Espiritismo e loucura

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Material Information

Title:
Espiritismo e loucura contribuição ao estudo do factor religioso em psychiatria
Physical Description:
298 p. : ill. ; 20 cm.
Language:
Portuguese
Creator:
Oliveira, Xavier de
Publisher:
A Coelho Branco F.
Place of Publication:
Rio de Janeiro
Publication Date:

Subjects

Subjects / Keywords:
Psychiatry and religion   ( lcsh )
Genre:
non-fiction   ( marcgt )

Notes

Statement of Responsibility:
Xavier de Oliveira.

Record Information

Source Institution:
University of Florida
Rights Management:
All applicable rights reserved by the source institution and holding location.
Resource Identifier:
oclc - 55978934
System ID:
AA00000244:00001

Full Text







6K/


ESPIRITISMO E LOUCURA


Ati-










OBRAS

PUBLICADAS:






ALBUM DOS DOUTORANDOS (1918 esgotado).

BEATOS e C4NGACEIROS (1920 esgotado).
O MAGNICIDA MANGO DE PAIVA (1928 esgotado).
INTERCAMBIO INTELLECTUAL AMERICANO (1930).
ESPIRITISMO E LOUCURA (1931).



A SAHIREM BREVEMENTE:


O EXERCITO E 0 SERTIO.

O PROBLEMA DO ALCOOLISMO NO BRAZIL.



EM PREPARE:


JERUSALEM BRAZILEIRA Juazeiro do Padre Cicero.





XAVIER DE OLIVEIRA
Docente de clinic psychlatrica da Faulidade de Me-
dIclna da Universidade do ARio e medlco do
Hosp. Naclonal de Psychopathos.





ESPIRITIISMO E LOUCURA



C ONTRIBUICAO
ao estudo do fa-
ctor religioso em
Psy c hi1 trial.








1931
A. COELHO BRANCO F.0 EDITOR
Rua do Lavradlo n. 60 1.0 andar
Rio de Janelro Brazil

























OFFICINAS alb a GRAPhICAS
RUA DO LAVRADIO 60 R 10 DE JANEIRO BRASIL.

















A' saudosa inesquecivel memorial
de

Jackson de Figueiredo








ESPIRITISMO E LOUCURA 7


Carta=Prefacio do Professor Juliano Moreira


Prezado college:

Entendestes util ao vosso livro um prefacio de
algum dos vossos companheiros-mais velhos no estu-
do da psychiatria.
Li vossas paginas e cheguei a conclusio de que
tinha eu razio quando vos affirmava desnecessaria
qualquer apresentago para uma monographia vossa,
pois que sois sobejamente conhecido do public que
Me em nosso paiz.
Vossas qualidades de observador meticuloso, a
quem nunca falta o poder verificador de uma intelli-
gencia alerta, faziam-me certo de minha affirmative.
A 1." parte de vosso livro, em que tio bem rea-
vivaes a existengia de Antonio Conselheiro e seus
incidents, evidentemente marca uma phase interes-
santissima de nossa vida de nacionalidade livre, digna





8 XAVIER DE OLIVEIRA

de ser de novo focalizada, nio s6 do ponto de vista
historic mas, ainda, do ponto de vista prophylactic.
Si o problema da instrucqio public nio f6r
progressivamente abordado e resolvido no melhor
sentido, poderemos ter a reproducqio daquelle phe-
nomeno morbido, que tantos prejuizos nos causou.
Sou dos que acreditam na efficiencia do remedio que
ji tendes mais de uma vez indicado e pelo qual es-
pero continuareis a bater-vos: A utilizagio do
Exercito como element educador dos nossos sert6es.
Os nossos militares, certamente, nio recusario
seu esforgo a tio patriotic intent.
E corn elles collaborario todos os outros.
Sabeis que aos estudantes que, terminando o seu
curso, logo tentam alcangar um emprego public ou
particular nesta ou em outras capitaes, immediatamen-
te, aconselho que vio fazer no interior do paiz um
estagio, util is gentes de li e a elles proprios.
Refiro o que lucrei com a estadia de mezes no
sertio de minha terra, logo depois de formado, e em
combat a uma terrivel epidemia de febres palustres
de insolita intensidade.
Cada medico novo levaria ao interior uma





ESPIRITISMO E LOUCURA 9

parcella de educacgo que, em convergencia corn as par-
cellas levadas pelo Padre, pelo official do exercito,
pelos representantes da lei, completariam ou supri-
riamn a obra do mestre-escola
Mais tarde, as aptid6es profissionaes serio inv
riavelmente orientadas segundo os preceitos moder
nos da hygiene mental, e, entio, cada um de nossos
jovens colleges farai seu tirocinio visando a maior ef-
ficacia da phase de estagio no interior do paiz.
Nutro a esperanga de que assim sera dentro em
poucos annos.
A 2.a parte de vosso livro ndo 6 menos,interes-
:.sante do que a 1.a.
0 valor de vosso depoimento deve ser exaltado,
afim de que se lhe possam tirar ensinamentos pro-
-phylacticos.
A benemerita Liga de Hygiene Mental por certo
nio deixari de utilizar vossas observac6es. no sentido
de desenvolver uma propaganda util de bons conse-
lhos ao public que tern de acautelar-se contra os
malfeitos de certa especie de curandeiros que, por ve-
zes, prejudicam os pacientes, protelando um trata-
mento que muito conviria fosse precoce.







10 XAVIER DE OLIVEIRA

E' innegavel a coincidencia que observais na in-
tensidade da pratica do espiritismo, nesta capital, com
um maior surto de delirios de character espirita nos
insanos que sio levados ao Manicomio, muitos dos
uaes nos chegam, vindos directamente dos "Cen-
as" que frequentam.
Faz-se mister uma prophylaxia tambem neste
terreno.
Ao par do exito scientific, almejo seja grande
o exito de livraria de vosso bem documentado livro,
afim de que, ao lado dos beneficios sociaes que delle
nos advenham, nio esmoreqa o vosso prestante editor
emir icrementar a publican o de outras monographias
de psycho-pathologia social, de que, entire nos, sois,
sem duvida, um dos mais esforcados e intelligentes
obreiros.

Do vosso velho companheiro


Juliano Moreira





ESPIRITISMO E LOUCURA 11


Introd uccao




A sentenga de Hackel La science tua Dieu, --'d.
passou. Neste seculo de Edison, noventa por cento dos
cento e vinte milhdes de habitantes do paiz da electri-
cidade, essa formidavel Norte America, onde tudo estd
reduzido d mecanica, se revelaram crentes, e a culta
Allemanha, a pratica Inglaterra, a propria Franga ma-
terialista de outrora, o bergo da biologia e da chimica,
sdo nap5es onde, neste moment de ap6s guerra, renasce
a fe religiosa, mau grado, ou, antes, mesmo em face dos
progresses enormes das sciencias positivas, e que nellas
se verificam de maneira imprevisivel.
A religido, pois, ou, mais precisamente, a crenca e
uma caracteristica do home, pelo menos, um requisi-
to moral, diria melhor, essencial delle, seja na taba dos
selvicolas da Africa central, como na Broadway; nas
furnas dos retardados da especie e da civilizagdo no
Thibet, como na Rue de la Paix; ou, ainda, nas caba-
nas dos nossos inidios, em nossos invios sertoes, comao
nos "arranha-ceos" da nossa avenida supercivilizada...





12 XAVIER DE OLIVEIRA

Nasceu corn Kan, em sua caverna primitive, e veio
.sempre corn o home, atraves dos tempos, ate hoje,
e ate corn Lindberg, no seu "Espirito de Sao Luiz"
- transpondo o espaco, por sobre urn oceano, entire dous
continents. E sem mudar a sua concepcgo inicial,
sem, mesmo, soffrer qualquer modificacao em seu fun-
damento, de vez que, atraves das edades, se conserve
tal como nasceu corn os primeiros homes: "A cren-
ca em series espirituaes" na just e precisa defini-
.do de Tgylor.
"Vem desde o culto aos series inanimados, segui-
do do aos vegetaes e animals, chega ao esoterismo phi-
losophico, depois de ter passado pelo polytheismo gre-
co-romano, e vem atd ao positivismo de Augusto Com-
te, que divinisou Clotilde de Vaux, depois de ter creado
o espiritismo de Allan Kardec que ora avassalla a hu-
manidade como uma nova epidemia de loucura reli-
giosa, egual a tahtas ontras que a tern castigado em
epocas diversas de sua evolucdo, e no s6. dominio do sen-
timento religioso que a tern empolgado em todos os tem-
pos.
Ndo se haja, pois, como illogico o trazermos ad psy-
chiatria o estudo das relacoes entire esta sciencia e as
religides, que assim o justificam, plenamente ndo s6
a historic de uma e da outra, sindo tambem os factos de
observacdo actual, chocantes de contrastes, entire o
progress a que attingiu a mentalidade do homem e o
conceito modern da crenca numa boa parte, na grande
maio.ria dos civilizados.





ESPIRITIS1O E LOUCURA 1i

Em verdade, do tabu polynesio e do totemismo egy-
pcio, ao espiritismo de Kardec e ao positivismo de Com-
te, a distancia ndo e tio grande quanto a que vai da
pedra lascada ao radio. Mas a psychiatria, nesta actua-
lidade, jd estid em condic6es de enxergar onde estdo
os desvios mentaes de uns e dos outros, nesse mesmo
terreno religioso, tdo fertil em material de sua compe-
tencia. E de tal sorte que, para ter conhecimento per-
feito dessa ligacdo entire a crenca e esta sciencia, e mis--
ter reverter a tempos idos, quando a medicine, apenas,
se esbocava como um vero conhecimento do home, e
a psychiatria, especialmente, quasi s6 se vislumbrava
atravis de doentes cuja symptomatologia se resumia a
delirios baseados, ainda, em motives religiosos. Dahi, os
asclepiades, sacerdotes-medicos, que professavam a
sua crenca e exerciam a sua clinic jd nos velhos tem-
pos da velha Grecia; dahi, os mediums de hoje, essa
modern descendencia de Kardec, que sdo, apenas, uma
grosseira, deturpada e espuria revivescencia dos filhos
de Esculapio, para os que, actualmente, ainda teem Ca
mesma mentalidade da epoca do Totem e do Tabu.
Pode-se recuar ainda um pouco para aquem da
epoca grega, e ver-se-d, entire os hebreus, Saul possuida
pelo espirito do mal, e David, corn a sua lyra, a empre-
gar, pela primeira vez, a melotherapia nas doencas men-
laes, e com resultados satisfatorios. Da lycanthropia
do segundo Nabuchodonozor em Babylonia, ate o rei-
nado do sabbat, na Edade Media, a psychiatria ndo pas-
sou da demonopathia, synthetizada na obra de Esquirot





14 XAVIER DE OLIVEIRA

e desenvolvida e completada na de Calmeil. Mas, nem
s6 aos animaes, nem s6 aos demonios, entire os antigos,
foram attribuidas as causes da loucura, entdo, quasi ex-
clusivamente de character religioso, porque tambem os
astros eram invocados para a explicac~o de muitas for-
mas de alienacdo mental, e, por fim, nem s6, tio pouco,
os espiritos, bons ou maus, porque o foram, egualmente,
a alma dos mortos, e desde Platdo. Esta e uma questdo
modern, actual, da mais alta importancia para o mo-
mento psychiatric, pois e uma resurreicfo das velhas
crencas da humanidade, que bem explica a nova epi-
demia de loucura religiosa que, ora, mais uma vez,
flagella o mundo, e que bem se pode chamar espiri-
topathia. Este, o assumpto exclusive que constituird a
segunda das duas parties em que se divide este trabalho,
sendo a primeira dedicada ds mysticopathias em geral,
ou seja o estudo do factor religioso em psychiatria. Ndo
se haja por illogica a divisio, que, s6 apparentemente,
talvez ndo tenha razdo de ser 0 -factor religioso em
Psychiatria e Espiritismo e Loucura englobado,
que estd, o espiritismo no numero das religides que ora
monopolizam o culto da humanidade.
Por duas razies principles:

1.a Porque, com ser, em verdade, uma religido,
para a grande maioria dos seus sectarios, Q espiritismo
e, por outro lado, encarado, apenas, como uma scien-
cia (?) para uma boa parte delles, e a 61ite intellectual
dos seus adeptos;





ESPIRITISMO E'LOUCURA 15

2.a Porque a proporgfo que ora lhe cabe, como
factor mediato de alienacdo mental de feigdo puramente
religiosa, e, de muito, muitissimo, cem vezes, mil vezes
superior d de todas as outras seitas reunidas, e, actual-
mente, praticadas em todo o mundo.
NJo e isto um historic, mas, apenas, uma ligeira
explicacao do piano geral deste trabalho. No correr
das suas paginas, referirei, sempre, sobre cada caso, ou
a respeito de cdda assumpto tratado, a seita antiga e
extincta, ou modern e praticada, que tenha sido obje-
cto de estudo para a elaboracdo desta como direi?
--monographia. Evitarei, assim, de extender-me peld
velha mythologia grega ou hind6, ricas, ambas, em ma-
terial apreciavel d explicacao desta these, mas que, in-
felizmente, ndo o comportam as proporc5es deste es-
tudo de synthese; porgm, ao revs disto, procurarei de-
morar-me nos casos de observacdo pessoal corn que me
formei a conviccdo de que muitas seitas religiosas, no-
meadamente, o espiritismo, agem como factors medi-
atos, coadjuvantes das causes reaes de algumas psy-
chopathias.
Difficil e, muita vez, distinguir, no passado, a my-
thologia, em si sd, da religido, propriamente, uma e
outra se confundindo, quasi sempre, sindo que, sempre,
uma dando origem d outra, a primeira d segunda, ou,
seja a mythologia d religido.
Ld nos antigos templos de Budha, na India mys-
teriosa e mystica, como no Olympo da Grecia antiga,
de antes de Aristoteles; nas synagogas judaicas, nos





