepcionalmente
aptas para a agricultura superior, que sera invariavelmente
garantida pel., irrigziao.
"Os declives desta planicie sao brandos : nuo ha elevagao
nem qu6da perceptivel: sendo a media desta, eutre o Boquei-
rao do Cunha e o Aracaty de 1 em 2500. A partir do porto
do Aracaty, pelo valle acima, a sabida nos primneiros 1. kilom.
at6 a Passagem das Pedras 6 mnui pequena; a superlicie do
terreno 6 ondulosa e occasionalmente arenosa; a eleviaao ge-
ral da terra 6 de 5 a 6 metros acima do nivel do mar.

(1) .1. J. Revy--Relato io sobre o aqude de Lavras.






11

"Depnis de atravessar o Jaguaribe na Passagem das Pe-
dras comecam as grandes planicies e estendem-se 100 kilom.
pelo valle acima, corn a elevaQto uniform de cerca de 1 em
2000, isto e,'1/2 metro por kilom.
"0 centro da planicie acha-se perto da cidade de S. Ber-
nardo das Russas a 75 kilometros do Aracaty.
"Estas planicies sao, portanto, favoravelmente situadas
para a cultural de produetos agricolas. taes come algodio, assu-
car, fumo, etc., que o fertil solo, corn soccorro de irrigacqao, pro-
duziria corn abundancia.
"A superficie das ditas planicies esta actualmente coberta
corn um denso matto de carnahuba.
"Algumas pequenuas nesgas de terra sao cultivadas e sup-
prem as neesesidades immediatas da popuIaiAo. Uma pequena
superficie de terra 6 sufficient para produzir o algodao. man-
dioca, assucar, milho, etc., para eonsamo interior e em tem-
pos ordinaries estes products se obtem com. grande facili-
dade.
"As difficuldades nascem s6mente quando as chuvas nao
sao regulars. porque a producnao agricola destas planicies de-
pende inteirameute da regularidade das chuvas, visto que as
planicies nao recebem humidade alguma de foutes.
"De facto, a sua formaqao natural exclude a possibilidade de
qualquer agua ou humidade chegar a sua superficie senAo por
meio da chuva.
"0 terreno alluvial destas planieies e principalmente com-
posto de barro e area bellissimra,. e 6 quasi impermeavel ; sua
profundidade 6 de 4 a 5 metros, e elle deseanqa sobre urma ca-
mada de areia.
"Todas as fontes passam, portanto, na areia embaixo do
dito deposit alluvial. Pogos podem-se fazer em qualquer parte
destas planicies perfurando o dito deposit.
"No Boqueirio do Cunha, a 115 kilom. do Aracaty, termi-
nam as grandes planicies da bacia inferior do valle. A eleva&ao
destas planieies no Boqueirao 4 de 50m,66 acima do nivel do
mar.
"Subindo o valle do dito Boqueirao, o canal do Jaguaribe
e logo limitado por uma series de estereis e rochosas colliuas ;






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o leito do rio 6 em toda a part rocha solida, com grandes es-
por6es projectados, e por muitos kilom. acima do Boqueirao :
o canal do Jaguaribe 6 virtualmente uma continue cacho-
eira. Por toda a parte encontra-se rochedo na superficie do
terreno ; ha somente pouca vegetaAo e poucas e pequenas
arvores e arbustos. E' uma regiao selvagem de terreno rocho-
so e oudulado.
"Comrn excepqao de alguma nesga de terra propria para
cultural, p6de dizer-se que a extensao situada entire o Boquei-
rao do Cunha e a villa de Jaguaribe-merim, corn a distancia
de 45 kilom., 6 urn desert de roehedos, de nenhum valor
para fins agrieolas.
-'As planicies do Ic6 estao a 225 kilom. do Aracaty e
143m acima dc nivel do mar ; sio situadas na confluencia dos
rios Salgado e Jaguaribe. As planicies do Ic6 tem semelhan-
ga frisante corn as grandes planicies do valle inferior do Ja-
guaribe em Russas e Limoeiro. Bern como estas, a sna super-
ficie 6 tao lisa como uma mesa, e extremamente fertil. 0 solo
6 inteiramente formado de um rico deposit alluvial. A area
6 de cerca de 10.000 hectares. No centro destas planicies esta
a bella cidade do Ic6, bem construida, corn uma populacao
de 12.000 almas e important commercio de algodao, couros,
assucir, etc. Nao p6de haver localidade mais favoravelmente
situada para a irrigacao, porque ha ahi uma Area considera-
vel de excellentes terras e grade populacao agricola, prompt
a utilisar estas planicies em qualquer extensfo, uma vez que
a agua seja supprida para regar as suas plantagoes durante a
estaqAo secca do anno.
*.Deixando os campos do Ic6 e subindo o rio Salgado a
configuraqco do terreno muda rapidamente das planicies allu-
viaes para uma regilo selvagem de rochedos e moutanhas ;
estas limitam o ditoj rio em ambas as margens at6 o boquei-
rao de Lavras, 50 kilom. da cidade do Ic6. Nesta extensao o
canal do Salgado 6 em quasi toda a parte c rtado em rocha.
Perto da Serra do Boqueirdo o rio passa por uma garganta
chamada-Boqueirao de Lavras-, que divide esta serra em
duas montauhas separadas, a leste e a. oeste do dito rio. A in-
clinacao do valle do Salgado entire as planicies do Ic6 e o Bo-
queirao de Lavras 6 de 1 em 780 ; *) nivel do poco no dito bo-






13

queirao 6 de 207mi acim L do nivel do mar, na distancia de 275
kilom. do Aracaty."
Em relacgo no valle do rio Satia, em cujas niscengas foi
construido o aqude de QuixadA, esereve ainda o Sr. Revy .
"'A formacao geologica deste district 4 excepcional: den-
tro de poucos kilometros encontram-se montanhas perteneen-
tes a formaqes muito differences ; as do granite verdadeiro
acham se juntas a outras compostas quasi todas de feldspa-
tho immediate a estas apparece a formaV&o calcarea de ro-
cha densa e dura ; tambem se eneontra junto marmore bran-
co e entao uma variedade de formaqao de gr6s.
"-0 rio SatiA nasce em urn planalto chamado "Livramen-
to" cerca de 30 kilometros acinua de QuixadA, e correndo no
long da Serra do Estevao. recebe diversos grades tributa-
rios at6 que, a uns 5 kilom3tros acima de QuixadA, passa en-
tre montnuhas de rocha nfua; que surgem de repeute do valle
chato de deposits alluviaes. A bacia do valle do Sitii 6 consi-
deravel e muito raza: no norte e noroeste 6 limitada por um
sertao embaixo de collins ondulosas, cobertas por densa mat-
ta de sabiAs e catingueiras ; a leste, sul e oeste 6 cercada por
altas montanhas". (1)
A configuraqAo dos values das principles bacias hydrogra-
phicas cearenses obedece aos tragos geraes bosquejados pelos
dous scieutistas, cejas descrippoes ficam transcripts.
Nas regi6es superiores, montanhosas das quaes fluem o
Jaguaribe. comn os seus grandes affluentes-Salgado e Bana-
buyd, o Acarahi e o Camocim, o curso fluvial abrio caminho
por encostas mais on menos inclinadas, ora estreitas, cortadas
em ribanceiras a pique, como entire Arneir6z e Saboeiro," no
Jaguaribe: ora em declives menos abruptos, embora apertados
entire collins.
Nesta parte os valles sato exiguos e formam como que um
canal de limitadas proporq6es, pouco apropriados a cultural
agricola.
Ordinarinmente A aieqo carreante das chuvas, as encostas
destes valles (estreitos) estAo desnudadas, e a nao ser nas suas

(1) J. J. Revy-Reservatorio de Quixadd-relatorio pielimi-
nar apresentado ao conselheiro J. Antonio Saraiva-1882.






14

quebradas inferiores, onde os obstaculos naturaes impediram
o escoamento rapido dos detrictos vegetaes para o leito do rio,
o solo endureeido 6 relativamente esteril, semielhante ao dos
sertoes ereadores
Na parte media e inferior dos valles. onde as enchentes
dos rios se espraiam e depositam o limo trazido das regioes
alcantiladas o terreno vegetal, humoso, 6 geralmente abundante
e rico, nao raro de exceptional fertilidade.

SERTAO

A poucos kilometros do litoral o solo torna-se argiloso ou
compOe-se de terrenos srhistosos, decomposiqao de rochas pri-
mitivas, nos quaes predomniimtu mica e feldspatho. A argila
vermelha ou amarella salienta-se nos valles e logares baixos,
nas encostas das serras, que se inclinam para as bacias dos
grandes rios. Em geral, de envolta corn a argila, vem se rochas
sedimentarins e granito, e nos baixios, levada pelas torrentes.
areia grossa proveniente da degrada(;ao do quartzo. Os seixos
rolados. os quartzitos sao frequentes nos valles apertados ou
nas encostas de collins e serrotes pedregosos. 0 aspect do
sertao 6 pouco variado--6 pequenas planicies, niais ou menos
visinhas dos rios, succedem-se as quebradas. ora em forma
de collins alongadas, de argila, ora de serrotes baixos, emer-
genteg do solo em forma de lagedos.
Esses terrenos estao pela m6r parte cobertos de hervango,
de mimosaceas ou de capim rasteiro, e sao apropriados A
ereafio do gado.
*Aqui e ali, abrem-se clareiras, bordadas de arvores fron-
dosas e seculares, ou de carnahubal basto. Outras vezes, mes-
mo no cora(&o do sertao, orla verdejante, de vigorosa pujan-
qa, que serpeia em pianos inferiores, ao logo do curso dos
regatos ou pequenos rios, contrast corn o matagal baixo, en-
fesado, que limita a campina deslavada, scm vegetaqao na qua-
dra estival.
A' margem do Jaguaribe, e em geral na de todos os rios,
os terreDos de alluvido, negros, pantanosos nos invernos co-
piosos, poeireutos no verho. alagam-se, maita vez por 4, 6, 8 e
mais kilometros de cada margem do rio.






15

Humedecidos pelas chuvas ou pelas represas [audes], pro-
duzem prodigamente todos os generous tropicaes.
Logo ap6s as ehuvas, quando as moscas varezeiras e os
insects damninhos sao varridos pelos ventos frios e sececos,
o gado pode nutrir-se socegadamente, abundantemente, adqui-
rindo corpulencia e gordura. 0 past em todo o seu vigor,
menos aquo.so, offerece alimento sao e vigoroso a creaqo.
Um brazileiro illustre, que muito viajon pelo CearA e Per-
nambuco, o Dr. Silva Coutinho, dA-nos a seguinte descripafo
que complete a do Dr. Katzer cuja transcripao segue a
daquelle.
"0 sertio 6 o pampa do norte, a region do cactus, das
bromeliacdas e catingueiros.
"Mais rara que no agreste, a vegetaqgo despe-se das fo-
lhas em grande parte durante o anno, conservando-se entre-
tanto verdes algumas species. como o joaseiro, a catingueira,
o bonome e outras.
"0 terreno 6 mais seceo que o do agreste, e durante o ve-
rao seccam os rios, conservando-se apenas alguns poos, onde
qualquer obstaculo impede o escoimento das aguas.
"0 terreno 6 geralmente apropriado A criaa.o de gados,
mas cultiva-se o algodio com grande proveito, e assim os le-
gumes necessarieos ao consume.
"Nos annos de grande secca, a penuria 6 geral no sertao :
more o gado, principalmente por fnlta de alimento, e more
tambem o homemi extenuado em busca da vida, que Ihe foge
com os recursos.
"Em cahindo as primeiras chuvas, o aspecto do paiz muda
completaamente : rapidamente desenvolvem-se os legumes, o ga-
do se avisinha das easas, abunda o leite e em breve amadure-
ce o milho e o feijao; a felicidade 6 geral; e o home, es-
quecido das calamidades passadas e alegre no meio da abun-
dancia, uno inveja a sorte dos habitintes das regi6es mais fa-
vorecidas.
"Seccam os rios tao rapidamente, em consequencia de
achar-se o terreno quasi despido de vegetaeao. Nestas condi-
qoes, caindo as chuvas directamente no solo, correm as agoas






16

para os rios, em quasi sua totalidade, sendo absorvidas pelo
terreno uma quantidade insignificant.
"Essa pequena camada, absorvida, conserva-se mais on me-
nos inalteravel durante a epoca das chuvas, mas logo que
ellas cessam, evapora-se rapidamente, achando-se o terreno
exposto aos raios director do sol." [1]
"Paizagem que de todo contrast com as varzeas ainda
verdejantes em tempo de secen, 6 o sertao, isto 6, a planura
ondulada, a trechos coberta prinucipilmente de gramas. de
moitus e arvores tortas semielhando sleppes, que occupa a
maior parte do Ceara. Subindo graiualinmeiite desde a baixada
littoranea, eleva-se no centro do Estado, nas cercanias de
Quixada e Quixeramobim, a uns 15U metros acima do nivel
do mar. No sertao os extremes de *lima exercem a maior acqao
exterior.
"Mar verdejante em epocha de chuvas, o sertao se transfor-
ma na estaiao secca em desert de areia e pedra, de effeito
tmcnto mais desconsolador quanto o aspect arido de pAos tor-
tos e arbustos destacados, joazeiros soltos que verdes se con-
servam apezar da secea infinita e As vezes tambem de cactos
altos. semelhando columns, rematando em flores vistosas.
"Ao sul do CearA. nas divisas de Pernambuco, o sub-s6lo
6 formado de camadas mesozoic:is [greda ou zura] e apparent.
temente tambem de rochas paleozoicas ; a maior parte do ter-
ritorio consta, por6m, de gneiss. Nesta a decomposigao pene-
tra muitas vezes 10 e 20 metros ; nao produz laterite, mas a
origem gneistica se conhece claramente mesmo na rocha alta-
mente degradada. Os products frouxos da degrtida (to que fi-
ea'm na superficie sao em parties levados pelas inundaq6es, mas
principalmente varridos por ventos. As massas mais resisten-
tes da rocha, principalmente os quartzos procedentes de
gneiss, corn o varrimento dos detritos de barro e areia fina,
sao descarnados e amontoao-se em grandes trechos do sertao.
Assim, acha-se quartzo roseo, quartzo c6r de agua clara,
quartzo leitoso corn delicadas veias limoniticas [muito seme-


[1] Dr. Silva Coutinho. Estudos definitions de Una 4 Bda
Vista, da estrada de ferro do Recife a S. Francisco, 1875.






17

lhante a um quartzo aurif.ro], do tamanho da mao on da ca-
bega, e is vezes em blocos de metros, principalmente no ser-
tao que fiea entire Junco e Cangaty ; e a cidade de Baturit6
em grande parte 6 calada destes quartzos.
.'Estes pedregar3s do sert&o diffcilmente serial ferteis,
mesmo se o clima fosse menos secco, e 6 para admirar que em
taes condiqes exist ainda vegetaa.o eseassa. Os lugares mais
baixos do sertao. particalarmente aos flaneos dos largos val-
les com seun solo argilo-arenoso, poderiam seguramente ser
cultivados, apaseentar gado ou dar o despretencioso algodao
cearense, de fibra grosseira, se pudessem ser sufficientemente
irrigados. Tanto se tern recouhecido isto, que se fallou em
construir com dinheiros publicos algans Paudes, de que urn,
em Itacolomy, regaria a regiAo de Palman e Viqosa, acima da
Granja, outro, no rio Salgado, serviria ao territorio de Lavras,
armazenando ao mesmo tempo agua bastante para os annos do
seeca. NAo me consta que taes aqudes tenham sido construi-
dos: sei apenas que, depois de m'aitos desastres e desacertos,
fez-se uina important repreza do rio Sat.ik junto a QuixadA
que cuba cento e trinta cinco milhoes e meio de metros, for-
nece agna A cidade e presta-se A irrigagao de 5.000 hectares, rio
abaixo, at6 a distancia de 26 kilometros.
"No sertan do centro do CearA, especialmente na regiAo de
QuixadA, empinam-se alguns serrotes solitarios, que constituem
elements extraordinariamente caracteristicos da paisagem.
Erguendo-se immediatamente do plano produzem, apezar de
sua pouca altura de 100 a 200 metros, impressao imponente,
para que concorre nao s6 sea isolamento como a peculiarida-
de de sua superficie. Na maior parte sao cabeqas semelhando
sinos, de paredes ingremes, tendo a umn lado um s6eco es.ala-
do, produzido pela degrada@,o desigual. Em QuixadA constam
de syenito porphyriformne; alhures, como por exemplo entire
Floriano Peixoto e Uruqu6, constam de granito; em Quixera-
mobim. de gneiss-granito. [1]



[1) Nos sertoes os unicos texrenos apropriados a cultural
sao os baixios, as cor6as on margens dos rios, alguns acudes e
as serras frescas.








SERRAS


"A todos os respeitos, por6m, os mais caracteristicos sae
os serrotes de syenito. (1) Sieas paredes ingremes sao cobertas
de sulcos e caneluras verticaes e parallelas e as encostas menos
despenhadas, qualquer superficio mediocremente inclinada de
saliencia de umia rocha, principalmente acaba em forma de
s6cco escalado, sio semeados de Karrus entremeados de cristas
rocheas. Todos os typos das forms genuinas de Karrus : pa-
tena, bacias, cubs. caldeiras, poeos que a sciencia modern
so conhece em montanhas calcareas ou delomiticas, aqui se
desenvolveram no rijo syenito, e se os arranhoes possuem as
vezes formas mais arredondadas, em todo caso apparecem su-
perficies esbrugadas que, segundo a huguagem scientific s6
se podem chamar Karren felder. A causa unica deste pheno-
meno 6 a acqAo lavante e escavante da chuva, que durante o
curto inverno cae corn violencia, em milhares de cascatas do
alto dos serrotes. Os serrotes no todo sao inteiramente escal-
vados, mas da terra que a chuva ajunta no sop6 brotam jun-
cos durante a secea e em alguns lugares nascem cactus.
"Do mesmo modo que estas formas Seas. escavadas pelas
aguas, tambem as formas devidas A erosao do syenito e gra-
nito de varias serras do sertao t6m unma nitidez e umn cerceio
que commumente s6 se vA em climas temperados, corn a de-
gradagao de rochas molles como delamito, cal e gr6s. Nestas
regi6es. por exemplo, na serra do Cedro, ao fundo do aqnde
de QuixadA, insurgem-se cristas, torres, cumieiras e blocos, que
junto As exquisitas fornias Ocas dio ao serrote um aspect
selvagemente dilacerado.
"Ao contrario, as serras mais altas e mais extensas do
Ceara possuem contornos geralmento tranquillos. Succede isto.
tanto coin as serras graniticas de cerca de 700 metros de al-
titude (serras de Cauhipe, de Marangnape, de Aratanha) que,
qual muralha, limitam a regiai costeiva pelo interior, como
tambem corn a serra de Baturit6, gueiss-granitica, situada
iMais no interior, que 6 o ponto mais eleva.do do territorio.
"Estas serras, de facto, representam um typo de paisa-


(1) F. Katzer-Obra citada.






19

gem particular, cujo character geral, abstrahindo da vegetaqao
tropical, assemelha-se muito ao das montauhas medias da Eu-
ropa.
"Em geral nto possuem cumiada bem desenvolvida, mas,
sobre uLna infrastructure larga assentam diversas serranias,
separadas. entire si por depresses e gargantas.
"Emn complexos maiores, eobertos de matas seguidas, pos-
suem extensos terrenos que serve A agriculture.
"A serra de Baturit6 posse grandes cafesaes, algodoaes,
cannaviies: a serra de Maranguape e as serras de Pacatuba,
extensos sitios de laranjeiras e ananaz, cria-se tambem gado
em proporoao notavel.
"As serras altas do Ceara nao tern muitas aguas, mas a
agua sufficient e por isso estao sempro cobertas de vegeta&ao
verdejante.
"Seu clima muito salubre pode chamar-se quasi tempera-
do, pois, nas primeiras horns a temperature baixa por vezes a
15 e de dia raro sobe de 25.
"Quemn, sem passar pelo sertdo abrazado, fosse tranipobr-
tado immediatamente para uma serra do Ceara, difficilmente
acreditaria achar-se nos tropicos." (1)
Particularisando a serra da Ibiapabn, escreveu o P.e Anto-
tonio Vieira no seculo XVI que
"Os dias nos povoados das serras sao breves, porque as
primeiras boras do sol cobremn-se corn nevoas, que sAo conti-
nuas e muito espessas. As ultimas eseondem-se antecipadamen-
te nas sombras da serra, que para parte do occaso sao mais
visinhas e levantadas.
"As noites, corn ser tao dentro da zona torrida, sao fri-
gidissimas em todo o anno, e no inverno coin tanto rigor, que
igualao os grandes frios do norte, e se podem passar com a
togueira sempre ao lado." (2)


(1) Fried. Katzer--in Globus de Braunsehweih,
(2) P.e Antonio Vieira-Rela-do da missao da serra da
Ibiapaba-VIII.






20

Um outro observador, membro da Connmissio scientific,
euviada pelo governor geral ao CearA, em 1858. para estudal-a,
o Dr. Raja Gabaglia, ennuncia-se nestes terms:
-'0 clima das serras 6 mais temperado que o do sertao e
acontece que os terrenos d'aquellas frequentemente sao me-
nos permeaveis ou que, pela disposi9ao propria, alimentam na-
turalmente regos copiosos e prolongados; d'ahi prov6m que
em geral os terrenos das eleva(ces sao mais preferidos para
cultural, attendendo a habitual seccura das baixas. Porquanto
se deve ter present que nas serras, em geral, os reservatorios
d'agua sao perennes, alimentada por uma geada ou neblina
abundante, que precede de mezes as chuvas annuaes.
"Condioes tao vantajosas fazem que as serras se tornem
os principals celleiros da alimentagao, produzindo o pao do
povo e os legumes, emquanto que os sertoes sao aproveitados.
principalmeute na criaato dos gados, fornecendo as pastn-
gens necessarias ou tambem para alguma producqo agricola,
na qual deve-se apontar, como principal, todos os recursos for-
necidos pelos cocaes e earnahubaes.
-0 clima das serras 6 optimo: fresco, salubre e proprio
para alimentar uma cultural constant. As baixas on sertoes
cortados por muitas ribeiras, corn temperal ura media superior
de various graos A das serras, possuem, al6m do elima sadio,
tudo quanto 6 convenient para desenvolver em vasta escala a
criagao de rebanhos, boiadas e cavalhadas." (1)


OROGRAPHIA


Depois da descripqAo topoirraphica do solo ceaiense, no
seus traos mais caracteristicos e salientes, especialmente da
configuraqi.o orographica, feita pelo geology allemaio F. Katzer.
transcript nas paginas anteriores, particularisarei seu estudo


(1) Dr. G. Raja Gabaglia-Ensaio sobre alguns melhoramen-
tos tendentes a prosperidqde da provincia do Ceard--Rio de Jane'ro,
2! edicao 1877.






21

resumindo o que umornoservador consciencioso (1), nas suas
investigagses pessoaes, escreveo como contribuiqao a Carta
Geral do Brazil.
"CORDILHEIRA CIRCULAR DE IBIAPABA. Esta cordilheira
nao 6 muito elevada : segundo os calculos do naturalista Feij6
varia de 2000 a 2400 p6s sua altitude. Sua conufiguraqao. pelo
lado oriental (do CearA), affect uma curva que rodein a pro-
vincia de NO. a SS., corn terminaqoes rudes ou de declines ra-
pidos, faldas escarpadas e ladeiras difficeis, o que. junto a sua
elevaiao, caracterisa umna verdadeiva serra on cordillieira e
nao simples plat6, como aiguns pretendem, por causa de sua
teriniianao suave e pouco sensivel ao oceidente (para o Pinuhy)
corn que extrenia o CearA.
Nao 6 continue; na altura de 50, no lugar chamado Cratheis,
soffre uma interrupao brusca perpendicular, escarpada, pouco
larga, que dA passage ao rio Poty, affluent do Parnahyba.
Deste ponto, em dirccao a sudoeste, abate-se e estende
ramos corn diversas denorina6oes aos sert6es de Maria Perei-
ra, Inhamuns, etc., alem do qual torna a elevar-se, formando o
fertil valle do Cariry com o nome de Araripe.
Na altura de 6o0'30' bifurca-se, formando um angiilo
quasi recto; um ramo segue rumo de SSO. corn o nome de
Dous Irmaos. entree as provincias de Piauhy e Pernamubuco e
em algumas cartas, corn o de Burburema, vai ligar-se as cor-
dilbeiras centraes, que separam as aguas -de Goyaz. Bahia e
Maranhao, ate A altura das vertentes, que Balbi da o nome
de cordilheira occidental.
Outro, ramo corn o nome de Araripe, circumda parte do
Ceara, seguindo a direeqao de ONO. a ESE., extremando esta
provincia da de Pernambuco por unma extensao approximada
de 240 a 300 kilometros por um terreno alto, especie de pla-
t6 corn colos e declives, mais ou menos rapidos. que interroin-
pemr por vezes sua continuidade, desde os limits do Jardim,
onde se abate, atW o nivel do solo, no lugar chamado Baixio-
das-bestas, formando o divortium aquarium entire o riacho dos
Poreos affluente do Salgado a E. do Jaguaribe), e o riacho da
Brigida affluente do Sao Francisco).

(1) Senador Th. Pompeo-Memoria sobre o Ceard para carta
geral.