16 XAVIER. DE OLIVEIRA

tempos heroicos de Israel, como nos concilios dos sacer-
dotes de Isis, na epoca primeira da primitive civilizacdo
egypcia, como saber onde estava, ainda, a mythologia
e onde jd comecava a religido, propriamente, no sen-
tido estricto da palavra o sentiment de nossos de-
veres, fundado em mandamentos divinos segunda
Kant?
Pouco importa.
Uma e outra se baseiam em dous fundamentos -
a tradigdo e a crenca e, para o fim que nos occupa,
interessa-nos, tdo sd, o desvio desta ultima, corn a hyper-
trophia dos sentiments que ella gera, levando o ho-
mem, isolada ou collectivamente, para aldm dos limi-
tes tragados pela razdo.
Ia escrevendo razio scientific quando a pen-
na estacou deante de uma interrogacdo:
Onde comeca e onde terminal ella?
Umr dogma de f6 e uma experiencia de laborato-
rio teem o mesmo identico valor, respectivamente, para
um crente e para um scientist, collocado, que fica, por
sua vez, cada um em seu ponto de vista.
Um membro do Sacro Collegio ou um professor da
Sorbonne estuda, hoje, scientificamente, as suas espe-
cializacJes, e, absolutamente, ndo e incompativel para
qualquer delles, nem para o scientist os artigos de
crenca que o Papa proclama como dogma, nem para o
theologo a conquista scientific incorporada pelo outro
ao patrimonio da civilizacdo. Um e outro, porem, o sci-
entista e o theologo, podem delirar, afastar-se da ra-





ESPIRITISMO E LOUCURA 17

zdo acceita dentro nos limits pre-estabelecidos por
sua seita ou por sua sciencia, e e, justamente, este o pon-
to que interessa d psychiatria, no caso aqui adstricta,
apenas, ds suas relag6es corn as religides.
Ndo ha, no ponto de vista em que nos collocamos,
indagar si Allah e o verdadeiro Deus e si Mahomet 6
o seu propheta verdadeiro; nem si o Christo tinha as
duas naturezas divina e humana que o faziamrn Deus
e home, ao mesmo tempo; nem mesmo si Maria San-
tissima foi virgem, antes, durante e depois do parto.
Interessa, porgm, d psychiatria, o arabe que mata um
home para cumprir um preceito sagrado do Koran,
porque, em sua doutrina, a victim do seu fanatismo e
umr infiel, e, de accord corn a palavra do propheta que
santificou a guerra religiosa, deverd ser morto todo
aquelle que descreia de Allah e nao siga os mandamen-
tos do Islam.
Para ndo falar nas cem religijes da Russia e em ou-
tras tantas de Africa e Asia, todas ferteis em material in-
teressante d psychiatria, e porque ndo cabe, neste traba-
Iho, a discussdo, que seria apenas theorica, de todas ellas,
interessar-nos-do aqui, tambem, os reformadores da dou-
trina do Christo, sobretudo, os que conversam corn Elle,
os que vieram ao mundo em nome Delle, e estes sdo
innumeraveis e, ainda, aquelles que sdo Elle proprio,
o Filho de Deus vivo, corn as duas naturezas e o resto.
Interessa-nos, por egual, o praticante espirita que, todas
as noites, vae d sua "mesa" invocar as almas dos que po-
v6am o espago, para ouvir-lhes a voz, vg-los em pessoa,





18 XAVIER DE OLIVEIRA

materializados, ectoplasmados, como diz o professor Ri-
chet, ou, ainda, e mais commummente, sentir-se possui-
dos por elles, que lhes penetram o proprio corpo, de que
se assenhoriam totalmente, numa quasi transubstan-
ciacdo, dom supremo dos eleitos da terra, que, na reli-
gido de Kardec, recebem o nome de "mediums" in-
termediario entire o home e o espirito.
A "mandinga" do Norte, o "candombld" da Bahia,
e a "macumba" e o "cangerd" daqui e do Sul. sdo uma
e a mesma cousa: tudo modalidades da velha feitigaria,
um disfarce do antiquissimo sabbat, que, entire n6s, sub-
stituiu as lendas, e, agora, vae cedendo logar ao modern
espiritismo, avassallador e dominant, ora scientific,
ora religioso, muitas vezes explorador, e outras tantas
doentio.
Trabalho de sciencia, feito por quem, como medico
psychiatra, estudou, largamente, o assumpto, conclie por
affirmar que ndo encontrou o lado scientific do espi-
ritismo, em si, extreme de suas ligag6es cornm a physio-
logia nervosa e corn a pathologia mental.
Sim; em todo o material reunido durante onze annos
de trabalho no Pavilhdo de Observac6es da Assistencia
a Psychopathas (Clinica Psychiatrica da Faculdade de
Medicine da Universidade do Rio de Janeiro), corn a
observacdo de mais de mil e quinhentos (1.500) casos
de psychopathias de character espirita, entire os quaes se
contain innumeros "mediums" famosos, pertencentes,
desde d Federacdo Espirita Brazileira ate ao mais baixo
"condomblg" de Santa Cruz, ndo encontrdmos um s6,





ESPIRITISMO E LOUCURA 19

nem um, que, uma vez no Hospital, conseguisse reali-
zar, corn exito favoravel, uma invocacao, siquer.
Nio vale mais d pena discutir o lado scientific ou
religioso desta questdo, sobre que jd se escreveram bi-
bliothecas inteiras, vendo-a por um e outro prismas e
nio se chegando a accord nenhum.
E, pois, deante disso, vamos vg-la, tao s6, do lado de
dentro do grande portio do velho Hospital da Praia
da Saudade.
Antes, porgm, de chegarmos Id, vimo-la acompa-
nhando, pari passu, desde seus comecos, entire n6s, corn
o Sr. Bittencourt, o da rua Voluntarios, corn o Commen-
dador Mattos, da "A Razao", e seguimo-la, sempre, sem
perdd-la de vista, desde o immundo tugurio do "Cabo-
clo Guarany", o famoso "macumbeiro" de Cascadura
que aqui se finou num leito da Seccdo Pinel, ate ds
conferencias scientificas da "Cruzada Espiritualista" do
frade apostata Gustavo de Macedo.
Nenhuma razao scientific, e tudo motivo de cren-
,a collective, que, pelo contagio, se propaga a um gru-
po, a uma familiar, a uma sociedade inteira. A do Rid
estd, de facto, invadida, avassallada pela onda do espi-
ritismo, corn o character de uma verdadeira epidemia.
Deixando aos theologos o seu lado religioso, e d po-
licia o seu aspect explorador, ve-lo-hemos, tIo s6, pela
sua feicdo pathologicd, fundados em nossas observa-
cjes pessoaes. Numa estatistica de doze annos, de
1917 a 1928 por n6s levantada no Pavilhdo de Observd-
pfes, registrdmos em 18.281 insanos entrados, 1.723 por,






gO XAVIER DE OLIVEIRA

tadores de psychopathias provocadas, exclusivamente,
pela pratica do espiritismo, em individuos meiopragicos
do system nervoso.
E' dizer que, no correr desse tempo, o espiritismo
concorreu, alli, corn uma proporgao de 9,4 % no totat
das entradas.
De onde se v6 que, depois da syphilis e do alcohol,
d o espiritismo, nesta actualidade, o maior factor de
alienacdo mental entire n6s.
0 Sr. Professor Cathedratico da Clinica Psychia-
trica da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, on-
de, respectivamente, como interno e assistente extra-
numerario trabalhdmos durante onze annos, rotula es-
ses casos, alli, corn a designacao de Delirio episodi-
co pretendendo, evidentemente, que constituam elles
uma entidade clinic na pathologia mental, juntamente
corn aquelles casos que sempre formaram o chamado -
Delirio episodico dos degenerados.
Corn a liberdade de pensar que o illustrado mestre
sempre outorgou e, creio, ainda outorga aos seus disci-
pulos, eu, que tdo long tempo estive entire estes, peco
"venia" para discordar de S. Ex. quanto a esse seu
modo de ver esta questdo.
Fomos os primeiros a levar d discussdo da Socie-
dade Brazileira de Neurologia, Psychiatria Medicina Le-
gal casos clinics corn esse feitio morbido.
Durante 9 annos seguidos, estuddmos, na Clinica
Psychiatrica, corn incessante interesse, quasi todos os in-







ESPIRITISMO E LOUCURA 21

sanos que por alli passaram portadores de delirio de
character espirita.
E e baseado na observacdo cuidadosa, feita em to-
do esse material formidavel, que nego razdo ao antigo
mestre, quando inclue todos esses casos dentro da ru-
brica do Delirio episodico.
Ndo ha uma loucura religiosa ou espirita, organic
ou symptomatologicamente individualizada, na patho-
logia mental.
Existem, sim, delirios de feitio religioso ou espirita,
enxertados em certas neuro-psychoses, e, isto, que, ho-
je, se pode chamar Mysticopathia ou, mais precisa-
mente Espiritopathia ndo e mais que a Demo-
nopathia de Esquirol, ou, melhor ainda, a Hys-
tero-demonopathia de Calmeil.
A meu ver, a quasi totalidade dos insanos porta-
dores de delirio espirita, ndo enxertado em doencas
mentaes autonomas e perfeitamente diagnosticadas, 6
composta de debeis hystericos, de constituicdo mythopa-
thica, eschizoides ou, melhor, ainda hystero-eschi-
zoides.
E a espiritopathia e o ultimo disfarce corn que a
hysteria de Charcot, nesta actualidade, ainda e vista nos
hospitals de insanos.
Vejamos, a seguir, as mysticopathias, ou o estudo
do factor religioso em psychiatria, e, depois, a espirito-
pathia, ou as relac6es do espiritismo corn a loucura.



















1.a PART


Do factor religioso em Psychiatria









ESPIRITISMO E LOUCURA 25


Das mysficopathias



A LOUCURA DO CONSELHEIRO

Nina Rodrigues, o eminente professor da velha e
gloriosa Faculdade de Medicina da Bahia, a meu ver,
foi quem, entire n6s, melhor e scientificaniente, tratou
desse grande mal dos no'ssos serties, a loucura religio-
sa collective, e o fez com aquella sua visdo de sociologo
e reconhecida proficiencia de sabio, que era.
Aqui vem a talho citar a sua monographia sobre a
loucura do Conselheiro, o Bom Jesus de Canudos, fetiche
das populagoes do interior de cinco Estados da Fede-
racao, e em que o illustrado Mestre poz em relevo esse
mal social, tdo commummente verificado em nosso
"hinterland".
Debaixo de outro ponto de vista, em torno do fa-
migerado fanatico sertanejo, girou a obra magistral de
Euclydes da Cunha, e, agora mesmo, ainda sobre o mys-
tico jagunco, temos em mdos um grosso volume escri-
pto por R. B. Camninghame Graham, o grande pan-
theista inglez, intitulado:






26 XAVIER DE OLIVEIRA

A Brazilian Mystic The life and Miracles of An-
tonio Conselheiro.
Cremos nada mais ser precisolaccrescentar para
p6r em relevo a importancia do assumpto, tanto do
ponto de vista social, como do scientific, propriamente.
Das paginas do egregio professor bahiano sobre
Antonio Vicente Mendes Maciel, resalta que elle era
portador de um delirio accentuadamente religioso, sys-
tematizado, coherente com o seu raciocinio baseado em
ideas desarrazoadas, contagioso para o meio em que
exercia a sua influencia incontrastavel, e tendo, como
consequencia inevitavel de tudo isso, uma megalomania,
tambem religiosa, que transformou, por complete e du-
radouramente, a sua personalidade.
Tomemos, pois, a Nina Rodrigues, a sua historic
psychiatric, e vejamos, A luz dos modernos conheci-
mentos da pathologia mental, o seu provavel diagnos-
tico.
Citando Joao Brigido, o grande historiador cea-
rense, diz o Mestre:
"Nascido em Quixaramobim, Estado do Ceara,
chama-se elle Antonio Vicente Mendes Maciel. Seu
pai, que tinha sido proprietario e commerciante abasta-
do, deixou-lhe, ao morrer, a carga de trez irmis celi-
batarias, e a direcqco de uma casa de negocio pouco
solida.
Uma vez casadas as irmas, Maciel, por sua vez, con-
stituiu tambem o seu lar, desposando uma de suas pri-
mas.








































ANTONIO VICENTE ME-NDES MACIEI.
Cognominado 0 Conselheiro ou antes Antonio Conselheiro on, ainda 0 Born Jesus
Conselheiro. Unica photographic que existed do famigerado psychopath, tirada apos a
exhuniaqio do secl cadaver, tres dias depois tide sua nmorte na cidadella vencida, e antes de
Ihe ser cortada a cabe;a, que Ioi manidada para estudo Ai Faculdade de Medicina da Bahia..








ESPIRITISMO E LOUCURA 29

Seu casamento, diz o autor de sua biographia, foi
um desastre. Pouco tempo depois de celebrado, os dous
esposos viviam jd em franca desharmonia corn a sogra,
porque esta incitava, impellia a filha a maltrata-lo.
Antonio Maciel, entao, abandonou o commercio
e liquidou todos os seus negocios.
Em 1859, deixou Quixaramobim e foi morar em
Sobral, onde entrou, como empregado, para a casa de
um negociante.
Dahi, partiu, depois, para Campo Grande, e exer-
ceu, nesta localidade, o cargo de escrivio de paz.
Abandonou, ainda, aquelle logar e o emprego que ahi
tinha, para ir viver no entio povoado de Ipfi, onde um
sargento de policia conquistou-lhe a esposa.
Logo ap6s esse facto culminante de sua vida pre-
gressa, Maciel se retirou para o Crato, de onde partiu
para percorrer ossert6es da Bahia. Foi em caminho
para esta ultima cidade, em sua fuga de Ipfi, que elle,
em sua passage por Pau Branco, foi presa de um
access de loucura, no curso do qual feriu um de seus
cunhados, o mesmo que o havia hospedado em sua
propria casa. As discusses continues com a esposa
e a sogra, as mudangas successivas de emprego e resi-
dencia, a aggressio physical 6a pess6a de seu cunhado,
e no moment em que era seu hospede, as vias de facto
e os ferimentos que Ihe foram a consequencia, nada
mais 6 preciso para que se reconhega a organizagio do
delirio chronic em seus comegos, sob a forma do -
Delirio de perseguicfo.






30 XAVIER DE OLIVEIRA

A phase inicial de sua loucura, o period de in-
quietude, de analyse subjective ou loucura hypocon-
driaca, nos escapa, rigorosamente, na historic de Anto-
nio Maciel, A falta de dados mais completes, mais in-
timos sobre sua vida no lar domestic. E', todavia,
mais ou menos, facil, ver a influencia das allucinac6es
(?) (*) e a procura da formula do seu delirio, no que
sabemos de suas luctas conjugaes e, sobretudo, de suas
continues mudancas. de residencia e de profissd.o, tan-
tas vezes repetidas. Esta especie de reacc~io nos deli-
rantes chronicos 6 tao caracteristica, que Foville cha-
mou de alienados migradores aos que procuram,
em vqo, nessas. mudancas successivas e frequentemente
repetidas, um refugio, uma proteccao contra a impla-
cavel perseguicao que Ihes fazem soffrer, sem cessar, as
suas proprias allucinacoes, As quaes nada podera sub-
trahi-los, de vez que ellas sao a propria essencia de seu
pobre espirito doente.
Quando penetrou nos serties da Bahia, em 1876,
Antonio Maciel levava ja a descoberto, a formula do
seu delirio. E o baptismo de ANTONIO CONSE-
LHEIRO nome sob o qual o ministry ou enviado de
Deus inicia a sua carreira de missionario e de propa-
gador da fH era, apenas, o primeiro jacto da loucura
religiosa que o devia levar e elevar A altura de -- BOM
JESUS CONSELHEIRO na phase megalomaniaca
actual de sua psychose.


(*) A interrogacao 6 minha.








Revestido de uma longa tunica azul, a maneira dos
monges, corn um grosso cordao amarrado A cintura,
descalgo, um rustico bastao de peregrine A mao, comega
de pr6gar misses, calcadas nos moldes das que, todos
os annos, em nossos sert6es, fazem religiosos de todas
as ordens.

Pr6gando contra o luxo e contra os franco-macons,
fazendo queimar pelos caminhos todos os objects que,
rigorosamente, nao poderiam convir A vida de um as-
ceta, Antonio Conselheiro desorganiza, extraordinaria-
mente, a existencia pacifica das populacges agricolas
da Provincia, por isso que as desvia de suas occupac6es
habituaes e as dirige para uma vida errante e de meio
communism, em que os mais abastados devem ceder
uma parte de seus haveres em proveito dos menos favo-
recidos da fortune.
Bern acolhido por alguns parochos, em lucta aberta
comn outros tantos, ao cabo de alguns mezes de propa-
ganda, 6 elle aprisionado e conduzido para o Ceara,
accusado de um crime commettido em sua provincia
natal.
JA nesse moment, a coherencia logica de seu deli-
rio se revela perfeitamente na transformacao comple-
ta da personalidade do louco. A multidao que o se-
guia quiz se opp6r A sua prisao; mas, como o Christo,
elle ordenou a seus sectarios que nao resistissem, e, en-
tregando-se A forca public, affirmou, entretanto, aos
seus discipulos, que iria, sim, mas voltaria um dia...


ESPIRITISMO E LOUCURA


.. 31





32 XAVIER DE OLIVEIRA

Sua imperturbabilidade admiravel e a serenidade de
sua conduct s5io factos bem significativos, referidos
por testemunhas do interrogatorio que aqui lhe foi feito
(na cidade do Salvador Bahia). A' autoridade que,
para o fim de os fazer punir, Ihe perguntou quaes ti-
nham sido os soldados que o maltrataram, physicamen-
te, durante a viagem, Antonio Conselheiro se limitou a
responder que Christo tinha soffrido mais do que elle.
A's multiplas perguntas que se Ihe dirigiam sobre sua
vida e seus actos, elle respondia comn 6 tom de uma sen-
tenca evangelica, que ndo se occupava sindo de reu-
nir pedras pelos caminhos para construir egrejas.
A autoridade judiciaria do Ceard, tendo-ol reco-
nhecido innocent a respeito do crime que Ihe era im-
putado, 6 elle post em liberdade, e logo retorna ao
meio de suas ovelhas; e, segundo 6 voz geral, o dia de
sua chegada coincidiu, precisamente, corn o que havia
marcado. Elle penetra, de mais a mais, em seu papel
de enviado de Deus, e prosegue, desde entdo, impertur-
bavel, suas misses, at6 ao advento da Republica, em
1889. Este acontecimento politico devia influir, pode-
rosamente, sobre o desenvolvimento do prestigio de
Antonio Conselheiro, fazendo entrar sua psychose pro-
gressiva no terceiro period de sua evolucdo.
Augmentou o delirio religioso do alienado dando
mais corpo a idea de perseguicao que o tern acompa-
nhado, comd 6 a regra em sua psychose, quando elle
reagiu contra os franco-macons e outros inimigos da
religion.





ESPIRITISMO E LOUCURA 33

Desde logo, elle os identifica na formula de gover-
no que ataca, porque a Republica nio represent, para
elle, sinfio um acto de seus adversaries naturaes.
As grandes reforms decretadas pela Republica
nascente, taes como a separagao da Egreja do Estado,
a secularizagio dos cemiterios, o casamento civil, etc.,
eram, corn effeito, actos de natureza a justificar esta
identificapco.
A forma republican do governor personificando o
inimigo a combater, Antonio Consellheiro se declara
monarchista. As leis imperiaes e os actos desempe-
nhados ao tempo; da Monarchia continuaram a preva-
lecer na regido onde elle dominava. Recusa-se a moe-
da que traz os attributes da Republica, e s6 a que traz
a effigie do monarcha decaido 6, correntemente, acceita
em seus dominios. Elle aconselha, abertamente, que
se recuse ao governor republican o pagamento de im-
postos, como tambem que se negue todo valor aos actos
do Estado Civil que nao forem executados de accord
corn as leis religiosas. Secundado pelo clero catholico
do paiz na lucta travada contra essas reforms, (1)
apoiado pelas crencas monarchicas e religiosas da po-
pulaqao do interior, o prestigid de Antonio Conselhei-
ro attinge seu apogeu. 0 certificado de sua actividade
durante esse tempo, a forca da convice o religiosa que


(1) Nota do autor: Apenas algumas excepgoes que nAo
podem ter o valor de uma sentenga assim generalizada ao clero
brazileiro.





34 XAVIER DE OLIVEIRA

tem despertado, tudo esta escripto ao vivo nas paro-
chias do interior deste Estado, nos innumeraveis cemi-
terios, egrejas e capellas que elle ahi tern edificado.
0 rebanho de fieis que o seguia, cheio de uma f&
cega em sua santidade, que era jA um dogma incon-
testado, se conta, entio, por milhares de pessoas. E a
nomeada que acompanha seus milagres, estendendo-se
pelos sert6es infindos dos Estados do Norte e do cen-
tro do paiz, fazque os crentes e devotos accorram, em:
multidio, dos pontos mais afastados, em continues e
interminaveis caravanas, para ouvir a palavra inspi--
rada do propheta, buscar a .absolvigio dos seus pecca-
dos e obter, na phase atormentada e agitada que atra-
vessa o paiz, o perdio de sua conduct e de seus cri-
mes; porquanto, 6 esse o meio de melhor abrandar out
desarmar a colera divina, provocada pela ingratiddo de
que se tinha usado para corn o velho monarcha tombado;
o meio de ganhar, ao menos, as boas gragas de Deus,.
e a felicidade celeste, estando perdidas as esperancas
de acha-las aqui em baixo. A coherencia de seu deli-
rio 6 demonstrada pela conviccio corn a qual elle pre-
encheu seu papel de enviado de Deus.
0 desprezo das preoccupac6es mundanas o levou,
at6, a fazer abstracc~o de todos os cuidados hygienicos-
do corpo; sua vida se liga o menos possivel a contin-
gencia dos mortaes.
Antonio Conselheiro quasi nio dorme e quasi ndo
come. Sua existencia 6 uma prece continue, como e&





ESPIRITISMO E LOUCURA 35

continue, tambem, o seu entretenimento corn Deus, se-
guramente devido a allucinacoes (?).
Ha um accord geral em se reconhecer que, na
multiddo que o seguia, elle jamais permittiu attentados
contra as pessoas ou a propriedade, bem comno que
jAmais favoreceu esses attentados. A' insubordinagco
contra o poder civil, succedeu a revolta contra os po'de-
res ecclesiasticos.
Certas desintelligencias se haviam dado entire al-
guns 'vigarios e Antonio Conselheiro, quando este co-
megara suas misses. Ellas se accentuaram quando
do reconhecimento do governor republican pelo clero.
Maciel tinha chegado a viver em perfeita amizade
corn os vigarios de algumas parochias; mas, ap6s o re-
conhecimento da Republica, um desaccordo profundo
se levantou entire elles. Conta-se que alguem Ihe tendo
objectado que o governor republican nio era tao ma-
gon quanto se dizia, pois que o Papa tinha levado o
clero francez a reconhec6-lo, elle responded que "si
o Papa tinha, corn effeito, dado semelhante cbnselho,
tinha agido mal".
Por ultimo, o scisma se tornou franco, aberto, e o
accord impossivel entire elle e as autoridades eccle-
siasticas.
No curso destes ultimos annos, ensaiou-se uma
missao de cathechese entire os adeptos de Antonio Con-
selheiro; mas, deante da acolhida, si nao' inteiramente
rebelde, ao menos muito reservada, que Ihe dispensou
elle, os frades capuchinhos, aos quaes se tinha confiado





36 XAVIER DE OLIVEIRA

essa missao, tiveram que fugir,. precipitadamente, em
face da attitude francamente hostile e ameacadora dos
discipulos e da turba do propheta. Elles declararam, A
sua volta, que s6 a intervengco material dos poderes
civis poderia p6r fim Aquella situacao normal.

Destruir recalcitrantes a golpes de fuzis 6, em ver-
dade, mais facil e mais rapidol do que convert&-los pela
lenta persuagao da religiao. Entretanto, a necessida-
de de chamar, o mais depressa possivel, a grande massa
que seguia Antonio Conselheiro, A obediencia is leis
da Republica, que, nem elle nem seus sectarios queriam
admittire observer, fez prever a todos que a lucta pas-
saria da palavra A accgo das armas. Ap6s o insuccesso
de varias pequenas expedig6es de policia, Antonio Con-
selheiro abandonou a villa de Bom Jesus, edificada
quasi inteiramente por elle, e, penetrando mais adeante,
para o interior, foi estabelecer seu quartel general de
propaganda em Canudos, logar desert e abandonado,
que, em curto espaco de tempo, elle tinha transformado
em uma aldeia florescente e rica, formando uma especie
de reducto de difficil access, onde se entrincheirou.
Semelhante ao Christo, Antonio Conselheiro era
seguido de doze apostolos que eram, ao mesmo tempo,
seus ministros e seus generaes. Elles conseguiram in-
stituir em Canudos uma especie de governor patriar-
chal, com leis que puniam os delinquentes, corn penas
civis, pris6es, etc. Affirmou.-se que elles haviam che-
gado a estabelecer a ordem e manter uma harmonia





ESPIRITISMO E LOUCURA 37

perfe'ita no seio de uma populac~o composta de various
milhares de individuos que tinham adherido as suas
doutrinas.
Quando o poder, levado, alias, pela necessidade, se
viu obrigado a tornar effective a obediencia as leis, An-
tonio Conselheiro ja se achava preparado para a resis-
tencia, tanto pela natureza do logar que habitava, como
pelos trabalhos ahi effectuados.
Trez expedicoes foram, successivamente, derrota-
*das em Canudos, onde o exercito brazileiro tern expe-
rimentado surprezas dolorosas e soffrido lamentaveis-
revezes. A principio, cem homes, commandados pelo
tenente Pires Ferreira, foram derrotados em UauA.
A essa expedicdo succedeu-lhe uma outra mais forte,
de 500 homes, sob as ordens do major Febronio de
Britto, a qual foi, egualmente, batida no monte Cam-
baio, tendo realizado uma retirada muito perigosa.
Uma terceira foi sacrificada em Canudos, onde o seu
chefe, o Coronel Moreira Cezar, foi morto. Hoje, o
exercito brazileiro, em grande parte engajado, se bate,
desde jA tres mezes, no mesmo logar. Os hospitals re-
gorgitam de feridos; o numero de officials superiores
mortos 6 muito elevado, e ndo se sabe, ainda, ao certo,
quando se acabarA a lucta. E' preciso qualquer cousa
de mais que a demencia de um home para chegar a
esse resultadb, e essa cousa 6 a psychologia da 6poca e
do meio onde trabalha a psychopathia de Antonio Con-
selheiro, encontrando combustivel para alimentar o in-
cendio de uma verdadeira epidemia de loucura".