22

Alem desse baixio, a serra contin-ia mais on menos inter-
rompida e baixa corn diversos nomes: de CamarA, Pereiro, at6
o plat6 chamado serra do Apody, que corn a largara de 50 a
80 kilometros vae ao litoral, perto da foz do Mossor6, e ter-
mina, em forma pyramidal, umrn pouco ao norte da serra do
Pereiro.
CORD-iO CENTRAL.-A 25 kilometros a noroeste da
capital, junto da costa, comega o cordao central, de serrotas
mais on menos ligadas on separadas por values e depresses
corn diversas denominacoes-de Cauhype ou Japoara (380'u ),
CamarA, Tucunduba, Maranguape ao 0., onde attinge a alti-
tude de 900 metros, separado da Aratanha (780m ) a SO.,
Acarape, em direc(qo mais a 0., que se liga por contrafortos
a Baturit6 ( 852m1 ) mais a 0. formando por si s6 um nucleo
de 120 kilometros de exteusao sobre umna largura variavel de
25 a 50 kilometros, cuja extremidade septentrional- toma o
nome de Boticario.
De sun extremidade sudoeste, por valleys mais on menos
extensos, corre uma corda de serrotas pequenas corn diversas
denominao6es de Marianna, Santa Maria, Machado Altaa e
fresca) e dahi em rumo de 0., outras mais baixas e seccas,
corn pequenas interrupo6es, chamadas Picada, JatobA, at6 li-
gar-se ao grupo mais occidental das serranias baixas, quasi
na extremidade occidental da provincia, onde formam o ex-
tenso plat6 on alto sertao de Quixeramobim, ponto culminante
das aguas que descem ao sul para a bacia do Jaguaribe. no
norte para a do Acaracu e ao oeste para a da Parnahyba, pelo
Poty.
Neste grupo de serranias. queo fica quasi no centro da pro-
vincia, alem de outras serrotas pedregosas, acham-se as ser-
rotas Branca, Serrinha, Mattinhas, Telha, Bestas, Almas, San-
ta Rita, Barbalha. Catol6, Estevao, Preguica, separadas umnas
de outras por valles mais ou menos estreitos e quasi todas de
cultural. principalmente Santa Rita, mais occidental, bastante
fertil e cultivada.
Este grupo, que pode medir 120 kilometros de norte a sul,
corn 240 kilometros de leste a oeste, vai prender-se na extre.
midade occidental a Ibiapaba por dois ramos : um ao norte,
pouco salieiite e menos extenso at6 o Tamboril, e outro ao sul






23

chamado Serra da Joanninha : circumda o chamado sertao de
Crathenis, valle largo e extenso e quasi circular, pertencente A
provincia de Piauhy (t), encravado nos limits naturaes do
CearA, por onde corre o Poty, cortando -a serra da Ibiapaba e
vai ao Parnahyba.
Ao sudoeste deste grupo occidental, da ponta de Santa
Rita cont'nia o cordao de serrotas baixas corn os nomes de
Mombaga, Mattas, BWa-Vistf e outras, que fechamn a sueste o
alto sertao, chamado dos Inhamuns. coin os n rmes de serra do
Mucuim, Penha. Flamengo, etc., at6 ligarem-se a sadoeste As
dos Basti6os e Araripe.
As aguas que correm desse system central divide a pro-
vincia em du.is bacias desiguaes : uma a sueste, qae compre-
hende dons tergos da provincia e forma a bania ou grande
estuario do Jaguaribe, e outra ao noroeste, Formando a do
Acaracit.
CORDAO SEPTENTRIONAL.-A 130 kilometros no 0.
da capital e a 20 kilometros do costa corre a serra de Urubu-
retama, corn 100 kilometros, mais on menos, de extensio, sobre
uma largura desigual de 25 a 70 kilometros. Esta serra, alta
e frescn, liga-se ao cordao central por uma series de serrotas
esparsas, baixas e pedregosas, que se succedem ama a outras
at6 A serra do Machado.
Nesta mesma direcyao, de NO., a 360 kilometros da capital
e a 100 do oceano, e a 36 ao NO. da cidade de Sobral corre a
serra de Meruoca [ 830'm ] corn 40 a 50 kilometros de extensao
e ao SE. desta a serra do Rosario, de menor extensilo, que se
prende, por uma continuacao de serrotas, as faldas occidentaes
da Ibiapaba.
CORDAO DO SUESTE.-Da barra do Jagi-aribe corre
umra series de serrotas ao NO. interrompidas, das quaes se ele-
va a 50 kil. a SE. do Baturit6 a serra Azul, notavel por altitude
e ferro mineral que nella abunda; d'ahi em runm) SO. atW
perto do 1c6, margeando o rio Jaguaribe, ao qual corta no
lugar chamado Or6es, segue o cordio de varias serrotas corn
os nomes de Or6es, Flamengo, etc. a 24 kil. do Ic6.
SERRA DO CAR1RY.-A SE. do alto sertao dos Inha-


(1) Hoje Ceara.








muns e aeompanhando a falda oriental da serra de Araripe
flea o extenso e fertil valle do Cariry, separada do resto do ser-
tao por serras mais ou menos.baixas pelo lado oriental, e do
lado oriental e meridibonal pela cordilheira do Araripe, que o
separa das provincias do Piauhy e Pernambuco.
Notam-se ahi para o lado do CearA as serras Quinqunc.
S. Pedro, S. Maria, etc.
Particularisando a physionomia cultural de algumas des-
sas serras, e que apresentam actualmente algum interesse eco-
nomico, come(arei pala mais extensa e de maior porte :
A da IBIAPABA offerece a vista, a quem a contempla de
alguns kilometros, uma cinta perfeitamente horisontal, como
se f6ra tireada a cordel e nivelada.
Quando vista de perto semelha a dous immensos paredoes,
superpostos, talhados quasi a pique, de subidas ingremes, al-
cantiladis.
Sua chapada 6 fresca, coberta parcialmente de matta, re-
gada por correntes, entremeiada de pantanos ou alagadigos
para parte sul, entree S. Pedro e Campo Grande, onde se abrem
valleys ferteis, como a Sussuana. Para o lado nordeste, da ci-
dade de ViQosa, o solo deprime-se, estreita-se, formando, como
diz o Senador Pompeu (1) "antes uma succession de serrotes

(1) Th. Pompeo-Ensaio Estatistico da provincia do Ceard--
Vol. 1, pag. 17.
0 Dr. A. Arruda, redactor chefe d'A Bepublica. da Forta-
leza, conhecedor desta regiao por ter sido juiz de direito e fa-
zendeiro em Vicosa, escreveo a men pedido o que se segue :
"A cordilheira da Ibiapaba estende-se do Norte a Sul, em
linha quasi recta, interrompida por vezes na parte oriental por
pequenas curvas que ganham esta uniformidade.
Dir-se-ia uma gigantesca muralha, apresentando na sna
formacao inferior, do lado oriental, pronunciada declividade,
que Ihe faeilita o access at6 a altura de 500 metros. Aqui
nota-se uma assentada, a que vulgarmente dao o nome de -
Cinta-, da largura de 15 metros mais ou menos, baixa de ter-
ra fertilissima, onde corn muito proveito, se faz o plantio de
canna e caf6.
A enorme muralha ergue-se entao quasi a prumo, attin-
gindo a altura maxima de 950 metros no municipio de Ibiapi-
na. Nao fossem alguns espigoes no bloco colossal de pedras
que se superpoem e da cinta em diante a ascensao seria im-






25

ou cabeqos pouco ferteis, ou seccos, como quebradas de serra",
indo terminal entire os rios Timionha e Camoropim.
A regiao serrana pertenceute ao CearA, em virtude do
disposto na Lei de 22 de Outubro de 1882. que apeuns confir-
mon o uti possidetes, comprehend a part escarpada, alta e
fertil. Descendo para a bacia do Parnahyba desapparece a
feigao typical da Ibiapaba, o solo inclina-se insensivelmente,
em vasto lenuol collector das iagnas tributaries do rio piau-
hyense, confunde-se quer pela vegetacao, quer pelo aspect
geral corn os sert6es altos.
De S. Gonqalo ate a serra do Araripe a chapada estreita-se,
ora varzeando e coin alguns piquiseiros, ora coberta de matto
baixo, carrasquento, e geralmente destituida d'agua. E' total-
mente inculta e desert, mas abundante de eagas.
"No Araripe. at6 a sua terminagao alen. do Jardim, a cha-


praticavel. Por essas arestas que constituem os meios de com-
municaqAo, trabalhadas pelas constantes erosoes das aguas e
pela acAo perseverante do home, galga-se o eimo da mon-
tanha, que se apresenta no observador em uma planura. que
na largura de 5 legoas apenas tern accidents de alguns valles
on antes baixios por onde correm para o Piauhy os rios Inussi
e Pejuaba, e outros pequenos ribeiros.
Em toda a extensio desta planicie. que se deprime profun-
damente no lugar Quatiguba, miunicipio de Vigosa. a naturezi,
exuberante e prodigy, manifesta-se em today a sua plenitude
por urma temperature que vanilla entire 18 a 23 grAos centi-
grados.
Onde o trabalho nao penetrou corn o seu brago destruidor,
veem-se grandes mattas virgens, das quaes se destacam bel-
lissimos bosques de palmeiras.
A parte mais feecundi e que se presta a cultural de todos
os cereaes, de fumo e do caf6, 6 a que se dilata do tope da ser-
ra no ponto denominado-Carrasco-onde a vegetaqao estmo-
rece pela nature. arenosa do solo. Comega, entao, a desappa-
recer a planura, e a surgir a successao de serrotes, montes e
morros, que vao minguando de altura at6 as margens do Par-
nahyba.
A cordilheira da Ibiapaba terminal assim nessa series irre-
gular de valleys e montes, verdadeiros socalcos, que servem de
descida para as vastas campinas do Pianhy."








pada alarga-se, (1) o terreno 6 arenoso, quasi horisontal. for-
mando apenas no meio uma pequena depressao, mas geral-
mente falta d'agua, abundante de piquiseiras e de muitas ar-
vores fructiferas silvestres e de plants forrageiras. As aguas
apparecem ou rebentam nas fnldas em meia serra: entd.o sao
abundantes as fontes, que dao origem a diversas correntes,
que tornam os terrenos de Cariry muito ferteis e feracissi-
mos de today a cultural. Na Serra Grande (de Vicosa a S. Gon.
qalo) as aguas v8m da cumiada, donde descem em 'corregos
aos valles adjacentes: no Araripe as agu;is nascem de meia
serra, nao havendo na chapada uma s6 fonte. (2)
0 Dr. Freire Allemao Sobrinho (3) observa que no Coara
a vegetaao faz um salto da regiao literal para a das chapa-
das arenosas de Araripe, Ibiapaba, cujas ointas ou encontros,
de onde nascem arroios perennes, se acham revistadas de
plants florestaes da regiao dos dryades, as quaes se ligam as
dos sitios botanicos elevados de 600 a 700 metros sobre o nivel


(1) A montanha do Araripe forma. em sen cimo, urma pla-
nura lisa :; nao ha nella indicio algum de area, nemn de ro-
chas, que so apparecem nos escarpamentos, os quaes sendo
inteiramente cobertos de altas florestas deixam de apreseutar
o aspecto de fortaleza. A maior largura conhecida da chapada
6 a que se acha em face do Crato e do Exi, a qual conta
15000 braqas (33 kilom.). medidas pelo Tenente Coronel Jos6
Victoriano Maciel: seu comprimento 6 calculado em mais de
60 leguas a contar dos pontaes do Jardim a ponta da serra
das Pombas, no Piauhy. A. montanha do Araripe nao terminal
nestes dous pontos. Do lado do Oeste ella continue a enca-
deiar-se coin o system que corre parallel ao S. Francisco,
fazendo baixada nimiamente accidentada. no caminho que pas-
sa pelas fazendas da Serra, Salgado. Terra Nova e Olho d'Agua.
deixando ao norte o pontal do Araripe, donde verte o rio Itay,
affluent de Canind6, que vem da Serra dos Dous Irm&os.
A Oesnordeste di-se na Varzea da Vacca o encadeiamento comn
a Ibiapaba, e a lests. no baixio das Bestas, a 10 leguas do
Jardim, o entroncamento corn a Borburema, que se liga as
cadeias que costeam o Atlantico pelo sul do Brasil.
M. A. Macedo--Obseryvaqes sobre as seccas do Ceard, pag. E4
(2) Senador Th. Pompeu-Ob. cit., pag. 18.
(3) Relatorio apresentado ao Institato hist. e geogr. do Rio de
Janeiro.






27

do mar nas serras graniticas de Baturit6, Meruoca, Urubure-
tama, Azul, Mattas, Macbado, etc. (1]
A SERRA DO PEREIRO apresenta do lado occide ntal, em
face a Jaguaribe-merim, escarpa rochosa, granitica, coin-
posta de dous soloacos, distanciados de poucos kilometros um
do outro. A primeira barreira a partir do valle do Jaguaribe
ergue-se a algumas dezenns de metros, attingindo, talvez, ins
120 a 150 metros no ponto culminante, baixa em seguida for-
mando pequeno e estreito valle ate o grande solcaco, que
constitute o corpo da serra para a qual-se sobe por caminho
ingreme aberto na rocha.
A serra dilata-se em largura por 15 a 50 kilometros de
nordeste a sueste corn a elevaiao de 500 a 700 metros. Seu
solo geralmente argiloso presta-se a todas cultures tropicaes,
mas nao 6 abundantemente regado por mananciaes. Aqui e
alli surge olhos d'agua, que coustituem a riqueza de sens
possuidores. Nas anfractuosidades do terreno construiram-se

[1] 0 Dr. Marcos de Macedo, espirito observador, illustra-
do e que viveu longos annos no Cariry, descreve nestes terms
o Araripe :
"A superficie do Araripe forma umna chapada perfeitamente
nivelada, desde a ponta do Jardim at6 a serra das Pombas,
na comarca de Jaic6s, comprehendendo uma extensdo de mais
de 350 kilom. sobre uma largura vartavei entire 15 e 30 kilom.
A terra, de uma uberdade prodigiosa, 6 tao esponjosa e per-
meavel que os fortes aguaceiros, como sabem despejar as nu-
vens intertropicaes, se infiltram apenas, se acham corn ella
em contact. Este phenomenon 6 tao caracteristico, e effectuado
tAo preeipitadamente que um viajante, por exemplo, que. no
meio de umna batega, se quizesse desalterar nao poderia reter
agua sobre o filtro da terra senao antcparando-a. Isto acon-
tece a'6, as bordas da monlanha, onde comegam a apparecer
as rochas e as palmeiras, o que se nao eneontra em parte al-
guma da chapada do Araripe. a qual 6 toda coberta de diffe-
rentes essencias florestaes, intermeadas de risonhas campinas,
onde abunda deliciosos fructos, que constituem a abundancia
natural do paiz. Anscultando-se attentamente na chapada de
Araripe, na altura da cidade do Crato, ouve-se am surdo
ruido cavernoso, produzido pela corrente das aguas. que for-
mam as nascentes-M. A. de Macedo.-Observanqes sobre as sec-
tas do Ceard e meios de augmentar o volume das aguas nas corren-
ces do Cariry. Stuttgart 1871, pag. 54.






28

aq.udes, algun- dos quaes prestain relevantes servings a po-
pulaaot serrana, como o da villa do Pereiro, situado num dos
planatos mais amenos da serra. Para sudoeste. em demand do
Ic6 on do rio Salgado o solo vai baixando suavemente, ladea-
do pelos altos de S. Miguel a oeste e por co.ntrafortes baixos
da serra geral a Oeste, formando como que um grandiose pla-
no inclinado de 15 a 20 kilometros. (1]
A do APODY, que 6 o prolongamento da serra circular,
apenas intervalado pelo rio do Figueredo, forma um planalto
elevado, especie de serlao agreste, de 50 a 70 kilometros de
largura por 120 a 130 de extensAo, coberta do mnattagal carras-
quento. de cactaceas, desert, ponuco abastecido de fontes.
quasi secco e do difficil traversia.
No corddo central a 25 kilometros da Fortaleza, para
Oeste, erguem-se as serras do Cauhipe, [2] Camcard, cobertas de
mattas; em geral seccas, tendo apeniis raros olhos dagua. Es-



(1) A serra do Pereiro toma no seu prolongamento, de sul
a norte, os nomes de Pintos e Sebastiso. desde o povoado de
Santa Cruz, district do Ic6, at6 perto da barra do Figneiredo
coin a extensao superior a 38 leguas [220 kilometros].
Na parte sul 6 que se tern desenvolvido mais a agriculture,
devido nao s6 a densidade da populagao e praticabilidade de
eaminhos como a natureza do terreno.
A serra 6 secca e o solo muito desigual.
......... At6 1860 a serra era muito fresca, os invernos
abundantes e regulars, devido as mattas entio existentes :
hoje apenas encontram-se algumas no sitio Balsamo, serra;
Branca, e Alagoa.
A madeira que mais abunda 6 pau darco. angico, cedro.
timbailba, sabia, aroeira e pereiro.
Dr. Antonio Augusto de Vasconcellos-Municipio de Pereiro
-apud a Revista do Instituto do Ceara de 1888, pag. 238.
0 Dr. A. Augusto parece ter sido mal informado em rela-
qAo as condiqoes de humidade da serra, antes de 1860, pois que
nesta epoca o Senador Pompeu, descrevia a dos Cosme
e Damifio ou Pereiro como sendo em parte fresca e cultivada
de cannas e legumes-Ensaio Astat. do Ceard, pag. 141.

[2] Ponto culminate 380 metros.






29

treito collo separam-nas da de Maranguape, a SO. da Forta-
leza. Composta de terreno argiloso, regda per muitos corren-
tes, coberta de dense mattagal, tern sido explorada desde
longa data corn a cultural do caf6, canna de assucar, arvores
fructiferas, cereaes, plants forrageirns, etc. Devido a estas ]a-
vras, grande parte do sen solo anha-se desnudado, come que
esterilisado para o cultivo do caf6. 0 volume d'agua dos sens
correntes tern minguado depois da secca de 1877 : e em con-
sequencia talvez da ponca humidade, desenvolveo-se o piolho
branco no laranjal, reduzindo-o a menos de um quarto do que
era dantes.
A serra ergue-se r-pidameute at6 920 metros, con: ligei-
ras depressees a 500 metros, per oude se opera o trajecto de
umia pata outra encosta. Na oriental, voltada para cidade de
Mairangunpe estdo os malhores estabelecimentos agricolas, por
ser a mais abundinte de correntes. A descida para o occi-
dento 6 menos abrupta, e na sua parte inferior semelha ao
alto sertlo.
A serra da Aratunha. separada da de Maraugunpe por
um valle fertil, em grande parte cultivado, de 12 h; 18 kiloni.
no qual viceja a maniioba, tern a forma triangular e a exten-
sao de 18 kilom. de Leste a 0., e de 23 de norte a sul. E' como
a de Maraunguape, argilosa. e relativamente mais plan, po-
r6nm inenos ":bhisteeida dagua, se bemn que fertile e porventura
mais cultivada. (1) Seu ponto culminante attinge 780 metros.


(I) Fronteira a Marangunpe, separaida por um estreito
valle, flea a serra da Aratinha. da mesma formeyto araniticni,
constituindo unra cordilheira que as vezes mergulha no ser-
tiao, para em pequena distancia surgir de noeo n'aquelle com-
plexo que abrange as serras de Acarape e Batu-it6, que dei-
tam as aguas para o Pacoty: Chor6, Curu. Estu serra 6 nota-
vel pela direeqio constant de muitos dos seus values, que
dAo said as aguas do rio Acarape, o qual pelas caseatas de
Paracupiba, precipita-se na planicie, e post que miis extenso
que seus visinlios Aracoyaba e Cari6ca. leva menos agua do
que este per causa da direeqao de suas margens."-Th. Pompei.
-Enstio Estatistico do Ceard, pag. 4'-.
NAo s6 nas suns clipadas ide MAeranguape, Aratanha,
Acarape e Baturit6) e faldas. nlias muito frescas, se plantain
canna e cafe. como princip dmente nos terrenos adjucentes, hu-






30

A serra do Acarape 6 o prolongamento da de Pacatuba,
da qual se distancia por um valle de 20 kilometros. Apresenta
a mesma physionomia que as duas anteriores, estando, po-
r6m. mais 'roberta de mattas. [1]
A de Baturited alongn-se por 100 a 120 kilom. do extensao
e por 20 a 40 kilom. de largura. Sua chapada, que.excede de
cem legoas quadradas, segundo affirma o Senador Th. Pom-
peu. [2] presta-se a todas as cultures intertropicaes, e pela
amenidade do clima ao de algunas plants do sul da Europa.
E' bastante povoada, bem culturada, mas pouco provide de
mattas, devido a extensa lavra de caf6 e de canna, que por
mais de 50 annos domina as demais cultures. Em consequen-
cia da baixa no preqo do caf6, irregalaridade das estaSes,
nos ultimos 10 aunos, e do cansa;o das terras, vao os seus
lavradores adoptando ontras cultures, prevalecendo a da ma-
nigoba.
No lugar Macapi, proximo a villa de Guaramiranga, ella
attinge a altura do 810 metros [3].
A serra do Machado continfa. a cadeia divisoria entire as
bacias do Quixeramobim, sub-affluente do Jaguaribe, do Curd
e Aracaty-as.4 Cortada por valles mais ou monos extensos e
profundos, prende a parte. meridional da serra de Baturit6
corn a denomina'ao de Serra da Miarianna de solo secco, mas
coberto de mattas, inflexionando-se para oeste e nordeste, at-

medecidos pelas correntes, que dellas descem e correm por al-
guma extensao. Estes terrenos chamam-se vulgarmente Ypis
e sao um barro preto, massap6, que tern muito humus vegetal
ou decomposiqAo vegetal e animal que as aguas acarretam
das serras e por isso muito substancioso. E' nestes ypfs ou
valles que se fazem as maiores plantagoes de canna.
Ibid--pag. 140.
(1) Da serra do.Cauhype a do Acarape medem, segundo
o Dr. Jose Pompeo 105 kilom. sobre 700 kilom. quad.
(2) Ensaio Estatistico da provincia do Ceard-Vol. I, pag. 201.
(3) Os pontos mais elevados da serra de Baturit6 sao
Monte-flor 852 metros. Guaramiranga 828 metros, Boa-Vista
820 metros, B6a-agua 815, MacapA 805, Pernambuquinho 795,
Bom Suecesso 785, Brejo da Cruz 772, Pendencia 714, PAo
d'Alho 709.






31

tingindo ahi a sua maior altura, depois de haver formado o
planalto, onde assenta o povoado de S. Gonkalo. A serra 6
fresea, abastecida de olhos dagua, mal cultivada. [1] Seguem
outras serrotas de menor importancia. seccas ou quasi sefceas,
que continuam a linha divisoria at6 a serra circular da Ibia-
paba.
A SERRA DA URUBURETAMA 6 o prolongamento norte da
do Machado por umna series de serrotas baixas, pedregosas e
estereis. Extende.se por 90 kilometros de L. a 0. por 20 a 60
de largura, com o relevo ttormentado, desigual; ora ergue-se
em planaltos elevados, ora deprime-se em valles cavados. Me-
nos frescos que a de Baturit6, presta-se as mesmas cultures. [2]


(1) 0 grupo de serrotes deuominados-Mariana, Santa
Maria, Machado, Picada, .Tatobd, Branca, Serrinha, Telha, Matti-
nhas, Bestas, Almas, Santa Rita, Barbalha. Catole, Estevcto. Pre-
guiqa pode o<'cupar, segundo o Dr. Jos6 Pompeu, na sua-Cho-
rographia do Ceard pag. 89-uma Area de 120 kilom. de norte a
sul, sobre 240 de leste a oeste.
(2) 0 senador Pompeu classifica na sua obra-Ensaio Es-
tatistico-em tres species as terras altas do CearA : serrotes seccos.
incapazes de cultural, serras baixas, cultivaveis; e serras frescas,
capazes de toda a cultural.
Dos serrotes seccos. alguns sao cobertos de arvores, princi-
palmente de um matto especial, que s6 nasco entire pedras, cha..
mado pdo de moc6, que nunca despe a folhagem verde, passando
por venenoso. Nao ha plantaqao alguma e sao de ordinario a
morada dos moreegos, cobras e oncas.
As serras cultivaveis contem terra ou barro arenoso, em-
bora nio possuam aguas correntes, conservam bastante frescu-
ra para se poder plantar nellas, na estaqAo invernosa, milho,
feijio, mandioca e algodRo. As principals sao 1 Ibiapaba, de
S. Gonqalo ao Araripe, 2 Cauhipe, 3 Jua. 4 CamarA, 5 Torre,
6 Manoel Dias, 7 Lagedo, 8 Gado, 9 Pnilmeira, 10 Mariana, 11
Machado, 12 Jatubd, 13 Picada. 14 Mattas, 15 Branca, 16 Te-
lha, 17 Cabagi. 18 Barbalha, 19 Catold, 20 Joanninha, 21
B6a-vista, 22 Rosario, 23 Bastioes, 24 Freicheiras, 25 Trapia,
26 Brigada, 27 Quencoqud, 28 Peniha, 29 Estrella, 30 S. Ma-
ria, 31 S. Pedro, 32 CarAs, 33 Vargea Graude, 34 Cosmes,
35 Mucuim. 36 Mombaqa, 37 Flamengo.
Serras frescas.-Maranguape, Aratanha, Acarape, Baturit6,
Uruburetama, Santa Ritta, Ibiapaba,








HYDROGRAPHIA

0 conselheiro Beaurepaire Rohan (1) diz que durante a
seeca de 1827, em vingem da Bahia para o Piauhy, teve oc-
casiao de notar que a palavra rio nerm sempre exprime nesses
paragens a id6a de um eurso d'agua permanent. Entendem
tambem por ella as grandes torrentes que se formal na es-
t;i(;o pluvial. "Verdade 6, accrescenta elle, que essas torrentes
tomato enaho dimensOes consiideraveis, qne as tornam bern
senmelhantes nos mais candalosos lios: rins, -logo que cessam
as cliuvas que s alimeutavam accidentalhneute, sem que neuhuin
obstaculo se opponha a sua corrente, a pouco e pouco vAo di-
minuindo as aguas, at6 desapparecerem completamente, A ex-
ctp(,ao ue certos logares mais depressos do leito, nos quaes,
por effeito dn impermeabilidade do terreno, se conservam al-
guns mezes e se tornam o unico recurso da populagao ambi-
ente."
Este phenomenon nio 6 peculiar ao Ceari e a regiao me-
dianeira entire o rio S. Francisco e o Parnahyba; em Goyaz
assignal.:-o Cunha Mattos (2) na parte nordeste do Estado.
Em regiao mais favorecida pelo clima e condieges topographi-
cas, ao sul do curso medio e baixo do S. Francisco, na Ba-
hia, a do rio Vasa-Barris apresenta o mesmo facies hydrogra-
phico. "'Este e um rio sem aflueuntes, diz o Sr. Euclydes da
Cunha (3). Falta-lhe conformidade com o de(live da terra.
Os seus pequenos tributarios, volvendo aguas transitorias, den-
tro dos leitos iudemiente eseavados, nio traduzem as depres-
soes do solo.-Sao, antes, canes de exgotamento, abertos a
esmo pelas euxurradas-correutes velozes que, adstrietas aos
relevos topographicos mais proximos, estao, nAo raro, em
desharmonia corn as disposigoes orographicas geraes......
"As mais das vezes [o Vasa-Barris] cortado, fraccionado em


(1) ConsideraqMes acerca dos melhoranmentos de que enm relaq1o
as seccas sito susceptiveis alguimas provincias do norte do Brasil-
Rio de Janeiro, 2" edigao, pag. S.
(2) Coronel Cunha Mattos -Itinerario-tomo 2", pag. 2.
(3) Euclydes da Cunha-Os Sertoes-2" edicqao, pag. 32.






33

ganglios estagnados, ou secco, A maneira de larga estrada
poenta e tortuosa, quando cresce, empazinado, mns cheias,
captando as aguas barrentas e revoltas, extinguindo-se logo,
em exgotamento complete, vasando, como o indica o dizer
portuguez, substituindo-lhe corn vantage a denominatio in-
digena. E' unia onda, tombando das vertentes da Itiuba, mul-
liplicando a energia da corrente no apertado dos desfiladeiros,
e correndo veloz, entire barrancos, on entalada em serras."
Salvo a desconformidade entre as condiO6es orographicas
geraes e o despenho das aguas canalisadas, os rios cearenses
sao essa larga estrada poenta e tortuosa, fraccionada em gan-
glios estagnados, descriptas pelo illustrado autor dos Sert~es.
No Ceara a drenagem das aguas pluviaes opera-se quasi sem
tropegos, nem accidents topographicos, devido a inclinagao
rapidrcs do solo, sem grada5oes ou socalcos montauhosos que
lhe impecam o escoamento para o grande collector maritime.
Chapadoes do formaqAo cretacea que funecionem como
filtroq e reservatorios p.ra essas aguas e capteemn as conden-
saqses diarias que ahi se former pelas differenqcs de tempe-
ratura diaria e nocturna, derivadas da sna altitude e de basto
mattagal. sempre virente, fallecem quasi por complete na re-
giao cearense.
A chapada do Araripe, que deveria ser o grande arma-
zen. subterraneo a alimentar as nascengas de rio perenue,
parece inclinar o melhor de seu leito impermeavel para bacia
do S. Francisco. A descida, a ceo aberto, pelos riaehos da Bri-
gida e Yerra Nova para vertente meridional semellia a rampa
suave, intercalada de nodosidades serroticas, que Ihe nao per-
turbam o perfil geral. As precipitaqoes meteoricas deslisam
sem embaragos por esses largos pannos, reunindo-se nos sul-
cos flexuosos abertos a menor resisteunia do solo pelas bate-
gas volumosas e possantes das chuvas torrenciaes. Para ver-
tente norte do CearA, a corrosa.o desses agents, desde uma
edade geologica, ainda inderminada, mas que o barro de Ca-
panema opina ser a jurassica (1), Gardner, Agfssiz e Orville a
cretacea, talhou a serra em paredes verticaes on ligeiramente
desaprumadas atM meia encosta para o valle do Cariry. Esta


(1) Capanema-Apontamentos geologicos.






34

obra cyclopica que denuncia a possanqa das forqas hydricas
na elaboracqo do grande suleo aberto entire o Araripe e a serra
de S. Pedro, explica atW certo ponto a impetuosidade e volu-
me da corrente do outr'ora rio Salgado, demolindo cerca de
cem kilometros (avaliaqao do barao de Capanema) da massa
serrotica, e abrindo no boqueirao de Lavras, (1) a funda bre-
elia por onde desceu ao valle do Jaguaribe. Destruidos os an-
teparos de sua formagao tumultuaria, a corrente deslisou em
leito inclinado, liso, quasi sem talveg, aflorando os contrafor-
tes extremos da serra do Pereiro e serrote do Apody pelo
lado direito, e nos dos Or6s e Francos pelo esquerdo.-Nascente
pobre, mal alimentada., leito desimpedido em alcantil-eis a
explicagao do regime hydrographico do Jaguaribe, aliAs o mais
bern apparelhado na topographia cearense para desempenhar
o papel de rio perenne.
A serra da Ibiapaba, que seria um segundo factor a ger-
minagqo de uma ou mais fontes caudalosas, apresenta,.. como
ficou dito, o aspecto de dous socalcos, talhados em pared6es,
para vertente oriental, desenrolando-se em chapadas, alterna-
das de cabegos ou serrotas baixas para o valle do Parnahyba.
em gradai;es doces a se confundiremn com os altos taboleiros
do sertao piauhyense. A esta bacia aproveitam as suas con-
deusa(goes e precipitagoes agnosas, poueo ficaudo das mesmas
para o custeio dos plainos serranos, por oude se dilatam as
cultures. A caracteristica geral, uniform, desoladora, dos gran-
des drenos pluviaes do CearA 6 a do sulcos mais ou menos
largos e extensos, cheios na estagio invernosa, seccos na es-
tival.
As bacias desses cursos d'agua, devido a configuracao
orologica do solo, estao delimitadas corn alguma precisfio, e
formal as de sueste, oriental, norte e noroeste.
BACIAS DO SUESTE-JAGUARIBE-Na eonjuneqo dos
contrafortes da serra de Mombaga, denominada serra da Gua-
riba. de S. Joaquim e Joanninha, nasee o Carrapateira (2), cejo


(1) J. J. Revy-Aqude de Lavras.
(2) Veja-se Senador Th. Pompeu-Ensaio Estatistico da
Provincia do Ceard- Vol. I. pag. 27.






35

curso sinuoso e torturado. em meio do serrotas, recebe diffe-
rentes riachos, dos quaes o Tricy, a direita, e o Favella a es-
querda, sao os mais extensos. Desta confluencia, logo abaixo
do TauA, toma o nome de Jaguaribe, dirigindo-se a sudeste
at6 Arneir6z, onde, por um talhado a pique na rocha, transp5e
a serrota Mucuin ou de Arneir6z. inflexionando-se para leste.
entire altos que Ihe estreitam a bacia, atW proximo a. S. Ma-
theus. D'ahi ar6 a serra dos Or6s, por 70 kilometros, desata-se-
Ihe a margem septentrional em planuras pantanosas. no cen-
tro da qual so acha a cidade de Iguatfi. Transposto os Or6s,
por garganta rochosa. recebe logo abaixo o rio Salgado, .que
ihe imprime a direcco de sul a nordeste, seguindo por um
leito, estreitado no boqueirao do Cunha, proximo a Jaguari-
be-merim. Recebe a esquerda o Riacho do Sangue e a direita o
Figmeiredo, bifurcando-se em seguida e formando corn a sua
sinuosidade algumas ilhas, em uma das quaes fica a cidade do
Linioeiro e noutra a villa da Uniao. Quasi em face d'aquella
cidade recebe a esquerda o seu grande affluent Banabuihd, e
alguns kilometros abaixo o Palhano. Ap6s o boqueirao do Cu-
nha a margem esquerda baixa, torna-se alagadiea, formando
os bellos e ricos terrenos alluviaes do Limoeito e Ru.sas.
Os seus affluentes pela margem direita sao : o Pizi 22 kilom.
abaixo do TauhA; o Jucd 5 kilom. abaixo- de Arneirz ; o
Conceiado, que nasce do angulo. formado pela Ibiapaba corn o
Araripe e despeja pouco abaixo do Saboeiro : o Bastides, en-
grossado pelo CarihA, atravessa terrenos ferteis, despeja 3
kilom. abaixo de S. Matheus; o Salgado, formado de duas
correntes que descem da serra do Araripe-o Ytaitgra, que bro-
ta da quebrada por norme Loanda e corre por 15 kilom. rece-
bendo o Grangeiro, que banha a cidade do Crato e em seguida
o Miranda e o Ponta ja. reunidos; dahi continue cortando uma
planicie de 16 kilom. por I a 2 kilom. de largura, passa pela
villa do Joaseiro. recebe o riacho Card, juntando-se depois ao
Salamanca, que passa por Barbalha. A 3 kilometros de Missao
Velha, no sitio Cachoeira, onde as aguas fazem notavel corre-
deira, na esta~.io invernosa, toma o nome de Salgado, receben-
do a 16 kilom, abaixo o riacho dos Porcos, que nasce em uma
quebrada da serra do Araripe, proximo a cidade do Jardim.
0 Salgado banha a villa da Aurora, nas proximidades da
qual passa sobre um extenso leito granitico, perfurado de po-






36

cos, desce suavemente at6 Lavras, onde 6 kilom. abaixo talha
a serra, rasgando o bello boqueirao do seu nome, e por altos
embolados, tombadores, como sAo chamados, prosegue at6 a ci-
dade do Ic6, indo 18 kilometros abaixo reunir-se ao Jiaguaribe,
depois de um curso superior a 300 kilometros.
Antigarnente, diz Pompeu (1), o Salgado era perenne, e
raras vezes cortava at6 Venda; hoje mal core. na esteS',o
secea, at6 Missao Velha, por serem as suas aguas dis-
trahidis com a irrigapao dos ter:enos adjacentes, quo se
prestam grandemente a cultural da canna, e mesmo porque
tern diminuido pela derribada das mattas nas faldas e chapa-
da do Araripe.
0 rio Figueredo 6 o ultimo das grmndes affluentes, a di-
reita, do Jagiaribe: nasce na falda elevada, oriental, da serra
do Pereiro, recebe as correntes da" mesma, eutre as quaes o
que passa ao sul da villa do Pereiro, dirije-se para norte,


(1) Th. Pompeu-Ensaio Estatistico da Provincia do Ceorrd-
Vol. 1, pag. 30.
Segundo a tradi ao, escreven o Dr. Marcos de Macedo-
Obra citada. pag. 87, o Jaguaribe. nos annos regnlures, nho
secava tolalmente, como acontece em nossos dias. e quando
cortava, como dizem no paiz, tAo numnerosos eram os pouos
que quasi so nao apereebia a f:lta da corrente...... Este es-
t;ido de perennidado era alimentado pelo rio Salgado, visto
que o Juguaribe em suas cabeceiras sempre second pelo verAo.
como acontece presentemente. Em 1816 as aguas do rio Salira-
do ninda corriam, todo o anno, at6 a cid;ide do Ic6."
"0 rio Jaguaribe corria em outro tempo, ainda quo pobre,
at6 a villa do Aracaty ; depois da secea dos tres annos ;at
1792, chamada vulgarmente a secea grande, entrou a chegar
at6 40 legnuis no verao, hoje nao passa de 15, e vati dimniunin-
do em propornibo que suns aguas temr sido divertidas no Crato
por augmento de cultural.
Antonio Jos6 da Silva Paulet-Descrip)rio geographic abre-
viada da capitania do CearA.
Esta memorial subscripta por Paulet, serm data, presumivel
de 1811, 6 pelo Sr. Bario de Studart, attribuida no ouvidor Ro-
drigues de Carvalho e devia ter sido escripta em 1816-Veja
Revista do Instituto do Ceard do 1? trimestre de 1898, pag. 32.






37

banha Iracema (Caixac6) serpeando por entire o planalto do
Apody e serra do Pereiro. [1]
Os affluentes da margem esquerda sao :
0 Juwe, que vein das serras de Muciim e Flamengo o
se lanua abaixo de Arneir6z :
O Trissy e Cuniqud, quo fluem da serra do Flamengo o s3
juntam proximo a sua foz, um pouco abaixo de Iguatfi
0 Faiel de pequeno curso;
0 Riacho do Sangue ;
0 BanabuyhU, cuja Area, extensao e volume iguala a do
Salgado; nasce ao sul da serra de Santa Ritn, corre de oeste a,
loste, atrav6z do sertao de Mombaqa. banha Maria Pereira e
Sonador Pompeu, recebendo a 60 kilom. da cidade de Qnixe-
ramobim o rio deste nome, e a uns 65, logo ahaixo, o Satid, ba-
nhando em seguida Morada Nova. Depois de ter receebido o
Quixeramobim, ntravessa os serrotes do Sellado pot umn bo-
queirao apertado.
Sen afflucnte-Quixeramobimn-coin -ma bacia inais larga,
e horisontalada, n'sce no grupo central, divisorio das aguas do
Piauhy, corre por entire as serras das Bestas. Serrania, Catol,
Telha, penetra no sertao, ladeando a serra do Calogy, banha
Boa-Viagem, recebe pel:t margem esquerda o Bda Viagem e, a
4 kilom. a oeste da cidade de Quixeramobim, corta a serra do
Boqueirao, formando unia garganta estreita.

[1] 0 Figneredo, affluente do Jagnaribe, forma-se das
aguas que descein do sul e da falda oriental da serra [do Pereiro].
Sua pequena bacia comprehend os riachos S. Jodo, Enge-
nho, Alagda, Boarentura, -Jodo Ribeiro, Contendas, Motta, Baixa-
verde e Baido. que despejam no Thomnd Vieira a 1 legua do Saeco
da Orelha.
0 Thomd Vieira, depois de jnntar-se ao riacho Remedio,
que se forma do Genipapeiro, Loqradouro, Bda-vi continia sen curso corn esse nome, recebendo as correntes,
Pciu-ferrado, Campos, Milagres, Melancia, Rajada, Forquilha, Can-
tinho, Agude, Riacho da Serra e Carnahubinha.
Do Caixa-s6 descem para o Figueredo os riachos-Peccado.
Foz, Milha, Amnore, Logradouro, Grossos, Fazenda, Caural do meio,
A traz da serra, Aiara e Timbadiba.
Dr. Antonio Augusto de Vasconcellos-Municipio do Pe-
reiro-apud a Revista do Instituto do Ceard-4? trimestre de 1888,
pag, 237.






38

O PALHANO-nasce proximo da serra Azul e despeja no Ja-
gnaribe junto a cidade de Aracaty.
As pequenas bacias entire o Aracaty e a cidade da Forta-
leza, sao :
0 PIRANGY-nasce na serra Azul, corre do sudoeste para
nordeste por uam terreno pouco fertil. Na sua foz acham.-se ri-
cas salinns ;
O CHOrd6-desce da serra do Estervo, contornando-a pelo
lado norte. recebe em face do Caio Prado o Cangaty, que vem
da quebrada das serras do Cangaty e Santa Catharina. e 30
kiloin. abaixo o A racoyaba, que desce da serra de Baturit6,
entrando no Oce'no por duas barras, depois de um curso de
270 kilom ;
PACOTY-nasee na extremidade meridional da serra de Ba-
turit6. banha Acarape, recebe o Bahi, corre do sul a norte, ba-
nha o Aquiraz, langando-se no mar depois do um curso de
150 kilom ;
Coc6-ribeirao que nasce na serra da Aratanha e despe-
ja no Oceano, a 12 kilom. a L. da Fortaleza.
Bacias ao noroeste :
CEARAi-nasce na serra do Rato e a dns duas encostas da
serra de Maranguape: banha a cidade deste nome, e corn a
denominagAo de Maranguape se reune perto de Soure ao
bravo occidental, que contorna a ponta da serra e reunido
ao braqo oriental. lanqa-se ao mar a 12 kilomn. a NO. da For-
taleza, formando uma barra que esta em parte aterrada, e na
qual ha project de fazer-se o porto da capital (1).


(1) Este rio, segundo o Dr. G. Studart, nasee no term
de Maranguape. e forma-se da juncgao do riacho Bom Prin-
cipio, que nasce nos montes dos SalgadoF. corn o Jandahyra.
que vem do serrote do Marinheiro, a 35 kilom. da cidade de
Maranguape e 6 kilom. da serra de Baturit6.
0 riacho Jandahyra antes de entrar no termo de Soure
toma a denomitnaqo de Jaramateira, atravessa a fazenda S. Luiz
e refine-se entao ao Bom Principio. Transposta a fazenda Ro-
deador, o rio Ceari e engrossado pelo riacho da Tucumdulba,
recebe abaixo da estrada .de Soure o Maranguiapinho, que e
formado pelos riachos Sapupara, Jererahd, Gavido e Pirapora.
Dr. Guilherme Studarr-0 rio Ceard-apud a Rerista do
Institute do Ceard-1? trimestre de 1889, pag 52.






39

CAUHYPE-nasee ao sul da serra do Joa, corre por terreno
plano, varzeado, coberto de carnahubis e despeja no Oceano.
depois de umn curso de 70 kilom. Sua foz. devida a obstruc 9to
das areins, forma grande represa.
S. GoNyALo-nasce na falda occidental da serra de Batu-
rite, corre a NL. e depois de um curso superior a 150 kiloum.
entra no Oceano, formando uma pequena enseada. (1)
CuRO-desee da parte septentrional da serra do Machado,
corre a nordeste at6 o povoado do Jacd, incliua-se para nor-
deste atW Pentecoste. onde recebe o Canindi, que vem da serra
da Mariana, dirige-se ao norte, recebendo diversos affluentes
vindos da falda occidental de Baturit6, p:issa em Canind6,
abaixo da qual, 60 kilom., faz barra no Curfi, proseguindo na
direccao sul para norte atW o Oceano, onde forma o porto de
Parazinho, depois de um curso de 250 kilom.
MUNDAHLI-nasco na parte meridional d:a serra da Urubu-
retamn, ladeia-a a leste, e depois de um cur.s.) de i60 kilom.
se lanca no mar formando o pequeno estuario do seu
nome :
ARACATY-ASS -nasce de uma ramificayio da serra do Mu-
chado, por nome serra Verde. corre de sul a norte por um
solo acecidentado, pedregoso, salitrado, recebe as aguas da ver-
tente occidental da Uruburetamna e depois de um curso de
240 kilom. lanca-se no mar.
ACARAHI-6- o segando rio do Estado, per seu curso e im-
portancia: nasce no centro do grupo central na serra da Te-


(1) 0 S. Gonqalo -que tern a principio o nome de riacho
da Monguba, e nao o de Boticario, como diz o Diccionario 2o-
pogr. e I.stat. do Ceard, nasee na serra do Lagedo, unia das ra-
mificacoes da de Baturite, lado norte, nos sitios S. Bento e
Monguba, recebe as aguas da Serra Verde, dos Pocinhos, ba-
nha o pequeno valle do Rato, pass na povoaiao da Cruz,
corre para norte, pass junto aos serrotes do Boticario e S. Lu-
zia e desemboca no Atlantico, 14 legoas a noroeste da cidade
da Fortaleza.
Sao-lhe tributarios-o riacho S. Luzia, a leste; e o Mo(o a
oeste.-Dr- G. Studart-ibid-pag. 51.






40

lha, proximo das nascenqas do Quixeramobnm. corre do oriented
para occidente, banbando Tamb')ril. at6 as faldas da serrota
do Feiticeiro, volta-se para o norte, passando por Entre-rios,
recebe a esquerda o Jatdbc, o Jurd, e o Jaibara, a margem do
qual assenta a cidade de Sobral, e a direita o Groayras, cujo
affluente Jacurutg passa por S. Quiteria : banha as cidades de
S. Anna e Acarahli, onde se lanua no mar por duas boccas,
depois de um enurso de 370 kilom. Sua foz da entrada a peque-
no3 navios e estA situada a 20, 52', 36" de Lat. sul e 300' 12',
de longit. oriental do Rio do Janeiro.
CAMOCIM oa Curyahzi-nasce na falda oriental. da Ibiapa-
ba, corre para nordeste, banha a cidade de Granja e entra no
mar, formando o melhor porto do CearA. Sna foz estA situada
aos 20 53'41" de lat. sul e 20 31' 8I de long. oriental do Rio
de Janeiro.
TIMONIA-ribeirao que desce da parte oriental da Serra
Grande, hanha a cidade de Vigosa, e depois de um curso de
150 kilom., entra no Oceano. formando pequena enseada, pro-
ximo a qual so dilatam extensas salinas. Sua foz jaz a 20, 54' 46"
de latit. merid. e 20, 8'7" de long. orient, do Rio de Ja-
neiro.

LAGOAS

0 empino do solo em declive doce, sem fracturas, numa
horisontalidade, apenas quebrada por serrotas on serras, o
plexus sinuoso em multiplos drenos a collectarem as aguas
pluviaes, a seecura atmospheric favorecida por ventos alisios,
de uma conslancia inquebrantavel, os verses prolougados e as
evaporag6es rapidas, contribuem para a escassez d'agua em
grades deposits, sob a forma de lag6as. Em geral as existen-
tes sao de proporgoes minguadas, razas, superficiaes, verda-
deiros caldeir6es em terrenos abertos, cobrindo raramente va-
les profundos. Na estaqao pluvial, quando o inverno e abun-
dante, as superficies alagadas se expraiam por alguns kilome-
tros, formando vastos alagados, marginados por atoleiros.
Na orla maritima, onde a duna impellida pelo vento barra
a corrente dos riachos, formam-se represas mais on menos






41

profundas, que sAo destruidas pelos grades invernos e pelo
esforgo do senhorio marginal, cujas terras ficam submersas. (1)
As lagoas mais importantes pelo volume de suas aguas
sao : do Coronel, do Matto e da Matta, Sacco da Velha, no mu-
nicipio do Aracaty : Patos, Tronco-entre os rios Pirangy e Pa-
thano ; Catz no rio de seu nome, entire Aquiraz e Cascavel ;
Mtcejana a 12 kilom. da Capital: Porangaba a 7 kilom. da Capi-
tal ; S. Gonqalo proximo a barra do rio deste nome; Trahiry
no rio do mesmo nome ; Timbadtb, Castellanos e Pesqueira, en-
tre os rios Ac.arahfi e Camocim- todas proximas ao littoral.
No valle do Jaguaribe, ao poente da cidade do Iguatii, acham-
se as lag8as do Iguatu e Barro Alto ; Conceiqio no Riacho do
do Sangue ; Grande perto da confluencia do Figueredo coin o
Jaguaribe; Camorupim na Granja.

LITORAL MARITIME

A costa 6 geralmente uniform, sem articulaOges, apenas
inturrompida por pequenas pontas, ordinariamente rochosas e
por enseadas on estuarios que dao abrigo a navegaqao.
A Ponta Grossa, ao sul, ergue-se em grande penedia a pi-


(1) Um observador assim descreve as lag6as de Cauhype :
-'0 grande reservatorio do rio Jua, que resultara da obstruc-
*Ro da sna foz pelas areas, tinha urn perimetro de cerce de
4 leguas, e ameagava conquistar mais terreno, a par de uma
profundidade tal que submergio toda a matt da preciosa car-
nahuba, cujos esterpes erectos e ornados de verdes leques lhe
cobriam o leito argilosc. Era umn mar d'agua doce ao lado do
Atlantico.
Alimentava enorme quantidade de peixes: a trahira, o
car6, o cangaty pescavam-se aos montes.
Offerecia soccorro perenne contra as calamidades de que
ten; sido tantas vezes victim o CearA. Toda a populaqao de
Soure, e ainda mais a adventicia, remia a vida na abundancia
do seu peixe e na fertilidade de suas margens,
E' pena que, a pretexto de ir o lago invadindo alguns si-
tios, aliAs de pouco valor, e que bem podiam ser indemnisados,
se tenha desfeito esta grande obra que a natureza exponta-
neamente offerecera a essa laboriosa populaqao."
Em 1895 foi arrombada a parede de area pelos senho-
rios prejudicados, depois de term em \ao recorrido ao go-






42

que, visivel a 21 on 22 milhas, [1] bastante saliente e mais
alta quo o solo circumvisinho, serve de anteparo aos venutos
que sopram de SE. para a enseada.
A 40 25' 35" de lat. merid. a duna de area, que vent lade-
ando a costa, ergue-se em colina. sem arvores, abatendo-se
para dar passage ao rio Jaguaribe. Pela margem esquerda
deste a ribanceira de argila vermelha se along ate a ponta do
Macei6, cuja forma singular. especie de penedia, semelh-i, no
di7er de Mouchez, a um canhao a sair pela escotilha do umu un-
vio, tal o solapamento que o mar ha prodazido no sop6 da
rocha.
Da barra do Aracaty ao cabo Iguape, a costa se desenrola
por uma linha sem inflexao, quasi recta. Este cabo, situa.do a
30 56' 45" de lat. sul, 6 visivel a 23 milhas, ergue-se a 123 me-
tros; 6 formado por grande morro que desce para NE. em
lenq6es de areia movediga. A oeste do cabo. a praia se encurva,
em forma de peqnena bahia. na qual podem ancorar navios em
fundo de 5 a 6 metros a 1 milha da terra.
Do Iguape a ponta do Mucuripe o alinhamento costeiro per-

verno para cederem suas terras mediante uma. indemnisagao
modien.
"A agua, prosegue aquelle observador, escoou se corn
nmna rapidez inerivel para o mar. 0 local occupado on-
tr'ora pelo rese'-vatorio tornou-se um sitio de desolayao e de
tristeza ; a passarada retirou-se, o gado e outros animaes pro-
curaram pasta.gens alhures: o cavador uao saciou mais a fome
dos sens filhos e nerom o pescador conseguio deitar as snas re-
des ; awabaram-se as fructas, seccaram as planta<6es e t'.ido
alli agora 6 tristeza e desolaqao.
"Felizmente os agents atmosphericos continuam constan-
temente o sen trabalho de reeomposicgo e d'aqui a poucos
annos, vencido o jogo da mar6, veremos fechado o boqueirao,
que tern cerea de 100 metros de largura.
"O0 morro ter na base, approximadamente, 200 metros do
espessura e jA soterrou unia part na foz do rio, e fraude
quantidade de coqueiros de um pequeno sitio adjacent.
"IE' prova'el que nao havendo inveruos rigorosos. haja
obstruncgo complete por estes tres annos.
Barra do Cauhipe.-Tive opraser de visital-a a 24 de Abr.!
de 1895, dia em que foi arrombada.
"Mais bell e profunda do que a do JuA corn maior vo-
[l] Mlouched-Cztes du Brdsil.






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de a directriz uniform, rectilinea : rompe-se em sinus multi-
formes, ourigados por morros arenosos de 50 a 80 metros de
alturn. Esta ponta. que 6 o prolongamento da duua, ahi pro-
tegida pelo recife, adianta-se pelo mar, quebra a monoto-
nia da costa corn a reentrancia que forma, daudo-lhe a encurva-
;0ao de umna meia elipse alongada. onde se abre o porto da For-
taleza.
As dunas maritimas proseguem para nordeste, menos alta-
neiras, e menos movediqas, baixando gradativamente aqui e nlli
para dar passage as correntes fluviaes.
Particularisando os portos e enseadas abrem-se na costa :
CAMOCIM-(1) situado a 5,960 metros da foz do estuario do
seu nome ou Curiau. Bern abrigado, espagoso, e corn a capa-
cidade para admittir os vapores do Lloyd, precisando ser


lume'd'agua (pois tinha cerea de 8 leguas de perimetio), po-
dia rivalisar, senao exe.der ao aqude de QuixadA. Difficilmente
conseguiram arrombar a enorme montanha de areia, que lhe
servia de barrage.
"A media qune, inm fazendo o sulco, desabavam as bar-
reiras, impedindo o -curso das aguas; um dos trabalhadores
quasi morria por occasiao de desabar uma dellas.
Utilizaram-se, por6m, de umas barricas desprovidas de
tampas, e enfileiradas umas ap6s outras, conseguiram fazerem
tubo afim de melhor guiar a agua. Continuaram o trabalho e
pouco tempo depois a agua estava today no mar, que fica a 1
kilom. de distancia.
"0 lago do Cauhipe, muito mais preeioso que o do JuA de
uma fertilidade espantosa, alimentava fartamente todos os ha-
bitantes do municipio, de legumes, peixes e fructas de que
faziam grande commercio de exportaAo.
"Era inven'ivel a abundancia de peixes de varias species:
a saborosa curimata (de familiar de salmoes), o piau, a trahira;
o cara, o cangaty, etc. : como tambem as plantaq.es de man-
dioca e dos cucnrbitaceos : meloes, abobaras, melancias.
"Actualm6nte o morro que 6 formado pela rouniao de
grandes dunas. unidas pelas bases, tern 55 metros de talude
e 770 na corSa. Talhado quasi verticalmente, formando diver-
(1) Veja-se Th. Pompeu-Ensaio Estatistico da provincia do
Ceard- Vol. I.
Dr. Jos6 Pompeu-Corographia do Ceard-pag. 24.