38 XAVIER DE OLIVEIRA

Eis ahi estA, genialmente descripta por um sabio,
a obra de um psycopatha 'que, cofm seus sectarios, vi-
ctimas, tambern, da sua insania, por elle imposta em
massa ao meio que o cercava, matou cinco mil solda-
dos do exercito brazileiro, em mais de um lustro de
luctas.
Em outro logar, o eminente professor bahiano pu-
blica, ainda, as caracteristicas de seu craneo (1), que,
aqui, data venia, tambem reproduzimos, antes de dar
a photographia original do cadaver do formidavel in-
sano, e que somos n6s os primeiros a publicar.
"E' um craneo, diz Nina Rodrigues, dolichocepha-
lico e mesorhyniano, quasi sem dentes, e com atrophia
notavel das arcadas alveolares. Tem uma capacidade
de 1.670 c. c. que, segundo a formula:

c. c. x 0,87
X = ,
1

da ao encephalo um peso de quasi 1.452 grammas.

Indice cephalico .... .... 70,15
Indice nasal.. ...... .. 47,36

E' pois um craneo normal".
E terminal:


(1) Nota do autor: Carbonizado por occasiao do incen-
dio da Faculdade de Medicina da Bahia, em 1904.





ESPIRITISMO E LOUCURA 39

"Esta conclusAo, que estA de accordo corn os dados
colhidos sobre a historic do alienado, confirm o dia-
gnostico de Delirio chronic de evolugdo systematica.
Nao seremos n6s que vamos, agora, discutir o tra-
balho de um grande mestre, escripto corn o criterio que
caracteriza toda a sua obra scientific, e feito ha ja mais
de 30 annos.
Todavia, Nina Rodrigues nio chegou a ver o Con-
selheiro e s6 isto eiva de uma falta irrecusavel a sua
observacgo sobre elle, feita A distancia, apenas por in-
fodrmacao, por ouvir dizer, tao s6mente.
Durante este largo espago de tempo, muito tem evo-
luido a psychiatria, e a longa pratica que temos de ob-
servar casos semelhantes, leva-nos A convicqdo de que
o Conselheiro nio era, realmente, allucinado, sindo que
a sua psychose era de evolucgo systematic, sim, mas,
absolutamente, essencialmente, exclusivamente, consti-
tucional, como tudo o indica em sua longa historic pre-
gressa, corn um percurso' de mais de 40 annos, e sem
decadencia mental averiguada, como veremos depois.
Nao ha allucinacges sem um pronunciado funda-
mento organic, que as determine, e este, si continue,
como era o seu caso, nio se compadece com uma inte-
gridade tUo perfeita das faculdades intellectuaes, como
revelou, at6 A norte, o Conselheiro.
Forte heranca de racas bellicosas pesava-lhe no
character eschizoide, para torna-lo um s6r extranho, sin-
gular, f6ra do seu meio, A parte de sua gente. Nem Ihe
faltou o accident da sua vida conjugal, desfecho im-





40 XAVIER DE OLIVEIRA

previsto e aterrorizante para os sertanejos,. cuja moci-
dade 6, quasi sempre, forcadamente, abstemia. Esse
accident, note-se bem explodiu, just, corn o ini-
cio da caracterizaco do seu mal que, certamente, lhe
veio do berco.
Instavel e migrador por excellencia, em sua vida
intima, como em suas residencias e profissies, veio de
alto commerciante em sua terra natal a vendedor de
aguardente no Crato. Trahido em seu talvez unico af-
fecto, conspurcado em sua honra pessoal de home,
insultado pela sogra, renegado pelos parents, despreza-
do pela sociedade dalli, que ndo perd6a o opprobio da
deshonra sem uma reacdo do brio feita corn sangue,
unico element com que alli se lava a dignidade attin-
gida, Maciel comegou de reagir, tentando matar o cunha-
do, mas, apenas, ferindo-o levemente.
Eschizoide typico, por seu feitio individual, desde
a infancia, como assim o comprova a sua historic,
arredio, que sempre foi, do meio hostile, habitual-
mente guerreiro, que o cercou desde o nascimento,
Maciel architect a sua grande vinganca, jb agora con-
tra a sociedade, a quem, certamente, attrib-ie as causes
fundamentaes da sua desgraca. Excommungado, ate, dos
de seu sangue, pois, naquelle meio, onde se confunde a
prudencia com a covardia, a honra de urn home s6 se
lava com o liquid rubro que illumina corn a sua mages-
tade de pavor, Antonio Maciel explodiu em revolta, refu-
giando-se no delirio que sempre alimentou desde a infan-
cia. Revoltado e egoista, perverso por constituicao e por





ESPIRITISMO E LOUCURA 41

educagdo, ferido em seu grande amor-proprio, chagado
na vida intima do seu lar desfeito, nada mais Ihe resta,
na vida, sindo uma grande vinganga contra a humani-
dade, que nem se apercebia da sua grande d6r.
Foi, assim, por tudo isto, certamente, que elle, anni-
quilado pelo meio, encontrou em sua reconhecida intel-
ligencia os recursos corn que se sobreexcedeu a esse meio
e a si proprio, na elocubrag~o e executed da sua reivin-
dicago de paraneico.
Tento attribuir duas influencias em seu espirito, in-
editas, at6 hoje, para quantos o estudaram, mas plausi-
veis, a meu ver, que as apurei, devidamente, quanto pos-
sivel, lI mesmo no meio em que se creou o titafi nordes-
tino, antes de se fazer beat na Bahia.
0 Padre Ibiapina foi um missionario cearense, que
pr6gou a vida inteira pelos vastos serties do Nordeste,
construindo algumas dezenas de egrejas, capellas, san-
tuarios, cemiterios e Casas de Caridade, que 1a estdo
attestando a efficiencia real de sua obra christd e, ainda,
provando a realidade dos milagres que alcanca de Deus
para as velhas credulas daquelles rinces, que ainda Ihe
fazem promessas, e que cr6em tanto na sua santidade e
no seu poder como as mogas de 1A e de cA, na santidade
e no poder de Therezinha do Menino Jesus. Foi, certa-
mente, depois da de seus paes, daquelle pr6gador e con-
structor de obras pias, a primeira influencia religiosa que
recebeu o Conselheiro, que entrava na adolescencia, jus-
tamente, quando o Padre Ibiapina entrava na vida, no co-
ragio e na crenga do povo nordestino, e, corn tal intensi-





42 XAVIER DE OLIVEIRA

dade, que nao ihe seria possivel furtar-se a sua influ-
encia, maxima, deante da educaqio christi que rece-
beu na casa paterna e no meio em que se formou a
sua individualidade.
Don Luiz Antonio dos Santos, primeiro bispo do
Ceara, missionava os serties daquelle Estado, indo atW
ao Crato, onde construiu um Seminario, que ainda
la estA affirmando a grandeza do seu episcopado, pre-
cisamente, quando por alli tambem passava Maciel, de-
pois de desfeito o seu lar em Ipli, e quando;. j a sua
primeira crise de loucura se manifestara em casa do
cunhado.
E' innegavel. que esses dous factors o Padre
Santo e o Santo Bispo actuaram, de maneira decisi-
va, no espirito doente do Conselheiro, para que, corn
este nome, penetrasse logo depois a Bahia, com os ha-
bitos do Padre cearense e com os ensinamentos colhi-
dos nas pregac6es do sabio prelado que foi depois o
grande arcebispo metropolitan da Bahia e Primaz do
Brazil.
Beato e missionario, mais por imitaagio calculada
do que por indole religiosa, propriamente, Maciel nio
era um crente exaltado, absolutamente, e s6 se fez tal,
corn o feitio de apostolo, para melhor exercer a sua
vinganga, saciar-se da angustia della, que o torturou
longos annos, talvez toda a sua vida, e para dar um
exemplo que bastasse como prova de que nao era ho-
mem para apanhar da mulher... como se dizia...
E' irretorquivel esta interpretaqao.
































EI~











V


0 BEATO FRANCELINO
Antigo pagemn do Pe. Ibinpinn e que a inda vive em Junzeiro
do Pc. Cicero, no Cearai.








ESPIRITISMO E LOUCURA 45

0 primeiro, ou seja o Pe. Ibiapina (que nem sei
porque a Egreja ainda o nio canonizou) foi quem com-
pletou a propria personalidade mystica do jagungo in-
domavel, que Ihe copiou a vida de peregrino pari passu,
fazendo-se religioso depois de, como elle, ter sido casado,
e vivendo errante, como o seu grande sosia moral, a
construir egrejas, capellas e cemiterios, pr6gando ao
povo pela palavra e pelo exemplo da vida rude, de
penitencia e extreme de qualquer macula, que levava.
De como o Padre de Ibiapina tern tido imitadores
insanos nos sert6es, cito, entire outros de meu conheci-
mento, o exemplo do beato Francelino, seu antigo pagem,
negro que conta, hoje, 116 annos, e que vive li no Jua-
zeiro do Pe. Cicero, cavalgando lerdo jumento que Ihe
deu de present o mallogrado Floro Bartholomeu.
Traja, grosseiramente, a maneira de um bispo, e, com
regular memorial, quanto lh'o permitted a pouca intel-
Jigencia que Deus Ihe deu, ainda repete phrases inteiras
e conceitos precisos do seu antigo senhor e actual celes-
te protector. Sua ultima faganha de olygophrenico com
id6as paraneides, que se julga, 6 claro, "Bemaventu-
rado, pelo menos" (textual), foi querer, como Jesus, ou
como Moys6s, atravessar, a p6 enxuto, um rio cheio, o
caudaloso riacho dos Caraes.
Estendendo o seu long borddo de peregrine por so-
bre as aguas revoltas em plena enchente, Francelino bra-
dou, convencido, para os que alli A margem aguarda-
vam a baixa da enxurrada para poderem passar:
Quem tiver ft me acompdnhe....





46 XAVIER DE OLIVEIRA

E la se foi... agua-abaixo, levado pela corrente im-
petuosa, o cackte na mao, a mitra na cabega, de batina e
sandalias, appellando para os bragos centenarios de an-
tigo nadador, e salvo um pouco adeante, entire os espi-
nhos de uma moita de calumby e os bragos fortes dos
sentanejos que, f6ra, assistiam, a sorrir, a scena tragi-
comica do seu ultimo milagre...
A f4 foi pouca, disse elle, depois de salvo, A
beira do rio, todo molhado.
Mas quem o salvou, na crenga das velhas do seu
tempo, foi o Pe. Ibiapina.
Ndo houve, entretanto, como dizer-me elle si pre-
tendia afastar as aguas, como Moysis, no Mar Vermelho,
ou andar sobre ellas, como Jesus, na Galil6a.
A outra influencia que, realmente, actuou, forte-
mente, no espirito de Maciel, repito, foi, incontestavel-
mente, a do grande antistite D. Luiz dos Santos, a
manso cordeiro de Angra dos Reis, que creou a Dio-
cese do CearA. Foi, certamente, o primeiro e o unico
prelado a quem viu e ouviu o Conselheiro. Uma coinci-
dencia, sem duvida. Mas que decidiu da formula de-
lirante do fanatico. E' assim que, mal deixava o ser-
tio cearense o bispo missionario, e Maciel, que alli o
vira e ouvira, penetra os sert6es bahianos, para si
mesmo, no seu entender de egocentrico, numa iden-
tica missAo de catechese, jA de batina e cajado, e com
o nome significativo de BOM JESUS CONSELHEIRO.
Outra parte que me forga a uma formal contra-
dicta ao ponto de vista scientific esposado pelo mes-




















ff


0 1EATO ELIAS
Natural da Italia (napolitano), e que, hia 33 annos, vive iem Juazelro
do Pe. Cicero. Temn a mesma mentalidnde dos nossos sertanejos
credulos, que, alidis, nao 6 different do dos nossos
fniaticos, nem, tiio pa)uco, do dos mysticos hindus.








ESPIRITISMO E LOUCURA 49

tre bahiano, -6 aquella em que elle tern o mysticismo re-
ligioso do jagunco como um corolario da sua condicao
de mestigo.
Nao tern razio o illustre psychiatra.
EstA aqui visto o que diz elle do mestico Antonio
Conselheiro, cuja religiosidade, a meu ver, tem, ate, a
mesma procedencia da do negro Francelino. Pois,
um e outro, em nada differem da do italiano Elias, um
napolitano, corn uma conjunctivite granulosa, um ca-
chimbo mal cheiroso e uma bella voz de tenor, que vive
em Juazeiro do Pe. Cicero, ha mais de trinta annos, e que
ahi estA photographado em seus trajes de penitente
uma opa azul, como a do Conselheiro, uma crfiz ao hom-
bro e um retrato daquelle sacerdote cearense ao pescoco.
E' o typo mais perfeito de fanatico que conhego.
Nem Ihe falta o accident sexual, como o outro, tendo
abandonado a esposa, em Napoles, para, agora, velho
jA de 70 annos, prevaricar contra uma virgem em Jua-
zeiro, o que deu motivo ao Pe. Cicero tirar-lhe a ba-
tina de beato e tomar-lhe as chaves da sua egrejinha
do Horto, que Ihe tinham sido confiadas havia tantos
annos.
Por outro lado, si compararmos o que se passa nos
sert6es nordestinos, habitados por mesticos, com o que
succede na Russia dos brancos slavos, nenhuma diffe-
renga encontraremos.
Nao ha inverter os factors de uma questao, que,
em material de psychiatria comparada, deve ter por





50 XAVIER DE OLIVEIRA

terms a cultural, a civilizacdo e o meio, e nao a c6r bran-
ca, preta ou parda da pelle dos individuos.
Visto o Conselheiro, tal como no-lo descreve o sa-
bio mestre brazileiro, e vista a sua cultural e o seu meio,
,comparemo-lo com Rasputine, a sua corn a cultural deste
e o meio onde agiu o monge russo, e nenhuma difference
fundamental se pode notar num ou noutro, al6m da que,
naturalmente, existia entire o arraial de Canudos e a
c6rte de Sdo Petersburgo.
Mais, ainda, e sem outra citac~o que nao a do pro-
prio mestre, em seu estudo do caso da LOUCURA
COLLECTIVE DE PEDRA BONITA, em Pernambu-
co, para compara-lo, por ex., corn o dos "Irmdos da
Morte" na Russia, de que nos da conta Jean Finot.
Vae ahi transcript o deste, precedendo o do mes-
tre bahiano, que se Ihe seguir6:

OS "IRMAOS DA MORTE"

"De tempos ein tempos, a sede do ideal e o desco-
nhecimento do present degeneram em uma series de
suicidios collectivos. Relembremos a famosa propa-
ganda do monge Falaley: Pr6gava que o home nao
tem outro meio de salvacgo a nao ser a morte.' Acolhia
a todos os desgracados numa floresta e Ihes revelava
o nada que 6 a vida e o meio de se desembaracar della.
A propaganda deu fructos.
Os simples de espirito, que cercavam o pae Falaley,
decidiram-se a acabar, de vez, corn a vida dos peccados.





ESPIRITISMO E LOUCURA 51

Uma noite, 84 pessoas se reuniram em um subter-
raneo situado perto do rio Gerevozinka e se puzeram a
jejuar e a rezar. Os camponezes cercaram seu campo-
improvisado de palhas e de t6ros de madeira, prom-
ptos para morrer ao primeiro signal. Uma mulher to-
ma-se de medo daquella morte atroz. Foge dalli, e,.
uma vez salva, previne a autoridade. Chega a policia.
Um dos crentes, por6m, a tendo percebido de longe.
grita para os outros que o Anti-Christo em pessoa se
approxima. Os pobres illuminados (?) p6gm fogo ao
seu campo e morrem pelo Christo.
Uma parte dos fanaticos, salva, 6 punida corn pri-
sio e deportacio. Um, de entire elles, Souchkoff, con-
segue escapar-se, e eontinfla a propagar a "verdade de
Deus". E sua eloquencia, a desgraga e o desespero do
povo levados ao extreme ajudam a sua doutrina, e esta
alcanca taes resultados que, pouco tempo depois, uma
localidade composta de 60 families se decide a morrer
em massa. A morte simples, a morte dos crentes pelos
crentes devia attingir a libertacgo supiema. 0 campo-
nez Petroff penetra a casa de seu visinho Nikitini, mata
sua mulher e seus filhos, e passeia sua acha sangrenta
atrav6s da aldeia. Na granja de Ivan Botok, uma duzia.
de camponezes o espera com suas esposas. Um a um,
os homes e as mulheres, p6em suas cabecas sobre o
cepo, e Petroff, o "Anjo da Morte", prosegue a obra da
libertacio... Chega a uma cabana rustica, onde uma
mae corn seus tres filhos espera os golpes da acha do
executor divino: cumpre a sua missdo. Cangado de fa-





52 XAVIER DE OLIVEIRA

diga, Petroff p6e sua propria cabeca sobre o cepo tam-
bem e 6, agora, Souchkoff que Ihe faz o favor de o man-
dar para a sua eterna gloria.

A morte, tal como a sonhava Chadkini. ahi pelo
anno de 1860, 6, sem duvida, ainda mais terrificante.
Nao se tratava mais de uma crise de loucura col-
lectiva de duracdo passageira, mas de soffrimentos pro-
longados, de uma morte atr6z pelas privacoes de for-
ma voluntaria. Chadkine ensinava, no departamnento
de Perm, que o Antichristo ja tendo chegado, nao res-
tava mais do que fugir para as florestas e morrer de
fome. -Chegado a um logar isolado corn seus adeptos,
ordenou As mulheres que preparassem as vestes mor-
tuarias. E, quando estavam todos convenientemente
paramentados para receber dignamente a morte, .Cha-
dkine lhes annunciou que, para alcancar aquella graca
do c6o, era precise passar 12 dias e 12 noites sem agua
e sem pio. Os soffrimentos mais terriveTsi padeciam
aquelles pobres martyres. As creancas, contorcendo-
se de dores, soltavam gritos dilacerantes. Pediam de
comer, e, sobretudo, agua. A assistencia, nomeada-
mente Chadkine, mostrava-se indifferent. Um dos
desgracados, nio podendo resistir mais a todas aquel-
las torturas, fugiu. E Chadkine, temendo a policia,
decidiu que morressem todos, alli mesmo, e immedia-
tamente. Comecaram por matar as creancas, depois
as mulheres, os homes, por ultimo. Quando a poli-
cia chegou, nao encontrou mais que Chadkine e dous.





ESPIRITISMO E LOUCURA 53

de seus apostolos, que, press ao seu paroxysmo reli-
gioso, tinham se esquecido de dar fim aos seus pro-
prios dias".
Veja-se, agora, a descripcio do mestre brazileiro
sobre

A HECATOMBE DE PEDRA BONITA,

e concluiremos, com elle proprio, que nenhuma diffe-
renca ha entire os fanaticos brancos da Russia central
e os mesticos fanaticos do centro do Brazil.
"Na parte central do Estado de Pernambuco, diz
Nina Rodrigues, fica a comarca de Flores, no territorio
da qual se elevam duas rochas isoladas, de estructura
muito singular, representando duas altas columns de
cerca de 30 metros de altura, erguidas uma: ao lado da
outra, e que lembram as pedras lavradas prehistoricas
ou os dolmens druidicos.
A comarca de Flores, em 1838, foi theatre de uma
tragedia sangrenta, devida. h presence daquellas duas
columns naturaes, e tendo por actors uma multiddo
possuida do mais violent delirio religioso.
Umn mestico de nome Joio Saritos comecou, em
1836, a fazer circular uma nova, segundo a qual aquel-
las duas pedras indicariam, exactamente, o logar onde
se achava um paiz encantado, que continha riquezas
fabulosas, -e no qual devia reinar Dom Sebastido, o ce-
lebre rei de Portugal, morto em Africa, e cuja memo-
ria tern sido, durante muito tempo, object de lendas
as mais inverosimeis, da parte dos portuguezes, tanto





54 XAVIER DE OLIVEIRA

dos que habitavam Portugal, como dos que residiam no
Brazil. Aquellas duas columns deviam ser as torres
de um templo grandioso, encantado, e ja, parciah-nente,
visivel.
Munido de duas pedras communs, de forma extra-
nha e muito curiosa, Joao Santos se poz a percorrer o-
sertao, affirmando A populagao que eram duas pedras
preciosas, retiradas de um logar egualmente encanta-
do. E e assim que elle chegou a produzir uma forte
impressed no espirito daquella populagao mestica, ja,
naturalmente, predisposta, pela singular attitude das
rochas e por um tom prateado que dava certo brilho a
mais elevada A Pedra Bonita --como a chamavam.
A idea de uma intervencao sobrenatural, alli, foi
facilmente acceita, e os espiritos se agitaram. A au-
toridade ecclesiastica, procurando restabelecer a sere-
nidade, resolve fazer partir dalli o mestico chefe, o
qual se retirou para um logar afastado de Flores. Mas,
as crengas e supertig5es continuaram a inflammar e a
prender, de mais a mais, o espirito do povo, de sorte
que, menos de dous annos depois, um outro mestigo,
chamado Joao Ferreira, cunhado do primeiro e seu
preposto, chegou a reunir na localidade cerca de tre-
zentas pessoas, para o fim especial de provocar o des-
encantamento do reino. Manteve-se alli durante perto
de dous mezes, dando-se a extranhas praticas religio-
sas, misturadas de orgias as mais desenfreadas, onde
predominava a satisfacao dos instinctos sexuaes no meio
da mais revoltante promiscuidade. Empregavam-se-





ESPIRITISMO E LOUCURA 55

todos os meios para excitar, de mais a mais, a coragem
daquelle agrupamento. Oravam, continuamente, co-
miam pouco, bebiam muitas bebidas estimiulantes,
dancavam, esperavam, emfim, presa de uma exaltacio
extrema e crescente, o grande acontecimento, o desen-
cantamento, antes do que, nenhum cuidado pessoal era
permittido, nem mesmo aquelles que recommendavam
a hygiene do corpo, siquer a mudanca de roupa. Nas
arengas, nos sermaos dirigidos A multiddo, o orador
enumerava as riquezas de que todos iriam ser teste-
munhas; o rei terminava, invariavelmente, seu discur-
so, affirmando que, para alcancar o desencantamen-
to, era preciso sangue, muito sangue, para regar os p6s
das columns e os campos em derredor. Promessas
as mais seductoras eram feitas aos que se prestassem
ao sacrificio; os negros e os mesticos se tornariam bran-
cos, os velhos rejuvenesceriam, os pobres ficariam im-
Knediatamente milionarios, poderosos e immortaes.
Aos 14 de maio, o rei declarou que o grande dia,
o dia do sacrificio supremo, havia, emfim, chegado, e
ei-los todos, alli, a se disputarem a morte, offerecendo-
se, voluntariamente, A executed, do que se deviam en-
carregar dous mesticos, Carlos -e Jos6 Vieira. 0 pri-
meiro que foi abragar a pedra sagrada e offerecer, ex-
pontaneamente, o pescoco ao facio, foi o pae do que
se dizia rei. Outros, em grande numero, seguiram-lhe
o exemplo, offerecendo-se, pessoalmente, ou offere-
cendo os filhos ao sacrificio. Um velho sobe a rocha,






56 XAVIER DE OLIVEIRA

carregando nos bragos duas creangas, e, chegando a al-
tura de dez metros, precipita-se no espago.
Os dous meninos succumbem A queda.
Uma viuva imm61la dous de seus filhos, e se exas-
pera por nio ter podido fazer ter a mesma morte a
dous outros, mais velhos, que fugiram em tempo. Uma
das cunhadas do soi-disant rei 6 tambem sacrificada:
estava num estado de gravidez tio adeantada, que deu
A luz, no moment da execucio. 0 rei mesmo immola
sua propria esposa, crivando-a de golpes de punhal.
Os sacrificios continuaram nos dias 15 e 16, e chegaram,
emfim, para banhar as bases do rochedo corn a rega
sangrenta: trinta creangas, doze homes, onze mulhe-
res e quatro cies tinham sido immolados, tudo para
obter o resultado almejado. Os cadaveres foram col-
locados ao pe das rochas em grupos symetricos, segun-
do o sexo, a edade e qualidade das victims.
Na manhd do dia 17, um cunhado do rei, de nome
Pedro Antonio, irmdo do primeiro apostolo, Joio San-
tos, subiu, rapido, osdegrdos de um throno improvisado
e declarou que nao faltava nada mais para desencan-
tar o reino do que o sangue do proprio rei, Jo~o Fer-
reira, o qual foi tomado de forte crise de m6do. Mas,
apesar disto, e mau grado a covardia de que deu pro-
vas, foi tambem morto, immediatamente.
Suas caretas, suas contors5es, seus movimentos
musculares eram taes, que, diz-se, foi preciso quebrar-
Ihe d craneo para poderem ter a certeza de que estava,
realmente, morto, o que, por seguranga, foi ainda ne-






ESPIRITISMO E LOUCURA 57

cessario ligar e suspender seu cadaver para ser aberto,
esquartejado, por duas arvores visinhas, soltas ap6s
terem sido, forgadamente, approximadas. 0 facto e ex-
tranho, mas ndo impossivel. A persistencia dos movi-
mentos em cadaveres de colericos tern sido encontrada,
e 6 cousa conhecida em sciencia.
As principles scenas dessa tragedia foram repro-
duzidas, de accord corn informac6es precisas, em um
.'croquis" do local feito por um missionario que, dous
mezes ap6s aquelles acontecimentos sinistros, foi Aquel-
les logares e fez inhumar os despojos das victims. No
dia 18, os cadaveres estavam num estado de putrefacao
tdo adeantada, que a turba teve que se retirar para um
logar visinho. Elles cuidavam de ahi construir peque-
nas cabanas, quando foram atacados por uma expedi-
cao organizada por iniciativa da autoridade mais pro-
xima. Mas, envez de se rendered aos representantes
da lei, oppuzeram-lhes a mais energica resistencia, tra-
vando, ao som de ladainhas e de outros canticos reli-
giosos, um combat encarnicado, onde pereceram 22
pessoas, entire as quaes, o novo rei e os chefes mais
influentes.
Apodei-aram-se os soldados dos outros, que foram
remettidos A autoridade judiciaria. Um dos mais in-
fluentes sobreviventes foi condemnado as gales perpe-
tuas. 0 mestico Joao Santos, que tinha iniciado a pro-
paganda, fugiu ap6s a catastrophe; preso, um pouco
mais tarde, foi assassinado pelos soldados da policia
que o escoltavam, sob o pretexto de que, tendo sido





53 XAVIER DE OLIVEIRA

atacados de malaria, poderiam succumbir e facilitar,
por conseguinte, a evasao do prisioneiro".