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desembaraqado em sua barra de lages submarinhas. Suas ma-
r6s oscillam de 2.u 95 nas aguas vivas a 2 erem aguas mortas.
No equinocio vafo de 3mn 20 a l1" 85.
0 estabelecimento do porto 6 as 5 horas e 30 minutes da
tarde.
A media da profundidade da barra, em baixa-mar do iguas
vivas, 6 de pIu 80c. Nas aguas vivas pode dar passage a na-
vios calando 4m 15, e nas aguas mortas 3m' 20.
Nas epocas de equinoxio pode dar franca entrada a navios
calando de 4m 40.
Jericoaquara-formado por grande enseada, e abrigado
pela ponta do mesmo nome, a 72 kilon.etros a 0 de Acarahui,
situado a 20, 47' 10" de latitude sul e 20,45' 46" de longitude
oriental do Rio de Janeiro. E' pouco frequentado. E' notavel por


sas concavidades e saliencias, 6 de uma belleza extraordinaria,
e ameaga soterrar novamente a foz do rio Cauhipe, ligando-se
ao morro opposto, de forte declive.
0 boqueirao e mais largo do que o da barra do Ju(: con-
tudo. senio fora a mar6 fechar-se-ia em poucos annos. Entre
os dous morros existe um po'o, pouco profundo.
Barra do Periquara.-A barra e proxima a povoaato de
Siup6. 0 lago era de pouca largura perto da barrage (de 25
metros de talude e 129 de corSa)i, mas em compensaito muito
profundo e extenso. Ja do Siup6 a S. Gon(alo, onde occupa-
va extensa Area, tinha volume d'agua mais ou menos igual ao
do Cauhipe.
Era tio piscoso e util quanto os dous lIgos que acabamos
de descrever.
O rio S. Gonqulo que despejava no reservatorio, ji perden
a foz, sua corenteza naio tem mais forqa para arrastar os de-
trictos, forma actualmente extenso lagamar, doiucilio de myri;-
des de peixes e de grades ophidios, como a sucuriiba, verda-
deiro monstro aquatic.
Por motivos, jA apontados, abriram o morro, escoando-se
a agua para o mar. a pequena distanecia.
A ncqgo dos vents 6 tAo active alli como nas praias dos
Paeheco e Cauhipe, e o boqueirao, que 6 estreito, mais uma vez
fecharA.
Vae-se ao boqueirao por dous caminhos : um fluvial, pelo
lagamar, outro por terra.
"Jose Pinheiro-Barras de Soure-na Revista do Instituto do
Ceard-anno XVI, 1902-pag. 84 e seguintes.
Um historiador das seceas do Ceara, meu velho amigo Ro-






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ter sido no comeno do seculo XVII visitado pelos francezes,
que entretiinhnm relai6es coin os indios da Ibiapabl, e por
ter nelle ficado por mais de anno a primeira expediqao de Je-
ronymo de Albuquerque, em (16Bi, corn destino a S. Luiz.
ACARAHT-na1 foz do rio do sea nome, formado pelo bra-
Vo maior do rio, dando aecesso a navios de pequeno calado,
em mars d'agua viva. Sna barra esta parcialmente obstruida
por bancos do areas, ficando a cidade de Acarahfi a 6 kilo-
metros a montante do rio. "Presume-se, diz Th. Pompeu,
que se tapando o bra.o menor do rio. as grandes enchentes
poderao rasgar ou desobstruir a barra removendo os bancos
de areaa" 0 estabelecimeuto do porto 6 as 5 h.
BARRA DOS PATOS. ALMOFALA. PORTO DO BARCO e FER-
NANDO sao pequenas enseadas, que offerecem fundeador a na-
vios de 130 toneladas.
PERNAMBAUQUrNHo-pequena ensenda frequentada por jan-
gadas e barcos de pescadores.


dolpho Theophilo, referindo-se no seu livro (Seccas do Ceard,
pag. 54) no arrombamento destes pantanos, escreve :
"Um dos maiores erros on o maior crime do seu governor
(do Coronel Freire Bizerril) foi o arrombamento dos lagos do
Cauhype e do Cat6i. Esse crime de lesa-humanidade, praticado
na terra das seems, bastaria por si s6 para a sua condem-
nag -o. 0 que de algum modo pode ainda attenual o 6 a influ-
encia que sobre o seun espirito exerceu o Sr. Dr. Thomaz Pom-
peu de Souza Brasil, que pela imprensa, em repetidos artigos,
propalava a inutilidade dos lagos do Caultype e tambem o
perigo a saude publica.
A accusa ao 6 formal. Nunca protestei contra ella, pelo
simples facto de nio contraditar o que se diz de mini.
Os homes publicos devem ser julgados pelos seus actos, e
nio por accusaioes infundadas. Na hypothese vertente. b)asta
a reproducgho dos artigos alludidos para se ver como eu en-
tendia a questao das lagoas. E por scr assumpto interessan-
te aqui os reproduzo na sua integra:

AS LAGOAS FORMADAS PELA OBSTRUCQAO DAS
AREAS NA BARRA DOS RIOS

Corn os annos de inverno esciissos desde 1877 a 1892 al-
guns dos pequenos rios que despejam entire o Choro e (' Cti






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MUNDAHU-fufndo e abrigado, formado pela represa do
mar na barra do rio de sen nome; 6 frequentado por sumacas,
hiates e barcaqas. "Sua siruaqdo proxima a serra da Urubure-
tama. num terreno fresco e proprio para lavoura, promette
dar-lhe grande importancia future". Infelizmente esta predic<.ao
se nao realisou. Os pequenos portos vao sendo abandonados
pelas difficuldades de fundeadouro para os vapores costeiros.
PARASINHO-formado pelo estuario do Cur6i.
PECEM-sem importancia, especie do estuario de pouco
fundo.
CEARA-ou Barra do Ceard, formado pelo rio do se niome,
a 12 kilom. a noroeste da Fortaleza, profundo e espauoso, mas
o canal que Ihe da entrada 6 muito estreito e pedregoso, quasi
obstruido por baixios on baucos arenosos.
E' object de estudos por parte da commissAo, nomeada
pelo ministry da industrial, Dr. Calion, para construcqao de
um porto na capital do Ceart.


nAo adquerirao bastante agua para transport o deposit do
area que os ventos poseram em suas barras.
A acqao ohda vez mais energica dos ventos, erguendo me-
does de areia em toda a costa, conseguio former em algumas
dessas barras altas collins que jamais poderao ser desmoro-
nadas pelas aguas pluviaes trazidas pela corrente dos rios.
A repreza formada foi-se avolumando a propor.,o que a
estlaao invernos:a proseguia, inundando extensas baixas de
terreno alluvial, em grande parte cultivad:is, e prodtartoras
de cereaes.
Emquanto os invernos nao excederam da media normal, o
prejuiso cansado por taes inundacoes foi facilmente reparado
e ate compensado pela frescura e limo que as aguas deixarara
nas terras, permittindo o alargamento das cultural at6 o
meiado do verao.
Em vez de queixas, os proprietarios ribeirinhos de takes
correntes acudados, agradeciam tamanha protecqeo ao traba-
lhador cego e inconsciente que lhes proporcionava; gratuita-
meile tantos beneficios..
Presentemente, a dadiva das nuvens ultrapassa os limi-
tes do util, e vai produzindo ruinas aonde dantes derramnava
proveitos. As inundagoes cobriram dezenas de kilometros,
destruiram casas. r*ercas, p'lantaoes e as demnais beinfeitorias,
penosamente adqueridas corn o trabalho de alguns annos.
Tudo isto pouco on quasi nada seria si do mal de alguns






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Parece que a commissao julga possivel a sua adaptae.o
ao trafego maritime da Fortalezi.
FORTALEZA-formia una enseada alongada, a comeqar da
ponta do Mucuripe a leste, desenvolvendo-se por inais de 7 ki-
lometros para ONO. A Corda Grande, a meia nilha a note,
serve-lhe de quebra-mar.
O aterramento progressive e ininterrupto do porto pelas
dunas movedigas inutilisaram coinpletamento as obras do me-
lhoramento da companhia ingleza, baseadas nos estudos do
engenheiro Haukshaw. 0 quebra-mar, construido a 200 metros
do litoral, foi prompto e rapitamente invadido pelas areas,
tendo de ser abandonado.
O governor mandou posteriormente construir urna poute
com a extenuso de 150 metros, ligada a alfandega, e pela qual
se faz o desembarque de inercndorias e de passageiros. Come-
(,a a aterrar-se.
No baixa-inar o ancoradouro interno 6 abrigado pelo reei-


resultasse o proveito de inuitos: porque aquelle promptamente
seria reinediado por ineio de indemnistgioes rasoaveis, e os be-
neficios so toruariam permanentes.
Effeetivamento a repreza d'agua, alein de certos limits,
A ninguem aproveita, prejudice a muitos agricultores.
A barrage formada pelas areas 6 t:io proxima ao mar
que abaixo della se estende apenas uma faxa estreita de ter-
renos de areias soltas, de praia, esteril e incapaz de ser ulilis,-
da na lavoura..
Nao havendo terrenos a irrigar, a abundancia d'agiiua.
alem das necessidades de aguada e das vasantes. redunda em
prejuizo das lavras que ficam a margem de taes represas. E
essas lavr;s niio sao de pouca valia: constam de plantaqoes de
canna, arroz, milho, feija~o, mandioca, etc.
Men parecer seria que nao toeassem em takes barra-
gens, se ellas estivessem de terrenos ferteis, aproveitados on
aproveitaveis, para as oulturas, porque entao representaria In
vastos depositos d'agua, consiruidos pela natureza, capazes de
os irrigar.
A agua empoqada, s6 para o prazer da vista, em prejuizo
de muitos agricultores. cujos terrenos ficam inundados, nunca,
foi o desideratum dos que entendem ser o a'ude o maior
beneficio que o CearA podera receber.
Certa'mente nao convem destruir takes reprezas ; jii, como






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fe, que represent o papel de quebra-mpr, por tiuns 360 metros
de extensAo.
O estabelecimento do porto 4 as 5 h. 30 .t.
A oscillagao das mars 6 de 2111.5 as aguas vivas, 11n 6
nas mortas, e do 2111 as ordinarias.
0 fundo do porto no Meirelles e Mucuripe 6 formado de
rochas desiguaes, anfractuosas: no ancoradouro da Fortaleza
predomina a areia e mais adiante saibro.
MucURIPt--6 o prolongamento extremo oriental do porto d a
Fortaleza; desprotegido dos ventos de NNO. e ONO. e Oeste.
A ponta, sobre a qual assenta o pharol, 6 rochosa, forma-
da de gr6s. 0 pharol esta situado aos 3041' 10" de latitude sul
e aos 40 34' 36" de longit. oriental do Rio-de Janeiro. 0 appa-
relho de luz 6 dioptrico, de 4i" ordem corn eclipses de 1 minuto.
0 piano focal acha-se a 33'k 36 acima do nivel, sendo visivel a
luz a 12 milhas em tempo claro.
IGUAPE-a 18 kilom. a nordeste de Aquiraz, forma grande


disse, porque serve de aguada para animals e usos domesti-
cos, ja porque refreseam as suas margens.
Ha um meio termo entire a total destruiafo e a inundacao
inconsiderada de terrenos cultivados-6 fazer-se escoar a agua
prejudicial por meio de sangradouro, aberto propositalmente
na altura convenient.
Para isto tern a governor estidnal uma repartifto de obras
publicas com profissionaes capazes de superintender tal obra.
Talvez seja possivel. si a mobilidade das areas permittir,
construir-se um sanigradouro de alvenaria que facility, du-
rante os invernos, o escoamento, senm perigo de destruigao, das
aguas superabundantes.
Assegurami-me que os proprietarios ribeirinhos da repre-
sta do Catil se offereceram A municipalidade de Aquiraz parai
abrirem a custa delles o sangradouro. e que esta nao s6 recu-
sara este ccncurso, como prohibira que se tentasse qualquer
remedio para minorar os damnos causados pela inundaqao.
A ser isto exacto, 6 mais uma falsa interpretay'o que as
novas instituiiiSes dao a doctrine constitutional que garante
a propriedade eidada em toda a sua plenitude.
Quer pela constituiAo do Imperio, quer pela vigente, os
poderes publicos garantem auxilios e soccorros aos que sof-
frem graves prejuizos em virtude de in'indao;es. epidemias,
heecas. etc.
A camera do Aquiraz. naio s6 infringe o preceitp contti-






49

enseada, abrigada por dunas arenosas. Sua entrada 6 franca
mas pouco frequentada. Nella ancorou a esquadrilha de Jero-
nymo de Albuquerque em 1C13.
ARACATY-formado a barra do Jaguaribe por umia cor6a
arenosa. que serve de quebra-mar a sua entrada. Sujeita a oseil -
lagaes de nivel pelus correntes do rio e ventos propulsores das
dunas, torna-se o nivel da barra e mesmo o do ancoradouro in-
certo, variavel, carecido de repetidas sondagens e de especial
pralicagem aos navios que o demandam.
Depois da grande enchente, em 1875, diz o Dr. Jos6 Pom-
peu. a altura d'agua na coroa. em baixa-mar regular. reduzio-
se 01, 88. "Em 1876 e 77 a agna na mesina cor6a, attingio
gradualmente a altura de 2"', 13 na vasante. 0 canil 6 recti-
lineo coin a largura superior a 100 metros.
"Durante o verao, seis mezes proxinmamente, o volume do
Jaguaribe conserva-se sem altera(tao sensivel. (1) Quando o nivel
do mar se eleva com a enchente, que attinge cerca de 2 me-


tucional, como attenta contra o direito de propriedade, nfto
permittiudo que os possuidorts de terrenos, de lavras e habi-
ta05es, resgatem-uos das fornas destruidoras da natureza.
Se a municipalidade entende que result para o municipio
grande proveito coin a repress illimitada do Catfi, embora a re-
ducdito dos terrenos prestadios, deve proceder., de accord corn
a lei, desippropriando-os aos donos os inundados, mediante
indemnisaeao.
H'a, por6mo, a considerar que despezas deste genero siio
quasi injustificaveis, pois o qiie as legitima aos olhos do
contribuinte e o sen destino proveitoso e urgente. Ninguem
diri conscientemeute que essas grades masses liquids. que
nao servcm para irrigaqao, e excedem as necessidades da
agoada e dos usos domesticos, que nDo melboram os terrenos
marginaes. porque a area de suas filtrac6es nao vai alem de 30
metros, difficultando alem disto o transport nas estradas ea-
recidas de pontes, occupando o melhor dos terrenos de allu-
viso. sejam de proveito geral.
Nos pequenos rios, que vao ter ao mar, as terras de allu-
viAo, compostas de humus, nao se alargam das suas margens
mais de 10.0 a 1500 metros. Ora, desde que essas Areas ficam
(1) Dr. J6os Pompeo-Corographia do Ceard-pag. 30, que
bebeo estas informaoes no Relatorio do Sr. Revy sobre o a0u-
de de Lavras pig. 28.






50

"Nas enchentes extraordinarias. o Jaguaribe apresenta um
volume dagua excedente de 4500 metros cubicos, em frente a
cidade do Aracaty. A corrente transport grande quantidaide
de area e alarga o canal, que p'ssa de 4500 metros e a mais.
Diminuindo a velocidade, a area deposita-se na cor6a, obstru-
indo o canal e elevando-o de alguns metros.
Q'Quando terminal a cheia do rio, a altura d'agra sobre
a cor6a estai muito reduzida: e, segundo as circumstan-
cias e os novos banc)s de area formnados durante a enchente,
a mare abre pouco a poueo novo canal na cor6a e o cava, em-
quanto nao so da o eqnilibrio entire a forca de erosao da cor-
renteza e a resistencia das areas no fundo.
"0 canal attinge dimensoes regulars. Na ponta do sota-
vento da barra estai o pharol dioptrico, de 5'! ordem : luz fixa,
alcanando 18k500. Esti situado aos 4024'20" de latitude
sul e 50 22' 20" de long. orient, do Rio de Janeiro.

inutilisadas on cobertas d'agua, perde-se nnma riqueza, pois
lanto import a Inxuriante produnfao dos imesmos. Os terre-
nos que lbe ficam a. eavalleiro, aeima do nivel das grandes
inundahoes, sito geralmente compostos de quartz on gneiss em
desaggregaao, arenosos, quasi improprio a cultural dos vereaes
e plants que exigem solo profuudo e compact. Geralmente
sio destitnidos dos sales nutritivos, que as enxurradns carreiaran
para baixo.
Alem deste inconvenient, que en chamarei do natureza
geologica, ha outro. porventura mais sensivel P desastros6, qual
seja o de abrir a porta n indemnisaO6es, cujo termo e quantia
ninguem poderA prever.
Tera a municipalida'le em cofre as quantiosa- sommas
que ellis requerem: sera licito no Estado subsidiary taes obras ?
Queira Sr. redactor publicar ess:is linhas que, supponho, tra-
duzem o muodo de pensar do povo cearense. Do muito agradecido,
assignante,
THUMAZ POMPEO.
I(i de abril de 1894.
AS LAGOAS DO CAUHYPE

0 Sr. Dr. Thomaz Pompeu nos envion o seguinte :
Julho de 1894.
Sr. Redactor. 0 que todos previamos infelizmente realison-
se : a inunda(;ao do vasta zona cultural, occupada ua quasi to-






51

tros, um certo volume d'agua passa por cima da cor6a ate onde
seu etuario chega a preamar. Dando-se depressao do nivel, Ea
vasante, volta a agda para o mar. Esse fluxo e refluxo abre
umrn canal na cor8a de arcia, para alli conduzida pelo veto
E, que sopra ao long da costa, revestida de dunas, mudan-
do de volume e de posigao, conforme a forga e direceAo dos
ventos.
0 estabeleeimento do porto 6 as 4 h. 45 m.
R.ETiRO GRANDE-a 50 kiior. a L. -da barra do Aracaty,
forma uma ensoada. protegida pe'a Ponta-grossa, que se pro-
longa pelo mar, abrigando-a dos ventos e ondas. Era funda,
por6m, actualmente muito aterrada e desabrigada da forte
arrebentaqao que difficult sobremodo o embarque e desem-
barque. Sua communicatiao corn o Aracaty foz-se atrav6z de
morros e areas movedigas, nao permittindo transit regular
de carrogas.



talidade por sitios plantados de cannas e de fructeiras, no Cau-
hype.
Da obstina(Ao, mal entendida e prejudicial, da camera de
Soure, segundo me informal, em nuo consentir que abrissem
a barrage formada de areas movediqas a embocadura do rio
S. Goncalo, resultaram nAo pequenos prejuizos a lavoura, e a
penuria de riuitos. agricaltores laboriosos, cujas terras, cases,
machines e utensilios agricolas ficaram debaixo das aguas
represadas.
Difficilmente se penetra os intuitos administrativos da-
quella corpora(ao. cuja missao prin:ipail 6 facilitar a expansao
da vida agricola no municipio e nao concorrer para a ruina
e desbarato da fortune particular, salvaguardada pelas leis da
naqio.
E' convieao minha que em qualquer p;iz, cuja proprie-
dade seja garantida pelos tribunes e nau, mero artigo consti-
tueional, os prejudicados por actos dessa natureza seriam in-
demnisados dos prejuizos soffridos, e os representantes muni-
cipaes responsabilisados pelos damnos causados A salubridade
public e aos interesses economicos do municipio.
Quem teve a infelicidade de percorrer a zona costeira que
se dilata desta capital ao Curti, na quadra actual, depois da
rigorosa estaqo inveruosa, mc:l comprehend como se procure
impedir o escoamento natural das aguas empocadas. Os terre-






52


ILHAS

A costa aherta nao offerece sendo pequenas ilhas forma-
das por alluvi6es dos rios ou desaggregadas do litoral pelas
enchentes destes. As principaes ficam na costa ladeiante ao
Acarahfi.
BoIS-com 400 m. de cireumferencia em frente a Almo-
fala.
VAccAs-de igunes dimensoes, nas proximidades desta.
GUAJERU-com 3 kilom. de extensao, na costa de-Almofala.
MANGUi SECCO-na mesma costa, corn 4 kilom. de com-
primento.
FERNANDO-COim 300 metros de extensato. na mesma costa.
MosQUEIRO-com a mesa extensAo e na mesma costa.
RATO-comr 600 m. de extensao e 400 de largura.
COROA GRANDE-com 700 m. de comprimento por 90 de
largura.
MosquITo-proximo a cidade do Acarnhih. comn 9 kilom.
de comprido por 6 de largura, 9 kilom. do litoral.


nos pianos on de pouca iuclinaAto estIo egualmente converti-
dos em pautanos, lodanaes, que interrompem o transito das
estradas e por ellas se estendem por kiloinetros e kilohmetros.
tornando pen,'sa a march dos animaes de carga e insalubre a
travessia.
Esses terrenos precisam ser drenadies, porque, como estfio,
nem serve para culturn:, nemi permitted a creaqfo. 0 past
que broton npodreceu debaixo d'ngun. A drenagemin natural
fazia-se por meio dos riachos on corrTentes que despejain nos
rios on corregos, que actnalmente estaio barrados, formando
bells lagmas oi pantanos para recreaa;,) da vista dos poucos
que procurnam gosar esse espectaculh, nao inteiramente iumo-
cente, porque as suas exhalnaeros mii;sl iticas produzem febres
palustres. o as nuvens de mosquito', imuportunaqoes menus
agradaveis.
A unica serventia que tnes lagIas podem ter, 6 servirem
de a-wuad; imas compreliende-se facilmeotte que a propria es-
tensao da area coberta d'ngua, em vex de torn'al-a de faicil
access para os animaes, convertem-na em enorme patil. Coin
a evapora-ao, que se opera rapidamente, as aguas retiram-se
das margins da lag6a. deixando-as descobertas e convertidas em
lamagaes, tanto maiores q'uianto mais planes e argilos:is sIto.
Para aguada devi:m procurar sitios upropriados, ampira-






53

CONSTITUIQAO GEOLOGIC

Segundo o parecer do professor Orville Derby (1) a base
do grande planalto brasileiro costa de antigas rochas meta-
morphicas, que formam a quasi totalidade das montanhas e
apparecem isoladas nas provincias, especialmeute nos pontos em
que as planicies teem sido profundamente desnundadas.
Dividem-se em duas grades series. A mnais antiga, consta
de roehas altamente crystallinas, como granito, syenito, gneiss
e micasehito. Hartt referio-a ao system laurenciano, referen-
cia confirmada pelo enueontro em various pontos do Eozoon ca-


dos, dos raios solares por vegetacao on serrotes, e nao os ter-
renos emrbrejados, abertos, cujas aguas se evaporam rapida-
mente no tempo em que ellas sao mais necessarias.
Nos aunos mais seccos, de 1877 e 78, nunca faltou agua
para o gado em todo o Cauhype e praias adjacentes, tendo
sido a regiao littoral a mais procurada pelos sertanejos para a
retirada dos gados do interior do Estado.
A preoccupaAo, portanto, de aguida em regiao que requer
a deseccaqto dos brejos para ser aproveitada, revella a ignorancia
das suas condi6es topographicas, senAo grave erro economnico.
Carencia de comprehensio do phenomeno da agna para
agriculture, mostra quem confunde a necessidade dos aqndes
de irrigaqao corn o empoganiento de aguas que nao podem ser
aproveitadas na lavoura, quer pela situaqao da represa em re-
laao as terras marginaes, quer pela natureza da barragem.
Tao benefica 6 a agua derivad-t de um aqude nas ocea-
sioes em que as regas sao necessarias, quito nocivas as que
demoram em tempo inopportune ao p6 das plants, que re-
querem calor, luz e ar para vegetarem e que delles estao par-
cialmente privadas por esse empoqamnento.
Os agricultores, prejudicados corn o aterramento da bar-
ra do Cauhype, por mais de umna vez tern procurado obter
consentimento para abrirem-na, a exemplo do que se fez corn
a do rio Catfi. Menos felizes do que os ribeirinhos deste, nWo
conseguiram obter tal licenea, que. a meu var. nao precisa-
vam pedir, tratando-se de uma cldamidade public como 6 a
da inundacao.
Nao contest a municipalidade o direito de expropriar
por motivo de utilidade public qualquer propriedade parti-

(1) Wappaeus-Geographia do Brasil-trad. etc. por Ca-
pistrano de Abreu, pag. 45.






54

densee que o caracterisa. (1) A segunda series, menos perfeita-
mente crystallina, compoe-se de quarizitos, schistos, minereos
de ferro e calcareos, e pode referir-se corn certeza quasi igual
ao system huroniano.
A bacia do Parnahyba 6 quasi exclusivamente occupada
por Lima grande formaqao de gr6s, na qual existem nodulos
calcareos que conteem bellas amostras de peixes fosseis da
edade cretacea. A mesma formacao apparece no Estado do
CearA, umn tanto retirada dos limits da bacia.

cular, mas para isto precisa seguir os transmites processuaes
do TiOssO direito.
0 que Ihe vedam as leis naturaes e todoos os codigos 6 -a
usurpaqao desta propriedade, sob qualquer que seja o pretexto,
pois tanto import consentir na inutilisa.ao dos terrenos de
lavoura submergidos pela agua por obstinagao em nuo con-
sentir na destrui&o de barrages extemporaneas, inuteis e pre-
judiciaes.
Parece quo a municipalidade visa exasperar esses paci-
ticos lavradores, que tao resignadamente pedem, supplicam,
aquillo a que teem incontestavel direito, e para o que concor-

(1) A existencia do Eozoon, depois de muito controvertida
na sciencia, parece definitivamente julgada. Eis o breve his-
torico da questao : Em 1863 Mac Mullen achara, na mais alta
das tres faixas calcareas do archeano inferior, um calcarin ser-
pentinoso, imbricado, formado de camadas alternatives de ser-
pentina on de pyroxeno e de carbonate de cal. Estudando esses
systems de membranas (cloisons) Dawson, Carpenter e Rupert
Jones acreditfram trajar-se duma estructura organic, devida
a um foraminifero, que recebeo o nome de Eozoon canadense.
Em seguida Giinbel afinunciou o descobrimento do Eozoon ba-
varicum nos calcareos archeanos da Baviera, encontrando o mes-
mo fossil nos marmores serpeutinosos da Finlandia, Saxe, Sile-
sia e Hungria. Outros encontraram no na Bohemia, Pyren6os.
Afinal King e Rowney que encontraram a mesma estruetura
num ophicalce modern da ilha de Skye, Perry e Burbank,
que affirmavam que o Eozoon de Massucheserts se continha num
verdadeiro veio calcareo, deram golpe mortal no supposto fo-
raminifero. "Segundo os palenteologistas mais competentes, diz
Lapparent (Traite de geologie pag. 731) o estudo minucioso a
que se entregou Mobins parece ter feito descer definitivamente
o Eozoon a classes de um simples accident mineralogico, sus-
ceptivel de produzir-se em todas as misturas intimas de calcito
comr a serpentina ou o pyroxeno."