E', ainda Arnaud quem assim descreve a tragedia
insana dos amurados de Ternoro:
"Nos seculos XVIII e XIX observaram-se, na Rus-
sia, varias epidemias de suicidio religioso, nas quaes
os doentes se faziam enterrar vivos e morriam em uma
cova. A ultima dessas epidemias, estudada pelo Prof.
Sikorski, 6 muito recent, pois que se produziu em 1897,
em Ternoro, na Russia meridional: antes que se dei-
xar inscrever nos registros de recenseamento, o que era.
considerado, para elles, como um sacrilegio, e para es-
capar, tambem, a imaginarias perseguicoes contra a sua
f uma communidade de velhos-crentes, sob a influen-
cia de um fanatico, resolve morrer. Um delles foi in-
cumbido de fechar e murar as fossas que elles proprios
construiram, tendo, antes, jurado que se mataria em
seguida. Foi assim que "ajudou" 25 pessoas a morrer,
ndo tendo tido coragem, entretanto, de cumprir seu
juramento, de matar-se depois".
Quaes as differences, indagamos, existentes entire
os delirantes religiosos da Russia de brancos e os do Bra-
zil de mesticos?
Bern poucas.
Das fossas dos amurados de Ternoro para a collina
da Pedra Bonita media, apenas, o espago de seis dezenas





ESPIRITISMO E LOUOURA 59

de annos, o que 6, realmente, pouco, para que se meqa
a evolugdo de duas civilizac6es diversas.
A da Russia e a do Brazil se podem medir numa
mesma bitola. Nem mesmo houve differenga entire o ca-
racter do mestigo Jodo Ferreira e do branco Chadkine,
pois ambos se esqueceram, ou de se matar, tambem, ou,
ao menos, de se deixar matar por outrem.
Como queria Nina Rodrigues, nao ha uma patholo-
gia mental comparada entire racas, mas, apenas, entire
civilizac6es diversas, seguindo parelhas corn a evolugao
intellectual e educativa dos povos.
A psycopathia do italiano Dav'ide Lazzaretti de
Arcidosso, em nada differe da do mestizo brazileiro An-
tonio Conselheiro. Assim o descreveu Tanzi e Lugaro
na 3.a edicdo do seu tratado:
"Operario, nascido de familiar humilde ao p6 do
monte Amiata, emigrou para Marselha, onde exerceu va-
rias profissoes, illustrou-se de maneira sorprehendente,
e, tanto mais, quanto o fez quando.jA entrado em annos.
Volvendo A terra Natal, fez-se crente e propheta de uma
nova seita, uma especie de catholicismo communist,
obra que realizou depois de haver estado na ilha de
Monte Christo durante quarenta dias, e onde ouviu a
palavra de Deus por Sua propria bocca falada. A rapi-
dez com que encontrou adeptos para a sua seita, valeu-
lhe, de par com o proselitismo de seus proprios irmdos
e antigos camaradas de profissaio uma excQmmunhdo
da curia romana.





60 XAVIER DE OLIVEIRA

Fundou uma cooperative, levantou a Turrisdavi-
dica e professava, publicamente, o seu culto, a que
adheriu, ate, um sacerdote, obrou milagres e previu
acontecimentos, inclusive a sua morte, quando, a frente
de uma procissdo, foi attingido por uma bala na front,
corn que a policia matou um alienado, para acabar corn
uma epidemia de locura religiosa".
Lazzaretti, branco da Italia, 6 um sosia moral do
mestigo do Brazil Antonio Conselheiro.
Nem lhe faltou o ser morto, pela policia italiana,
como o de cA pelo exercito brazileiro, o que explica a
differenqa, apenas, de intensidade de fanatismo exis-
tente entire os broncos sertanejos de um paiz inculto e os
camponezes de uma nacio trabalhada por vinte seculos
de civilizagio.
0 delirio mystico, systematizado, coherente, dentro
em seu ponto de vista, imaginative, interpretativo, rei-
vindicador, forma a syndrome paraneide de character
religioso. Esclarega-se que reivindicadores sao todos
elles, sempre, desde o inicio do seu mal constitutional.
Considerados os diversos casos brazileiros de delirio col-
lectivo religioso, podemos, com precisdo, destacar-lhes
dous feitios que Ihes sao proprios, constantes e caracte-
risticos: a sua maneira intolerante e a sua contingencia
bellicosa. Sio duas qualidades inherentes ao jagungo,
em quem, principalmente, se observam essas verdadei-
ras epidemias de loucura religiosa que ainda infestam
os nossos serties.





ESPIRITISMO E LOUCURA 61

Indagando das suas causes remotas, vemo-las na
semi-ingenuidade do sertanejo, accentuadamente reli-
gioso, ou, antes, imperfeitamente religioso, por indole e
por educacdo. Passa da crendice ao fanatismo e deste
ao cangaco, sem solutgo de continuidade.
E' uma questfio do meio, apenas.
E' o beato que troca o rosario pela cartucheira e a
cruz pelo baccamarte; ou, vice-versa, o cangaceiro que
se faz beato, troca a cartucheira pelo rosario e o bacca-
marte pela cruz, que leva ao hombro em romarias pe-
nitentes; ou, final, um e outro reunem tudo, na mesma
f6, rosario e cartucheira e cruz e baccamarte, tornando-
se, ao mesmo tempo, beato e cangaceiro, product hy-
brido e transitorio de uma civilizacio em nebulosa,
ainda. Este feitio bellicoso, terrivelmente bellicoso, 6
muito encontradico nas epidemias de loucura religiosa
do Brazil. Ndo ha contestar: 0 que se passa, ainda
hoje, em nosso immenso "hinterland", em relacgo a
esses fanaticos centralizadores de sectarios, nao e mais
do que a imitacio grosseira e doentia das misses de
cathecliese que, ha seculos, veem correndo os nossos
sert6es, e foram, realmente, o magno factor na formacgo
e na unidade da nossa nacionalidade.
Desde quatrocentos annos o missionario catholico
vem penetrando, corajosamente, os nossos invios rin-
cues, a pr6gar a palavra do evangelho e a edificar uma
egreja em cada povoado. Quando se fizer a historic da
religido catholica na formacgo do Brazil, ver-se-A quan-
to nos tern valido a Egreja, mesmo silenciosa e modest,





62 XAVIER DE OLIVEIRA

quasi retrahida, na conquista que ella s6 ainda boje
vem fazendo, para integrar na Patria e na Religido esses
nucleos dispersos que formam o desertao brazileiro,
"largado de Deus e dos homess, na phrase de Vieira,
e aos quaes o governor nega a esmola do alphabeto, mas
cobra pesados tributos e exige o sorteio military.
La onde a justice e a Lei primam pela ausencia,
quando falta a Egreja verdadeira, comeca o perigo.
A' falta desta, certamente, 6 que o Conselheiro edifi-
cou a sua em Canudos. Typo de fanatico, astucioso e au-
daz, revoltado e egoista, delirante e paraneico, formou
sectarios.
No sertio, nada mais natural. Esses fanaticos sdo,
commummente, do mesmo nivel intellectual e moral
que o povo, em geral, e, por isso, as suas idWas e as suas
palavras estio ao alcance de todos. Ademais, a sua
vida simples, de fingida humildade, a encobrir o seu
egoismo doentio; as apparentes penitencias que fingem
fazer, a bondade calculada com que procuram reviver
a vida do Christo, que todos conhecem atrav6s da
biblia, tudo isso impression as multid6es de uma ma-
neira estonteante. Um "milagre", quasi sempre a cura
de uma hysterica, 6 o sello de santidade do psycho-
patha.
Comeca, entdo, a sua megalomania, baseada em
suas imaginac6es delirantes, em suas interpretacoes
convincentes,- imaginacdo e interpretacdo comprobato-
rias de que Deus estA comsigo, porque assim lh'o dictam
o seu feitio paraneide c a sua ancia reivindicadora de





ESPIRITISMO E LOUCURA 63

revoltado. Convencido, elle, doente, mais facilmente
convince aos outros, faz sectarios e funda a sua seita.
Comeca ahi o perigo social que representam: 0 mundo
estA errado, e Deus, em pessoa, commetteu-Ihe a grande
inissio de concerta-lo. A magonaria 6 obra de satanaz
e a Republica 6 obra da maconaria. A Egreja, que re-
conheceu a Republica, esta errada, 6 logico. Deus 6 o
rei dos reis, e os monarchas sdo nomeados por Elle, na
terra. A monarchia 6 que deve governor o mundo e
D. Pedro II ainda vive e terA de voltar para o Brazil.
Elle, ou os seus descendentes, seus herdeiros director,
coin direito divino sobre a cor6a do Brazil.
Tudo, pois, esta errado no mundo, e s6 elle esta cer-
to, porque estA corn Deus.
0 logar que habitat, fundado por elle proprio, por
iuma inspiragco divina, 6 Santoo". E' o unico pedaco
da terra onde a humanidade ainda pode encontrar sal-
-vacao.
0 fim dos tempos se approxima.
Venham todos a elle, emquanto ainda 6 tempo.
Comecam, entfo, as romarias infindaveis, de fieis des-
viados, fanaticos do fetiche de mais uma Meca dos ser-
t6es. Milhares de peregrinos ahi accorrem, e, con elles,
a prosperidade do logar, o prestigio, sempre crescente,
do fetiche, e o perigo national consequente. Porque, o
programma 6 contra a maconaria, contra a Republica,
e contra a Egreja tambem, que reconheceu uma for-
mula de governor condemnada pela doutrina christa.
Antonio Conselheiro, falando a uma multidilo de serta-





64 XAVIER DE OLIVEIRA

nejos, sectarios seus, do pulpito da egrejinha de Canu-
dos, invoca o nome de Deus, censura o Papa Leao XIII,
por haver feito a paz corn a maconaria republican da
Franca, e arma alguns milhares de jaguncos corn que
enfrenta o exercito brazileiro durante longos annos.
O Beato Vicente videe Beatos e Cangaceiros) rezava
sempre uma oracio por alma dos soldados, no momen-
to mesmo em que os ia matando corn um tiro mon-
struoso de seu baccamarte bocca de sino, em defeza
do logar que considerava santo, e que era o Juazeiro do
Pe. Cicero.
A difference entire um e outro 6 insignificant: o
primeiro 6 o cerebro doente que pensa, o segundo, o
braco inconsciente que executa; um, o incubo, o outro
o sucubo; o primeiro, a idea, o segundo, a accao.
Dous especimens magnificos disso que se chama
loucura induzida ou imposta.
A respeito do famigerado psychopatha de Canudos,
divirjo de Nina Rodrigues, para fazer-lhe o diagnostic
de Paranea. A evolucio de sua doenca, a contar do
surto manifesto em que se caracterizou, veio de 1859
com as suas primeiras migrac6es, at6 A sua morte, em
1898, ou seja durante 40 annos. E sem nenhum sym-
ptoma de involuc~o em sua capacidade intellectual.
Um facto comprova este asserto.
Quando IA estava em Canudos a missio de Capu-
chinhos chefiada pelo grande missionario e pregador,
Frei Joao Evangelista, houve um moment em que os
proprios apostolos e generaes do Conselheiro temeram





ESPIRITISMO E LOUCURA 65

pela sorte da cidadella fanatizada, que ia aos poucos
sendo conquistada para a verdadeira religiao catholica.
Nessa contingencia, e, a falta de recursos outros, ja
pensavam, ate, em assassinar o franciscano, pois lhes
parecia nao haver outro recurso com que delle se li-
vrarem e de sua acedo cathechista. E' quando Villa-
nova, Antonio Beato e outros mais procuram o Con-
selheiro, pondo-o ao par do que succedia e reclamando
delle uma energica e efficient providencia.
-- "ESTE FRADE E' MAQON, disse-lhes elle,
calmamente, calculadamente, deixando-os entregues a
mil cogitag5es diversas, e lL se foi, rosario na mro, re-
costado ao seu cajado, como quem nio ligara a minima
importancia, nem ao frade, nem As suas misses.
ESTE FRADE E' MACON repetiram os apos-
tolos do Conselheiro!
0 FRADE E' MAQON repetiu, a seguir, a ci--
dade inteira...
E uma semana depois, nem mais um ouvinte com-
pareceu as suas misses, tao concorridas a principio,.
que, por um moment, ihe deram a esperanga de resol-
ver a mais seria questao religiosa que jA houve em ter-
ras do Brazil.,
S6 mesmo quem conhece a psychologia do serta-
nejo p6de avaliar quao perfeita era 'a nogao que tinha
da sua gente e do seu meio o celeberrimo fanatizador'
de Canudos.
Nao.







.66 XAVIER DE OLIVEIRA

Nao era um allucinado, o Conselheiro.
Era, sim, um cerebro que nio involuiu, durante 40
annos de doenca manifesta.
Paraneico, sim, elle era, no conceito germanico de
Kraepelin.
Hoje, si vivo, Nina Rodrigues, certamente, nao lhe
fJaria outro diagnostic.
















Outras mysticopathias








ESPIRITISMO E LOUCURA 69


OUTRAS MYSTICOPATHIAS


Nem s6 nos sert6es brazileiros, porque nas nossas
capitals do littoral, A beira-mar civilizada, tambem se
v6em as mesmas cousas, originarias das mesmas fontes
doentias, e praticadas, j4 agora, por gente educada e ate
culta.
Theophilo Conceicao, o Amante de Deus e Prophe-
ta de Santo Ignacio, e Ojeda, o Propheta da Gavea, o
Enoch da Biblia, que voltou ao mundo e ora estd entire
n6s, sao duas provas do que affirmo. Sao destes as
duas principles observances pessoaes com que encerra-
remos este capitulo, sem esquecer o mutilado Manoel das
Virgens de Oliveira, o "skoptzi" (1) brazileiro, que, entre-
tanto, aqui ndo chegou a ter sectarios da seita que pr6-
gava com o proprio exemplo. 0 home 6 sempre o
mesmo, l1 na India mysteriosa como na Africa retarda-
taria, no Brazil de mesticos jaguncos como na Russia
dos grandes sacrificios. 0 cerebro de Manoel das Vir-
gens de Oliveira, sertanejo bahiano, creou, por si mes-
mo, sem induccao, sem suggested de qualquer especie,
a mesma seita de Seliyanoff, que, segundo os "Skoptzis",

(1) Que significa homrem mutilado sexual.





70 XAVIER DE OLIVEIRA

era o mesmo Czar Pedro III da Russia, marido de Ca-
tharina II, e por esta assassinado, segundo' reza a His-
toria.
Jean Finot, de quem seguimos a descrippco, affir-
ma que esta seita existe na Russia ha mais de um se-
culo, seguida por homes (skoptzi) e mulheres (ses-
tritzi), praticando estas a amputac~o dos seios e uns
e outros vivendo em commum, mas como irmaos.
Esses mysticos exaltados, no dizer de Salomon Reinach,
teem em vista, nio o aperfeicoamento, mas a propria
extincco do genero human. E', realmente, o que re-
salta evidence do proprio rito louco da seita que comega
corn uma aurora de sangue, praticada quasi sempre na
puberdade, prosegue corn a perseguicdo do Estado, que,
no antigo regimen, os deportava para a Siberia; e ter-
mina sempre por se internarem em cidades que sdo
delles s6s, corn suas irmds em credo, onde levam vida
de contemplativos vestalizados, cada vez mais appro-
ximados de Deus, ate o fim.
E contam-se por milhares esses desgracados, mais
de 60.000 registrados no comego deste seculo, os quaes,
como Manoel das Virgens, teem como dever supremo
propagar sua religido para maior gloria do Christo.
Olekminski, nos montes Uraes, 6 das suas cidades
mais importantes, modernizada, de largas e rectas ruas
ajardinadas, onde vivem em communhdo spiritual em
casas habitadas por tres e quatro casaes, os homes
(skoptzis) de um lado, as mulheres (sestritzis), do ou-
tro. Rarissimas vezes chegam estas a conceber. E





ESPIRITISMO E LOUCURA 71

quando isto succede, faz-se em torno um escandalo tio
grande como maior nao era, certamente, o que envolvia
uma vestal impura nos tempos heroicos da velha Roma.
Nao existe, felizmente, esta seita entire n6s, e apenas um
caso isolado de "skoptzismo" typico de observacdo pes-
soal minha, passo a descrever, na pessoa de um insano,
que me foi dado observer.


















Manoel das Virgens de Oliveira








ESPIRITISMO E LOUCURA 75


MANOEL DAS VIRGENS DE OLIVEIRA


Poucos dias antes de sua entrada no Instituto de
Psychopathologia, tivemos occasido de ver Manoel das
Virgens de Oliveira a pr6gar um sermao, em frente a
um cinema da Avenida Rio Branco, ahi por volta das
seis horas da tarde. Cercado de uma verdadeira mul-
tidao de curiosos, as vestes mal cuidadas, em complete
desalinho, muito agitado, a gesticular como um ora-
dor exaltado, bradava elle a plenos pulm6es:
"Jesus Christo disse: aquelle que nao ouvir a pa-
lavra do Evangelho e nao comer da vinha do Senhor seri
condemnado As penas eternas".
E 16 se ficou a repetir conceitos da Biblia, em tom
de orador sacro, exaltado, convict, ainda que nao con-
vincente, quando o deixamos, certos de que, dentro em
poucos dias, o viriamos encontrar no Instituto.
Nao nos enganAmos.
A 29 de Agosto de 1921 dava elle entrada na Clinica
Psychiatrica, onde o viemos ver no dia seguinte, e da
mesma maneira como o viramos antes; corn a differenga
apenas, de que, dessa vez, o seu auditorio era consti-





76 XAVIER DE OLIVEIRA

tuido s6 pelos insanos da secdao. Maior, por6m, era o
seu estado de excitacdo, a andar de um lado para o ou-
tro, no pateo da Seceao Meynert, cansado ja, e tremulo,
e suado, pelo muito esforco que desprendia, corn a sua
logorrh6a declamatoria de sempre: "Jesus Christo
disse", etc..
Notdmos, logo de principio, que repetia as mesmas
phrases do outro dia, poucas, alias, que constituem o
pequeno trecho biblico que tern decorado, e que lhe
actda no cerebro como uma verdadeira intoxicago, fa-
zendo-o repeti-lo, seguidamente, muitas vezes, innume-
ras vezes, centenas de vezes por dia.
ObservAmo-lo, immediatamente.
Meu nome e Manoel das Virgens de Oliveira, -
disse-nos, com ares de aborrecido, irritado, mal humo-
rado.
E' um home de cor parda, quarenta e oito annos
de edade, solteiro, operario e natural do Estado da Ba-
hia, regido sertaneja, para os lados do antigo arraial de
Canudos.
Individuo de baixa estatura, corpulencia franzina,
deficientemente nutrido, tendo quasi complete ausencia
da arcada dentaria superior, zygomas salientes na face
escaveirada, craneo, olhos, orelhas, proprios dos mesti-
gos das trez ragas de que 6 product. Tem aparado o
bigode e feita a barba, afastando-se, assim, do typo com-
mum de'delirantes propheticos a que pertence.
Nota interessante: E' um auto-mutilado, amputacdo
por elle mesmo praticada, vae para tres annos. Quanto






77

















































MIANOEL 'DAS VIRGENS DIE OLIVEIRA
l) "skoptzi" brazileiro quc, f lizimente, aqui n lo encontrou sectarios








ESPIRITISMO E LOUCURA 79

aos seus commemorativos de familiar, o paciente nada in-
forma que mereca registrado, tendo-nos sido, absoluta-
mente, impossivel colher de outrem qualquer informa-
gao neste sentido. Ao indagarmos do seu -passado
morbido, responded nunca haver adoecido, accrescen-
tando a seguir: "Era operario de uma fabric de sa-
bdo, mas fui obrigado, por ordem divina, a abandonar os
trabalhos bracaes para s6 me occupar das cousas espi-
rituaes. Deus veio a mim, em pess6a, e ordenou-me que
sahisse pelo mundo inteiro a pr6gar o santo Evangelho.
Desde entao, minha vida 6 toda milagrosamente, nada
me faltando, pois recebo tudo das mdos divinas, di-
nheiro, roupa, alimento, tudo".
Ap6s ligeira pausa na exposicao que vinha fazendo
de sua vida, levantou-se da cadeira onde se conservara
sentado, formalizou-se, ergueu a dextra, o indicador
espetando o espaco, e l1 comecou o seu sermdo costu-
meiro, na sua logorrh6a de sempre. No -nos foi possi-
vel copiar-lhe as phrases, dada a press com que se ex-
primiu entao,. mAu grado o esforco que empregamos no
sentido de obter que falasse pausadamente.
Impossivel.
Ao comecar a sua arenga, prosegue com tal enthu-
siasmo, rapidez e vehemencia, que ndo havia attender
a qualquer solicitac~o ou ordem, energica e imperative
que fosse, emquanto nao chegava ao fim.
Sempre as mesmas phrases, dogmaticas, evangeli-
cas, proferidas em tom declamatorio, e em que se ouve
sempre em destaque "Jesus Christo disse... o Es-





80 XAVIER DE OLIVEIRA

pirito Santo disse... para redimir os peccados do
mundo, morreu pregado na cruz... mortificae a care,
que ella 6 a origem de todo mal... Ide e pr6gae por
toda a parte a palavra de Deus... Aquelle que. nio co-
nfer da vinha do Senhor, serA condemnado As penas
eternas..."
Finda a pr6dica, por6m, o doente attended corn soli-
citude e responded corn logica e coherencia, dentro no seu
ponto de vista, ao que lhe inquirimos, tendo, fora desses
moments de excitagdo, regulars a attencgo, a perce-
pcao e a apercepgco. A memorial, por6m, a nao ser
que se obstine em nao querer evocar o passado, 6, por
vezes, falha, estractificada, corn hiatos evidentes, em pon-
tos fundamentaes de sua vida anterior. Sua capaci-
dade mental, visivelmente abaixo do normal, acredita-o
um olygophrenico typico. Approveitando-lhe um mo-
mento de serenidade, interrogAmo-lo:
Porque praticou essa amputaego?
Isto nao vale de nada.
Mas, porque o cortou?...
Foi Deus quem mandou, dizendo-me que, de
agora em deante, a multiplicacdo do genero human se
vae fazer por milagre.
Como o cortou?
Com uma navalha.
Voc6 nunca foi casado?
Isto nao vale'de nada. Eva deu o fructo prohi-
bido a Addo, e dahi proveio todo o mal da humanidade.
Eu tambem comi da arvore do bem e do mal. Mas,





ESPIRITISMO E LOUCURA 81

hoje, consider isto um peccado de que todos devem
fugir.
De repente, irritou-se um pouco, em face das nossas
perguntas neste sentido, ergueu-se da cadeira e:
"Todos devem. obedecer A palavra de Deus e
fazer o que eu fiz..."
EstA mal orientado no tempo, logar e meio, porque,
diz, nto Ihe interessamin as cousas do mundo.
Solicitado para que dissesse, as avessas, os mezes
do anno e os dias da semana, negou-se a faze-lo, affir-
mando que s6 se anda para a frente.
Apezar de dizer que Deus Ihe appareceu em pes-
s6a, para Ihe commetter a missao de sahir pelo mundo a
pr6gar a palavra do Evangelho, nio nos parece alluci-
vado.
Como todos os delirantes do seu feitio, imagine, in-
terpreta e reivindica, imagine cousas de religiao, inter-
preta o Evangelho que leu, e reivindica para Deus e para
sua Egreja, unicos motives de seu delirio de mystico-
patha.
No correr da observacao, verificAmos que muda de
humor a cada moment, passando, num instant, da
calma mais serena A irritacao mais accentuada.
Mostra-se, agora, tristonho, abatido, silencioso.
Perfeitamente lucido, em voz baixa, pediu agua e
manifestou desejo de alimentar-se.
Pega a Deus arriscamos.
Eu nao preciso de nada do mundo retorquiu
immediatamente, muito irritado, tentando erguer-se da





82 XAVIER DE OLIVEIRA

cadeira onde estava sentado e opde de novo deixou-se
ficar, visivelmente abatido. Fazendo um grande esforgo,
ergueu-se novamente, tomou a posicao de pregador, e,
balbuciando Jesus Christo disse ndo poude mais
continuar.
Cahiu evidentemente, cansado, tendo uma ameaca
de vertigem, e indo acamar-se, depois de soccorrido con-
venientemente.
No Institute, permaneceu a quinzena do Regula-
mento nas mesmas condiqces: dias de grande agitacdo,
em que passava horas a fio a pr6gar aos doentes da
seccao as phrases do Evangelho, que ainda conserve na
memorial enfraquecida; dias de depressed consequente,
em que era mister, As vezes, guardar o leito.
0 exame sommatico nada revelou de important,
al6m da constatacdo do seu mau estado geral.
As reaccoes sobre a syphilis foram todas negatives.
Na seccgo Pinel, algum tempo depois, fomos v6-lo
de novo. Mais sereno, entio, referiu-nos com pormenores
como praticara o acto impulsivo de auto-mutilagdo, que
o inutilizou para sempre, tendo-o feito premeditada-
mente, com a resoluc&o firme de dar um grande exemplo
aos infieis...
"- Pr6gava em Inhailma, diz elle, a palavra do
Evangelho. Todos ouviam, mas ninguem escutava. Sa-
hiam dalli e voltavam ao peccado..Eu, entfo, para mos-
trar que Deus me falara, mesmo, no moment em que
pr6gava, puxei da navalha e cumpri as suas ordens.