0 barao de Capanema, nos Apontamentos geologicos, pn-
blicados no Rio de Janeiro, em 1868 (1) refere-se em algumas
parties de sua obra a constitui(;)o geologica do CearA, e como
sejam poucas as traslado para aqui:
"No Crato, diz elle, distant cento e vinte leguas do lito-
rau. existem os restos do umna vasta camada de sedimento qude
constituem a serra do Araripe : por baixo da massa arenosa-
apparecem stractos argilosos inteiramente identicos aos de
Itaparica (Bahia) coutendo os mesmos crystaes de galena e de
pyrites: ainda aqui nao appareee fossil algum Logo abaixo


rem corn a quota de impostos necessarios a serem manu-
temdos na posse dos bens que as leis Ihes garantem.
Contra umnina corporaiA'o que s6 tern direitos, e esquece os
deveres, que usurpa sem ter quem Ihe ponha embargos no
acto, que caprichosamente recusa satisfaq&o as neces idades
mais instantes da populaqRo, que fuzer ?
Essas pobres victims est-io na situagao daquelles bretoes
de que nos falla Tacito, perseguidos pelos barbaros que os im-
pelliam para o mar, e repellidos por este que os entregava nos
inimigos."'
TH. POMPEU.

AS LAGOAS DE (.AUHYPE

Nao pretendia voltar a este assumpto depois das razoes
de conveniencia public que em artigos anteriores expuz. nas
columns deste periodico, aeerca da abertura da barra do "Ciin-
hype.
Receinva. sobretudo, que procurassem desviar a question. a
que se prendem interesses geraes, inclusive o dos cofres do
Estado, dos seus estrictos limits para o di poleinica pessoil.
desvirtuando por esta forma a discussao, e forgando-ine a ha-
ter em retirada ao primei-'o rebate do doesto.
O long parecer da camera municipal de Soure, inserto u'A
Republican do dia 2 do corrente mez, jA por sun procedencia. jA
por algumas das allegaoes que apresenta. carecidas de ani-
lyse, .senan de contrad;cta, me demove d'aquelle proposito,
afim de apurar se a conveniencia on nao da conservaaw) da
lag6a do Cauhype.
O parecer discorre sobro assunptos de importancia utu


(I) Ca pane ma-Apontcuneto~s geo logicos-pag. 45.






56

se eneontram caleareos em estractificano parallel ao taud.
Esses caleareos conteem grande numero de pequenos crusta-
ceos do genero Cypris, que abunda na formagao do Wealden
e na do Jura. Por consequencia o taud 6 ou jurassico, on de
formapio mais recent, cretaceo.
"Gardner qualificou o A raripe de cretaceo : 1 porque na
chapada achou soccavaes cheios de material branca de que se
serviam para caiar casas, e que elle semr mais exame tomou
por greda (giz), restos das antigas camadas que jaziam sobre
o planalto arenoso e que foram levados pelas aguas, Foi um
descuido, miito natural em viajante tao conscienecioso como
Gardner. Elle se enganon eompletamente, o seu gi7 na.o passa
de tabatinga, confundio cal corn argila. 0 2? arguniento deve-
ria ser mais concludeute. Elle encontrou peixes fosseis entire
a camada arenosa e a argilosa. e Agassiz os classificou de cre-

pouco ligeiramente, e por affirmaqces eategoricas, semr adduzir
a men ver, raz6es poderosas que destruam o que escrevi sobre a
inutilidade da conserva;a&o da grtinde represa, sem os seus cor-
rectivos.
Quer as consideranges acerca da natureza e prestabilidade
do solo alagado, quer as que entendem corn a economic das
popu]a6es marginaes, peecam pela observaAo incomplete dos
factos. uma vez-que nao as devo attribuir a parcialidade ou
proposito de illudil-os.
Relativamente a cultural, diz o parecer, "o s6lo d'aquelle
rio (Cauhype) s6 tern prestabilidade corn a permanencia do
lago, porque sendo os terrenos da pessima natureza, pobres
de huimus, sein uberdade alguma, estando descoberto, e sendo
lavados pelas aguas pluviaes, cada vez mais fracos ficam."
"Ao contrario, a estagnagno das aguas impede que os
estrumes sejam levados para baixo, e pelo apodrecimento
delles as terias vao adquirindo capacidade para plantaqao.
-'A media que as aguas diminuem, os terrenos vao fican-
do descobertos, e sendo utilisados para toda especie de lavou-
ra que produz de modo espautosamente vantajoso."
A simples confrontaqtao do primeiro period corn o ultimo
patenteia a contradiciao de support qun os terrenos alludidos
sao de pessimna qnalidade. sem uberdade alguma e ao mesmo
tempo, quando descobertos on livres da inundaqto, "aptos para
toda a especie de lavoura, que produz corn espantos.a vantagem"
Os proprietarios prejudicados nao desejam outra cousa
seniao ver os seus terrenos desembaramados d'agua, afim de
conseguirem essas tfio espantosas vantagens.






57

taceos. Admitto que tenha today a razao."mas esses ichtyoli-
thos sio rolados, alheios aos dous sedimentos : em vez de es-
clarecimento trazem duvida, que cresce de ponto pelo achado
que fiz de uma plant incoutestavelmente jurassica do So-
lenhofen (uma Arthrotascites).
"Na encosta da serra da Ibiapaba, na subida de Villa Vi-
;.osa, ha uma roeha quartzitica straetificada. Em Lavras ha unt
morrete em que o rio Salgado fez um c6rte profundo, ou bo-
queirao, de pedras verticaes. Esse morrete 6 uma massa isola-
da do mesmo quartzito stractificado corn grande porAgo de
laminas de ferro micaceo. (Pag. 6).
"Urn exemplo notavel apresenuam as rochas de gneiss em
muitos lugares da serra da Uruburetama, da beira do rio em
Sobral e na fonte tepida do Carnahupag6. Alli cessando a chu-
va, apparece efflorescencia de sal de cosinhli. Admittir infiltra-


Ccinprehende-se facilmente o que vae de erroneo na affir-
mado sobre a inferioridade dos terrenos alagados, desde que
se ittende umn pouco A6 forma!o e natureza dos mesmos. A
Area, actualmento alagada, forma uma bacia alongada na di-
rec(io do rio, tendo por talweg o leito deste. E' provavel que
em periods anteriores, as dunas que se alteiam na praia. e que
iais de uma vez Ihe t6rn barrado a f6z, hajam occasionado
lagos mais ou menos extensos. cujos limits extremes, pela
patte mais alta, nio ficarao muito acima dos actuaes. A con-
sequencia disto 6 que a natureza, por trabalho secular, deve
ter accumulado neste valle um grande deposit de detrictos or-
ganicos e min-raes em ordem a former o que na linzuagem
ordinaria se chama terreno de alluvifo. E isto mesmo so infe-
re do pareper da camara, quando diz-que o valle do rio 6
composto de terreno poeirento e frouxo, transformando-se em
lamagal e atoleiros logo que as aguas o descobrem.
Acredito queelle se compoo de uma boa part de aigila.
de terra calcarea e de espessa camada de humus, talvez intre-
meiada corn pequeuos seixos rolados, o que o torna altamente
apto as differences cultur:.s do Ceara, e particularmente a
da canna.
Os atoleiros resultam geralmente da excessive humidade
ou da imperfeita drainagem de umn s6lo de alluviao, composto
na sna m6r part de terra vegetal; porque, quando elle 6 sim-
plesmente argiloso, a agua nao o penetra senao superficial-
mente, reseque e endurece rapidamente sob a influencia di-
recta dos ratios solares. Quando de envolta coum argila e






58

,Ao em tempos anteriores. seria possivel, por6m, mais proba-
bilidade ha a favor da injecqao e vapores de chlorureto de so-
dio vindos do interior. (Pag. 19).
"0 earvao nunca teve grande sympathia pelas roehas cry.-
talinas primitives, apparece em quantidade menos que ho-
meopathicas, em estudo de diamante eneravado no itaculemi-
to.. ; depois apresenta-se ainda em alguns gneiss do Riacho
do Sangue, de Baturit6, em estado de graphito. Al6m disso nos
calcareos eruptivos encerrados no gneiss da Serra do Araripe.
tambem apparesem crystaes muito pequenos, o que concorre
para provear ne o clcareo estava exposto a temperature de
2.500. il)
-No CearA 6 frequent a turmalina, e fronteiro a Pacatu-
ba fui ver um lugar em que diziam existir carvao de pedra :
por tal honveram engenheiros nossos, grossos fragments da-


humuins existe caleareo, logo que o s6lo seeca .se desprende uinma
poeira fiua, que 6 varrida pelos ventos ias varzeas dos rios.
Nenhuma raza i ha para suppor-se que a alluviao do valle
do Cauhype seja differeute da dos dem'is rios do Estado, e
sabe-se por exame fAit) pelo Dr. J. J. Revy qune a do rio Ja-
guaribe attinge I a 2 metros de espessura.
A riqueza do valle de (anhype, al6m destas razoes qne
chamarei theoricas, por procedereom de arguments tirados da
analogia. evidencia-se pela larga cultural de canna que nelle
se faz. Muitos sitios de canna e de frneteir.,s, servidos por en-
genhos de ferro, de madeira. alambiques, cases e machines
agricolas, estao em parte on totalmnente descobertos pela inun-
da(io, oceorrendo me lembrar os que seguem, dos quael tire
informinQOes :
1' de Manoel Ferreira da Rocha .Motta eom en.renho de
ferro, alambiique. casas, ete. avaliado em 30:000$000: 2" de
Antonio Rodrigues Vianna, idem, idem, avaliado em 25:000$000;
3' de Vicente Alves Ferreira. idem, idem, avaliado em 6 con-
tos : 4" de Francisco Carlos Borboleta, idem, idem, idem, idem.
avaliado em 5 contos ; 5" de Jo:iquim L-Ipes de Ar.Injo, idem,
idem, avaliado em 5 contos: Wi de Julao da IRocli i Mor;ie-.
com engenhos de madeira, avaliado em 2 a 3 contos; 7" de
Luiz Gomes do Nascimento, 80 de Elstevao Ferreira da Roeh;i.
9" do Francisco Juliao, 10? de Joao Gomes.

(1) Capanema-Apontamentos geologicos, pags. 34 e 35, 44-
45, 1i. 52-33 e 61.






59

quelle mineral. No morro da Raposa, perto de Baturit6, exis-
tem os mesinos listoes ainda mais earacteristicos.
"No Cearh sio frequentes os amphibolitos puros.
"As mais das vezes, por6m, 6 em terrenos de sediment
onde us erosoes se tornam mais consideraveis pelos grandes
desmoronamentos que alargam os sulcos. fornecendo muito ma-
terial ao transport, do que vemos exemplos notaveis na serra
do Araripe, no CearA, que represent o resto de uma immensa
planicie de sedimento, ja removida : e da mesma forma a Ibia-
paba. Rfepresenta aquella unia immensa fortaleza corn paredes
a prumo de 200 palmos de altura. Ibiapaba pelo sen nome
indica terra cortada, por causa do paredao voltado para ori-
ente.
"No Ceara emergem do gneiss camadas empinadas do
schisto argiloso : em Baturiti, al6m do lc6, e en umna encosta
da serra da Meru6ca : repugna realmonte considerar essas pe-
quenas insergaes como material primitive de vastas regi6es ao
passo que reputal-as zonas de erup'ao de gazes 6 mais natural.
Na Meru6ca observa-se mais alguma cousa. que vein confirmar
a nossa theoria. (Pag. 61)."
Segundo o professor Orville A. Derby, j6 acima eitado, a
constituiqao geologica do Ceara 6 de formacao terciaria na
costa, rochas laurencianas no centro, terreno cretaceo 110
sul. (1)
Joao da Silva Feij6, na Memoria sobre a capitania do
CearA. diz nos 21 a 23 o seguinte :
"Observam-se a beira-mar camadas argilosas de diversas
c6res, mais ou menos puras, sobrepostas em bancos de crgs on
pedras molares, e cobertas de ordinario de comuros de areia
solta que os ventos de continao move e transportam de uns
para outros lugares corn nao pequeno prejaiso das embocca-
duras dos rios, onde commumente se formam bancos de areia,
que impedem as embarcaqoes e seu transit.
"Em outras parties se descobre este cr&s, mais on menos
consolidado, at6 mesmo no eimo da Serra Grande e algumnas
vezes cheia de conglutinaqoes de fragmenutos de ostras petrifi-
cadas: do mesmo modo se mo-tram dispersas grades mas-


[1) Veja Jos6 Pompeo-Corographia do Ceard. pag- 33.






60

sas de pedras on rocha viva, ou em pedaqos on em volumes
immensos, constituindo a superficie da maior parte das mon-
tanhas isoladas, em cujos vertices se notam de ordinario anti-
gas crateras vulcanicas afuniladas, que provam terem sido pro-
duzidas de erupco6es subterraneas. encontrando-se nellas mui-
tas sortes de lavas, basaltos e schorls, uns vagos e outros en-
gastados em crystaes de quartz bancos, etc.
'Nao sao muito frequentes nestas montanhas do interior
do paiz, entire as camadas das argilas, os veios de amiantos
de muitas species, terras bullares de diversas ceres, hlbica. o
spato calcareo, a pedra pesada, o spato flnor, os cristaes mon-
tanos, as ametistas, mais on menos coradas e apinhoadas, as
granadas vulcanicas, e por isso scm luzimento nem solidez.
Nao sAo toimbem raras nas abas da Seria Grande os etites
cheios de ascidos de todas as cores."
O terreno predominante 6 constituido por varias roclrts
cristalinas em decomnposi.iao (1) principaliente gneiss, (2) e
forma umn vasto lenvol em toda a superficie do solo, ora a des-
coberto, ora a-anmado de terra, que em truitos pontos mide
apenas 22 centimetres de espessi ra.
Os montes do sertao sao formados de micasehilas (3) dis-
postos em camadas, corno que cristalisadas, diversamente in-
clinadas, de granitos variados, de silex ou geralmente areia


(1) Veja-se-Th. Pompeo-Ensaio estatistico, Vol. I, pag. 40.
Jos6 Pompeo-Corographia do Cearn". pag. 54. 0 Dr. Jos6
Pompeo reproduz quasi textualmente o que o Senadur Pompeo
esereveo, apoiado nos estudos do Bar3io de Capi.nema e Dr.
Silva Coitinho. Sirvo-ire literalmnente da sua exposi;ao,
(2) 0 gneiss tern a mesma composioo do granito (quartz,
feldspatho e mica), do qual se distingue pelo parallelismo das la-
minas de mica e. em geral, pelo alougamento dos graos de
quartz, que tomam a formal lenticular. Veja-se iapparent-
Traitd de geologic, pag. 701. Alem disto os elemcnitos de feldslpa-
tho attingem raramente nelle as dimensoes que apresentam no
granito. P. de S6de-Conferences sur l'hist. natur. pag. 236.

(3) 0 micaschito 6 essencialmente formado de quartz e
de mica, as mais das vezes de bistite, dispostos em zonas alter-
nadas.






61

grossa, e seceas de silex, quartz rolados, (1) rochas porphyricas
varindas, e em muitas parties calcareo primitive. E' esc;sso o
terreno secnndario.
FURMAniAES TERCfARIAS.-Parece que as formagoes ler-
ciarias sao raras no Ceara, Pomo em geral no Brasil, ou re-
vestem caracteristicos indeterminados que as tornam diver-
gentes da forma classic no continent europeu. 0 Dr. Lund
opinara niao somente pela inexistencia de terrenos terciarios,
como a dos secundarios no Brasil. Castelnau, se bem que
ciutelosamente, rnomo se exprime o bnaiio do Rio Grande (2),
corrobora a mesma opiniato. "Talvez chegaremos um dia a
conclusao de que a maior parte quenle e baixa da America
do Sul seja mais antiga do que as terras elevadas em soleva-
mento da Cordilheira. (3)
0 professor Hart inelina-se a crer na existencia destes
terrenos, pelo que se lM na sumn Geologia. [4) "Durante o perio-
do terciario a parte mais alta do paiz (Brasil) esteve 3000 pes
abaixo do nivel actual do mar, tendo sido a submersao geral
ou quasi continental. Os terrenos que entao se formarao, no-
meadamente as grts da chapada central e das extensas lom-
badas, assim corrmo algumas argil;s mais antigas, sao terrenos
terciarios, nao s6 por que nAo se observam nelles nenhuma
perturba;fio cstratigraphiea. como por naio ter sido esta estra-
tificaoio perturbada pelos depositos inferiores do cretaceo, e


(1) "Uma cousa curiosa 4 a grande quantidaide de seixos
rolados que cobre inteiramente unia grande extensao de terre-
no ao p6 do serrote da hola (a 4 kilom. da cidade de S. Anna)
pelo lado oriental. Dir-se-ia unia vasta depressAo cheia com-
pletamente de pedras pequenas arredondadas. Quem se appro-
xima do serrote, pelo caminho que vai de S. Anna. tern de
andar algum tempo sobre seixos soltos. As pessoas, corn quem
iamos disseram-nos que em certos lugares esses seixos chega-
vain a profundidade igual a altura de um home.
Joao Franklim de Alencar Nogueira-na Berista do Instit.
Hist. e Geogr. brasil.-1893.
(2) B. do Rio Grande-0 fim da creado. pig. 412-
(3) Castelnau-Viagem, etc., T. III, pag. 278.
(4) Hart-Geologia, pag. 139.






62

ainda por se achar alastrada, por eima, de camad.,s de drift on
eascalhos alluviaes da idade glacial."
E. Liais (1), cuja autoridade em geologia brasilica nao pode
ser invocada corn seguranna, chega a conclusao de que "'a falta
absolute de documents provenientes de exames fosseis, somen-
te cousideramoes estratigraphicas podem fixar a idade dos ter-
reuos de que se trata. Mas ainda assim esta fixagao nao dei-
xa de ser muito vaga, pois que tudo o que se pode fa-
zer, e reconhecer que essas forma 6es pertencem ao period
terciario, sem se poder determinar a epoca deste period. a
que ellas se devem referir,
0 professor Branner nao s6 indica os terrenos secunda-
rios do Brasil, como os terciarios. SAo suas estas affirmag6es :
*'No plannlto central as camadas cretaceas apresentam-se
corn a espessa.ra de cerca de 300 metros formando chapadas
que caracterisam especialmente a regiao entire o rio S. Fran-
cisco e os rios Jaguaribe, Parnahyba e Tocantins. Entre estas
chapadas a mais bem conhecida e a da Serra do Araripe, em
enja base se encontram coucregoes calcareas contend peixes
fosseis. bellamente conservados. (2) Depois de se referir a ser-
ra do Araripe, regiao cretacea typical, como elle a chama, ac-
crescenta que "desta regiao estendem-se diversas chapadas que
pela semelhanqa nos caracteres topographicos parecem per.
tencer a mesma formaego ; supposigao esta que se acha de cer-
to modo confirmada pela occurrencia de madeiras petrificadas
de typos que nDo devem ser mais antigos do que a cretacea
na regiao de Therezina, no vajle do Parnahyba e na Indaia.
no alto S. Francisco. Uma destas chapadas corn o none de
serra do Apody estende-se na zona limitrophe dos Estados do
Ceara e R: G. do Norte e tambem alcanqa o mar. (3)
"No Brasil as rochas terciarias cobrem uma zona estreita


(1) E. Liais-Geologie. du Bresil, pag. 95.
,2) John C. Branner-Geologia elementar-Rio 1906, pag. 273.
George Gardner-Geological notes made during a journey
from the cost into the interior of the province of Ceard-Edimburgh
1841.
[3] J. C. Branner-Geologia elementary, pag. 274.






63

no long da costa desde as visinhancas da Victoria (Espirito
Santo) at6 o valle do Amazonas. Em diversos lugares esta
zona estA muito estreitnda on mesmo completamente destruida.
Em Ilhnos, por exemplo, nao existem rochas tercinrias na costa.
Ao norte de Ilh6os a zona contindia estreita e quasi sem in-
terrupyio at6 perto do cabo de S. Roque.
*'A nordeste do Cabo de S. Roque esta zona estreita, de se-
dimentos terciarios, se estende ao long da costa do Ceara. (1)
Esta penuria de rochas terciarias na America do Sul le-



[1] Ibid pag. 279-Em outra obra do iPustre geologo ame-
ricano Branner-A geologia cretacea e Terciaria da bacia do Brasil.
traduzida em portuguez pelo Dr. Manoel dos Passos o publi-
cada em Sergipe em 1899, lb-se a pag. 97 :

"-0 que conhecemos das camadas cretaceas do interior da
provincia do Ceara deriva quasi exclusivamente das observa-
(Oes e collee(;oes do Gardner feitas ha 50 annos. Com excepiao
de Capanema, delie e que houve suas infornmaqoes a maioria
dos escriptores que se referem a taos camadas.
Os factos mais importantes, apontados por Gardner, sao
a seceao geologica da serra do Araripe, que. comegando na
base, consta de c;nmadas horisoutaes de lignite calcareo, gres,
giz e silex, formando o strato d-i gres a mass da chapada.
A espessura total da see<;ao 6 de 1200 a 1500 p6s. A rocha
subjacente parece ser ardosia, provavelmente paleozoica. Os
peixes fosseis, encontrados occorrem em concreqoes difundidas
junto U. superficie, que, se suppoe, terefn sido gastos pelas
aguas. Nato se couhece a exacta posiao dos fosseis na seeao.
Gardner acredita term sido expostos da eamada de grs,
mas Hart, que entretanto nunca visitou a localidade, e de opi-
nido que elles prov6m de nama camada abaixo da gr6s, que
elle attribue ao terciario, juntamente com outras camndas sub-
jacentes. A serra dirige-se do NNE. e 6 uina elevada eliapada
de cerca de 30 milhas de largo, separa-se um pouco abrupta-
mente em ambos os hldos, sendo o valle do lado do Ceari urm
pouco mais baixo do que do Pianhy. A destribui<;ao geogra-
phic-a quo Gardner attribue a essas camadas, a saber. desde
este ponto at6 o Maranhao. nio 6 assegurada jA por factos
dados por elle, on por qualquer outro que subsequentemente
tenha vindo a luz. Os peixes fosseis, colleecionados no Crato e
em suas immediagoes por Gardner, fcram descriptos por Agas-






64

vou Ch. Darwin (1) a attribuil-a, na costa Occidental do Con-
tinente sul americano a circumstancia de est;er ella em via de
solevamento. Esta razao, por6m, nao prevalece em relacgo a
costa oriental, sendo necessario recorrer a aciao degradante dos
agents meteoricos e a outros mechanics para explicar o facto.
FORMAQ()ES CRISTALLINAS.-Em muitos lugares a emersao
gueissica on granitica acha-se agrupada em cabecos e serro-
tas, que no dizer do Senador Pompeo sao como ilhas do ser-
tao. Tal 6 o agrupamen.to das serras Camari e JoA, separa-
das pelo Boqueirao da Arara da de Maranguipe, a qual,
segundo diz o barao de Capanema, 6 notavel pela vegeta&ao,
que tern muitos representantes identicos a do Rio de Janeiro,
vegetando da mesma forma em barro vcrmelho, procedente
da decomposi~iAo da rocha; alli abundam fetos arborescentes
do genero alsophila. Na serra visinha (Aratanha) 6 outra a
vegeta&o, sendo igualmente different o product da decom-
posigao rochosa: pela m6r parte 6 um terreno acinzontado,
cheio de gritos de quartzo e crostas feldspathicas ainda intactas.
A maior part da formagtao da serra de Baturite e gneissica.
coin camadas que correm aproximadamente de L. a 0: mas uns
proximidades da cidade de Baturit6 as rochas sao schistosas (2),
sis que a(redita pertencerem a idade cretacen, (a) Deve-se to-
davia mencionar nesta connexao que o Dr. J. S. Newberry e o
Dr. E. D. Cope tem esses peixes como da idade jurassica. (b)
(a) Edimibur New Philosop. Journ. Janeiro 1841.
(b) Deve-se accrescentar que 6 possivel haver equivoco em
se attribuir ao Dr. Newberry esta opiniao, por quanto em urma
recent conversa commigo reflerio-se a esses fosseis como da
idade cretacea.
(1) Ch. Darwin-Origem das species, cap. 9, 9 5.
(2) 0 schisto 6 uma rocha metamorphic, que, como tal,
soffreu na sua contextura e composicao mineialogica modifi-
cagoes posteriores -, sua formaygo. As causes determinantes
destas modificagoes sao multiplas. mas as principles podem
ser referidas a duas : acoCes chimicas ou calorificas exercidas
das pelas roch;ls eruptivas por occasiao do sea derramamento
(6panchcment) sobre os terrenos atravessados; acqoes puri-
mente inecanicas nas regimes de enrugamento (pliss6es) -Ch.
VWlain-Geologic stratigraphique, pag. 210.
0 que caracterisa o schlisto 6 o alinhamiento dos sens compo-
nentes-argil., detrictos cristalinos, etc. em acamamentos sedi-
mentarios.