ESPIRITISMO E LOUCURA 83

E ahi estA: a reproduccio do genero human, de
agora em deante, se fara por milagre".
Soccorrido pela Assistencia, internado, depois, na
15.a Enfermaria da Santa Casa, Manoel das Virgens
dalli sahiu curado, continuando a pr6gar a sua missao,
o que occasionou a sua internacio neste Hospital numa
phase de franca mania aguda. Notamn-se-lhe, ainda,
moments de angustia verdadeira, que preceded as cri-
ses de agitagao que se manifestam pelas pr6dicas que faz
constantemente aos outros enfermos da seccao onde
esta. Em plena maturidade, sentindo, ainda, as solici-
tac6es da material, num brado constant e sempre sem
6co, Manoel das Virgens se senate tambem isolado no
meio que o cerca, no qual nao se conforma nunca.
Prega, prega, que todos sigam o seu exemplo.....
Seu estado de agora 6 o mesmo de quando deu entrada
no Pavilhao, tempos atraz.
Aqui, nao, certamente; mas, em qualquer centro de
fanatismo dos nossos sert6es, talvez que Manoel das
Virgens de Oliveira encontrasse adeptos para a sua sei-
ta de louco. Tiveram-n'os, sempre, e teem, ainda, os
"skoptzis" russos, como, assim tambem, os valesianos
da Arabia, ahi por.volta do seculo III.
Uma questao de civilizacao, apenas.
Dos NJontes Uraes para os sert6es da Bahia, nao 6
pequena a distancia. Menor, tao pouco, nao 6 a que
vae entire os mestigos de cA e os brancos puros de 1A.
No entretanto, bem perto estA um do outro, o grAu de
civilizacao dos habitantes de IA dos de cA.





84 XAVIER DE OLIVEIRA

NAo ha pathologia mental comparada entire ragas,
e sim, apenas, entire civilizacfes diversas.
Em uma nova visit e novo exame, vimo-lo mais
calmo, jA executando alguns pequenos trabalhos ma-
nuaes. 0 delirio religioso, por6m, se conservava in-
alterado Jesus Christo disse, 0 Espirito Santo
.disse... etc.
Quanto A mutilacio, indagando si nfio estava arre-
pendido de a ter praticado: -
Isto ndo vale de nada. A reproducgdo do genero
lhumano, de agora em deante, vae se fazer por milagre.
No Institute, como na secqdo Pinel, teve o diagnos-
tico de Psychose maniaco-depressiva.
O seu "deficit" intellectual, por6m, se notava pa-
tente, e nio 6, talvez, desarrazoado affirmar, tambem,
que nelle existia esse fundo de degeneracao mental, corn
imaginacio, interpretacio e reivindicagdo consequente,
de feitio mystico, e que 6 uma das caracteristicas fun-
damentaes dos delirantes da sua categoria.
Falleceu na Colonia de Jacar6pagua, em 1927, nio
tendo a sua autopsia revelado nada que merega aqui re-
ferido. Seu ultimo acto religioso foi baptisar um japo-
nez, poucos dias antes de morrer. Foi, ate o fim, o mes-
mo delirante de 6 annos antes, quando o vira pela pri-
meira vez, pr6gando a sua seita em plena Avenida Rio
Branco.
O "skoptzismo" de Manoel das Virgens de Oliveira
pouco differe do dos 65 mil amputados de Olekiminski,
os quaes, todos, como o sertanejo bahiano, commettendo






ESPIRITISMO E LOUCURA 85

o grande sacrificio e procurando propaga-lo A humani-
dade, visam, apenas, o aperfeigoamento do genero hu-
mano e a sua maior approximagio de Deus.
A psychiatria 6 a mesma, quer applicada a un
branco slavo, quer a um mestizo brazileiro.
Esta, uma conclusio a que se chega corn o caso em.
aprego, o qual bem prova que a pathologia mental 6 a,
mesma, quer estudada nas.Steppes da Russia, quer nos
sert5es do.Brazil.
Nina Rodrigues nao tinha, razao, pois, e o "sko-
ptzi" Manuel das Virgens de Oliveira 6 uma prova doa
que affirmo.



















Theophilo Conceigao
0 Amante de Deus e Propheta de Santo Ignacio









ESPIRITISMO E LOUCURA 89


THEOPHILO CONCEIgAO

0 propheta de Santo Ignac[i

Na manhd do dia onze de agosta de 1921, ao che-
gar, como de costume, ao Instituto de Psychopatholo-
gia, deparei corn uma interessantissima figure de alie-
nado mystico e fanatico, a qual jAmais imaginara en-
contrar aqui.
Era Theophilo Conceicdo, brazileiro, natural do Es-
tado de Sergipe, zona do sertdo, 48 annos de edade, sol-
teiro, celibatario, sem profissdo normal, e vivendo de
esmolas que lhe dio em recompensa de pregac6es e con-
selhos que vive a fazer e dar em propaganda da religiio
do Christo.
E' um home de alta estatura e corpulencia regu-
lar, mestico, mas de tracos physionomicos bem confor-
mados, sem nenhum estigma physico apparent de de-
generaqco, e tendo como caracteristica singular longa e
densa barba negra e grande cabelleira que Ihe deita at0
aos hombros, ambas regularmente cuidadas, tendo-se
em vista a sua educacdo pessoal e sua condicao social.





90 XAVIER DE OLIVEIRA

Veste longa tunica branca orlada de faixas negras
na golla, nos punhos, nos bolsos; uma perfeita figure de
monge A Nazarena, numa grosseira imitacAo dos habitos
do Christo a quem, certamente, tomou para modelo o
mysticopatha sertanejo aqui domiciliado ha muitos an-
nos jA. De sua face morena e bronzeada resaltam uns
grandes olhos negros, cheios de brilho, corn um olhar
intelligence, investigator, penetrante, que, insolentemen-
te, o fixa demoradamente em seus interlocutores, corn
mysteriosa insistencia, como a sondar-1hes os segredos
da alma, para, depois, dirigi-lo para o espago, para o
alum, com estudada blandicia, e baixa-lo A terra em
seguida, num gesto de profunda tristeza, acompanhado
de um suspiro prolongado, como a traduzir a grande
magua que lhe vae no espirito soffredor.
Eis o que, em synthese, resalta de sua primeira in-
speccao geral.
Como se chama? perguntei-lhe, quando da pri-
meira vez o examine no gabinete da clinic.
Theophilo Conceicao, o Amante de Deus e Pro-
pheta de Santo Ignacio, responded, incontinenti, em
tom humilde, mas fire.
Porque veio para aqui?
Uma longa pausa, a cabeca baixa, a mdo A front,
em attitude de quem estA a pensar, para depois:
Estava escripto, irmao! E as prophecias de San-
to Ignacio nuo mentem, nunca mentiram, ndo mentirdo
nunca.



















*1










I.

A


THEOPHILO CONCEIQ'AO 0 AMANTE- D1E DEUS E PROPHETA
DE SANTO IGNACIO








ESPIRITISMO E LOUCURA 93

E como explica a sua vinda para esta casa? con-
tinuei:
Esbocando um leve sorriso de disfarcado desdem,
o "Propheta" (6 assim que o chamam quantos o conhe-
cem) n~o quiz, de principio, responder, conservando-se
calado durante alguns moments. Concentrando-se,
depois, franzio verticalmente a front, cerrou as palpe-
bras de longos cilios, sotopostas e densos supercilios
Otegros, como a meditar profundamente, e:
Jd sei o que quer e o que pretend de mim, ir-
mdo! Seja feita a vontade de Deus. Estou ds suas or-
dens.
Mas veja bem o que vae fazer accrescentou; e lem-
bre-se mais de que com a Egreja de Deus nao se brinca.
Quer.que eu fale a verdade e discuta, como Jesus
Menino discutiu perante uma assembl6a de sAbios e de
.doutoresimpios, nao 6?
Perfeitamente, confirmedi.
Falarei.
Estava escripto, e d a ultima prova.
Falarei. .. e vencerei a tudo e a todos, porque estou
,com a Verdade.
-- Sim, mas, antes, explique-me como e porque veio
parar aqui?
Duas mil pregacies fui mandado fazer a todos
ows povos da terra, irmdo! Quando cheguei d de n.*
1.600, fui preso e mandado para esta casa, como louco,
pelo Major Carlos Reis, no moment mesmo em que pre-






94 XAVIER DE OLIVEIRA

gava a palavra do Evangelho em plena Avenida Rio
Branco, no meio de uma multiddo de impios, inimigos
de Deus e de sua santa Egreja.
E depois de ligeira pausa:
Mas o dia do juizo final se approxima...
Concluiu numa exclamacao, mixto de resignacao, de
protest e de ameaca.
Muito loquaz, fala comr emphase, dando A voz grave
e algo tremula, de timbre forte, a entonacao dos orado-
res sacros, aos quaes procura imitar e o faz com per-
feicdo admiravel. Profundamente conhecedor da bi-
blia, fonte de onde o seu espirito doente colhe todo o
material que constitute o seu delirio, chegou A conclusao
de que a humanidade estA errada, por nao seguir os en-
sinamentos contidos no livrd de Deus, e de que todos
os povos da terra serao condemnados As penas eternas
no dia do juiso universal.
Deante dessa conviccao, resolve escrever um livro
intitulado:
"0 livro de Santo Ignacio Guia de orientaca
precursora do fim dos tempos" umrn caderno de cerca
de duzentas paginas manuscriptas por seu proprio pu-
nho, todo feito de phrases biblicas, dogmaticas e de fi-
guras cabalisticas, desenhadas a lapis, por elle mesmo,
todas de motives religiosos. Terminada a obra, diz,
teve impetos de rasga-la, por nao ter certeza si a fez por
inspirac o divina ou diabolica.
FoLi entao que Deus lhe enviou do ceo dous si-
gnaes, duas revelac6es de approvacdo do que nella esta




























































THEOPHILO CONCENTRANDO-SE PARA ENTRAR EM ESTADO
DE EXTASE.








ESPIRITISMO E LOUCURA 97

escripto, convencendo-o, dest'arte, da grande missgo que
khe era commettida por imposigao divina:
Pregar a palavra de Deus a todos os povos da terra,
traduzir o seu livro para todas as linguas do universe e
distribui-lo, gratuitamente, aos habitantes de todas as
parties do mundo.
Para dar uma idea da sua obra, vale a pena tran-
screver os titulos de seus trinta e cinco capitulos.
Ei-los, todos referentes a biblia, dogmaticos e sem-
pre propheticos, respeitada a graphia que usou em sua
evidence incultura:
Minha autorisacfo.
A egreja de Deus em abandon.
Observac6es.
Carta.
0 grande e illustre e santo dia do Senhor.
A doutrina de Christo: suas verdades, seus exem-
plos.
0 dia do Juiso Universal: Christo e a sorte da hu-
manidade.
A cooperacdo dos amigos de Deus para santifica-
!gdo do mundo.
0 que Christo falou outr'hora a seus discipulos.
A confirmagco.
E' quando Deus fala corn a humanidade.
Advertencia.
Aos escriptores suas 'obras.





98 XAVIER DE OLIVEIRA

A multiddo dos inimigos de Deus.
Em frente de as egrejas do mundo.
Dice Christo nos advertindo.
Encinamentos.
Eis outro encinamento.
0 que aqui vos digo ndo vos digo de mim. Ser algu-
ma cousa dos archanos da Divindade.
Eu vos convido meus irmdos a se servirem deste
livro.
Leiam todos e cream o que diz o grande percusor
do Messias.
Aos doutos.
Aos sabios.
Aos puderosos.
A promessa e a esperanca.
Suplica.
Observac6es.
Declaracies.
Meu alcance.
Meus rogos.
Consigo dois signaes de correspondencia".
Longa, de facto, a ennumeracdo. Mas, s6 ella, bas-
ta, como observacdo do mystico psychopatha que se con-
sidera ji o grande percursor do Messias, para poder
exclamar, dirigindo-se a todos os povos da terra:
"0' v6s todos, que nunca obedeceram a estas cou-
sas; estes principios. Estes vinculos sagrados!









































~L.

i9.


I.-


TIIEOPIILO EM ATTITUDE DE PREGADOR...


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