65

e quasi exclusivamente schisto silicoso e quartzito (1) corn mica,
e as vezes tambem micopsamitico com algumas apparencias de
itacolomito em raros lugares .
Algumas paragens, nas encostas, revestidas de terra. ver-
melha, sao auriferas, por6nu tao pobremente qua uno vale a
pena exploral-a.
0 cabeq.o mais alto desta serra (de Baturit6), chamado-
Brejo de pedras-6 todo composto de quartz e quartzito.
A nascente da serra se the enucurvam dous contrafortes
para former os valles do Candia e Acarape. Um estreito valle
separa-o do grupo de Cantagallo, onde affloramr os calcareos,
que mais para leste se acham na Giboia de envolta corn do-
lomitos. (2)

(1) Os quartzitos sao aggregados cristallinos e compacts
de quartz em graos irregulares ou em cristaes bem formados.
Alguns tomam a textura schistosa, devido a pequenas laminas
do mica : esses quartzitos schistosos podem ser considerados
como micaschitos pobres de mica.
Entre os quartzitos mie;iceos, convem citar a gres flexivel
do Brasil, impropriamente ehamado Itacolumito por diversos
autores. A mica branch e o quartz, acompanhados de sericito
ou de chlorito, aeham-se thi entremeiados de tal modo que as
plans da rocha sao completamente flexiveis-Lapparent-
Traitd de geologic 1905, pag. 707.
(2) A transformacao das rochas c'leareas em dolomia, fre-
quente nas regi6es quentes, 6 explicada por Lapparent no seu
bello tratado de geologia, pag. 337, nestes terms :
--0 sulfato de magnesia, que a agua do mar contem. exerce,
nas regioes quentes. ;jceao particular sobre as rochas calcareas,
sobretudo quanudo o carbonato de cal esta no estado de ara-
gonite (que 6 o caso d-is construe;oes coralinas.] Neste easo
a reacqao miutua das du;s substancias engendra ao mesmo
tempo sulfato de eal anhydro on anhydrito e um earbonato du-
plo de cal e de magnesia, que pouco a pouco se torna dolomia.
Para. que esta reaeitao se opere 6 mister que a agua do
u.ar se concentre nas bacias feehadas e superaquecidas pelos
raios solares. Verifica-se nos laboratories que e a partir de 600
que o sulfato de magnesia comeqa a agir sobre o aragonite em
presenqa de soluqoes saturadas de chlorureto de sodio. Esta
trausformaA"o- mostra comuo. na natureza, a dolomia 6 frequen-
temente acompanhada de anhydrito. Alem disto, as dolomias
formadas pela altera;io de umn calcareo magnesio sao po-






66

No Cantagallo surge umna series de penedos bastante exten-
sos de calcareo e gneiss [1] que reveste aquelle e se acha em
decounposicao; mais adiante, na povoaygo do Acarape, o calca-
reo enebe umra fenda de gneiss, contend fragments do mesmo.
Este calcareo cristallino [sacaroide-eruptivo] apparece em
muitas parties do Ceari, acompanhado de rochas graniticas.
Outro calcareo, de formacao sedimentaria, fossilifero, encontra-se
no Araripe. Variedade de sacaroide acha-se na Serra Grande.
De Baturit6 a QuixadA predomina o gneiss, mais on menos
intervallado de granite. Nesta regifo erguem-se rochas desnu-
das, isoladas, ja muito degradas por agents meteoricos, de
forma singular, ora em degrans horisontalados, culhinados
por eabecos arredcuidados, on rendilhados, semelhando alguus
a assentos [cadeiras], ora em socalcos gretados e cavados
formando caldeiries onde as aguas pluviaes se empogam. Estes
penedos sao syenitos. [2]


[1] So bem que oSeinador Pompeo, levado por informa-
Co5es de Capanema e Coutinho, haja escripto isto. nao posso
comprehended ber a genese deste phenomenon. Como pode o
gneiss, rocha cristallina. envolver o caleareo, sacaroide, que em
takes casos age por injecgoes ou derramentos pelas fendas
abertas do gneiss ?
[2] A denominafao de syenito foi empregada por Plinio a
rocha de Syena no Egypto, que 6 de granito amphibolico ;
mas o uso prevaleceo de se dar este nome. como o fez Wer-
ner. a uma rocha de orthose e de amphibole-Lapparent-
obr. cit. pag. 629.
A familiar dos syenitos 6 formada de rochas a que falta o
quartz livre. mas nas quakes o element bronco 6 quasi ex-
clusivaimente constituido por um feldspatho alclino, pot:.ssico
ou sodico-Lapparent-ibid. pag. (040.
0 syenito normal 6 um verdadeiro granito sem quartz. cu-
jos elemeutos fundamentals sao a orthose e a amphibole horn-
blende.
A apparigao do syenito em Qnixadi, nnde predomina, so-
bretudo nas rochas do Cedro e Faladeira, do aqude gneiss, ro-
cha quartzosa, 6 singular, digna de estudo mais aprofundado.
Tratar-se-a de rochas eruptivas, explosives, semelhantes
as descriptas pelo Sr. Orville A. Derby [On nepheline Rocks in
Brazil] de Agua Suja, perto de B:igagem no Estado de Minas
Geraes, e porventura de fornma'ao post-permiana ?






67

Nas snas proximidades, [de QuixadA] a Serra Branca 6
toda granitica, ao p6 da qual havia uma lage, que produzia
estanho, e que estancou desde que alli fizeram fogueira para
quebrar a rocha. ]1]
Em Quixeramobim as lages superficiaes de granite, que
se veem no rio, contem porqao de cristaes de umn mineral
verde.
De Quixeramobim ao Ic6 encontra-se o gneiss em stractos
quasi aprumados, e outras vezes approximando-se ao micaschi-
to: em various lugares 6 essa rocha abundante de graphito.
Na visinbanqa do Ic6 a formacgo muda de aspect, os ter-
renos primitivos sao em algumas parties interrompidos pelos
schistos argilosos de transigato, sobretudo no caminho do Igua-
ti. Os morros e collins sao de quartzitos de gran fina, as ve-
zes compactos, sem accessories. Perto da cidade as collins sAo
de schistos silicosos.
Na direceao do Crato, rio Salgado acima, acha-se o bo-
queirao de Lavras, aberto numa rocha de quartzito corn degra-
da65es augulosas que tornam os penhascos soltos, despren-
didos, semelhantes as vezes a enormnes fragments de feldspa-
tho ; essa degradacao foi proseguindo interiormente e continue
ainda hoje, de modo a former urna gruta de 200 metros do ex-
tensfo, em cujo fundo se apagam as luzes e o thermometro
sobe A 380 cent. e o psychrometro a 37'. (2)
"0 fundo do Boqueirao, diz o Sr. Revy, [3] forma agora
part do canal ordinario do rio, e as agnas correm pelo Bo-
queirao corn a mesma facilidade como por outras parties do
sen leito; nao ha nenhuma rupture consideravel de deelivida-
de no leito e na superficie do rio; em outras palavras, nenhum
esforgo especial 6 necessario para forcar a passage do Bo-


[1] E' un facto que requer maior averiguaqao.
[2] Percorri esta caverna, cujo aspect de ruins parece
ser o resultado de convulsoes ou degradagbes profundas.
Do tecto pendem a cair blocos enormes de pedra, apenas pre-
sos por estreitas ligaduras. 0 solo acha-se juncado destes
fragments, o que torna sobremodo penoso o seu percurso.
[3] J. J. Revy-Relatorio sobre o aqude de Larras, pag. 10.






68

qneirao. Mas o caso era mnito different ha seenios. Sun his-
toria esta indelevelmente escripta em suas paredes roehosas, e
estas trazem a prova clara das tremendas lutas e das enormnes
forcas que estiveram em acqao para desembaragar a Serra do
Boqueirao de todos os rochedos que impediram o cnrso re-
gular do rio, qualquer que tenha sido a resistencia daquella
barreira roehosa.
A serra do Boqueirao 6 uma montanha de rocha do quartz:
suas camad;is elevam-se para NE. da formagto de gres do
valle, em angulo de 30 a 400.
No lugar do BoqueirAo a montanha attinge a altura de 93
metros, elevando-se para leste a algumas centenas de metros.
Na altura de 93 metros a garganta tern paredes de rochas
verticaes, que formam a margem direita e esquerda do rio:
estas paredes por uma extensRo consideravel ficam af'istadas
quarenta metros uma da outra.
Nestas paredes, e particularmente na occidental ipor causa
da inclina.ao das eamadas para sudo6ste), a luta entire
as aguas do rio v as rochas da serra est;'arehivada em innu-
meraveis perfura95es que os redemoinhos do rio fizeram na
mnssica rocha quartzitica; estas perfnragoes variam em dia-
metro de umna fracqao de metro a muitos- metros.
Parte das perfuraqOes permanece nis solidas paredes, par-
to rolou no leito do rio e desapparecen.
As perfuraq6es restantes sao todas polidas no interior;
sao conicas: na boca term de um a muitos metros de dianmelro,
e no fund terminam frequentemente em ponta : sua pro-
fundidade 6 de 5 a 10 metros.
Onde as emnadas da montanha nao foram alteradas por
outras causes, a superficie da parede 6 uma unica massa de
restos destas perfuraSes.
Isto 6 particularmcnte o easo com a parede occidental
onde. em consequencia de inclinarem-se as camadas para den-
tro da. masr-a montanhosa, os rochedos nao escorregaram para
o precipicio : emquanto que, no parede oriental, que forma a
margem direita do rio, todo o roehedo. bolapado pela base,
escorrega para o precipicio e' cae no rio: desapparecendo,
portanto, as recorda95es, da luta em taes lugares.





69

Seguindo as linhas de perfuragoes na subida ingreme la-
teral, da parede occidental, observe grande numero destas na
montanha, restos de perfuraq.aes miuito antigas, que provavel-
mente pertencemn a uma outra epoca geologic.
Estes restos s&o as parties que foram moidas em forma de
lages de solido quartz: as que contem mica se desfizeram no
lapso de dezenas de millesimos.
Encontrei a mais alta destas lages de quartz que c)ntem
parte desta perfurmio correspondendo a um diametro de
31n 15, e 4111 ,731 de altura, aeima do nivel actual da agua no
poto do Boqueirato, ou, em numrnro redondo-38 metres acima
do nivel da mais alta enchento conhecida do Salgado. Por-
tanto, em umn tempo remote as aguas deste rio estiveram uma
vez ao menos 38 metros aeima do nivel actual da cheia do
rio, e como a maior parte das terras do valle de Lavras estA a
muitos metros abaixo deste nivel, segue-se q'.e, durante aquelle
remote tempo no qual esta perfuragAo foi feita, o valle de
Lavras estava coberto d'agua, e era pois um lago interior.
A inclinaqAo de terreno no vallo de Lavras 6 quasi um metro
por kilometro ; portanto as agmas deste lago estenderam-se
por valle nimna uma distancia de pelo menos 38 kilom. do Bo-
queirao ; at6 aqui a cadga de provas 6 complete ; seus los sao
factors ela--os e nao field logar para duvida a 'respeito da con-
elusiao.
E' provavel que em algum tempo o nivel daquelle l:go foi
mais alto do que o da dita perfuragAo, e 6 possivel que suas
aguas chegassem a 6 a cachoeira perto da villa da Missao Ve-
lha, 85 kilom. do Boqueirao de Lavras.
0 nivel do dito lago subio at6 que achasse uma sa-
hida para as aguias que desciam das montanhas em torno.
Esta sahidsi achou-se numna depressao, na linha de eumieira da
serra, em umn lugar situado acimna do present Boqueirao.
As aguns, transbordantes do lago, descendo pelos ingrpmes
flancos da miontanlia em uma series de eataractas e redemnoinhos,
pelas tremendas correntezas devidos a sua qu6da earregaram
comsigo pedras grades e pequenas para os buracos formados
delos rochedos destacados, e as masses d'agua, redemoinhando
com estas pedras, reduziram-nns a p6 e meeram esses bura-






70

cos em eirculo, cada vez mais funds, at6 passarem atravez
umia camada do rochedo. minando e destacando masses de
rochas e catregando-as para o canal do rio. Assim, pedra so-
bre pedra foi destacada do leito do monte quartzito pelas
aguns do lago, que roeram e cavaram sen proprio canal cada
vez mais fundo atravez da montanha, abaixando no mesmo
tempo o nivel do lago: at6 que corn o curso de seculos o ea-
n;l por cima da montanha foi escavado at6 o nivel das terras
v rochedos situados acima e abaixo da serra do Boqueirao-
outao o lago desappareceu, e o actual valle de Lavras ficou a
nf corn as ricas terras alluviaes, que o dito lago havia depo-
sitado em epoca anterior.

A primeira vista parece apenas crivel que a agua escavas-
se uma garganta atravez de uma montanha, como a do Bo-
queirao, composta da rocha mais dura que se couhece, na
qual o ago ordinario nRo faz mossa. Mas convey lembrarque
justamente como o diamante 6 talbado e polido corn o sen
proprio p6. assim o Boqueirao de L-vras foi cortado e polido
pelos de.tro'as de suns proprias rochas quebradas e pulveri-
sadas ;-houve alem disso abundancia de forga mechanic para
executar esta operacqo, o que se torna claro pelas seguintes
ronsideraeOes.

As enchantes de epocas passadas foram maiores do que as
de agora: ha ampla prova scientific em favor desta hypo-
these. Mas, suppondo que o volume das enchentes provenientes
das estaO'es chuvosas dos tempos passados tenha sido o mes-
mo, qual 6, e calculando somente a forga de enchentes regu-
ares, que medem 31 1/2 m. vubicos por segundo. o effeito me-
canico produzido pela descida daquella massa de agua do ni-
vel do antigo lago, 38 metros acima do nivel da eheia do
rio abaixo do Boqueirao, seria igual a forxa de 150.000 caval-
los em numero redusido, trabalhando constantemente durante
a cheia: e occnpados em esmigalhar os rochedos que obstruem
o cainl. A obstrucqao tiuha naquelle tempo unia extensAo de
cerca de 200 metros comn a largura media de 00 metros. e
npresentava uma superficie de cerca de 12.000 metros qua-
drados. Havia, pois, para cada metro quadrado do funda ro-
choso do Boqueirao uma forca de mais de 12 cavallos, empre-






71

gada em moor e redwiir a obstructaio rochosa, produzindo) i
actual BoqueirAo." (I)

Nas faldas da Serra do Boqueirao existe em alguns lug;-
res terrn vermellha aurifera, e A. pequena dist:uicia da cidade
de Lavras estao os entulhos das antigas lavras de ouro -que ahi
se fizeram.
TERRENOS SEDIMENTARIOS.--Pelo Salgado acima, onde en-
tra o rio dos Porcos, muda a formaq o do terreno. pass de
granite a hpsamenito (gr6s e areaa, talvez at6 as extremes onde
antigamente devia ter chegado a serra do Araripe.
Perto de Missao Velha encontra-se vasto lagedo dle pedra
schisto argiloso. Suia superficie 6 lisa e polida, e em certos lo.
gares vernielha, compact e muito dura, corn o aspect de
jaspe: 6 atravessada de fendas eapillares. careomidas pebis
aguas. 0 rio precipita-se ahi de mais de 7 metros.
OndulaSoes de terreno, ora de barro vermelho, ora graniti-
co, nmonticulos em torno dos quaes se sedimnentarain as aguns,
que em outros tempos as deviamn ter coberto, formal a ba-
cia do Crato Os intervallos destes oiteiros sao curtados por
muitos corregos, que chegam a empogar : mas os extensos
brejos de que ainda ha tradicgAo estao aterrados por detrictos
vegetaes, massas de turf, fluctuante emn alguns sitios, que
hoje estio cobertos por eseassos eannaviaes.
Uma rampa, devida a long desnudagAo, encosta nos bar-
rancos verticaes cheios de sinuosidades do grande desenvolvi-
mento, que forma a serra do Araripe. Esta serra, toda carco-
mida, diz o barrio de Capaaema, 6 urn insignificant resto de
unm colosso de areas que alli foram depositadas.


(1) 0 engenheiro P. Omeara. que estudou posteriormente
o valle de Lavras e o local preferido pelo Sr. J. J. Revy para
o aqude, confirm as asserv6es deste na parte concernente a
descripgao do valle :
"Whilst confirming the general accuracy of his descri-
ption of the Lavras Gorge, of the site of the reservoir basin
(irrespective of its hypothetical state in former ages) and also
of the extent and admirable quality of the plains of the Ja-
guaribe Valley.-(Irrigation of the Jaguaribe Valley. pag. 6)








0 largo ville que a separn da serra do Salgadinho (90
kil.) era occupado por ella, pois que sobre esta cordilheira
granitica se acha ainda algnm psomenito. A parte superior da
serra e toda composta de psamenito avermelhado corn nodu-
los azulados, e raras vezes negros : acontece ser em alguns
lugares a argila perfeitamente branea, e della se servem para
caiar casas. [1]


(1) Este grandiose phenomenon de desnudamento pode a
primeira vista pareeer exagerado. Os geologos, por6m. que
tem estudado o Brasil nao attribuem a ontra cousa o quasi
desaparecimento das tormag6es terciarias. 0 professor J. C.
Branner-pensa que "a actual distribuiqao do terciario, a ho-
iisoutalidade das suns camadas e os elevados angulos das suas
margeus expostas, tudo mostra que a desnudHafo das rocnas tern
sido e vai ainda se operando rapidamente, qualquer que
seja a causa. A erosao e desnudaiao ainda estao em progress.
e algumas das causes podem ser estudadas no solo. As cama-
das terciarias formam frequentemente facies de seccas e este-
reis planaltos ou terras chas conhecidas por-chapadas e labo-
leiros. Em alguns sitios essas chapadas sao quasi baldas de ve-
getaato, estAo profundamento rasgadas em quebradas, bar-
rancos e gargantas corn uns duzentos pes de profundida-
de. Taes sitios sao muito communs as margens desses pla-
naltos.
A grande desnuda;ao das camadas terciarins 6 devida as
cilco princip-es causes seguintes :
I Impenetrabilidade da superficie argilosa ;
11 Esterilidade do solo, resultante da nudez de vegetaqao, e
por couseguinte da falta de protecao do mesmo ;
III Natureza irresistente das rochas ;
IV Grande precipitaago concentrada dentro de alguns mezes
do ;nno, augmentando em iazao geometric o poder des-
truidor e arrebatador da agus :
V Temperature da agua consideravelmente elevada sobre as
niras e quentes argilas da superficie.-[J. C Branner-
Gcolog. Tcrciaria do Brasil, png. 120].
Mais adiante [pag. 125] accrescenta Brmnuer:
Todavia, em geral, a erosaio das camadas terciarias nio
parece andar tAo rapidamente quanto outr'ora. e corn effeito
nao cremos que a extensa desnudaqao do terciario, occorrida
no Brasil. seja somente attribuida a erosao sub-aerea. Parece
provavel que a m6r parte deste trabalho foi feito pelo tempo
e immediatamente ap6s a emergencia dessas camadns do tun-






73

0 Araripe 6 nimiamente jurassico (1) diz o Dr. Marcos de
Macedo-uma circuinstancia notavel apparece para que o geo-
logo classifique em duas divisbes, bern distinctas, o terreno do
Ceara.
Por toda a parte, no interior da provincia, se en,-ontran,
deposits calcareos cristalisados, o que nao se vA no Cariry.
uiem em torno do Araripe, onde este mineral se apresenta,
seja em grades e pequenas estratifiea;6es, seja em forms
prodyposas. tal 6 a pedra de cal de Milagres. No Cariry e em
todo o terreno visinho do Araripe so encontra de envolta corn
calhaus rolados, deposits de peixes fosseis e ossadas de ma-
miferos de families extinctas. Segundo pareee, a baze do Ara-
ripe 4 formada de grandes camadas de estractificaqoes cal-
careas e de pedras de cantaria, a que os geologos inglezes
chamam-lias-e os canteiros portuguezes eserevem lioz. os
quaes se mostrain nhs eseavaaoes feitas por agnas correntes,

do do ocean, quando ellas eram mais molles do que actualmen-
te. e primeiro que a vegetauao cobrisse a superficie. Em mui-
tos lugares a erosiio do terciario, onde a vegetaqlo 6 densa,
tornou-se praticamente nil, (nenhumna). A grande largura da
maioria dos valles e as precipitadas faces das eordilheiras ter-
ciarias que os debruain, levam a pensar que esses montes fa-
ziami face ao Oceano oi form praias de bahias nos tempos
da elevagao de terra do fundo dos mares tereiarios.

(1) Dr. Marcos A- de Macedo-Obscrra<5es sobre as seccas
do (eard-cit. pag*. 51.
Em urn estudo especial do Dr. Marcos de Macedo sobre a
serra do Araripe, 1e-se :
"Ainda nao se fez umr estudo especial sobre a natureza
geognostica desta serra : pordm se ve ao primeiro aspect que
a sua foria-taqao 6 puramente meeanica, e de descimeuto. Em
geral as subidas silo talliadas a pique, e a rocha que parece
dominantle e formada de greda coin nodulos ferruginosos e
oca enearnada.
E' sobre a banda oriental desta mesma serra que tenho
feito algumas observayo)es sobre as 'fornmaloes geognosticas,
por6m nuao so ellas sufficientes para dtr um verdadeiro co-
iheecimnento de sua natureza,
Logo que se acaba d d(lescer a serra, apparecem nas lom-
badas adjacentes dnas naturezas de terrenos, que pelas suas
estractifica6oes, fosseis e ruinas, se conhece perfeitamente






74

de envolta corn diversas formaives de gres, de taui. de calca-
rios oolithicos, globulos de pedras ferrugioosas: jazigos de
authracito e de tabatinga : rochas de formaiao iguea, como as
pedras gigantebeas, que se veem na caverna da povoagAo do
Cajueiro, as quaes sao arredondadas polo transport, nas di-
versas revoluvoes do globo
Todas essas formayoes de bazes heterogeneas, extrahidas
e transportadas de seus jazigos nataes, formarn o deposit
immense do Araripe e repousam sobre leitos de argilla im-
permeavel, os quaes sendo inclinados para leste e norte dao
lugar a corrente das aguas accumuladas pela infiltraqo das
chuvas, que eaein na superficie da mesma montanha e em
ontros Ingares de elevatio superior, as naseentes do Ca-
riry."
Por baixo do grupo psametitieo, que contem nodulando
grades massas de pedra do Mucuripe, estende-se uma camada


que sao de mares antigos, a quie os geologos custumam chamar
Pelagicos. A primeira divisho, que se acha mais visinha da;
serra, parecee pertencer ao systeina purassico, tendo por limi-
tes superiores as fortn'aoes de greda, os calcareos concretos,
grandes bancos de marine (marga) em estractificagoes pouno
inclinadas e sulfato de ferro. Todo esse terreno compoe-se de
urna successao de collinas arredondadas, que se vio levantan-
do e formam a base do Araripe : delle sae um sem nuniero
de ribeiros, que regain a comarca do Crato, sendo o princi-
pal o Batateira. Antigamente esses ribeiros ao desprenderem-
se da montanha formavam pequenos lagos, que hoje se achain
deseccados pela cultural, em alguns dos quaes v6-se uma espe-
cie de turfa de formagao prediluviana.
Todos os calcareos, que apparecem nesse terreno, sRo
concre96es, mais ou menos grosseiras. apezar de que se desco-
bre acima da cidade do Crato. As septanarias e as camadas
de calcareos. de que falei, formal banco de 30 e mais palmos
de altura em estratificaoes, que pouco se afastam do plano
horisontal, e parecema center noophytos.
Toda e-sa rocha 6 dividida em Iminas. mais on menos
grossas. de que prinmipiam a fazer uso os habitantes do Crato
para calhadas. Creio que nao serA da rocha chamada graphite,
por6m talvez pertenga a ordem das concregoes jurassicas, en-
tre as quaes apparocem laminas com veios azues e encarnados :
entire essas camadas de rocha alguns pyritos e a soda em






75

calh.area. excessivamente folkacea; e lugares ha, como Sant'An-
na. onde ella 6 de gram final que pode servir para lithographia.
Serve de leito a este calcareo uma camada de Tana negro,
entremeado de higes de palmo de espessurm, do um psamenito
azulado durissimo, que contem veias de pyritos e de sulphu-
reto de chumbo (galena), outras vezes alternado corn schisto
muito betuminoso, contend os mesmos sulphuretos e nodu-
los esphericos. (1) Ainda mais abaixo apparecem psamenitos
menos argilosos (2) que. parece, pertencem no system permico.
A part superior, de certa altura, pertence a formacao cretacea.


efflorescericia. Tambem apparecem nesses terrenos peixes fos-
seis. . Acima do terreno jurassico existem algumas caver-
nas, abertas no talhado da serra e que a penetram mais ou
menos. . Continuando a deixar a serra, depois dos terrenos
jurassi!os, apparece o lias, que se reconhece pelo aspect ca-
vernoso do terreno e suas forma(o3s sempre grosseiras e de
sedimento a roeba doininante desse terreno e o gr6s. 0 terre-
no entire Milagres e a serra do vMaosinha, no lugar denominado
S. Pedro, contem minas de zinco. que parecem abundantes.
Depois do lias vmin os plutonicos, onde prine.piam os
granitos.e outras roehas, de igual formacao. Ahi se v6 (mas
approximaQ6es de Mis,?ao Velha) um vulcao extineto, por cuja
cratera se precipita o rio Salgado, formando uma cachoeira bas-
tante alta e curiosa. .
Do lado do Exfi apresenta-se um grande espaqo coberto
por uma s6 rocha granitica, bastante curiosa, porque o espathi
predomina em forma de moidos de prata, algumias dos quaes
de grande tamanho, a superficie superior dessa rocha. que estk
ao rez da terra, e que so plan. e corn os raios do sol forma
umna vista encantadora..-Marcos Antonio de Macedo-Crato,
8 de Janeiro, 1855.
Descripqdo dos Terrenos carbonianos da comarca do Cratdo.-
Do Diario de Pernambnuco

(1) Este schisto bituminoso foi tido por carvito de pedra.
mas, segundo o Dr. Capanema, s6 serve para producqao de
oleo para illuminai tAo.-Th. Pompeo.-Ensaio Estatistico do
Ceard, pag. 48.
(2) Em S. Pedro o Dr. Gaonalves Dias achou na rocha ma-
deira fossil que corn a semelhan.a da descoberta no Egypto
deixa support que esta rocha inferior pertence ao system
peiiico, que na bacia do Sousa 6 representado, diz o Dr. Ca-
panema, por dous conglomeratos.-Th. Pompeo, ibid.






76

Na ponta do A raripe, voltada para S. Pedro, ha rima
montanha meio isolada, onde se acham grandes porgqes de ro-
chedos de gesso vitroso sulphateo de cal). Nas carnmadas calca-
reas affioram alguns saes de soda e potassa, e at6 sulphato de
alumen. (1)
Na costa maritima at6 cerla distaneia para o interior,
consta o solo de grandes agglomerac6es arenosas impellidas
pelo mar Ais praias. e d'alli pelos ventos, quo assim farmam
losses comoros de area movediga. Na opiniao do barao de Ca-
panema 6 da serra do Araripe em decomposi.Ao que veim essas
areas, as quaes sao levadas pelas correntes ao mar. (2) Em
muitos pontos essa area foi penetrada por um cimento que a
transform em rochedo, como na barra do Pacoty: alli, coino
na Bahia do Rio de Janeiro, se veem provas do levantamento
da costa. No Mucuripe consolidam-se coin o auxilio do oxido
ferruginoso e argila. e formal umna baze durn. cheia de fen-
das verticaes, cortando-se em diversos sentidos, o quo a tornta
identical ao psamenito do Araripe, logo que as agues levem o
oxydo de ferro.
Afastando-se do literal, por baixo das areas se achamr
terras aluminosas de diversas naturezas, e debaixo destas as
inesmas areias grosses sobrepostas a rochns primitivas que de
espaeo em espano, principalmente nas proximidades da serra,
surge A superficie.
0 sabio professor L. Agassis, no pensamento de que o pe-
riodo glacial se estendeo at6 a zona intertropical, diz (3) que


(1) Segundo o Dr. Capanema s6 se eneontram na provincial
essas camadas de sedimento realmente impermeaveis, por6m
horisontaes. e por isso nao se prestam a paqos artesianos; as-
sim como as nao argilosas do Ie6 por serem quase vertieaes.
As camuadas da Serra Grande (Ibiapaba) tambem nao Iho po-
deram dar esperanias de pogos artesianns, s:ilvo- para o lado
do Pianhy, por onde ellas inergalhiao.-Th. Poinpeo-obr. cit..
pag. 48.
(2) Segunlo o Dr. P. Berthot as arei;is litoraes do Ceara
sao trazidas d'Africa pela corrente pelagica: esta opiniao 6
tambem a de Moreau do Jonn6s.-Antille physique.-Th. Pom-
peo-obr. cit., pag. 49.
(3) Apud M.ine Agassiz-A journey in Brasil, capitulo so-
bre o CearA.






77

"pelo exame da estructura geologica da serra da Monguba
verificou que todos os seus valles tiveram geleiras, e que estas
arrastaram das fa'das das collins a superficie das planicies,
blocos, calhaus, restos de toda sorte.
"Na serra d'Aratanha os phenomenon glaciarios sdo tAo
legiveis como em qualquer valle do Maine ou nas montanhas
do Cumberland (Inglaterra).
E' evidence que houve uma geleira local formada pelo en-
contro de dous ramos, que desciam de duas depresses, si-
tuados a direita e a esquerda da parte superior da serra, e
juntaram-se abaixo no fundo do valle. Grande part da mo-
rena median, formada pelo encontro destes dous ramos, pode
ser ainda seguida at6 o centro da planicie. Uma das morenas-
laternes esta perfeitamente conservada; o caminho da villa
a corta, e esta (hoje cidade) ergue-se dentro da morena ter-
minal que a contorna em forma de erescente, em frente da
mesma. E' facto eurioso que no centro da morena median,
occupada por uma pequena corrente, abrindo camiunho por
entire escombros rochosos e blocos, eneontre-se deliciosa bacia
cercada de laraugeiras e palmeiras."'
A nota de Agassiz, communicada a sua mulber, e que esta
transcreve diz : "Emprezuei o resto do dia em examiner a
micrena lateral direita e parte da morena marginal da geleira
de Pacituba. Meu fim era verificar se o que parece ser uma
morena, a primeira vista, nao era simplesmente um dos espi-
goes da serra, ahi decomposto. Subi a aresta de .pedras atW
suna origem, depois a atravessei numa depressio adjacent, im-
mediatamente abaixo do sitio do capitao Henrique, onde achei
outro fundo de geleira do menor dimensao, e cujo gelo nao
deve t.r attingido o nivel da planicie. Por toda a parte, nas
filas de pedras que formam a montante essas depressoes, ha
tal accumula.Ao de materials. de transport e de grades blo-
cos inerustados na argila e areia, que sen character nAo 6 des-
conhecivel. E' effectivamente uma motena. Emn certos lugares
orde uma camada de rocha subjacente mostra-se a super-
ficie, em consequencia das desnudacoes que arrastaram o
drift, a differenga entire a morenla e a rocha decomposta no lu-
gar reconhece-se immediatamente. E' igualmente facil discer-
nir os blocos que, aqui e alli, rolaram do alto da montanha e






78

esbarraram na morena. As tres consas acham-so lado a lado
e podium ser confundidas ; mas, comr um pouco de applicaao
e de pratica, chega-se logo a d istinguil-as.
No lugar em que a morena lateral se curva para enfrentar
a antiga geleira, proximo ao ponto em que o riacho da Paca-
tuba o corta, e um pouco a occidente deste riacho, existem
blocos gigantescos, apoiados nella, e que provavelmente es-
corregaram de sua cumeiada.
Perto do cemiterio, a morena frontal consiste quasi inteira-
mente em seixos de quartz, entire os quaes alguns bern volumo-
sos. A morena median estA pouco mais ou menos ao centro da
villa, emquanto a morena lateral esquerda jaz f6ra de Pacatu-
ba, na sua extremidade oriental, e 6 atravessada pela estrada
para Fortaleza. Nao 6 impossivel que mais para leste, um ter-
ceiro tributario se tenha juntado a principal goleira de Paca-
tuba. Posso dizer que em todo o valle do Hasli, nao h:a accom-
mulaQgo de materials provenientes de morenas, mais caracte-
ristico de que o encontrado por mim aqai, nem mesmno perto do
Kirchet." (1)


(1) Como p6de o illustre naturalist, que na sua patria
(Suissa) tanto estudou este assumpto, enganar-se tao ingenua-
mente Estudos posteriores, de seus discipulos Hartt, Orville,
Branner, o outros, vieram mostrar seu engano.
Hart declara que "o professor Agassiz nao baseou a sua
estructura do Amazouas inteiramente nos seus proprios es-
tudos; informagoes incorretas o euganaram. Nao vi no valle
do Amazon:,s nenhum vestigio da aeao das geleiras, que elle
suppoz term existido. Se elle tivesse visto metade dos f'actos
que eu tive a felicidade de descobrir, estou convencido de que
uno teria apresentado a sua theoria." Vja-se a sua Geologia e
Geographia physical do Brasil.
Liais combat por considera96es theoricas a supposta
existencia de geleiras no Brasil. onde elle nao reconheceo
o menor vestigio. Pensa, ao contrario, que a temperature da
zona torrida foi mais alta no period glacial do que 6 actual-
mente.
0 Sr. Orville A. Derby. no capitulo intitulado Estructura
geologica e mineraes, da Geographia do Brasil de Wappaens-
pag. 35, escreveu : "Nao estA prorada a existencia no paiz de
verdadeiros deposits glaciaes. Alguns geologos, por6mn, tern






79

Resumindo os caracteres primordiaes da constituiqao es-
tratigraphica do CearA, escrevi na vistaa do Ceard. \1)
Sejam, porem, quakes forem as divergencias acerea dos ter-
renos predominantes na geognose cearense, sao minis ou me-
nos uniformes as opinides dos geologos, que a estudaram, em
assigualar a existencia a certa profaundidade de umra rocha
granitica ou mais propriamenie gneissica, que constitute a
ossatura sobre a qual se empinam on se horisontalam em es-
tractificap5es mais ou menos delgadas as formagSes poste-
riores.
So em virtude de erosAo violent, resultante de agents
meteoricos de grandiosa possanqa, quaes soem produzir as
prolongadas e intensas bategas pluviaes, ficaram as rochas
gneissicas desnudadas, emersas sob formas esqueleticas, aqui
e alli, como no QuixadA, os terrenos sedimentarios, que as re-
vestiam, deveriam ter sido carreados por forga gravitatoria
para os baixios do solo, e particularmento depostos no curso
inferior, senao medio, das grandes ravines, a que impropria-
mente chamamos rios, formando ahi estensas planicies alln-
viaes, cujos sedimentos se alternam' de gr6s final e agglati-


referido a ac.ao de geleiras corlos depositos superficiaes cuja
origem 6 ainda problematica"
"Ha lempos levanton-se a hlypothese, diz o Sr. J. C. Bran-
ner-na sna Geologia elementary. pag. 13,-de que estes boulders
(blocos de pedra arredonda.,los) haviam sido espalhados no
Brasil pelas geleiras durante a epocha glacial-umr period
frio que se sabe ter existido nas regioes mais proximas dos
p6los. Entretanto, estudos posteriores mostraram que esses
boulders se originarain, proximo ou mesmo no proprio ingar
onde se encontram, pelos processes do exfoliacao e decompo-
siAo." Veja-se tambem J, C. Brauner--"The supposed glaciation
of Brasil-Chicago 1893 ; A. de Lapparent-Traite de geologie-
Paris, 1906-pag. 1689.
Acerca da existencin de suppostos terrenos artezianos no
Ceara-veja-se o que escrevi no Vol. V da Revista da Academia
Cearense, pag. 210.
Ainda sobre as Formaages quaternarias do Ceard leia-se o
que escrevi sobre o assumpto na Revista do Ceard.

(1] Th. Pompeo-A proposito das formaqjes quartenarias do
CearA-Revista do Ceard n?. pag. 10.






80

nante, especie de loess, de seixos rolos, casealho, argila feldspa-
pathica, decomposioqes organicas, sobretudo vegetaes, hu-
miferas, que constituem as terras ricas, prodigiosamente ferteis
das margens do Salgado, no Ic6, do Boqueirao do Cunha a
Aracaty, no Jaguaribe, e em geral as de todos os rios cea-
renses.
Os terrenos quartenarios uno sao tao delgados no CearA,
como pareee entender o illustrado. Dr. Alvaro Fernandes, e se
bern que o chamado alluvial ou terra vegetal seja de recent
forma ;o, attribuindo-se-lhe apenas alguns decimetros de es-
pessura (1), cumpre acreditar, como observa o autor do Fiim
da Creaigo (2), que a sua presena na superficie terrestre noto
6 um privilegio da nossa idade, mas que todas tiveram sua
terra vegetal.
Em abono desta opiniao. isto 6, de que a camada humi-
fera apresenta nas planicies cearenses espessura superior as
identicas da m6r- part do mundo, citarei as sondagens feitas ao
long do Salgado e Jaguaribe pelo Sr. Revy em sitios distantes
e afastados de muitas leguas uns dos outros. [3]
A horisontalidade, quasi perfeita dessas planicies. que-
brando a declividade geral do solo, mostra de modo palpavel
que ellas se formaram das degradaqoes (gneissicas] da rocha
predominant, e de uma vegetaq~o exhuberante, de extraordi-
naria pujuuqa, reduzida, como acontece actualmente, a p6 im-
palpavel sob a influencia do calor solar, muito mais pode-
roso aqui do que nos contineuntes norte. NAo 6 difficil se
reconstruir mentalmente a obra dos agents meteoricos, chi.-
micos e mecanieos nessa elaboraqao.
Se acreditarmos o que eusina a geologia. as alluvioes
anteriores, designadas corn o nomee de diluvium cinzento, sao
devidas as grandes correntes d'agua, mui vastas e extensissi-
mas, que se deveriami elevar de 40 a 50 metros acima do ni-


(1) J. J. Revy-Reservatorio de Lavras, pags. 5 e 7.
(2) Visconde do Rio Grande-0 fim da creaqro, pag- 483.
(3) Cumpre acerescentar as do engenheiro Omeara, jA ci-
tado.






81

vel actual nos rios, que Ihes occupam o fundo, e onde elles
proseguem a obra do erosao. [1]
So em climns de lenta evaporaeAo, quaes os temperados,
foi possivel a formacao de aguas phtviaes de tao grande vo-
lume. nao se pode recusar A zona occupada pelo Ceara a mesma
possibilidade.
Assim, admittido o agent liquid como demolidor da
antiga rocha, acceit-ar-se-ha consequentemente a sedimentaqao
de taes desmoronamentos em sitios buixos at6 o nivel da pro-
xima barreira.
Por outro lado, a falta, senio ausencia complete de conchas
e fosseis vegetaes nesses deposits faria support ou que a sua
formaqao precederia a epoca paleosoica, podendo -ser referi-
do no period devoniano, como pensa Humboldt em rela-ao
a gr6s vermelha, que occapa grande parte do contineute sul-
americano, o q-e si nao compadece com a hypothese,' que ve-
nho aventando, de serem esses deposits product de recent
sedimentaqao,-ou que a sua forma5ao, A semelhanua do que
o professor Agassiz assegura se ter dado no valle amazonico,
se operou no fundo da vasta lag6a d'agua duce,-ou, o que 6
mais verosimil, a seu aberto por acanmaq6es de detrictos orga-
nicos ou rochosos, lenta e secularmente como acontece actual-
mente.
A carencia de fosseis na camada inferior desses deposits
alluviaes explicar-se-ia pela presenga do oxydo de ferro, que
segundo Ch. Lyll exclue ou extingue os vestigios organicos na
formacao das rochas. [2]

[1] Ch. V6lain-Geologie stratig.. pga. 545.
[2] 0 professor J. C. Brauner diz-ser uma forma pe-
culiar ao terciario brasileiro, que exceptuadas algumas plants
encontradas no Amazonas. nao se term encontrado fosseis nelle.
E' certamente digno de admiragao que os fosseis nwo tivessem
sido preservados em camadas da tanta espessura e de tao
larga destribuigio, compostas de estractos de areas e argilas
variadamente misturadas. Este facto tern sido frequentemente
disecltido e explorado pela supposigao de se nao term feito
a tal respeito cuidadosas indagacoes. E' sem duvida altamente
provavel que ainda possam ser encontrados fosseis; mas de-
balde temos procurado em umas mil amostras traqos recouhe-
civeis de remaneseencia organic.
Differentes hypotheses insinuam-se de si mesmos, em ex-








Accresce, como ensina Thner, citado p )r Boussingantt [1]
que a argila se combine com o humus de maneira intima e
chimica, por tal modo que este parece perder as suas proprie-
dades, assemlelhando-se por fim mais Aquella do que a terra ve-
getal [humus].
A argila, que por assim dizer cobre duas terq s parties do
solo cearense, servindo de assento nos recentes deposits al-
luviaes, nao apresenta em sua constituigio, pelo menos de
modo predominate, siguaes de formaqio marinha ou lacustre,
por Ihes faltar o element constitutivo fos'seis de unia ou ou-
tra procedencia.
E' sabido que quando a massa dos detrictos vcgetaes per-


planagao do nao fossilifero das rochas. Depois de examiner
a geologia da regifo amazonense, Agassiz concluio que uma
euorme geleira f6ra oatr'ora arrastada para aquelle valle, e
levantara shi gigantesca inorena: de sorte que, derretido o
gelo, as formai6es que agora sao consideradas terciarias fo-
ram depositadas por aguas frias e lodosas a correrem da ge-
leira para umn grande lago. Quanto a n6s, isto tambem expfica
a ausencia de restos organicos coin exeepcao de folhas, nessas
camadas. Mas, quando mesmo a theoria de Agassiz sobre a
origem destas camadas fosse acceitadas, nao explicar so-ia a
ausencia de fosseis nas mesmas rochas na costa sul-oriental
do Brasil.
Surgem duas hypotheses: 1' essas camadas foram depo-
sitadas tao rapidamente, e por agna tao sobrecarregada de
material mecanicnmente suspense, que tornou-se nellas impos.
sivel a vida animal. Pode-se dizer em relaqao a esta theoria.
que emquanto a maioria dis camadas ferciarias 6 de natureza
a poder supportal-a, ha muitas camad:is de :rgila e area
finissima que foram duramente depositadas corn rapidez ou
por correntes poderosas; 2'' essas camadas, contiveram outr'ora
restos organicos. que foram dissolvidos pelas aguas que se in-
filtraram.-J. C. Bcanuer-A geologia cretacea e terciaria do Bra-
sil, pag. 116.


a) A theoria de Agassiz nunca foi acceita pelos geologos
que conhecem a geologia amazonica, e conta-se que elle aban-
donara a da glaciaqao antes da sua morte. Veja-Shaler e
Daris- Glaciers.


[1] Boussingault-Principcs d'agriculture.






83

manece a sombra d;is ar cores ou ye couserva enxarcada
dagua mantem a sua natureza vegetal, mas depois que lhe
falta a sombra daquellas ou seecca a agaa, deixando-a exposta
nos raios do sol, poueos annos leva para se converter em ar-
gila. (1)
Assim, eomo ficou dito, a acqeLo mecanica das aguas e o
calor solar explicam a trnnsformn(nao lenta dos deposits re-
centes em sedimenios de apparent vestutez, que induzem a
acreditar-se na iuexistencia de espessas camadas areno-argilo-
humiteras revistidoras do solo cearense.
Excluidas as efflorescencias gneissicas, de rochas sedi-
mentarias, de gr6s, disseminadas em complicado plexus, emer-
gentes, a superficie dos terrenos cearonses, sao estes em geral
argilosos, nos taboleiros extensos que se dilatam entire serras
e serrotes, silicon argilosos uns baixadas e planieies ravinaes. e
areno-silieosos no litoral.
Mesmno A proximidade dos estuarios ou foz dos rios, como
no Aracaty. "a terra 6 formada do mais bello solo alluvial,
da espessura media de 4 a 5 metros, corn a largura de 10 ki-
lometros e acima de 15 kilom. d'aquella cidade at6 o Bo-


(1) 0 autor do Fim da creagio di uma explicagao enge-
nhosa da transformagao das plants em areas silicosas.
"As areas do Brasil, diz elle a pag. 313, se destacam das argi-
lns, produzem-se como estas, e procedem d& vegetaqao, pois 6
sabido que todas as plants contem silice, e que algumas ha,
como as gramineas que se fazem notaveis pela grande abun-
dancia desse mineral. Ora, 6 facto conhecid. que a silice, quau-
do dissolvida ou disseminada na massa de outras substancias,
se mostra dotada de umia effiez tendencia para della separar-
se molecularmente e se reunir em cristaes ou concreqoes dis-
tmetas. Nada, pois, obsta que consideremes os graosiuhos si-
licosos das argilas como diminutas concreg6es da silice que,
disseminada no tecido das plants, passa depois que estas mor-
rem, para terra vegetal onde se concrete quando esta se mi-
neralisa A igualdade dos graosinhos arenosos, que fazem par-
te da argila, todos do mesmo tamanho ,e da mesa forma es-
pherica on espheroidal, revelanm, corn effeito, antes uma acqAo
chimica, do que a acgao mecanica das aguas que 6 sempre
desigual.






84

queirao do Cunha, ella descanga sobre area limpa e grossa.
Ha nesta part do valle no menos 80.000 hectares de magnifleas
terras plans de riquissima qualidade; excepcionalmente aptas
para agriculture superior".
Outras provas de algum valor, especialmente referentes
a fluibria maritima, fornece-nos a commissao americana que
ha uns 14 anuos se propoz furar pogos artezianos has proxi-
midades da Fortaleza.
Estes trabalhos, minuciosamente referidos na monogra-
phia do engenheiro Saint-Clair (1), constam de perfuraqoes
feitas no Bemfica, Mecejana, Canafistula, a profundidados va-
riantes entire 25 e 51 p6s. Nessas sondagens, a camada imper-
meavel ou supposta tal, s6 foi encontrada a profundidade su-
perior a 7 metros.
"Effectivamente. diz o Sr. S. Clair, jA a area na protun-
didade de 12 metro comegava a alterar o qnartzito schisto-
so carregado de mica verde, analogo as amostras que retira-
mos. do Bemrifica, corn micas-chistos duros, que gastavam rapi-
damente as picaretas, fazendo-se necessario o emprego de ex-
plosivos
Posteriormente a esses malogrados, ensaios de perfura;6es
artesianas e coin os mesmos instruments deixados por aquella
commission, numerosos pogos profundos term sido abertos na
Aldeiota, Barro Vermelho, Jacare'auga e outros sitios, dentro
e nos suburbios da Fortaleza : e do seu resultado verifica-se
que a camada sedimentaria. composta de area. argila grossa,
vermelho-amarella, argila fina, agglutinante, branca, de pedrisco,
cascalho at6 o lengol d'agua, varia de 9 a 30 metros, corres-
pondente na sua maior profundidade ao nivel medio das ma-
res atlanticas, da costa.
Este facto, approximado ao da irregular couformagao to-
pographica da Fortaleza, assente em planura baixa. circumva-
lada de depresses a sudeste, sul, oeste, especie de ilha,



(1) Saint-Clair de Miranda-Memoria sobre pogos arlezianos
no Ceard, pags. 10 e seguintes.






85

como faz sentir o Sr. Gow Bleasby (1), poderia iuduzir-nos
a attribuir sua constituico geologica, ao menos a da argila
final e brancacenta, a rocha granitica inferior, a um period
msis antigo do que se supple, talvez ao devaniano.
Para se ter dados mais concludentes em favor desta hy-
pathese, seria mister verificar ser a camada a que alludo
(a da argila final uniform, horisontalada, demonstrative de
sua disposiqro alluvial em leito maritime on lacustre, porque
as alluvioes do period actual, a cen aberto, se destinguem
daquellas, nao s6 pelos fosseis, que lhes sao proprios, como
por acamamentos muita vez discordantes, discontinues e, nao
raro, inclinados, amolgados a declividade do solo sobre que
assentam. AliAs, esta facies do deposit antigo (2) se com-
prehende desde que se attender ao modo lento e gradativo
como elle se operou em bacia calma no fundo de um lago on
do mar. abaixo da aeru. 'agitante das ondas, contrastando
com o das oscillaq6es bruscas, determinadas pelas degradacoes
mecanicas (ventos, chuvas, etc.) da epocha present.
A conclusao a tirar sobre o adelgaiamento da cainada al-

(1) G. Bleasby-Pr9jecto sobre o abastecimento d'agua em
Fortaleza.
(2) Estavam escriptas essas considoraqoes sobre a forma-
c;no do period quartenario, quando li a obra de Branner so-
bre a Geologia terciaria do Brasil. Referindo-se a post-terciario.
diz elle. que essa formaqRo desenvolve-se sobre montes e val-
les em forma de fino ewbo.o de seixos rolados, pedriseos e
arein, umas vezes soltos, outras cimentados em pedra-puding
de uns dez p6s de espessura. e quando expostos ficam man-
chados de preto. Cobre o chao dos planaltos terciarios on a3
suas saliencias, e, frequentemente espalha-se para os lados das
collins e accumula-se nos valles. Nao confina corn os limits
geographicos do cretaceo ou o terciario, mas encosta-se muito
para o interior e muito alem dos limits actuaes dessas forma-
eoes. Por toda a parte 6 mais ou menos irregular em espessura,
e em parte alguma se pode dizer que 6 universal ou continue.
Um dos caracteristi2os accentuados dessa formaao post-
terciaria, 6 que ella, 6 muito mais grosseira para o interior, e
torna-se mais final ao approximar-se a costa. A explicaqao
deste material gasto pelas aguas parecee ser que o period ter-
eiario foi cerrado por uma depressao ao lonro da costa
actual, que puxou a linha da margem para o interior, ou que
ella ja era ali. Segud-se, entao, uma gradual emergencia duran-






86

luvial 6 que ella occupa maior extensao e declividade do que
parece a primeira vista, seja qual for o process geagnosico
que se Ihe attribun. (1)
E' una camada composta de larga baixa arenosa, de al-
guns metros de profundidade, sobreposta a argila grossa ou por
esta intervallada.
Na Fortaleza, corn excepqao dos pequenos trechos argi-
losos do Bemfica e Barro Vermelho, predomina a area sili-
cosa, talvez trazida pelas correntes que descem das proximas
serras para o mar e dahi repellidas pelas mars e ventos alis6os.
Difficilmente se formam empogamentos a sua superficie,
mesmo depois de chuvas prolongadas, porque as depresses
que orlam a cidade servem de drenos As aguas estagnantes,
quando porventura resistam a evaporagao active dos raios
solares. auxili;da pelos ventos constantes da zona tropical.
No trabalho-The stone of B asil, their geological and geogra-
phical relations, with a chapter on coral reefs do Sr. J. Casper
Branner-projecta-se alguma luz sobro a fonmaato dos reci-

te a qual today a agua agora coberta por esse material. largamente
destribuido. passara gradualmente pela condigao de tina mar-
gem sobre as rochas sltas, anguladas da superficie onde fo-
ram arredondadas em fragments, seixos e pedriscos que ago-
ra sao encontrados no lugar. Emquanto a ressaca foi batendo
e gastando as duras ro,'has cristallinas e metamorphicas do
interior, tornou-se incapaz de produzir effeito manifesto na to-
pographia da regiao ; mas quando, no decurso da emergencies
da terra, as camadas molles areientas e argilosas do terciario
foram trasidas a sen alcance, a obra da esculptura da terra
tornon-se capaz de augmenter enormemente.

(1) J. da Silva Feij6-na sua Memoria sobre a capitania
do Ceard 27 diz que "todo o terreno em geral 6 coberto mais
ou menos de uma codea de terra vegetal, ainda mesmo a
beira-mar, donde prove a actual fecundidade d'aquelles ter-
retios areientos, a primeira vista aridos e seceos : e A propor-
gato que se caminha lpara o interior do sertao observa-se nas
escava6oes dos rios que esta camada de terra vegetal se
augmenta em espessura e c6r preta, a qual nao pode deix:ir de
ser devida A dissoluqao continuada da immensidade de folhagens
e das mesmas arvores, que pelos ventos ou velhice tern ca-
hido e apodreeido, visto que so nao pode duvidar que uma
tUo grnnde quantidade ha tantos seculos accumulada: nao pos-
sa produzir uma mais grossa Eamada.






87

fes da nossa costa. mostrando a possibilidade de haver sido a
Fortaleza, e grande part da costa, immeuso ]ago, barirado
por altas dunas, atravez das quaes flltravam as aguas does
atW a prHia, situada em piano inferior.
Os recifes do Rio Grande do Norte no Amazonas devem
ser de gres, segundo pensa Branner : "Estes recipes (de gr6s)
sao approximados, mas nao distinctamente rectileneos. Suas
camadas inclinam-se para o mar corn o mesmo angulo commum
as praias. A rocha endurecida do recife tern tres a quatro
metros de espessura. Os materials subjacentes sao: areias,
conchas e argilas, em successAo irregular. Quanto ao proces-
so de formaeqo, o character e a estructura dcs recipes mostra
que elles sao antigas prains consolidadas pelo carbonato de
cal. o seu estado rectilineo indica que elles sao formados de
uma linha natural da prai, fixa e permanent.
"O0 problema mais difficil que apresentam esses recipes 6
a da sua consolida9ao por rneio da deposic;ao de carbonato
de cal.
"A hypothese de endurecimento das praias de area pela
acqao da agua pluvial e pelo escapamento do dioxydo de
carbon contido na artua do mar 6 admittido como possivel,
mas posta de lado como insufficient para explicar todas as
phases do phenomenon. Uma causa mais efficient parece ser a
da passage d'agua doce earregada de acidos organicos, pro-
venientes da decompositiao de materials vegetaes, accumuladas
nas lag6a. e correntes represadas, por traz das elevaw6es das
praias. Os recites oceorrem ano long de uma se qgo da costa.
batida por ventos e correntes constantes e em condio6es geo-
logicas e elimatericas takes, que muitos dos riachos sho tenm-
porarios ou permanentemente obstruidos pelas arias aceumu-
ladas que se formal em snas boccas. Deste modo, o unico ca-
minho que as aguas t6m para attingir o oceano 6 a percola-
Iato atravez das barreiras arenosas da praia.
"Em conclusao, parece provavel que a consolidacao dos
recifes de gr6s nao teria lugar caso a queda dagua de chuva
fosse sufficientemente abundante e constant de modo a man-
ter as boccas dos riachos abertos e as su'as aguas puras. (1)

(1) Orville A. Derby-Noticia inserta no Jornal do Cown-
m*ercio, do Rio de Janeiro, de 15 do Abril de 1905.






88

PHENOMENON VULCANICOS

Levado pelo aspect afunilado que apresentam algumas
serras deste Estado, o naturalista Feij6 affirma que "'em geral
o terreno 4 vulcanico, composto de massas irregu'ares de
lavas e outras sustancias terreas primitivas, mais on menos
alteradas por forga do fogo, constituindo o sen amago ou nu-
cleo universal unna rocha viva, azulada, saxoza, vitreseente e
durissima." (1)
0 barao de Capanema, que visitou demoradamente o
CearA em 1858 a 1860, nao vio vestigio de acq0o vulcanica,
salvo umi tronco de basalto, que encontrou na margem do rio
Curl,
0 senador Pompeu observa, por6m, que este illustre sabio
nao examinou, como o naturalist Feij6, os diversos serrotes
do sertao.
Os estudos geologicos feitos pelos especialistas neste ramo
scientific, no Brasil, induzem a crer que a acqAo vulcanica
6 sem valor on nulla na constituiqAo do seu solo. 0 Sr. Orville
A. Derby (2) affirma categoricamente que nao existem vulcoes
no Brasil, e de vulcoes extinctos nao ha vestigios na parte
continental. "A pequena ilha montanhosa de Fernando de No-
ronha 6 o unico ponto conhecido de origem vulcanica no terri-
torio brasileiro."
Em (ontraposigao, o sabio geologo americano J. C. Bran-
ner (3) diz que '"existem muitos restos de lavas no Brasil en-
tre as rochas antigas. Ao norte do Cabo de S. Agostinho ha
urn cabeco conhecido por Pedras Pretas onde um antigo len-
ol de lava trachytica estA exposto ao long da costa. A ilha
de Santo Aleixo, ao largo da costa de Pernambuco. em frente a
Barra de Serinhaem, 6 formada tambem de rochas eruptivas."
Aponta mais a principal ilha dos Abrolhos, lugares em Pira-

(1) Joao da Silva Feij6-Memoria sobre a capitania do Ceard,
inserta na Revista do Instituto do Ceard-do 1? trimestie de
1889, 20, pag. 11.
(2) Orville Derby-na Geographia do Prasil de Wappeus
pag. 59.
(3) J. C. Branner-Geologia elementrr, 1906, Rio de Janei-
ro, pag. 99.






89

cicaba, Santa Barbara, Rio Claro, Limeira etc. em S. Paulo, no
Parani, Santa Catharina, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro,
nos quaes apparecem rochas eruptivas.
A duvida do Senador Pompeu 6, portanto, bem cabivel.
TREMORES DE TERRA
Os phenomenon sismicos, considerados at pouco tempo
como manifestagoes eruptivas, devem ser referidos a uma das
formas mecanicas da formagqfo das montanhas. (1) Sob a
ac(;5o das presses lateraes, a crosta solida 6 submettida a
esforgos que nao podem deixar de provocar, de tempos a tem-
pos, rupturas de equilibrio dando logur as deslocaqoes e a
fractures aceompanhadas do deslise das paredes, que determinarn
abalos capases de se propagarem mais ou menos long. Isto
quando se trata de oseilla(oes extensas ou intensas do solo.
O Sr. Lapparent observa corn justeza, que os ensinamen-
tos forneeidos pelo teor habitual d-is curvas isosistas, e pelo
facto de que a m6r part dos sismos de alguma importancia
se produzem nas regimes onde se nao exerce a acqAo vulca-
nica, mostram que os tremores da terra tern causa different.
Nao se deve exeluir completamente a influencia vulcani-
ca dos movimentos oscillatorios terrestres. Na visinhanua das
crateras em actividade o solo treme a, irrupaio dos gazes.
Mas, onde nao ha focos irruptiv.os, deve procurar-se a causa
do phenomenon em agents externos. A lenta ac"to das aguas
infiltrantes, por exemplo, nas regiSes montanhosas, dissolven-
do ou arrastando materials de certas camadas, umas soluveis.
outras moveis, pode provocar desmoronamentos mais ou me-
nos subitos, que abalam em derredor delles, regi6es mais ou
menos extensas. (2)
0 Sr. J. C. Branner (3) assignala-lhe as tres causes se-
guintes :
I Fractura de rochas sob. esforco;
II Escorregameuto ou reajustamento das rochas umas so-
bre outras;

(1) Veja-se Dana e Hoernes-Manual qf geology, 4 edieao,
pag. 373. Lapparent-Traite de geologic, 5? edieao, pag. 562.
(2) Lapparent-Obra cit.. pag. 559.
(3) J. C. Branner-Geologia elemeetar, pag. 104.






90

III Explos6es dentro da crosta terrestre nas virenhangas
de vulcees, provavelmente pela forma ao e collapse do va-
por. (1)
Nao se deve, pois, attribuir a forgas vulcanicas os pheno-
menos sismicos do Ceara.
Na sua obra Ensaio Estatistico do Ceard, o Senador Pom-
peu registra os seguintes terremotos:
A 8 de Agosto de 1807 em todo o valle do Jaguaribe, es-
tendendo-se ao norte at6 a Fortaleza (30 leguas), ao sul do
Ic6 (50 leguas) e a leste a igual distancia no Mossor6 e serra
do Martins, no Rio Grande do Norte.
Em 1810, na Granjai, quinta-feira santa, e nos annos de
1816, 1852 e 1855.
No Aracaty a 2 de Dezembro de 1852,
Em 1824 abrio-se a terra, fazendo umna larga greta, desde
o p6 da serra de. S. Pedro at6 o Jardim, na extensdo de 5 le-
guns corn largu,'a de 1 palmo. mais on menos, e corn uma pro-
fundidade insondavel.
Perto de Granja, um terreno pantanoso, em alguns annos
a terra racha, fazendo profundas gretas por onde exhala fumo
quente; talvez simples emissAo de gazes de decomposiqoes
organicas.
No morro do Cumbe dao-se estrondos, acompauhados de
ebuliqio e extremeeimento das areas. (2'

(1) 0 deslo ficie do solo na. occasiao de um ahalo de terremoto nao 6 tAo
grande como gerainente se imagine. Raras vezes monta a
mais de tres a quatro millimetros ; algumas vezes 6 apenas uma
fraAao de millimetro.-J. Branner-Obra cit., pag. 105.
(2) NAo sera devido a mesma causa que no Mississipe
forma os muds lamps ? Humphreys e Abbot pensam que esses
wnontes de lama, que se formal no delta do grande rio sao er-
guidos pela forqa que se desprende do gaz hydrogenado pro-
veniente das alluvioes do Mississipe. As grandes massas de
products vegetaes, trazidas pela correnteza e detida nos ban-
cos para serem cobertos por camadas de lama, entram em
fermentafAo e produzem gazes que acabam por entumecel-as
e former os cones (muds lamps) donde se escapam gazes.
No Jaguaribe, 6 provavel que a sua vegetacao marginal,
mais basta nos pequenos furos em que se elle bifurca na f6z,
seja coberta por areias movediqas, formando-se internamente,






91

No termo de S. Quiteria ha um serrote escarpado, em for-
ma de agulba, todo pedregoso, em cujo cimo bastante alto
parece haver urma planicie. Em alguns annos durante a esta-
qAo chuvosa tern appareeido inceudiado esse pico, cuja luz 6
avistada de 50 a 60 kilometros de distancia. Descem pelas
eneostas massas ardentes, mas ninguem as foi examiner de
perto. (1)
Segundo o testemanho do padre Telles (autor de um livro
inedicto offerecido ao principle D. Joao) na Uruburetama ha
tambem um picao que por vezes tern ardido.

nos sitios mais npropriados, pequenos centros de decomposi-
goes gazozas.
Eis o que um observador refere sobre este phenomenon:
"No Cumbe ha umn lugar onde os superticiosos dizem estar
encantado o rei D. Sebastido : essa supersti(:fo nasce do ruido
que se ouve em certas epocas, semelhantes ao rufar do tambor.
Grande parte dos terrenos ahi sao antigos brejados, e nel-
les fazem-se planta6oes de canna. Tem-se visto, precedidos de
fortes ruidos 3ubterraneos parte dresses terrenos que se com-
poem de barro lamacento se elevar de repente com as res-
pectivas plantaq es a alturas de vinte e trinta palmos.
Tive eu proprio occasiao de ver um destes acoutecimentos
pouco tempo depois de se haver dado o phenomenon.
Relataram-me entao que seriam 11 horas da noite, mais
on menos, quando se ouviram estrondos no centro da terra,
e pela manha do dia seguinte via-se uma daquellas planta-
coes corn o cereado elevada Ai altura referida. Vi em outro
ponto no mesmo lugar um cajueiro e outras arvores mortas
sobre urna por;ao daquelle barro todo revolvido: tinha sido
vm outro facto iderntico.
Attribuo este phenomenon ao peso dos.morros de area
que se formaram sobre aquelles brejos por uno acharem um
solo ainda bem consoldado, descem produsindo esses deslo-
camentos.
Alipio Luiz Pereira da Silva-Consider'a5es geraes sobre as
provincias do Ceard e R. G. do Norte-Rio de Janeiro, 1885, pag. 41.
(1) Este phenomenon que apparece raro, 6 recebido pelos
sertanejos como um presagio de bom inverno. A' ultima appa-
riqao foi no inverno de 1829 depois de uma grande trovoada.
Podia ser a communicagao de uma faisca electric a alguma
materia inflammavel. Desta vez durou uns 20 dias, e era per-
feitamente visto de Sobral a 11 leguas. Por baixo deste serro-
te ha uma vasta caverna.-Senador Pompeu-Obr. cit., pag. 52.






92

No termo do Acarahli consta tambem que um anno destes
ardeu um serr.te. Na serra da Barriga (a 30 kilom. a leste de
Sobral) tern por vezes apparecido desmoronamento e chammas
acompanhadas de fumo, e sempre depois de grades chu.
vas. (1)
No leito do rio Pirangy, lugar denominado 1616. distant
do Cnmbe seis leguas. tem se ouvido ruidos semelhantes aos
deste sitio.
No lugar, denominado Salina Redonda, referee o Sr. Alipio
P. da Silva (2), entire a foz do rio Jaguaribe e Cumbe, ouvio-
se um pequeno ruido, e no dia seguinte foram encoutrados di-
versas fendas sobre o barro revolvido. de envolta corn uma
substancia parecida corn o euxofre; do mesmo modo vio-se de
repente aterrado um bravo do rio Jaguaribe, que por alli pas-
sava, de qualro a seis bragas de profundidade.
0 mesmo Sr. Alipio conta que em 1878 a Camara Munici-
pal do Aracaty mandou abrir um pog;o no lugar Bemfica, den-
tro da cidade. Depois de ter-se cavado a profundidade neces-
saria, auxiliado por meio de uma bumba, mediam-se no dia
seguinte 40 palmos dagua, mas corn verdadeiro espanto, no
dia seguinte, tinham desapparecido 18 palmos, sem se ter ti-

(1) Eis o que a este respeito communica o Rvd. Nog'ieira :
"A serra 6 composta de massas irregulares de grandes rochas.
6 bastante alta e extensas. Em fevereiro de 1842. depois de
copiosa chuva, pelas quatro horas da tarde vio-se sahir de
uma grande pedra um fumo preto e espesso, e este fumo
succederam chammas, que cobriram todo o serrote, queimando
os arbustos que alli se achavam.
A 22 de Fevereiro de 1859 reproduzio-se o mesmo phe-
nomeno, mas em lugar different, a 200 bragas mais ao sul do
primeiro. Precederam grandes chuvas, seguio-se a irrupqAo
corn grades estampidos e estalos horriveis, atirando ao lon-
ge grades pedrs: : o fogo dominou extensao superior a 150
branas, e deixou muitos buracos que se veem de longe-
Em 1861 o Dr. Capanema, visitando esta serra diz que
iada encontronu que justificasse este phenomeno, predominando
na serra o gneiss e o graniro. A serra tem mais de dnas leguas.
-Senador Th. Pompeu-Ens. Estat., pag. 52.
(2) A. L. P. da Silva-Consideragqes sobre a provincia do
Card, etc., pag. 42.






93

rado nima gotta dagoa: no dia subsequent reappareceram no-
vamente os 40 palmos, e dahi em diante foi diminuindo dia-
rinmente meio palno at6 seccar totalmente : e tendo se tenta-
do nova escavaato encontrou-se pedra, que obstou a conti-
nuaqao do trabalho, sendo de pessima qualidade a agna que
minaiva.

CAVERNAS

Em varias serras encontramn-se cavernas mais on mnenos
interessantes, algumas dignas de estudo por suas curiosidades
estructuraes.
Na parede do talhado da serra do Araripe abrem-se al-
gumas, que tern sido visiladas e descriptas.
No lugar Cajueiro, esereve o Dr. Marcos de Macedo (1)
visitei uma gruta na qual nao vi signal algum de rochas cal-
careas, assim como nao pude examinil-a circumnstancida-
mente por ser o sen interior muito acanhado. A do Brejinho,
abaixo do nivel da anterior, 6 summamuente celebre e cn-
riosa por center sales immensos, a cujo fim rnio se tern ainda
podido ehegar, sendo flanqueados por galerias de arcadas,
formadas de stalactites e stalagmites. Affirmanu-me que ahi
nao habitat vivente algum, a excepqio de uma especie de nieto-
rianos, que defended a sua entrada, e por isso permanecem
indeleves as pegadas das pessoas que a percorrem por ser
o seu pnvimento alcatifado de um p6 de differences cores, que
pareee ser o resultado das forminCes de greda corn terra fer-
ruginosas." [2]
A caverna do Boqueirao de Lavra, 6 formada por desag-
gregaqao da rocha quartzito, segundo o barito de Capanema.
Fica a 22m 64 c. acima do Pogo do Boqueirao. 0 seu terreno,


(1) M. A. Mareos de Macedo-Descripqio dos terrenos car-
boniferos da comarca do Crato, apud. Revista do Instituto do Ceard
-Tomo XIII, pag, 109.

[2] 0 barao de Capanema visitou posteriormente esta ca-
verna, e se bemn que a achasse admiravel. nao a julgoi tao
bella quanto o Dr. Macedo.






94

diz o Snr. J. J. Revy (1) eleva-se com inclinacao geral da ca-
mada ; seu comprimento nao 6 conhecido, se bem que consi-
deravel.
Esta, bem como outras menores immediatas a ella. foram
escavadas pelas torrentes d'agua vindas do antigo lago, as
quaes minavam as camadas neste lugar, oujos rochedos escor-
regavam para o precipicio abaixo."
A caverna tern a forma de uma abobada achatada, incli-
nada ligeiramente para um dos lados. Do tecto nAo pendern
stalactites: parece revestido de granito como nos tuneis de
estradas de ferro. Grandes bloeos de pedra quadrangulares
formam sen revestimento, uno cimentado, deixando ver as
fendas de cada urn. Em algunus lugares tem-se a sensagao de
que um desses blocos vae cahir, tal parece a desaggregacto da
rocha a que estao press.
Este fraccionamento, cujos escombro3 se veem por todo o
solo da caverna. alastrando-a com blocos de differentes ta-

[1] J. J Revy-O aiude dc Lavras-pag. 15.
No dia 20 de Novembro de 1884, eun e alguns amigos visi-
tamos esta gruta. Dos meus apontamentos de vi;igem, destaco
a descrip.to que se segue : Pelas 5 1/2 b. da manha partimos
de Lavras para o Boqueirio. A estrada segue por Jigeiras on-
dulaoes. um tanto pedregosas at6 a garganta da serra : Ten-
tamos subil-a por various comiuhos, mas o empino da rocha nao
nos permittio a realisaaio deste desejo. Resolvemos atravessar
em balsa o po(;o on bravo do rio, que ahi term a largura de 40
a 43 metros: tim home a nadar impellio o tosco batel atW o
pe da serra, a certa distanecia da gargatnta, onde desembarea-
mos. Esta ergue-se entao quasi verticalmente. .
Por u-ii tallhado ingreme, e de gatinhas, chegamos a gruta,
que flea a altura de uns 100 palmos acima do nivel do poco,
(Segue-se a descripfao que veem no texto -acima). 0 Coronel
Manoel Carlos, nosso companheiro, que ha 12 annos a visitava,
assegura-nos que n'aquelle tempo nao havia takes pedras a
juncaremn o solo da gruta.
Isto causon-nos receio de proseguir para o seu inte-
rior, ameagados como estavamos do desprendimento de al-
gum dos blocos pendentes do tecto. Minha curiosidade, porem,
vouceo o medo de incerta catastrophe, e s6, fui tAo long quan-
to possivel. A escassez de luz e o convulsionado do caminho,
tendo de subir e descer pedras a cada moment, obrigaram-
me a retroceder."






95

manhos, alguns de um metro cubico, 6 relativamente recent,
a acceitar-se o testemanho de pess6as, que anteriormente a vi-
sitaram.
No serrote Cantagallo por onde passa a estrada de ferro
de Baturit6, proximo a esta cidade, ha grandes cavernas for-
madas sob enormes massas de rochas calcareas. (1)
No serrote do Picao, em S. Quiteria, ha unia immelisa
gruta por baixo da massa granitica ou quartzitica do monte.
Na Uruburetama ha varias, sendo notavel uma perto de
S. Francisco, formada por grande large enterrada no chao,
tendo pequena abertura horisontal por onde mal pode pene-
trar uma pessba; dentro acha-se vasto salao corn altura suffi-
ciente para s3 andar em p6; a pedra da abobada 6 fendida
ao meio por onde penetra luz. Eneontrou-se nessa caverna
grande copia de ossos humans bem conservados, de diversos
tamanhos. 0 Senador Pompeu aventa a hypothese de ter ella
servido de cimiterio aos indios do lugar.
Na comarca de Inhamuns, ao p6 da Serra-Grande, ha ex-
tensa gruta, que ainda nao foi examinada.
A gruta de Ubajarra, proximo a S. Benedicto, no serrote
ao pd da Serra-Grande, 6 a mais digna de nota por suas pro-
pore.es. E' aberta no cmne da montanha e muito profunda ;
emnbaixo encontra-se um salio formado por extensa abobada,
alta, que se nao pode medir. Presame-se que se estende por
baixo da serra. E' atravessada por una corrente de agua
limpida, que corre no sen fnndo. e desapp;rece adiante : do
tecto e incrustados nas paredes, pendem stalactites de fortias
caprichosas, que vistos ao clar&o dos talhos produzem na
imaginaqAo das pess6as ignorantes, quo alli descem ja preoccu-
padas do maravilhoso, effeitos phantasticos. (2)


(1) Veja-se o Ensaio Estatistico do Senador Pompeu, pag.
51, do qual colhi estas informag6es.

[2] 0 Dr. Raja Gabaglia, da commisso scientific. envia-
da pelo governor imperial em 1858 ao CearA, examinou du-
rante uma semana esta curiosa gruta e deu della interessante
descripVro. (Senador Pompeu-ob. cit., pag. 55.)






96

Na serra do Pereiro encontramni-se muitos talhados pro-
fundos, at6 hoje insondaveis. Ao lado occidental a serra apre-
senta urma grande fissura cuja causa attribuem os naturaes a
nma manga d'agua, parecendo antes ter sido effeito de algum
terremato, como o de 1807 que houve nessa fronteira e no valle
do Jaguaribe. [1]

MINERAES

Na enumeraqAo dos products mineraes do CearA, confessa
o antor do Ensaio Estatistico [2] que se limita a mencional-os,
tendo se servido para isto das memories de Feij6, e informa-
(oes dos Drs. Capinema, Theberge, boticario Mamede e outros.
Depois da publicacao de sen trabalho [1862] nenhum estudo
professional foi feito, pelo que, ainda nesta secgao tenho de
me guiar pelo que elle esereveo.
0 fascies geral e caracteristico do solo cearense 6, como
fir-ou dito, composto do rochas cristallinas e metamorphicas,
predominando o gneiss, granito, pow:firo, quartz, micachito, on sedi-
mentarios, como schistos argilosos, ardosias etc.; raras rochas
irruptivas como basalto e marmore sacharoide.
BASALTO. em massas estratificadas, encontra-se no Crato,
S. JoAo do Principe [Tau,], serrote Cantagallo e leito do Chor6.
Da Cachoeira de Missao-Velha, no Salgado, ate o Ic6 exis-
tem formaqoes basalticas, muitas cristallisaqoes calcareas, etc. (3)
GRANITO E GNEISS-abundam em todas as pedreiras do
Estado. Ao long da Estrada de ferro de Baturit6, especial-
mente em Maracanahi, Monguba, Itapahy; e de Quixadh a Se-
undor Pompen o granito de gran final, resistente, foi empre-
gado em pontilhoes, boeiros, encontros de pontes, etc. A For-
taleza abastece-se das pedreiras de Maaceanahi.
CALCAREO E MARMORE-abunda nos serrotes proximos ao
littoral, de 25 a 35 kilom. parn o interior, de boa qualidade.
A pedreira do Itapahy produz marmore de gran-fina e com-

(1) Dr. Antonio Augusto de Vasconeellos-Municipio do
Pereiro, apud "Revista do Instituto"-Tomo II, pag. 238.
(2) Th. Pompeu-Ens. est. do Ceard, pag. 144.
(3) Dr. Jos6 Pompeu-Corographia do Ceard, pag. 50.






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pacta, propria para construceqo. A estatua do general Sam-
paio, a praca Castro Carreira, 6 de rocha desta procedencia
(serrote de Cautagallo). (1) Do sorrote Giboia, proximo de Pa-
catuba, 15 kilom. de Mongubi, extrae-se grande part da cal
empregada nas construqCes da Fortaleza, possue bnncos de
marmore branco e listado de preto, de envolta corn dolomias
(carbonato de cal e magnesia). No district de Soure encon-
tra-se marnore encarnado na antiga fasenda Nunes de Mello,
(Tabapud) a 7 kilom. da villa.
No Aracaty e no Crato existed grades massas de mar-
more de cores variadas. (2)
Estes calcareos (do Crato) sao concregoes mais ou menos
rudimentares.
Em Saut'Anua do Brejo, a 40 kilom. da cidade do Crato,
no sitio em que assent a villa, o solo 6 formado de laminas
marmoreas, cobertes por ligeira camada do argila. As easas e
calgadas sao ,constraidas corn esta pedra, que, as vezes, 6 de
gran tao final que pode ser aproveitada para pedra lithogra-
phica.
De umi recife, que fecha a enseada do Mundahli, extrae se
pedra calcarea, conhecida pelo nome de Cabega de carneiro. (3)
PSAMMITICO-4 o terreno, que se encontra, a partir de gra-
nito, que comeoa do ponto de confluencia do riacho dos Porcos
e corrente do Salgado e se estende at6 onde se consider o limi-
te antigo da serra do Araripe, bom como o da part superior

(1) 0 barao de Capanema diz que o enleareo do Cantagallo
6 branco, em algumas parties ligeiramente denegrido e raras
vezes amarellado. Encontra-se de gram bastante fina algum
pedaqo isoladu, no geral, por6m, a gram 6 grossa. Em various
accessories acha-se granmmalito, no lugar Raposa, e no alto da
serra corn graphtto em cristaes. Em outros lugares encoutra-se
talco ?'-Senador Pompeu-ob. cit., pag. 145.
(2) 0 Dr. P. Theberge encontrou no Cariri cal carburetada,
schistosa, em grandes massas, formando bancos e abrindo-se
em folbhas horisontaes mais ou menos espessas, como lousas,
proprias para ladrilhos, mesas etc. Senador Pompeo-ob. cit.
pag. 145.
(3' Dr. Jos6 Pompeo-ob. cit. pag. 53.






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desta serra, tendo a cor amarellada corn nodulos azulados e
raras vezes negros.
Apparece tambem abaixo do calcareo de gram fina, que se
encontra em S. Anna do Brejo, azulado. durissimo, contend
veias de pyrites e de galena (sulfureto de ferro e de chumbo.) [1].
GESso--Na ponta do Araripe, voltada: para S. Pedro, ha
uma montanha, meio isolada, onde se acham grandes massas de
gesso fibroso (o sulfato de cal, de que falla o barao de Capane-
ma). Segundo o Dr. Marcos de Macedo 6 elle encontrado em
muitos logares da mesma Serra.
GYPso-no Cariry.
LoUSA-no Inhamuns.
SILEX, pedra para amolar-encontra-se em muitos lugares.
FELDSPATHO, porphyros, quartzitos-muito abundante.
ARGILAS-abundam em todas parties, do litoral ao extreme
sertao, except na orla das praias onde, alias, em alguns pou-
tos so encontradas abaixo da camada de areia frouxa. Sarvem
a fabricagao de tijolos, telhas, louga e ordinariamente acham-se
misturadas corn oxydos ferruginosos anhydro (oligisto) que lhes
dao a coloraqao vermelha, oxydo hydractado [limonito]. que as
tornam amarellas.
No Mondubim existe argila plastic da melhor qualidade,
infusivel, de que se faz tijolo refractario.
No lc6 e no Crato encontra-se argila negra; na Vi Crt') concregoes de argila ferruginosa.
Em Meoejana ha uma argila plastic conhecida corn o no-
me de tabatinga. (2)
SALITRE-Encontra-se em muitos Ingares. notadamente
em Tatajuba entiree S. Quiteria e Quixeramobim) onde jA houve
uma officina do governor (3); na Pindoba, no municipio de Vi-

(1) Dr. Jos6 Pompeo-Cor)graph. pag. 53.
(2) Dr. Jos6 Pompeo-ob. cit-pag. 58.
(3) Por ordem regia fundou-se um laboratorio na Tata-
juba em 1779 sob a direcao do naturalista J. da Silva Feij6. 0
laboratorio funccionou por 22 mezes e produzio 379 arrobas e
27 libras de Salitre. Em Dez? de 1803 mandou o governor sus-
pender os trabalhos, passando o laboratorio por nova ordem
para Pindoba em Julho de 1804, cessando em Fevereiro de 1805.
Despenderam-se 10:430$720.






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gosa, em Tagicioca, no Curi.; no Carnahubal, a 60 kilom.
de S. Pedro; no BoassA, na Granja; na Conceigao, no Cu.
rd; em Pirangy. no Chor6 ; e nas serras de Araripe (Jardim),
Uruburetama, Basti6es (S. Matheus) Ipf. (1)
SAL-MINERAL-Encontra-se em various sitios do Jardim,
no sertao, e especialmente no Aracaty-assui, onde as aguas s5o
tMo impregnadas deste mineral, que os charcos ou po.os rasos
cristallisam ; os animaes estranhos ao lugar nao as bebem. e
os passaros as repugnam. (2)
SAL MARINHO. (chlorureto de sodium)-Em toda a costa
baixa do Estado extrae-se sal por processes rudimentares, pela
represa das aguas do mar nas altas mars e subsequent
evaporagao. No lugar Canoe proximo do Fortinho, a barra do
Jaguaribe fundou-se em 1905 uma companhia para a' explorer
estas salinas, com apparelhos aperfeigoados, linhas ferreas, etc.
Depois de haver fabricado grande quantidade de sal, da me-
Ihor qualidade, foi abandonada para nao concorrer corn os
products do Rio Grande do Norte, syndicados pela compa-
nhia Sale Navegaqdo. No Coce, a 5 kilom. da Fortalezn, em
Granja, no Chaval perto de Camoeim, no Ingar Capim Grosso,
no sertao do Araeaty-assfi, existem minas que produzem excel.
lente sal.
SAL MURTATO-Encontra no Boass (Granja).
PEDRA-HUME (sulfato de alumino e potassa)-Existe uma
mina abundante no termo do Inhamuns, lugar Cajueiro, oc-
cupando vasta area (3), e tambein no Araripe, segundo o ba-
rao de Capanema.


(1) Geralmente nas serras encontra-se o salitre no estado
de florescencia nas grutas, ou fissuras da rocha-Senador Th.
Pompeai-ob. cit. pag. 148.

(2) No sertio encontram-se frequentemente terras salitro-
sas que deixam florescer o sal a sua superficie. Os gados cos-
tumam lamber corn avidez estas terras, ordinariamente argi-
losas, de modo a fazerem escava(oes notaveis-Senador Pom-
peu, ibid. 148.
(3) J. da S. Feij6-Memoria sobre a capitania do Ceard, apud.
Berista do Instituto-Tomo III, pag. 16.